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B A Amiga Genial Elena Ferrante

No meio da noite, Lenu recebe uma chamada. Rino contacta-a, agitado e em pranto, para a inquirir acerca do paradeiro da sua mãe, desaparecida há 2 semanas. Levara todas as suas roupas, e na gaveta onde guardava as suas fotografias, a sua figura não constava em nenhuma - de todas elas tinha sido cuidadosamente recortada. Lenu termina abruptamente a ligação com Rino, não alimentando o dramatismo que este pretende propagar. A excentrici-dade de Lila atingira o seu exponencial máximo - aos 60 anos cumprira aquilo que sempre havia prometido e desaparecera, eliminando qualquer vestígio da sua existência. Convicta em não deixar cair Lila no esquecimento, Lenu inicia uma catártica viagem pelas memórias da sua amizade com Lila, numa descrição das vicissitudes de uma vida que desde tenra idade se revelara predestinada a um fado tão brilhante quanto trágico. Para tal, Lenu retorna à violenta Nápoles da década de 50, e ao pobre bairro onde pela primeira vez privara com Lila. Não poderiam ser mais diferentes: Lila era autodidata, destemi-da, aparentemente inconsequente em prol dos seus princípios orientadores - desafiava tudo e todos, e Lenu, magnetizada pela sua personalidade, havia jurado seguir sempre os seus passos, numa tentativa de também ela um dia assumir a bravura que a sua timidez repelia. Nasce assim uma amizade, tão improvável quanto peculiar, que marcaria para sempre as suas vidas e as vidas daqueles que as rodeiam. Ao longo dos 4 livros que constituem a Série Napolitana, Elena Ferrante descreve eximiamen-te• a odisseia de Lila e Lenu pela dura vida no bairro, dominada pelos interesses 12

mafiosos, traições e ganância que deturpariam todas as relações entre os moradores; pela necessidade de transgressão dos limites físicos do bairro e de Nápoles numa ávida busca pela liberdade que as impedia de prosperar, assim como por todas as vantagens e desvanta-gens que tal decisão acarretaria; pela criatividade e efabulação da vida, o único modo de escapar à sua dureza e o irónico ponto de contacto entre 2 amigas que acabariam por matu-rar visões diametralmente opostas da realidade e das suas possibilidades. Todavia, o que eleva esta obra a uma epopeia dos tempos modernos é a dissertação visceral, lúcida e pun-gente da amizade feminina, desde a sua conceção holística às suas solicitudes concretas, feita quase impercetivelmente ao longo de pequenos gestos e silêncios que permutam entre os limites do real e da ficção numa transcendente metamorfose de ideias em memórias de uma das muitas vidas que vivemos através da leitura. O mistério em torno da veracidade da história despertam, de igual modo, curiosidade em torno da obra: presume-se que, à semelhança de Lenu, a autora que escreve sob o pseudó-nimo Elena Ferrante nasceu em Nápoles, na década de 40 e tem conhecimento formal de literatura grega e romana; contudo, nada sustenta com certeza esta afirmação, uma vez que a sua identidade está envolta num sigilo preservado pela própria e pelos fãs da sua obra, que rejeitam e mar-ginalizam qualquer tentativa de revelação empreendida por jornalistas. . Não obstante, o fenómeno Ferrante, como intitulado pelos media, é, acima de tudo,


Book review

R

alimentado pela especificidade descritiva da decadência social e física de uma Nápoles consumida pela máfia e pela complexidade e humanidade das personagens que retrata – tal como na vida, estas personagens são fluidas na intermutabilidade e evolução comportamental decorrente da passagem do tempo, numa edificação permanente de uma personalidade que não pode ser descrita na dicotomia preto e branco mas somente na polivalência das diferentes tonalidades de cinzento. Temas tratados – as dores do crescimento, a descoberta da identidade individual e coletiva, os mecanismos de açãoreação de que dispomos quando confrontados pelas vicissitudes da vida, as dimensões da existência e o seu consequente e derradeiro sentido.

Catarina Carvalho 13


M ~

Soldado MilhOes 2018 ] O Antimatéria já te habituou a artigos sobre filmes clássicos, sobre os filmes da atualidade, guilty pleasures e, no geral, toda uma abundância de grandes filmes. No entanto, ainda não se abordou suficientemente a cinematografia portuguesa. Portugal já viu o crescer de diversos atores e diretores que atingiram a sua dose de reconhecimento mundial, porém, hoje vou falar de um projeto com menos projeção ‘’lá fora’’. Hoje escolhi falar um pouco sobre o filme ‘’Soldado Milhões’’, um drama biográfico que descreve os episódios da vida de Aníbal Augusto Milhais, agricultor e soldado natural de Murça, com especial ênfase nos meses que passou em trincheiras na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. Embora pouco conhecido, o conto de Aníbal Milhais não merece menos do que ficar gravado na história portuguesa. «Tu és Milhais, mas vales milhões!» disse o comandante Ferreira do Amaral assim que o murcense se reencontrou com o seu esquadrão, após ficar para trás numa trincheira a travar por si só avanços dos organizados e metódicos soldados alemães. Este sacrifício valeu a vida a dezenas de soldados portugueses e aliados, um ato de coragem que valeu a Aníbal Milhais a honra de ser o primeiro soldado português na história a receber a maior honraria nacional em solo estrangeiro.

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O filme inclui na sua ficha técnica os diretores Jorge Paixão da Costa e Gonçalo Galvão Teles, ambos com poucos louros associados aos seus nomes, e uma lista extensa de atores portugueses, grande parte já familiar ao habitual consumidor da televisão nacional, tais como Lúcia Moniz, João Arrais e Ivo Canelas. O filme conta com performances exímias por parte do elenco e toda uma produção de altíssima qualidade. A vida nas trincheiras é muito bem representada no filme na forma de flashbacks, os raros momentos de sanidade que surgiam em equilíbrio com o barulho das bombas contrastam na perfeição com a vida pacata que Aníbal tomava algumas décadas depois junto da sua esposa e dos seus filhos. Os momentos de tensão agarram-nos à televisão descrevendo humildemente as ações dos soldados portugueses num heroísmo que mal cabe no ecrã. A tarefa daqueles associados com a produção deste filme não foi fácil, porém, diria que foi bem cumprida. São estabelecidos diversos paralelos entre a vida de Aníbal nas trincheiras e a sua vida atual, desde os momentos de felicidade efêmera aos de tensão. Sempre com uma personalidade forte, a passagem da vida humilde de campo às dificuldades de uma guerra é bem representada nos olhos de Aníbal e daqueles que o acompanham, uma vez que, embora o intuito do filme seja


Movie review

R apresentar ao ecrã grande o caráter do Soldado Milhões, o herói do filme é todo o coletivo que é Portugal. Uma aula de história que satisfaz e que faz jus à identidade do nosso país, glorifica-se de forma subtil o patriotismo que estes soldados levavam na sua farda, um valor que se vai dissolvendo das águas de mudança do modernismo. Descontextualizando quem foi na realidade o Soldado Milhões, obtemos uma representação bastante pessoal da vida dos soldados em tempos de guerra. Desde cenas intensas de batalha a momentos doces entre Aníbal e a sua filha, o filme respira numa atmosfera realista e envolvente que, limitada pelos poucos recursos do cinema português, substitui a matança de grandes multidões pela construção metódica do companheirismo entre um grupo limitado de personagens principais. Troca cenas violentas banhadas

a sangue pelo nervosismo, pela ansiedade e pelo medo nas trincheiras. Troca o espalhafato e os efeitos especiais por demonstrações sólidas do talento das pessoas envolvidas na realização do filme, quer dos produtores, quer a nível dos atores. Lançado em boa hora para comemorar o aniversário de um século do fim da Primeira Guerra Mundial, Soldado Milhões faz esquecer, ainda que por breves momentos, a falta de recursos crónica do cinema português. Surge em boa hora para que os portugueses descubram quem foi Aníbal Augusto Milhais e para que percebam o que passou pela cabeça daquele tal comandante quando disse que este agricultor de Trás-os-Montes ‘’valia por milhões’’.

Henrique tavares

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PETRICHOR KEOR

Um álbum, para ascender a um patamar de excelência, a meu ver, terá de contar uma história. Por vezes pode não ser explícito, mas sentimos a ”narativa” na sequência das músicas. KEOR é o nome deste projeto. Depois do álbum “hivemind” e do single “winter’s Pilgrim”, vem o objeto desta review, “Petrichor(1)”. Victor Martin, de sangue brasileiro, de alma francesa (Montpellier, França) e formado em Física (mais especificamente na área de acústica), é o responsável por este magnifico álbum. Victor compôs, produziu, e gravou a grande maioria dos instrumentos. Voltando ao álbum, em primeiro plano temos a capa, uma mistura de fantasia e aventura, numa floresta misteriosa, onde a luz e a ausência desta criam uma atmosfera imersiva. Podemos ver que, no decorrer do álbum disponível no youtube a imagem de fundo acompanha as mudanças da música. Vemos a floresta a arder, vemos chuva e mudanças de tonalidade que ajudam a identificar o sentimento presente… (1) Petrichor: nome científico para o cheiro da terra molhada, após uma vaga de calor, sem chuva

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Mudanças tão simples mas que culminam numa experiência emocionalmente poderosa. A viagem começa pela música “Petrichor”, que nos dá um plano geral de toda a potencia musical que se avizinha, dos altos e baixos, da valsa suave (pelas cordas de nylon, pela voz) ao rock/metal progressivo (da bateria, da guitarra elétrica com riffs potentes) ao psicadelismo e experimentalismo, típico do mundo progressivo, criando uma envolvência que nos transporta a outra dimensão. Seguem-se as músicas “The Nest of Evil”, ”Snivel by the Pond”, ”Terence”, ”Abyssal Bloom”. Ao longo de todo o álbum sente-se a influência de grandes músicos/bandas como Devin Townsend, Steven Wilson, Opeth (na sua onda mais progressiva)… Guitarras, baterias e teclados, que nos levam a Haken, Dream Theater, Riverside… Os últimos minutos do álbum, a faixa ”Abyssal Bloom”, carrega-nos com um peso nos ombros que não sabíamos que existia, que tanto desabrocha a emoção mais profunda do nosso coração como nos embala para o sonho que deixou remanescente. É notório que as músicas não seguem a onda das estruturas complexas e compassos manhosos, mas focam-se no que “realmente interessa”, criando crescendos e “variações de humor” que não nos deixam fugir, com algumas melodias que são pequenos brilhos que decaem tão rapidamente como se formam. Este é um álbum que nos traz uma rajada de ar fresco que ora nos dá asas ora nos empurra com toda a força contra o chão que constantemente produz calafrios sísmicos no nosso

corpo. Um álbum que vale apena ouvir com atenção, com tempo para apreciar todo o trabalho investido, a criatividade que o originou e a peça de arte que finalmente nasceu. O álbum “Petrichor”, que está certamente num patamar de excelência, leva-me a acreditar que um dia Victor Martin poderá fazer parte da lista de grandes nomes acima referidos. A todos os que ouvirem este álbum, e gostarem do mundo aqui exposto, bem vindos ao mundo do Progressivo.

João Oliveira 17


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Cantinho

da Ana de

Muitos de vós já ouviram falar da Ana de Castro, por isso venho-me apresentar para criarmos uma relação mais próxima. O meu nome é Ana Adelaide de Castro e venho ajudar-te a resolver aqueles teus problemas amorosos que te assolam durante a noite e não te deixam dormir. Declaro aberto o consultório. O amor, embora definitivamente o sentimento mais belo, é a maior fonte de incerteza na vida... todo ele um mistério e borboletas no estômago. Por vezes sentimos que não há caminho, todas as portas estão trancadas... O amor também é isto, porém, há sempre um caminho. Bem vindo/a ao Cantinho da Ana de Castro, aqui poderás encontrar a resposta para esse problema amoroso.

Caro colega, digo caro, mas também poderia dizer cara pois aqui estamos num círculo de confiança e ninguém julga ninguém, o que importa mesmo é o amor. Géneros à parte, passemos para a pergunta que nos traz cá hoje. Assumiremos que este gostar é mais que uma simples amizade, até porque uma amizade não se nega a ninguém nem há necessidade de haver medo ou vergonha. Mas se estamos a falar de medos ou vergonhas, vamos ser honestos, amar alguém é motivo para sentirmos estas coisas? Julgo que não, afinal o amor é o mais belo que há. Porque tens medo? Será que achas que ela é areia de mais para a tua camioneta? Mais inteligente? Ou será mais velha? Ora em qualquer um dos casos, a abordagem tem de ser cautelosa, não queremos que te veja como um burgesso. Sê delicado, atencioso, mas não caias no erro de nunca mais seres nada além de um bom amigo. Este é um caminho do qual poucos heróis conseguem sair. Mostra-lhe que estás interessado em algo mais, sem seres demasiado obvio, procedendo sempre com cautela e firmeza. Convida-a para um jantar, para um café ou até talvez para uma ida ao cinema. Deves ter sempre em atenção as reações da tua predileta, elas indicam SEMPRE o caminho a seguir. Com os votos de um final feliz, Da tua desenvergonhada,

AC

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Castro Meu caro leitor, não se sinta de tal forma, sempre que precisar de um ombro amigo escreva-me e ajudá-lo-ei. Para começarmos, quem nunca sofreu de amores, de solidão, de falta de reciprocidade na sua vida? Exatamente, é mesmo que está a pensar. Ninguém! A dificuldade constrói caráter. Sabe que estou sempre disposta a ajudar quem precisa de um empurrãozinho para conquistar o amor. Mas vamos ser honestos, este mundo onde vivemos é cruel, e tal como ele as pessoas que nele habitam também o são. É importante, nesta fase de superação pessoal, entender o porquê da dita amada não lhe corresponder da mesma forma. Pode ser ela, você ou as circunstâncias da vida. Seja como for, tudo nesta curta vida é superável. Desde já as melhoras para esse coraçãozinho em sofrimento,

AC

Minha querida, como diz a famosa música: “Amiga parceira, só se for amiga solteira”. Começamos então com este mote e onde é que ele nos leva? Leva-nos à felicidade! Para podermos estar felizes com o outro e até encontrá-lo precisamos de nos conhecer, de nos amarmos e de encontrar o nosso próprio caminho. Este caminho pode tomar diferentes rotas. Passo a exemplificar uma. Nem todas nascemos para ter um homem e com ele casar, há quem tenha dedos que não gostem de alianças. Vamos julgá-las? NUNCA! Ser um pássaro livre, é um caminho como outro qualquer e ninguém no mundo nos pode julgar. Outro caminho, poderá ser o caminho da fé. Podem até achar estranho estar a dizer isto, mas nunca nos devemos envergonhar de servir o outro (tendo em atenção ao tipo de servicinho) nem tão pouco de fazer o bem. Ter uma relação com Deus é a melhor relação que alguma vez poderíamos experienciar, porque Deus é a luz para te guiar nos caminhos da vida. Claro que esta via, não será a mais adequada para todas vós, caras leitoras ou leitores, mas nesta vida existe um monopólio de serviços que podem prestar. A vossa fiel companheira no caminho das Trevas ou do Senhor,

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Antimatéria - 20ª Edição  

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