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NeoMondo

www.neomondo.org.br

um olhar consciente

Ano 3 - Nº 31 - Fevereiro 2010 - Distribuição Gratuita

Zilda Arns Homenagem Especial

Escada para o

Céu

08

Fábio Feldmann

Carlos Nobre

Avatar

Referência em

Mudanças climáticas

meio ambiente

na berlinda

É eco e não é chato

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A destruição do planeta é problema meu A Carta da Terra é um código de conduta para guiar os povos e nações. Ratificada pela Unesco, equivale à Declaração Universal dos Direitos Humanos, no que concerne à sustentabilidade, à equidade e à justiça. O Meio Ambiente tem sido tema constante da mídia, nas escolas, nas empresas, no mundo. Por um simples motivo: é uma questão de sobrevivência e o Planeta é um problema nosso!

Uma homenagem do Instituto Neomondo aos povos de todas as nações do Planeta

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Neo Mondo - Maio 2008


Carta dTa erra

“A escolha é nossa: fo para cuidar da Terra rmar uma aliança global nossa destruição e a da e um dos outros, ou arriscar a cessárias mudanças fu diversidade da vida. São neres, instituições e modo ndamentais dos nossos valoque, quando as necessids de vida. Devemos entender o desenvolvimento é pr ades básicas forem atingidas, ter mais. Temos o conimariamente ser mais, e não necessários para abaste hecimento e a tecnologia impactos ao meio ambi cer a todos e reduzir nossos sociedade civil global es ente. O surgimento de uma des para construir um tá criando novas oportunidano. Nossos desafios, a mundo democrático e humacos, sociais e espirituai mbientais, econômicos, polítipodemos forjar soluçõess estão interligados, e juntos includentes .

Neo Mondo - Maio 2008

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Seções

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PERFIL 08 Fábio Feldmann Referência em meio ambiente

Especial - MUDANÇAS CLIMÁTICAS Denise de La Corte Bacci Saber para salvar Especial - MUDANÇAS CLIMÁTICAS

18 Artigo: Denise de La Corte Bacci Mudanças Climáticas no contexto educacional

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20 Carlos Nobre Causas Antropogênicas Matéria de capa Zilda Arns Vida em Plenitude

28 Artigo: Natan Rodrigues Ferreira de Melo e Silva “Um dia da caça...e o outro também“

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meio ambiente Semasa investe R$ 50 milhões em tratamento de água meio ambiente 31 O Semasa coletou 829 toneladas de recicláveis só no primeiro mês do ano

32 Artigo: Rosane Magaly Martins Aquecimento global interfere na qualidade do seu envelhecimento

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35 Artigo: Takashi Yamauchi Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas Especial - COP 15 38 Empurrando com a barriga Líderes mundiais deixam a desejar...

Artigo: Terence Trennepohl A Importância da Conferência do Clima

42 Artigo: Natascha Trennepohl A COP 15 e as lições para a COP 16

inclusão social Fórum Social Um outro mundo ainda é possível

48 53 Artigo: Márcio Thamos Expressões de uma riqueza diversa

56 CULTURA & LAZER Avatar É eco e não é chato

Expediente Diretor Responsável: Oscar Lopes Luiz Diretor de Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586) Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Takashi Yamauchi, Marcio Thamos, Terence Trennepohl, João Carlos Mucciacito, Rafael Pimentel Lopes, Denise de La Corte Bacci, Dilma de Melo Silva, Natascha Trennepohl, Natan Rodrigues Ferreira de Melo e Silva e Rosane Magaly Martins Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586), Rosane Araujo (MTB 38.300) e Elizabeth Lorenzotti (MTB 10.716) Estagiária: Heloisa Moraes Revisão: Instituto Neo Mondo Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo Diretor Jurídico: Dr.Erick Rodrigues Ferreira de Melo e Silva Neo Mondo - Fevereiro 2010

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Economia Oh, dívida cruel ! Equilíbrio financeiro e a sustentabilidade do Planeta

54 Artigo: Dilma de Melo Silva Os saberes dos povos autóctones e o meio ambiente

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inclusão social 44 Fórum Social Um outro mundo ainda é possível

Publicação Correspondência: Instituto Neo Mondo Rua Primo Bruno Pezzolo, 86 - Casa 1 Vila Floresta - Santo André – SP Cep: 09050-120 Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br redacao@neomondo.org.br trabalheconosco@neomondo.org.br Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Tel. (11) 4994-1690 Presidente do Instituto Neo Mondo: oscar@neomondo.org.br

A Revista Neo Mondo é uma publicação do Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/000100, reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº 08071.018087/2007-24. Tiragem mensal de 70 mil exemplares com distribuição nacional gratuita e assinaturas. Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição da revista e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo desta revista sem prévia autorização.


Editorial

P

rezado leitor, começo este editorial com um pequeno trecho do depoimento exclusivo (ver págs. 32 a 35) dado a NEO MONDO pelo senador Flávio Arns (irmão da Dra. Zilda Arns). “Nada na vida, notadamente as grandes e definitivas decisões, acontece por acaso. Elas precisam de um processo de amadurecimento e de um ambiente favorável à sua concretização. A vida de Zilda Arns estava predestinada a ser um marco na história das mulheres deste país. A sua lembrança gera saudades. A sua lembrança não carrega tristeza, porque o amor nunca é triste, mas sempre uma luz, uma esperança, uma proposta de vida.

Pesquisas Espaciais (inpe), Carlos Nobre; e, no Perfil, Fábio Feldmann, ambientalista fundador da SOS Mata Atlântica e ex-deputado federal. Pensando em ser eco e não ser

Oscar Lopes Luiz

chato, fizemos uma seleção de

Presidente do Instituto Neo Mondo

filmes que abordam os atuais

oscar@neomondo.org.br

problemas ambientais causados pela mão do homem. em sua décima edição, o Fórum Social Mundial volta a Porto Alegre, cidade onde foi realizado pela primeira vez, em 2001, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em davos, na suiça. para marcar o aniversário, o evento reuniu lideranças sociais do mundo inteiro para um balanço

Ela viveu para trazer vida, dar vida e vida plena”. Deixamos registrado aqui nesta edição de NEO MONDO nosso carinho e admiração por essa mulher maravilhosa que sempre esteve à frente do seu tempo.

das ações realizadas pelo próprio fórum nesta primeira década de vida. Confira as conclusões deste balanço e conheça os desafios que um dos principais eventos sociais do mundo ainda terá

Trazemos também um especial sobre mudanças climáticas, discutindo o assunto com especialistas reconhecidos nesta área, como a geóloga Denise de La Corte Bacci, docente do Instituto de Geociências da USP, o climatologista e pesquisador titular do Instituto Nacional de

que enfrentar. Essa é apenas uma parte do que

Instituto

você irá encontrar nesta edição.

Neo Mondo Boa leitura!

Um olhar consciente

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Neo Mondo - Agosto 2008


Aquecimento global. VocĂŞ ainda nĂŁo viu quase nada.

Neo Mondo - Agosto 2008

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Perfil

em meio Fábio Feldmann, constituinte em 1988, autor de projetos de lei específicos e articulador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, pode voltar à política Rosane Araujo

N

Em 1980 e 1986, respectivamente, fundou com o apoio de um grupo de profissionais engajados na defesa do meio ambiente as ONGs OIKOS - União dos Defensores da Terra e SOS Mata Atlântica. Ainda em 86, foi eleito deputado federal, cargo que exerceria por três mandatos con-

Edu Morais

a década de 80, o conceito de desenvolvimento sustentável era ainda embrionário, mas o advogado e administrador de empresas paulista Fábio Feldmann já acompanhava de perto os acontecimentos da área.

Em mudanças climáticas, “estados e municípios têm papel importante no jogo e é crucial que estejam engajados”

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secutivos (1986 a 1998) e no qual destacouse como autor e relator de diversos projetos de lei, além do capítulo da Constituição de 1988 que trata sobre meio ambiente. A convite do governador Mário Covas, assumiu a Secretaria Estadual do Meio Ambiente em 1995, ficando no cargo até 98. Nas eleições de 98 e 2002, não conseguiu reeleger-se deputado, apesar de receber grande votação. Mesmo longe dos cargos eletivos, porém, continuou militando em favor das questões ambientais e entre 1997 e 2002 foi membro oficial da delegação brasileira nas Conferências das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, dentre elas a Conferência realizada em Quioto, que deu origem ao Protocolo. Em 2000, oficializou esta discussão na agenda do governo federal com a criação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e em 2005 assessorou a formação do Fórum Paulista. Afastado da política há doze anos, período em que vem atuando como consultor e conferencista em eventos nacionais e internacionais, seu nome voltou a frequentar o noticiário político nos últimos meses. Fábio foi convidado pela senadora Marina Silva para concorrer ao governo estadual nas eleições de outubro, pelo Partido Verde (PV), do qual é filiado desde 2003, quando despediu-se do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). “Não posso dizer que sim nem que não”, disse em entrevista a NEO MONDO sobre o convite de Marina. Mudanças Climáticas, COP 15 e outros temas também foram discutidos. Confira.


ambiente Neo Mondo: Em 2000, o sr. articulou a criação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Como se deu essa criação? Quase dez anos depois, como avalia a atuação do Fórum? Fábio Feldmann: Normalmente os presidentes da República eram muito distantes deste tema, especialmente no Brasil. Comecei a defender que eles protagonizassem essa discussão. Durante Quioto, o então presidente Bill Clinton ligou para o Fernando Henrique duas vezes pedindo ajuda na negociação. A partir daí surgiu a ideia do Fórum. Em 99, foi criada a Comissão Interministerial de Mudança do Clima, mas não previa participação da sociedade civil nem do setor empresarial. Não dá para discutir esse tema sem uma discussão ampla e para isso foi criado o Fórum no ano 2000, presidido pelo presidente da república, com alguns ministros e com objetivos múltiplos, mas basicamente de abrir um espaço público de diálogo entre governo e sociedade. Fui presidente e secretário do Fórum durante quase dois anos e no governo FH, o presidente reunia-se por muitas horas com as pessoas, o que eu acho muito importante por ser um tema complexo. O fato de se ter acesso ao presidente, que era indagado pelos seus pares, quebrou um pouco o monopólio do Itamaraty nessas questões. A tradição aqui no país era que o Itamaraty representasse o Brasil, mas sem sempre ele estava aberto a uma função mais ampla nesses assuntos.

Acho que o Fórum quebrou um pouco isso. No caso do Lula, o Fórum perdeu um pouco do seu caráter participativo, mas acho que ainda é importante, porque na discussão de metas para o Brasil ele teve um papel central, na minha opinião. Foi ele que, de certa maneira, conduziu essa consulta junto à sociedade. Mas os estilos do Fernando Henrique e do Lula são muito diferentes. Neo Mondo: Na sua opinião, os governos brasileiros, em suas instâncias municipal, estadual e federal, têm feito sua parte no combate às mudanças? Quais ações merecem ser destacadas? Fábio Feldmann: Eu acho que sim, eles têm feito. Por exemplo, o Amazonas elaborou uma legislação sobre política estadual de mudanças do clima em 2005. A cidade de São Paulo também tem uma política importante, assim como o estado que tem inclusive metas em termos absolutos, diferente da meta brasileira. Então, eu acho que a tendência é que os estados e municípios fiquem cada vez mais engajados, como ocorreu nos Estados Unidos. Quando o presidente Bush negou o aquecimento global e tirou o país de Quioto, muitos estados e municípios tiveram um papel relevante, inclusive a Califórnia, governada pelo Schwarzenegger, que é republicano. Acho que os estados e municípios têm um papel muito importante neste jogo e é crucial que eles estejam engajados.

Neo Mondo: As novas metas de redução da emissão de gases em São Paulo sofreram críticas de alguns setores. Os críticos alegam que elas podem prejudicar o crescimento econômico. Qual sua opinião a respeito? Fábio Feldmann: O tema de clima permite identificar duas visões de mundo muito claras: uma é do século 19 e outra do século 21. A visão do século 21 é a que temos que caminhar para uma economia de baixa intensidade de carbono, até pela questão de competitividade. A visão do século 19 é a visão do pré-sal, a visão de que o Brasil não pode ter metas. Acho que essas críticas revelam uma visão de espelho retrovisor. Até porque acho que São Paulo vai ter que fazer um grande esforço, mas as metas são absolutamente viáveis. Um dado que tenho falado sempre é sobre um dos grandes desafios, que é o transporte. Cerca de 46% dos caminhões de carga que trafegam no estado circulam vazios. Isso representa congestionamento, preço no frete mais alto, consumo de combustível, emissão de gás, enfim, é um dado significativo de como a mudança do clima pode nos ajudar a ter uma sociedade mais eficiente e com maior qualidade de vida. Cito este caso, porque dá para imaginar o que representa a metade dos caminhões de carga da região metropolitana de São Paulo. É muita coisa. Neo Mondo: Como consultor, o sr. tem contato direto com o empresaNeo Mondo - Fevereiro 2010

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Perfil

riado. Acredita que, em geral, ele está aberto a mudanças para se adequar às novas diretrizes? Fábio Feldmann: As empresas que têm líderes apoiam claramente, inclusive porque as metas resolvem o que se chama na linguagem empresarial de risco regulatório, quer dizer: a meta está aí, vou me preparar para atender, vou avaliar os riscos, mas também as oportunidades para meus negócios. A receptividade também depende do segmento. Acho que existem alguns que são muitos refratários, que ainda veem não só o clima, mas o meio ambiente, como um obstáculo a ser vencido. Acho que esses segmentos continuam atrasados e serão afetados não tanto pela regulação, mas pela falta de visão. Por outro lado, há segmentos que já estão se preparando para enfrentar essas questões, inclusive nem só do ponto de vista da redução de emissão, mas também de adaptação. Veja o custo das chuvas muito intensas para determinados segmentos. São ameaças à infraestrutura. Enfim, são muitos os problemas que vão surgir com o aquecimento.

FH se reunia por muitas horas com as pessoas... com Lula o Fórum perdeu um pouco do seu caráter participativo; são estilos diferentes

Neo Mondo: Por falar em chuvas, muito se tem comentado a respeito da relação da atual onda de tempestades que se abateu sobre São Paulo com os efeitos do aquecimento global, porém não existe consenso sobre o tema. Qual a sua opinião pessoal? Fábio Feldmann: Não dá para afirmar que é aquecimento global, mas não dá para afirmar que não é aquecimento, há uma sinergia de fatores. Em São Paulo, pode ter a influência do El Niño, do aquecimento, tem também a questão das grandes áreas impermeabilizadas, que são as chamadas ilhas de calor. Existe um conjunto de fatores e é muito difícil isolar um só. De qualquer forma, não vi nenhum cientista dizendo que é aquecimento, mas também não vi nenhum dizendo que não é. Isso mostra as dificuldades que a gente ainda tem em relação a isso. Neo Mondo: O sr. acompanhou de perto a realização da 15ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP 15), realizada em dezembro, na Dinamarca. O sr. ficou decepcionado com os resultados da reunião? Fábio Feldmann: Na COP 15, por antecipação, já sabíamos os problemas

que haveria. Primeiro, a questão da dificuldade do governo americano de não ter mandato para uma negociação, em função de a lei que trata dessa matéria não ter sido aprovada no Senado. Segundo, a falta de liderança da Dinamarca e da própria ONU, há claramente uma falta de liderança brutal nisso. O lado bom é que quando existe um fracasso e ele é reconhecido por todos, o fracasso pode ser um grande ativo, que é cobrar dos responsáveis medidas para fazer com que, no processo, vire um sucesso. Isso é mais especificamente o que vai acontecer no México (16ª Conferência, a ser realizada neste ano). Estou otimista, porque o grande equívoco que foi a falta de liderança em geral pode ser resolvido neste ano, que temos até dezembro. Neo Mondo: Por fim, o sr. foi convidado pela senadora Marina Silva para disputar o governo estadual em São Paulo. Como recebeu o convite? Qual a expectativa quanto à sua candidatura? Fábio Feldmann: Estou analisando o convite, não posso dizer que sim nem que não. É uma decisão pessoal mesmo. Estou há doze anos longe da política, já construí uma vida fora dela, mas ainda estou pensando no assunto.

Fábio Feldmann também... ...foi candidato à Prefeitura de São Paulo em 1992, obtendo 5,8% dos votos ...foi o chefe da delegação brasileira parlamentar na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro, também em 1992 (ECO-92)

Quanto a novas diretrizes estaduais, “receptividade empresarial depende do segmento; os atrasados serão afetados pela falta de visão”

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...foi o idealizador do rodízio de automóveis, instituído na capital em 1997, quando era secretário estadual do Meio Ambiente ...é o relator de importantes diretrizes como a Política Nacional de Recursos Hídricos, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica


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Apoio

Neo Mondo - Setembro 2008

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Especial - Mudanças Climáticas

Saber para salvar

Conhecer a história do planeta ajuda a compreender melhor os processos naturais e os fenômenos que enfrentamos Elizabeth Lorenzotti

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ivemos em uma época imediatista e individualista e, por isso, não conseguimos ter uma compreensão da história do planeta que habitamos. Mas esse conhecimento é imprescindível e urgente, para nos educarmos em relação aos nossos atos atuais e suas consequências no futuro. E, para tanto, os conhecimentos da Geologia são fundamentais. Segundo Denise de La Corte Bacci, docente do Instituto de Geociências da USP, “os geólogos não se relacionam apenas ao tempo de existência do homem, mas analisam os sistemas climáticos olhando um tempo muitíssimo mais longo. Isso nos dá uma vi-

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são diferenciada da que se tem na mídia e em determinados setores da sociedade”. E falando, primeiro, da constituição do clima. Segundo a geóloga, citando Oliveira et al, 2009, “o sistema climático é constituído por atmosfera, oceanos, superfície dos continentes e geleiras. O ciclo de carbono representa as transferências de carbono entre os vários reservatórios terrestres. Quando a introdução de CO2 na atmosfera é muito rápida em termos geológicos, como no caso da queima de combustíveis fósseis, o sistema não tem tempo de se adaptar, o que, aparentemente, acarreta a intensificação do efeito estufa e aumento global de temperatura”.


Ela afirma que o clima pode ser definido como o produto da integração das condições atmosféricas ao longo do ano, correspondendo ao padrão anual das condições meteorológicas. E a Geologia fala em tempo geológico, relacionado desde a formação do planeta até os dias atuais: isso corresponde a 4,56 bilhões de anos. O clima da Terra sempre oscilou entre quente e frio. “Houve momentos, ao longo da história do planeta, em que tivemos temperaturas muito altas, outros com temperaturas baixas. É o que se denomina efeito estufa e refrigerador, e isso sempre ocorreu. Mas a história da Terra é dominada mais por períodos quentes do que frios.”

Os períodos frios são chamados de idades glaciais. No período frio, aumenta a quantidade de gelo nos polos da terra e nas altas montanhas, e capas de gelo crescem em direção ao equador. As glaciações apresentam alternâncias entre episódios glaciais, quando as geleiras avançam, e interglaciais, quando recuam. Aumento da radiação solar As flutuações climáticas devem-se ao tênue equilíbrio entre a intensidade da radiação solar incidente e o efeito estufa, proporcionado pela quantidade de CO2 na atmosfera (Oliveira et al, 2009). Denise afirma, citando os autores, que a luminosidade e, portanto, a radiação so-

lar, de intensidade menor nos primórdios da vida na Terra, aumentou cerca de 25% até os tempos atuais. “Nos primórdios de sua história, a Terra recebia menos energia e era mais fria do que atualmente. No entanto, a quantidade de CO2 na atmosfera antiga induzia à manutenção do calor pelo efeito estufa, na medida, para garantir temperaturas amenas ou até mais altas que as atuais, e a consequente estabilidade do tempo, pelo ciclo de carbono, ou seja, pela dissolução de CO2 nos oceanos e a sua precipitação, principalmente como carbonato de cálcio.” Sete grandes períodos glaciais são conhecidos na história da Terra, como descrito em Oliveira et al, 2009. O mais antigo,

A história geológica da Terra é atualmente descrita por uma espiral temporal indicando que processos atuais ocorreram no passado

Fonte: http://geologiabiologia.blogspot.com

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Especial - Mudanças Climáticas

Arquivo pessoal

em torno de 2,3 bilhões de anos, no início do Proterozoico, duas eras entre 750- 700 Ma (milhões de anos) e 630-600 Ma, de caráter global, atingindo latitudes tropicais (Terra Bola de Neve). Uma terceira glaciação ocorreu no fim da era Proterozoica (580-540 Ma). Nesse período, as variações das temperaturas médias globais foram da ordem de 10ºC. A quarta glaciação data de 440 Ma, a quinta mais importante é a glaciação Gondwanica, que cobriu grande parte do continente Pangea, especialmente todos os continentes do hemisfério sul. A última fase glacial do planeta – a glaciação moderna – começou no mínimo há 20 Ma no hemisfério sul e há 2,0 -2,5 Ma no hemisfério norte, perdurando até o presente. “Hoje estamos vivendo o mais recente dos muitos estágios da glaciação moderna, iniciado há cerca de 10 mil anos, com previsão de novo avanço glacial daqui a vários milhares de anos. A última glaciação ocorreu há 18.000 anos e cobriu uma área bastante grande.” As manifestações devastadoras da natureza resultam do descaso das pessoas com a preservação do meio ambiente? Não, responde Denise. “Esses são fenômenos naturais e não se relacionam a essa questão. O homem pode interferir nos deslizamentos, enchentes, por exemplo, de forma a acelerar esses processos naturais, e quando ocupa áreas em que os processos ocorrem, passa a correr o risco de desastres naturais. É o que temos observado nesses últimos meses, com a maior intensidade das chuvas. Em casos de variações climáticas, os fenômenos podem ser unicamente naturais, sem a interferência humana,

Denise: “questão ecológica deve ser vista como causa social; não apenas pelo lado preservacionista”

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Os efeitos das mudanças climáticas Que problemas as mudanças climáticas acarretarão? A partir da Revolução Industrial, com a introdução de novas fontes de energia à base de combustíveis fósseis (carvão) e depois o petróleo e gás natural, as emissões de CO2 começaram a aumentar e isso levou ao aumento das concentrações dos gases do efeito estufa na atmosfera. Teremos problemas com climas mais quentes? Segundo a geóloga, claro que sim. ”Na agricultura, por exemplo, podemos deixar de produzir determinados insumos em determinadas regiões. Um estudo da Embrapa mostra que, se aumentar muito a temperatura, de 2 a 4 graus Celsius, não vamos mais produzir café no Brasil, teremos de importar. Haverá mais pragas, mais doenças, agentes veiculares como a dengue aumentarão.” Sentiremos esse problema no cotidiano, o que é diferente de pensar no derretimento da calota polar, muito distante. “Quantas cidades litorâneas sofrerão com a elevação do nível do mar? Algumas desaparecerão. Temos de pensar no nosso cotidiano. É essa a qualidade de vida que eu quero, esse futuro para meus filhos, para as próximas gerações?”, indaga. Não existe, porém, a clareza sobre essa reflexão. “Nossa sociedade é imediatista e individualista. O que interessa falar sobre o que aconteceu há milhões de anos? Interessa sim, para compreender melhor os processos naturais e os fenômenos atuais. Muitas vezes, isso sensibiliza a pessoa a refletir sobre sua ação. A mídia tem uma visão muito catastrófica e pouco formativa, as informações têm muitos erros. Temos de formar as pessoas, os educadores para trabalhar em sala de aula. Pois, por incrível que pareça, as mudanças climáticas não fazem parte do currículo escolar, o professor não tem formação adequada pra discutir aprofundadamente a questão.”


como os registros observados ao longo do tempo geológico, onde o homem ainda não existia. Em casos de deslizamento, por exemplo, um cano de água da casa da pessoa pode estar fornecendo material para desagregar o solo no futuro. Desequilibra o processo natural. Lógico que se eu tiver preservação de áreas com cobertura vegetal, preservação de mananciais, das várzeas dos rios, que não devem ser ocupadas, esses problemas não vão acontecer”, acentua. Visão antropocêntrica Em geral, costuma-se dizer que a natureza responde às agressões de que é vítima. Mas, diz Denise, “esta é uma visão antropocêntrica da questão, que coloca o homem no centro de tudo o que acontece. O homem é apenas mais uma espécie dentre tantas outras, mas acredita ter o domínio sobre a natureza, colocando-se à parte dela, como um ser não natural, destacado e com poder para dominá-la. O que observamos são processos naturais que ocorrem no sentido de equilibrar as esferas terrestres. O homem, nesse caso, pode acelerar estes processos quando interfere no meio físico e altera as condições naturais. Estamos falando da Teoria de Gaia (leia boxe), dos sistemas naturais que existem e buscam manter-se em equilíbrio”. E o que as pessoas podem fazer frente a esta situação? “Podemos usar as catástrofes para educar as pessoas e prevenir novos desastres. Eles só acontecem quando o homem, seja por desconhecimento dos processos, seja por interesses econômicos, políticos ou mesmo por questões sociais, acaba ocupando áreas de risco geológico, como encostas, várzeas dos rios ou mesmo áreas instáveis, sujeitas a terremotos e vulcanismo.” Acima de tudo, é necessário prevenir danos maiores que podem levar à nossa própria extinção, alerta a geóloga. “As mudanças climáticas de origem humana, vamos assim dizer, têm um efeito global sobre toda a humanidade, independentemente de raça, cor, nível econômico. Em relação aos países mais desenvolvidos, com mais recursos e mais tecnologia, a mitigação e prevenção devem ser maiores, ou espera-se que sejam. Em países ainda carentes de recursos e em comunidades em áreas mais suscetíveis aos riscos, o impacto das mudanças será maior.” Por isso, é urgente que todos os segmentos da sociedade tenham conhecimento dos processos e das causas, para

que assim encontrem juntos uma solução para a questão das mudanças climáticas. Entretanto, afirma Denise, “isso ainda não ocorre, pois os interesses econômicos das nações ainda predominam sobre a preocupação ambiental e bem-estar da população como um todo. A redução dos níveis atuais de emissão dos gases do efeito estufa, a transferência para uma matriz energética mais limpa, o uso de novas tecnologias de produção mais limpas são algumas medidas que devem ser tomadas pelos governos. Mas, acima de tudo, é preciso rever o modelo de desenvolvimento econômico e passar para um modelo que vise à sustentabilidade, é preciso

educar a população de modo a criar uma consciência crítica nas suas escolhas, em seus valores, na busca de uma qualidade de vida melhor para todos, e isso começa com a participação social, numa luta por políticas públicas melhores, que diminuam as desigualdades sociais e econômicas, luta por uma educação de qualidade, que melhor permita a formação de cidadãos participativos e que assumam seu papel social em todos os níveis. A questão ecológica não deve ser vista apenas pela visão da conservação, da preservação, mas como uma causa social, de engajamento da sociedade para resolver problemas comuns à humanidade”.

A Teoria de Gaia Desenvolvida no final da década de 1960, tem como precursor o ambientalista inglês James Lovelock. Na sua visão, o ambiente se autorregula, se for alterada uma das variáveis do processo ela responderá, tentando voltar a esse equilíbrio. Uma interferência muito grande pode chegar a romper esse sistema. A resposta dentro dessa teoria é: voltar ao equilíbrio natural dos processos. Para que isso ocorra, é preciso aprender com o que está acontecendo com o planeta. Segundo Denise, “olhar para essas catástrofes e desastres naturais para educar as pessoas, no sentido de prevenir que novos desastres aconteçam. Isso acontece não só no Brasil, com as questões de deslizamentos e alagamentos, mas por exemplo há terremotos, tsunamis que não estão absolutamente relacionados à intervenção humana. O homem ocupa áreas de risco e está sujeito a sofrer as consequências dessa ocupação”. Evolução da atmosfera terrestre no tempo

Tempo passado, medido em bilhões de anos



 Fonte: Teixeira, W.; Fairchild, T.R.; Toledo, M.C.M; Taioli, F. Decifrando a Terra. 2a. edição. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 2009  Neo Mondo - Fevereiro 2010

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Há 10 anos, os Doutores Cidadãos utilizam a figura do palhaço para levar doses de preciosos remédios a hospitais e asilos públicos e filantrópicos: arte, alegria e cidadania. Todos os participantes são voluntários e recebem um amplo treinamento para visitar gratuitamente os pacientes, acompanhantes e profissionais da saúde. Este programa sociocultural faz parte da ONG Canto Cidadão, que também desenvolve outras atividades de sensibilização e ação cidadãs. Para manter e ampliar o trabalho, o grupo realiza atividades em ambiente corporativo, como apresentação de eventos, palestras, oficinas e outras. Saiba mais sobre os Doutores Cidadãos e os outros programas sociais do Canto Cidadão em www.cantocidadao.org.br. Doutores Cidadãos. Há dez anos fazendo graça de graça.

Neo Mondo - Setembro 2008

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Mudanças Climáticas no contexto A

tualmente existe um reconhecimento generalizado no mundo sobre a seriedade dos problemas ambientais que afetam a sociedade, mas reconher apenas não é suficiente para o desenvolvimento de uma educação ampla, que deseja formar um cidadão crítico e participativo, capaz de enfrentar os problemas e buscar soluções que visem à sustentabilidade. O tema mudanças climáticas está presente nos diversos segmentos da sociedade de maneira distinta, conforme o nível de conhecimento e o acesso à informação dos indivíduos. A maioria da população é informada pelos meios de comunicação que abordam o tema, em geral, de maneira catastrófica e alarmista, sem um embasamento teórico adequado e sem o compromisso de promover uma educação informal sobre o tema. Educar não é um compromisso 18

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social apenas das instituições de ensino, mas de toda a sociedade, em especial quando o tema é de importância global. A abordagem feita pelos jornais e revistas em muitos casos é usada na escola como material didático, o que aumenta a responsabilidade desses veículos de informação quando tratam o tema das mudanças climáticas. Essa ação, segundo Guimarães (2006), faz com que prevaleça a difusão da percepção sobre a gravidade dos problemas ambientais e suas consequências para o meio ambiente e não se desenvolva um pensamento crítico capaz de intervir no processo de transformações socioambientais. As publicações científicas sobre o tema não chegam ao público em geral e a linguagem técnica não é facilmente compreendida, ficando restrita aos meios acadêmicos. Portanto, os estudos e avanços nas pesquisas sobre o sistema climático e

as alterações por ele sofridas não são amplamente divulgados, restando à população o acesso a uma tradução simplificada e superficial do assunto. A escola é um espaço adequado para discutir temas ambientais da atualidade e as mudanças climáticas deveriam fazer parte dos currículos do ensino fundamental e médio. Nessa direção, segundo Jacobi (2003), a educação deve orientar-se de forma decisiva para formar as gerações atuais não somente para aceitar a incerteza e o futuro, mas para gerar um pensamento complexo e aberto às indeterminações, às mudanças, à diversidade, à possibilidade de construir e reconstruir num processo contínuo de novas leituras e interpretações, configurando novas possibilidades de ação. O educador tem a função de mediador na construção de referenciais ambientais e deve saber usá-los


Denise de La Corte Bacci

e a Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente (CNIJMA) Vamos Cuidar do Brasil (Jacobi et al, 2009), as iniciativas ainda são insuficientes para um efetivo aprendizado sobre o tema e principalmente para uma abordagem do enfrentamento dos problemas decorrentes da alteração do clima. A solução para essas questões é complexa, mas podemos citar como indispensável o investimento na formação dos professores/educadores sobre temas ambientais e das Ciências da Terra dentro da perspectiva de educação ambiental crítica para reverter este quadro e inserir definitivamente na pauta escolar a abordagem desejada sobre as mudanças climáticas.

educacional como instrumentos para o desenvolvimento de uma prática social centrada no conceito da natureza. Apesar de ser tema interdisciplinar, as Geociências podem contribuir muito para a compreensão das mudanças climáticas atuais, uma vez que relatam as mudanças naturais do clima que vêm ocorrendo desde a formação do planeta Terra e suas consequências para as diferentes espécies. Os registros das mudanças climáticas ao longo do tempo podem ser encontrados em sedimentos do fundo oceânico e de lagos, em testemunhos de sondagem de gelo, em estalagmites em cavernas. Esses registros contam a história do clima na Terra ao longo do tempo geológico e são abordados de maneira sistêmica pelas Ciências da Terra, mas essas informações estão restritas ao meio acadêmico. No ensino fundamental e médio não são contemplados temas das

Geociências de maneira sistematizada e os professores não estão, em sua maioria, preparados para discuti-los. A compreensão por parte dos alunos a respeito do funcionamento do planeta Terra é insatisfatória, o que reflete na formulação de conceitos equivocados, quando se depara com questões relacionadas ao meio físico. Esse fato leva o aluno a ter ideias sobre o planeta que não estão embasadas no conhecimento científico e que podem ser denominadas de senso comum. Essas ideias são reforçadas quando o material usado pelos meios de comunicação. Embora existam programas e projetos que vinculem direta ou indiretamente a Educação Ambiental às Mudanças do Clima no Brasil, como a Agenda 21 Escolar, o COM-VIDAS (Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida nas Escolas), o Procel na Escola, Coleção Explorando o Ensino, CONPET na Escola

Referências Bibliográficas: Guimarães, M. Armadilha paradigmática na educação ambiental. In: Loureiro, C.F.B. (Org.) Pensamento complexo, dialética e educação ambiental. p.15-29, 2006. Jacobi, P.R. Educação Ambiental, cidadania e sustentabilidade. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, Autores Associados, n. 118. p. 189-205, 2003. Jacobi, P.R.; Ratinho, L.M.; Silva, L.F.; SULAIMAN, S.N.; NEPOMUCENO, T.C. Educação e Mudança Climática no Brasil. Relatório IALEI Project: Climate Change and Sustainable Development: The Response from Education, 2009.

Denise de La Corte Bacci Graduada em Geologia pela UNESP, Campus de Rio Claro, mestrado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP e doutorado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP. Estágios na Università di Milano e University of Missouri_Rolla. Pós-doutorado em Engenharia Mineral pela POLI-USP. Atualmente é docente do Instituto de Geociências da USP. E-mail: bacci@igc.usp.br

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Especial - Mudanças Climáticas

Causas Antropog

Carlos Nobre, do Inpe, defende reviravolta nos valores culturais e de consumo para reduzir emissões  Gabriel Arcanjo Nogueira

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anifestações devastadoras da natureza, como as chuvas torrenciais que inundaram São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba (SP), mal 2010 tinha começado, estão a pedir muita reflexão, pesquisa e cuidados para que algo de positivo fique de tanta tragédia. Por ironia, o nome de origem tupi-guarani - Parahytinga significa águas claras - em nada lembra o cenário de guerra que restou de edificações históricas na, de acordo com o site da Prefeitura Municipal,  “cidade das mil festas, rica em turismo histórico, cultural, ecológico e de aventura”, a 170 km da capital paulista. O estado de calamidade pública ainda vigente

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levou ao cancelamento de um dos carnavais mais típicos do País. Uma medida sensata porque a situação não está para festas. Numa tentativa de ajudar a entender fenômenos como esse, NEO MONDO conversou com o Dr. Carlos Afonso Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que abriga o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec). Graduado em Engenharia Eletrônica, com doutorado em Meteorologia, Carlos Nobre é respeitado dentro e fora do País como chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CST) do Inpe, membro do Painel Intergoverna-

mental de Mudanças Climáticas (IPCC) e presidente do Comitê Científico do International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP), sediado em Estocolmo, Suécia. Variabilidade natural Na opinião do cientista, é praticamente consensual entre seus pares que “a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é causado pelo acúmulo de gases de efeito estufa (GEE) emitidos por atividades humanas. Eu considero que mudanças climáticas importantes são esperadas – e muitas já estão acontecendo - em consequência desse aquecimento antropogênico da Terra”.


Antônio Marmo

ogênicas

Desastres naturais são consequência das causas ambientais, com a sociedade exposta aos extremos do tempo. Temos de saber lidar com eles

A sua explicação sobre as manifestações devastadoras da natureza, como chuvas torrenciais, deslizamentos, soterramentos, de um lado, e inverno rigoroso, de outro, embute um sinal de alerta: “Fenômenos climáticos e meteorológicos extremos – que provocam chuvas torrenciais e nevascas, por exemplo - acontecem regularmente e fazem parte da variabilidade natural do planeta. Porém, como resultado do aquecimento global antropogênico, espera-se um aumento da variabilidade do clima e eventos como os citados - com áreas sob frio intenso enquanto em outras a temperatura está muito acima da média

Divulgação Inpe

- poderão ser mais frequentes. É preciso destacar que chuvas torrenciais, secas, ondas de calor ou de frio, ventanias, ressacas são as causas ambientais de desastres naturais, mas não são os desastres naturais em si. Desastres naturais (deslizamentos em encostas, inundações, colapso de safras etc.) são consequência das causas ambientais e sua gravidade está muito ligada à exposição da sociedade aos extremos do tempo e do clima e à capacidade de lidar com esses extremos”. Carlos Nobre, convidado a criar uma imagem para nossos leitores entenderem melhor o que se passa com o clima no planeta, relata:

Para Carlos Nobre, “fator preocupante do aquecimento global é a velocidade com que vem ocorrendo; mudanças climáticas importantes são esperadas”

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Antônio Marmo

Especial - Mudanças Climáticas

O que restou da igreja em São Luiz do Paraitinga é sinal do cenário de guerra em que mergulhou a “cidade das mil festas”

“Invernos rigorosos são parte da variabilidade natural do clima. Aliás, por exemplo, no Hemisfério Norte ocorreram invernos muito mais rigorosos no início do século XX. Acontece que as pessoas passaram muito tempo sem um inverno extremamente rigoroso, como o atual em partes do Hemisfério Norte”. Atenção para o que vem agora, porém: “Um fator preocupante do aquecimento global é a velocidade com que vem ocorrendo, que é cerca de 50 vezes mais rápida em relação ao ritmo de aquecimento entre uma época glacial e uma época interglacial, como a que nos encontramos”.  

Terra ameaçada É comum ouvir-se expressões, vindas dos mais diversos segmentos da população, a exemplo de “a natureza é sábia” ou “a natureza é soberana”. Mesmo num programa esportivo, em que uma das atrações  era uma competição de surfe entre equipes formadas por profissionais e amadores, um jovem - misto de ator e atleta - não quis participar de uma das baterias, em Fernando de Noronha, alegando que não tinha como desafiar a natureza.   O pesquisador titular do Inpe esclare-

ce: “A natureza não toma partido. Ela é o que é e segue leis que cada vez conhecemos melhor. Nunca antes a Terra esteve tão ameaçada pela poluição industrial, queimadas, desmatamento etc., que produzem GEE. Em resposta temos o aquecimento global e as consequentes mudanças ambientais globais. O que devemos fazer é dar continuidade aos estudos científicos para melhor entendimento do fenômeno e suas consequências, bem como traçar estratégias de  controle de emissões, além de ações de adaptação e mitigação”. Se no País e no mundo, a comunidade científica leva a sério a questão, o que caberia a toda e qualquer pessoa fazer para ajudar a encontrar o equilíbrio do clima? Carlos Nobre não se faz de rogado e recomenda, não sem antes colocar suas premissas: “As mudanças climáticas antropogênicas estão associadas a atividades poluentes, como queima de combustíveis fósseis, queimadas, desmatamentos, agricultura, que emitem GEE. Precisamos mudar valores culturais e de consumo para  reduzir essas emissões. A melhor maneira  de  diminuir os desmatamentos, por exemplo, é o consumidor de produtos da Amazônia e dos cerrados (principalmente carne, madeira e soja) exigir certificações de origem que demonstrem  que esses produtos não provêm de desmatamentos ilegais. As grandes empresas e setores que mais emitem GEE vão rapidamente mudar seus padrões de emissões quando as pessoas não quiserem mais consumir energia ou produtos  com um padrão alto de emissões”. 

“Não há como fixar uma data-marco” Em que exato momento o clima começou a desandar, ou quando é possível garantir que a humanidade vivia numa situação ideal, é algo que foge à pesquisa científica mais rigorosa. Carlos Nobre, além de pesquisador titular do Inpe, ocupa a secretaria-executiva da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas (Rede Clima) e a coordenação-executiva do Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais. Ele entende que “não dá para estimar uma data-marco de início das mudanças climáticas. Cabe esclarecer também que não faz sentido falar de aquecimento global na escala de um ano para outro (ou considerando períodos de poucos anos) porque o clima apresenta significativas variações naturais numa escala menor de tempo, como eventos do fenômeno El Niño ou La Niña. A comparação deve ser feita na escala de muitas décadas”.

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“Também não faz muito sentido apontar uma situação ideal, pois a variabilidade climática é também característica do comportamento natural do planeta. O homo sapiens sempre modificou o ambiente a seu redor. Todavia, as modificações tornaram-se muito significativas após a Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, quando as atividades humanas passaram a lançar grande quantidade de CO2 na atmosfera, quantidade esta maior do que a atmosfera conseguia eliminar. Após a Segunda Guerra Mundial, as emissões passaram a crescer muito rapidamente.” Carlos Nobre lamenta que a Conferência do Clima (COP 15) em Copenhague tenha frustrado as expectativas (leia mais na página 38), mas ressalta que no campo científico o Brasil está bem avançado, a exemplo do trabalho desenvolvido pelo Inpe, que reúne pessoal altamente capacitado de instituições renomadas (ver quadro “Por dentro do Inpe”).


Trágica regularidade O jornalista Antônio Marmo Cardoso, com fortes raízes no Vale do Paraíba, credita “toda essa chuvarada não a mudanças climáticas como as que se discutem hoje, aquecimento global etc., mas ao fenômeno secular e previsível que é o El Niño”. Marmo se recorda de trabalho que fez em 1997, “com ajuda do Inpe”, sobre o El Niño, com o alerta de que este se repete com certa regularidade - a cada 12, 13 anos. O jornalista discorre: “O El Niño vem do aquecimento fora do normal das águas do Pacífico, na altura do Peru, afetando todo o clima da América do Sul,  e o que estamos vendo agora se deu em 97 também... Já os tornados em Santa Catarina, Paraná, isso é coisa nova”. O mais grave, ressalta,  é  que “ainda não criamos uma ‘cultura de defesa’ contra desastres, nem de prevenção”. Marmo lembra que em 1997 São Luiz também sofreu com as chuvas - “com intensidade muito menor - e só aí decidiu criar o corpo de Defesa Civil. Muitas cidades ainda não têm sua Defesa Civil”. “No momento a cidade começa a retomar  o dia-a-dia, dentro da normalidade possível. Algum comércio volta a funcionar. Agora não é questão tanto de doações e sim de ajuda técnica, de gente que entenda de reconstrução, de recuperação de patrimônio, até porque o Haiti tomou as atenções para doações, em dimensões muito mais trágicas”, afirma o jornalista. Marmo reconhece que especialistas do Iphan já desenvolvem seus trabalhos em São Luiz e sugere: “É bom re-

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Mitigação + adaptação Uma palavra que tem sido muito empregada em estudos e alertas, oficiais ou não, é mitigar. A impressão que fica é a de que a causa ecológica estaria perdida e que, daqui para a frente, o que se pode fazer soa como quebra-galho, para tornar o planeta o menos insustentável possível. O cientista foge à provocação do jornalista e afirma: “Não se pode mais dissociar os temas mitigação e adaptação da discussão sobre mudanças climáticas globais. É imperativo também que se busque desenvolver adaptações de todas as atividades às mudanças climáticas, pois estas são inevitáveis até um certo grau”.

O momento é de pensar na reconstrução da cidade histórica no Vale do Paraíba (SP), a exemplo do que já foi feito em Goiás Velho

lembrar a história de Goiás Velho, terra de Cora Coralina, atingida por tragédia semelhante em 2001, que conseguiu reconstruir tudo como antes”. O mesmo, espera, deve ser feito agora em São Luiz do Paraitinga,  que merece toda  atenção por seu valor histórico. Reminiscências como essa, de quem acompanhou de perto o que aconteceu recentemente em cidade histórica, nos devem levar a ser mais respeitosos com a força da natureza e a fragilidade humana, para não termos de lamentar,

a cada novo desastre, como o imortal poeta Carlos Drummond de Andrade, ao revelar seu inconformismo cidadão com a destruição do Salto de Sete Quedas, em 1982, para viabilizar a construção da Usina de Itaipu. E olha que os tempos eram outros: “Sete quedas por nós passaram,/e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,/e todas sete foram mortas,/e todas sete somem no ar,/sete fantasmas, sete crimes/ dos vivos golpeando a vida/que nunca mais renascerá” .

Por dentro do CPTEC * O Grupo de Pesquisa em Mudanças Climáticas (GPMC) do Inpe tem: • entre seus pesquisadores, especialistas da Universidade de São Paulo (www. iag.usp.br) e da Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (www. fbds.org.br); • colaboradores do governo federal, da Embrapa, Inmet, Fiocruz, Ana, Aneel, ONS, Coppe-UFRJ. • Além de centros estaduais de meteorologia, universidades, o Fórum Brasi-

leiro de Mudanças Climáticas (FBMC) e a Sociedade Civil Organizada; • há ainda o trabalho conjunto com o Programa Nacional de Mudanças Climáticas do Brasil do Ministério da Ciência e Tecnologia, a Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente, a Rede Clima e o Programa de Mudanças Climáticas Globais da Fapesp, assim como com programas nacionais de alguns países da América do Sul.

* Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos Fonte: Inpe

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Divulgação

Matéria de Capa

Vida em Zilda Arns foi incansável nessa missão, e sua obra, abraçada por milhares de voluntários, assume dimensão transcendental Gabriel Arcanjo Nogueira

“N

ão se enganem, uma gotinha no oceano faz, sim, muita diferença.” A frase, se não é uma das preferidas de Zilda Arns, serve de convite a nossos leitores para que entrem na cruzada pela infância que esta matéria apresenta. Clóvis Boufleur, gestor de Relações Institucionais da Pastoral da Criança, esclarece: “As frases da Dra. Zilda eram formuladas e

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ditas conforme as circunstâncias. Mas uma das mais populares, que ela dizia quase sempre no final de discursos com a comunidade, era: ‘E agora, gente, fé em Deus e pé na tábua’. Outra frase: ‘É preciso levar a mensagem a Garcia’, que pronunciava para dizer que era preciso acompanhar as ações até o fim e saber dos seus resultados. Ela dizia também: ‘É urgente e imprescindível globalizar a solidarie-

dade. Somente assim, vamos construir uma verdadeira e sólida cultura de paz’ ”. Médica pediatra e sanitarista, Dra. Zilda Arns Neumann era a 12a. de 13 irmãos. Mãe de cinco filhos e avó de dez netos, não se acomodou ante o sucesso pessoal, profissional e familiar; antes, desdobrouse a ponto de disseminar pelo planeta as iniciativas sociais que criou. Saúde pública


Ações simples e replicantes “Mais do que crescer e salvar vidas, a Pastoral da Criança quer mudar, para melhor, vidas de crianças, de mulheres, de homens”, com seus voluntários iluminados pela vontade de ajudar, de ver crianças crescendo e se desenvolvendo. O Brasil precisa levar mais a sério as suas crianças, e para quem pensa que só em regiões mais distantes dos grandes centros no Norte e Nordeste há necessidades prementes nesse aspecto, tomemos como exemplo municípios mais desenvolvidos no Sul e Sudeste. Aí também a Pastoral da Criança está presente em ações de saúde, nutrição, educação, cidadania e espiritualidade, de forma ecumênica, nas comunidades pobres. De sua vivência de 13 anos com a fundadora da Pastoral da Criança, Clóvis relata uma história de vida fascinante: “Dra. Zilda foi uma mulher de coragem. Enfrentou resistências na sociedade por ser mulher e por inovar no jeito de fazer pastoral na Igreja. Colocou seus conhecimentos e o seu tempo a serviço da vida e salvou da morte milhares de crianças. A primeira receita que ela levou

Partilha do saber Tornar as coisas simples é um dos aspectos do legado da médica pediatra e sanitarista notáveis. De família católica - de onde saíram três freiras e dois padres, um deles o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, símbolo da resistência à ditadura militar e defensor ferrenho dos Direitos Humanos -, os horizontes de Zilda Arns não se estreitam em visão teológica tacanha. Se as suas iniciativas se inspiram na mística cristã, todavia, para ser voluntário de alguma delas, não há necessidade de a pessoa comungar do mesmo credo ou converter-se. Clóvis explica: “A Pastoral da Criança, organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é uma organização comunitária, de atuação nacional e internacional, que tem seu trabalho baseado na solidariedade e na partilha do saber. Portanto, as pessoas não precisam ser católicas para ser voluntárias nem se converterem. A Pastoral da Criança é ecumênica e inter-religiosa”. Entre os resultados mais significativos das ações desenvolvidas pela ONG no Brasil e no exterior, o gestor de Relações Insti-

Divulgação

a todos aos lares brasileiros era simples: sal, açúcar e água limpa para fazer o soro caseiro - uma revolução na década de 80. Ao longo dos 26 anos da Pastoral da Criança, foi firme na defesa de pelo menos seis princípios básicos: ter objetivos claros e definidos; promover a capacitação dos voluntários; organizar um sistema de informação; contar com a participação da comunidade; baixo custo das ações; e capacidade de as ações serem replicadas em grande escala”.

Clóvis: novos voluntários ajudarão a Pastoral a chegar a todas as crianças pobres

tucionais aponta o fato de a mortalidade infantil no Brasil ser alta, “se considerarmos a capacidade da nossa economia, do progresso que o País conquistou nos últimos anos e dos recursos da saúde que existem e que diminuem” o problema crucial. O diferencial da Pastoral da Criança, garante Clóvis, é que atua em comunidades pobres e tem resultados melhores em relação à média nacional de mortalidade infantil porque leva informação e motivação para a mãe e a família, além de contar com a colaboração da comunidade quando a família precisa de ajuda. “Nossos voluntários também participam dos conselhos de saúde e lutam para que haja melhorias nos serviços públicos prestados à população. Esta união de esforços faz com que hoje o índice de mortalidade infantil seja de 13 por mil nascidos vivos nas famílias acompanhadas por nós”, afirma. Divulgação

pode-se dizer que foi seu sonho de consumo. Sonho compartilhado por milhares de voluntários em todos os estados do Brasil e que chegou a outros países. A vida em plenitude, que ela própria buscou, fez questão de estender a dois segmentos marcantes da vida humana ao fundar, em 1983, a Pastoral da Criança e, em 2004, a Pastoral da Pessoa Idosa. Sua morte no terremoto de magnitude 7, no dia 12 de janeiro, no Haiti, a pegou em plena missão, em local-símbolo como inspirador de suas ações: a Igreja Sacre Coeur, em Porto Príncipe. No templo arrasado restou a cruz, intacta, sinal de que a obra de Zilda Arns tomou dimensão transcendental. O mesmo Cristo que disse: “Deixai as crianças virem a mim... a pessoas assim é que pertence o Reino de Deus”, garante: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”. NEO MONDO viajou pelas páginas do portal www.pastoraldacrianca.org.br, que abre com a chancela divina, e conversou com o gestor de Relações Institucionais da ONG, de inspiração cristã, para ajudar as pessoas a entender como a trajetória dessa instituição do Bem “é repleta de histórias de esperança, conquistas, superação das dificuldades e transformação social”. O que se dá mediante o acompanhamento das famílias e crianças em cada comunidade, como exemplo do que a sociedade organizada é capaz de fazer na busca de soluções para os seus problemas.

A Pastoral da Criança e seus dois símbolos maiores: “a pessoas assim é que pertence o Reino de Deus”

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Matéria de Capa

Passo Fundo pioneira Na diocese de Passo Fundo (RS), uma das pioneiras na aplicação de sua metodologia, a Pastoral da Criança começou em 1984. A pequena semente de então frutificou em 20 paróquias, em que mais de 270 voluntários doam seu tempo e experiência de vida nessa missão que receberam. A coordenadora diocesana, Simone Zanetti, reconhece que o número ainda é pequeno ante a necessidade da região, especialmente nas periferias das cidades. Lá o censo da Pastoral da Criança de 2008 constatou a existência de aproximadamente 19 mil crianças em situação de pobreza e miséria, de 0 a 6 anos de idade. Destas, apenas pouco mais de 2.800 crianças são acompanhadas pelos líderes e voluntários, correspondendo a 15% do total, atingindo em torno de 2.200 famílias. De comum, independentemente de cada realidade local, a Pastoral da Criança desenvolve atividades para promover o desenvolvimento integral das crianças, desde a concepção aos seis anos de idade, e a melhoria da qualidade de vida das famílias. O que faz o recado final de Clóvis a nossos leitores ganhar significado e força especiais: “Nosso grande desafio é expandir a Pastoral da Criança e chegar a todas as crianças pobres, com a contribuição de novos voluntários”. Zilda Arns, que foi coordenadora internacional da ONG, certamente concorda e, lá do Céu, é a coordenadora emérita desse trabalho social por excelência.

Dados nacionais • • • • • • • •

Presença em todos os estados do Brasil 40.853 comunidades organizadas 4.016 municípios Acompanhamento a 94.987 gestantes e 1.689.243 crianças pobres menores de seis anos * 246.215 voluntários 134.396 deles, líderes comunitários, pessoas simples destes, 92% são mulheres 111.819 pessoas formam as equipes de apoio, capacitação e coordenação

* Em 2008

Fonte: Pastoral da Criança Dados internacionais • Paraguai, primeiro país a aplicar a metodologia brasileira • Promoção da solidariedade, valorização da vida das crianças e maior atenção do poder público • Redução da mortalidade infantil, da desnutrição e de doenças que podem ser prevenidas. • 862 voluntários • Atendimento a 7.891crianças, 1.019 gestantes e 4.316 famílias • Na Colômbia, conhecida como Pastoral de la Primera Infancia desde 2001 • Sistema de Informação em implantação • Apoio da Conferência Episcopal da Colômbia (CEC), do Unicef Colômbia, do Instituto de Bem-Estar Familiar da Colômbia • 850 voluntários • Atendimento a 13.104 crianças, 606 gestantes e 9.298 famílias Fonte: Pastoral da Criança Como participar • Pessoas que moram em comunidades pobres podem ser líderes da Pastoral da Criança. Basta procurar numa paróquia da Igreja mais próxima a coordenação. • Há necessidade de voluntários com disponibilidade para capacitar os líderes. • Endereços e telefones estão disponíveis na internet: www.pastoraldacrianca.org.br. Fonte: Pastoral da Criança

“Não é hora de perder a esperança” Dom Paulo era visitado na capital paulista, com frequência, pela sua irmã Zilda. “Ela não hesitava em consultá-lo por telefone sobre diversos assuntos”, revela Clóvis. As declarações escritas pelo cardeal, registradas pela mídia logo após a morte da irmã, “demonstram um profundo conhecimento do trabalho da Dra. Zilda, a tal ponto de dizer com satisfação que ela morreu de uma maneira linda, e do jeito que viveu, no meio dos mais pobres”, acrescenta. O arcebispo emérito de São Paulo distribuiu nota à Imprensa, nos seguintes termos: “Acabo de ouvir emocionado a notícia de que minha caríssima irmã Zilda Arns Neumann sofreu com o bom povo do Haiti o efeito trágico do terremoto. 26

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Que nosso Deus, em sua misericórdia, acolha no céu aqueles que na Terra lutaram pelas crianças e os desamparados. Não é hora de perder a esperança”. Do púlpito para a tribuna legislativa, a família Arns também se faz presente. O senador Flávio Arns acompanhou de perto as providências para o traslado do corpo da irmã para as justas homenagens no Brasil. Num depoimento exclusivo a NEO MONDO, cita o governador paulista José Serra, que em artigo no jornal Folha de S. Paulo escreveu: “Zilda Arns tinha formação científica e era cristã fervorosa. Com sua crença, tornou mais humana a sua ciência; com a sua ciência, deu impressionante dimensão prática à sua crença”.

Flávio cita também o jornalista e escritor Frei Beto, para quem Zilda “realizou a multiplicação dos pães. Multiplicou gestos de solidariedade. Multiplicou amor”. (Confira os demais trechos do depoimento em “A coroação de uma vida”.) Clóvis, por sua vez, revela que, a partir da experiência brasileira, a Pastoral da Criança colabora para a melhoria da situação das crianças pobres em outros 20 países, aos quais transfere metodologia e promove o surgimento de trabalhos baseados em seu modelo. São estes: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, Guatemala, Honduras, México, Panamá, República Dominicana, Haiti, Angola, Guiné, Guiné-Bissau, Moçambique, Guiné Conacri, Filipinas e Timor-Leste.


Assessoria do senador Flávio Arns

“A coroação de uma vida” * Do presidente da República ao mais simples brasileiro que tenha recebido a informação da tragédia ocorrida no Haiti, percorreu o sentimento de dor, o sentimento de perda profundo como aquele quando perdemos alguém que queremos muito. As cenas trazidas até nós retratando o sofrimento daquele povo realmente tocaram profundamente a cada um de nós. No contexto da reflexão que pudemos fazer diante daquela tragédia, uma associação mexeu com o nosso íntimo, com a nossa condição de pessoa e de cidadão. A pobreza extrema acrescida de uma tragédia trazida pela natureza e a força extraordinária do ideal da solidariedade. A condição de pobreza de um povo que tem causas históricas lamentáveis e que lança pessoas humanas em um caminho de menos vida, sem dignidade, clama aos céus e pede Justiça. Esta é a primeira cena que deve nos chocar e despertar o senso de busca por um desenvolvimento harmonioso e justo de todos os povos. A presença do Brasil através dos nossos soldados deve ser expressão de acolhida e de ajuda, uma prova de sincera amizade. Foi preciso uma catástrofe natural para chamar a atenção para a tragédia cotidiana do sofrido povo do Haiti. Zilda Arns já tinha sido tocada, na razão e no coração, pelo drama daquele povo, o pensamento voltado especialmente para as crianças. Numa ação não levada por sentimentalismo de pena, queria ajudar a reverter a situação de miséria e sofrimento oferecendo a experiência do trabalho já desenvolvida em nosso país e em outras partes do mundo. Oferecer ideias e meios para que do seio do próprio povo pudesse brotar um trabalho, eficaz e de promoção humana. No início deste processo, ofereceu a sua vida em holocausto por amor ao povo e especialmente por amor às crianças, vítimas inocentes da injustiça e do desprezo pela pessoa humana. Aquele momento não pode ser definido como o final de uma vida, mas como a sua coroação. Nada na vida, notadamente as grandes e definitivas decisões, acontece por acaso. Elas precisam de um processo de amadurecimento e de um ambiente favorável à sua concretização. A vida de Zilda Arns estava predestinada a ser um marco na história das mulheres deste país. Seus vários pronunciamentos mostravam que ela tinha consciência das causas estruturais da nossa pobreza - e que martirizavam principalmente as crianças - e nunca negou que precisassem ser combatidas e vencidas. Porém pregou e executou uma ação salvadora imediata. A sua denúncia da injustiça se traduziu na ação solidária. Uma ação solidária que ela soube fazer contagiante, progressivamente contagiante, envolvendo milhares de pessoas voluntárias. Quantas pessoas sentiram que podem ser úteis, que têm potencial e assim recuperaram a sua autoestima. O sucesso do trabalho tem como centro a sua convicção de que as pessoas são capazes, têm potencial interior para serem sujeitos da própria vida, sujeitos do processo de superação de toda dificuldade. Zilda Arns

Flávio e Zilda: “lembrança gera saudades, sem tristeza, porque o amor nunca é triste, mas sempre uma luz, uma esperança, uma proposta de vida”

acreditou sempre e de verdade nas pessoas. Acreditava que o trabalho deveria levar saber, instrumentos e motivação, e as próprias pessoas desenvolveriam o processo. Os resultados comprovam a sabedoria e a verdade da ideia. Força da espiritualidade Algumas pessoas perguntam: onde está a força, a motivação para uma pessoa como ela se lançar nesta grande aventura humana de salvar vidas, no contexto de profunda e sincera gratuidade? Na trajetória de sua vida vamos encontrar uma grande força interior que vinha de uma espiritualidade que pode ser caracterizada como sadia, forte e encarnada. Era uma espiritualidade cristã ecumênica, aberta a todas as pessoas. Uma fé profunda que se traduziu em obras. Uma fé que lhe colocava diante dos olhos cada pessoa como criatura de Deus, portadora de dignidade e com desejo de vida feliz. Uma crença cristã que lhe dava a convicção de que um Deus Pai nos chamava a uma vivência de irmãos. Solidariedade e Fraternidade foram os eixos de sua vida e de sua obra. A exemplo do Cristo, como discípula-missionária, voltou-se de coração e de vontade para os excluídos da sociedade, amou os pobres e os serviu, amou as crianças e buscou salvar a sua vida, amou as mulheres muitas vezes tão sofridas e injustiçadas, chamou os homens à responsabilidade de companheiro e pai. Amou os idosos tantas vezes esquecidos e abandonados. A sua lembrança gera saudades. A sua lembrança não carrega tristeza porque o amor nunca é triste, mas sempre uma luz, uma esperança, uma proposta de vida. Ela viveu para trazer vida, dar vida e vida plena. Para falar dos santos do altar é preciso falar dos santos da vida. Daquelas pessoas capazes de acolher a todos, de estender as mãos e soerguer, de entregar um pedaço de pão, um copo de água. Também de lutar pela Justiça. Em meu próprio nome e em nome da família quero registrar um profundo agradecimento a tantas pessoas que manifestaram sentimentos de solidariedade e amizade. Tenho a certeza de que o exemplo de vida de Zilda Arns vai ser como uma semente no chão desta Nação tão rica que pôde abrigar em seu seio esta simples e extraordinária mulher e que acolhe um povo que sabe ser tão solidário, uma semente de Justiça e de solidariedade, encaminhando-nos para uma Nação de Paz.

* Senador Flávio Arns Neo Mondo - Fevereiro 2010

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“Um dia da caça ... ... e o outro

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o Brasil e em diversos países classificados como de “primeiro mundo”, a caça é um direito constitucional. Entre os franceses, a prática cinegética(*) caracterizara-se como um dos benefícios adquiridos pelo povo só a partir da revolução de 1792, direito até então exclusivo dos seus senhores feudais. Citações bíblicas também descrevem a arte da caça ora como um exercício de desenvolvimento do caráter e de educação do homem, ora como o orgulho de Salomão por servir em sua mesa alimentos nobres de origem animal que também podiam ser fartamente acessados pelos pobres e humildes, através da caça. Milênios passaram-se e o que se verifica aqui no Pindorama é a latente necessidade de regulamentação do exercício da caça, ou seja, a necessidade de uma criteriosa normatização dessa atividade com base em parâmetros técnicos sedimenta28

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dos na ciência da ecologia, observadas as peculiaridades de cada região ou localidade do país, bem como o potencial cinegético das espécies a serem autorizadas para explotação(**). Para fins de comparação com o nosso sistema legal de (não) proteção à fauna, atente-se para o fato de que, através da prática da caça amadorista, devidamente normatizada e em áreas delimitadas, países como França, Itália, Alemanha, Argentina, Uruguai, EUA, entre outros, anualmente angariam recursos financeiros através de taxas de licenças que seriam considerados, no mínimo, vultosos por qualquer órgão, governamental ou não, executor de programas de conservação ou de preservação de espécies nativas aqui no Brasil. A propósito, nos EUA., segundo relatório anual (1991) da National Wildlife Federation (N.W.F.), instituição criada em 1936, desde 1937

os caçadores, e desde 1950 os pescadores, fomentaram a implementação dos programas federais e estaduais de administração da “vida selvagem” naquele país. Somente as licenças federais para caça e pesca arrecadaram nessas cinco décadas mais de US$600,00 milhões com os quais foram adquiridos cerca de 3,5 milhões de acres (1,575 milhões de ha) de terras e águas para reservas de fauna. Na última década, aproximadamente 42 milhões de norte-americanos gastaram cerca de US$240,00 milhões na obtenção e/ou renovação de suas licenças estaduais. Cifras nada desprezíveis... Voltando às carências no Brasil, além dos potenciais recursos financeiros a serem diretamente destinados a programas oficiais de conservação e/ou preservação no país através de taxas de licenças, também a comercialização de produtos e serviços relacionados à prática da caça (roupas


Natan Rodrigues Ferreira de Melo e Silva

também” e acessórios especiais, armas e munição, seleção e treinamento de cães, ecoturismo, alojamento e hospedagem, congressos e seminários etc.), bem como a possibilidade de novos empreendimentos para industrialização e manufaturamento de seus respectivos produtos e subprodutos, representam expressivo potencial para incremento do PIB nacional. Em outras palavras: diante da noticiada incapacidade do Estado brasileiro de fiscalizar e combater em todo o território nacional os recorrentes crimes contra a fauna, a normatização para a criação de “Parques de Caça” postula-se como uma interessante estratégia de auxílio à conservação da natureza in situ no país. Parte-se da premissa de que nesse modelo de gestão dos recursos naturais, um determinado habitat ou ecossistema inteiro e diversas populações da fauna silvestre são conservados e monitorados para que

alguns exemplares - silvestres e/ou exóticos - possam ser caçados. Entenda-se, pois, o “Parque de Caça” como área ou território devidamente delimitado e estruturado para o exercício da caça amadorista, onde é realizado rigoroso controle de tamanho e da densidade de populações de diferentes espécies - cinegéticas ou não -, bem como das condições em que se encontra o habitat local onde elas estão inseridas e dispersas. Trata-se de uma atividade conservacionista cujo potencial se traduz - muito além do preservacionismo - em demanda de serviços a serem prestados por biólogos, pesquisadores de fauna, engenheiros agrônomos e florestais, zootecnistas, guarda-caças, especialistas em sociedades indígenas e em comércio de fauna e subprodutos, criadores e treinadores de cães etc. Nesse sentido, desde 1967 a Lei Nº 5.197 prevê, aqui em síntese, em seu artigo 1º que animais que constituem a fauna silvestre brasileira são propriedades do Estado; e em seu artigo 5º que o Poder Público criará: a) “Reservas Biológicas” nacionais, estaduais e municipais, (...) ; b) “Parques de Caça” federais, estaduais e municipais onde o exercício da caça é permitido, abertos total ou parcialmente ao público, em caráter permanente ou temporário, com fins recreativos, educativos e turísticos. Ocorre que em nosso país tais “parques federais, estaduais ou municipais” nunca foram implantados pelos devidos órgãos competentes, ou seja, por diversos motivos esses órgãos foram incompetentes, ao menos quanto a essa necessidade específica de regulamentação legal. Por outro lado, se não bastasse a letargia, ou incompetência, do Estado em relação à implantação dessas estratégicas unidades públicas, também os empreendedores privados que por vezes tentaram obter no país licenças para implementação de “Parques de Caça” em suas fazendas - mesmo que

para explotação de espécies exóticas reproduzidas em criadouros próprios - , frustraram-se por não haver definição de uma categoria privada de Parques de Caça na lei de 1967. Assim, ao democratizar através do Instituto Neomondo à sociedade brasileira o acesso a informações técnicas e verídicas - isentas de romantismo ou de sentimentalismo a respeito da dinâmica cinegética de populações de animais da fauna silvestre brasileira -, espero oferecer ao leitor subsídios para melhor discernir alguns (pré) conceitos relacionados à arte da caça. Conclui-se que, historicamente, urgem legisladores verdadeiramente conhecedores das causas às quais se “dedicam”. Basta de leigos sentimentais. Por fim, externo meu sincero respeito em relação às opiniões contrárias.

(*)

Relativo à caça Exploração do excedente

(**)

Natan Rodrigues Ferreira de Melo e Silva Professor da Escola Técnica LIMASSIS / Fundação ROGE Produtor Rural e Consultor Ambiental em Sistemas de Produção Animal Zootecnista e Mestre em Produção Animal pela Universidade Federal de Lavras Membro Titular do Conselho Consultivo da APA da Serra da Mantiqueira (CONAPAM) Ex-presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Piquete - SP

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Divulgação Semasa

Meio Ambiente

Semasa

investe R$ 50 milhões em tratamento de

água

Construção da nova Estação de Tratamento deve começar no 1º semestre Da Redação

O

Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa), autarquia da Prefeitura do município, investirá R$ 50 milhões na construção de uma nova Estação de Tratamento de Água (ETA) que abastecerá 25% do consumo na cidade. Em fevereiro, a Câmara de Vereadores ratificou o financiamento de R$ 45,2 milhões com a Caixa Econômica Federal, recursos que serão direcionados por meio do programa federal Saneamento para Todos. O financiamento, somado à contrapartida do Semasa, servirá para a construção da ETA e beneficiará mais de 200 mil pessoas na região. A seleção do projeto está dentro das metas de investimentos previstas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os valores para o financiamento aprovado vêm do fundo de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O projeto apresentado pela autarquia está de acordo com a instrução normativa nº 15, de 14 de abril de 2009, definida pelo Ministério das Cidades. O Semasa possui, desde 1997, uma outorga (autorização para captar água da Repre-

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sa Billings do Departamento de Águas e Energia Elétrica) na região do Parque do Pedroso, local onde a ETA será construída. Segundo análise de especialistas, a água utilizada para o abastecimento possui uma qualidade muito boa. Hoje, Santo André é responsável pela produção de somente 6% da água consumida pelos munícipes, e compra da Sabesp os outros 94%. A nova estação de tratamento, com capacidade para tratar 350 litros de água por segundo, elevaria a produção própria de água para aproximadamente 25%. A construção desta estação de tratamento de água vai ao encontro das necessidades do município e da política de gestão pública implantada pela nova gestão em Santo André, além de ser uma questão estratégica. A demanda por água na Grande São Paulo só cresce, enquanto os rios e represas perdem suas capacidades. O abastecimento hídrico é um processo que tem custado cada vez mais caro, pois a água consumida pelos habitantes da região metropolitana vem de bacias localizadas há centenas de quilômetros da capital. Para o assistente da superintendência do Semasa, engenheiro Fernando Debeus Cos-

ta, a autarquia tem capacidade e nível tecnológico suficiente para captar e produzir sua própria água. “O custo de produção da água será vantajoso. A economia com a compra de água e a economia de energia das estações elevatórias pagariam a obra em alguns anos”, disse. Já o superintendente Angelo Pavin lembrou de uma das primeiras reuniões de trabalho que teve com o prefeito Aidan Ravin. “Dentre as muitas solicitações, Aidan pediu atenção especial ao abastecimento de água. Falou dos planos que tem para este setor e pediu que o Semasa investisse na ampliação da quantidade de água captada, tratada e distribuída pela autarquia”, contou. Os bairros que seriam atendidos pela nova estação, como Parque Miami, Riviera e Recreio da Borda do Campo, estão em áreas de manancial. As residências abastecidas pelos reservatórios Vila Suíça e Miguel Ângelo também seriam beneficiadas. “A região sul de Santo André cresceu muito nos últimos anos e a infraestrutura que existe está quase no limite. A estação de tratamento suprirá uma das carências desta região”, conclui Costa.


Meio Ambiente

Após campanha em 2009, coleta seletiva inicia ano com aumento de 23% O Semasa coletou 829 toneladas de recicláveis só no primeiro mês do ano Da Redação

A

campanha realizada em meados de 2009 por meio da Unidade de Resposta Audível (URA) para a ampliação da participação popular na coleta seletiva continua rendendo bons resultados para a cidade. Em janeiro, o Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa), autarquia da Prefeitura andreense, registrou um aumento de 23% na coleta de recicláveis em comparação ao mesmo período do ano passado. Ao todo, foram coletadas 829,09 toneladas no primeiro mês de 2010. Em janeiro de 2009, haviam sido recolhidas 647,18 t. Novamente, o principal responsável pelo crescimento no volume foi a coleta porta em porta, que subiu de 510,42 para 637,71 toneladas. O aumento também foi apontado nos resíduos entregues nas Estações de Coleta (de 104,59 para 143,93 t.). No último ano, a coleta seletiva registrou o maior volume desde que foi im-

plantada no município, em 1998. O antigo recorde era de 2001, quando foram coletadas 8.030 toneladas de resíduos secos. “A campanha por meio da URA foi de grande importância para o aumento da coleta seletiva. Em conjunto com a Coordenadoria de Comunicação Social [do Semasa], queremos continuar com trabalhos que incentivam a população a participar, a separar corretamente os resíduos.”, comenta José Campos Nery, gerente da Coleta de Resíduos Sólidos da autarquia. Consumo consciente Tão importante quanto a separação correta dos resíduos é a compra consciente dos produtos. “O modelo atual de sociedade é marcado pela ênfase na cultura do ‘ter’ em detrimento do ‘ser’. Observa-se um crescente consumo de produtos sem que estes tenham um real significado e utilidade dentro de um contexto.”, comenta Ana Cristina

Villas Boas, gerente de Educação e Mobilização Ambiental do Semasa. Segundo Ana, a “sociedade de consumo” precisa despertar a consciência para sua responsabilidade em torno da preservação dos recursos naturais, bem como para a responsabilidade sobre a destinação final dos resíduos produzidos. “Ao comprar algo, cada pessoa deveria conhecer sua procedência, sendo capaz de escolher produtos, serviços e empresas fornecedoras que contribuam para uma condição de vida pautada na sustentabilidade e na justiça social.”, diz a gerente. De acordo com Ana, existem medidas simples que as pessoas podem adotar no dia-a-dia. São pequenas mudanças de hábito que possuem enorme potencial para transformação da realidade atual, ao conhecer e compreender a relação que existe entre o simples ato de comprar algo e o impacto disto sobre as condições de sobrevivência do próprio homem, de todos os seres vivos e do planeta.

Divulgação Semasa

Coleta porta em porta aumentou de 510,4 t para 637,7 t em janeiro deste ano em relação ao mesmo mês de 2009: benefícios para a cidade

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Peter Caulfield

Aquecimento interfere na qualidade

O

aquecimento global interfere diretamente na qualidade de vida dos seres que habitam o planeta. A situação agrava-se a cada ano, com a elevação das temperaturas (tanto frio quanto calor) que provocam desconforto, moléstias e até a morte de parcela da população. O aquecimento global está diretamente relacionado ao desenvolvimento das cidades, ao aumento do número de veículos, ao desmatamento e à produção industrial. Apesar de o clima ser democrático e atin-

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gir todos os seres viventes do planeta, as regiões pobres são sempre mais prejudicadas, por não possuírem recursos para investir em infraestrutura para minorar os efeitos do aquecimento global. O desmatamento e, em seguida, as emissões de gases poluentes são as principais causas das mudanças climáticas, dizem os especialistas. Apesar de algumas iniciativas voltadas para a diminuição do impacto do homem no meio ambiente, as comunidades terão de se adaptar às transformações am-

bientais. Parte destas adaptações está nas mudanças estruturais que fazemos para amenizar as elevadas temperaturas do calor no verão, trocando janelas abertas por aparelhos de ar condicionado, que provocam aumento no consumo de energia e ressecamento da pele. Outro fato que afeta e altera o clima nas cidades é a colocação de asfalto em grandes extensões urbanas e a construção de mais e mais prédios de concreto, que formam ilhas de calor. Nessas áreas, o ar tem menos espaço para circular, e, com isso, a temperatura


Global

Rosane Magaly Martins

do seu envelhecimento

da região aumenta. O asfalto e o concreto irradiam grande parte do calor absorvido pela luz do sol ao longo do dia. Nas áreas em que o solo está livre de construções, a terra absorve uma parcela maior da energia solar. Por isso o planejamento urbano é fundamental para amenizar os efeitos do aquecimento global sobre as populações. Saúde do planeta = saúde humana O homem, responsável por todas essas mudanças do clima, torna-se uma das

principais vítimas do aumento da temperatura. Os prejuízos imediatos na saúde humana podem ser observados no aumento do número de casos de doenças de pele (brotoejas, micoses, dermatites, herpes simples e urticária), processo de desidratação em crianças e idosos até o aumento na incidência de câncer de pele, no desenvolvimento de cataratas decorrentes do malefício do sol escaldante, sem que as pessoas façam uso de bloqueadores solares e de óculos de sol com proteção.

Outra consequência que não se percebe com o fenômeno demográfico e o aquecimento global é seu reflexo sobre a economia das famílias. Pessoas nascidas na década de 70 e 80 terão que planejar sua aposentadoria de outra maneira, pois serão as que sentirão de maneira mais impactante os efeitos do clima na fase pós-laboral. As mudanças climáticas gerarão mais despesas para todas as pessoas, desde os gastos com a saúde e as novas doenças e seus tratamentos até a aquisição de produtos que deem mais capacidade de proteção. Os governos terão que custear campanhas contra dengue ou malária, causadas pela devastação das matas ou pelas mudanças climáticas que desestabilizam o ecossistema e para isso reduzirão recursos em programas de saúde e/ou no atendimento da população, o que gera impacto negativo na vida das pessoas mais pobres. A maioria da população será mais dependente de sistemas privados de saúde e terá um gasto elevado para que não adoeça. Entre as novas despesas geradas pelas mudanças climáticas destaca-se o custo da água. Todos terão que pagar mais pela água consumida, e em sua grande maioria investirá recursos significativos para garantir a qualidade da água a ser consumida, uma vez que as empresas públicas não conseguirão atender à demanda com a qualidade necessária. Assim como nossas avós não tinham no planejamento despesas com TV a cabo, internet e celular, os futuros idosos da Geração Y (nascidos entre 70/80) terão despesas adicionais ainda não projetadas adequadamente. Este novo cenário do envelhecimento trará desafios e novas tecnologias de alto custo para vencer as dificuldades que acabam tornando o mundo e a vida das pessoas mais cara, seja para jovens seja idosos. A população até 2050 não será maior que a de hoje, havendo apenas a alteração no número de idosos – que em alguns países representarão 50% da população. Entretanto todos terão que pagar por não termos cuidado do ambiente. Neo Mondo - Fevereiro 2010

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em fase de desenvolvimento, que em meio século deverão chegar ao nível atual das nações mais ricas em termos demográficos, mas com muito menos tempo para se adaptarem às mudanças sociais que tal implica.

A cada ano o mundo cresce uma Alemanha – são nove mil pessoas a cada hora. Da década de 70 até hoje o número de habitantes dobrou enquanto que o consumo de água mundial quintuplicou, ou seja, se consome cinco vezes mais. Todas as pessoas planejam a aposentadoria com base no mundo de hoje – condomínio, alimentação, habitação. Mas dentro de 20-30 anos, o mundo será outro, com novas demandas e necessidades. Neste planejamento de aposentadoria deveremos levar em conta as consequências das mudanças climáticas no orçamento familiar. Especialistas em clima e economia projetam que a água terá um custo maior que o do petróleo. Mesmo com a descoberta de novas reservas de petróleo, elas não dão conta do elevado consumo que é mais acelerado que sua produção. Com a água será da mesma forma. Entretanto, a água é mais vital ao planeta que o petróleo, que pode ser substituído por energia solar, eólica. Mas para a água potável não há substituto. Metade da humanidade será idosa Uma em cada nove pessoas no mundo tem mais de 60 anos, uma proporção que se prevê que possa subir para uma em cada cinco dentro de 40 anos, fazendo com que em 2045 o número total de pessoas com mais de 60 supere, pela primeira vez, o grupo das crianças (com menos de 15 anos) – algo que vem acontecendo em países desenvolvidos desde 1998. Este envelhecimento traz implicações no cotidiano das pessoas, instituições e governos, desde a questão das aposentadorias ao mercado de trabalho, à sobrecarga sobre os sistemas de saúde e à mudança na prevalência de doenças. As consequências serão mais impactantes junto aos países mais pobres, ou 34

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Os impactos e as omissões A destruição da camada de ozônio é um dos problemas a serem enfrentados e interfere na vida de todo o planeta. A camada de ozônio (gás encontrado na estratosfera) é responsável pelo filtro de 70 a 90% dos raios ultravioleta emitidos pelo Sol. Não fosse a presença da camada protetora de ozônio, os raios ultravioleta atingiriam diretamente a Terra, com isso, teríamos uma elevação de temperatura tão grave que no futuro poderia extinguir a vida. Em 1985 foi observado pela primeira vez o buraco que se encontrava sobre a Antártida, no Polo Sul, e em 1998 avaliouse que possui o tamanho de 27,2 milhões de quilômetros quadrados. Quanto maior a quantidade de ozônio na baixa atmosfera maior a perda na agricultura (plantações de trigo, soja, algodão, amendoim, árvores de todas as espécies, entre outros), inibindo a fotossíntese e produzindo lesões nas folhas. Nos animais, provoca irritação e ressecamento das mucosas do aparelho respiratório, além do envelhecimento precoce. Nos seres humanos causa a aceleração do envelhecimento, queimaduras e câncer de pele e catarata. É importante esclarecer que o envelhecimento da população não é um problema em si mesmo. É um processo natural. Consequência de um processo evolutivo que deveria ser observado, compreendido e abordado. Naturalmente, este processo tem efeitos negativos e positivos, como melhor atenção à saúde, maior expectativa de vida e suas ramificações. Embora nos países industrializados este processo tenha sido gradual, nas nações em desenvolvimento foi e será rápido. Por exemplo, espera-se que em 2050 a China tenha cerca de 300 milhões de pessoas com mais de 60 anos, o que quase equivale a toda a população atual dos Estados Unidos. Além disso, ao contrário das nações industrializadas, os países em desenvolvimento carecem de um sistema de segurança social capaz de manejar sua crescente proporção de idosos. As sociedades e os governos não se prepararam para atender a falta de mecanismos e de uma rede de segurança. Deveriam fazê-lo de maneira proativa para evitar consequências adversas.

Os esforços mundiais para enfrentar os impactos do envelhecimento populacional datam de, pelo menos, 1982, quando foi adotado em Viena o Plano de Ação Internacional sobre o Envelhecimento. Nesse período viver depois dos 70 anos era fato considerado apenas nos países industrializados, muito distantes nas nações em desenvolvimento. A isto se seguiu o Plano de Madri, em 2002, que destacou o direito das populações envelhecidas a uma “boa” vida e países do mundo discutem o que significa “boa vida” e de quem seria esta responsabilidade. Em 1994 houve a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo. A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou em 1999 medidas para implementar o Programa de Ação acordado na capital egípcia. A criação de infraestrutura transcende a disponibilidade de recursos econômicos. Até mesmo países de alta renda no mundo industrializado precisam de gente capacitada em centros de saúde, por exemplo, para lidar com o envelhecimento da população. Por tudo isso envelhecimento e aquecimento global devem ser analisados a curto, médio e longo prazo por governos e instituições privadas, como forma de antever problemas e projetar soluções que minimizem impactos negativos na vida das pessoas que hoje têm entre 30 e 40 anos. Aumento na camada de ozônio, desmatamento, falta de saneamento básico, falta de manejo dos recursos hídricos continuarão a ser grandes desafios humanos e de governos. Ou cuidamos de nosso planeta de maneira consciente ou teremos em 2045 uma legião de idosos sofrendo as consequências da omissão atual no seu futuro quente, adoecido e de custos elevados. Rosane Magaly Martins, escritora, advogada pós-graduada em Direito Civil, com especialização em Mediação de Conflitos pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Pós-graduada em Gerontologia (FURB/2005) e Gerencia em Saúde para Adultos Maiores (OPS/ México) com formação docente em Gerontologia (Comlat/Colômbia). Fundadora e presidente da ONG Instituto AME SUAS RUGAS, participando desde 2007 na Europa e na América Latina de congressos, cursos e especialização que envolve o tema. Organiza a publicação da coleção de livros “Ame suas rugas” lançados no Brasil e em Portugal. E-mail: advogada@rosanemartins.com Site: www.rosanemartins.com


Takashi Yamauchi

Responsabilidade Social e Ambiental Plano Nacional sobre mudanças climáticas

A

questão ambiental passa a ocupar um grande espaço e destaque dentro da mídia e da economia após encontro dos lideres em Copenhague, onde aparentemente houve um fracasso já esperado, no entanto a preocupação de todos com o meio ambiente passa a ser uma questão de sobrevivência da humanidade. A consciência da gravidade dos problemas é comum, o que passa a ser discutido é a sua forma de encarar a questão na busca de soluções, onde deverá ser conciliado o lado econômico, desenvolvimento e qualidade de vida, portanto um desafio para própria consciência humana. O Brasil, por sua vez, foi arrojado em definir metas de redução de emissão de gases e economia de energia, montando o Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas, pela Lei Federal nº 12.187/09, estabelecendo metas e compromissos para alcançar os objetivos do PNMC. O País adotará, como compromisso nacional voluntário, ações de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, com vistas a reduzir entre 36,1% e 38,9% suas emissões projetadas até 2020. A legislação prevê a utilização das medidas existentes, ou a serem criadas, que estimulem o desenvolvimento de processos e tecnologias, que contribuam para a redução de emissões e remoções de gases de efeito estufa, bem como para a adaptação, dentre as quais o estabelecimento de critérios de preferência nas licitações e concorrências públicas, compreendidas aí as parcerias público-privadas e a autorização, permissão, outorga e concessão para exploração de serviços públicos e recursos naturais, para as propostas que propiciem maior economia de energia, água e outros recursos naturais e redução da emissão de gases de efeito estufa e de resíduos, estabelecendo um novo relacionamento com a questão ambiental.

Desta forma a aplicação do balanço social e ambiental, estabelecida na norma NBC T 15 e a Resolução nº 1.003/04, passa a ser um instrumento importante para mensuração do passivo ambiental das organizações. A questão passa a ser o nível de compreensão dos gestores das organizações brasileiras e sua reação em função destas novas medidas e tendências mundiais, bem como das instituições do terceiro setor da área ambiental e da capacidade técnica dos profissionais em relação ao novo enfoque, não bastando estar tecnicamente qualificados, mas adaptados à busca de novas soluções inovadoras. Portanto a questão ambiental passa a ser uma nova moeda de avaliação e disputa e com grande valor agregado e não mais uma exigência simples ou restrição dos ambientalistas xiitas, passando a ser uma questão de estratégia de negócio. Para contrapor-se às exigências, o governo, por sua vez, estabeleceu forma de atuar na questão ambiental formando parceria com as instituições do terceiro setor de forma que as suas despesas possam ser utilizadas como renúncia e incentivo fiscal, iniciando com a Lei Federal nº 9.249/95, artigo 12, § 2º, inciso II e III e por último pela Lei Federal nº 12.114/09, constituindo o FNMC – Fundo Nacional sobre Mudança Climática. A aplicação dos recursos poderá ser destinada às seguintes atividades: I - educação, capacitação, treinamento e mobilização na área de mudanças climáticas;  II- Ciência do Clima, Análise de Impactos e Vulnerabilidade;  III- adaptação da sociedade e dos ecossistemas aos impactos das mudanças climáticas;  IV- projetos de redução de emissões de gases de efeito estufa - GEE;  V- projetos de redução de emissões de carbono pelo desmatamento e degradação florestal, com prioridade a áreas naturais ameaçadas de destruição e

relevantes para estratégias de conservação da biodiversidade; VI- desenvolvimento e difusão de tecnologia para a mitigação de emissões de gases do efeito estufa;  VII- formulação de políticas públicas para solução dos problemas relacionados à emissão e mitigação de emissões de GEE;  VIII- pesquisa e criação de sistemas e metodologias de projeto e inventários que contribuam para a redução das emissões líquidas de gases de efeito estufa e para a redução das emissões de desmatamento e alteração de uso do solo;  IX- desenvolvimento de produtos e serviços que contribuam para a dinâmica de conservação ambiental e estabilização da concentração de gases de efeito estufa;  X- apoio às cadeias produtivas sustentáveis;  XI- pagamentos por serviços ambientais às comunidades e aos indivíduos cujas atividades comprovadamente contribuam para a estocagem de carbono, atrelada a outros serviços ambientais;  XII- sistemas agroflorestais que contribuam para redução de desmatamento e absorção de carbono por sumidouros e para geração de renda;  XIII- recuperação de áreas degradadas e restauração florestal, priorizando áreas de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente e as áreas prioritárias para a geração e garantia da qualidade dos serviços ambientais.  Além do que, este processo inclui a questão da compensação ambiental e conversão das multas ambientais, portanto sem desculpas em relação aos recursos a serem aplicados no setor. Takashi Yamauchi é especialista em Terceiro Setor, Consultor do Sistema de Apoio Institucional – SIAI e Consultor da Comissão de direito do Terceiro Setor da OAB Seccional Pernambuco. Participou do grupo de estudos para a formulação da Norma ABNT 16001. Neo Mondo - Fevereiro 2010

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A import

Conferência A

15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas (COP 15) foi importante por vários motivos. O primeiro deles, de ordem pública, foi poder presenciar os países desenvolvidos, bem como aqueles ainda em desenvolvimento, estabelecendo metas para enfrentar as mudanças climáticas e tomando parte em novas ações globais. A despeito das inúmeras vozes em sentido contrário, bradando o fracasso da Conferência, por não ter sido firmado nenhum acordo multilateral vinculante, as delegações participantes assumiram metas obrigatórias de redução das emissões no âmbito do Protocolo de Kyoto, e os países em desenvolvimento também lançaram as próprias ações voluntárias de mitigação. Por sua vez, do ponto de vista privado, foi importante constatar a presença de 36

Neo Mondo - Fevereiro 2010

diversos setores importantes da economia nacional na Conferência. Não só a Fiesp, a CNA, a CNI, mas também empresas multinacionais que investem maciçamente no Brasil e que procuram formas de envidar esforços na esteira da sustentabilidade, estavam em Copenhague apresentando seus programas ambientais e discutindo com os Governos Federal e dos Estados (registre-se que, além da União, muitos governadores de estados estavam pelos corredores do Bella Center apresentando seus programas de governo). Os compromissos firmados (ou prometidos) são uma luz no fim do túnel. O aspecto altamente positivo da COP 15 foi o fato de congregar iniciativas globais (ainda que desconexas) que afetam a sociedade civil, a economia, o mercado e as políticas internacionais.

Não tenho dúvidas, e meu prognóstico pode ser visto por muitos como alvissareiro demais, de que os resultados virão com o tempo. Ora, conseguir colocar numa mesa de discussão as maiores lideranças globais, chefes de Estado, primeiros-ministros e cientistas de várias áreas, é um passo deveras importante até mesmo para os olhares menos otimistas. O fato de Copenhague não gerar um documento vinculante não era novidade para quem sabia dos bastidores que antecederam a Conferência. Ledo engano pensar que todos sairiam de lá com metas obrigatórias fixadas em leis internas e/ou tratados internacionais. Não é dessa maneira que funciona a política internacional. China, Índia, Brasil e até mesmo os Estados Unidos prometeram para o


Terence Trennepohl

Correspondente especial de Boston – Estados Unidos

ância da

do Clima mundo estabelecer percentuais de redução de emissões de gases de efeito estufa. A sociedade agora fará o seu papel, cobrando os termos legais internos para implementar essas promessas (o presidente Obama já mandou para o Senado sua proposta – e o Brasil editou a Lei n. 12.187, em 29 de dezembro de 2009). Se, na pior das hipóteses, aquela em que menos acredito, tudo não tiver passado de um teatro com holofotes globais, ao menos o Brasil aparecerá como uma nação disposta a ensinar para o mundo que é possível ter uma matriz energética limpa e renovável. É importante lembrar que, segundo fontes de 2005, o mundo usa 12,7% de energia renovável e 87,3% não-renovável, enquanto o Brasil dispõe de 45,1% renovável e 54,9% não-renovável. Na

União Européia a situação ainda é mais dramática, pois 6,2% são renováveis e 93,8% são não-renováveis. Outra boa noticia é que, passada a Conferência do Clima de 2009, não saímos do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), importantes países em desenvolvimento, mas sim, entramos no BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China), desempenhando um importante papel em questões ambientais internacionais. Demais disso, em 29 de janeiro de 2010, na cidade de Bonn, na Alemanha, alguns paises apresentaram a UNFCCC United Nations Framework Convention on Climate Change suas metas de redução para os próximos anos. Enquanto o Brasil manteve os termos do encontro de dezembro e prometeu reduzir suas emissões entre 36,1% e 38,9%

até o ano de 2020, a Índia apresentou plano de reduzir 20-25%, a África do Sul 34% e a China 40-45%. Portanto, é de se ver com bons olhos o encontro da Dinamarca e esperar que o melhor, ou o prometido, tão logo venha a se concretizar.

Terence Trennepohl Sócio de Martorelli e Gouveia Advogados Senior Fellow na Universidade de Harvard Doutor e Mestre em Direito (UFPE) Bolsista da CAPES E-mail: tdt@martorelli.com.br Neo Mondo - Fevereiro 2010

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Kristian Buus/Greenpeace

Especial - COP 15

Empurrando com a barriga Líderes mundiais deixam a desejar, frustrando pessoas que avançam no conhecimento de alternativas saudáveis ao planeta Gabriel Arcanjo Nogueira

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impressão que fica - passados dois meses do encerramento da 15a. Conferência do Clima  (COP 15) da Organização das Nações Unidas (ONU), em Copenhague, Dinamarca - é a de que os líderes mundiais empurraram com a barriga a oportunidade de costurar um acordo mais ousado no que diz respeito à fixação de metas e soluções para resolver o dilema do aquecimento global com a máxima urgência possível. Paralelamente à COP 15, porém, milhares de pessoas, entre empresários, cientistas, pensadores, pesquisadores, executivos e representantes de ONGs avançaram em seu papel cidadão de buscar alternativas viáveis para tornar a vida no e do planeta mais qualificada.   O próprio secretário-executivo do encontro, Yvo de Boer, segundo informações da BBC Brasil, citadas pela Agência Brasil de Notícias, considerou que o acordo (que ele chama de “carta de intenções”)  resultante ao final da Conferência ficou aquém das expectativas. E não economizou palavras para se manifestar. “Temos que ser honestos sobre o que temos. O mundo sai de Copenhague com um acordo. Mas, claramente, as ambições precisam subir significativamente se quisermos manter o mundo a 2 graus Celsius”, afirmou referindo-se ao aumento da temperatura global  aceito pelos signatários do documento. De Boer, que era secretário da Convenção do Clima da ONU (renunciou em meados de fevereiro), sugeriu que se trabalhe para torná-lo “real, mensurável e 38

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verificável”. Encerrada na madrugada de 19 de dezembro de 2009, a COP 15 teve a participação de 192 países, que não conseguiram fechar um acordo vinculante sobre as emissões de gases do efeito estufa (ver quadro “Aspectos do acordo”). Não obstante, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, classificou o acordo como “um começo importante”, com a ressalva de que precisa transformarse em tratado com valor legal já em 2010. No fim deste ano, acontece no México a COP 16, precedida de reunião preparatória na Alemanha. Negociações devem acontecer nesse intervalo de tempo, como acena De Boer: “Vamos tentar chegar a um acordo obrigatório com valor legal até a COP 16”. “Reféns dos EUA” Já em Brasília, dois dias depois do encerramento da COP 15, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu os jornalistas para afirmar que o Brasil “fez mais do que qualquer um esperava” na Conferência do Clima. De acordo com a Agência Brasil de Notícias, Lula apontou os aspectos que teriam contribuído para que não se chegasse a um acordo formal em Copenhague, como os pontos sugeridos pelos países ricos de redução dos valores no fundo de ajuda aos países pobres; a verificação dos limites para redução de emissão de CO2; e a intenção de considerar a China como país desenvolvido. Lula lembrou que Bolívia e Venezuela deixaram o evento por conta de seus delegados, que votaram contra a proposta dos paí-

ses em desenvolvimento. “Se a gente tivesse negociado um mês antes, teríamos feito um acordo. Fizemos o melhor projeto, mas os países não evoluíram porque estavam reféns da proposta americana”, ponderou. O presidente brasileiro considerou insuficiente o valor fixado como ajuda aos países pobres e sugeriu: “Queremos que os governos assumam a responsabilidade de dar dinheiro com o aval do Tesouro. Se o mercado quiser contribuir, é lucro”, disse. Lula, crítico à posição dos Estados Unidos na COP 15, e mesmo antes dela, referindo-se à não-ratificação do Protocolo de Kyoto, avaliou como positivo o acordo fechado entre China, Índia, África do Sul, Brasil e Estados Unidos, mas lembrou que a solução global tem de ser legitimada por todos os países. Na visão do presidente brasileiro, “até o próximo encontro, no México, nós deveremos fazer um acordo e todo  mundo concordar para que a gente possa, então,


definir uma política mundial para que se trabalhe o desaquecimento global”. Lula espera que as metas brasileiras apresentadas em Copenhague - redução das emissões nacionais de gases do efeito estufa entre 36,1% e 38,9%, até 2020 - sejam consolidadas com força de lei. E avisou: “Já não é mais a vontade do presidente Lula. Agora, quem quer que governe este país vai ter de cumprir”. Humanidade em perigo Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace no Brasil, entende que os líderes do mundo fracassaram na COP 15. Isso porque “mostraram sua incapacidade de colocar interesses particulares – especialmente econômicos – acima das necessidades da humanidade. Eles falharam em evitar o caos climático. Em 2009, o mundo enfrentou uma série de crises e, com certeza, a maior delas é a crise de liderança”.

Para o Greenpeace, o acordo não é justo, ambicioso nem legalmente vinculante porque “milhões de pessoas que dependiam de uma decisão ambiciosa, que de fato controlasse o aquecimento global, foram abandonadas à própria sorte”. O ideal, para o Greenpeace,  é que se chegasse a um acordo com  força de lei, “justo e ambicioso, para controlar as mudanças climáticas”. A ONG enfatiza  que “os países desenvolvidos, que têm a maior responsabilidade, precisam cortar em 40% as emissões de gases-estufa em relação a 1990 até 2020. Os países emergentes também precisam fazer mais, com redução da taxa de crescimento de suas emissões. É preciso zerar o desmatamento das florestas tropicais e criar um mecanismo que financie ações de adaptação e mitigação nos países pobres. Sem nada disso, o mundo sai da COP 15 deixando o presente e o futuro da humanidade em perigo”.

Greenpeace/Rodrigo Baleia

Kumi Naidoo, do Greenpeace Internacional, durante a grande Marcha pelo Clima: o que houve em Copenhague foi um crime

Carolina sugere que os resultados do estudo sejam amplamente debatidos pela sociedade brasileira

Marcelo, do Greenpeace Brasil: sem corte das emissões de gasesestufa, qualquer esforço de adaptação é insuficiente

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Especial - COP 15

A chance de mudar o mundo era uma em um milhão; o que se produziu foi um entendimento de omissões

“Perseguidos pela vergonha” O diretor-executivo do Greenpeace Internacional, Kumi Naidoo, que esteve à frente da grande Marcha pelo Clima em Copenhague, é duro em relação ao que aconteceu durante a COP 15: “A cidade de Copenhague foi palco de um crime, com os culpados correndo para o aeroporto perseguidos pela vergonha”, disse. “Presidentes e primeiros-ministros tiveram uma chance de uma em um milhão de mudar o mundo para sempre e impedir que o clima entre em colapso. Produziram apenas um entendimento cheio de omissões.”

Lula, na reunião que definiu documento com mais 4 países: não se evoluiu mais por haver “reféns da proposta americana”

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mou que o acordo de Copenhague representava a esperança de uma conclusão feliz de negociações que estão apenas começando. Afinal, segundo ele, conseguir um acordo com valor legal é ‘difícil’ e toma tempo”. Marcelo argumenta: “A questão é que o aquecimento global não espera as vontades e as dificuldades enfrentadas pelos políticos. A justificativa não convence suas vítimas. Longe dos corredores acarpetados de Copenhague, Washington, Genebra, Pequim e Brasília, as populações mais vulneráveis do planeta vão sofrer pela inação desse grupo”.

Ricardo Stuckert/PR

Repúdio é claro O mais grave, para Marcelo, é que esses líderes deixaram de  cumprir seu objetivo  mais essencial, que seria  evitar os efeitos perigosos das mudanças climáticas. O diretor-executivo do Greenpeace no Brasil  apresenta as suas  razões: “Esse ´acordo de Copenhague´ (ver quadro “Para ajudar a entender o fracasso”) é fraco e não representa nem um começo do que é necessário para controlar as alterações no planeta. Muitos países da América Latina, da África e pequenas ilhas se recusaram a se associar ao texto, em uma clara demonstração de repúdio”. De acordo com Marcelo, “o tal ‘acordo’ determina que os esforços devem ser feitos para manter o aumento da temperatura em menos de 2°C e coloca algum dinheiro na mesa para começar a ajudar os países mais pobres a se adaptarem ao aquecimento global. Mas falha em seu cerne, ao não determinar uma meta ambiciosa de corte das emissões de gases-estufa. Sem isso, qualquer esforço de adaptação é insuficiente”. O presidente dos Estados Unidos  Barack Obama é alvo preferencial do Greenpeace, por sua atitude, ao fim da COP 15: “Depois de abandonar a conferência, (Obama) afir-

A sociedade, ao contrário dos políticos, fez a sua parte, lembra o Greenpeace, ao cobrar com propriedade a ida de seus presidentes para lá, para que assumissem posições corajosas. “Eles foram, mas cumpriram apenas metade de seu papel”, constata Marcelo. O diretor-executivo da ONG no Brasil reitera suas críticas e faz um apelo: “A reunião de cúpula terminou da mesma maneira que começou, sem metas ambiciosas de corte de emissão, sem recursos financeiros para longo prazo e sem um texto consensual, com força de lei, que assegure seu cumprimento junto à comunidade internacional. Temos de seguir em frente. Não apenas com marchas nas ruas, mas engajando o setor privado, o movimento social e os governos locais para transformar nossa comunidade e criar mais pressão política nos nossos governantes. Afinal, não podemos mudar a ciência, mas podemos mudar os políticos”. Pouco efeito prático Para Marcos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), “a enorme expectativa de que a COP 15 marcasse uma mudança radical na atitude dos países no enfrentamento das ameaças das mudanças climáticas a longo prazo”, de fato, resultou numa retumbante frustração “de todos os que dela participaram e da sociedade global”. O cientista avalia que ante o que se esperava - “algum tipo de acordo vinculante  com clareza do caminho a seguir para limitar o risco do aquecimento global” -, o que se decidiu na Conferência do Clima é pífio. “Sem o estabelecimento de metas quantitativas de redução de emissões, pouco efeito terá o princípio geral de que o aumento da temperatura global não deve ultrapassar 2oC ou 1,5oc”, afirma.  Não obstante, Marcos Nobre acredita que se deva destacar o papel do Brasil em Copenhague, até mesmo pelo fato de ter ido à COP 15 com metas para reduzir suas emissões. O que, para o pesquisador titular do Inpe, é importante. Positivo também que “não podemos esquecer que temos muitos pesquisadores no Brasil estudando (o aquecimento global), e no campo científico estamos bastante avançados”. E, mesmo nas ações políticas, há o Plano Nacional de Mudanças Climáticas, que na visão do cientista deve promover as ações de combate e preparar o Brasil para a nova realidade climática.


Usina de ideias em feira verde O assessor da Unica lembra que biocombustíveis já chegaram a ser vistos internacionalmente como “salvadores da pátria”, num primeiro momento, e depois como inimigos. Para Luiz Amaral, não se trata de uma coisa nem de outra. A iniciativa privada faz a sua parte, com investimentos em pesquisas, desenvolvimento de tecnologias e de produtos alternativos. “A economia verde já faz parte de uma agenda social, e se tivesse saído um acordo vinculante da COP 15, se poderia avançar mais”, acredita. Gigantesco desfile Para usar uma linguagem dos tempos carnavalescos, se a COP 15 fosse um gigantesco desfile de escolas sob o enredo único “Salvem o planeta antes que seja tarde”, o quesito fixação de metas e definição de regras comuns faria as do primeiro grupo serem rebaixadas, já que o sentimento de frustração com os que deveriam estar na linha de frente foi total. Embora as expectativas do setor sucroenergético não fossem otimistas, Luiz Amaral não contava que chegar a um acordo promissor fosse tão complicado.  Já no quesito apresentação de ideias, o encontro mundial sobre o clima foi positivo, na visão do espe-

cialista. Para ele, a economia verde já faz parte da agenda social, e a tendência, daqui para a frente, é evoluir em parcerias produtivas e amadurecimento de contatos anteriores à COP 15. No que depender da Unica, a cruzada para fazer o maior número de pessoas - físicas e jurídicas - entender a importância do papel dos biocombustíveis na qualidade de vida terrestre está no caminho certo. “O que temos feito é vencer mitos e clarear as verdades”, sintetiza Luiz Amaral.   Niels Andreas

Luiz Fernando do Amaral, assessor de Meio Ambiente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), considera que a COP 15 representou momento único de, em eventos paralelos, se apresentar e discutir ideias, propostas de busca de alternativas em energias limpas, por exemplo. A Unica levou uma missão de cinco especialistas a Copenhague e participou de  encontros, entre eles a Bright Green Expo, organizada pela Confederação Dinamarquesa das Indústrias. Nessa feira, que reuniu mais de 10 mil visitantes interessados em conhecer novas tecnologias,  foi apresentada a versão experimental da  Usina Virtual, projeto multimídia da  Unica, em que se  demonstraram as fases de produção de açúcar, etanol e bioeletricidade. “O etanol não é nenhuma bala de prata”, compara o mestre em Economia das Relações Internacionais, “mas é hoje a única solução comercialmente viável para o transporte, por não exigir tecnologias caríssimas.” Em Copenhague se avançou, de acordo com Luiz Amaral, no sentido de resolver mitos e mostrar o quanto esse tipo de energia limpa é competitivo, sem representar o risco que se lhe atribui de fazer da Amazônia extenso canavial ou ameaça à produção de alimentos. 

Luiz Amaral, da Unica: economia verde está na agenda social; faltou o acordo vinculante

Aspectos do acordo

Para ajudar a entender o fracasso

• aprovado sem unanimidade, contrariando exigência da ONU*

• 120 chefes de Estado

• prevê ações para segurar o aumento da temperatura global em 2oC • não define redução de emissões de gases-estufa • prevê a criação de um fundo emergencial de US$ 30 bilhões até 2012 • acena com possibilidade de recursos para financiamentos de longo prazo de até US$ 100 bilhões até 2020

colocaram prioridades domésticas acima de um compromisso global

• quem vai pagar mais caro são os mais pobres e vulneráveis

• acordo foi costurado por 30 dos quase 200 países integrantes da Convenção do Clima

* Por ser um documento resultante de encontro entre EUA, Brasil, África do Sul, Índia e China, não é reconhecido por Sudão, Bolívia, Venezuela, Nicarágua, entre outras nações

• chefes de Estado deixaram a

Fonte: ABr com BBC Brasil

Fonte: Greenpeace

COP 15 sem falar à Imprensa

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A COP

A

15 e as lições para a

mídia nacional e a internacional questionaram o resultado da COP 15, principalmente depois da grande mobilização social criada em torno do evento. Várias matérias alardearam que a COP 15 foi um verdadeiro fracasso e que as discussões sobre um novo acordo climático para substituir o Protocolo de Quioto não evoluíram em Copenhague. No entanto, antes de considerar a reunião da Dinamarca um fracasso total, é importante analisar os resultados dessas duas semanas de negociações e aprender algumas lições que serão úteis para a organização das pró-

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ximas reuniões no México (2010) e na África do Sul (2011). O primeiro fato que surpreende são os números da COP 15, especialmente quando comparados com as reuniões anteriores. Foram mais de 45 mil pessoas pré-cadastradas pela ONU para participar do evento. Isso mostra o interesse não apenas de representantes de governos, mas também de membros do setor empresarial e da sociedade civil em acompanhar de perto as discussões internacionais para uma política climática mundial. É verdade que a organização do evento falhou em alguns momentos, como no

período de cadastramento e na restrição do acesso de ONGs. Na segunda semana da reunião, por exemplo, quando era esperado o maior número de participantes, havia apenas 12 terminais para efetuar o cadastramento e a entrega dos crachás. Por causa disso, inúmeras pessoas esperaram 6, 7 ou até mesmo 8 horas em uma grande fila fora do pavilhão. A temperatura negativa deixava a espera ainda mais desconfortável. Outro exemplo foi a limitação do acesso de representantes de ONGs às salas de negociações nos últimos dias da reunião, gerando manifestações e conflitos com a polícia.


Natascha Trennepohl

Correspondente especial de Berlim – Alemanha

COP 16 O acordo apresentado no final da COP 15 está muito aquém de ser considerado um substituto para o Protocolo de Quioto, mas isso não foi novidade para quem estava acompanhando de perto as negociações que antecederam a reunião em Copenhague. Os encontros em Bonn, Bangkok e Barcelona que aconteceram ao longo de 2009 já deixavam claro que não se chegaria a um consenso para um novo acordo que juridicamente vinculasse os países. O tempo estava passando e as discussões sobre pontos importantes não estavam evoluindo. Quando se chegou em Copenhague, ainda havia muitos

pontos importantes sobre financiamento e metas de redução de emissão de gases que precisavam ser discutidos e negociados entre as partes. O acordo de Copenhague, apesar de ter sido uma proposta redigida por poucos países (Brasil, EUA, China, Índia e África do Sul), reflete, segundo o secretário da ONU (Yvo de Boer), um consenso político entre os países quanto à urgência de se combater as mudanças climáticas e de se manter o aumento da temperatura da Terra abaixo dos 2 graus Celsius. Para tanto, enfatiza-se a necessidade de cooperação entre os países, respeitando-se o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Isso já pode ser considerado um avanço na postura norte-americana, pois até pouco tempo atrás os Estados Unidos, apesar de serem grandes emissores de CO2, se recusavam a adotar medidas de mitigação e até mesmo questionavam a ocorrência do aquecimento global. No entanto, o acordo apresentado na COP 15 está incompleto e não apresentou as metas de cada país para a redução de emissão dos gases que causam o efeito estufa (GEE). Concedeu-se o prazo até 31 de janeiro para que tais metas fossem entregues ao secretariado da ONU. Muitos países já apresentaram suas metas de redução para 2020, alguns considerando como base o ano de 1990 (ex: União Europeia e Japão), outros o ano de 2005 (ex: Canadá e Estados Unidos) ou até mesmo o ano de 2000 (ex; Austrália). Diversas questões relacionadas com o financiamento das medidas de adaptação e mitigação também estão incompletas. O acordo só menciona que os países desenvolvidos fornecerão uma ajuda adicional de 30 bilhões de dólares no

período de 2010 a 2012 e disponibilizarão por ano 100 bilhões de dólares (até 2020) para que os países em desenvolvimento adotem medidas de mitigação, leia-se redução de emissão dos GEEs. Ainda não estão bem definidas quais serão as fontes de financiamento e nem o montante a ser despendido por cada país envolvido. Está claro que muitos pontos ainda precisam ser discutidos para se chegar a um novo acordo climático que possa substituir o protocolo de Quioto. No entanto, é exagerado considerar a COP 15 um verdadeiro fracasso, já que ela serviu para mobilizar tantas pessoas em torno de um objetivo comum. As campanhas criadas para alertar sobre os problemas causados pelas mudanças climáticas mobilizaram milhões de pessoas que agora passaram a acompanhar de perto as discussões políticas e a pressionar seus governantes. É preciso aprender com essa reunião para não repetir os mesmos erros nos próximos encontros. Não adianta deixar questões importantíssimas, como financiamento, para serem discutidas na última hora. Uma coisa é certa, muito trabalho ainda precisa ser feito para que a COP 16 não termine sem um acordo concreto e o primeiro passo é não repetir os erros da COP 15. Natascha Trennepohl* Advogada e consultora ambiental Mestre em Direito Ambiental (UFSC) Doutoranda na Humboldt Universität (HU) em Berlim. E-mail: natdt@hotmail.com *foi membro da delegação brasileira que esteve na COP 15.

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Inclusão Social

Fórum Social

– Um outro mundo

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ainda é possível Jovens participam de caminhada do FSM

Com o título 10 Anos Grande Porto Alegre, evento voltou ao Rio Grande do Sul para realizar balanço de sua atuação e estabelecer novas propostas

Verena Glass/Repórter Brasil

Rosane Araujo

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oram cinco dias de debates e uma programação pulverizada em sete cidades gaúchas, contando com 35 mil pessoas em 915 atividades. A décima edição do Fórum Social Mundial, realizada de 25 a 29 de janeiro, propôs um balanço da primeira década do

evento criado em 2001, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, na Suíça. O modelo descentralizado permitiu a realização de outros doze eventos em diversas partes do mundo, como Espanha, El Salvador, Benin, República Tcheca, Alemanha e Japão.

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Inclusão Social

Verena Glass/Repórter Brasil

vel, que contou com 13 atividades, reunindo cerca de 70 painelistas e mais de 2 mil pessoas. No último dia do Seminário, os participantes foram convidados a dar suas impressões sobre o evento, fazer críticas e apresentar propostas.

Presidente Lula participou do evento no dia 26 de janeiro, quando debateu diversas questões junto aos organizadores, entre elas a atuação do governo brasileiro no Haiti

No Brasil, além da Grande Porto Alegre, também aconteceu o Fórum Social Temático da Bahia, em Salvador. Tantas atividades foram só o começo do que promete ser um ano cheio para os organizadores e entidades ligadas ao Fórum. Serão cerca de 30 eventos só em 2010, tudo isso para preparar o terreno para o Fórum Mundial de 2011, que será realizado em Dakar, no Senegal, de forma unificada. Na décima edição, não só as sedes foram muitas, mas os temas não ficaram atrás. Além do tradicional apelo contra as desigualdades sociais e o modelo econômico neoliberal, questões como a criação

C

riada há cerca de um ano e meio seguindo a metodologia proposta pelo Movimento Nossa São Paulo, no qual vários outros movimentos espelharam-se, a Rede Social Brasileira de Cidades Justas e Sustentáveis já conta com 30 cidades. “A Rede não congrega todo e qualquer tipo de movimento pela qualidade de vida, o que a une é a metodologia comum. Nós trabalhamos com o diagnóstico das cidades através de indicadores técnicos que medem a qualidade de vida e também aplicamos pesquisas de percepção, que representam a opinião pública. Ambos levam a uma mobilização da sociedade,

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do Estado Palestino, a ajuda humanitária ao Haiti e o fracasso da 15ª Conferência das Partes sobre as Mudanças Climáticas (COP 15) também ganharam espaço. E a programação gaúcha ainda incluiu a realização do Seminário Internacional Dez Anos Depois: Desafios e propostas para um outro mundo possí-

Inclusão de pessoas Entre as sugestões apresentadas estiveram a formação de uma rede de colaboração entre movimentos sociais para estimular a troca de experiência, a inclusão de pessoas que estão vivendo os problemas apresentados nos painéis e até o veto à participação de empresas transnacionais na infraestrutura do evento, incentivando, por outro lado, a economia solidária. Análises superficiais e discussões fragmentadas foram algumas das falhas citadas. E enquanto alguns apontaram a falta de consenso como ponto negativo, outros defenderam a manutenção de agendas próprias para cada movimento. “Uma agenda consensual é impossível”, disse o representante do Movimento Estudantil, Pedro Borba.

Excessos do neoliberalismo causaram a crise mundial, confirmando a razão de ser do Fórum

” Instituição prepara estudo

para que haja uma melhor aplicação dos recursos públicos e sempre com a preocupação de desenvolver uma sociedade com justiça social e responsabilidade ambiental”, explicou o secretário Broinizi. Durante o Fórum Social Mundial, a Rede divulgou a elaboração de um material intitulado Plataforma Cidades Sustentáveis que mostrará experiências bem-sucedidas por todo o mundo. “A gente fala muito em sustentabilidade, mas ainda não conseguimos ver um programa efetivo que diga realmente como uma cidade deve ser organizada, deve consumir, deve economizar para que ela se torne sustentável”, opinou Broinizi.

O trabalho está sendo elaborado por uma equipe técnica de São Paulo, que trabalha em conjunto com as outras cidades que compõem a Rede. “Todos vão apresentar ideias, propostas, projetos, na verdade, vamos fazer uma grande síntese das colaborações. Será uma Plataforma bastante completa, estamos fazendo uma ampla pesquisa em diversas experiências que já acontecem em muitas cidades do mundo, para mostrarmos que é possível, que não estamos inventando coisas utópicas, que isso já está sendo feito”, afirmou. A previsão é que a Plataforma seja concluída até 30 de junho e, a partir de


Verena Glass/Repórter Brasil

Para o secretário-executivo do Movimento Nossa São Paulo e da Rede Social Brasileira de Cidades Justas e Sustentáveis, Mauricio Broinizi, a função do Fórum é exatamente dar voz à diversidade. “Não tem uma diretriz básica, porque ele é composto pela diversidade, funcionando como forma de expressão para diversas culturas e movimentos sociais. O Fórum proporciona o encontro, o espaço da crítica, da troca de experiências e da elaboração de propostas para a sociedade civil se conduzir nessa perspectiva da construção de um mundo melhor”, disse. Para ele, nesses dez anos, o evento já apresentou resultados perceptíveis por meio do crescimento do número de participantes e no acerto de previsões a respeito da insustentabilidade do modelo econômico baseado no liberalismo, uma ideia muito difundida nesta edição. “Os excessos do neoliberalismo levaram o mundo a uma enorme crise mundial, entre 2008 e 2009, confirmando as críticas que eram feitas a essa supremacia do capitalismo financeiro e da onipotência do mercado. Então, o Fórum confirmou seu acerto e sua razão de existir”, argumentou. Em Porto Alegre, a Rede secretariada por ele foi apresentada aos participantes e também promoveu o debate “Novos Paradigmas do Desenvolvimento”, que teve como convidados o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, a senadora Marina Silva e o idealizador do FSM, Oded Grajew.

Painéis trouxeram especialistas e representantes da sociedade civil - Só no Seminário Internacional 10 Anos Depois foram 70 painelistas

Números do Fórum Social Mundial 2010 • • • • • • • • • • • •

27.350 Inscritos (Geral) 35.000 participantes nas atividades 915 Atividades (Conferências, Seminários e Oficinas) 15,1% dos participantes estrangeiros Total de 39 países presentes 59,3% de inscritos mulheres 40,7% de inscritos homens 34% com renda inferior a U$ 500 12% com renda acima de U$ 2.500 27 atividades culturais (shows, teatros, mostras, saraus) 112 músicos (nacionais e internacionais) 250 jornalistas credenciados – de 15 países

Fonte: www.fsm10.org

sobre iniciativas de sucesso então, passe a ser discutida junto aos candidatos aos governos estadual e federal. “Praticamente as cidades não entram nesse debate, porque ficam relegadas às eleições municipais, só que a gente vive cada vez mais um fenômeno bastante complicado que é a formação de grandes regiões metropolitanas ou até megacidades em todo o Brasil e não há uma coordenação de políticas entre essas cidades, estamos muito atrasados nisso. Ao mesmo tempo, o país tem também muitos municípios pequenos, que não têm condições para ter uma política de sustentabilidade e precisam de orientação”, defendeu.

A missão de incluir o tema nos planos de governo, porém, não é das mais simples. O próprio secretário reconhece que a economia e a geração de empregos ainda são o foco principal das campanhas. “Política atrasada” “As questões ligadas às necessidades cotidianas das pessoas ainda continuam sendo as que mais pegam no ponto de vista da caça ao voto. A gente não vê as principais candidaturas com foco central na sustentabilidade, embora a importância esteja crescendo, também porque a gravidade do problema cresce assustadoramente. De certa maneira, a política está atrasada”, analisou.

Além de apresentar as propostas e estabelecer referências de metas ideais, a Rede também tem o papel de fiscalizar se os compromissos assumidos estão sendo cumpridos. “Se algum candidato diz que vai implantar nossas propostas, a gente grava, deixa registrado publicamente, passa para a imprensa, e depois nós cobramos, como estamos fazendo na prefeitura de São Paulo e nossos colegas estão fazendo em outras cidades. É essa nossa forma de atuar, não só fazendo propostas. A gente faz isso e depois monitora e cobra das mais diversas formas, fazendo reuniões com os responsáveis e até mobilizando a sociedade para pressões maiores nos meios de comunicação”, finalizou.

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Inclusão Social

de

visão

Deficientes visuais lutam pela audiodescrição, recurso que permite acesso à dimensão visual de eventos, filmes, peças de teatro e programação de TV Elizabeth Lorenzotti

N

o Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 16,5 milhões de pessoas com deficiência visual total e parcial. Pessoas que conseguem ouvir os filmes e eventos, mas não têm idéia da ação, do cenário, figurino e todos os outros elementos visuais presentes, se alguém ao lado não relatar. Um problema que pode ser resolvido pelo recurso de acessibilidade, recurso que garante a inclusão de pessoas com deficiência visual, intelectual e dislexia em cinema, teatro e programas de televisão. Um recurso também útil para idosos. Trata-se da narração desses eventos por meio de fones de ouvido, possibilitando ao telespectador escutar uma locução que descreve imagens, textos e demais informações visuais. A obrigatoriedade de oferta desta facilidade está prevista desde 2006 pela Norma Complementar nº 01/2006 – Recursos de Acessibilidade para pessoas com deficiência, na programação veiculada nos serviços de radiodifusão de sons e imagens e de retransmissão de televisão. Entretanto, o recurso até agora não foi implantado e sofre sucessivas prorrogações de prazos pelo Ministério das Comunicações. A audiodescrição é o único recurso de acessibilidade que ainda não entrou em vigor, pois já estão funcionando a legenda oculta, a dublagem e a janela de LIBRAS, a tradução para pessoas com deficiência de audição. No dia 11 de fevereiro, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos promoveu

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uma reunião técnica sobre o tema, para buscar um entendimento. E o Ministério das Comunicações colocou em consulta pública, pela quinta vez, a minuta de portaria, para receber sugestões. Mas quais são os entraves a este recurso? Segundo o presidente da Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva), Markiano Charan Filho, “existe um lobby da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) que dificulta muito. Eles querem implantar, a partir de 2011, apenas uma hora semanal com audiodescrição. Depois duas horas, e assim por diante. São migalhas, numa programação de 24 horas.” A Abert também já propôs a inclusão do recurso apenas para a TV digital, e sem estipular horário. “Ora, pouquíssimos têm acesso à TV digital no país, muito menos os deficientes visuais”, reclama Markiano. “Também já alegaram problemas técnicos, mas não existe nenhum. Por pressão nossa, das entidades, começaram as consultas públicas, onde a sociedade pode opinar e dar sugestões, e firmamos que deve ser na TV aberta. O que está acontecendo não é democrático, o governo está cedendo ao lobby da Abert”, afirma. Vivo é pioneira Na Inglaterra, nos EUA (o pioneiro na introdução da audiodescrição), no Canadá, em vários países da Europa, o recurso é comum,

afirma Lívia Motta, professora doutora pela PUC de São Paulo da área de Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, que se dedica ao estudo e pesquisa da audiodescrição, ministrando cursos e dando palestras sobre o recurso. “Iniciei meu contato e trabalho com pessoas com deficiência visual em 1999, como professora voluntária de inglês na Laramara – Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual. Em 2005, já pesquisadora sobre o assunto, elaborei um Projeto de Inclusão Cultural para a Vivo, junto com Isabela Abreu, na época presidente do Grupo Terra. O Teatro Vivo passou a ser acessível para as pessoas com deficiência visual. Todas as peças que lá são apresentadas contam com o recurso de audiodescrição em uma apresentação semanal, desde 2007, com a peça O Andaime. É, pois, o primeiro teatro brasileiro e ainda o único que faz uso do recurso regularmente.” Recentemente o Theatro São Pedro, em uma parceria da Vivo com o governo do Estado de São Paulo e Associação Paulista dos Amigos da Arte (Appa), promoveu a apresentação de 3 óperas com audiodescrição: Cavalleria Rusticana, Pagliacci e O Barbeiro de Sevilha. Um sucesso, lotando toda a temporada, e com muita presença de deficientes visuais. Lívia conta que em 2005 começou a formatar cursos de audiodescrição para funcionários da Vivo, que trabalham como audiodescritores voluntários no Teatro Vivo e em


Em fevereiro do ano passado, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em Brasília entrou com uma ação civil pública contestando o adiamento da implantação do recurso pelas emissoras de televisão brasileiras. Segundo Luciana Loureiro Oliveira, procuradora regional dos Direitos do Cidadão e responsável pela ação, o ministério tem agido com descaso e desrespeitados os direitos das pessoas com deficiência. Já em 29 de dezembro de 2008, o Conselho Nacional dos Centros de Vida Independente (CVI-Brasil) e a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down entraram com processo no Supremo Tribunal Federal (STF) cobrando o cumprimento da norma expedida pelo Minicom em 2006. As entidades alegam que o ministério tem agido ilegalmente ao prorrogar o prazo de cumprimento da implantação da audiodescrição, pois o adiamento feriria preceitos constitucionais, como o direito dos cidadãos à informação.

Meio artístico dá uma força Sob o mote “Você sabe o que é a Audiodescrição? Feche os olhos e veja.”, foram gravadas, em 2008, no Teatro Raul Cortez, em São Paulo peças publicitárias da Campanha Nacional pela Audiodescrição. Participaram a atriz Lucélia Santos, o VJ Cazé Peçanha e o audiodescritor idealizador da campanha Rodrigo Campos, da Midiace. Também Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado gravaram depoimentos. A campanha consta de um vídeo explicativo para ser apresentado em encontros e conferencias, e o segundo é dirigido a salas de cinema, televisão e teatro. Por sua vez, a empresa Natura colocou audiodescrição em um anúncio pela TV, acreditando no mercado. Entretanto, para se escutar a audiodescrição do xampu infantill “Natura Naturé”, seria preciso ficar atentos ao exato momento em que o anúncio começava a passar, para se acionar a tecla SAP do controle remoto e poder escutar o único minuto de audiodescrição de toda a TV brasileira. Links www.mc.gov.br www.blogdaaudiodescricao.blogspot.com www.midiace.com.br www.adeva.org.br

Livia Motta

Poucos filmes Segundo Sidney Tobias de Souza, que trabalha na Prodam e também é diretor da Adeva, “há pouquíssimos títulos de filmes com audiodescrição no Brasil, não mais de 20, entre eles Irmãos de Fé, do padre Marcelo, e Ensaio sobre a Cegueira. A entidade recém-promoveu um baile pré-carnavalesco com audiodescrição, sua primeira e bem-sucedida experiência do porte. “A audiodescrição vem dar aos deficientes visuais realmente uma dimensão do que é o visual da peça, do filme, de qualquer evento. O campo é extremamente amplo, veja que as pessoas com deficiência auditiva acompanham filmes com legenda, por exemplo, mas nós não”, ele diz. Markiano conta ter ido várias vezes sozinho assistir a filmes nacionais, mas em cenas mudas não podia saber o que se passava. Perguntava, então, para a pessoa ao lado. ”Na TV, uma vez assisti ao filme Poltergeist, e as cenas finais são todas de efeitos visuais. Fiquei o fim de semana todo sem saber o final, até que na segunda-feira, encontrei um colega no trabalho que me contou.” A audiodescrição exige apenas do espectador um aparelho de TV com tecla SAP (programa secundário de áudio, por onde passa o sinal). Os deficientes visuais falam ao celular e usam computadores com programas especiais. O estoque do celular Nokia E-65 Talks, com leitor de tela que verbaliza todas as funções, foi vendido em um mês nas lojas da Vivo.

Pelos direitos do deficiente visual

Anna Maria Cotrim ( à esqueda) e Jumara Andrade Bienias, alunas do curso de audiodescrição, com Markiano Charan no Carnadeva, com audiodescrição do desfile de fantasias Livia Motta

outros eventos promovidos pela empresa: “Já formei mais de 50 funcionários da Vivo em São Paulo e também em Manaus, onde foi apresentada a primeira ópera com audiodescrição do Brasil: Sansão e Dalila, no Teatro Amazonas, em abril de 2009. Além disso, venho dando cursos de audiodescrição em outros lugares como na Laramara e na Associação de Mulheres da Unimed. Em agosto terá início um curso no formato de pós-graduação lato sensu na USP, preferencialmente para pessoas das áreas de Letras, Comunicações e outros interessados”. Por sua vez, a Abert argumenta não haver no Brasil quantidade suficiente de mãode-obra especializada para fazer a audiodescrição. Segundo o presidente da Associação Mídia Acessível (Midiace), Rodrigo Campos, em um estudo realizado em Brasília, pelo menos 160 audiodescritores são formados por ano em todo o país .

Deficientes visuais no Theatro São Pedro, na apresentação da peça O Barbeiro de Sevilha com audiodescrição, uma parceria da Vivo com o Governo do Estado de São Paulo

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Economia

Oh, dĂ­vida cruel! Acertar os ponteiros do gasto e do consumo ĂŠ a chave para o equilĂ­brio financeiro e a sustentabilidade do planeta Heloisa Moraes


1) Organizar o dinheiro é o básico e o mais importante. Um jeito fácil de controlá-lo é anotando as obrigações mensais. Nisso incluem-se:

• Gastos fixos - condomínio, escola, convênio médico, empregada doméstica, dentre outras contas com o mesmo valor mensal

Arquivo Pessoal

E

ntra ano, sai ano, mudam estilo, carro, perspectivas e projetos – mas as contas nunca falham. Como já dizia a música, dinheiro na mão é vendaval. Mas será que precisa ser assim mesmo? Segundo a consultora de finanças pessoais Elaine Toledo, não. Para ela, a maneira mais simples de identificar e reduzir o consumo esporádico é perguntar-se antes da compra o quanto aquilo é necessário naquele momento. “Esta pergunta trará o lado razão presente para tomar a decisão correta.” Planejar a vida econômico-financeira com cautela se tornou essencial – sobretudo agora, com a previsão de juros maiores em 2010, segundo uma pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). Quem tem filhos ainda vê a lista do material escolar crescer em relação ao ano que se passou. “Anualmente, antes de comprar qualquer material, verifico se há necessidade de adquirir algo novo. Se tenho lápis, canetinhas, borrachas, para que comprar caixas novas?”, conta a assessora de imprensa Claudia Santos, mãe de Gabriel e Laura, de 12 e 7 anos. Para ela, o consumo consciente vem ainda antes da economia que é, claro, sempre bemvinda. “Tento mostrar para as crianças que, se eles têm esses materiais, não há necessidade de se comprar outros simplesmente porque são novos. O apelo comercial dos produtos é grande, mas acho que temos de ter em mente que só devemos consumir o que é preciso e não simplesmente por consumir”. Com a orientação correta, é possível sim cortar gastos desnecessários, se livrar das dívidas e até conseguir separar parte dos rendimentos para aplicação. Confira abaixo as dicas(*) para manter as contas em dia e descubra também formas de economizar nas compras do material para a criançada.

Para Elaine, a pergunta básica a ser respondida no consumo consciente é: o quanto é necessário, naquele momento, o que vou comprar?

• Gastos variáveis - luz, água, celular, transporte etc. Faça uma estimativa da soma dessas contas mensais que podem ter valores diferentes • Gastos arbitrários – cinema, roupas, viagens, restaurantes, entre outras coisas que não são mensais Subtraindo o valor total dos gastos do valor da receita, chega-se ao orçamento doméstico. O ideal desse cálculo é sobrar algum dinheiro – assim é possível poupar e realizar algo a médio/longo prazo. Se o saldo for zero ou negativo, é preciso analisar se o gasto maior que o salário recebido aconteceu devido a necessidade por algum contratempo, doença, ou puro descontrole. Com isso, será possível fazer uma lista de

ações para reduzir o consumo a fim de reverter esta situação. É importante lembrar que uma família ou uma pessoa não pode gastar mais do que ganha – esse é o atalho para contrair dívidas e pagar juros altos. 2) Cuidado com os parcelamentos, que geralmente trazem juros elevados. O pagamento a vista permite a negociação de descontos e ainda beneficia o lojista, que recebe o dinheiro de uma só vez. 3) Faça listas - para o mercado, para o shopping, para a feira. Assim se evita comprar o que não precisa mesmo que esteja em promoção. Aproveitar uma liquidação, só se for de algo que realmente precisa e vê uma oportunidade de pagar menos.

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Economia

4) Evite desperdícios de água e energia elétrica, fale menos ao telefone para reduzir a conta mensal, reduza o pacote da TV a cabo para o que realmente assiste. Afinal, como afirmou o filósofo Sêneca, “o desnecessário é caro mesmo por um tostão”. 5) Poupe quando for comprar algo acima de sua capacidade financeira. Quanto maior a entrada oferecida em um bem, menor é a probabilidade de juros altos. A recompensa futura é sempre motivadora. 6) Planeje de um modo especial o pagamento do IPVA. Se o pagamento acontecer fora do prazo, haverá uma multa de 0,3% por dia de atraso sobre o valor do imposto ou da parcela, quando o pagamento ocorrer até o 30º dia. A partir do 31º dia, o valor da multa é de 20% mais juros calculados de acordo com a taxa Selic.

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7) Controle o uso do cheque especial, que normalmente cobra taxas de 10% ao mês. 8) Troque dívidas mais caras por financiamentos menos pesados. Exemplo: tome um empréstimo consignado com taxa de 3% ao mês (ou menos) para pagar uma dívida que cobrar juros mensais de 10%. 9) Analise a lista de material e veja se todos os itens solicitados devem realmente ser comprados. Na maioria das vezes é possível usar os do ano anterior ou, no caso de livros, conseguir emprestado de uma biblioteca da escola ou cidade. 10) Envolva as crianças no processo da compra. Além de mostrar-lhes os prós e contras de cada opção (como a personalização de materiais simples em vez de comprar estes itens já estampados com personagens de TV, por exemplo),

esta atitude ajuda a construir uma relação positiva com o consumo desde cedo e ensina a avaliar qualidade, valor, necessidade e impacto sobre o planeta. 11) Pesquise preços. Geralmente eles variam muito dependendo da região e podem ser negociados dependendo da quantidade adquirida. Nesse caso, pode-se até mesmo programar uma compra conjunta com outros responsáveis pela compra escolar. 12) Prefira, sempre que possível, materiais sustentáveis. Já é possível encontrar, por exemplo, lápis com o selo FSC, que indica que aquele produto foi feito com madeira de manejo sustentável (tanto de mata nativa como de reflorestamento). Isso demonstra o cumprimento da legislação ambiental e a trabalhista e não contribui com o desmatamento ilegal. * Com informações do Instituto Akatu


Márcio Thamos

Expressões de uma riqueza diversa

A

s expressões regionais usadas em todo o país são um sinal revelador de nossa diversidade cultural. Quando se viaja pelo Brasil, é curioso notar a marcante variação dos falares em cada Estado, e mesmo em cada cidade. Me arriscaria a dizer que a maior riqueza de nossa língua latina e tropical repousa nessa capacidade absoluta de se manter sempre una em meio a todas as variantes locais. A perfeita unidade na diversidade tem seus mistérios... (e, às vezes, prega uns sustos na gente). É, sem dúvida nenhuma, uma coisa admirável. Não chega a ser uma decepção, mas, quando a gente viaja para o Rio Grande do Sul, espera ouvir todo mundo por lá dizendo um “tchê!” bem cantado no final de cada frase. Só que na prática não é bem assim. Em Pelotas, pelo menos, como pude constatar (e tanto quanto posso recordar de memória), ninguém diz “tchê!” – fiquei meio desconsertado com isso. Lá a interjeição mais natural, que todo mundo carrega na ponta da língua, é “bah!”, que dizem ser uma abreviação de “barbaridade!” (se non è vero è bene trovato...). Ouve-se “bah!” em profusão. É “bah!” daqui, “bah!” dali, “bah!” de lá, a toda hora, em qualquer lugar. E a gente até que se acostuma fácil, pois a melodia da fala em toda parte é de uma simpatia cativante aos ouvidos alienígenas habituados ao fraseado árido, um tanto sem ginga, quase antimusical, da gente apressada de São Paulo (sei que estou sendo severo demais com a prosódia paulista, mas registro que isso foi mais ou menos o que pensei enquanto estava por lá, em Pelotas; depois, esse sentimento ríspido contra meu próprio sotaque tinha que passar... graças a Deus!). Mas, voltando ao que eu dizia, claro que é só na cabeça de um paulista ignorante em matéria de regionalismos como eu que a expressão monossilábica mais autêntica do gauchismo tinha que ser sempre “tchê!”. Pois não tem. Muito embora, acredito que se o analista de Bagé, cidade relativamente próxima de Pelotas, fosse perguntado a respeito e se dignasse a dar sua opinião sobre o caso, talvez respondesse, bem ao estilo de sua psicologia orto-

doxa, “radicalmente freudiana”: “Esse negócio de Bach tinha mesmo é que ser frescura de pelotense. Por lá todo mundo se acha erudito, tchê!” (um comentário a tempo: como já disse o próprio Luís Fernando Veríssimo, essas histórias do analista de Bagé são provavelmente apócrifas, e como diria o próprio psicanalista de Bagé, segundo o próprio Veríssimo, história apócrifa é uma mentira bem-educada...). Caminhando pela cidade (aliás, deve-se sempre dizer, a bela cidade de Pelotas!), o frio gostoso que faz em meados de setembro lá na ponta sul do Brasil desperta a vontade de tomar um café e talvez comer um doce (o café, para dizer a verdade, em geral é bem aguado para o gosto de um paulista, mas os doces sempre compensam em muito o aguado do cafezinho). Então, a gente entra numa cafeteria, senta, pede o que deseja e na saída acerta a conta. Ao perguntar “quanto é?”, ouve uma resposta como “dois com setenta”, “dez com quarenta” ou “seis com vinte”. Demora um pouco para se acostumar, mas a gente logo entende que dá na mesma – um “com” pode bem valer um “e” – e paga, sem hesitar, dois e setenta, dez e quarenta ou seis e vinte (usando sempre as mesmas notas e moedas de real). Outra expressão marcante que se ouve pelas ruas de Pelotas (que eu também não sei se é só lá que é usada) é “merece”. A gente... (eu ia dizer “você”, mas falando do Sul fico meio constrangido; por outro lado, não me sinto à vontade para usar o “tu”), a gente para alguém na rua e pede uma informação, agradece e então ouve: “merece”, naquela melodia típica da prosódia gaúcha, cuja chave, se não me falha a percepção musical, é o recurso de elevar bem o tom da sílaba tônica, destacando-a nitidamente das átonas, além de pronunciar a palavra com clareza até o final, tomando um certo cuidado para não engolir a última sílaba e não confundir “e” com “i” nem “l” com “u” (coisa absolutamente impossível para qualquer paulista de nascença). A gente entra num café ou numa loja, é atendido (aliás, diga-se de passagem, muito bem atendido), agradece e então ouve: “merece”. Quer dizer, no começo a gente não

ouve, só supõe que não entendeu direito o “de nada” de praxe após o “obrigado” ordinário com que está acostumado. Mas daí a gente começa a ficar meio esperto, redobra a atenção e afia os ouvidos antes de agradecer qualquer coisa. É bem verdade que então, às vezes, a gente tem a expectativa frustrada e também ouve um simples e corriqueiro “de nada”. Mas dá para notar que a expressão tradicional da terra mesmo é o “merece”, que sem dúvida nenhuma soa muito espontânea. Desconfio que quando o cidadão pelotense responde “de nada”, é por pura demonstração de tolerância e boa vontade para com o turista nacional pouco versado em regionalismos. Seja como for, “merece” me pareceu uma expressão de cunho muito mais delicado e afetivo do que o – de agora em diante para mim – meio frio e pragmático demais “de nada” do resto do país. Responder “de nada”, se a gente para e pensa um pouco, nem é lá tão educado, porque, afinal, pode querer dizer que a pessoa só fez o que fez por nós porque, de todo modo, não lhe custava nada mesmo. Agora, responder “merece” já livra a expressão de qualquer ambiguidade potencial de desprezo ou pouco-caso. Se, ao que a gente agradece, a pessoa diz “merece” (e entenda-se que o sujeito do verbo aí é aquele que acaba de dizer “obrigado”), ela afirma com isso sua confiança a priori no caráter do seu interlocutor. É no mínimo simpático, pois eleva, a título de pura regra de civilidade, a autoestima do próximo (ainda que este tenha um sotaque meio estranho), o qual (o próximo, não o sotaque), nunca se sabe, pode estar precisando... Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr, credenciado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da mesma instituição. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica. E-mail: marciothamos@uol.com.br Neo Mondo - Fevereiro 2010

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Os saberes tradicionais dos povos autóctones

e o meio ambiente

C

ulturas milenares, como as das populações autóctones das Américas, nos legaram saberes, acumulados através da observação atenta de seus entornos e de uma convivência harmoniosa com o mesmo. As civilizações pré-colombianas, astecas, maias, incas, por exemplo, tinham conhecimento acurado sobre o manejo das

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águas; ficaram mesmo conhecidas como “sociedades hidráulicas”. Os maias possuíam habilidade hidráulica, como observamos nas ruínas de canais e viadutos, e na construção de cisternas para captação de água da chuva que datam do período compreendido entre o século 1000 a.C. e o ano 300 d.C. Nas regiões onde viveram existem ain-

da os cenotes, grandes reservatórios de água, na entrada de cavernas, onde se faziam rituais propiciatórios. Os primeiros habitantes do atual México D.C., os Mexicas, fundaram, em 300 a.C., a cidade de Tenochtitlán sobre uma pequena ilha situada na parte oeste do lago Texcoco, erguendo vários diques que lhes permitiram controlar o nível das águas


Dilma de Melo Silva

Machu-Pichu, no Peru: o local é, provavelmente, o símbolo mais típico do Império Inca

do lago evitando inundações e, também, obter água para consumo. Criaram ainda um sistema de ilhas e canais artificiais em redor da ilha central, as chamadas chinampas que lhes permitiam fazer cultivos e auxiliar no controle das enchentes. Na região de Xochimilco ainda existem canais facilitando o transporte de verduras, legumes, frutas para o centro comercial.

No Peru, os incas construíram Machu-Pichu, que surpreende os visitantes com o sistema de distribuição de água em todos os ambientes onde existiam as moradias dos membros da Corte Incaica, bem como pela agricultura irrigada utilizando curvas de nível para o plantio nas montanhas. Em nosso país, o estudo de nossos povos autóctones aponta para a enorme riqueza de conhecimento relativo ao seu ambiente, acumulado durante séculos. Para essas sociedades tradicionais o ser humano e a natureza vivem em reciprocidade, num sistema extremamente delicado de equilíbrio entre os humanos e os demais habitantes do cosmos. Atualmente, são cerca de 220 etnias, falando 170 línguas, sendo um precioso patrimônio material e imaterial de nosso país; deveríamos ter um contato maior com suas sabedorias e formas de manejo de seu meio ecossistêmico, suas formas de lidar com seus biomas (floresta amazônica, cerrado, mata atlântica...) e de sua sustentabilidade para conseguirem a sobrevivência. Contudo, em nosso país, em especial no Estado de São Paulo, a ação de políticas públicas em terras indígenas tem sido motivo de críticas pela forma pela qual têm sido conduzidas, pois não respeitam os valores indígenas. A antropóloga Marília Godoy escreve sobre a inserção dos Guarani Mbya na APA Capivari – Monos e afirma: definese uma visão dominada pelas relações de troca regidas pela razão do lucro e pelo individualismo que se opõem à visão de troca nas sociedades indígenas; para tais comunidades, esclarece a autora: sustentar-se significa manter equilíbrio das trocas com o mundo natural (e sobrenatural) visando a segurança dos parentes

mais próximos e repondo, no processo, os estoques de seres humanos, das almas e dos seres e recursos “naturais”. (1) Analisando as narrativas míticas guaranis encontramos as formulações que mantêm a dinâmica grupal, e explicam a vida, cuja origem é divina e envolve todos os seres vivos animais e vegetais; a natureza é sacralizada pois há uma simbiose entre plantas, água, terra, animais, seres humanos. Estamos diante de uma consciência mítica que surge de uma visão do homem integrado na natureza. A valorização desses saberes deveria constituir o ponto de partida para a formulação de políticas públicas ambientais, se realmente, aceitamos a diversidade cultura existente no Brasil.

Nota bibliográfica GODOY,M.G.G. A concepção da natureza entre os Guarani Mbya e sua inserção na área de proteção ambiental(APA) Capivari-Monos in Revista Arte e Cultura da América Latina,São Paulo,vol.XX, 2/2008, ISSN 0103-8508 (1)

Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia, e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na  Universidade de Estudos Estrangeiros.

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Cultura & Lazer

É eco e não é chato

Filmes como Avatar provam que é possível refletir sobre os problemas socioambientais sem cair no bocejo Por Heloisa Moraes

O

que acontece quando se mistura romance, ficção, mensagens ecológicas e cenários de tirar o fôlego? A resposta todo mundo sabe. Avatar, que segue na liderança das indicações de melhor filme para o Oscar 2010, mexeu com os alicerces do mundo inteiro por uma série de motivos. Alguns alegam que o enredo é ingênuo, previsível e infantil e conta principalmente com a grande ajuda de uma propaganda benfeita. Outros defendem a genial criação de mundo, raça e cultura completamente nova, além do apelo sustentável e da mensagem socialmente correta que parecem reforçar o lembrete de uma realidade na qual nós, humanos, andamos meio desesperados em busca de uma solução planetária. Apesar da divergência de opiniões, todos admitem a beleza surreal proporcionada pela tecnologia de ponta, desenvolvida especialmente para o filme, e os assustadores US$ 2 bilhões de bilheteria mundial, alcançados apenas 46 dias após a estreia (18 de dezembro de 2009). A cifra, que corresponderia à maior bilheteria da história se não fossem considerados os reajustes inflacionários, é uma resposta do argumento consistente em que a fórmula “algo valioso + líder ganancioso + civilização invasora = guerra”, bem conhecida no mundo inteiro, apenas muda de lugar. A iminente e necessária harmonia 56

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com o meio ambiente, pregada por povos indígenas desde o início dos tempos, é a versão nova de uma velha história que todo mundo já conhece. Em Avatar não é diferente. Quando humanos descobrem a existência de um minério valiosíssimo em Pandora, uma das luas de um gigante gasoso fictício que orbita Alpha Centauri, a terceira estrela mais brilhante do céu vista a olho nu, cientistas, pesquisadores, mercenários e robôs se dirigem ao planeta para começar a exploração que possibilitará a sobrevivência da Terra, cujos recursos naturais foram esgotados em 2154, ano em que a ação dramática é ambientada. No entanto, o povo nativo Na’vi não pretende sair do local de onde vive, que considera sagrado, para deixá-lo à mercê da destruição humana. Para tanto, corpos geneticamente modificados de humanos e Na’vis, conhecidos como avatares, são remotamente controlados para facilitar a interação com o meio ambiente (constituído de diferentes espécies animais e vegetais, além de gases tóxicos aos humanos) e a infiltração na tribo nativa, que revelará detalhes importantes para aqueles interessados apenas na exploração dos recursos locais. O diretor James Cameron afirmou ao jornal Telegraph que Avatar se trata de “uma ampla metáfora, nem tanto sobre política, como muitos poderiam supor, mas sobre como tratamos a natureza”.

De fato, a mensagem pacifista-ecológica ecoa o mito do bom selvagem de Rousseau, que afirmava que os problemas do homem decorriam dos males que a sociedade havia criado e que não existiam no estado selvagem. O enredo, que reúne o romance conquistador de Titanic (1997), o choque de civilizações de Aliens: O Resgate (1986) e as máquinas ciborgues de Terminator (1984), todos filmes dirigidos por Cameron, tem tudo para ficar ainda mais complexo e profundo em futuras sequências. “Faz sentido pensar o filme como o potencial início de uma saga, com outros filmes mostrando episódios desta grande história”, declarou ao site Collider. Avatar nos mostra uma realidade que só na ficção poderia existir. Será verdade? Levando em conta a premissa de que o ser humano é a espécie que se adapta com mais facilidade, é curioso e um tanto contraditório perceber o desinteresse de mudar velhos hábitos. A necessidade do trabalho de formiga no qual cada um faz a sua parte existe, mas mais que isso, é preciso refletir e aplicar conhecimentos e ideias que possam, de fato, fazer a diferença – e não guardá-las debaixo da cama. Para isso, inspiração não falta. Acompanhe abaixo uma seleção de filmes e documentários que despertam uma consciência mais socialmente justa e ecologicamente correta.


Divulgação

Enredo ingênuo, previsível e infantil de Avatar é compensado pelo apelo sustentável e mensagem socialmente correta

2012

Wall-e

Geólogos, pesquisadores e especialistas descobrem que a atividade incomum de erupções solares começa a esquentar rapidamente o núcleo da Terra, como um verdadeiro micro-ondas gigante. Uma série de desastres naturais é desencadeada e coincide com referências à cultura Maia e à data final do Calendário de Contagem Longa Mesoamericano, que possui ciclos de 5.125 anos e encerra-se no dia 21 ou 23 de dezembro de 2012. O mais desesperador, no entanto, é a constatação de que os governos do planeta não estão preparados para isso. Políticos importantes passam a comprar entradas de US$ 1 bilhão para as arcas construídas, destinadas a salvar uma parte da população de terremotos, megatsunamis e vulcões ativos, que provocam o deslocamento da crosta terrestre e a inversão dos polos magnéticos. A destruição da civilização humana é assustadora e se resume na frase proferida pelo presidente dos Estados Unidos no início do filme: “O mundo como conhecemos está para mudar dramaticamente em breve”. Os efeitos especiais que aumentam as proporções catastróficas chocam, mas o filmecatástrofe se mantém otimista até o final.

O ganhador do Oscar 2009 de melhor animação conta a história de um robô processador de lixo deixado para trás pela humanidade, que viaja por tempo indeterminado no espaço. Durante 700 anos, Wall-e (acrônimo para “Waste Allocation Load Lifters - Earth-Class”, em português, “Levantadores de Carga para Alocação de Lixo - Classe Terra”) foi o único responsável pela limpeza de um mundo soterrado pelo lixo – já que todos os outros robôs não resistiram às condições inóspitas e acabaram deixando de funcionar. A graça fica por conta da consciência e da personalidade que Wall-e adquire nesse período, o que o faz colecionar objetos, fazer amizade com uma barata e até se apaixonar pela robô EVA (Examinadora de Vegetação Alienígena), que passa pela Terra à procura de exemplares vegetais vivos. Isso significaria que a vida no planeta é novamente possível e os humanos já podem voltar. A história de amor e os diálogos escassos cativam quem assiste e relembra a necessidade de enfrentar o problema, e não acumulá-lo em pilhas de lixo.

EUA, 2009 / 158 min

EUA, 2008 / 98 min

Divulgação

2012: filme catrástrofe se mantém otimista até o final Divulgação

Para Wall-e, robô de personalidade, nova vida na Terra é possível

Neo Mondo - Fevereiro 2010

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Cultura & Lazer

O dia em que a terra parou

Uma verdade inconveniente

A readaptação do filme de 1951, dirigido por Robert Wise, foi causa e consequência da mudança do cerne da história: o que ameaça o planeta, agora, não é mais a corrida armamentista, e sim os danos que a humanidade causou no meio ambiente. Em meio ao caos provocado pela chegada de esferas alienígenas, uma cientista tenta se aproximar de Klaatu, o alien em forma de homem, para entender o motivo de estarem aqui. A ideia de que o planeta Terra não é nosso e que uma civilização evolui apenas quando está próxima da destruição são os pontos principais do filme, que se mantém otimista e crente à capacidade humana de mudar.

O documentário produzido e narrado pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore é essencialmente uma versão em película da apresentação de slides que vem exibindo desde 1978 sobre a sistemática destruição do meio ambiente por conta do aquecimento global. O filme não tem intenção de tornar os fatos mais confortáveis, mas justamente o de conscientizar de que nossas ações podem sim acabar com o planeta em pouco tempo e de alertar sobre comportamentos. Seu conteúdo desperta o senso de urgência de que governos, empresas e pessoas precisam mudar hábitos e padrões para que a Terra seja poupada. E nós também.

EUA, 2008 / 103 min

EUA, 2006 / 100 min

A Última Hora (The 11th Hour)

Entre cenários apocalípticos e pósapocalípticos, Roland Emmerich nos dá um show de efeitos especiais e cenários cataclísmicos - consequências claras do efeito estufa e do derretimento das calotas polares. Apesar da previsão de que isso se refletiria no mundo séculos mais tarde, a corrente marítima Norte-Atlântica se altera e começa a resfriar drasticamente países do hemisfério norte. Com a aproximação de uma era glacial, milhões de sobreviventes começam a rumar para o sul. Nesse meio tempo, um pai atravessa o país para buscar o filho, preso em uma Nova York já congelada. O enredo, embora pareça girar especialmente em torno da catástrofe e do ufanismo americano, choca pela destruição e principalmente pela grande probabilidade de ser um processo que já está acontecendo, uma verdadeira bombarelógio climática.

EUA, 2007 / 95 min

EUA, 2004 / 124 min

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Avatar, ambientado em 2154, ‘é uma ampla metáfora sobre como tratamos a natureza’; diretor Cameron acena com sequências Neo Mondo - Fevereiro 2010

O dia em que a terra parou: otimista, apesar de tudo Divulgação

O dia depois de amanhã

Narrado e produzido por Leonardo DiCaprio, o documentário contou com a colaboração de mais de 50 políticos, cientistas e líderes mundiais, dentre eles o físico Stephen Hawking, o líder soviético Mikhail Gorbatchev e a ativista Wangari Maathai para discutir sobre aquecimento global, desmatamento, entre outros temas que preocupam o mundo inteiro. Além de propor soluções para estes problemas por meio da tecnologia, responsabilidade social e conservação, o filme também defende que o aquecimento global, uma das questões mais importantes de toda a humanidade, deve conscientizar e mobilizar as pessoas para lutar por um futuro sustentável. Através de um belo mosaico de imagens, gráficos e trilha sonora, o filme foca na importância do último momento, no qual acontece a mudança, e torna impossível deixar a sala de cinema ou de casa impassível perante o destino do planeta.

Divulgação

Uma verdade inconveniente: a sistemática destruição do meio ambiente Divulgação

O dia depois de amanhã: bomba-relógio climática Divulgação

Não há como ficar impassível depois de assistir ao A Última Hora


Neo Mondo - Setembro 2008

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Neo Mondo - Outubro 2008

Neomondo31  
Neomondo31  
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