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Pirata, eu? neco tabosa

“uma camisa de força, tamanho mirim / vai ter que me explicar: tim tim por tim tim / porque a lei só se aplica a mim?”* *Liberdade de expressão (Black Alien, Alexandre Carlo e Rodolfo, da extinta Raimundos) Qual lugar e época se relaciona corretamente com as afirmações a e b? [1] Portugal (ou Liverpool, ou Nova Iorque...), ano da graça de 1815

[2] Recife (ou São Paulo, ou Salvador...), 2011

[a] Nesse lugar, uma mesma instituição tem

[b] Aqui, as micro realidades são limitadas

controle majoritário da entrada e saída de

a espasmos de liberdade para o debate. O

material (e, por tabela, do status que vem do

pensamento vigente é o da cópia. Se não

uso desse material) de vários portos. Influent-

parece com nada do que está no ar, na

es, ricos e poderosos, os conselhos locais

propaganda oficial... não é verdade, não é

desse ‘Grande Irmão’ passam a ser mais

ético nem deveria ser visto pelas crianças.

importantes que as administrações locais

As chances de algum raciocínio novo acon-

estabelecidas. Os diretores de cada zona

tecer são reduzidas ou nulas. È permitido por

ditam a moda, os costumes e até os rumos

lei, mas não será estimulado.

políticos do lugar com a disseminação de produtos culturais. Não está previsto na lei,

[2] e [b] ou [a] tb está certo.

mas pode.

Tanto faz [1] com [a] ou [b]. Resposta:


O

poder paralelo (ao estabelecido pela lei e pela ordem da época) sempre existiu. A diferença é o que historicamente é considerado permitido ou proibido. Organizações de comunicação onipresentes como a operada pela família Marinho ou o Sistema Brasileiro do Silvio Santos seriam combatidas em outras épocas. Ou em outros países, hoje em dia mesmo. Rádios piratas e twitters não governamentais são estimulados em outros contextos. Quando se quer chegar a um panorama plural e imparcial de qualquer realidade, é óbvio que várias vozes devem ser propagadas.

Um exemplo:

No final de novembro fiz parte de uma dessas micro realidades que desafiam o pensamento totalitário vigente. A convite do Professor Edward MacRae, fui participar do Simpósio Nacional sobre Drogas promovido pela Abesup (Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos) em Salvador, na Bahia. O evento foi coberto pelo jornal chileno El Ciudadano (www.elciudadano. cl), e completamente ignorado pelos jornais A Tarde, Correio da Bahia e similares locais. Pra você ter uma idéia da marginalização desse debate. O seminário aconteceu (coincidência ou não, diria o moderador Sergio Vidal) enquanto o pau comia no Rio de Janeiro. Segundo

os telejornais da Grande Rede, os traficantes desciam o Complexo do Alemão para afrontar a polícia e o povo do Rio de Janeiro. O que se seguiu foi aquela ocupação da Vila Cruzeiro pelo exército. (( Uma das imagens mais emblemáticas propagadas pela tevê foi a dos traficantes armados fugindo a pé de um morro para outro. Será que o repórter no helicóptero chegou a pensar que a transmissão dele estava salvando aquelas pessoas da execução sumária? Ou estava muito ocupado com a narração pro vivo do Jornal da tarde? )) Com a clara noção de que a situação vai além do resumo raso do telejornal, estudantes e pesquisadores das mais diferentes frentes se reuniam no Simpósio para debater o panorama da complicada mudança de paradigma: o problema não é a droga, é a lei que proíbe a droga e os desdobramentos desse sistema acostumado a prender e matar negros, pobres e marginais não influentes. A mesa de que participei teve as participações de Julio Delmanto, Mauricio Fiore, Tom Valença e Luiz Paulo Guanabara. Cinco pessoas que mesmo bombardeadas e enfiadas na inebriante realidade editada pela Grande Rede, ousam pensar fora da caixa. O mais impressionante pra mim foi perceber que a escrotice com


que o tema é tratado pela mídia ou pelos governos no poder não é exclusividade da questão das drogas. Por exemplo; saneamento básico (o Brasil tem capitais como o Recife – que tem pouco mais de 70% de seu território saneado), condições de vida nas favelas (viu os buracos que ficavam no lugar das ruas no morro ocupado?) filas de transplante no serviço público de saúde ou filas de transplantes no sistema pago dos planos de saúde (se liga classe média, por aqui não é fácil ter saúde nem pagando!) De todos os conceitos levantados pelos participantes da mesa, um pra mim resumiu a pedra gigantesca que está sobre toda a discussão. Enquanto ela não rolar, qualquer decisão ou debate será periférico. Eis: “Como disse uma vez o Jonathan Ott: ‘As leis proibicionistas são inaplicáveis, ineficazes, antieconômicas, anticientíficas, imorais, antiecológicas, antidiplomáticas e ditatoriais’ - acho que ele resumiu bem.” Julio Delmanto A mesa inteira pode ser vista no link: http://www.ustream.tv/ recorded/11062075

pirata, eu?  

artigo publicado no zine película (bigode publishing inc.)

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