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no aluno deficiente auditivo, esquecendo os ouvintes presentes. Tal equilíbrio só nos parece exequível se contarmos com a presença de um intérprete de Língua Gestual Portuguesa. Na maioria dos casos, o docente não domina, nem sequer conhece, o complexo sistema linguístico da Língua Gestual Portuguesa pelo que a comunicação recorrendo a essa língua parece fora de causa. Ainda que tal situação pudesse ocorrer, a comunicação exclusiva em LGP levantaria, certamente, problemas de diversa ordem: os outros discentes poderiam não a dominar suficientemente para seguir a aula, podem existir conceitos que não tenham ainda expressão signíca na LGP, para além do facto de o ensino dever ser, por questões de razoabilidade, ministrado na língua oficial dominante. A Língua Gestual Portuguesa é relativamente jovem e está ainda em pleno processo de construção. Se é certo que todas as línguas humanas se definem por estarem em processo, por isso são dinâmicas e vivas, o caso da LGP é distinto. A Língua Portuguesa é secular, a sua tradição escrita remonta ao século XII14, a LGP começou por ser um código entre surdos, assumindo um carácter clandestino devido à proibição do seu uso. Só recentemente esta língua foi reconhecida e os estudos em seu torno são ainda escassos. Desta forma, podem existir termos específicos que ainda não tenham um gesto associado. Todavia, se o aluno surdo conhecer a terminologia expressa na sua Língua Segunda, é possível que para uma maior facilidade comunicativa, a comunidade crie um gesto que codifique o conceito, aumentando o vocabulário da Língua Gestual. Além disso, por ser uma língua espacio-visual, o léxico apresenta variedades contextuais15 e pode tornar-se difícil a comunicação de conceitos cujo signo ainda não existe ou está em processo de formação. Se compreendermos a dimensão da LGP enquanto língua de uma comunidade, com características próprias podemos adoptar as seguintes estratégias de aprendizagem para uma aquisição de conhecimentos produtiva: • Transmitir os conceitos de forma clara, não com propósitos facilitistas, mas com o objectivo da aquisição de competências pelos discentes;

14 O mais antigo documento escrito em Português, ou pelo menos com traços diferenciadores do latim, remonta a 1175. Para este assunto ver MARTINS, Ana Maria (2005), SOUTO CABO (2003). 15 A este propósito lembremo-nos que também a língua portuguesa apresenta variedades lexicais na maior parte das vezes condicionadas pela região.

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OPDES04  

Revista OPDES

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