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MARCO ZERO

Número 25 – Dezembro de 2012

Perfil

A beijoqueira da Boca Maldita foto: Divulgação

Nunca houve uma personagem como Gilda na capital paranaense Claudia Bilobran

C

omo toda metrópole, Curitiba tem seus personagens extravagantes. Há quem venha somente para tirar uma foto com o Oil Man ou passar em frente à casa do vampiro que não brilha na luz do sol, Dalton Trevisan. Tem até o Homem Aranha, ganhando uns trocados e tirando fotos com os curiosos. E todo turista que se preze passa pela rua XV e pela Boca Maldita, ali entre o Bondinho e a Praça Osório, palco de grandes acontecimentos: de manifestações fervorosas até o trânsito livre das excêntricas e inusitadas personagens da cidade. Na segunda metade da década de 70 e início dos anos 80 surge Gilda, a rainha beijoqueira da Boca Maldita. Rubens Aparecido Rinque, um homem à frente de seu tempo, encarando o preconceito fortíssimo de uma época muito conservadora. Assumiu seu alter ego e travestiu-se de mulher, vivendo da forma que mais lhe aprazia. Dizem que o rapaz era de uma família rica de Londrina, e que chegou a Curitiba junto com um grupo circense. Gostou da cidade e ficou. Ganhou muitas moedinhas, roubou beijinhos e fez muita folia desfilando pela região central da cidade, usando seu batom e maquiagem, quebrando os tons de cinza da capital paranaense. Seu

estilo de vida livre e alegre não agradava a todos, mas isso não importava. Fazia muitos amigos que se divertiam com sua liberdade de transitar, fazer suas brincadeiras e viver do modo que lhe conviesse. Janete Schroeder, 54 anos, psicóloga, lembra que passear pela Rua XV de Novembro quando era adolescente, com certeza iria acabar em muitas risadas, pois lá estava Gilda, com suas tamancas, camisa amarradinha na cintura, importunando quem quer que passasse por ali. “Ela provocava, parava na frente das pessoas e batia aquelas tamancas com um rebolado típico de “Gilda” e se não ganhasse a moedinha, lascava um beijo no transeunte”, relembra Janete, nostálgica. Um dinheiro ou um beijo, era a sua ameaça. “Bons tempos aqueles”, suspira. Luiz Solda, cartunista, conta que em um carnaval estava bem próximo de um carro de som

onde estava o presidente da Boca Maldita, e Gilda tentou subir. Porém, o cidadão a impediu com um violento chute na boca. O professor de criação publicitária, Willian Sade Junior, 47 anos, relembra de Gilda, das suas peraltices. “Gilda morava em um terreno baldio, na esquina da Cruz Machado com Alameda Cabral, onde hoje tem a fonte Mocinhas da Cidade, uma homenagem à dupla caipira Nhô Belarmino & Nhá Gabriela. Era um homem que se travestia de mulher, com todos os trejeitos femininos. Gostava de ser chamada de mulher, sentia-se mulher. E ai daquele que falasse o contrário ou a chamasse de “bicha”, partia para a porrada. Era muito forte, batia mesmo, sem dó.” Willian lembra também da época em que a feirinha hippie (como era chamada) acontecia na praça Zacarias, outro ponto preferido de Gilda. “Sábado pela manhã quem passasse pela

e ai daquele que falasse o contrário ou a chamasse de “bicha”, partia para a porrada. era muito forte, batia mesmo, sem dó.” ples personagem de rua, era uma verdadeira pedra no sapato da sociedade curitibana da época, recatada e provinciana. Vale muito a pena ver o documentário sobre Gilda dirigido por Yanko del Pino, que entrevista pessoas da época. O bloco Embaixadores da Alegria pulou o carnaval sem a presença de Gilda no ano seguinte após sua morte, mas com um samba enredo em sua homenagem.

Autores: Carlos Eduardo Mattar, Reinaldo Bola e Cláudio Ribeiro Gilda sem nome (1984)

o lgaçã : Divu foto

Ai que saudade, que me veio! Das brincadeiras que Gilda aprontava 50 mangos para beijar certo alguém Descontraída Gilda ia... e beijava Beijou doutor... o senador... Falou de amor; brincou... brincou... Gilda, o seu bom humor deixou

foto: Divulgação

Um oceano de saudades Gilda, o seu carnaval marcou por muito tempo a rotina da cidade Da melindrosa, de princesa oriental Da avenida faz seu palco natural e de repente transforma-se o artista De Carlitos, a vedete ou passista Ai que saudade.

feirinha com certeza toparia com ela. Bulia com todos, e nem os artesões escapavam de suas brincadeiras. Seus trejeitos nos fazia lembrar daquele juiz de futebol, Jorge José Emiliano dos Santos, o Juiz Margarida”, comenta Willian. Desfilava cheia de charme pela Rua XV com sua roupas puídas e surradas, era pura provocação a começar pelo seu nome: Gilda. Quem não lembra da frase: Nunca houve uma mulher como Gilda. Em 15 de março de 1983, Gilda é encontrada morta em uma casa abandonada na Rua Desembargador Mota, 2.290. Alguns acharam que foi morte encomendada, outros briga de rua. Vai saber... Cirrose hepática, meningite purulenta e broncopneumonia era o que constava na causa mortis em seu atestado de óbito. Foi enterrada no cemitério do Bom Retiro, no jazigo da travesti Márcia, que doou uma vaga para a colega. Gilda era mais que um sim-

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Marco Zero 25  

Edição 25 do Jornal Marco Zero

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