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O futuro da mídia impressa na sociedade da informação Samuel Lima1

Resumo

Para quem já teve o status de mídia central, durante os primeiros séculos da história da imprensa, o jornal em papel vive hoje, com o advento da chamada era da informação, uma espécie de radical dilema da Esfinge: decifra-me ou te devoro. O objetivo deste artigo é refletir sobre o futuro dos jornais, considerando fatores como credibilidade, margem de lucro, qualidade da informação, redefinição de papel no contexto informacional, busca da verdade e as possibilidades de convergência com o jornalismo on-line. Tais aspectos devem ser considerados num contexto de acelerado avanço das tecnologias, que permitem ao cidadão comum o acesso virtual a uma base física oceânica de informações. Há apostas e predições para todos os gostos. Alguns cenários já estão apontados por pesquisadores que transitam entre os modos impresso e on-line. Estas reflexões também devem compor o escopo do artigo, como base às prospecções que se pretende fazer sobre o tema. Palavras-Chave: mídia impressa, jornalismo on-line, novas tecnologias.

Abstract

Who already had the main media status, during the firsts centuries of press history, the newspaper is living nowadays, with the advent called information age, a kind of Sphinx’s Dilemma: deciphers me or I devour you. The objective with this article is reflect about the newspaper’s future, considering points as the credibility, profit margin, quality of information, redefining the role in the informational context, search of the truth and the possibilities to convert to an online journalism. These aspects must be considered in an accelerated context of technological growth, which permits to the common citizens the virtual access as an ocean of information. There are some bets and predictions to all the tastes. Some scenarios are pointed by searchers about printed and online ways. These reflections also should make part in this article, like a base to the prospections we should make about the subject. Keywords: print media, on-line journalism, new technologies.

1. (*) Docente e Coordenador do Curso de Jornalismo do Bom Jesus/Ielusc. É doutor em Mídia e Teoria do Conhecimento (UFSC, 2005)

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Introdução Manhã de um incerto dia de abril de 2014, numa bucólica cidade americana. No expositor da padaria o último exemplar de um jornal diário é exibido, como se fosse um dinossauro midiático. Esta é uma das previsões das pitonisas para o futuro do jornalismo impresso, entre as bênçãos do mercado e o determinismo como religião, forjada no altar das novas mídias. A base está em Meyer (2007) que indica uma queda do número de leitores em torno 0,6 por ano. Para começar esta reflexão, ainda no terreno das previsões, é necessário resgatar algo mais consistente: Meyer (2007), relacionando os vetores da confiança e do hábito de leitura, baseado em dados de pesquisa empírica, faz outra projeção. A análise do hábito de leitura, por exemplo, partindo do ano de 1960 (quando o percentual era superior a 80%), cai a uma taxa atual de 0,95 ao ano. Para o autor, sem nenhuma ação de parte da indústria dos jornais impressos que reverta o quadro, não haverá mais leitores de jornais diários, no primeiro trimestre de 2043. De partida, já ganhamos quase três décadas de fôlego antes do fim previsto nos manuais das consultorias americanas. Meyer (2007) constata ainda que “a queda do número de leitores foi levada a sério pela primeira vez nos anos 1960, quando novas fontes de informação começaram a disputar, com sucesso, o tempo do tradicional leitor de jornais. A competição criada pela tecnologia foi iniciada muito antes de se falar na supervia da informação” (MEYER, 2007, p. 48). A diagramação digital barata e a impressão computer to plate (CTP) levaram ao crescimento explosivo de produtos impressos segmentados capazes de atingir o público almejado pelos anunciantes. Com efeito, a atenção do distinto público leitor, cada vez mais escassa, na sociedade contemporânea, continua a ser a commoditte mais preciosa do jogo midiático. Mas, o problema fundamental, no caso do jornalismo impresso, é gestar a transição de uma indústria acostumada com margens de 20 a 40% de lucro para uma realidade em que estes números se estabilizem entre 6% ou 7%, resultados que outros setores da economia têm como parâmetros normais. Como contexto mais geral, há um elemento indispensável, colocado a priori: “O ideal da informação desde o século XVIII – saber de tudo, imediatamente, para todo mundo – virou realidade em menos de trinta anos, pelo menos nos países democráticos” (WOLTON, 2004, p. 283). Mas, no momento em que se realiza, na visão do autor, o sonho se desmancha: a lógica da informação torna-se simples demais em relação à complexidade da história e as “perturbações” criadas por esse tipo de informação, emanadas do vasto mundo virtual, aumentam tão rapidamente quanto suas performances. Wolton (2004) considera ainda que essa espécie de vitória política da informação transformou-se num verdadeiro “bombardeio informativo”. Sobre a natureza da informação, como insumo básico deste alvorecer de século XXI, ele escreve com ênfase: A informação é onipresente e resulta em uma tirania do instante. Sabe-se tudo, de todos os cantos do mundo, sem ter tempo de compreender ou retomar o fôlego, e sem saber, finalmente, o que leva a melhor entre o dever de informar, a loucura concorrencial e o fascínio pela técnica, ou essas três coisas ao mesmo tempo (WOLTON, 2004, p. 284).

Na ponta final desse tecido imaginário, na chamada era da informação, subsiste um estranho paroxismo que embala a peleja do impresso contra o dragão digital: “A informação não se reduz mais ao relato do acontecimento. Embora se possa ver tudo, não se pode entender tudo. A proeza não é mais ter acesso ao conhecimento, mas entendê-lo. O excesso de informação mata os fatos e a compreensão deles” (WOLTON, 2004, p. 286). Noutras palavras, voltando a Meyer (2007), o novo problema está no excesso de mensagens, que ultrapassa radicalmente a capacidade do público de apreendê-las. Neste front, brilham algumas luzes a pavimentar um caminho de futuro aos jornais.

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A aposta de Meyer (2007) é na alta qualidade que a mídia impressa precisa (deve e pode) alcançar, na medida em que isso “conquista mais confiança do público para o jornal, e não apenas aumenta o número de leitores e a circulação, como também influencia os anunciantes a decidir a quem querem associar seu nome” (MEYER, 2007, p. 31). O autor correlaciona credibilidade e lucratividade, ainda que seja fundamental ponderar que não há uma relação de causa-efeito determinista em jogo, mas possibilidades que compõem o quebra-cabeça de uma solução complexa. O fato é que os jornais, com uma história de quatro séculos, como bem escreve Lucena (FSP, 08/06/2008), “condensam uma credibilidade difícil de ser replicada em outros meios e funcionam como uma bússola para o leitor imerso” no caos informacional caracterizado por Wolton (2004). O diferencial a ser explorado a fundo, tomando-se essa visão de Lucena, é aparentemente óbvio, na medida em que os jornais impressos “apresentam um resumo organizado das notícias mais importantes das últimas 24 horas, selecionando e hierarquizando fatos, análises e opiniões” (LUCENA, 08/06/2008). A editora-executiva do diário paulista arremata: “Numa sociedade extremamente desigual e cada vez mais preocupada com o bem-estar em escala privada, os jornais colocam (ou pelo menos deveriam colocar – grifo meu) foco sobre o interesse público. Têm a tarefa de fazer uma reflexão cotidiana sobre a realidade (a questão é uma só: estão fazendo? – grifo meu). É o seu papel e o seu futuro” (LUCENA, 08/06/2008).

O jornal impresso como “pedágio” da informação Desde o surgimento, na segunda metade do século XVII, os jornais impressos atravessaram mais de trezentos anos de história da imprensa como a principal referência de informação à sociedade. Num certo sentido, seus proprietários detinham uma espécie de monopólio: “Ser dono de um jornal era como ter o poder de recolher um imposto sobre as vendas” (MEYER, 2007, p. 43). Dos varejistas em geral ao público, o jornal impresso se colocava como o “pedágio” pelo qual trafegava a informação jornalística e a publicidade. Reforçando este ponto de vista, Alterman (OI, 08/06/2008), escreve: “Até pouco tempo atrás, os jornais estavam acostumados a operar com monopólios de alta margem de lucro. Por muitas décadas, publicar o jornal dominante – ou único – de uma cidade dos EUA de porte médio equivalia a deter uma licença para imprimir dinheiro”. Desse modo, forjando identidades sociais e culturais, amalgamadas pelo composto de celulose e tinta, o jornal impresso se auto-constrói como se fosse o próprio jornalismo, gênero e forma de conhecimento social. Fragmentos da história humana, conflitos e sonhos da sociedade como randômicos fotogramas estão impressos em suas páginas seculares. Fonte de inspiração para pesquisas mais profundas sobre política, poder, cultura, comportamento, esportes, sociabilidades em geral, o jornal de papel reflete e refrata este imenso universo factual, balizado pela prevalência do fenômeno sobre a essência da vida. Em episódios históricos recentes – como os movimentos da contracultura dos anos 1960, a guerra do Vietnã (e seu fim, com a derrocada dos EUA sob influência direta do jornalismo investigativo e suas imagens arrebatadoras), ou mesmo da renúncia de presidentes em inúmeros países, sob o foco democrático (e incômodo) dos impressos que jogavam luz, dia após dia, nos casos de corrupção e podridão dos poderes constituídos – os diários agiam como protagonistas em defesa do interesse público. O caso mais célebre talvez seja a queda de Richard Nixon, abatido pelas informações precisas e reveladoras publicadas pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, nas páginas do The Washington Post, entre junho de 1972 e 9 de agosto de 1974, quando o presidente americano renunciou à Casa Branca. Entretanto, no limiar deste terceiro milênio esta mídia tradicional aparece imersa numa profunda crise de identidade, relevância social e sobrevivência como negócio. O cenário lembra a entrada comercial da televisão, no começo dos anos 1950. Naquela ocasião, o rádio teve anunciada

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sua morte. Hoje reposicionado social e comercialmente, o rádio subsiste como o mais ágil e unidirecional meio de comunicação – apresentando-se sempre como um negócio rentável. Na cena midiática mundial, há um razoável coro de vozes de consultores e analistas da comunicação “que vêm prevendo, já há algum tempo, o fim dos jornais como algo inevitável. Ninguém é capaz de dizer com certeza o que ocorrerá” (LINS DA SILVA, 08/04/2008). Fato inconteste é que uma das causas desta crise “é o advento da internet, que faz parecer o jornal diário um anacronismo, pesado, lento e incapaz de sacar com rapidez as demandas (em mutação) do público” (WEIS, 20/08/2004a). Quando se fala de tempo real, Martinez (2007) indica que há uma raiz histórica transcendente. Desde o século 19 as agências de notícias estiveram focadas em reportar as notícias em tempo real – de acordo com os canais e meios tecnológicos disponíveis à época. “Portanto, nada mais natural que, com o surgimento da Internet, na década de 1990, elas fossem as primeiras a alimentar o meio digital, detentor de espaço infinito e muita ânsia por conteúdo” (MARTINEZ, 2007, p. 13).

A internet vai acabar com os jornais? Menos de duas décadas após o advento comercial da internet, uma pergunta sem resposta fustiga as relações entre esta “jovem mídia” e “os “mamutes de papel”, na feliz expressão de Luiz Weis (20/08/2004b): qual é a fórmula para o jornal impresso se manter vivo e relevante? Na história das comunicações não existe paralelo de tamanha incompatibilidade, nem mesmo a entrada em cena da TV disputando com o rádio. No entorno desta indagação há uma acirrada disputa de poder – “morte e vida” como caracterizou Alterman (OI, 10/06/2008) – na qual os jornais estão tentando encontrar uma saída, um rumo. Os EUA e a Europa, referências da modalidade impressa do jornalismo, aparecem, neste momento, imersos no epicentro deste furacão midiático. Enquanto os sites de jornais batem o recorde de visitantes (só no primeiro trimestre de 2008 nos EUA, mais de 66,4 milhões de visitantes únicos, 12,3% a mais que o mesmo período de 2007), entre os editores e publishers dos impressos americanos, o clima é de velório. Vejamos os dados: A circulação nos dias úteis, que em 1990 era de 62,3 milhões de exemplares caiu para 55,8 milhões em 2000 e para 50,7 milhões, em 2007; aos domingos, os números são de 62,6 milhões (1990), 59,4 milhões (2000) e 51,2 milhões (2007). A receita de publicidade, que tinha dado um salto extraordinário dos US$ 30 bilhões de 1991 para o pico de US$ 48,7 bilhões, entrou numa espiral descendente. Os US$ 42,2 bilhões do ano passado representaram uma queda de quase 10% em relação a 2006 (MOLINA, 09/09/2008).

No sensível território das bolsas de valores, as editoras de jornais cujas ações são negociadas ali perderam 42% do seu valor de mercado, de 2005 a 2008. Outro dado revelador do tamanho da crise é a redução de postos de trabalho: de 1990 até o começo de 2008, 25% dos empregos de jornalistas desapareceram. São indicadores que parecem justificar, plenamente, a visão dominante no mercado americano: “Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em alguns casos, o próprio senso de missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar meros quatro anos atrás” (ALTERMAN, 08/06/2008). Contudo, este cenário é comum apenas aos EUA e alguns países da Europa. Puxando os números dos jornais para cima, aparecem os países da Ásia (notadamente, China e Índia) e América Latina (Brasil à frente): Segundo a Associação Mundial de Jornais (WAN), nunca se leu tanto jornal como agora. O crescimento tem sido contínuo nos últimos anos. Em 2007, circulavam

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11,7 mil diários pagos em todo mundo, 3% mais que no ano anterior, com uma circulação conjunta de 532,2 milhões de exemplares – 2,6% superior a de 2006 e 9,4% a mais do que cinco anos antes. (...) O número de jornais distribuídos gratuitamente no mundo triplicou de 102, em 2003, para 312 no ano passado e a circulação saltou, nesse período, de 15 milhões para 167 milhões, 11 vezes. Aumentou a leitura dos jornais pagos e dos gratuitos (MOLINA, 09/09/2008).

Meyer (2007, p. 232), citando pesquisa realizada por Clark Gilbert (Harvard Business School), em 2003, oferece outra indicação positiva ao futuro dos jornais de papel: Quatro em cada dez leitores de sites de jornais lêem o produto tradicional impresso; dois em cada dez são, na verdade, assinantes; o produto on-line atende à utilidade, é uma forma de ter acesso rápido a informação útil para a vida dos leitores. O uso mais impressionante de todos esses sites, mesmo nos mercados menores e mais locais, é a criação de uma rede de leitores (MEYER, 2007, p. 232).

A pista deixada por Meyer indica uma urgente e inadiável atitude: “Quem quiser preservar a função de responsabilidade social da imprensa, melhorando sua qualidade, tem de parar de se queixar e começar a olhar o produto integrado, não só sua porção fabricada com papel e tinta” (MEYER, 2007, p. 233). Esta parece ser, até meados de 2008, a tendência dominante do mercado de jornais impressos. Os players já não recorrem mais aos consultores-pitonisas para checar os “búzios” a respeito da longevidade de seus produtos. Começam, celeremente, a buscar uma saída na convergência entre on-line e impresso, potencializando os dois nichos de negócios, mobilizando esforços de uma e outra versão no sentido de fortalecer a ambos (o on-line remete ao papel, que por sua vez faz nova remissão ao meio online). “Qualquer que seja a nova forma de jornalismo, ela precisará de um abundante manancial de jornalistas éticos e capazes. Essa necessidade nunca mudará”, recomenda o autor (MEYER, 2007, p. 239). Um elemento que deixou profundas marcas no jornalismo americano contemporâneo, pouco citado e explorado por analistas e pesquisadores, é a erosão de credibilidade, especialmente do meio impresso, verificada após o 11 de setembro. Entre o adesismo, sem pudor, ditado por interesse econômico e ideológico, a mídia americana comprou as teses da guerra contra o terrorismo e buscou, de todas as maneiras, justificar a política belicista do governo Bush. Assim, justificou as invasões no Afeganistão (a pretexto de caçar Osama Bin Laden) e no Iraque (para combater o perigo da ditadura Hussein e suas supostas armas de destruição em massa – que jamais foram encontradas). Nesse vácuo, cresceram importantes iniciativas empresariais, balizadas por outra visão política e teórica, resultando em megablogs como o Huffington Post, de perfil progressista, que conquistou o público em 2005 contestando as reportagens de Judith Miller, para o The New York Times, justificando a política militar e internacional de George W. Bush. Como o fizeram os jornais impressos do passado, blogs e sites noticiosos firmavam uma posição de independência política, em defesa do interesse público. O Huffington Post tem hoje um acesso mensal de mais de 11 milhões de visitantes únicos, perdendo apenas para os sites dos oito maiores jornais americanos. Mais adiante, voltaremos ao HuffPost e a sua pretensão de ser a “CNN da era digital”. A resposta à questão crucial é, por ora, um promissor “não”. Porém, há um longo caminho a ser percorrido tanto pelas forças de mercado quanto pelo mundo da pesquisa e produção de conhecimento na área jornalística. É a própria Arianna Huffington, fundadora do Huffington Post (em parceria com Jonah Perreti e Kenneth Lerer), que diz convicta: Todo mundo fala da morte dos jornais, como se fosse um caso encerrado. Eu acho isso ridículo. A mídia tradicional só precisa perceber que a palavra digital não é o inimigo. Na verdade, é a palavra digital que vai salvar os jornais, contato que eles a adotem de verdade (ALTERMAN, 08/06/2008)

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Num cenário de convergência digital acelerada, há questões teóricas a serem equacionadas, como um novo conceito de notícia que emerge das experiências de jornalismo on-line, bem como um conjunto de questões em aberto, em termos de mercado, que podem inspirar um reposicionamento desta tradicional mídia, no conjunto do produto integrado.

A convergência entre impresso e digital: diálogo possível, e urgente No final do primeiro trimestre de 2008, a Associação de Jornais da América (NAA) divulgou pesquisa sobre a audiência dos portais de jornais nos EUA. O impressionante dado de 66,4 milhões de visitantes únicos corresponde, no contexto mais amplo da Internet naquele país, a cerca de 40% dos usuários. O tema de preferência dos internautas americanos é a política (2/3 das buscas) nos sites, resultado da intensa disputa entre democratas e republicanos, em ano eleitoral recém começado. O que mais chama a atenção na pesquisa encomendada pela NAA é o perfil dos usuários dos sites jornalísticos: “66% têm interesse por política; 31% têm cargos de gerência, 46% tem pósgraduação e 27% ganham pelo menos US$ 100 mil por ano; 76% baixaram áudio ou vídeo dos sites e 50% deles acessaram a internet de algum dispositivo móvel”2 Numa análise singela, pode-se afirmar que os sites jornalísticos, aqui e alhures, têm um poder de vinculação altamente significativo. No caso específico, atraem um usuário com alto poder aquisitivo, sofisticado e influente, com taxa de escolaridade superior (e quase metade com pós-graduação). Segundo os dados citados por Meyer (2007, p. 232), quatro em cada dez leitores dos sites dos jornais, dois são assinantes da empresa tradicional (mídia impressa), 20% desse público cativo são, portanto, assinantes do produto tradicional. Um nicho de mercado está aberto ao futuro. A convergência, mais que uma possibilidade, se impõe como um caminho natural se a falsa dicotomia “papel versus on-line” vier a ser superada, conceitual e politicamente. Do ponto de vista conceitual, algumas noções desenvolvidas pelo jornalismo, como forma de conhecimento que se consolida na dimensão singular da vida, continuam valendo, independentes do suporte e/ou das novas mídias digitais. Os criadores do HuffPost reivindicam para si uma nova natureza da notícia. Alterman resgata o debate: “Um dos aspectos mais significativos na transição dos jornais para o mundo da informação digital diz respeito à própria natureza da notícia” (ALTERMAN, 08/06/2008). O que seria notícia para o Huffington Post? A “senha” para esta nova modalidade de notícia foi conferida, aos criadores do HuffPost, por Rupert Murdoch, antevendo os efeitos que a interatividade do novo meio conferiria à relação entre jornalistas e público. Murdoch, em abril de 2005, na Sociedade Americana de Editores de Jornal, advertia que tinham chegado ao fim os dias em que “as notícias e a informação eram firmemente controladas por uns poucos editores, que decidiam o que podíamos e devíamos saber”. O magnata da mídia dizia que ninguém mais aceitaria essa “figura divina” que apresentava as notícias como quem revela o Evangelho. Os consumidores querem notícias no calor da hora, atualizadas constantemente. Querem um ponto de vista, não apenas sobre o que aconteceu, mas também sobre as razões pelas quais aconteceu. Finalmente, querem poder usar essa informação em comunidades mais vastas – querem discutir, debater, questionar e até mesmo encontrar pessoas que pensam o mundo de modo semelhante ou diverso (ALTERMAN, 08/06/2008).

Para Peretti, Lerer e Huffington (mentores do HuffPost), notícia não é uma coisa que se entrega de cima para baixo, mas algo que é compartilhado entre o produtor e o consumidor. Nas palavras de Alterman (08/06/2008), “a Internet oferece ao editor uma informação imediata 2. Confira: Portais de jornais têm recorde de audiência nos EUA, Comunique-se, acesso em 15/04/2008.

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sobre que matérias interessam aos leitores, suscitam comentários, são enviadas a amigos e geram mais pesquisas nos sites de busca. Um site de notícias, segundo Peretti, tem uma vida que seria impossível à base de papel e tinta”. Ou ainda nas palavras de Lerer, um ex-executivo da América On-Line (AOL), “esse modo de pensar e apresentar a notícia é tão transformador quanto foi a CNN, 30 anos atrás” (ALTERMAN, 08/06/2008). Entre o caos e a confusão aparente, o mundo digital apresenta suas armas... A tese do HuffPost é discutível. A começar pela constatação elementar de que produzir informação jornalística, com extenso trabalho de apuração e investigação, com base na pluralidade máxima de fontes que for compatível, custa caro. Emitir opinião sobre questões de interesse público, mesclando a algumas informações gerais, tem um ônus significativamente menor. Eric Alterman, um jornalista especializado no mercado de mídia, contesta igualmente: A idéia de que o Huffington Post possa competir com (ou substituir) os melhores jornais tradicionais é discutível. As fontes de reportagem original do site são minúsculas. Não há cobertura constante de esportes ou livros, e a seção de entretenimento é um amontoado de fofoca virtual sem nenhum trabalho de investigação (ALTERMAN, 08/06/2008).

Se pensarmos em termos de Brasil, considerando os dados divulgados pelo Comitê Gestor da Internet (CGI), em pesquisa recente sobre o uso de tecnologias da informação e de comunicação (TIC Domicílios 2007), publicada em março de 2008, há outros elementos a serem considerados nessa impossibilidade de canibalismo midiático do meio impresso pelo on-line. Entrevistados 17 mil domicílios, em área urbana, somente 24% teriam computador em casa; apenas 17% possuíam acesso à Internet. Do universo geral pesquisado, 47% nunca haviam utilizaram um computador e outros 59% jamais usaram a Internet nem para despachar um singelo e-mail. Em relação aos outros meios de comunicação, os aparelhos de televisão (aberta) estava em 98% dos domicílios e o rádio em 89%; as antenas parabólicas apareciam em 18% e a TV a cabo chegava aos 7% das residências brasileiras. O telefone fixo cai na de 54% (2005) para 45% (2007); por outro lado, o telefone móvel celular sai na de 61% (2005) para a casa dos 74% em 2007. Ou seja, o retrato do Brasil é um fotograma, em escala micro, do mundo empobrecido que os discursos oficiais agora chamam de “emergentes”. O suporte em si, quase vinte anos após seu advento comercial, ainda caminha a passos muitos lentos rumo à universalização. Reflete, no fundo, as desigualdades emanadas da concentração das riquezas, em escala global. Talvez esse dado, se possível a projeção a outros países “emergentes” e aqueles sequer assim classificados pela taxionomia neoliberal. Nesse mega fluxo informacional, é possível ainda perceber que “a força do jornalismo é estar no fluxo do tempo, e sua fraqueza é estar na superfície do tempo, e seu talento passar de um para o outro”, como vaticinou Wolton (2004, p. 290). Em todo caso, é fundamental reafirmar que “o jornalismo on-line não eliminou os fundamentos do jornalismo escrito. Fatos ainda devem ser checados mais de uma vez, a escrita tem que ser clara e fluida, as matérias devem incluir o contexto e, obviamente, as práticas éticas que norteiam a profissão devem ser seguidas” (Martinez, 2007, p. 27). Alterman (08/06/2008) critica ainda a falta de apuração e checagem no HuffPost, que levou a casos de erros graves de informação. Cita o caso do blogueiro Randall Robinson que postou relatos, durante a crise do furacão Katrina, segundo os quais “havia pessoas comendo cadáveres para sobreviver”. Acionado por Arianna Huffington, Robinson fez um pedido formal de desculpas ao público, porque não tinha como sustentar e “comprovar suas fantasias”. O site comemorou a correção do erro em tempo brevíssimo, mas não evitou que o texto fosse copiado em profusão pelo mundo virtual. O caso talvez se coloque no rol daquilo que Wolton (2004) caracteriza como a “tirania dos acontecimentos”, ou seja, o “assédio midiático de certos acontecimentos ou personalidades em detrimento de aspectos inteiros da realidade que são silenciados” (WOLTON, 2004, p. 290).

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Reproduz-se, em escala mundial no mundo web, a lógica do espetáculo identificada de forma tão pertinente por Guy Debord. Pensar a sincronia entre o meio de papel e seu similar on-line passa pela compatibilização de rotinas produtivas, enquadramentos e limitações organizacionais dos dois suportes e linguagens. Para ficar apenas nos impactos na construção da notícia, podemos comparar alguns elementos na tabela abaixo na qual (1) são elementos de edição e (2) do texto: Mídia impressa

Mídia on-line

Impactos na construção da notícia (texto e edição) (1) Seleção, ordenação, enquadramentos e hierarquização orientados por know-how profissional.

(1) Seleção, ordenação, enquadramentos e hierarquia construídos (em tese) em diálogo imediato com a interatividade.

(1) Gatekeeper como eixo para o agendamento. Diálogo tardio com leitor. O editor como “farol” do conhecimento jornalístico.

(1) Escolhas do gatekeeper dialogam com preferências do leitor (v. Eric Alterman e o Huffington Post). Agendamento do gatekeeper pelo leitor.

(1) Seleção necessária por limite físico

(1) Baixa seleção, em função da virtual ausência de limite em meio eletrônico

(1) Ordenação por categorias editoriais

(1) Ordenação fluida, às vezes por imitação de categorias editoriais tradicionais, às vezes sem isso (como em alguns blogs), às vezes mista (como o uso de tags)

(1) Hierarquização rígida, dada pela distribuição de página (embora subversível pela não-linearidade de toda leitura)

(1) Hierarquização diluída: disputa entre título principal e foto principal; disputas entre títulos secundários; ordenação em lista. Não-linearidade potencializada pela mídia.

(1) Didatismo limitado a recursos gráficos. Custo elevado para produção própria.

(1) Didatismo potencializado por multimídia. Custo compartilhado com remissão a conteúdo alheio.

(2) Compromisso com a “universalidade”

(2) Compromissos com a particularidade: foco no leitor

(2) Gêneros mais estanques: notícia, reportagem, análise, crítica, opinião. Prioridade para informação (e não opinião)

(2) Fusão de gêneros, em parte provocada pela multimidialidade. Presença abundante da opinião: de volta ao proselitismo?

(2) Práticas reiteradas em torno do “texto curto” (em quase todo o Ocidente)

(2) Prioridade para o “texto curto” na forma da notícia. Pluralidade de estilos e extensões nas formas em gestação.

(2) Redundância da informação em xeque: é esse o papel do jornal / da revista?

(2) Redundância da informação reconhecida como mérito.

Fonte: MICK, J. Entrevista ao autor em 23/04/2008.

Há inequívocas complementaridades postas nesta breve comparação, centrada nos impactos na construção da notícia. É possível afirmar, com base nesta categorização, que está posta a necessidade, muito mais que simples perspectiva, de sincronizar e produzir, de forma convergente, as mídias impressa e on-line, em benefício da notícia e da qualidade do jornalismo. Em meio ao fogo cruzado entre os fronts tradicional (impresso) e on-line (ou digital), a possibilidade de convergência é de tal modo crucial que o Instituto Norte-Americano da Imprensa

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chegou ao preciosismo de elaborar um “guia de sobrevivência dos jornais, na era da Internet”. Algumas propostas têm sido comuns: encontrar nichos de mercado, desenvolver produtos e serviços on-line como jornais, guias, redes sociais, comunitárias e projetos wiki (como a Wikipédia) para novos públicos, principalmente os não-leitores. E tudo sem perder o foco principal do negócio, no caso da principal empresa ser a de jornal impresso, buscando sempre desenvolver receitas on-line e impressas que se auto-reforcem.3 Molina (09/09/2008) cita o pesquisador espanhol Javier Errea, que fez um contraponto às previsões apocalípticas de fim do jornal em papel, em recente congresso de empresários do setor. Dentre os “dez mitos” sobre os jornais, segundo Errea, destacamos: (1) Os jornais estão morrendo... Para ele mais um problema de auto-estima de alguns empresários do setor e cita o exemplo de Rupert Murdoch e Carlos Slim (bilionário mexicano que acabava de comprar 6,4% das ações da New York Times Company); (2) Apostar em formatos cada vez menores... Errea diz que isto significa não pensar no leitor; (3) Os jovens não estão interessados nos diários; não lêem... Destaca o alto poder aquisitivo dos jovens e afirma que eles “lêem quando a leitura é atraente”; (4) Os leitores têm o poder... Para Errea, fazer jornal é coisa para jornalistas. O bom jornalismo sempre esteve aberto aos leitores e isto não é uma questão de voto; (5) Diários muito leves, para atrair os jovens... Ele cita os sucessos mundiais da literatura juvenil, como Harry Potter, com centenas de páginas e nenhuma ilustração. O ponto de congruência entre as mídias impressa e on-line está posto na percepção mais apurada do momento histórico pelo qual passamos. Duas visões gerais se alinham nesta perspectiva. Martinez (2007) assim o descreve: Uma nova era, liderada por uma revolução informacional. Uma era pós-industrial, na qual os principais ativos de um mercado financeiro que atua em tempo real 24 horas por dia são a informação e a velocidade com que ela se propaga. Se as duas primeiras revoluções foram baseadas na energia (vapor e eletricidade), a terceira é baseada na informação. Ela pode ser a mola propulsora da sociedade, a forma de organização e planejamento de toda a atividade produtiva (MARTINEZ, 2007, p. 25).

Na mesma direção, Rosental Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas, avalia que “não são tempos de simples evolução tecnológica, mas de mudanças radicais e transformadoras, comparáveis à invenção da imprensa e da revolução industrial” (ROMERO, 09/09/2008). O pesquisador observa ainda que “a Internet é apenas a ponta de enorme iceberg, o primeiro indício de uma grande revolução digital. Neste novo cenário, é preciso reconstruir o jornal para a era digital, pois os modelos de negócios atuais já estão obsoletos” (ROMERO, 09/09/2008). A medida precisa do alcance das novas mídias foi dado no âmbito do segundo seminário internacional sobre jornalismo on-line, o Media On, realizado em São Paulo, no começo de setembro de 2008. Um dos temas destacados foi a internet na eleição presidencial americana, então em curso. O jornalista Francisco Mendez citou dados de pesquisa realizada pelo Pew Research Center, revelando que “24% dos americanos dizem usar a internet como principal meio para obter notícias sobre a campanha” (LINS DA SILVA, 14/09/2008). O número alcançado pela internet estava atrás da TV (com 32%) e dos jornais impressos (com 31%), ainda que superior às porcentagens registradas em 2004 (13%) e 2000 (9%). Lins da Silva incorre em equívoco ao não considerar também o processo de universalização do acesso ao mundo web, ocorrido nos últimos oito anos, tanto em termos tecnológicos (velocidade, hardware e software disponíveis) quanto em número absoluto de cidadãos americanos plugados. No entanto,

3. Confira em: Comunique-se, <www.escoladecomunicacao.com.br>, acesso em 15/04/2008.

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não obstante todo “glamour” e capacidade de sedução, as fontes de informação on-line ainda perdem para a televisão e o jornal de papel. Segundo Mendez, há sites que se tornaram referência obrigatória do público interessado na cobertura da campanha, oferecendo informações bem apuradas, sem compromisso partidário com nenhum dos dois lados em disputa, amparados em boa metodologia de apuração e publicação. Cita os sites www.realclearpolitics.com e www.politico.com como exemplos a serem seguidos. Lins da Silva (14/09/2008) observa ainda que muitos blogs descambaram para o mais explícito sectarismo ideológico e partidário, “sem nenhum compromisso com os fatos”. E pondera: “Será interessante observar o efeito que essa crescente influência da internet terá sobre a maneira como os cidadãos se relacionam com as instituições públicas e entre si na sociedade” (LINS DA SILVA, 14/09/2008). Neste contexto, vale ainda o alerta preciso de Wolton (2004, p. 311): “O desafio do jornalismo não é fazer concorrência com a Internet. Por outro lado, reivindicar o caráter generalista da informação-imprensa, não no nível zero da informação, mas no de uma escolha que remete ao imperativo democrático”. E arremata: “Isso significa reafirmar o papel essencial do jornalista como mediador generalista entre o espetáculo do mundo e o grande público destinatário de seu trabalho”, seja produzindo para o tradicional jornal impresso ou on-line.

Considerações Finais A discussão sobre o futuro da mídia impressa nos leva a uma constatação: estamos no limiar de um mundo de notícias caótico e fraturado, à base de uma informação – não necessariamente jornalística – altamente perecível. Nesta galáxia informacional, incessante e frenética, na visão de Alterman (10/06/2008), há “mais diálogo e menos jornalismo de primeira qualidade”. O jornalista alerta, veemente: “A transformação dos jornais – de empresas dedicadas à reportagem objetiva em feixes de comunidades engajadas com suas próprias ‘notícias’ – significará a perda de uma narrativa nacional em torno de ‘fatos’ consensuais”. Nas páginas dos jornais, há mais que fragmentos do real. Pululam histórias humanas que não seriam contadas em qualquer lugar, basicamente não seriam publicadas se não houvesse uma organização dedicada a tal fim. Em última análise, temas e pautas que jamais fariam parte do nosso consciente social. Eric Alterman sugere um simples teste, que ele experimentou escolhendo uma data ao acaso para avaliar o conteúdo impresso no The New York Times (11/02/2008). Ele relata: “Além das notícias que eu poderia encontrar em qualquer lugar – Obama vencendo Hillary de novo, Bush tentando condenar à morte prisioneiros de Guantánamo – a primeira página do Times trazia matérias sobre a violência étnica no Quênia; um artigo sobre o avanço das universidades americanas no Qatar; ou ainda um estudo da Corporação Rand, em reportagem de Michael Gordon, que criticava a atuação de Bush no Iraque. Diz Alterman (10/06/2008): “A justaposição desses tópicos díspares forma um terreno comum a todos os leitores do jornal e uma imagem do mundo que todos habitam”. Do ponto de vista dos cenários ou estratégias de negócios possíveis, Meyer (2007) vai indicar dois cenários possíveis aos players do setor. Citando os estudos do analista Michael Porter, o jornalista escreve: Cenário 1. Os atuais donos espremem a galinha para manter a lucratividade hoje, sem se preocupar com o longo prazo. Essa é a estratégia “pegue-o-dinheiro-ecorra”. Neste cenário, os donos aumentam os preços e simultaneamente tentam manter sua rota de lucratividade com as técnicas usuais: diminuir espaço editorial, cortar pessoal, reduzir a circulação em áreas remotas ou de baixa renda e menos interessantes para anunciantes, manter baixos salários (MEYER, 2007, p. 49).

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Pode funcionar, por algum tempo, mas tem vida curta. Mas, Meyer vê um segundo cenário, que em termos estratégicos poderia conectar a mídia impressa e a on-line, potencializando ambas: Cenário 2. Os donos atuais – ou seus sucessores – aceitarão a realidade da nova competição, investirão no aprimoramento de produtos que explorem totalmente o poder da mídia impressa e transformarão os jornais em grandes players num mercado de informação que inclui a mídia digital. Isto segue o conselho de Potter: “Em vez de ver o substituto como uma ameaça, é melhor vê-lo como uma oportunidade”. O movimento dos jornais em direção à divulgação de notícias e anúncios pela internet é um bom exemplo, porque explora a experiência do jornal em criar conteúdo num novo meio de divulgação (MEYER, 2007, p. 50).

Neste último cenário, Meyer (2007) prospecta e projeta um futuro possível, no qual possam brilhar as duas mídias. A despeito de todos os fatores culturais e históricos da formação do sentido de nação e identidade social, apontados também por Eric Alterman (citando a obra de Benedict Anderson, “Comunidades Imaginadas”), há algo de precioso que pode constituir um elo, uma perspectiva às duas modalidades de jornalismo aqui discutidas: a prestação de serviços à sociedade, marca que vem colada n’alma da mídia tradicional tipificada nos jornais diários, há mais de trezentos anos. É este resgate, conectado a um esforço absoluto de qualificação de seus produtos, que pode indicar outro caminho possível ao velho e bom jornal de papel. Um horizonte estratégico no qual os diários impressos possam trabalhar sobre o sólido paradigma composto por influência social e credibilidade. Um horizonte balizado também por uma regra essencial do jornalismo, em qualquer suporte tecnológico: procure a verdade e a publique. É fato consumado: sem o paradigma da verdade, como substrato deontológico, nenhuma empresa jornalística conseguiria conquistar alguma influência. Numa perspectiva complementar, Lins da Silva (08/04/2008) indica outra condição de relevância da mídia impressa, que dialoga essencialmente com os conteúdos jornalísticos produzidos para o ambiente digital: “A melhor qualidade da informação e do texto é o grande diferencial competitivo (para usar o jargão mercadológico) que o jornal impresso tem em relação a todos os seus concorrentes. Nem internet, nem blog, nem rádio podem dar ao consumidor essa qualidade superior”.

Referências bibliográficas ALTERMAN, Eric. Out of print: the death and life or the American newspaper. Disponível em www.newyorker.com/reporting/2008/03/31/080331fa_fact_alterman, acessado em 11/04/2008. Tradução disponível in Folha de S. Paulo, Mais, edição 8/06/2008. CHAUÍ, Marilena. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Perseu Abramo, 2006. DORNELES, Carlos. Deus é inocente – a imprensa, não. Rio de Janeiro: Globo, 2002. LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. A sobrevivência dos jornais impressos, 08/04/2008. Disponível em www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=480IMQ003, 08/04/2008. Acessado em 09/04/2008. _____. Internet e eleições. Disponível em www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om1409200802. htm. Acessado em 14/09/2008. LUCENA, Eleonora de. O futuro dos jornais, 0806/2008. Caderno Mais, Folha de S. Paulo. MARTINEZ, Adriana Garcia. A construção da notícia em tempo real. In FERRARI, Pollyana (Org.). Hipertexto, hipermídia: as novas ferramentas da comunicação digital. São Paulo: Contexto, 2007. MARTINO, Luiz C. (org); BERGER, Charles R.; CRAIG, Robert T. Teorias da Comunicação: muitas ou poucas? Cotia, SP: Ateliê, 2007.

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MEYER, Philip. Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era da informação. São Paulo: Contexto, 2007. MOLINA, Matías M. Nunca se leu tanto jornal, 09/09/2008. Disponível em www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=502IMQ004. Acessado 12/09/2008. ROMERO, Vilson Antonio. O “fim” do jornalismo impresso, 09/09/2008. Disponível em www. observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=502IMQ005. Acessado em 09/09/2008. SERVA, Leão. Jornalismo e desinformação. São Paulo: Senac, 2001. WEIS, Luiz. O relógio e o calendário, 20/08/2008. Disponível em www.observatoriodaimprensa.com. br/blogs.asp?id_blog=3&id={A6D722AE-1DC7-4E35-B26F-CA3C44B87197}&data=200804. Acessado em 02/04/2008. _____. A jovem mídia e os mamutes de papel. Disponível em www.observatoriodaimprensa.com. br/blogs.asp?id_blog=3&id={65444610-9E3B-4A55-859D-EF0BF3BC7DC1}&data=200804, acessado 23/04/2008, às 11h30. WOLTON, Dominique. Pensar a comunicação. Brasília: Ed. UnB, 2004. Sites Consultados: Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) – Pesquisa TIC Domicílios 2007, disponível em www. cetic.br, acessado em 8/04/2008. Comunique-se – www.comuniquese.com.br, acessado entre janeiro e agosto de 2008. Observatório da Imprensa (OI) – www.observatoriodaimprensa.com.br, acessado entre janeiro e agosto de 2008. Entrevistas ao Autor: MICK, Jacques. Entrevista ao autor, concedida via e-mail. Florianópolis, 22/04/2008.

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Rastros 10.3  

Segundo artigo da edição 10 da Rastros: O futuro da mídia impressa na sociedade da informação. Texto de Samuel Lima.

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