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NeoMondo

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um olhar consciente

Ano 2 - Nº 15 - Outubro 2008 - Distribuição Gratuita

Combustível da Vida Riscos Alimentares

Neo Mondo Kids 08

Lançamento

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Cautela

Limites Emocionais no Trânsito 38

Bomba-relógio


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Neo Mondo - Julho 2008


Seções Perfil 06 Somos o que comemos, como comemos e COM QUEM COMEMOS... O polêmico médico Hector Ricardo Ojunian afirma que o autoconhecimento é a principal ferramenta para a cura de doenças. ECONOMIA & NEGÓCIOS 12 Artigo: Pacote aprovado, mas incerteza continua Visão da crise financeira mais temida em todo mundo.

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25 Artigo: Segurança alimentar também é problema em países desenvolvidos O controle de qualidade do Japão, maior importador mundial de alimentos. 30 Farmácia na feira A ciência comprova o valor funcional dos alimentos. Comportamento Limites emocionais no trânsito Como controlar a fúria no trânsito.

42 Coluna: Leitura Socioambiental da Fotografia Urbana Pesquisa para identificar e reeducar uma sociedade de risco.

Educação Lançamento da Revista Neo Mondo Kids Primeira revista socioambiental infantil é lançada pelo Instituto Neo Mondo.

Especial - Segurança Alimentar 14 Há males que entram pela boca São muitos os cuidados a tomar na busca de uma alimentação saudável.

Mais que raiva para vencer a fome Ainda há 8,8 milhões de brasileiros na pobreza extrema. 22 Feijão e arroz não são suficientes Brasileiro não consome nutrientes de forma adequada e passa por período de fome oculta. 26 Criança precisa de energia, mas não acumulada A epidemia da obesidade atingiu as crianças. O que fazer para mudar este quadro?

17 Artigo: Ingerindo poluição Na água doce, nos oceanos, na atmosfera e no solo... A poluição está por toda parte. 21 Artigo: O saber e o sabor Noções complementares para uma definição de humanidade.

28 Cardápio dos campeões Qual o cardápio ideal para um atleta. 37 Artigo: A cultura dos 3Rs Falta de conhecimento sobre os 3Rs mostra ineficácia na educação ambiental.

34 Alimentação e produtividade, a dobradinha saudável Programa cuida da saúde e da segurança do trabalhador.

mEIO aMBIENTE

38 44 Artigo: O Licenciamento Ambiental e as Atividades Industriais de Grande Impacto Equilibrando os desafios ambientais e o desenvolvimento.

Expediente Diretor Executivo: Oscar Lopes Luiz Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Takashi Yamauchi, Liane Uechi, Livi Carolina e Eduardo Sanches Redação: Liane Uechi (MTB 18.190), Livi Carolina (MTB 49.103-59) e Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586) Estagiário: Caio César de Miranda Martins Revisão: Instituto Neo Mondo Diretora de Redação: Liane Uechi (MTB 18.190) Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo

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41 Artigo: Mecanismo de Desenvolvimento Limpo A posição do Brasil na comercialização de créditos de carbono. 45 Coluna: Um olhar consciente da Amazônia De olho nas ações e nos descasos da Amazônia Legal. 46 Dica de Livro e Sem dúvida

Publicação Correspondência: Instituto Neo Mondo Rua Caminho do Pilar, 1012 - sl. 22 Santo André – SP Cep: 09190-000 Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br redacao@neomondo.org.br trabalheconosco@neomondo.org.br classificadosolidario@neomondo.org.br Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Tel. (11) 4994-1690 Presidente do Instituto Neo Mondo: oscar@neomondo.org.br

A Revista Neo Mondo é uma publicação do Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/0001-00, reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº 08071.018087/2007-24. Tiragem mensal de 20 mil exemplares com distribuição nacional gratuita e assinaturas. Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição da revista e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo desta revista sem prévia autorização.

Errata edição 12, na pg. 25, Fátima Monteiro é psicóloga, não fonoaudióloga como publicado. Errata edição 14, na pg 24, onde se lê Parque Ecológico de Januari, lê-se Janauari Neo Mondo - Outubro 2008

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Editorial

O

Instituto Neo Mondo está em festa com o lançamento da revista Neo Mondo Kids, primeira Revista socioambiental para o público infanto-juvenil. Mostramos aqui a trajetória desse projeto audacioso e sério, que culminou com o sucesso da primeira edição, que já saiu da gráfica com a tiragem esgotada. Trazemos um caderno especial sobre a Segurança Alimentar. É bastante claro que ela é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de uma Nação, o que nos leva a refletir sobre as preocupantes notícias sobre o tema. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), houve um aumento na quantidade de desnutridos no mundo, que totalizam atualmente 923 milhões de pessoas. A fome é um sofrimento silencioso e cruel, uma tragédia vergonhosa que evidencia a injustiça. A pobreza e a exacerbada concentração de riquezas marcam a história brasileira. Ainda hoje, o governo estima que existam quase nove milhões de brasileiros em condição de miséria extrema. Mesmo assim o Brasil já alcançou sua 1ª Meta do Milênio de erradicar 50% da fome, conforme informações da ONU. Na edição de outubro da Neo Mondo, revelaremos este universo com informações sobre a soberania alimentar brasileira, conhecendo os principais projetos governamentais de combate a essa que pode ser considerada a mais triste ferida social e ao mesmo tempo a mais contraditória restrição, dada a abundância de terra, espécimes, clima favorável e riquezas naturais nativas. Desvendaremos como anda a alimentação do brasileiro, e descobrir que quantidade nem sempre

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Neo Mondo - Outubro 2008

representa qualidade e nutrição. Fomos em busca de informações sobre como utilizar os alimentos como nossos principais aliados para a cura e prevenção de doenças, assim como das melhores dietas para crianças, atletas e trabalhadores. É preciso cautela, pois, além de nutrientes, ingerimos uma quantidade cada vez maior de aditivos, como acidulantes, umectantes, corantes, estabilizantes, agrotóxicos, hormônios, e outros produtos químicos. Trazemos dados sobre os riscos desses itens cada vez mais presentes nas nossas mesas. Inauguramos duas novas editorias: o Espaço Verde Urbano, que revelará mensalmente os redutos e parques incrustados nesse Brasil, sob o olhar atento da fotógrafa PaulaLyn e, o Olhar Consciente da Amazônia, com notas e informações atualizadas sobre as principais novidades na região. O limite emocional, a gota d’água que sempre transborda no trânsito das grandes metrópoles, também é tema dessa edição. Por que os motoristas se transformam ao volante? Especialistas tentam desvendar esse processo altamente estressante que é o trânsito nas grandes cidade e, de presente para o leitor (motorista), dicas de Tai Chi Chuan, com vários exercícios que podem ser feitos dentro do carro, nas paradas dos faróis ou nos congestionamentos, que prometem aliviar a tensão. Afinal, queremos e precisamos do desenvolvimento social, mas ele deve ter, como aliados inerentes, a saúde e a qualidade de vida. Boa leitura! Liane Uechi Diretora e Redação liane@neomondo.org.br

Instituto

Neo Mondo Um olhar consciente


INFORME PUBLICITÁRIO

Setor plástico busca melhores oportunidades ABC paulista debate rumos do segmento e propicia condições para empresas fecharem novos negócios

A

competitividade global, a política industrial brasileira, a qualificação profissional, a isonomia tributária para o ramo petroquímico-plástico, a logística da região do ABC paulista, as dificuldades no fornecimento de matéria-prima para as indústrias de transformação e a preservação do meio ambiente foram os assuntos debatidos no VII Seminário do Setor Plástico do Grande ABC. A iniciativa fez parte do encontro “Grande ABC, a Capital Nacional do Plástico”, que incluiu também a III Rodada de Negócios – Plásticos. O seminário, realizado no Clube Primeiro de Maio, em Santo André (SP), contou com um público de 400 pessoas. A discussão, em formato de talk show, foi mediada pelo apresentador Adalberto Piotto, da Rádio CBN, e reuniu grandes companhias, associações, sindicatos, universidades, micro e pequenas empresas, poder público e entidades do segmento. O debate teve participação do diretor executivo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Clayton Campanhola; do coordenador de Desenvolvimento Econômico e Territorial do Governo do Estado de São Paulo, José Luiz Ricca; do diretor executivo do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Márcio Chaves; do presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas (Siresp), Vítor Mallmann; do presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abi-

plast), Merheg Cachum; e do diretor do Sindicato dos Químicos do ABC, Heli Vieira Alves. “NETWORKING” – A III Rodada de Negócios – Plásticos, mediada por Henrique Sucasas, finalista do programa “Aprendiz 5” da TV Record, reuniu 160 empresas que, por meio de um sistema dinâmico de apresentação comercial, tiveram a oportunidade de se conhecer. Elas circularam nas 13 mesas de negócios, em esquema de rodízio, com tempo determinado para apresentar seus produtos e serviços. Avaliação feita com empresários presentes apontou que 99% consideraram a iniciativa ótima ou boa, sendo que 83% aprovaram as oportunidades de negócios geradas. “Ao promovermos o Seminário e a Rodada em um mesmo dia e local, procuramos aliar teoria e prática para fortalecer o setor petroquímico-plástico, que tem um papel estratégico no ABC paulista. Trata-se de um dos segmentos que mais gera postos de trabalho na região. Só o ramo plástico emprega 18 mil pessoas diretamente. Ao debatermos os desafios que a cadeia produtiva precisa superar e oferecermos a oportunidade de novos negócios às empresas, principalmente as indústrias de transformação, estamos contribuindo para tornar, cada vez mais, o Grande ABC a capital nacional do plástico. O sucesso que obtivemos só foi possível graças ao auxílio que recebemos das empresas e instituições que patrocinaram e apoiaram o encontro”,

afirma o diretor de Desenvolvimento Econômico de Santo André, Alexandre Gaino, um dos responsáveis pelas duas iniciativas. NOVOS NEGÓCIOS – A Líder Brinquedos, uma das maiores fabricantes nacionais do setor, com sede em Mauá, na região do ABC paulista, adquiriu 12 toneladas de poliestireno (resina plástica utilizada na montagem de brinquedos) da Replas, empresa distribuidora de termoplásticos, localizada em São Paulo. A negociação ocorreu durante a III Rodada de Negócios – Plásticos. A Líder, que atua há 20 anos no mercado de brinquedos, foi uma das 13 empresas-âncoras (grandes compradoras do segmento plástico) da Rodada. A companhia, presente pela segunda vez consecutiva, fechou negócios com outros fabricantes que participaram da edição passada. Além da Líder Brinquedos, as outras empresas-âncoras foram a Brinquedos Bandeirantes (segmento de brinquedos), Copafer (construção civil), Primotécnica (máquinas), JP Indústria Farmacêutica (hospitalar), Gnatus (odontologia), Ford (montadora), Autometal (automotivo), CGE (automotivo), Coop (varejo), Betulla (cosméticos), Lip`s Sorvetes (alimentício) e Romi (máquinas). O encontro “Grande ABC, a Capital Nacional do Plástico” foi promovido pelo Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Câmara Regional do Grande ABC e Prefeitura de Santo André.

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Perfil

Somos o que comemos,

como comemos e

Terapia de autoconhecimento e cinematerapia na cura de doenças. Liane Uechi

O

tema, bastante sugestivo, pertence ao livro do médico argentino Hector Ricardo Ojunian, que reconhece ser polêmico no meio médico, por defender a cura de doenças através da alfabetização emocional. Para ele, as doenças são reflexos e escapatórias para não enfrentar os verdadeiros problemas que afligem as pessoas. Em entrevista a Neo Mondo, Ojunian, que é mestre em saúde coletiva e especializado em psiconeuroimunologia, nos fala sobre como ter uma vida sem doenças e sem medicamentos, apenas encarando de frente as dificuldades.

Neo Mondo: Quais as doenças causadas por problemas emocionais? Hector: Todas, com exceção das anormalidades genéticas e das provocadas por acidentes. As pessoas somatizam dificuldades emocionais e as transformam em problemas físicos, afinal, a manifestação física é a linguagem do corpo. Quando o indivíduo não sabe lidar com o estresse ruim da vida, ele entra num processo de exaustão, que baixa sua capacidade imunológica e a doença se manifesta. Costumo dizer que o doente é desonesto, pois utiliza a única desculpa convincente para não resolver seus problemas.

Neo Mondo: Como assim? Hector: A doença é a única justificativa aceitável para que a pessoa não trabalhe naquele emprego que detesta, é a única forma de adiar a resolução de um relacionamento ruim, é a desculpa perfeita para não ter relação sexual, etc... Neo Mondo: Mas de que doenças estamos falando? Hector: Doenças como obesidade, depressão, hipertensão, enxaqueca, pânico e as de final “ite”: (gastrite, rinite, tendinite, sinusite.....). No caso da obesidade, podemos rapidamente mudar o que comemos e como comemos, mas o problema pode estar no: “com quem comemos”, que significa ter que enfrentar um problema e tomar atitudes. Neo Mondo: Mas esse é um processo inconsciente? Hector: Claro, e o tratamento é exatamente tornar a pessoa consciente disso, através do que chamo de “Alfabetização Emocional”, e ao encarar o verdadeiro problema que está promovendo a doença, inicia-se o processo de cura.

Hector Ricardo Ojunian

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Neo Mondo: Essa não é a mesma linha utilizada nas sessões de psicanálise? Hector: Sim, mas grande parte da população não tem condições financeiras de arcar com os custos desse tratamento. O trabalho que desenvolvo é acessível à população e aplicado na saúde pública e deveria existir no país todo. Isso reduziria o alto custo da saú-


COM QUEM COMEMOS... de pública atual. Essa linha que adoto vem ocupar uma lacuna entre o trabalho desenvolvido pelo psicólogo (que não tem todos os conhecimentos) e do médico (que não faz a leitura da psicologia). Muitas pessoas que procuram os serviços médicos querem unicamente ser ouvidas, mas isso não acontece nos consultórios e ambulatórios. Neo Mondo: Como é esse tratamento e onde é realizado? Hector: Esse tratamento existe há 16 anos e está implantado na Baixada Santista – Santos , São Vicente e Guarujá – através de reuniões coletivas abertas ao público, gratuitamente, conforme já disse. Nesses encontros, torno as pessoas conscientes desse processo que gera doenças, através da interatividade entre os participantes. Elas são convidadas a iniciar um processo de questionamentos e de autoconhecimento. Enfrentar os problemas é algo trabalhoso e muitas vezes doloroso, e nem sempre as pessoas optam por esse caminho. Esse processo de cura pode ser comparado a uma Usina de Reciclagem de Lixo Emocional. Neo Mondo: Quais as etapas desse tratamento? Hector: O primeiro princípio dessa cura passa pela alfabetização funcional, ou seja, conseguir interpretar o que lê e ter consciência política. O segundo é ter plena definição de sua identidade sexual. O terceiro é buscar a satisfação na sua vida afetiva sexual. O quarto passo é a cidadania e o exercício de deveres e também de direitos, que

Já receitei aos meus pacientes visitas a advogados

precisam ser reivindicados. O quinto é a inserção no mercado de trabalho, pois a pessoa precisa ser capaz de se sustentar, de gerar renda, ser incluída socialmente. E finalmente, o sexto princípio que é o de aprender a se relacionar e se for o caso, conseguir sair inteiro dessa relação. Em síntese, as pessoas precisam deixar de remoer pensamentos e passar a agir. Neo Mondo: Como utiliza o cinema nesse tratamento? FILME

Hector: Acredito que o cinema seja a arte que melhor imita a vida. Receito a cinematerapia no tratamento, pois auxilia no combate às mágoas e inspira as mudanças de atitudes. Filmes como Shirley Valentine, Sociedade dos Poetas Mortos, Don Juan DeMarco, Muito Além do Jardim, Música do Coração, O Oitavo Dia, entre outros, falam de auto-estima, desafios, monotonia sentimental, resgatam a sensibilidade e estimulam a adoção de novas atitudes. (ver alguns exemplos no quadro abaixo).

HISTÓRIA

NO QUE AJUDA

Shirley Valentine

Dona-de-casa casada com um homem grosseiro, que consegue redescobrir sua identidade numa viagem à Grècia

Gera a identificação de muitas mulheres nessa condição, estimulando-as a recuperar a auto-estima e a buscar novas alternativas para suas vidas.

O Oitavo Dia

Empresário bem-sucedido, mas Um convite ao resgate da sensibiinfeliz afetivamente, repensa lidade e a um novo estilo de vida, seus valores ao dar carona a um menos competitivo e material e muito mais prazeroso jovem com síndrome de down

Don Juan DeMarco

Psiquiatra entediado tem sua vida sentimental abalada com o convívio de um paciente que julga ser Don Juan

Questiona e estimula questões em relacionamentos conjugais que tenham caído na monotonia

Muito Além do Jardim

Jardineiro humilde é descoberto por um político que vê em seus ensinamentos sobre plantas, mensagens preciosas para a vida pública

Ajuda a formar consciência política e a entender como alguns homens públicos manipulam fatos e pessoas em favor de seus interesses particulares

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Educação

Instituto Neo Mondo lança primeira Revista socioambiental infanto-juvenil. Da Redação

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o dia 9 de outubro ocorreu o lançamento da Revista Neo Mondo Kids, em Santo André – SP, com a participação de aproximadamente 1000 crianças, alunos da escola Pueri Domus, Unidade Jardim, em Santo André. A iniciativa surgiu para preencher uma lacuna existente no mercado editorial, em publicações especializadas nas questões socioambientais voltadas para crianças e adolescentes. “Desde o lançamento, em 2007, da Revista Neo Mondo, recebemos uma crescente solicitação de exemplares por parte das universidades e faculdades, para utilização das mesmas nas discussões nos meios acadêmicos. Os temas abordados também começaram a chamar a atenção de escolas públicas, privadas e bibliotecas municipais” disse a diretora de redação, Liane Uechi. Em função dessa demanda e pensando no público mais jovem, a idéia da criação da Neo Mondo Kids ganhou força e veio ao encontro de um antigo sonho do presidente do Instituto, Oscar Lopes Luiz. “O Brasil precisava de um canal de divulgação especializado e que fomentasse conceitos de sustentabilidade também para as crianças, de uma forma pedagógica e lúdica” – declarou ele, que espera dessa forma, contribuir na conscientização das novas gerações para práticas éticas e a importância da preservação do planeta. E assim, com uma linguagem adequada a esse público, com conteúdo fundamentado em diretrizes pedagógicas e com propostas de atividades interativas, a primeira edição da Neo Mondo Kids chegou ao mercado com grande aceitação por parte de empresas, que

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Um Mundo diferente a distribuíram junto aos filhos de funcionários e também pelas escolas, que a adotaram como material de apoio pedagógico. O planejamento e execução da Revista envolve uma equipe de dezessete profissionais, jornalistas, designers gráfico, ilustrador, mestres em educação, autores literários infantis, pedagogas, professores, dentre outros, que alinharam suas expertises e conhecimentos para criar a primeira revista brasileira socioambiental para o público infanto-juvenil. Com periodicidade bimestral, a Neo Mondo Kids será comercializada a R$ 8,50, através de assinaturas individuais e planos especiais de assinaturas corporativas. MANUAL DO PROFESSOR A partir da segunda edição, a revista receberá um encarte dirigido ao professor, com instruções e orientações para a utilização do conteúdo oferecido. Desse modo, cada proposta sugerida e tema abordado virão acompanhados de um método de aplicação pedagógica, o que também é uma novidade nesse tipo de veículo de comunicação. ABORDAGEM DIFERENCIADA As questões sociais e ambientais são temas de extrema importância educacional nos dias atuais e precisam ser trabalhados e assimilados desde cedo para gerarem mudanças nas atitudes das gerações futuras. “Tivemos o cuidado e a preocupação de envolver nesse projeto profissionais das áreas de comunicação e pedagogia com bastante experiência nessas causas” – disse Liane. A Revista concilia textos, jogos, brincadeiras, construção de brinquedos, entrevistas jornalísticas e variadas propostas interativas para participação dos leitores.

Personagens

Dr. Wilber

Entrevistador

Chef Pimentão

Little Joe

Dona Cultura Os Amigos

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Educação

Crianças com os seus exemplares, no lançamento da Neo Mondo Kids Foram criadas quatorze editorias e várias delas ganharam personagens, idealizados pela professora de educação artística e ilustradora Lisie de Lucca. São eles: o Dr. Wilber, o Little Joe, os Amigos, o Chefe Pimentão, a Dona Cultura, dentre outros. Lisie explicou que ilustrar é buscar identificação com o mundo infantil. “O que me encanta na ilustração é a possibilidade de dar forma a um universo criativo capaz de fazer a criança se identificar com os assuntos trazidos pelos personagens. O desenho torna os assuntos mais atraentes ao olhar da criança um vez que fomenta a imaginação e a curiosidade. Por isso, espero que Dr.

Wilber, Dona Cultura e sua turma sejam companheiros dos pequenos leitores na aventura do conhecimento.” - disse ela. A professora de inglês Giane Goulart, responsável pela coluna Soltando a Língua, explicou que através de um veículo de comunicação é possível trabalhar o idioma inglês de maneira prazerosa, aguçando a curiosidade e a vontade de aprender outra língua e, dessa forma, se comunicar com o mundo.” A professora Michelle Rascalha explicou que o Professor Dr. Wilber, um simpático patinho de pelúcia, já era utilizado como mascote nas suas aulas de

Ciências. “Ao transformá-lo em um dos personagens, a intenção foi chamar a atenção das crianças para as causas ambientais e, acima de tudo, despertar a simpatia e o interesse pelo conhecimento científico que está por trás da Ecologia” - disse ela. Os personagens trazem informações e curiosidades que podem dar suporte a conteúdos trabalhados em sala de aula, através de uma linguagem acessível às crianças e de fácil compreensão. No caso dos textos do Dr. Wilber, segundo Michelle, é possível disparar pequenos projetos de pesquisa, elaboração de trabalhos ou até mesmo discussões para sensibilizar os alunos a desenvolverem campanhas em prol da qualidade de vida, do meio ambiente e da valorização de espécies, que podem ser encontradas nas redondezas da escola (ou dentro dela), como pássaros, insetos e plantas. O intervalo cultural é outro atrativo na revista. Formulado pela pedagoga Ana Claudia Bertolani de Andrade, propõe jogos e brincadeiras como forma de aprendizado. “A exploração de atividades lúdicas tem estreita ligação com o desenvolvimento afetivo e intelectual da criança e, na Neo Mondo Kids, a utilizamos como um instrumento metodológico para abordar temas ligados ao desenvolvimento socioambiental e às matérias publicadas. O

Wilber e sua turma despertam a atenção da garotada.

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Neo Mondo Kids um Mundo diferente jogo é um excelente meio de ensinar sobre o respeito às regras, à cooperação entre as pessoas, tornando-se assim um laboratório para a vida em sociedade” - disse. A mestre em educação, diretora de escola e autora de vários livros infantis Silmara Casadei também participa da Neo Mondo Kids. “Contribuir para a edição da primeira revista socioambiental destinada às crianças tem um valor histórico e de alta relevância para as necessidades da  educação das crianças. As novas gerações têm à sua frente velhos e novos desafios: as questões de convivência humana e a degradação ambiental” – disse a especialista. Ela lembrou ainda que nos últimos 50 anos produzimos, consumimos, desperdiçamos e poluímos mais do que em qualquer outro período da história humana, ultrapassando a capacidade de recursos que a Terra tem para nos ofe-

recer. Para agravar o problema, em 1800, a população mundial contava com 1 bilhão de habitantes. No ano de 2007, já éramos 6,6 bilhões, gerando mais consumo e desequilíbrio. “Será necessário que constituamos novos caminhos da elaboração do pensamento e de atuação humana que contribuam para a economia dos bens naturais, a melhoria da convivência e melhores oportunidades de estudo e de trabalho para todos. Precisamos dar um passo a mais na evolução humana,  isso inclui quebrar paradigmas, criar novos formatos de consciência e atuação socioambientais. Nossa geração é responsável, não por uma ou outra criança, mas por todas as  crianças. Todo o esforço deve ser feito para que  cresçam e desenvolvam-se seguras e amparadas por nós. Nossos objetivos com a revista Neo mondo Kids, serão o de  trazer  às crianças

Precisamos nos fazer novas perguntas e encontrar novas respostas

novas reflexões, de forma lúdica e com a participação de especialistas; propor novas ações utilizando um veículo da mídia para apresentar exemplos mais positivos e, principalmente,  ouvir suas vozes que não podem ser impedidas de demonstrar  alegria e  possibilidade de trazer o novo para todos nós, encaminhando-as ao bem comum. Juntos, precisamos nos fazer novas perguntas e encontrar novas respostas” – concluiu Silmara.

EDIÇÃO 1 Ecologia, astronomia, receitas naturais, dicas culturais, campanha para fazer novos amigos, jogos, cruzadinhas, exemplos de crianças que atuam por um mundo melhor, aula de inglês, entrevistas com o famoso desenhista Mauricio de Sousa e com o pentacampeão de skate, Sandro Dias, o Mineirinho, recheiam essa primeira edição.

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Jorge Alberto da Cunha Moreira

Pacote aprovado

mas incerteza continua

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eputados norte-americanos aprovaram uma nova versão do pacote, que prevê uma ajuda de US$ 850 bilhões proposta pelo governo dos EUA, que reforçam as armas das autoridades para conter a crise com novas garantias para os correntistas de bancos, além de outros benefícios tributários para as famílias de classe média e o setor industrial. Este plano deverá permitir que os bancos recuperem a confiança dos investidores e com isso possam recompor suas reservas que se esvaziaram com a tão falada crise dos subprime, que se arrasta há mais de um ano. Mesmo assim, o plano de ajuda às instituições financeiras não acalmou o mercado e ainda causa preocupação entre os investidores. As bolsas em todo o mundo têm vivido sob forte tensão. O mercado financeiro mundial aguarda, ansiosamente, o sucesso do pacote de socorro ao sistema financeiro norte-americano, que prevê sanar as dívidas dos bancos e tentar arrumar o quintal da maior economia do planeta. A definição sobre um final de ano de tranqüilidade ou não para a economia globalizada está no sucesso deste plano. Os bancos já vinham pressionando, não é de hoje, o governo e o Congresso norte-americano para sejam revistas as regras contábeis que obrigam a contabilizar os títulos nas suas carteiras de acordo com o valor de mercado, que por sua vez, se desvalorizaram bastante nos últimos meses causando prejuízos às instituições. Alguns legisladores daquele país estão exigindo mudanças nas normas contábeis responsabilizando-as pelo agravamento da crise entre as instituições financeiras. O assunto já está sendo discutido entre a Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais norte-

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americano - equivalente à nossa Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – e as maiores firmas de auditoria do país PricewaterhouseCoopers (PwC), KPMG, Deloitte & Touche, Ernst & Young e BDO Seidman. Com o novo pacote, alguns analistas afirmam que os problemas internos poderão ser sanados ou diminuídos, otimistamente falando, em seis meses e que, na economia real, deverão durar ainda por cerca de dois anos. A Casa Branca já admitiu que a crise financeira, que abala os mercados internacionais, continuará afetando a economia norte-americana no primeiro trimestre de 2009. O governo dos EUA acredita que ainda levará semanas para que o Departamento do Tesouro comece a comprar os ativos de má qualidade, que vêm sendo chamados de “podres”, da Wall Street. Outros analistas dizem que os possíveis efeitos do que vem ocorrendo na economia dos EUA só serão sentidos após o segundo semestre de 2009, efetivamente. No Brasil as perguntas não cessam: Nosso país será atingido ou não pela crise econômica mundial? A resposta é simples e positiva. Não seremos atingidos com a mesma proporção que em outras situações de crise já vividas pelo mundo. Os impactos, nas instituições financeiras, por exemplo, serão pequenos porque mais de 90% dos ativos dos bancos nacionais são negociadas aqui dentro. O governo brasileiro vem afirmando que o país está preparado para lidar com a crise que tomou conta do sistema bancário americano. Mesmo assim, não estamos em outro planeta para ficarmos totalmente imunes ao que acontece na economia mundial. Alguns setores de exportação, por exemplo, confirmam que os pedidos procedentes principalmente da Ásia estão 20% menores que os números de 2008. Mesmo

assim, esses setores afirmam que o que não for vendido lá fora será repassado para o mercado interno, o que não afetará os lucros e as expectativas de crescimento. A valorização cambial, com o dólar ultrapassando os R$ 2, é completamente favorável às exportações. Por outro lado, as empresas brasileiras confirmam a percepção da escassez de crédito no mercado bancário internacional. Isso porque metade das exportações brasileiras, cerca de US$ 100 bilhões, é financiada por bancos no exterior. Os efeitos na Bolsa de Valores, por exemplo, que vêm demonstrando nervosismo e provocando queda nas ações, são reflexo de um mercado que opera numa economia globalizada, são papéis de empresas negociadas no mundo todo por investidores que também têm investimentos nos Estados Unidos e Europa, onde a crise está mais acentuada. Porém, é como um jogo que você aposta e acredita. Se o outro investidor deixa de acreditar, ele retira as apostas, o que faz com que haja desvalorização daquelas ações. Outro, vendo o descrédito e, com medo de perder, também retira as apostas, provocando queda ainda maior. É a lógica da incerteza. Segundo especialistas, a Bolsa brasileira está, na realidade, voltando a um patamar de normalidade, depois de alguns meses de euforia. Jorge Alberto da Cunha Moreira é sócio-diretor e CFO da BDO Trevisan. Contador: formado em Ciências Contábeis pela Universidade Gama Filho no Rio de Janeiro Pós-graduado em Gestão Empresarial pela Universidade Gama Filho e também pela Trevisan Escola de Negócios. E-mail: cunha@bdotrevisan.com.br


Segurança

Alimentar Entenda um pouco mais sobre a soberania alimentar brasileira, os riscos dos produtos que consumimos, a obesidade infantil, a alimentação do brasileiro e como utilizar bem esse combustível da vida.

Caderno Especial


Especial - Segurança Alimentar

Há males São muitos os cuidados a tomar na busca da alimentação completa, variada e equilibrada. Gabriel Arcanjo Nogueira

O

mal não é apenas o que sai da boca do homem, porque há  doenças transmissíveis por consumo de gêneros inadequados. O que fazer para evitar, ou correr menos riscos, é uma questão de complexa solução, face a implicações alimentares de toda ordem.  A professora-doutora Rita Heloísa da Costa Yoem, pós-doutorada em Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP), reforça que há muitos cuidados a tomar. “Por muito tempo, não nos preocupamos com o que ingeríamos e como ingeríamos os alimentos, mas com os avanços nos meios de comunicação passamos a ter acesso  a um volume maior de informações”, afirma. A rotina é apontada por Rita como a vilã da forma inadequada como as pessoas se alimentam, “recorrendo a pratos de preparo rápido, sem nos darmos conta do que realmente consumimos”. A professora não poupa a própria natureza, em que, segundo diz, nem tudo é seguro. “Precisamos prestar atenção no que podemos ingerir indiretamente, sem nos darmos conta”, alerta, antes de apresentar exemplos de  componentes que representam riscos  à saúde humana. Alguns provenientes de inocentes abelhas ou pacatas vacas; outros já de fama não tão boa. O mel, por exemplo, por ser uma substância de origem natural e conter basicamente os carboidratos, glicose, frutose e sacarose, além de alguma quantidade de água, deve ser aquecido no processamento a fim de evitar a sua cristalização. O aquecimento evita ainda o desenvolvimento de leveduras e pode matar esporos de bactérias como o Clostridium botulinum. Num ponto Rita é taxativa: “Devemos


que entram evitar a administração de mel em alimentação de crianças menores de 1 ano, cujas condições estomacais propiciam o desenvolvimento dos esporos e, conseqüentemente, as levam a desenvolver o botulismo infantil”. O espinafre contém substâncias tóxicas que, se ingeridas em grande quantidade, podem fazer mal, se não bastasse possuir ácido oxálico, que diminui o ferro e o cálcio absorvíveis de uma refeição, quando ingeridos juntos. Corantes são casos à parte. Muitas guloseimas infantis, bem como medicamentos e refrescos, apresentam corantes que podem ser maléficos a crianças e adultos sensíveis. É o caso do amarelo de tartarazina, que pode levar a reações alérgicas em pessoas sensíveis ao ácido acetilssalicílico ou asmáticas. Rita recomenda atenção ao glutamato monossódico, presente em vários produtos usados para realçar o sabor dos alimentos e que pode provocar em pessoas sensíveis sintomas como dores de cabeça, sudorese, sensação de torpor (cansaço), entre outras. Riscos desde a infância Rita faz ainda alertas a outros riscos alimentares. A intolerância à lactose (presente em leite de origem animal) é um deles. A especialista explica: “A lactose é digerida no intestino humano pela enzima lactase, havendo a liberação de glicose e de galactose. Entretanto, algumas pessoas não têm esta enzima, gerando a formação de gases e acúmulo de água, o que povoca dores e diarréia”. Trata-se de intolerância muito comum em  populações como  as asiáticas, negras e sul-americanas, ressalta.

Adultos que se cuidem Sulfitos são aditivos utilizados, entre outras, na conservação do vinho, para evitar o escurecimento de produtos, fazer branqueamento de alimentos, evitar o desenvolvimento de microorganismos. Pode provocar, em pessoas sensíveis, dores de cabeça, náuseas e vômito, com maior sensibilidade em asmáticos. Rita elenca alguns alimentos que apresentam sulfitos: camarão, sucos ácidos, vinho, cerveja e vegetais secos.  O glúten, freqüentemente encontrado em alimentos derivados de farináceos, contém uma proteína denominada gliadina, que provoca reações em pessoas sensíveis, levando a lesões intestinais e, conseqüentemente, deficiência na absorção de nutrientes. A doutora esclarece: “A dieta isenta de gliadina (glúten) faz com que a mucosa intestinal volte ao normal, mas deve ser seguida pelo resto da vida”. A fenilalanina é um aminoácido presente normalmente nas proteínas e, em particular, na fórmula de vários adoçantes. Deve ser evitada em pacientes portadores de fenilcetonúria, uma patologia diagnosticada no nascimento. Por fim, Rita aponta casos específicos de  doenças que exigem dos pacientes um cuidado maior na escolha dos alimentos. “Entre muitos exemplos, ressalto os doentes renais e diabéticos. Nos dois casos, os pacientes devem seguir uma dieta estabelecida de comum acordo por médico e nutricionista, a fim de determinar quais alimentos devem ser evitados diariamente e quais estão liberados para consumo. A não obediência a uma dieta recomendada pode conduzir ao agravamento das doenças”, conclui.

Bruno Spada

pela Boca

Da agricultura familiar no País saem os alimentos para a mesa de brasileiros

Lavar bem os vegetais Sílvio César de Osti, mestre em Tecnologia Nuclear e doutor em Toxicologia Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP), esclarece sobre alguns aspectos referentes a agrotóxicos ou contaminação de peixes e frutos do mar. O cuidado básico, qual seja, o de lavar bem os vegetais antes de consumi-los, por exemplo, é mais que fundamental: “Geralmente, essa prática já elimina agrotóxicos, que dificilmente penetram no alimento, mas devemos ficar atentos ao uso indiscriminado destes produtos e seus resíduos no meio ambiente. Isto sim pode comprometer os animais e os corpos d´água”. Sílvio não se esquece de outro perigo, que são os os hormônios, e ressalta: “ExisNeo Mondo - Outubro 2008

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Especial - Segurança Alimentar

te legislação específica para a utilização segura de hormônios ou precursores em animais, e os bons produtores seguem as normas com acompanhamento de profissionais qualificados”. Apesar de existir essa preocupação, o professor da Umesp, que é também consultor ambiental, lembra que hoje existe a opção dos alimentos orgânicos, cuja produção dificilmente chegará a dos níveis atuais com estas técnicas.

Tipos de perigos

Estações de piscicultura Peixes e frutos do mar contaminados, no entender do especialista em Químicas Analítica e Ambiental, exigem mais cuidado do consumidor. Isso porque, explica, “é muito difícil saber de onde e como foram capturados na natureza, o que pode nos sujeitar a possíveis substâncias tóxicas a que foram expostos. Animais criados em estações

de piscicultura apresentam maior controle de qualidade e são mais seguros” - disse ele.O que Sílvio defende é que haja muito mais empenho na Educação Ambiental, pelo que representa de papel fundamental nos rumos que a humanidade tomará. “Devemos orientar as pessoas para o consumo consciente e para a necessidade de desenvolvermos novas tecnologias para produção mais limpa.”

Exemplos de perigos

Exemplos alimentos associados

Potenciais doenças

Salmonela

Ovos, aves, leite cru e derivados

Salmonelose

MICROBIÓLÓGICOS Bactérias

Vírus

Parasitas Priões

Campylobacter jejuni

Leite cru, queijos, gelados, saladas

Campilobacteriose

Rotavírus

Saladas, frutas e entradas

Diarréia

Vírus da Hepatite A

Peixe, marisco, vegetais, água, frutos, leite

Hepatite A

Toxoplasma

Carne de porco, borrego

Toxoplasmose

Giárdia

Água, saladas

Giardose

Agente BSE

Materiais de risco especificado de bovino

Variante da doença de Creutzfeldt - Jackob

Aflatoxinas

Frutos secos, milho, leite e derivados

Solanina

Batata

Toxinas marinhas

Bivalves, marisco

QUÍMICOS Toxinas naturais

Poluentes de origem Mercúrio, cádmio e chumbo Peixe industrial Dioxinas, PCBs Peixe, gordura animal Contaminantes resultantes do processamento alimentar

Acrilamina

Batata frita, café, biscoito, pão

Hidrocarbonetos aromáticos policíclicos

Fumados, óleos vegetais, grelhados

Pesticidas

Inseticidas, herbicidas, fungicidas

Legumes, frutas e derivados

Medicamentos veterinários

Anabolizantes, antibióticos

Carne de aves, porco, vaca

Aditivos não autorizados

Sudan I-IV, Para Red (corantes)

Molhos, especiarias

Materiais em contato Alumínio, estanho plástico com alimentos

Cancro, malformações congênitas, partos prematuros, alterações do sistema imunitário, doenças degenerativas do sistema nervoso, alterações hormonais, disfunção ao nível de diversos órgãos, alterações de fertilidade, doenças osteomusculares, alteração de comportamento.

Alimentos enlatados ou embalados em plástico

FÍSICOS Ossos, espinhas, vidros, metais e pedras

Lesões

NUTRICIONAIS Sal em excesso

Sal de adição, snacks

Gorduras em excesso

Manteiga, embutidos, carnes gordas Obesidade

Açúcar em excesso Alérgenos

Diabetes Leite de vaca, amendoim, ovos, crustáceos Alergias

Fonte: http://www.esramada.pt/pt/alunos/alimsau/riscos_alimentares.htm

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Doenças cardiovasculares


Ingerindo

João Carlos Mucciacito

POLUIÇÃO

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desenvolvimento industrial ocorreu de forma extremamente acelerada a partir da revolução industrial, após meados do século XIX. A partir desse período, a poluição ambiental causada pelo homem aumentou consideravelmente e de modo descontrolado, de forma que as relações entre o homem e o seu meio ambiente se modificaram. Atualmente não é possível estimar a enorme quantidade de produtos e substâncias produzidas industrialmente, sendo que os resíduos industriais lançados ao meio ambiente são igualmente diversos. A poluição industrial ocorre em todos os meios da biosfera, na água doce, nos oceanos, na atmosfera e no solo. Conseqüentemente, as comunidades biológicas dos ecossistemas estão em contato com substâncias e materiais não naturais, a maioria dos quais causando algum tipo de dano ecológico. A poluição industrial afeta diretamente o homem, uma vez que estamos sujeitos a ingerir água e alimentos contaminados e respirar o ar poluído. Exemplos da seriedade deste problema são a intoxicação e morte de dezenas de pessoas em Minamata, no Japão, após consumirem peixes contaminados com mercúrio. Eventos como este, envolvendo contaminação de alimentos com poluentes industriais, têm sido comuns ao longo das últimas décadas. Agentes principais da poluição industrial são os gases liberados na atmosfera, os compostos químicos orgânicos e inorgânicos lançados nos corpos hídricos e a poluição do solo com o uso de pesticidas. Entre os poluentes mais prejudiciais ao ecossistema estão os metais pesados. Estes elementos existem naturalmente no ambiente e são necessários em concentrações mínimas na manutenção da saúde dos seres vivos (são denominados

oligoelementos ou micronutrientes). Alguns metais essenciais aos organismos são o ferro, cobre, zinco, cobalto, manganês, cromo, molibdênio, vanádio, selênio, níquel e estanho, os quais participam do metabolismo e formação de muitas proteínas, enzimas, vitaminas, pigmentos respiratórios (como o ferro da hemoglobina humana). Porém, quando ocorre o aumento destas concentrações, normalmente acima de dez vezes, existem os chamado efeitos deletérios. A crescente quantidade de indústrias atualmente em operação, especialmente nos grandes pólos industriais do mundo, tem causado o acúmulo de grandes concentrações de metais nos corpos hídricos como rios, represas e nos mares costeiros. Isto ocorre, pois grande parte das indústrias não trata adequadamente seus efluentes antes de lançá-los no ambiente.

Os metais, quando lançados na água, agregam-se a outros elementos, formando diversos tipos de moléculas, as quais apresentam diferentes efeitos nos organismos devido a variações no grau de absorção pelos mesmos. Um dos efeitos mais sérios da contaminação ambiental por metais pesados é a bioacumulação dos poluentes pelos organismos vivos. Animais e plantas podem concentrar os compostos em níveis milhares de vezes maiores que os presentes no ambiente. Currículo: João Carlos Mucciacito Químico da CETESB, Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo, professor no SENAC, no Centro Universitário Santo André – UNI-A e na FAENG - Fundação Santo André.

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Especial - Segurança Alimentar

Mais que rai para vencer a fome Ainda há 8,8 milhões de brasileiros na pobreza extrema. Gabriel Arcanjo Nogueira

H

á números alarmantes, para dizer o mínimo, vexatórios ou escandalosos. Um teólogo diria: “que clamam aos céus...”. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), as pessoas que passam fome na América Latina e no Caribe somariam 51 milhões, em 2007, tendência crescente debitada pela FAO aos altos preços de alimentos e combustíveis. Imagina, então, se representantes de 191 países não tivessem assinado em 2000, durante Assembléia Geral das Nações Unidas, a Declaração do Milênio. Entre as metas estabelecidas, a de reduzir pela metade até 18

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2015 o total dos que vivem em extrema pobreza. O Brasil teria feito a lição de casa, ao diminuir de 8,8% para 4,2% esse contingente entre 1991 e 2005. Não obstante, seríamos ainda 7,5 milhões (sobre)vivendo com renda familiar inferior a 1 dólar por dia. De onde estiver, Gonzaguinha deve cantar, cada vez mais a plenos pulmões, que “a fome tem de ter raiva pra interromper”. Além da raiva, o que pode ser feito? O assessor especial do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Frederico Guanais, revê os dados referentes à situação no País ao apresentar cálculos do Centro de Pesquisas Sociais

da Fundação Getúlio Vargas com base em dados das Pesquisas Nacionais por Amostragem de Domicílios (PNAD). De acordo com esses estudos, a proporção de pessoas no Brasil que vivem com menos de 1 dólar de renda per capita, e não familiar, ajustada pela paridade de poder de compra, caiu de 11,73% em 1992 para 4,69% em 2006. “Em algum momento entre 2004 e 2005, o País atingiu a meta de redução pela metade da proporção de pessoas em pobreza extrema. No entanto, esses 4,69% de muito pobres em 2006 ainda representavam um contingente de cerca de 8,8 milhões de brasileiros”, explica. Guanais esclarece


va

que o governo federal em 2005 comprometeu-se, por decisão unilateral, com a redução para 1/4 da proporção de pessoas em pobreza extrema. Para acrescentar: “Os ganhos sucessivos de redução da pobreza que continuamos a observar por meio dos dados anuais das PNADs mostram que muito em breve atingiremos também essa meta mais ambiciosa”. Desafios X soluções Para não se perder na ambição, o assessor deixa claro que a orientação do ministro Patrus Ananias é: os programas e políticas do MDS, por mais exitosos que

sejam, devem sempre ser aprimorados. Isso porque os desafios de combate à pobreza, à fome e à exclusão no País são enormes, segundo Guanais, fruto de séculos de exclusão. O Brasil, além da consolidação da rede de proteção e promoção social, na visão do Ministério, pode registrar importantes avanços na área de inclusão produtiva de famílias beneficiárias do Bolsa Família. O Plano Setorial de Qualificação (PlanSeq Bolsa Família ), em fase de implantação, numa articulação entre Casa Civil da Presidência da República, Ministério do Trabalho e Emprego, MDS e a Câmara Brasileira da Construção Civil, deverá caNeo Mondo - Setembro 2008

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Especial - Segurança Alimentar

pacitar membros de famílias beneficiárias para empregos no setor da construção. Na primeira fase, estão previstas 185 mil vagas de trabalhadores qualificados. Uma demonstração da preocupação permanente com o aprimoramento de programas desse alcance está na realização da Semana Mundial da Alimentação e, dentro dela, o seminário Os desafios da segurança alimentar e nutricional e as respostas do governo brasileiro. Outro evento foi o 1º Encontro Nacional de Coordenadores Estaduais do Programa Bolsa Família, em Manaus. Na abertura do seminário, em 15 de outubro, em Brasília, ao lado de representantes do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e da FAO, o ministro Patrus Ananias afirmou que “os pobres não podem pagar a conta da crise financeira”, e deixou claro como se dará essa continuidade. Patrus reiterou que o Brasil é um país grande, com potencialidade e que pode investir em alimentos, em energia limpa e biocombustíveis, compatibilizando a estabilidade

econômica com o desenvolvimento social. “O Brasil está mostrando a sua força econômica, suas potencialidades”, disse. Mas lembrou que sempre com prudência para garantir a estabilidade, o controle da inflação, para que em nenhum momento o País saia do caminho do crescimento, do desenvolvimento econômico, sempre com

Garantias de direitos Para tentar superar os aspectos mais críticos da fome, são cerca de 67,7 milhões de pessoas no Brasil atendidas pelos programas do MDS. O governo pretende avançar na integração de políticas, tanto no aspecto federativo, envolvendo estados e municípios nos esforços conjuntos para o desenvolvimento social, quanto no aspecto intersetorial, envolvendo saúde, educação, trabalho, moradia ou cultura. O MDS entende que o governo já parte de um quadro de alcance significativo. “Trabalhamos nessa linha por meio da consolidação dos vários sistemas de políticas, entre eles o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN)”, cita o assessor. Outro ponto importante lembrado pelo assessor é consolidar a consciência com relação à permanência das políticas sociais como políticas públicas garantidoras de direitos. “Os países mais avançados mantiveram e expandiram suas políticas sociais ao longo do tempo, construindo sistemas amplos e inclu-

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sivos. Essa referência do Estado do Bem-Estar Social é um modelo importante e que orienta a construção dessa ampla rede de proteção e promoção social no Brasil”, conclui. Umas das maiores autoridades em Direito Constitucional brasileiro, o doutor em Direito Constitucional, Roberto Baungartner, lembra que, em seu artigo 23, a Constituição estabelece que os governos em todas as esferas têm de cuidar da saúde e assistência pública, proteger o meio ambiente, combater a poluição em qualquer de suas formas, além de preservar florestas, fauna e flora. Tudo muito coerente com uma política de Segurança Alimentar que permita aos brasileiros deixarem ou não entrarem em estado de penúria. Esta já definida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) como prejudicial à prosperidade. E olha que esta Organização recebeu o Nobel da Paz quando completou seus 50 anos de existência. Quem sabe um dia a Segurança Alimentar do País consiga esta láurea. E que não demore tanto.

distribuição de renda e inclusão social. Na avaliação do ministro, uma das causas do Brasil poder superar a crise econômica mundial está em suas políticas sociais, que garantem renda e um mercado interno de consumidores, aquecendo a economia. Não bastassem as ações de parceria público-privada, o assessor especial do MDS destaca a importância do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), que é referência internacional pelo que representa na proposta de soluções efetivas de combate à fome e à pobreza. Para Guanais, o PAA é um dos programas que mais bem sintetizam a estratégia Fome Zero. De um lado, por oferecer oportunidades de geração sustentável de renda ao garantir a compra de alimentos de agricultores familiares; de outro, porque disponibiliza alimentos de qualidade para aqueles que estão em situação emergencial de insegurança alimentar. Segundo ele, os números são expressivos (ver Quadro). “São dados que apontam para um balanço muito positivo. No entanto, ainda há espaço para crescimento desse modelo de políticas públicas que se mostra extremamente eficaz.” AÇÃO ENTRE IRMÃOS • Atualmente, por meio do PAA, 93,4 mil agricultores familiares brasileiros contribuem, com sua produção, para a segurança alimentar de 11,4 milhões de patrícios. • Na modalidade PAA Leite, 16,3 mil produtores beneficiam 2,5 milhões de pessoas, com 467 mil litros de leite por dia.


O saber e o sabor:

Márcio Thamos

Istock foto

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noções complementares para uma definição de humanidade

N

o século XVIII, o culto da razão cunhou a designação de Homo sapiens (literalmente, “o homem que sabe”) como expressão capaz de definir a nossa espécie. De lá para cá, outras denominações importantes foram propostas: Homo faber (“o homem que fabrica”) e Homo ludens (“o homem que brinca”). Sapiens é característica relativa ao espírito e sua capacidade racional. Faber diz respeito à habilidade de fazer coisas a partir da inteligência. E Ludens, qualidade que se contrapõe ao caráter utilitário de Faber, contesta, ao mesmo tempo, a primazia da razão como virtude essencial do homem. Três expressões distintas, que de certo modo se completam, pondo em destaque algum predicado típico da raça. Mas estão todas, implícita ou explicitamente, ligadas aos atributos da mente humana. Parecerá ingênuo perguntar, ainda assim vou insistir: e o corpo? Não há nada ligado mais diretamente ao corpo do homem que, em certa medida, nos possa definir como espécie? A resposta imediata e ululante é

“não!”. Biologicamente falando, as características do corpo só nos permitem ser classificados como “mamíferos” ou “bípedes”, por exemplo, e não fornecem nenhum traço determinante para nos diferenciar como “humanos” em relação aos outros animais. Mas todo corpo, a fim de perdurar e se desenvolver, deve ser alimentado. Trata-se de uma constatação também óbvia demais. Não obstante, dela se extrai um termo de comparação capaz de definir a espécie humana a partir de um fenômeno não diretamente relacionado à mente mas, antes, ao próprio corpo, através do paladar, qual seja, a culinária. Natureza e Cultura são conceitos que se opõem mutuamente. Pertence ao domínio da Cultura tudo aquilo que foi de algum modo transformado pelo homem e tudo aquilo que não é hereditário mas sim transmitido e aprendido pelas gerações humanas. Como animais, pertencemos ao domínio da Natureza. Como humanos, nos inserimos no domínio da Cultura. A idéia de Humanidade, portanto, se confunde

com o próprio conceito de Cultura. Foi Claude Lévi-Strauss quem primeiro observou que, do mesmo modo como não existe sociedade humana sem linguagem verbal, também não existe sociedade humana que não elabore, vale dizer, que não transforme, em parte ao menos, seu alimento cozinhando-o. Assim, o cru e o cozido, o alimento natural e aquele transformado pela ação do homem, estão para Natureza e Cultura como um dado distintivo entre Animalidade e Humanidade. Mas, para cozinhar, foi preciso primeiro dominar o fogo. É bem conhecido o mito de Prometeu, um primo de Júpiter (Zeus), que o grande deus olímpico castigou mandando acorrentá-lo a um rochedo, onde todos os dias uma águia devorava-lhe o fígado, que à noite se regenerava. O crime de Prometeu foi justamente ter roubado aos deuses sementes do fogo para dar aos homens. E esse presente, segredo divino assim compartilhado, acaba alçando o bicho homem de sua humilde e primitiva condição animal. Na verdade, o mesmo Prometeu criara o homem, modelando-o à semelhança dos entes imortais, a partir da terra molhada pelas águas dos rios. Mas a criação de Prometeu só está completa quando o homem recebe o fogo, cujo domínio distingue a humanidade ao possibilitar, entre outras artes, a distinção entre o cru e o cozido, de que falava Lévi-Strauss. Assim, posso aqui seguramente arriscar uma nova definição para a raça: Homo coquens, isto é, “o homem que cozinha” (e, se não vingar como a de Homo sapiens, será por pura implicância da intelectualidade temerosa de perder seu prestígio). Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Lingüística da FCL-UNESP/CAr. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica. Neo Mondo - Outubro 2008

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Especial - Segurança Alimentar

Feijão e arroz não são suficientes

Brasileiro não consome nutrientes de forma adequada e passa por período de fome oculta. Livi Carolina

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m, dois, feijão com arroz... O restante dessa parlenda teria melhor impacto na educação alimentar se a continuação fosse: Três, quatro, salada no prato. Cinco, seis, do leite é a vez. Sete, oito, sem muito biscoito. Nove, dez, diminua os pastéis. Afinal, este é o desafio de médicos e nutricionistas: inserir hábitos alimentares mais saudáveis com o incremento de verduras, leguminosas e frutas, equilibrando os macros (carboidratos, lipídios e proteína animal) e os micronutrientes (vitaminas e sais minerais). De acordo com o reumatologista da Unifesp, Marcelo Pinheiro, responsável pela pesquisa The BRAZilian Osteoporosis Study – BRAZOS, que indicou a má alimentação do brasileiro, a combinação de arroz, feijão, carne e salada é excelente, uma vez que atende as demandas do organismo quanto à mobilidade e a manutenção de níveis saudáveis de colesterol, entre outros benefícios. Porém, garante apenas uma maior ingestão de macronutrientes, em detrimento dos micros, encontrados nas frutas e hortaliças, pouco consumidas pelos brasileiros.

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O estudo revelou que a nutrição brasileira está muito defasada. Vitaminas como D, K e minerais como o cálcio e o magnésio, importantes para formação e mineralização dos ossos, apresentam consumo até três vezes abaixo das recomendações internacionais, ocasionando maior exposição à fraturas e à osteoporose. Mesmo com a inserção da salada no cardápio, ela não chega perto do consumo ideal e necessário para balancear a nutrição. Durante as pesquisas, homens e mulheres de todas as classes sociais foram questionados para levantar dados qualitativos e quantitativos das refeições. Verificou-se, portanto, que a salada que compõe a mesa do brasileiro se reduz a duas folhas de alface e a algumas rodelas de tomate e cebola, enquanto a recomendação da Organização Mundial da Saúde – OMS, é de, no mínimo, quatro ou cinco porções de hortaliças e frutas por dia. Para a diretora do Instituto de Nutrição da UFRJ, Andréa Ramalho, os inquéritos qualitativos foram ruins, porque não há preocupação quanto à freqüência, o que e quanto se consume. Segundo ela,

o ideal é que o prato seja variado, oferecendo uma diversidade maior de carboidratos, vitaminas e sais. “Comer muito não significa saúde. Qualidade versus quantidade é o que define uma boa refeição” – ressalta. Mudança de hábito A pesquisa mostrou que de uma forma geral, o brasileiro ainda mantém a tradição do arroz com feijão, mas estes itens vêm sendo, cada vez mais, substituídos por lanches com valor nutricional bastante inferior, confirmando o mau planejamento alimentar em função da falta de tempo para as refeições. Além disso, segundo a nutricionista Andréa Ramalho, a entrada da mulher no mercado de trabalho alterou o padrão alimentar mundial. Hoje ela não tem mais espaço no seu dia para escolher, comprar e preparar os alimentos como antes. Mas, para atender a sua rotina corrida, procura algo mais acessível e saboroso. “A indústria do alimento se aproveitou disso e a cada dia temos mais opções práticas, mas ricas em gorduras” - ressalta.


Outro fator importante destacado pelo Anuário Brasileiro das Indústrias da Alimentação quanto à má nutrição, é a inversão de valores. Se as primeiras necessidades da humanidade estavam centradas na busca do alimento e na proteção contra os predadores, as necessidades das gerações a partir dos anos 80 focaram-se no prazer. Exemplo prático disso é o consumo de refrigerantes, que chegaram ao mercado mundial neste mesmo período. Ele poderia ser substituído por um suco, mas ingeri-lo não é uma necessidade do organismo e sim a satisfação de um desejo. Sobremesa Mesmo com grande diversidade, no Brasil, as frutas perderam espaço na mesa dos brasileiros.

Embora os doces contribuam para a ingestão de mais doses de gordura, a competição injusta com musses, sorvetes, chocolates e doces em geral, fez com que as frutas perdessem o atrativo, mesmo sendo também responsáveis pelo balanceamento do organismo. Segundo Andréa Ramalho, toda esta situação gera o que se chama de fome oculta. “O indivíduo tem uma carência de vitaminas, mas não percebe. Isso provoca um descontrole metabólico enorme” – alerta. Esse desequilíbrio nutricional tem levado a população para outros números alarmantes. Atualmente, o Brasil encontra-se em quarto lugar no quadro mundial da obesidade.

Comer muito não significa saúde. Qualidade versus quantidade é o que define uma boa refeição

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Especial - Segurança Alimentar

Não sou mais criança pra tomar leite! Um dos piores índices de deficiência nutricional foi o cálcio, encontrado no leite e seus derivados. Em função disso, a pesquisa revelou que aproximadamente 15% dos adultos jovens têm osteopenia (patologia que consiste na diminuição da densidade mineral dos ossos, precursora da osteoporose) e 0,6% têm osteoporose. De acordo com o médico Marcelo Pinheiro, essa enfermidade é responsável pela grande maioria de casos de quedas, sendo que 25% delas geram fratura no fêmur, ocasionando em 30% dos casos invalidade e dor crônica. A recomendação para consumo diário de cálcio é de 1.200 miligramas. No Brasil, a média é de 400 miligramas. Segundo Pinheiro, a fase da adolescência é a que mais deve ser estimulada a prevenir-se contra a osteoporose. Porém, o leite é associado à infantilidade, por isso muitos deixam de nutrir-se. “Isso seria solucionado com a ingestão de queijos, iogurtes e outros derivados, mas o consumo de cálcio restringe-se, em muitos casos, à mussarela da pizza do final de semana” – alerta.

Principais fontes de micronutrientes Complexo B - pólen, arroz integral, gema de ovo, grãos germinados em geral (particularmente trigo); Vitamina A - fígado de peixe, cenoura crua, legumes verdes, abóbora, mamão e manga; Vitamina C - legumes e frutas frescas, principalmente laranja, limão, mamão, caju, goiaba, kiwi e acerola (esta constitui a maior fonte natural da vitamina); Vitamina D - peixes em geral, grãos germinados e gema de ovo; Vitamina E - grãos germinados (particularmente trigo), óleo de germe de trigo, abacate e gema de ovo; Vitamina K - algas, alfafa, trigo germinado, legumes verdes e gema de ovo.

Principais fontes de minerais Cálcio - leite e derivados, couve, gergelim, amêndoas e algas; Cobre - frutos do mar, algas, frutas secas, alho e verduras; Cromo - levedura de cerveja, cereais integrais, cenoura e ervilha; Enxofre - repolho, couve, couve-flor, alho, agrião e cebola; Ferro - algas, verduras, melado, gema de ovo, beterraba e frutas secas; Fósforo - levedura de cerveja, trigo germinado, gema de ovo, peixe, leite e derivados; Flúor - sementes de girassol, além de grãos, cereais, leguminosas e ervas germinados e consumidos em estado de brotos; Iodo - frutos do mar, algas, vegetais que crescem à beira-mar, agrião e alho; Magnésio - frutas secas, verduras, mel e pólen; Potássio - frutas, legumes e algas; Selênio - levedura de cerveja, ovos, carne, peixes, mariscos, alho e cebola; Zinco - frutos do mar, leite e derivados, trigo germinado, levedura de cerveja e maxixe.

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Dilma de Melo Silva

Correspondente especial de Quioto – Japão

Segurança alimentar também é preocupação em países desenvolvidos

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Japão, apesar de ser uma nação desenvolvida, tem na alimentação um preocupante problema, pois depende da importação de alimentos para suprir a alta demanda de consumo no país. A explicação é simples: são cerca de 127.288.419 pessoas concentradas em um território vinte e duas vezes menor que o Brasil. Para suprir essa necessidade de alimentos, estabeleceu parceria com a China, de modo a garantir sua segurança alimentar. Trata-se de acordo com controle rigoroso, sobretudo de qualidade. Por essa razão, as autoridades japonesas do Ministério da Saúde demonstram inquietação crescente quanto à qualidade sanitária de produtos oriundos da China. Não é pra menos, há denúncias da existência de resíduos de agrotóxicos e de aditivos nesses produtos.

No mês de setembro, o mundo ficou sabendo da intoxicação de bebês que ingeriram leite em pó contaminado, o que ocasionou algumas mortes. O escândalo começou com a descoberta do alto nível de melanina – substância usada na fabricação de plástico – acrescido aos produtos lácteos para disfarçar a diluição em água e elevar o índice de proteínas. Malásia e Cingapura proibiram importações de produtos derivados do leite chinês. No Japão, a Empresa Marudai Shokudin retirou do mercado os produtos feitos com ingredientes chineses suspeitos de conterem melanina. Essa empresa comercializava bolos, pastéis, pães, bolinhos de carne, dentre outros. Tais produtos são muito populares e foram servidos até para pacientes hospitalizados.

Após a divulgação da contaminação, as autoridades japonesas determinaram a realização de testes de melanina em “todos” os alimentos feitos com produtos lácteos procedentes da China. Um procedimento de grande escala e que mostra que todo cuidado é pouco quando se trata da saúde da população. Exemplo para pensarmos...

Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na  Universidade de Estudos Estrangeiros. Neo Mondo - Outubro 2008

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Especial - Segurança Alimentar

Criança

precisa de energia, mas

A epidemia da obesidade atingiu as crianças. O que fazer para mudar esse quadro? Livi Carolina

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orrer, pular, dançar, jogar, cair, levantar, aprender, sorrir, brincar... são atividades e lembranças saudosas da infância. No entanto, ao longo dos anos e do avanço da tecnologia, este quadro da infância e da juventude vem sofrendo alterações importantes. A preocupação com a segurança tem feito com que eles permaneçam por longos períodos dentro de casa assistindo televisão e entretidos com jogos e salas virtuais. Habituados a este ritmo, poucos se interessam por praticar esportes. Após passar a maior parte do dia sentados, expostos à propagandas e alimentando-se de maneira inadequada, a tendência é engordar e tornar-se cada vez mais desanimado a sair dessa condição. Conforme afirma a mestra de Pediatria e Puericultura da Faculdade de Medicina do ABC, Denise de Oliveira Schoeps, mesmo que queira se exercitar, esse jovem esbarra na gozação dos amigos e no cansaço por causa do sobrepeso. Então, prefere se isolar das atividades e, por causa da frustração gerada, recorre mais uma vez à geladeira. E assim, a cada ano cresce a epidemia mundial da obesidade entre os jovens. Nos EUA, onde o índice é maior, 30% das crianças entre 6 e 19 anos estão com sobrepeso ou obesas. Já no Brasil, um estudo publicado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - SBEM, indica que 15% 26

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não acumulada. das crianças e 8% dos adolescentes brasileiros são obesos. Dados que as colocam no grupo de risco de doenças cardíacas, diabetes, hipertensão arterial, alterações ortopéticas, além de seqüelas emocionais, como a depressão. E o mito de que a criança emagrece sozinha com o passar dos anos também foi quebrado. O estudo revelou que oito em cada dez adolescentes continuam obesos na fase adulta. Início do problema Segundo Denise Schoeps, os equívocos na nutrição infantil começam com o desmame precoce. “Este período tem que ser valorizado. O leite materno tem nutrientes suficientes para o desenvolvimento da criança, mas tem rápida digestão. Então é normal que a criança depois de algumas horas chore com fome novamente. Não há, portanto, necessidade de acrescentar à alimentação da criança outro leite, nem farinhas e outros produtos. “Quando isso acontece estamos forçando a criança a engordar, porque damos a ela um leite forte, que consegue engordar um bezerro em seis meses, o que uma criança, alimentando-se adequadamente, levaria um ano” – ressalta.. O ideal para Denise, seria passar por uma orientação nutricional, pelo menos uma vez ao ano até a idade adulta e nos primeiros dois anos, a cada seis meses.

desta maneira, sabendo que tem parte desta culpa. “Antes que eu começasse um tratamento para perder peso, há um ano, não havia esta preocupação. Quase não existia fruta, verduras e legumes nas refeições. Era muita massa, refrigerante, doce, fritura. E eu o acostumei assim. Agora ensiná-lo que é preciso se alimentar melhor está sendo mais difícil” – relata a mãe. De acordo com Denise, mais do que o fator genético, o hábito alimentar da família é o que faz a diferença no desenvolvimento nutricional dos filhos. “Seu filho não vai ao fast-food sozinho” – destaca e acrescenta que os pais é que devem conduzir e incentivar seus filhos. “As crianças precisam aprender a ouvir não. Ceder na primeira manha é fazer com que o filho continue a rejeitar alimentos saudáveis, a praticar esportes... Se não está dando certo de um jeito, tente de outro. Não quer natação, pergunte qual outro esporte ele gostaria de praticar. Se não quer comer cenoura, faça uma apresentação do prato de uma maneira diferente, mas a educação alimentar é responsabilidade da família” – alerta. A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica – ABESO destacou alguns erros que não devemos cometer na educação alimentar da criança. Veja abaixo:

Faça o que digo, mas não faça o que eu faço Lucas tem 13 anos de idade, mede 1,60 e pesa 70 kg, apresentando cerca de 5 kg de sobrepeso. Estes números não seriam tão alarmantes se não fossem alguns fatores: sua mãe, Sandra dos Santos Montagini, de 42 anos, com 1,55 de altura pesa 107 kg. Além disso, ele resiste a reeducação alimentar, assim como à praticar natação, por sentir-se envergonhado com o corpo. Sandra diz que é horrível ver o filho desanimado

1. Dizer sempre sim: a criança sem limites vai abusar das calorias e das guloseimas. Devemos ter um dia por semana e situações em que podemos ser mais liberais. 2. Lanches fora de hora: o ideal são seis refeições diárias e evitar as beliscadas fora desses horários. 3. Oferecer comida como recompensa: “coma toda a sopa para ganhar a sobremesa”. Passa a idéia de que tomar sopa não é bom e que a sobremesa é que é o máximo.

Denise de Oliveira Schoeps, Pediatria e Puericultura da Faculdade de Medicina do ABC.

4. Ameaçar castigos para quem não cumpre o combinado: “se não comer a salada, não vai ganhar presente”. Isso somente vai aumentar o ódio que a criança sente das saladas. 5. Brincadeiras na mesa: hora de comer é hora de seriedade, evitar fazer aviãozinho. Muito mimo é sinônimo de muita manha. 6. Ceder ao primeiro “não gosto disso”: a criança tem uma tendência a dizer que não gosta de uma comida que ainda não provou. Cada um pode comer o que quiser, mas experimentar não custa nada. 7. Substituir refeições: não quer arroz e feijão, então toma uma mamadeira. Esse erro é muito comum, e se a criança conseguir uma vez, vai repetir essa estratégia sempre. 8. Tornar a ida a uma lanchonete, um evento: A comida de casa fica meio sem graça. 9. Servir sempre a mesma comida: a criança só toma iogurte, então passa o dia todo tomando iogurte. Vai enjoar, ter carência de nutrientes, de fibras, etc. 10. Dar o exemplo: Não adianta mandar tomar sucos e somente beber refrigerantes.

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Especial - Segurança Alimentar

Cardápio dos

CAMPEÕES

Quais as diferenças necessárias na alimentação de um atleta. Liane Uechi

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e uma alimentação adequada é fundamental no desempenho de uma pessoa, seja para trabalhar ou para estudar, imagine sua influência para um atleta, cujo corpo demanda uma quantidade de energia muito maior, para alcançar a alta performance desejada. Especialistas são unânimes em afirmar que para maximizar os resultados, um atleta precisa adequar sua dieta de modo a atender o seu gasto energético. Evidente que as necessidades irão variar de acordo com o tipo, freqüência, intensidade e duração de treinamentos. O assunto chegou às discussões populares após a divulgação na mídia da dieta de 12.000 calorias diárias do super nadador Michael Phelps, impensável para um cidadão comum.

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O brasileiro é um apaixonado por esportes, habilidoso, cheio de ginga e raça. Mas será que todos os nossos atletas têm acesso a uma dieta nutricional específica, que otimize seu desempenho? Tânia Rodrigues, diretora técnica e nutricionista da RGNutri Consultoria e coautora da Diretriz da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva para recomendações nutricionais a praticantes de atividade física, explica que uma das principais diferenças entre a alimentação da população e a do atleta é a quantidade de alimentos e os tipos de nutrientes necessários para repor o gasto calórico e recuperar os músculos, evitando fadigas. Sem essa reposição, o atleta está sujeito a um comprometimento do funcionamento normal do corpo, o que por sua vez, pode gerar alterações na sua imunidade e na regulação dos seus hormônios.

Ela explica que existem recomendações nutricionais para praticantes de atividade física, já comprovadas cientificamente, e que estão descritas em Diretrizes Americanas, Canadenses, Européias e também Brasileiras, que orientam sobre aspectos como: calorias, quantidades de carboidratos, proteínas e nutrientes importantes. Dessa forma, a nutrição para o atleta deve ser encarada como uma parte do programa de treinamento, de modo a obter resultados potencializados. Para simplificar, a nutricionista divide essas recomendações em três linhas gerais: atividades aquáticas, de força e de longa duração. Para as atividades aquáticas são recomendados alimentos de fácil digestão, carboidratos pobres em fibras, proteínas e gorduras, antes da atividade


física, de forma à evitar distúrbios gástricos durante o evento esportivo. Para os treinos de força, além dos carboidratos é necessário um aporte de proteínas maior do que o recomendado para indivíduos não treinados, pois objetivam a formação da massa muscular e para os treinos de longa duração, além dos carboidratos e proteínas é muito importante calcular a hidratação durante o evento esportivo. Alguns sinais podem ser notados no corpo, quando essa reposição nutricional não está adequada: má recuperação muscular, câimbras freqüentes, fadiga muscular durante e após os treinos, alterações no padrão de sono e do apetite e até alterações de humor, de concentração no trabalho e no estudo. Conforme orientou Tânia, em geral, recomenda-se de quatro a seis refeições di-

árias. Mas não se trata apenas da definição do número de refeições. É preciso aliar o volume das mesmas aos horários dos treinos, à disponibilidade de alimentos, às condições econômicas para sua aquisição, e até mesmo os limites e conhecimentos no preparo dessas refeições, entre outras variáveis. A hidratação é, segundo a especialista, outro fator muito importante, cuja falta pode levar a um comprometimento da força muscular e, conseqüentemente, do desempenho. “É preciso estabelecer um plano de hidratação adequada antes, durante e após o treino, pois a sensação de sede não é um bom indicador fisiológico, uma vez que quando isso acontece o indivíduo já se encontra desidratado. As bebidas esportivas podem repor eletrólitos e carboidrato ao melhor desempenho esportivo” – assegurou a nutricionista.

Tânia Rodrigues, especialista em nutrição esportiva

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Especial - Segurança Alimentar

Farmácia na Feira Retorno aos antigos hábitos alimentares podem auxiliar na prevenção de doenças. Liane Uechi

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s alimentos são imprescindíveis à vida. Deles retiramos as fontes de energia e os nutrientes necessários à formação do nosso organismo. Todo ser vivo traz desde a concepção, reservas alimentares junto às células. Mas tudo em excesso ou utilizado inadequadamente faz mal, inclusive os alimentos. Nesse sentido, eles não podem ser considerados heróis nem vilões. São sim, fontes de manutenção da vida e devem ser conhecidos e utilizados com sabedoria. O médico nutrólogo e presidente da ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia, Durval Ribas Filho, quando questionado se os alimentos poderiam matar, respondeu que “o segredo da vida

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está no meio e não nas extremidades. Por exemplo, o excesso de água pode provocar um distúrbio hidroeletrolítico e causar danos letais ao organismo humano” – disse o especialista. Por outro lado, Ribas Filho acredita que os alimentos são coadjuvantes no processo de cura e fundamentais para prevenção de doenças crônico-degenerativas. Convencionou-se chamar esses alimentos de “funcionais”, ou seja, aqueles que além de fornecer nutrientes, também possuem compostos bioativos que favorecem o não-desenvolvimento de doenças, atuando de forma preventiva e na melhoria da saúde geral. Os centros de pesquisas divulgam constantemente novas descobertas cien-

tíficas sobre os ingredientes contidos nos alimentos, como os “fitoquímicos”, com propriedades “medicinais”. Esses novos achados revelam novidades fantásticas sobre alguns alimentos, como a soja ou repolho, que, repentinamente, passam a ser considerados potenciais “salva-vidas”, mas que já eram bem conhecidos e utilizados pelas nossas avós. Dentre os já bastante reconhecidos estão o alho, a cebola, os vegetais crucíferos, vinho, suco de uva e cítricos, soja, nozes, abacate, amêndoas, azeite de oliva, pecãs, avelãs, peixes com alta concentração de Omega 3, entre outros. “O ideal é utilizá-los sempre de três a quatro vezes por semana, nunca em excesso” – orientou o nutrólogo.


Para um melhor aproveitamento dos alimentos, o médico dá algumas dicas gerais. • Fracionar as refeições; • Evitar comer em grandes quantidades; • Ingerir alimentos funcionais com freqüência; • Não exagerar nas gorduras saturadas e nos açúcares; • Consumir grande quantidade de frutas, verduras e legumes todos os dias. DISTORÇÃO DE CONCEITOS A nutricionista Denise Madi Carreiro, autora de diversos livros de nutrição, cita Hipócrates, o pai da medicina, em um artigo no seu site, para quem a cura das doenças se daria através do equilíbrio com o meio ambiente, dos alimentos ingeridos e da paz de espírito. Ele afirmava isso há mais de 2.400 anos, e hoje, os cientistas estão chegando à mesma conclusão. O fato é que a alimentação é um dos fatores que mais influenciam a nossa qualidade de vida. Para a nutricionista, existe atualmente uma enorme distorção de conceitos, que faz com que as pessoas considerem saudável tudo que é light ou diet. Segundo ela, não é bem assim, como provam os indicadores de pesquisas de doenças como obesidade, câncer, diabetes, reumatismos e outras moléstias principalmente, as degenerativas, que crescem anualmente. Denise afirma que todos os alimentos são funcionas, porque todos são fontes de nutrientes, responsáveis por formar células e colocar o organismo em funcionamento, até mesmo a gordura. Os nutrientes são matérias-primas utilizadas pelo organismo para construir e restaurar os ossos, os músculos, as célu-

las, o sangue, os órgãos. “O organismo é composto de trilhões de células, cada uma com no mínimo 44 nutrientes. São eles que formam tudo que nos mantém vivos: hormônios, neurotransmissores, células de defesa e a parte estrutural. Renovamos diariamente 50 milhões de células. Que tipo de matéria-prima estamos fornecendo para essa renovação? “ – questionou. Diz ainda que 60% do cérebro é gordura, da mesma forma, que o colesterol é necessário para a formação de hormônios. Conforme recordou, se voltarmos no tempo, uns 40 anos, veremos que os alimentos eram conservados em banha e naquela época não havia os índices de obesidade e seus problemas correlatos atuais. O que mudou então? “As pessoas deixaram de comer comida e passaram a ingerir itens alimentícios, produtos industrializados, repletos de química e quase sem nutrientes. Uma pesquisa do IBGE aponta que houve um aumento de 300% no consumo de refrigerantes, 400% nos biscoitos recheados, 300% nos embutidos e uma diminuição de 84% no consumo de ovos” – disse ela. A confusão, segundo ela, é tão grande que as pessoas passaram a acreditar que comer um sanduíche de peito de peru (embutido) é mais saudável do que comer ovos, por exemplo. “O ovo possui colesterol, mas não aumenta o colesterol de quem o consome. Já está mais do que provado, porém, profissionais de saúde continuam a acreditar que colesterol aumenta colesterol” – afirmou. Enquanto isso, a população ingere inúmeros aditivos contidos nos produtos industrializados como: acidulantes, antioxidantes, antiumectantes, aromatizantes, conservantes, corantes, estabilizantes, espessantes, umectantes e o Glutamato Monossódico, que realça o

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Especial - Segurança Alimentar

sabor dos alimentos. “O cérebro fica confuso, onde estão os nutrientes necessários?” – disse. Ela reclama que hoje todos estão preocupados com as calorias, com o que engorda e o que emagrece, e aí cometem-se novos equívocos, como por exemplo, o abacate, condenado nas dietas de emagrecimento. “O abacate possui enzimas que ajudam a emagrecer. Se a pessoa comer ¼ de abacate poderá se beneficiar dessa propriedade. Claro, que se comer um abacate inteiro e ainda adicionar leite condensado, irá engordar” – exemplificou, dizendo que muitas vezes, a forma como ingerimos os alimentos, impedem que os mesmos exerçam sua função, que sejam “funcionais”. O Brasil tem a facilidade de dispor de enorme variedade de frutas, verduras e le-

gumes frescos e a custo ainda acessíveis, se comparados a outros itens, mas o brasileiro está longe de consumir sua cota ideal de 400g diária desses alimentos, por uma mudança nos hábitos alimentares atuais e com isso, vem perdendo inúmeros benefícios já conhecidos por nossas avós, mas que só hoje estão sendo comprovados pela ciência. Um bom exemplo são as verduras como couve-flor, brócolis e a couve, que previnem cânceres por possuírem substâncias como glicosinatos e isotiocianatos, que eliminam substâncias cancerígenas do organismo. Continua valendo a receita antiga, pratos coloridos por legumes, verduras, carnes e cereais... Os alimentos “medicamentos” estão na feira, nas gôndolas dos supermercados... basta voltar a utilizá-los.

Durval Ribas Filho, presidente da ABRAN

Conheça as matérias primas para o bom funcionamento de nosso corpo: • Água Representa até 70% do corpo, hidrata, dissolve os alimentos e transporta os nutrientes. Um adulto deve beber de 1 a 3 litros de água por dia. • Carboidratos Substâncias que fornecem energia para as atividades diárias, como andar, trabalhar, praticar atividades físicas, etc. São a base da pirâmide alimentar, são encontradas em: massas, açúcar, mel, arroz, milho, batata, mandioca, farinhas, pães, bolos, doces, bolachas e biscoitos, macarrão, entre outros. • Proteínas Substâncias responsáveis pela construção e formação dos músculos, ossos e sangue; pelo crescimento e desenvolvimento do organismo em geral; renovação dos tecidos; formação de células, hormônios e enzimas. Estão presente nas carnes em geral; aves, bovinos, peixes, etc. Nos ovos, leite e derivados, e grãos como soja, feijão, lentilhas, ervilhas, grão-de-bico e outros alimentos. • Vitaminas Substâncias que regulam as funções do organismo, auxiliam nas defesas e na manutenção do organismo. Estão presentes em frutas e verduras, carnes, ovos, leite e derivados. • Minerais São eles que formam os nossos ossos e cartilagens, e ajudam na manutenção dos tecidos, órgãos, sistema nervoso, etc. Além do transporte de oxigênio e do gás carbônico, fazem parte do sistema de coagulação do sangue. Os minerais são encontrados em frutas, verduras, carnes, ovos, leite e derivados. • Fibras São substâncias importantes no funcionamento regular do aparelho digestivo, principalmente o intestino, além de ajudar no combate ao colesterol. As fibras são encontradas em frutas, verduras e cereais integrais (feijão, arroz integral, farinha de trigo integral). • Gorduras Assim como os carboidratos, também fornecem energia. E são importantes por dissolverem e transportarem algumas vitaminas (A, D, E e K). As gorduras estão presentes nas gorduras animais, leite, óleo, margarina, manteiga, e outros. (Tabela: fonte – site Web Laranja – Práticas de Segurança Alimentar - http://www.weblaranja.com/nutricao/alimentacao_saudavel.htm) 32

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Especial - Segurança Alimentar

Alimentação e Pro a dobradinha saudável

Não é por falta de boas idéias que o País não avança, ao cuidar da saúde e

Bruno Spada

Gabriel Arcanjo Nogueira

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Inclusão social do brasileiro passa por uma alimentação adequada


odutividade,

e segurança do trabalhador. Exemplo é o PAT.

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uando se fala em saúde no trabalho, a palavra-chave está na sigla PAT Programa de Alimentação do Trabalhador. Nada tão recente - a lei que o criou é de 1976 -, mas que vale pela evolução que mostra nos seus mais de 30 anos de existência. Nesse aspecto, a saúde da empresa avança na mesma proporção porque, de acordo com estudos do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a produtividade lidera a lista das principais vantagens auferidas por empresas que se inscreveram no PAT. A adesão não é compulsória; vai da responsabilidade social de cada organização. Se não bastasse esse ganho, nos empreendimentos em que o PAT está presente há maior integração de trabalhadores e empresas; cai o índice de atrasos e faltas ao trabalho; baixa a rotatividade de mãode-obra; reduz-se o número de doenças e acidentes do trabalho. Para não ficar só nos benefícios sociais, as empresas obtêm ainda isenção de encargos sociais sobre o valor do benefício concedido e ganham o incentivo fiscal de deduzir até 4% do Imposto de Renda devido sobre o lucro real. As instituições mais cautelosas ou conservadoras não precisam  preocupar-se com conseqüências trabalhistas porque os benefícios do PAT não constituem direito adquirido, frisa o próprio Ministério. Mas, além desse aspecto, devem levar em conta que há a necessidade de se cercar de alguns cuidados. Por exemplo, na modalidade de Serviço Próprio, em que a própria empresa cuida da autogestão da área, ela precisa ter o responsável técnico, no caso, nutricionista que responda pelos valores nutritivos e

calóricos nas refeições oferecidas, de acordo com o previsto na legislação do Programa.   O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) lembra que os cuidados com a saúde do trabalhador, de tão essenciais, não permitem que um mesmo profissional atue num sem-número de empresas, mas se restrinja a no máximo duas delas.  As empresas podem participar do PAT de três formas: como beneficiárias, fornecedoras ou prestadoras de serviços. A cartilha de Orientação, elaborada pelo Ministério, traz essas e outras informações básicas sobre o Programa (ver SERVIÇO). ESTABILIDADE E PROSPERIDADE Em sua tese de Mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), com o sugestivo título Conexões Político-Constitucionais Sobre a Fome no Brasil Face aos Direitos Sociais, o especialista Roberto Baungartner define o PAT como “mecanismo de redução das desigualdades” que “contribui para a estabilidade e prosperidade sociais”. Ele cita a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), para quem cada 1% a mais no nível calórico do trabalhador corresponde ao aumento de 2,27% na produtividade, e assina embaixo o alerta do Nobel da Paz, Norman E. Borlag, feito em 1970 (anterior ao PAT): “Não pense nem por um minuto que nós vamos construir uma paz mundial permanente sobre estômagos vazios e miséria humana”. O PAT, na visão de Baungartner, é instrumento complementar de realização do que estabelece a Constituição no seu

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Especial - Segurança Alimentar

go. Para não ficar apenas nos mais desenvolvidos, México, Argentina, Colômbia, Venezuela, Uruguai, Índia, Turquia, República Tcheca e Eslováquia completam a lista. O Brasil tem de decidir se, no quesito saúde do trabalhador, se alinha mais acima ou mais embaixo.   DESNUTRIÇÃO X REDISTRIBUIÇÃO O professor-doutor José Afonso Mazzon, da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIAUSP), coordenou em 2006 o estudo sobre os 30 Anos de Contribuições do PAT ao Desenvolvimento do Brasil, em que ressal-

ta que o grande salto teria de ser feito da quantidade para a qualidade das refeições. Entre as implicações para que o PAT se torne mais efetivo, Mazzon destaca as de cunho nutricional. Por exemplo, o País ainda carece do que ele classifica como excepcional redistribuição de renda. Para que essa mão-de-obra alcance um aumento de 20% nas calorias, seria necessário colocar 70% a mais na renda de cada profissional. Mazzon propõe que se busque, sempre, o que chama de Círculo Virtuoso da Alimentação e Saúde do Trabalhador (ver ilustração).

SERVIÇO artigo 7º, IV, que trata do direito do trabalhador à alimentação como algo inegavelmente social. Pena que o salário mínimo, de que trata também o artigo constitucional, ainda fique longe de prover as necessidades básicas do trabalhador e de sua família, entre elas - e principalmente - as com a alimentação. E que não se diga que não estamos em boa companhia. Há países com programas análogos, cita o especialista, entre eles a Inglaterra (desde 1948) e a França (desde 1967), seguidos por Itália, Alemanha, Bélgica, Portugal, Espanha, Suécia, Áustria, Hungria, Luxembur-

* Para saber mais sobre o PAT, a empresa pode consultar o site www.mte. gov.br ou o Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho (DSST). * A coordenação do PAT (Copat) pode ser consultada pelo telefone: (61) 3317-8263. * Para se cadastar no PAT, nutricionistas devem informar por e-mail o nome; CRN; CPF; região de atuação; endereço residencial completo com CEP, telefone e e-mail.

Círculo Virtuoso da alimentação e saúde do trabalhador

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Bruno Spada

Roberto Baungartner

Cartão do Bolsa Família é utilizado pelas famílias principalmente em alimentação


Artaet Arantes da Costa Martins

A cultura

dos 3Rs

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tualmente as organizações mais competitivas estão focadas nos resultados, acreditam que somente resultados positivos e crescentes permitem a continuidade e a expansão dos negócios. A prática tem-se mostrado como a única saída às organizações e isso ocorre pelo fato de que se não procederem assim, fatalmente irão quebrar e deixar de contribuir para com o seu principal papel de responsabilidade social: que é o de gerar empregos, além de atender ao mercado com seus bens e serviços. É a única saída viável, principalmente em um país em que as organizações e toda a sociedade são literalmente “massacradas” com o excesso de tributos, que há tempos ultrapassou a esfera do racional e suportável. Neste cenário a busca incessante de lucros, a liderança em produtividade e a eficiência operacional – resultantes do foco na gestão, controle de risco e disciplina financeira – devem ser, portanto, objetivos fundamentais. Na busca de excelência, são aplicadas ferramentas que visam alavancar estes resultados. Infelizmente, fruto talvez de miopia administrativa, muitas organizações abandonam ou mesmo não implementam ferramentas que criam a base necessária para o sucesso, muitas destas ferramentas são simples, fáceis de serem implantadas e implementadas e o mais importante, rapidamente produzem os resultados positivos. Entre elas citamos a cultura dos 3Rs. No caso da adoção da cultura dos 3Rs, as medidas recicláveis geram não apenas vantagens para a economia, mas grandes ganhos na qualidade ambiental, que têm reflexos em toda a sociedade. Podemos citar como exemplos: Na reciclagem de uma lata de alumínio economiza-se o suficiente para manter ligado um aparelho de televisão durante 3 horas;

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1 tonelada de papel reciclado significa economia de três eucaliptos e 32 pinus, árvores usadas na produção de celulose; Na fabricação de 1 tonelada de papel reciclado são necessários apenas 2 mil litros de água, ao passo que no processo tradicional esse volume pode chegar a 100 mil litros por tonelada.

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Fica a pergunta: Qual a justificativa para não se investir nestas e outras práticas básicas de gestão? Se fizermos uma pesquisa com a população, perguntando o que vem a ser 3Rs, seguramente a maioria não saberá responder. Resultado de um processo de educação ambiental incipiente ou não eficaz. A cultura dos 3Rs: Reduzir - consumir menos é fundamental. Hoje, o Brasil produz 88 milhões de toneladas de lixo por ano, cerca de 440 quilos por habitante; Reutilizar - é impossível reduzir a zero a geração de resíduos. Mas muito do que jogamos fora deveria ser mais bem reaproveitado. Potes e vasilhames de vidro e caixas de papelão podem ser úteis em casa ou nas indústrias de reciclagem. E o destino de restos de comida, como cascas e folhas, tinha de ser a compostagem; Reciclar - o “erre” mais conhecido é sinônimo de economia de matérias-primas. Vidro, papel, plástico e metal representam, em média, 50% do lixo que vai para os aterros. Além disso, a reciclagem pode virar dinheiro. Como Reduzir? As empresas podem fazê-lo através da fabricação de embalagens com menos peso, com menor dispêndio de energia e de recursos naturais, com menores dimensões ou evitando o desperdício.

Os consumidores devem ter comportamentos verdes, como: Evitar comprar rolos de alumínio e de plástico; Evitar sacos desnecessários de plástico e/ou papel (prefira os de pano); Amassar as embalagens para se conseguir, redução significativa do volume de resíduos. Evitar consumir o desnecessário; Use toalhas e guardanapos de pano, em lugar das de papel; Enfim, rejeitar sempre tudo o que for usar uma única vez; Ensine os seus filhos a resistirem ao efeito da moda, usando a roupa até ao fim;

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Por que Reutilizar? Significa dar novos usos, a materiais já utilizados, voltando a usá-los. Incentive as empresas a produzirem embalagens que tenham uma segunda destinação. Utilizar o verso das folhas de papel escritas só de um lado, para cadernos e agendas. Frascos vazios de vidro ou plástico e as latas podem servir para guardar canetas, material de costura, ferramentas de pequeno porte, cereais, ou para decoração. Roupa e objetos domésticos, como móveis, eletrodomésticos e brinquedos podem ser entregues a Instituições de Caridade. Como Reciclar? Para serem mais eficiente, os resíduos não podem estar misturados, nem sujos. Do papel devem-se retirar os grampos, fitas adesivas, plásticos e outros; Das embalagens de vidro, plástico ou metal devem-se retirar os rótulos, tampas, gargalos ou rolhas, e laválas; deve compactar as embalagens. Assessor da Qualidade, Meio Ambiente, Responsabilidade Social e Ouvidoria. Engenheiro com mestrado em Qualidade e Pós-graduação em Gestão Ambiental. Neo Mondo - Outubro 2008

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Comportamento

Limites emocionais

no TRÂNSITO Como conviver e dominar as emoções no trânsito. Liane Uechi

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trânsito, sobretudo nos grandes centros urbanos, tornou-se um grave problema de saúde pública, com características de epidemia, uma vez que mata mais do que doenças como AIDS, insuficiência cardíaca, renal, dentre outras. É uma das principais causas de óbitos entre pessoas com menos de 59 anos. Estatísticas oficiais indicam que anualmente, cerca de 20 mil pessoas perdem a vida no trânsito, 500 mil ficam feridas e mais de 100 mil sofrem lesões irreversíveis. A Organização Mundial da Saúde considera essa situação um problema global de saúde pública e de desenvolvimento social.

ALTO PREÇO Dados de 2006 revelam que isso tem também um elevado preço, só no Sistema Único de Saúde (SUS) foram registradas 123.061 internações, ao custo de R$ 118 milhões, sem contar as despesas com previdência e absenteísmo ao trabalho e à escola. Outro estudo, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), entre os anos 2001 e 2003, quantificou os valores oriundos dos acidentes de trânsito em áreas urbanas e concluiu por perdas anuais da ordem de R$ 5,3 bilhões. Em 2006, o IPEA confirmou que os impactos sociais e econômicos dos acidentes nas rodovias brasileiras são bastante significativos, estimados em R$ 24,6 bilhões, considerando a perda de produtividade das vítimas. Ficaram de fora, os cálculos sociais como a desestruturação familiar e pessoal, de difícil mensuração. CENÁRIO CAÓTICO Com o crescente número da frota de veículos em circulação, que segundo o Denatran é de 45 milhões de veículos, as vias públicas estão se tornando espaços caóticos e palco

para atos de violência, intolerância e desrespeito. O acentuado estado de irritabilidade do motorista levou o ambulatório de Transtorno do Impulso, do Hospital das Clínicas, em São Paulo, a iniciar um tratamento para transtorno explosivo intermitente. As vagas oferecidas se esgotaram em poucas horas. O psiquiatra Julio César Fontana Rosa, professor da Faculdade de Medicina da USP e membro da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, afirmou que a exposição contínua ao estresse dos congestionamentos podem provocar sérios distúrbios que vão de problemas cardíacos, gástricos, ósseo musculares até depressão e outros de ordem psíquica. Quanto ao comportamento agressivo, ele defende que há fatores culturais envolvidos. “O carro no Brasil não é apenas um meio de transporte, ele tem um caráter de status. Costumo fazer uma analogia que chamo de Síndrome da Casa Grande e Senzala. No comando do veículo, o motorista se sente o Senhor do Engenho, com o poder absoluto. Qualquer ação externa passa a ser entendida como uma provocação pessoal” – afirmou o especialista. A esse sentimento somam-se os demais conflitos do cotidiano: dificuldades financeiras, problemas no relacionamento, cansaço, horários, cobranças e outros fatores externos ao ato de dirigir, que se, não podem ser responsáveis por ”criar um monstro”, pelo menos o revelam em público . O agravante, lembrou o psiquiatra, é que ele conta com uma tonelada de metal e a potência do motor do carro ao dispor de sua fúria. Fontana Rosa diz que é preciso cautela nesses momentos críticos e isso significa atenção para não se tornar uma vítima. “Existem dois tipos de vítimas, a inconsciente, que é aquela pessoa que dirige com insegurança ou simplesmente não tem pressa, e outra consciente, que é o provo-

... as vias públicas são espaços coletivos onde precisamos conviver


Comportamento

Flávio Takemoto

Tunél na Rodovia dos Imigrantes em São Paulo. cador, que revida, não dá passagem, não respeita as regras” – disse. Nesse último caso, também se enquadram aqueles para quem tudo é uma provocação. “Se analisarmos bem, verificaremos que as vítimas do trânsito, muitas vezes colaboraram de alguma forma, para gerar uma tensão. É isso que precisamos evitar” – disse.

A psicóloga Ana Cristina Caldeira concorda que é preciso desarmar a bomba relógio que virou o trânsito nos centros urbanos. “Já é tempo de entender que as vias públicas são espaços coletivos onde precisamos conviver” - orientou. O primeiro passo é identificar os próprios limites, perceber quando as emoções co-

meçam a sair do controle e tentar refletir que uma postura negativa trará conseqüências ruins. Optar sempre que possível por caronas, por rotas alternativas, por horários mais tranqüilos também são formas de não se expor a condições tão agressivas. Ela defende que no dia-a-dia é importante manter atividades prazerosas, dormir bem, ter atividades de lazer e buscar o convívio com pessoas queridas. “Reduzindo o nível de estresse, as pessoas conseguem lidar melhor com qualquer situação” – disse a psicóloga. Para a professora de Tai Chi Chuan e Presidente da Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan e Cultura Oriental (SBTCC), Maria Ângela Soci, a prática dessa milenar arte oriental pode ser muito útil nas situações de desequilíbrio emocional no trânsito, principalmente porque a técnica é excelente para educar a mente a agir com a calma no meio de conflitos. Sua principal vantagem, segundo a professora, é obter uma consciência corporal obter, que permitirá o domínio das emoções. Maria Angela ensina alguns exercícios que podem auxiliar durante a permanência no carro:

Movimente a cabeça para cima e para baixo. Depois, para esquerda e para direita.

• Com a mão próxima do ombro, faça um movimento circular com o braço direito. Primeiro, para a frente; depois, em sentido inverso. Repita o mesmo exercício com o braço esquerdo. • Sentado com a coluna reta, apóie a mão direita na perna direita e erga o outro braço como se levantasse algo. Repita o mesmo movimento com o braço esquerdo. • Massageie as costas com movimento circulares, de dentro para fora e em sentido contrário. • Estique o braço direito. Com a mão esquerda, empurre suavemente a palma direita para baixo, em ambos os sentidos. Repita o exercício com o outro braço. • Lentamente, levante o queixo em direção ao teto, dobre a nuca para trás e relaxe os maxilares. Volte e abaixe o queixo em direção ao peito, alongando a parte posterior do pescoço. • Olhando para a frente, faça movimentos circulares com a cabeça, como se desenhasse um círculo no ar com a ponta do nariz. • Levante um dos braços até tocar o teto do carro e empurre-o com a mão. Repita com o outro braço. • Estique o braço para frente e feche o punho. Faça movimentos vigorosos e rápidos de abrir e fechar o punho.

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O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL

Natascha Trennepohl

Correspondente especial de Berlim – Alemanha

e a posição do Brasil na comercialização de créditos de carbono

O

Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, mais conhecido pela sigla MDL, é um instrumento financeiro inserido pelo Protocolo de Quioto para auxiliar na diminuição de gases como CO2 e CH4 que causam o efeito estufa. O Protocolo entrou em vigor em fevereiro de 2005 e estabeleceu metas de redução a serem cumpridas por países desenvolvidos, como França, Alemanha, Canadá, Itália etc. Esses países possuem três mecanismos financeiros a disposição para a viabilização desse objetivo, mas apenas o MDL permite a participação do Brasil. Com a implantação de um projeto de MDL são evitadas emissões de gases de efeito estufa e são gerados ‘créditos’ que podem ser comercializados. Criou-se, com isso, o ‘mercado de carbono’. A BM&F-Bovespa já está negociando esses créditos e realizou o seu segundo leilão em setembro de 2008, vendendo 713 mil toneladas de RCE (Redução de Emissão Certificada) de titularidade da Prefeitura de São Paulo provenientes dos aterros sanitários São João e Ban-

deirantes. O lance vencedor alcançou a cifra de 19,20 euros por tonelada, totalizando mais de 13 milhões de euros, quantia bem maior do que a obtida no primeiro leilão. A BM&F possui, ainda, o banco de projetos, onde são cadastrados programas e intenções de compra. Assim, um investidor estrangeiro eventualmente interessado em adquirir créditos de carbono pode registrar seu interesse e descrever as características do projeto procurado. O mercado de carbono tem movimentado cifras cada vez maiores e representa uma interessante opção para muitas empresas, em razão dos financiamentos que podem ser obtidos para o desenvolvimento da atividade e os lucros gerados pela venda dos créditos. Adicione-se, ainda, a utilização de tecnologias limpas e práticas voltadas para o desenvolvimento sustentável, pontos importantes no tão almejado quesito da responsabilidade ambiental. De acordo com o Status atual dos projetos de MDL no Brasil e no Mundo, divulgado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil ocupa a terceira posição nas reduções de emissões de CO2 projetadas para o primeiro período de obtenção de créditos do Protocolo (2008-2012), o que corresponde a 7% da redução mundial. O país também é o terceiro em número de atividades de projeto, ficando atrás apenas da China e da Índia. A maioria dos projetos no Brasil (67%) promove a redução da emissão de dióxi-

do de carbono (CO2), seguido pelo metano (CH4), que atinge a cifra de 32%. As atividades estão centralizadas em alguns estados, destacando-se São Paulo (21%), Minas Gerais (13%), Rio Grande do Sul (10%), Mato Grosso (9%), Santa Catarina (8%) e Paraná (7%). Já faz parte da pauta de discussões do Parlamento Europeu o desenvolvimento de parcerias entre a União Européia e a América Latina no que se refere às medidas para evitar o aquecimento global. O interesse dos ‘países desenvolvidos’ no financiamento de projetos de MDL em ‘países em desenvolvimento’, como o Brasil, é crescente, pois as metas de emissão dos primeiros são cumpridas com a compra das emissões que foram evitadas. Para aqueles que estão em desenvolvimento, por sua vez, esta é uma excelente forma de desenvolver práticas ambientalmente corretas e, ainda, receber vantagens financeiras. Enfim, trata-se de uma atividade econômica para países do terceiro mundo e de oportunidades ecológicas para grandes centros, a maioria deles localizados na Europa, e que já alcançaram o desenvolvimento. Aos países, como o Brasil, que ainda buscam as qualidades sociais atingidas pela União Européia, resta fazer bom uso desses créditos.

Natascha Trennepohl Advogada e consultora ambiental Mestre em Direito Ambiental (UFSC)

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Fotos: PaulaLyn Carvalho

Espaço Verde Urbano

Leitura Socioambiental da Fotografia Urbana Pesquisa para identificar e reeducar uma sociedade de risco. PaulaLyn

* Ganso doméstico (Anser anser) Originário da América do Norte. Vive próximo a rios e lugares abertos. Alimenta-se de grãos, frutas e vegetais. Chegam a 40 cm de altura.

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* Macaco-prego (Cebus apella) O macaco-prego é também chamado de “capuchinho”, pela semelhança de sua pelagem com o capuz dos monges. É um animal muito hábil, que utiliza pedras e pedaços de pau para abrir frutas de casca dura. É facilmente visto pelo parque.


Não há nada a dizer. Temos que ver, olhar. É tão difícil fazer isto. Estamos acostumados a pensar, todo o tempo. É um processo muito lento e demorado, aprender a olhar. Um olhar que tenha um certo peso, um olhar que questione. Henri Cartier Bresson

V

Homem, Sociedade e Meio Ambiente Há um tempo atrás eram fenômenos analisados separadamente. Hoje, homem, sociedade e meio ambiente integram não só teorias unificadas, como também reflexões e soluções para a sobrevivência de ambos. Para a observação e análise desse cenário, é na fotografia do individual e do coletivo, do social e do ambiental e da relação entre eles, que podemos vislumbrar dos parques urbanos grandes pólos de concentração de informação e forma-

ção. Estas grandes áreas destinadas ao lazer podem provocar ações integrativas para uma mudança significativa e definitiva no modo de pensar pós-contemporâneo da relação homem – sociedade - meio ambiente. A partir desta edição, convidamos você a olhar. Não somente estas fotografias, e sim todas as imagens a sua volta. Um olhar interativo, inquieto e questionador.

* Informações sobre a fauna e flora fornecidas por Caroline Nunes Parreira, Bióloga e Consultora Ambiental. (parreiracarol@hotmail.com)

Ricardo Veneziani

ivemos em uma cultura visual em expansão e mais amplificada pelas tendências tecnológicas. Aprender a ler uma imagem é cada vez mais necessário. Desse ponto de vista, algumas áreas do conhecimento como Artes, Comunicação, Ciências Sociais, História e Semiologia exercem papel fundamental na formação desses leitores. Uma fotografia será sempre um recorte do real, em um determinado tempo e espaço. Ao fazer sua leitura, é essencial considerar todo o contexto inserido no ato fotográfico: o fotógrafo, o tempo e o espaço, e então, a partir daí, investigar para encontrar correlações e influências na sociedade em que vivemos. Precisamos ter discernimento dos diferentes caminhos que a fotografia pode trilhar. Uma fotografia publicitária, por exemplo, é totalmente produzida com objetivos pré-estabelecidos; um pouco diferente de uma fotografia com uma proposta totalmente artística, produzida ou não, que valoriza além da estética, da técnica e da estrutura dos elementos da composição, o subjetivo; já a fotografia documental e jornalística (que embora possa ser manipulada também e ter influência subjetiva do fotógrafo), precisa ser o mais imparcial e real possível, para que, segundo José de Souza Martins, sirva de “[...] instrumento indispensável na leitura dos fenômenos sociais.” (MARTINS, 2008). A pragmática começa no acontecimento e na escolha do artista/fotógrafo, mas nunca termina. Porém, a única certeza que todos nós temos é que a fotografia, de fato, “é”.

Parque Estadual Alberto Lofgren - Horto Florestal Este ano, o Parque Estadual Alberto Lofgren, antigo Horto Florestal, completou 112 anos. Está localizado na Zona Norte da capital paulista, ao lado do Parque Estadual da Cantareira. Possui 174 alqueires e mantém extensas áreas de Mata Atlântica (pau-brasil, carvalho-nacional, pauferro e jatobá), além de uma grande variedade de espécies exóticas (eucalipto, pinheiro-do-brejo e criptomeria), proporcionando o habitat perfeito para a fauna que ali vive.

Para saber mais: www.hortoflorestal.com.br www.iflorestal.sp.gov.br

PaulaLyn Carvalho PaulaLyn Carvalho é Diretora de Arte, Fotógrafa e Pesquisadora. Graduada em Comunicação, Pós-Graduada em Arte Integrativa e graduanda em Ciências Sociais. Pesquisa e registra o socioambiental nos parques urbanos de São Paulo (Estaduais, Ecológicos etc.), Parques Nacionais e Ecológicos, APAs e Reservas Ecológicas do Brasil. (contato@paulalyn.com.br) www.paulalyn.com.br Neo Mondo - Outubro 2008

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O Licenciamento Ambiental

Terence Trennepohl

e as Atividades Industriais de Grande Impacto

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licenciamento de obras de grande impacto ambiental ultimamente vem merecendo especial destaque nos meios de comunicação. Recentemente, tanto o setor sucroalcooleiro do nordeste (principalmente Pernambuco), quanto a instalação de usinas hidrelétricas no norte do país (Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia) foram alvos de severas críticas, por supostas irregularidades em seus licenciamentos ambientais. Além disso, não se pode deslembrar das denúncias de desmatamentos na Amazônia, que atingiram patamares inaceitáveis, inclusive com a participação do governo federal, por meio de seu órgão de Reforma Agrária. Dias atrás, o INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, autarquia vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, foi multado em R$ 265,6 milhões por desmatamento em oito assentamentos diferentes, todos localizados no Estado do Mato Grosso, motivados por assentamentos federais irregulares, o que equivale a 35% do total de multas aplicadas aos maiores infratores ambientais. As notícias envolvendo infrações ligadas ao meio ambiente ensejariam extensos e desnecessários comentários, em face da recorrente ‘onda verde’ que hoje envolve as atividades de governos e empresários. O licenciamento ambiental, ao mesmo tempo em que representa um dos mais importantes instrumentos para a garantia da qualidade de vida das presentes e futuras gerações, é, também, revela muitos pontos de discordância e polêmica, em função de uma injustificável omissão legislativa. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a competência comum dos entes federados para defender o meio ambiente, dispondo que uma Lei Complementar deveria fixar as normas para essa

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cooperação entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. No entanto, essa Lei nunca veio à tona... Os conflitos de competência decorrentes da falta de definição das áreas de atuação dos diferentes entes da federação têm levado os órgãos ambientais integrantes do SISNAMA a freqüentes desentendimentos, pondo em risco a efetiva implantação deste sistema e a própria credibilidade das decisões ambientais no país. Pior ainda. Tem levado os administrados a uma situação de insegurança jurídica inaceitável, com lesões ao seu patrimônio e desestímulo aos investimentos. É de bom tom salientar que o IBAMA (órgão ambiental federal, Executor da Política Nacional do Meio Ambiente, segundo os dizeres da Lei n.º 6.938/81) é um órgão sério e idôneo, não somente de fiscalização, mas principalmente de orientação e apoio técnico, e que vem trabalhando com os diversos setores da indústria e da economia há décadas. Porém, como se viu, em várias ocasiões, pretende-se que o IBAMA seja o algoz de políticas públicas desencontradas, e isso é muito desgastante para sua imagem. Nessa esteira, coloca-se muito a perder, principalmente se se levar em conta que para o cidadão, a melhor gestão é aquela integrada entre o governo e a iniciativa privada. Tornou-se comum o embargo, pelo órgão federal, de obras já licenciadas pelo órgão estadual, ou vice-versa, por ambos se entenderem competentes para tanto. A crise da incerteza e da insegurança dos gestores ambientais faz com que qualquer recomendação, ou mesmo pedido de informação, do Ministério Público seja motivo para a imediata paralisação de qualquer atividade, com receio de eventual responsabilização, inclusive criminal, por omissão ou conivência dos agentes administrativos.

É importantes que propostas que há muito tramitam no Congresso Nacional sejam analisadas não somente com a intenção de propiciar o rápido licenciamento ambiental das obras que compõem o Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal - PAC, mas também com a finalidade de preencher as lacunas existentes na legislação destinada a ordenar as demais atividades e empreendimentos. Com certas atitudes, certamente o governo faria a sua parte no tão esperado crescimento econômico nacional e deixaríamos de ser uma nação precipuamente exportadora de matéria-prima, para entrar definitivamente no cenário da industrialização. Um mero olhar, ainda que desatento, facilmente constata que, nessa mudança de paradigmas, China e Índia saíram na frente... Advogado de Martorelli e Gouveia Advogados Professor da UFPE Mestre e Doutorando em Direito (UFPE) E-mail: tdt@martorelli.com.br


Fiscal da Floresta

Um Olhar consciênte da Amazônia A Revista Neo Mondo vasculha as ações e devastações da Amazônia Legal Brasileira e traz as principais novidades sobre a região. Da Redação

Amazônia e a Cana-de-açúcar Em uma audiência pública da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado Federal, foi anunciado que a Amazônia e o Pantanal não estão nos planos expansionistas do plantio da cana-de-açúcar. Essa restrição pode ter fatores muito mais políticos do que preservacionistas porque, caso o

Brasil se utilizasse de áreas como a amazônica, outros países colocariam sérias restrições na compra do etanol brasileiro. Mesmo assim o país é o único com potencial de aumentar sua produção de etanol (a partir do corte da cana) e manter essas áreas preservadas.

Lista de Animais em Extinção A União Internacional para a Conservação da Natureza divulgou uma lista com os animais ameaçados de extinção. Nela constam 29 espécies e subespécies de primatas da Amazônia, sendo dois deles, o macaco-prego e o cuxiú-preto, na cate-

goria “criticamente ameaçados”. A razão desta ameaça aos dois primatas seria a alta taxa de desmatamento da região da reserva biológica do Gurupi, no oeste Maranhão, onde as duas espécies habitam.

Desmatamento: meses mais secos do ano O sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real - Deter, do INPE, apurou uma redução de 27% de áreas desmatadas nos meses mais secos do ano: junho, julho e agosto - em comparação com 2007. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, os 649 km² registrados equivalem aos menores níveis de desmatamento dos últimos cinco anos. Em 2004, esta área somou 5.858 km² no mesmo período. Esta boa notícia foi divulgada após o susto com o aumento do des-

matamento no mês de agosto (embora haja controvérsias – ver nota abaixo), que chegou a 756 km², o dobro do mês anterior. Com o intuito de continuar reduzindo o desmatamento, o Ministério do Meio Ambiente está implantando medidas de inspeção na Amazônia, entre elas, o aumento no número de portais de fiscalização. “Hoje são apenas dois, nas BRs 364 e 163, mas o objetivo é chegar a oito” - segundo uma nota publicada pelo Ministério.

Contradições Estatísticas Enquanto o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe, registrou um aumento de 134%, com 756 km² devastados na Amazônia, o Sistema de Alerta de Desmatamento - SAD, da ONG Imazon, divulgou, com base em um levantamento independente, que o corte raso sofreu uma queda em agosto, atingindo 102 km². A explicação para a disparidade de resultados se dá pelo fato do SAD só contabilizar as áreas em que a cobertu-

ra florestal foi totalmente removida. Já o Deter também avalia as áreas degradadas por fogo ou por corte seletivo de árvores. Segundo o pesquisador do Imazon, Carlos Souza Jr., o SAD irá começar a contabilizar a degradação da mata, para que sejam verificados quais dos dados apresentados chegam mais perto da realidade da Amazônia.

Assentamento Agrário na Amazônia Os assentamentos de reforma agrária de responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, foram os responsáveis por derrubar uma em cada dez árvores cortadas na Floresta Amazônica nos últimos 12 meses. Esta afirmação é resultado da análise das imagens captadas por satélites entre agosto do ano passado e julho deste ano pelo Imazon. Mais de 80% do desmatamento verificado está em propriedades

privadas e terras da União ocupadas por posseiros ou grileiros. E, aproximadamente 12% do total, ocorreu em unidades de conservação e em terras indígenas. Para reparar e evitar novos danos, o TCU deu um prazo até dezembro para que o Incra apresente um plano de regularização do passivo ambiental dos assentamentos, com metas, cronograma e recursos definidos.

Crise Econômica Amazônica e Amazônia Segundo o ministro do Meio Ambiente, a crise econômica dos Estados Unidos não afetou os investimentos estrangeiros Fundo da Amazônia, ainda em fase de desenvolvimento, que contará com recursos estrangeiros para a preservação ambiental da floresta. A Noruega será o primeiro país a

investir com US$ 1 milhão, mas outros países já mostraram interesse. Mesmo aplicando recursos, o ministro garantiu que os estrangeiros não participarão de decisões sobre as questões relativas à soberania da Amazônia. Neo Mondo - Outubro 2008

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Dica

Sugestões de Livros ALIMENTAÇÃO NATURAL – Uma opção que faz diferença. Elizabeth D. Mota. Editora: Vozes. Dirigido a todos que buscam manter a saúde e a boa forma, este livro objetiva o consumo de alimentos naturais, rico em proteínas, vitaminas e minerais, contribuindo para uma

alimentação saudável. Além de noções básicas e fundamentais de nutrição, contém deliciosas receitas de saladas, sobremesas especiais e sucos naturais.

OS SETE PECADOS CAPITAIS DE NOSSA ALIMENTAÇÃO Marcel Dunand Editora: Vozes A proposta dessa pequena obra é apresentar alternativas para os hábitos alimentares induzidos em nossa época pela nossa falta de tempo, pela indústria agro-alimentar e às receitas prontas, que introduziram em nossa alimentação diversos

erros, com conseqüências graves para a nossa saúde. Os sete pecados alimentares apresentados pelo autor sintetizam muitos equívocos a serem revistos e corrigidos por quem pretende alimentar-se de forma mais saudável e equilibrada.

SOMOS O QUE COMEMOS, COMO COMEMOS E COM QUEM COMEMOS Hector Ricardo Ojunian hectorojunian@uol.com.br O autor, médico que adota a linha da psiconeuroimunologia, defende nesse livro que a doença é uma griffe do inconsciente e que cada indivíduo tem sua marca registrada. Por essa abordagem, ela surge como um alerta para avisar que o indivíduo está

vivendo mal sua história de vida. A obesidade é seguramente um problema da falta de informação. Entender porque a obesidade se instalou é fundamental para a tomada de decisão de emagrecer. O colesterol sobra quando a pessoa pensa, pensa e não age.

Sem dúvida N utrição: Ato ou efeito de nutrir. Conjunto de fenômenos biológicos que contribuem para a alimentação; a totalidade de fenômenos de assimilação, com três fases fundamentais: ingestão, digestão e absorção.

N utrólogo: Médico especializado em nutrologia.

N utricionista: É o profissional que dedicou seus estudos à alimentação humana, e, portanto, é habilitado a prescrever dietas (segundo a legislação).

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P arlenda: Versos de cinco ou seis sílabas recitados para entreter, acalmar ou divertir as crianças, ou para escolher quem deve iniciar determinado jogo ou aqueles que devem tomar parte em determinada brincadeira.

P AT: O Programa de Alimentação do Trabalhador foi instituído pela Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976 e regulamentado pelo Decreto nº 5, de 14 de janeiro de 1991. Prioriza o atendimento aos trabalhadores de baixa renda, isto é, aqueles que ganham até cinco salários mínimos mensais. Este Programa, estruturado na parceria entre Governo, empresa e trabalhador, tem como unidade gestora a Secretaria de Inspeção

do Trabalho / Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho e o objetivo de melhorar as condições nutricionais dos trabalhadores, com repercussões positivas para a qualidade de vida, a redução de acidentes de trabalho e o aumento da produtividade.

P siconeuroimunologia: Ciência que trata da interação do psiquismo no sistema nervoso e sua influência sobre a imunidade e, por conseqüência, da saúde de uma forma geral. P uericultura: Conjunto de meios médico-sociais adequados à procriação, nascimento e desenvolvimento de crianças sãs e vigorosas.


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