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NeoMondo

www.neomondo.org.br

um olhar consciente

Ano 4 - Nº 40 - Março 2011 - Distribuição Gratuita

ÁGUA

...até quando? 10 04

Buckeridge

Veneza

Atento à lição de casa

Sob o signo da água

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Águas de janeiro, fevereiro, março... 26 44

“Rios aéreos”


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Neo Mondo - Maio 2008


Neo Mondo - Maio 2008

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Você já sabe que um destes é um grande responsável pelo aquecimento global.

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Neo Mondo - Maio 2008


Mas você sabia que o outro também é? De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a agricultura animal é uma das principais responsáveis pela mudanças climáticas. No Brasil, a indústria da pecuária é também uma das maiores responsáveis pelo desmatamento. Reduzir o seu consumo de carnes, laticínios e ovos é uma das formas mais eficazes de reduzir a sua contribuição para as mudanças climáticas. Procure saber mais sobre os impactos ambientais da criação industrial de animais, o comprometimento do bem-estar destes animais e o que você pode fazer para ajudar.

Proteção e respeito a todos os animais

hsi.org/mudancasclimaticas

Neo Mondo - Maio 2008

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PROGRAMA

4 ELEMENTOS TUDO DE BOM, GALERA!!!

Brigite - Terra

Raul - Ar

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Neo Mondo - Maio 2008

Enrico - Fogo

Victória - Água


Um ousado “real life show” vivenciado no litoral norte paulista diariamente na telinha do seu computador em tempo integral, mostrando o dia- a-dia de 4 adolescentes com idades entre 13 e 17 anos. A missão deles é conquistar as pessoas e salvar o planeta, neste programa que fala a linguagem dos jovens apontando as suas principais preocupações, seus sonhos, sem fugir da realidade que os cerca. Com muita aventura (trilhas, cachoeiras, mergulhos) e esportes radicais (surf, skate, asa delta, windsurf), os 4 elementos - além de educativo - é um programa com base no tripé da sustentabilidade que é a conscientização, mobilização e atitude.

Você precisa fazer a sua marca chegar a este público seleto. É o que oferecemos neste programa, cuja oportunidade é imperdível pelo que representa por ser um marco na tv mundial (legendas em inglês e espanhol).

PARA MAIORES INFORMAÇÕES,

LIGUE: (11) 4994-1690.

Neo Mondo - Maio 2008

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Sustentabilidade na Construção Civil é um termo que faz muito barulho. (Mas fique tranquilo que além de sustentável, nossa porta é acústica.) Multidoor. Liderança absoluta em portas com qualidade certificada.

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Neo Mondo - Julho 2008

PRODUTOS DE FLORESTAS PLANTADAS

Ceflor


w

Seções Perfil 10 Marcos Buckeridge Atento à lição de casa

Editorial meio ambiente 15 Artigo – Márcio Thamos Prometeu e a criação do homem

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Biocombustíveis Desfazendo equívocos Potencial do Brasil ainda não é aproveitado 20 Artigo – Terence Trennepohl Iniciativa privada e ISE/BOVESPA Energia Limpa 22 LED Também no Trânsito Redução no gasto de energia

25 Artigo – Rosane Magaly Martins Emprego para sessentões

26 Artigo – Dr. Marcos Lúcio Barreto Áreas contaminadas 28 Artigo – Manuel Strauch e Greice Moreira Pinz Análise da PNRS

36 Artigo – João Carlos Mucciacito Água - Essência da vida

Veneza Sob o signo da água

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59 Artigo – Dilma de Melo Silva Água: Fonte da vida, recurso esgotável

Expediente Diretor Responsável: Oscar Lopes Luiz Diretor de Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586) Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Marcio Thamos, Dr. Marcos Lúcio Barreto, Terence Trennepohl, João Carlos Mucciacito, Rafael Pimentel Lopes, Denise de La Corte Bacci, Dilma de Melo Silva, Natascha Trennepohl, Rosane Magaly Martins e Vinicius Zambrana Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586), Rosane Araujo (MTB 38.300) e Antônio Marmo (MTB 10.585) Estagiário: Bruno Molinero Revisão: Instituto Neo Mondo Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Diagramação: Renata Rodrigues Vialli Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo

O Brasil possui cerca de 12% da água doce superficial existente no mundo, porém, sua distribuição é desigual pelo território nacional, concentrando-se principalmente na Bacia Amazônica.

TUDO POR UMA VIDA MELHOR. Tenha uma ótima leitura!

Reconstrução ou Prevenção Paraíso ocupado sem critérios

Especial Água 54 Sem Defesa Brasil se confessa despreparado

Estudiosos preveem que em breve a água será causa principal de conflitos entre nações. Já existem sinais dessa tensão em áreas do Planeta como Oriente Médio e África. A quantidade de água doce no mundo estocada em rios e lagos, pronta para o consumo, representa 0,3% do total da água no Planeta. O restante dos 2,5% de água doce está nos lençóis freáticos e aquíferos, nas calotas polares, geleiras e outros reservatórios, como pântanos por exemplo.

Tudo isso e muito mais agora em NEO MONDO.

Especial Água

Coisas que eu vi 40 Humberto Mesquita As “Lenda das Águas” Especial Água 44 Águas de janeiro, fevereiro, março... “Rios aéreos”

Nesta edição, numa alusão ao Dia Mundial da Água, em 22 de março, preparamos um caderno especial para entender e traduzir os principais problemas e soluções relacionados a esse imprescindível recurso natural.

Nesta edição NEO MONDO conta com a participação da jornalista Camila Turriani Bertoldo, diretamente de Viareggio (Itália). Na matéria de estreia, nada melhor do que falar de como Veneza é a cidade que vive sob o signo da água e os esforços de seus governantes para conter a alta das marés, sem perder o charme e o glamour que a caracterizam e sua gente.

Especial Água

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Prezado leitor, é com satisfação que preparamos mais uma edição de NEO MONDO.

Oscar Lopes Luiz Presidente do Instituto Neo Mondo oscar@neomondo.org.br

Publicação Tradução: Efex Idiomas - Tel.: 55 11 8346-9437 Diretor de Relações Internacionais: Vinicius Zambrana Diretor Jurídico: Dr.Erick Rodrigues Ferreira de Melo e Silva Correspondência: Instituto Neo Mondo Rua Primo Bruno Pezzolo, 86 - Casa 1 Vila Floresta - Santo André – SP Cep: 09050-120 Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br redacao@neomondo.org.br trabalheconosco@neomondo.org.br Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Tel. (11) 4994-1690

A Revista Neo Mondo é uma publicação do Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/000100, reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº 08071.018087/2007-24. Tiragem mensal de 70 mil exemplares com distribuição nacional gratuita e assinaturas. Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição da revista e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo desta revista sem prévia autorização.

Presidente do Instituto Neo Mondo: oscar@neomondo.org.br Neo Mondo - Março 2011

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Perfil

Atento à

lição

Com produção e pesquisa sobre biodiesel a caminho, Brasil tem feito bom trabalho, em que o óleo de soja sai à frente por economia de escala Gabriel Arcanjo Nogueira

E

Arquivo Pessoal

nquanto expressões, como energia limpa e energia renovável, tornam-se corriqueiras, pelo menos em alguns meios mais bem informados, não são todos, porém, que se preocupam em saber de fato o que elas significam e suas implicações para o futuro da humanidade. No cenário nacional e no internacional, sobressaem iniciativas do mundo acadêmico-científico que podem nos ajudar a entender melhor a questão do biodiesel, por exemplo, vista como alternativa promissora de se alcançar a desejada sustentabilidade também na geração de energia, tanto a limpa quanto a renovável. Doutor nas Ciências Biológica e Molecular, Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo (USP), é um dos notáveis especialistas do País em questões desse porte. Pesquisou por 20 anos espécies nativas neotropicais no Instituto de Botânica de São Paulo e, a partir de 1995, entre outras atividades, voltou-se ao desenvolvimento de ferramentas biotecnológicas para ajudar no uso sustentável da biodiversidade. Período em que se produziram mais de 80 publicações especializadas. Marcos Buckeridge: desconexão entre governos e empresas provoca um atraso que pode custar muito caro ao País

Neo Mondo: Temos abordado com certa frequência a questão da geração de energia limpa ou energias renováveis. São, de fato, expressões equivalentes? Marcos Buckeridge: Não são termos equivalentes, mas são complementares. A energia é mais limpa na medida em que menores proporções de gases do efeito estufa são emitidos durante o seu uso. Já o termo energia renovável se refere ao tempo total de reciclagem de seus átomos (principalmente carbo10

Neo Mondo - Março 2011

Alterações climáticas “Como a floresta, incluindo espécies atlânticas e amazônicas, está respondendo

no, oxigênio e nitrogênio na atmosfera). A energia retirada dos compostos do petróleo não é considerada renovável porque, uma vez utilizados como combustível, seus átomos demoram milhares de anos para retornar à forma de petróleo novamente. Neo Mondo: Quais as fontes em que se pode obter melhor desempenho no desenvolvimento desse tipo de energia?

com relação à crescente concentração de dióxido de carbono na atmosfera” é outro foco de seus interesses, e na última década, seu grupo de pesquisa também se dedicou a entender como a cana-de-açúcar vai responder às alterações climáticas. Não é demais lembrar que a relevância desse estudo reside no fato de a cana ser atualmente uma das mais importantes culturas no Brasil, responsável pela produção de etanol. Buckeridge, desde 2009, é diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), em Campinas, e é também coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (INCT do Bioetanol), bem como vice-coordenador do programa CeProBio, dentro do programa FP7 da Comunidade Europeia. Incansável em suas incursões científicas, é um dos autores líderes do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a ser apresentado em 2014. Pelo exemplo de nosso entrevistado neste Perfil, não dá para dizer que estejamos mal de empenho acadêmico-científico no trato das questões afetas à pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis, em que se insere o biodiesel.

Marcos Buckeridge: O etanol, por exemplo, pode ser produzido a partir de açúcares feitos pelas plantas de cana, e quando o combustível é utilizado, o CO2 emitido durante o seu uso será rapidamente reutilizado pelas plantas de cana durante o processo de fotossíntese. A planta fará açúcar novamente, e nós produziremos etanol em seguida. Assim o ciclo se fecha num período de meses ou anos, e não de milhares de anos, como ocorre no caso do petróleo.


de casa Neo Mondo: Há algum estudo específico dessas alternativas citadas, no âmbito da USP ou de sua área de atuação, como cientista-pesquisador, do qual possa nos adiantar alguns aspectos relevantes? Marcos Buckeridge: O Brasil possui um conjunto de iniciativas mundialmente reconhecidas no avanço das tecnologias de produção de etanol a partir de cana-de-açúcar. Em São Paulo, criamos o programa BioEn, da Fapesp, em que um investimento multimilionário em pesquisa está sendo feito em mais de uma centena de projetos. O CNPq e a Fapesp financiam o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (INCT do Bioetanol), que congrega 40 laboratórios em todo o Brasil, dedicados à pesquisa para melhorar o etanol de primeira e segunda gerações.

Neo Mondo: Estamos então no rumo certo? Marcos Buckeridge: No momento, a maioria do biodiesel ainda é feita a partir de óleo de soja, pois este tem escala e é economicamente viável. No entanto, a pesquisa em biodiesel é bem mais forte nos Estados Unidos, que desejam produzir o biocombustível a partir de algas. No caso do etanol, o Brasil desenvolveu variedades de cana-de-açúcar ao longo de dezenas de anos e chegou a plantas extremamente produtivas. Isto foi feito mais por causa do açúcar, mas como este é a base para a produção de etanol - pois as leveduras que produzem o álcool, o fazem a partir do consumo de açúcar -, o Brasil foi competente a partir da década de 70 em desenvolver usinas de álcool acopladas à produção de açúcar. Já no caso do biodiesel, a escala é um problema. Há plantas candidatas, como a jatrofa e a mamona, mas ainda vai demorar muito para torná-las culturas agrícolas produtivas na escala em que necessitamos. O mesmo vale para as algas.

Neo Mondo: Ou seja, a comunidade acadêmico-científica faz, e bem, a sua parte... Marcos Buckeridge: Há um projeto recente em colaboração com a Co-

munidade Europeia (programa FP7), em que vários grupos de cientistas brasileiros (CeProBio) e europeus (SUNLIBB) se reuniram para entender de forma comparada a canade-açúcar e o miscantus, espécie de gramínea que os europeus querem utilizar para a produção de etanol de segunda geração. No início de 2010, o governo federal montou o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que visa acoplar a ciência básica às engenharias agrícola e industrial de forma inédita no país. O foco principal do CTBE para os próximos 4 anos será produzir a tecnologia para o etanol de segunda geração, que é o etanol feito a partir da celulose e aproveita o bagaço e a palha da cana. Os avanços têm sido muito bons. Meu grupo na USP já determinou a estrutura química dos polímeros da parede celular de bagaço e palha de cana, e agora estudamos os detalhes finos dessas estruturas junto à Universidade de Cambridge, na Inglaterra. (*) Jose Assenco

Neo Mondo: Como ficam os biocombustíveis e, em particular, o biodiesel no cenário nacional e mundial, e quais as perspectivas de podermos ser um país de reconhecida eficácia na produção deles? Marcos Buckeridge: A área de produção de biocombustíveis é provavelmente a única em que o Brasil pode ser considerado um líder mundial na produção e na pesquisa. No caso do etanol, isto é muito mais evidente do que no do biodiesel. O que é importante, porque para que um país seja líder mundial em algum setor, é uma grande vantagem ter toda a cadeia de produção - desde a agrícola até a produção, distribuição e comercialização dos produtos. O Brasil já é eficaz na produção de etanol e está se tornando eficaz na produção de biodiesel. A produção e pesquisa sobre o biodiesel ainda estão a caminho, e o Brasil tem feito um bom trabalho.

“Em algas marinhas temos pesquisa de bom nível e cientistas excelentes; investimento deve ser bom e focado” Neo Mondo - Março 2011

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Cortesia UNICA/ Foto: Niels Andreas

Perfil

Etanol destilado, de alta pureza, é que abastecerá nossos carros no futuro Neo Mondo: O que ilustra a importância de haver o intercâmbio com outras instituições. Que outros resultados o senhor pode citar? Marcos Buckeridge: Começamos a usar anticorpos monoclonais em colaboração com a Universidade da Geórgia (EUA) e em breve teremos um mapa dos polímeros em toda a planta de cana. Chamamos isto de “atlas da cana”. No CTBE, junto ao Laboratório Nacional Luz Síncrotron, já estamos começando a “visualizar” as moléculas e tentando entender como os polímeros interagem entre si. São iniciativas importantes, pois são a chave para que tenhamos acesso a desmontar a parede celular para obter os seus açúcares mais simples para, depois, dá-los para as leveduras fermentarem e produzirem etanol. Ao mesmo tempo grupos de laboratórios da USP, da Unicamp, da Universidade Federal de Viçosa e do Instituto Agronômico de Campinas se dedicam a melhorar ainda mais as plantas de cana, para que produzam mais açúcar e fibra. Outros, na USP e Unicamp, em colaboração com diversos laboratórios no mundo, se dedicam a sequenciar o genoma da cana e a desenvolver processos eficazes de transformação genética dessa planta. O avanço nestas áreas é relativamente lento, mas tem sido sólido, e já há diversos laboratórios no Brasil que conseguem transformar geneticamente a cana. Neo Mondo: Sempre é possível avançar, mesmo em alternativas que estão à frente... 12

Neo Mondo - Março 2011

Marcos Buckeridge: Os melhoristas já conseguem produzir marcadores no DNA que indicam as melhores plantas a serem utilizadas e, com isto, encurtam cada vez mais o tempo necessário para produzir novas variedades. Paralelamente, há um grande número de laboratórios que se dedica à prospecção de enzimas (proteínas que quebram os polímeros e produzem açúcares livres para as leveduras usarem) de micro-organismos e plantas que sejam capazes de digerir a celulose com eficiência e, assim, produzir os açúcares necessários para se obter o etanol. Dentre estes laboratórios, alguns já estão realizando a engenharia das enzimas. Neo Mondo: Quais as principais vantagens que podem ser obtidas com essas pesquisas? Marcos Buckeridge: Na USP de Ribeirão Preto e no CTBE já produzimos enzimas artificiais, que são mais eficientes no chamado processo de hidrólise. No meu grupo na USP, trabalhamos em processos que a própria cana usa para degradar suas paredes celulares. São processos similares aos que se observam em frutos quando amadurecem. Estamos interessados em como e quais genes são ativados; quais enzimas são produzidas; e como elas agem. Isto provavelmente nos levará ao que chamamos de biologia sintética, em que se altera o metabolismo de um organismo vivo (neste caso, a planta) para fazer com que ele produza o resultado que queremos. Trabalhando em conjunto, grupos de engenheiros testam essas enzimas em condições similares às do pro-

cesso industrial, e em breve teremos resultados suficientes para começar testes-piloto na indústria. Engenheiros também trabalham para tornar o plantio e colheita da cana mais eficientes e eficazes. Se conseguirmos produzir mais etanol a partir de bagaço e palha - e no caso desta última ainda aprendermos como colher a cana com precisão e eficiência e ainda aprendermos quanto deve ser deixado de palhada no campo, para que o impacto sobre o solo e o meio ambiente sejam os mínimos possíveis -, teremos atingido um alto nível de inovação. Teremos um biocombustível não apenas renovável, mas sustentável ambientalmente. Neo Mondo: O que deixaria o País numa situação privilegiada, não? Marcos Buckeridge: A estratégia de inovação se complementa com estudos sobre como utilizar a cana como fonte de novos materiais, a exemplo de plásticos, fármacos, cosméticos e outros produtos de alto valor agregado. Com tudo o que está acontecendo, se houver continuidade no financiamento tanto pelo governo como por empresas, no futuro o Brasil não terá mais usinas de açúcar e álcool, mas sim as chamadas biorrefinarias. Finalmente, é preciso considerar a excelente atuação que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vem tendo na área. Há a preocupação com o fato de que o Brasil precisa montar empresas no setor que sejam competitivas. As chances estão aí, com conhecimento científico e tecnológico. Basta observar e aproveitar-se disso em momentos estratégicos. Neo Mondo: Muito se fala, em algumas áreas, da importância de parcerias público-privadas. A seu ver, o que pode ser feito ou melhorado quando se trata de aproximar a comunidade acadêmico-científica, governos e empresas na produção de biocombustíveis e em particular de biodiesel? Marcos Buckeridge: Este é um momento em que essas parcerias são cruciais. A ciência brasileira sempre esteve com foco na chamada ciência básica, que é aquela que produz novas descobertas e não tem um compromisso firme com a aplicação, pelo menos num primeiro momento. No Brasil, os cientistas aplicados sempre trabalharam de forma


Neo Mondo: Como estamos em relação a outros centros de pesquisa internacionais? Marcos Buckeridge: Em países pobres que se interessam por ciência, normalmente os pesquisadores se dedicam a ramos da pesquisa que sejam mais baratos. Também se pode imitar, que é o que o Brasil fez durante muito tempo. Depois que alguém já fez a descoberta fundamental, podemos usar um outro sistema e repetir os experimentos e ver se os resultados são os mesmos. Com isso esta “ciência do terceiro mundo” auxilia bastante os países mais ricos, pois se alguma descoberta não tem uma base muito boa, rapidamente o problema é detectado e anunciado em papers, que são públicos, e todos podem ver e avaliar. Enquanto isto, nos países que fazem a “ciência de primeiro mundo” os verdadeiros descobridores aperfeiçoam os seus processos e os conectam de forma eficaz à indústria. O que faz o conhecimento básico ser catapultado por um sistema de inovação, gerando um produto de alto valor agregado, que nós, no terceiro mundo, iremos comprar. Neo Mondo: O que falta para nos inserirmos neste primeiro mundo? Marcos Buckeridge: Com o investimento feito nos últimos 20 anos no Brasil, principalmente pela Fapesp e, mais recentemente, pelo CNPq e agora pelas FAPs (fundações de apoio a pesquisa) de outros estados, o Brasil dá sinais de estar começando a aprender como fazer esta conexão. Durante anos, vimos discutindo como fazer isso. Discussões que são importantes e fazem parte do aprendizado, mas em algum momento é preciso colocar o sistema em prática e aprender com os erros. Para isso é preciso investir. O governo brasileiro (estaduais e federal) tem feito a sua parte (mas deveria investir mais, principalmente em pesquisa básica), e o setor empresarial está se aproximando rapidamente. Esta conexão é complexa, uma vez que a agilidade

Já produzimos enzimas artificiais... se houver continuidade no financiamento, no futuro chegaremos às biorrefinarias

do governo não é a mesma que a das empresas - e este tem sido provavelmente o principal empecilho na conexão. Por exemplo, enquanto os pesquisadores do governo precisam aguardar licitações que podem demorar meses e gastam uma verdadeira fortuna para um processo ineficaz, as empresas têm grande agilidade. Elas acabam se aborrecendo com isso, pois precisam de agilidade para entrar rapidamente no mercado e começar a produzir. Este é realmente um grande problema na conexão, que poderia ser facilmente sanado se houvesse vontade política para tal. Como há uma corrida tecnológica para os biocombustíveis, esta desconexão entre os sistemas governamental e empresarial causa um atraso que poderá custar caro ao Brasil, pois o grande competidor são os Estados Unidos, que investem muito e são muito ágeis para transferir o conhecimento da pesquisa

básica para a aplicação. Esta deve ser uma ação governamental, que tem que ser também muito ágil. Resta ao Brasil, portanto, ser mais veloz para compensar o menor investimento. Neo Mondo: O senhor tem algo a falar sobre as perspectivas do pinhão-manso como uma das fontes que pode resultar na produção de biodiesel? E como ficam, nesse caso, as algas marinhas? Marcos Buckeridge: Há iniciativas de pesquisa com pinhão-manso no Brasil, mas ainda estão muito longe do estágio em que estamos com a canade-açúcar. O problema com o pinhãomanso é que é uma espécie de planta ainda não domesticada do ponto vista agronômico, e isto se leva muito tempo para conseguir, pois temos que aprender como a planta cresce, como produz sementes, quais doenças são as mais importantes etc.

Foto: Wikipédia

separada e sem (com raras exceções) comunicação com os cientistas básicos. Este sistema desconectado tem gerado bons resultados, intrinsecamente falando, mas muito pouco em termos de inovação, que seria o desenvolvimento de um produto e, subsequentemente, de uma indústria para tê-lo em um mercado apto a comprá-lo.

“O pinhão-manso é uma espécie de planta ainda não domesticada do ponto de vista agronômico... temos que aprender sobre ela” Neo Mondo - Março 2011

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Cortesia UNICA/ Foto: Divulgação

Perfil

Produção de biocombustíveis exige altos investimentos em usinas qualificadas

No caso das algas marinhas, temos pesquisa de bom nível, mas o investimento americano nesta área tem sido enorme, tanto na pesquisa básica como na pesquisa integrada à indústria. Me parece muito difícil que o Brasil consiga acompanhar os americanos na produção de biodiesel destes dois organismos. Apesar de contar com excelentes cientistas na área, o Brasil não apresenta a tradição que tem no setor de cana, com uma indústria forte. A Petrobrás parece estar interessada e tem planos para o biodiesel. Isto é uma grande força, pois é uma das empresas mais importantes em energia que temos no Brasil e no mundo. Se o investimento for bom e focado, acho uma boa opção, pois o Brasil pode consolidar-se como produtor de energia renovável em várias frentes e não somente no etanol. Por outro lado, se os investimentos forem limitados, temos que pensar bem se ter várias iniciativas ao mesmo tempo não seria dividir a nossa força e perder em todas as frentes. Neo Mondo: Na sua avaliação, a sociedade já acordou para a necessidade de mudar seus hábitos de consumo, e o que falta para aumentar essa consciência socioambiental? Marcos Buckeridge: A sociedade brasileira vem acordando gradativamente para as questões ambientais durante os últimos 40 anos e, de forma muito 14

Neo Mondo - Março 2011

mais intensa, nos últimos 10 anos. O Brasil hoje pode ser considerado um dos países em que a conscientização ambiental é muito boa em relação à maioria dos países. Isto pode sim ser considerado como um “acordar”. Por outro lado, em uma sociedade capitalista, o indivíduo irá olhar o seu consumo também do ângulo econômico. Eu costumo dizer que a consciência ambiental vai até o ponto em que a consciência econômica permite. Neo Mondo: O que compete a governos e empresas fazerem? Marcos Buckeridge: Não devemos exigir apenas do cidadão que este tenha hábitos de consumo ambientalmente conscientes. Os empresários têm pelo menos metade da responsabilidade. Quero dizer com isso que, se as empresas não oferecerem produtos que tenham ao mesmo tempo um bom preço para o consumidor e que estes produtos tenham sido feitos numa cadeia ambientalmente adequada, o consumidor simplesmente não irá comprar. No caso dos biocombustíveis, temos a famosa relação de 70% do preço do álcool quanto ao da gasolina. Temos

que trabalhar em pesquisa para tentar diminuir os efeitos da safra sobre o preço do etanol, senão o consumidor irá usar a gasolina, caso seu bolso seja atingido. No médio prazo, temos que melhorar a nossa cultura de planejamento (de médio e longo prazos), pois é assim que funciona a consciência ambiental: ela é a compreensão dos efeitos de médio e longo prazo do que estamos fazendo neste momento. Nesse sentido, um subsídio ao etanol de segunda geração poderia ser de grande ajuda para que o Brasil consiga consolidar a sua tecnologia. Isto já foi feito antes na área de etanol de cana. Neo Mondo: Por favor, deixe um último, mas não menos importante, recado para nossos leitores. Marcos Buckeridge: Aos que quiserem aprofundar um pouco mais em divulgação relacionada ao que eu comentei, podem visitar a minha coluna no site da Revista Pesquisa Fapesp: http://revistapesquisa.fapesp. br/?sec=76&type=md&nb=1&lg= Índia desenvolve biocombustível a partir de algas marinhas e do pinhão-manso plantado em regiões áridas.

Para saber mais sobre programas, projetos e centros de pesquisa citados na entrevista, acesse: http://www.fapesp.br/materia/3254/pesquisa-para-inovacao/bioen-fapesp.htm http://www.inctdobioetanol.com.br/index.php http://www.bioetanol.org.br/index.php

(*)

http://www.lafieco.com.br/


Mitologia Clássica:

Prometeu e a criação do homem Prometeu leva o fogo à humanidade, tela de Heinrich Friedrich Füger de 1817

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epois que o mundo estava pronto e organizado, nenhuma região ficou desabitada. As feras ocuparam as florestas, as aves e os ventos preencheram todo o ar, as águas reluziram com os peixes, as terras se cobriram de animais, os astros e os deuses colocaram-se no céu. Mas um primo-irmão de Júpiter, mais esperto e clarividente do que todos que viviam naqueles tempos primordiais, notou que esse mundo divino, sendo ainda tão recente, não podia estar completo. Prometeu tinha o dom de tudo ver antecipadamente e perceber primeiro o que viria a ser. E, então, ele viu que faltava, entre os seres que habitavam a terra, uma criatura mais sublime e dotada de mais alta inteligência, um ente que pudesse ordenar e comandar todos os outros, que fosse capaz de conhecer e de inventar coisas novas e importantes, que aprendesse a aproveitar as forças da natureza, que cultuasse os deuses e soubesse com eles se comunicar, mantendo em equilíbrio e harmonia todas as formas de vida consagradas pela existência – uma criatura, enfim, que pudesse dar sentido ao próprio mundo.

Prometeu era sobrinho de Saturno, que fora destronado por Júpiter; pertencia, portanto, à raça dos titãs. Apesar de sua linhagem, a luta pelo poder não lhe interessava. Tinha grande confiança em sua astúcia e ela lhe bastava. Sendo muito habilidoso e criativo, decidiu produzir aquele ser de que o mundo ainda necessitava para tornar-se verdadeiramente um mundo. E assim, misturando a terra fértil com a água fecundante que vem dos céu, Prometeu moldou o homem à imagem e semelhança dos deuses imortais. Trabalhou com grande paixão essas estátuas e, ajudado por Minerva, a deusa da sabedoria, nelas infundiu muitas virtudes. A nova raça criada pelo filho de Iápeto preocupa o soberano Júpiter. Embora não sejam fortes como os deuses, os homens dispõem de cinco sentidos, de ânimo próprio e de inteligência. Talvez Prometeu, apesar de se mostrar um aliado, possua o íntimo desejo de que os humanos superem os olímpicos e deixem de lhes render solenes homenagens, conseguindo assim o que seria uma revanche para os titãs. Desconfiado, o rei dos deuses resolve esconder dos homens o fogo divi-

Marcio Thamos

no. Sem esse elemento fundamental, todo o progresso da humanidade nascente ficaria prejudicado, e as criaturas feitas do barro, limitadas em sua cultura inferior, não representariam uma ameaça à ordem instituída pelo filho de Saturno. Um dia, como quem não quer nada, Prometeu faz uma visita de cortesia aos parentes do Olimpo, dando um passeio despreocupado pelo céu. Carrega na mão, como que por acaso, uma vara oca. Encontra Apolo conduzindo o carro do Sol. Para e conversa um pouco, tratando só de amenidades. Enquanto os cavalos se refrescam na sombra de uma nuvem, encosta sem mais seu bastão cavado na lataria dourada do carro e ouve contente uma doce melodia que o cantor dos deuses vinha compondo naquele mesmo instante. Mas Apolo tem pressa e não pode se atrasar. Prometeu se despede e logo volta para a terra. Dentro da vara seca traz agora a semente incandescente do fogo para dar aos homens, que desde então conservaram suas chamas sagradas. Por essa ousadia, Prometeu foi duramente castigado. Júpiter mandou Vulcano, o deus ferreiro, acorrentá-lo a um rochedo, nas montanhas do Cáucaso, onde todo o dia uma águia implacável lhe devorava o fígado, que se reconstituía durante a noite. Trinta anos se passaram até que Hércules aparecesse para flechar a águia terrível e livrar o criador dos homens de tal suplício. Mais tarde, Prometeu se reconciliou com Júpiter e foi readmitido no Olimpo. No entanto, jamais se desculpou com o rei soberano nem nunca se arrependeu de sua criação e de tudo o que fez pela humanidade.

Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr, credenciado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da mesma instituição. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica. E-mail: marciothamos@uol.com.br NeoMondo Mondo- Outubro - Março 2011 Neo 2008

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Biocombustíveis

Desfazendo

equívocos Potencial do Brasil ainda não é aproveitado na sua plenitude, mas uso dessa alternativa de energia renovável é caminho sem volta Gabriel Arcanjo Nogueira*

Divulgação

Van Zyl: potencial africano é de produzir cerca de 100 milhões de toneladas por ano de biomassa celulósica não alimentícia

De acordo com Emile van Zyl, da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, não se pode “perder a oportunidade de debater de fato os impactos sociais mais relevantes”. Ele lembrou em São Paulo, há cerca de um ano, que “muitas oportunidades se perdem na África, onde a ideia de agricultura para acabar com a fome é o argumento político mais recorrente”. Não obstante, para Cylon Gonçalves da Silva, professor emérito do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador adjunto da Fapesp para Programas Especiais, não existe outro caminho a longo prazo. “A substituição gradativa dos combustíveis fósseis por outras fontes renováveis é um caminho sem volta. Mas estou convencido de que, a longo prazo, precisaremos de uma transformação radical nos hábitos da humanidade em relação aos meios de transporte, se pretendemos chegar a uma prática efetiva de sustentabilidade”, afirmou. Não sem motivo a Unicamp é uma das instituições dedicadas no País a estudos científicos e tecnológicos para dar conta dessa demanda, que no dizer de Cylon é crescente. O Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) desta universidade paulista desenvolve iniciativas promissoras, que colocam a comunidade acadêmico-científica, governo e iniciativa

* Com informações da Agência Fapesp e Jornal da Unicamp

privada à frente nesse caminho sem volta (ler Catalisador, capim, cascas de arroz e café entre as novidades). “Via interessante” Van Zyl destacou, no workshop, um aspecto positivo, que é o uso de tecnologias mais baratas, mas fez ressalvas: “O processo de bioprocessamento consolidado (CBP) vem barateando os custos de produção, que ainda são altos. Ou seja, o obstáculo ainda é o processo, mas um dos maiores desafios é pensar no insumo porque as tecnologias estarão disponíveis em um futuro próximo”, sem dar maiores detalhes. Antonio Scarpinetti/Ascom/Unicamp

O

futuro dos biocombustíveis ainda depende muito de se desfazerem equívocos, como o de que a produção dessa alternativa de energia renovável acarretaria escassez de alimentos. Para cientistas do País e do exterior - reunidos no “Scientific Issues on Biofuels”, workshop promovido em 2010 pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), Programa Fapesp de Pesquisa em Bionergia (Bioen), Academia Brasileira de Ciências (ABC) e InterAcademy Panel (Iap) -, o desastre anunciado é evitável.

Cylon Gonçalves defende transformação radical na rotina de transportes, se as pessoas quiserem de fato alcançar a sustentabillidade


Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo (USP), atendeu NEO MONDO em pleno feriadão de Carnaval, para ajudar nossos leitores a entenderem a complexidade do que seja o CBP, bem como avaliou as perspectivas dessa tecnologia. Pioneiro em estudos que tentam compreender como a floresta, incluindo espécies atlânticas e amazônicas, está respondendo à crescente concentração de dióxido de carbono na atmosfera, Buckeridge tem-se dedicado, na última década, com seu grupo de pesquisa a saber como a cana-de-açúcar vai responder às alterações climáticas (ver o Perfil desta edição, na página 10). Para o especialista, “o processo consolidado é sem dúvida uma via muito interessante e pode dar bons resultados. No entanto, há uma série de iniciativas distintas, com várias estratégias, e todas devem chegar a bons termos. Já temos pelo menos um laboratório (na USP de São Carlos) que produz em bancada hidrólise de bagaço em tempo relativamente curto e com alta porcentagem de conversão. Mas isto é feito com extratos completos de fungos e não somente com enzimas purificadas”. Tarefa nada fácil Feita a ressalva, Buckeridge reconhece que é possível produzir bem, “mas um dos grandes problemas é saber qual a combinação de enzimas a ser utilizada. Quando se usam aparas de papel, que são compostas apenas de celulose, o processo con-

solidado pode funcionar bem, pois só há celulose. No entanto, ao tentar o mesmo para a cana-de-açúcar, a coisa não deverá ser tão fácil. Isto porque a parede celular da cana é bem mais complexa. A celulose, na cana verde, representa somente cerca de 35% da biomassa presente na parede celular. O restante é composto de hemiceluloses e pectinas, que também são polímeros de açúcares que podem gerar etanol. A cana tem dois tipos principais de hemiceluloses, os beta-glucanos e os arabinoxilanos. O primeiro é composto de glicose, mas o segundo é feito de pentoses (açúcares de cinco carbonos), que as leveduras não metabolizam bem. Este é um problema que tem sido bastante estudado pela ciência básica, mas que terá ainda de ser introduzido em ambiente industrial. Se quisermos aproveitar tudo, teremos que modificar a cana para produzir mais beta-glucanos e menos arabinoxilanos, ou então modificar as leveduras para que metabolizem bem as pentoses”. De acordo com o doutor nas Ciências Biológica e Molecular “o processo consolidado, no estágio em que se encontra, poderá funcionar bem se a biomassa for reduzida à celulose, o que significa que teríamos que jogar fora todos os outros açúcares. Por outro lado, se quisermos utilizar um processo consolidado que leve à digestão completa da parede celular, teremos de aprender quais as enzimas que temos que usar, em que ordem usá-las e em que condições exatamente cada uma delas atuará”.

Os genes da cana Buckeridge ressalta a dimensão da complexidade desse processo ao lembrar descobertas feitas com suas pesquisas em 2001, pelas quais a planta de cana tem, para atuar sobre as suas próprias paredes celulares, um conjunto de pelo menos 469 genes. “Um processo consolidado que seja altamente eficiente para desmontar completamente a parede intacta de cana necessitará de pelo menos metade destes genes para efetuar a hidrólise. Por isso, dá para ver que há muito o que fazer antes de chegar a um processo consolidado que funcione na indústria brasileira. O que provavelmente deverá ocorrer é que, ao atingirmos processos parciais que funcionem bem do ponto de vista de custo, estes deverão ser colocados em processo e teremos que continuar trabalhando para fazer descobertas que baixem ainda mais o custo. A lição aqui é que a conexão no ciclo ‘descoberta básica-aplicação em bancada-aplicação em processo-desenvolvimento de produto’ não pode se quebrar. Isto é o que chamamos de inovação, e se este ciclo não for completado teremos jogado dinheiro fora”, avalia. O especialista procura ser didático ao falar das 4 etapas na produção do etanol de segunda geração: • pré-tratamento; hidrólise; fermentação; destilação.

Cultivo da cana-de-açúcar em São Paulo aumenta, e queima no processo de colheita diminui 7


Biocombustíveis E explica: “Na primeira o bagaço (ou palha) é submetido a um pré-tratamento que pode ser um banho com ácido ou álcali (soda) em concentrações relativamente baixas. Isto é feito para tornar os polímeros da parede celular mais acessíveis às enzimas que serão utilizadas na próxima etapa (para saber mais, acesse: http://www.youtube.com/watch?v=_ LpB81f-I2Q). Na segunda, a hidrólise, o material pré-tratado é submetido à ação de enzimas que irão produzir açúcares livres. Na terceira, a fermentação, os açúcares produzidos na etapa 3 servirão de fonte de energia e carbono para que leveduras produzam etanol. Na quarta, os restos de levedura são separados e o etanol é destilado, atingindo alta pureza. É este que colocaremos em nosso tanque no futuro. O que se chama de processo consolidado é a condensação das etapas 2 e 3 em uma única etapa. A ideia é que a levedura poderia ser capaz de produzir as enzimas de hidrólise e fazer o trabalho completo até a produção do etanol. Com isso acredita-se que seriam evitados os custos de ter uma unidade de hidrólise e fermentação separadas”. Potencial africano O sul-africano Van Zyl observou, quando esteve em São Paulo no workshop promovido pela Fapesp, que na América do Sul e, principalmente, na África existem áreas abandonadas com potencial de ser utilizadas na produção

de biocombustíveis sem comprometer a de alimentos. “O problema na África é a pobreza, não a capacidade de explorar esse potencial agrícola para biocombustíveis”, disse. Em estudo apresentado no workshop, o professor demonstrou que a África poderia produzir cerca de 100 milhões de toneladas por ano de biomassa celulósica não alimentícia. Outro dado significativo

é que, em 2003, havia um excesso de 4 milhões de toneladas de milho. “Isso vem diminuindo, mas todos os anos queimamos milhares de toneladas de gramíneas (que poderiam ser usadas na produção de biocombustíveis) sem nenhum motivo. Com esse excesso a África poderia reduzir o consumo de combustíveis fósseis, exportar e gerar milhares de empregos”, afirmou.

Combustíveis - Consumo Aparente mil m³

Combustível

variação

2009

2010

10/09 %

Diesel B*

44.298

49.239

11,2

Biodiesel (B100) Gasolina C Gasolina A Etanol Anidro Etanol Hidratado Etanol total Ciclo Otto Total GLP Óleo Combustível OAV GAV Total GNV (mil m³/dia)

1.527 25.409 19.057 6.352 16.471 22.823 41.880 12.113 5.004 5.428 62 108.787 5.770

2.425 29.844 22.756 7.088 15.074 22.162 44.918 12.558 4.901 6.250 70 117.936 5.494

58,8 17,5 19,4 11,6 -8,5 -2,9 7,3 3,7 -2,0 15,1 11,3 8,4% -4,8%

Consumo Aparente = Vendas de distribuidoras via SIMP.

*Mistura obrigatória de Biodisel: 1º sem. 2009: 3% 2º sem. 2009: 4% 1º sem. 2010: 5%

Fonte: Agência Nacional do Petróleo

Brasil X Europa, diálogo de surdos Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, analisou no workshop dados relacionados ao uso do solo no Brasil, em particular em São Paulo, e o trabalho agrícola. Para ele, parece haver um consenso de que o mundo não está convencido da possibilidade do uso de biocombustíveis em larga escala. “No debate envolvendo brasileiro versus europeu, por exemplo, parece haver uma discussão entre pessoas que não se entendem. O que devemos fazer é sincronizar esse entendimento e permitir que cada região conheça os seus limites”, ressaltou. Segundo Brito Cruz, essa compreensão é importante porque, no Brasil, não há um sentimento tão forte de rejeição aos biocombustíveis. “Os números da expansão da cana-de-açúcar vão ao encontro dessa perspectiva e destacam a existência de áreas que ainda podem ser exploradas”, disse. Brito Cruz citou dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), ao indicar que o Brasil tinha, em 2008, cerca de 851 milhões de hectares aráveis, dos quais parte é usada por diversas culturas. A área para pastagens ocupa cerca de 49% desse total. Segundo o diretor da Fapesp, ainda existem cerca de 106 milhões de hectares no país que não estão sendo usados nem para pastagens nem para plantações.

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Neo Mondo - Março 2011

Exemplo paulista “São Paulo expandiu as áreas de cultivo de cana-de-açúcar para produção do etanol e os estudos mostram que quem mais cedeu espaço para a cana foi a pecuária, mas isso não levou à diminuição no rebanho do país”, afirmou o cientista, ao destacar que no Brasil a criação ainda se dá na forma extensiva. De 2003 a 2009, a área total do cultivo da cana disponível para a colheita no Estado de São Paulo passou de 2,57 milhões para 4,89 milhões de hectares, segundo dados do último relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Brito Cruz destacou também a diminuição da colheita sem queima e o protocolo assinado em 2007 pelo governo do Estado de São Paulo, que prevê a eliminação gradativa da queima da cana-de-açúcar até 2014 nas áreas mecanizáveis. O relatório referente à safra de 2009/2010 aponta que cerca de 55% da colheita foi realizada sem fogo, contra 45% em que se utilizou a queima. “Com a mecanização da colheita, outro desafio para a produção de biocombustíveis passa inevitavelmente pelo trabalhador agrícola, cujo perfil tem mudado nos últimos anos”, concluiu.


Catalisador, capim, cascas de arroz e de café entre as novidades Um catalisador de alto desempenho, capaz de transformar gordura animal e óleos vegetais em combustível, faz da Unicamp instituição que alia a teoria e a prática como poucas no cenário acadêmicocientífico. A tecnologia, desenvolvida pela universidade do interior paulista, começa a ser transferida a empresas a partir do dia 16 de abril com a assinatura do contrato de licenciamento de tecnologia com a BioCamp Indústria e Comércio de Biodiesel Ltda., com sede em Campo Verde (MT). Por esse acordo, a empresa poderá explorar comercialmente, pelo prazo de 20 anos, esse catalisador, que gera biodiesel. A expectativa é que a usina construída pela companhia, que entra em operação no dia 30, produza até 60 milhões de litros do biocombustível ao ano. A produção inicial será de 10 mil litros por dia. A Unicamp ressalva que o contrato não confere exclusividade à BioCamp, o que abre a possibilidade de a mesma tecnologia chegar a outros empreendimentos. “As conversações já estão em andamento. Esperamos firmar outras seis parcerias do gênero”, prevê o agente de parcerias da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), Uéber Fernandes Rosário. Os ganhos econômicos e sociais para a região são inegáveis.

Divulgação

Bio-óleo Batizado de óleo ecologicamente correto, um novo combustível de origem vegetal, capaz de preservar o meio ambiente, é desenvolvido em projeto conduzido por pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp. Por esse projeto os cientistas transformam

Bio-óleo pode substituir o óleo combustível e o diesel

resíduos agroindustriais em produto que pode substituir o óleo combustível e diesel. Chamado pelos engenheiros de bio-óleo, o material é obtido a partir de um processo denominado pirólise rápida: a queima (degradação térmica) de resíduos agrícolas de pequeno tamanho como bagaço de cana, casca de arroz, capim, casca de café e serragem. Processo em que a biomassa é submetida a uma temperatura de 500 graus centígrados em um reator, explica o engenheiro químico José Dilcio Rocha, pesquisador do Nipe e um dos responsáveis pelo projeto. Kit ecológico As frotas de veículos de transporte de carga e passageiros no Brasil podem sair da lista de vilões do ar que respiramos graças à combinação entre diesel e gás natural, que pode zerar a emissão de material particulado. A mistura, embora acarrete perda de potência do motor, seria compensadora porque proporcionaria ganhos ambientais e, em condições favoráveis, também vantagens econômicas. A conclusão é de estudo realizado para a tese de mestrado de Dimitri Lobkov, defendida na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp. Em testes realizados com um kit desenvolvido por empresa instalada no Vale do Paraíba (SP), o pesquisador constatou que a associação dos dois combustíveis (15% de diesel e 85% de gás natural) é capaz de praticamente zerar a emissão de material particulado, um dos poluentes atmosféricos mais nocivos à saúde humana. De acordo com o professor Carlos Alberto Bandeira Guimarães, que orientou a pesquisa, o gás natural não é usado pelos veículos com motor a diesel porque estes não possuem velas de ignição, como ocorre com os movidos a gasolina. Ou seja, sem as velas, não seria possível promover a explosão do gás. Esse problema foi resolvido com a utilização de um kit responsável pela mistura dos dois combustíveis objetos do estudo. A detonação, nesse caso, foi feita por meio da compressão do gás e do diesel numa câmara. “Nós mantivemos 15% de diesel na mistura apenas para gerar a ignição. Essa é a única função dele”, explica o docente da FEC. Reúso de água A água remanescente da cana-deaçúcar utilizada no processo de produção de açúcar e etanol pode ser reutilizada na

própria usina. Principalmente no processo de produção de açúcar, em que o produto final é seco, quase toda a sobra de água pode ser reaproveitada. No caso da produção de etanol, em que o caldo deve ser concentrado, a situação é diferente, mas assim mesmo o reaproveitamento de água é possível, de acordo com a professora do Nipe, Silvia Azucena Nebra de Pèrez. Estudo orientado por ela para a dissertação “Uso de Água na Produção de Etanol de Cana-de-Açúcar”, de Mauro Francisco Chávez-Rodríguez, na FEM, permitiu, a partir do reciclo, reduzir a captação de água para menos de 1 metro cúbico por tonelada de cana-de-açúcar, medida máxima permitida pela legislação para várias regiões do Estado de São Paulo. Em algumas regiões, a captação não pode ultrapassar 0,7 metro cúbico de água e em outras, como o Vale do Paraíba, o uso de água é proibido. Projeções para 2025 Daqui a menos de duas décadas, em 2025, o Brasil poderá estar em condições de produzir etanol suficiente para substituir 10% de toda a gasolina consumida no mundo. A previsão consta do relatório apresentado pelo Nipe da Unicamp, referente a um estudo em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). “Não digo que seremos os maiores produtores mundiais de etanol, mas estaremos entre os maiores. Ser o maior ou não é uma questão mais futebolística que técnica”, afirma o professor Carlos Eduardo Vaz Rossell, pesquisador do Nipe que integra o grupo do Projeto Etanol, coordenado pelo professor e físico Rogério Cerqueira Leite. Estima-se que em 2025 a demanda mundial de gasolina para veículos leves será de 1,7 trilhão de litros por ano, um crescimento de 48% em relação aos 1,15 trilhão de litros em 2005. Para substituir 10% desta demanda, o Brasil terá de produzir 205 bilhões de litros/ano de etanol, viabilizando tecnologias que elevem a produtividade e expandindo a área de cultivo da cana-de-açúcar para 85 milhões de hectares. Enquanto estudos e pesquisas avançam no País e no exterior, o consumo de combustíveis no Brasil mostra pelo menos dois aspectos interessantes: o de biodiesel é o que cresceu mais em porcentagem (58,8), mas em volume é ainda inexpressivo, quando se comparam os anos de 2009: 1,5 milhão m3 e 2010: 2,4 milhão m3 (ver Tabela na página anterior). Neo Mondo - Março 2011

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Iniciativa privada e ISE/BOVESPA 20

Neo Mondo - Marรงo 2011


Terence Trennepohl

Correspondente especial de Boston – Estados Unidos

O

recente exemplo dado pelas empresas privadas ao aderirem ao Indice de Sustentabilidade Empresarial da BOVESPA (ISE/BOVESPA), cuja nova carteira entrou em vigor no dia 3 de janeiro de 2011, é o resultado de uma tendência mundial dos investidores em busca de empresas com bom desempenho em critérios de sustentabilidade para aplicar seus recursos. Das 34 empresas da carteira anterior, foram mantidas 32 e mais seis, que não estavam listadas, ingressaram no ano de 2011. Um ponto que se faz necessario esclarecer é saber distinguir a intervenção do estado, compelindo a iniciativa privada, e a adoção voluntaria das empresas a certos padrões de sustentabilidade. Ora, nao causa espanto o estado estar alheio a esse processo, sendo responsavel somente o mercado por esse movimento das empresas. Nao poderia ser outra a atitude da iniciativa privada. O modelo de exploração e os índices de consumo da sociedade atual, bem como aquele despendido em torno das práticas e comportamentos potencialmente produtores de situações de risco, em razão do modelo de organização econômica, política e social, expõem o ambiente, progressiva e constantemente, ao risco. Em razão do disciplinamento jurídico desses fatores econômicos, promovido pelos textos constitucionais, foi sistematizada a ordem pública econômica, com fundamentos mais estáveis. Uma Constituição econômica e um direito público econômico tem como objetivo evitar os conflitos oriundos do mercado e amenizar as disparidades do livre comércio, estabelecendo condições

para a livre concorrência e a competição no mercado, evitando a existência e manutenção de cartéis, monopólios privados, dumping e outras práticas abusivas vindas do mercado. Porém, os contratos internacionais, que regem as relações comerciais entre países, escapam de sua regulação, seja por despropósito legislativo, pois os textos constitucionais não comportam tamanho detalhamento, a ponto de vingar regulá-los em norma de tão grande magnitude, seja por aparente impossibilidade dos estados modernos, diante das tão velozes mudanças no cenário econômico. Assim, como os contratos internacionais podem ser regidos por ordenamentos jurídicos diversos, por convenções internacionais, ou mesmo, em alguns casos, estar alheios à regulação estatal, e submetidos, portanto, à lex mercatoria, as partes ficam sujeitas aos conflitos e interesses díspares, sendo necessário que o mercado, de alguma maneira, passe a agir no sentido de garantir o interesse coletivo mais satisfatório. Portanto, a participação de empresas multinacionais em programas de sustentabilidade tem um objetivo muito bem definido: aparecer para a sociedade como empresas que tem responsabilidade social empresarial. Dessa forma, as empresas modernas vêem a responsabilidade social empresarial como um bom negócio, sugerindo que as empresas ‘socialmente responsáveis’ estão de acordo com a moral e a ética empresarial, bem como de acordo com a legislação do país onde está instalada. Esse é o pressuposto lógico. É necessario que se concretize essa idéia de participação da sociedade e da iniciativa privada na gestão da susten-

tabilidade ambiental, pois a proteção dos bens ambientais deve ser entendida como uma tarefa comunitária, cooperativa e de todos, fundada num modelo de distribuição de responsabilidades, e não somente uma tarefa ou incumbência dos agentes do estado. Muito além de formas convencionais (financeiras) de gestão de risco, as empresas aprenderam a empregar a diversificação para distribuir os seus riscos e trabalhar com a sustentabilidade ambiental. O caminho natural desse processo é encontrar soluções comuns, analisando os riscos da sociedade moderna, adaptando a forma de vida, o consumo e os serviços, aos padrões menos arriscados e poluentes. É necessário adotar, inclusive, transformações nas matrizes energéticas e encontrar respaldo nas fontes de energias renováveis. Com a adoção voluntaria das empresas a determinados padrões de sustentabilidade, pode-se garantir que nao somente os países desenvolvidos, mas tambem, e principalmente, aqueles em desenvolvimento, como China, India, Brasil, Africa do Sul e Russia, contribuam contra o aquecimento global, sem comprometer o bem-estar de seus cidadãos e as futuras gerações. Definitavamente, chegou a hora das `empresas sustentaveis`.

Terence Trennepohl Sócio de Martorelli e Gouveia Advogados Senior Fellow na Universidade de Harvard Doutor e Mestre em Direito (UFPE) Bolsista da CAPES E-mail: tdt@martorelli.com.br Neo Mondo - Março 2011

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Energia Limpa

LED

também no trânsito São Carlos, no interior paulista, testa os primeiros semáforos brasileiros que utilizam LED redução no gasto de energia foi de 90% Rosane Araujo


Boa visibilidade Mesmo sem os sombreiros, o quebrasol utilizado nos semáforos, e sob condições extremas de iluminação frontal, eles apresentaram boa visibilidade ao motorista. Já nos semáforos convencionais, com a incidência frontal dos raios solares, os refletores posicionados atrás do conjunto óptico fazem com que os raios sejam refletidos na direção do motorista, podendo dar a impressão de falso aceso. Além de mais eficientes, os LEDs também têm maior vida útil do que as lâmpadas incandescentes. Enquanto eles permanecem mais de 50 mil horas acesos, apresentando 75% da eficiência inicial, elas duram apenas 4 mil horas. Mais uma característica que coloca o dio-

do emissor de luz como grande curinga a ser utilizado. Mas não para por aí. Outra inovação proposta no projeto é a possibilidade de alimentação dos semáforos tanto pela rede elétrica convencional como por energia solar ou por um banco de baterias, que seriam utilizadas em caso de blecaute. Um sistema de gerenciamento inteligente instalado no semáforo faz a cada milissegundos uma avaliação e decide qual a melhor forma de alimentação para o equipamento em um determinado momento. A energia solar é a primeira opção, mas caso não seja possível utilizá-la, o sistema muda automaticamente para energia elétrica. Na falta da eletricidade, o banco de baterias assume a alimentação, o que dura pelo menos 40 minutos, tempo suficiente para que os guardas de trânsito cheguem ao local.

Segundo Galli, toda a eletrônica de gerenciamento de bateria, energia solar e rede elétrica foi testada na DirectLight, porém não pôde ser instalada em campo, por requerer adaptações especiais no poste para as placas fotovoltaicas. Sistema inédito Apesar de a alimentação por energia solar e do sistema contra blecautes já serem comuns em outros países, o sistema que combina três tipos de alimentação é inédito. Agora, segundo informou o coordenador do projeto, a DirectLight está estudando a melhor forma comercial para lançar o produto em nível nacional. A empresa desenvolveu o projeto completo com o financiamento da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a colaboração do Instituto de Física (ISFC) da USP São Carlos.

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le já está em toda parte. Em aparelhos de TV, celulares, relógios e agora também em três semáforos da cidade de São Carlos. O LED (Light Emitting Diode) é um diodo semicondutor que quando energizado emite luz e promete substituir as lâmpadas incandescentes. Para isso, porém, serão precisos mais projetos inovadores como o realizado pelo grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), campus São Carlos. Eles formaram a empresa DirectLight e por meio dela desenvolveram o semáforo que utiliza um conjunto de LEDs de alta potência e grande eficiência óptica, resultando em uma economia de energia de até 90%, se comparado às antigas lâmpadas incandescentes. “O projeto passou por vários testes de bancada e atualmente está sendo testado em campo, sob condições reais de operação, para estudar a fundo seu comportamento”, afirmou o coordenador do projeto, Luís Fernando Bettio Galli. Segundo ele, estão sendo testados três conjuntos ópticos completos, e os resultados até agora foram animadores. “Os semáforos substituídos operavam com lâmpadas incandescentes que consumiam 100W cada, já o novo modelo consome apenas 10W”, explicou. Outra grande vantagem, segundo o coordenador, está relacionada à visibilidade do produto. “Os modelos de testes foram instalados em pontos considerados críticos por apresentarem problemas com o sol, e o resultado obtido está sendo excelente”, garantiu.

Instalação de semáforo de LED em São Carlos foi possível por meio de convênio firmado entre a DirectLight e a Secretaria de Transporte e Trânsito do município

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Divulgação

Energia Limpa

Além de economizar energia, os modelos de teste também se saíram melhor no quesito visibilidade – a iluminação do LED evita o efeito “falso aceso” “Apesar de ainda ser uma empresa de pequeno porte, existem várias propostas de investimento privado para produção e companhias interessadas na compra do projeto”, revelou. Essa pode ser a porta de entrada do LED em mais um segmento, desbancando de vez as lâmpadas comuns.

Para Galli, seu desaparecimento é uma questão de tempo. “Os LEDs de alta potência estão evoluindo muito rápido nos últimos anos, e isso possibilita cada vez mais aplicações, tornando-os uma excelente fonte luminosa para substituir as lâmpadas convencionais.

Já existe no Brasil um projeto de lei que prevê a extinção das lâmpadas incandescentes para os próximos anos, como já vem acontecendo em vários outros países.” Se depender dos empreendedores de São Carlos, o campo de utilização só tende mesmo a aumentar. Segundo informou Galli, a DirectLight finalizou recentemente o desenvolvimento de uma nova luminária pública com LEDs de alta potência, que está em fase de testes. “Este novo produto acompanha a tendência mundial de buscar maior eficiência energética e opções ecologicamente corretas. Ao contrário das lâmpadas, estes emissores podem durar anos e poupar o meio ambiente do descarte de vidros e metais pesados”, explicou. Para ele, está se dando início uma nova revolução no setor de iluminação. “O domínio do fogo permitiu ao homem sair da escuridão, e a lâmpada foi sua primeira evolução, porém estamos vivendo neste momento a nova revolução na iluminação de forma correta e sustentável. Certamente os LEDs chegaram para ficar.”

LED em tudo - Beleza aliada à eficiência energética Divulgação

Televisores de LED

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MonkeyLetric MonkeyLight A beleza das cores do LED inspirou esta fabricante de bicicletas norte-americana a criar modelos para lá de iluminados. Os 32 diodos garantem o brilho e a visibilidade de qualquer ciclista. Confira detalhes no site: www.monkeyletric.com

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Até a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, se rendeu à eficiência energética do LED. O novo sistema de iluminação foi inaugurado no dia 1º de março, dia do aniversário da cidade. Ao todo, 300 projetores vão garantir uma economia de energia de 95%. As luzes também poderão dar cores diferentes ao monumento, como se costuma fazer em campanhas de combate à AIDS, entre outras. Divulgação

Possuem as mesmas telas de LCD, mas têm a iluminação do LED, proporcionando imagem ainda mais precisa, cores vivas e mais contraste. Tanta qualidade vem conquistando cada vez mais admiradores. A expectativa dos fabricantes é que, em 2011, as telas de LED correspondam a 35% das vendas de telas finas..

Até o Cristo


Rosane Magaly Martins

Emprego para sessentões

A

umenta a cada ano o número de pessoas idosas (por força de lei, com idade superior a 60 anos), e no Brasil teremos antes de 2050 quantidade igual de jovens e idosos na população. Este fato, aliado à redução gradual da taxa de natalidade no Brasil, começa a delinear cenários de negócios que poderão mudar muito o panorama atual de empregabilidade e de consumo. Idosos serão cada vez mais valorizados pelo mercado e as empresas passarão a buscar estes profissionais qualificados e capazes de trazer resultados com a melhor relação custo benefício. Pessoas idosas passam a ser identificadas como profissionais maduros, capazes de aliar técnica, conhecimento com experiência. O grande diferencial competitivo dos “sessentões” será o capital emocional relacionado com a maturidade. Este aspecto, aliado a uma boa base acadêmica e o contínuo aprendizado, farão deles objeto de desejo das empresas. Eles passarão a ter a preferência, por sua experiência, equilíbrio e foco para ser parceiro de sucesso.

Ainda existe no mercado de trabalho certo preconceito contra a pessoa idosa, especialmente por parte das equipes de RH que não veem com clareza que o profissional sênior, acima dos 50/60 anos, pode ser o grande filão nas contratações. Temos informações que pessoas que se aposentaram há alguns anos estão sendo procuradas e reinseridas no mercado, mesmo levando em conta que precisam de informações quanto a inovações tecnológicas. Estas pessoas maduras estão menos tensas quanto à sua performance e consciente que a tecnologia vem para auxiliar e não para tirar postos de trabalho. Os estudos da gerontologia e geriatria contribuem para desmitificar a velhice e a substituem por maturidade, onde o velho passa a ter a conotação de longevo (pessoa com plena funcionalidade, saudável e apto para desfrutar da sociedade com plenitude) graças à melhor disciplina e conhecimento sobre qualidade de vida. Assim como serão reinseridos no mercado de trabalho são os adultos sênior que criarão as novas demandas de consumo, como já ocorre nos empreendimentos imobiliários voltados a esta faixa etária,

viagens, entretenimento e educação. Portanto, “sessentões” e “sessentonas”, nada de se aposentar e deprimir ao jogar bocha ou fazer crochê. O mercado precisa destes longevos profissionais. Rosane Magaly Martins, escritora, advogada pós-graduada em Direito Civil, com especialização em Mediação de Conflitos pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Pós-graduada em Gerontologia (FURB/2005) e Gerencia em Saúde para Adultos Maiores (OPS/ México) com formação docente em Gerontologia (Comlat/Colômbia). Fundadora e presidente da ONG Instituto AME SUAS RUGAS, participando desde 2007 na Europa e na América Latina de congressos, cursos e especialização que envolve o tema. Organiza a publicação da coleção de livros “Ame suas rugas” lançados no Brasil e em Portugal. E-mail: advogada@rosanemartins.com Site: www.rosanemartins.com Neo Mondo - Março 2011

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ÁREAS CONTAMINADAS –

Passivo preocupante

T

ema de diversas discussões, as áreas contaminadas no Estado de São Paulo vem recebendo especial atenção dos órgãos incumbidos de zelar por esse importante e indesejado passivo ambiental que dispomos, especialmente nesse momento de intenso incremento do mercado imobiliário. Números disponibilizados pela Cetesb a respeito, nos fornecem boa dimensão do problema; no primeiro levantamento realizado, em 2002, foram identificadas, no nosso estado, 227 áreas contaminadas. No ano de 2003, esse número avançou para 727. Em 2004, 1.336, crescendo sucessivamente até 2.905 terrenos, encontrados no cadastro mais recente, sendo os postos de combus-

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tíveis responsáveis por cerca de 80% desse total, respondendo a atividade industrial, notadamente na área química, pela parcela remanescente. Tal evolução, constatada ano a ano, nos permite afirmar que diversas outras áreas contaminadas ainda nos são desconhecidas, implicando em potenciais enormes riscos à saúde da população. Estudos já realizados em áreas afetadas pelo polo petroquímico do Grande ABC identificaram, em moradores sujeitos à exposição, elevada incidência da doença tireoidite crônica autoimune, além de déficit de crescimento e retardo mental permanente e irreversível em crianças. Daí, a importância desse trabalho de

identificação das áreas contaminadas, que, em verdade, é apenas o primeiro passo de um longo processo de saneamento, que passa, em seguida, pela etapas subsequentes: procedimentos de investigação detalhada, avaliação de risco, investigação para remediação, projeto de remediação, remediação e monitoramento, totalizando as 6 fases que compõem a metodologia utilizada pela Cetesb para identificação e recuperação de sítios contaminados. Por conta dos riscos envolvidos, no Estado de São Paulo, são rígidas as regras para a liberação de empreendimentos imobiliários em áreas com passivo ambiental. Os procedimentos destinados à recuperação dessas áreas são igualmente


Dr. Marcos Lúcio Barreto

cada vez mais rigorosos, fixando-se exigências, sob pena de benefícios fiscais suspensos e multas altíssimas, que podem chegar a quase R$ 50 milhões, fixadas pela Lei Estadual nº 13.577/2009. Esse recente diploma legal, a propósito, após iniciativa da Cetesb, tornou obrigatório o registro em cartório, na matrícula do imóvel, da existência de contaminação, mesmo na hipótese de recuperação, que também pode ser registrada, servindo como um alerta ao futuro comprador. Acrescentamos, inclusive, que, ainda que o titular da área se omita no registro da contaminação, a Cetesb se encarrega de fazer a respectiva comunicação ao cartório. Vale lembrar, também, por oportuno,

que o adquirente do imóvel passa a ser legalmente responsável solidário, civil e administrativo, pela descontaminação. Por outro lado, o que se verifica é que, cada vez mais, antigas áreas industriais estão sendo reaproveitadas para uso residencial. Regiões que registram passado industrial na cidade de São Paulo, como a Mooca, Barra Funda e Vila Leopoldina, e que agora despertam grande interesse do mercado imobiliário, por possuírem estações de metrô e imensos terrenos livres ao longo da orla ferroviária, estão sendo especialmente monitoradas pela Cetesb, que cobra da Prefeitura e das empresas responsáveis um plano de despoluição. O custo do trabalho de descontami-

nação do solo varia de R$ 300 a mais de R$ 5 mil por tonelada de resíduo, dependendo do tipo de material contaminante e da tecnologia a ser empregada. A técnica mais utilizada é a dessorção térmica, que implica na incineração do solo contaminado, principalmente quando se trata de material de elevada toxidade, sendo que os equipamentos utilizados devem ser homologados pela Cetesb. Empresas de grande porte normalmente possuem recursos suficientes para arcar com os custos da recuperação de uma área contaminada. O problema surge quando empresas de pequeno e médio porte não possuem esses recursos, transferindo à sociedade um perigoso passivo ambiental. Atento a essa questão, a Lei Estadual 13.577/2009, aqui já referida, passou a prever que os novos empreendimentos com potencial de gerar contaminação, como contrapartida, devem reservar uma parte do investimento para o Fundo Estadual para Prevenção e Remediação de Áreas Contaminadas, cuja destinação é a recuperação de espaços poluídos.   Outra preocupação que existe é a captação de águas subterrâneas contaminadas pelos novos empreendimentos imobiliários. O uso contínuo de água com organoclorados para banho, por exemplo, pode causar câncer e doenças neurológicas. A descontaminação do lençol freático também é possível, apesar de se tratar de um processo longo. Diante do quadro apresentado, entendemos que houve um significativo avanço dos mecanismos de controle da questão aqui tratada, que, no entanto, em função da sua relevância, exigirá sempre renovadas e lapidares providências, além de um acompanhamento particularmente atento. Esse, seguramente, é um assunto do qual não podemos nos descuidar... Dr. Marcos Lúcio Barreto Promotor de Justiça do Meio Ambiente de São Paulo E-mail: marcoslb@mp.sp.gov.br Neo Mondo - Março 2011

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Uma análise Política Nacional de A

edição da Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e de sua regulamentação (Lei nº 12.305/2010 e Decreto nº 7.404/2010) prometem trazer grandes mudanças no cenário dos resíduos no Brasil. Ambos os textos são modernos, alinhados com a evolução do debate internacional, e fornecem aos juristas e gestores públicos e privados instrumentos para aperfeiçoar a forma como vem sendo tratada a matéria no Brasil. Como se pretende atingir os objetivos? Qual a estratégia e quais os desafios? A PNRS tem como principais objetivos, resumindo os quinze que constam na lei, reduzir as características de periculosidade dos resíduos e levar a economia do país para o uso sustentável dos recursos naturais buscando atender a hierarquia da Agenda 21: não gerar, reduzir, reutilizar, reciclar, tratar e dispor com segurança. Pela primeira vez a segurança aparece como fator primordial e a incineração é colocada

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explicitamente como ferramenta de gestão para tratamento de resíduos urbanos. Para atender seus objetivos, a PNRS se centra em três eixos: informação, planejamento e envolvimento da iniciativa privada. Semelhantemente ao que a Bélgica fez há 20 anos, o governo brasileiro pretende organizar os serviços de saneamento ambiental de forma orgânica, buscando informações e estabelecendo mecanismos de gestão ao longo de um processo de planejamento coletivo e descentralizado. As informações devem ser armazenadas e registradas nos sistemas nacionais de informações pelos geradores e gestores de resíduos. O assunto é sério, pois o não-envio das informações se tornou crime ambiental, alterando a Lei 9.605 de 1998. Já o planejamento deve ser feito em todos os níveis, de maneira articulada e integrada, e a inexistência de plano impossibilita que municípios recebam verbas federais e que empresas obtenham licenciamento am-

biental, amarrando bem a obrigatoriedade de planejar (Art. 24). A formatação das ações concretas que construirão a estratégia nacional de gestão de resíduos evoluirá a partir dos planos e acordos setoriais. Visto pelo prisma da sustentabilidade, a lei e sua regulamentação sofrem de uma grave deficiência. A implantação da logística reversa (Art. 21) e de embalagens recicláveis (Art. 34) devem ser avaliadas apenas do ponto de vista dos impactos sociais e econômicos. Parece que a PNRS é vista como inerentemente boa para o meio ambiente, e portanto a variável ambiental não precisa ser analisada. No entanto, se a variável ambiental não fizer parte dos estudos, graves distorções em relação à eficiência ambiental irão ocorrer. Falando do que a PNRS pode gerar para o futuro, pode-se esperar que sejam formadas novas estruturas nas três esferas de governo: a comissão interministerial, o comitê orientador, sistemas de


Manuel Strauch

Greice Moreira Pinz

crítica da Resíduos Sólidos informação, acordos setoriais nacionais, secretarias. Também nos estados e regiões haverá novas instituições, cargos, acordos setoriais e consórcios. As PPPs poderão adquirir nova importância. Os municípios deverão modificar a sua gestão, buscar novas metodologias, investir, criar empresas e consórcios, envolver a população, cobrar ou aumentar tributos existentes. As empresas, espera-se, passem a pensar seus produtos, embalagens e logística de forma diferente, incluindo aspectos de sustentabilidade e racionalização de materiais. As universidades e escolas formarão novos cursos, empresas estrangeiras da área virão para o Brasil. Os cidadãos deverão cumprir a sua parte, realizando a separação dos resíduos, a devolução em postos de entrega voluntários e o pagamento das taxas respectivas – até porque agora há sanções também para o cidadão. O andamento da implementação da PNRS se dará de acordo com as capacidades

existentes, e aí se colocam alguns gargalos. O primeiro é humano: faltam profissionais com formação e experiência em planejamento, saneamento básico, gestão integrada e participação popular, principalmente nas prefeituras. O segundo gargalo é político: falta uma tradição política de planejar e respeitar planos com horizontes maiores do que uma gestão do executivo. O terceiro gargalo é institucional e diz respeito à estrutura de garantia legal da implementação. No Brasil leis não “pegam” também em virtude das deficiências institucionais que deveriam amarrar o sistema, pois, sem a garantia de serem devidamente aplicadas as sanções, muitas previsões legais não atingem a efetividade pretendida. É fácil imaginar o que pode dar errado neste caminho. Mas a iniciativa é ímpar, e o desenvolvimento resultante pode ser muito positivo. Diversos caminhos podem levar ao objetivo: a lei é aberta e permite a adequação e desenvolvimento de acordo

com o andar da carruagem. Resta torcer para que o desenvolvimento que se começa aqui permita atingir a ambiciosa meta traçada, da qual não se pode mais prescindir para a construção de uma sociedade minimamente sustentável.

Manuel Strauch Mestre em Gestão Ambiental Pública e Privada pela Universidade Livre de Berlim Organizador e autor do livro Resíduos: Como Lidar com Recursos Naturais Gerencia a área de projetos especiais da empresa Luftech Soluções Ambientais Ltda. Greice Moreira Pinz Procuradora da Fazenda Nacional e especializanda em Direito Ambiental Nacional e Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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Mondo -coisas Outubro 2008 mais assustadoras que pode aparecer na รกgua. A Lixo. UmaNeodas


w w w.ondazul.org.br

22 de marรงo. Dia Internacional da รgua.

Neo Mondo - Outubro 2008

A


Especial - Água

signo

Misteriosa e única no mundo por sua peculiaridade urbanística, Veneza conserva em suas águas a razão de existir, suas alegrias e suas dores também

Até Missa do Galo já teve seu horário antecipado por força do avanço das águas na Praça San Marco

Serviço de Videocomunicaçao/Prefeitura de Veneza

Sob o Camila Turriani, De Viareggio (Itália), Especial para NEO MONDO

A

cidade parece flutuar sobre a laguna. Sereníssima, como era chamada no período em que era uma das mais influentes repúblicas marítimas da Itália. Sobre suas águas navegaram grandes marinheiros, mercadores e exploradores, como um de seus

mais ilustres filhos, Marco Polo. Shakspeare relembra a tradição mercantil da cidade em sua instigante obra O Mercador de Veneza, que nos remete a um passado de glória e poder. E quem, ao ouvir falar de Veneza, não pensa logo em um passeio de gôn-

dola por entre seus cerca de 180 canais? A água para os venezianos foi sempre fonte de prazer, luxo e riqueza. Sem ela, a cidade perderia sentido. A incrível laguna é, certamente, seu órgão vital, o seu coração.


da

Marés preocupam Para que a população não seja pega de surpresa, a Prefeitura criou, em 1980, um centro de controle e previsão das marés – Centro Maree. Ele fornece online informações sobre o nível das águas e também oferece dois sistemas de alarme em caso de acqua alta. Um deles é por meio de SMS, enviados aos assinantes deste serviço. Outro é por meio de um moderno sistema de sirenes. Neste ano, porém, na primeira noite de alta da laguna, o sistema apresentou falhas. Causa: falta de verbas para a manutenção. Nunca como em 2010 a sequência de alta das marés foi tão dura em Veneza. A quantidade expressiva superou todos os recordes de maré acima dos 80 cm, até então. E não foi o único recorde do ano. O número de ligações ao centro de previsão superou a marca de 500 mil chamadas; foram 2,5 milhões de visitas à internet, mais de 1 milhão de SMS, e as sirenes de alerta acionadas 31 vezes. O principal ícone de Veneza, a Praça San Marco, é um dos pontos que mais

sofrem. A água invade o local cerca de 200 vezes ao ano e tem provocado sérios danos à pavimentação. A Prefeitura promete providenciar a realização de obras de elevação e impermeabilização da praça, com um custo na ordem de 50 milhões de euros. Mas terá de esperar pelo financiamento do Estado italiano. Enquanto isso, já abriu as portas a empresas privadas para o patrocínio de obras de restauração dos monumentos. Além das fortes chuvas e do vento que empurra as águas do mar Adriático para dentro de Veneza, a elevação desmedida da laguna nos últimos tempos, segundo especialistas, tem ligação direta com o aumento do nível do mar, um reflexo do global warming. Em uma conferência da Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (Unesco), organizada no final do ano passado em Veneza, o cientista italiano Paolo Pirazzoli disse que recentes estudos revelam que o mar poderá elevar-se de 1,40 m até 2100, com um mínimo de

50 cm e uma média de 80 cm - dado visto com maior probabilidade. Cenário bem diferente do previsto, anos atrás, pelos especialistas do Ministério de Pesquisa Cientifica italiano, cujos dados reportavam um aumento em torno de 22 cm e até 31,5 cm como o número mais alarmante. Tais estudos foram efetuados para avaliação do sistema Mose. Trata-se do projeto gigantesco promovido pela capital italiana, hoje já em fase de construção, que prevê a realização de uma megaestrutura para barrar a entrada da água na laguna, em casos de maré alta. Entretanto, Pirazzoli ressaltou a inadequação deste sistema em termos de longevidade e funcionalidade. “O projeto foi pensado para um aumento previsto do nível do mar entre 20 cm e 30 cm, marca hoje superada pelas previsões atuais. As barragens deverão estar sempre fechadas, e a água continuará a passar do mesmo jeito. O Mose poderá ser insuficiente para defender Veneza”, disse na ocasião.

Consórcio Veneza Nova

Hoje, porém, a história recente de Veneza deixa no pretérito os requintes. Como dizem os italianos, nem tudo é rose e fiori. Problemas relacionados à água interferem nos negócios de turismo da cidade e afetam, principalmente, seus habitantes. São constantes os contratempos causados pela alta da maré, que em 2010 não deu trégua. Os mais evidentes estão relacionados aos danos às estruturas, à mobilidade interna e ao tráfego aquático. No último Natal, por exemplo, o sacerdote da Basílica de San Marco chegou a adiantar o horário da missa, sugerindo aos fiéis calçarem botas de borracha. Isso porque bastam 80 cm de maré alta para alagar a catedral e, naquela noite, era previsto um aumento de 130 cm a partir da meia-noite - horário em que tradicionalmente é celebrada a Missa do Galo.

A operacionalidade do porto será garantida por uma eclusa para grandes embarcações

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Ghetti, do Planejamento Estratégico: manutenção permanente Falta autonomia Outra pedra no sapato dos venezianos é a falta de autonomia sobre o seu território. Dá para imaginar a onda de preocupação e perplexidade que atingiu a cidade, quando no início do ano uma voz anunciou a revogação de um decreto de 1904, o qual passava os po-

deres dos canais de Veneza da Prefeitura para o Estado. Mas tudo foi prontamente desmentido pelo ministro da Simplificação Normativa Roberto Calderoli, que assegurou que o Canal Grande, a principal via d’água e cartãopostal de Veneza, era e continuaria a ser uma jurisdição municipal. Meno male, porque a questão repropunha com força a delicada matéria das competências sobre as águas internas da laguna - uma questão polêmica em Ca’ Farsetti, sede do governo municipal. Para se ter uma ideia, o jornal local La Nuova anunciou recentemente que o prefeito Giorgio Orsoni teria descoberto a existência de um projeto sobre as águas de San Marco lendo a notícia em suas páginas. “Se quisermos manter a cidade viva, devemos dar à Prefeitura plena autonomia sobre o seu território e capacidade de decidir o seu futuro. É também uma questão psicológica. Sobre grande parte das águas, nós não temos autoridade alguma”, declarou o prefeito. O projeto em questão prevê a construção de um píer de 54 metros na baía

Prefeitura de Veneza

Prefeitura de Veneza

Especial - Água

Giorgio Orsoni: cidade viva, só com autonomia da Prefeitura de San Marco, com um espelho d’água de 2,5 mil metros quadrados destinados, ao menos até o momento, a dois iates de luxo. A proposta foi feita por uma sociedade privada à Autoridade Portual - entidade que decide sobre a concessão de utilização daquelas águas.

Projeto Mose é pioneiro no mundo As discussões sobre como salvar Veneza dos alagamentos provocados pela maré alta começaram em 1966. Neste ano, a maré subiu quase 2 metros, provocando verdadeiro desastre. De lá para cá, o problema assumiu maiores dimensões, tornando-se mais intenso e frequente. Com o intuito de proteger a cidade desse fenômeno, que em 2010 sofreu grande intensificação, o governo italiano constrói gigantescas barragens móveis. Serão quatro no total, posicionadas nas três “bocas” de entrada da laguna: Lido, Malamocco e  Chioggia. Este sistema, conhecido como Mose, é uma das maiores obras hidráulicas italianas dos últimos anos, e sua técnica não tem precedentes no mundo todo, nem mesmo tendo sido testada antes. Inseridas no fundo do mar, as barragens entram em ação por meio de um sistema pneumático, desfrutando assim o princípio de Arquimedes. O ar é insuflado dentro de cada uma delas, fazendo com que a água que as mantém abaixadas seja expelida e, por consequência, elas se levantem. O que deverá acontecer todas as vezes que a maré atingir o marco de 1,10 metro.

“Veneza é uma cidade frágil, que necessita de manutenção constante”, diz o assessor municipal de Planejamento Estratégico, Pier Francesco Ghetti. A água salgada que invade a cidade causa danos à sua estabilidade, uma vez que possui efeito corrosivo sobre suas estruturas e alicerces. Além disso, provoca distúrbios de mobilidade interna que impedem os cidadãos de realizarem suas atividades normais. “Tivemos um número crescente de maré alta que leva a cidade a uma situação particularmente danosa e até folclórica. Os turistas ficam encantados com esse evento, pois lhes dá a sensação de que a cidade está saindo da água. Para eles é um fato único e se divertem caminhando com grandes botas de borracha sobre a água”, conta o assessor. Mas a brincadeira é só para os turistas. Em base ao nível médio do mar, a água pode subir até 1 metro sem que invada as margens da cidade. Qualquer centímetro a mais, a água aparecerá sobre as estradas. Há mais um porém: nem todas as margens de Veneza têm a mesma altura. A Praça San Marco, por exemplo, fica embaixo d’água já aos 80 centímetros. Para resolver o problema, está em andamento um proces-

O projeto em números • 4 complexos de barragens móveis serão inseridas nas “bocas” de entrada da laguna: duas em Lido, uma em Malamocco e uma em Chioggia. Cada uma delas é composta por um determinado número de comportas - 78 no total. • 1 eclusa para grandes embarcações na “boca” de Malamocco garantirá a operacionalidade do porto, mesmo com as barragens em funcionamento. • 3 eclusas menores (duas em Chioggia e uma em Lido) garantirão o trânsito de barcos pesqueiros, iates e lanchas de resgate.

• 3 metros é a maré máxima que o sistema poderá barrar (a maior até hoje foi de 1,94 metro). • 60 centímetros em 100 anos é o aumento do nível do mar que o Mose poderá suportar. • 46 quilômetros de litoral estão sendo reforçados. • 65% da obra já foi completada. • 3.000 pessoas envolvidas direta ou indiretamente. • 9.000 metros de recifes artificiais criados dos 9.850 necessários para amenizar a intensidade das correntes marítimas.

Fonte: www.salve.it (site do Ministério de Infraestrutura e Transportes italiano para a proteçao de Veneza e sua laguna)

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Não são somente iates que entram no golfo de Veneza. Petroleiros, porta-contêineres, balsas e navios de cruzeiro são visitantes assíduos de suas águas, já bem frequentadas por gôndolas, barcos-táxi, vaporetos e ferryboats. Em 2010, mais de 2 milhões de turistas entraram na cidade via mar. O mercado está em contínua expansão e levou o porto de Veneza a ser classificado como o primeiro home port do Mediterrâneo. Mas será que essa geração de riqueza justifica alguma coisa? Grupos engajados na preservação da laguna dizem que não. Segundo fontes locais, toda essa movimentação provoca efeitos danosos. As grandes embarcações movem

milhares de toneladas de água e, sobretudo, sugam água dos canais, aumentando a erosão e danificando as suas margens. É uma questão difícil. Mas as autoridades estão trabalhando em medidas que mantenham um equilíbrio entre as atividades produtivas e a conservação ambiental. De acordo com a entidade que realiza as obras do Mose, as barragens não defendem somente a cidade de Veneza, mas um ecossistema grande de 550 km quadrados - uma das zonas úmidas mais importantes do Mediterrâneo. E muitas ações para recuperar a morfologia e a biodiversidade da laguna já estão sendo efetivadas.

Os maiores picos de maré Data

Altura (cm)

16 de abril de 1936

+ 147

12 de novembro de 1951

+ 151

15 de outubro de 1960

+ 145

4 de novembro de 1966

+ 194

3 de novembro de 1968

+ 144

22 de dezembro de 1979

+ 166

1° de fevereiro de 1986

+ 158

8 de dezembro de 1992

+ 142

Percentuais de alagamento de acordo com a quota de maré

6 de novembro de 2000

+ 144

+ 100 cm: 5% + 110 cm: 14% + 120 cm: 29% + 130 cm: 43% A partir de 140 cm, mais de 54% do território de Veneza é alagado

16 de novembro de 2002

+ 147

1° de dezembro de 2008

+ 156

25 de dezembro de 2009

+ 145

24 de dezembro de 2010

+ 144

Fonte: Prefeitura de Veneza (www.comune.venezia.it)

efetiva funcionalidade e durabilidade. Há a preocupação da parte de cientistas e grupos da comunidade civil quanto aos riscos de um mecanismo que permanece no fundo do mar - dando poucas possibilidades de correção e manutenção – e à sua capacidade de bloquear as marés, caso as previsões mais catastróficas se confirmem. Mas o governo tranquiliza esses setores. Um verniz especial será utilizado para proteger as barragens das agressões do ambiente marinho. Além disso, garante que o Mose é capaz de proteger Veneza das marés de até 3 metros e foi projetado para enfrentar as mudanças climáticas que preveem aumento de até 60 centímetros do nível do mar nos próximos 100 anos. O problema, segundo o cientista italiano Paolo Pirazzoli, é que os últimos estudos revelam dados mais alarmistas, como a possibilidade de o aumento do nível do mar chegar a 1,40 metro. Caso em que o Mose não seria suficiente. Posição que reacende o debate sobre a grande obra: o Mose é irreversível, e as incertezas são muitas. Fotos: Consórcio Veneza Nova

so de elevação de todas as margens de Veneza à quota 100 centímetros (1 metro). Uma vez nivelada, o Mose fará o resto do trabalho. O sistema já se encontra em fase avançada de construção (65% concluídos) e custará aos cofres públicos cerca de 4,5 bilhões de euros. Esta fortuna vai para o Consórcio Veneza Nova, concessionário único para a realização do projeto formado pelas principais construtoras da Itália. Veneza goza de uma lei especial, que lhe garante uma elevada verba do governo italiano para a manutenção do seu patrimônio. Entretanto, devido aos altos custos do projeto, parte desse dinheiro não chega mais, e áreas como a cultura ficam “a ver navios”. Motivo que gerou grande contestação nas esferas política e social na época de sua implementação. Iniciado em 2003, o sistema torna-se indispensável para a segurança da cidade e deve ficar pronto em 2014. Com as previsões de mudança climática, a obra faz-se mais urgente. Mas o fato de ser uma iniciativa inédita no mundo levanta algumas questões sobre sua

Fonte: Prefeitura de Veneza (www.comune.venezia.it)

Projeto Mose, mais de 60% concluídos, ainda causa polêmicas e gera incertezas

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Fotolia

ÁGUA –

Essência da vida Só depende de nós

D

e toda a água existente no planeta, apenas 0,008% é potável e está disponível para o consumo humano. Só isso já deveria ser o suficiente para mudarmos nosso comportamento. Mas, por mais óbvio que pareça, não há uma consciência generalizada de que simplesmente não há vida sem água. Pelas características privilegiadas de água farta, morar no Brasil faz parecer que a escassez é uma realidade muito distante, o que não é verdade. Muitos países já sofrem com o racionamento do mais precioso dos líquidos - até mesmo alguns em franco desenvolvimento, como a China. Na Região Metropolitana de São Paulo, onde está situado o Grande ABC, o problema é ainda mais grave. Pode não parecer, mas temos quase tanta água disponível quanto o árido Nordeste brasileiro. Preciosa, ESCASSA e Vital A água é um bem essencial à vida. Um ser humano não sobrevive mais do 36

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que dois dias sem ingeri-la. A natureza foi generosa e forneceu abundantes reservatórios em todo o mundo. São aproximadamente 1,39 bilhão de km³ de água - ou 70% da massa do planeta. Esse total está distribuído em mares, lagos, rios, aquíferos, gelo, neve e vapor. Não à toa, por muitos séculos acreditava-se que estávamos diante de um recurso infinito. De toda água do mundo, 97,5% é salgada, imprópria para o consumo e até mesmo para utilização em indústrias. Dessa forma, só há 2,5% de água doce potável disponível, cerca de 34,6 milhões de km³. Essa água doce não está totalmente apropriada para consumo imediato. Parte dela está fora do alcance humano em calotas polares, geleiras e subsolos congelados. O que sobra para ser utilizado pela vida animal e vegetal está em lagos, rios e na umidade do ar e do solo. Isso representa cerca de 0,008% do total existente na Terra. O problema é que na idade moderna a população cresceu consideravelmente.

Para se ter uma ideia, há 2.000 anos, o número de pessoas no mundo correspondia a 3% do contingente atual. Em contrapartida, a quantidade de água disponível não se alterou - e nem irá.

Dia Mundial da Água Foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993. É comemorado em 22 de Março. Em 2003, o Congresso Nacional oficializou o Dia Nacional da Água na mesma data.

O que é água potável? É aquela que pode ser consumida sem riscos à saúde. Isso não significa que ela está livre de impurezas, mas sim que não causará mal algum se ingerida.


NO BRASIL O nosso país possui aproximadamente 12% de toda a água do mundo. A princípio esta situação parece cômoda, mas não é. Exatamente por esse motivo é muito difícil conscientizar a população a respeito da economia de água. Tem-se a ideia de que, uma vez que temos tanta água, o recurso nunca irá acabar. A Nação ainda sofre com péssimas condições de saneamento básico, poluição e consumo exagerado.

João Carlos Mucciacito

Aquífero Guarani

Uma questão de distribuição A má distribuição da água e o crescimento da população são os principais vilões da escassez no mundo. Para se ter uma ideia, por ano chove cerca de 7.000 m³ de água doce na Terra para cada pessoa. Se fosse distribuído de maneira uniforme, o volume seria suficiente para a maior parte das necessidades, já o consumo anual do mundo é de 4.000 km³ por pessoa, diariamente. A maior parte dessa água é utilizada na agricultura. O consumo doméstico, em média, é de apenas 170 litros por pessoa/dia. O problema é que a água não chega a alguns países de regiões mais secas da África e da Ásia - e seus habitantes não têm condições de se mudar para locais com abundância. Em países como a Índia, a quantidade de água já é preocupante.

Wikipédia

Aquífero GUARANI A exploração excessiva atinge até mesmo os reservatórios subterrâneos, possíveis alternativas ao esgotamento da água potável no mundo. Aquíferas são rochas permeáveis que conseguem armazenar e transmitir através de seus poros as águas que penetram na terra, boa parte vinda de chuvas. O Aquífero Guarani é o maior reservatório subterrâneo de água doce da América e um dos maiores do mundo. Atinge 29 milhões de pessoas, e cerca de 70% de seu total (1,2 milhão de km²) estão em território brasileiro. A principal preocupação é a possível contaminação das águas subterrâneas por despejos sanitários, industriais, agrotóxicos, fertilizantes e outras substâncias tóxicas provenientes de vazamentos como de tanque de combustível. O reservatório causa polêmica entre especialistas. Boa parte o considera um respiro extra para o mundo: o Guarani conteria água suficiente para suprir as necessidades do planeta por 200 anos. Do outro lado, alguns o classificam como um engodo, uma vez que a sua correta exploração implicaria custos iguais ou maiores aos de tecnologias como a dessalinização das águas do mar.

Suficiência Relativa

Água no Limite

Água Insuficiente

Água Escassa

Austrália

Argentina

África do Sul

Bolívia

Áustria

Alemanha

Afeganistão Bulgária China Espanha França Irã Itália Nigéria Reino Unido Turquia

Argélia Arábia Saudita Hungria Bélgica Ruanda Somália Síria Jordânia Cingapura

Abundância Angola

Brasil

EUA

Canadá

Estônia

Chile

Grécia

Indonésia

Japão

Noruega

Lituânia

Peru

México

Romênia

Rússia

Portugal

Ucrânia

Suécia

Tailândia

Zimbábue

Coreia do Sul Índia Moldávia Polônia

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No Brasil a situação também é problemática. Apesar da grande quantidade de água que dispomos, a distribuição do recurso ainda é muito precária. Para se ter uma ideia, a Região Norte conta com apenas 7% da população brasileira, mas dispõe de mais da metade da água.

De onde vem a água no Grande ABC?

Reúso: simples e barato A reutilização da água já é uma realidade em muitos lugares. Vista como uma boa alternativa de economia, é muito mais barata que a potável. Seu funcionamento é relativamente simples. Seja doméstico, industrial ou pluvial, o esgoto é coletado e enviado para uma estação de tratamento. Esse tratamento retira diversas impurezas da água, mas não a torna potável. No Estado de São Paulo, quem faz este serviço é a Sabesp. Em larga escala, a água de reúso pode ter diversas aplicações. Por exemplo, geração de energia, refrigeração de equipamentos ou em processos industriais que não necessitem de um nível alto de pureza, como é o caso da criação de componentes eletrônicos.

Dentro das residências, a utilidade também é grande. A água de reúso pode servir em todas as operações diárias que não necessitem de potabilidade, como lavar calçadas e carros, regar plantas e até mesmo vasos sanitários. De acordo com a Sabesp, 780 milhões de litros são aproveitados por mês atualmente. Se fosse potável, essa quantidade será suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Taubaté, no Vale do Paraíba. Para o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Pedro Caetano Mancuso, um dos maiores obstáculos da água de reúso ainda é o preconceito. “Em se tratando das indústrias não há preconceito, mas, em residências, sim”, diz. Ou seja, ainda é difícil se conscientizar de que não existem riscos em utilizar esse tipo de água. “Esses problemas devem ser vencidos com educação sanitária.” Uma boa explicação é que o ciclo da água no mundo, desde sempre, é o mesmo. “A água evapora, chove e evapora de novo”, frisa. “Não existe água que não tenha sido reutilizada. Teoricamente, toda água é de reúso.” SÃO BERNARDO 100% Rio Grande SANTO ANDRÉ 69% Rio Claro 25% Rio Grande 6% Pedroso

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Não é possível analisar as condições das sete cidades da região isoladamente, pois o sistema de distribuição do Estado é interligado. Comparada a outras regiões metropolitanas espalhadas pelo mundo, a primeira diferença é a localização. A maioria das outras grandes cidades está situada na foz dos rios, onde o volume de água é menor. “Isso já nos cria um déficit de água logo de saída”, lamenta a coordenadora de agência ambiental da Universidade Metodista, Waverli Maia Neuberger. Os números são preocupantes. Na bacia Alto Tietê, que abrange a Grande São Paulo, a disponibilidade de água é de 201 m³ por habitante/ano, o que, segundo a classificação da ONU, é crítico. “Estamos muito abaixo do nível estipulado, que é 1.500 m³ por habitante/ ano”, diz Waverli. Os moradores da região não parecem notar a escassez. Definitivamente, o consumo de água não é regrado. “As pessoas

não têm preocupação em utilizar a água de forma racional”, aponta Waverli. O crescimento desordenado é outro problema. Mais população sempre demandará mais água. Além disso, a ocupação irregular sobre as áreas de mananciais prejudica a produção de água. Os vazamentos também complicam a vida da população. De acordo com o professor Maurício Waldman, doutor em Recursos Hídricos, existe um levantamento - surrealista, segundo ele - de que pelo menos 60% da água retirada dos aquíferos existentes nos subterrâneos da Região Metropolitana têm como fonte os vazamentos em adutoras e tubulações da Sabesp.

Sistema de Água de Reúso: de acordo com a Sabesp, 780 milhões de litros são reaproveitados por mês

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Divulgação

RIO GRANDE DA SERRA 100% Ribeirão da Estiva

DIADEMA 100% Rio Grande

MAUÁ 72% Rio Claro 28% Alto Tietê

RIBEIRÃO PIRES 100% Ribeirão da Estiva

SÃO CAETANO 100% Cantareira

Teoricamente, as soluções podem vir de ações bem simples. “O quintal das pessoas, por exemplo. Não é necessário cimentá-lo por inteiro, mas só na faixa por onde passam os pneus”, afirma Waverli. “Veja quantas áreas poderíamos transformar. Isso iria ajudar na produção de água e na contenção das enchentes.” Para Waldman, as administrações municipais são as responsáveis por boa parte da solução. A troca da tubulação é necessária para impedir a perda no momento da distribuição, assim como tratar o esgoto de cada cidade. “Mas ainda creio que o fundamental deva vir do cidadão comum. Ele é o principal responsável pela transformação social.” Billings: tesouro ameaçado O maior reservatório do Grande ABC é o Sistema Billings. Com 127,5 km² de área inundada, pode armazenar até 123 bilhões de litros de água potável. Com tanta água perto de nós, como é possível que os especialistas falem em escassez? Simples, porém triste: o reservatório sofre com poluição e contaminação - o que, conse-

Represa Billings está com a sua capacidade reduzida e sofre de ocupação irregular

quentemente, prejudica sua capacidade de abastecimento. Entre os principais problemas há a eutrofização da água (alto nível de nutrientes, que provocam o aumento de matéria orgânica em decomposição), a contaminação por metais pesados e a proliferação de micro-organismos e de algas tóxicas, que esgotam o oxigênio da água. O depósito de sedimentos no sistema também é agravante, além dos resíduos trazidos pelas chuvas que atrapalham a circulação das águas, explica Waldman. “Dessa forma, a capacidade da Billings caiu, nos últimos anos, de 1,23 bilhão de m³ para algo em torno de 1,16 bilhão de m³”, revela. A ocupação irregular é outro grande vilão. A floresta nativa é fundamental para a produção de água em quantidade e qualidade adequadas. É necessária uma maior área descoberta no solo para abastecer as nascentes. Em regiões muito urbanizadas, como a do Grande ABC, o solo está muito impermeabilizado, o que atrapalha a produção da água. Para garantir um fácil acesso ao reservatório, as áreas de mananciais têm

sofrido muito com as ocupações desordenadas, que destroem a mata nativa. A Lei de Proteção dos Mananciais precisa, efetivamente, protegê-los. “Uma saída seria transformar as áreas ainda não invadidas em parques ecológicos e recuperar as nascentes dos rios”, diz Waverli. Para Waldman, é aí que entra o papel do cidadão, que deve cobrar um maior envolvimento do governo com o meio ambiente. “É da sua conscientização e mobilização que a engrenagem política pode ser movida em favor do meio ambiente”, afirma.

João Carlos Mucciacito Químico da CETESB, Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo, professor no SENAC, no Centro Universitário Santo André - UNI-A e na FAENG Fundação Santo André E-mail: joaomucciacito@yahoo.com.br Neo Mondo - Março 2011

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Coisas que eu vi

As “Lendas das Águas” U

ma das coisas mais fantásticas que aconteceu na minha vida de jornalista foi ter a oportunidade de conhecer o Brasil de norte a sul, de leste a oeste. Visitei e produzi programas do Monte Caburaí em Roraima ao Arroio Chuí no Rio Grande do Sul e da nascente do rio Moa no Acre até a Ponta do Seixas na Paraíba. Produzi e apresentei mais de cem programas “Isto é Brasil” e nesse espaço vi coisas e conheci muita gente. Entrevistei o caiçara e o caipira, o homem urbano e o suburbano, sertanejos e matutos e aprendi muito. O povo é sábio no seu dizer e sabe narrar com precisão os fatos verdadeiros ou as lendas que criou ao longo do tempo e que se eternizaram no saber popular. Como esta edição de NEO MONDO é voltada para as águas, eu vou aqui localizar duas histórias cujos personagens da mitologia indígena vivem no fundo dos rios e se envolvem em situações com o homem comum das cidades. Estava eu em São Félix do Araguaia fazendo entrevistas com pessoas que costumavam apanhar e vender tartarugas centenárias contribuindo também para a extinção desse réptil. Passava um pito em dois meninos que vendiam esses quelônios nas ruas de São Félix quando apareceu um homem de baixa estatura de nome Valdomiro, que fez questão de me dizer que 40

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ele deixou de utilizar essa prática quando quase foi mordido por uma Boiuna, uma cobra d’água, segundo ele, com mais de cinqüenta metros de comprimento. A par dos exageros quis saber o que aconteceu, e ele me convidou para conhecer uma área ribeirinha ao rio que leva o nome da cidade. E aí o senhor Valdomiro deitou falação: “Olhe aqui moço. Eu estava aqui na beira do rio para pegar tartarugas, mas de repente ouvi um barulho muito forte, e do meio do rio vindo em minha direção uma coisa que parecia ter nos olhos bola de fogo. Ela se enroscava toda e estava furiosa. Ela se enroscava e se transformava. Eu pensei primeiro que fosse um barco, mas depois que aquele bicho veio para a beira do rio eu saí correndo e só parei quando entrei na minha casa. Depois eu fiquei sabendo que era a Boiuna, uma cobra muito grande que devora animais e devora também as pessoas. Ela mora no fundo do rio, mas às vezes ela vem para terra para ter o que comer”. A narrativa do senhor Valdomiro me levou a obter mais informações de outros moradores e também de figuras mais abalizadas que conhecem a história: a Boiuna seria uma cobra descomunal que vive no fundo dos grandes lagos e rios num lugar que é conhecido pelo povo como “Boiaçuquara” ou “Morada de cobra grande”. Seu corpo seria brilhante, emanando uma forte

luz, e seus olhos brilham no escuro como se fossem archotes, iludindo pescadores incautos que são atraídos pelo perverso réptil. E quando a Boiuna resolve sair do rio e andar pela mata provoca no seu caminhar um som que lembra o tamborilar da chuva caindo. Conta a lenda que numa tribo indígena da Amazônia uma índia ficou grávida de um encantado da Boiuna e deu à luz duas crianças, sendo um menino que recebeu o nome de Honorato e uma menina com o nome de Maria. Para se livrar dos filhos, a mãe jogou as crianças num rio, e ali elas cresceram e passaram a viver. Honorato não fazia mal, mas sua irmã era perversa e atacava bichos e pessoas, levando Honorato a matá-la para resolver o problema. Honorato, em noites de luar, deixava de ser cobra, saía do fundo do rio e se transformava em um belo e elegante rapaz. Ao amanhecer ele voltava para o rio. Para “quebrar seu encanto” e ele voltar a ser gente era preciso que alguém tivesse coragem de derramar leite na boca da enorme cobra e fazer um ferimento na sua cabeça até sair sangue. Um dia um soldado, a pedido de moças apaixonadas pelo Honorato, resolveu enfrentar a cobra e conseguiu libertar Honorato do terrível encanto. Essas histórias são repassadas de pais para filhos e percorrem séculos nessas regiões do Norte do Brasil. O povo acredita na fi-


Humberto Mesquita

delidade dos fatos, e todo mundo se assombra e se preocupa com a presença da Boiuna. A outra lenda eu vi contada em Belém do Pará. É a história do boto-cor-de-rosa. Um peixe que se transforma em homem para atrair moças em eventos juninos ou até mesmo em festas caseiras. Essa lenda faz parte da mitologia amazônica. É um peixe que tem o poder mágico de sair à noite do fundo dos rios e se transformar num homem, para seduzir as moças que se sentem atraídas por esse estranho ser. A falta de dados mais concretos nos leva a crer que a lenda seja baseada em origem branca e mestiça com projeções nas culturas indígenas e ribeirinhas. A lenda do Boto é muito difundida na região Norte do Brasil, e está intimamente ligada aos folguedos que acontecem na região onde as moças se reúnem para conhecer novos parceiros de namoro. Nessas noites, geralmente de luar, o Boto aparece em forma de gente para conquistar corações despedaçados. E as moças com seus trajes atraentes se encantam com os galanteios projetados por este ser misterioso, gentil, afável e ao mesmo tempo estranho. As moças se encantam com a figura, mas ele escolhe com muita sutileza a sua presa que precisa ser bonita e ingênua. Ao primeiro descuido dos pais ele a leva para a beira do rio. E o amor se expande cheio de encanto e

magia. Depois, o rapaz desaparece e não é mais visto nas redondezas, enquanto que a garota leva no ventre o produto de uma noite de encantamento. E nascerá, em nove meses, o filho do Boto ou na verdade o filho de um fanfarrão que se veste de Boto para seduzir a incauta donzela. A verdade é que no Norte eu conheci muitos filhos de Boto e conheci até um poeta de nome Antonio Juraci Siqueira, que escreveu um poema ao Boto: “Eu venho de um mundo que tu não conheces do onde, do quando do nunca talvez Eu venho de um rio perdido Perdido em seus sonhos Um rio insondável Que corre em silencio Entre o ser e o não ser Sou filho das ondas Que gemem na PRAIA Sou feito de sombras De luz, de luar. E trago em meu rosto Mandinga e mistério E guardo em meus olhos Funduras de um rio Cuidado cabocla Cuidado comigo Que eu sou sempre tudo Que anseias que eu seja Teus ais, teus segredos Tua febre e teu cio Se em noites de lua Sentires insônia E a fome de sexo Queimar tuas entranhas A sede de beijos Tua boca secar E em brasa teu corpo Meu corpo exigir Contigo estarei Na rede de encanto Cativo, nas malhas Da teia do amor”.

O Boto, produto dessa inspiração mitológica, é um cetáceo exclusivamente Aquático que habita rios do Norte brasileiro, principalmente a Amazônia. Tem uma cabeça grande, um bico dentado e corpo afilado, quase desprovido de pelos, com grandes nadadeiras na frente e duas mamas em posição posterior e uma cauda que termina na nadadeira longa e horizontal; tem também um sistema de sonar sofisticado que se localiza na cabeça, de onde emite ondas sonoras. Pesa 7 quilos quando nasce e 150 quilos quando adulto. O Boto no Norte do Brasil é símbolo de sedução e energia, porque seus órgãos sexuais se assemelham aos dos humanos. O Boto está em extinção por culpa do homem que tenta buscar nele dotes mágicos e usa seus atributos para fabricação de remédios, amuletos e rituais. Mamiraná, que fica a 530 quilômetros de Manaus, é o lugar com a maior concentração de boto-cor-de-rosa, e a cada ano se registra uma queda de 10% na população desses animais. Isso se deve também à construção de hidrelétricas na Bacia do Amazonas que isolam esses mamíferos dificultando a reprodução. Os botos existem há mais de 5 milhões de anos e chegaram ao rio Amazonas nadando pelo oceano Atlântico.

Jornalista, Escritor e Editorialista. Apresentador de TV e Rádio. Neo Mondo - Março 2011

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Neo Mondo - Outubro 2008


Como gerenciar tanta

ÁGUA?

Março não é só o mês que encerra o ciclo das águas, “fechando o verão”, como diz Tom Jobin, mas é também o que contém o Dia Mundial para lembrar a importância do chamado “precioso líquido”. Mas nós, nascidos e viventes em país tropical, abençoado por Deus, ainda estamos longe de aprender a gerir tanta água, tanta chuva e tempestades típicas. Reconhecemos isto perante a Organização das Nações Unidas.

Estamos distantes de saber conviver com o “bonito por natureza” ocupando de forma desordenada encostas, mananciais e áreas de proteção. E ainda por cima, nos surpreendemos com as centenas de mortes anuais vindas dessas ocupações, em desabamentos e catástrofes, desamparados todos pela inexistência de uma cultura de Defesa Civil. São estes três ângulos que as matérias a seguir se propõem a analisar.

Valter Campanato/ABr

Especial


Especial - Água

de janeiro, fevereiro, março...

Especialistas dizem que massas atmosféricas movimentam verdadeiros “rios aéreos” com volume de água equivalente ao do rio Amazonas. Quando despencam...

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Valter Campanato/ABr

As águas cantadas por Tom Jobim num remoto mês de março começam a desabar entre novembro e dezembro, carreando estragos nunca vistos e mortes. O pior é que nossos dirigentes reconhecem que não sabemos lidar com tais catástrofes. Antônio Marmo

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ma das revelações mais emblemáticas, vindas à tona com as tempestades que devastaram a região serrana do Rio de Janeiro no início do ano, mostrou que a casa à beira do Rio Preto, no sítio Poço Fundo, em Petrópolis, onde o maestro Tom Jobim compôs seu clássico “Águas de Março”, desmoronara com a força das enxurradas.

Daniel, neto do compositor, mostrou em vídeo e então todos passamos a rever a letra... “é pau, é pedra, é o fim do caminho, é o carro enguiçado, é a lama, é a lama, é a chuva chovendo, são as águas de março fechando o verão...”. Claro, a letra vai além disso mas, como atesta o maestro, ”Águas de março” ou “chuvas da goiaba” em Minas, na verdade, fecham um ciclo milenar que se abre entre novembro e dezembro carregando

fenômenos naturais sempre presentes no cotidiano de um “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. No Norte do Brasil, na Amazônia, esse período se chama “inverno”. Aqui no Sul Maravilha, se diz “verão”, tempo de férias, que milhares de paulistanos “curtem” em cidades apelidadas de Ubachuva e Caraguatachuva, no Litoral Norte de São Paulo.

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ABr

Especial - Água

Casa do Tom Jobim levada pelas águas de janeiro: “é pau, é pedra, o fim do caminho...é a lama”

7 bilhões de litros Em matéria publicada em Neo Mondo no ano passado, mostramos que num breve período de 2010, desabaram sobre a capital de São Paulo mais de 7 bilhões de litros d’água, somatória de 50 dias de chuvas contínuas. Difícil esquecer. Mas nos esquecemos rápido, até que em 2011 vieram outras chuvas e mil mortes pranteadas.

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Falávamos desses 7 bilhões de litros desperdiçados enquanto os paulistanos ainda discutem um cenário de escassez hídrica na macrometrópole a curto e médio prazo, coisa para os próximos 15 anos. Por isso o Estado ainda pensa numa possível transposição das águas do rio Paraíba do Sul, desencadeando atritos interestaduais. Ocorrências triplicadas Represas, edifícios e pontes costumam ser construídos para suportar “tempestades seculares” – algo tão épico que existe apenas 1% de chance de ocorrer por ano.

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

“Intensidade progressiva” No entanto, o que vem chamando a atenção, hoje, é a “intensidade progressiva” dessas águas. O que acontece quando tempestades seculares são vistas a cada dez anos e «a tempestade da década» se torna anual, perguntam-se os engenheiros ao verem suas estruturas desabarem sendo que os cálculos estão corretos? Quantas estruturas chegarão aos limites de sua engenharia? Pois engenheiros e seguradores já enfrentam tais questões, diz matéria do jornal O Estado de São Paulo. No entender do neto Daniel, as letras do avô Jobim “tinham algo de profético”. O rancho de Jobim certamente suportou outras enxurradas, e lamas mas não as deste início de 2011. Ali ele compôs também a canção “Dindi”, onde lembra que “bandos de nuvens passam ligeiras num céu, tão grande céu”, depois de uma temporada de verão com muita água caindo na tranquila São José do Vale Rio Preto, enquanto o carro do amigo João Gilberto enguiçava na lama.

E, como vimos, os engenheiros já se preocupam com o fato de que tais tempestades seculares são vistas a cada dez anos e “tempestades da década” se tornam comuns. A empresa Munich Re, uma das maiores seguradoras do mundo, diz que eventos climáticos graves o bastante para danificar propriedades se tornaram significativamente mais frequentes desde 1980: a ocorrência de enchentes devastadoras triplicou, tendência quase acompanhada pelos furacões, tufões e tornados. Já o número de terremotos fortes – os quais se acredita que não são influenciados pela mudança climática – manteve-se estável. Para os engenheiros, os novos padrões climáticos levam a difíceis perguntas sobre o tipo de fator de risco e segurança que deve ser calculado na elaboração dos projetos e se as antigas estruturas precisam de reforço. O amigo José Antônio Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista, também integrante do painel sobre mudanças climáticas da ONU, assina em baixo: “as projeções climáticas para o futuro, feitas por modelos, mostram uma situação de aumento dos extremos”. “O aumento da frequência de extremos é um processo natural, só que as atividades humanas estão acelerando esse processo. Algo que deveria levar centenas de anos está acontecendo em décadas”, explica. Ele calcula que nos próximos 20 anos pode acontecer um agravamento do que tem sido observado nos últimos 50 anos.

Engenheiros já reveem cálculos sobre fatores de riscos e segurança diante de novos padrões climáticos


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A gestão das inundações “O Brasil não é Bangladesh. Não tem desculpa para permitir, no século 21, que pessoas morram em deslizamentos causados por chuvas.” Este é um alerta vindo de uma das maiores especialistas em desastres naturais e catástrofes no mundo, Debarati Guha-Sapir lembrando que o Pais já viveu 37 grandes enchentes em dez anos. Se a mera observação empírica de um jogador de sinuca no boteco bate com dados da observação científica de Marengo, já citado, o mesmo parece não ocorrer com a reação dos responsáveis pela gerência das consequências desses fenômenos cada vez mais frequentes. Também Margareth Walstrom, representante número um da ONU para prevenção de desastres, faz o alerta: “o desastre na região serrana do Rio de Janeiro pode ser o tsunami político do Brasil”. Documento do próprio governo brasileiro encaminhado à ONU aponta falta de preparação para responder a catástrofes naturais. Algo semelhante foi dito também pelos jornais ao redor do mundo. O correspondente Jean-Pierre Langellier do Le Monde não poupou o descaso das autoridades brasileiras e críticas à falta da implantação de uma política de prevenção das enchentes. O mesmo foi dito pelo New York Times. 24 horas de governo Quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleães, o que se descobriu foi que o grande problema era a capacidade do Estado de reagir com rapidez. Mas nossos dirigentes aqui não se dão conta, ainda, da gravidade do desafio. Em entrevista de recém-empossado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, saiu-se com uma daquelas frases memoráveis que fazem a alegria dos jornalistas: “obras contra enchentes não ficam prontas em 24 horas”.

“Ora pois... é a terceira vez que ele assume o Governo e se terminá-lo em 31 de dezembro de 2014, terá sido o segundo governante há mais tempo no poder, só perdendo para o histórico Ademar de Barros”, comentou Sylvio Micelli no portal Transparência São Paulo. E continua: “pior ainda… Alckmin não pode alegar que herda uma “herança maldita”, afinal o seu partido está no governo de São Paulo há 16 anos e, ao final de seu mandato, terá completado duas décadas”. No dia 2 de março, após as sempiternas chuvas paulistanas, o mesmo governador culpou de novo quem pelo transbordamento dos rios da capital? Ora, só pode ser “a intensidade das chuvas”. Mas, claro, não é só a intensidade das chuvas. Ou como o próprio governador reconhece, são também as ocupações de várzeas e a falta de novos piscinões. Estudos demonstram que, embora obras desde a década de 80 tenham rebaixado o leito do rio Tietê, implantado várzeas e construído piscinões, aumentado a profundidade e a largura, ao custo de R$ 2 bilhões, sua capacidade de receber água (vazão de até 1.100 m3/segundo) ainda é bem inferior a vazões frequentes na época de chuvas intensas, que podem chegar a 1.750 m3/segundo. Só 50 dos 134 piscinões previstos foram concluídos. Sem falar que é quase impossível controlar o volume de sedimentos carreados por grande parte dos 70 rios, córregos e afluentes que estão sob o asfalto, como lembra o jornalista Washington Novaes. Alckmin prometeu ampliar trabalhos de desassoreamento. “Situation room” A Agência Nacional de Águas (ANA) diz contar com uma “sala de situação”, nome pomposo copiado dos presidentes americanos para o que seria um centro de geren-

A especialista em catástrofes, Debarati Sapir: “Brasil não é Bangladesh”

ciamento ou “gestão de situações críticas a subsidiar a tomada de decisões, através do acompanhamento das condições hidrológicas dos principais sistemas hídricos nacionais”. Isso está no site da agência. Tal “sala” é gerida por uma Superintendência de Usos Múltiplos” (SUM). O objetivo seria “identificar previamente possíveis ocorrências de eventos críticos, permitindo a adoção antecipada de medidas mitigadoras.” Tanto a ANA como o jogador de sinuca no boteco constatam que “o Brasil tem registrado um número cada vez maior de desastres e, como consequência, os danos e prejuízos resultantes repercutem diretamente no desenvolvimento nacional”. Um organograma bem desenhado liga a “sala” com uma Superintendência de Gestão de Informações, com outra Superintendência de Administração de Rede Hidro-meteorológica, que administra uma rede telemétrica de dados, a gerar alertas hidrológicos a serem repassados aos meios de comunicação. Mas com todo este aparato, ninguém avisou os 1.500 mortos na região serrana do Rio sobre o transbordamento do Rio Preto, cantado nas “Águas de Março” de Jobim. O jornalista Augusto Nunes, em seu blog, conclui com coice direto: “No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas”.

“Não tem desculpa” O que segue são trechos de uma entrevista da indiana Debarati Guha-Sapir ao jornal O Estado de São Paulo em 14 de janeiro: ESTADÃO: Como a senhora avalia o drama vivido no Brasil? Debarati Guha-Sapir: Não sei se os brasileiros já fizeram a conta, mas o País já viveu 37 enchentes, em apenas dez anos. É um número enorme e mostra que os problemas das chuvas estão se tornando cada vez mais frequentes no País. ESTADÃO: O que vemos com o alto número de mortos é um resultado direto de fenômenos naturais? Debarati Guha-Sapir: Não, de forma alguma. As chuvas são fenômenos naturais. Mas essas pessoas morreram porque não têm peso político algum e não há vontade política para resolver seus dramas, que se repetem ano após ano.

ESTADÃO:Custa caro se preparar? Debarati Guha-Sapir: Não. O Brasil é um país que já sabe que tem esse problema de forma recorrente. Portanto, não há desculpa para não se preparar ou se dizer surpreendido pela chuva. Além disso, o Brasil é um país que tem dinheiro, pelo menos para o que quer. ESTADÃO: E como se preparar então? Debarati Guha-Sapir: Enchentes ocorrem sempre nos mesmos lugares, portanto, não são surpresas. O problema é que, se nada é feito, elas aparentemente só ficam mais violentas. A segunda grande vantagem de um país que apenas enfrenta enchentes é que a tecnologia para lidar com isso e para preparar áreas é barata e está disponível. O Brasil praticamente só tem um problema natural e não consegue lidar com ele. Imagine se tivesse terremoto, vulcão, furacões… Neo Mondo - Março 2011

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Especial - Água

A tentação de atolar-se em várzeas ou escalar morros para ali pendurar moradia não é gerada apenas pela beleza da paisagem, mas na maioria dos casos pela absoluta falta de opções de onde instalar-se, ainda que isso venha a significar a morte. Mas o que se revela claramente aos olhos de todos é a total perda do controle técnico das expansões urbanas por parte das autoridades públicas, embora existam soluções técnicas. Antônio Marmo


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ma placa na entrada de Ubatuba (SP) recebe o visitante com um “Acesse o Paraíso”, chamando para um site sobre a cidade. Difícil discordar da descrição. À mesma conclusão chega quem visita Petrópolis, Teresópolis ou qualquer uma das cidades serranas do Rio de Janeiro, vitimadas pelas tragédias recentes. Tanto Ubatuba quanto Petrópolis, Angra dos Reis ou Santa Catarina são lugares belíssimos, a imagem que fantasiamos do paraíso. E lugares bonitos sempre atraíram gente e... imobiliárias. Na maioria dos casos, morros, encostas e várzeas atraem gente que, no dizer de Chico Buarque, “não tem com quem contar”, gente sem acesso a imobiliárias, sem acesso a terrenos de fácil acesso, inspiração

para letras de samba com seus barracões de zinco, sem telhado, sem pintura. No morro, barracão vira “bangalô”. Já as imobiliárias abrem endereços finos para abonados ecológicos, conectados com arquitetos e engenheiros capazes de calcular riscos, estruturas e heliportos. Mas a lama de janeiro de 2011 não distinguiu ricos de pobres. A região do Vale do rio Cuiabá, em Itaipava, por exemplo, é conhecida por abrigar condomínios de luxo e pousadas sofisticadas. Algumas das mais tradicionais famílias cariocas têm – ou melhor, tinham – casas lá. No sítio de Antônio Alberto Gouvêa Vieira, irmão do presidente da Federação das Indústrias do Rio, morreu uma família inteira. A família Gouvêa Vieira foi uma

das primeiras a construir residência de verão na região, há mais de 70 anos. A pousada Tambo Los Incas, uma das mais sofisticadas do Vale, acabou. Vizinhos dela, em Itaipava, distrito de Petrópolis, estavam dezenas de cavalos de corrida que valiam até R$ 500 mil, campeões das raias do Jocquey Clube carioca. Todos foram soterrados. Do ano passado, ninguém mais se lembra da tragédia que engoliu uma pousada chique em Angra dos Reis levando outros 40 mortos dos arredores. “Cidade imperial” como Petrópolis, São Luis do Paraitinga, no Vale do Paraíba paulista, reergue-se da inundação que abalou uma dúzia de casarões históricos, tidos há dois séculos como mansões de barões do café. Pobres e ricos na mesma canoa.

Vladimir Platonow/ABr

Teresópolis -

Ao fundo, após a desolação, a Serra dos Órgãos: paraíso ocupado sem critérios, como tantos outros pelo país


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Especial - Água

O morro visto por Tarsila do Amaral: a ocupação de encostas pintada sob visão idílica, mas nunca a poesia esteve tão perto da realidade: “já vivem pertinho do céu”

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Neo Mondo - Março 2011

E Dom Angélico, que já foi bispo auxiliar da cidade de São Paulo na década quente dos anos 70, concluía com a «urgente necessidade de se respeitar o meio ambiente”. Hoje, todos falam Dom Angélico pode ter sido dos primeiros a gritar mais alto sobre a ocupação desordenada das encostas, culpando imobiliárias e o Poder Público diante da dimensão de uma tragédia que se vem tornando rotina.

Valter Campanato/ABr

O sermão dos “por quê” Em País de memória curta, quem ainda se lembra da tragédia de Santa Catarina, dois, três anos atrás? Naquele caso, o primeiro a colocar o dedo na ferida foi Dom Angélico Bernardino, em sermão memorável difundido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), hoje lembrado como o “sermão dos por quê”. O bispo de Blumenau, a região mais atingida pela tragédia ambiental, em Santa Catarina, afirmava que “é preciso buscar outras causas das tragédias além das chuvas. Precisamos buscar, mais profundamente, outras causas de tantos desmoronamentos, mortes, feridos e desabrigados, clamava ele. “O desastre maior desceu dos morros”, pregava o bispo na época, abrindo uma série de perguntas. “Por que as encostas dos morros são chanfradas e os barrancos não recebem tratamento adequado? Onde e como estão os muros de arrimo? Por que o Poder Público se curva diante dos interesses da exploração imobiliária? “Por que locais condenados à habitação em estudos de 25 anos atrás continuam habitados, com o Poder Público conivente, a cobrar dos moradores, imposto e taxas de água, luz. “Por que o caminho das águas que descem dos morros não é respeitado e sua vazão não é prevista? Por que, em muitos locais na região do Baú, o pinus e o eucalipto imperam, a serviço do interesse de serrarias? Por que há tanto interesse em maquiar a cidade sem atender seus problemas básicos?”

Mas agora também governos se autoflagelam dizendo a mesma coisa. A presidente Dilma Rousseff, em batismo de fogo, pés na lama de Petrópolis, dizia para os holofotes que a ocupação de moradias em áreas de risco, propensas a desabamentos, “virou regra, e não a exceção” no País. Sérgio Cabral, governador reeleito do Rio de Janeiro, braços dados com a recémempossada, lançava a culpa sobre governos passados, em visita aos locais atingidos na região serrana. Geraldo Alckmin, em São Paulo, também culpava governos passados, ainda que governos passados fossem ele próprio e outros de 16 anos atrás, do mesmo partido. No dia 8 de janeiro, no auge do problema carioca, Cabral bradava contra “décadas de irresponsabilidade política” culpando “gestões passadas” por pelo menos dois terços das cerca de, até aquele momento, 900 mortes. “Quando a gente sobrevoa a região parece que um tigre lanhou todas as encostas. A chuva foi responsável por parte da tragédia, mas também tem muito da ocupação irregular. Da irresponsabilidade política de décadas de permissões de ocupações do solo urbano de maneira irresponsável”, esbravejava. “Eu diria que mais de dois terço dessas mortes na região serrana foram por conta da irresponsabilidade de políticos de gestões passadas”, dizia ele, abrindo um segundo mandato, rumo ao oitavo ano no poder carioca. A presidente Dilma, mais concreta, comprometeu-se a fazer com que “o momento de reconstrução seja também momento de prevenção”. Veremos.

A presidente Dilma e o governador Cabral fazem a constatação do óbvio: as casas descem porque deixaram alguém subir lá para construí-las.


PREGANDO NO DESERTO

Do ponto de vista técnico, engenheiros e geólogos sabem o que fazer para minimizar os riscos e podem até realizar obras de melhorias. A técnica é mais do que disponível. Está claro que faltam vontade e organização política para que essas ações sejam efetivadas. O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor de Planejamento e Gestão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da USP, é um dos que está afônico de tanto pregar ao vento. “A responsabilidade não deve ser creditada a fenômenos como o aquecimento global ou a imprevistos geológicos e pluviométricos”, clama ele há anos. “Tudo que tem acontecido está associado à desordenada ocupação urbana de áreas geologicamente inadequadas.” Luiz Ferreira Vaz, outro geólogo respeitado, professor convidado do Instituto de Geociências da Unicamp, presidente da Associação de ex-Alunos de Geologia da USP, está acostumado a falar das “tragédias anunciadas”. Em recente artigo no jornal O Estado de São Paulo, como os velhos profetas bíblicos, ele deplorava: “nós geólogos, acostumados com a vastidão do tempo, lamentamos quando chamados a diagnosticar as causas de um escorregamento e propor medidas de remediação”. “Aí há pouco a fazer, geralmente a evacuação de casas e o controle do escoamento das águas. Muito raramente há uma convocação para evitar os acidentes, identificar as áreas de risco e restringir a ocupação às áreas viáveis.” 60 anos de estudo Vaz lembra que “as tragédias anunciadas vêm sendo estudadas desde o início da década de 1950, depois que foram construídas as primeiras usinas hidrelétricas de Cubatão (SP) e Nilo Peçanha (RJ), ambas atingidas por escorregamentos”. Mas o pior viria depois, e ele cita a catástrofe da Serra das Araras, em janeiro – sempre janeiro – de 1967 atingindo uma área com cerca de 30 km de diâmetro, com

Vladimir Platonow/ABr

Mas geólogos e pesquisadores, ligados diretamente à questão pela sua especialidade, estão roucos de tanto gritar no deserto. Eles são os mais indignados e clamam para que não sejam convocados somente para diagnosticar causas após acidentes e propor paliativos quando nada mais se pode fazer. ”Por que não nos convocam para evitar os acidentes?”, pergunta um deles.

Itaipava (RJ) - Estragos causados pelas chuvas na região do Vale do Cuiabá, em Itaipava

centro na Via Dutra gerando muita destruição e mais de 1.200 mortes, até hoje o evento natural de maior letalidade. Dois meses depois, em março, o processo repetiu-se em Caraguatatuba, matando 120 pessoas e destruindo 400 casas no seu caminho para o mar, ainda hoje enlameado. Agora, tais ocorrências viraram rotina anual. Que mudança climática? Cientistas mais equilibrados têm claro que sempre houve fenômenos climáticos extremos e atribuí-los somente a contribuição do fator humano, antropogênico, continua sendo uma incógnita. Vaz lembra todas as tragédias anteriores para concluir que “das mudanças climáticas, culpadas pelos apressados de todos os males da Terra, nem se ouvia falar em 1950. Mesmo sem ocupação humana, os escorregamentos acontecem pois, na realidade, são processos naturais da evolução do relevo terrestre”, ilustrando que em Caraguatatuba, em 1967, não havia tanta ocupação humana. E com uma pergunta ele nos leva de volta ao dilema da ocupação dos “paraísos”: “Então, estamos condenados a ficar afastados dos morros e das belas praias que eles escondem? A resposta é não, mas medidas devem ser

tomadas, e a mais importante delas é a avaliação da suscetibilidade ao escorregamento, também denominada risco geológico”. E até mesmo a tramitação do projeto do novo Código Florestal foi afetada pelos desabamentos. A flexibilização de ocupações de áreas de encosta, topo de morro ou margens de rios, como prevista no texto em análise na Câmara dos Deputados, voltou a ser bombardeada. Isto significa que vamos amadurecer. “Autoridades, surpreendam-nos!” Assim, se tais mecanismos existem e são conhecidos dos geólogos e engenheiros, por que, anualmente, os escorregamentos continuam a “ceifar vidas, sonhos e benfeitorias”? Os geólogos entendem que por se tratar de um processo natural, os deslizamentos de solo e rocha são previsíveis. Logo, tais eventos deveriam obrigatoriamente ser objeto da atenção dos poderes públicos, como acontece com outros eventos naturais, como a gripe suína, por exemplo. A indiana GuhaSapir tem razão: “não tem desculpa”. O já citado Álvaro Santos, ex do IPT, profetizava em artigo inspirado, escrito em 8 de abril de 2010: “a curtíssimo prazo somente a remoção emergencial de moradores de áreas de alto risco poderá reduzir a possibilidade de mais desgraças”.

Neo Mondo - Março 2011

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Especial - Água “Vamos, no entanto, mirar nossas atenções para 2011, implorava no deserto. Se queremos um ano virtuosamente diferente, o trabalho deverá começar já. Autoridades públicas brasileiras, surpreendam-nos!”, desafiava ele. “Tomem, desde já, ousada e corajosamente, as iniciativas que farão com que em 2011 tantos brasileiros não tenham que morrer de forma tão bruta e inútil e que tantas pessoas não tenham que ser indelevelmente traumatizadas pela dor da cruel perda de parentes e amigos”. Pois em 2011, pelas forças das enxurradas, morreram quatro vezes mais pessoas que em 2010, infelizmente. “O aparato estatal não dispõe de serviços geológicos e tampouco de legislação adequada. Ou, quando dispõe, as verbas são escassas. Como riscos geológicos, não há políticas públicas de longo prazo nem órgãos responsáveis pela prevenção”, explica Vaz.

Carta Geotécnica E o que se revela aos olhos de todos é a “total perda do controle técnico das expansões urbanas” por parte das autoridades públicas responsáveis. Álvaro Santos aconselhava – no ano passado – lembre-se- que “como providência contínua e imediata, deve-se desocupar todas as áreas consideradas geotecnicamente de alto risco, para o que se faz indispensável a produção de cartas de risco, reassentando seus ocupantes em condições dignas e seguras em outras áreas”. “Se uma administração municipal alega não dispor dessas outras áreas seguras, coragem! É recurso público bem gasto: desapropriem áreas seguras por interesse social”. E continuava: “a começar pelos municípios com conhecido potencial de risco, o

Poder Público precisa elaborar o instrumento indispensável para um eficaz planejamento do crescimento urbano, a Carta Geotécnica”. A tal Carta é um instrumento técnico que mostra as áreas que não poderão ser ocupadas de forma alguma e também as áreas que poderão ser ocupadas desde que adotados os critérios técnicos explicitados nela, que deverá ter força de lei. Álvaro concluía – em 2010 – que era preciso, ainda, conceber e implantar um “firme sistema de monitoramento e fiscalização, com participação ativa das comunidades, para que áreas definidas como impróprias não sejam ocupadas ou reocupadas”. Por fim, claro, a implementação de programas habitacionais sérios e seguros, na mesma faixa orçamentária que a baixa renda só encontra em áreas de risco.

Mortos de São José

Operação atabalhoada Na típica reação “pó-portas arrombadas”, a Prefeitura retomou remoções de famílias, delegando à Defesa Civil a tarefa de

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Neo Mondo - Março 2011

demolir casas. A meta para 2011 seria retirar mil famílias das encostas e várzeas. A boa intenção é correta, mas o processo foi desencadeado de forma destrambelhada. Em um mês, a Defesa Civil atacou em vários bairros com retroescavadeiras e tratores, com uma série de 40 casas derrubadas, algumas sem sequer uma notificação prévia, enquanto o morador estava fora. Prato feito para as manifestações orquestradas. Vieram reuniões com vereadores, cartazes, corridas ao Ministério Público, megafones diante do Paço, mas pelo menos o prefeito Eduardo Cury teve o bom senso de não descer do 7º andar para gritar:“então morram”, como em Manaus.

Sem levar em conta que o que se discute é questão de vida e morte para janeiro, fevereiro e março de 2012, a Câmara, todos os vereadores, bancada de apoio e PT na oposição, pressionaram ao prefeito para um deixa como está, pedindo campanhas de conscientização. Mas campanhas já são feitas. “Noves fora” os métodos, prevalece a opinião do engenheiro civil Alberto Sayão, doutor em Engenharia Geotécnica e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ): a “ocupação descontrolada de encostas é um dos principais motivos de tragédias como essas. Não se pode simplesmente orientar as pessoas a saírem de suas casas. Deveria ser indicutível a retirada de pessoas das áreas de risco”. Vladimir Platonow/ ABr

Sensibilizado com o artigo de Álvaro Santos e atuando, à época, como assessor de um vereador em São José dos Campos, esbocei em 2010 um projeto de lei sobre a tal Carta Geotécnica. Vi que a cidade já conta com uma dessas cartas. Em 2008 foi refeito mapeamento de áreas de risco, mas as expansões desordenadas continuam. Simultaneamente aos eventos da região serrana carioca, um desmoronamento de encosta no bairro Rio Comprido, em São José, levaram cinco vidas. Mortes que poderiam ter sido evitadas, claro. Mas desde 2005, a população nas áreas de risco da cidade aumentou seis vezes no Município, como denuncia a revista regional Valeparaibano. Em 2005 foram cadastradas 242 casas em 17 áreas de risco, saltando, em 2011, para 1.500 casas em 16 áreas. Isso significa, segundo a revista, que ao passo em que as famílias foram sendo removidas, outros núcleos se formaram no vácuo da falta de fiscalização. A Prefeitura transferiu 950 famílias a partir de 2009, entre elas, 10 do Rio Comprido, bairro que não estava entre as piores situações, aparecendo na nona posição segundo o mapa de riscos. Acontece que no local havia 40 casas em encostas em 2005 e hoje, segundo a própria Prefeitura, são mais de 200.

Sobreviventes tentam reconhecer parentes desaparecidos entre os mortos na localidade de Campo Grande, no interior do município serrano arrasado pelas chuvas


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Especial - Água

Sem

DEFESA

Está cada vez mais claro que os eventos extremos e emergências ambientais ou climáticas serão o novo normal daqui para frente. E num quadro como este, o Brasil se confessa despreparado até para lidar com situações bem mais modestas que as enfrentadas pelo Japão. Praticamente um em cada quatro municípios brasileiros sequer conta com um serviço de Defesa Civil. Wilson Dias/ABr

Antônio Marmo

Temos tecnologia de prevenção e entre elas está incluída a remoção de casas de beira de rios


Wilson Dias/ABr

Acampamento montado na região serrana do Rio: só pensamos na terceira etapa dos procedimentos de defesa, a do socorro. Onde a pevenção e o alerta?

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aís privilegiado, não temos terremotos nem vulcões ou maremotos. Aprendemos isso desde a escola primária. Mas nossos escorregamentos de encostas podem ser comparados, sim, aos terremotos dos países com atividade sísmica. Têm a vantagem de ser menos destrutivos e mais facilmente previsíveis, porém são letais da mesma forma. Este trabalho já estava pela metade quando vieram as notícias da tragédia japonesa, levando ao simpático País do Sol Nascente “a mais grave crise desde a Segunda Guerra Mundial”, segundo os dirigentes, um tremor de magnitude 9 – em escala de 1 a 10 –, seguido de avassalador tsunami e alerta de emergência nuclear. Um quadro de Apocalipse ao qual se juntaram o frio e a neve, a falta de energia. A maior parte dos países costeiros da América Latina tomou precauções e decretou a evacuação de suas populações em risco, temendo repique da onda, a demonstrar capacidade da região de se proteger ante emergências desse tipo, evitando perdas maiores. Os países sísmicos – Japão à frente – despendem milhões anualmente em sofisticados sistemas de monitoramento. Mais cedo ou mais tarde, vão conseguir prevenir-se quanto aos terremotos, acreditam os especialistas. Já no Brasil, segundo o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que ao lado do também senador Tião Viana (PT-AC), pressiona o Congresso para analisar proposta de revisão total do Sistema Nacional de Defesa Civil, “hoje, nossa situação é muito frágil. Te-

mos que admitir que a Defesa Civil brasileira é quase zero. Ninguém sabe o tamanho das áreas de risco, o tamanho da encrenca. Será uma vergonha se até o fim deste ano o Congresso não fechar a proposta”. “Temos disponível a tecnologia de prevenção dos escorregamentos, desenvolvida por nós mesmos, com um custo sensivelmente inferior, porém não a aplicamos por desconhecimento e inação dos governos”, enfatiza o geólogo Luiz Ferreira Vaz, do Instituto de Geociências da Unicamp. Ressuscitando propostas Após visita às áreas devastadas do Rio de Janeiro, a presidente Dilma apressouse em ressuscitar um Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais, um conjunto de medidas que, apesar do novo rótulo, já fazia parte das ações de um órgão do próprio governo criado em 2005, o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad). Que, porém, não recebia verbas desde 2008. O novo sistema envolveria tecnologia de ponta vinculada ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ancorado num supercomputador para monitorar com precisão áreas de até 3 km2 e dizer com detalhes quanto e quando vai chover ali. Mas o supercomputador do Inpe não fará muita coisa se não for auxiliado por rede terrestre de pluviômetros e radares. Agora o governo pensa em comprar 700 pluviômetros e novos radares, mas todo o aparato só

vai estar pronto em 2014. A ideia é que áreas de risco sejam alertadas com pelo menos seis horas de antecedência. Crime de responsabilidade Nas suas propostas, Lindbergh Farias inclui o processo por crime de responsabilidade a prefeitos e governadores que não elaborarem cadastros listando as áreas de risco nos respectivos territórios num prazo de um ano, segundo despacho da Agência Brasil. Além disso, o senador quer que sejam suspensas as transferências voluntárias da União aos Estados e Municípios que não atualizem os mapeamentos das áreas de riscos em 180 dias. Com os dados atualizados de Estados e Municípios, o projeto de lei apresentado por Lindbergh Farias estabelece que a União ficará obrigada a criar o Cadastro Nacional de Áreas de Risco. A partir desse cadastro seriam, segundo ele, formuladas as ações integradas entre os órgãos do Sistema Nacional de Defesa Civil (Sindec). Já o petista Jorge Viana afirmou à Agência Brasil que os instrumentos de trabalho da Defesa Civil são precários. “Minha proposta é fortalecer esse aparato, não para que a Defesa Civil sirva depois de uma catástrofe, de uma cheia, um desmoronamento ou para contar os danos, ver quantos morreram e o tamanho do prejuízo, mas para que possamos ter uma ação preventiva e inteligente.” Neo Mondo - Março 2011

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Wilson Dias/ABr

Especial - Água

Na Austrália, os voluntários são grande trunfo para evitar tragédias. No Brasil, despreparo.

Como seu colega de partido, Jorge Viana pretende uma Defesa Civil que tenha mais mobilidade, que seja capaz de se deslocar com rapidez para qualquer região do país

afetada por desastres naturais. Mas, lembremo-nos: as mazelas não são apenas dos latinos. Após o furacão Katrina, Nova Orleães (EUA) se atolou em

incompetência e desorganização. E toda a proeza tecnológica nas nuvens pareceu evaporar-se na terra, onde sobraram o caos, a correria e o improviso.

O APITO DAS SIRENES O conceito moderno de Defesa Civil nasceu entre os escombros dos primeiros bombardeios alemães sobre Londres, na Segunda Guerra Mundial. Foram padronizados procedimentos para diminuir o número de mortos entre os civis. Setenta anos depois, o Sistema Nacional de Defesa Civil (Sindec) brasileiro ainda não consegue cumprir com eficiência a primeira e a segunda etapas desses procedimentos, ou seja, prevenção e alarme. Só pensamos na terceira, o socorro. Sem termos passado por experiências diretas de guerras e bombardeios, sequer imaginamos como deve ser angustiante o apito das sirenes anunciando catástrofes. Mas elas são apenas uma parte de todo um arsenal de prevenção e alerta que inclui desde aulas e treinamentos para as crianças nas escolas às mobilizações voluntárias e instruções passadas via televisão e até torpedos pelas autoridades como no Japão: “Por favor, ajam com calma e paciência” era uma das mensagens difundidas. O editor Marc Margolis, do site www. brazilinfocus.com, diz que agora “as sirenes de alerta apitam no mundo todo. Nevascas assolam os Estados Unidos, um trecho da Austrália do tamanho da Alemanha e da França somadas ficou debaixo d’água. Enchentes históricas assolam 56

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Colômbia, Venezuela e Brasil, matando milhares e deixando centenas de milhares sem abrigo”. O editor reforça que as sirenes também soaram nas Filipinas, Sri Lanka e no Sul da Índia, isso em 2 meses, todos às voltas com inundações para concluir com um: “seja bem-vindo ao século da Defesa Civil em que o novo divisor das águas da civilização contemporânea bem que poderia ser como os países lidam com as desgraças naturais”. Até torpedo em celular Desta forma, mesmo tendo um trecho do tamanho da França e Alemanha assolado pelas águas durante dias, apenas e somente 28 pessoas morreram na Austrália.. Claro, números medindo uma,

duas mortes sempre são ruins, mas quando isso demonstra capacidade de mobilização em defesa da população, o sistema deve ser imitado. Três milhões de pessoas foram afetadas lá, mais de 10% da população. Os preparativos para as enchentes começaram em novembro do ano passado – três meses antes – quando a meteorologia deu os primeiros sinais de que poderia haver chuvas fortes, relatava o programa “Fantástico”, da Rede Globo. Um sistema de 50 radares forma um anel de proteção em torno do pais. O Serviço de Emergência recebeu alertas da meteorologia quatro dias antes das enchentes. Além de anúncio em rádio e TV, eles usaram até torpedo de celular para alertar a população a sair das áreas de risco.


15 minutos japoneses O Japão é considerado o pais que mais investe no mundo em sistema de defesa civil e prevenção muito mais antigo e eficaz que o do Ocidente. Depois do terremoto em Kobe, faz 16 anos, a prevenção avançou ainda mais, na medida em que os currículos escolares passaram a incluir informações e treinamento para lidar com situações como a que aconteceu recentemente. Mas até hoje ainda nenhum sistema pode prever com precisão os terremotos. Foram, no máximo, 15 minutos entre os primeiros sinais do abalo sísmico e o alerta de tsunami. Quinze minutos para levar milhares de pessoas para regiões mais altas, tropeçando já em escombros. Mas a maioria salvou-se graças à disciplina que os leva a assimilar instruções como estas: saiba onde fica o refúgio (hi-

nanjo) mais perto de sua casa; marque previamente um local de encontro com a família em caso de tremor, de preferência nos locais de refúgio; confira quanto tempo leva andando do seu local de trabalho ou escola até o refúgio. Há informações para os primeiros segundos (apague o fogo, desligue o gás, ponha uma almofada na cabeça ou entre sob uma mesa), o primeiro minuto, os primeiros 3 minutos (deixe o local o mais rápido possível). Um conselho serviria para nós: fique longe das encostas para evitar deslizamentos.

Alagamentos em Tóquio Mensagem passada pela internet informa que Tóquio não sofre com alagamentos. O subsolo da capital nipônica alberga uma fantástica infraestrutura cujo aspecto se assemelha ao cenário de um jogo de computador ou a um templo de uma civilização remota. Cinco poços de 32 m de diâmetro por 65 m de profundidade interligados por 64 km de túneis formam um colossal sistema de drenagem de águas pluviais destinado a impedir a inundação da cidade durante a época das chuvas, uma obra de engenharia sofisticadíssima, situada a 50 metros abaixo do solo.

Reprodução de TV

Além disso, os voluntários são o grande trunfo da Austrália para enfrentar tragédias. Por exemplo, só a tarefa de limpeza levou um exército de 22 mil voluntários às ruas de Brisbane, além de outros que brincam com as crianças nos abrigos, que servem alimentos etc.

Japoneses são os mais preparados do mundo para enfrentar catástrofes mas tiveram só 15 minutos entre o terremoto e o tsunami. Mesmo assim, milhares se salvaram.

VULNERABILIDADE DO SISTEMA O governo brasileiro admitiu à Organização das Nações Unidas (ONU) que grande parte do sistema de Defesa Civil do País vive um ‘despreparo’ e que não tem condições sequer de verificar a eficiência de muitos dos serviços existentes. O jornal O Estado de São Paulo divulgou à época da tragédia da região serrana do Rio, documento revelador. O material foi enviado em novembro de 2010 por Ivone Maria Valente, da Secretaria Nacional da Defesa Civil (Sedec), fazendo um raio X da um plano nacional de redução do impacto de desastres naturais. Jamil Chade, o autor da matéria, diz que depois do grande tsunami que atingiu a Ásia em 2004 e do aumento do número de desastres naturais no mundo nos últimos anos, a ONU foi pressionada a estabelecer um plano para ajudar governos a fortalecer seus sistemas de prevenção. O documento enviado pelo Brasil já é resposta às cobranças da ONU em torno de um plano para reduzir riscos até 2015. As consta-

tações do relatório nacional são alarmantes. “A maioria dos órgãos que atuam em defesa civil está despreparada para o desempenho eficiente das atividades de prevenção e de preparação”, afirma o documento em um trecho. Praticamente um a cada quatro municípios do país sequer tem um serviço de defesa civil e, onde existe, não há como medir se são eficientes. “Em 2009, o número de órgãos municipais criados oficialmente no Brasil (para lidar com desastres) alcançou 77,36% dos municípios brasileiros, entretanto não foi possível mensurar de forma confiável o indicador estabelecido como taxa de municípios preparados para prevenção e atendimento a desastres”, diz o documento em outra parte.

Na avaliação de risco, por exemplo, o governo admite que não analisou a situação de nenhuma escola ou hospital no país para preparar o documento. O próprio governo também aponta suas limitações em criar um sistema para monitorar e disseminar dados sobre vulnerabilidade no território. O governo também reconhece que a situação é cada vez mais delicada para a população. Outros estudos mostram que “a Grande São Paulo e adjacências deveriam estar muito atentas à situação que se esboça na área de represas e barragens”. Basta lembrar que a cidade de Franco da Rocha e outras vizinhas já sofrem com a descarga de sobra de água das represas.

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Dilma de Melo Silva

ÁGUA:

fonte da vida, recurso esgotável

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este ano de 2011 a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe tirar, na Campanha da Fraternidade, que ocorre durante a Quaresma, uma reflexão sobre consciência ambiental, num chamamento oportuno aos fiéis para que se engajem na salvação do planeta. Durante os 40 dias da Quaresma os católicos estarão falando sobre o meio ambiente, a gravidade do aquecimento global, mudanças climáticas, necessidade de salvação do planeta... O texto divulgado pela CNBB nos alerta: Em cada catástrofe seja ela terremotos, inundações, e podemos sentir o planeta gemer, e a humanidade fazendo o mesmo, este gemido tem uma conotação de tristeza imensa. Ainda estamos em tempo hábil para reverter esta situação podemos transformar estes gemidos de dor em gemidos de amor e de esperança, sim podemos iniciar um período de gestação e após este período em que nos organizaremos com ações que ajudem a preservar o meio ambiente, receberemos de volta um planeta saudável, resgataremos o planeta que nos foi dado por Deus. Igualmente, na Assembleia Ecumênica Mundial que ocorreu em Seul, Coreia, as igrejas membro do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic) elaboraram projetos para uma ação ecumênica conjunta de combate à degradação do meio ambiente.

Para todos nós, envolvidos nessa questão, são notícias esperançosas! Neste mês de celebração do Dia Mundial da Água não nos cansamos de repetir: água é a fonte primeira da vida e um recurso esgotável. Sua escassez ocorre devido a uma série de fatores: aquecimento global, desperdício, desmatamento, poluição, falta de políticas públicas adequadas, ausência de consciência cidadã para o problema ambiental...dentre outros... Analisando a História observamos que povos e civilizações antigas podem ser vistos hoje como modelos de responsabilidade frente ao meio ambiente: Mesopotâmia, Egito, Império Incaico, e Asteca, Reinos Africanos: eles conheciam e sabiam o quanto dependiam dos rios/lagos/mares, e os respeitavam sacralizando sua esfera de ação. Lamentavelmente, deixamos de lado os ensinamentos milenares e dentro do processo de reificação da natureza, perdemos a noção de valor, e, nosso habitat foi degradado: rios/lagos recebem todo tipo de resíduos industriais e residenciais. A forma como se dá a ocupação dos mananciais é desordenada,as periferias são inchadas,o impacto ambiental cada vez maior. Santana escreve: o estado dos recursos hídricos, sua má administração,denunciada pela abundância em oposição à distribuição e acesso desiguais, a depredação e contaminação dos eco sistemas aquáticos nas grandes

bacias fluviais, reforçam a teses que o ouro azul de amanhã pode se esgotar no presente. Aproveitemos pois ainda esta oportunidade, neste mês de março, para nos juntarmos às vozes que em todas as Igrejas do país estarão pedindo mais consciência ambiental e ações concretas para a salvação do planeta.

Referências CNBB - Campanha da Fraternidade de http://www.portalkairos.net/campanhadafraternidade/default.asp, consulta dia 10.03.2011. SANTANA, L.H.S. Água amazônica: outro azul, fonte de vida, instrumento de poder in SOMANLU - Revista de Estudos Amazônicos, UFA, Manaus, 2008

Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia, e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na Universidade de Estudos Estrangeiros, no Japão, em Kyoto. E-mail: disil@usp.br Neo Mondo - Março 2011

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Neo Mondo - Outubro 2008

Neomondo 40  
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