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Jornal dos Meninos

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Editorial A Chácara Meninos de 4 Pinheiros lança mais um exemplar do Jornal dos Meninos, que tem como foco trazer mais informação sobre o trabalho que a Chácara desenvolve com as famílias. Este tema é de suma importância, pois ainda é muito carente o trabalho de inclusão social de famílias excluídas. Acolher famílias vulneráveis e realizar um trabalho terapêutico e transformar o sofrimento em superação é um grande desafio para a sociedade. A omissão do poder público é imenso, pois faltam as benditas políticas públicas de qualidade. A Chácara há anos vem trabalhando com as famílias dos meninos, ou seja, acolhendo o menino e, como segundo passo, acolhendo e também cuidando das famílias, pois os meninos exigem que a chácara “salve sua família”. Não se trata de recuperar, mas literalmente salvar este núcleo familiar. A Chácara tem clareza que o lugar da criança e do adolescente é no seio da família, mas como para muitos meninos isto não é possível, faz-se necessário um trabalho pedagógico para incluir essas famílias na sociedade. Essa missão não é tão fácil assim, porém necessária. O poder público nas três esferas precisa ter políticas públicas e projetos de vida para as famílias pobres, pois investindo na formação e na inclusão social e cuidando da prevenção com certeza teremos, no futuro, crianças e adolescentes mais saudáveis, além de famílias mais estruturadas. Quando se nega o sonho dos filhos, frustra-se o futuro da família. Atender as famílias vulneráveis é uma forma de religar todos os elos rompidos pela falta de atenção à família como prioridade absoluta. Acolhê-las é um caminho que se faz necessário para tirar os meninos da marginalidade e colocá-los no patamar do cuidado e da proteção social, e ver na família não um problema, mas sim uma solução. Fernando de Gois

Expediente Jornalistas responsáveis: Gabriele Luise Neves Alves – DRT 7549 Paola Carriel – DRT 7619 Textos e edição: Nayara Brante Projeto gráfico e diagramação: Luciane Vasconcelos Fotos: Meninos de 4 Pinheiros Impressão: Gráfica O Estado do Paraná Tiragem: 3.000 exemplares

Fones: (41) 3633-1159 - (41) 3633-5034 Endereço: BR 116, Km 144, Rua secundária, s/ no CEP 83.800-000 - Mandirituba-PR fundacao@4pinheiros.org.br

www.4pinheiros.org.br

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“Eu não cheguei a conhecer meus pais, mas aqui na Chácara eu ganhei um padrinho. Com certeza devo muito a ele, pois consegui melhorar muito a minha vida. Hoje moramos juntos, eu trabalho e estou terminando a faculdade. Só tenho a agradecer.” “Antes eu não gostava de visitar minha família, porque minha mãe e meus irmãos moravam em um lugar muito ruim, era muito fácil encontrar gente vendendo drogas lá por perto. Mas depois de conversar sobre isso, eles se mudaram. Eu gosto muito quando eles vêm aqui ou quando eu vou para lá, nas férias. Espero conseguir morar com meus irmãos logo.” “Eu sei que minha família tem muita dificuldade, mas eles sempre me apoiaram bastante e me incentivam a continuar aqui na Chácara. Eu só queria que eles me visitassem mais aqui, porque ficamos muito tempo sem nos ver e isso é muito ruim.”

“Minha família sempre participa dos encontros que a Chácara organiza. É legal porque eu vejo minha mãe, meus irmãos e às vezes outras pessoas da família também. Eu gosto muito deles e sempre foram legais comigo, mas sei que têm problemas entre eles. Queria que ficassem bem logo pra gente poder morar junto”. “A minha mãe é uma pessoa muito boa, e se não fosse por ela talvez eu não estivesse aqui tentando melhorar de vida. Quero que ela continue participando, porque é muito bom saber que tem alguém lá fora que gosta da gente e que se preocupa se estamos fazendo as coisas certas.” “Pra mim, se eu não tivesse uma madrinha seria uma situação muito difícil, porque eu não vejo meus pais há muitos anos, quase nem lembro mais deles. Aqui na Chácara tem muita gente que se preocupa comigo, mas com a madrinha eu sei que tem alguém a mais pra me ajudar nas dificuldades”.

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REDESCOBRINDO MINHA FAMÍLIA Na busca pela autonomia e cidadania das crianças e adolescentes em estado de vulnerabilidade social acolhidos pela Chácara Meninos de Quatro Pinheiros, dois aspectos são essenciais: a educação integral dos meninos e a reconstrução de seus vínculos familiares. “Nós precisamos trabalhar com esses dois elos, a educação desses adolescentes e também a sua família. Só assim a nossa missão é cumprida por completo”, afirma o coordenador da Chácara, Fernando de Gois. O contato com os familiares começou já no início dos trabalhos da Fundação, através de visitas dos colaboradores às residências dos pais e demais familiares dos meninos da Chácara. Foi em novembro de 1995, no entanto, que começaram a serem formatados os encontros entre as famílias, uma prática de sucesso realizada até hoje. “Durante esses vários anos de trabalho, nós percebemos que a origem de muitos dos problemas dos meninos está em sua família, completamente desestruturada. Não é rara a situação em que temos que literalmente salvar essas famílias”, relata Fernando. Algumas das dificuldades encontradas são a miséria, o desemprego, o alcoolismo, o abuso de drogas, a violência, o crime, entre diversos outros problemas. O processo de integração entre o menino e sua família é composto por quatro encontros anuais, realizado em duas etapas. Nos dois primeiros encontros do ano, os pais e demais familiares participam de diversas dinâmicas pedagógicas, sem a presença dos meninos. “Nós trabalhamos com famílias com uma vida muito difícil. O objetivo desses encontros é trazer alguma formação para essas pessoas, sempre buscando uma convivência familiar mais pacífica”, explica Fernando. Com a colaboração de diversos parceiros, educadores e palestrantes, são trabalhados temas como saúde, educação, convivência, ética, profissionalização, entre outras questões. “Nós procuramos transmitir valores básicos a essas famílias, por

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exemplo, a importância da higiene, ou de como o homem pode ajudar a mulher nas tarefas diárias. Dessa forma, as pessoas começam a tomar diferentes posturas em seu dia-a-dia e melhorar sua vida”, diz o coordenador. Mesmo não estando presentes nesses encontros iniciais, os meninos participam na elaboração de perguntas, cartazes e demais lembranças relacionados à convivência familiar, ao amor, respeito, perdão e acolhida. Com a educação recebida durante o acolhimento na Chácara, eles mesmos se tornam educadores. “Através dos exemplos que eles recebem, conseguem voltar para casa e educar suas famílias, levar diferentes valores aos seus pais e irmãos”, destaca o economista e consultor de empresas Onilvo Benvenho, que colaborou por cerca de 15 anos com a Chácara. Os encontros de formação têm ainda outras vantagens. Muitas vezes, famílias diferentes criam laços de amizade entre si. “Nos encontros, essas famílias podem trocar experiências e se integrar. Isso as fortalece, uma se apóia na outra para que possam seguir em frente. Essa participação grande serviu de base para compreendermos que se a gente reestrutura a fa-


Meninos de Quatro Pinheiros contam com carinho e afeto de padrinhos e madrinhas A Chácara dos Meninos de Quatro Pinheiros recebe muitas visitas durante o ano. São pessoas movidas por uma atitude solidária, que buscam contribuir com o trabalho que ali se realiza. Ao entrar em contato com as crianças e adolescentes atendidos, esses colaboradores criam fortes laços de carinho e afeto, podendo assumir o papel de padrinhos ou madrinhas dos meninos. O maior requisito para se apadrinhar alguém é participar e estar presente na vida do afilhado. “Gestos simples, como visitá-lo na Chácara, recebê-lo em sua casa durante as férias, levá-lo para passear, conversar, oferecer carinho... Tudo isso faz uma diferença muito grande na vida do menino”, relata Fernando.

mília, as coisas começam a acontecer novamente”, afirma Onilvo. Os outros dois encontros do programa Redescobrindo Minha Família são de reaproximação dos familiares com os meninos, em que são estimulados o diálogo, a brincadeira e a diversão. “Os vínculos vão se restabelecendo aos poucos, e procuramos fazer com que a família visite seus filhos mais vezes durante o ano”, diz Fernando. Os resultados dessas aproximações são visíveis. A assistente social Jandira Vieira, que participou dos primeiros trabalhos com as mães e famílias dos Meninos de Quatro Pinheiros, conta as suas impressões durante os encontros: “As duas partes ficavam aliviadas. Para a mãe, o alívio de ver que o filho não está na rua e, para o filho, o de sentir que a família não liga. Nesse processo, tivemos muitos retornos familiares”. O retorno das crianças e adolescentes à sua família e à comunidade é um dos objetivos principais dos trabalhos da Chácara – somente em 2010, doze meninos puderam voltar às suas casas com sucesso, nas condições previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, muitas vezes esse retorno não é possível. “Isso acontece quando o vínculo entre as pessoas já está muito fragilizado, quando os responsáveis pelo adolescente não podem ser encontrados... São várias situações. Nesses casos, os meninos têm o apoio complementar dos seus padrinhos e madrinhas”, ressalta o coordenador da Chácara.

Aconselhar e orientar o afilhado em suas dificuldades diárias, contribuindo para a sua educação e formação integral, também é uma das condições para o apadrinhamento. “É preciso oferecer, acima de tudo, presença e afeto. Quem pode oferecer apenas recursos materiais pode ser um colaborador, mas não um padrinho”, explica. Além disso, o caráter desse vínculo é permanente. Considerando que grande parte das crianças e adolescentes atendidos pela Chácara tem um histórico de vida marcado por inúmeras perdas e pela rejeição, conquistar o seu carinho requer responsabilidade. É como a frase de Saint-Exupéry, no livro O Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. O grupo de padrinhos e madrinhas da Chácara é bastante heterogêneo. São pessoas de diferentes idades, classes sociais e formações culturais, porém todos com um objetivo comum. Alguns meninos são apadrinhados por um casal, outros possuem somente um padrinho ou madrinha, e ainda há aqueles que escolhem os dois entre pessoas que não se conhecem. Apadrinhar é uma relação pautada por muitos desafios e alegrias. “Os resultados são os melhores possíveis. Não só para os afilhados, que vivenciam relações mais saudáveis e se sentem amados, como também para os padrinhos e madrinhas, que aprendem muito e crescem como pessoas”, conclui Fernando.

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Vulnerabilidade social. É esse o ponto de partida do trabalho realizado na Chácara dos Meninos de 4 Pinheiros. E foi a partir disso também que as pedagogas Marlene Schüssler D’Aroz e Tânia Stoltz resolveram escrever um livro. As autoras voltam sua atenção às mães desses meninos e abordam a questão da sobrevivência em situações de vulnerabilidade social ser recorrente na vida dessas mulheres. Em entrevista, as pedagogas contam um pouco mais sobre o livro, entitulado Mulheres - Buscando Saídas no Beco, explicando desde a proposta até as reflexões resultantes do processo de pesquisa e escrita.

Como surgiu a idéia da publicação? Surgiu a partir do desejo de conhecer a trajetória de vida das mães dos meninos acolhidos na Chácara Os Meninos de 4 Pinheiros. Há a necessidade de conhecimento do processo de vida envolvido na produção da vulnerabilidade psicossocial.

De que forma foram feitos os contatos com as famílias?

Foi um trabalho conjunto entre a Marlene e o coordenador da Chácara, Fernando Francisco Góis, que fizeram os convites às mães. Daí elas se dispuseram a participar de entrevistas em suas casas ou na UFPR.

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Ao longo das entrevistas, que impressões vocês tiveram sobre as relações familiares dos meninos abrigados na Chácara? São relações marcadas pela vivência da pobreza e miséria, negligência, maus tratos, violências de diferentes ordens, convivência conflituosa, múltiplos parceiros, pela inexistência de relações afetivas ou vivência de intensa instabilidade nas relações afetivas.

Alguma questão específica as surpreendeu?

A impressionante solidariedade de algumas mães para com as crianças abandonadas de outras famílias, apesar da vivência da miséria. Além da repetição de trajetórias negativas na vida dessas mulheres, e a partir de diferentes parceiros.

A quem vocês sugerem a leitura do material? Sugerimos a leitura a estudantes, profissionais de educação, profissionais do poder judiciário e interessados na discussão dos processos de desenvolvimento e aprendizado humanos, bem como a famílias envolvidas com a educação de seus filhos. Algo deve mudar no atendimento às famílias dos meninos a partir do que foi exposto no livro? A partir do livro pretende-se intensificar o trabalho com as famílias, considerando o conhecimento de aspectos

recorrentes nas histórias de vida de mulheres-mães de adolescentes acolhidos na Chácara. Outro aspecto a ser enfatizado a partir do livro refere-se à importância do trabalho cuidadoso da Chácara na reinserção do adolescente ao seu ambiente familiar.

Autoras Marlene Schüssler D’Aroz é pedagoga e educadora social, mestre em Educação e doutoranda em Educação. Tânia Stoltz é pedagoga, mestre e doutora em Educação, e professora da Universidade Federal do Paraná.


Com pouco mais de 20 mil habitantes, a cidade de Mandirituba abriga diversas organizações não governamentais e filantrópicas, que prestam apoio à sociedade nos seus mais diversos aspectos. Desde janeiro de 2011, representantes dessas entidades decidiram unir forças para compartilhar experiências e, principalmente, ajudar uns aos outros. “É um verdadeiro intercâmbio de ideias”, resume Lauri Palu, presidente de uma das entidades participantes, o Comitê Contra a Fome e Pela Moradia Ação da Cidadania de Mandirituba. “Funciona como uma rede solidária. Através de reuniões mensais, podemos contar com a colaboração das entidades vizinhas para solucionar problemas e planejar ações”, explica Aloísia Pedrini, assistente social e uma das fundadoras do Comitê Contra a Fome. Nas reuniões, cada representante tem a oportunidade de falar das dificuldades e necessidades de sua entidade. “E assim nós nos ajudamos. É uma experiência muito rica”, afirma Lauri. Entre os participantes estão o próprio Comitê Contra a Fome, a Chácara dos Meninos de 4 Pinheiros, a Associação Brasileira de Amparo à Infância (ABAI), a Associação Mandiritubense de Amigos dos Idosos (AMAI), a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de Mandirituba (APAE), a Comunidade Bom Jesus, a Fazenda da Esperança, o Conselho Tutelar, a Guarda Municipal, a Secretaria de Ação Social, e diversos outros voluntários, entre eles os dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) de Mandirituba e Quitandinha. Apesar da recente formação da rede, a troca de experiências já traz resultados visíveis. “Muitos benefícios surgem de um simples diálogo. Um dos representantes, por exemplo, estava com dificuldade para acessar os projetos disponibilizados pelo governo. Outro colaborador já tinha essa experiência, e pode mostrar o caminho”, diz Lauri. Além disso, através da união das entidades já foram organizadas palestras para prevenção e combate à violência nas escolas, esclarecimentos sobre o Estatuto da Criança e do Ado-

lescente, apadrinhamento de meninos da Chácara de 4 Pinheiros, e muitas outras ações. “Uma das mais bonitas até agora foi a organização de uma horta comunitária, pertencente a todos nós, a todas as entidades”, aponta Aloísia. A rede de ONGs de Mandirituba, no entanto, também como objetivo o seu fortalecimento. Para o coordenador da Chácara de 4 Pinheiros, Fernando de Gois, faltam políticas públicas que apóiem o trabalho dessas entidades. “Hoje nós somos responsáveis por muitas vidas, e fazemos um trabalho que muitas vezes deveria ser do governo. Essa união entre as entidades é essencial até mesmo para cobrar das autoridades as medidas necessárias para a melhoria da qualidade de vida das crianças, jovens e adultos que estão sob nosso cuidado”, conclui. Jornal dos Meninos

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O trabalho com as famílias É uma prioridade Pra promover a aproximação Dos meninos e os pais de verdade Visando um futuro retorno Dos mesmos à sociedade

Duas vezes por ano Tem um encontro de formação Para as famílias dos meninos Visando uma fortificação Dos laços familiares E uma reaproximação

Os trabalhos com as famílias São sempre fundamentais Para devolver o menino Aos âmbitos sociais Repassando a responsabilidade Aos seus verdadeiros pais

Também duas vezes por ano Tem o Encontro de Convivência Que acontece na Chácara Com troca de experiência Pais e filhos brincam juntos Conversam com mais frequência

É um trabalho voluntário Do Serviço Social Que ajuda a Fundação De maneira sem igual Com a ajuda de casais Da Paróquia do Cabral

Nos encontros tem muita música Bate-papo e brincadeira Com a ajuda de voluntários Ninguém fica de bobeira Além de alimento pra alma Tem um rango de primeira

Padre Clóvis1 coordenava O Trabalho dos casais Junto a outros voluntários Que ajudavam bem demais Todo o trabalho desenvolvido Pelas assistentes sociais

Nos encontros são discutidos Temas da atualidade Convivência, educação Drogas, sexualidade Violência e alcoolismo Uma triste realidade

1. Padre Clóvis Luiz Rombaldi, então pároco da Igreja do Senhor Bom Jesus do Cabral, em Curitiba-PR.

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