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Mídia e política de identidade: a malha de comunicação local-internacional nas fronteiras brasileiras Ada Cristina Machado da Silveira1 Aliandra Raquel L. Barlete2 Leandro Stevens3 Lindamir E. Adamczuk4 Micheli Seibt5

Resumo

O artigo sintetiza resultados de um estudo aprofundado sobre as terras de fronteira do Brasil Meridional. A malha de comunicação aí construída tem por objetivo fixar a identidade cultural e suas características se concentram em articular a relação local-internacional e manifestar seu caráter polifônico. Analisam-se as características constitutivas da malha e os aspectos inerentes à especial relação entre os níveis local e global nas terras de fronteira. A perspectiva da globalização exige propor uma política de identidade que atente para o papel da mídia na relação de sociedades próximas territorialmente e que se encontram separadas pelo Estado-nação. Palavras-chave: mídia, discurso, identidade, terras de fronteira, globalização.

Abstract

The paper synthesizes results of a deepened study on Meridional Brazil´s border-lands. The communicational mesh there built has as goal to fixate the cultural identity and its characteristics concentrate in the articulation of the local-global relationship and the manifestation of its poliphonic character. We analyze the constituve characteristics from the mesh and the inherented issues to the special relationship between local and global levels in borderlands. The globalization demands a proposition of the identity policy and atends to the rol of media in the relationship with territorial neighboors separeted by the nation-state. Keywords: media, discourse, identity, borderlands, globalization.

1. É doutora em jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona. Professora dos programas de pós-graduação em Comunicação e de Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Líder do grupo de pesquisa Comunicação, identidades e fronteiras. Dentre suas principais publicações está o livro “O espírito da cavalaria e suas representações midiáticas”. Ijuí: Unijuí, 2003. e-mail: ada.machado@ pq.cnpq.br. 2. É bolsista do Programa Erasmus da Comunidade Européia. Relações Públicas formada pela UFSM, foi bolsista Pibic-CNPq no projeto Terras de Fronteira. 3. É bacharel em publicidade e propaganda pela UFSM. Intercambista em Londres, foi bolsista Pibic-CNPq no projeto Terras de Fronteira. 4. É relações públicas e historiadora pela UFSM. Foi bolsista BIC-Fapergs no projeto Terras de Fronteira. 5. É jornalista formada pela UFSM. Foi bolsista Probic-Fapergs no projeto Terras de Fronteira.

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Introdução A fronteira está igualmente na abertura e no fechamento. É na fronteira que tomam lugar a distinção e a ligação com o ambiente. Todas as fronteiras, incluindo as membranas dos seres vivos e as fronteiras das nações, são, ao mesmo tempo, barreiras, lugares de comunicação e intercâmbio. Elas são lugares de dissociação e associação, de separação e articulação. Edgar Morin

O artigo sintetiza resultados de um estudo aprofundado sobre as terras de fronteira do Brasil Meridional, especialmente o que denominamos de malha de comunicação local-internacional. Construída com o objetivo de fixar a identidade cultural, ela articula a relação comunicacional entre os espaços local e internacional6. Analisamos as características constitutivas da malha e sua especial relação com a globalização, a qual se apresenta como inerente aos territórios fronteiriços. A perspectiva da globalização aponta a necessidade de propor uma política de identidade que atente para o papel da mídia neste contexto. Se eventos como comemorações, efemérides, datas alusivas a episódios considerados notáveis permitem refundar, atualizar identidades, enquanto símbolos do poder do Estado eles concedem resplendor a sua existência. Sua celebração por via da repercussão midiática projeta o alinhamento das forças civis, militares e eclesiásticas em relação aos agentes estatais. Apesar disso, ou em paralelo a tal, os habitantes dos territórios de fronteira, ao mesmo tempo em que são membros de instituições políticas, constroem redes de relações informais que competem com o Estado. Embora muitas das atividades que engajam as redes informais e grupos da sociedade civil de vínculo débil possam parecer que, à primeira vista, não detêm função política ou não tenham as políticas de Estado em consideração, sem dúvida, muitas delas as têm, ou quando agem ilegalmente e burlam normas ou se aproveitam dos vazios de poder que o Estado usualmente experimenta nos territórios de fronteira. Para o caso dos sul-brasileiros, o processo de integração nacional ocorreu justamente quando eles estavam atravessando um variado e acelerado processo de modernização, reconsiderando sua inserção num Estado federado composto por milhares de imigrantes e seus descendentes em condições de multiculturalismo7. É assim que a efetiva afirmação da identidade de uma sociedade em oposição a outras exige recursos que também podem concentrar-se na repetição das proposições performativas, as quais consistem na necessária enunciação de algo útil na consecução do resultado que enunciam. Algumas descrições reforçam a identidade no universo de significados ao invocar uma série de características e proporcionam transparecer a posição do enunciador com relação ao “outro”, reforçando-se a relação que García Canclini (1995)propõe referente às tensões entre globalização e interculturalidade. O autor as concebe como uma relação entre épica e melodrama. Em nosso caso, a épica da colonização corresponde tanto aos relatos da mitologia bandeirante quanto ao das campanhas militares no Cone Sul, onde o gauchismo construiu sua metanarrativa da brasilidade. Na condição de periferia e precariamente comunicado com a centralidade do Império, o sul do Brasil cultivou os seus laços econômico-culturais postos pela contigüidade territorial da bacia platino-uruguaia. Como não poderia ser de outra forma, seus sistemas de comunicação desenvol6. O nível local está compreendido pelos grandes municípios constituintes da faixa de fronteira brasileira como Pelotas, Bagé, Uruguaiana, São Borja, dentre outros. Eles possuem relações históricas, culturais e econômicas de profunda significação através de continuados vínculos com o Uruguai e a Argentina, articulando assim o nível local ao internacional. Para maiores detalhes, veja-se a nota 8 7. O cadinho cultural do sul do Brasil registra a presença de descendentes de cristãos, judeus, ciganos e muçulmanos de várias procedências. Há origens vênetas, friulanas, trentinas, lombardas, napolitanas, francesas, austríacas, suíças, polonesas, alemãs, assim como russos brancos provenientes da Lituânia e Estônia, e tantos outros que vieram a somar-se aos colonizadores europeus da Península Ibérica, africanos escravizados e aborígines marginalizados. Além deles há os jordanianos, libaneses, sírios e outros, identificados genericamente por “turcos” devido a que sua origem árabe os fazia portar um passaporte emitido pelo poder imperial da Turquia.

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veram-se muito afeiçoados às práticas platinas. A precoce consolidação do jornalismo impresso, a indústria editorial e a profusão de emissoras radiofônicas concederam um perfil próprio às práticas de comunicação do que denominamos terras de fronteira (TF) do Brasil Meridional; isto veio a implicar na definição de padrões de qualidade próprios e inerentes à sua discursividade midiática, terreno fértil que veio a conceder a primazia de seu território na implementação dos canais de televisão comunitária no amplo movimento cultural dos anos 60 do século passado.

A malha de comunicação local-internacional A malha de comunicação local-internacional das TF pode ser entendida como uma membrana que separa, recebe e transmite vibrações. Ela pretende expressar a autocompreensão de uma sociedade mediada por sua relação a um Estado-nação e polarizada por uma lealdade cruzada claramente em dois níveis: o político, responsável por sua vinculação ao Brasil; e o cultural, compreendido pelo pertencimento histórico à conformação do espaço platino. Sua condição fronteiriça lhe determina uma cotidianidade permeada pelas relações de poder das nações circunvizinhas e guiada por sua pertença irrecusável a uma delas. Trata-se de um circuito composto de canais e/ou agentes interligados segundo o princípio unificador de atividades midiáticas que, de outra forma, estariam dispersas em centenas de práticas atuantes no nível local — o território fronteiriço —, com sentidas repercussões no nível internacional, a saber, o espaço colindante dos Estados-nação do Cone Sul. Assim compreendida, a malha envolve a estrutura permanente de canais e/ou agentes variados e os processos comunicacionais deles decorrentes. Fazem-se reconhecíveis dois objetivos na malha de comunicação local-internacional. O primeiro deles seria o de fixar a vigência da expressão em língua portuguesa nos confins meridionais do Brasil e, subsidiariamente, estaria o de captar e registrar discursivamente as ações da sociedade fronteiriça. Ou seja, a dinâmica interna determina que a estrutura seja ao mesmo tempo compatível com a ordem heterônoma e com a sociedade civil local, enquanto sua projeção externa exibe marcas de distinção ao padrão internacional, embora este lhe seja muito próximo fisicamente. Adamczuk e Silveira (2004) estudaram como a programação de quatro emissoras radiofônicas sofreu os reflexos da implantação de medidas como a doutrina de segurança nacional e sua apropriação dos territórios de fronteira. No governo ditatorial de Getúlio Vargas, a região de fronteira configurou-se num espaço especial. Como área de segurança nacional, ela estaria à mercê do perigo de penetração de ideologias e de ocorrência de invasões que pusessem a nação em risco, ressaltando-se o papel da mídia no processo de homogeneização cultural e, no caso específico das emissoras de rádio, desenvolvendo-se numa mescla entre o ideal nacional e a idiossincrasia inerente a qualquer espaço local. Foi assim que, no espaço intersticial do tecido social afetado pela intervenção desta malha, cristalizaram-se diversos processos no decorrer da consolidação de processos midiáticos. Conteúdos e práticas se construíram de forma maleável, flexível, de forma a responder a demandas definidas pela interpenetração de fronteiras internacionais. A mídia teve que se adequar à rigidez da estrutura burocrática do Estado-nação, exercitando uma elasticidade de enfoques e conteúdos. Os sucessivos elos que configuraram a malha de comunicação, quando analisada em sua discursividade, contemplam a produção de sentido orientada pela ação da sociedade civil organizada em veículos de comunicação localizados na estremadura de municípios contextualizados pelo Estado federado e enquadrados no marco próprio ao Estado-nação. Considera-se ademais que este último é localmente percebido como o limite de um sistema político em permanente confronto com outros sistemas políticos externos, quais sejam as demais nações do Cone Sul. Como síntese que reflete as instâncias representativas da nação no nível local, pois sua discursividade midiática envolve o consentimento de vários órgãos federais determinantes das políticas de comunicação, sobre ela convergem, ademais, os interesses do Estado nacional no que respeita as suas relações internacionais. A relação dialética entre a atividade de comunicação realizada em

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íntimo compromisso com o nível local e aqueles interesses identificados como internacionais faculta a convergência de posições inerentes à geopolítica.

As mídias da malha: rádio, TV, jornal e sítios eletrônicos A malha de comunicação pode ser entendida como um sistema articulador de mídias, uma rede de comunicação aberta e sensível à diferença e à irredutibilidade de suas vozes aos agentes estruturais precisamente por necessitar afirmar uma identidade permanentemente posta à prova, como fruto das pugnas de distintos Estados-nação. Sua análise nos aponta resultados dentre os quais ressaltam três fenômenos: a. A condição “territorialista” e independente das emissoras radiofônicas; b. O pioneiro surgimento de emissoras televisivas locais nos anos 60-70 e sua posterior vinculação a redes regionais/nacionais; c. Aspectos de uma concepção globalizada vigente na mídia impressa. As emissoras radiofônicas lançam mão da riqueza histórica das TF para adequar sua denominação. É o caso da Rádio Sepé Tiaraju, de Santo Ângelo (homenagem ao índio Guarani que deixou resquícios de sua bravura em quase toda a região de fronteira). Termos indígenas também são comuns nos nomes de fantasia (Rádio Nonoai, Rádio Aratiba, Rádio Erechim). Verificando mais a fundo, percebe-se que as rádios tomam a designação de um topônimo correspondente, o qual, via de regra, foi palco de uma batalha histórica. Este aspeto também justifica a anterioridade de sua designação em Guarani. E é desta forma que a denominação das emissoras registra um marcado caráter territorialista. Já a sua programação — especialmente das emissoras AM — revela uma proposta de caráter regional, marcando a limitação da presença dos níveis nacional e internacional à emissão musical. Em municípios fronteiriços como Uruguaiana, Pelotas, Bagé e Santa Maria, no Rio Grande do Sul, registrou-se o caso das emissoras televisivas que participaram dos primórdios da articulação da programação de uma cabeça-de-rede com a programação regional e local. Os casos fornecem uma perspectiva de análise privilegiada a partir dos quais é possível avaliar perdas e ganhos na trajetória de uma emissora comunitária. Junto ao exemplo da TV Imembuí, de Santa Maria, eles trazem à análise a concessão de canais televisivos expressamente a grupos locais do interior brasileiro. No caso da relação entre Rede Globo e RBS TV, por exemplo, a programação regional com espaços para produções locais ocupa 14% da grade de programação. Este espaço pode ser maior na emissora local vinculada à Rede Record. Da análise dos jornais ressalta-se a tendência de que sua denominação utilize termos comuns no Brasil e estrangeiro como “Diário de...”, “Folha...”, “Jornal...”, “Gazeta...”. De outro lado, é possível perceber que as notícias e reportagens são, geralmente, locais ou regionais; sendo que há abordagem de temas de caráter nacional e internacional, principalmente nos artigos, nos editoriais, nas charges e nos textos de colunistas. Além disso, a adoção do linguajar considerado tipicamente gaúcho, ao atuar como uma prática lingüística peculiar, é um aspecto empregado na nomeação de algumas colunas, em especial, naquelas referentes a questões do tradicionalismo cultural. Em meio a este panorama, apresentam-se algumas iniciativas tímidas no ciberespaço, dando conta de algumas tentativas de registro da relação internacional. É o caso das cidades de Artigas (Uruguai) e Quaraí (Brasil). A cidade uruguaia possuía três endereços eletrônicos de acesso: www.artigasweb.com, www.artigas.org e www.artigas.info. O sítio era atualizado e mantido pelo grupo uruguaio Arttec, de Artigas, através da processadora de dados Netcenter. Entretanto, o sítio Artigas en la web possui um link à página brasileira Quaraí na web (www.quarai.com), a qual é mantida pela mesma processadora. Durante o mês de abril de 2003 a empresa Netcenter completou um ano e comemorou a data com a emissão online do sinal das chamadas Emisoras del Norte, ou seja, as seis rádios da fronteira Artigas–Quaraí: Viva FM, Frontera FM, Frontera AM, Cuareim AM (Artigas);

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Salamanca FM e Quaraí AM (Quaraí). No sítio, as emissoras que possuem endereço eletrônico têm seu nome sublinhado, como indicação. A sentença “Festejamos conectando a la frontera!!!” encerra a apresentação das rádios. Num outro exemplo de imersão no universo globalizado, o jogo de lançamentos internacionais da cantora Shakira, por exemplo, mostra-se oportuno porque suas versões em espanhol são veiculadas pela emissora uruguaia ao mesmo tempo em que a emissora brasileira promove o lançamento da versão em inglês.

O local e o global em terras de fronteira A colonização brasileira começou pela costa litorânea e teve uma periferia particular dentro da ordem colonial. Foram consagrados neste processo de afirmação do que é o “centro” da nacionalidade e o que é sua “periferia” alguns territórios nos quais se desenvolveu um imaginário de façanhas e barbaridades. O estado do Rio Grande do Sul, neste contraste, era considerado um desses espaços de exclusão. Comentava-se nas décadas de 40–50 do século passado que sua sociedade seria de uma complexidade de tão difícil apreensão que uma solução adequada seria iniciar-se uma guerra contra a Argentina e, frente à iminência de uma derrota, o Brasil entregar seu estado sulista àquele país. Especulações à parte e havendo superado internamente no Brasil contemporâneo sua condição de “espaço de exclusão”, as fronteiras são desconhecidas das populações metropolitanas. Iára R. Castello (1995) afirma que a fronteira meridional do Brasil concentra relativamente quase o dobro da densidade média das demais áreas fronteiriças brasileiras como um todo. Das dez nações com as quais o Brasil possui limites territoriais, o estado sulista confina-se com duas — Argentina e Uruguai — e a história de suas fronteiras condensa parte significativa de suas próprias histórias nacionais. Culturalmente, as fronteiras podem ser entendidas como membranas através das quais as pessoas, bens e informações podem circular, podendo ser aceitas ou não pelo Estado. Na definição dos antropólogos Thomas M. Wilson e Hastings Donnan (1998, p. 5), “as fronteiras são registros espaço-temporais das relações entre comunidades locais e entre estados”. Apoiando-se em diversos outros autores, Wilson e Donnan distinguem três elementos constitutivos da noção de fronteira: a linha limítrofe, a qual simultaneamente permite separar e unir os Estados-nação; as estruturas físicas do Estado que visam demarcar e proteger tal linha de fronteira, composta de pessoas e estruturas enraizadas profundamente no território nacional; e as zonas territoriais, cujas variadas dimensões alargam a partir e através de fronteiras, dentro das quais as pessoas negociam uma variedade de comportamentos e significados associados a sua pertença a nações e estados. À diferença das metafóricas fronteiras de identidade, usuais na descrição de aspectos da sociedade pós-moderna, as “terras de fronteira” seriam territórios in natura, com realizações políticas e sociais inerentes aos modernos Estados-nação e até anteriores a eles. Tal conjunto de elementos permite compreender a condição fluida e indefinida das borderlands, enfatizando seu hibridismo potencial pela incapacidade de conciliar as contradições que sua sociedade encerra. Ignorar o papel das sociedades de fronteira na construção de uma “identidade nacional” não parece ser uma exclusividade da situação brasileira. Autores como Peter Sahlins (1998, p. 32) têm acentuado a novidade da questão até mesmo para nações de ampla tradição democrática, como a Inglaterra e a França, onde o papel das sociedades fronteiriças não recebeu ainda a devida atenção. Desta maneira, nos dedicamos a levantar no material disponível as estratégias discursivas que contribuíram e continuam a atuar no cumprimento da ordem heterônoma em benefício do Estado-nação, bem como as que lhe fazem frente. O hibridismo seria responsável pela adjunção de materiais estranhos, tecendo uma malha de comunicação heterogênea e heterovalente, desconhecida e por vezes irreconhecível ou indiscernível por outras sociedades. Foi desta maneira que a comunica-

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ção em seus territórios criou a relação entre os níveis local e internacional. Para estabelecer as bases de como esse processo se desenvolve, fez-se necessária uma digressão. A partir da segunda metade do século XX, as TF do Brasil Meridional, deslocadas em cerca de dois mil quilômetros do eixo Rio de Janeiro–São Paulo, por ser berço de origem de lideranças do Partido Trabalhista Brasileiro e de alguns dos generais, assessores e base parlamentar dos governos militares, tiveram parte de sua atividade descaracterizada pela força que um tal vínculo proporcionava8. No entanto, é importante saber que, contradizendo o largo processo rumo à centralização ora observada, a imprensa e o sistema de rádio conseguiram manter um forte caráter regional, eles que sempre tornaram possível e se instituíram em sustentáculo da discursividade de distintas vozes nos discursos das identidades regionais brasileiras. No caso da programação televisão, observamos o fenômeno na programação, a qual mescla o global, o nacional, o regional e o local, confirmando o fenômeno do glocalismo, no qual global e local convergem tentando atender a todos os segmentos. Porém, o segmento local permanece prejudicado já que predominam as produções das “emissoras-mãe” das redes nacionais. Em que pesem muitas ressalvas, a globalização reavivou a idéia de local. E percebemos que, na dinâmica televisiva atual, as redes nacionais procuram atender à diversidade da audiência, enquanto suas afiliadas locais investem na regionalização de conteúdos como forma de conquistar a credibilidade da comunidade. A RBS TV Santa Maria, bem como as demais emissoras fronteiriças, trabalha com um padrão de programação que envolve três níveis: nacional (Rede Globo como cabeça-de-rede), regional (produção gerada para todo o Estado a partir da RBS TV Porto Alegre como cabeça-de-rede) e local (Santa Maria e região com mais de um milhão de espectadores). Elas o fazem desde sua fundação e temos que ressaltar que esse padrão demanda de uma planilha rigidamente planejada em seus horários previstos tanto para os conteúdos jornalísticos e de ficção quanto para a publicidade. Assim, a inserção dos blocos de produção local costuma ser reservada ao tratamento jornalístico, além de inserções publicitárias de anunciantes locais.

Mídia e política de identidade A malha de comunicação local-internacional faz-se produto de uma época de incerteza e de insegurança, especialmente da emergente falta de sentido da unidade nacional num mundo marcado por guerras fratricidas. Suas vozes condensam experiências profundamente singulares e visões de mundo contrapostas. Ocupadas em cruzar o Atlântico e destruir as formas estabelecidas pelo Velho Mundo, elas carregam consigo os grandes problemas de nossa época, que são vigentes em nível global, e lhe concedem um sentido próprio, fundando a unidade de uma malha de comunicação e concedendo-lhe seu caráter inconfundível. Desta maneira observamos no material levantado aquelas estratégias discursivas que contribuíram e continuam a atuar no cumprimento da ordem heterônoma em benefício do Estadonação e as que lhe fazem frente. O hibridismo seria responsável pela adjunção de materiais estranhos, tecendo uma malha de comunicação heterogênea e heterovalente, desconhecida e por vezes irreconhecível ou indiscernível por outras sociedades. A proposta que se recolhe desta experiência e que pode dar suporte teórico a outras sociedades fronteiriças da ampla linha de fronteira brasileira é a de uma postura dialógica, um método de convivência comunicacional. Segundo a ação da mídia, a produção de narrativas sobre a identidade a partir das diferentes vozes tende a fazer-se útil e pública. E é dessa forma que a malha de comunicação local-internacional poderá converter-se numa ponte que permita um salto sobre o vazio

8. No primeiro caso, temos os presidentes Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola e, no segundo, militares que ou nasceram na fronteira ou ali exerceram parte de sua atuação, como Arthur da Costa e Silva, Emilio G. Medici, Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, dentre outros.

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determinado por forças e agentes que já não respondem pelas demandas presentes na vida fronteiriça e que conhecem com a globalização um grande desafio: o de atualizar sua existência ou, então, desaparecer simbolicamente, subsumidos no caos que outrora se reservava aos espaços limítrofes. A variedade de algumas experiências sincrônicas e o reconhecimento atribuído a algumas produções de êxito permite, no entanto, apontar para a construção de uma nova comunidade de comunicação. Seu valor é aproveitado pelos núcleos de produção audiovisual, especialmente de ficção televisiva, os quais recorrem ao legado cultural regional em busca de uma matéria sólida de representação. Cabe, assim, à sociedade periférica encontrar nesta alternativa uma dupla possibilidade: considerá-la como forma de adentrar no império através de seus mitos de origem e lendas, símbolos e, especialmente, dos “heróis de fronteira”, ou fazê-los personagens de seus próprios relatos. E é desta última alternativa que as práticas da malha de comunicação local-internacional podem vir a ocupar-se com êxito, promovendo os seus próprios heróis transfronteiriços, confrontando versões e expondo sua diversidade de perspectivas.

Referências bibliográficas ADAMCZUK, Lindamir E.; SILVEIRA, Ada Cristina M. da. Hibridismo, censura e nacionalismo: a produção radiofônica nas Terras de Fronteira (1937-45). Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. v. XXIV, n.2, 2004. p. 115-130. CASTELLO, I. R.; HAUSEN, E. C.; LEHNEN, A. C. et al. (orgs.). Práticas de integração nas fronteiras: temas para o Mercosul. Porto Alegre: EDUFRGS/Instituto Goethe/ICBA, 1995. GARCÍA CANCLINI, N. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. _____ . A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2003. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, Censo Demográfico, 2000. SAHLINS, P. State formation and national identity in the Catalan Borders during the eighteenth and nineteenth centuries. In: WILSON, T. M e DONNAN, H. (ed.). Border identity: nation and state at international frontiers. Cambridge (RU): Cambridge University, 1998. p. 31-61. WILSON, Thomas M.; DONNAN, Hastings (ed.). Border identity: nation and state at international frontiers. Cambridge (RU): Cambridge University, 1998.

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