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Edição Especial

NeoMondo

www.neomondo.org.br

um olhar consciente

Ano 2 - Nº 19 - Fevereiro 2009 - Distribuição Gratuita

Construções

Sustentáveis Telhados verdes

Certificações Nova Cultura

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Alternativa

Habitante sustentável 32

Consciencia


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Neo Mondo - Julho 2008


Seções

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Perfil 05 A Voz da Natureza pela Geologia O geólogo é um intérprete das informações da Natureza.

Especial - Construções sustentáveis 10 No Prumo da Construção Sustentável As construções sustentáveis representam um novo paradigma para o futuro.

14 Certificadoras defendem nova cultura É possível vencer desafios, como falta de conhecimento e mudança de paradigmas.

17 Artigo: Comunidades de BemEstar e Prevenção de Acidentes O exemplo de Kobe no Japão.

18 Produtos do Bem Não faltam materiais de construção ecologicamente corretos.

21 Artigo: À Mercê do Marketing O aspecto social deve estar vinculado na concepção da sustentabilidade do setor.

22 Papel de Plástico Reciclado Material alternativo e ecológico está prestes a ser comercializado.

24 Telhados Verdes Utilizando a natureza a nosso favor.

27 Artigo: Ampliação Industrial e Sustentabilidade sem demagogia Analisar um empreendimento exige uma visão holística de todo o processo construtivo.

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32 Habitante consciente em construções convencionais É possível adotar uma postura ambientalmente correta sem ter que reconstruir a casa.

Ações pela sustentabilidade Exemplos não faltam na iniciativa privada ou pública.

35 Artigo: Construções Sustentáveis: O Green Building no Brasil O compromisso ambiental validando a construção sustentável. Artigo: Técnicas e Padrões de Construções Sustentáveis O padrão verde atinge o segmento da construção.

40 Hotelaria Sustentável Mais do que um produto, um conceito de negócio e de vida.

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39 fISCAL DA fLORESTA Um Olhar consciente da Amazônia.

43 Artigo: A moderna Construção Sustentável. A moradia como um ecossistema particular. 46 Dicas de Livros e glossário.

Expediente Diretor Executivo: Oscar Lopes Luiz Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Takashi Yamauchi, Liane Uechi, Eduardo Sanches, Marcio Thamos, Terence Trennepohl, João Carlos Mucciacito, Dilma de Melo Silva, Artaet Martins e Natascha Trennepohl Redação: Liane Uechi (MTB 18.190), Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586) e Rosane Araújo (MTB 38.300) Estagiário: Caio César de Miranda Martins Revisão: Professor Antonio Colavite Filho Diretora de Redação: Liane Uechi (MTB 18.190) Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo

36 Sustentabilidade se aprende e se faz na escola Educação é matéria-prima de mudanças, em que a pesquisa faz a sua parte.

Publicação Correspondência: Instituto Neo Mondo Rua Caminho do Pilar, 1012 - sl. 22 Santo André – SP Cep: 09190-000 Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br redacao@neomondo.org.br trabalheconosco@neomondo.org.br Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Tel. (11) 4994-1690 Presidente do Instituto Neo Mondo: oscar@neomondo.org.br

A Revista Neo Mondo é uma publicação do Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/0001-00, reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº 08071.018087/2007-24. Tiragem mensal de 30 mil exemplares com distribuição nacional gratuita e assinaturas. Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição da revista e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo desta revista sem prévia autorização.

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Editorial

Construções Sustentáveis

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esde 1987, após a divulgação do relatório “Nosso futuro comum”, encomendado pela Assembleia das Nações Unidas à Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a palavra sustentabilidade passou a ser entoada quase como um mantra nos diálogos internacionais. O conceito de desenvolvimento sustentável, que prevê crescimento econômico, equidade social e equilíbrio ecológico passou a ser inserido nas pautas de discussões dos diversos segmentos da economia mundial. No Brasil, a discussão não é tão antiga, mas já está presente nos principais setores e o que é melhor, trazendo benefícios, melhorias e gerando mudanças de comportamento sobre como habitar o planeta sem destrui-lo. A construção sustentável é o tema desta nossa edição, que traz informações sobre os principais mecanismos adotados pelo setor, que é apontado como um dos que mais impactam no meio ambiente. Afinal, as edificações fazem parte do estilo de vida humano. Passamos a maior parte de nossa vida dentro de alguma construção, seja trabalhando, dormindo, estudando ou em atividades de lazer e convívio social. Tanto a construção quanto a operação 4

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desses edifícios consomem grande parte dos recursos naturais, considerando-se todas as etapas dessa longa cadeia, desde a exploração da matéria-prima até a manutenção diária do imóvel, o que coloca a todos nós como agentes indissociáveis dessa necessária transformação. Os leitores poderão entender esse novo conceito que chega ao mercado imobiliário, conhecer modelos e vantagens de algumas construções sustentáveis, redescobrir técnicas do paisagismo que melhoram a eficiência e conforto dos imóveis, entender a importância da normatização e certificação, assim como o papel dos centros de pesquisas e universidades no desenvolvimento de tecnologias que preservem nossos recursos não renováveis. No perfil deste mês conversamos com o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, um intérprete das informações do planeta, que reclama cuidados e uma nova postura de cada um de seus habitantes.

Instituto

Boa leitura!

Liane Uechi Diretora e Redação liane@neomondo.org.br

Neo Mondo Um olhar consciente


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Perfil

A Voz da Natureza pela

GEOLO

O geólogo é um intérprete das informações da Natureza. Liane Uechi

Professor e Geólogo Alvaro Rodrigues dos Santos

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professor e geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, pesquisador senior V do IPT (Instituto de Pesquisa Tecnológica, da USP) e um dos maiores especialistas brasileiros em Geologia de Engenharia e Geotecnia aplicadas a obras e ao uso e ocupação do solo, analisa, em entrevista à Revista Neo Mondo, os caminhos utilizados pelo homem na ocupação

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do planeta. Santos, que já ocupou cargos como diretor de Planejamento e Gestão do IPT, bem como da Divisão de Geologia e de diretor geral do DCET - Departamento de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, acaba de lançar seu último livro “Diálogos Geológicos”, no qual traduz as mensagens da Natureza ao homem e alerta: “é preciso conversar mais com a Terra”.

Neo Mondo: Qual a relação entre a geologia e o cotidiano do homem? Santos: Para o atendimento de suas necessidades, como energia, transporte, alimentação, moradia, segurança física, saúde, comunicação, o Homem é inexoravelmente levado a ocupar e modificar espaços naturais das mais diversas formas (com cidades, indústrias, usinas elétricas, estradas, portos, canais, agropecuária, extração de minérios e madeira, disposição de rejeitos ou resíduos industriais e urbanos), fato que já o transformou no mais poderoso agente geológico hoje atuante na superfície do planeta. Caso essas ocupações e esses empreendimentos não levem em conta, desde seu projeto até sua implantação e operação, as características dos materiais e dos processos geológicos naturais com que vão interferir e interagir, é quase certo que a Natureza responda através de acidentes locais (o rompimento de uma barragem, o colapso de uma ponte, a ruptura de um talude, por exemplo), ou problemas regionais (o assoreamento de um rio, de um reservatório, de um porto, enchentes, ou a contaminação de solos e de águas subterrâneas, por exemplo), consequências extremamente onerosas social e financeiramente, e muitas vezes trágicas no que diz respeito à perda de vidas humanas. Residem aí, portanto, as relações essenciais entre a Geologia e o cotidiano do homem.


OLOGIA Neo Mondo: Como tem sido historicamente a ocupação do solo pelo homem e em que ponto ele deixou de ter um relacionamento saudável com o Planeta? Santos: O homem paleolítico abastecia-se basicamente da caça e da coleta de alimentos vegetais e não modificava deliberadamente a Natureza. Se seu ambiente natural já não mais o atendia, procurava um novo ambiente por simples migração. No período Neolítico, que se estende de 10 mil a 5 mil anos a.C., o Homem muda drasticamente suas relações com a Natureza. Com o aumento dos indivíduos em cada grupo e o aumento de grupos disputando os mesmos espaços de abundância em caça e coleta, as migrações foram se tornando extremamente trabalhosas e problemáticas e o pressionaram ao sedentarismo e à superação dos limites ecológicos de seu hábitat, por meio da agricultura e da atividade pastoril. Essa é a essência revolucionária da Revolução Neolítica: o Homem passa a garantir as condições de seu desenvolvimento e multiplicação não mais pela migração, mas pela alteração orientada de seu hábitat. Neo Mondo: Desde então, quais as principais ações atuais que comprometeram o equilíbrio e a sustentabilidade do planeta?

Santos: As principais formas de intervenção direta do Homem na natureza geológica, por força e demanda de seu desenvolvimento tecnológico, social e cultural, são a agricultura/pecuária (por meio do desmatamento, do revolvimento de solos, das operações de drenagem e irrigação), a exploração de florestas naturais (para fins construtivos e energéticos), a mineração (mediante à exploração de insumos minerais para a construção e para a produção de metais utilitários), a urbanização (por meio da construção e expansão de cidades e de todos os equipamentos decorrentes da necessidade de abastecimento de água, energia, alimentos e esgotamento sanitário) e a produção de energia (com as sucessivas formas de aproveitamento das fontes energéticas naturais). Há formas de interferências indiretas do Homem na Natureza, mas não menos graves, como o efeito estufa/ aquecimento global, a poluição de águas superficiais e subterrâneas, etc. Neo Mondo: Quais os principais desafios que a sociedade moderna terá para reverter esse quadro de desequilíbrio? Santos: O Homem é colocado hoje, pela primeira vez em sua trajetória, face a face com a patente finitude de muitos desses recursos e espaços, como também com dimensões inesperadas,

e gravíssimas, de desarmonizações ambientais provocadas pela diversidade, intensidade e persistência de ações sobre o meio natural. Essa percepção da limitação física de espaços e recursos naturais encontra a Humanidade ainda perigosamente despreparada espiritual e culturalmente para a reação tecnológica e comportamental necessária a uma eficaz reversão dos processos de desequilíbrio ambiental. Nações em disputa, estruturas de poder e interesses econômicos fortíssimos em jogo, dissensões políticas, sociais, ideológicas e religiosas em alto nível de acirramento, disseminação comercial de uma cultura consumista compulsiva associada à pregação insistente de comportamentos de exacerbado individualismo, têm impedido, na prática, a tomada de decisões coletivas globais, decisões que necessitariam ser entendidas e assumidas como decisões da Humanidade, decisões da espécie humana. É de se perguntar se a Humanidade conseguirá resolver essas questões todas a tempo de salvar seu único hábitat de danos irreversíveis. Neo Mondo: Como a geologia pode auxiliar na análise, conscientização e construção de uma nova visão e mentalidade do uso que fazemos do Planeta? Santos: A Natureza, por suas formas de relevo, sua dinâmica de superfície e sua história geológica, dá informações

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Perfil

O Homem é colocado hoje, pela primeira vez em sua trajetória, face a face com a patente finitude de muitos recursos e espaços naturais

bém o direito das gerações futuras ao pleno gozo de suas vidas.

claras sobre suas características, seus comportamentos e suas vulnerabilidades frente a uma possível intervenção humana. A “leitura” dessas informações que nos são passadas pela Natureza e sua “tradução” para as ações humanas de engenharia, uso e ocupação do solo é uma ação interdisciplinar, mas, sem dúvida, cabe ao geólogo a grande responsabilidade profissional pelo bom cumprimento dessa tarefa. Ainda que sempre haverá o que aperfeiçoar nessa ação técnica, eu diria que os geólogos e outros profissionais que trabalham nessa área têm cumprido bem seu papel de produzir levantamentos e orientações técnicas de boa qualidade. O problema não está aí. Está na incrível má vontade, descompromisso e, em muitos casos, na irresponsabilidade com que administradores públicos e privados lidam com essas questões. Todos sempre apostando que em suas gestões não irá acontecer nenhum desastre ou tragédia e que, se acontecer, será, como sempre, fácil e cômodo “culpar a Natureza”.

relevos topograficamente mais acidentados e, portanto, mais instáveis geotecnicamente. O enfrentamento técnico do problema deveria ocorrer com uma componente preventiva, especialmente no âmbito de uma eficiente gestão do uso do solo sob a ótica geológica e uma componente corretiva, no âmbito de programas de consolidação geotécnica (incluindo a indispensável remoção de edificações instaladas em áreas de alto risco com a realocação das famílias envolvidas em áreas geologicamente adequadas). Sob o aspecto social envolvido no problema, são justamente as áreas caracterizadas por fatores de periculosidade e insalubridade (especialmente encostas íngremes e fundos de vale) que acabam oferecendo-se à população mais pobre como solução habitacional orçamentariamente compatível com seus parcos recursos. Essa deformação sóciourbana somente será superada com a implementação de corajosos programas habitacionais, especialmente voltados à população de menor renda.

Neo Mondo: Como encontrar o equilíbrio entre as demandas das grandes populações (habitação, por exemplo) e a exploração dos recursos naturais e, ainda, garantir a qualidade de vida? Santos: Com a convergência de ações de cunho social, cultural e tecnológico, que devem ser tradutoras de uma decisão política maior. Na questão habitacional e suas relações com as áreas de risco, por exemplo, se levarmos em conta o ponto de vista estritamente técnico, verificaremos que não há uma questão sequer envolvida no problema que já não tenha sido estudada e perfeitamente equacionada, com suas soluções resolvidas e disponibilizadas pela Geologia e pela Engenharia Geotécnica brasileiras. Essas expansões urbanas tendem, em muitas regiões brasileiras, a progressivamente, atingir

Neo Mondo: Qual o papel da tecnologia nas soluções para equacionar e permitir um uso consciente e racional nos processos produtivos e no dia-adia dos habitantes? Santos: Ao lado das mudanças sociais e comportamentais necessárias a transitar de um modelo vivencial altamente consumista e individualista (fonte das mais graves ameaças ambientais) para um modelo assentado em valores mais espiritualizados e humanistas, portanto ambientalmente harmônicos, é indispensável intensificar a busca e a produção de conhecimentos científicos e tecnológicos que tornem possível a compatibilização entre o desenvolvimento econômico socialmente necessário e a decisão de conservar o ambiente e respeitar tam-

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Neo Mondo: Estamos conseguindo avançar nesse sentido? Santos: Os reais avanços que vêm sendo registrados nesses últimos anos sugerem uma atitude otimista diante dos problemas colocados. Exemplo emblemático desse esforço foi a substituição do gás CFC – clorofluorcarbono, antes largamente utilizado em equipamentos de refrigeração, produção de espumas flexíveis e recipientes tipo spray, por gases inofensivos à Camada de Ozônio, como a mistura propano/ butano e o gás R-134. Na mesma perspectiva, vários centros de pesquisa dedicam-se à viabilização de produção limpa de energia através da Fusão Atômica, de aperfeiçoamentos que permitam o uso amplo de motores tipo Célula Combustível. O Brasil, com o Álcool Combustível e, agora, com o Biodiesel, deu um exemplo formidável na produção de combustíveis ambientalmente menos agressivos. Progridem animadoramente os aperfeiçoamentos voltados a conseguir melhores rendimentos nos sistemas eólicos e solares de produção de energia. No campo da Engenharia Civil brasileira, fato alvissareiro e marcante foi a construção da pista descendente da Rodovia dos Imigrantes, na transposição da Serra do Mar no Estado de São Paulo. O avançado entendimento do comportamento geológico-geotécnico das instáveis encostas da serra proporcionou e sugeriu uma concepção de projeto, fundamentada no uso intensivo de túneis e viadutos, e um plano construtivo cuja máxima preocupação foi reduzir ao mínimo possível as interferências nessas encostas. O resultado foi uma obra inteiramente harmonizada com o meio geológico e ambiental que a envolve. Um exemplo que se pode considerar clássico de um empreendimento sintonizado com os preceitos do Desenvolvimento Sustentável, provando que essa sintonia, além de desejável, é inteiramente possível se apoiada em um criativo esforço de inovação tecnológica.


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Especial - Construções Sustentáveis

No prumo da

CONSTRUÇÃO

As construções sustentáveis representam um novo paradigma para o futuro. Liane Uechi

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s construções fazem parte do estilo de vida humano. Dentro delas, o homem passa a maior parte de sua existência. No entanto, elas são responsáveis por grande impacto ambiental seja pela inerente ocupação do solo, assim como pelas etapas de sua cadeia de produção e operação, incluindose a extração de matérias-primas, o consumo de energia e a geração de resíduos. Estudos apontam que o segmento consome de 50% a 75% dos recursos ambientais do planeta, 50% de energia, 12% de água, gera cerca de 60% dos resíduos produzidos e 35% das emissões de carbono. Sua 10

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relevância atinge também o aspecto social, sendo o maior gerador de empregos diretos e indiretos no país, muito embora grande parcela dos operários do setor situe-se na linha da pobreza. As discussões e constatações da necessidade de novas práticas que permitam a sobrevivência do planeta têm atingido indistintamente todos os setores da economia mundial e é claro também alcançou o setor da construção civil, que busca através de novas e antigas técnicas alternativas de práticas mais sustentáveis. A definição de especialistas para o termo “construção sustentável” vai muito

além da utilização de materiais ecologicamente corretos. “Trata-se de um conceito amplo que inclui os aspectos ambientais, econômicos, sociais e culturais. Ela deve ser uma construção ambientalmente correta, economicamente viável, socialmente justa e culturalmente adequada e aceita” - conceituou a arquiteta Silvia Manfredi, diretora-geral da Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica - ANAB-Brasil. Para atender esses critérios, o setor deveria adotar de início, de forma sistemática, cuidados que incluem a análise do impacto local do empreendimento, trabalho de conscientização junto aos funcionários e usuários, redução da informalidade do segmento, agregado à melhoria de vida dos operários, preocupação com o desenvolvimento da comunidade local, assim como atuar dentro do marco legal (impostos, licenças e alvarás). A obra em si deveria privilegiar a substituição de recursos naturais não renováveis


SUSTENTÁVEL por materiais de baixo impacto ambiental e de menor energia embutida, gestão e tratamento dos resíduos, não utilização de materiais poluentes, utilização de madeiras provenientes de manejo sustentável e certificadas, e eficiência na utilização dos materiais. A arquiteta acredita que vinculado a esses rigorosos critérios estaria o benefício econômico, na redução do custo operacional e de manutenção, assim como a acessibilidade à população. O engenheiro Roberto de Souza, Presidente do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), e do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, entende que as práticas sustentáveis também englobam programas de investimento social privado, voluntariado, educação e cultura, gestão participativa, inclusão digital, alfabetização de adultos, capacitação e desenvolvimento, combate à corrupção, combate à discriminação e ao trabalho infantil e outras ações de responsabilidade social empresarial.

Para o presidente da CBCS, a construção sustentável começa na fase de projeto, identificando as necessidades dos clientes, as condições climáticas, os materiais locais, as potencialidades e as tecnologias sustentáveis passíveis de serem desenvolvidas e implantadas. O Ritmo Brasileiro Manfredi explicou que as mudanças no Brasil ainda são lentas se comparadas aos países da comunidade européia. “Nos países mais desenvolvidos já existem edifícios “zero carbon”, ou seja, que produzem a própria energia, e a sobra da demanda é devolvida à concessionária local e o edifício ainda recebe por isso! Ao invés de pagar uma conta de energia, ele vende a energia!! Também já não se comercializam imóveis na comunidade européia, atualmente, sem se apresentar um atestado de eficiência energética Neo Mondo - Fevereiro 2009

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Especial - Construções Sustentáveis

Não basta investir em produtos sustentáveis, é preciso ser sustentável

do edifício” – exemplificou ela, que disse ainda que, no Brasil, as principais tecnologias adotadas são: aproveitamento de água de chuva, reuso de água, sistemas e equipamentos de conservação de água, equipamentos e produtos com maior eficiência energética, painéis de aquecimento solar, utilização de madeiras certificadas, utilização de tinta e colas com solventes à base de água ou naturais, dentre outros, além de gestão de resíduos em canteiro de obras e a responsabilidade social em empreendimentos imobiliários Para Souza, no entanto, o processo é irreversível. “A visão do CTE, que está envolvido em mais de 60 projetos sustentáveis, é que, paulatinamente, estamos construindo uma cultura de sustentabilidade no setor da construção” – afirmou. Para ele, há um enorme potencial para incluir as práticas socioambientais em sua gestão e operação, agregando valores como a ética, a transparência, a comunicação e as boas práticas de governança corporativa. O engenheiro cita ainda a ecoeficiência como uma das práticas relevantes, por meio da qual as incorporadoras e construtoras optam por produzir mais com menor utilização de energia, água e materiais, seja graças à melhoria de eficiência nos processos existentes, seja por abordagens inovadoras em projeto, materiais, equipamentos e construção. “Podem-se destacar

Arquiteta Silvia Manfredi: “mudanças ainda são lentas”

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a inovação dos projetos de edificações visando à redução do consumo de energia, o reuso e a economia de água, a gestão de resíduos de obra, a coleta seletiva e a reciclagem do lixo. Trata-se de uma questão de visão estratégica e decisão empresarial que resultará em ganhos tanto para a companhia quanto para os clientes, a comunidade, a sociedade e as gerações futuras”. – defendeu. Um novo perfil profissional O tema tem exigido dos profissionais que atuam na construção civil uma nova postura e atuação. Tanto Souza quanto Manfredi acreditam que algumas competências precisarão ser desenvolvidas como a visão sistêmica de todo o processo e envolvidos, assim como a utilização de conhecimentos multidisciplinares para a aplicação de ferramentas de sustentabilidade, dentre as quais estão os estudos de viabilidade, gestão de custos, biodiversidade, estudos de clima e geotecnia, desenvolvimento de produtos, eficiência energética, arquitetura bioclimática, uso racional de água, materiais sustentáveis, conforto no ambiente construído, processos e tecnologias construtivas sustentáveis, gestão de resíduos, responsabilidade social, dentre outras. Custo & Benefício Os argumentos para o investimento num edifício sustentável são convincentes, por se tratar de um produto com maior valor agregado e percebido. “Ele é melhor em vários aspectos, desde o baixo consumo de água e energia até o alto nível de conforto para seus usuários, além, é claro, dos benefícios da imagem do produto e dos empreendedores” – justificou Souza, que, baseado na experiência do CTE, informa que pode haver um aumento no custo de construção entre 1% e 8%, se comparado às tradicionais. No entanto, ele aponta que diversas pesquisas americanas têm comprovado que o valor agregado é superior aos investimentos. “Outras pesquisas demonstram que um edifício certificado green building, por exemplo, pode reduzir em até 30% o consumo de energia, 35% as emissões de carbono, 30%

Roberto de Souza: processo irreversível

a 50% o consumo de água e de 50% a 90% o descarte de resíduos” - afirmou. Para os habitantes, Souza afirma que os impactos são extremamente significativos por apresentar um desempenho superior aos convencionais em diversos critérios relacionados ao conforto e bemestar dos usuários, tais como: renovação adequada do ar, iluminação natural e adequada, temperatura, umidade, visão para o exterior, áreas verdes e de convívio, filtragem do ar, materiais com baixa emissão de COV (Compostos Orgânicos Voláteis) e sem resinas tóxicas, entre outros. “Assim, a construção sustentável, além de gerar redução de despesas com energia e água, também propicia um maior conforto térmico, acústico e visual aos usuários” – disse. Habitante Sustentável A diretora geral da ANAB Brasil acredita que o comportamento ainda é fator decisivo nessa proposta. “Não basta investir em produtos sustentáveis, é preciso ser sustentável! Isso representa 90% de comportamento e atitude e 10% de tecnologia. Não adianta, por exemplo, instalar equipamentos de redução de consumo de água e usá-la para varrer a calçada! Primeiro é preciso uma conscientização e mudança de comportamento, aí sim, adotar produtos e tecnologias mais sustentáveis” – afirmou. Manfredi exemplificou também a questão da reciclagem de lixo. “Antes de mais nada, deve-se Reduzir, depois Reutilizar, e somente depois Reciclar! E tem gente que vai além e inclui mais 2 “Rs”, o Repensar e o Recusar” – concluiu.


Edição Especial

NeoMondo

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Ano 2 - Nº 20 - Março 2009 - Distribuição Gratuita

um olhar consciente

Água

A origem da vida No dia 22 de março é comemorado o dia mundial da água. Esse bem precioso está intrinsecamente ligado a vida, não apenas como componente bioquímico de seres vivos ou como fonte de sobrevivência das espécies vegetais e animais, mas também no papel fundamental que desempenha nos processos produtivos industriais e até como elemento de valores sociais e culturais. Nossa necessidade dela é tão grandiosa que já se sabe que a possibilidade de escassez mundial pode ser fator desencadeante de sérias disputas. Nessa edição de março, nossas páginas estarão mergulhadas nesse elemento da natureza, que brota em abundância em algumas regiões do nosso país, abençoado por quatro grandes bacias hidrográficas. Mas não é apenas de água doce que vive o brasileiro. Temos 9 mil km de costa marítima e apesar da pouca informação que chega ao cidadão comum é nesse imenso portal que se esconde um enorme potencial de desenvolvimento. O oceano oferece mais do que praias e lazer. Fornece alimento, sal, energia, água, 50% do oxigênio que respiramos, 80% do petróleo nacional, e ainda é responsável por 95% do transporte de cargas, no comércio exterior brasileiro. Traremos um diagnóstico das águas brasileiras, que assim como o sangue para o corpo, faz pulsar a vida no planeta.

RESERVA – ATÉ DIA 13/03

FECHAMENTO – DIA 17/03

ENTREGA DE MATERIAL DIA 19/03 Neo Mondo - – Setembro 2008

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Especial - Construções Sustentáveis

Certificadoras É possível vencer desafios, como falta de conhecimento e mudança de paradigmas. Gabriel Arcanjo Nogueira

Primeiro prédio a obter o selo LEED na América do Sul; e há estudos para tornar a certificação mais eficiente à realidade brasileira 

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rodutores e consumidores fiquem atentos! É preciso cada um fazer a sua parte para que o País mergulhe na nova cultura de mercado com foco no desempenho ambiental, voltada à sustentabilidade. Não dá mais para se acomodar ante barreiras, como a falta de conhecimento e a mudança de paradigmas, “que levam as pessoas a não tomarem decisões corretas ou pouco se importarem com os impactos que esse mercado causa ao planeta e os benefícios da construção sustentável”. O apelo para vencer esses dois grandes desafios vem, quase em uníssono, de especialistas de organismos de respeito ouvidos por NEO MONDO para esta edição especial. O mais enfático deles é o engenheiro civil Marcos Alberto Casado Pereira, gerente técnico do Green Building Council Brasil (GBC Brasil). Organismo que, no País, promove o sistema LEED - Leadership in Energy and Environmental Design do Green Building Council United Sates (USGBC). Casado diz que este é “considerado a principal ferramenta mundial na avaliação socioambiental e no reconhecimento de empreendimentos projetados e operados visando  à diminuição dos impactos negativos ao meio ambiente”. Ele cita a  agência Granja Viana do Banco Real, em Cotia (SP), como a primeira construção sustentável da América do Sul pelo selo LEED. E acrescenta: outros 100 empreendimentos estão registrados em busca da certificação no Brasil.


defendem Para chegar a essa conquista, cada um deles “deve ser concebido, projetado e construído de acordo com as diretrizes do sistema escolhido”. Engenheiro civil há mais de 10 anos, com duas pós-graduações, Casado fala de experiência própria, como gestor de obras por 7 anos na instituição financeira e coordenador de todo o processo. “Desenvolvi e implantei o PPICS - Programa Prático de Implantação da Construção Sustentável, com o desenvolvimento de fornecedores, materiais e tecnologias a serem utilizados”. O especialista aponta, entre as principais vantagens do LEED, a possibilidade de ele ser aplicado fora dos Estados Unidos, seu país de origem, com resultados positivos ao ambiente, à saúde do ocupante e retorno financeiro. O GBC Brasil tem um grupo de trabalho que elabora estudo para adaptar os atuais créditos do sistema,  para torná-lo ainda mais eficiente à realidade brasileira.

Esforço inicial no processo resulta em coerência, economias e desempenho nas fases seguintes

Empreendedor e equipes   O selo Aqua - Alta Qualidade Ambiental, por enquanto, é o único no País com critérios brasileiros. Quem garante - e  o fato é reconhecido no mercado - é o engenheiro civil Manuel Carlos Reis Martins, coordenador executivo de Certificação da Construção Sustentável - Processo Aqua e coordenador técnico Certificação de Sistemas de Gestão Ambiental ISO 14000 da Fundação Vanzolini. Martins destaca aspectos que considera relevantes para a mudança de cultura no setor, em que a importância do empreendedor e das equipes de trabalho

Interesse do cliente em primeiro lugar O processo de certificação obedece a uma sequência lógica: • interesse do cliente pela sua obtenção; • critérios - pode ser uma norma existente ou desenvolvimento de específicos • implantação do sistema ou adequação de produto/serviço, conforme critérios estabelecidos • avaliação pelo organismo certificador • correção de eventuais desvios • concessão do certificador e licença para uso da marca Fonte: ABNT

sobressai. Entre outros, é preciso cuidar para que “o projeto do empreendimento seja gerenciado, com continuidade de equipe e responsáveis, desde o programa passando pela concepção até a realização”; o comprometimento do empreendedor é fundamental desde o programa - fase em que “se definem os objetivos e se analisa o custo-benefício do investimento”; as equipes necessitam sempre de mais tempo, nas várias etapas, para levar o projeto a bom termo - o que inclui a participação da equipe do projeto no gerenciamento da obra. “Em países onde o processo é mais organizado, como na França (o selo Aqua é adaptado do modelo francês - N.R.), esse esforço inicial resulta em coerência, economias e desempenho nas fases subsequentes e, portanto, valor”, esclarece.     Com a  autoridade de quem é PhD e passagens em cargos diretivos no IPT e na ABNT, Martins elenca entre os principais benefícios da construção sustentável: para os usuários, economia de água, energia, gestão de resíduos e manutenção, além de manutenção da atualização, do valor e da durabilidade do imóvel; a sociedade e o meio ambiente ganham em integração

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Especial - Construções Sustentáveis

FLUXOGRAMA DO PROGRAMA DE ROTULAGEM AMBIENTAL Fluxograma do programa de rotulagem ambiental abnt ABNT

RÓTULO ECOLÓGICO ABNT

Demanda

Classificação na categoria

Pesquisa de critérios no GEN

Existe?

Não

Sim

Realiza a CERTIFICAÇÃO

Faz adequação Elabora procedimento

sócio-econômico-ambiental do empreendimento no bairro. Ao longo do mês de março, adianta o engenheiro, serão auditados os primeiros cases do processo Aqua, que se encontram na fase programa. Se atendido o Referencial Técnico, terão como exibir seus certificados e demonstrar as soluções adotadas. Selo ecológico de produto O Instituto Falcão Bauer da Qualidade (IFBQ) não deixa por menos quando trata da necessidade de cultivar a “cultura do melhor desempenho ambiental  por parte seja dos produtores seja dos consumidores”. Quem afirma é o engenheiro civil Cesar Augusto de Paula Pinto, coordenador do Polo da Construção Civil do Instituto. “Somos a segunda organização a receber a acreditação para produtos pelo Inmetro”, lembra Marisa Plaza, administradora de empresas e analista de produto do IFBQ. Os dois especialistas desenvolveram o Selo Ecológico Falcão Bauer e enfatizam que o organismo tem presença constante em comissões de estudos, nas quais se discutem elaborações e revisões do normas de produtos. “Para sistemas de gestão, nossa atuação é mais recente, mas já representativa no universo da certificação”, diz o engenheiro. Já concedido à escória de aciaria da Arcelor Mittal, o selo IFBQ destina-se a materiais e tecnologias sustentáveis, avaliados em ensaios e auditorias in loco. Cesar e Marisa citam  pré-requisitos para alcançar a certificação, como o atendimento a normas técnicas de desempenho e legalidade da empresa (licenças, obrigações fiscais e trabalhistas). São feitas análises de caracterização química, do ciclo de vida (ACV), em que o produto é avaliado desde a entrada de matérias-primas passando pelo 16

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Desenvolve critérios

processo produtivo, utilização e destinação final. Ações socioambientais do fabricante no entorno também são verificadas.     Todas acreditadas no Inmetro A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é organismo-chave quando o assunto é normatização e também certificação. Guy Ladvocat, engenheiro mecânico com 27 anos de experiência em qualidade e gerente de certificação de sistema da Associação, explica como funcionam as certificadoras. “Também chamadas de organismos de certificação, são entidades que prestam serviços de avaliação de conformidade com o objetivo de certificar produtos, sistemas ou serviços. São independentes da relação cliente-fornecedor, o que dá credibilidade do processo de certificação”, diz. Ladvocat cita a variedade de atuação das certificadoras: pode ser de produtos, de sistemas ou áreas específicas - caso da construção civil. “Todas têm alguma acreditação junto ao Inmetro”, acentua, para lembrar que acessar o site deste Instituto (www.inmetro.gov.br)  é a maneira mais adequada de identificar as empresas habilitadas. O especialista ressalta: “A ABNT também é organismo de certificação e opera

um programa de rotulagem ambiental para a concessão do Rótulo Ecológico ABNT, que pode ser concedido a construções”. A entidade representa no Brasil o Global Ecolabelling Network (GEN), com cerca de 30 membros pelo mundo. Entre eles, Reino Unido, Japão, União Européia, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Alemanha. Sinal de que o País está em boa companhia quando o assunto é sustentabilidade. Esta deve sempre levar em conta três dimensões: a social, a ambiental e a econômica, conclui Ladvocat. 

Guy Ladvocat, da ABNT: também um organismo certificador

SERVIÇOS Para contatar: O GBC Brasil - por telefone: (11)4191-7805; pelo site www.gbcbrasil.or.br A Fundação Vanzolini - por telefone: (11)3836-6566, ramais 102 a 106 e 114/115; por e-mail certific@vanzolini.org.br O Instituto Falcão Bauer - por telefone: (11)3611-1729, ramais 189 e 205  A ABNT - pelo site www.abnt.org.br Para acessar o site do Inmetro: http://www.inmetro.gov.br/credenciamento/ organizacoesCredenciadas.asp#oc


Dilma de Melo Silva

e prevenção de acidentes

Correspondente especial de Quioto – Japão

O exemplo de Kobe no Japão.

A

cidade de Kobe foi muito citada na imprensa brasileira, no ano de 2008, devido à comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Em 1908, saiu do porto dessa cidade o navio Kasato Maru levando a primeira leva de imigrantes japoneses para Santos, que depois seguiram para trabalhar em fazendas de café no interior de São Paulo. Esse porto sofreu o impacto de um grande terremoto que destruiu a cidade e ocasionou mais de de 6.400 mortes no ano de 1995. Esse desastre deixou marcas profundas na população do país. Medidas foram tomadas para reviver a cidade,e não apenas restaurar os edificios. O terremoto deixou evidente que Kobe não estava preparada para desastres, quer no âmbito físico, econômico ou institucional. A cidade precisava elaborar uma nova estratégia de desenvolvimento e, em junho de 1995, foi estabelecido o Plano de Recuperação de Kobe (KRP - Kobe Revival Plan), cobrindo um período de dez anos. O objetivo do KRP era revitalizar a cidade mediante incentivos às comunidades e fortalecimento da economia e da cultura através de um processo decisório que contava com a participação de diversas partes interessadas. A curto prazo, o foco foi a recuperação rápida da infra-estrutura urbana, enquanto a longo prazo, a meta era criar uma sociedade com capacidade de resistir à calamidades. A estratégia de Kobe foi reconhecer e utilizar as comunidades como força propulsora do plano. Em uma situação de calamidade, os grupos comunitários conseguem reagir com mais eficiência às demandas imediatas, há mais lentidão no ritmo do governo federal. E, talvez, seja sobre esse diferencial, surgido na cidade de Kobe, que possamos refletir. Um mês após o abalo, a cidade colocou em ação planos para reestabelecer as funções urbanas, criando “comunidades de bem-estar e prevenção de acidentes” – DWCs

Mais de 67.000 edificações ruíram na cidade de Kobe como conseqüência do Grande Terremoto Hanshin-Awaji.

Disaster-preventive Welfare communities, capazes de implementar o programa de administração e superação de calamidades. O resultado foi tão positivo que surgiu a proposta de instalação de um centro internacional especializado em operações de reconstrução depois de grandes catastrofes, usando essa metodologia. A revitalização da cidade, além de utilizar um método de construção que coloca uma espécie de amortecedor de impacto uma estrutura composta de camadas finas de chapeamento de borracha e de aço, entre o edifício e a terra amortece os abalos - também definiu que as medidas de proteção para ocorrências de calamidades devem ser classificadas em três níveis, baseados na sua temporalidade: os dois primeiros dizem respeito à emergência e assistência a curto prazo. Já o terceiro, refere-se à reconstrução a longo prazo, e precisa de um tempo maior para ser implementado, devendo usar a abordagem participativa para que se obtenha resultados justificáveis e sustentáveis. Torna-se necessário criar uma cultura participativa, englobando a população, os especialistas, o setor privado, as autoridades, para se

realizar mais com maior eficiência, otimizando os recursos, e deixando de lado a abordagem de cima para baixo que ignora as pessoas e “determina” metas, tarefas, ações e resultados. Através das “comunidades de bemestar e prevenção de acidentes”, a cidade de Kobe foi revitalizada, surgindo, naquele local devastado pelos abalos sismicos, um lugar seguro, confortável e belo. A cidade de Kobe é cidade irmã do Rio de Janeiro, por estar entre as montanhas e o mar, por seus espaços amplos que lembram a cidade brasileira. E de lá nos vem um exemplo de organização comunitaria, imprescindível em momentos de catástrofes. Para saber mais: www.­city.­kobe.­jp Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia, e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na  Universidade de Estudos Estrangeiros. Neo Mondo - Fevereiro 2009

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Especial - Construções Sustentáveis

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Forro pintado com ecotinta Plus Lisa

Opções de materiais de construção ecologicamente corretos não faltam, desde a infra-estrutura até o acabamento

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Bem Telhado verde também é opção, mas ecotelhas são as mais utilizadas, principalmente em construções corporativas

Estrutura formada por ecotelhas

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ecoprodutos é a falta de incentivo do governo para quem fabrica e vende . Segundo ele, uma política de incentivo poderia reduzir o custo, que ainda é elevado em comparação aos produtos convencionais. “Agora, com a crise econômica, houve um retrocesso na construção civil e as pessoas estão procurando ecoprodutos com o mesmo preço ou, se possível, até mais baratos do que os produtos convencionais” revelou. Ele, porém, vê vantagens nesta mudança de comportamento. “Isso obriga as empresas a pensarem em como vão fornecer ecoprodutos dos quais os clientes realmente precisem e que estejam em um custo razoável. O impacto disso surge quando cria cultura na própria cadeia, fabricante, revendedor e consumidor”, afirmou. Outro ponto positivo na mudança comportamental ocasionada pela crise é que tanto as construtoras quanto os indivíduos agora preferem investir em um ponto sustentável de seus empreendimentos e não deixá-lo integralmente sustentável, o que se aproxima mais da realidade das pessoas, que podem ajustar o projeto conforme o bolso. ”É uma postura pé no chão. Conforme os investimentos dão resultado, trazem benefícios econômicos, os clientes vão querendo investir mais. Os ecoprodutos devem sempre considerar os fatores ecologia, economia e técnica. Ecologia tem tudo a ver com economia”, finalizou.

Vista interna com ecotelha instalada

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T

oda a estrutura de uma construção atualmente pode ser ambientalmente correta. A gama de ecoprodutos, artigos de origem artesanal ou industrializada, produzidos sem agredir o meio ambiente e a saúde dos seres vivos, é cada vez maior. ”Existem milhares de opções, mas a utilização ainda é pequena”, opinou o engenheiro agrônomo Márcio Araújo, consultor em ecoprodutos do IDHEA, Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica, primeiro centro de referência no Brasil para pesquisa, aplicação e uso de ecoprodutos e tecnologias sustentáveis. Segundo ele, no Brasil este é um mercado praticamente virgem, ainda há muito o que explorar e faltam normas para identificação e classificação de produtos. “Nós do IDHEA seguimos algumas regras, mas não há uma certificação”, disse. Na intenção de combater a falta de critério, o IDHEA, em parceria com o Instituto Falcão Bauer da Qualidade (IFBQ) lançou, em novembro do ano passado, o Selo Ecológico Falcão Bauer, sistema de rotulagem ambiental que visa garantir o desenvolvimento sustentável de produtos e equipamentos. Foi a primeira iniciativa científica deste gênero no país, mas é comum em países como Alemanha, Japão e EUA e certamente auxiliará o consumidor na hora de escolher que produtos utilizar. Outra dificuldade apontada pelo consultor Márcio Araújo no setor de

IDHEA

Rosane Araújo

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Especial - Construções Sustentáveis

Ecoprodutos Algumas das principais opções

Adobe O adobe é um tijolo feito pela mistura de barro com palha, sem ser levado a qualquer processo de aquecimento. É um material construtivo bastante antigo, de muita durabilidade e indicado para regiões secas, já que para secar o tijolo é colocado ao ar livre. A construção feita com este tijolo torna-se muito resistente e oferece conforto térmico e acústico. A preparação do adobe é feita em solo argiloso. Fazse um buraco perto do local da obra onde há solo apropriado, colocando-se água. Depois, amassa-se com os pés até sentir que tem boa liga. O barro é posto em formas de madeira, que são molhadas antes de se colocar a argila. Depois, realiza-se um processo de secura por 10 dias, virando-o a cada 2 dias. Suas vantagens perante o tijolo comum são o baixo custo, o uso de material regional e o fato de poder ser preparado no próprio local da construção. Tintas Naturais Opções de ecotintas desenvolvidas pelo IDHEA Elas podem ser base de terra, cal ou de minerais e não têm elementos nocivos, como COVs (Compostos Orgânicos Voláteis). São diversos os fabricantes. No caso da Ecotinta desenvolvida pelo IDHEA, a composição é de silicato de potássio, um mineral que protege e embeleza a superfície sem selar a parede ou agredir o meio ambiente. Entre suas características sustentáveis está o gasto de energia inferior e o fato de após sua aplicação 75% dos gases emitidos na queima da matériaprima original são reabsorvidos.

Coberturas ecológicas Telha reciclda - vista aproximada Telhas de barro, pedra, folhas de palmeiras, madeira, cimento armado. Essas são algumas das opções de coberturas ecológicas disponíveis, isso sem falar, é claro, do telhado verde. A mais usada em construções urbanas, porém, é a telha de material reciclado. Já existem até opções fabricadas a partir de embalagens de longa vida, pet, papelão laminado e latas recicladas. Todas têm como principal vantagem o abandono do modelo convencional de telhas, à base de amianto, mineral bastante nocivo à saúde, cancerígeno, e que já teve seu uso proibido em diversos países. Equipamentos sanitários Modelo de torneira Decalux, da de baixo consumo Deca, tem potencial econômico de até 70% e lâmpadas de alta eficiência energética Dentre os produtos sustentáveis utilizados em construções com esta proposta, não dá para esquecer os vasos sanitários e pias, alguns dos campeões no quesito desperdício de água. E é por esta característica que a tendência do mercado é que cada vez mais os sanitários tenham equipamentos reguladores de consumo. Torneiras com sensor de presença e vasos sanitários com duplo acionamento são algumas opções. A linha Decalux, da Deca, é um exemplo de tecnologia a favor da sustentabilidade. As torneiras proporcionam até 70% de economia em comparação com as convencionais, pois interrompem o fluxo de água se acionadas por mais de 50 segundos ininterruptos, não liberando até que a obstrução seja removida. Ainda nesta linha, estão as lâmpadas eficientes. As mais comuns são as fluorescentes compactas, que representam um consumo de energia 80% menor e duram 10 vezes mais que lâmpadas convencionais, além de aquecerem menos o ambiente. A maior inovação na área, porém, são os LEDs, aquelas luzes que ficam acesas indicando que o aparelho está ligado ou em stand by. São luzes que desperdiçam pouquíssima energia, não esquentam, extremamente compactas, apresentam facilidade em controlar a qualidade da luz emitida e têm longevidade até cinquenta vezes superior àquela das lâmpadas incandescentes convencionais. O único inconveniente do modelo, porém, é o preço, geralmente mais do que o dobro das fluorescentes.

Fontes: IDHEA, Arquitetura – UFSC e EPEMA – Instituto de Permaculturas e Ecovilas da Mata Atlântica 20

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IDHEA

Concreto reciclado Pode ser obtido a partir de matérias-primas com custo muito baixo. A contribuição para o meio ambiente é grande, já que se deixa de extrair o montante de 1.560 mil m³ de matériaprima por ano, só no Município de São Paulo. Apenas os concretos com substâncias contaminantes, como sulfato de cálcio, cloretos e óleos podem trazer prejuízo às propriedades do concreto e não devem ser utilizados como matéria-prima. Atualmente no Brasil a aplicação mais comum do concreto reciclado ocorre em sub-base de pavimentos, de concreto ou asfalto. No entanto, quando são atingidas as propriedades especificadas, a utilização pode acontecer em qualquer situação. Estimativas da Abesc (Associação Brasileira das Empresas de Serviço de Concretagem) mostram que somente na região metropolitana de São Paulo são gerados entre 3.500 a 7 mil m³ de concreto residual nas centrais dosadoras.


Takashi Yamauti

À Mercê do Marketing O aspecto social deve estar vinculado na concepção da sustentabilidade do setor.

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uando falamos em arquitetura ou construção sustentável e ecologicamente correta, temos em mente a utilização de materiais reciclados, certificações, utilização de fontes de energia alternativa e soluções com economicidade. No entanto, essas propostas serão apenas paliativas, caso a sua concepção não obedeça aos requisitos das normas da ABNT NBR 16.001, 16.002; e do CFC – Conselho Federal de Contabilidade, Resolução nº 1.003/04 e a NBR T15. Sem atendê-las, as soluções apresentadas seriam apenas uma vantagem de marketing para os proprietários, sem sentido social e ambiental. Desta forma, os profissionais e as empresas construtoras e do segmento têm a necessidade urgente de conhecer essas normas, criando novos conceitos de projetos e soluções com ênfase social e ambiental, e então sim, receber a denominação de “Construção Sustentável”. Nada adianta construir uma residência, comércio ou indústria com matériasprimas com caráter de respeito ecológico, se o mesmo apresentar problemas como: • índice de impermeabilização do solo que provoque redução do nível do lençol freático; • barreiras para movimento do ar, • barreiras para transito de aves e animais de pequeno porte,

• índice de contribuição ao aquecimento global, • barreiras para insolação, • uso de mão-de-obra sem respeito às normas de responsabilidade social e ambiental, • arquitetura sem respeito à cultura e tradições regionais, • utilização de materiais sem a neutralização ambiental, • instalação em terrenos inadequados ambientalmente, • escolha da localização sem respeito aos aspectos sociais, dentre outros. Portanto, a questão da sustentabilidade não pode ser avaliada apenas no método construtivo, no material empregado e nas soluções arquitetônicas. O aspecto social e suas interfaces ambientais deverão também ser observados e respeitados para receberem a denominação de “Sustentável”. Nos cursos de graduação de arquitetura e engenharia não há abordagem sobre as interfaces com as normas de responsabilidade social e ambiental. Portanto, os profissionais passam a obter informações apenas depois de formados, com o mercado, que por sua vez não tem, em sua maioria, um conceito adequado do processo, possibilitando um fluxo de informações distorcidas.

Isso obriga os profissionais a buscarem informações complementares, muitas vezes desvinculadas de estudo e pesquisa. Desse modo, muitos acabam ficando à mercê do marketing, perdendo totalmente a noção sobre a questão da responsabilidade e passando a utilizar-se apenas do apelo comercial. Portanto, para uma construção ser sustentável, há necessidade do envolvimento com pesquisas de produtos e soluções tecnológicas e inovadoras, constituindo-se um grande desafio para os profissionais do setor e, ao mesmo tempo, um novo mercado aberto. Hoje, podemos afirmar que ainda não há construção dentro deste conceito mais amplo no mercado brasileiro, apesar de existir uma série de iniciativas ambientais, desvinculadas do aspecto da responsabilidade social, portanto com uma demanda muito grande nesse sentido.

Takashi Yamauchi é especialista em Terceiro Setor, Consultor do Sistema de Apoio Institucional – SIAI e Consultor da Comissão de direito do Terceiro Setor da OAB Seccional Pernambuco. Participou do grupo de estudos para a formulação da Norma ABNT 16001.

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Material alternativo e ecológico está prestes a ser comercializado. Rosane Araújo

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esde 1995, a professora e pesquisadora do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Satie Marinch, realiza pesquisas voltadas para o reaproveitamento de resíduos urbanos. Em 1998, a pesquisadora conseguiu firmar parcerias com empresas privadas para desenvolvimento da pesquisa que visava transformar resíduos plásticos em papel. Um ano depois, porém, com a crise econômica brasileira, as parcerias foram canceladas. Somente em 2005, os estudos encontraram apoio no Departamento de Pesquisa da empresa Vitopel, produtora de filme de polipropileno biorientado (BOPP), película usada em embalagens para contato com alimentícios. O financiamento da FAPESP para o desenvolvimento da pesquisa e o depósito de patente fecharam o ciclo necessário. Em março de 2006, foram realizados os últimos testes. “A pesquisa específica demorou bastante, mas agora já temos o produto pronto, a tecnologia desenvolvida para ser industrializado. Já foram feitos testes em planta piloto, está na fase de licenciar”, revelou a professora Satie. O papel é produzido à base de uma mistura que pode ter composição variada (poliolefinas, copolímeros de poliolefinas), mas em geral são utilizadas embalagens

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plásticas descartáveis, garrafas de água, potes de alimentos e embalagens de material de limpeza. Uma vez pronto o papel pode ser empregado em outdoors, cartilhas, manuais, catálogos de visitas, menus, entre outros artigos. “A utilização é bem variada. Sua resistência mecânica e à umidade são bem maiores do que o papel comum. Algumas impressões ficam bem melhores e em algumas composições ele se assemelha ao papel couchê (comum em revistas). Somente impressões à base de água como jatos de tinta e caneta hidrográfica é que não ficam boas, para elas é preciso mais uma etapa no tratamento do papel, mas a caneta esferográfica, por exemplo, escreve muito bem”, disse a pesquisadora. E as vantagens do novo papel não param por aí. Os equipamentos utilizados na produção são os mesmos do filme plástico, uma infra-estrutura industrial comum, não sendo necessários equipamentos específicos. “Estamos aguardando a definição da Vitopel que tem preferência no licenciamento da tecnologia. Se a empresa concordar, ainda este ano poderá ter início a comercialização”, comentou a professora Satie. Segundo ela, outros estudos na área de reaproveitamento de plástico estão sendo desenvolvidos na Universidade.


“Minha proposta é tentar dar um destino melhor para os resíduos plásticos urbanos pós-consumo. Existe outro estudo que está sendo desenvolvido para criação de um processo mais econômico de descontaminação de garrafas PET, para retorno em embalagens que tenham contato direto com os alimentos. Isso ainda está em escala de laboratório, muitas empresas mostraram interesse, mas preferem esperar a patente. Este é um dos pontos mais importantes para agregar valor”, disse. Atualmente, existem opções de papel sintético sendo comercializadas, mas estas são produzidas com derivados de petróleo. O pioneirismo da pesquisa desenvolvida em São Carlos é exatamente partir do plástico reciclado, material que seria destinado a aterros sanitários ou lixões.

Professora Satie Manrich coordenou a pesquisa que contou com financiamento da FAPESP. Desde a idéia, inicial foram quase 14 anos para o produto ser finalizado

Vale a pena • Para produzir 1 tonelada de papel sintético são necessários 850 kg de plástico reciclado. Com essa quantidade, pelo menos 30 árvores deixam de ser cortadas. • O lixo brasileiro contém de 5 a 10% de plásticos, conforme o local. São materiais que, como o vidro, ocupam um considerável espaço no meio ambiente. Plásticos são derivados do petróleo, produto importado (60% do total no Brasil). A reciclagem do plástico exige cerca de 10% da energia utilizada no processo primário. • Do total de plásticos produzidos no Brasil, só 15% é reciclado. Os plásticos recicláveis são: potes de todos os tipos, sacos de supermercados, embalagens para alimentos, vasilhas, recipientes e artigos domésticos, tubulações e garrafas de PET, que convertida em grânulos é usada para a fabricação de cordas, fios de costura, cerdas de vassouras e escovas. Fonte: www.ambientebrasil.com.br

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Divulgação

Especial - Construções Sustentáveis

Telhados Ve 24

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Utilizando a natureza a nosso favor. Liane Uechi

O

brasileiro, nas grandes metrópoles cercadas de cinza e concreto, conhece bem os efeitos do verão quente e úmido, com temperaturas elevadas, desconforto térmico e o dolorido aumento na conta de energia, em função do consumo de ventiladores e aparelhos de ar condicionado. Na busca por conforto e na contramão do uso de equipamentos, está o paisagismo, que apresenta soluções e alternativas naturais e eficazes, sem comprometer ainda mais os recursos naturais do planeta. Por isso mesmo, nas construções sustentáveis, ele desempenha um papel muito importante. Diversas técnicas como: paredes verticais com plantas, uso de quebra-ventos, árvores para sombreamento, telhados vivos, dentre outros, ganham a cada dia mais adeptos no Brasil. No entanto, o uso de vegetação nas edificações não é uma prática nova. Quem nunca ouviu falar nos Jardins Suspensos da Babilônia, datados de 450 a.C? Porém, o que a sociedade moderna está (re)descobrindo é que as plantas podem ser mais do que elementos decorativos, ou medida compensatória pelo desmatamento do solo. O engenheiro agrônomo João Manuel Linck Feijó, presidente da Associação Brasileira de Telhados Verdes, membro do conselho do World Green Roof Infrastructure Network e diretor da Ecotelhados, explicou que a vegetação tem a característica de: amenizar a temperatura urbana, com economia de energia; reter a água da chuva, evitando a poluição de mananciais; limpar o ar pela fotossíntese, criar ambientes agradáveis e aumentar a biodiversidade. Feijó informou que um telhado ou laje comum absorve o calor durante o dia e o perde durante a noite. “Uma superfície vegetada perde calor por evaporação e transpiração na ordem de 500 kcal por litro d’água e outro tanto na fotossíntese. À noite, o substrato e a vegetação evitam a perda de calor. Assim, usamos a natureza de forma inteligente a nosso favor, economizando energia de climatização de forma muito significativa” – defendeu ele.

erdes Neo Mondo - Fevereiro 2009

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BENEFÍCIOS DO TELHADO VERDE

Toni Backes: o maior entrave ainda é a questão cultural.

Por outro ângulo, a técnica ainda é uma forma de saldar o passivo ambiental contraído quando do desmatamento original da área urbanizada. “Creio que nenhuma teoria de cidade sustentável estaria completa sem este item” – afirmou o engenheiro. O agrônomo Toni Backes e a arquiteta Gabi Pizzetti são outros defensores da utilização de telhados verdes. Segundo Backes, no ambiente urbano eles podem promover um efeito de resfriamento no micro-clima das áreas do seu entorno, garantindo um conforto térmico e ambiental favoráveis à ocupação humana. “As coberturas com vegetação apresentam vantagens de ordem técnica, estética e psicológica, em relação a outros tipos de coberturas” – garantiu o agrônomo. Entre as vantagens ele cita: a redução de poluição; o isolamento térmico; o equilíbrio da temperatura do ambiente e das variações de umidade relativa do ar; a retenção da água da chuva; a proteção anti-chamas; o isolamento acústico; a proteção das lajes e o consequente aumento da vida útil da estrutura; e ainda o embelezamento da cidade, reduzindo fatores que levam ao estresse humano. Ele explica que telhados vivos têm características distintas das demais coberturas e que precisam ser bem planejados para funcionarem adequadamente, sendo necessário considerar uma série de aspectos como o tipo mais adequado de vegetação, o peso que ela representa, a inclinação das águas do telhado, sua orientação solar, escoamento das águas pluviais absorvidas e, naturalmente, a finalidade principal que se queira atingir entre as muitas possibilidades que um telhado vivo oferece. NO BRASIL Feijó conta que no Brasil já existe tecnologia própria, como a desenvolvida pelo Ecotelhado, que há seis anos realiza pesquisas 26

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Controle do fluxo de água pluvial e consequente diminuição da poluição dos mananciais pelo arrasto de nutrientes da superfície das cidades;

Limpeza do ar urbano pela ação da fotossíntese e aderência de material particulado ao substrato e plantas;

Diminuição do calor urbano gerado pela acumulação nos prédios;

Economia na energia de climatização com consequente contribuição na emissão de CO2 de geração desta energia;

Utilização da área de cobertura, antes desprezada com o uso de telhado convencional;

Maior durabilidade do prédio à ação das intempéries como raios solares (esquenta, esfria) e consequente vida útil do mesmo e da membrana de impermeabilização;

Proporciona espaço para biodiversidade;

Diminui reverberação de som aumentando conforto acústico.

Fonte: Ecotelhados

e atua na construção de coberturas verdes. A técnica brasileira permite vegetar praticamente qualquer tipo de telhado existente sem que seja retirada a cobertura original. Segundo ele, trata-se de um sistema modular de baixo peso (que equivale à cerâmica convencional) que já vem plantado. É colocada uma membrana de proteção anti-raízes, outra de retenção de água e então os módulos vegetados. “É tudo muito simples e rápido. Para construções novas ele recomenda lajes planas impermeabilizadas, pois evita a utilização de armações de madeira e permite o uso da cobertura como jardim” - disse. Ele alega que o custo é similar ao telhado convencional sendo que as vantagens são muito maiores, evidenciando a melhor relação custo-benefício. DURABILIDADE A técnica permite a escolha de espécies vegetais de baixa, média ou alta manutenção. Conforme explicou a arquiteta Gabi Pizzetti, é possível optar por um conjunto de plantas nativas tratadas com o mínimo de

interferência ou plantas exóticas submetidas a podas de topiaria e exigentes em tratos específicos. “Normalmente, recomendamos a escolha mais natural possível” – disse. Uma espécie muito utilizada é a suculenta que não requer muita irrigação, manutenção de corte, capina, adubação, etc... Apesar de tantos benefícios, Backes entende que o maior entrave ainda é a questão cultural. “A crença de que as plantas são inimigas das estruturas das construções e dos revestimentos das paredes é infundada, pois elas protegem a fachada contra o sol, a chuva e o vento. Os danos só se verificam quando a parede já apresenta um processo de deterioração e as plantas podem vir a acelerar tal processo, aumentando fissuras e desprendendo pedaços de argamassa de reboco, por infiltração das raízes” – esclareceu ele. Já a durabilidade do telhado verde é a grande vantagem. No tocante aos itens de substrato e vegetação é indefinida, pois cria-se um ecossistema com condições de se perpetuar. “A lona de impermeabilização dura mais de 100 anos (estimativa do fabricante.)” – explicou Backes.

Eduardo Liotti

Residência em Vera Cruz com o Sistema Modular ECOTELHADO


Eduardo Sanches

Ampliação Industrial e sustentabilidade sem demagogia Analisar um empreendimento exige uma visão holística de todo o processo construtivo.

É

comum avaliarmos a participação social de uma empresa através de projetos sociais com investimentos com prazo de validade determinado. Nesses projetos, a comunidade recebe ajuda para uma determinada necessidade, seja ela, relativa a saúde, educação, etc. No primeiro descompasso do mercado, tais programas são descontinuados e as comunidades perdem o “benefício”. Esse ritual acontece porque a empresa tem um escopo e um objetivo principal: O de produzir e gerar crescimento econômico. Como contrapartida, sobre seu lucro são gerados impostos que deveriam ser destinados pelo Estado para suprir as necessidades inerentes da comunidade, dentre as quais: a educação, a saúde, a infra-estrutura, o saneamento, a moradia e demais condições dignas. Quando pensamos em construções sustentáveis dentro do segmento industrial, sobretudo no ramo químico e petroquímico, elas têm um papel relevante, principalmente num contexto de

crise financeira mundial, pois representam a geração de renda através de novos postos de trabalho (temporários e fixos), a movimentação da economia e o estabelecimento de melhores condições de vida para as pessoas. Essas ampliações proporcionam também melhorias significativas nos aspectos ambientais, principalmente na comunidade do entorno, pois utilizam novas tecnologias, que por sua vez propiciam melhores controles das emissões e também maior segurança nos processos. Podemos traçar um paralelo com a evolução dos automóveis, cada vez mais seguros e com maiores controles de emissões atmosféricas. Quando falamos em geração de emprego significa a criação de novos postos (diretos e indiretos) em toda a “cadeia de produção”, isto é, uma empresa amplia sua capacidade produtiva para receber matéria-prima (fornecedores) e para enviar aquele produto para outras empresas (clientes) que, consequentemente, tam-

bém ampliarão suas produções e necessitarão de novos colaboradores. Desse modo, essa ampliação é benéfica quando as regras de controle ambiental são devidamente seguidas. Hoje, para uma empresa crescer e obter financiamentos, torna-se necessário que a produção ampliada siga regras mais rigorosas, como poluir menos que a produção anterior. Analisar a gestão de sustentabilidade de um empreendimento sem uma avaliação holística dessa atuação e dos benefícios de um empreendimento industrial pode promover ações descabidas e com impacto significativamente negativo para a sociedade. Eduardo Sanches Gerente de Meio Ambiente, Segurança, Saúde e Qualidade de Grupo Petroquímico. Professor universitário de Gestão Ambiental e de Pós-Graduação (MBA).

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Especial - Construções Sustentáveis

Ações pela

SUSTENTABILIDADE Exemplos não faltam na iniciativa privada ou pública Gabriel Arcanjo Nogueira

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A

sustentabilidade plena, em que pese ainda ser “sonho de consumo”, “tem sido meta permanente” da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU). Quem garante é o diretor técnico da empresa, João Abukater Neto, ex-presidente do Crea-SP. Na visão do experimentado engenheiro civil, o conceito muda, “e nós procuramos implementar mais forte os instrumentos” que tornem o sonho realidade. Ainda mais, lembra, quando se trata de desenvolver projetos que atendem a populações com renda entre 1 e 3 salários mínimos. Abukater esclarece que as obras em andamento baseiam-se em novas medidas que levam em conta os avanços possíveis, como utilizar materiais de reciclagem garantida, aproveitamento da energia solar, madeiras certificadas, piso drenante, equipamentos de medição individual do consumo de água. “As estruturas metálicas estão entre nossas preferidas porque representam preservar 120 mil árvores nativas, ou 60 mil de reflorestamento, na produção anual de nossas unidades”, diz o diretor.   Novos bairros, novas cidades Abukater  enfatiza o alcance socioambiental de projetos que a CDHU realiza na Serra do Mar, em Cubatão (SP), que visam recuperar toda a serra com a construção de novos bairros, novas cidades. O que é possível mediante parcerias e com base em dois pilares de sustentação técnica da empresa: a alta capcitação de seus profissionais e a contratação de empresas gerenciadoras gabaritadas. Entre os parceiros constantes da CDHU estão a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que possibilitam chegar a um

empreendimento como esse, classificado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como “o maior em andamento no mundo”, afirma Abukater.  Para ele, “um dos papéis do governo é ser um indutor de ações que tragam benefícios sociais, e nesse aspecto estamos na vanguarda”. Isso porque, avalia, sustentabilidade é necessidade, e a busca por ela deve ser constante. O que faz a empresa encarar a cada dia o desafio de efetivar ações que produzam ganho de escala e redução de custos, entre outros efeitos socioeconômicos.    A companhia em números Na média, a empresa constrói 25 mil moradias/ano Em 2009, a meta é atender a 41,5 mil famílias Fonte: CDHU 

Foto: Clovis Deangelo

Estruturas metálicas representam preservar 120 mil árvores nativas em projetos da CDHU

Abukater, da CDHU: ações para tornar real o sonho de consumo  

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Especial - Construções Sustentáveis

A CDHU, com seus projetos na Serra do Mar, pretende criar novos bairros, novas cidades

Evolução de conceitos Construçao sustentável é empreendimento que deve ser muito bem pensado desde antes de fixar as fundações. Exemplo é a unidade do Sesc Guarulhos, que até abril próximo receberá os trabalhos para escolha do escritório responsável pelo projeto arquitetônico, mediante concurso ( interessados podem acessar http://www.internet. sescsp.or.br/sesc/licitacao/lista_concurso.cfm ). Da análise dos trabalhos por uma comissão multidisciplinar composta por arquitetos e servidores do Sesc e posterior contratação do arquiteto e projetistas, “estimamos o

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Conjuntos sustentáveis da companhia paulista de habitação são fruto de parcerias qualificadas

cronograma de um ano e meio para elaboração dos projetos e contratação das obras e a conclusão do empreendimento em até 36 meses”. Quem esclarece é o engenheiro civil Luciano Ranieri, com MBA em Administração para Engenheiros pelo Instituto Mauá de Tecnologia e em Administração de Projetos pela Universidade de São Paulo. Tanto cuidado não é pouco porque, quando estiver concluído, esse será o projeto com o maior número de soluções sustentáveis da instituição. “Não poderia ser diferente porque ao longo do processo toda a evolução de nossos conceitos será incorporada ao projeto”,

diz Luciano, gestor de Projetos, Planejamento e Orçamento do Sesc-SP. Para ele, a preocupação com a sustentabilidade não é de hoje e mesmo as unidades já existentes passam por atualizações e modernizações que o clamor ecológico exige. “Todas elas terão, a pártir deste ano, sistemas solares para aquecimento de água das piscinas, assim como o tratamento de água das piscinas passará a ser feito com ozônio”. Estas e outras intervenções menores já se tornaram rotina na instituição, garante o engenheiro. Sobre o Sesc Guarulhos, especificamente, Luciano ressalta alguns fatores que serão levados em conta. Que o diga o Termo de Referência que norteará a elaboração dos projetos. “Da área total do terreno, 25% no mínimo deverão ter a vegetação original, mata primária, recuperada. Os pisos das áreas descobertas, em sua grande maioria, deverão ser permeáveis, e as coberturas da edificação receber cobrimento de vegetação,apropriada à melhoria do conforto térmico e retenção de vazão das águas pluviais,


Divulgação

Unidades do Sesc (na foto, o de Vila Mariana, na capital paulista) passam por atualizações e modernizações para atender ao clamor ecológico

que depois serão tratatadas para reuso”, diz. Além disso, de acordo com o gestor, a consultoria de profissionais especializados servirá para avaliar a eficiência energética, bem como o desempenho dos sistemas construtivos, de instalações e materiais, entre outros.   Luciano considera relevante também o fato de o futuro empreendimento prever a construção de uma estação de tratamento de esgoto integrada a uma Estação de Educação Ambiental, com área para exposições permanentes, miniauditório para palestras e ações educativas, sala para oficinas culturais temáticas, viveiro de plantas e mudas, mais a pequena usina de compostagem. Sem

esquecer das medidas de sustentabilidade que levam em conta a comunidade vizinha, que proporcionarão coleta de lixo reciclável, eliminação de fiação da rede pública aérea, arborização do entorno, atividades educativas com relação à saúde, cidadania, alimentação e esporte. Sempre com foco na qualidade de vida e bem-estar das pessoas, Luciano está convicto de que no Sesc “agrupamos um conjunto de ações, procedimentos e programas que lhe permitiram um avanço na sustentabilidade em áreas que envolvem design arquitetônico e de sistemas, especificação de materiais, operação e manutenção”.

Para Luciano, do Sesc, a preocupação com a sustentabilidade não é de hoje

Neo Mondo - Setembro 2008

A


Especial - Construções Sustentáveis

Habitante

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Consciente

em construções convencionais É possível adotar uma postura ambientalmente correta sem ter que reconstruir a casa Rosane Araújo

M

orar em uma construção convencional não é desculpa para deixar de lado os conceitos de sustentabilidade. Com mudança de hábitos e simples trocas de equipamentos é possível deixar o lar mais integrado com o meio ambiente. “Se somente as pessoas que moram em edifícios projetados adotarem conceitos de sustentabilidade teremos um cenário muito infeliz, já que, mesmo em países desenvolvidos, este tipo de construção representa menos de 1% das habitações”, opinou a professora doutora da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP, Vanessa Gomes, especialista em Projetos de Construções Sustentáveis . Para ela, as principais melhorias podem ser feitas na gestão da água e da energia. A própria escolha dos eletrodomésticos da residência pode

ser pautada pela economia, já que, há mais de 20 anos, o país possui o Selo Procel cujo objetivo é orientar o consumidor no ato da compra, indicando os produtos que apresentam os melhores níveis de eficiência energética dentro de cada categoria. “No caso da economia de água, o que consome mais são os vasos sanitários e o chuveiro. Hoje já existem válvulas de descarga com dois volumes de limpeza, não sendo necessário o uso da caixa de descarga. Já para os chuveiros existem reguladores de vazão que podem ser implantados, com custo baixo e que diminuem a quantidade de água consideravelmente”, disse. Segundo ela, muitas vezes o que desestimula a implantação deste tipo de recurso é que as pessoas comparam com a economia imediata que terão na conta de água e luz, uma postura incorreta. “Não pagamos o valor real dos bens

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Especial - Construções Sustentáveis

como água e energia. Se pensarmos que estes são produtos cuja oferta está diminuindo, pelas regras de mercado, os preços deveriam estar subindo, mas isso não acontece, pois o setor é muito subsidiado”, comentou. Outras saídas para adaptação das construções é o investimento em pequenas reformas, incluindo substituição de artigos cromados, cujo impacto é grande, recusa de móveis com tratamentos de couro, que geralmente possuem alta toxicidade, opção por produtos de madeiras certificadas, substituição de lâmpadas incandescentes por fluorescentes, entre outras. Segundo Vanessa, sistemas de aproveitamento de água da chuva e de aquecimento solar também são simples de

IDHEA

Sistema de capatação de água de chuva é de simples implantação e já muito utilizado em algumas regiões do nordeste.

serem implantados, ao contrário dos de reuso da água, que necessitam de investimento e assessoria especializada. “No caso da água de chuva, já é bastante utilizado no Nordeste, enquanto o de aquecimento solar já tem tecnologia consolidada”, afirmou. Maus hábitos utilizados na limpeza das residências também devem ser combatidos por habitantes com consciência ambiental. A utilização de produtos de limpeza à base de solvente ou cloro deve ser evitada, pois podem causar danos à saúde. Produtos à base de água ou mais diluídos devem ter preferência.

Atentar para o clima do lado de fora da casa pode evitar uso desnecessário do ar condicionado ou mesmo de iluminação exagerada. “Tudo é uma questão comportamental. O reaproveitamento de concreto já é feito há muito tempo no Brasil, mas antes não era divulgado, porque as pessoas não recebiam bem. Hoje isso é visto como uma vantagem porque há uma preocupação com a destinação dos resíduos. Existe a consciência de que qualquer processo de produção de qualquer coisa tem que considerar os impactos do processo como um todo” teorizou.

Habitante Consciente Pequenas ações que fazem a diferença • Optar por eletrodomésticos com o selo Procel, que aponta níveis de eficiência energética; • Atentar para o consumo de vasos sanitários e chuveiros, se possível, incrementando reguladores de fluxo; • Tintas, lâmpadas, móveis, tudo deve ser pensado considerando o impacto ambiental; • Abrir janelas com frequência ajuda a melhorar a qualidade do ar e evita aparecimento de fungos; • Procurar interagir com os elementos do edifício pode evitar desperdício, como utilização do ar condicionado em dias frescos, utilização da luz solar ao abrir cortinas, etc. • É sempre válido lembrar um dos principais conceitos da sustentabilidade: REDUZIR- REUTILIZAR – RECICLAR Fonte: Profª Vanessa Gomes 34

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Natascha Trennepohl

Correspondente especial de Berlim – Alemanha

Construções Sustentáveis:

o Green Building no Brasil

O compromisso ambiental validando a construção sustentável.

S

ustentabilidade é a palavra de ordem na construção civil. A preocupação com os resíduos gerados, as emissões de CO2 e a economia de água e energia ganharam destaque na pauta de discussões das construtoras. Esse setor é um dos que mais consomem matéria-prima e acaba sendo responsável por boa parte do uso de água e energia, bem como pela geração de resíduos provenientes de construções e demolições, totalizando milhões de toneladas anualmente. As soluções sustentáveis, como o uso racional da água, o controle das emissões de CO2 e a economia de energia, fazem bem para a imagem e o bolso da empresa. Os índices Dow Jones de Sustentabilidade (Dow Jones Sustainability Indexes) mostram que as empresas com responsabilidade ambiental estão se diferenciando no mercado de ações e se beneficiando por serem conhecidas pelas suas preocupações ambientais. O conceito de sustentabilidade está relacionado com a integração de três aspectos distintos: ambiental, econômico e social. Quando o termo é aplicado na construção civil, ele deve estar presente desde o início, ainda na elaboração do projeto, e acompanhar todo o funcionamento do empreendimento. Assim, não só os arquitetos, projetistas e engenheiros devem estar familiarizados com o tema e cientes da sua necessidade e aplicabilidade, mas também os consumidores, na medida em que fazem um investimento inicial maior, porém com um baixo custo de funcionamento e um retorno ambiental garantido a longo prazo. A construção sustentável não é apenas sinônimo de tecnologia de ponta e de alto custo, como o conceito ZEB (Zero Energy Building),

no qual o prédio gera a energia que consome. Mas, também, de atendimento a pequenos detalhes que fazem a diferença ao diminuírem o desperdício e, ainda, potencializarem o desempenho dos recursos empregados. O reaproveitamento da água doméstica e a utilização das águas pluviais para a irrigação do paisagismo e para o abastecimento das bacias sanitárias são exemplos de soluções sustentáveis. Em outubro de 2008, foi assinado, em São Paulo, o Protocolo da Construção Civil Sustentável. Trata-se de uma cooperação firmada entre Estado, FIESP e alguns sindicatos e associações de São Paulo, tendo como objetivo a consolidação do conceito de desenvolvimento sustentável na construção civil. As partes que aderiram ao protocolo se comprometeram a orientar os empreendedores a cumprirem a legislação ambiental e a introduzirem critérios sócioambientais em suas atividades, visando minimizar os impactos ao meio ambiente. A adesão das empresas ao protocolo é voluntária e as práticas sustentáveis devem ser priorizadas em cinco pontos: projeto e desempenho, insumos, resíduos, desenvolvimento urbano e relacionamento. No quesito projeto e desempenho, deve ser considerado o uso racional dos recursos naturais na concepção dos empreendimentos. Dessa forma, é possível construir de modo a utilizar a iluminação e a ventilação natural, bem como usar fontes de energia renováveis, garantindo eficiência energética. Quanto aos insumos, deve-se priorizar a madeira de reflorestamento e a utilização de produtos (areia e brita) de empresas licenciadas. No tópico resíduo, é mencionada a Resolução CONAMA 307/02, a qual estabelece critérios para essa gestão na construção civil. Assim, os resídu-

os de demolições e das fases da obra devem ser encaminhados para beneficiadores licenciados. Por fim, os quesitos desenvolvimento urbano e relacionamento dizem respeito ao parcelamento do solo, minimizando-se a supressão de vegetação nativa, e à adoção de uma postura pró-ativa na conscientização ambiental e divulgação do protocolo. As construções sustentáveis, ou Green Building como são chamadas em âmbito internacional, podem receber certificações, como a realizada pelo USGBC (United States Green Building Council) baseada nas normas do LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) e com isso atestar compromisso ambiental. Tais certificações são disseminadas no mercado nacional através do GBC Brasil, o qual pretende propor ao USGBC uma adaptação das normas LEED à realidade brasileira. Em outubro de 2008, um edifício no Rio de Janeiro recebeu a certificação LEED da USGBC e representou um marco para o mercado imobiliário. O impacto ambiental da construção foi minimizado a partir da instalação de vidros isotérmicos, controle de ar-condicionado individual, tratamento do ar exterior por filtragem, descontaminação do solo, vagas especiais para veículos de baixa emissão de gases etc. Como pode se perceber, essas novas referências do setor são uma excelente forma de construir o ano de 2009 voltado para a responsabilidade ambiental. Natascha Trennepohl Advogada e consultora ambiental Mestre em Direito Ambiental (UFSC) Doutoranda na Humboldt Universität (HU) em Berlim Neo Mondo - Fevereiro 2009

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Especial - Construções Sustentáveis

Sustentabilidade

e se faz

Educação é matéria-prima de mudanças, em que a pesquisa faz a sua parte. Gabriel Arcanjo Nogueira

S

e o País parece ainda engatinhar no quesito construção sustentável, não é o que acontece em instituições de ensino superior como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e o Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). Oreste Bortolli Jr, professor doutor do Departamento de Projeto na FAU, fala do prédio “vivo”, projeto escolhido entre 20, voltados à sustentabilidade, participantes de processo seletivo na PróReitoria de Pesquisa da universidade paulista (ver números desse projeto no Quadro). E avisa: “a FAU não engatinha no tema”. Elaborado no Laboratório de Informatização de Acervo de Arquitetura (Labarq) da FAU e desenvolvido pela coordenadora desse laboratório, professora doutora Marlene Yurgel, com o vice-diretor, professor doutor Marcelo Romero, e o professor doutor Eduardo de Jesus Rodrigues, a iniciativa tem a participação de estagiários e alunos da Faculdade. O edifício ficará no campus Butantã, em terreno que resultará em 7,4 mil m2 de área construída, com subsolo, térreo, 3 pavimentos e cobertura técnica. Tudo em 3 blocos funcionais capazes de manter tanto uma independência relativa como uma interatividade. “Dois vazios entre os blocos funcionam como túneis verticais de iluminação e ventilação”, adianta o professor doutor. Estão previstos no projeto um auditório, local de exposições e de encontro, além de laboratórios e salas de aula.   Oreste define o conceito que está na essência do prédio “vivo”: ser auto-susten36

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tável, o que significa ser automático em seu todo, com o gerenciamento preciso dos equipamentos e sistemas de climatização, iluminação, geração de energia, aquecimento e consumo de água quente e fria. Se não bastasse, a obra “será também um artefato didático para a pesquisa de projetos e edificações auto-sustentáveis”. Entre as inovações do projeto da FAU, o professor doutor cita o uso de coletores fotovoltaicos, para a geração de eletricidade, “na forma de placas em painéis posicionados na cobertura, com outras placas destinadas a reter o calor para o aquecimento da água”. Outro dispositivo, este de forma paraboloide, se destina ao fornecimento de ar condicionado. Excedente de luz e menos água “A previsão de consumo é de 245 mil quilowatts/hora por mês, obtidos dos painéis fotovoltaicos. O sistema solar acaba por gerar um excedente de luz durante o dia para ser aproveitado à noite”, contabiliza Oreste. Com experiência em Arquitetura e Urbanismo no país e no exterior, ele lembra outra novidade no projeto: estão previstas turbinas eólicas de pequeno porte para a geração de eletricidade. E esclarece:  “Com a instalação de equipamentos especiais de torneiras e válvulas com sistemas antidesperdício, pelos cálculos do projeto, o consumo de água tratada poderá ser reduzido em até 30%´”. Além do que, a água utilizada nos vasos sanitários será captada da chuva armazenada na cobertura.

Persianas e paisagismo O prédio “vivo” leva em conta outras inovações. A exemplo das persianas, a ser colocadas na parte exterior das fachadas. “Elas servem como elementos de proteção solar, cujo controle será automizado por meio de sensores, ou seja, abrirão e fecharão de acordo com a intensidade da luz solar”, afirma Oreste. Para o tratamento paisagístico, “serão adotadas espécies vegetais que se adaptem ao solo e clima da Cidade Universitária e que sobrevivam somente com as águas da chuva”, explica.   Amplas opções Da graduação à pós, o IMT, cujo campus fica em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, oferece amplas opções. “Durante o curso de graduação de Engenharia Civil, nossos alunos têm a oportunidade de realizar visitas tecnológicas na área da construção civil para vivenciar a atividade profissional na prática. Os conceitos sobre a sustentabilidade são inseridos nas disciplinas de graduação. Na pós-graduação lato sensu, o Instituto oferece, desde 2006, um MBA na área com o título de Gestão Estratégica do Meio Ambiente. Na graduação temos ainda, desde 2007, um Curso Superior de Tecnologia, com duração de dois anos, com o título de Gestão do Meio Ambiente”,  afirma o reitor do Centro Universitário do IMT, professor doutor Otávio de Mattos Silvares. O IMT  buca  oferecer uma formação ampla e generalista sobre Engenharia Civil e Meio Ambiente, de modo a  colocar no


se Aprende -

- na escola mercado profissionais comprometidos com o desenvolvimento sustentável. “Do projeto até a execução final da construção”, ressalta o professor doutor Márcio J. Estefano de Oliveira, do curso de Engenharia Civil. Ele considera positivo o fato de questões ambientais  serem tema de discussões em escolas desde o ensino fundamental. Cuidados com a sustentabilidade “A educação é a matéria-prima principal para impulsionar as mudanças. Entretanto, quando se fala em construção sustentável, outros cuidados devem ser tomados, como não confundir sustentabilidade com economia de projeto, redução de mão-de-obra especializada, dispensa de consultores, economia de material e de outros insumos necessários”, diz.  A preocupação do professor doutor faz sentido porque o setor da construção civil anda no fio da navalha. “Quando se fala que é o que mais impacta o meio ambiente” (com todas as implicações negativas de ocupação de áreas de risco, desmatamento, geração de poluentes e resíduos de construção e demolição), “no entanto, é também aquele que mais benefícios traz à população com ha-

bitações, edifícios de todo tipo e obras que reduzem os impactos ambientais”.  A capacidade inesgotável do ser humano de encontrar soluções  de problemas é posta à prova a todo momento. O ensino de engenharia civil é prova disso, ao englobar na área da construção civil disciplinas como materiais de construção, construção de edifícios, instalações prediais, sistemas construtivos, tecnologia das construções, arquitetura, topografia, construções  pesadas e outras. São disciplinas que, no entender de Estefano, “além de apresentarem o conteúdo, especificam e discutem a maneira otimizada de se construir, ou seja, o dimensionamento e práticas construtivas que evitem desperdícios e minimizem o consumo de energia. Nosso aluno recebe informações que auxiliam na concepção de projetos mais sustentáveis”. Estudos de caso Entre os diferenciais dos cursos do IMT o professor doutor ressalta a combinação do preparo do corpo docente com a realidade do mercado: “Atuamos na concepção de projetos que sejam compatíveis com as novas exigências ambientais ditadas por

O prédio ‘ vivo´ será um artefato didático para a pesquisa de projetos de edificações auto-sustentáveis

Oreste, da FAU-USP: inovações do projeto mostram que instituição não engatinha no tema

legislações brasileiras e internacionais. Os conhecimentos dos professores são adquiridos pelos alunos em aulas e estudos de caso, que são a base e o subsídio importante em sua futura vida profissinal”. Seu colega de cátedra, professor Hélio Narchi,  lembra a importância de atividades desenvolvidas nos cursos de Engenharia Civil na linha da construção sustentável. “Nos últimos anos abordamos temas como impacto ambiental de urbanizações, utilização de águas de chuva em empreendimentos habitacionais, condomínio ecológico e gestão ambiental na implantação de edifícios. Narchi lamenta que “ainda não haja normas, regulamentações legais suficientes para o amplo escopo de temas abrangido pela construção sustentável”, mas reconheNeo Mondo - Fevereiro 2009

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Especial - Construções Sustentáveis

Campus do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia forma alunos preparados para contribuir com o desenvolvimento sustentável 

ce que as “certificações, em especial as da linha ISO 14000, são instrumentos muito eficientes para alavancar a sustentabilidade na construção. Muito embora sua aplicação se restrinja a poucas empresas do setor, longe de atingir pequenos construtores”. “Pensar ambientalmente” Nem tudo está perdido, porém, mesmo ao considerar que a construção sustentável está longe de fazer parte da ordem do dia de construtoras, empresas em geral, cidadãos e ONGs. O professor faz coro com outros segmentos, como o dos organismos certificadores (ver matéria  na página 14), que apontam entre os grandes desafios a falta de informação e conscientização da importância do tema. Mas vê a ação de órgãos públicos de licenciamento ambiental como algo que pode ajudar muito o desenvolvimento da sustentabilidade na construção. Narchi cita o Semasa, de Santo André, no ABC Paulista: “Nos casos previstos pela lei local, edifícios  habitacionais ou comerciais são objeto de licenciamento ambiental em que são exigidos  do empreendedor o equacionamento de questões. Entre outras, a gestão adequada de resíduos de construção, o reuso das sobras que ficam nas caixas de retenção de águas pluviais e o controle dos principais impactos causados pela obra”. Um conjunto de medidas, na avaliação do professor, que faz “o empreendedor pensar ambientalmente na obra como um todo - cenário ideal para a implantação dos conceitos de sustentabilidade”. Se no setor público há bons exemplos, a iniciativa privada também faz a sua parte, como a produção de literatura técnica disponibilizada pelo Sinduscon a 38

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seus associados, de modo a incentivá-los na prática da sustentabilidade. A lupa do professor do IMT não deixa escapar nada: “Há ainda os programas de qualidade de

Reitor Otávio de Mattos Silvares: da graduação ao MBA, passando por curso de tecnologia, as opções são amplas

obra desenvolvidos por entidades públicas e privadas, que embora não visem exatamente o tema da sustentabilidade, abordam questões a ele relacionadas”.

Pesquisa permite avanços Roberto de Souza, engenheiro civil e doutor pela Escola Politécnica da USP, lembra a importância das pesquisas tecnológicas como aliadas do setor produtivo no desenvolvimento da construção sustentável. Mesmo porque, argumenta, em “todo o mundo, e em especial no Brasil, o assunto é novo e o desenvolvimento de produtos requer investigação, ensaios e validação, antes de serem aplicados em larga escala no mercado”. Roberto, que é diretor-presidente do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), empresa associada ao Instituto Ethos, USGBC, GBC Brasil e CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, destaca o papel que as universidades representam. Sobretudo porque “realizam pesquisas no campo dos materiais, sistemas construtivos, eficiência energética, conforto ambiental, economia de água e modelos de avaliação da sustentabilidade”.  As iniciativas acadêmicas somam-se às da indústria de materiais, por exemplo. Setor que “também faz a sua parte, ao desenvolver produtos e sistemas com características sustentáveis, já disponíveis no mercado”, afirma o especialitsa. Entre outros, ele cita componentes hidráulicos economizadores de água, componentes elétricos economizadores de energia, sistemas construtivos industrializados que combatem o desperdício e componentes de revestimentos fabricados com materiais reciclados. Embora exista uma infinidade de tecnologias em uso, das quais o mercado já tem domínio, Roberto acredita que seria necessário ampliar o seu alcance. “As dificuldades em sua adoção muitas vezes estão ligadas ao investimento necessário. Por outro lado, o aumento da demanda por produtos sustentáveis tem provocado uma diminuição significativa desses custos; há também o surgimento de novos fornecedores e com melhores preços”, conclui. Números do prédio “vivo” → em 2007, a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP recebeu 20 projetos; dos 20, 10 são selecionados → o projeto da FAU, cujo mentor é o vice-diretor prof. dr. Marcelo Romero, é o escolhido → encaminhado à Finep, o projeto recebe verba de R$ 700 mil da financiadora do Ministério da Ciência e Tecnologia → a Reitoria da USP destina R$ 5 milhões ao projeto → a soma desses recursos é suficiente para a construção das fundações → o custo estimado da obra é de R$ 20 milhões → a inauguração do prédio está prevista para 2011 → empresas privadas interessadas em parcerias para efetivar o projeto podem contatar oreste@usp.br Fonte: FAU-USP 


Técnicas e Padrões

Terence Trennepohl

de Construções Sustentáveis O padrão verde atinge o segmento da construção

U

m exemplo da utilização de técnicas ambientalmente limpas começa a ser adotado no Brasil. Trata-se do ‘padrão verde de construção’, conhecido com LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Esse processo foi criado em 1998 e desenvolvido na América do Norte pelo U.S. Green Building Council (USGBC), e prevê um conjunto de normas para a construção ambientalmente sustentável. Desde que foi criado, o LEED já certificou mais de 14.000 projetos de construção, em todos os 50 estados americanos e mais de 30 países. Nessa esteira da certificação, vários governos estaduais e municipais dão vantagens fiscais a quem utiliza os padrões LEED, e um grande número de prédios governamentais nos Estados Unidos exigem empresas que sigam esses padrões. Depois do sucesso do LEED, a Unilever se uniu ao WWF (World Wildlife Fund) para criar a MSC (Marine Stewardship Council), com o objetivo de oferecer eco-selos confiáveis aos consumidores a fim de manter o mercado ambientalmente correto e evitar boicotes. A MSC funciona pressupondo voluntariedade e auditorias de certificação por organizações certificadoras. Em 1992, a União Européia (EU Ecolabelling Scheme) editou a Regulação 880/92, prevendo que as indústrias que

a ela aderissem fizessem produtos menos poluentes e que informassem aos seus consumidores sobre o impacto do produto que estavam adquirindo. Essa Regulação continha disposições no sentido de determinar que as empresas informassem todo o ‘ciclo do produto’, a fim de mostrar seu impacto para o meio ambiente. Joseph Stiglitz, assessor do governo americano na era Clinton e EconomistaChefe do Banco Mundial até 2000, sugeriu um sistema de certificação similar para as madeiras nobres oriundas de países tropicais, em razão do desmatamento ilegal e da imensa degradação ambiental. Propôs que a madeira fosse cortada e beneficiada de forma sustentável para que as presentes e futuras gerações pudessem aproveitar seus benefícios (ambientais e econômicos). Nesse sentido, a madeira extraída fora dos padrões convencionados não encontraria mercado. No Brasil, o selo que garante a extração legal é fornecido pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal, o FSC. O selo FSC (Forest Stewardship Council) certifica áreas e produtos florestais. Na verdade, o Forest Stewardship Council não é brasileiro. É uma organização internacional não lucrativa, criada em 1993, com sede na Alemanha e patrocinada por diversas empresas, fundações e organizações não-governamentais. O Conselho Brasileiro de Manejo

Florestal (FSC/Brasil) é uma organização nãogovernamental (ONG), sem fins lucrativos, e reconhecida como uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). O objetivo maior do FSC no Brasil é facilitar o manejo sustentável das florestas brasileiras conforme os princípios e diretrizes do desenvolvimento sustentável. Essa certificação florestal serve para garantir que a madeira utilizada em determinados produtos foi originada dentro de processos de manejo sustentável, de forma ecologicamente correta, atendendo a toda legislação ambiental vigente. A observância a esses standards deve orientar a atuação empresarial, haja vista o irreversível mundo globalizado em que se vive, pois o comércio internacional virou prática corriqueira para qualquer consumidor em potencial. Diga-se de passagem, as empresas que participaram da formação do FSC incluem a relação de grandes produtores e beneficiadores de madeira, dentre eles: a Home Depot (maior varejista de madeira de construção do mundo); a Lowe’s (segunda maior varejista de madeira); a Columbia Forest Products (uma das maiores empresas de produtos florestais dos Estados Unidos); a Kinko’s (maior fornecedor mundial de serviços de escritórios e cópias de documentos); a Collins Pine e Kane Hardwoods (um dos maiores produtores de cerejeira do mundo); a Gibson Guitars (um dos maiores produtores de violões do mundo); a Seven Island Company (que administra 400 mil hectares de floresta no estado do Maine/USA); e a Andersen Corporation (maior fabricante mundial de portas e janelas). Com isso, vê-se que as construções sustentáveis apontam para um irreversível caminho em prol do meio ambiente ecologicamente equilibrado. Advogado de Martorelli e Gouveia Advogados Professor da UFPE Mestre e Doutor em Direito (UFPE) E-mail: tdt@martorelli.com.br Neo Mondo - Fevereiro 2009

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Especial - Construções Sustentáveis

Hotelaria

SUSTEN

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TÁVEL

Mais do que um produto, um conceito de negócio e de vida. Liane Uechi

D

esde o relatório de Brundtland, encomendado em 1983 pela Assembléia das Nações Unidas como tema de Meio Ambiente e Desenvolvimento, a sustentabilidade passou a permear como eixo central a linguagem internacional. Todos os segmentos da economia passaram a colocar o assunto em sua pauta e agenda. O mesmo ocorreu com o turismo, que passou a ser valorizado por ações que garantissem negócios “ecologicamente suportáveis em longo prazo, economicamente viáveis, assim como, éticos e socialmente equitativos para as comunidades locais” (Organização Mundial de Turismo). Desse modo, há várias iniciativas no Brasil onde recantos da natureza antes intocados são hoje explorados de forma sustentável, gerando ganhos econômicos e sociais, sem abrir mão da preservação da natureza. Mas há ainda alguns exemplos surpreendentes que assumiram a responsabilidade de recriar espaços naturais e restabelecer sistemas ecológicos. Foi isso que fez o empresário paulista Luiz França de Mesquita. Numa área de um milhão de metros quadrados, constituída basicamente por pasto seco, ele comandou ao longo de 10 anos um re-

florestamento com espécies nativas que fez surgir bosques, recantos, trilhas ecológicas e proporcionou o retorno de inúmeros animais silvestres. Só então implantou o Canto da Floresta Hotel, um resort ecológico, no Circuito das Águas, em Amparo, no interior de São Paulo. Mesquita, antes de falecer em 2008, pode comprovar os resultados desse sonho, que trouxe vida e verde àquele trecho dos contrafortes da Serra da Mantiqueira. Conforme explicou sua filha, Fernanda Mesquita Berkovit, que atualmente divide a administração do empreendimento com o irmão Luiz Nogueira de Mesquita, o hóspede que visita o local, cercado por montanhas, ar puro, cortado por rio encachoeirado e marcado pela algazarra do canto dos pássaros não consegue imaginar o quadro de degradação da antiga fazenda. Mesquita acredita que todo o trabalho desenvolvido demonstra que a discussão da sustentabilidade no turismo passa necessariamente por um planejamento de longo prazo e a percepção de que o turismo sustentável não é um produto, mas um conceito interno. No caso do Canto da Floresta, a natureza encontrou um perseverante aliado cuja proposta ecológica era uma filosofia de vida. Neo Mondo - Fevereiro 2009

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Especial - Construções Sustentáveis

“Durante muitos anos, meu pai dedicou-se (nos finais de semana, férias e em todos os momentos que não se encontrava trabalhando) à missão de recuperar esse espaço. Ele respirava natureza!” – afirmou a empresária. De 1996 a 2005, deu- se a fase do reflorestamento. Foi feita uma parceria com a ONG Mata Ciliar, que trouxe o conhecimento técnico, analisou as espécies nativas e auxiliou a criação de um Viveiro, que produziu e forneceu as mudas para o plantio, com exceção das primeiras 97 mil mudas, que foram adquiridas. Fernanda relata que a idéia de construir um resort padrão cinco estrelas, que estivesse dentro de uma floresta e onde as pessoas pudessem conviver com elementos da natureza e valorizar sua preservação foi mantida durante as etapas da construção do hotel, que privilegiou materiais também de áreas de manejo, como madeiras certificadas. “Na movimentação das terras na área onde foi levantado o complexo hoteleiro, as poucas árvores que já existiam foram transplantadas e até as grandes pedras encontradas foram recolocadas após a construção” – revelou ela. A definição dos espaços internos e da decoração contemplou a milenar técnica chinesa do Feng Chuí, que harmoniza

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os ambientes, com cantos arredondados para o fluxo de energia vital, lago interno, utilização de fibras naturais na decoração, acessórios e mobiliários. Foram criados os recantos do Ar, da Terra, do Fogo e da Água, onde são realizadas vivências com esses elementos. A programação para os hóspedes inclui a educação ambiental nas trilhas, cachoeira e demais ambientes naturais. As crianças possuem um espaço denominado Fazendinha, onde podem conhecer e praticar atividades na horta orgânica, que abastece os restaurantes do hotel, alimentar as aves, participar de pesca ecológica, andar a cavalo, sempre com a proposta de integração e respeito à natureza. Até mesmo a sala de ginástica está instalada em ambiente natural, num quiosque na entrada das trilhas ecológicas. Mas a sustentabilidade envolve questões sociais, que também estão inseridas no contexto desse empreendimento. O hotel está instalado em área rural e além do desenvolvimento inerente que ocorre na região, como melhorias de infra-estrutura e geração de empregos diretos e indiretos, Fernanda explicou que o hotel mantém um projeto social há dez anos, voltado às crianças do entorno, de 5 a 15 anos,

oferecendo gratuitamente em horário contrário à escola, atividades educacionais, esportivas e culturais com base na filosofia dos Valores Humanos. Paralelamente à construção do hotel, foi erguido o Núcleo de Educação em Valores Humanos, onde são realizadas essas ações sociais. Conforme Fernanda, esse projeto mudou muita coisa, sobretudo na conscientização e comportamento da comunidade. “As crianças aprendem, mudam sua postura e influenciam a família. Temos muitas histórias que aferem esses resultados. No começo, em 1999, as crianças relatavam que tinham o hábito de atirar pedras nos animais que cruzavam o caminho. Dois anos depois, eles chegaram ao Núcleo trazendo uma pequena ave que encontraram com a pata quebrada, para que o veterinário pudesse ajudar. É um exemplo pequeno, mas que mostra uma profunda mudança no procedimento de vida” – exemplificou. Nesse espaço também são realizados atendimentos de saúde (fitoterapia e acupuntura), palestras educativas e cursos profissionalizantes para adolescentes e adultos da comunidade, formando profissionais tanto para o próprio empreendimento hoteleiro como para o mercado em geral.


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Neo Mondo Neo Mondo- Agosto - Maio 2008 2008

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Fiscal da Floresta

Um Olhar Consciente da

Amazônia

A Revista Neo Mondo vasculha as ações e devastações da Amazônia Legal Brasileira e traz as principais novidades sobre a região. Da Redação

Novo mundo a caminho

Deserto paulista

O Ibama, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, liberou uma licença definitiva para a empresa de telecomunicações Embratel para que se tornasse viável a operação de uma rede de fibras óticas na Amazônia. A implantação da rede teve início em 2005, mas atuava com uma licença ainda provisória. Após o aval, a companhia ampliou a velocidade de transmissão de dados e pretende atingir cerca de 20 mil clientes de pequeno e médio portes com serviços de acesso à internet e telefonia. Até agora, a empresa estipula que tenha gasto 100 milhões de reais no processo.

São Paulo tem um grande problema ligado à Amazônia. Com sua vocação natural para deserto, caso os desmatamentos na região amazônica não cessem, em pouco tempo, as terras paulistas, que têm o maior potencial econômico do Brasil, irão secar. Isso só não ocorreu ainda devido à umidade do Oceano Atlântico que é “bombeada” pela Amazônia para dentro do continente, sendo responsável pela irrigação da região que é responsável por 70% do PIB da América do Sul. Continuar com o desmatamento seria dar um tiro no pé dos agronegócios.

Queda no desmatamento em novembro e dezembro Nos meses de novembro e dezembro de 2008 foram registrados, respectivamente, 61 e 50 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, segundo dados do Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Os números apresentados indicam uma queda de 94% em relação a novembro de 2007 e de 27% em relação a dezembro do mesmo ano. Em novembro, os estados que mais desmataram foram Pará (60%), Rondônia (12%), Mato Grosso (10%), Acre (10%) e Amazonas (8%). Em dezembro, o estado campeão foi Mato Grosso que devastou 65% do total, seguido pelo Pará (20%), Rondônia (10%) e Amazonas (5%).

Ipê a beira da extinção A revista Biological Conservation publicou um estudo que alerta sobre o risco de extinção do ipê, madeira nobre e considerada rara nas florestas tropicais brasileiras, caso sua exploração desordenada continue. Estima-se que, apenas em 2004, cerca de 1,1 milhão de m³ de ipê foram explorados, rendendo US$ 82,8 milhões aos exploradores (cerca de 8,8% do valor total de madeira exportada da Amazônia). Um dos maiores problemas da exploração dessa madeira é a necessidade de abrir novas áreas para chegar até ela. Em 2004, mais de 600 mil hectares de florestas foA 44

Outubro 2008 Neo Mondo - Fevereiro 2009

Prêmio por estudo amazônico ram devastados na Amazônia apenas para extrair a quantidade de ipê exportada nesse ano.

Os cientistas americanos Thomas Lovejoy, diretor de Biodiversidade do Centro Heinz para a Ciência, e William Laurance, do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, ganharam, no final de janeiro, o prêmio “Fronteiras do Conhecimento” da Fundação BBVA, da Espanha, por suas pesquisas sobre a fragmentação da mata. O projeto, chamado de Biodinâmica de Fragmentos Florestais, teve início em 1979, em parceria com o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e, até hoje, gerou mais de 520 publicações científicas sobre fragmentação científica.


Outros fatores de degradação Apesar do desmatamento ser o principal motivo para a destruição amazônica, ele não é o único. A grande corrida pela apropriação das gigantescas reservas de terra e o abuso na exploração de matérias primas, principalmente minerais, também são culpados pela deterioração da Amazônia. Os critérios adotados nos modelos de exploração do bioma não levam em conta projetos desenvolvimentistas sustentáveis, conduzindo à fragmentação dos ecossistemas e à erosão da biodiversidade.

Mais de 1 milhão de assinaturas O movimento Amazônia para Sempre, liderado pelos atores Victor Fasano e Christiane Torloni, completou, no início de 2009, dois anos de existência. Nesse tempo, o programa já alcançou o apoio de 1,1 milhão de pessoas, através de assinaturas feitas pela internet em um documento que pede o cumprimento do artigo 225 da Constituição (elege a Amazônia como patrimônio nacional e diz que, portanto, é dever do governo e da sociedade mantê-la para as gerações futuras). A idéia de lançar o movimento apareceu quando Torloni e Fasano participaram da minissérie ‘Amazônia’, que foi filmada no Amazonas e no Acre e contou a história de Chico Mendes. Desde que completou 1 milhão de assinaturas, os artistas tentam entregar o documento ao presidente.

Acordo de proteção do ouro amazônico

Os últimos suspiros O, após mais de 175 mil imagens, deu seus últimos suspiros no dia 15 de janeiro, segundo o Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. As imagens do satélite eram usadas para monitorar o desmatamento na Amazônia. O CBERS-2 foi projetado para durar dois anos, mas superou a expectativa, chegando a ter uma vida útil de quase cinco. Seu serviço será continuado por sua espaçonaveirmã, o CBERS-2b, lançado em 2007. Além disso, para repor o satélite, o Inpe está adquirindo novos componentes para a produção do primeiro satélite totalmente brasileiro, o Amazônia-1. O novo “olho da Amazônia” permitirá não só a cobertura da área amazônica, mas também a cobertura completa da terra, tornando o Brasil autônomo para obter imagens de média resolução.

Pesquisa para recuperação ambiental O Embrapa Rondônia avaliou o desempenho de 11 espécies nativas da Amazônia para tentar recuperar áreas degradadas. Nos seis primeiros meses, as plantas analisadas tiveram um índice de sobrevivência superior a 99%, o que comprova que algumas espécies têm grande potencial para a recuperação dos locais. O experimento, que ainda está em andamento, está sendo conduzido numa área de 3,86 hectares, localizada no Campo Experimental de Presidente Médici, em Rondônia. Dentre as espécies plantadas, uma das que apresentou melhor desempenho foi a guapuruvú ou garapuvú, leguminosa característica da floresta atlântica, mas que também ocorre naturalmente na região amazônica, que atingiu 1,6 metro de altura.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, assinaram, no final de dezembro, um acordo para proteger a Amazônia da garimpagem ilegal. A proposta é preservar o ouro amazônico que vem sendo retirado ilegalmente da região norte do Brasil, das Guianas e do Suriname. O projeto tem o apoio de indústrias do ramo bélico e aeronáutico, além da rede ambientalista WWF (WWF-Brasil e WWFFrança), que considera a iniciativa de grande importância para o cuidado socioambiental da área.

SOS indígena Alguns índios da Amazônia entregaram, no final de janeiro, um pedido de ajuda ao Parlamento Europeu. A iniciativa tem como objetivo denunciar as precárias condições de saúde de seis tribos que vivem isoladas no Vale do Javali, no Estado do Amazonas. Após uma invasão na sala de imprensa do Fórum Social, em Belém, o porta-voz indígena declarou como “um genocídio silencioso” o que está acontecendo com essas tribos. Segundo um membro do parlamento Europeu, as condições dessas tribos são realmente precárias, nas quais mais da metade dos índios adoeceu nos últimos dois anos com hepatite e não recebeu tratamento.

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Dica

Sugestões de Livros Habitações de baixo custo mais sustentáveis: a Casa Alvorada e o Centro Experimental de Tecnologias Habitacionais Sustentáveis Autore: Miguel Aloysio Sattler Editora: Habitare O livro reúne o histórico e os princípios norteadores dos estudos sobre construções e projetos sustentáveis desenvolvidos por integrantes do Núcleo Orientado para a Inovação na Edificação (NORIE), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS ).

Além de apresentar o Núcleo e sua linha de pesquisas em Edificações e Comunidades Sustentáveis, aborda o conceito de sustentabilidade, seu caráter holístico, interdisciplinar e sistêmico. É uma obra que destaca a importância de que a moradia seja projetada e construída de acordo com a ótica, a ética e a estética da sustentabilidade.

Manual do Arquiteto descalço Autor: Johan Van Lengen Editora: Livraria do Arquiteto O livro foi escrito por um autor holandês que desistiu de uma bem sucedida carreira como arquiteto na Califórnia para fixar residência na América Latina, no ramo de moradias populares. Depois de trabalhar em várias agências governamentais, inclusive a ONU, e de ter sido professor de arquitetura solar na UNICAMP, continuou seu trabalho de desenvolvimento de tecnologias de

construção e em como transmiti-las ao usuário. Disto, resultou o “Manual do Arquiteto Descalço”, obra considerada pelos especialistas desta área como indispensável para a compreensão e emprego de tecnologias usadas na arquitetura. O autor também fundou, no Brasil, o Instituto TIBÁ, criando assim um instrumento para uma arquitetura mais integrada com a natureza.

Diálogos Geológicos: é preciso conversar mais com a Terra Autor: Álvaro Rodrigues dos Santos Editora: O Nome da Rosa O livro traz um retrospecto crítico das relações do Homem com o planeta, desde o Paleolítico aos tempos atuais, e uma coleção de textos ilustrados que expõem e discutem aspectos conceituais, metodológicos e práticos dessas relações no território

brasileiro. O diferencial está na abordagem do autor, que aplica a grande soma de seus conhecimentos para demonstrar e advogar a vital necessidade da plena e cabal consideração do fator geológico pela Engenharia brasileira.

Sem dúvida A lvissareiro Relativo a alvo, claro, esclarecedor, mais próximo da verdade.

I nsalubridade São atividades ou operações que, por sua natureza, exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos.

J ardins Suspensos da Babilônia Considerados uma das sete maravilhas do mundo antigo, os Jardins Suspensos da Babilônia eram compostos por seis montes de terra artificiais, com terraços arborizados, apoiados em colunas de 25 a 100 metros de altura. Foram construídos no século VI a.C. pelo rei Nabucodonosor, para agradar e consolar sua esposa preferida, Semíramis, que sentia saudade

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das montanhas de sua terra. Eram localizados perto do rio Eufrates, sul do Iraque, na Babilônia.

P assivo Ambiental: Corresponde ao investimento que uma empresa deve fazer para que possa corrigir os impactos ambientais adversos, gerados em decorrência de suas atividades e que não tenham sido controlados ao longo dos anos de suas operações.

P aulatinamente Algo feito aos poucos, com uma certa progressão de tempo.

P eríodo Neolítico: Conhecido também como Idade da Pedra Polida, é o período da Pré-História em que há o surgimento da agricultura e da atividade pastoril, acabando com a necessidade de locomoção em busca de alimentos e, consequentemente, provocando o sedentarismo dos povos (moradias fixas).

U níssono: Som reproduzido em um mesmo tom por várias pessoas.

P ericulosidade:

V alor Agregado:

São atividades ou operações perigosas, na forma da regulamentação aprovada pelo Ministério do Trabalho, que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem o contato permanente com inflamáveis ou explosivos em condições de risco acentuado.

É a percepção que o cliente (consumidor) tem de um bem (produto ou serviço) que atenda seu conjunto de necessidades considerando o benefício X preço, em comparação com um bem disponível na concorrência.


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