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Portugal de Norte a Sul pela mĂ­tica

Estrada Nacional 2


Viajar? Para viajar basta existir. Fernando Pessoa Livro do desassossego (1914)


Placas direccionais e de localidade ao longo da EN2


Onde nos leva o voo do Papa-figos Dizem que escolho bem os meus destinos. Todos os anos viajo por este canto da Europa, primeiro de Sul para Norte e, alguns meses depois, de Norte para Sul. Por isso esta estrada é sempre, para mim, uma referência ao atravessar este tão belo País. É o fio condutor dos meus voos. Sigo o seu longo traçado de 738,6km, reencontrando as múltiplas paisagens que amenamente se sucedem. Por ela faço uma viagem pela sua geografia, das montanhas do Norte e centro às planícies alentejanas. Pelos relevos de granito, de xisto ou de quartzito que fazem o perfil dos horizontes de onde o sol surge ou onde se esconde. Em muitos lugares a memória recorda episódios marcantes da História de Portugal. Sucedem-se cidades, vilas e aldeias, em tudo diferentes, mas sempre bem portuguesas. Na simpatia. Na boa comida. Com manifestações genuínas. Entre os rios e as ribeiras, os cumes, os vales profundos ou em amenas planuras, pequenas courelas ou grandes herdades, são trabalhadas por gente que não desiste da sua terra. Aqui ainda encontramos muitos traços dum País que a globalização já fez desaparecer noutros locais. Mas aqui também nos surpreendemo com a inovação e a modernidade, em casos de excelência. Convido-o a percorrer Portugal de Norte a Sul. De quando em vez, pare e deixe-se surpreender. Por uma paisagem, pela boa comida, pelo conforto ou pelas pessoas. No final da viagem, conhecerá muito melhor a alma portuguesa. E, tal como eu, voltará a este destino. Boa viagem! _Papa-figos

O Papa-figos (Oriolus oriolus) é uma ave migradora que, todos os anos, viaja desde a parte sul do continente africano para norte, com destino a sossegados bosques de folhosas caducifólias intercalados com campos agrícolas onde, entre dois ramos de uma árvore de grande porte, constrói o seu ninho. Em Portugal prefere, como destino, os territórios do interior. Chegando no início da Primavera, pelos finais de Agosto viaja de regresso à África tropical, sempre pensando em voltar ao seu destino.

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Na execução da minha tarefa, não me poupei a nenhum esforço. Tive nela mais despesas e canseiras que proventos, dormi em espeluncas, palmilhei caminhos ásperos sob bátegas de água e soalheiras caniculares, andei, horas inteiras, em carros de molas desconjuntadas por estradas intransitáveis, e muitas vezes me surpreendeu a noite ao ar livre, longe dos povoados, deitado sob o velário das estrêlas, ouvindo em torno as sinfonias lúgubres dos pinheirais tocadas pelo vento. Mas tudo abençoei - porque trabalhava pelo bem do meu país, - porque muitas vezes tive a impressão de que era eu o primeiro a desbravá-lo, como a uma floresta virgem, - e quantas outras, completamente dominado pela maravilha duma paisagem, um pôr do sol no oceano, uma manhã clara e pura, uma noite de luar poética e calma nas margens de um rio como o Douro, ouvindo as vindimeiras cantar na doçura dos vales à hora em que as estrêlas põem na crista da montanha como que as suas luzes mais altas - eu não me senti vergar pelo pêso da ventura ... Quem é assim predisposto para a felicidade, não tem que lamentar as estopadas dos caminhos - quando a terra é tão bela ... Raúl Proença, 14 de Agosto de 1927 No prefácio do Guia de Portugal - Extremadura, Alentejo, Algarve, o último tomo que coordenou, antes de ser condenado ao exílio e de ter sido acometido de doença grave.


Raúl Proença

Sant’Anna Dionísio

(Caldas da Rainha, 10.05.1884; Porto, 20.05.1941)

O GUIA DE PORTUGAL (GP) editou o primeiro volume em 1924 e o projecto concluiu-se em 1970, com a publicação do sétimo. Foi - e ainda é - um companheiro das viagens de descoberta em Portugal. Recorrer ao GP é penetrar numa fotografia do País que nos foi legada pela arte da escrita alicerçada num profundo conhecimento da realidade portuguesa. Ao longo de 46 anos os seus coordenadores e colaboradores dedicaram à divulgação de Portugal o seu saber e uma profunda paixão. Hoje, não conseguimos imaginar o que seria, nas primeiras décadas desse projecto, percorrer o País para recolher a informação necessária: a rede viária pouco evoluíra quer em cobertura do território, quer em qualidade das vias, desde que no reinado de D. Maria I se iniciara a sua estruturação. E as condições de alojamento deixariam muito a desejar ao conforto. De algumas páginas do GP transparecem como que relatos de expedições de descoberta a terras inóspitas e a povoados perdidos. Mas, ao longo das linhas de cada página, ressalta o esforço de estruturação de toda a informação para o leitor visitante seguir o rasto desses passos de descoberta, tornando cada guia ... um comentário vivo, um companheiro de viagem, um fácil e constante colaborador, pronto a ser consultado a cada momento, diante de cada trecho de arte ou de paisagem, e a guiar mesmo os portugueses nos seus passeios e peregrinações. Na lista de colaboradores do GP encontramos muitos dos vultos mais importantes

(Porto, 23.02.1902; Porto, 05.05.1991)

da escrita e do conhecimento histórico e cultural dessa época. Se tal ajudou na qualidade da obra, é de realçar o mérito da capacidade de coordenação de tão gigantesca, dificultosa e prodigiosa empresa. Só o génio e o amor ao País do fundador da obra - Raúl Proença - permitiram colocá-la no patamar mundial da excelência em guias. A coordenação da obra a partir do seu terceiro tomo, publicado em 1944, recaiu em Sant’Anna Dionísio. Seguir o rumo traçado por um mestre - com a ausência deste - era, simultaneamente, desafio e risco. Mas o novo coordenador soube manter afinada uma orquestra de notáveis e respeitadores intérpretes da partitura gizada por Raúl Proença. Não obstante a participação de nomes críticos do regime, tornou-se obra de referência institucional e das elites científica e artística de uma geração que com ela se identificou. Apenas nos atrevemos a acrescentar que, às gerações que se lhe seguiram, estimulou e propiciou a descoberta do nosso País, história, arte e alma. Por isso - não apenas por satisfação mas pela transmissão da identidade de sermos Portugal - lhes estamos imensamente gratos. Este guia - por ser o primeiro de âmbito nacional - fica dedicado e citará profusamente os homens que conduziram a obra sobre a qual Jaime Cortesão escreveu algures: o GUIA DE PORTUGAL é uma obra que faz honra a uma geração. _Papa-figos

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Índice Este guia está estruturado em 3 partes, para melhor servir nos vários momentos da sua utilização.

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DESCOBRIR A EN2

Para descobrir o destino turístico EN2 antes de a conhecer. Aqui encontramos indicações sobre a estrada e sobre como a ela chegar, de onde quer que venhamos. Também se indicam algumas marcas da EN2 e que melhor nos identificam com ela. E apresentam-se pessoas que a propósito dela tiveram os seus sonhos, que os concretizaram ou ajudaram a alterar a forma como hoje a encaramos.

Apresentação da EN2 História da EN2 Como chegar à EN2 Marcas do destino Homens de sonhos

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10 11 20 26 28

CONHECER A EN2

Aqui apresentam-se as 20 etapas em que foi dividida a viagem pela EN2 e que correspondem a troços que se diferenciam pela geomorfologia e pela paisagem.

Etapa 1 - Chaves Etapa 2 - Eixo termal Chaves - Vidago - Pedras Salgadas Etapa 3 - Veiga de Vila Pouca de Aguiar Etapa 4 - Vila Real Etapa 5 - Vale do Douro Etapa 6 - Lamego Etapa 7 - Serra de Montemuro Etapa 8 - Do vale do Rio Paiva ao vale do Rio Vouga Etapa 9 - Viseu Etapa 10 - Dão Etapa 11 - Vale do Mondego Etapa 12 - Serra da Lousã Etapa 13 - Vale do Zêzere Etapa 14 - Serra da Melriça Etapa 15 - Vale do Tejo Etapa 16 - Albufeira de Montargil Etapa 17 - Serra de Monfurado Etapa 18 - Planície Dourada Etapa 19 - Serra do Caldeirão Etapa 20 - Faro

44 70 92 114 132 150 168 184 202 222 238 260 286 306 238 260 286 306 320 326

Espaços a visitar Apresenta-se um conjunto de espaços a visitar que complementam a identidade e a descoberta da EN2.

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SENTIR A EN2

Aqui apresentam-se agentes e as infraestruturas que, neste destino, tudo irão fazer para que nos sintamos bem por cá.

Unidades de alojamento Unidades de restauração Produtores e produtos Unidades de comércio de produtos locais

336 382 452 482

APOIO AO VISITANTE Apoia alguns tipos de viajantes que efectuam uma abordagem um pouco diferente da estrada e indica os pontos onde podemos recolher informação adicional.

Páginas dirigidas » Página dirigida autocaravanista » Página dirigida birdwatcher » Página dirigida campista » Página dirigida criança » Página dos que querem saber mais » Agenda da EN2 Apoio informativo ao visitante

496 497 498 499 500 501 502

EN2, KM0, Chaves.

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10 — ESTRADA EN2, KM30. NACIONAL 2


Descobrir a EN2 Muitos pontos por onde começar

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A Estrada Nacional 2 A Estrada Nacional 2 (EN2) nasceu, oficialmente, a 11 de Maio de 1945. Nessa data o Diário do Governo publica o Decreto-Lei nº 34.593 que classifica as Estradas Nacionais, as Estradas Municipais e os Caminhos Públicos. No seu Quadro I - Estradas Nacionais de 1ª classe, à EN2 é atribuída a designação “Chaves-Faro”, tendo como pontos extremos e intermédios: Chaves, Vila Real, Lamego, Viseu, Santa Comba Dão, Góis, Sertã, Abrantes, Mora, Montemor-o-Novo, Torrão, Castro Verde e Faro. Com este traçado, o Plano Rodoviário de 1945 estabeleceu a EN2 como a mais longa estrada do País. Esta classificação duraria até ao Plano Rodoviário Nacional de 1985 que reformulou por completo o sistema de estradas nacional. Com este plano, as antigas Estradas Nacionais que não foram transformadas em Itinerários Principais (IP), em Itinerários Complementares (IC) ou que não foram transferidas para as redes municipais, mantiveram a mesma designação e numeração. O Plano Rodoviário Nacional de 2000 reformulou o PRN de 1985, passando as Estradas Nacionais para a Rede Complementar e criando as Estradas Regionais partindo da reclassificação de anteriores Estradas Nacionais.

Ministério das obras públicas e Comunicações, Plano Rodoviário, 1945. 12 — ESTRADA NACIONAL 2


Apresentação da EN2

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A institucionalização, em 1945, de uma via de traçado Norte-Sul pela faixa central do território continental português, transformou a EN2 na “coluna dorsal” da circulação rodoviária no interior do País. Aos troços que então já existiam de estradas anteriores juntou-se, ao longo de vários anos, a construção de novos troços que lhe conferiram a extensão total de 738,600km. São 11 os distritos atravessados pela EN2 (ordenação no sentido N-S): Vila Real, Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro. São 33 os concelhos cruzados pela EN2 (ordenação no sentido N-S, identificando a bold as sedes concelhias que no traçado primitivo eram atravessadas): Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Vila Real, Santa Marta de Penaguião, Peso da Régua, Lamego, Castro Daire, Viseu, Tondela, Santa Comba Dão, (acresce actualmente Mortágua, por necessidade passagem da albufeira da Barragem da Aguieira), Penacova, Vila Nova de Poiares, Lousã (troço de extensão irrelevante), Góis, Pedrógão Grande, Sertã, Vila de Rei, Sardoal, Abrantes, Ponte de Sor, Mora, Coruche (troço de extensão irrelevante), Montemor-o-Novo, Viana do Alentejo, Alcácer do Sal, Ferreira do Alentejo, Aljustrel, Castro Verde, Almodôvar, Loulé, São Brás de Alportel e Faro (ver Mapa no início). São 11 as cidades atravessadas ou circundadas pela EN2 (ordenação no sentido N-S): Chaves, Vila Real, Peso da Régua, Lamego, Viseu, Tondela, Santa Comba Dão, Abrantes, Ponte de Sor, Montemor-o-Novo e Faro (ver Mapa no início). Ao longo do seu percurso atravessa inúmeros cursos de água, entre eles os mais importantes rios portugueses. Inicia-se ao lado do Tâmega, acompanha o Corgo e cruza sucessivamente (no sentido N-S), o Douro, o Varosa, o Balsemão, o Paiva, o Vouga, o Dão, o Mondego, o Alva, o Ceira, o Zêzere e o Tejo. Sobe e desce ou passa ao lado de algumas das mais importantes serras portuguesas. Dela se avistam as serras do Brunheiro, do Alvão, do Marão, cruza a Serra de Montemuro (onde a EN2 atinge o seu ponto mais elevado), passa ao lado das serras do Buçaco e do Carvalho, cruza as serras da Lousã, da Melriça, de Monfurado e do Caldeirão. Em 1945 atravessava em passagens de nível ou seguia em companhia de muitas das linhas ferroviárias então em actividade: Linha do Corgo (já desactivada), Linha do Douro, Linha Peso da Régua-Lamego (nunca activada), Linha do Dão (já desactivada), Linha da Beira Alta, Linha da Beira Baixa, Linha do Leste, Linha do Alentejo, Linha de Évora, Ramal de Neves Corvo, Linha do Sul e em Faro atingia a Linha do Algarve. Esta via é um canal de circulação que nos permite descobrir, conhecer e sentir várias regiões do País.

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História da EN2 Cronologia da rede viária em Portugal 1790 / Primeira classificação das estradas portuguesas. Também neste ano é publicado o primeiro manual português para a sua construção: Methodo para construir as estradas em Portugal, de José Diogo Mascarenhas Neto. 1837 / Primeira legislação para as estradas. 1843 e 1848 / Cartas de Lei nas quais constam as estradas já construídas e as previstas construir. 1849 / Início da construção de estradas em macadame em Portugal. Macadame Tipo de pavimento inventado pelo engenheiro escocês John Loudon MacAdam (N: 1756; F: 1836), que consiste na utilização de pedra britada ligada por pó, combinação que ganha consistência quando comprimida por rolos pesados. 1850 / Primeira lei que classifica a rede de estradas portuguesas em: Estradas de 1ª classe Estradas de 2ª classe e Caminhos. 1854 / Sistema geral de comunicações do reino (Proposta de lei datada de 28 de Fevereiro de 1854). Surgem as Estradas Reaes 1862 / Carta de Lei de 15 de Julho de 1862 estabelece o Systema Geral das Communicações do Reyno. Adoptou, pela primeira vez, a designação Estrada Real. Apoia-se na estrutura da lei de 1850 e passa a classificar as estradas em: Estradas Reaes de 1ª classe Estradas Reaes de 2ª classe Estradas Districtaes Estradas Municipais 1863 / São construídas as primeiras Casas de Cantoneiros. 1889 / Decreto de 21 de Fevereiro de 1889 aprova a nova classificação da rede viária em: Estradas Reaes (de âmbito nacional) Estradas Districtaes (de âmbito regional) Estradas Municipais (de âmbito local). Surgem as Estradas Nacionais 1913 / Lei de 22 de Fevereiro - O primeiro plano de estradas da República aprova uma nova classificação abolindo a designação Estrada Real, substituindo-a por Estrada Nacional: Estradas Nacionais Estradas Distritais Estradas Municipais 14 — ESTRADA NACIONAL 2


O primeiro Plano Rodoviário e o nascimento da EN2 1945 / Decreto nº 34593, de 11 de Maio - Institui o primeiro Plano Rodoviário português. Altera a classificação das estradas: Estradas Nacionais de 1ª classe (de 1 a 200) Estradas Nacionais de 2ª classe (de 201 a 2770) Estradas Nacionais de 3ª classe (de 301 a 398) Estradas municipais Caminhos públicos Municipais Vicinais A EN2 é pela primeira vez identificada como ligando Chaves a Faro. 1985 / Decreto-Lei nº 380/85, de 26 de Setembro - Plano Rodoviário Nacional que reformula completamente o sistema de estradas em: » Rede fundamental (IPs) » Rede complementar (ICs e outras estradas, incluindo as Estradas Nacionais) 2000 / Plano Rodoviário Nacional » As Estradas Nacionais continuam a figurar como parte da Rede Complementar; » surgem as Estradas Regionais, como reclassificação de algumas Estradas Nacionais, mas mantendo a sua anterior numeração.

Mapa das Estradas Nacionais, Maio, 1945. ESTRADA NACIONAL 2 — 15


A intensidade de tráfego na EN2 Ao longo do seu traçado a EN2 apresenta diferentes níveis de intensidade de tráfego. Os troços onde ele é mais elevado condicionam e exigem maior atenção e cuidado à circulação turística.

Troços com tráfego intenso : troços periurbanos e urbanos de todas as cidades atravessadas; Etapa Vale do Douro: Santa Marta de Penaguião - Peso da Régua - Lamego; Etapa Viseu: Abraveses – Viseu - Repeses - Vila Chã de Sá; Etapa Vale do Tejo: Sardoal – Abrantes - Rossio ao Sul do Tejo Etapa Barregem de Montargil: Ponte de Sor/Domingão – Mora. Troços com tráfego mediano: de Chaves à entrada norte de Vila Real; Etapa Dão: de Vila Chã de Sá, Tondela, Santa Comba Dão a Chamadouro; Troços com tráfego reduzido: restantes troços.

Infografia: » EN2 » mancha vermelhas sobre os troços de tráfego intenso » mancha amarela sobre os troços de tráfego mediano

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Indicações prévias para Conhecer a EN2 Desde a sua criação em 1945 como Estrada Nacional 2 o traçado desta via sofreu inúmeras e profundas alterações. Alguns pequenos troços desapareceram porque sobre eles foram implantadas novas vias ou porque se encontram submersos pelas águas da Barragem da Aguieira. Troços que cruzavam alguns aglomerados urbanos foram desclassificados, tendo a EN2 sido remetida para as novas variantes. Destes antigos troços urbanos, agora desclassificados, alguns têm a sua circulação rodoviária condicionada porque passaram a vias de sentido único ou a vias estritamente pedonais. Assim, a apresentação aqui efectuada para percorrer a EN2 procura, na medida do possível, acompanhar aquele que terá sido o traçado resultante da primeira ligação de Chaves a Faro, a qual foi conseguida pela EN2. Para apresentação desse traçado foi escolhido o sentido de progressão N-S. É este o sentido a numeração crescente dos marcos quilométricos (de quilómetro em quilómetro) e miriamétricos (de 10 em 10 quilómetros), sempre implantados na berma direita do mesmo sentido. Esta apresentação também permite uma fácil e cómoda utilização do guia pelos viajantes que optem por se deslocar segundo o sentido Sul-Norte. Para maior facilidade de utilização deste guia, a apresentação do traçado da EN2 foi segmentado em 20 etapas que correspondem a unidades uniformes em termos de geomorfologia e paisagem. Algumas das cidades atravessadas também correspondem, por si só, a etapas (Chaves, Vila Real, Lamego, Viseu e Faro) procurando-se efectuar a apresentação da sua travessia pelo primitivo traçado da EN2. O descritivo do percurso indica e utiliza os marcos existentes, pese embora por vezes - após várias alterações de traçado e vários reposicionamentos dos mesmos - as distâncias entre eles não tenham correspondência com as quilometragens reais. Os marcos quilométricos e miriamétricos são utilizados no texto para acompanhar a progressão e dar indicações sobre os pontos de interesse próximos. No descritivo de cada etapa são indicados os elementos infraestruturais da via (marcos quilométricos, marcos miriamétricos, sinalização vertical informativa, casas de cantoneiros, áreas de repouso, fontanários). Actualmente existe um número significativo de rotundas e de cruzamentos com semáforos. Nestas situações, sempre que não exista outra indicação, o trajecto é em frente. As indicações de percurso são genericamente dirigidas aos visitantes que se desloquem em viatura automóvel, motociclo ou bicicleta.

Para os cicloturistas são fornecidos percursos alternativos que correspondem a alternativas de maior segurança para a circulação cicloturística. Alguns, no todo ou em parte, apenas podem ser por eles utilizados (ecopistas ou troços não adequados à circulação motorizada). Outros correspondem a troços primitivos da EN2, hoje afectos a circulação local. ESTRADA NACIONAL 2 — 17


Como chegar à EN2 A EN2 é cruzada por outras vias importantes que lhe servem de acesso. A esmagadora maioria das localidades portuguesas distará menos de 1hora de viagem até ser atingido um dos principais pontos de acesso à EN2:

Chaves Pela EN103 (Braga - Bragança), também uma estrada de notável valia paisagística, nomeadamente na época outonal. Vila Pouca de Aguiar Pela A7 (Guimarães - Vila Pouca de Aguiar). Vila Real Pelo IP4/A4 (Porto - Bragança). Viseu Pela A25 (Aveiro - Vilar Formoso) e pelo IP3. Santa Comba Dão Pelo IP3. Pedrógão Grande / Pedrógão Pequeno Pelo IC8. Abrantes Pela A1, pela A13 e pela A23. Montemor-o-Novo Pela A2 e A6 ou do Montijo pela EN4. Ferreira do Alentejo Pelo IP1/A2 e pelo IP8. Castro Verde Pelo IC1, pelo IP2 e pela A2. Faro Pela A22. (Ver Mapa no verso da capa.)

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Viajar na EN2 Essencialmente, existirão dois pretextos para viajar pela EN2. Uma será pelo puro prazer de efectuar, integralmente e de uma só vez, de Norte para Sul ou de Sul para Norte, de automóvel, motociclo ou bicicleta, os 738km da sua extensão. Com poucas paragens e num reduzido número de dias na viagem. Mesmo com este objectivo, menos de 3 dias de circulação (com duas noites de alojamento) revelar-se-ão escassos para apreciar e disfrutar o muito que a EN2 tem para oferecer. Outra será planear uma viagem, em função do ponto de partida, do ponto onde pretendemos entrar na EN2 e do número de dias disponíveis. O Papa-figos aconselha, vivamente, a descoberta desta estrada em dois ou três momentos diferentes. Este guia ajudará, como reconhecimento prévio, a seleccionar os pontos a visitar, as infraestruturas a utilizar e também a calendarização dessas viagens. Uma viagem de 3 a 5 dias, com selecção de experiências distintas em cada dia, já uma boa opção. Mas a EN2 tem muito para descobrirmos ao longo de mais dias.

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Sobral de São Miguel

Tons de Outono na estrada de Manteigas para as Penhas Douradas (vale do Rio Zêzere) e nos pomares de cerejeiras próximos de Alcongosta (Serra da Gardunha).

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De bicicleta pela EN2

IMAGEM DE PEDALVIAJANTE falta foto

O Papa-figos é adepto das viagens turísticas com baixas emissões de carbono. E a EN2, em grande parte do seu traçado, é adequada à circulação cicloturística (ver Apresentação da EN2 - Intensidade de tráfego, p.XXX). Tal decorre do facto de várias vias (IPs e ICs) terem sido implantadas em traçados paralelos ao da EN2, absorvendo grande parte do tráfego que nela circulava. Acresce que existem antigos troços da EN2 que foram substituídos por novos, paralelos e com novo perfil. Esses antigos troços foram relegados para utilizações secundárias, apresentam reduzido tráfego e são uma forma de descobrir outros locais e paisagens. É o caso do troço Vila de Rei - Sardoal. Acresce um conjunto de ecopistas paralelas à EN2, que fazem do corredor da EN2 uma via de eleição para a circulação cicloturística. São os casos da Ecopista do Corgo e da Ecopista do Dão. 20 — ESTRADA NACIONAL 2


De comboio até à EN2 / para cicloturistas Uma das formas de atingir a EN2 a partir dos grandes centros é a utilização do comboio. A EN2 é cruzada pelas seguintes linhas ferroviárias: Linha do Douro, Linha da Beira Alta, Linha da Beira Baixa, Linha do Alentejo e Linha do Algarve. Com base nestes cruzamentos apresentam-se os vários pontos de entrada na EN2. Estes vários cruzamentos facilitam a opção dos que pretendem efectuar percursos parciais da EN2 em bicicleta, com ida e regresso de comboio. Peso da Régua Pela Linha do Douro (Ermesinde - Régua - Pocinho), com ligação à Linha do Norte. Santa Comba Dão Pela Linha da Beira Alta (Pampilhosa - Vilar Formoso), com acesso directo ao início da Ecopista do Dão, até Viseu. Abrantes Pela Linha da Beira Baixa (Entroncamento - Abrantes - Covilhã), com ligação à Linha do Norte ou pela Linha do Leste (Abrantes - Elvas). Casa Branca Pela Linha do Alentejo (Pinhal Novo - Vendas Novas - Beja) ou pela Linha de Évora (Évora - Casa Branca). Faro Pela Linha do Algarve (Lagos - Faro - Vila Real de Santo António) que liga à Linha do Sul (Pragal - Tunes). O transporte de bicicletas por comboio está regulamentado pelo documento Condições gerais de transporte dos serviços da CP, de 27.08.2010 (ponto III.6.2). (www.cp.pt). Ao estabelecer o seu plano de viagem consulte sempre a CP.

IMAGEM Visitez le Portugal par train Há Mapa da REFER com todas as linhas. Colocar o traçado da EN2 sobre ele? MAPA BASE com cruzamento da EN2 com a Rede Ferroviária Portuguesa: » Linha do Douro (Ermesinde - Régua – Pocinho) » Linha da Beira Alta (Pampilhosa – Vilar Formoso) » Linha da Beira Baixa (Entroncamento – Guarda) » Linha do Leste (Abrantes – Elvas) » Linha do Alentejo (Pinhal Novo - Vendas Novas – Beja) » Ramal Neves-Corvo (Ourique a Neves-Corvo) » Linha do Algarve (Lagos – Vila Real de Santo António) Todos os traçados já disponíveis em Google Earth.

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MAPA / INFOGRAFIA: A EN2 e a circulação cicloturística » EN2 - troçado primitivo » EN2 - novos troços alternativos » Linhas ferroviárias

Esta estrada não é uma linha no mapa. É um destino. 22 — ESTRADA NACIONAL 2


Marcas da EN2

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Estas são algumas das marcas de prestígio que nasceram e cresceram ao lado da EN2. Contribuem para afirmar a sua identidade. Demonstram que o interior do País tem muitas coisas únicas e com qualidade. São partes da alma portuguesa. ÁGUA PEDRAS SALGADAS / REGIÃO DEMARCADA DO DOURO / ALTO DOURO VINHATEIRO - PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE / CAVES DA RAPOSEIRA / REGIÃO DEMARCADA DO DÃO / A ARTE DO BARRO NEGRO / ÁGUA CALDAS DE PENACOVA CENTRO DE PORTUGAL / CHOCALHOS DE ALCÁÇOVAS / ESCRITA DO SUDOESTE

Nitrato do Chile ESTRADA NACIONAL 2 — 23


Água Pedras Salgadas / Uma nascente de prémios A primeira distinção das águas de Pedras Salgadas foi obtida pela empresa Saraiva & Botelho, aquando da participação na Exposição Universal de Viena - 1873. Três anos depois a Companhia das Águas de Pedras Salgadas obteve uma medalha de bronze na Exposição Universal de Filadélfia - 1876, o que deu um novo reconhecimento às águas. Em 1912 o prestígio internacional é reforçado com a atribuição de 3 medalhas de ouro em exposições internacionais (Londres, Paris e Barcelona). E em 1913 recebeu o Grande Prémio da Exposição Internacional de Montevideu e a Liga de Ouro da Exposição Internacional Italo-Americana. Em 1988 recebe a primeira medalha de ouro (galardão máximo) do concurso anual Monde Selection de la Qualité, que em 2007 e 2008 premeiam o novo produto Pedras Limão e em 2009 a Pedras levíssima. Para além de bolhinhas, as águas de Pedras Salgadas já começam a ter muito ouro. ONDE FICA km29, Pedras Salgadas. GPS:

Termas de Monfortinho 24 — ESTRADA NACIONAL 2

ENTIDADE E CONTACTOS VMPS - Águas e Turismo, S.A. www.aguadaspedras.com Ver: Parque Termal de Pedras Salgadas (p.XXX)


Região Demarcada do Douro / O que o Douro No séc. XVII já o vinho produzido no vale do Douro obtivera um alargado reconhecimento. Não tardou que vinhos de outras regiões também adoptassem a designação Vinho do Porto. O caos instalou-se no comércio e criou o descrédito do produto. D. José I, melhor, o seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, sob pressão dos grandes produtores durienses, decide criar, em 1756, a Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro e demarcar a região produtora do vinho. Esta demarcação foi estabelecida pela colocação de 201 marcos de granito, a que se juntaram mais 134, em 1761. A Companhia viria a ter a sede no edifício onde actualmente está instalado o Museu do Douro, desde 1756 até 1865, ano em que é extinta. Foi esta entidade que implementou a Região Demarcada do Douro (RDD) e que regulou e disciplinou a produção e o comércio de vinhos. Tinha mesmo autonomia para funcionar como tribunal para as infracções às regras que regiam a actividade vinícola na região. Em 1868 a filoxera inicia a devastação das vinhas do Douro. Os mortórios passaram a ser um novo elemento da paisagem. A Comissão de Viticultura da Região do Douro surge em 1907 para tentar restaurar a marca Vinho do Porto, sendo a RDD ampliada para montante e ficando então constituída por três sub-regiões: Baixo Corgo Cima Corgo Douro Superior Muito mais do que o pioneirismo da demarcação, a criação da RDD correspondeu a uma inédita implementação do que hoje consideramos uma “denominação de origem protegida”: delimitação cartográfica e física da região; cadastro e classificação das vinhas em função da qualidade de uvas; legislação vitivinícola regulamentadora, tida como pioneira; mecanismo de controlo de qualidade dos vinhos. O prestígio do Vinho do Douro confirma há mais de 250 anos que se trabalha bem no Douro. ONDE FICA A EN2 atravessa a RDD entre os km??? e o km??? (junto às Caves Raposeira) GPS:

Termas de Monfortinho

ENTIDADE E CONTACTOS

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Alto Douro Vinhateiro / Património Mundial Homenagem às gerações que calejaram as mãos a construir esta paisagem A 14 de Dezembro de 2001 a UNESCO integrou o Alto Douro Vinhateiro na Lista do Património Mundial. Esta lista inclui (em 2013) 981 sítios a nível mundial, dos quais 15 em Portugal. A candidatura foi promovida e financiada pela Fundação Rei Afonso Henriques e teve que se submeter à verificação dos critérios estabelecidos pela Convenção do Património Cultural e Natural da UNESCO. O sítio Alto Douro Vinhateiro possui 24.600ha, o que corresponde apenas a 10% da área abrangida pela Região Demarcada do Douro (RDD), embora dela seja absolutamente representativa. De facto o sítio Alto Douro Vinhateiro integra, em contínuo, áreas das três sub-regiões da RDD. Estende-se ao longo das encostas do Douro e dos seus principais afluentes dentro da RDD: Corgo, Pinhão, Távora, Torto e Varosa. Reúne uma maioria coerente dos seus valores patrimoniais mais representativos e apresenta bom estado de conservação. A restante área da RDD foi considerada como “zona tampão” de salvaguarda em relação ao sítio.

ONDE FICA A EN2 atravessa o ADV-PM GPS: ENTIDADE E CONTACTOS www.ladpm.pt (Liga dos Amigos do Douro Património Mundial ) http://whc.unesco.org (U

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Termas de Monfortinho


Caves da Raposeira / O mais antigo espumante de Portugal Em cada vindima cerca de 2000 toneladas de uvas juntam-se, nestas caves, ao conhecimento angariado há mais de 115 anos (1893) pelo espírito empreendedor da família Teixeira do Vale. O resultado é o mais antigo vinho espumante de Portugal, produto que se renova a cada ano com mais 10.000.000 de garrafas. As caves estão na Região Demarcada do Douro. Mas as uvas aqui utilizadas, essas não se confundem com as que são utilizadas para a produção dos vinhos do Douro: as vinhas estão na região do Távora-Varosa, acima dos 450m de altitude e por isso possuem um menor teor alcoólico e uma maior acidez. O resto, o resto é saber seleccionar vinhos de cor citrina e aroma frutado e saber fazer (pelo período de 1 a 2,5 anos) um cuidado acompanhamento, garrafa a garrafa, nestas caves escavadas nesta montanha de granito que, invariavelmente, garantem aos vinhos uma temperatura de conforto entre os 12 e os 13ºC. Prepare o flute: quando chegar ao final da viagem já sabe com o que deve celebrar. ONDE FICA km???, Lugar da Raposeira, à saída d e Lamego para Sul. GPS:

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ENTIDADE E CONTACTOS Caves da Raposeira, S.A. Telef.: 254 655 003 email: geral@cavesdaraposeira.com www.cavesdaraposeira.com

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Região Demarcada do Dão

/ Onde a Beira

Graças ao efeito protector, por um lado das serras do Caramulo e Montemuro face aos ventos húmidos de noroeste e por outro das serras da Nave, Estrela e Açor perante os rigores das características continentais, a depressão onde corre o Rio Dão (entre os 200 e os 700m de altitude) beneficia de condições ímpares para a cultura da vinha. As inúmeras lagaretas medievais escavadas nas rochas, datáveis dos séc.s XII e XV, testemunham a produção de vinho na região. Importância que se acentuou na segunda metade do séc. XIX. Numa área que se estende por 16 concelhos existem cerca de 20.000ha de vinhas onde se produzem as uvas que dão origem aos 50.000.000 de litros de vinhos (predominantemente tintos) que aqui são anualmente produzidos. A partir de 1908, por Carta de Lei, o Dão passou a ser a segunda região demarcada de produção de vinhos portugueses. A delimitação de 1912 ainda se mantém em vigor. As responsáveis pelo carácter e pela elegância dos vinhos do Dão têm nome de casta: Alfrocheiro, Alvarelhão, Jaen, Tinta-roriz, Tinto-cão, Touriga-nacional, (estas para tintos) e Bical, Malvasia-fina, Rabo-de-ovelha, Verdelho, (estas para brancos). Aprecie o que elas Dão, quando se transformam em vinho. ONDE FICA A EN2 atravessa a RDD entre os km180 (à saída de Viseu) e o km224 (albufeira da Aguieira)

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ENTIDADE E CONTACTOS Comissão Vitivinícola Regional do Dão Telef.: 232 410 060 email: info@cvrdao.pt www.cvrdao.pt


A arte do barro negro / Em barro, com cor e design O que têm em comum Vilar de Nantes (Chaves), Bisalhães (Vila Real), Molelos (Tondela) e Olho Marinho (Vila Nova de Poiares) ? Três factos: 1 - Todos têm herdeiros de um saber fazer que é transmitido, sem compêndios nem manuais, desde há várias gerações: a arte da olaria do barro negro. 2 - Todos têm teimosos e inovadores artistas que dão continuidade a uma actividade que resiste à globalização dos pyrex, dos inox, das vasilhas metálicas esmaltadas, dos plásticos, ... e são praticantes da arte da cerâmica negra, onde cada peça criada é diferente da anterior. 3 - Todos estes locais - os mais reconhecidos na arte de moldar o barro que fica negro - estão localizados muito próximo da EN2. É, também, por isto que esta é uma Estrada Património. ONDE FICA km0 - Vila de Nantes, Chaves; km65 - Bisalhães, Vila Real; km199 - Molelos, Tondela; km260 - Olho Marinho. (v. A arte da cerâmica negra, p.XXX; Confraria da Chanfana, p.XXX)

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A Roda do Panelo Pelo terceiro ano (2013) consecutivo a Associação de Municípios Douro Alliance promoveu - aquando das Festas de São Pedro (v. Agenda, p. XXX) na cidade de Vila Real - o evento A Roda do Panelo. Se nunca foi à Feira dos Pucarinhos ou, pior, se nunca participou numa roda do Jogo do Panelo, tem aqui a

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Água Caldas de Penacova / A água que vem O extremo Este da Serra do Buçaco - designado por Serra do Carvalho - termina na margem direita do Mondego, num acidente geomorfológico conhecido por Livrarias do Mondego (p. XXX). Algumas centenas de metros para jusante, no local conhecido como Mata das Caldas, junto ao silencioso leito do Mondego, onde outrora brotava a conhecida Bica da Telha, encontramos as nascentes designadas Caldas de Penacova. A Água das Caldas de Penacova foi criada em 1991. Após a construção das instalações de engarrafamento, a produção iniciou-se em 1999. Esta água provêm dum aquífero mineral de circulação profunda (na ordem dos 700m de profundidade) que corre no maciço quartzítico da Serra do Buçaco. É classificada como água mineral natural, hipossalina, silicatada, de reação ácida e macia. ONDE FICA kmXXX, na margem oposta do Mondego GPS: 40º16’43,40’’N; 8º16’18,21’’O

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ENTIDADE E CONTACTOS Águas das Caldas de Penacova Telef.: 239 470 470 email: penacova@caldasdepenacova.pt www.caldasdepenacova.pt


Centro de Portugal / ... mesmo ao lado da EN2 Este é o ponto central do território continental português. É um ponto de visita quase obrigatória para todos os portugueses e para todos os que viagem pela EN2. Aqui encontramos o marco geodésico de 1ª ordem edificado em 1802 que serviu de referência para estabelecer toda a rede geodésica nacional. Encontramos também o Museu de Geodesia (p.XXX), um parque de merendas e um miradouro (p.XXX). Na visita ao Museu de Geodesia pode solicitar o diploma de visita ao Centro Geodésico de Portugal.

ONDE FICA km364, c. 2km a Norte de Vila de Rei. GPS: 39º41’40’’N; 8º07’49’’O

Termas de Monfortinho

ENTIDADE E CONTACTOS Município de Vila de Rei Telef: 274 890 010 turismo@cm-viladerei.pt

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Chocalhos de Alcáçovas

/ A badalar por mon-

O seu toque chega a todos os recantos do País: à aldeia mais isolada, ao campo mais florido, à serra mais inóspita. De Norte a Sul não há rebanho que se preze que não marque orgulhosamente a sua presença ao toque do badalo, para se impor aos ruídos do quotidiano. E dizem ser difícil encontrar dois com som exactamente igual. Podem ser de qualquer tamanho e servem para utilizadores de várias espécies: dos gatos às vacas. Mas são peças que exibem a assinatura do seu autor. Chamam-lhe marca ou brasão. Os chocalhos de Alcáçovas já têm história de vários séculos. E o seu fabrico continua. Quando num qualquer recanto deste País, ouvir ao longe um rebanho com o badalar dos seus chocalhos, recorde-se que pode estar a ouvir um som que a EN2 trouxe de Alcáçovas. ONDE FICA km551-552, Alcáçovas (v. Museu do Chocalho, p.XXX) GPS

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ENTIDADE E CONTACTOS Chocalheiros em Alcáçovas » Chocalhos Pardalinho » Gregório Sim-Sim » João Chimbeles Penetra » Maria Francisca Serrinha Loupa e Joaquim Manuel Sim-Sim


Escrita do sudoeste

/ O primeiro alfabeto e a primeira

No território que envolve a EN2 - entre Castro Verde e os pontos mais altos da Serra do Caldeirão, onde nascem os rios Arade, Mira e Sado e as ribeiras de Foupana, Oeiras e Vascão - foram sendo encontradas várias lajes de xisto gravadas com inscrições que trouxeram até à actualidade uma escrita que se desenvolveu durante a Idade do Ferro (entre 700 a. C. e 400 a. C), isto é, há mais de 2.500 anos. Esta escrita é claramente derivada da escrita fenícia, mas foi desenvolvida pelos Tartessos (nome pelo qual os gregos designavam os povos que habitavam as actuais regiões da Andaluzia e Extremadura espanholas, o Baixo Alentejo e o Algarve. Por isso também é conhecida por escrita tartéssica ou por escrita sud-lusitânica. As pedras gravadas correspondem a estelas (pedras geralmente colocadas na vertical, com funções funerárias, religiosas ou outras - tendo sido encontradas 90 no território ibérico. Dessas, 75 foram encontradas nesta zona acidentada do Baixo Alentejo e serra algarvia, atravessada pela EN2. Almodôvar, onde encontramos o Museu da Escrita do Sudoeste (p.XXX), é uma das áreas da Península Ibérica onde foi encontrado um maior número de registos. ONDE FICA Entre o km??? e o km??? GPS:

Termas de Monfortinho

ENTIDADE E CONTACTOS MESA - Museu da Escrita do Sudoeste Telef.: 286 665 357 email: mesa@cm-almodovar.pt

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Pessoas que a este território dedicaram grande parte dos seus sonhos. Que aqui os desenvolveram. Decisões que determinaram o curso da História. Trabalhos, quantas vezes esforçados, que resistiram aos séculos e chegaram até nós. Pessoas que fizeram a diferença.

Cantoneiro (João Maria Raimundo) 34 — ESTRADA NACIONAL 2


Duarte Pacheco N: Loulé, 19.04.1900; F: Setúbal, 16.11.1943

Uma vida velozmente vivida e inteiramente consagrada ao progresso público. Decerto que este irrequieto e prodigioso engenheiro do apogeu do Estado Novo é mais conhecido por muitas outras obras que o seu exercício ministerial de 19321943 lançou pelo País. Mas este Ministro das Obras Publicas e Comunicações de Oliveira Salazar surge-nos, em diversos aspectos, ligado à EN2. Por um lado nasceu em Loulé, um dos concelhos por ela atravessados. Ao 10º aniversário da sua morte foi ali inaugurado um monumento de homenagem que também retrata a sua obra, da autoria do arq.tº Luis Cristino da Silva e executado pelos escultores Leopoldo de Almeida e Barata Feyo.

Mas Duarte Pacheco já não assistiria a esse corolário do processo. Dois anos antes, a 15 de Novembro de 1943, regressava a Lisboa para um Conselho de Ministros, após visita às obras da estátua equestre de D. João IV, frente ao Paço Ducal de Vila Viçosa. Viver em ritmo acelerado, era uma conduta pessoal. Depois de passar Montemor-o-Novo em direcção a Vendas Novas, o Buick Roadmaster em que seguia despitou-se a grande velocidade num local denominado Cova do Lagarto. Os ferimentos tiraram-lhe a vida no dia seguinte. Salazar ditaria a frase lapidar para o seu monumento: Uma vida velozmente vivida e inteiramente consagrada ao progresso público.

Em Chaves, no mesmo local onde se inicia a N2, também tem início para leste a via denominada Av Engenheiro Duarte Pacheco. É do seu Ministério o decreto de 20 de Novembro de 1933 que reestrutura a classificação de estradas, criando as Estradas Nacionais, as Estradas Municipais e os Caminhos Vicinais e que, conjuntamente com outros diplomas, viria a revolucionar o sistema rodoviário português, inspirando e possibilitando o surgimento em 1945 do primeiro Plano Rodoviário. E, com ele, da EN2. Entre todas as outras, esta Estrada Nacional sobressairia por, pela primeira vez na história rodoviária do País se estabelecer uma via transversal norte-sul estruturante pelo seu interior.

recomenda

A Cova do Lagarto - A história fascinante de Duarte Pacheco Filomena Marona Beja (2007) Sextante Editora Grande prémio de romance e novela Associação Portuguesa de Escritores, 2007

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João Catarino N: Loulé, 19.04.1900; F: Setúbal, 16.11.1943

Se há viagens de sonho - e decerto que há - João Catarino fez uma delas. Em Julho de 2010, ao longo de 5 dias e na canina companhia de Buggy, viajou de Chaves a Faro pela EN2 ao volante da VW “pão de forma” DS-12-86. Poderia ter sido apenas mais um que, no final da viagem, chegaria com imensas recordações registadas num diário de viagem ou que ficariam para sempre armazenadas no cartão de memória da máquina fotográfica. Mas não ficaram. Na EN2 cada um à sua maneira se apercebe dum País que, a cada quilómetro, se perde e se descobre. E uma viagem de descoberta é um trânsito de emoções que, ora nos impõe a nostalgia, ora nos estimula a partilha de sensações. No caso, pelos sentidos e pelos dedos de um designer de dotes reconhecidos, o registo das emoções foi um diário de viagem numa linguagem de desenhos. Repousando sobre um fundo desprovido de ruídos, os detalhes da estrada e da sua envolvente ficaram, singelos e sensoriais, num caderno de folhas brancas e capa rija. Quatro meses depois surgiu o EN2 - Portugal não é um País tão pequeno como parece ..., a primeira publicação em percepção artística desta estrada que já era mítica e mais ficou. Foi a forma pela qual o sonho deste professor de desenho se transformou numa realidade que todos podemos partilhar. A viagem pela EN2 ajudou-me a ter uma leitura do país como se fosse uma linha do tempo aplicada à geografia. Essa viagem

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só com o cão para partilhar as emoções fez aguçar a vontade de voltar com a família a alguns lugares como a animada praia fluvial de Góis com écrans panorâmicos sobre o espelho de água e piqueniques à sombra dos choupos. João Catarino, 28.09.2011 O meu amigo Catarino Tem um dom especial. Vive como desenha, exprime-se como vive. Os seus traços, simples, firmes, poéticos, levam-me a viajar pela saudade da minha adolescência, o campo e as pequenas vilas, o sossego das paisagens amenas e apelativas. O João Catarino não é um simples urban sketcher, é um artista que pode reclamar para si a consistência mágica com que agarra para sempre - mais que fotograficamente - a vida que nem sempre conseguimos constatar. João Amorim, 06.12.2010 in oscarvalhosdoparaiso.blogspot.pt Blog de João Catarino: desenhosdodia.blogspot.pt

recomenda

EN2 - Portugal não é um País tão pequeno como parece ... João Catarino (2010) Livraria Fernando Machado


Os amigos da EN2

Se, desde há vários anos, um bom punhado de gente e mais umas quantas entidades não se tivessem dedicado à EN2, ela seria apenas mais uma estrada e este guia não teria razão para existir. Se algumas entidades públicas lhe dedicaram a merecida atenção, aqueles que entenderam que a EN2 se podia converter num símbolo nacional também reagiram a essas iniciativas. E o que aconteceu ao longo dos últimos 15 anos já marcou o que irá ser o futuro desta estrada. Fica um sucinto resumo de quando e quem marcou o seu destino. 1999 - O Instituto das Estradas de Portugal, lança o projecto Estradas Património, do qual a EN2 foi a primeira e única beneficiária. 2003 - O Instituto das Estradas de Portugal edita o livro Estradas Património. EN2 - Almodôvar - São Brás de Alportel. Da planície alentejana ao barrocal algarvio. 2006 - O Automóvel Club de Portugal organiza o 500 milhas ACP Chaves - Faro, uma viagem ao longo da EN2.

2007, Agosto - Paulo Moura assina diariamente para o jornal Público crónicas da sua viagem ao longo da EN2. 2008, Junho a Agosto - A Câmara Municipal de São Brás de Alportel e a Estradas de Portugal apresentam a exposição EN2, século XIX - século XX, uma história por contar. 2010 - João Catarino edita o EN2 - Portugal não é País tão pequeno como parece ... 2011 - A RTP realiza o documentário Estrada Nacional 2, da autoria de Paulo Narciso, produtor Bruno Cerveira, realizador Vasco Napoleão. 2011, Novembro - A Espaços Sonoros organiza, numa única jornada, o N2 - A mais longa estrada (2011). 189 participantes.

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2012, Maio - O Incha Team Power organiza o Desafio Chaves - Faro.

2013, Setembro - Clube Maxiscooters do Norte organiza o Volta a Portugal em Scooter ao longo da EN2.

2012, Novembro - A Espaços Sonoros organiza o N2 - A mais longa estrada (2012).

2014 - Paulo Moura lança o livro Longe do Mar, relatos da sua viagem ao longo da EN2 (http://paulomoura.net).

2013, Junho - O projecto NC700 Portugal organiza o (Re)Descobrir a Nacional 2. 38 — ESTRADA NACIONAL 2


2014 - Tiago Cordeiro efectua sózinho e publica o video Chaves-Faro em bicicleta - Estrada Nacional nº2 - Portugal de Norte a Sul. 2014, Junho - Os geocachers António Guerreiro e Carlos Jerónimo pedalam ao longo da EN2 de Chaves a Faro, em 6 dias

e fazem 80 e tal geocaches que existem ao longo da estrada. 2014, Setembro - André de Atayde, Carlos Paes e Nuno Botelho apresentam no Expresso Diário a reportagem multimedia Nacional 2, uma mulher de sonho.

Foram também fonte inspiradora para o Papa-figos os relatos de viagem na EN2 e as muitas páginas que muitos apaixonados desta estrada mantêm na internet. Não podem deixar de ser aqui mencionados: Apolinário (pedalviajante.blogspot.com) Gonçalo Elias (https://www.facebook.com/elias.goncalo?fref=ts) Hernâni Cardoso (hernanicardoso.pt/en2-a-mitica-route-66-portuguesa) João Correia (http://estradanacional2chavesfaro.pt) Marafado (marafado.wordpress.com/2010/02/25/a-estrada-nacional-2/) Rogério Carmo (motoblogger.blogspot.com/2012/11/estrada-nacional-2)

O Papa-figos junta-se a todos estes amigos no ano da comemoração dos 70 anos da EN2.

- Fazia novamente? Sim. - Pensava duas vezes? Não. Geocacher António Guerreiro, após ter efectuado a EN2 de bicicleta em 6 dias (www.bttchavesfaro.blogspot.pt)

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