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Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Maria Érica de Oliveira Lima e Jorge Pedro Sousa*

O massacre dos inocentes: a reacção das newsmagazines portuguesas e brasileiras ao atentado contra a escola de Beslan

Resumo A 1 de Setembro de 2004, terroristas

uma análise quantitativa do discurso. Principal

islâmicos chechenos e árabes, ligados à Al-

conclusão: O trauma alterou os papéis sociais

Qaeda, invadiram uma escola na Ossétia do Nor-

rotineiros do jornalismo, em Portugal e no Bra-

te, Rússia, num ataque planeado com vários

sil. Sem abdicar de uma função informativa, o

meses de antecedência, fazendo 1200 reféns. A

jornalismo também foi veículo de excomunhão e

3 de Setembro, as forças russas atacaram, após

condenação.

uma explosão no interior da escola e de os terroristas terem disparado contra um grupo de crianças fugitivas. Morreram centenas de reféns, incluindo centenas de crianças. A teoria do jornalismo explica que factores como os critérios de noticiabilidade e os enquadramentos levam a que atentados chocantes como esse se tornem

Palavras-chave: Jornalismo de Revistas Terrorismo Islâmico

notícia universal, pelo que este trabalho teve por

Crianças

objectivo descrever como as revistas Veja, Isto

Análise do Discurso

É e Época (Brasil), Visão, Focus e Sábado (Por-

Portugal e Brasil

tugal) reagiram ao acontecimento, através de

*

Maria Érica, Jornalista PUC-Campinas. Mestre e doutoranda em Comunicação Social Umesp e UFP (Porto, Portugal) como bolsista Programa AlBan – da União

Européia. Pesquisadora do Núcleo: “Mídia Local e Regional”, Umesp merical@uol.com.br Jorge Pedro Sousa, doutor em Ciências da Comunicação, professor associado e pesquisador da Universidade Fernando Pessoa, membro do Centro de Investigação Media e Jornalismo (Portugal) e autor de vários livros jpsousa@ufp.pt

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Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

Abstract

1. INTRODUÇÃO A 1 de Setembro de 2004, primeiro dia do novo

On September first of 2004, Arabian and Islamic Chechenian terrorists, linked to Al Qaeda, invaded a school at North Ossetia, Russia, in a several months in advanced planned attack, making 1200 hostages. On September third, Russian forces attacked, after an explosion inside the school and terrorists shots against a children trying to runaway. Hundreds of hostages have died, including hundreds of children. Journalism theory explains that factors as publishing standards and framing lead to shocking attacks like this one become world wide news. This is the reason why this work has as goal to describe, through discourse analysis, how magazines Veja (Brazil) and Visão (Portugal) covered the fact. The main conclusion was: the trauma changed the usual journalism’ social role in Portugal and Brazil. Journalism was also a medium of condemnation and excommunication, without quitting its informative function.

ano escolar, sempre assinalado com celebrações, um grupo de terroristas3 islâmicos, em que se misturavam independentistas chechenos fundamentalistas ligados à al-Qaeda, invadiu uma escola na cidade de Beslan, na República Federada Russa da Ossétia do Norte, fazendo cerca de 1200 reféns, entre os quais muitas crianças, reunidas para festejar o regresso à escola. O ataque foi premeditado e planeado com antecedência, pois se encontraram provas de que os terroristas esconderam armas e explosivos na própria escola, durante obras de remodelação que decorreram em julho. Os reféns enfrentaram duras condições de cativeiro. Sem comida e sem água, as crianças foram obrigadas a beber a própria urina para não se desidratarem. Mulheres e adolescentes foram violadas pelos sequestradores, que armadilharam a escola com explosivos. A 3 de Setembro, pelas 13h (hora local), os terroristas islâmicos dispararam contra um grupo de crianças que tentou escapar, o que motivou a intervenção descoordenada e não planeada das forças russas e das milícias armadas formadas por familiares dos sequestrados.

Palavras-chave:

Ouviram-se, então, duas fortes explosões, e o tecto do ginásio, onde estavam concentrados os reféns, ruiu.

Magazine’s Journalism

Os sequestradores começaram também a disparar

Islamic Terrorism

indiscriminadamente sobre os reféns. Ainda hoje não se

Children Discourse Analyses Portugal and Brazil

sabe exactamente quantas pessoas morreram em Beslan, quer por causa da queda do tecto e das execuções dos reféns perpetradas pelos terroristas islâmicos, quer por causa da troca de tiros durante a intervenção das forças russas. Há estimativas que apontam para mais de 500

3 Embora autores como Rubenstein (1987) argumentem que classificar um acto como “terrorismo” e os seus perpetradores como “terroristas” já envolva juízos de valor, parecenos que a expressão é suficientemente comum para poder ser usada correntemente numa análise do discurso, até porque o conceito de terrorismo já foi definido pela ONU. Aliás,

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quer o uso de “perpetradores” quer o uso de “terroristas” mobilizam uma carga ideológica e cultural, sendo que a expressão “perpetrador” talvez obscureça ainda mais a orientação ideológica e cultural do discurso. Em suma, a um falante é impossível fugir dos constrangimentos e das consequências de utilização da língua.


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

vítimas mortais, entre as quais três centenas de crian-

ma análise procuraria testar várias hipóteses, sustenta-

ças. A notícia do sucedido rapidamente correu o mundo.

das pela teoria do jornalismo, e responder às perguntas

Assim, este trabalho tem por objectivo analisar a forma

de investigação que delas emergiram:

como as principais revistas semanais de informação generalista, de dois países lusófonos, reagiram ao acon-

Hipótese 1:

tecimento, tentando detectar semelhanças e diferenças

O elevado grau de noticiabilidade do aten-

na cobertura. Face ao objectivo equacionado para a presente pesquisa, elegeu-se a análise de conteúdo como méto-

tado, decorrente da confluência de vários critérios de noticiabilidade e outros factores, relevaram o atentado entre a informação.

do, até porque outras análises de conteúdo sobre a co-

Pergunta de pesquisa 1:

bertura de acções terroristas proporcionaram resulta-

Qual foi a relevância informativa concedida ao

dos relevantes, como Rudloff (2003), Zaharopoulos

atentado?

(2004), Atwater (1991), Wittebols (1992), Weimann

Variáveis:

(1985), Simmons (1991) e Picard e Adams (1991), que

Quantidade de informação (número de matérias

descobriram que, ao cobrirem o terrorismo, os meios

e espaço ocupado em cm2) e quantidade de chamadas

jornalísticos enquadram o jornalismo pelo prisma dos

noticiosas à primeira página (n.º de chamadas e espaço

valores dominantes da sociedade.

ocupado em cm2).

Para a componente quantitativa da análise, utili-

Categorias de análise do discurso:

zou-se como unidade a matéria individual que referisse

Matérias sobre o atentado:

directa ou indirectamente o atentado. A informação foi,

Matérias que referenciam o atentado, mesmo que

assim, classificada em número de matérias e em cm2

o seu tema central seja outro.

(arredondados às unidades) por várias categorias defi-

Matérias internacionais:

nidas a priori, conforme é habitual neste tipo de pesqui-

Matérias que registam acontecimentos fora de

sa (cf. Marques de Melo et. al., 1999: 4; cf. Marques de

Portugal ou do Brasil, consoante as revistas.

Melo, 1972). No caso particular das fontes, a informação foi categorizada por número de referências às fontes e número de frases citadas. Assim, as variáveis dependentes do presente estudo foram, simultaneamente, as

Chamadas sobre o atentado à primeira página: Títulos e outras referências ao atentado nas primeiras páginas das revistas analisadas.

matérias sobre o atentado, medidas nominalmente e por nível de razão (em cm2), e as referências às fontes e

Hipótese 2:

frases citadas.

A brutalidade do atentado centralizou a co-

A definição das categorias para a análise de con-

bertura no próprio evento, embora o papel tradi-

teúdo foi feita tomando em consideração que essa mes-

cional da imprensa escrita de referência como pro

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vedora de análises e informação mais extensa

chechenos e para a Chechénia. Matérias contextuais so-

tenha temperado as notícias duras com matérias

bre a al-Qaeda e a guerrilha chechena, mesmo que não

de contexto e argumentação.

refiram o atentado.

Pergunta de pesquisa 2:

Consequências para a comunicação social:

Quais as macro-temáticas predominantes na in-

Relatos de acções de censura e repressão sobre

formação sobre o atentado?

a comunicação social. Atentados contra a liberdade de

Variáveis:

imprensa ligados à cobertura do atentado e da guerra

Quantidade de informação sobre o atentado (nú-

na Chechénia.

mero de matérias e espaço ocupado em cm2), em fun-

Autores do atentado:

ção dos temas centrais das matérias.

Matérias sobre a guerrilha chechena, as ligações

Categorias de análise do discurso:

da mesma à al-Qaeda, as motivações dos terroristas,

Atentado:

etc. Dados sobre outros atentados e acções dos terroris-

Notícias “duras” sobre como aconteceu o atenta-

tas chechenos e da al-Qaeda.

do, como se processaram os socorros, como se aplica-

Voz editorial e argumentação em geral:

ram as medidas de segurança, sobre as acções imedia-

Matérias argumentativas, opinativas e analíticas

tas do Governo Russo e demais autoridades, etc. Englo-

sobre o atentado. Incluíram-se nesta categoria os edito-

baram-se ainda nesta categoria os testemunhos pesso-

riais e as colunas de opinião e análise. Temáticas mistas:

ais. Reacções institucionais e pessoais/reacções verbais: Notícias sobre o que foi dito pelas autoridades representativas da Rússia, de outros países e de organi-

Matérias que poderiam ser classificadas em várias das categorias anteriores, por abordarem várias das temáticas atrás definidas sem que uma delas constitua o tema central.

zações internacionais a propósito do atentado. Colunas

Outros assuntos:

de reacções verbais ao atentado.

Todas as matérias que referenciam o atentado e

Contexto, consequências e repercussões:

cujo tema central não cabe nas categorias anteriores.

Matérias documentais ou de outra natureza cuja preocupação central é apresentar dados susceptíveis de

Hipótese 3:

levar os leitores a inserir melhor o atentado na conjun-

O carácter brutal do atentado promoveu a

tura internacional, na história, etc. Matérias sobre as consequências do atentado para a economia (bolsas,

Pergunta de pesquisa 3:

mercados, câmbios, investimentos, etc.), para a vida

Quais os géneros textuais usados para a cobertu-

política russa e internacional e para o combate ao terrorismo (segurança e defesa). Consequências para os

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informação noticiosa.

ra do atentado? Variáveis:


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Quantidade de informação sobre o atentado (nú-

mento, por outro, impuseram o recurso equilibra-

mero de matérias e espaço ocupado em cm2), em fun-

do a fontes portuguesas (revistas portuguesas),

ção dos géneros textuais.

brasileiras (revistas brasileiras), russas e

Categorias de análise do discurso:

chechenas.

Matérias predominantemente noticiosas (notícias, reportagens, etc.): Relatos essencialmente noticiosos (descritivos,

Hipótese 5: As fontes oficiais são dominantes.

narrativos e com citações) sobre o acontecimento, comportando informação nova e actual. Colunas de reacções

Pergunta de pesquisa 4:

verbais. Infográficos noticiosos. Entrevistas. Matérias

Quais são as fontes presentes nas matérias sobre

predominantemente documentais: matérias jornalísticas que funcionam como background informativo e documen-

o atentado? Variáveis:

tal para notícias, reportagens, entrevistas, etc. Infográficos de contextualização da informação.

Presença das fontes nas matérias (excluindo o produtor do texto), em número de referências e frases

Matérias predominantemente

citadas. (As citações indirectas, como, por exemplo, um

argumentativas ou analíticas (editorial, coluna, co-

jornal que cita uma declaração de terceiros retirada de

mentário, artigo, etc.):

outro jornal, foram contabilizadas em função da fonte

Matérias que, regra geral, surgem espacialmente

inicial.)

bem delimitadas, apresentam um conteúdo

Categorias de análise do discurso A:

argumentativo, analítico ou opinativo e são assinadas.

Brasileiros:

Geralmente, são matérias que não trazem informação

Fontes brasileiras, unipessoais ou colectivas. Ins-

nova, antes se debruçam sobre dados conhecidos, que

tituições e organizações brasileiras.

servem de base à interpretação e argumentação.

Portugueses:

Reacções pessoais e impressionistas ao atentado, mes-

Fontes portuguesas, unipessoais ou colectivas.

mo quando a preocupação não é eminentemente

Instituições e organizações portuguesas.

argumentativa. Incluem-se nesta categoria os cartoons

Russas:

jornalísticos.

Fontes russas, unipessoais ou colectivas. Institui-

Outra tipologia: Matérias que não cabem nas categorias anteriores.

ções e organizações russas. Inclui pessoas e instituições da Ossétia do Norte. Chechénia:

Hipótese 4: A facilidade de acesso, por um

Fontes chechenas, unipessoais ou colectivas. Ins-

lado, e a necessidade de saber o que se passava

tituições e organizações chechenas. Exclui os

e de referenciar a “visão local” sobre o aconteci-

perpetradores do atentado e os fundamentalistas

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Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

islâmicos independentistas. Autores do atentado e al-Qaeda:

Autores do atentado e al-Qaeda e seus apoiantes:

Perpetradores do atentado, terroristas chechenos e al-Qaeda. Fontes internacionais:

Perpetradores do atentado; fontes ligadas à alQaeda. Apoiantes do terrorismo islâmico e dos independentistas chechenos.

Representantes e altos funcionários das Nações

Especialistas e comentadores:

Unidas e de outras organizações internacionais; Nações

Pessoas que, embora não representem uma ins-

Unidas e organizações internacionais enquanto pessoas

tituição ou organização, são citadas como especialistas

colectivas.

nos assuntos em causa. Inclui jornalistas e oficiais das

Fontes ocidentais em geral:

forças armadas e de segurança funcionando como

Fontes dos países da Europa, com exclusão dos

comentadores e especialistas.

países predominantemente islâmicos (Turquia, Bósnia,

Religiosos:

Albânia), de Portugal, do Brasil e da Rússia. Fontes de

Fontes religiosas representativas.

países ocidentais, como os Estados Unidos, o Canadá, a

Fontes jornalísticas:

Austrália, a Argentina ou a Nova Zelândia. Inclui o

Jornalistas ou órgãos jornalísticos que dão infor-

Vaticano. Fontes de países islâmicos:

mação a outros jornalistas ou órgãos jornalísticos, excepto quando figuram noutra qualidade.

Fontes pertencentes a países onde o Islão é a re-

Populares:

ligião do estado ou a países oficialmente laicos, mas em

Fontes populares não incluídas nas categorias

que o islamismo é dominante, como a Turquia, a Albânia

anteriores, especialmente feridos e testemunhas quan-

ou mesmo a Bósnia.

do não englobados noutras categorias mais apropria-

Outras nacionalidades:

das. Funcionários não representantes das suas institui-

Fontes de nacionalidades não referenciadas an-

ções.

teriormente. Indeterminadas ou anónimas:

Outras fontes e fontes anónimas: Fontes não incluídas nas categorias anteriores.

Fontes cuja nacionalidade é impossível de determinar pela análise do discurso.

Fontes anónimas.

Categorias de análise do discurso B:

Sequestrados:

Fontes “oficiais”:

Reféns que contaram a sua experiência.

Instituições nacionais ou internacionais. Políticos,

Crianças:

diplomatas e altos funcionários. Representantes de orga-

Crianças como fontes.

nizações e instituições. Representantes das forças armadas, dos bombeiros e outros agentes da protecção civil.

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Hipótese 6: As fotografias jornalísticas re-


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

forçaram os enunciados verbais.

Foram, assim, analisadas quantitativamente as

Pergunta de pesquisa 5:

primeiras edições das revistas brasileiras Veja (8 de

Quais os enquadramentos temáticos das fotogra-

Setembro), Isto É (8 de Setembro) e Época (6 de Se-

fias jornalísticas sobre o atentado e que relação se pode

tembro) e das revistas portuguesas Visão (9 de Setem-

estabelecer, caso exista, entre os enquadramentos

bro), Focus (8 de Setembro) e Sábado (10 de Setem-

temáticos e o tamanho das fotos?

bro) logo após o atentado. Embora para efeitos de

Pergunta de pesquisa 6:

quantificação do destaque dado ao atentado se tenham

Quais as personagens nas fotografias?

analisado globalmente os números das publicações atrás

Variáveis:

referidas, o objecto de estudo específico resumiu-se às

Quantidade de foto-informação sobre o atentado 2

(número de fotos e espaço ocupado em cm ), em função

matérias que referenciaram directa ou indirectamente o atentado.

do conteúdo, tamanho das fotos, em função do conteúdo; personagens presentes nas fotografias.

As matérias foram classificadas pelos dois pesquisadores, sendo que a aferição de fiabilidade

Categorias de análise do discurso:

intercodificadores foi, em todos os casos necessários,

Mortos e luto:

feita em função do conjunto de matérias codificadas.

Fotografias de mortos no atentado e de pessoas a chorarem as vítimas.

Os dados das primeiras páginas foram contabilizados em separado, pelo que todos os dados

Atentado e socorros:

abaixo que não mencionem o facto de se tratarem de

Fotografias do local do atentado e das forças de

dados recolhidos das primeiras páginas devem ser con-

segurança em acção. Socorros às vítimas. Terroristas:

siderados como dados provenientes do corpo das revistas.

Fotografias de terroristas islâmicos. Políticos:

2. RESULTADOS

Fotografias cujo tema central é a representação de políticos e/ou das suas actividades.

A análise quantitativa do discurso permitiu obser-

Outros atentados:

var que as revistas tiveram comportamentos algo dife-

Fotos de outros atentados, recuperadas com fins

renciados menos dependentes da nacionalidade do que

de enquadramento. Outros conteúdos:

das linhas editoriais das revistas, conforme se constata pelos dados expostos abaixo.

Fotografias com outros conteúdos. Fotografias com conteúdos não relacionáveis com o atentado, presentes

Quadro 1

em matérias que referiam este acontecimento.

Destaque dado ao atentado nas primeiras páginas

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Total de chamadas informativas Chamadas sobre o atentado % chamadas sobre o atentado Espaço informativo total (cm2) Espaço dedicado ao atentado (cm2) % espaço dedicado ao atentado (cm2)

70

Veja 1 1 100 538 538 100

Época 1 0 0 530 0 0

As revistas que deram mais atenção ao atentado nas

importância de um acontecimento e a gravidade de uma

primeiras páginas foram a Veja e a Visão, que podem consi-

crise, então é visível que o atentado foi socialmente comu-

derar-se revistas irmanadas na linha editorial, e ainda a Focus.

nicado através das três revistas como sendo uma crise

Pode também dizer-se que as revistas portuguesas deram,

grave, provavelmente por estabelecer um novo patamar

no geral, mais destaque ao atentado do que as brasileiras, já

no terror e na conceptualização do desvio às normas (cul-

que todas as portuguesas “puxaram” o assunto à primeira

turais) de convivência social: a violência maciça contra cri-

página, ao contrário das brasileiras, embora na Sábado o as-

anças. Os brasileiros e portugueses leitores dessas revis-

sunto tivesse tido uma importância residual.

tas (sendo a Veja a revista generalista de maior circulação

Assim, pode dizer-se que, ao contrário do que su-

no Brasil e a Visão a news magazine de maior circulação

cedeu nas outras revistas, o atentado mobilizou a atenção

em Portugal) consumiram, assim, mensagens formalmente

informativa da Veja, da Visão e da Focus. A Veja dedicou-

similares. Porém, simbolicamente o atentado foi desvalo-

lhe a totalidade da primeira página, a Visão cedeu-lhe quase

rizado pelas restantes revistas. A Sábado reservou a “um”

93% da superfície da “um” e a Focus usou 69,3% da pri-

para uma matéria sobre o casamento, a Isto É para um

meira página para evocar o atentado. Por um lado, os

herói brasileiro das Olimpíadas e a Época (“gémea” da

resultados mostram que para as três revistas e para os

Focus) para outro tema soft, o da “sorte”. Para essas re-

seus jornalistas o atentado constituiu o assunto mais im-

vistas, editorialmente o terror será menos compensador,

portante da actualidade, possivelmente devido à

como opção editorial, do que matérias ligadas ao lado “po-

transnacionalidade e transorganizacionalidade dos critérios

sitivo” da vida. No seu segmento de mercado, o enfoque

de noticiabilidade, que no caso da Veja e da Visão resul-

positivo venderá mais.

tam de linhas editoriais semelhantes; por outro lado, se

Quadro 2

os meios têm a capacidade de definir simbolicamente a

Destaque dado ao atentado no corpo das revistas


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Quanto ao espaço dedicado ao atentado no corpo das revistas, estas podem separar-se em três grupos: por um lado, a Visão e a Veja, que fizeram uma ampla cobertura do atentado, apontando para a elevada importância simbólica do acontecimento; por outro, as restantes revistas brasileiras; finalmente, a Sábado e a Focus, situadas num ponto intermédio no que respeita ao destaque dado ao atentado. No conjunto, pode também dizer-se que as revistas portuguesas falaram mais do atentado do que as brasileiras, quer por eventuais razões de proximidade geográfica, quer porque, hipoteticamente, o terrorismo afecta mais os europeus do que os brasileiros, pese, embora, o comportamento dissonante da Veja no quadro das revistas brasileiras. Os dados do quadro 2 também permitem dizer que as revistas portuguesas tendem a fragmentar mais a informação (mais matérias com menos superfície) do

Quadro 3

que as brasileiras, o que indiciará diferenças editoriais

Destaque dado ao atentado no contexto da infor-

resultantes da nacionalidade.

mação internacional

Matérias internacionais Matérias sobre o atentado % matérias sobre o atentado Espaço informativo internacional (cm2)

Espaço dedicado ao atentado (cm2) % espaço dedicado ao atentado (cm2)

Veja 23 4 17,4 18 375

Época 17 1 5,9 13 250

8 592 46,8

1 590 12 Os dados do quadro 3 permitem reforçar os do quadro 1, pois em todas as revistas, com exclusão da Época (provavelmente por força da linha editorial desta última revista), o atentado foi tema forte no âmbito da informação internacional (com destaque para a Veja, a Visão, a Focus e a Sábado), dada a sua forte noticiabilidade. Assim, simbolicamente, as revistas anun-

71


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

ciaram aos leitores lusófonos que o atentado merecia a atenção internacional, tendo em conta o desvio à “normalidade” que esse acontecimento encerrou.

Quadro 4 Temáticas da cobertura do atentado

Veja

Atentado Reacções verbais Contexto, consequências e repercussões Consequências para a comunicação social Autores do atentado Voz editorial e argumentação em geral Temáticas mistas Outros assuntos

Atentado Reacções verbais Contexto, consequências e repercussões Consequências para a comunicação social Autores do atentado Voz editorial e argumentação em geral Temáticas mistas Outros assuntos

72

%

50 0

Espaço (cm2) 6 440 0

2

50

2 152

25

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0 0

0 0

0 0

0 0

N.º matérias 1 0

%

1

50

179

8,4

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0 0

0 0

0 0

0 0

N.º matérias 2 0

%

Isto É Espaço (cm2) 1 941 50 0 0

75 0

% 91,6 0


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Atentado Reacções verbais Contexto, consequências e repercussões Consequências para a comunicação social Autores do atentado Voz editorial e argumentação em geral Temáticas mistas Outros assuntos

N.º matérias 1 0

Época Espaço (cm2) 1 590 100 0 0 %

% 100 0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0 0

0 0

0 0

0 0

Pi= 1

As revistas apresentam algumas semelhanças na

ce ser recorrente entre os seres humanos e,

centralidade informativa concedida ao atentado em si (O

consequentemente, entre os meios jornalísticos, confor-

que ocorreu? Como ocorreu?). Tal facto correlacionar-

me se descortina pela cobertura de vários atentados

se-á com o grau de choque que o acontecimento provo-

(Sousa, 2004; Sousa, 2004 b).

cou nas sociedades portuguesa e brasileira. Os jornalis-

As revistas que mais fragmentaram a cobertura

tas de Portugal e do Brasil, antes de mais, vivem no seio

do acontecimento, Visão e Focus, aproveitaram para

das respectivas sociedades e culturas (de matriz ociden-

caracterizar, com intenções contextuais, os assassinos

tal), pelo que terão percepcionado o atentado como um

nacionalistas chechenos e fundamentalistas islâmicos que

acontecimento profundamente desviante em relação às

perpetraram o acto (resposta a “quem?”). A Visão é a

normas vigentes em ambas as sociedades. O choque e a

única que relembra a política do Kremlin de restrição à

comoção terão levado as revistas a relembrarem os even-

liberdade (real) de imprensa no caso do conflito checheno,

tos e fazerem o luto, conforme pretende Herman (1992:

por vezes por meios obscuros e enviusados. Tendo em

15).

conta os valores jornalísticos, como o apego à liberdade O segundo vector de cobertura em todas as revis-

tas (com excepção da Época, que só fala do que aconte-

de expressão e de informação, seria de esperar que as restantes revistas individualizassem esse tema.

ceu e como aconteceu) recaiu na resposta a “por quê?”,

Há que referir, por outro lado, que as revistas por-

o que significou explorar o contexto da situação. Ter uma

tuguesas resistiram mais do que as brasileiras a mistu-

explicação para acontecimentos traumáticos e violentos,

rar argumentação e a expressão da revolta com os con-

inclusivamente por motivos de segurança pessoal, pare-

teúdos noticiosos. É por isso que nas revistas portugue-

73


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

sas há matérias classificadas em “Voz editorial e argu-

Ao contrário do sucedido com jornais diários na

mentação em geral” e nas brasileiras não. Nas revistas

cobertura de atentados (Sousa, 2004; Sousa, 2004 b),

brasileiras, a “voz editorial” e a “argumentação” insinu-

as revistas, com excepção da Focus, não incluíram ma-

am-se no relato noticioso, que passa a adquirir caracte-

térias de reacções verbais ao acontecimento, o que evi-

rísticas mistas noticioso-argumentativas. Em suma, as

dencia as diferenças nas rotinas profissionais entre diá-

revistas brasileiras denotaram, nesse particular, uma mais

rios e revistas semanais, que apresentam formas dife-

vincada latinidade na cobertura, enquanto as portugue-

rentes de reagir ao inesperado e, até certo ponto, de o

sas procuraram seguir mais a via de separação entre

rotinizar.

notícia e comentário, aberta pelo jornalismo noticioso anglo-saxónico.

Quadro 5 Géneros textuais usados na cobertura do atentado

Veja

Matérias noticiosas e/ou documentais Matérias argumentativas ou analíticas

Matérias noticiosas Matérias argumentativas ou analíticas

N.º matérias 4

0

N.º matérias 1 0

100

Espaço (cm2) 8 592

100

0

0

0

%

Época Espaço (cm2) 1 590 100 0 0 %

%

% 100 0

Pi= 1 As matérias noticiosas são predominantes em todas revistas. O elevado grau de desvio do acontecimento em relação ao que é visto como sendo normal em sociedades de matriz cultural essencialmente ocidental,

74


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

como a portuguesa e a brasileira, aliado à surpresa e ao

Quadro 6

choque, poderá constituir o conjunto de razões que esti-

Nacionalidade das fontes usadas na cobertura do

veram na base do fenómeno. Houve que recordar o que

atentado

aconteceu e como aconteceu para, posteriormente, se

(ver próxima página)

fazer o luto. Houve que recordar o que aconteceu e como aconteceu para, só depois, se buscarem explicações para o acontecimento.

Conforme é visível pelo quadro 6, as revistas tiveram um comportamento dissonante no que respeita à

De qualquer modo, a predominância das matérias

utilização de fontes, sendo, no geral, as revistas portu-

noticiosas está também relacionada com o principal

guesas mais polifónicas do que as brasileiras. As revis-

papel do jornalismo em sociedade: informar. Recorde-

tas procuraram também (com exclusão da Isto É) ofere-

se, por exemplo, o argumento de autoridade de Michael

cer aos leitores uma visão autóctone do acontecimento,

Schudson (2002: 43), para quem o jornalismo que

citando fontes locais russas e ossetas, o que ajuda a

descura a informação não tem condições para sobrevi-

credibilizar e a certificar a informação. Por outro lado, é

ver. A essa explicação pode acrescentar-se a interpreta-

de destacar que as revistas não seguiram o caminho

ção de Traquina (2001: 98), na linha de Tuchman (1978),

mais fácil e rotineiro, que seria recorrer, essencialmen-

segundo a qual o jornalismo se direcciona para os acon-

te, a fontes nacionais, devido à facilidade de acesso.

tecimentos em detrimento das problemáticas devido ao

Ao indiciar o caminho e o esforço do jornalista na

valor do imediatismo e à “definição de jornalismo como

pesquisa de informação (as notícias dão pistas do traba-

relatos actuais sobre acontecimentos actuais”. O factor

lho jornalístico), a citação de fontes relevantes também

tempo (Schlesinger, 1977), o papel da cronomentalidade

significa uma aposta na qualidade do produto jornalístico.

na cultura jornalística (Schudson, 1986 a; Schudson, 1986 b), o ciclo temporal diário de produção rotineira de informação, que culmina no fecho (Traquina, 2001), as expectativas da audiência (Sousa, 2000) são factores que também contribuirão para esse direccionamento do processo jornalístico para os acontecimentos e não para as problemáticas e, por consequência, para a informação noticiosa em detrimento de outros tipos de informação.

75


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

Quadro 6 Nacionalidade das fontes usadas na cobertura do atentado

Veja

Brasileira Portuguesa Russa (e osseta) Chechena Internacionais Mundo Ocidental Países islâmicos Outras Indeterminadas

76

N.º de referências 0 0 1 0 1 0 0 0 0

%

N.º de frases

0 0 50 0 50 0 0 0 0

0 0 1 0 1 0 0 0 0


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Quadro 7 Tipologia das fontes usadas na cobertura do atentado

Veja N.º% N.º de de referências referências Fontes “oficiais”0 0 0 Fontes “oficiais” 0 0 Autores doAutores do 0 atentado eatentado e apoiantes apoiantes Especialistas e1 2 50 Especialistas e comentadores comentadores 0 0 ReligiososReligiosos 0 Fontes jornalísticas 0 50 Fontes jornalísticas 1 0 0 PopularesPopulares 0 Outras 0 0 Outras fontes e fontes e 0 fontes anónimas fontes anónimas 0 0 Crianças Crianças 0 0 Sequestrados 0 Sequestrados 0

Isto É N.º% de % N.º de frases frases

%

00 00

00 00

0 0

100 1

650

100

00 01 00 00

00 050 00 00

0 0 0 0

00 00

00 00

0 0

77


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

Fontes “oficiais” Autores do atentado e apoiantes Especialistas e comentadores Religiosos Fontes jornalísticas Populares Outras fontes e fontes anónimas Crianças Sequestrados

78

Época N.º de % frases

N.º de referências 1 0

20 0

1 0

14,3 0

4

80

6

85,7

0 0 0 0

0 0 0 0

0 0 0 0

0 0 0 0

0 0

0 0

0 0

0 0

%

Se bem que a teoria do jornalismo aponte para o

as interacções sociais que este gera têm lugar. De qual-

tendencial predomínio de fontes “oficiais” nas notícias, a

quer maneira, é de realçar que, embora eventualmente

cobertura do atentado pelas revistas foi marcada por

carentes de informação, as revistas não caíram na ten-

uma certa polifonia, em especial nas revistas portugue-

tação fácil e rotineira de auscultar unicamente as “fon-

sas Focus e Visão. As fontes “oficiais” apenas são maio-

tes oficiais”, designadamente os detentores de poder po-

ria relativa na revista portuguesa Focus.

lítico, sobre o acontecimento, indiciando que, pelo me-

É de referir que a Visão e a Focus citam seques-

nos em ocasiões de crise e choque, a rotinização do ines-

trados, sendo que a Focus cita, inclusivamente, crianças

perado faz-se também numa lógica de fuga aos canais

sequestradas, o que funcionou como um tocante mani-

de rotina dominantes e habituais. Ou seja, em condições

festo de condenação dos terroristas e do terrorismo pe-

de choque e trauma, os populares podem ser rotineira-

las suas próprias vítimas. Esta opção permitiu ganhos de

mente citados, como vítimas ou testemunhas.

autenticidade e vivacidade na cobertura e de realismo

De realçar que as crianças, vítimas principais de

no relato. Desse modo, torna-se notório que as condi-

um acto terrorista inconcebível no quadro da civilização

ções de acesso às fontes, por meios directos ou

ocidental (onde a violência contra as crianças pode ser

indirectos, condicionam a qualidade (e a polifonia) da

vista como a última fronteira do terror e da barbárie), só

cobertura, sendo que o acesso às fontes depende da

tiveram voz na Focus, embora esta circunstância tam-

existência e das condições de actuação de jornalistas no

bém possa ter decorrido de preocupações éticas dos jor-

espaço do acontecimento, que podemos definir como o

nalistas, que procuraram não molestar as crianças e

espaço físico, social e temporal onde o acontecimento e

protegê-las na sua dor e sofrimento.


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Destaque ainda para o facto de a Visão e a Focus

assinalar e destacar os enunciados verbais, pode dizer-

terem referido os terroristas, mas em duas perspecti-

se que a cobertura que as revistas fizeram do atentado

vas. A Visão acentua a sua crueldade; a Focus para evo-

foi enfática, no sentido de que as imagens contribuíram

car, em viva voz, as atrocidades cometidas pelos russos

para reforçar, simultaneamente, a importância do acon-

na Chechénia.

tecimento e da cobertura. As fotografias, facultando o direito a ver, permitiram também um maior

Quadro 8

entranhamento e compreensão do choque e do terror,

Relevância da informação visual sobre o atentad

mostrando as circunstâncias do sequestro e do ataque

Veja Espaço ocupado por informação visual 4 643

% do espaço dedicado ao atentado ocupado por informação visual 54

Isto É % do espaço dedicado ao atentado ocupado por informação visual 999Época 47,1 Espaço ocupado por Esp % do espaço dedicado inf informação visual ao atentado ocupado por informação visual 703 44,2 Espaço ocupado por informação visual

Esp inf

Esp inf

Os dados do quadro 8 evidenciam que as revistas

aos terroristas, as feições aterrorizadas das crianças, a

brasileiras e a Focus Veja foram mais gráficas e visuais

dor profunda das mães que encontravam os seus meni-

do que a Visão e a Sábado na cobertura do atentado,

nos e meninas mortos e das pessoas que choravam e

por eventuais razões de linha editorial e design. No en-

lamentavam a perda dos seus entes mais queridos e

tanto, pode dizer-se que todas as revistas aproveitaram

inocentes.

a informação visual, designadamente infográficos e fo-

Registre-se que é de colocar a hipótese de a per-

tografias jornalísticas, enquanto modalidades discursivas

centagem de espaço concedida por algumas revistas à

próprias e identitárias do jornalismo impresso, já que as

cobertura visual do acontecimento possa decorrer tam-

imagens aportam informação e facilitam a compreensão

bém da ausência de informação relevante para o texto,

(Sousa, 1998). Além disso, como as imagens tendem a

o que é enfatizado pelo facto de algumas das revistas

79


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

(por exemplo, a Veja) terem mesclado mais a informação com a argumentação, por causa do choque.

jornalismo impresso. É de referir, tal como é identitário das revistas generalistas de informação geral, que todas as fotografi-

Quadro 9

as inseridas são coloridas (mais icónicas e realistas), com

Tipo de informação visual

excepção de uma pequena imagem de arquivo de outro

Em articulação com os dados do quadro 8, o qua-

atentado, captada por uma câmara de segurança,

dro 9 mostra que todas as revistas privilegiaram a foto-

publicada na Visão. Porém, algumas das fotografias são

grafia entre os dispositivos de informação visual, embo-

fotografias coloridas de fotografias a preto-e-branco, o

ra tenham recorrido também aos infográficos. Pode con-

que, para além de apelar à ideia de sobriedade e luto,

cluir-se que a existência de imagens fortes, a capacida-

provoca uma certa sensação de estranheza.

de que a fotografia tem de fazer do leitor uma testemunha indirecta dos acontecimentos, facultando o direito a ver, e o elevado potencial de dramatização visual do acontecimento geraram o predomínio da fotografia entre os dispositivos de informação visual, como é corrente no

80


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Quadro 10 Conteúdos da foto-informação sobre o atentado (tema principal das fotos)

Veja

Mortos e luto Atentado e socorros Terroristas Políticos Outros atentados (arquivo) Outros conteúdos Fotos em que crianças feridas, mortas ou assustadas são tema

Mortos e luto Atentado e socorros Terroristas Políticos Outros atentados (arquivo) Outros conteúdos Fotos em que crianças feridas, mortas ou assustadas são tema

N.º de fotos 1 11

5,5 61,1

Espaço (cm2) 530 2 822

12,1 64,3

1 1 4

5,5 5,5 22,2

252 226 563

5,7 5,1 12,8

0

0

0

0

9

50

2 090

47,6

N.º de fotos 1 4

%

Isto É Espaço (cm2) 22 16,7 608 66,7 %

%

% 2,5 69,4

0 0 0

0 0 0

0 0 0

0 0 0

1

16,7

246

28,1

4

66,7

608

69,4

81


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

Mortos e luto Atentado e socorros Terroristas Políticos Outros atentados (arquivo) Outros conteúdos Fotos em que crianças feridas, mortas ou assustadas são tema

N.º de fotos 1 3

Época Espaço (cm2) 156 11,1 310 33,3 %

% 28,2 56,1

2 0 2

22,2 0 22,2

22 0 51

4 0 9,2

1

11,1

14

2,5

3

33,3

320

57,9

Pi = 1

O elevado grau de dramatismo visual das fotos do

do valor testemunhal das fortes imagens fotográficas do

atentado e dos mortos e do luto por eles colocou-as no

acontecimento e das vítimas e traumas que este causou.

centro da cobertura em todas as revistas, conforme se

Foi, desse modo, valorizado o evento em si mesmo, os

observa pelo quadro 10. As crianças, assustadas ou

socorros, os feridos, os mortos, em detrimento de ou-

mesmo mortas e feridas, centralizam, aliás, a cobertura

tros enquadramentos.

visual do atentado em todas as revistas, emprestando-

De destacar, porém, a recuperação de informa-

lhe carga dramática e contribuindo, certamente, para

ção visual sobre outros atentados, o que contribui, a par

chocar, horrorizar e revoltar os leitores.

do texto, para enquadrar o ataque contra as crianças de

As fotografias fixaram as expressões das crian-

Beslan na longa lista de atentados dos terroristas

ças assustadas, as feições marcadas pela dor, os mortos

chechenos e dos fundamentalistas islâmicos, bem como,

em sacos de plástico (incluindo crianças), as crianças

simultaneamente, para o enquadrar na lista dos actos

cheias de sangue, a angústia dos socorristas com crian-

de violência contra crianças. Esses enquadramentos vi-

ças inconscientes, quiçá mortas, ao colo, a mão

suais, que reforçam, ademais, os enquadramentos tex-

ensanguentada de uma criança morta segurando ainda

tuais, agravam simbolicamente a culpa dos terroristas,

uma pequena cruz (apelando à ideia de oposição do Cris-

ao mesmo tempo que cria alvos visuais de condenação e

tianismo das vítimas contra o Islão dos algozes)... Pode,

excomunhão, cuja identificação é reforçada pela inclu-

assim, dizer-se que todas as revistas aproveitaram, es-

são, em ambas as revistas, de fotografias de terroristas

sencialmente, fotografias relacionadas com o atentado

islâmicos.

em si e as suas consequências mortais, optando por fruir

82

Finalmente, é de salientar que o elevado grau de


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

choque suscitado pelas imagens poderá ter contribuído para fomentar sensações de insegurança, incompreensão

Quadro 11

e estupefacção entre os leitores.

Dimensão das fotos e enquadramento temático

Veja N.º de fotos de tamanho superior a meia página 1 5

5,5 27,8

0 6

0 33,3

1 1 1 0

5,5 5,5 5,5 0

0 0 3 0

0 0 16,7 0

6

33,3

Mortos e luto Atentado e socorros Terroristas Políticos Outros atentados Outros conteúdos Fotos em que crianças feridas, mortas ou assustadas são N.º tema de fotos de tamanho superior a meia página Mortos e luto 0 Atentado e 1 socorros Terroristas 0 Políticos 0 Outros atentados 0 Outros conteúdos 0 Fotos em que 1 crianças feridas, mortas ou assustadas são tema

3

%

16,7 Isto É N.º de fotos de tamanho % inferior a meia página

N.º de fotos de tamanho inferior a meia página

%

%

0 16,7

1 3

16,7 50

0 0 0 0

0 0 0 1

0 0 0 16,7

16,7

3

50

83


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

A informação sistematizada no quadro 11 reforça

anças-vítimas são tema pode contribuir para chocar e

as ideias atrás apresentadas de que, na totalidade das

sensibilizar o leitor. Mas essas imagens concorrem tam-

revistas, a cobertura se centrou no atentado em si, nos

bém, certamente, para a (re)construção e visualização

socorros e nos mortos e feridos. A Focus, a Sábado e,

mental do arquétipo da criança-vítima, que, com a figu-

em menor grau, a Veja acentuam mais as consequências

ra do terrorista islâmico checheno, constituem os dois

do atentado (os mortos e o luto), enquanto as restantes

arquétipos mais solidamente construídos e projectados

enfatizam mais o atentado em si e os socorros. Neste

por todas as revistas analisadas.

particular, o factor nacionalidade não aparenta ser relevante para destrinçar as revistas, mostrando que o jornalismo, no mundo ocidental, comunga várias opções editoriais, devido, hipoteticamente, aos valores comuns que estruturam a civilização ocidental e que cimentam a comunidade jornalística. O elevado número de fotografias em que as cri-

84


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

Quadro 12 Personagens nas fotos sobre o atentado Veja

Mortos Feridos Sequestrados Populares Terroristas Políticos Socorristas, soldados, milicianos e agentes das forças de segurança Outras Crianças mortas, feridas, assustadas e sequestradas

N.º de aparições 22 27 24 25 1 1

15,9 19,6 17,4 18,1 0,7 0,7

38

27,5

0 31*

0 22,5

%

Isto É N.º de aparições Mortos 0 Feridos 5 Sequestrados 3 Populares 15 Época Terroristas 0 N.º Políticos 0 de aparições Socorristas, soldados, Mortos milicianos e agentes das forças 0 9 Feridos de segurança 2 Sequestrados Outras 0 0 Populares 21 Crianças mortas, feridas, 5 Terroristas 2 assustadas e sequestradas Políticos 0 Socorristas, soldados, milicianos e agentes das forças 4 de segurança Outras 1 Crianças mortas, feridas, 4 assustadas e sequestradas

%

% 0 6,7 0 70 6,7 0

0 15,6 9,4 46,9 0 0 28,1 0 15,6

13,3 3,3 13,3

*Grande parte dos mortos está dentro de sacos pretos, o que impede verificar se são crianças.

85


Rastros - Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação

Consolidando interpretações já explicitadas ante-

a) O factor nacionalidade raramente é relevante

riormente, os dados do quadro 12 reforçam a ideia de

para explicar as diferenças e semelhanças no comporta-

que a informação fotográfica das revistas se orientou

mento editorial das revistas, pois, na generalidade os

para as vítimas, ficando os outros autores do aconteci-

casos não podem dissociar-se as revistas em dois gru-

mento, designadamente os terroristas, relativamente na

pos diferentes de acordo com a nacionalidade. As cir-

bruma. Outros agentes do espaço público informativo,

cunstâncias mercadológicas e profissionais (aparente-

em especial os detentores do poder político, também

mente transorganizacionais e transnacionais) influenci-

foram algo ignorados, mostrando que, pelo menos em

arão mais o posicionamento editorial de cada órgão de

ocasiões de choque, nem sempre os jornalistas se ape-

comunicação do que o factor nacionalidade.

gam às rotinas que intensificam a presença das “fontes

b) O elevado grau de valor-notícia do atentado foi

oficiais” nas notícias, incluindo nas foto-notícias. Por um

suficiente para relevar a sua cobertura no conjunto do

lado, há sempre espaços de fuga aos canais de rotina

noticiário, pelo que pode aceitar-se a primeira hipótese.

dominantes; por outro lado, também pode ser conside-

c) A cobertura centrou-se nos acontecimentos que

rada como rotina produtiva a tentativa de obter fotogra-

compuseram o macro-acontecimento “atentado” (acon-

fias do que aconteceu e das suas consequências. Afinal,

tecimento, autores, reacções...), mas as revistas estu-

informar, visualmente, significa, antes de mais, mostrar

dadas providenciaram também algumas matérias

o que aconteceu, fazer do leitor testemunha, ainda que

argumentativas e contextuais (com excepção da Época),

testemunha indirecta.

pelo que a segunda hipótese pode aceitar-se, embora

Mortos, feridos e sequestrados do atentado de

com algumas reservas.

Beslan e de outros atentados (no caso das fotografias de

d) A informação noticiosa foi predominante, ape-

arquivo recuperadas com novo enquadramento) consti-

sar de as revistas incluírem também matérias

tuem, com excepção da Focus, a maioria das persona-

argumentativas e analíticas. Assim, a terceira hipótese

gens presentes nas fotos, sendo as revistas portuguesas

pode aceitar-se, tendo o relato centrado-se mais no acon-

Visão e a Sábado particularmente foto-necrófilas. Os

tecimento do que nas problemáticas.

populares, muitos deles angustiados pela dor, são outro

e) No que respeita à citação de fontes, as revistas

grupo omnipresente na cobertura, que se orientou, soli-

podem dividir-se em dois grupos em função da naciona-

dariamente, para quem mais perdeu e sofreu. Socorristas,

lidade, já que as portuguesas são mais polifónicas. O

soldados e outros intervenientes no resgate surgem pouco

“tempo de antena” dado às vítimas e populares reforça

nas imagens, devido às opções editoriais seguidas.

a sensação de autenticidade da cobertura. De realçar, também, em todas as revistas, a fuga às rotinas domi-

3. CONCLUSÕES

86

nantes, patente na libertação da tirania da auscultação

Tendo em conta os dados da análise quantitativa

das “fontes oficiais”, designadamente dos detentores do

anteriormente apresentados, pode concluir-se o seguinte:

poder político, normalmente sempre ouvidos nestas oca-


Ano VI - Nº 6 - Outubro 2005

siões. A rotinização do inesperado fez-se auscultando,

consequências do atentado. Consequentemente, as re-

em primeiro lugar, quem sofreu.

vistas deram também ao leitor a oportunidade de se co-

f) Todas as revistas recorreram estruturalmente

mover com o cenário e participar na condenação e

à informação visual, fotográfica e infográfica, evidenci-

excomunhão dos perpetradores do acto. Porém, visto de

ando que a infografia tem já um lugar cativo e estruturante

outro prisma, a espectacularidade das fotos e de alguns

no jornalismo impresso. As fotografias tiveram, em to-

textos e a sua centralização na criança-vítima, social e

das as publicações, o papel de reforço dos enunciados

culturalmente determinada, contribuem também para as

verbais, já que deram ao leitor a hipótese de (re)ver em

notícias venderem, pois neste aspecto, tragicamente, as

imagens fixas as vítimas (em particular as crianças), os

“melhores vítimas” são as crianças.

esforços para as salvar, o sofrimento dos vivos e demais

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Rastros 06.07  

O massacre dos inocentes: a reaccao das newsmagazine portuguesas e brasileiras ao atentado contra a escola de Beslan

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