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NEOMONDO

www.neomondo.org.br

UM OLHAR CONSCIENTE

Ismael Alexandrino

Ano 6 - Nº 50 - Setembro/Outubro 2012

Isso é um

LIXO!

Exemplar de ASSINANTE Venda Proibida

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PNRS

Sustentabilidade

Energia limpa

Constituição está pronta; tem que cumprir

Não é moda, é um valor fundamental

Ventos soprando cada vez mais forte

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32 páginas ,5 cm | ISB

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Neo Mondo

3 Um olhar consciente

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Seções

Editorial ESPECIAL - LIXO 12 A luz que vem do lixo A ocupação dos lixões e aterros sanitários por usinas termelétricas

ESPECIAL - LIXO 06 Constituição está pronta Tem que cumprir

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ESPECIAL - LIXO Os erres da gestão O lixo é responsabilidade de todos ESPECIAL - LIXO 22 Sujeira pra todo lado Montanhas de lixo se acumulam nas ruas indianas MEIO AMBIENTE

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MEIO AMBIENTE Anglo American Sustentabilidade, o minério mais precioso

O fogão que mostra o Fantástico Grande instrumento dos isolados no Acre 31 Artigo – Dilma de Melo Silva Longo caminho a percorrer em busca da sustentabilidade ENERGIA LIMPA 34 Ventos soprando cada vez mais forte Energia eólica já é a segunda mais barata do país 38 Artigo – João Carlos Mucciacito Soja como matéria prima 40 Artigo – Terence Trenephol O etanol brasileiro e os Estados Unidos 42 Artigo – Márcio Thamos Faetonte e o carro do sol

Expediente

MEIO AMBIENTE 32 Sustentabilidade Não é moda, é um valor fundamental ENERGIA LIMPA 36 Sustentabilidade do outro lado do mundo Udaipur, na Índia, desenvolve protótipos de carros movidos a energia solar desde 2003

A aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), seguida do respectivo Plano, já começa a dar resultados palpáveis no que tange à reciclagem. Dos 5.565 municípios brasileiros, 14% contam com serviço estruturado. O dado consta da Pesquisa Ciclosoft 2012, do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), que na comparação com outros resultados obtidos em 2010 mostra incremento de aproximadamente 73% no número de cidades que realizam a coleta, saltando de 443 para 766. Entendemos que o Brasil começa a dar passos mais sólidos no correto tratamento do lixo e, a julgar pelos dispositivos de que dispõe, está no caminho certo, já que, de acordo com o mais recente estudo do Cempre, são 27 milhões de brasileiros nesses 766 municípios que contam com coleta seletiva. Realizada a cada dois anos, a pesquisa está em sua décima edição e serve de precioso instrumento para iniciativas favoráveis ao desenvolvimento do setor, além de fazer com que a nova mentalidade no trato do lixo se solidifique. Os números surpreenderam o presidente do Cempre, Victor Bicca Neto, para quem “a aprovação da PNRS, em 2010, com certeza contribuiu para essa melhora”. Ao fazer coro com NEO MONDO, já que para o executivo, estes dois anos de lei mostram que o Brasil está no caminho certo para o seu desenvolvimento sustentável, Victor alerta: “Precisamos manter o ritmo, pois ainda há muito que fazer”. Nesta edição a questão do lixo é tratada com uma série de matérias, com o objetivo de subsidiar o leitor com informações qualificadas. Levamos em conta a relevância do tema e, mais que isso, nosso apoio à constatação de que precisamos avançar mais. Tenha uma ótima leitura!

Reports in english 41 Article - Terence Trennepohl Brazilian Ethanol and the United States

Oscar Lopes Luiz Presidente do Instituto Neo Mondo oscar@neomondo.org.br

Publicação

Tradução: Efex Idiomas – Tel.: 55 11 8346-9437 A Revista Neo Mondo é uma publicação do Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/0001Diretor de Relações Internacionais: Vinicius Zambrana Diretor de Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira Diretor Jurídico: Dr.Erick Rodrigues Ferreira de Melo e Silva 00, reconhecido como Organização da (MTB 16.586) Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Marcio Thamos, Correspondência: Instituto Neo Mondo pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº Dr. Marcos Lúcio Barreto, Terence Trennepohl, João Rua Antônio Cardoso Franco nº 250, 08071.018087/2007-24. Carlos Mucciacito, Rafael Pimentel Lopes, Denise de La Casa Branca – Santo André – SP Corte Bacci, Dilma de Melo Silva, Natascha Trennepohl, Cep: 09015-530 Tiragem mensal de 70 mil exemplares com Rosane Magaly Martins, Pedro Henrique Passos distribuição nacional gratuita e assinaturas. e Vinicius Zambrana Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586), Os artigos e informes publicitários não redacao@neomondo.org.br Rosane Araujo (MTB 38.300) representam necessariamente a posição da trabalheconosco@neomondo.org.br e Antônio Marmo (MTB 10.585) revista e são de total responsabilidade de Estagiário: Bruno Molinero seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Revisão: Instituto Neo Mondo desta revista sem prévia autorização. Tel. (11) 2669-0945 / 8234-4344 / 7987-1331 Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Presidente do Instituto Neo Mondo: Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo oscar@neomondo.org.br Foto da Capa: Ismael Alexandrino Diretor Responsável: Oscar Lopes Luiz

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Especial - Lixo

“Constituição está pronta; tem que cumprir” A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e o respectivo Plano resultam de ampla consulta pública, mas dependem do empenho dos municípios em vencer desafios Gabriel Arcanjo Nogueira*

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onhecido, em muitos aspectos, por ser um país bom de leis, o Brasil dispõe, depois de duas décadas de amplas discussões, do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305), resultante da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), contida no Decreto 7.404. Importa-nos menos saber do emaranhado de capítulos, artigos, parágrafos, itens e subitens, típicos dos instrumentos legais, e mais destacar o quanto foi decisiva a participação de setores representativos da sociedade no processo. O professor Valdir Schalch, da Unidade de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), é taxativo ao se referir ao Plano: “É a nossa constituição do lixo. Tem que cumprir”. Especialista em resíduos sólidos, Schalch aponta os próximos passos: “Agora é a vez das prefeituras”. Vencida essa primeira – e longa – etapa, o correto tratamento do lixo no país vai depender da pressão e do entendimento entre as partes envolvidas para que a lei se concretize no dia a dia das cidades. O que vale dizer: mais uma vez, a desejada decisão política, principalmente das prefeituras, é que fará a diferença. Afinal, são 5.565 municípios brasileiros que terão, entre outras tarefas, de acabar com os lixões, construir aterros sanitários e instituir a coleta seletiva. O prazo para apresentar seus planos vence ainda em 2012, e até 2014 deverão adotar novo procedimento. O governo federal criou comitês e grupos de trabalho para analisar e discutir a implantação do Plano. As prefeituras resistem, alegando principalmente a falta de recursos. O acordo entre as duas partes, que envolve o setor industrial, vai disciplinar a destinação de 180 mil toneladas de lixo urbano produzidas no país por dia. * Com informações da Agência Brasil, jornal Valor Econômico e revista Época

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“Metas avançadas é positivo” Responsável por um diagnóstico para embasar os debates, o Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) procura distanciar-se da polêmica. “A regra que estabelece o ano de 2014 sem lixões está fadada a não atingir a totalidade, mas ter metas avançadas é muito positivo”, acredita Albino Rodriguez Alvarez, técnico em planejamento. “Se deixar solto não sai”, reforça Estanislau Maria, coordenador do Instituto Akatu, ONG voltada ao consumo consciente. A possibilidade de combate à latente corrupção entre prefeituras e empresas de coleta de lixo é lembrada por Rômulo Sampaio, coordenador do Programa de Direito e Meio Ambiente da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Nos lixões, explica, não há controle da quantidade de resíduos despejados, o que pode propiciar o superfaturamento. “No aterro sanitário é tudo controlado, a quantidade é pesada. Diminui a margem de corrupção e a possibilidade de manipulação dos contratos”, diz.

Processo participativo A socióloga Elisabeth Grinberg, coordenadora-executiva do Instituto Pólis, participou das audiências que resultaram na redação final do Plano. Beth destaca que ele foi construído em um processo participativo, recebendo sugestões de todos os setores envolvidos. A última audiência, em Brasília, definiu o texto final que vai entrar em vigor no próximo ano. São três os principais pontos da política: • fechamento de lixões: até 2014 não devem mais existir lixões a céu aberto no Brasil. No lugar deles, devem ser criados aterros controlados ou aterros sanitários. Os aterros têm preparo no solo para evitar a contaminação de lençol freático, captam o chorume que resulta da degradação do lixo e contam com a queima do metano para gerar energia; • só rejeitos nos aterros sanitários: os rejeitos são aquela parte do lixo que não tem como ser reciclado. Apenas 10% dos resíduos sólidos são rejeitos. A maioria é orgânica, que em compostagens pode ser reaproveitada e transformada em adubo, e reciclável, que deve ser devidamente separada para a coleta seletiva; • planos de resíduos sólidos nos municípios: os planos municipais serão elaborados para ajudar prefeitos e cidadãos a descartar de forma correta o lixo. Outro importante avanço da política é a chamada “logística reversa”. Na prática, a logística reversa diz que uma vez descartadas as embalagens são de responsabilidade dos fabricantes, que devem criar um sistema para reciclar o produto. Por exemplo, uma empresa de refrigerante terá que criar um sistema para recolher as garrafas e latas de alumínio e destiná-las para a reciclagem.

Para Beth, a implementação da logística reversa é totalmente viável, como mostram exemplos de cidades europeias e inclusive de algumas cidades brasileiras. “A logística reversa é viável. Um exemplo disso são os países europeus, que encontraram soluções compatíveis com a realidade deles.” Segundo a soocióloga, uma das diferenças é que no Brasil se pensou uma forma de integrar os catadores e as cooperativas no plano, buscando recolocação profissional. A polêmica dos incineradores Apesar de todos os pontos positivos do plano, Beth encontra uma falha. Em um dos artigos, a política cria uma brecha para a instalação de tecnologia de incineração do lixo. Segundo a pesquisadora, é uma falha porque os incineradores não são economicamente viáveis para pequenos municípios e queimam um resíduo, que poderia estar sendo devidamente reciclado, poluindo o ar. Umberto Patracon/EESC

O novo marco prevê ainda a logística reversa (instrumento que responsabiliza as empresas pela destinação de seus produtos depois de usados) em cadeias produtivas como as de eletroeletrônicos, lâmpadas fluorescentes, óleo lubrificante, entre outros. A questão financeira também preocupa as indústrias, porque a obrigação deve gerar novos custos para as empresas. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) defende a concessão de incentivos fiscais para cumprir a legislação. “Está na lei, mas é vago, temos que discutir com o governo”, afirma Nelson Pereira dos Reis, diretor de Meio Ambiente da Fiesp.

Schalch, da USP em São Carlos: “agora é a vez das prefeituras”

Agência LAR/CNM

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A previsão de investimento do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que coordena o assunto no governo Dilma Rousseff, é de R$ 8,5 bilhões em gastos para a União, estados e municípios. Já a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) estima que a despesa para as prefeituras chegará a R$ 53 bi1hões. O que leva o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, a lamentar: “É a vez de as prefeituras se encalacrarem mais ainda. Uma coisa é a lei. Outra, a execução”. Ziulkoski critica o governo federal por criar regras sem consulta e – com a autoridade de quem liderou nos últimos anos a Marcha dos Prefeitos a Brasília, com cerca de 4 mil integrantes – alega que os municípios não têm condições de cumprir a legislação, nem os prazos previstos. “Não há recursos, não há fonte de arrecadação adicional. Dizem que o governo federal vai ajudar, mas é um sonho”, avalia. A crítica à falta de consulta não nos parece válida, pelo que pudemos conferir de perto em evento realizado há um ano (ver “Ministra quer Plano inclusivo”), que teve a presença, entre outros, do arquiteto Nabil Bonduki, secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do MMA. Ao reforçar, hoje, a responsabilidade das prefeituras, Nabil lembra que há grupos de trabalho criados para tratar do assunto – em que participam governo federal, estados, municípios, indústria e catadores – com o objetivo de chegar a um consenso “e não a uma imposição”. O Plano passou por amplo processo de consulta pública.

Ziulkoski, da CNM: “uma coisa é a lei, outra coisa a execução... faltam recursos”

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Especial - Lixo

Maurício Waldman, um dos especialistas mais respeitados na questão do lixo, a pedido de NEO MONDO, esclarece: “Os incineradores são parte integrante dos modelos de gestão dos resíduos e é correto afirmar que em algum momento eles podem entrar em operação. Atualmente, a incineração é vista por muitas administrações como uma solução para dar conta do lixo urbano, até porque as áreas disponíveis para aterros estão desaparecendo”. Ele cita dado de 2010 da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), de que uma quarta parte dos municípios paulistas exporta seu lixo para outras cidades. E prossegue: “Muitos também argumentam que os incineradores são uma solução do Primeiro Mundo que pode ser transplantada sem maiores delongas no Brasil. Mas isso não é verdade. Não adianta falar que a Alemanha e os Estados Unidos têm incineradores. Eles usam a incineração, porém reciclam respectivamente 48% e 31% do seu lixo. Nós ainda estamos patinando nos 13%, e isso graças ao trabalho informal dos catadores”. Isso posto, Waldman conclui: “No caso de São Bernardo caberia a ressalva, com base em informação obtida no site da municipalidade, de que apenas cerca de 1% dos resíduos é reciclado. Então existe um longo caminho a ser percorrido antes de jogar lixo nas fornalhas. A combustão do lixo gera substâncias prejudiciais à saúde humana, é um processo caro e oneroso, gera dependência tecnológica e, ainda por cima, prejudica os catadores e destrói implacavelmente materiais que poderiam ser recuperados. É uma solução pobre, a ser pensada muito mais criteriosamente”.   Outra contribuição de Waldman, que a nosso ver deve ser levada em conta pelos que estão à frente de executivos municipais, é quanto à importância das cooperativas.  O especialista começa por diferenciar Catação de Coleta Seletiva de Lixo (CSL). “Essa última refere-se aos programas ins-

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titucionais dos governos, basicamente das administrações municipais. Já a catação é baseada no trabalho informal dos catadores, que atualmente agregam 1 milhão de pessoas. Os catadores respondem pelo essencial dos materiais que seguem para a indústria recicladora, representando 98,1% do total. Apenas 1,9% fica por conta da CSL. Contudo, apesar da sua importância para a recuperação dos resíduos, os catadores são marginalizados tanto pelo governo, no que se refere ao apoio e benefícios sociais, como também por segmentos da sociedade, que não valorizam a atuação desses trabalhadores, fundamentais para assegurar o equilíbrio urbano e a prática recicladora”. Waldman recomenda: “Precisamos não apenas fortalecer o trabalho dos catadores em todos os sentidos, mas simultaneamente desenvolver uma eficaz engenharia de gestão do lixo. Para se ter uma ideia, dos 5.565 municípios brasileiros, apenas 142 – ou seja, somente 2,5% do total – mantêm parceria com cooperativas de catadores. Eles precisam de espaço para proceder a triagem dos materiais coletados, para se recuperar do seu esforço diário; solicitam linhas de crédito e menos burocratização na formação das cooperativas. Sabemos que o controle por parte do Estado é necessário. Mas isso não pode ser impeditivo da sua organização. Existem também sequelas sociais e educacionais. Parcela importante da população catadora desconhece a prática do trabalho em conjunto e muitas vezes mostra resistência à organização da catação no trabalho cooperado”. Três eixos oficiais O governo, por sua vez, acena com seu programa para tratamento de resíduos sólidos baseado em três eixos: Brasil sem Lixão, Recicla Brasil e Pró-Catador. A informação é do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e as ações do programa estão estruturadas

no sentido de cumprir as determinações do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. O primeiro eixo terá ações conjuntas entre estados, municípios e o governo federal, para eliminar os lixões de todas as cidades até agosto de 2014. O segundo irá estimular a reciclagem, e o Pró-Catador atuará para estruturar as cooperativas e tornar os catadores um elo importante para o alcance das metas do plano nacional. O programa, até o fechamento desta edição, estava na fase final de elaboração e, de acordo com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, os próximos passos são formatar os aspectos jurídicos e discutir o texto com a presidente Dilma Rousseff. Ao falar sobre um dos maiores desafios do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que é a eliminação dos lixões até 2014, a ministra lembrou que, a partir do Plano, essa passou a ser uma responsabilidade compartilhada entre os entes federados. “Esse esforço não é só do governo federal, é de competência também dos estados e municípios e dá a todos a responsabilidade de lidar com a questão do fim dos lixões, de incrementar a reciclagem, a logística reversa, de discutir as regiões do país que não têm aterros sanitários”, disse logo após participar da abertura do encontro Diálogos Sociais Rumo à Rio+20. A ministra observou também que muitas cidades ainda não têm a infraestrutura para implementar o patamar necessário de reciclagem no país. Conforme o texto do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, após o dia 2 de agosto de 2014, o Brasil não poderá ter mais lixões, que serão substituídos pelos aterros sanitários. Os aterros vão receber apenas rejeitos, ou seja, aquilo que não é possível reciclar ou reutilizar. Os aterros são estruturas que contam com preparo no solo para evitar a contaminação de lençol freático, captam o chorume que resulta da degradação do lixo e contam com a queima do metano para gerar energia.

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Ministra quer Plano inclusivo O que, garante, será possível com tecnologia e capacitação. “Não se planta sem meio ambiente; não se vive sem comida. Meio ambiente é gerar riqueza, bem-estar. Como pode a região (potencialmente) mais rica de São Paulo ser também a mais pobre”, disse referindo-se ao Vale do Ribeira. Insistindo na tecla do respeito às desigualdades regionais, a ministra anunciou que entre suas prioridades está a valorização dos catadores de material reciclável (”estes são ecologistas de fato”, disse), ao mesmo tempo em que se empenhava em reverter, no Senado, a aprovação do Código Florestal. Ela reconhece que a legislação avançou em alguns aspectos, mas deve ser corrigida. Para Izabella, “quem desrespeitou no passado o meio ambiente (em larga escala) tem de pagar, não pode ser anistiado”. E defendeu o bom senso

nos debates no Legislativo, ao referir-se às áreas de preservação permanente (APPs). Para a ministra, cuidar da biodiversidade é saber conservar gerando renda por meio da regularização das reservas legais, entre outros mecanismos. Seu ministério, nessa linha de atuação, deve dar atenção especial ao correto tratamento do lixo. Daí a importância do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Direcionar-se ao incremento de energias renováveis, dos empregos verdes (“área em que o País pode ser modelo”, considera) e  contrapor a agroecologia à ameaça agrotóxica são outros compromissos de seu governo. Um conjunto de ações que pressupõe participação de todos, daí a importância estratégica das consultas públicas.  Izabella entende que só assim é possível viabilizar novas políticas no campo porque “País, de fato, é o que consome”. Raquel Toth / PMSBC

Ministra Izabella levou o debate para além das elites ao falar...

Raquel Toth / PMSBC

São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, viveu na noite de 23 de setembro de 2011 mais um momento histórico. O Sindicato dos Metalúrgicos recebeu a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o cientista político e ex-ministro, Paulo Vannuchi, e a filósofa e historiadora Marilena Chauí, que estiveram à mesa de debates para o anunciado grande diálogo, realizado pelo deputado federal Vicentinho, sobre “Os trabalhadores e o meio ambiente”. O auditório, lotado, recebeu um público eclético, composto por estudantes de três instituições de ensino superior, professores, metalúrgicos, químicos, profissionais liberais, sindicalistas, quilombolas do Vale do Ribeira, políticos da região e de outras cidades do interior paulista. Nada mal para a cidade que já foi definida como a “capital social do País”. NEO MONDO entende que está mais que na hora de a classe trabalhadora entrar de vez neste debate da maior relevância, ainda mais naquele momento em que o governo federal colocava em consulta pública a primeira versão do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, em cumprimento ao Decreto 7.404, que trata da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Se o governo aposta na sua iniciativa (ver “Para entender a PNRS e o respectivo Plano), a ministra faz o mesmo com a classe trabalhadora. Recém-chegada, então, de viagem ao exterior, Izabella foi incisiva, ao afirmar que a questão ambiental tem de levar em conta a realidade de cada local dos quase 6 mil municípios brasileiros, e por isso a política ambiental do governo deve tratar dos extrativistas do Pará e dos cooperados de São Bernardo do Campo com a atenção que todos merecem, respeitadas as peculiaridades de cada grupo.    Além das elites Para a ministra, “a ordem do dia é falar de meio ambiente na perspectiva dos direitos humanos. Temos de construir uma pauta com os trabalhadores sem restringi-la às elites”.  Trata-se, em suma, de fazer valer o direito à inclusão do trabalhador na questão ambiental, na linha de frente das ações. Izabella pediu aos presentes que tenham orgulho do meio ambiente brasileiro pela sua potencialidade e pela biodiversidade sem igual.

... a um público eclético: “catadores são os ecologistas de fato”

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Especial - Lixo

Para entender a PNRS e o respectivo Plano Lançada em 1º de setembro de 2011 pela ministra do Meio Ambiente, durante reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), a consulta pública à primeira versão do Plano Nacional de Resíduos Sólidos é vista pelo governo como importante passo para cumprir o Decreto 7.404, de 2010, que trata da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O documento ficou disponível no site do MMA pelo prazo mínimo de 60 dias. Foram realizadas audiências públicas nas cinco regiões brasileiras e em Brasília, com o objetivo de debater as diretrizes e metas do Plano. A consulta pública teve como objetivo ampliar as discussões sobre o Plano, mobilizando a sociedade e envolvendo

seus diversos setores. Seu conteúdo foi elaborado pelo Ipea e “cumpriu seu papel de oferecer elementos de avaliação, de construção e de monitoramento das políticas públicas brasileiras”, disse o presidente do Instituto, Márcio Pochmann, na cerimônia de lançamento. A determinação da PNRS de erradicar os lixões em todo o país até 2014 é vista como um desafio para o secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do MMA, Nabil Bonduki. O secretário ressalva, porém, que o diagnóstico realizado pelo Ipea pode nos deixar “mais otimistas” para cumprir a meta. Segundo Nabil, entre 2000 e 2008, o Brasil conseguiu melhorar de 38% para 58% o descarte adequado de resíduos sólidos em aterros sanitários.

“Isso sem que houvesse uma Política Nacional de Resíduos Sólidos. Esperamos avançar um pouco mais com a nova lei ambiental”, afirmou. Para a ministra Izabella, “com esse investimento maciço em reciclagem promovemos ainda a inclusão social dos catadores, com a formação e a construção de cooperativas, qualificando profissionalmente essas pessoas. Eles são os verdadeiros agentes ambientais no dia a dia das grandes cidades brasileiras. São eles que recolhem o lixo com os serviços de limpeza urbana”. Metas O instrumento legal que institui a PNRS é bastante atual e contém instrumentos importantes para permitir o avan-

Com o dedo na ferida

Arquivo Pessoal

O geógrafo e mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Alvarez, a exemplo de Waldman, põe logo o dedo na ferida ao abordar assunto tão controverso – que, para ele, “não deveria ser” – quanto a coleta seletiva e reciclagem do lixo, mesmo porque está à vontade numa região, o ABC paulista, na qual também é educador, editor do site Controvérsia (www.controversia.com.br) e já deu sua contribuição como vereador em Santo André. Acompanhe os principais tópicos da entrevista concedida por e-mail a NEO MONDO:

Ricardo Alvarez: “a educação ambiental é nula, e a participação popular, inexistente”

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Descaso do poder púbico “A questão do lixo urbano emergiu como um problema nacional a ser equacionado apenas recentemente, duas décadas aproximadamente, embora a produção de lixo seja bastante antiga. Evidentemente ações foram realizadas num ou noutro município, como em Santo André, nos anos 1970, mas eram exceções. Durante décadas o poder público navegou nas ondas do desprezo pelo tema, quando não da ignorância. Lixões escancaravam o esgoto físico das grandes cidades, mas como normalmente estavam longe aos olhos dos moradores das cidades, seu aspecto horrendo e odor repugnante eram compartilhados apenas pelos trabalhadores do setor e aqueles que dele retiravam seu sustento. Na medida em que o debate ambiental foi ganhando corpo no seio da sociedade, as preocupações com o manejo do lixo urbano entraram nos planos de governo dos candidatos a prefeito e se transformaram em políticas públicas para o setor.” Participação popular “Apesar de a coleta do lixo urbano ser de responsabilidade dos governos municipais, o governo federal promulgou a Lei 11.445 em janeiro de 2007 que traça diretrizes para o saneamento básico no Brasil, incluindo transporte e acomodação, a

limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos. Iniciativa importante no sentido de padronizar o serviço público, uma vez que a fragmentação das políticas públicas municipais nem sempre davam um tratamento adequado ao serviço. “Uma questão importante é a participação popular na gestão dos resíduos sólidos. O controle social aparece nos fundamentos da lei e é a única garantia efetiva de prestação de serviço com qualidade, eficiência e preços justos. A Confederação Nacional dos Municípios aponta que ‘em geral os serviços de limpeza urbana municipal custam em torno de 7% a 15% dos recursos de um orçamento municipal, dos quais entre 50% e 70% são destinados à coleta e ao transporte do lixo. E tendem a ser um item de peso no caso da avaliação municipal pela população, sem contar que a otimização desses serviços gera significativa economia no uso dos recursos públicos. São ações do serviço publico municipal: a coleta do lixo e o seu transporte para as áreas de tratamento ou destinação final. O lixo precisa ser transportado de forma mecânica, da geração até o destino final’ (www.cnm.org.br). Ninguém melhor que o cidadão para fiscalizar a coleta, para promover a reciclagem, para acompanhar as licitações e fiscalizar a realização dos serviços conforme o contrato”.

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ço necessário ao País no enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado no que concerne ao marco legal e inova com a inclusão de catadoras e catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis, tanto na logística reversa quanto na coleta seletiva. Além disso, os instrumentos da PNRS ajudarão o Brasil a atingir uma das metas do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, que é a de alcançar o índice de reciclagem de resíduos de 20% em 2015. Prevê a prevenção e a redução na geração de resíduos, tendo como proposta a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem e da reutilização dos resíduos sólidos (aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado) e a destinação ambien-

talmente adequada dos rejeitos (aquilo que não pode ser reciclado ou reutilizado). Institui a responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos: dos fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, o cidadão e titulares de serviços de manejo dos resíduos sólidos urbanos na logística reversa dos resíduos e embalagens pré-consumo e pós-consumo. Cria metas importantes que irão contribuir para a eliminação dos lixões e institui instrumentos de planejamento nos níveis nacional, estadual, microrregional, intermunicipal e metropolitano e municipal; além de impor que os particulares elaborem seus Planos de Gerenciamento de Resíduos Sólidos. Também coloca o Brasil em patamar de igualdade aos principais países desenvolvidos no tratamento dos resíduos sólidos.

Carrinheiros, homens-cavalo “Quando setores da sociedade começaram a se preocupar com a produção do lixo urbano e suas implicações, muitos brasileiros – à revelia do poder público e por necessidade de sobrevivência – já realizavam a reciclagem. Os carrinheiros, homens-cavalo, catadores de ferro-velho e garrafas, seja lá qual for a denominação, foram os primeiros recicladores sociais e desempenharam um importante papel neste processo de tomada de consciência. Eles mostraram que o lixo de uns pode ser o sustento de outros, mostraram ainda que materiais aparentemente inservíveis podem ser reaproveitados economizando recursos naturais. Dedico a estas pessoas o mérito do início prático deste debate que é hoje nacional. “Entendo que as prefeituras devem fazer intensa campanha nas escolas, centros comunitários, residências, estabelecimentos comerciais, entre outros, orientando para a necessidade da reciclagem. Não basta a boa vontade, é preciso educação ambiental. Mas é preciso também ir além e mostrar que a reciclagem tem fortes limites determinados pela cadeia de produção. Para se chegar ao pote de margarina que descartamos, muito lixo já foi produzido; sendo assim é absolutamente necessária uma mudança no padrão de consumo, uma mudança no comportamento e na cultura do ‘ter’. Coisa difícil em se tratando de capitalismo, mas necessária”.

Modelo andreense esgotado “A Usina de Compostagem de Santo André funcionou por duas décadas e se esgotou (anos 1970 e 1980 basicamente). O poder público acreditou na viabilidade da comercialização do ‘Composto’ derivado do lixo úmido, mas ele se mostrou inviável comercialmente. Foi uma iniciativa cara, pioneira, mas importante. Além disso, boa parte do lixo seco era aterrado comprometendo a vida útil do aterro que está chegando ao seu limite. A Usina pecou por dois motivos: a) o foco das preocupações era com o lixo úmido; b) o poder aquisitivo da população de Santo André foi aos poucos ampliando o peso do lixo seco sobre o úmido”. Coleta seletiva incipiente “A coleta seletiva não pode se resumir numa campanha de marketing, deve ser implantada de fato. De acordo com o IBGE, na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2000, dos 5.475 municípios brasileiros apenas 1.814 contam com 100% de coleta de lixo e, na outra ponta da tabela, em 1.217 municípios menos de 70% de suas residências recebiam o serviço. A ampliação da coleta no Brasil é urgente, se não fosse pela questão da necessidade evidente e dos benefícios criados, como a questão da geração de emprego e renda, seria pela via da saúde pública. A extensão do serviço acarretaria redução

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Pochmann ressalta o conteúdo do Plano elaborado pelo Ipea ABr

Nabil, do MMA: “esperamos avançar um pouco mais com a nova lei”

da necessidade de espaço nos aterros e permitiria o emprego de maiores contingentes de mão de obra”. São Bernardo na contramão “No Grande ABC as experiências de coleta seletiva e de reciclagem são interessantes. Propostas nesse sentido foram incorporadas aos planos de gestão implantados e ações foram efetivadas. Mas o elogio deve parar por aqui, pois o incentivo à reciclagem é pequeno (falta informação), a educação ambiental é quase nula, a participação popular inexistente, as cooperativas muitas vezes ficam sob o domínio de ‘chefes’ que operam o poder internamente em detrimento de uma gestão coletiva e, principalmente, as empresas que atuam no ramo são cartelizadas, bem como as opções de acomodação do lixo coletado (poucos aterros e preços elevados). “Dadas as características em comum do Grande ABC há boas condições para uma ação regional, especialmente na questão do lixo urbano, mas isto não existe. A lei federal das diretrizes do saneamento básico prevê, inclusive, a prestação regionalizada do serviço público de saneamento. Para completar, São Bernardo do Campo discute a implantação de incineradores, indo na contramão do debate da sustentabilidade, combate ao aquecimento global e da defesa da saúde pública”.

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Giselle Leitão

Especial - Lixo

A ocupação dos lixões e aterros sanitários por usinas termelétricas para geração de energia a partir de resíduos sólidos urbanos no país, num horizonte que vai do curtíssimo ao longo prazo é defendida justamente como parte da estratégia de proteção do meio ambiente. Mas ambientalistas não engolem a tese. Antônio Marmo

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escontado o proverbial atraso histórico, o Brasil parece ter se decidido a entrar de vez no time dos países que vêm questionando os insalubres e malcheirosos aterros sanitários ou lixões. No lugar deles, com atraso, começamos a discutir – e a implantar – as usinas termelétricas baseadas na queima dos resíduos sólidos urbanos ou RSU, que por sua vez também já caem na boca dos ambientalistas como insalubres e ambientalmente incorretas. Mas estudos do governo federal de 2008 mostram clarividência ao contrapor uma abordagem propondo o aproveitamento energético do RSU exatamente como parte de uma estratégia de defesa ambiental.

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Este trabalho do Ministério de Minas e Energia assume – com atraso – que numa perspectiva de longo prazo, o Plano Nacional de Energia (PNE 2030) considera a possibilidade de instalação de até 1.300 MW nos próximos 25 anos em termelétricas utilizando resíduos sólidos urbanos. É uma indicação de que se podem esperar avanços importantes no aproveitamento energético do lixo urbano. Mais claro não pode ser: diz o Ministério que “ao lado dos evidentes benefícios ambientais, sanitários e sociais que proporciona, o aproveitamento energético de RSU já apresenta hoje alternativas tecnológicas maduras”. Menciona-se nosso proverbial atraso histórico porque, conforme informação

do próprio Ministério, “as tecnologias disponíveis nem são tão recentes assim. São dos anos 80 as primeiras termelétricas implantadas nos Estados Unidos, na Europa e no Japão acionadas por RSU”. No Japão, de escassas áreas livres, nada menos que 78% dos resíduos sólidos são incinerados para virar energia enquanto 15% são reciclados. Sobram 7% para os lixões, muitos deles apenas para guardar as cinzas da queima do lixo. Um aterro em Cingapura virou até atração turística. Hoje são cerca de mil usinas em funcionamento no mundo, tratando mais de 300 mil toneladas de lixo. A incineração reduz em até 90% o volume de lixo depositado em aterros.

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São Paulo tem pressa Mas nem tudo é longo prazo. No caso do Estado de São Paulo, por exemplo, o governo de Geraldo Alckmin já tem definidos projetos de curtíssimo prazo para implantação de nada menos que 18 dessas unidades de queima de lixo, uma delas – tremei, ambientalistas! – em pleno parque estadual da Serra do Mar, em São Sebastião. “A produção energética utilizando o lixo como matéria-prima está entre as ações fomentadas pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado (SMA)”, assume em nota a pasta secretariada pelo tucano Bruno Covas. Criada por Alckmin, a Secretaria estadual de Energia, chefiada por José Aníbal (PSDB), também apoia o empreendimento, com a confirmação de que “estão sendo capitaneados 18 projetos de construções de usinas que gerarão energia elétrica a partir da queima de resíduos sólidos no Estado”. Debates públicos Já em fase de audiências públicas e licitações estão os projetos de São José dos Campos, no Vale do Paraíba paulista, São Bernardo, na Grande São Paulo, e São Sebastião, em plena área de proteção ambiental da Serra do Mar. Taubaté, também no Vale do Paraíba, entra na fila dos pretendentes. Em Canas há projeto para uma termelétrica a partir da queima de gás. A usina de São Sebastião começa a ser pensada como solução regional já que as quatro prefeituras do Litoral Norte gastam os tubos apenas com o transbordo do lixo para o Planalto, com caminhões subindo a serra para depositar os resíduos em Tremembé ou Jambeiro, no Vale do Paraíba. Só Ubatuba, por exemplo, consome por ano R$ 11 milhões com o transporte do lixo. A Prefeitura de São Sebastião chegou a suspender a Licitação ou concorrência Pública nº 04/2010 do Processo nº 61.951/10 sobre a usina para que a comunidade pudesse incluir novos itens no contrato saídos das audiências públicas. Mas a população ali parece mais preocupada com detalhes logísticos e com a movimentação dos caminhões pelas estreitas ruas da cidade do que com prováveis futuras emissões. Em São José, a Prefeitura discutiu o projeto com empresários, levou o debate à população, enfrentando os contras dos ambientalistas. Mas tema quente em ano eleitoral não dá pé, e o Executivo achou

melhor congelar as discussões junto à Câmara Municipal até passar o pleito. Tratamento biológico Incineração e processamento biológico são, essencialmente, as duas formas adotadas para se produzir energia elétrica com a quase total eliminação da necessidade de aterros sanitários. São Sebastião, pelo informe da Prefeitura, optou pelo uso do processo de tratamento mecânico biológico, considerandose, no estudo do MME, que “os processos biológicos agridem menos a Natureza”. Por essa rota tecnológica, a parcela orgânica do RSU é convertida, na compostagem, em adubo orgânico, que requer, contudo, processamento adequado de modo a não agir como vetor de contaminações. A energia elétrica é produzida a partir do metano gerado nesse processamento. Para o secretário do Meio Ambiente sebastianense, Eduardo Hipólito, “essas reuniões são sempre uma excelente oportunidade de elucidar cada ponto do projeto, deixando a população completamente informada e segura quanto ao que será feito e como será feito”, diz ele. Usinas em operação Mas a capital paulista já conta com geração de energia elétrica nos dois maiores aterros da cidade, Bandeirantes e São João. Estão em operação duas termelétricas, com 20 e 24,8 MW de potência instalada, respectivamente. Tomando como referência um fator de capacidade de 80% e tendo em conta o atual consumo médio do consumidor residencial brasileiro, em torno de 150 kWh/mês, a geração de energia nesses dois aterros é suficiente para atender ao consumo de cerca de 170 mil residências, ou o equivalente a uma população de 500 mil habitantes. A Secretaria de Energia diz que seu papel “é ser um indutor e facilitador para que este tipo de empreendimento se concretize”. Órgão ambiental responsável por licenciar empreendimentos geradores de poluição, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) defende as termelétricas como a melhor política a ser implantada pelos municípios com relação ao destino final do lixo. “A tecnologia consagrada para tratamento do resíduo que não pode ser reci-

clado ou reutilizado é a incineração”, diz o gerente de Projetos Especiais da Cetesb, Aruntho Savastano Neto, citado pelo jornal O Vale. “É o que temos de mais moderno.” “Solução bem-vinda” Atualmente o governo Alckmin trabalha na formatação de uma Política Pública de Recuperação Energética, que acaba fomentando as termelétricas. Além disso, a Secretaria do Meio Ambiente estadual avaliou de forma positiva a iniciativa dos municípios para implantar usinas de recuperação energética movidas a lixo. “É uma solução bem vinda pois representa um grande passo com relação aos aterros sanitários.” “Essa é a melhor solução para os municípios. A poluição e os males à saúde causados por esse tipo de termelétricas são extremamente inferiores aos causados pela existência de um aterro sanitário em áreas urbanas”, diz a Secretaria.

Dados técnicos Usinas WTE, da sigla em inglês de waste-to-energy, são aquelas que utilizam a incineração de RSU para produzir o vapor que irá gerar energia, processo semelhante ao de usinas térmicas convencionais. Contudo, diferentemente de outras usinas térmicas, o rendimento na conversão para energia elétrica é relativamente baixo, entre 20 e 25%, refletindo a restrição de se operar em temperaturas muito elevadas (no máximo 450 graus. A média é de 200 grausC). A redução do volume de resíduos depositados em aterro sanitário é uma das principais vantagens da incineração. De fato, a incineração reduz o volume de resíduos depositados entre 85 e 90% do volume original e não impede a recuperação dos metais recicláveis. Outra vantagem é que as cinzas produzidas na incineração podem servir como matéria-prima para a produção de cimento do tipo Portland (dados do governo federal - MME).

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Especial - Lixo

Debate de alta combustão Claro, a nova proposta não consegue fugir das discussões nem esconder o lado polêmico dessas construções. A Defensoria Pública, ONGs ambientalistas e especialistas em poluição atmosférica esbravejam argumentos nem sempre técnicos contra as usinas. 30, tido como o dia de ação global contra o lixo e a incineração, foi realizado na cidade o seminário técnico Resíduos Sólidos: alternativas sustentáveis. O evento reuniu cerca de 170 pessoas, entre especialistas da área, movimentos sociais e juristas para debater o impacto da incineração de resíduos e as alternativas, com transmissão ao vivo pela internet. Durante o evento uma “Coalizão Nacional contra a Incineração do Lixo” lançou campanha contra os projetos de tratamento térmico dos resíduos sólidos em processo de implantação, num manifesto com argumentos técnicos refutando a tecnologia. Processo em debate “A mobilização popular é o mais importante nesse processo, para mostrar àqueles que fazem a política que esse tipo de decisão deve ser tomada junto à população, não pode vir de cima para baixo”, diz Giron, o defensor público do Vale do Paraíba. Com ele caminham as diversas organizações não governamentais ligadas ao ambiente na região vale paraibana, pesquiAdenir Brito/PMSJC

Para os defensores da natureza as usinas de recuperação energética a partir do lixo são nocivas ao meio ambiente e à saúde daqueles que residem próximos à planta. A Defensoria Pública do Estado de São Paulo ameaça ingressar com ações na Justiça contra a instalação de usinas termelétricas movidas a partir do lixo no Vale do Paraíba, promovendo abaixo-assinado em toda a região. Em maio de 2011 ela promoveu um encontro em São José para falar do “Impacto poluidor das termelétricas e incineradores de lixo nas cidades”. O seminário foi o primeiro de uma série de debates que têm como objetivo principal “discutir a grave situação de risco à saúde pública, ambiental e social”, no entender do defensor público, Wagner Giron della Torre.. Vieram outros debates. Em agosto foi realizado o I Simpósio sobre os Impactos Socioambientais das Termelétricas e Incineradores de Lixo em Taubaté e Região. Em setembro, foi a vez de São Bernardo do Campo entrar na discussão. No dia

O aterro de São José dos Campos recebe cerca de 550 toneladas de lixo por dia. A cidade quer produzir energia elétrica no local, a exemplo do que já faz a Alemanha.

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sadores e especialistas em poluição, como o Núcleo Regional do Plano Diretor Participativo do Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira, Fórum Permanente em Defesa da Vida, Centro de Amigos da Natureza e Grupo Consciência Ecológica mais o Coletivo de Entidades Ambientalistas do Estado de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores de Ciência e Tecnologia, Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), SOS Mata Atlântica e o Fórum de Mudanças Climáticas e Urbanismo, entre outras. “Esquecem a reciclagem” O pesquisador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Wilson Cabral de Sousa Junior, é um dos que questiona a nova tendência energética. Em entrevista ao jornal O Vale, ele diz que “a questão da incineração começou a ser pensada por um grupo da então Secretaria de Saneamento e Energia do Estado, que vinha estudando como colocar a incineração do lixo dentro de um contexto de energia”. O objetivo era fazer um pacote casado, trazer uma solução conjunta tanto para o lixo quanto para a necessidade de geração de energia”, continua. “A Cetesb, por sua vez, adotou esse pensamento.” Para Sousa Junior, colocar a incineração como solução para o lixo “é coisa de gestor preguiçoso”. Isso porque se deixa de investir em outros estágios, como o aperfeiçoamento da coleta seletiva e a diminuição da geração de lixo”, disse na entrevista. É o que dizem também as demais entidades. A própria NEO MONDO já publicou, em sua edição nº 38 de dezembro de 2010, ampla reportagem detalhando o projeto da termelétrica em São José dos Campos a partir da queima do lixo, baseada em modelo alemão e a reação dos ambientalistas locais. Ainda não se falava das outras 17 em gestação.

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Estratégia de defesa ambiental Por sua vez, os governos estadual e municipais realizam workshops vendendo a idéia de tecnologias maduras enquanto no estudo federal de 2008 se antecipava que o aproveitamento de RSU é “parte de uma estratégia de defesa ambiental” atuando dentro do mercado de carbono. O estudo do Ministério de Minas e Energia, com o apoio de uma Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), parece ter se preparado para o embate com os ambientalistas. Calcado em uma perspectiva global, a partir das propostas do Protocolo de Kioto em torno do mercado de carbono, o trabalho, feito em função de um projeto de termelétrica para a capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, diz que “levando-se em conta que o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 1996), aponta o gás metano (CH4) com potencial de aquecimento global para 100 anos 21 vezes maior que o dióxido de carbono (CO2), a simples queima do metano, mesmo sem o aproveitamento do calor gerado, reduz o impacto em termos de aquecimento global. Além disso, se o metano for utilizado para a geração de energia, dependendo da rota tecnológica escolhida, cada MWh gerado a partir de RSU será capaz de compensar a emissão decorrente de 3 a 15 MWh gerados a partir do gás natural em ciclo combinado. Assim, argumentam os autores do estudo, as usinas “terminam por se constituir em mais um elemento impulsionador do mercado de carbono, exercendo, inclusive, pressão altista sobre os preços dos créditos de carbono no mercado internacional”. Ou, dito de outra forma, créditos de carbono podem constituir um benefício adicional na equação da viabilidade econômico-financeira do aproveitamento energético de RSU. As termelétricas, no entender do Ministério de Minas e Energia, “reduzem as emissões de metano decorrente da fermentação do lixo disposto nos aterros e ao mesmo tempo substituem a geração de energia a partir de fontes fósseis. Controvérsia persiste Isto é particularmente verdadeiro nos países desenvolvidos, onde a produção de eletricidade se faz predominantemente a partir do gás natural e do carvão mineral. Mas mesmo

nos países desenvolvidos, os aterros sanitários não foram completamente abolidos. Os riscos ambientais associados à geração de energia pela combustão do lixo (emissão de dioxinas e furanos) têm sido progressivamente minimizados com o desenvolvimento, nos últimos anos, de sistemas de filtros capazes de reduzir substancialmente essas emissões. A controvérsia, porém, ainda persiste. Na Alemanha, têm sido concedidos licenciamentos a um número crescente de usinas que utilizam a técnica da incineração. Em contraposição, em países como Suécia, Canadá, Bélgica e Holanda, alguns desses incineradores têm sido fechados.

Workshops oficiais Por sua vez, São José dos Campos sediou um ano atrás, nos dias 14 e 15 de outubro, o Seminário Nacional de Limpeza Pública (Senalimp 2011), tido como o maior seminário do setor, com a importante tarefa de debater a situação dos resíduos soídos no país, com convidados internacionais e debates entre especialistas. Detalhes do encontro no site www. senalimp.org.br. E uma série de workshops com empresários e a sociedade organizada também prosseguiu durante o ano todo. Como dito, em 2012, o tema polêmico foi congelado por ser ano eleitoral.

“O ideal é que uma usina seja encarada como parte de um conjunto de tratamento de resíduos, como reciclagem e compostagem, parte do processo como um todo. Nesse ponto, o modelo de São José é o modelo ideal”, diz o diretor da Cetesb, Aruntho Savastano Neto. O secretário de Meio Ambiente de São José, André Miragaia, classifica como “controvertidas” as iniciativas da Defensoria Pública contra as termelétrica explicando: “Também sou contra a termelétrica para simples geração de energia. O que propomos é diferente, é um mix de tecnologia. A incineração corresponde a 20% do projeto”, disse Miragaia. A termelétrica proposta pelo prefeito joseense, Eduardo Cury, nem será a primeira a queimar lixo na cidade. Por 29 anos São José incinerou seu lixo orgânico para compostagem. Obsoleta, a usina foi aposentada em 2005. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, criada pela Lei 12.305 de 2010, instituiu como um de seus principais instrumentos o Plano Nacional de Resíduos Sólidos e, conforme previsto em lei, terá vigência por prazo indeterminado e horizonte de 20 anos, com atualização de quatro em quatro. Uma das metas propostas pelo plano e prevista na lei é eliminar totalmente os lixões até 2014 e mantê-los nessa condição até 2031.

Divulgação

A energia contida em 1Kg de plástico é equivalente à contida em 1Kg de combustível mineral

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Especial - Lixo

Os erres da GESTÃ

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Gabriel Arcanjo Nogueira

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ixo é inerente à humanidade, desde as cavernas; mau uso dos recursos naturais, descaso, desperdício, acúmulo de supérfluos, porém, não podem mais ser aceitos se pretendemos de fato um mundo sustentável. É o que, em síntese, propõe Maurício Waldman em Lixo cenários e desafios, da Cortez Editora, livro finalista do Prêmio Jabuti 2011 na categoria Ciências Naturais. O Jornal da Unicamp ecoou o alerta, contido no livro: há o risco de a humanidade gerar mais detritos do que o ambiente pode suportar. Estaríamos em plena era do conhecimento, mas também na era do lixo (acesse http://www.unicamp.br/ unicamp/unicamp_hoje/ju/outubro2011/ ju512_pag3.php). São 50 bilhões de toneladas de materiais/ano por conta da natureza; os homens, por sua vez, movimentam 48 bilhões de toneladas no mesmo período - 30 bilhões delas, resíduos. “Isso é muito mais do que o ambiente pode suportar”, assegura Waldman. Esta sua obra literária mais recente é resultado da pesquisa de pós-doutoramento, desenvolvida no Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), universidade paulista na qual é professor-pesquisador. NEO MONDO a considera imperdível a professores, estudantes, gestores, consultores, membros de ONGs, pesquisadores, ativistas e – por que não? – governantes que, de fato, pretendam somar esforços por um mundo sustentável. A vivência de Waldman é notável, e em seu convite de ambientalista, gestor público e acadêmico, ao aliar o conhecimento de sociólogo, antropólogo e geógrafo, não poderia ser mais claro: “repensar o lixo e seus atributos é indispensável”, o que exige de todos mergulhar no processo que pede “participação, responsabilidade ambiental e uma nova visão de mundo”. Em entrevista que nos concedeu por e-mail, o professor-pesquisador foi categórico: “O lixo é uma responsabilidade de todos e não apenas do Estado, mesmo que este não atenda as necessidades básicas do setor”. Depois de lembrar que o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (ver matéria na página 06) demorou 19 anos para ser aprovado, Waldman avalia: “Nesse lapso de tempo, muita matéria-prima foi desperdiçada e o acúmulo de lixo foi gigante, gerando enorme passivo ambiental. Para o futuro, fica a lição da necessidade de um Estado atuante, articulado com uma socie-

dade participante e um cidadão consciente. A questão do lixo não é só da Dilma, do Alkmin ou do prefeito da cidade. É também da sociedade, através das empresas, universidades e indústrias, compartilhando essa responsabilidade com o cidadão. Esse, aliás, é o elo essencial da cadeia produtiva, que pode com atitudes corretas fazer reverter o processo de geração de lixo, assim como da degradação ambiental”. Pontos a conferir Entre suas ressalvas a esse Plano, está a de saber se a lei vai ser de fato aplicada. “Somos um país conhecido por aprovar leis que se perdem no tempo. Na voz corrente, as leis podem ‘pegar’ ou não. Um exemplo claro, em nosso segmento, foi o Plano Nacional de Educação Ambiental, que não ‘pegou’. E, mesmo que a lei ‘pegue’, tem que existir uma fiscalização de fato, fazendo valer sua aplicação. Mas isso será efetivamente feito? E como será essa fiscalização quando esta se deparar com o poder local, com as prefeituras? São pontos a conferir...”. Ele entende que o que existe hoje é “muito mais uma carta de intenções. Não estão exatamente claras quais são as prioridades. Vemos ainda colocações no condicional, tais como poderá... Desta forma pode-se objetar que não estamos realmente diante de um Plano, mas sim de uma carta de intenções. Mais: ao mesmo tempo em que o Plano incentiva a reciclagem, ele prioriza também os incineradores com recuperação de energia, definindo-os em lei como gestão sustentável. Reprodução

“O lixo é responsabilidade de todos, devendo ser compartilhada por um Estado atuante, articulado com a sociedade participante e um cidadão consciente”

Waldman vai direto ao ponto: “repensar o lixo e seus atributos é indispensável... com nova visão de mundo”

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Especial - Lixo “Sabemos que a incineração queima o que poderia ser reciclado. Grande parte dos plásticos pode ser reciclada cinco ou seis vezes, poupando recursos naturais, garantindo o trabalho para os catadores e sustentando o parque industrial reciclador. Então, mais correto seria reciclar e não incinerar. A convivência de sistemáticas tão contrastantes no Plano demonstra, portanto, certa inconsistência nas suas diretrizes. E, finalizando, o Plano não destaca o Repensar do consumo e da produção, como seria pertinente a um modelo contemporâneo de gestão dos resíduos”. Waldman esclarece que normalmente muita literatura sobre o meio ambiente usa os erres de Repensar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar exclusivamente para o lixo, para em seguida ressalvar: “É é absolutamente correto utilizar essa sequência para a água e a energia. Por exemplo, a água que bebemos é reciclada. Aparelhos mais eficientes reduzem o uso de energia e assim por diante. Quanto à aplicação dos erres, eles são sequenciais, correspondendo a uma ordem de prioridades. Primeiramente devemos Repensar; depois Reduzir; aparecendo o resíduo, tentar Reutilizar e, só depois, quando não há outra alternativa, Reciclar o rejeito”. O especialista frisa que a reciclagem não está dando conta da geração de lixo. E cita o Japão como exemplo clássico, por ser um país em que houve um aumento de 30% na reciclagem do PET, mas ao mesmo tempo a produção desse plástico lá dobrou. “É necessário Repensar o estilo de vida, como diminuir o consumo, como reduzir a geração de resíduos. E isso começa com maior conscientização sobre a expansão do

consumo. Por fim, não podemos esquecer que você não pode reciclar eternamente nenhum material. Temos limitações tecnológicas bem objetivas. Portanto, é o sistema como um todo que tem que ser revisto“. “Acertando na cesta” A parte 3 do livro – “Lixo: acertando na cesta” - é primorosa, particularmente ao tratar dos Mitos e Virtudes da Reciclagem, não sem antes contextualizar o lixo no tempo e no espaço com sólido fundamento técnico. Sem cair na chatice, Waldman ataca as mazelas contemporâneas, decorrentes de tantas outras porque “temáticas associadas com resíduos e seu gerenciamento perdem-se na noite dos tempos”, reconhece logo na abertura do livro. Dos primórdios da humanidade até chegarmos às “mobilizações que agitaram a Rio-92, o lixo ganhou destaque em documentos ambientais globais, caso da Agenda 21” (ver “Para Lembrar”). Texto que, “endossado pela maioria dos países, adotou os 3 ‘R’ – Redução, Reutilização e Reciclagem – como próceres na governança dos RS”. Com isso se pretenderia ampliar a vida útil dos materiais e mitigar os impactos provocados no meio ambiente, registra o especialista citando fontes categorizadas como o Cempre e Fadini & Fadini. Surgiram, porém, “muitas vozes” a “advogar a inclusão d´outros procedimentos iniciados com a letra ‘R’, reforçando um direcionamento mais claro quanto à problemática do estilo de vida, padrões de consumo e universo de valores. Por isso, se justificaria um elenco de 5 ‘R’: Refletir, Recusar, Reduzir, Reutilizar e

Reciclar ou Repensar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Recusar e, de resto, uma sequência com 7 ‘R’: Respeito a si mesmo, Respeito ao próximo, Responsabilidade, Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Replanejar”. Mas por que não acrescentar a essa lista tantos outros erres, que surgiram em textos a partir de 2002? Waldman considera que talvez os já conhecidos “aparentemente fossem insuficientes. Deste modo é possível detectar na literatura voltada para os rejeitos 40 ou mais outros ‘R’ “. Ampliação redundante Depois de enumerá-los, na página 171 do livro, o professor-pesquisador ironiza: “Como podemos observar, a abnegação em encontrar novos termos é tamanha que parece estar em curso um campeonato no qual o vencedor será aquele que conseguir adicionar mais um ‘R’ à listagem. Manifestadamente, embora apresentados enquanto ‘evolução’ dos 3, 5 ou 7 ‘R’, tais ‘ampliações’ são de tal modo redundantes que poderiam ser consideradas pedagogicamente inoperantes. Indo direto ao ponto: que sentido existiria, por exemplo, em uma exposição de um professor em sala de aula a respeito de 40 ‘R’ de ações ambientalmente corretas? O mais provável é que os alunos o repudiem, reajam e responsabilizem o mestre em rever seu plano de aula...”. Com boa dose de humor, Waldman avalia: “Sem dúvida alguma, raciocinar sobre o que está em jogo seria bem melhor do que promover uma verdadeira congestão de ‘R’. O correto – sendo o eixo do debate o padrão civilizatório – seria presumir que apenas um ‘R’ adicional, o de Repensar,

PARA LEMBRAR A Agenda 21 é um documento elaborado sob os auspícios da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU. Adota como princípio central o desenvolvimento sustentável, tal como conceituado pelo Relatório Nosso Futuro Comum (CMMAD, 1988). Em linhas gerais, a Agenda 21 estabelece a necessidade dos países refletirem a respeito das maneiras como todos os segmentos sociais podem cooperar para solucionar os problemas socioambientais. Os trabalhos da Agenda 21 iniciaram em 23 de dezembro de 1989 com a aprovação, em assembleia extraordinária das Nações Unidas, da realização de conferência mundial, culminando com a aceitação, na Rio-92, de programa consensado por 179 nações.  A Agenda foi revisada e confirmada nas Conferencias Rio+5 (1997) e na Cúpula de Johanesburgo (2002).  Em 2000, com o apoio de 199 nações, a Agenda 21 incluiu as Metas de Desenvolvimento do Milênio, voltadas para erradicação da pobreza e da fome (Cf. ONU – Division For Sustainable Development – Agenda 21). Fonte: Waldman, Maurício

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bastaria para dar conta da discussão. Mais ainda pelo fato de a palavra incluir ganhos conceituais ao apontar modelos alternativos de entendimento e gerenciamento dos rejeitos. Por isso mesmo, muitos textos de educação ambiental adotaram um bordão ‘reciclado’ formado por 4 ‘R’: Repensar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Trata-se de um ‘quarteto’ que contempla, sem recair em tautologias, tanto o debate da alteração de hábitos visando a minimização dos refugos quanto o da otimização dos materiais”. Ainda no livro, o especialista faz ressalvas que considera indispensáveis. Como a de que “os passos sugeridos pelos 4 ‘R’ são obrigatoriamente hierárquicos. Pois bem: Repensar prepondera sobre Reduzir, Reduzir é mais significativo do que Reutilizar e Reutilizar tem prioridade frente ao Reciclar. Nesta ordenação, cabendo a hegemonia ao Repensar, a gestão dos RS deixa de se prender aos processos de mitigação dos rebutes e da recuperação de matérias-primas. Por tabela, aponta para uma releitura do padrão civilizatório, posicionamento que extrapola limitações encontradas no mundo da produção”. Não menos crucial, acrescenta, “tão importante quanto marcar uma linha de prioridades enunciada na compilação dos 4 ‘R’, temos seu alcance metodológico. Embora muitos associem mecanicamente a programação dos ‘R’ ao lixo, importa sublinhar que o quarteto não se restringe aos rebotalhos. Ângulo pouco enfatizado, os 4 ‘R’ também se aplicam a dois outros temários de peso para o equacionamento da crise ecológica do mundo atual, a saber: o referente aos recursos hídricos e à matriz energética. Esclarecendo: os processos de

Muita matéria-prima já foi desperdiçada e o acúmulo de lixo foi gigante, gerando enorme passivo ambiental

purificação da água nada mais consistem do que sua reciclagem; dar outra finalidade aos objetos, ao invés de atirá-los nas lixeiras, corresponde também a uma reutilização da água e da energia neles embutidas; a conservação da energia é outro modo de nos referirmos a um processo de redução do consumo; complementando: a tendência que se observa em poupar materiais – como os presentes nas embalagens – nos remete à questão do repensar”. Exemplos que, para o sociólogo, antropólogo e geógrafo, “evidenciam por si mesmos a aplicabilidade dos 4 ‘R’ para as questões do lixo, da água e da energia”.

Input energético Perguntado sobre se incluiria entre os erres o da Reviravolta, no País – casos de valorizar o aproveitamento da energia solar e da eólica, por exemplo, em vez de insistir nas hidrelétricas –, Waldman pondera: “Tudo o que produzimos de certo

modo, mais cedo ou mais tarde, se tornará um resíduo. Mas podemos retardar o descarte, diminuir e mitigar os impactos da geração de lixo. Tudo que é produzido e consumido utiliza energia. Produtos eletrointensivos, como o alumínio, solicitam considerável input energético. Para fabricar uma única lata de alumínio, usamos tanta energia que com ela poderíamos manter uma lâmpada de 100 watts acesa por 3 horas e meia e uma TV por 3 horas! “Temos assim que insistir nas fontes de energia alternativas, o que implica em repensar nossa matriz energética. Então que tipo de energia usaríamos? Creio que em um país como o nosso, o grande diferencial está na energia solar. Tecnicamente, o Brasil é o maior país solar do mundo. Segundo o engenheiro Bautista Vidal, responsável pela criação do Proálcool, o Brasil recebe por dia energia solar equivalente a 320 mil hidrelétricas de Itaipu! Todavia, na sequência, não é suficiente produzir energia de uma forma mais ecologicamente correta. Esse circuito se completa apenas quando optamos por materiais e processos que utilizam menor proporção de energia ou predispõem de maior perdurabilidade. Nesse sentido, a latinha de alumínio também deve ser repensada. Na realidade, não há embalagem para líquido com um ciclo ambiental mais sustentável do que a garrafa de vidro retornável. Desse modo, podemos entender Reviravolta como Repensar. Repensar os modelos de produção de energia, mas também os da sua utilização, com vistas a uma melhor performance ecológica e geração de menos lixo”.

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Especial - Lixo

A natureza agradece e os ganhos socioeconômicos aparecem No R da reciclagem a situação brasileira nada fica a dever à de outros países na comparação do índice alcançado, de acordo com dados do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), que figura entre as instituições mais citadas por Waldman. Num dos rodapés do livro, seu autor lembra que o Cempre existe desde 1992, fundado por 14 empresas privadas, e é considerado o principal fórum multissetorial do gênero no Brasil. Atua com base em três pontos centrais: promover o conceito de Gerenciamento Integrado do Resíduo Sólido Municipal, incentivar a reciclagem pós-consumo e difundir a educação ambiental com foco na teoria dos 3 “R”. Waldman ressalta aspectos relevantes da reciclagem pelos seus vínculos com a conservação da natureza, por representar momento de tomada de consciência ecológica, ao lado dos ganhos socioeconômicos que acarreta. O que pode ser facilmente percebido pelo que acontece em alguns segmentos, a começar pelo de papel de escritório.

46%

do papel que circulou no País em 2009 retornou à produção pela reciclagem, índice que corresponde a aproximadamente 642.300 mil toneladas de papel de escritório.

O Cempre esclarece que no Brasil existem 22 categorias de aparas – o nome genérico dado aos resíduos de papel, industriais ou domésticos – classificados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e pela Associação Nacional dos Fabricantes de Papel e Celulose. As aparas mais nobres são as “brancas de primeira”, que não têm impressão ou qualquer tipo de revestimento. As aparas mistas são formadas pela mistura de vários tipos de papéis. A intensidade do processo de reciclagem de papel é acentuadamente diferente, de acordo com as regiões brasileiras onde se realiza. Nas regiões Sul e Sudeste, onde se concentram as principais indústrias do País, as taxas de recuperação são altas, em São Paulo a taxa foi de 36%; Minas Gerais – 12,3%; Rio de Janeiro – 5,2%; Santa Catarina – 20,2%; Paraná – 12,9%; Rio Grande do Sul – 3,5% e os demais estados 10%. Já quando se trata de papel ondulado, o Cempre aponta:

Em 1992 essa taxa era de 68,2%, saltou para 71,6% em 1997, passou para 77,3% em 2002, atingiu seu melhor índice em 2004 – 79%, em 2005 e 2006 recuou para 77,4%, em 2006 foram 77% , 2007, 79,5% e em 2008 79,6%”, relata o Cempre. Isto se deve ao fato de que neste ano o Brasil aumentou significativamente suas exportações de produtos industrializados, como carne, frango, frutas, calçados, móveis, entre outros. Produtos que foram embalados em papelão ondulado produzido no Brasil que acabaram gerando reciclagem no exterior. São as chamadas exportações indiretas de papelão ondulado. No mercado americano, as caixas onduladas têm 21% de sua composição proveniente de papel reciclado. Muitas caixas têm coloração marrom em suas camadas. Algumas, contudo, usam uma camada branca, conhecida como mottled white, composta por papel branco de escritório reciclado. A reciclagem de plásticos no Brasil atingiu, há dois anos, índice superior ao da europeia.

80%

21,2% dos plásticos foram reciclados

“Historicamente o setor de papelão ondulado no Brasil tem apresentado taxas de reciclagem altas e sempre em ascensão.

em 2009, representando aproximadamente 556 mil toneladas por ano. A taxa de reciclagem de plásticos na Europa é de 18,3 %, sendo que em alguns países a prática é impositiva e regulada por legislações complexas e custosas para a população

do volume total consumido no Brasil em 2009 foi reciclado, sem que houvesse mudança no índice.

Cempre

Cempre

A reciclagem brasileira dos vários tipos de embalagens de plástico, em torno de 20%, deixa a desejar na visão de Waldman

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local, diferentemente do Brasil, onde a reciclagem acontece de forma espontânea. O Cempre lembra detalhes importantes de cada tipo de plástico encontrado no mercado brasileiro. Plástico filme é uma película plástica normalmente usada como sacolas de supermercados, sacos de lixo, embalagens de leite, lonas agrícolas e proteção de alimentos na geladeira ou micro-ondas. O material constitui 42,5% das embalagens plásticas em geral nos Estados Unidos. Nos EUA, 51% dos pacotes e sacos, usados para embrulhar e embalar produtos, são compostos por plástico. Cerca de 44% é papel e 4% é folha de alumínio. A resina de polietileno de baixa densidade (PEBD) e a de polipropileno (PP) são as mais usadas no Brasil, correspondendo cada uma a 23% dos polímeros consumidos no mercado brasileiro de plástico. Leve, resistente e prático, o plástico rígido é o material que compõe cerca de 77% das embalagens plásticas no Brasil, como garrafas de refrigerantes, recipientes para produtos de limpeza e higiene e potes de alimentos. É também matéria-prima básica de bombonas, fibras têxteis, tubos e conexões, calçados, eletrodomésticos, além de baldes, utensílios domésticos e outros produtos. O plástico rígido pode ser reprocessado, gerando novos artefatos plásticos e energia. Patamar razoável Waldman mostra-se mais cauteloso que o jornalista. “Não concordo com a

afirmação de que o país tenha chegado em posição muito significativa quanto à reciclagem ou que estejamos próximos de algum limite para a iniciativa recicladora. Na realidade, o país está distante de um patamar razoável no segmento. Temos alguns setores que se destacam, como o caso específico das garrafas PET, com 53% de aproveitamento (Cempre, 2007). Mas para os plásticos em geral o índice fica em torno dos 20%. Outro dado positivo seria o das latas de alumínio, com recuperação em torno de 96%, um recorde mundial (Cempre, 2008). Na média geral da recuperação dos materiais descartados, porém, chegamos aos módicos 13%”, diz. Ele lembra que o quadro em outros países é bem diferente. Entre outros, a Alemanha recicla 48%; Bélgica 35%; Suécia 35%; os Países Baixos e Irlanda, 32%; os EUA, considerados nação perdulária em recursos naturais, reciclam 31% do seu lixo. O professor-pesquisador acrescenta: “Não adianta analisar pontualmente. Precisamos avaliar o montante geral de resíduos e o histórico da atividade recicladora. Hoje, reciclamos 13% do lixo nacional, e em 1999 reciclávamos 4%. Isso deixa claro que crescemos, mas com avanços recentes que poderiam ser aprimorados. Além disso, apesar de sermos um grande gerador de lixo, mesmo assim importamos, por exemplo, sucata de PET. Isso porque, com promessas de apoio governamental, várias indústrias de reciclagem de transformação do PET em fibra têxtil foram abertas. To-

Livro foi finalista do Prêmio Jabuti 2011

davia, por incrível que pareça, ‘falta’ matéria-prima. No caso, devido à carência de logística de captação da sucata, que seria a lição de casa das administrações. Dito de outro modo: há muito PET descartado inadequadamente, flutuando nos rios e represas, mas que poderiam estar gerando renda, trabalho e menos estorvos como enchentes e inundações. O mais preocupante é a importação de lixo estrangeiro, que acaba abrindo brechas para ocorrências muito graves, como o caso recente do lixo hospitalar norte-americano que acabou vindo parar aqui no Brasil”. Cempre

No montante geral, reciclamos só 13% do lixo nacional

País tem recorde mundial na reciclagem de latinhas de alumínio (mais de 90%), mas na produção delas se consome muita energia

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Especial - Lixo

Sujeira para todo lado

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Montanhas de lixo se acumulam nas ruas indianas, atrapalhando as pessoas e causando doenças Bruno Molinero (texto e fotos), da Índia, Especial para NEO MONDO

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om um lenço vermelho em volta da cabeça, a mulher abre a janela do segundo andar. O sobrado fica em uma rua pequena, mas bastante movimentada. Turistas caminham em direção ao palácio da cidade, vacas ruminam lentamente e motos rasgam o vento buzinando. A mulher olha tudo isso com desinteresse e, sacando um balde de dentro da casa, despeja todo seu lixo pela janela. Uma embalagem de xampu, duas garrafas de um uísque local, alguns pedaços de pano, uma embalagem de incenso, três embalagens de isopor utilizadas para armazenar comida, cinco embalagens de salgadinho e um incontável material orgânico agora dividem espaço na rua com pessoas, motos e vacas. Essa cena, que aconteceu na cidade de Jodhpur, na Índia, é comum também nas outras cidades do país. Inclusive em Nova Délhi, a capital, com mais de 16 milhões de pessoas descartando lixo em vias públicas. O material se acumula de tal forma que impossibilita a passagem de pedestres e automóveis. Periodicamente, o governo até recolhe o lixo descartado. Mas a quantidade é tão grande que é impossível dar conta.

“Por que você fica guardando essas garrafas vazias?”, perguntou-me Krishna Deol, 51, ao ver que eu não jogava as garrafas vazias de água pela janela. Quando soube que eu as guardava para descartá-las em uma lixeira qualquer, ele se assombrou. “Mas por que, se você pode jogá-la aqui, na rua mesmo?” Krishna é motorista há mais de 20 anos. E, desde que começou, cigarros, embalagens, sacos plásticos e todo o tipo de material que perdeu a utilidade voa da janela de seu carro. O efeito desse comportamento é a proliferação de insetos e de doenças, principalmente entre crianças. Somado à falta de saneamento básico – estima-se que apenas 58% da população urbana da Índia tenha acesso a saneamento, e que cerca de 50% das pessoas tenham que fazer suas necessidades fora de casa por não possuírem um banheiro – esses dados preocupam as organizações internacionais. Segundo o Banco Mundial, a falta de instalações sanitárias e a falta de higiene custam ao país quase R$ 100 bilhões ao ano. O dado leva em conta o tratamento aos doentes, as mortes prematuras e até o turismo perdido por conta disso. Todos

os anos, por exemplo, ocorrem cerca de 575 milhões de casos de diarreia na Índia. Destes, 450 mil levam o paciente à morte. Nas cidades do interior, as pessoas saem de suas casas para defecar ao ar livre. Pelas estradas, é comum ver um ônibus parado e cinco pessoas defecando em fila à beira da rodovia. Nas grandes cidades, existem banheiros públicos de onde sai um líquido malcheiroso que se espalha pelas ruas próximas. Quando encontra um apanhado de lixo, se mistura ao chorume e forma poças que as pessoas são obrigadas a pular. Isso sem falar nos excrementos de vacas e de todo animal que habita a rua indiana. Caminhar significa não voltar com os sapatos limpos. Todo esse material espalhado pelas ruas tem dois destinos: ele forma um pó amarelo que toma a cidade e gruda na pele ou acaba nos rios do país. O mais famoso deles, o rio Ganges, já é considerado impróprio para o banho em muitas partes. Além do lixo natural que as pessoas jogam, sua água é utilizada para lavar roupas e lençóis, para despejar as cinzas dos mortos, para lavar a louça de restaurantes, para banhar-se e também para rituais religiosos.

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Especial - Lixo Na cidade de Haridwar, perto do Himalaia indiano, milhares de indianos se banham num Ganges de água suja. A cidade está apenas a 200 km da nascente, mas já é possível ver plásticos e diversos materiais descendo a correnteza. Na cidade sagrada de Varanasi, por exemplo, a água do Ganges está tão poluída por lixo e esgoto que apenas os indianos têm coragem de entrar no rio. Os turistas o olham como se estivessem vendo um córrego poluído. “Eu não sei como eles vivem assim. Não sei por que não fazem nada para mudar essa situação”, questiona-se Pier Geuna, 25, turista italiano que pulava o lixo acumulado enquanto visitava Jodhpur. Para Krishna, no entanto, a situação é normal. “É claro que o lixo pode transmitir doenças. Mas a Índia tem vários outros problemas com que se preocupar. Fale a verdade: não há tanto lixo na rua, né?” Caminhando pela cidade de Udaipur, a cerca de 660 km de Nova Délhi, é normal encontrar vacas comendo montanhas de lixo estrategicamente colocadas em pequenas vielas para não atrapalhar as vias principais. O caminho entre o lago sagrado da cidade e o templo principal pode ser feito por uma dessas ruazinhas. Depois de passar pela sujeira, desviar de vacas e rezar para que nenhum morador jogue um balde de lixo na sua cabeça, chega-se à parede do templo. Lá de dentro, é possível escutar mantras sendo entoados com toda sua beleza. Nessa hora, todos os problemas desaparecem. A Índia é como uma flor de lótus: linda e perfumada, mas que nasce de uma água lodosa.

Crianças brincam perto do lixo

Rio tomado por lixo, no Himalaia indiano

Lixo acumulado nas ruas de Jhodpur, no oeste indiano 24

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Meio Ambiente

O FOGÃO QUE MOSTRA

Gleilson Miranda - Secom

O FANTÁSTICO

Produto totalmente nacional é, ao lado da placa solar, o grande instrumento de inclusão elétrica dos isolados no Acre Antonio Marmo

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Acre e sua capital, Rio Branco, não ficam exatamente ali na esquina. Continuam longe à beça do Sul Maravilha, mesmo com as passagens aéreas mais em conta. Os seringais Nova Vida, Floresta e Nazaré, na Reserva Chico Mendes, ficam mais longe ainda. Ficam exatamente onde o Judas perdeu as botas, se é que alguém sabe onde ele as perdeu.

A simples imaginação de um local onde não existam luz elétrica, geladeira, Play Station II ou televisão é muito complicada para nossos cérebros paulistas, cariocas ou sulistas, de modo geral. Assim, fica também difícil imaginar que alguém, já na segunda década do século XXI, ainda continue vivendo sem essas “benesses” enquanto outras pessoas gastam paciência e cerebelo em pesquisas

para inventar maneiras de levar energia elétrica a locais tão extremos. Com vocês, o BMGlux E é justamente a esse tipo de “passatempo” que se dedicou uma equipe da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac) tendo essa equipe chegado a uma solução tão simples quanto as comunidades a que eles se dedicam em seus estudos. Neo Mondo - Setembro/Outubro 2012

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Meio Ambiente O grupo de pesquisas do Centro de Referência de Fontes de Energia Alternativa da Funtac, chefiado por Nadma Kunrath, aliado a engenheiros mineiros, concluiu que um simples fogão a lenha, desses que muitos de nós no Sul Maravilha já nem sabemos o que é, pode – e gerou – luz elétrica, energia para TV e o radinho em comunidades onde, desde ganhar a vida até enterrar seus mortos, o dia a dia sempre foi moldado pela absoluta carência de tudo. Pois não se busca tirar energia do gelo do Alasca, pela exploração dos hidratos de gás da região? Como não gerar luz e força – Light & Power – da lenha que apodrece ao redor das casas dos seringueiros? O trabalho, as pesquisas foram concluídos em 2010, segundo Nadma Kunrath tendo o governo do Acre deixado a continuidade dos trabalhos por conta da empresa mineira Energer - Geradores de Energia Renovável Ltda., dirigida pelo engenheiro Ronaldo Sato, do grupo BMG, com sede em Sabará. Mas nas casas de famílias isoladas da Reserva Chico Mendes já estão instalados 27 fogões-pilotos hoje rebatizados de BMGlux. Três lâmpadas e a TV

Famílias isoladas No Acre levam-se em conta as condições já descritas na abertura da matéria. Tudo é longe à beça mas há vários estudos em andamento para geração de energia: o painel solar, o BMGlux, a biomassa, o biodiesel e as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Até agora, os dois primeiros apresentaram o melhor resultado e a mais positiva relação custo/benefício para atender famílias isoladas. O BMGlux é

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Devido a seu peso (cerca de 70 kg), o fogão é transportado nas costas fora da embalagem

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também mais ambientalmente correto do que os fogões tradicionais. Ele economiza até 50% da lenha empregada, além de reter toda a fuligem no próprio fogão. Os pesquisadores aconselham os seringueiros a não abandonarem os fogões tradicionais para não gerar problemas de adaptação. As famílias beneficiadas são em geral vinculadas ao projeto de extração de látex ou borracha para uma fábrica de preservativos de Xapuri. Os fogões pioneiros foram levados em caminhões até a colocação Rio Branco, no Seringal Floresta. Uma colocação é como se fosse uma sede de comunidade. Dali, seguiram conduzidos em camionetas até a entrada dos varadouros. Os varadouros são trilhas rasgadas na mata, por onde só se entra a pé. Os fogões chegaram às residências carregados nas costas pelos trabalhadores do Centro de Referência de Energia Alternativa da Funtac, em caminhadas que duravam mais de hora mata adentro. Peso do dito: perto de 70 quilos. Devido ao peso, alguns foram transportados sem a caixa de madeira de 22 quilos. Como funciona Na apresentação da empresa, o “BMGlux, é um fogão doméstico que faz uso de biomassa renovável (galhos secos e gravetos entre outros) para geração e acumulação de energia elétrica, enquanto realiza o cozimento diário de alimentos”.

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Pois os fogões BMGlux são capazes de cozinhar (ou assar) a paca e a cutia de cada dia e, ao mesmo tempo, gerar energia suficiente para acender três lâmpadas e li-

gar uma televisão no Fantástico dominical ou outro equipamento de baixo consumo, como um rádio, por exemplo. Material divulgado pela Funtac se dá ao trabalho de explicar que as fontes de energia podem ser classificadas em primárias, secundárias, renováveis e não-renováveis. As fontes primárias são aquelas cujos combustíveis são substâncias naturais, como o petróleo, o carvão mineral, o gás natural e a lenha. As fontes secundárias são aquelas que trabalham com combustíveis derivados de outros combustíveis, como o óleo diesel e a gasolina (derivados do petróleo). Nesse caso, na mesma queima de madeira – fonte primaríssima – utilizada para o preparo dos alimentos, o fogão produz energia. O bagaço de cana e o álcool, fontes renováveis, não fazem a mesma coisa aqui por baixo?

O BMGlux não utiliza caldeira, e sua energia é armazenada em bateria comum de carro

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Querosene ou sernambi

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Onde a rede convencional – tipo programa Luz para Todos – não consegue che-

O equipamento foi projetado para ser usado com facilidade e segurança pela mulher

gar, o fogão é a solução. Os beneficiados mostram-se satisfeitos. Junto com a placa solar, que já atende a dezenas de famílias, o fogão chega aos isolados como o grande instrumento de inclusão elétrica no Acre. Nos seringais ainda prevalece o velho querosene nas lamparinas ou, agora mais raramente, usa-se o sernambi ou sobra de látex, o leite de borracha que escorre das árvores de seringueira. Isso fornece uma luz pálida, sendo pouco usado hoje. A ideia do engenheiro-mecânico Ronaldo Sato, de 58 anos conseguiu convencer o empresário Flávio Pentagna Guimarães, de 83, que decidiu desenvolvê-la na Energer, empresa de energia renovável do Grupo mineiro BMG. Testado e provado pelo Cepel, o laboratório de pesquisas e desenvolvimento da Eletrobras e também pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), se projeta uma produção inicial de 300 unidades/mês. Nos últimos anos o Grupo BMG priorizou o desenvolvimento de empresas e tecnologias ligadas ao desenvolvimento sustentado, dentre elas a geração de energia renovável e o tratamento de água para consumo ou reúso. Com a fabricação em série e o licenciamento, os custos podem baixar. Os primeiros protótipos foram subsidiados. O preço de fabricação está hoje em cerca de R$ 5.000. A geladeira e a TV não estão nesse preço, claro.

RESUMO DE VANTAGENS

• O fogão produz energia para ligar três lâmpadas e uma TV ou rádio;

• Não há contato com a fuligem ocasionada pela queima da lenha. A inalação de fuligem é apontada pela Organização Mundial de Saúde como a 8ª causa de morte no Brasil. Lá se vai a fumaça pela chaminé, sem poluir o interior da casa;

• Há total aproveitamento do calor, o que não ocorre nos fogões a lenha tradicionais;

• Não produz fumaça; • Consome 50% menos lenha; • É ambientalmente correto. Até há pouco tempo os engenheiros se concentravam em buscar ampliar a eficiência na geração de energia, por exemplo, para acender cinco lâmpadas em vez de apenas três. Hoje, para um funcionamento diário do BMGlux por quatro horas, a energia elétrica gerada é de aproximadamente 456 watts/dia.

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O equipamento aproveita o calor desperdiçado em um fogão doméstico, transformando-o em energia térmica, mecânica e elétrica. A energia gerada é acumulada em bateria e permite acender lâmpadas, ligar uma televisão e um pequeno freezer, além de aparelhos de baixo consumo. O equipamento foi projetado para ser utilizado com facilidade e absoluta segurança pela dona de casa. O BMGlux não utiliza caldeira, o que reduziu riscos de acidentes além de simplificar a produção. O vapor gerado no trocador de calor é transformado em energia mecânica e, a seguir, elétrica. A energia é armazenada em uma bateria comum de automóvel – cerca de 30% de sua carga é suficiente para a iluminação da residência em um período de 4 a 5 horas. Para recarregar a bateria utiliza-se o calor produzido no fogão durante o cozimento diário de alimentos. O kit é composto pelo fogão, baterias e chaminés, além de duas panelas e um bule. A Funtac investiu R$ 500 mil numa primeira fase do projeto, tendo já passado por várias outras fases até se chegar a uma quinta e definitiva em que o motor seria substituído por uma miniturbina mais silenciosa e mais leve.

Com a comida de cada dia pronta e quentinha, sobra energia para as lâmpadas e a TV

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Meio Ambiente

SUSTENTABILIDADE, O MINÉRIO MAIS PRECIOSO Anglo American privilegia em parcerias o cuidado dos recursos naturais, a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social das comunidades nas quais se insere Gabriel Arcanjo Nogueira*

À

s vezes fica a impressão de que, no País, muito se fala e pouco se faz para que a sustentabilidade se firme de fato no mundo dos negócios. Não é o que acontece com a Anglo American, um dos maiores grupos de mineração do mundo, desde 1973 no Brasil, onde atua em quatro grandes frentes: minério de ferro, níquel, fosfato e nióbio. O Minas-Rio é definido pelo grupo como o maior projeto de exploração de minério de ferro em desenvolvimento no mundo; suas operações com o níquel concentram-se em Barro Alto e Niquelândia, em Goiás; as de fosfato, mediante a Copebrás, estão em dois municípios goianos: Ouvidor e Catalão, bem como em Cubatão (SP); e o nióbio é explorado pelo grupo em Catalão e Ouvidor (GO). Com sede no Reino Unido e ações negociadas nas bolsas de Londres e Joanesburgo (África do Sul), seus negócios abrangem commodities de alto volume em minério de ferro e manganês, carvão metalúrgico e carvão térmico; metais básicos: cobre e níquel; metais e minerais preciosos, nos quais é líder global em platina e diamantes, entre outros produtos.

No I Workshop de Mineração para Jornalistas, em Belo Horizonte, Paulo Misk, gerente-geral de Operações de Nióbio (Mineração Catalão) da Anglo American em Catalão e Ouvidor/GO, disse que, para o grupo, mais que esse notável elenco de negócios em si, “valem os seus altos padrões de segurança e responsabilidade em todos eles e nas localidades nas quais promove o desenvolvimento sustentável nas comunidades próximas a suas regiões de atuação”. Nada mal para quem desenvolve operações e projetos de mineração na África do Sul, América do Sul, Austrália, América do Norte e Ásia. Força das parcerias A Anglo American avalia que um de seus trunfos é privilegiar os trabalhos voluntários que desenvolve com seus parceiros de ideias semelhantes seja nos setores privados seja nos públicos, bem como em ONGs. O grupo observa: importa é atingir objetivos onde quer que suas operações estejam, especialmente em países nos quais os benefícios do desenvolvimento ainda têm de chegar a algumas partes da sociedade.

Sem descuidar, porém, da sua preocupação recorrente com os recursos naturais e a preservação do meio ambiente, áreas em que sobressaem as suas iniciativas para promover o desenvolvimento social das comunidades nas quais se insere. Algumas dessas parcerias: • O convênio com a Reprolatina permite à Anglo American promover a conscientização das pessoas em educação sexual e saúde reprodutiva, formando multiplicadores do conhecimento para contribuir com a redução dos índices de DSTs, HIV/ Aids e gravidez na adolescência. São mais de 18 mil pessoas beneficiadas no Amapá, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. • Com a ONG Agenda Pública a Anglo American criou em Barro Alto (GO) a Escola de Governo e Cidadania, com 20 cursos para servidores públicos e autoridades. O que tem permitido a governantes mais bem capacitados pela escola desenvolverem o potencial do município. Ganhos ambientais É no cuidado do meio ambiente que o grupo traduz, de modo acentuado, a sua

* Com informações de CDN Comunicação Corporativa

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Ronaldo Guimarães

Nas ações em parcerias de sustentabilidade para adolescentes e ...

preocupação recorrente com a diminuição do consumo de recursos, a exemplo da água e da energia. O que é feito por meio de suas unidades de negócios. Há números expressivos, entre eles: • Na planta de níquel Codemin, em Niquelândia (GO), 65% da energia vêm de fontes renováveis, como a biomassa obtida do cavaco de madeira proveniente de reflorestamento, e a hidreletricidade. • O cavaco de madeira é também utilizado na planta de fosfato (Copebrás). O grupo contabiliza, além dos ganhos diretos obtidos com essa prática, a redução da quantidade de carbono emitido na atmosfera. • Em sua unidade de negócios Minério de Ferro Brasil o grupo também neutraliza as emissões de carbono com o plantio de árvores: mais de 170 mil plantadas na área da mina do Projeto Minas-Rio. • Em decorrência desse mesmo projeto cerca de R$ 1 milhão foram investidos na implantação de sete estações de tratamento de água, beneficiando 5 mil pessoas com água potável na região da usina de beneficiamento e do mineroduto. • Outros R$ 1,6 milhão são investidos na construção de aterro sanitário coletivo, que irá atender a 10 cidades mineiras e fluminenses nas quais o mineroduto do Minas-Rio está em construção. • A unidade de negócios Níquel, durante 2011, investiu mais de R$ 2,4 milhões em monitoramentos ambientais, que resultaram em prevenção e gestão ambiental, disposição de resíduos, tratamento de emissões e custos de remediação. A Anglo American ressalta que esse conjunto de ações voltadas ao meio ambiente integra-se em um Sistema de Gestão que, desde 2001, é certificado pela ISSO 14001 e hoje segue o “Padrão para Gestão Ambiental” desenvolvido pelo próprio grupo.

... adultos o grupo forma cidadãos e multiplicadores de boas práticas

Entendendo a dualidade Para a professora e consultora Maria José Gazzi Salum, “recursos da biodiversidade são bens sem os quais é impossível a sobrevivência humana e de outras espécies vivas”, de onde se pode avaliar a importância do setor de mineração, uma vez que “toda a história da civilização está assentada sob bases minerais: saúde, infraestrutura básica de saneamento, moradia, transporte e comunicação dependem de insumos minerais”. Maria José foi uma das palestrantes no workshop, promovido pela Anglo American, em agosto. Ao falar sobre “Mineração e Desenvolvimento Sustentável”, acentuou que “não se trata de confrontar valores socioeconômicos com valores ambientais porque ambos são importantes e apenas juntos conferem bases sustentáveis ao desenvolvimento”. Com ampla vivência nas áreas docente, administrativa e de pesquisa nos setores de beneficiamento de minérios, desenvolvimento sustentável na mineração e meio ambiente, não lhe falta autoridade para indicar caminhos para vencer os desafios: “Conciliar os valores intangíveis dos ativos ambientais com os socioeconômicos é o grande desafio. Essa é uma equação que deve ser equilibrada e cuja solução requer visão sistêmica, integrada da preservação ambiental associada à produção mineral”. A demanda de recursos minerais é crescente, o que faz a especialista aconselhar que se produza mais a partir de minérios mais pobres e mais complexos, com competitividade e menor impacto ambiental, associados a ganhos sociais, entre eles: inovações nos processos de produção; inovações na indústria de base mineral (parceria mineração e indústria da transformação mineral); busca pelo rejeito zero; e investimentos sociais (construção do futuro sustentável das comunidades).

Atenção aos requisitos legais A dimensão ambiental da atividade mineradora, lembrou Maria José, não pode ser ignorada pelas empresas devido ao seu “significativo impacto e, como tal, ela tem de cumprir com diversos requisitos legais, como: recuperação das áreas mineradas; lançamento de efluentes líquidos dentro dos padrões especificados em normas legais; disposição adequada de estéreis e rejeitos; sem esquecer de que há inúmeras tecnologias disponíveis para que a mineração cumpra os requisitos legais ambientais”. Em suma, “independentemente do seu porte, (a atividade) tem de ser bem feita”. Jair Campos

Maria José defende equação equilibrada com visão sistêmica Jair Campos

Paulo Misk: “altos padrões de segurança e responsabilidade”

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Meio Ambiente

40 anos de Brasil A Anglo American informa ter no País o maior receptor mundial de seus aportes: cerca de US$ 14 bilhões desde 2007; e a peça-chave na estratégia global de crescimento de sua carteira de produtos e do volume de produção em 35% até 2014. São três as suas unidades de negócio no Brasil: Níquel, Minério de Ferro Brasil e Outros Negócios de Mineração e Indústria (OMI), responsável pelas operações de nióbio, fosfato (Copebrás) e pelo Sistema Amapá; mais a sua divisão de Exploração. Dois dos quatro maiores investimentos mundiais do grupo nos últimos anos estão aqui: Barro Alto, em Goiás, que iniciou em 2011 a produção de ferroníquel, e o Minas-Rio, que se encontra em fase de obras, em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Novos processos e tecnologias Duas plantas industriais compõem a sua unidade Níquel, ambas em Goiás. Uma delas, a Codemin, produziu seu primeiro metal em 1982, e sua operação estimulou o desenvolvimento local de Niquelândia, no interior do estado; são 475 empregados diretos nessa empresa, conhecida como “escola de ferroníquel”, atesta o grupo.

A Anglo American ressalta que além da capacitação de empregados recémchegados à companhia, na unidade são testados novos processos e tecnologias, tanto para otimização de procedimentos quanto para redução do uso de recursos naturais. Toda essa experiência é compartilhada com a unidade em Barro Alto (GO) e em Loma de Níquel, na Venezuela. Na planta industrial de Barro Alto, inaugurada em 2011, são 800 empregados diretos e investimento no projeto, até o início das operações, de US$ 1,9 bilhão. A expectativa é chegar a 36 mil toneladas/ano de ferroníquel produzido e, quando estiver a plena capacidade, essa empresa mais que dobrará a produção de ferroníquel do grupo. A unidade Minério de Ferro Brasil é composta pelo projeto Minas-Rio, em fase de implantação e previsão para operar no segundo semestre de 2014. A capacidade inicial prevista é de 26,5 milhões de toneladas/ano. O empreendimento inclui mina e unidade de beneficiamento em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas (MG); o maior mineroduto do mundo, com 525 km de extensão por 32 municípios mineiros e fluminenses; e o terminal de minério de ferro do Porto de Açu, em São João da Barra (RJ).

O grupo estima que serão criados 1.200 empregos diretos e 3.500 indiretos na fase inicial de operação do projeto, no qual trabalham hoje 12 mil pessoas. A unidade Outros Negócios de Mineração e Indústria é formada no Brasil pela Copebrás (Fosfato), fundada em 1955, pela Mineração Catalão (Nióbio), em operação desde 1976, e pelo Sistema Amapá (minério de ferro). A localização da Copebrás, uma das maiores produtoras de fertilizantes nacionais, é estratégica por estar no coração da região agrícola brasileira, em Catalão e Ouvidor (GO), e próxima ao Porto de Santos, em Cubatão (SP). A Mineração Catalão, por sua vez, é uma das três maiores produtoras de nióbio, que entre outras propriedades colabora para reduzir emissões de CO2 ao permitir a produção de veículos mais leves e de menor consumo de combustível. Já o Sistema de Minério de Ferro Amapá, com início de produção em 2007, está numa área de recursos geológicos estimados em 200 milhões de toneladas, o que representa 15 anos de operação. Seus níveis de produção, em processo de evolução, chegaram em 2011 a 4,8 milhões de toneladas.

Em Barro Alto (GO), a Anglo American iniciou em 2011 um de seus quatro maiores investimentos mundiais 30

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Dilma de Melo Silva

Longo caminho a percorrer em busca da SUSTENTABILIDADE

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elebrou-se em 2011 o Ano Internacional das Florestas, conforme decisão da ONU, mas a devastação das matas ainda continua, a natureza continua a ser destruída. Em 2012 realizou-se a Conferência para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, a Rio + 20, na cidade do Rio de Janeiro. No período de 4 a 6 de junho de 2012 várias delegações vindas de todos os países do mundo debateram no Riocentro as propostas para um mundo sustentável. Em 1992 tivemos a ECO 92 e muitas das pautas discutidas e aprovadas estão aguardando implementação; depois de 20 anos o debate avançou, mas há um longo caminhar pela frente. Podemos citar, por exemplo, o protocolo de Quioto que foi executado somente pelos países europeus, pois os Estados Unidos não ratificaram o que foi acordado no Japão. A pergunta que se deve formular diz respeito ao nosso posicionamento frente às questões ambientais: o que realmente estamos realizando enquanto cidadãos deste país? O que o poder público tem feito com relação a esta temática? Nós, moradores do ABCD, paulistas vemos, diariamente,como pequenas coisas poderiam – e deveriam – ser implementadas em nossas cidades e não o são. No que se refere à coleta de lixo, seria uma questão bem próxima do cotidiano

de cada um de nós; bem simples separar o lixo que será destruído daquele outro que pode se reciclado (papel, papelão, plástico, vidro, metais), isso é feito em minha casa. Mas, no momento de colocá-lo fora, temos que levar a algum supermercado pois a coleta NÃO é seletiva; felizmente existem postos de entrega voluntária (PEV) em locais estratégicos que ajudam na operação da coleta seletiva em locais públicos. A mobilização da sociedade, a partir das campanhas, pode estimular iniciativas em conjuntos habitacionais, shopping centers e edifícios comerciais e públicos. E aumentar a educação ambiental nas escolas de todos os níveis. Mas, na minha rua, o caminhão recolhe tudo e inicia ali mesmo a ação de eliminação de todos os resíduos, mesmo que a maioria deles seja reaproveitável. Na área artística tivemos em 2010 um exemplo que nos faz refletir sobre as possibilidades de uso dos resíduos. O artista Vik Muniz realizou o documentário Lixo extraordinário que foi acompanhado de um projeto social com catadores do lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, considerado o maior da América Latina. Essa produção teve até indicação para premiação do Oscar da Academia de Hollywood e projetou internacionalmente o seu idealizador, conhecido por produzir fotografias que reproduzem imagens artísticas (Mona Lisa de Leonardo da Vinci:

uma feita com geleia e outra com manteiga de amendoim). Também recriou a Última Ceia usando açúcar, fios, arame e xarope de chocolate. Outros exemplos de seu trabalho foram vistos recentemente na TV na abertura da novela Passione. O documentário Lixo extraordinário esteve em cartaz em 2011 nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, tendo tido uma trajetória de sucesso em diversos festivais internacionais e nacionais dos quais participou. Isso nos leva a concluir que nem todo resíduo produzido por nós deva ser destruído, podemos e devemos reaproveitar muito que atualmente está sendo jogado fora, basta termos um olhar diferenciado e percebermos o que se pode fazer com tais resíduos. São exemplos de lixo reciclável os resíduos constituídos de vidro, plástico, papel, papelão, ferro, aço e alumínio que não devem pois serem misturados aos outros resíduos. A primeira cidade a efetivar essas ações de coleta seletiva do lixo foi Niterói no Estado do Rio de Janeiro, em 1985, no bairro de São Francisco. A experiência foi fruto de uma parceria entre o Centro Comunitário de São Francisco (CCSF), a associação de moradores local e a Universidade Federal Fluminense (UFF). No início contou também com técnicos da FEEMA (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - RJ) e da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana - Rio de Janeiro). Belo exemplo a ser seguido!

Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia, e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na Universidade de Estudos Estrangeiros, no Japão, em Kyoto. E-mail: disil@usp.br Neo Mondo - Setembro/Outubro 2012

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Meio Ambiente

A SUSTENTABILIDADE como PARADIGMA Não se trata de ecologia militante, mas de necessidade coletiva; ou seja,“não é uma tendência, uma moda, mas um valor fundamental” Camila Turriani Bertoldo, de Viareggio (Itália), Especial para NEO MONDO

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sustentabilidade é o novo paradigma da sociedade e não deveria mais ser encarada apenas como uma alternativa politico-econômica ou um luxo para poucos. Mas, sim, ditar um

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novo modelo de vida, no qual cidadãos, empresas e governos fundamentem suas atitudes cotidianas. Não se trata, portanto, de uma ecologia militante, mas de uma necessidade coletiva.

O conceito – do sociólogo, escritor e jornalista Francesco Morace – é explicado pelo próprio na entrevista exclusiva para NEO MONDO, cujos tópicos principais estão a seguir.

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NEO MONDO - O senhor presta consultoria a empresas, designers e profissionais da criação em geral. Qual é a lição sobre a sustentabilidade?

NEO MONDO - Pode-se dizer que a sustentabilidade é um princípio visto com bons olhos por uma pequena militância ecológica, mas relativamente difícil de entrar nos atuais governos, nos quais outros valores acabam pesando mais? Morace - A ecologia militante nasce nos anos 1960/70 com uma forte conotação político-ideológica; era, portanto uma sensibilidade que pertencia ao progressismo mais forte, a uma esquerda mais radical. Em muitos países (na Itália ainda é assim), muitos confundem o movimento ecológico-militante com a sustentabilidade. A sustentabilidade é um valor apolítico, transversal, que interessa à qualidade da vida de todos nós, e não é de esquerda ou de direita; trata-se da nossa felicidade cotidiana. NEO MONDO - Portanto a prática sustentável é uma escolha pessoal?   Morace - É um paradigma coletivo, uma escolha coletiva, exatamente como foi a higiene no final do século XIX. Hoje não se fala mais no paradigma higiene porque está superconsolidado. A sustentabilidade

daqui a 20 anos será assim também. Não se trata de uma escolha pessoal, mas de uma exigência coletiva, na qual cada um poderá escolher o seu estilo. NEO MONDO - Ainda há uma certa relutância, conflitos de interesse que atrasam a implementação da sustentabilidade...   Morace - É evidente que os governos e as instituições mundiais devam enfrentar esse tema deixando de lado a famosa contradição ideológica. Como já disse antes, não se trata de direita ou esquerda partidária, trata-se, na verdade, de entender que quando existe um paradigma é necessário fazer as contas com ele. A Alemanha e todos os países escandinavos estão muito avançados nessa direção.

Francesco Morace é presidente do Future Concept Lab, instituto de pesquisa e consultoria estratégica, com sede em Milão e filial em São Paulo, aberta em 2011. Docente na Domus Academy e no Politecnico de Milano, realizou conferências, cursos e seminários em 25 países. Autor de 20 ensaios, o último deles “I Paradigmi del Futuro. Lo scenario dei trend” (dezembro de 2011), disponível em inglês em versão digital (abril de 2012); e coautor do livro Consum-Autori: Le generazioni come imprese creative (dezembro de 2008), publicado no Brasil em 2009 com o título Consumo Autoral”, edição revisada e ampliada neste ano, Morace colabora regularmente com publicações nacionais e internacionais.  Com mais de 30 anos de trabalho no âmbito da pesquisa mercadológica e como presidente de um dos centros mais avançados em pesquisa de marketing e elaboração e previsão de tendências de consumo, Morace - em seus recentes estudos e conferências realizados em diversas partes do globo, entre elas o Brasil - acentua a importância da sustentabilidade em todos os setores de atividade. “É preciso esclarecer que esta não é uma tendência, uma moda, mas um valor fundamental“, diz.

NEO MONDO - Em tempo de crise, como o atual, isso é possível?   Morace - A crise claramente evidencia a contradição do sistema - empresarial, industrial, financeiro - que até mesmo teve problemas porque não soube ser sustentável e suficientemente equilibrado. A sustentabilidade significa escolher a via do equilíbrio; temos que ter sempre em mente a relação entre o homem e a natureza, como também a relação dos homens entre eles mesmos. O modelo econômico-financeiro tipicamente anglo-saxão, dos grandes bancos de investimento, como a falida americana Lehman Brothers, não é um modelo sustentável. A crise está demostrando que a sustentabilidade será o tema do futuro. E eu a vejo como um acelerador desses valores.

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Morace - A meu ver, empresas que não pensam em termos de sustentabilidade não terão a mínima possibilidade de sobreviver no futuro próximo. Ao mesmo tempo, produtos ecológicos e sustentáveis custam caro, e em um momento de crise esse fator é um problema. O que eu aconselho é adotar uma sensibilidade sustentável na vida cotidiana, mantendo a estética e a capacidade criativa, mas tendo como ponto de partida o valor da sustentabilidade. Portanto, sugiro-lhes manter a criatividade, originalidade, inovação, mas não mais seguindo a estrada do luxo, e sim conciliando esses elementos numa via ética e sustentável. Isso é muito importante, porque mesmo as pessoas que não têm muita disponibilidade econômica fazem escolhas de qualidade; compram menos produtos, mas compram melhor.

Temos que ter sempre em mente a relação entre o homem e a natureza;  a relação dos homens entre eles mesmos

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VENTOS SOPRANDO C Energia eólica já é a segunda mais barata do país, perdendo apenas para a hidrelétrica; investimentos na cadeia continuam Rosane Araujo

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ntre 2004 e 2011, o investimento da indústria eólica em leilões realizados no Brasil chegou a R$ 25 bilhões. O país já tem 2GW de capacidade instalada e até o fim de 2016, a meta é inserir no sistema elétrico nacional 8,4 GW de potência eólica, o que significará 5,4% de participação na matriz elétrica brasileira, contra os atuais 1,5%. Entretanto, o País tem potencial para muito mais: 300GW, concentrados principalmente no Nordeste e no Sul. O número foi revisto recentemente pela Aneel, já que no primeiro levantamento realizado sobre o assunto, em 2001, o potencial apontado era de 143GW. “O cenário da eólica é bastante favorável em termos de perspectivas futuras porque, além de inserir essa fonte na matriz, nós trouxemos a cadeia produtiva, de suprimentos, como um todo”, afirmou à Agência Brasil a presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Melo. De 2008 a 2011, o número de fabricantes de equipamentos no país passou de dois para 11. Os investimentos realizados na última década tornaram este tipo de energia a segunda modalidade mais barata, per-

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dendo somente para a hidrétrica. Segundo a presidente, os avanços tecnológicos realizados na insdútria explicam a grande competitividade apresentada pela fonte eólica. As torres para produção de energia a partir dos ventos, que tinham 50 metros de altura até 2009, hoje têm 100 metros, o que melhorou a captação do vento e a produtividade, tornando os custos de produção mais baratos. E, ao que tudo indica, o status de segunda energia mais barata dificilmente será ameaçado. A expectativa é que mais R$ 40 bilhões sejam investidos neste setor até 2020. Essa nova fase da energia eólica, iniciada em 2009, totaliza a contratação de 6,7 gigawatts (GW) de potência, ao preço de R$ 100 por megawatt/hora (MWh). Falta de transmissão impede funcionamento de 32 parques Apesar dos investimentos na expansão da energia eólica, o setor ainda enfrenta limitações na infraestrutura para funcionar em plena capacidade. Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, dos 71 parques eólicos leiloados em 2009, 32 não estão funcionando por falta de linhas de transmissão.

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O CADA VEZ MAIS FORTE Mais de R$ 1 trilhão serão investidos no setor de energia do país nos próximos dez anos, segundo estimativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A maior parte desse montante será direcionada para o setor de óleo e gás, mas os derivados de cana-de-açúcar e a energia eólica também devem receber parte deste investimento.

A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), do grupo Eletrobrás, é a responsável pelo fornecimento das linhas de transmissão, mas está atrasada e, em alguns casos, sequer deu início às obras. O atraso tem gerado situações embaraçosas, como a que ocorreu no complexo eólico na região de Caetité, no sudoeste da Bahia, e que foi relatada por O Estado. A cerimônia de inauguração do complexo, o maior da América Latina, aconteceu no dia 9 de julho e contou com políticos e moradores da região, mas apesar de os 184 geradores estarem prontos para entrar em funcionamento, não foi possível gerar nenhum megawatt de energia, já que a Chesf não iniciou as obras das linhas de transmissão, que deveriam estar prontas juntamente com o parque. Construído pela Renova Energia, empresa com participação da Light e da Cemig, o complexo Alto Sertão tem capacidade de geração de 300 MW, energia suficiente para abastecer uma cidade como Brasília. Ele custou R$ 1,2 bilhão e demorou 17 meses para ser concluído, mas não se sabe quando entrará em funcionamento, já que as obras das linhas de transmissão não foram iniciadas. Apesar de não poderem produzir energia, as geradoras poderão receber a receita fixa prevista nos contratos de concessão. Pelos cálculos da Aneel, as 32 usinas têm receitas de R$ 370 milhões a receber. Enquanto as eólicas aguardam a solução do caso para entrar em funcionamento, consumidores do Nordeste veem suas contas de luz aumentando em virtude da seca. Uma transferência de energia térmica de 2,5 mil megawatts (MW) foi feita com o objetivo de complementar a energia gerada pelas hidrelétricas, que foi insuficiente para abastecer a região. “Qualquer

geração térmica complementar, seja por restrição elétrica ou razão energética, é paga como encargo de serviço do sistema e isso vai para a conta do consumidor”, explicou Hermes Chipp, diretor geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Ele descartou, entretanto, qualquer possibilidade de falta de energia na região. Crescimento atrai interesse de players do mercado internacional Em setembro, o diretor geral do ONS realizou um almoço-palestra no Rio de Janeiro, com empresários espanhóis. O encontro foi promovido pelo comitê de energia da Câmara Española de Comercio em Brasil. Durante o evento, o diretor apresentou uma expectativa de crescimento de 29% na geração de energia do País até 2016. Com isso, as hidrelétricas, principal fonte da matriz energética brasileira, passarão a representar 71,2% do total gerado, ao contrário dos 78,7% atuais. Enquanto a hídrica perderá espaço, segundo o diretor, a eólica é a modalidade que mais crescerá, chegando a representar 5,6% de toda a energia gerada. Atualmente, ela representa 1,1%, ou seja, em apenas quatro anos, espera-se um salto de 509%. O alto potencial de crescimento do setor parece ter despertado o interesse dos empresários espanhóis, que têm grande expetise na área uma vez que a Espanha é um dos líderes mundiais em geração de energia eólica. ‘’A perspectiva em geral no Brasil é boa para as empresas espanholas que têm o conhecimento, o capital econômico e humano e, como sabem que na Europa não há dinheiro, buscam outros mercados’’, disse à Agência Efe Néstor Casado, presidente do Comitê de Energia da Câmara Espanhola.

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Energia Limpa

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SUSTENTABILIDADE

Udaipur, na Índia, desenvolve protótipos de carros movidos a energia solar desde 2003 Bruno Molinero, da Índia, Especial para NEO MONDO

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nquanto o mercado de veículos movidos a energia solar ainda engatinha, com grandes fábricas apenas iniciando seus testes (como é o caso da europeia Smart, que apresenta em setembro no Salão de Frankfurt, na Alemanha, seu primeiro protótipo de carro movido 100% a energia elétrica), o cenário é bem diferente na Índia. Na cidade de Udaipur, a 680 km da capital Nova Délhi, 14 protótipos de veículos movidos a energia solar podem ser vistos no The Vintage & Classic Car Collection – uma espécie de museu do automóvel da cidade. Entre os veículos estão carros, motos, barcos e até rickshaws, típico meio de transporte indiano, também conhecido como tuk-tuk. Todos são movidos a painéis solares e não utilizam combustível fóssil para se locomover. Construídos ainda em 2003, os 36

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primeiros exemplares foram vencedores de diversos prêmios nacionais e internacionais de sustentabilidade. Mesmo estando expostos, nenhum deles nasceu para ficar parado em uma vitrine de museu. Quem visita Udaipur pode realmente andar em um desses veículos e conhecer de perto a tecnologia. “Muitas pessoas vêm à Índia para se purificar espiritualmente, mas não percebem que acabam impactando o meio ambiente no meio do processo. Esse tipo de iniciativa faz muito sentido por aqui”, conta Gaëtan Hivert, turista francês, enquanto navegava pelo Lago Pichola em um dos barcos solares. Segundo a Eternal Mewar, instituição que desenvolve os protótipos e a tecnologia, os barcos normais “são barulhentos e despejam materiais tóxicos que contribuem para a poluição da água.” O objetivo então é transformar esses barcos velhos, verdadei-

ros agentes poluidores, em uma alternativa de energia limpa a partir da implantação de células de energia fotovoltaica. Depois da transformação e adaptação, eles deixariam de utilizar combustível fóssil e passariam a ser movidos exclusivamente com a ajuda do Sol. Mas quem está por trás da iniciativa? Na verdade, todo o investimento é feito pela antiga família real de Udaipur. Após a independência da Índia, e a transformação do país em uma república, as diversas famílias reais viram seu poder político simplesmente desaparecer. Contudo, seus membros continuavam na lista das pessoas mais ricas. Assim, a dinastia Mewar, que tinha seu centro do poder em Udaipur, decidiu investir seu capital na criação da instituição Eternal Mewar, que desenvolve projetos nas áreas de cultura, turismo, educação e, claro, meio ambiente.

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E do outro lado do mundo Um desses projetos foi a criação da Mewar Solar Cell, em 2003, célula fotovoltaica utilizada em todos os protótipos de veículos. O resultado deu tão certo que, já em abril daquele ano, 21 participantes fizeram parte de um rally pelas rodovias de Udaipur com veículos movidos exclusivamente por energia solar. Em 2004, 33 corredores participaram da segunda edição, completando 1.200 km a aproximadamente 20 a 25 km/h. Longe da escala industrial Mesmo com o sucesso da iniciativa, essa tecnologia está longe de ser comercializada em escala industrial. Grandes fábricas internacionais de automóveis, e até mesmo a gigante indiana Tata, não demonstraram interesse em investir nas células. Com isso carros como o tuk-tuk “Udaipur Solar nº1”, que tem capacidade de levar até 4 pessoas, saem raramente da garagem. Com boa luz solar, esse automóvel é capaz de ultrapassar os 20 km/h sem qualquer prejuízo ao meio ambiente. Se essa velocidade parece muito pequena e insuficiente para angariar investimentos, a motocicleta “Udaipur Solar nº 6” chega a atingir 60 km/h. Construída nos EUA com a tecnologia indiana, ela funciona com baterias solares que substituem o motor movido a combustível fóssil. Aos que gostam de velocidade, o “Udaipur Solar nº 7”, testado no rally de 2003, chegou a atingir 85 km/h, movido exclusivamente a energia solar. O veículo parece um carrinho de golfe com painéis gigantes no teto. O único problema é que ele pôde caminhar uma distância de apenas 35 km até quebrar. “O segredo é combinar essa eficiência com a longa duração”, ensina o instituto. “Nós mostramos o caminho. Agora falta o investimento.” Enquanto isso não ocorre, turistas podem aproveitar um pouco dos carros do futuro para diversão. Além do barco no lago Pichola, é possível encontrar um rickshaw solar andando pela rua. “Chegar aqui mostra como nossa sociedade está errada.Vivemos no meio do caos, da pressa, da poluição. Enquanto aqui vemos que é possível viver em harmonia com a natureza”, filosofa Gaëtan.

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O “Uidapur Solar nº 1” (C) ultrapassa 20 km/h; as motos podem atingir 60 km/h Divulgação

Típico meio de transporte, o tuk-tuk é movido a painel solar

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Modelo bateu nos 85 km/h, mas andou apenas 35 km

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Moto com tecnologia indiana, construída nos EUA, utiliza baterias solares Neo Mondo - Setembro/Outubro 2012

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SOJA COMO MATÉRIA-PRIMA para a produção de biodiesel e suas questões ambientais

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soja, conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) 2008, é o principal grão oleaginoso cultivado no mundo; os demais grãos são girassol, canola, amendoim, algodão e mamona. Segundo dados da Soy Stats e da USDA – United States Department of Agriculture – foram cultivados cerca de 267,3 milhões de toneladas do grão no mundo durante a safra de 2010/2011, sendo os Estados Unidos da América o principal produtor mundial, acompanhado pelo Brasil e pela Argentina. Os Estados Unidos foram, portanto, responsáveis por 34,4% da produção de soja mundial, equivalente a 90,6 milhões de toneladas plantadas em 31 milhões de hectares. A América do Sul produziu cerca de 135,7 milhões de toneladas, numa área total plantada de 47,5 milhões de hectares. Deste modo, segundo o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, “pode-se dizer, sem medo de errar, que a expansão da cultura da soja foi a principal responsável pela introdução do conceito de agronegócio no país”, o que demonstra sua importância. 38

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Em conformidade com essa definição, segundo dados preliminares da Conab (2011), o Brasil produziu, durante a safra de 2010/2011, 75,3 milhões de toneladas deste grão em uma área de 24,2 milhões de hectares. Pelos dados apontados pela Conab, os estados que mais se destacaram na produção nacional de soja nesta safra foram o Mato Grosso, com 27,1% de toda a produção, e o Paraná, com produção de 15,4 milhões de toneladas em 4,6 milhões de hectares (20,5% da produção nacional). Quanto às exportações da produção brasileira, de janeiro a dezembro de 2011, foram enviados para o exterior cerca de 49 milhões de toneladas da soja aqui plantada, divididas em grãos, óleo e farelo, conforme detalhamento: foram 33 milhões de toneladas de grãos de soja (NCM – Nomenclatura Comum do Mercosul – 12010090), 1,5 milhão de toneladas de óleo (NCM 15071000) e 14,5 milhões de toneladas de farelos e cascas de soja (NCMs 23040090, 23040010 e 23025000). (MDIC, 2012) No que tange ao mercado doméstico, o Brasil tem destaque relacionado ao esmagamento no grão quando comparado

ao mercado mundial, conforme dados do Ministério da Fazenda, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Secretaria de Política Agrícola (SPA) e Instituto Interamericano de Cooperação para Agricultura (IICA – 2007). E ainda, visto que o valor monetário da matéria-prima é definido pela Bolsa de Chicago, o preço sofre influência dos três maiores produtores do grão; Estados Unidos, Brasil e Argentina. Além disso, outro fim importante do grão de soja é a produção de biocombustível, utilizado em motores de ignição por compressão, segundo IICA/MAPA/SPA – 2007, bem como a relação da soja com a nutrição da cadeia bovina; assim, o BNDES em 2007 lançou um estudo mostrando que no caso da soja, para a obtenção do biodiesel, esmagase o grão, obtendo o óleo e tendo como resquício de subproduto o farelo, utilizado na nutrição de animais. Panorama internacional versus nacional do complexo soja Dentre os maiores produtores de soja estão EUA (35%), Brasil (27%), Argentina (21%) e China (6%).

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Produção mundial de grão de soja João Carlos Mucciacito

Produção mundial do grão de soja: 260,1 milhões de ton.

EUA: 35%

Brasil 27%

Argentina: 21%

China: 6%

Grão: 91,4 milhões de ton.

Grão: 69 milhões de ton.

Grão: 54,5 milhões de ton.

Grão: 14,7 milhões de ton.

Farelo: 37,8 milhões de ton.

Farelo: 26 milhões de ton.

Farelo: 26,4 milhões de ton.

Farelo: 33,6 milhões de ton.

Óleo: 8,8 milhões de ton.

Óleo: 6,4 milhões de ton.

Óleo: 6,4 milhões de ton.

Óleo: 8,7 milhões de ton.

Fonte: USDA 2008/ 2009.

A partir da análise do fluxograma verifica-se que, apesar de os EUA serem os maiores produtores do grão, a China é a maior produtora de farelo, com 38,6 milhões de toneladas, e isso se deve ao fato de ela importar o grão de países como o Brasil e triturá-los, produzindo assim mais farelo que os demais países e pouco menos óleo que os EUA. Dessa forma, ocupa o segundo lugar em produção de óleo e o primeiro em farinha, vendendo-o aos países de origem do grão, como o Brasil. Dessa forma, segundo publicação do BNDES ao analisar a relação entre o complexo grão-farelo e o óleo, visto que os dois primeiros possuem a mesma tendência, pois o farelo segue as tendências do grão no que tange à concorrência, assim, o preço do grão é determinante para o farelo. Já em relação ao óleo tem-se a concorrência dos diversos tipos de óleos vegetais – por exemplo, óleos provenientes da palma, do algodão, do coco, entre outros –, seja para uso doméstico ou misto. Nos últimos anos, segundo dados da USDA (2009), a Argentina vem consolidando a sua liderança nas exportações de farelo, uma vez que os Estados Unidos aumentaExportações mundiais do complexo soja País

Quantidade em mil toneladas

Estados Unidos

40,852

Brasil

28,578

Argentina

13,088

Paraguai

5,350

Canadá

2,247

Outros

2,668

Fonte: USDA- Soybeans: World Supply and Distribution 2009/10.

ram o consumo interno de farelo de soja e o Brasil vem privilegiando as exportações do grão, o que se explica pelo fato da implantação da Lei Complementar nº 87, de 13 de setembro de 1996, mais conhecida como Lei Kandir, que desonerou do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) as exportações de produtos in natura. Porém, de acordo com a tabela, é possível aferir que no âmbito de exportações do complexo, verifica-se que os EUA mantêm sua liderança, assim como na produção, contando com aproximadamente 44% das exportações mundiais, seguido pelo Brasil que é responsável por aproximadamente 30,8%. Segundos dados da FAO (2009) – Food and Agriculture Organization, os maiores exportadores de óleo de soja são Argentina, Brasil e Estados Unidos, países que, em conjunto, são responsáveis por aproximadamente 71% das exportações desta commodity. Biodiesel de soja, produção doméstica e internacional Diante do sistema capitalista, onde a energia, ou melhor, o combustível é o que move o mundo, a problemática relacionada ao aquecimento global “saltou de um tema entre muitos outros no rosário ambientalista para a condição de maior desafio do século 21” (HOGAN, 2009). Logo, os países têm procurado nos últimos anos promover um desenvolvimento sustentável, baseado na busca por combustíveis que não produzam tantos gases poluentes à atmosfera; com isso, o aumento da produção nacional e mundial de biodiesel deverá modificar a composição das exportações brasileiras de óleo e farelo de soja, os quais vinham perdendo espaço na pauta de exportações do complexo soja; porém, esta produção ainda é incipiente.

Devido à grande disponibilidade de óleo de soja no Brasil, que é o insumo para a fabricação de biodiesel, a sua utilização é de suma importância para a implantação do Programa Brasileiro de Biodiesel, a partir de 2008, que é uma mistura compulsória de 2% do biodiesel ao diesel. Este programa visa à utilização de terras que não são utilizadas para a plantação de gêneros alimentícios. De acordo com dados do USDA, a produção de óleo de soja no ano de 2006/2007 foi de 5,9 milhões de toneladas, dos quais 2,6 milhões de toneladas foram exportados como óleo bruto. Já em 2008 este excedente de óleo pôde ser utilizado para a produção de biodiesel, beneficiando o Brasil, uma vez que este deixou de importar 800 milhões de litros de diesel por ano. Finalizando a análise do mercado brasileiro, vê-se que o processo de produção de biodiesel vem ganhando importância, porém, ainda é incipiente; demanda mais atenção dos órgãos reguladores como incentivadores da produção, por meio da adoção de políticas a exemplo da francesa, que prevê a utilização de biocombustíveis na proporção de até 30% para os veículos de frotas cativas, notadamente o transporte público coletivo. Referências Bibliográficas AGÊNCIA DE FOMENTO DO ESTADO DA BAHIA (DESENBAHIA). Boletim Anual do Mercado de Grãos: Soja. Safra 2008/2009 e Expectativas para 2009/10. Disponível em: <http://www.desenbahia.ba.gov.br/uploads/0906201109563437Rel_Soja_2009.pdf>. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE ÓLEOS VEGETAIS (ABIOVE). Complexo Soja - Balanço Oferta / Demanda. Disponível em: <http://www.abiove.com.br/ balanco_br.html>. AMARAL, D. F. Desmistificando o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel – A Visão da Indústria Brasileira de Óleos Vegetais. Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais - ABIOVE, São Paulo, Agosto, 2009, 21p. INTEGRAÇÃO DAS CADEIAS PRODUTIVAS DE SOJA E BIODIESEL: UM PARALELO INTERNACIONAL PARA O BIOCOMBUSTÍVEL BRASILEIRO Congresso Nacional de Excelência em Gestão CNEQ/2012

João Carlos Mucciacito Químico da CETESB, Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo, professor no SENAC, no Centro Universitário Santo André - UNI-A e na FAENG Fundação Santo André E-mail: joaomucciacito@yahoo.com.br Neo Mondo - Setembro/Outubro 2012

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Terence Trennepohl

Correspondente especial de Boston – Estados Unidos

O ETANOL brasileiro e os Estados Unidos

A

despeito do que bradam ferozes e radicais vozes em prol de um meio ambiente saudável e por vezes imaculado, o Brasil sabe como preservar suas riquezas florestais. Temos atualmente 14,7% do nosso território pertencente a reservas indígenas, ou seja, 1.250.000 km2; possuímos, ainda, 13,7% destinado a reservas ambientais protegidas, totalizando 1.170.000 km2. Portanto, 28,4% do território nacional (sem contar áreas de preservação permanente e áreas de Reserva Legal) são intocáveis por determinação legal. Demais disso, é de se ressaltar que somos o segundo maior país do mundo em termos de preservação florestal, com 477 milhões de ha (hectares) aproveitáveis, ficando somente atás da Rússia, com 800 milhões de ha (sendo mais da metade dessa área inaproveitável, em razão das baixas temperaturas), e seguido do Canadá, com 280 milhões de ha. Segundo recente pesquisa da FAO, o país apresenta a maior área para ser utilizada para expansão do setor agrícola, seguido dos Estados Unidos e Rússia. Vale mencionar também que China e Índia, nossas parceiras no BRIC, não possuem mais áreas que possam ser utilizadas para expansão de seu agronegócio. Pois bem, a despeito das inúmeras, e muitas vezes desarrazoadas, restrições administrativas impostas pela legislação ambiental brasileira, e comumente seguida pela desmedida busca por preservação ambiental a qualquer custo de um Ministério Público desapegado do senso de desenvolvimento em um país carente de infraestrutura, e apegado à literalidade da lei, continuamos a ser o maior produtor mundial de açúcar, café e 40

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suco de laranja, e o segundo produtor mundial de etanol, soja e carne. Isso tudo atuando em consonância com as restrições legais impostas, no mais das vezes, décadas atrás e sem o compromisso com o desenvolvimento. Estudo recente da Agência Ambiental Americana (EPA) mostrou que o etanol da cana-de-açúcar é 61% menos poluente que a gasolina, enquanto o etanol do milho apenas 21%. Essa foi uma vitória técnica expressiva para que o agronegócio brasileiro, principalmente representado pelo setor sucroalcooleiro, tivesse motivos para comemorar. Nesse cenário, a produção mundial de etanol, nos últimos dez anos, saltou de 30 bilhões de litros em 2000 para 90 bilhões de litros em 2009. Alguns números comparando Brasil e Estados Unidos assustam. Enquanto temos aproximadamente 36 milhões de veículos, os Estados Unidos contam com uma frota de 250 milhões. Enquanto nosso consumo de gasolina é de 4 bilhões de galões por ano, os Estados Unidos consomem 140 bilhões! Pois bem, no começo deste ano a Universidade de Harvard publicou dois estudos dando conta das vantagens da implantação da cana-de-açúcar em países subdesenvolvidos como forma de um upgrade econômico e social nessas regiões pobres. Além disso, propôs a adoção de uma maior mistura de etanol à gasolina americana (que nos Estados Unidos é de 5% e no Brasil voltou a ser de 25%). Lembre-se que desde 2 de maio deste ano, a proporção de álcool anidro na gasolina voltou a ser de 25%. Desde 1º de fevereiro, o patamar tinha sido reduzido para 20%, cumprindo a determinação de uma portaria, válida por 90

dias, dos Ministérios da Agricultura, de Minas e Energia, da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Enfim, esses estudos são importantes formadores de opinião na comunidade científica e empresarial americana e estão sendo largamente divulgados por aqui. Como nenhum país do mundo conseguiu implantar um sistema tão eficiente de substituição da gasolina por um combustível menos poluente, como o uso do etanol no Brasil, somos um exemplo a ser seguido. Demais disso, se a gasolina usada mundialmente fosse substituída por 5% de etanol, o Brasil teria de aumentar sua produção de 28 milhões de litros em 2010 para 102 bilhões de litros até 2020. Outro mercado importante é a União Europeia, que, seguindo a orientação estabelecida em 2007, ao pretender substituir 5,6% de sua frota por veículos flex-fuel, precisará de aproximadamente 18 bilhões de litros nos próximos anos. Diante de todos esses dados, só nos resta esperar o movimento do mercado e aproveitar as oportunidades. O Brasil, portanto, há de estar preparado para essas oportunidades, que se avizinham num horizonte não muito distante. Terence Trennepohl Sócio de Martorelli e Gouveia Advogados Senior Fellow na Universidade de Harvard Doutor e Mestre em Direito (UFPE) Bolsista da CAPES E-mail: tdt@martorelli.com.br

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Terence Trennepohl

Special Correspondent from Boston, USA

Brazilian ETHANOL and the United States

I

n spite of radical voices fiercely crying out in favor of a healthy and immaculate environment, Brazil knows how to preserve its forest riches. We now have 14.7% of our territory belonging to Indian Reserves, accounting for 1.25 million km2, with an additional 13.7% designated for protected environmental reserves, representing an additional 1.17 million km2. Therefore, in total, 28.4% of the country’s territory (excluding permanent preservation areas and legal reserve areas) are untouchable by law. In fact, we are the second largest country in the world in terms of forest preservation, with 477 million ha (hectares) of usable protected land, only behind Russia, with 800 million ha (of which more than half is unusable because of the low temperatures) and ahead of Canada which preserves 280 million ha. According to a recent survey conducted by FAO, the country has the largest land area potential for agricultural expansion, followed by the United States and Russia. It is also worth mentioning that China and India, our BRIC partners, do not have any land areas left that could be used for expanding their agribusiness. As such, and in spite of the numerous and often unreasonable, administrative restrictions imposed by Brazilian environmental legislation, commonly enforced by the Federal Prosecutor’s Ministry through an unbridled pursuit of environmental preservation at any cost, with an exacerbating literal interpretation of the law and, most importantly, without the sense of development of a country lacking infrastructure, we remain the world’s largest producer of sugar, coffee, and

orange juice, and the second largest producer of ethanol, soy, and meat products. And all this production acts in line with the legal restrictions in force, which, in most cases, were imposed decades ago without any reasonable commitment to development. A recent study published by the U.S. Environmental Agency (EPA) showed that ethanol from sugar cane is 61% less polluting than gasoline, while corn ethanol is only 21%. This represents a significant victory for the Brazilian agribusiness and a reason to celebrate the recognition of Brazilian technology, especially in the development of the sugar-based ethanol sector. In this scenario, world production of ethanol in the last ten years, jumped from 30 billion liters in 2000 to 90 billion liters in 2009. Some figures comparing the productivity of the United States and Brazil are quite frightening. While we have approximately 36 million vehicles, the United States has a fleet of 250 million. While our consumption of gasoline is 4 billion gallons a year, the United States consumes 140 billion gallons! Earlier this year Harvard University published two studies on the benefits of deploying sugar cane production in underdeveloped countries as a means of fostering an economic upgrade and social development in these poor regions. In addition, the studies proposed the adoption of a higher mix of ethanol to U.S. gasoline (which in the U.S. is set at 5% and in Brazil is, once again, 25%). Let’s also remember that since May 2nd of this year, the proportion of ethanol in gasoline has been increased back to 25%. Since February1st, the levels had been reduced to 20%,

fulfilling the determination of a federal decree, valid for 90 days, issued by the Ministries of Agriculture, Mines and Energy, Finance and Development, Industry and Foreign Trade. Finally, these studies act as important opinion makers in the American business and scientific communities and are being widely disseminated here. Since no country in the world is able to deploy a more efficient system to replace gasoline with a less polluting fuel such as ethanol, as is the case in Brazil, this should be used as an example to be followed. In addition, if worldwide gasoline usage were partially replaced by a 5% ethanol mix, Brazil would have to increase its production of 28 million liters (2010) to 102 billion liters by 2020. The European Union is another important market, which, following the guidelines established in 2007, intends to substitute 5.6% of its motorized fleet with flex-fuel vehicles, and to do so, will require approximately 18 billion liters of alternative energy sources in the coming years. In light of the data mentioned above, all we can do is wait for market forces to take advantage of the opportunities. But to do so, Brazil needs to be prepared to capitalize on these opportunities, which, quite frankly, are quickly approaching on the distant horizon. Terence Trennepohl Partner of Martorelli & Gouveia Advogados Senior Fellow at Harvard University PhD and Masters in Law (UFPE) CAPES Grant Holder E-mail: tdt@martorelli.com.br Neo Mondo - September/October 2012

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A queda de Faetonte de Jan van Eyck

Marcio Thamos

Mitologia Clássica: Faetonte e o carro do Sol

F

aetonte era filho de Apolo, o deus Sol, e muito se orgulhava disso. Mas, na verdade, não conhecia o pai e só sabia de sua ascendência divina porque a mãe assim lhe dissera. Um dia, não parava de se gabar, achando-se muito superior, já que era filho de um deus tão importante, quando um colega lhe jogou na cara estas palavras: — Você é um bobo mesmo! Acredita em tudo que sua mãe fala e fica aí pensando que é o tal... Faetonte sentiu-se envergonhado e teve que engolir o desaforo, pois, de fato não tinha como provar que Apolo era seu pai. Meio ressabiado, procurou a mãe e depois de relatar o acontecido assim lhe pede: — Se sou mesmo filho do Sol, mãe, me dê alguma prova! Que eu possa ao menos rebater a calúnia que sofri! E ela, ao mesmo tempo indignada e piedosa, lhe responde: — Juro, meu filho, que não menti para você! É celeste, sim, e luminosa a sua origem. Não é difícil chegar à casa de seu pai. Nem é distante da nossa a terra onde ele nasce todos os dias. Se é o que deseja, vá até lá e pergunte a ele você mesmo. O rapaz não se conteve de alegria. Sem hesitar, percorre a África, atravessa a Índia 42

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e logo chega à terra do Sol Nascente. Ali, o palácio do Sol erguia-se, majestoso e reluzente, no alto de uma colina escarpada. Ao entrar, Faetonte vê o pai coberto por um manto de púrpura. Para à distância, ofuscado com tanta luz. E Apolo, de seu trono resplendente de esmeraldas, lhe pergunta a que viera. — Ó Luz mais brilhante que ilumina o mundo, meu pai, se é que assim posso chamá-lo, eu queria uma prova de minha origem, uma prova que não deixe dúvida de que sou seu filho. Apolo, emocionado, tirando da cabeça a fulgurante coroa de raios que usava, chamou o rapaz para perto de si e num caloroso abraço lhe disse: — Faetonte, meu filho, é verdade o que sua mãe lhe contou, sou seu pai, e não há por que negar. Para que você não fique com nenhuma dúvida, escolha um presente, peça o que quiser, e juro pelas águas do Estige que eu lhe darei. O Estige é um rio subterrâneo que percorre o mundo dos mortos. O juramento por suas águas era solene entre os deuses e significava não poder de modo algum voltar atrás na palavra dada. Por isso Apolo imediatamente se arrependeu da promessa que fizera, pois, mal acabara de falar, o jovem disparou:

— Eu quero dirigir o seu carro por um dia e guiar os cavalos voadores! — O que me pede, Faetonte, é a única coisa que eu gostaria de lhe negar – retrucou o deus, aflito. — Por favor, meu filho, retire esse pedido! Nem mesmo os deuses imortais conseguiriam guiar o carro do dia. Só eu sei como fazê-lo, e mesmo para mim não é fácil a tarefa. Peça outra coisa, seja o que for, e eu lhe darei, mas não me force a consentir num perigo tão grande para você. Reconheça na minha preocupação como sou, sem dúvida, o seu verdadeiro pai. Apolo adiou a partida o quanto pôde, mas o dia precisava nascer, e Faetonte se mostrava irredutível. A Aurora chegou para atrelar os cavalos ao carro, e não houve jeito de convencer o rapaz a desistir da ideia temerária. Sorrindo, ele assumiu as rédeas e açulou os animais. A subida era lenta e excitante. Mas quando alcançou o alto do céu, o jovem se deu conta de que não tinha o mínimo controle do carro. Os corcéis bateram em disparada entre as constelações, galopando no vazio, fora do trilho costumeiro. Ora subiam muito e ameaçavam incendiar as moradas dos deuses, ora davam rasantes sobre a terra, secando rios e destruindo colheitas inteiras. Tarde demais, Faetonte lamentou-se da própria teimosia. Apavorado, entregouse ao medo e à sorte incerta e, trazendo consigo a pura luz da vida, acabou por encontrar a noite eterna.

Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr, credenciado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da mesma instituição. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica. E-mail: marciothamos@uol.com.br

Neo Mondo - Setembro/Outubro 2012

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Espaço Gourmet Villa Natural Alexandra Midori Morita Zanoli

Tabule de Quinoa Ingredientes

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250 gramas de Quinoa grãos 400 gramas de Tomate 250 gramas de Pepino Japonês 1 Cebola Roxa Zathar a gosto Sal marinho a gosto Uma pitada de Hortelã seco 3 colheres de Hortelã fresco 3 colheres de Salsinha Suco de 1 Limão Azeite extra-virgem a gosto

Modo de fazer:

Cozinhe a quinua com água, deixe esfriar e reserve, corte em cubos pequenos o tomate, pepino e a cebola, reserve. Pique o hortelã e a salsinha, reserve. Junte todos os ingredientes.

BENEFICIOS DA QUINOA Quinoa ou Quinua Real é um grão com alto poder nutritivo, possui baixo teor de colesterol, proteína de alta qualidade, quantidade significativa de fibras e grandes quantidades de vitaminas e minerais. O grão regula o intestino, aumenta a disposição, retarda o envelhecimento, recupera as fibras musculares, combate a anemia, problemas urinários e doenças do fígado. Também controla os níveis de colesterol, glicemia e triglicérides no sangue. Uma boa aliada para as mulheres, pois combate os sintomas da TPM e da menopausa, auxilia na dieta e previne o câncer de mama, osteoporose, doenças do coração e outras alterações decorrentes da falta de estrogênio.

Villa Natural Restaurante Rua Cel. Ortiz, 726 – V. Assunção – Santo André (11) 2896-0065 – www.villanatural.com.br

Formada em Educação Física Pós-graduada em Nutrição Desportiva Pós-graduada em Ginástica Postural Corretiva Professora de Yoga Chef e Sócia do Villa Natural Neo Mondo - Outubro 2008

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Revista Neo Mondo - Edição 50  
Revista Neo Mondo - Edição 50  
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