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N

CACI REVISTA DO CAARQ, CABIBLIO E CAMU

F

Jan/ Abr 2012

ANO 2, n 1

FACULDADE DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO - FCI

EDITORIAL Henrique Sertão

INTERNACIONAL El tiempo que vivi em brasília

DOSSIER Livros e bibliotecas

ARTES E LETRAS Teoria da arte, crítica, livros e leituras

VARIEDADES Cinema, história, arquivos

SPEAKER’S CORNER Do movimento estudantil paralisado


Foto: César Roberto

Alunos do curos de biblioteconomia da FCI

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA - UNB FACULDADE DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO - FCI NÚCLEO DE EDITORAÇÃO E COMUNICAÇÃO - NEC DIRETORA DA FCI

Elmira Simeão

CENTROS ACADÊMICOS DA FCI

CABIBLIO, CAARQ, CAMU

NÚCLEO DE EDITORAÇÃO E COMUNICAÇÃO - FCI PROJETO GRÁFICO

Claudia Neves Lopes ESTAGIÁRIOS Amanda das Graças Silva André Luiz rabelo

CONSELHO EDITORIAL

César Roberto, Henrique Sertão, Nayla Ramalho, Elmira Simeão, Claudia Lopes

CAPA Projeto Claudia Lopes

Criação Equiepe NEC

André Luiz Rabelo, César Roberto de Souza, Claudia Neves Lopes, Elmira Simeão, Henrique Sertão,Julia Barros Venâncio,Luiz Henrique Ferreira, Mariana Lopes Brito, Ricardo

Fotos Nayla Ramalho

CONTATOS: NÚCLEO DE EDITORAÇÃOE COMUNICAÇÃO - NEC/ FCI

Campus Universitário Darci Ribeiro Brasília - DF Asa Norte 70.000.000 55 - 61- 3107-2643 - nec.fci@unb.br


Olá queridxs Estamos contentes em poder escrever este segundo editorial, pois é sinal que nossa tentativa, antes vista como utópica, está cada vez mais perto de inserir-se no cotidiano do fazer e agir estudantil, pelo menos da FCI. As atividades da Revista CACINF seguem neste segundo fascículo. Agradecemos a todas as manifestações de carinho e apoio que este projeto coletivo tem recebido. Dos abismos profundos da incredulidade dxs que diziam que não daria certo, nos colocamos um pouquinho acima dos vales, ou melhor, escalamos. Como kalangos (KõKá), abrimos vias nos paredões para indicar caminhos possíveis. 4

No final da subida nos deparamos com um visual paradisíaco: a chapada; maravilhosa em suas formações, cachoeiras cristalinas, canelasde-ema queimadas, muito sol e de noite um cosmos infinito com chuvas de estrelas-cadentes, isto quando a lua cheia não reinava. Pois é, uma bela viagem. Quando voltamos, ao final do semestre, já havíamos mudado muito. Conhecemos pessoas que iam para o mesmo lugar e hoje nos ajudam. Eduardo Galeano, em um vídeo que fala sobre utopia, nos coloca a imagem de uma utopia sendo o próprio horizonte, se damos onze passos em direção a ela, ela se afasta onze passos e para todas as pessoas ela se encontra equidistante, ou infinitamente distante o que dá no mesmo. (assistam http://www.youtube.com/ watch?v=m-pgHlB8QdQ).

Nesta edição, verão uma defesa da biblioteca pública relacionada à noção de cidadania, assim como o enorme problema de conceituar tanto biblioteca pública quanto cidadania. Desta dificuldade de partir de conceitos o autor tenta contextualizar as diversas perspectivas sem reduzi-las para concilia-las. A problemática moderna da cidadania surge no contexto iluminista europeu. Educação passa a ser coisa pública, sendo assim, política. Para uma igualdade política – exigência essencial da democracia - depende-se necessariamente de educar o povo.Vimos surgir, no final do XVIII o fenômeno de pedagogização da sociedade, daí a biblioteca pública neste contexto todo. Em nossos dias fica difícil se falar em uma “natureza humana”, “universal”. É até uma perversidade fundamentar políticas em cima desta ficção da “natureza”, que por ser contingente e historicamente construída,


não pode ser eterna e menos ainda universal. Aqui cabe uma luz bibliotecária no subtítulo de Ecce homo(Nietzsche): como a biblioteca pública ajuda a ser o que se é?

Na veia artística esta edição está maravilhosa. Provocações, como a morte da arte, dialogando com a contemporaneidade do fazer artístico, com uma ética do fazer artístico e do olhar cotidiano. Como se interpretar e atuar sendo o personagem de si mesmo? Pousar é estar sendo espontâneo ao máximo? O que chama atenção é a sintonia dxs autorxs. Muitxs não se conhecem, porém seus textos parecem que se conhecem de longa data, como um encontro de velhxs amigxs. Um artigo desencadeia o próximo e assim vai. O mais difícil foi parar. Mas tivemos que fechar a revista. Claro que não podíamos fecha-la sem um grito, ou quase um berro. Este grito final retoma a formação profissional, pensada na graduação, num viés de movimento estudantil partindo de um fato pontual: o descaso com as bibliotecas

Sobre as fotografias, de autoria da fotógrafa Nayla Mendes Ramalho, foram todas captadas no campus Darcy Ribeiro da UnB, e, em sua quase totalidade, foram fotos dos ambientes da Biblioteca Central – BCE. Tratadas digitalmente no Núcleo de Editoração e Comunicação - NEC, formaram a base para o projeto gráfico da Revista, por isso um agradecimento especial a esta fotógrafa colaboradora. Conseguimos manter correspondência com o velho mundo para sustentar a internacional. Um relato da experiência do tempo vivido em Brasília, muito bem acompanhado por J. L. Borges. Um acréscimo substancial foi a parte de publicações. Nela divulga-se a produção da área de Ciência da Informação, principalmente no âmbito da FCI/UnB.

Desejamos a todxs uma boa viagem. Henrique M. Sertão Brasília, abril, sexta-feira 13 CONSELHO EDITORIAL

5 CACI(N)F CACI(N)F

Além das bibliotecas públicas, as cinematecas entraram na pauta. Como verão, a memória cinematográfica está gravemente comprometida, estaria bem pior se não fosse o trabalho heroico de algumas instituições que só funcionam ainda deus sabe como. De volta à UnB, a ousada pergunta “como é formada a cultura universitária na Universidade de Brasília?” enseja a temática de um dos artigos, balizando a própria diversidade do Distrito Federal refletida na UnB. Contamos também com um estudo de usuários sobre o CEDOC/UnB com diversas informações.

públicas; por extrapolação, com xs estudantes e principalmente com xs profissionais.


ARTES & LETRAS

DOSSIER

Filosofia da Arte Argumentação sobre a morte da arte: o quadro e o objeto 62

indispensável para o desenvolvimento da sociedade e seu

Guardiões juramentados de um templo: uma crítica a atual situação da biblioteca escolar

10 26

Remédio contra a Cultura da ética indolor

64

Crede-mi: Uma ficção autêntica

70

7

Livros e leituras

74

CACI(N)F

Resgate da biblioteca pública como instituição fortalecimento democrático

SPEAKER’S CORNER Do movimento estudantil paralisado

86

VARIEDADES A importancia dos filmes como documentos histórios

32

“A universidade do Brasil”

42

Sinestesia como pano de fundo de uma história da escrita 44

INTERNACIONAL

Estudos de Usuário Centro Centro de Documentação da Universaidade de Brasília 48

El tiempo que vivi em Brasília “El tiempo es la sustancia de la que estoy hecho” 81


Foto: Nayla Ramalho


R E

I S

S A C

S O

D

S O R V I

E T O

I L B

&

BI

L

RESGATE DA BIBLIOTECA PÚBLICA COMO INSTITUIÇÃO INDISPENSÁVEL PARA O DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE E SEU FORTALECIMENTO DEMOCRÁTICO 10

Frederico Borges Machado - 09/94791

Resumo: As bibliotecas públicas brasileiras, não são usadas por grande parte da população brasileira. Muitas têm função desviada, funcionando como salas de estudo, ou depósitos de livros. Com o advento da sociedade da informação, novas tecnologias possibilitam de forma mais cômoda serviços que antes eram exclusivos das bibliotecas, agravando a crise da biblioteca pública tradicional. O presente trabalho busca demonstrar, através da literatura existente, que a crise da biblioteca pública brasileira pode ser superada através ampliação do conceito de biblioteca pública e de suas atividades, concretizando o papel social de desenvolvimento e promoção da cidadania e resgatando o seu reconhecimento como uma instituição indispensável para o desenvolvimento da sociedade e fortalecimento da democracia.

Palavras-Chaves: Resgate das Bibliotecas Públicas Brasileiras; Cidadania Através das Bibliotecas Públicas; Crise da Biblioteca Pública Brasileira Tradicional; Ampliação do Conceito de Biblioteca Pública; Biblioteca Pública Brasileira na Sociedade da Informação.


1. INTRODUÇÃO.

essa que não permite acesso da totalidade da população, pelo contrário, marginaliza e exclui

O que são bibliotecas públicas? Qual o papel das bibliotecas públicas? Qual o significado delas dentro da realidade brasileira? Essas questões e outras parecidas serão refletidas muitas vezes por pensadores e pesquisadores na área da

grande parte dela. Dessa forma, fica, até mesmo, comprometida a compreensão da biblioteca pública como uma instituição pública, ou seja, uma instituição que pertença ao povo, ou pelo menos que sirva para o povo.

ciência da informação, principalmente devido ao

Com o advento da sociedade da informação

vácuo existente na literatura sobre o conceito de

surgem ainda novos desafios à compreensão

bibliotecas públicas e sua compreensão dentro

do papel das bibliotecas públicas brasileiras.

da sociedade brasileira. Contudo, este trabalho

A velocidade do desenvolvimento das novas

tampouco vem com esse objetivo de determinar

tecnologias possibilita serviços paralelos e

o conceito de biblioteca pública, mas através de

alternativos aos das tradicionais bibliotecas

diversas compreensões e conceitos lançados

públicas, com a vantagem de serem mais cômodos.

por alguns autores sobre elas, busca encontrar o papel dessas instituições públicas dentro das necessidades sociais brasileiras. No Brasil, as bibliotecas públicas se

O presente trabalho busca, através de opiniões e argumentos de autores consultados, demonstrar a necessidade de a instituição biblioteca

pública

ampliar

suas

ações

e

encontram em estado lastimável, com acervos

serviços assim como sua própria compreensão

deficientes, estruturas físicas precárias, serviços

para consolidar seu papel de formação e

de baixa qualidade e ainda assim atuam com

desenvolvimento para a cidadania, como também

uma procura abaixo das suas possibilidades de

no sentido resgatar a si mesma como instituição

atendimento (MILANESI, 1983, p.62), estrutura

socialmente indispensável

11


1984) “O essencial para que se crie uma biblioteca é o consenso social, sem o que jamais se estabelece uma verdadeira instituição”. ao longo da história” (TARGINO, 1984, p.52).

Para Targino (1984) buscar um conceito

ideal e exaustivo de biblioteca pública é algo quase impraticável, “As características físicas, humanas e funcionais das bibliotecas das várias épocas determinaram o conceito das mesmas, 2. CONCEITOS. 2.1 Conceito Biblioteca pública.

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de

O professor Antônio Agenor Briquet de Lemos no prefácio do livro Biblioteca pública e informação à comunidade (LEMOS, 1995) nos pergunta para que servem as bibliotecas. A reposta dessa pergunta não é simples nem fácil de ser respondida, nos adverte Suaiden (2000), pois para os profissionais da informação que mergulham no conhecimento academicamente produzido a resposta é uma, mas, certamente, para a sociedade não será a mesma coisa. Ainda enfatiza “Na verdade, os diversos segmentos da sociedade têm expectativas diferentes em relação ao papel da biblioteca pública” (SUAIDEN, 2000). Dessa forma fica posto um grande problema para a concepção do conceito de bibliotecas públicas, porque, em verdade, qual o conceito que buscamos de biblioteca pública? Essa não é uma questão apenas de um dilema, em escolher um ou outro conceito. Mas como o objeto em estudo é uma instituição que serve a sociedade, esse abismo, entre concepções de biblioteca pública, revela a crise em que a própria instituição se encontra como aponta Myrian Gusmão de Martins, no prefácio do livro Conceito de Biblioteca (MARTINS,

ao longo da história” (TARGINO, 1984, p.52). O conceito de biblioteca pública é mutável, pertence ao contexto de seu tempo histórico e dentro desse contexto ele pode ser apreendido por suas próprias características, por suas funções, por seus usuários. O que, em verdade, não facilita muito, pois como coloca Suaiden (1980), a carência bibliográfica no Brasil é enorme, inviabilizando o levantamento das características e da situação em que se encontram as bibliotecas públicas brasileiras. O conceito, ainda superficial, encontrado dissolvido

na

literatura, que

poderia

ser

mais comum de biblioteca pública, é como: conjunto organizado de livros, ou edifício que armazena livros, ou coleção de obras, para o

desenvolvimento

intelectual

do

homem

(CARLO 1971, apud TARGINO, 1984), em que se encontram as funções básicas de preservação, organização e difusão do conhecimento ou informação

(MUELLER, apud

FIGUEIREDO,

1996, p. 107) sob a organização, gerenciamento e tutela do Estado (MOTA, 2005). Contudo, para a realidade brasileira tal conceito não é suficiente, para Milanesi (1983, p.63), de forma crítica, o entendimento de biblioteca pública na realidade brasileira: “Biblioteca pública é sinônimo de museu de livros por mostrar coleção morta”.


dossier Segundo Lydia Sambaquy (apud TARGINO, 1984, p.41) “as bibliotecas são classificadas de acordo com a clientela que atendem, (...) de acordo com as coleções que encerram”. Dessa forma podem ser agrupadas em escolares, públicas, especializadas, universitárias, etc. Mas para Targino (1984, p. 42) segundo suas consultas, a característica que mais evidencia a biblioteca pública é sua manutenção e gestão: caracterizada por serem mantidas pelo governo, em qualquer um de seus âmbitos, federal, estadual ou municipal, e franqueada ao público geral. Para Mota (2005) as bibliotecas públicas, assim como a popular e a comunitária, têm o papel de disseminar informação promovendo ampliação da cultura social, cultural e religiosa. Elas também são definidas por serem implantadas e organizadas por algum órgão estatal, além de mantidas pelo governo, qual seja o âmbito Federal, Estadual ou Municipal. Ainda, além dessas características ela pode ser compreendida pela grande quantidade de usuários que pretende atender, que corresponderiam a todos da cidade que pertence. Para Herberto Sales (apud SUAIDEN, 1980, p.2): A biblioteca pública, como núcleo de irradiação cultural na comunidade, como agência de informação e pesquisa, como centro de aperfeiçoamento intelectual, enfim, como meio, por excelência, de democratização da leitura e do conhecimento, assume o papel de maior importância na vida de um país e na vida de um homem, porque, à medida que o homem se realizar no saber e na cultura, melhor se entenderá com os outros homens, e os povos com outros povos, num mundo de trabalho construtivo, de prosperidade social, de liberdade e paz. Por trás desse conceito como é compreendido, existe a crença da informação como geradora de conhecimento e riquezas sociais, como diz Mota (2005) que através do acesso da informação, o desenvolvimento proporcionado por

ela traz benefícios sociais, benefícios econômicos através da ampliação de oportunidade de educação, até diminuição do emprego. Ainda aponta que nos países desenvolvidos é muito mais fácil e rápido o acesso à informação, o que explicaria a situação economicamente mais favorável. Suaiden (1980, p.2), apesar de considerar a prestação de serviços das bibliotecas públicas como indeclináveis do Estado, Suaiden (1995) considera que as bibliotecas públicas brasileiras podem ser particulares também, além de municipais, estaduais e federais. Ou seja, para o autor essa característica não é imprescindível para a compreensão do conceito de biblioteca pública. Talvez a característica comum mais evidente das bibliotecas públicas para Suaiden (1995) seja o mau funcionamento delas, a falta de profissionais, a descontinuidade de recebimento de recursos econômicos a irregularidade do aumento do acervo, a atraso de seus serviços e inchaço de pessoal que absorve e desvia recursos. Milanesi (1983, p.63) também tem essa mesma percepção sobre as bibliotecas públicas brasileiras “São depósitos quase sempre mal cuidados, entregues ao mal-humor dos funcionários públicos”. Sobre as características funcionais, Suaiden (1995), considera além da função tradicional da biblioteca pública, do desenvolvimento intelectual humano, uma outra função mais específica, de formação de um público leitor para a consolidação de um mercado editorial. Milanesi (1983, p.15) aponta que a função de qualquer biblioteca seria a de preservação da memória da humanidade. Mas essa função nas bibliotecas públicas no Brasil foi desviada (MILANESI, 1983; SUAIDEN, 2000), para servir de apoio as escolas, as bibliotecas funcionaram e funcionam muito mais como bibliotecas escolares que efetivamente como públicas, na história do Brasil, elas sempre serviram enormemente mais aos estudantes de ensino médio e fundamental que para a classe trabalhadora e o restante da população.

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Contudo como já dito anteriormente, é muito limitada a produção de material mais aprofundado na busca conceitual de biblioteca pública, ainda mais sobre a função social das bibliotecas públicas no Brasil. As concepções de biblioteca pública são vagas, as informações e reflexões sobre suas características funcionais muito superficiais e ambas carregadas de valores tradicionais que são ameaçados por novos valores trazidos, principalmente, pelo avanço da tecnologia.

2.1.1 Breve histórico. Segundo Fonseca (2006), o conceito de biblioteca é uma conseqüência, principalmente do humanismo renascentista, da invenção e revolução da imprensa, que permitiu a produção em grande escala do conhecimento em suporte físico somado ao princípio humanista de educação para todos.

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Antes do século XVIII as bibliotecas eram mantidas por nobres burgueses e instituições religiosas através do mecenato. Somente a partir da Revolução Francesa e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, progressivamente a leitura ia passar a ser considerada como uma atividade socialmente relevante e o poder público iria assumir essa responsabilidade. Contudo essa subordinação ao Estado caminha muito mais para compor o sistema educacional, que para servir a sociedade como um todo.Traço marcante que se perpetua por longo tempo e mesmo pode ser visto seus reflexos nos dias de hoje em nossa sociedade brasileira. Moras (apud Fonseca 2006, p.22) considera que somente em 1850 na Inglaterra surgiriam as primeiras bibliotecas sob o contexto da Revolução Industrial e Liberal e nelas não se encontrariam a função de desenvolvimento da cidadania, apenas constituiriam mais um mecanismo de controle da massa trabalhadora. Somente após a metade do século XX, através do conflito das lutas de classe do movi-

mento operariado, das idéias democráticas e da influência do pensamento marxista, passa a surgir as bibliotecas populares, com sua nova concepção de bibliotecas. No Brasil, a primeira biblioteca pública, em 1811 na Bahia, não foi uma iniciativa governamental e completamente alheia à maioria da população, analfabeta e escavava. Posteriormente o modelo de biblioteca pública adotado foi importado dos países ditos desesenvolvidos e ainda não satisfaziam as necessidades sociais brasileiras. Apenas em 1922, com a semana de arte moderna, houve uma tentativa de tornar as bibliotecas públicas mais compatíveis com a realidade brasileira. Porém esse modelo foi interrompido pelas ditaduras brasileiras.

2.2 Conceito de Cidadania. Apesar de alguns autores afirmarem que sobre o conceito cidadania não existe um consenso, como Covre (1999) que diz ser possível delinear várias concepções diferentes e até mesmo opostas, existe um consenso sobre o conteúdo que a compõe: o acesso aos direitos. Segundo Vieira (1997, p.22) “O conceito de cidadania, enquanto o direito a ter direitos, tem se prestado a diversas interpretações”. Também é importante compreender que, assim como muitos conceitos relacionados à sociedade, o conceito de cidadania também está relacionado ao processo histórico em que se encontra. A concepção de cidadania surge “não de uma apreensão estanque, mas de um processo dialético em incessante percurso em nossa sociedade” (COVRE, 1999, p.8), ou seja, “as mudanças nas estruturas socioeconômicas, incidiram, igualmente, na evolução do conceito e da prática da cidadania, moldando-os de acordo com as necessidades de cada época.” (REZENDE FILHO), a “cidadania tem assumido historicamente várias


dossier formas em função dos diferentes contextos culturais” (VIEIRA, 1997, p.22). Na contemporaneidade o conceito sobre cidadania em debate é principalmente carregado pelos valores incorporados no iluminismo, do ideal de liberdade e de igualdade entre os indivíduos, “foi o período das revoluções sociais, das transformações políticas e econômicas, das criações artísticas, do desenvolvimento das ciências, da disseminação do conhecimento” (REZENDE FILHO). Contudo só após a Segunda Guerra Mundial os direitos sociais iriam aparecer como composição da cidadania. A constituição do Estado Liberal não promoveu uma sociedade justa e igualitária como seus princípios proclamavam, pelo contrário o desenvolvimento da sociedade capitalista levou a uma grande parcela da população à pauperização e ao antagonismo de classes. Assim a generalização dos direitos sociais “é resultado da luta da classe trabalhadora e, se não conseguiu instituir uma nova ordem mundial, contribuiu significamente para ampliar os direitos sociais” (BOSCHETTI, 2007, p.64), a partir do final do século XIX e início do XX. Não é objetivo do atual trabalho discorrer sobre o desenvolvimento histórico do conceito de cidadania, contudo o conhecimento da mudança do conceito ao longo da história da nossa sociedade faz compreender que cidadania não é um valor estático e que dependerá da atuação dos agentes e instituições sociais para determinar qual a concepção de cidadania que será hegemônica em nossa sociedade. Segundo Viera (2000) a cidadania pode ser compreendida pelos direitos que a compõe e dentre as várias concepções, existem duas principais e conflitantes. Uma não considera que os direitos sociais estejam inclusos na concepção da cidadania e tem seu expoente último no na teoria liberal e a outra dá ênfase maior aos direitos

sociais e políticos, negando alguns aspectos dos direitos civis, como o direito à propriedade privada e tem sua máxima na teoria socialista. Covre(1999) também pontua que cidadania é a prática de reivindicação do conteúdo do exercício de cidadania, reivindicação de direitos e deveres, de ser cidadão, “ter direitos e deveres, ser súdito e ser soberano”. (COVRE, 1999, p.9). Rezende explica que esse caráter reivindicatório da cidadania existe também devido à herança das lutas sociais geradas pelo antagonismo de classes ao decorrer dos séculos XIX e XX. E sobre o cidadão complementa que “que um cidadão deve atuar em benefício da sociedade, bem como esta última deve garantir-lhe os direitos básicos à vida, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, trabalho, entre outros” (REZENDE FILHO). Sobre os direitos que constituem a cidadania, Marshall (apud VIEIRA, 1997) exemplifica bem quando diz sobre a cidadania, que é composta pelos direitos civis, políticos e sociais. Os direitos civis e políticos são conhecidos como direitos de primeira geração, que correspondem ao direito à liberdade de ir e vir, à propriedade privada, segurança, entre outros, são aqueles ligados aos ideais do liberalismo clássico. Os direitos políticos são aqueles conhecidos como direitos individuais exercidos coletivamente, dizem respeito à liberdade de associação e organização política, a participação política e eleitoral, ao sufrágio universal, etc. Os direitos sociais são conhecidos como direitos de segunda geração e são os direitos relacionados ao trabalho, saúde, educação, seguro-desemprego e todos que se relacionam à garantia de acesso aos meios de vida e ao bem-estar do trabalhador. Para Covre (1999, p. 11) vale lembrar que “para que esses direitos sejam efetivamente atendidos, eles devem existir interligados”. Se, por exemplo, algum dos direitos for excluído, como

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os direitos políticos não haverá um acesso real aos direitos sociais e civis e a cidadania estará comprometida. Cidadania não se limita aos direitos, ela também cumprimento dos deveres Quanto a esses deveres do exemplificados em:

apenas ao acesso corresponde ao (COVRE, 1999). cidadão eles são

ser o próprio fomentador da existência dos direitos a todos, ter responsabilidades em conjunto pela coletividade, cumprir as normas e propostas elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo, direta ou indiretamente, ao votar, pressionar através de movimentos sociais, ao participar de assembléias – no bairro, sindicato, partido ou escola. E mais: pressionar os governos municipal, estadual, federal e mundial (COVRE, 1999. p 9).

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Os direitos e os deveres, que compõe nossa cidadania, também estão inseridos na corelação de forças econômicas e políticas em nossa sociedade (COVRE, 1999). Daí conclui Covre (2000, p. 15) que “os direitos de uns precisam condizer com os direitos dos outros, permitindoa todos o direito à vida no sentido pleno – traço básico da cidadania”.

3. BILIOTECAS PÚBLICAS E CIDADANIA 3.1 Introdução. A compreensão da biblioteca púbica como uma instituição que promova e desenvolva a cidadania está no bojo da discussão da construção do Estado democrático, o desenvolvimento e a conquista da democracia dependem do acesso


dossier livre ao conhecimento humano, acumulado historicamente. Como afirma a UNESCO, a biblioteca pública é porta de entrada para o conhecimento e proporciona condições básicas para a aprendizagem permanente, autonomia de decisão e desenvolvimento cultural dos indivíduos e grupos sociais e ainda “A liberdade, a prosperidade e o desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando os cidadãos estiverem na posse da informação que lhes permita exercer os seus direitos democráticos e ter um papel activo na sociedade.A participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória, como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação” (IFLA/UNESCO, 1994).

Infelizmente, a produção científica e intelectual sob uma abordagem mais aprofundada sobre o conceito de biblioteca pública, sobre qual sua função e sua relação com a sociedade, é muito restrita na área de biblioteconomia, como nos aponta Myrian Gusmão de Martins, no prefácio do livro Conceito de Biblioteca (MARTINS, 1984) “Conceitos e consenso social nunca foram objetos de aprofundamento por nossos bibliotecários”, o que também compromete a compreensão do papel que essas instituições deveriam cumprir A importância de se compreender a função da biblioteca pública na atualidade não diz respeito apenas a cobrir o espaço vazio da produção científica em relação a esse assunto, diz respeito direto à sua própria condição de existência, já que a biblioteca não é mais a única memória da sociedade, nem mesmo é a alternativa mais cômoda.

Foto: Nayla Ramalho

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devemos destacar que as novas tecnologias produziram um usuário crítico e independente com relação aos serviços bibliotecários. Ele é mais crítico e independente, na medida em que sabe que a biblioteca não é a única fonte de informação, e às vezes, para obter informações precisas e com qualidade, tem de se utilizar novas tecnologias de informação. (SUAIDEN, 2000). Dentre as cinco leis da ciência da biblioteconomia, a última pode ser enunciada como “as bibliotecas são organismos em crescimento” (TARGINO, 1984, p.31). Como coloca a autora, a biblioteca como instituição social possui todos os atributos de um organismo, até mesmo, de estar fadado a morrer. Dentro dessa compreensão podemos deduzir logo que, sem a compreensão de sua importância e de seu significado pela sociedade, ela está, não mais, apenas, numa crise em seu funcionamento, mas numa crise de sua própria condição de existência como instituição. 18

3.2. Crise da Biblioteca Pública É de conhecimento de todos os estados precários em que se encontram as bibliotecas públicas brasileiras, no entanto, sobre as bibliotecas públicas, Milanesi (1983, p.62) aponta que “apesar de sua precariedade, têm uma procura abaixo das suas possibilidades de atendimento”. É muito preocupante essa constatação, que a população brasileira não faça uso das bibliotecas públicas, “É mínima a parcela da população que se utiliza delas. Quase sempre são estudantes fazendo os seus deveres escolares de acordo com as exigências dos professores” (MILANESI, 1983, p.62). E na história de nossa sociedade nunca houve mobilizações populares, ou protestos públicos em defesa das bibliotecas públicas, aliás, “Se elas fossem fechadas não haveria nenhuma comoção nacional” (MILANESI, 1983, p.63). Um levantamento de Suaiden (1980) em 25 bibliotecas públicas estaduais demonstrou que não havia profissionais qualificados, o acervo era

deficiente, a população não buscava as bibliotecas públicas e por isso as autoridades não viam razão em investir nelas. Este é o quadro da realidade de nossas bibliotecas públicas. Suaiden (2000) conclui que as bibliotecas públicas perdem cada vez mais poder e prestígio em sua batalha “que trava para responder às inquietações da sociedade sobre o seu papel (...) deixando de ser o grande centro disseminador da informação”. Além disso, a biblioteca pública “tradicional” passa a conviver na sociedade da informação com novas formas de organização de bibliotecas. A tecnologia que também serve para potencializar os serviços da biblioteca pública, a partir da orientação equivocada desta, pode fazer surgir uma poderosa rival. Pereira ainda vai além, É ideia generalizada, afirmar-se que a Internet é uma grande biblioteca universal e que as nossas bibliotecas tradicionais irão brevemente deixar de ter importância. Os mais radicais anunciam mesmo o desaparecimento das bibliotecas físicas e tradicionais e a sua substituição por um novo modelo de biblioteca. Mas existe um outro grupo, conservador, céptico e fortemente moldado pelas tradicionais bibliotecas ‘papel’ que se mostram relutantes a este novo modelo de biblioteca, contestando a sua utilidade e eficácia e valorizando a importância do livro. É emblemática essa posição de Pereira, porque não representa uma voz isolada, sim uma nova tendência que já apresenta ecos sob o senso comum. As novas tecnologias trazem rapidamente mudanças na concepção das bibliotecas. Essas novas concepções apresentam a biblioteca como um espaço comunitário e dialógico, contudo o espaço tradicional ainda não consegue acompanhar, nem se percebe dentre desse quadro de


dossier mudanças. Essas novas concepções sobre bibliotecas podem ser percebidas, como por exemplo, em sobre a Biblioteca 2.0:

transferência da informação e em alfabetização informacional do que fornecendo acesso controlado a isso”.

Baseia-se no fundamento das bibliotecas como serviço comunitário, mas entende que as comunidades mudam, e as bibliotecas não devem apenas mudar com elas, elas devem permitir que os usuários mudem a biblioteca (MANESS, 2007, p.45).

Kenneth Boulding em O significado do século XX (apud BORGES, 2000, p.25) argumenta sobre a transição entre épocas: “transição não é somente algo que afeta a ciência, a tecnologia, o sistema físico da sociedade (...). É também a transição das instituições sociais”. Ou seja, “qualquer estabilidade além da aceitação de instabilidade é insuficiente” (O’REILLY apud MANESS, 2007, p.50).

Para Pereira, o novo contexto informacional “revela uma nova missão para a biblioteca, a de contribuinte de conteúdos”, ou seja, é importante compreender a importância da disseminação da informação, além da conservação (FONSECA, 2006; MANESS, 2007). Maness (2007, p.49) salienta também que os novos serviços de bibliotecas mudarão “focando mais na facilitação da

A biblioteca pública precisa começar a acompanhar as mudanças e transformações pertencentes à sociedade da informação, sob o risco de, como coloca Fonseca (2006, p.21), “a biblioteca só se realizará plenamente como máquina cultural quando deixar de existir como tal”. Foto: Nayla Ramalho

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3.3 Cidadania e o Resgate da Biblioteca Pública.

estar espiritual nas mentes dos homens e das mulheres (IFLA/UNESCO, 1994).

O Estado, independente do governo, afirma através de discursos a necessidade do fortalecimento da democracia, pela diminuição das injustiças sociais, investimento na educação, etc. Contudo como coloca Milanesi (1986) devese tomar cuidado, pois o Estado não possui interesse em modificar a ordem vigente, de reprodução do sistema capitalista, pelo contrário nas escolas, bibliotecas e em todo lugar o que é visto é a concretização dessa reprodução e o controle dos indivíduos. Deve-se ficar atento para que o discurso não se torne a anestesia necessária para que não se perceba o tamanho da ferida na sociedade brasileira.

Também, quando o Governo Federal, lançou o programa denominado: Programa Territórios da Cidadania, contemplando os duzentos e noventa e nove municípios com ações de modernização de bibliotecas (PORTAL DO GOVERNO BRASILEIRO), novamente reafirma a relação biblioteca pública e cidadania.

Entretanto, sobre as bibliotecas públicas brasileiras, Milanesi (1986, p.186) questiona se elas são realmente bibliotecas do povo, ou, apenas, bibliotecas para o povo, o que remete ao questionamento se a biblioteca pública produz cidadania ou, se também . apenas é produto dela. Na verdade, elas deveriam ser, ao .. a biblioteca como mesmo tempo, para o povo e instituição social possui pertencente ao povo, pois o acesso à biblioteca pública é todos os atributos de um produto da cidadania e através organismo, até mesmo, de dela a cidadania é fortalecida.

O Governo brasileiro, através do Livro Verde, elaborado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, demonstra que reconhece a importância da informação Pois, como coloca estar fadado a morrer. e do conhecimento na Fonseca (2006), através concretização do exercício da do acesso igualitário da cidadania, “O conhecimento informação e educação tornou-se, hoje mais do que no podemos alcançar a cidadania, passado, um dos principais fatores de superação a falta de informação e educação de grande parte de desigualdades, de agregação de valor, criação da população da sociedade tem sido um dos de emprego qualificado e de propagação do bemgrandes obstáculos à constituição da cidadania. estar” (TAKAHASHI, 2000, p. 90). O acesso à informação permite, não apenas que ela saiba de seus direitos e deveres, mas lhes Ou seja, o reconhecimento da concretização dá condições organizarem e lutarem por eles, da cidadania através da informação é legítimo, exercendo, assim, uma verdadeira cidadania ativa. também é legítimo o reconhecimento de que as bibliotecas públicas têm o papel de promoção, Assim como está no Manifesto da Unesco desenvolvimento e concretização da cidadania, sobre as Bibliotecas Públicas “Os serviços da quando a Unesco, em seu Manifesto sobre as biblioteca pública devem ser oferecidos com base bibliotecas públicas proclama: na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua Este Manifesto proclama a confiança que ou condição social” (IFLA/UNESCO, 1994). a UNESCO deposita na Biblioteca Pública, Fonseca (2006) também, aponta que biblioteca enquanto força viva para a educação, a pública deve ser aberta a todas as pessoas, sem cultura e a informação, e como agente forma de discriminação e atender as pessoas essencial para a promoção da paz e do bem-


dossier marginalizadas do conhecimento é um objetivo fundamental dela, apesar de que, em muitas regiões, são os próprios responsáveis pelas bibliotecas que afastam aquelas pessoas. Além do acesso igualitário e dos serviços acessíveis a todos, até mesmo àqueles a quem é impossível freqüentar a biblioteca pública (IFLA/UNESCO, 1994), a Unesco destaca como missão da biblioteca pública: apoiar a tradição oral, criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças desde a primeira infância; assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa; apoiar a educação; possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural, das artes e do espetáculo; se necessário, criar programas e atividades de alfabetização para os diferentes grupos etários, dentre outras. Contudo, a realidade é a marginalização da imensa maioria das pessoas à biblioteca pública, mesmo porque a grande maioria da população brasileira, ainda, é analfabeta. Milanesi (1986) questiona o motivo da deficiência de recursos audiovisuais e a quase inexistência de coleções orais de informações, Fonseca (2006) em seu trabalho aponta que para muitos brasileiros a informação oral ainda continua sendo a forma mais importante de acesso à informação, tornando essa parte da população brasileira explicitamente marginalizada desse serviço público. Por fim Milanesi (1986, p. 178) questiona “Que tipo de biblioteca é necessária ao Brasil?”. Suaiden (1995) diz que para as bibliotecas públicas conseguirem ampliar seu atendimento, devem ampliar os serviços de extensão bibliotecárias, Fonseca (2006) também destaca a necessidade de ações culturais para o êxito do objetivo das bibliotecas públicas. Percebe-se, então, de forma não declarada, que para as bibliotecas públicas desempenharem seu papel, devem refletir sobre sua concepção e sobre a ampliação de suas atividades. Almeida (apud FONSECA, 2006, p. 27), “ressalta que a preocupação com a preservação não pode ser superior à da disseminação, sob o risco de nos atermos a uma concepção ultrapassada de biblioteca pública”. Mas como destaca Fonseca (2006, p. 27) “No trajeto de sua história, a biblioteca pública preocupa-se com a preservação esquecendo a disseminação”. Ainda, para Fonseca (2006), rompendo com os valores e modelos passados de, a nova biblioteca pública mais que um espaço de coleção é um espaço de informação, de discussão e criação, compreendo o livro apenas como mais um instrumento de cultura ao lado de outros suportes da informação. Tanto no Brasil como no mundo, para Borges (2000, p.21), vive-se uma palavra de ordem, que chega mesmo a sufocar os indivíduos, “Esta palavra é MUDANÇA”. Complementado por Takashi (2000, p.90) “O advento da Sociedade da Informação é o fundamento de novas formas de organização”. Segundo Fonseca (2006) e Mueller (apud FIGUEIREDO, 1996) as funções básicas da biblioteca continuam as mesmas, preservação, organização e difusão do conhecimento ou informação. O que está mudando são as formas de uso das atividades da biblioteca pública, determinado pelo contexto de nosso determinado momento histórico, É o momento propício para a implantação de serviços realmente relevantes à comunidade, democratizadores (...) a nossa grande massa de desvalidos, desfavorecidos e oprimidos, que não têm conhecimento ainda do que seja uma biblioteca, e para os quais a informação pode significar uma melhoria real, o alcance de uma solução, a detenção de um benefício social (FIGUEIREDO, 1996, p.107). E para que as bibliotecas públicas possam realmente promover e contribuir para a cidadania e se tornar um real centro disseminador de informações, Suaiden (2000), aponta que a implantação

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de um serviço de informação utilitária seria o caminho que as bibliotecas públicas deveriam assumir. Figueiredo (1996, p.107) concorda: “A biblioteca Pública Brasileira pode se tornar uma instituição democrática por excelência ao prestar serviço de informação para a comunidade (...) que podem auxiliar na solução dos problemas do dia-a-dia”. E Fonseca (2006, p.34) complementa “O trabalho com informações utilitárias exige a quebra de concepções hegemônicas existentes nas bibliotecas públicas”, tornando propícios a implantação e desenvolvimento de novas atividades e propostas à biblioteca pública tradicional. Figueiredo (1996, p.107), ainda ressalta que essas atividades atestam a função social das bibliotecas públicas, em uma sociedade em rápida transformações.

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Suaiden (2000) afirma a verdadeira identidade da biblioteca pública como “uma instituição eficiente na formação da cidadania e na melhoria da qualidade de vida da sociedade” e coloca que a produção bibliográfica da ciência da informação já possibilita encontrar caminhos que permitirão encontrá-la. E aponta que sob os novos paradigmas tecnológicos e sociais, caberá a biblioteca pública corrigir as deficiências do passado, criando uma interação com a comunidade que de fato possa contribuir com a inclusão dos excluídos no acesso a Sociedade da Informação. Portanto, à medida que a biblioteca pública se vincular adequadamente com a comunidade, ela passará a ser o caminho que possibilitará a participação efetiva na sociedade da informação. Isso é de extraordinária importância em um país onde a desinformação atinge altas proporções, e, sem essa oportunidade, milhares de pessoas jamais terão oportunidade de entender e de ter noção dos seus direitos e deveres em uma sociedade globalizada, pois o acesso à informação, nos novos tempos, significa o investimento adequado para diminuir as desigualdades sociais e as formas de dominação que foram dominantes na história contemporânea (SUAIDEN, 2000).

4. CONLUSÃO FINAL: A literatura sobre o papel das bibliotecas públicas dentro da sociedade, ainda é muito restrita e superficial, por muito tempo, destacam os autores, o conhecimento epistemológico e a compreensão sociológica das bibliotecas públicas não foram objetos de estudo por pesquisadores da área. As várias concepções e os significados sociais existentes sobre essas instituições são encontrados de modo disperso em discursos nos textos de vários autores. No Brasil, os sucessivos governos federais, pós-ditadura, que buscam alcançar Estado democrático de direito, assim como as instituições que visam o fortalecimento dos direitos humanos no mundo, como a Unesco, vêm afirmando a importância do papel das bibliotecas públicas na promoção e desenvolvimento da cidadania. Mas o que se percebe a partir literatura é o lastimável estado em que elas se encontram além da falta de reconhecimento da maioria das autoridades e governos municipais sobre a importância das bibliotecas públicas para o desenvolvimento do bem estar do indivíduo e da sociedade, inclusive da própria população que em sua imensa maioria não busca os serviços das bibliotecas públicas brasileiras. Ou seja, a importância das bibliotecas públicas se limita ao discurso, não se realizando na prática. Contudo, a crise das bibliotecas públicas já não se restringe ao discurso impraticado. Sob a dinâmica sociedade da informação, a partir das inovações tecnológicas, alguns autores já enxergam a substituição da tradicional biblioteca pública pela nova biblioteca virtual. A biblioteca tradicional ao não acompanhar as mudanças trazidas pela globalização e pelos novos paradigmas da sociedade da informação, permite que a tecnologia, a qual possibilitaria as bibliotecas públicas desenvolverem novos serviços à comunidade, se tornar uma ameaça ao apresentar alternativas inovadoras e mais cômodas à biblioteca pública tradicional.


dossier buscando implantar serviços de informações utiA biblioteca pública, no Brasil, tem como litárias, programas de alfabetização para os, hoje, seu objeto de trabalho a informação, sendo que socialmente excluídos da biblioteca pública, seros serviços oferecidos por ela fazem com que viços de apoio à tradição oral, acesso às artes e essa instituição se torne ultrapassada. A solução espetáculos, alfabetização e inclusão digital e propara que a biblioteca pública brasileira não se piciar espaços e meios para trocas de informatorne uma instituição socialmente irrelevante, ou ções entre os próprios usuários das bibliotecas. mesmo inútil, é que, a partir das mudanças proporcionadas pela sociedade Para que a biblioteda informação, ela reflita A biblioteca pública ca pública brasileira possa vir sobre seu próprio conceito brasileira não pode mais ter exercer seu verdadeiro papel e sobre suas atividades. seu conceito focado sobre a como instituição pública, de desenvolvimento e promoção da Também se observa, conservação do acervo, sob cidadania e resgatar a si mesma em nosso país, uma demano risco de perder seu sentido como uma instituição pública da absurdamente grande por cidadania, por informações dentro da sociedade, deve passar essencial para o funcionamento sobre direitos e deveres, o a ser compreendida sobre o e desenvolvimento da sociedaBrasil é palco de um quadro de e da democracia brasileira, prisma da disseminação da de marginalização e excludeve-se mudar e ampliar seu são social gigantesco, para informação. conceito como biblioteca pútransformar esse quadro é blica, analisada sob os novos necessária a conscientização paradigmas e valores da sociedade da informação através da informação da população sobre seus ela deve ser compreendida de forma ampla, como direitos e deveres. Ao mesmo tempo encontrarealmente uma gestora, facilitadora e irradiadora -se a instituição biblioteca pública mal utilizada, da informação e do conhecimento. Pode não se os poucos que utilizavam os serviços das biblioter exatamente idéia do que ela virá a ser, mas tecas, agora passam a utilizar novos serviços, mepara que ela possa deixar de ser compreendida lhores, mais cômodos gerados pelo avanço da como um depósito organizado e começar a ser tecnologia. compreendida como uma instituição indispensáLogo se torna visível o problema das bivel no desenvolvimento da sociedade, da cidadabliotecas públicas brasileiras, como gerenciadonia e da democracia, ela deve começar a mudar a ras da informação, não cumprem seu papel social, partir dos caminhos mostrados. motivo de seu não-reconhecimento como uma instituição fundamental à sociedade. E ao mesmo tempo, apresenta-se a lógica solução da sua própria crise institucional, o cumprimento do seu papel dentro da sociedade brasileira, a promoção e o desenvolvimento da cidadania. A biblioteca pública brasileira não pode mais ter seu conceito focado sobre a conservação do acervo, sob o risco de perder seu sentido dentro da sociedade, deve passar a ser compreendida sobre o prisma da disseminação da informação. Além disso, a biblioteca pública deve necessariamente ampliar e inovar seus serviços,

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dossier

Eu gostaria de ser lembrado como alguĂŠm que amou o mundo! 25


Guardiões juramentados de um templo: uma crítica a atual situação da biblioteca escolar Frederico Borges Machado - 09/94791

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“Não somos os emissários dos livros mas os guardiões juramentados de um templo” (PENNAC, 2003, p. 92).

Nessa passagem, o pedagogo Pennac critica bibliotecários, pedagogos, educadores, escritores e todos outros profissionais que seu objeto de trabalho seja informação ou o livro por perpetuarem a cultura da divinização do conhecimento, como se ele não fizesse parte e fosse algo acima das coisas do cotidiano de nossas vidas. Há muitos séculos atrás o livro era tratado como um objeto sagrado, ou proibido e ainda hoje parece persistir uma preocupação maior com o objeto que com seu conteúdo. Mas esse templo mencionado também pode se referir às próprias bibliotecas, quando, na passagem, ele clama “Caras bibliotecárias, guardiãs do templo” (PENNAC, 2003, p.124) que possam difundir o prazer da leitura lendo seus romances preferidos, para despertar o prazer de ler adormecido, aos seus usuários. Sua crítica não é infundada porque como cita Marques e Silva (2009, p.2) “A biblioteca escolar ainda hoje com raras exceções se caracteriza como um local apático e sem dinamismo, parado no tempo e no espaço e que ainda mantêm

as mesmas características conservadoras da antiguidade.” Onde as grandes preocupações do bibliotecário ainda são a ordem e a manutenção dos livros, ora qual é a importância da ordem dos livros se não para eles todos serem encontrados e lidos? De que adianta poder encontrá-los se não há quem o queira fazer? “Parece estabelecido, por toda eternidade, em todas as latitudes, que o prazer não deva figurar nos programas da escola e que o conhecimento não deva ser outra coisa senão fruto de um sofrimento bem comportado” (PENNAC, 2003, p.78). Como podemos cobrar que existam leitores, futuros usuários preocupados com a qualidade e serviços das bibliotecas se desde a mais tenra idade afastamos as crianças das bibliotecas, preocupados com o barulho e a desordem que vão causar à biblioteca escolar? Como podemos formar futuros usuários se os jovens aprendem que bibliotecas são lugares de castigo e sofrimento, se bibliotecários muitas vezes acham ruim ter usuários em suas bibliotecas pela “bagunça” que possam fazer? Infelizmente a situação dabliotecas escolares sem recursos e, muitas vezes, nem mesmo usuários, não mudará enquanto a postura

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dos bibliotecários não mudar. Pois como coloca Marques e Silva (2009, p.2) essa conjuntura é consequência “da pouca atuação da biblioteca escolar e uma visão pragmática já estabelecida pela própria sociedade de que biblioteca é um espaço onde predomina o silêncio, normas e regras” (MARQUES; SILVA, 2009, p.2). Na atualidade muito se discute sobre a sociedade da informação, a sociedade da internet e redes sociais, da informação rápida, que compete com a morosidade dos livros e bibliotecas. A verdade é que mesmo antes da dita sociedade da informação se constituir, as bibliotecas no Brasil nunca foram um espaço

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acessível e democrático, sempre foram restritas e elitizadas, não condizentes com os papeis que lhe foram definidos pelas instituições sociais à que lhe dizem respeito, como a UNESCO, FEBAB entre outras. Os problemas das bibliotecas escolares são muito mais profundos e anteriores à concorrência com a internet. Em nossa sociedade o que culturalmente sempre se perpetuou é “à televisão elevada à dignidade da recompensa... e, em corolário, a leitura reduzida ao nível de obrigação” (PENNAC, 2003, p.52). Ou seja, os livros e a leitura em nossa sociedade representaram para a maioria da população brasileira obrigações que pouco, ou nada, tiveram relação com sua realidade existencial ou com momentos de lazer ou prazer. Enquanto a televisão sempre possuiu uma linguagem acessível, democrática e prazerosa, os livros não tiveram o mesmo caminho e as bibliotecas pouco, ou nada, fizeram também para mudar essa realidade. Enquanto as emissoras de televisão conseguiram colocar pelo menos uma tevê em cada casa dos brasileiros, o Estado e as bibliotecas não conseguiram implantar o gosto pela leitura nem em metade da população brasileira.

Os reflexos desses problemas, da falta de leitura e de incentivo cultural e educacional são conhecidos e compartilhados consensualmente por toda sociedade no senso comum, observados na violência em nossa sociedade, na demagogia política, na corrupção, nos preconceitos, no desrespeito aos direitos humanos etc. Em Bogotá na Colômbia onde houve um grande investimento em redes de bibliotecas públicas, a violência diminui e a qualidade de vida aumentou, em Bogotá “as bibliotecas têm melhorado o entorno dos locais onde são construídas, melhorando a segurança em lugares que eram de altíssima periculosidade e que hoje têm uma atividade social intensa.” (DOMINGUÉ). Como bem aponta Milanesi (2003, p.43) “Uma escola frágil e uma televisão forte geram um homem com a cabeça na lua e os pés na lama”

Referências bibliográficas DOMINGUÉ,Andrea. Biblioteca para a paz urbana na Colômbia. Comunidade Segura. Disponível em: http://www.comunidadesegura.org/fr/MATERIABibliotecas-para-a-paz-urbana-na-Colombia MARQUES, Rogério Ferreira; SILVA, Clemente Ricardo. O fazer bibliotecário na biblioteca escolar: propostas de ação cultural. In: Encontro Regional de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação e Gestão da Informação do Sudeste e Centro-Oeste, X., 2009, Goiânia. Anais eletrônicos... Goiânia: UFG, 2009. Disponível em: < http://www.ufg.br/this2/uploads/files/74/o_ fazer_bibliotecario_na_biblioteca_escolar.pdf > . Acesso em: 17 maio 2011. MILANESI, Luís. A casa da invenção. São Paulo : Ateliê Editorial, 2003. PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.


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variedades

Os filmes- assim como documentos, livros, cartazes, etc- estão no rol de suportes que guardam a memória e a identidade de uma nação. Intrínsecos as histórias dos filmes, está a cultura da época e retrato de um espaço –tempo. Por mais que a história seja fictícia, existem sempre pontos que retratam uma época, um estilo literário, estilo de vida da época, as implicações filosóficas, políticas e também, um dos aspectos mais interessantes: a arte. Porém, apesar de haver todo esse peso nos filmes, a noção de preservação é bastante complicada. Heffner1 apresenta um dado chocante: estima- se que algo em torno de 60% a 70% da produção do cinema mudo teria desaparecido em definitivo. Essa percentagem varia da país para país, com maior incidência em nações pobres como o Brasil, que salvou cerca de 10% de tudo que produziu entre 1898 e 1933. Boleslaw Matuszevski foi um dos primeiros a reconhecer a importância da preservação dos filmes. Era um cinegrafista polonês radicado em Paris que em 1898 – apenas três anos após os irmãos Lumière projetarem seus primeiros filmes para um público pagante no porão do Grand Café no Boulevard des Capucines em 28 de dezembro de 1895. Num livreto intitulado Uma nova fonte de História (Un nouvelle source de l’histoire). “O 1  HEFFNER, Hernani. Preservação. Contracampo,(local) n.34, 2001. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/34/ frames.htm >. Acesso em: 01 jul. 2010.

filme”, ele escreveu,“esse simples tira de celulóide impresso, constitui não apenas um documento histórico, mas uma parcela da história, e uma história que se apagou, mas não necessita de mágica para ganhar vida novamente... é necessário dar a essa fonte talvez privilegiada a mesma existência oficial e as mesmas possibilidades que são dadas a outros arquivos já reconhecidos”2 Infelizmente, boa parte das autoridades e da população não tem ciência de tamanha importância dos filmes como documentos e retratos da cultura. Existem iniciativas para a preservação de filmes existentes no Brasil, porém as percas já constatadas são lastimáveis. Paz e Amor (1910), de José do Patrocínio Filho, Barro Humano (1929), de Adhemar Gonzaga, Favela do Meus Amores (1936), de Humberto Mauro, Moleque Tião (1943), de José Carlos Burle, Destino em Apuros (1953), de, Cruz na Praça (1959), de Glauber Rocha, e Surucucu Catiripapo (1973), de Neville D’Almeida3 são exemplos de fragmentos ou até de obras completas “encontradas” quando já tinham sido dadas como definitivamente perdidas 2  LUNA, Rafael de. A imagem em movimento: tema ou objeto? - Parte 2. Preservação audiovisual. Disponível em: <http:// preservacaoaudiovisual.blogspot.com/2008/11/imagem-emmovimento-tema-ou-objeto_23.html>. Acesso em: 01 jul. 2010. 3  HEFFNER, Hernani; GARDINER Ruy. Filmes brasileiros considerados perdidos ou prestes a sê-lo. Contracampo, (local) n.34, 2001. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/34/ frames.htm>. Acesso em: 01 jul. 2010.


porém número muito pequeno se comparada a proporção de filmes já desaparecidos no país. Eis, então a importância da cinemateca, que, por sua função, tem como objetivo preservar as obras cinematográficas, bem como os materiais ligados a elas, como, por exemplo: livros, cartazes, material divulgação, etc. É também fundamental a difusão desse acervo com os devidos cuidados quanto a integridade dos documentos. Tornar público o conteúdo, divulgar e disponibilizar esse acervo (levando em conta, evidentemente, o estado de cada película) é um dos passos pra reavivar a cultura presente nos filmes. as cinematecas surgem como resposta à perda significativa de filmes e documentos afins, determinantes para o entendimento da arte e suas relações possíveis com a história, as letras, a ciência, a filosofia, as tecnologias aplicadas, dentre outros(...)1

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Conservação e restauração A Organização da Sociedade Civil em Benefício da Memória Nacional (Arqvive)2 5 define a preservação como uma ação que busca garantir a permanência das condições físicas ideais de um documento. Já a conservação é um procedimento técnico que tem por objetivo gerir as condições físicas ótimas de um documento para que esteja acessível às sociedades atuais e futuras. E a conservação preventiva visa às condições ótimas do meio ambiente das instituições de guarda, das reservas técnicas ao acondicionamento e armazenagem individuais, buscando assim, retardar a degradação dos documentos. Dentre os processos de restauração, podemos pontuar a coleta, identificação, catalogação, documentação, estabilização, conservação, restauração, 1  COSTA Alessandro Ferreira. Gestão Arquivística na era do cinema digital: formação de acervos digitais provindos da prática cinematográfica. [Tese]. Belo Horizonte: Escola de ciência da informação da UFMG; 2007. 2  A Organização da Sociedade Civil em Benefício da Memória Nacional.Conservação Preventiva. Disponível em: < http:// www.arqvive.org/site.asp?page=areas.asp&id=4>. Acesso em: 29 jun. 2010.

difusão e disponibilização permanente, além de outras tarefas associadas 3. Um dos processos adequados pra a preservação dos acervos é a duplicação. Essa atividade se iniciou, nos arquivos para transferir as obras cinematográficas a suportes de segurança.  As películas inflamáveis - os nitratos começaram a serem transferidas para suportes de segurança há muitos anos, e, para muitos arquivos, a realização destas reproduções se constituiu como uma enorme tarefa, que consumiu boa parte de seus recursos e levaram décadas para terminar 4. Agentes prejudiciais O tipo de suporte dos filmes é bastante sensível por sua própria composição química. O material antigo, que utilizava o nitrato (película de fácil combustão), deve ser transferido para filme de segurança (acetato ou poliéster)5 Além do risco de combustão, as oscilações de valores de umidade, temperatura são muito prejudiciais aos suportes de filmes. O calor é responsável pela aceleração da maioria das reações químicas 6. Os altos níveis de umidade podem provocar um aumento de reações químicas, como por exemplo, a síndrome do vinagre. A FIAF recomenda manter a temperatura em torno de 20ºC e a umidade relativa entre 45% e 50%. As oscilações de temperatura e da 3  BUTUCE, Débora. A implicação das ações de preservação no processo de restauração fílmica. Brasil, Ministério da Cultura - Governo Federal. Disponível em: < http://www.ctav.gov. br/plano-geral/?p=243>. Acesso em: 22 ago.2010. 4  Idem, 2010. 5  COSTA Alessandro Ferreira. Gestão Arquivística na era do cinema digital: formação de acervos digitais provindos da prática cinematográfica. [Tese]. Belo Horizonte: Escola de ciência da informação da UFMG; 2007. 6  OGDEN, Sherelyn. Temperatura, umidade relativa do ar, luz e qualidade do ar: diretrizes básicas de preservação. In: Meio Ambiente. Coord. Ingrid Beck; Rio de Janeiro; Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos. Arquivo Nacional, 1997.  36 p. (n. 14-17: meio ambiente). Disponível em: < http://www.arqsp. org.br/cpba/>. Acesso em: 22 ago.2010.


variedades umidade relativa não devem ser maiores que 3º para temperatura e 10% para umidade relativa. A luz pode causar o descoloramento ou o esmaecimento da emulsão fílmica e pode, ainda, enfraquecer a emulsão e a gelatina que compõem a película. E pode causar a mudança da cor dos corantes presentes na gelatina. Os espaços de armazenagem devem ser mantidos escuros, não tenham janelas, ou, se tiverem que sejam

às películas. O acúmulo de poeira na superfície das obras interfere no seu aspecto estético e constitui-se em uma fonte contínua de acidez e degradação. Ainda existem os agentes biológicos que podem causar sérios danos. Fungos causam manchas nos materiais, deixando-os frágeis. Alimentam-se de celulose (celulóticos), proteínas (proteolíticos) e amido (amilóticos). O mofo, quando ativo, libera enzimas capazes de digerir

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Figura 1-Ressecamento, abaudulamento e encolhimento.

vedadas. Sempre que possível, a iluminação deve ser incandescente (de tungstênio) e não fluorescente 7. A poluição também pode causar danos

materiais orgânicos, provocando alterações e enfraquecendo-os8.

7  FREITAS, Jussara Vitória de. Laboratório cinema e conservação: Conservação preventiva e gerenciamento da informação. [Dissertação]. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 2010. Disponível em:<http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/ dspace/bitstream/1843/JSSS-848G3N/1/disserta__o_jussara_ vitoria_de_freitas.pdf>. Acesso em: 22 ago.2010.

8  FREITAS, Jussara Vitória de. Laboratório cinema e conservação: Conservação preventiva e gerenciamento da informação. [Dissertação]. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 2010. Disponível em:<http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/ dspace/bitstream/1843/JSSS-848G3N/1/disserta__o_jussara_ vitoria_de_freitas.pdf>. Acesso em: 22 ago.2010.


Figura 2- Colônia de fungo presente na emulsão nas imagens

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Cópias para a preservação Diante essas e outras ameaças, é preciso estabelecer uma política de preservação eficiente que assegure a integridade desses filmes. Uma medida essencial é a cópia desses filmes. Essa cópia precisa ter qualidade de imagem e de som para que assegure a qualidade do filme ao longo dos anos. Envolve um processo minucioso e bastante caro. As cópias, a preservação, aliadas a restauração são as principais iniciativas dos grupos que zelam pelos acervos de filmes. Uma das opções possíveis é a cópia digital. Esse processo trás consigo muitas vantagens, como custo menor e aumento da velocidade de acesso, além da integração entre vários pesquisadores e arquivos envoltos no tema.A cópia digital também: afetou diferentes aspectos do processo de produção em momentos diferentes, embora a produção inteiramente digital ainda resulte em película, ou seja, em um transfer em película gerado a partir do master digital. Esse material, além das separações YCM em preto e branco feitas a partir do master digital, é o único bem fílmico finalizado que vem sendo guardado

usando uma tecnologia amplamente estabelecida, com características de preservação e acesso a longo prazo compreendidas e aceitas 9. A preservação desse tipo de cópia também exige atenção, pois , assim como as mídias digitais, podem mudar de software de execução, por exemplo. É necessária uma atualização constante e principalmente a manutenção de investimentos continuados. “Se o recurso começar a definhar, a informação poderá ainda ser recuperada, mas depois de um tempo ela não estará mais acessível devido a arquivos corrompidos, ou a formatos ou tecnologia obsoletos”10 Nos últimos anos, surgiram iniciativas (pessoais ou institucionais) que promoveram mudanças no panorama dos acervos no Brasil. Iniciativas como o Sistema Brasileiro de Informações Audiovisuais (SiBIA) , os encontros nacionais de arquivos audiovisuais da CineOP, as discussões para a criação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), entre outras que deram base para a reflexão sobre os arquivos audiovisuais brasileiros11. A seguir listaremos outras iniciativas brasileiras que se envolvem na causa da preservação dos filmes, focando, principalmente, nas cinematecas e instituições filiadas a FIAF. STÕ FIAF - International Federation of Film Archives A FIAF - International Federation of Film Archives – fundada em 1938, reúne diversas instituições ao redor do mundo comprometidas 9  ACADEMY OF PICTURE ARTS AND SCIENCES. O dilema digital: questões estratégicas na guarda e no acesso à materiais cinematográficos. Tradução da Cinemateca Brasileira. Rio de Janeiro; 2009. Disponível em:< http://web.cinemateca.org.br/ system/files/private/Dilema_Digital_PTBR.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2010.E 10 ���� Idem 11 ������������������ COELHO, Fernanda. A preservação audiovisual no Brasil: outros desafios. In: 5a MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO; jun. 2010. Universo Produção / Instituto Universo Cultural (org.) - Coordenação Geral: Raquel Hallak d’Angelo. Belo Horizonte, Universo Produção, 2010, p. 102-104.


variedades com a herança cinematográfica, dedicadas à recuperação, acervo, preservação e exibição de filmes. A federação tem como metas: - Manter um código de ética para a preservação de filmes e práticas relacionadas a todas as áreas do trabalho no acervo de filmes; - Promover a cultura cinematográfica em países em que essa produção seja escassa - Buscar o aprimoramento do contexto legal em que cada um dos arquivos conduz seu trabalho; - Facilitar a pesquisa histórica tanto em nível nacional quanto internacional -Promover o treinamento e a especialização em preservação e outras práticas relacionadas ao acervo; - Assegurar a disponibilidade permanente do material dos arquivos ao estudo e pesquisa pela comunidade; - Encorajar o acervo e a preservação de documentos e materiais relacionados ao cinema -Desenvolver a cooperação entre os membros e assegurar a disponibilidade internacional de filmes e documentos12. A federação conta atualmente com 150 instituições de 77 países, entre eles o Brasil, presente pela Cinemateca Brasileira (membro), Arquivo Nacional (associado) e a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM (associado). Cinemateca Brasileira Surgida a partir do Clube de Cinema de São Paulo que fora criado em 1940, fechado durante o Estado Novo e re-inaugurado em 1946, a Cinemateca Brasileira filiou-se à FIAF em 1948, denominando-se como tal em 1984 vinculada ao Ministério da Educação pela Secretaria do Audiovisual. Está sediada desde 1992 no terreno

do antigo matadouro da cidade de São Paulo que possui uma área de 24 mil metros quadrados e que tem parte de suas edificações tombadas pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo. A Cinemateca Brasileira conta atualmente com maior acervo de imagens em movimento da América Latina, formado por cerca de 200 mil rolos de filmes, que correspondem a 30 mil títulos. Estão presentes no acervo, desde preciosidades que datam de 1985 até a herança de 80.000 rolos de filme 16 mm da extinta TV Tupi, passando pela documentação pessoal de cineastas e críticos brasileiros, pelo grande acervo de livros e documentos de Paulo Emílio Salles Gomes e o arquivo fotográfico composto por mais de 50 mil peças além de um conjunto de documentos e uma biblioteca especializada em cinema disposta ao público. Além de centro de referência na preservação pelo tamanho de seu acervo, a Cinemateca Brasileira é ainda referência pelo seu trabalho de restauração realizado por seu laboratório desde 1978 e que possui como uma de suas atividades permanentes: “a restauração de filmes do acervo em estado avançado de deterioração, a transferência de materiais em suporte de nitrato de celulose para suporte de segurança (poliéster) e a confecção de cópias (matrizes ou reproduções para empréstimo).13” O Laboratório de Restauração da Cinemateca trabalha ainda em diversos projetos em parceria com outras entidades, produtores ou pesquisadores como a restauração digital da filmografia de Joaquim Pedro de Andrade, a restauração analógica de Limite, do acervo Glauber Rocha e de filmes da Cinédia.

12  INTERNATIONAL FEDERATION OF FILM ARCHIVES. FIAF, the International Federation of Film Archives, brings together the world’s leading institutions in the field of moving picture heritage. Disponível em: <http://www.fiafnet.org/uk/whatis.cfm>. Acesso em: 01 set. 2010.

13  CINEMATECA BRASILEIRA. Restauração. São Paulo, 2010. Disponível em: <http://www.cinemateca.com.br/>. Acesso em: 01 set. 2010.

37


Cinemateca do Museu Rio de Janeiro – MAM

de

Arte Moderna

do

acelerado depósito de matrizes e cópias de filmes brasileiros e estrangeiros e que possui ainda o

A Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro surge a partir da união

acervo de Domingos de Oliveira, de David Neves, de Carlos Mossy, Bressane entre outros.

do Centro de Cultura Cinematográfica com o Departamento de Cinema do MAM, criado em 1955 e filiado à FIAF em 1956, no entanto essa

Apesar de possuir atualmente somente

união só vem a ter um espaço físico em 1958

três instituições filiadas à FIAF, o Brasil conta com

com a inauguração do prédio próprio do Museu

diversos outros acervos, cinematecas, pequenos

de Arte Moderna do Rio de Janeiro no Aterro do

arquivos e iniciativas ligadas à memória cinema-

Flamengo, junto à Baía de Guanabara.

tográfica. Em 2010, associado à realização da 5ª

38

Outras Iniciativas

Instituição fundamental e referência

Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP,

tanto na preservação e restauração quanto na

ocorreu o 5º Encontro Nacional de Arquivos e

construção do cinema brasileiro a Cinemateca

Audiovisuais Brasileiros, que contou com a pre-

do MAM, ministra cursos desde 1964 onde teve

sença de mais de 88 profissionais representan-

como professores Ruy Guerra, Gustavo Dahl,

do mais de 55 arquivos. Na terceira edição do

Barthô de Andrade e como alunos Antônio

encontro houve a criação da ABPA – Associação

Calmon, Arthur Omar e João Luiz Vieira, entre

Brasileira de Preservação – entidade que visa

outros. Além desses cursos que formaram

promover a valorização, o aperfeiçoamento e a

o corpo de profissionais ligados à produção

difusão do trabalho de preservação audiovisual

cinematográfica, a estrutura da cinemateca

e que constitui passo importante rumo à valo-

compôs de forma direta essa produção ao ter

rização do patrimônio audiovisual brasileiro que

montado dentro de suas instalações filmes como

corre risco iminente de desaparecimento. Den-

“Macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade e “O

tre várias dessas iniciativas brasileiras, todas as ci-

Anjo Nasceu” de Júlio Bressane entre outros.

tadas a seguir estiveram presentes na 5ª CineOP,

A Cinemateca do MAM conta atualmente com mais de 40 mil rolos, número que já foi bem

excetuando-se somente a Fundação Cine Memória do Distrito Federal.15

maior no passado. Em 2002, após a decisão de que o museu não tinha condições de arcar com os gastos da cinemateca, foi feita a devolução aos

Cinemateca de Curitiba

Criada em abril de 1975, no antigo Museu

produtores e doações a outras cinematecas de

Guido Viaro, se destacou pela pesquisa e recupe-

diversos filmes que compunham o acervo que

ração dos primeiros filmes paranaenses. Desde

chegou a contar com apenas 28 mil rolos que um

1998 atua em uma nova sede com espaço com-

dia chegaram a somar 70 mil. Após uma mudança

patível ao tamanho do acervo, acesso aos docu-

na diretoria da instituição e de um investimento de mais de 500 mil reais pelo BNDES, a Cinemateca do MAM teve condições de realizar uma reforma e ampliar seu maquinário

e presenciou um

14

14  BRAGANÇA, Felipe. Barulho na Cinemateca (“filme ocupa espaço, e tem cheiro!”). Revista Cinética: Ci-

nema e crítica. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: <http:// www.revistacinetica.com.br/visitamam.htm>. Acesso em: 01 set. 2010. 15 ��������������������������������������������� ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL. Ata da Terceira Assembléia  Geral. Associação Brasileira de Preservação Audiovisual: constatação do risco iminente de desaparecimento desse Patrimônio. Disponível em: <http:// abpablog.wordpress.com/>. Acesso em: 01 set. 2010.


variedades

mentos e para as mostras de cinema, sede que foi

de Curityba” e “Carnaval de Curityba”, realizados

reformada em 2007 com a restauração do prédio,

por Annibal Requião nas duas primeiras décadas

a aquisição de novos equipamentos e melhorias

do século XX e “Desfile do Tiro Rio Branco” de

dos já existentes.

1910, de Paschoal Segretto. Outro ponto de des-

A Cinemateca de Curitiba, além das atri-

taque é o apoio ao surgimento de novos cineas-

buições de preservação, pesquisa e documenta-

tas, como Fernando Severo, os irmãos Wagner e

ção oferece cursos de cinema, além de promover

Nivaldo Lopes, entre outros.

mostras, seminários, palestras, debates e a exibição de filmes. Possui vasto acervo filmográfico, composto por cartazes, periódicos, uma coleção de equipamentos cinematográficos com perto de

Centro de Referência Audiovisual Horizonte

de

Belo

O Centro de Referência Audiovisual –

50 peças, vídeos, entre outras raridades, disponí-

CRAV – de Belo Horizonte foi criado em 1992

veis a pesquisa, consulta e visitação16.

criado pela Prefeitura de Belo Horizonte, in-

Destaca-se pela preservação das primei-

tegrado à Secretaria Municipal de Cultura e

ras obras de cinema do Paraná como “Panorama

desde 2005, funciona como unidade da Fundação Municipal de Cultura. Teve sua atual sede

16  Fundação Cultural de Curitiba.Cinemateca de Curitiba.Curitiba,

PR, 2010. Disponível em: <http://www.fundacaoculturaldecuritiba. com.br/espacos-culturais/espaco/cinemateca-de-curitiba>. Acesso em: 01 set. 2010.

inaugurada em 2008 num imóvel constituinte do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte


exemplo da arquitetura residencial da década

quais ele nunca se desfez estão dispostas em sua

de 1920.

casa-museu onde se pode encontrar desde re-

A instituição se propõe não somente à preservação e pesquisa, mas também à capacita-

Diabo na Terra do Sol” e uma moviola18.

ção e difusão da memória e da cultura cinema-

É interessante notar como o acervo trás con-

tográfica. Conta com acervo de filmes, vídeos e

sigo toda a história da produção cinematográfica

mídia digital acondicionados em salas climatiza-

da cidade de Brasília, tanto por poder contar com

das, salas para cursos e exibições além de ser-

o relato do pioneiro mantenedor da fundação e

viços técnicos de captura, tratamento, edição,

que é parte integrante dessa produção quanto

pós-produção, masterização e copiagem de do-

pela grande quantidade de peças que compõe

cumentos audiovisuais.

essa memória cinematográfica brasiliense.

40

vistas e fotos, a um cartaz original de “Deus e o

No acervo constam contribuições de fa-

O mais importante é, no entanto a necessida-

mílias de Belo Horizonte e de outras cidades

de que se percebe de que haja um espaço ade-

de Minas Gerais, telejornais e reportagens do-

quado para a preservação e compartilhamento

ados pela Rede Globo, além do documentário

de todo esse rico acervo que coloca de forma

“Reminiscências” de Aristides Junqueira, feito em

tão próxima a história ainda em formação

Belo Horizonte no período de 1909 a 1924, “O

do cinema brasiliense e que se mistura com

Despertar do Horizonte” de Zoltan Gluek, com

a própria vida de Vladimir Carvalho. Ao se ter

imagens de várias épocas da capital mineira no

contato com essa iniciativa apesar da impres-

século passado e uma cópia de “Minas Antiga”,

são positiva, de se ter a história de maneira tão

filme que reúne imagens documentais de Igino

próxima e de poder ser ainda parte integrante

Bonfioli

dessa história, paradoxalmente percebe-se o

. 17

quanto é necessária a criação de um espaço próFundação CineMemória Criado em 1994, a fundação CineMemória

prio, dentro da cidade de Brasília, para o cuidado e difusão dessa cultura cinematográfica19.

consiste no acervo do cineasta Vladimir Carvalho,

Ainda no Distrito Federal contamos com a

mantido com recursos próprios e que está todo

preservação da memora cinematográfica presen-

disposto em sua casa, em Brasília. Todo o tipo de

te, ainda que de forma não especializada e por

artigo referente à longa carreira do cineasta dos 17  FUNDAÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA, Centro de referencia audiovisual. CRAV preserva memória audiovisual de Belo Horizonte. Prefeitura de Belo Horizonte. Minas Gerais, 2010. Disponível em: < http://portalpbh.pbh.gov.br/ pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxono miaMenuPortal&app=fundacaocultura&tax=6761&lang=pt_ BR&pg=5520&taxp=0&>. Acesso em: 01 set. 2010.

18  FOSTER, Lila. Memória do cinema brasiliense. Revista Cinética: Cinema e crítica. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: < http://www.revistacinetica.com.br/memoriadf.htm >. Acesso em: 01 set. 2010. 19  CALDAS, Éderson;TARSO, Sávio.Vladmir Carvalho. Cine documenta: 6º Mostra de Documentário de Ipatinga. Disponível em:< http://www.cinedocumenta.com.br/homenagem.html>. Acesso em: 01 set 2010.


variedades

vezes apenas pontual, nos seguintes arquivos: Ar-

quivo Público do Distrito Federal, Câmara dos

obras, que já conta com 17 filmes, a Cinédia den-

Deputados, EBC – Empresa Brasil de Comuni-

tro de sua atual proposta de transformação de seu

cação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas

espaço em um centro cultural, também se prepara

Educacionais Anísio Teixeira – Inep, Ministério da

para digitalizar seu imenso acervo de documentos

Educação – MEC, Radiobrás, TV Nacional de Bra-

composto por fotos, roteiros e diários de filmagens

sília, TV Senado, Universidade de Brasília – UnB.

além de ministrar cursos e palestras sobre cinema.

20

Além do trabalho de restauração de suas

Cinédia Nome que traz consigo o peso de ter com-

Conclusão

posto a história do cinema brasileiro, data de

1930 quando foi fundada pelo jornalista Adhemar

um país, necessita de um tratamento digno a

Gongaza. Tendo passado por bons e maus mo-

sua grandeza cultural. Porém esse valor não está

mentos, por diferentes formas de funcionamen-

presente como deveria, tanto nas instituições,

to e por diferentes endereços, uma das maiores

quanto na população. Falta a disseminação desse

referências cinematográficas nacionais e pionei-

conhecimento e principalmente, cuidado adequado

ra na industrialização do setor no país, continua

a esses suportes. Falta reconhecimento e incentivo

existindo até os dias de hoje.

para as políticas de preservação e principalmente

Agora locada num casarão histórico em Santa Teresa, no Rio de Janeiro a Cinédia se volta

O filme, como documento histórico de

financiamento das autoridades governamentais.

É lamentável que o Brasil tenha perdido

para a preservação e restauração de seus filmes: tantos documentos tão importantes para sua 55 foram produzidos entre 1930 e 1952. Dentre identidade, e que mesmo assim não adote uma as obras restauradas estão “Bonequinha de Seda” postura mais proativa nessa questão. de 1936, de Oduvaldo Vianna, considerada a pri-

meira superprodução nacional, mas que ficou so-

filmes são primordiais para o desenvolvimento

mente apenas cinco semanas em cartaz no Cine

da memória audiovisual do Brasil. O avanço da

Palácio por imposição de estúdios estrangeiros e

tecnologia é uma ferramenta aliada à preservação,

“O Ébrio” de 1946, de Gilda de Abreu, que per-

que deve ser utilizada baseando-se na consciência

maneceu 35 anos em cartaz e é uma das maiores

da importância desse acervo fílmico para a nação.

bilheterias do cinema nacional até hoje .

21

20  ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS. Arquivos e acervos audiovisuais brasileiros. In: 5a MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO; jun. 2010. Universo Produção / Instituto Universo Cultural (org.) - Coordenação Geral: Raquel Hallak d’Angelo. Belo Horizonte, Universo Produção, 2010, p.114-117. 21  CINÉDIA. Instituto para a preservação da memória no cinema brasileiro. Disponível em:<http://www.cinedia. com.br/cinedia.html>. Acesso em: 01 set. 2010.

A digitalização e a conservação desses

Esperamos que o número de películas

destruídas pela falta de cuidados em seu manuseio e armazenamento diminua, e que as iniciativas que tentam evitar que isso aconteça se aperfeiçoem e permaneçam firmes no objetivo de zelar pelo cinema brasileiro.

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César Roberto /Aluno de Biblioteconomia UnB

Como é formada a cultura universitária na Universidade de Brasília? Qual a contribuição da relação de vários alunos de regiões diferentes na universidade? Esta é uma questão difícil de responder, pois envolve fatores e circunstâncias diversificadas. Sendo que a universidade é um lugar de interação social representando muito mais do que um lugar para estudos acadêmicos, e na verdade é uma escola para a vida, onde os jovens têm que se esforçar para estar inserido na vida acadêmica de uma universidade reconhecida no Brasil. 42

Foto: César Roberto


VARIEDADES

A UnB reflete a formação cultural de Brasília, onde pessoas dos mais distantes lugares do nosso país escolheram para criar suas famílias, moldando-se ao ambiente no planalto central e crescendo junto com a capital federal. Uma universidade diversificada como a UnB que possuí cerca de 27 mil alunos, sendo que uma grande parcela dos alunos vieram de fora de Brasília, construindo um espaço rico de interação e aprendizagem. A universidade é um espaço que comporta vários tipos de identidades num só local fazendo com que haja uma interação entre essas diferenças culturais, essa interação é feita na sala de aula, no ônibus, nas republicas onde for possível o encontro inevitável dos alunos, principalmente na Universidade de Brasília que possui alunos de diversos estados do Brasil. Esses alunos com seus sotaques e comportamentos vão modificando o ambiente universitário, pois trazem de suas terras as tradições e o modelo de comportamento da região de origem. O conceito de viajante que representa bem o estrangeiro que vem estudar na UnB dito pela socióloga e professora da Universidade, Maria Francisca: “O estrangeiro aqui não é viajante que chega hoje e parte amanhã, mas a pessoa que chega hoje e amanha fica”. Mostrando assim que muitos não vêm só de passagem para formação acadêmica, mas que muitos acabam ficando para formação de uma vida profissional e

familiar na cidade. Os jovens procuram a cidade por proporcionar um maior leque de oportunidades de trabalho para profissionais formados, onde o serviço público é o mais procurado, mas, chegando aqui percebem a complexidade da difícil adaptação em relacionar com pessoas de lugares diversificados. Brasília recebe muitas vezes o clichê de cidade “fria”, onde não se fala bom dia e não tem uma cultura como nas cidades mais antigas do país, onde os moradores desde de muito tempo já tem um convívio familiar criado por gerações, como na capital as gerações estão em formação as pessoas de fora sente essa diferença com sua cidade de origem. Então a UnB nos mostra a importância dos alunos da universidade, onde o convívio nesse ambiente pode nos proporcionar aprendizagem e conhecimento com as amizades e relacionamentos efetuados no espaço de formação profissional. As interações sociais na Universidade proporcionam ao jovem o respeito ao estudante de outras localidades e vence o preconceito com pessoas de outras regiões, o dia a dia vai mostrar que a região de origem não decide caráter, tornando o aprendizado não só dentro de sala de aula ministrada por professores, mas no convívio.

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Henrique Mascarenhas Sertão/ Aluno de Biblioteconomia UnB

JUSTIFICATIVA (determinativos)

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Este texto tinha como objetivo principal elaborar uma cronologia da história da escrita a partir dos capítulos 1 e 2 de ‘História da Escrita’ de Steven Roger Fisher, como objeto para avaliação da disciplina História dos Livros e das Bibliotecas – FCI/UnB-2011-2. Como eu, o autor, fujo e escapo das cronologias históricas e evito falar em A história preferindo falar em uma história por entender que história é plural, decidi então, a partir da leitura dos capítulos acima mencionados e das aulas, que seria mais sincero, divertido e espontâneo – porém refletido e pensado - falar sobre uma história da escrita à luz da sinestesia, ideia tão rica em si mesma e pouco explorada. Evito assim cair em qualquer explicação materialista, etapista ou econômica, na verdade evito cair em qualquer tipo de explicação, pois o presente texto, que se parece um pouco com um ensaio mas não é, não pretende explicar nada. Quis escrever com prazer, apenas. Posso comparar essa justificativa com os determinativos (logogramas de identificação) imagem em si. dos antigos hieróglifos egípcio, é claro que só vale a ideia de determinativo, não a imagem em si.


VARIEDADES

O estilete é a droga oficial dos antigos escribas. Num mundo como o de hoje, com esta obsessão pela organização do conhecimento, colocar cada coisa em seu devido lugar para talvez posteriormente achar uma informação, economizando tempo, parece absurdo alguém defender a bagunça como algo normal, diria até: natural. Pelo princípio lógico da identidade, A = A. Se existir uma pessoa que não considere A = A, não conseguiríamos sequer conversar. A aparente universalidade do princípio da identidade pode esconder uma imposição sutil de como deveríamos pensar as coisas. Ainda bem que Aristóteles já é refutável, assim nos sentimos menos culpados ao não concordar com as ideias dele. Da mesma maneira que estabelecemos padrões para nos comunicar, por exemplo, ao se referir a uma cadeira verde direi: “a cadeira verde”, a pessoa ao meu lado saberá que estarei falando da cadeira verde e não da branca ao lado. Mas como posso saber se o outro sujeito percebe a cor como eu percebo a cor? Só posso ter fé que percebemos o “mesmo”, nunca comprovação nem convicção, muitos indícios me dirão que o “outro” percebe o “mesmo” mas nunca terei certeza. Temos a filosofia, a biologia, a medicina e principalmente a neurociência e até a neuropsicologia, todas elas com uma fauna rica de afirmações sobre a percepção humana. Digo que há os sentidos (que sejam seis ou cinco não importa), e para ser um sentido eu tenho que ter um estímulo percebido por alguma parte do corpo, este estímulo é então processado e devolvido à razão para que eu possa tomar consciência dele. Cada sentido no seu lugar

certo! O olho corresponde à visão, o ouvido corresponde à audição, etc.. O problema surge quando nos deparamos com a sinestesia. Como posso sentir o gosto da cor azul ou sentir o cheiro de uma música? Não há problema nisto, basta classificarmos, e o que não é normal só pode ser uma anomalia. Com efeito, se alguma pessoa percebe o gosto do azul ela tem algum problema sem dúvida, talvez tenha usado drogas. Não é bem assim. As histórias da escrita humana parecem apontar (mesmo sem dizerem) que a sinestesia foi o salto para a chamada escrita completa. Há algum absurdo em dizer que escrevemos o som? Uns dirão que é só uma representação gráfica. Mas esta afirmação não contradiz a sinestesia que perpassa todo o problema da escrita. Como conceber olhar para a palavra “trem” e não ler trem? Há pessoas que quando leem movem a boca como se estivessem “dizendo” a imagem que veem. Quando falamos, escutamos nossa própria fala que reverbera em nossa caixa craniana. Mesmo quando ficamos de boca fechada ao ler algo, temos a impressão que estamos “dizendo em silêncio”. Assim, ler é escutar, e a relação A = A já é questionável levando-se em conta a sinestesia. Sinestesia seria a hipótese da “mistura” dos sentidos, algo como se nosso cérebro fosse um tanto quanto lisérgico naturalmente. Podemos conceber agora a grandiosíssima ideia de representar sons articulados da fala humana por meio de sinais gráficos em um suporte durável para ser lido posteriormente (escrita completa). Aqui se frisa a parte: “ser lido posteriormente”. A escrita se completa e se verifica enquanto escrita quando

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existe a figura do sujeito que lê. Se um escriba sumério qualquer escreve algo qualquer sem que ninguém nunca viesse a ler, o simples ato de ele ter escrito não se caracterizaria como escrita, uma vez que o ato se encerraria na própria pessoa, sendo assim não seria algo universal de domínio do humano. Toda incursão ao passado é perigosa quando tentamos considerar as coisas a partir do ponto de vista do presente(que já não é), que por si só já é um ponto de vista plural. Podemos incorrer em anacronismo ao generalizar as considerações sobre o passado. Por isso pensar a escrita como é hoje e transporta-la ao passado seria anacrônico. Achamos então mais interessante fazer uma leitura da história da escrita sob o viés da sinestesia como fator impulsionante para se estabelecer a escrita como conhecemos hoje.

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Afirmamos no começo que o estilete é a droga oficial do antigo escriba. O estilete representa um meio para se atingir um estado alterado de percepção da realidade, que assim já não é tão mais real quanto parecia. Com uma percepção “alterada” (alterado no sentido de que existe uma suposta percepção padrão normal), poderia haver, por parte da pessoa alterada, uma vontade de compartilhar e comunicar o estado de percepção em que se encontra, para tanto, faria uso do estilete, estilete como símbolo da ferramenta, qualquer que seja, que auxilia na representação da ideia, e ao mesmo tempo como portal de passagem a um estado outro. Com o estilete eu posso aprisionar o som em um sinal gráfico, não parece mágica? Hoje, com os processos industriais e as mais diversas banalizações da sociedade, a pena (outrora estilete) parece banal, parece-nos banal escrever o que for. Hoje temos a mais completa demonstração da sinestesia possibilitada pelo instrumento de escrita quando consideramos o computador como o estilete moderno. Usamos dez dedos para escrever ao teclado e não mais uma só mão. O computador emite sons e imagens sinestesicamente misturados. Os matizes de cores se confundem. A câmera da máquina ‘’vê’’. Tudo armazenado nela mesma, na máquina. Por isso uma droga. A máquina nos tira do “real” e produz uma imagem distorcida com a qual interagimos como se fosse a coisa mais natural do mundo, nos relacionamos por meio de voz e vídeo com pessoas distantes fisicamente. A força

mecânica que realiza trabalho é quintessênciada e transforma-se em força informacional que movimenta o mundo sem tirá-lo do lugar. Disto tudo somos apenas herdeiros dos antigos escribas sinestésicos que tinham o dom de misturar e confundir os sentidos; conseguiam ver o som e escutar a imagem, ou seja, eram alfabetizados (no sentido moderno) e deixaram sua marca no que dizemos ser o moderno. Ou seria contemporâneo? Do estilete à navalha do malandro, seus portadores eram temidos. Visto até mesmo como seres dotados de habilidades especiais. A navalha do malandro tem o poder de marcar a pele, ferir, sangrar. Matar. Sulcos profundos numa pele intacta que rompem as veias fazendo-se escutar os urros vermelhos pelos olhos angustiados daquele que vê sua vida escorrendo triste pela jugular que aos poucos para de pulsar. Perto do pescoço barbeiros também utilizam o símbolo civilizatório do estilete transformado em navalha para diminuir os pelos, símbolo dos animais, quem sabe numa tentativa de se olhar no espelho e esquecer da parte animal que cresce sempre no rosto, cujo contato com a fêmea pinica a pele da mulher que não quer incômodo sensorial na cútis. O estilete nos humaniza. Diferencia-nos dos animais. Somos inteligentes. Escrevemos. A droga nos socializa. Diferencia-nos do real. Somos inconsequentes. Escrevemos. Atrevemonos a dizer que Deus colocou o ponto final na história dos dinossauros terrestres quando, com Seu estilete-meteoro divino, talhou a face desta tabuinha de argila imensa que é a Terra.

Escher. Drawing hands.


VARIEDADES

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CEDOC/UnB

Artur Litran – 06/79569 Bruno Leonel – 06/80311 Jullyana Borges - 09/0027141 Pedro Lemos – 08/38527 Rodrigo Sobrinho - 08/40211 Vicente Rodrigues- 05/24743

Foto: Nayla Ramalho

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VARIEDADES INTRODUÇÃO Destinar atenção às necessidades do usuário é fundamental no âmbito do desenvolvimento das atividades dos arquivos tendo em vista que a função social destes é tornar a informação acessível e disponibilizá-la ao usuário. Os Estudos de Usuários tem adquirido importância gradativa com o passar do tempo, com o desenvolvimento dos estudos na área e com a disseminação de informação. Tornando-se indispensável destinar atenção à necessidade dos usuários. Percebe-se atualmente que os estudos de usuários possuem uma postura mais analítica e avaliativa buscando realmente identificar o perfil do usuário para desenvolver atividades e instrumentos de pesquisa voltados para o que este necessita. Desta forma pretendemos com este trabalho delinear o perfil do usuário do Centro de Documentação da Universidade de Brasília e propor melhorias nas rotinas e atividades do arquivo. HISTÓRICO O Centro de Documentação da Universidade de Brasília CEDOC/UnB O Centro de Documentação da Universidade de Brasília - CEDOC, foi criado provisoriamente como CEDAQ (Centro de Documentação e Arquivo da Universidade de Brasília) em agosto de 1986, pelo Ato da Reitoria n.º 345/86 e constituído com o nome de Centro de Documentação - CEDOC pelo Ato da Reitoria n.º 596/88, de 24 de outubro de 1988. O CEDOC é um órgão de assessoramento da Administração Superior da Universidade de Brasília. Ele tem por finalidade recolher, preservar e garantir o acesso aos documentos arquivísticos produzidos e acumulados pelas áreas meio e fim da Fundação Universidade de Brasília - FUB, bem como aos bens culturais históricos, constituindo-se em instrumento de apoio à administração, à

cultura, à história e ao desenvolvimento científico e tecnológico, de acordo com os interesses da Universidade. COMPETÊNCIAS Compete ao CEDOC: • Propor e executar uma política de gestão e preservação dos documentos das áreas meio e fim da UnB e de preservação dos bens culturais, articulando-se com as unidades da Universidade; • Gerenciar acervos documentais e de bens culturais, cuidando de suarestauração, organização, conservação, eliminação e difusão; • Custodiar a documentação produzida e/ou recebida pela UnB; • Manter intercâmbio cultural e de cooperação técnico-científica com instituições congêneres; • Prestar serviços de assessoria e/ou consultoria a unidades da Universidade no que se refere à gestão, restauração e conservação de documentos; • Elaborar seu Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e encaminhálo à Secretaria de Planejamento (SPL) da UnB; • Atuar como laboratório de pesquisa e prática nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, atendendo às unidades acadêmicas; • Aplicar tecnologias na área de restauração e conservação documental e oferecer treinamentos na área; • Apoiar e desenvolver projetos de pesquisas; • Oferecer cursos de extensão; • Promover atividades de extensão; • Coletar semestralmente as informações sobre as atividades desenvolvidas por cada Coordenação para fins de elaboração do Relatório de Atividades do CEDOC; • Realizar o acompanhamento orçamentário do CEDOC.

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ESTRUTURA ORGANIZACIONAL O Centro de Documentação da Universidade de Brasília – CEDOC possui a seguinte estrutura administrativa:

• Julgar recursos e resolver casos omissos.

• Conselho Deliberativo;

Diretoria

• Diretoria; • Coordenação Administrativa;

São competências da Direção do CEDOC:

• Coordenação de Conservação e Restauração;

• Representar o CEDOC na UnB e fora dela;

• Coordenação de Pesquisa Histórica; • Coordenação de Arquivos;

• Superintender, coordenar e fiscalizar o funcionamento do Centro;

• Seção de Fotografias;

• Convocar e presidir reuniões do CD-CEDOC;

• Serviço de Microfilmagem.

• Zelar pela observância do Regimento Interno do CEDOC e dar execução às resoluções do CD-CEDOC;

Conselho deliberativo

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• Referendar e acompanhar a alocação dos recursos orçamentários do CEDOC, e;

O Conselho Deliberativo é a instância máxima de decisão do CEDOC e será composto pelo Diretor do CEDOC, pelos Coordenadores de cada área, pelo Gerente de Microfilmagem, um representante do corpo técnicoadministrativo e um representante do corpo discente.

• Coordenar as competências do CEDOC previstas no Regimento Interno; • Designar coordenadores e gerente de acordo s normas da Universidade; • Apoiar às coordenações e zelar pela regularidade do funcionamento das mesmas;

• São competências do Conselho Deliberativo do CEDOC:

• Acompanhar o planejamento e monitorar a execução de atividades e projetos de trabalho;

• Elaborar e aprovar o Regimento do Centro e suas modificações;

• Decidir ad referendum sobre situações de emergência ou de excepcionalidade do CD-CEDOC, submetendo as suas decisões à aprovação do Colegiado em reunião subseqüente;

• Promover e conduzir a eleição do Diretor do CEDOC; • Aprovar programação anual de trabalho; • Apreciar e decidir encaminhar as propostas de criação de Cursos de Treinamento e de Extensão; • Aprovar o Plano de Desenvolvimento Institucional; • Avaliar o desempenho dos projetos desenvolvidos pelo CEDOC; • Analisar e decidir sobre incorporações ao acervo do CEDOC; • Criar comissões de trabalho permanentes e ad hoc, compostas por coordenadores e colaboradores das áreas;

• Gerir o corpo técnico-administrativo lotado no CEDOC, juntamente ���������������������� à Coordenação �������������������� Administrativa; • Gerir os recursos financeiros do CEDOC e seu plano de aplicação, e; • Informar ao CD-CEDOC a movimentação financeira do CEDOC. Coordenação Administrativa A Coordenação Administrativa tem por objetivo atender com qualidade e eficiência às demandas administrativas do público interno e externo, e suas competências são:


VARIEDADES • Desenvolver as atividades de gerenciamento de material e bens móveis, comunicação, documentação, serviços gerais e recursos humanos;

• Atuar, junto à Coordenação de Arquivos, na construção de instrumentos de pesquisa para difusão do acervo;

• Apoiar administrativamente a Direção e o CD-CEDOC;

• Promover a extensão do conhecimento à sociedade por meio da organização de eventos e exposições temáticas;

• Participar dos processos de gestão de desempenho dos colaboradores; • Zelar pelo espaço físico providenciando a conservação e manutenção das instalações, controle do sistema de vigilância e utilização racional dos espaços, e; • Operar os sistemas corporativos da Universidade. Coordenação de Conservação e Restauração Coordenação de Restauração e Conservação tem por objetivo propor políticas de preservação e atuar na restauração de documentos e obras de arte em suporte papel, e suas competências são: • Oferecer cursos de restauração e conservação para as comunidades interna e externa; • Oferecer treinamentos em parceria com outras unidades da UnB; • Participar da Comissão Permanente de Bens Culturais (CPBC); • Atuar como laboratório de pesquisa e prática nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, atendendo às unidades acadêmicas; • Desenvolver atividades referentes a convênios celebrados entre a UnB e outras instituições públicas e privadas, e; • Manter intercâmbio técnico e cultural com entidades correlatas na sua área de atuação. Coordenação de Pesquisa Histórica A Coordenação de Pesquisa Histórica tem por objetivo atuar em estudos de investigação histórica sobre os diferentes processos que colaboraram para a criação e consolidação da UnB, bem como seu desenvolvimento, e suas competências são:

• Avaliar e receber doações de arquivos privados de interesse da Universidade, mantendo-os sob custódia do CEDOC, disponibilizandoos ������ à����� consulta pública; • Desenvolver metodologias adequadas à pesquisa científica histórica; • Operar como órgão especializado de apoio à pesquisa, e; • Manter intercâmbio técnico e cultural com entidades correlatas na sua área de atuação. Coordenação de arquivos A Coordenação de Arquivos é responsável por desenvolver a política arquivística da Universidade de Brasília, assessorar as áreas acadêmicas e administrativas em assuntos referentes à gestão da documentação orgânica e favorecer o acesso à informação arquivística. Também é de sua responsabilidade a guarda da documentação intermediária e permanente produzida e recebida pelos setores da UnB. A Coordenação presta atendimento aos usuários em geral, recebe visitas técnicas de alunos e pesquisadores, oferece estágios nas áreas de Arquivologia, História e Administração para alunos bolsistas. Sedia e participa das atividades da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos da UnB – CPAD/UnB, e representa a Universidade no Sistema de Gestão de Documentos de Arquivo - SIGA, da Administração Pública Federal que organiza, sob a forma de sistema, as atividades de gestão de documentos de arquivo no âmbito dos órgãos e entidades da Administração Pública Federal.

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Acervos

Fundo FUB:

A Coordenação de Arquivo possui sob sua guarda documentos que podem ser consultados no local pelos interessados. Entre os acervos sob sua guarda estão:

• Diretoria de Administração Acadêmica – DAA;

Fundo FUB:

• Serviço de Compras Internacionais - SCI.

• Diretoria de Contabilidade e Finanças – DCF; • Diretoria de Recursos Humanos – DRH; • Serviço de Compras Nacionais – SCN;

• BCE • Gabinete do Reitor – GRE; • Vice-Reitoria – VRT; • Assessoria de Segurança e Informação – ASI; • Decanato de Ensino de Graduação – DEG; • Decanato de Extensão – DEX; • Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação – DPP; • Procuradoria Jurídica – PJU; • Restaurante Universitário – RU/DAC;

Coordenação de Restauração e Conservação tem por objetivo propor políticas de preservação e atuar na restauração de documentos e obras de arte em suporte papel. Atendendo basicamente a Biblioteca Central – BCE na restauração de livros e documentos históricos.

• Secretaria de Comunicação – SECOM;

Pesquisa Histórica

• Secretaria de Órgãos Colegiados – SOC;

A Coordenação de Pesquisa Histórica tem por objetivo atuar em estudos de investigação histórica sobre os diferentes processos que colaboraram para a criação e consolidação da UnB, bem como seu desenvolvimento. Dispondo de um acervo de documentos e livros direcionados a historiadores e pesquisadores.

• Setor de Convênios – SCO. 52

Conservação e Restauração

SERVIÇOS DESTINADOS AO PÚBLICO Assistência técnica Visitas e orientações técnicas quanto à gestão dos documentos setoriais podem ser solicitadas através do preenchimento do formulário anexo, contato telefônico ou e-mail.

Serviço de microfilmagem O Serviço de Microfilmagem é diretamente vinculado à Coordenação de Arquivos. A ele compete desenvolver a política de microfilmagem, atender ���������������������������� à demanda �������������������������� por redução de espaço de armazenamento de documentos, armazenar, manter e recuperar dados microfilmados, atender e orientar os usuários quando na busca e consulta de documentos, enquanto permanecerem em processo de microfilmagem. Entre os acervos microfilmados podemos citar:

Escadas - Escher


VARIEDADES GRÁFICOS

Sexo Qual o percentual dos usuários são do sexo masculino e ou feminino. Verifica-se que a maioria é do sexo feminino. Feminino: 63,63% Masculino: 36,36%

Faixa Etária Qual a idade média dos usuários dos serviços do CEDOC. Verifica-se que a maioria se encontra com mais de 40 anos. 18 aos 25 anos: 18 % 26 aos 30 anos: 27% 30 aos 35 anos: 9 % Mais de 40 anos: 46%

Escolaridade Qual o grau de escolaridade dos usuários do CEDOC. Não foram identificados usuários com formação inferior a superior incompleto.Verifica-se que a maioria é composta por pessoas com formação Superior Completa. Superior Incompleto: 36,36% Superior Completo: 63,64%

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Tipo de Serviço Solicitado Quais os serviços oferecidos pelo CEDOC são mais solicitados pelos usuários. No período da aplicação do questionário não foram demandados serviços de microfilmagem e todos os demais setores são demandados. Destacam-se em solicitações feitas o setor de Pesquisa Histórica e a Assistência Técnica que possui vários projetos em execução.

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Assistência Técnica: 22,22% Transferência: 11,11 % Recolhimento: 11,11% Pesquisa Fotográfica: 11,11 % Conservação e Restauração: 11,11% Pesquisa Histórica: 22,22 % Outros: 11,11 % (Consulta a documentos Administrativos)

Acervos mais consultados Quais são os acervos mais consultados dentro do CEDOC. Destaca-se o Gabinete do Reitor como o setor que mais demanda serviços ao CEDOC. Foi identificado que o fundo é composto em sua maioria por Atos da Reitoria. BCE: 16,66% Gabinete do Reitor: 41,66% Vice-Reitoria: 8,34% Procuradoria Jurídica: 8,34 % Setor de Convênios: 25%


VARIEDADES

Tempo de Atendimento Qual o tempo médio para atendimento das solicitações de serviços feitos ao CEDOC. Em sua maioria o atendimento é feito entre 15 a 30 minutos. De 6 à 10 minutos: 13,33% De 15 à 30 minutos: 46,67% 1 hora: 20% Retornou outro dia: 20%

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Meio de solicitação De que forma o usuário pode solicitar os serviços ao CEDOC. Foi identificado quea maioria das solicitações foram feitas por telefone e os documentos foram enviados aos setores solicitantes via fax. Internet: 9,52% Telefone: 47,61% Pessoalmente: 38,09%


CONCLUSÃO A partir dos dados colhidos após a aplicação do questionário e análise dos formulários de controle de empréstimos de documentos e formulários de consulta (pesquisa Histórica), podemos concluir que o perfil dos usuários do CEDOC é predominantemente de mulheres, com mais de 40 anos, com grau de escolaridade superior completo. Os serviços mais solicitados são a Assistência Técnica e a Pesquisa Histórica com os acervos mais consultados sendo em primeiro o do Gabinete do Reitor (o acervo deste setor é composto em sua maioria de Atos da Reitoria, por isso é mais demandado) e o Setor de Convênios em segundo.

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O tempo de atendimento é bastante satisfatório, na grande maioria dos casos foi de aproximadamente de 15 a 30 minutos, considerando que 85,70% dos pedidos são feitos pessoalmente na secretaria do setor ou por telefone (nestes atendimentos os documentos são enviados aos setores via fax). Contatou-se também a adequação do CEDOC as demandas dos usuários e modificações de layout foram efetuadas após a aplicação deste estudo, a Coordenadora do setor disponibilizou maior espaço para consultas e pesquisas e possibilitou ainda a questão da acessibilidade as instalações para “cadeirantes” e ou portadores de deficiências físicas, outro fato importante é que o sitio do CEDOC está sendo adaptado para atender aos usuários internos e externos com maior eficiência e eficácia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SITIO DO CEDOC, acessado em 03/01/2011: www.cedoc.unb.br MARIA, Lucia Velloso de Oliveira. O usuário como agente no processo de transferência dos conteúdos informacionais arquivísticos. Dissertação de Mestrado do programa de Pós-Graduação em Ciências da Informação- PPGCI, Universidade Fluminense. Rio de Janeiro, 2006. ARAÚJO, Carlos Alberto Ávila. Um mapa dos estudos de usuários da informação no Brasil. Em Questão, Porto Alegre,Vol. 15, No 1, p.11-16, jan./ jun. 2009. CUNHA, Murilo Bastos da.Metodologia para Estudo dos Usuários de Informação Científica e Tecnológica. Revista de Biblioteconomia de Brasília, Vol. 10, No 2, 1982. Disponível em <http://164.41.105.3/ portalnesp/ojs-2.1.1/index.php/RBB/article/ view/320/303>. Acesso em 13 ago. 2010.

CONTATOS Centro de Documentação da UnB – CEDOC Edifício Multiuso I - Bloco B - Térreo - 1º andar Campus Universitário Darcy Ribeiro - Asa Norte Brasília – DF Fones: (061) 3107-5863 / 3107-5801 Fax: (061) 3107-5862 Sítio: https://sau.unb.br/cedoc/ e-mail: cedoc@unb.br


VARIEDADES ANEXO 1

FORMULÁRIO PARA ESTUDO DE USUÁRIOS POR MEIO DOS SERVIÇOS PRESTADOSPELO CEDOC - UnB

Sexo - M/F: ( ) Qual é sua faixa etária? ( ) 18 aos 25 anos ( ) 26 aos 30 anos ( ) 30 aos 35 anos ( ) 36 aos 40 anos ( ) mais de 40 anos Qual seu nível de escolaridade? ( ) Analfabeto ( ) Fundamental incompleto ( ) Fundamental completo ( ) Médio incompleto ( ) Médio completo ( ) Superior incompleto ( ) Superior completo ( ) Outros: _______________________ Qual serviço é mais solicitado? ( ) Assistência Técnica ( ) Transferência ( ) Recolhimento ( ) Pesquisa Fotográfica ( ) Microfilmagem ( ) Conservação e Restauração ( ) Pesquisa Histórica ( ) Outros:_________________________

Qual acervo é mais consultado? ( ) Gabinete do Reitor ( ) Vice-Reitoria ( ) Assessoria de Segurança e Informação ( ) Decanato de Ensino de Graduação ( ) Decanato de Extensão ( ) Decanato de Pesquisa ( ) Procuradoria Jurídica - PJU ( ) Restaurante Universitária ( ) Secretaria de Comunicação ( ) Secretaria de Órgãos Colegiados ( ) Setor de Convênios ( ) Outros _________________________ Qual o tempo para atendimento as solicitações? ( ) aprox. 5 minutos ( ) 6 à 10 minutos ( ) 15 à 30 minutos ( ) 1 hora ou mais ( ) Teve que retornar outro dia. Quantos dias para o retorno?______________ Como são efetuadas as solicitações de serviço ao? ( ) Via internet ( ) Via telefone ( ) Pessoalmente () Outros:_____________________________ Obs.:__________________________________

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ANEXO 2

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VARIEDADES ANEXO 3

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Foto: Nayla Ramalho


Rafael Augusto -100132243/ Aluno de Pedagogia UnB

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Ferreira Gullar em seu texto “O quadro e o objeto”, discute sobre os aspectos que a eliminação do quadro como suporte da pintura pode acarretar (ou acarretou), sobre a arte da contemporaneidade. A falta de uma linguagem única é o que caracteriza esse período, onde cada obra tem sua auto-referencialidade exposta, ou seja, cada obra é uma linguagem. Ele aponta, então, três vértices da arte moderna que apontam para esse novo panorama na arte contemporânea: os cubistas, a arte conceitual de Duchamp e os surrealistas. Tudo a partir do momento em que os cubistas passam a usar o quadro para suportar não somente tinta, mas também colagens e outros adereços, transformando isso num novo objeto que surge a partir da pintura. O que começa com o simples fato de um objeto real integrar o espaço fictício do quadro (Gullar cita o exemplo do selo na natureza morta, de Picasso), passa a ser a textura do próprio quadro, ou seja, o que antes adornava com certo status , passa a ser elemento de figuração no próprio quadro. Com Duchamp, a coisa toma novos rumos. Motivado pelas experiências cubistas supramencionadas, objetos prontos e já existentes passam a integrar não um quadro, mas sim, o ambiente físico, rompendo não somente com o quadro como também com a escultura. A ruptura é tão brutal que o próprio Duchamp afirma (aqui Gullar usa aspas) que a arte está na intenção e não no trabalho do artista, em suma, o artista se torna um puro mentor intelectual da obra. Daí surge o uso do ready- made como o urinol-fonte, o expoente da obra Duchampiana. Elementos já existentes substituem o trabalho do artista, e, a partir daí, o artista não é mais necessariamente um artesão. No surrealismo, segundo Gullar, há uma abstração da linguagem pictórica até se eliminar de vez os objetos naturais e artificiais. Então, o que explica a substituição do quadro por objetos, são justamente os objetos deslocados de seu contexto lhe revelarem a forma e a estranheza. Para Gullar, essa abstração da linguagem levou ao extremo a pintura, em que se pintou um quadro branco sobre um fundo branco em que o artista se depara com a questão sem solução, pois a percepção se dá através dessa profundidade: eliminado o fundo, eliminada a moldura, o que sobra? Os limites do quadro, que ainda sim, terão a parede como fundo, se não for a parece, o mundo é o fundo, a moldura da obra. Logo, ao se deixar um quadro em branco assume-se assim

que o quadro em si é o objeto da pintura. Assim, como diz Gullar, a abdicação da pintura em tela provoca duas consequências: agir ou não fazer nada. O nada é a tela em branco. Agir significa produzir ações não estéticas da coisa (quebrar, por exemplo), uma forma de transcendência diferente da pintura.

A partir desse pensamento em que o quadro não é mais necessário, ele tornase dispensável, que, segundo Gullar, buscam transcender a condição das coisas que não dizem nada, ou dizem sua banalidade. Quando se elimina o processo de criação, elimina-se o artista e para ele, a arte é uma tentativa de transcender a realidade e não acrescentar mais banalidade à vida. Uma arte sem linguagem que tenta se comunicar; uma tentativa de se criar uma linguagem instantaneamente o que para Gullar é impossível. Embora para Ferreira Gullar as experiências cubistas não tenham tido o mesmo impacto de ruptura como as experiências de Duchamp, por exemplo, aplica-se a mesma regra de linguagem: o encontro fortuito. Outras obras que tentam romper com base nas experiências de Duchamp, não causam o mesmo impacto. A linguagem é sempre a ruptura, o ineditismo. Porém a obra em si não funda uma linguagem, só causa ruptura. Essa busca pelo ineditismo, segundo Gullar , leva o artista a um nível em que somente cria tolices. (Ferreira Gullar aqui deixa explícita uma influência de Kant no raciocínio, sobre a comunicabilidade mínima que uma obra precisa). Em resumo, Ferreira Gullar aponta que falta linguagem ou quantidade de significação ou ainda, riqueza simbólica, visto que a arte é um sistema de sinais e que, em obras de artistas que produzem segundo o processo de ruptura constante, coisas non sense, nem esse non sense representa algo. E como o próprio Gullar afirma, (mais uma vez sob influência de Kant, talvez): “A obra tem que ser o nosso dentro ali fora (...) a função do artista não é acrescentar objetos materiais ao mundo material, aliás, não é função de ninguém, quando se cria algo assim, cria-se apenas uma máquina, um artefato que encontra na sua utilidade, sua justificativa. O que não é nem expressivo nem útil, pode ser tomado apenas como brincadeira, atividade gratuita e lúdica.” GULLAR, F. Argumentação Contra a Morte da Arte. “O quadro e o obejto” 7ºEDIÇÃO.2004.Revan

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Percorrendo as páginas de alguns livros nos últimos meses fortaleceu-se na minha memória um incômodo: estaria a prática intelectual se atrofiando? Não é possível afirmar isso num ambiente acadêmico: cresce a cada ano o número de pesquisas científicas publicadas, a ciência não pára de se desenvolver, de se reinventar, de criar novas linhas de pesquisa. Contudo, o que me inquieta é outra coisa. Quero tratar do embrutecimento cultural, a perda de sensibilidade, o culto da rapidez e da eficiência, a atrofia do intelecto voltado ao cotidiano, voltado ao pensar a si mesmo, a vida e suas delicadezas. Quero criticar a rapidez que não permite o desenvolvimento consistente da memória e da criatividade do viver.

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Pensando lucidamente, não foi há muito tempo que a humanidade passou por algumas das maiores tragédias de todos os tempos: as guerras mundiais. Vivemos ainda sob a sombra desse século XX. O Século do animal humano transcendido pela vida. O Século dominado pela paixão pelo real. O mesmo século em que se colocou o paradigma da guerra definitiva (a que trará paz). Uma guerra que traria paz porque se justificava através do imaginário coletivo: a segunda guerra mundial seria a última, uma necessária e justa luta conta o mal, o terrível. Esse mesmo imaginário esteve presente também durante a Guerra Fria: a luta necessária do bem contra o mal.Vivemos, para Alain Badiou, os ecos dos extremos que marcaram o século XX: a vida intensa, a morte cruel; a paz, a violência explícita. Um imaginário que se mostra nos filmes, nos programas de televisão, em muitas das nossas atitudes cotidianas.


Guy Debord, pensador francês, participante e um dos principais líderes da revolução de maio de 68, na França, escreveu um livro, intitulado “A sociedade do espetáculo”. Uma breve resenha de parte de seu livro poderia ser assim: Debord, escreve que este é um tempo em que se prefere a imagem à coisa, a cópia ao original; a ilusão é sagrada, a verdade é profana. O livro tem como cerne o conceito de “espetáculo”: “O espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (Debord, p. 14). Repare-se que essa palavra, re-significada conceitualmente traz a ideia de “espetáculo” como algo que permeia a vida, chega a se confundir com ela; se apresenta como a própria sociedade e como instrumento de unificação. Como sociedade, o espetáculo aqui é setor que concentra todo olhar e toda consciência. “Pelo fato de este setor estar separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza é tão somente a linguagem oficial da separação generalizada” (Debord, p. 14). O espetáculo, assim, é o âmago do irrealismo da sociedade real. Espetáculo é o modelo de vida dominante na sociedade. Além disso, nessa concepção de sociedade “espetacularizada” de Debord, contraditoriamente a separação entre as pessoas faria parte da unidade do mundo, da práxis social global que se divide em realidade e imagem. Ou seja, a sociedade contém o espetáculo. Assim, a cisão entre realidade e imagem, que reflete numa cisão social, mutilaria a ponto de fazer parecer que o espetáculo é seu objetivo. “A linguagem do espetáculo é constituída de sinais da produção reinante, que são ao mesmo tempo a finalidade última dessa produção.” (Debord, p.15) Num sentido próximo, Alain Badiou se refere ao imaginário reinante na contemporaneidade dizendo que: “O adversário, aliás, não é realmente representado como força. É mais que força. É uma espécie de abjeção neutra,

um plasma, em hipótese alguma um pensamento. Dessa neutralidade em putrefação não poderia haver substituição dialética. Se o paradigma da guerra é tirado da guerra definitiva ou final, é porque os protagonistas dessa guerra não são comensuráveis, não provêm do mesmo tipo de força.” (Badiou, p. 77). Um dos sintomas dessa decomposição a que o autor se refere é a ruína da língua – ponto central de qualquer opressão – há o desprezo de qualquer nomeação inventiva e rigorosa: “reino da língua fácil e corrompida, a do jornalismo” (Badiou, p. 78). A realidade jornalística, por sua vez, surge no espetáculo e esse espetáculo é real. “essa alienação recíproca é a essência e a base da sociedade existente” (Debord, p. 15). Debord e Badiou, dois importantes filósofos, falam da violência simbólica que preenche a cultura, a comunicação, o cotidiano. “O século como pensamento do fim (do fim da velha cultura) é a morte sob a forma do assassinato inominável” (Badiou, p. 78) – categoria fundamental do espetáculo contemporâneo – morte desprovida de simbolização. A violência simbólica ocorre quando não se faz mais importante o pensamento de uma ética da produção de bens culturais. A democratização ao acesso e à produção desses bens está intimamente atrelada às novas tecnologias. Contudo essa democratização veio acompanhada do uso impensado da técnica. Podemos acrescentar a esse uso impensado o fato de que as tecnologias, hoje, são as grandes mediadoras de boa parte da criação e disseminação do imaginário social. Estão implicadas aqui, portanto, questões éticas, filosóficas: ao se falar das últimas tecnologias, estáse discutindo também a maneira como os seres humanos estão se relacionando e como estão apreendendo o mundo à sua volta. São valores de vida, de conduta que influem inclusive na nossa percepção temporal, alteram a velocidade com que nos relacionamos com o mundo.

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Como pensar e teorizar uma ética ou “éticas” de bom uso dos aparatos tecnológicos?

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Olgária Matos, em “Discretas esperanças” diz que vive-se hoje a Cultura do rompimento com o livro: um triste processo civilizatório no qual crianças e jovens com idade de formação (do caráter, do pensamento, das preferências intelectuais, da sensibilidade) encontram-se hipnoticamente ligados a equipamentos eletrônicos. A autora coloca a questão: o que é uma República política sem a leitura? Na França, século XVIII, atribuía-se a imaturidade política ao analfabetismo. A cultura, constitui a quintessência da cidadania democrática. A autora defende que no século XXI a leitura atenta cedeu lugar à demagogia da facilidade. Houve uma contração do tempo. A cultura requer agora também considerar as formas de comunicação pública, através dos meios de comunicação de massa. Qual é a correspondência entre cultura política e mídia, em uma época da perversão das instituições democráticas? A comunicação midiática, para Olgária, veicula e reforça a cultura da ética indolor, ética dos atuais tempos democráticos: o pensamento moral não mais serve ao aperfeiçoamento e libertação individual e coletiva, mas ao culto da eficácia e do sucesso. Vivemos numa época do pós-dever, sem obrigações ou sanções morais: gratificação imediata dos desejos e pulsões – sem nenhum ideal de espírito. Olgária coloca então a questão: qual é a natureza das sociedades contemporâneas? Não mais centrada no homem, no indivíduo, no cidadão, em sua dignidade e liberdade, mas no consumo e no espetáculo. A indiferença moral e política, para a autora, mantém relações íntimas com os meios de comunicação de massa. A democracia como esforço conjunto de ações e deliberações – é substituída pelo monopólio das informações disponíveis na mídia. Mostra-se na nossa sociedade

o analfabeto secundário: “pessoa de sorte, pois não sofre com a perda da memória; o fato de não ter uma mente própria o exime de pressões; sabe dar valor a sua incapacidade de se concentrar em alguma coisa; acha que é vantagem não compreender e não saber o que está acontecendo com ele. Ele é ativo. É adaptável... o fato de o analfabeto secundário não ter ideia de o sê-lo contribui para seu bem-estar. Considera-se bem informado, consegue codificar instruções, pictogramas e cheques e se movimenta em um mundo que o isola de qualquer desafio à sua confiança. É impensável que possa sentir-se frustrado com seu ambiente que o gerou e formou para garantir sua sobrevivência sem problemas” (Matos, p. X). Para Olgária, as instituições de ensino produzem esses analfabetos secundários. Em meio ao imaginário do espetáculo, sempre brota um suspiro, uma vontade. A atitude artística, desempenha este papel. Contudo, hoje se fala tanto de arte mas se dá tão pouco valor a ela. Kant, em “Crítica do Juízo”, estabelece a diferença entre “belo” e “agradável”. Agradável: vincula-se a um objeto de fruição palpável, “concreto”. Belo: é “desinteressado”, não necessita de um objeto empírico. Kant ainda estabelece a contraposição entre o prazer provocado pelo belo e o provocado pelo útil. Belo: educação dos sentidos, o gosto pelo belo. A arte bela é um modo de representação que é por si própria sem fim, promove as faculdades do ânimo para a comunicação em sociedade. Para Olgária, dessa forma, questões do gosto e juízo estético são fonte de convivência de uma coletividade. É nesse ponto em que se insere a discussão sobre uma ética necessária para produzir arte e se relacionar com ela. Arte aqui seria um tipo de conduta radicalmente crítica com relação à vida. Se a guerra e o crime instauram o domínio do instantâneo (o mundo das imagens de ação), como diz Alain Badiou, em contrapartida Nelson Brissac propõe


que, se pudéssemos olhar o mundo com vagar, ele teria tempo – uma atitude paciente com relação às imagens. Assim seríamos capazes de enxergar as imagens do invisível; que são as imagens do muito grande e do muito pequeno, que não conseguimos ver normalmente no cotidiano. A grandeza e a infinitude. Um olhar que subverte o espetáculo (Guy Debord). Brissac em “Ver o invisível” disserta então sobre essa grandeza e infinitude em certo tipo de fotografia: a fotografia como dispositivo da presença. Mas não é em qualquer fotografia que essa presença aparece. É na fotografia tirada por alguém que soube esperar. Nela há a possibilidade de surgir algo que nem mesmo o autor teve a intenção de registrar : o “ar”, o clima da foto, a vida numa imagem. Roland Barthes diz que nessa fotografia em que se consegue capturar o “ar”, é aquela que enfim a pessoa está: ela se dá graciosamente, sem nenhuma significação e existe para além de toda pose – desaparecem as máscaras e transparece apenas a alma. É como se houvesse uma sombra luminosa que acompanha o corpo fotografado. “Perceber aquilo que faz as coisas falarem, a sua luz, o seu rio subterrâneo. Essa atitude – esse respeito pelas coisas – é ético. Olhar o mundo como uma paisagem, algo dotado de luz, de uma capacidade de nos responder ao olhar. Não se trata de procurar cenas naturais, mas de um modo de ver. Ver rostos e cidades como paisagens. Uma ética do olhar.” (Brissac, p. 309) Uma atitude artística com relação à própria vida. Ítalo Calvino disserta que as cidades se tornam opacas ao olhar. A imagem, quanto mais explícita, mais conduz ao esgotamento da capacidade de descrever: há um mapeamento instantâneo do lugar que não tem segredos, não tem espaços para a imaginação. Para Calvino a literatura tornou-se sem rostos – introspectiva; assim como a pintura: pura abstração. Em “Cidades Invisíveis” a pintura encontra a literatura através da descrição poética das paisagens: a leveza como um modo de ver o mundo. Calvino fala da leve-

za que precisa estar presente na literatura. Essa leveza é como uma imposição da inteligência, do ser para dar mais leveza a um mundo que aprisiona a existência, que é um peso insustentável. O mundo, a principio, pareceria estar condenado ao peso (à violência des-significada) e por isso é necessário mudar o ponto de observação, considerar o mundo sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e de controle – mas isso não seria uma fuga para o sonho e para o irracional: as imagens de leveza buscadas não devem, em contato com a realidade, dissolver-se como sonhos, já que assim seriam também espetáculo. Ao utilizar-se da tecnologia no uso cotidiano, mas principalmente no seu uso na produção de bens culturais, faz-se necessária uma tomada de consciência radical, uma ética do fazer e do olhar, uma consciência do poder das imagens, sendo elas visuais, sonoras, escritas. Propagar imagens, procurar fazer algo que se difunda massivamente é servir à sociedade, é abandonar o reduto individual, é se expor a comentários, publicidades. Por isso a importância de se pensar qual mundo se quer ajudar a criar e, ao mesmo tempo, de que forma produzir algo que não traia os valores primordiais individuais. É necessário, portanto, ter consciência das próprias escolhas: e o pensamento estético consistente permite que tal consciência se estruture e tenha força. REFERÊNCIAS: BADIOU, Alain. O Século. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2007. DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

MATOS, Olgária. Discretas esperanças: reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: Nova Alexandria, 2006. BRISSAC, Nelson. Ver o invisível. In: Ética. Org. NOVAES, Adauto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

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Dossier Em meio ao imaginário do espetáculo, sempre brota um suspiro, uma vontade. A atitude artística, desempenha este papel. Contudo, hoje se fala tanto de arte mas se dá tão pouco valor a ela.

Nayla Ramalho

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Cartaz de divulgação filme Crede-mi

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Laura Papa: 10/0015107

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Pegue papel, lápis, borracha e vá para a rua. Mesmo que pense que não sabe fazê-lo, experimente desenhar o que vê. A partir desse ponto existem duas possibilidades: ser discreto e não deixar que ninguém veja o que está fazendo ou que “sim, moço que acabou de acender um cigarro, estou desenhando você”. Se por algum acaso a primeira opção falhar, claramente a pessoa tentará parecer natural. Mas não, não será. Os movimentos serão mais sutis, talvez. Ela ficará mais séria, quem sabe incomodada, ou ainda trocará de posição. Essa idéia não lhe parece atraente? Pegue então uma câmera fotográfica, faça o mesmo. No momento em que encostar o dedo no gatilho, tudo vai mudar: as posições, as expressões, a naturalidade. Em que as pessoas se transformam, por que se transformam ante uma observação? Porque dessa transformação não há dúvida. Elas não são mais as mesmas. Elas são quem gostariam de ser, como gostam de se ver, como preferem que os outros vejam. Cada transeunte numa rua, que sente uma lente de câmera apontada para si passa a ter a consciência de que de algum modo alguém vai congelar uma pequena parte dele. E congelar, nesse caso, significa mais, significa eternizar, - nem que seja por um curto espaço de tempo, não importa: os papéis podem amarelar, o autor pode se livrar deles; mas há sempre a possibilidade de terminar num quadro emoldurado na parede. Então começa um jogo esquisito. O rapaz com o cigarro passa a interpretar ele mesmo, da forma que acha melhor. A moça lendo repete inconscientemente os gestos daquela atriz que viu no cinema lendo uma revista no parque. E então, em fração de segundos, tudo muda. Tudo vira ficção. Em Crede-mi, filme de Bia Lessa, tudo parece ser às avessas. Para começar, o objetivo das filmagens não era uma tela de cinema. Bia

simplesmente foi ao Ceará ministrar oficinas de teatro. As gravações eram apenas uma forma de registro do que havia sido feito, e que em última hipótese se transformariam em um documentário. Mas nunca em uma ficção. O texto utilizado nos workshops era sempre “O Eleito”, de Thomas Mann. Mas assim como o que ocorre com o espectador em um teatro ou em uma sala de cinema, acontece com o ator em sua interpretação: à medida que fica a vontade, mas adentra no próprio universo. E diante de todas as imagens, no momento da edição, Bia Lessa percebeu a riqueza de seu material. Algo acontece de autêntico em uma ficção. Pode-se notar no momento em que se desenha uma pessoa consciente de que está sendo representada ou fotografada por uma câmera. A diretora também percebeu isso: observando as pessoas que nunca antes haviam atuado. Há algo em comum, há alguma coisa de natural em todas elas. E isso não está na capacidade de um ser humano atuar, mas sim “no momento de sua maior espontaneidade”, sendo ele mesmo “tentando ser outra pessoa”, como a diretora afirma. Por isso, em cada pessoa que participava, que estava diante da câmera representando um texto, Bia Lessa não estava à procura de um grande ator, mas sim no “contato direto entre pessoa e personagem”. É o que torna o filme autêntico, aquele que “está intimamente ligado à idéia de verdade: o autêntico é o que é verdadeiro, o que é dado como certo, sobre o qual não há dúvidas” (Carta Patrimonial de Brasília - CPB). Bia estava à procura de algo real. Esse real foi conseguido a partir de vínculos criados com as identidades das pessoas.Assim, ela conseguia chegar perto do ser, ele por “ele mesmo e não ele através de suas obras”. A inspiração foram algumas linhas de Elias Canetti, que diz que “de uma certa forma o homem se distanciou

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do real. Essa questão – o que é que aconteceu com a gente? O que é que a gente fabricou de nossa vida agora? O que é que a gente fez com a gente?”, e sem querer com a idéia de “a que lugar pertencemos e participamos?”, presente na CPB. Bia então encontra na distância do real de Canetti a chave para chegar nele. Por meio dessa perguntas, chega-se ao “ser através de suas obras”. E ao encontrar as “obras”, que podem ser o elo que causa a distância, ela se aproxima, de forma a fazer cada um ter consciência de si. Encontrando o ser humano, - dessa vez, ele mesmo.

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E de uma forma simples e talvez até sublime, Bia Lessa consegue compreender e traduzir “a identidade como forma de pertencer e participar. É por isso que somos capazes de encontrar o nosso lugar, o nosso nome ou personalidade, não por oposição, mas porque descobrimos vínculos verdadeiros que nos ligam ao destino das pessoas com as quais compartilhamos da mesma cultura” (CPB). E a cultura expressa no trecho é nada mais que a tradição. Que está presente em qualquer lugar. Que não se nega, que jamais é nula. Pode ter sido em alguns momentos na história apagada, substituída. Mas sempre existe alguma. Seja na França ou no Ceará. A diretora, portanto, ao ver que a representação deles era baseada apenas em novelas, como se a palavra representar estivesse intimamente ligada à “o presidente não veio e mandou alguém representá-lo. A Julieta não veio e estou aqui representando a Julieta. O Romeu não veio e estou representando o Romeu”. Lessa procurou colocar para eles que “não interessava uma representação, não interessava que se colocassem no lugar de outro, mas que fossem eles mesmos e, ao mesmo tempo a memória deles. O que interessava era a tradição”. Foi-se descobrindo que “o jeito de chegar mais perto deles era perguntar coisas como: ‘Como é que

você acha que o seu avô contaria essa história?’ ‘Como é que você acha que antigamente, as coisas se passavam por aqui?’ Daí puxavam-se as origens.” Bia não esqueceu do passado. Chegou a eles por meio de suas memórias. Encontrou uma identidade. Todo esse conjunto de memórias, de participantes, se somado, resultava em algo em comum. É como alguém, que mora em um lugar qualquer. Com mais outro, e o vizinho, que conhece outro, faz-se uma cidade. Todas aquelas pessoas, todas aquelas representações, todos aqueles seres, poderiam ser um só. Poderiam ser uma personagem. Poderiam ser todas as personagens. E com um texto, durante aquelas mais de 400 pessoas em workshops, Bia tinha muitos personagens. Ao mesmo tempo os mesmos, ao mesmo tempo vários. Nesse ponto nasceu a ficção. “Ao mesmo tempo em que você está contando a história de um, você está contando a história de todos. E você pode radicalizar isso, quer dizer, você pode realmente contar a história de todos contando a história de um.” Bia Lessa sintetiza assim o seu filme, a sua ficção. Remontar o autêntico, o verdadeiro. Inverter a ordem, criar uma história. O cinema fornece essa possibilidade de brincar com o real, enganar o olhar, re-interpretar. “Assim é que um batismo de verdade vira um batismo de um personagem da história de Mann. Assim é que uma procissão vira o cortejo fúnebre do rei ficcional. Assim é que um parto verdadeiro vira ficção (...) e que um ritual de reisado vira batalha de cavaleiros medievais” (Eduardo Valente, sobre Crede-mi). Assim é que a memória individual de alguém em uma oficina se transforma em uma memória coletiva que resulta em um personagem. Em um filme. Em uma narração. E então, como a própria


http://www.revistadocinemabrasileiro.com.br/blog/1323

Bia Lessa

diretora diz, o protagonista do filme é o Ceará. “O Ceará e Thomas Mann”. Nas palavras de Bia Lessa, o que lhe interessava era a possibilidade de lidar com a vida. E não há melhor lugar que o cinema. Porque como a própria palavra ficção carrega, tudo que há de baseado em fatos reais, sempre contêm algo de imaginário. Todas as memórias têm uma parcela, nem que seja mínima, de imaginação. No cinema, não há medida. O real vira ficção e continua ali, claramente como verdadeiro. Transforma-se, no universo de Crede-mi, em uma linha tênue. A qual o espectador não ultrapassa, muito menos quebra. Mas perpassa, de forma a transitar sem sustos, sutilmente, através do verdadeiro, das barreiras de distanciamento, da identidade, da aproximação e da própria ficção. Há gente que diz que quando se aprende a fotografar, as primeiras fotografias tiradas devem

ser descartadas. O mesmo é válido para uma idéia, a primeira deve ser descartada. Ou ainda para o cinema; as primeiras tomadas ignoradas. Tudo isso é por conta das influências que cada um carrega.As fotos são enquadramentos e ângulos que já vimos em algum lugar, as idéias são as mais comuns a todos, as tomadas são movimentos e planos que nos foram apresentados em algum filme. Com a prática, vira instinto, torna-se nosso, portanto autêntico. Por isso, quando Crede-mi entra na lista de filmes do “autêntico ‘cinema nacional’”, pode-se entender por que. A grande parte dos filmes já produzidos no Brasil é algo que foi visto antes em outro lugar. São raros os que apresentam um outro lado. Algo mais, mais Brasil, mais povo, mais a gente. Alguma coisa que identifique o país. O que Bia Lessa faz é diferente, é inédito. Faz olharmos para a história escrita por um homem, contada por muitos e vermos nós mesmos. Como mais alguém a contar e ser aquela história.

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Os desafios, atuais e futuros, para os profissionais, docentes e pesquisadores em arquivologia, são de natureza e alcance diversos. Em comum, a exigência de reflexões constantes no campo técnico, acadêmico e, por que não, político. As respostas – quase sempre provisórias – devem ser, portanto, construídas coletivamente. O fazer arquivístico não pode prescindir de uma reflexão oriunda da Academia, assim como essa mesma reflexão se alimenta da práxis cotidiana dos egressos ou dos profissionais habilitados pelas suas trajetórias no mundo do trabalho.  Os desafios da contemporaneidade, sendo demasiados complexos para os objetivos de uma única disciplina, não deixam, no entanto, de se dirigir ao nosso campo de conhecimento. Particularmente quando nos interpelam sobre o tratamento da cultura material da qual fazem parte os arquivos, pois uma parte significativa da memória dos povos repousa sobre os documentos arquivísticos. Os textos aqui reunidos, desde já históricos, constituem-se, portanto, em um rico material de pesquisa e subsídio para reflexões sobre a Arquivologia no Brasil.  A publicação deste livro é produto das recomendações da I Reunião Brasileira de Ensino e Pesquisa em Arquivologia e corrobora o compromisso da comissão organizadora com as decisões daquele evento e sinaliza para os avanços que virão com a realização da II Reunião Brasileira de Ensino e Pesquisa que ocorrerá no Rio de Janeiro em novembro de 2011.

Nos combates do conhecimento científico o livro da professora Katia Isabelli Melo de Souza, tem o grande mérito de dar visibilidade a formação do profissional de arquivos no Brasil e desenha um competente panorama do mercado de trabalho nesta área. Profa. Dra.Vilma de Lurdes Barbosa Progrma de Pós- graduação em História da UFPB Pesquisadora CAPES

Lygia Martins Costa é presença indispensável aos professores, pesquisadores, técnicos e estudantes da área de museologia e da história da arte, e para todos que empreendem esforços na direção da uma museologia em ação. Nasceu em 1914 e aos 25 anos graduou-se no Curso Técnico de Museus do Museu Histórico Nacional, que tem por herdeiro o atual Curso de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Sua trajetória Marcou de modo especial a museologia brasileira. Museóloga, educadora e historiadora da arte ela é uma insigne profissional do campo dos museus.

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Se nossas bibliotecas sempre tiveram obras de consulta, isto é, de referência, o fato é que estas somente adquiriram o estado diferenciado de fontes de informação quando foram criados os primeiros serviços de referência no país, na década de 1940. Esses serviços, que tanto evoluíram em nossas bibliotecas, dependem não apenas de suas coleções, mas também de listas seletivas e comentadas daquelas obras que podem ajudar o bibliotecário em seu trabalho de atendimento aos leitores que buscam informação. Se, em outros países, há um grande número desses guias ou manuais de referência, sua produção no Brasil tem sido esporádica e escassa. Aqui, como é assinalado no prefácio de Paulo da Terra Caldeira, o autor apresenta um “espectro mais amplo” do que aquele tentado pelos antecessores brasileiros “abrangendo tipos de materiais indispensáveis para consulta no cotidiano da população” que “facilitam a identificação e o conhecimento de enorme número de fontes e mecanismos para recuperação de informação em meio eletrônico”. Ao adotar, neste livro, o bibliônimo usado por Josefa Emilia Sabor, o autor espera que seu livro venha a ter uma utilidade que se aproxime, tanto quanto possível, da que teve o Manual de fuentes de información. E que seja visto como uma homenagem à ilustre colega argentina.

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Primeira edição brasileira que mostra a aplicação e utilização de instrumentos para um programa de capacitação em Competência Informacional, incluindo todos os instrumentos para a avaliação e seus indicadores, considerando aspectos de inclusão digital e impacto social. IDEIAS (Inclusão Digital e Educação Informacional para a Saúde ) é um modelo holístico, porque integra em uma única ordem as dimensões digital, informacional e social, e também estabelece em seu desenho o impacto social e a transformação dos grupos. Neste caso, ligados a um tema muito vulnerável no Brasil, a saúde coletiva. Realizado por pesquisadores brasileiros e espanhóis, este trabalho é uma enorme contribuição para profissionais que trabalham com projetos de inclusão digital e social, tendo sua publicação lançada por uma editora espanhola e recomendada por especialista da UNESCO. Na redação desse livro participam investigadores do projeto, estudantes de iniciação científica, de pós-graduação e especialistas da área  envolvidos  com  a  proposta.

Nos últimos tempos a temática sobre organização do conhecimento vem atingindo a área de Biblioteconomia de uma forma mais intensa, despertando-a para o estudo relacionado com esse novo paradigma. Especificamente no que tange ao bibliotecário, alçado à categoria de profissional da informação, essa temática tem encontrado um campo fértil para o surgimento de pesquisas a nível de graduação e pós-graduação, ocasionando importantes oportunidades de aplicação e estudo, principalmente em seu contexto de atuação. No intuito de trazer algumas contribuições e reflexões à discussão de referido tema, vamos, a seguir, trabalhar a questão da organização do conhecimento enquanto um fazer profissional da maior importância e relevância para o profissional da informação na atualidade, imerso num ambiente informacional que a cada dia é surpreendido com importantes aportes de novas tecnologias, pois, se a Era do conhecimento vem acompanhada de importantes e profundas transformações pessoais, sociais e culturais os profissionais da informação, principalmente o bibliotecário tem, além de suas responsabilidades profissionais, uma responsabilidade social, como produtor e facilitador na transferência do conhecimento que é produzido para usuários que dele necessitem, assumindo papel estratégico na nova ordem mundial.


Este livro é fruto do “ I workshop de Arquitetura da Informação e Multimodalidade, texto e imagem”. Este evento foi realizado nos dias 09 e 10 de setembro de 2010, nas dependências da Faculdade de Brasília (FCI/UNB), com o apoio do Programa de pós-graduação em ciência da informação (PPGCInf/UNB)e do centro de pesquisa em arquitetura da informação (CPAI/UNB).O pioneirismo desta obra reside em vários fatores, dentre os quais podemos destacar a ausência de livros em português com o enfoque dado por nossos autores, que atentam para a temática “Texto e Imagem” sob a ótica do preenchimento de espaços informacionais. Atualmente a informação, embora disponibilizada em diferentes meios e de diferentes modos, apresenta-se registrada basicamente em meio impresso e ou meio digital, saber tratar esta informação em função do meio em que ela se encontra e de acordo com o modo pelo qual se pretende abordá-la é condição sine qua non para todo e qualquer docente/educador/pesquisador que queira se beneficiar do Estado-de-Arte da Ciência da Informação.

Os diversos projetos apresentados nesse livro foram desenvolvidos ou iniciados na Biblioteca Nacional de Brasília (BNB) como um pólo difusor da cultura e espaço agregador para a proposta que ora se desenvolve na capital federal. A idéia é levar à todas as bibliotecas públicas do DF o trabalho inovador da BNB. O objetivo maior é buscar a dinamicidade em múltiplos projetos que contemplem todos os usuários, transformando a biblioteca em um centro formador e  promotor  de  cidadania. No livro “Biblioteca Nacional de Brasília: pesquisa e inovação” são assinalados pelos autores desde as dificuldade de implantação do projeto e os problemas com as instalações físicas, até os momentos empreendedores de uma equipe que iniciou de forma pioneira uma proposta de Biblioteca Híbrida, com múltiplos formatos em seu acervo e sintonizada com os  desafios  do  século  XXI.

A obra conta a história de uma bibliotecária e suas passagens de vida na profissão. Suave como o vôo da borboleta na tundra siberiana que afeta toda a estrutura do Planeta, Dulce transmite por meio de suas impressões a impressão de que as fichas catalográficas e todos os demais registros técnicos de seus afazeres não passavam de suportes materiais de leitura do mundo, tais como as cartas estão para as cartomantes e as moedas chinesas furadas ao meio estão para os intérpretes do I Ching.

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INFORMATIVO


79 CACI(N)F Foto: Nayla Ramalho


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Nadie como Jorge Luis Borges para acotar en una breve frase grandes pensam Decía Borges que estaba hecho de tiempo, y en cierta medida, todos estam tiempo, de tiempo que pasamos con los nuestros, de tiempo viajado, de tiempo viv tipos de tiempo. Quiero pensar que estamos hechos de todo tipo de verdaderamente valioso, ese tiempo es el que nos c gratificante, creativa y enriquecedora, como p experiencias que deberían ser indisp Cuando me propusieron escribir un brev de reconocer que no tenía muy clara la temática a lo verdaderamente importante a la hora de realizar algu la distancia que te separa de tu hogar, sino el tiempo que al principio desconocidas, pero que pronto llegarán a se mi estancia aquí en la Universidad de Brasilia. Llegar a una ciudad desconocida y comenzar a trabaja viven, trabajan o estudian allí, es verdaderamente una expe crecer personal y profesionalmente. En el ámbito de la biblioteconomía y de sus ciencias a importante ya que hablamos de una ciencia eminentemente de experiencias de otros, de formas diversas de aplicar los c y que son empleados con ciertas particularidades en cada situa La ciudad de Brasilia ofrece numerosas oportunidades a su desde visitar sus bibliotecas hasta conocer los museos, iglesias especialmente si te gusta la arquitectura. Si bien es cierto qu para el peatón, en seguida encuentras a alguien para que te lleve “d y solucionas el problema de transporte rápidamente. Para un visitante español, que llega tras un largo vi primero que llama la atención es la exuberante vege característica tierra rojiza.


INTERNACIONAL

EL TIEMPO QUE VIVI EM BRASÍLIA VÍCTOR VILLAPALOS

mientos. mos también hechos de vido, de tiempo amado, de muchos tiempo menos de tiempo perdido. Pero si existe algún tiempo cambia la vida, el que transcurre cuando vivimos una experiencia diferente, puede ser realizar un viaje de estudios o prácticas a otro país. Sin duda, una de las pensables, bajo mi punto de vista, para la obtención de un título universitario. ve artículo sobre mi experiencia como estudiante extranjero, he a desarrollar en el mismo, sin embargo, pronto observé que una estancia de estudios no son los lugares que visitas, ni e pasas y todo lo que aprendes con otras personas, er grandes amigos, como ha pasado a mí durante

ar o a estudiar a la vez que se observa cómo eriencia única, que te permite aprender y

afines, constituye además un elemento práctica y que se nutre enormemente conocimientos adquiridos previamente, ación, región o país. us visitantes que hay que aprovechar, o lugares de interés para el turista, ue no es una ciudad placentera de carona” como dicen por aquí

iaje en avión, lo etación y su

“El tiempo es la sustancia de la que estoy hecho” J.L. Borges

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Brasilia es una ciudad diferente, sobre todo para los europeos acostumbrados a ciudades concentradas y con altos núcleos de población. Esta ciudad, extensa y espaciosa, ofrece una organización pensada para los vehículos a la que uno tarda en acostumbrarse, así como a la numeración de las avenidas y cuadras principales, un autentico lío para gente acostumbrada a ver llena la ciudad de dedicatorias a héroes y mártires en placas azules señalando el nombre de las calles. La gente, amable y cordial, no ha perdido todavía la calidez en el trato como en otras grandes urbes y resulta sencillo entablar conversación, aunque no

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se domine el portugués, como es mi caso todavía. La UnB,con su majestuoso edificio central de hormigón y el verde de sus parques, es una maravilla, sobre todo para los que estamos acostumbrados a estudiar sobre el asfalto de la ciudad. La casualidad ha querido que visite la universidad en una época en la que la Biblioteca ha estado cerrada debido a la huelga de funcionarios, pero espero que antes de mi marcha pueda visitarla y recorrer sus pasillos atestados de libros, ya que tengo entendido que da servicio al conjunto de las facultades, como un gigantesco centro de información y conocimiento. He tenido la suerte de visitar Brasilia y su universidad gracias a unas becas de cooperación de la Universidad Complutense de Madrid que me han permitido realizar durante mi estancia el Proyecto Final de Carrera dedicado al desarrollo de la ALFIN en el ámbito de la Web 2.0 y cómo estas herramientas podrían ser utilizadas en la formación de competencias informacionales. La acogida del personal universitario, profesores, estudiantes y personal de servicios ha sido fantástica, como apasionante ha sido conocer de la mano del profesorAntonio Miranda numerosas bibliotecas de Distrito Federal,cómo trabajan,cuáles son sus objetivos, qué servicios ofrecen y cómo obtienen los mejores rendimientos explotando todos sus recursos. La Biblioteca Demostrativa, la

Biblioteca de Taguatinga, la de Ceilandia, fueron algunos de los centros que pude visitar y en los que pude observar el buen hacer bibliotecario y la excelencia de los servicios en unos centros documentales claramente enfocados al usuario y a sus necesidades, con el objetivo de superarse día a día. Algunos de los servicios más sorprendentes para mí fueron los servicios que ofrecían a través del voluntariado local (apoyo en tareas escolares ejercida por profesores voluntarios, etc.), muy activo e implicado en la mejora de su biblioteca de referencia, lo que indica dos cosas: Primero, que las personas son conscientes de la importancia de las bibliotecas para la mejora de la sociedad, y segundo, que como he podido observar, la cooperación es un elemento clave en la optimización de las estructuras culturales en cualquier país del mundo, y Brasilia puede ser un claro ejemplo de ello. Ser estudiante en un país extranjero, por tanto, es una magnífica experiencia que convendría generalizar, intentando alentar a las instituciones pertinentes a que promovieran y facilitaran las estancias y los intercambios entre universidades para mejorar el currículo de sus estudiantes, y dotarles de nuevas vivencias. Conviene recordar en estos tiempos de crisis internacional y sus imprevisibles consecuencias en el mercado laboral que las ciencias documentales necesitan de la unión de sus profesionales para lograr un mayor peso en la sociedad, más sólido y con más futuro. Está en nuestras manos (tanto de profesores como de alumnos) lograr mayor fuerza a través de la unión de experiencias y conocimientos en favor de una preparación más completa que posibilite ejercer mayor competitividad en el plano profesional, y generalice en el ámbito personal la maravillosas vivencias que yo he podido experimentar de primera mano, añadiendo a mi tiempo –la sustancia de la que estoy hecho– amigos y recuerdos que jamás olvidaré.


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85 CACI(N)F

Foto: Nayla Ramalho


HENRIQUE MASCARENHAS SERTÃO – BIBLIOESTUDANTE

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Já há muito tempo vemos a dificuldade do movimento estudantil de biblioteconomia em se articular no campo político para organizar estudantes. Eleições recentes para o Centro Acadêmico reafirmam o desânimo e a despolitização do corpo estudantil frente aos assuntos de nosso interesse. Que assuntos são esses? Para que serve um Centro Acadêmico mesmo? Nas eleições, para variar, só houve uma chapa escrita. A urna, com uns pedacinhos de papel e uma caneta, ficava jogada num cantinho da FCI para não atrapalhar o cotidiano, isso durante alguns dias até que decidiram recolher a urna para efetivar a chapa ganhadora. Vemos que não há interesse coletivo em conduzir o CA na biblioteconomia. Isto nos põe na situação de agraciados: devemos ficar felizes, pois se não fosse pela atual chapa, não teria ninguém! Contentemonos com o menos pior. O preenchimento lacunar dos hiatos que se criam sempre que uma gestão tem fim me leva a tipificar esse caminho ao CA de caminho “hiatista”. Caminhada amena, sem percalços, não exige roupa leve nem cantil d’água e pode ser feita descalça e sem protetor solar. No caminho hiatista a legitimação do ato vem do próprio ato de junção do desencontro vocálico – melhor um ditongo que um hiato – só uma questão de estilo.

DO ESPAÇO Quê representa o espaço físico de um Centro Acadêmico? Para existir uma associação estudantil é necessário um espaço físico?Vejamos... Vamos considerar a graduação do ponto de vista do ingresso por vestibular. Via de regra calouros ascendem do ensino médio. São jovens, média de 18 anos de idade (não tenho dados para certificar). Este quadro nos induz a ver um jovem deixando a vida secundarista para ser superior. Mudanças incalculáveis do ensino médio em relação à faculdade. Então o calouro se depara com um espaço dos estudantes do curso em que a gestão do espaço é (ou deveria ser) coletiva. Que ideia faz ele do que pode ser melhor ou pior para o geral? Desta ética do bem-estar da maioria surge os argumentos que orientam a organização do espaço. “Queremos liberdade!! Abaixo os caretas, que absurdo não poder fumar um cigarro no CA! Cadê as camisinhas que estavam aqui ontem? Putz, acabou a cerveja, quem vai sair pra comprar mais? Que sacanagem, emporcalharam o CA, deixaram tudo sujo e bagunçado! Vamos trancar a porta, só entra quem tem chave!” Algumas frases da parcela estudantil que frequenta CAs. O que quero colocar é que o debate em torno destas questões de faxina e acesso, é acessório, foge ao cerne de um movimento associativista. Querer


Foto: Marcelo Camargo/ UnB Agência

Dossier

Alunos de Artes Cênicas organizaram performances contra o corte da URP/ 2009

Foto: Cedoc/ UnB

educar frequentadores de CAs não nos faz avançar um milímetro em direção à pauta universitária. O quê se decide nos CEBs (companhia energética de Brasília?)? e nos colegiados? E cadê as assembleias estudantis? Acredito que os estudantes perdem muito tempo estudando as matérias curriculares e se alienam da vida universitária. E o pior é que apesar de – aparentemente – se “dedicarem” às matérias, nas salas de aula os queridos colegas não têm desenvoltura para sustentar um ponto contrário ao do magister que professa sua fé aos novos adeptos. Estudantes apáticos e empalidecidos que enceram os bancos com seus traseiros inquietos por não verem a hora de sair de um ambiente tão hostil quanto nosso habitat, ou melhor, das salas de aula.

Movimento estudantil UnB/1968.

RUA DOS BOBOS NÚMERO ZERO Com licença, por gentileza, cadê a rede de bibliotecas públicas do DF? E a rede de bibliotecas escolares do DF? Não há serviço de referência que responda a essas perguntas. Certa vez, no semestre de 2011/2, me deparei com uma tentativa vulgar e amadora de inculcar nos estudantes a caridade para com postos de gasolina, isto em plena luz do dia e numa sala de aula da FCI! Até hoje os servos da ciência constroem casas para “O saber”. Porém, O saber está sedentário, velho, barrigudo, careca, banguelo e desdentado. Não sai mais de casa. O velho saber precisa morrer. Um dia ele cai da estante. Mas essa história começou em 2009, quando numa matéria sobre bibliotecas escolares, ministrada pelo tradutor de Ranganathan, tive a oportunidade de visitar a biblioteca do Centro educacional 02 do Cruzeiro, minha antiga escola, para fazer uma pesquisa. Quando lá cheguei, passei pelo refeitório lembrando de um conselho dos antigos: “gororoba do dois, come hoje e morre depois”, depois passei pelas quadras de esporte e lembrei das aulas de educação física, segui por trás e me deparei com o teatro, não pude deixar de lembrar da minha péssima

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performance encenando Lisístrata, segui e finalmente cheguei à biblioteca. A primeira coisa que me chamou a atenção foi uma placa com os dizeres: “CASA DO SABER” assinado: Gasol. Ao lado uma foto da “inauguração”. Nesta foto via uma representante da ABDF, o secretário de educação da época, e um dos donos da Gasol. Achei estranho. Dois anos depois... voltamos agora para 2011/2 e a tentativa de inculcar a caridade. Na aula estava sendo “debatido” a não-rede de bibliotecas públicas do DF. Quando este quem escreve faz um infeliz porém oportuno comentário criticando o fracasso da geração de bibliotecários formados ad urbe condita. Por isso não cabe falar que falta ‘solidariedade’ e ‘boa vontade’ por parte dos bibliotecários para a gênese de rede de bibliotecas públicas. Mais absurdo ainda por este discurso ser proferido num ambiente de formação profissional, se é de formação profissional que estamos falando, implica que queremos formar profissionais, de preferencia críticos e amparados pela técnica profissional, e não cidadãos voluntariosos que detêm um conhecimento es-

pecializado na arte de organização e formação de acervos e caridosamente doam sua mão de obra gratuita a postos de gasolinas nas horas ‘vagas’, alienados à invasão que docilmente promovem ao estamparem a marca GASOL numa biblioteca pública, sendo esta marca vista por pequenos estudantes em sua fase infantil, para quem sabe quando crescerem e possuírem um automóvel, serem simpáticos a abastecerem num posto GASOL. Que é isso? Rendidos ao capital assim tão fácil e docilmente? Ajudando ao capital a desfigurarem BIBLIOTECAS ESCOLARES PÚBLICAS camufladas em CASAS DO SABER? Vejamos a política hiatista novamente agindo: “é preferível uma publicidade eterna da gasol com ‘livros disponíveis’ a nada! Ou seja: se as vogais não se encontram, há o espaço ocupado por interesses espúrios com aval das ovelhas bibliotecárias. Ora, políticas públicas? Que nada, vamos desenvolver o espírito empreendedor nos estudantes, agir por si mesmo, não esperar pelo Estado, desenvolver a caritas. Era uma rede muito engraçada, não tinha livro não tinha nada.


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REVISTA CACINF 2ª EDIÇÃO