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JĂşlio Dinis


Índice 4 Júlio...quem? 6 No campo literário 8 Curiosidades

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9 Diana de Aveleda 10 Linha do tempo 12 Edições e traduções dos romances de Júlio Dinis

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14 Edição de luxo 16 Resumo da obra As Pupilas do Senhor Reitor

PSEUDÔNIMOS

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18 Personagens 19 Análise do romance 20 Crítica: atual e contemporânea ao autor

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Júlio Dinis


Editorial ―Quem é Júlio Dinis?‖. Você mesmo, que agora nos lê, pode estar fazendo essa mesma pergunta. ―O que ele escreveu?‖. Pela vontade de responder essas e outras questões, fomos movidos a preparar essa pequena revista. Mas, é bem verdade que o moTHIAGO RODOLFO Estudante de Letras (Unicamp). Cursa seu primeiro ano na Universidade e adora Literatura.

tor propulsório à montagem desse projeto foi a nossa Excelentíssima Professora Márcia Abreu, que nos deu apoio, orientação e coragem. Júlio Dinis é digno de receber a atenção que lhe é dada nestas linhas e muito mais. Nas próximas páginas, falaremos apenas de Júlio Dinis e o que estiver relacionado a ele. Afinal, como disse, em e-mail, uma grande estudiosa desse autor, Ana Rita Soveral, ―Nosso Júlio Dinis merece!‖.

NAYANE GONÇALVES Também estuda Letras na Unicamp. Gosta muito de pesquisar e escrever.

Os organizadores 3 Júlio Dinis


Infância trágica, vida marcada por uma doença, morto ainda jovem. Quem era esse grande escritor português?

Joaquim Guilherme Gomes Coelho era seu verdadeiro nome! Júlio Dinis era um de seus pseudônimos – o de mais sucesso. Nasceu na cidade do Porto, em 14 de novembro de 1839. Era filho do médico-cirurgião de Ovar, José Joaquim Gomes Coelho, e de Ana Constança Potter, filha de um inglês com uma irlandesa. Há poucos registros encontrados sobre a infância de Dinis. O que se tem de marcante é a prematura morte da mãe, por tuberculose, que mais tarde também acometeria J. Dinis e seus oito irmãos, seis anos após o nascimento do autor, o que implicou em uma infância com dificuldades. Em sua obra aparecem traços desses fatos, principalmente na presença da mãe dos protagonistas de suas obras e a orfandade. Passou um tempo de sua vida em Grijó, lugarejo aos arredores do Porto, o que influiu na sua afeição ao campo, demonstrada na maioria de suas obras. Depois de uma muito bem sucedida carreira escolar, ingressou, em 1856, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

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Júlio Dinis

Apesar do meio científico a que pertencia, nunca perdeu o gosto pela literatura: aprendeu latim, refletido em citações em suas obras, humanidades e posteriormente francês e inglês, essa última favorecida pela familiaridade proveniente da ascendência materna, permitindo-lhe acesso a uma cultura até então pouco difundida em sua pátria. Chegou a traduzir para sua língua grandes autores anglo-saxões como Milton e Shakespeare. Segundo o próprio autor, começou a escrever aos 11 anos, porém seus primeiros escritos encontrados datam 1857, quando já contava 18 anos. São textos em prosa, forma, pelo que tudo indica, com a qual iniciou sua carreira. Mas, ao mesmo tempo, escrevia versos e tinha uma especial dedicação ao teatro. Iniciando-se a produção romântica, Júlio Dinis já demonstrava gosto pelos descritivos e pela narração objetiva dos sentimentos. O amor já é o tema de sua primeira composição poética conhecida. Junto a Augusto Luso e Henrique

artigosjornaljoaosemana.blogspot.com.br/2010/11/ovarna-evolucao-literaria-de-julio.html

Júlio...quem?

1839-1871


Augusto da Silva, Júlio Dinis formou um grupo amador de teatro, no qual atuou. Ali também foram encenadas duas comé-

Morgadinha dos Canaviais, eram no primeiro momento as duas obras uma única. Ali estabeleceu incipiente namoro

dias do nosso autor: As Duas Cartas e Simi-

através de trocas de cartas com Ana Si-

les Similibus. No teatro, Júlio Dinis ganhou traços mais realistas. Em 1856, estreou no

mões, filha do senhor Tomé Simões, quem teria servido de modelo ao reitor

gênero com Bolo Quente. No mesmo ano,

das Pupilas. Aliás, naquela localidade en-

veio O Casamento da Condessa de Amieira,

controu tipos que o inspiraram a criação

posteriormente escreveu O Último Baile de

de várias de suas personagens. Em 1863,

S. José e Os Anéis ou Inconvenientes de amar

voltou ao Porto com As Pupilas do Senhor

as escondidas, ambos em 1857. Aos 21 anos, quando estreou como

Reitor quase concluída. A cada dia sua saúde declinava, até

escritor com o seu mais conhecido pseudônimo, até mesmo os amigos que conhe-

que em 12 de setembro de 1871, ao lado do primo e do amigo fiel Custódio de Pas-

ciam suas comédias ignoravam a sua faceta romancista. Não se imaginava que no mes-

sos, deixou a vida de forma serena, da mesma maneira com a qual escrevia.

mo ano de 1861 um mesmo jovem era o

Conta mais!

poeta colaborador da Grinalda, autor da poesia intitulada A J... e o estudante aplicado da Escola Médico Cirúrgica do Porto que concluía seu curso com honras. O ofício de clínico não atraía Gomes Coelho. Apesar do avanço progressivo de sua enfermidade, Júlio Dinis não interromperia sua produção literária. Em 1862, estreou no jornal do Porto com As Apreensões de Uma Mãe na revista Grinalda publicou A Noiva e Teresa. Durante o tempo em que viveu em Ovar escreveu quase por inteiro seu primeiro e mais prestigiado romance As Pupilas do Senhor Reitor e traçou o esboço de

A tuberculose era conhecida como “a doença dos poetas” e estava ligada à imagem da vida boêmia e devassa. Hoje, sabe-se que é uma doença contagiosa, transmitida pela tosse de uma pessoa infectada. Até o final da década de 1940, não havia tratamento para ela, fato que levou bem cedo da Terra vários escritores dos quais certamente você já ouviu falar ou cujas obras soam familiar aos seus ouvidos: Emily Brontë (autora de “O morro dos ventos uivantes”), com 30 anos, Castro Alves, aos 24, Cruz e Sousa, aos 36, e Álvares de Azevedo, com apenas 20. Lembram-se do famoso poema “Pneumotórax”, do Manuel Bandeira? Pois ele retrata ironicamente essa doença.

5 Júlio Dinis


No campo literário Onde se encontra nosso autor? Lugar de Júlio Dinis nesse espaço tão almejado para quem vive de literatura

http://findwally.co.uk/fankit/graphics/ WaldoAndFriendsAndOdlaw/

Ao contrário do que se pode supor (e supomos no início das pesquisas), nosso querido autor não está distante do lugar em que ficam os ilustres escritores. Júlio Dinis demarcou o seu espaço no campo das letras portuguesas. Seu prestígio ele mesmo o pôde notar em vida. Os elogios à sua escrita literária figuravam nos periódicos da época e em outras publicações de especificidade literária. As opiniões de seus colegas de profissão, dentre os quais, Alexandre Herculano, não contradiziam o que era publicado nos jornais. Herculano chamou As Pupilas do Senhor Reitor de ―o primeiro romance português do século‖e ele de ―o primeiro talento da geração moderna‖. Concordemos: não é todo dia e todo mundo que ostenta frases prestigiosas dessas. Seu nome consta na História da Literatura Portuguesa, de Oscar Lopes e Antônio Saraiva, no Dicionário de Literatura, de Jacinto do Prado Coelho, que são livros muito importantes para o estudo da crítica literária no século XX e que tratam sobre a literatura.

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Júlio Dinis

O romance português, depois de Júlio Dinis, nunca mais foi o mesmo. Embora atualmente seu nome não seja reconhecido por muitos leitores, suas obras fizeram muito sucesso; tanto a crítica como o público do século XIX o adoravam. Sua popularidade continuou ao longo do século XX, através de adaptações cinematográficas e novelescas. E não se pode esquecer das muitas adaptações teatrais feitas no século XIX de seus romances. ‖Em 1866 publicava-se no Jornal do Porto, em folhetins, o romance As Pupilas do Senhor Reitor, que, editado em volume no ano seguinte, conheceu logo êxito fulminante. Herculano chamou-lhe o primeiro romance do século; e o autor, entrado na celebridade, sustentou essa nomeada com uma produção copiosa para os curtos anos que viveu: Uma Família lnglesa (saída em 1868, mas de redação iniciada dez anos antes), A Morga-


dinha dos Canaviais (1868), Os Fidalgos da Casa

http://biblioteca-esb.blogspot.com.br/2012/05/livros-e-leitura-na-pintura.html

http://biblioteca-esb.blogspot.com.br/2012/05/livros-eleitura-na-pintura.html

Mourisca, dois volumes editados postumamente no mesmo ano em que faleceu o autor (1871), que não chegou a revê-Ios; além de diversos contos, menos personalizados, acusando por vezes toques de Balzac e de Dickens, com que entretanto preencheu os seus folhetins do Jornal do Porto, depois reunidos sob o titulo Serões na Província.‖

7 Júlio Dinis


Curiosidades A casa em que Júlio Dinis passou o verão de 1863, em Ovar, é hoje a Casamuseu Júlio Dinis. Sua passagem por Ovar, afirmam seus estudiosos, foi importantìssima para a construção de sua obra. Quer visitá-la? O museu fica na Rua Júlio Dinis, 81, Largo dos Campos, em Portugal

Júlio Dinis não pensava em se casar, dizia ele por não encontrar com quem. O que se sabe é que sua prima Rita de Cássia Pinto Coelho foi a mulher mais próxima ao escritor. Porém, Ritinha era angelical demais e “não possuìa as imperfeições que fazem despertar o amor”, segundo João Gaspar Simões. O próprio Gomes Coelho a via como fonte dos carinhos maternos, dos quais não pode desfrutar. O mesmo sentia Carlos, personagem de Uma Família Inglesa, pela irmã Jenny. Firme e piedosa, tudo compreende. Jenny para Carlos teria sido como Ritinha para Joaquim, a companheira afetuosa e um pouco intransigente. Carlos portanto, poderia ser visto como uma espécie de alter ego do romancista.

Fonte: http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com.br/2010/11/ovar-na-evolucaoliteraria-de-julio.html

O museu Júlio Dinis, localizado em Ovar.

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Júlio Dinis

Diana de Aveleda (ver próxima página) “lia” Walter Scott. Ela faz referência ao seu poema em uma de suas cartas: o „delicioso espìrito fantasioso da Dama do Lago’.


iana de Aveleda

A

lém de Júlio Dinis, João Gomes utilizou-se de outras pseudônimas. Dentre elas, uma nos é muito intrigante. Sob o pseudônimo feminino Diana de Aveleda escreveu uma série de cartas, algumas das quais foram publicadas no Jornal do Porto e outras no semanário Mocidade, cujo conteúdo carregava um teor estético-literário e também ideológico. Com esse ―nome‖, opinou abertamente sobre a Questão Coimbrã, em uma posição conciliadora, pois apesar de apreciar as obras mais eruditas, defendia uma literatura mais acessível para a grande população. O romancista era recatado, mas Diana de Aveleda era extrovertida, até irreverente e violenta. Revoltava-se pelos seus ideais, como pode ser percebido no trecho seguinte,

publicado em Cartas para a minha família:

“E

sta aberração do gosto público, [...] estes excessos e abusos que fazem recuar séculos o nosso progresso artístico, dura, reina, propaga-se, sem que uma corte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para combater a todo o transe o mal deplorável.”

Em um episódio engraçado, visto hoje, e um pouco polêmico, na época, Diana de Aveleda publicou uma carta em resposta à Ramalho Ortigão, rebatendo suas considerações a respeito da mulher e da filosofia. Ortigão não fazia ideia de quem era o escritor daquelas respostas um tanto quanto agressivas, mas estava convenci-

Pseudônimos

D

Conta mais! Também conhecida como a Questão do Bom Senso e Bom Gosto, f oi uma das mais importantes polêmicas literárias portuguesas. Contrapunham-se ,de um lado, os intelectuais conservadores; do outro, a nova geração (jovens, conhecidos como Geração de 70), aberta às ideias europeias.

do de que era uma senhora quem as escrevia.

9 Júlio Dinis


Linha do tempo

Confira os anos em que os romances de Júlio Dinis foram publicados e as adaptações cinematográficas e para a televisão que foram feitas baseadas em suas obras

1866 Folhetim

1867 Livro

1867 Folhetim

1868

1868 Livro 1871

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Júlio Dinis


MINISSÉRIE A Morgadinha dos Canaviais

CINEMA

RTP

Adaptação de Os fidalgos da Casa Mourisca Georges Pallu (1921) Arthur Duarte (1938) 1921

NOVELA Adaptação de

1990

1970

As Pupilas do Senhor Reitor 2013

TV Record

1938

1972 NOVELA MINISSÉRIE Os fidalgos da Casa Mourisca

1949

João Semana RTP

TV Record 1924

1935

CINEMA

CINEMA

1994

Adaptação de As

A Morgadinha dos Canaviais

Pupilas do Senhor Reitor

Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari

Maurice Mauriad (1924) Leitão de Barros (1935)

CINEMA 1961

As Pupilas do Senhor Reitor Perdigão Queiroga

NOVELA As Pupilas do Senhor Reitor SBT

11 Júlio Dinis


Edições e traduções dos romances de Júlio Dinis Olhando para o gráfico de publicações, as obras com mais publicações são As Pupilas do Senhor Reitor (11) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (13). Apesar de As Pupilas do Senhor Reitor ser a obra de mais prestígio de Júlio Dinis, Os Fidalgos da Casa Mourisca é a obra com maior número de edições, segundo nossas pesquisas – o que deve ainda ser confirmado —,por ser, talvez, concebida em um mo-

mento em que o autor já gozava de certo prestígio. Número próximo a esses apresenta A Morgadinha dos Canaviais (8), demonstrando que por ela também houve relativa procura. O romance de Júlio Dinis com menos publicações foi Uma Família Inglesa, isso pode se explicar primeiro por ela ser a primeira das obras a ser escrita, ainda quando o autor não havia chegado a uma maturidade literária e, segundo, por ser o único romance urbano, não marcado assim pelos traços tão característicos do autor que atraía o grande público português.

Publicações 14

12

10

8 Publicações 6

4

2

0 A Morgadinha dos Canaviais

12

Júlio Dinis

As Pupilas do Senhor Reitor

Uma Família Inglesa

Fidalgos da Casa Mourisca


O próximo gráfico mostra o número de publicações por ano. Até o fim da década de 1870, há uma regularidade: em quase todos os anos há alguma obra publicada. Apenas duas vezes há um disparo nas publicações com quatro em único ano. No ano 1874, As Pupilas ganharam uma edição de luxo (ver próxima página). Interessante observar que no ano em que houve três edições desse romance (1875), uma das edições não foi autorizada (tratase de edição feita em Leipzig, da editora Brockhaus. Esse gráfico também pode explicar o fato de a obra com maior número de edições ser Os Fidalgos da Casa Mourisca, da qual foi encontrada a décima terceira edição, pois sua primeira publicação se dá justamente no ano da morte do autor. Pode se supor que a partir da morte do autor tenha havido um aumento expressivo de publicações de sua obra, sendo que algumas delas não foram encontradas, e tenha sido interessante publicar sua obra mais recente que a esse tempo provavelmente

ainda não havia tido uma distribuição muito disseminada. TRADUÇÕES Não foram encontradas quaisquer traduções nos catálogos de livros online dentro do período 1789-1914. Consultando, porém, a tese de doutorado de Ana Rita Soveral Padeira Navarro, descobrimos que houve uma tradução para o francês de As Pupilas do Senhor Reitor, feita por Olivier Du Chastel, em 1886, intitulada L’Amour de Guida. E, além dela, provavelmente uma tradução da mesma obra para o inglês: ―A notícia da preparação da tradução inglesa de As Pupilas surge no Jornal do Porto, ano 14, nr. 29, 7 de Fev. 1872, p. 2, publicada dois dias antes pelo Diário de Notícias, fundamentando-se ambos na notícia dada por um periódico londrino, The Athenaeum, do qual Augusto Soromenho era, aliás, correspondente.‖(trecho retirado da tese de doutorado de Ana Rita).

4,5

4

3,5

3

2,5

Fidalgos da Casa Mourisca Uma Família Inglesa As Pupilas do Senhor Reitor

2

A Morgadinha dos Canaviais 1,5

1

0,5

0 1867 1868 1869 1870 1871 1872 1874 1875 1876 1878 1880 1884 1887 1890 1899 1902 1904 1906 1909 1911 1913

Quantidade de publicações por obra e ano.

?

13 Júlio Dinis


A edição de Luxo de As Pupilas

http://pt.wikipedia.org/wiki/Roque_Gameiro

A linda edição em capa dura ganhou nada mais nada menos do que aquarelas de um dos mais reconhecidos desenhistas de Portugal

Alfredo Rogue Gameiro (Minde,1864 - Lisboa,1935) foi um grande pintor e desenhista e terá sido provavelmente o maior aquarelista português. Ele desenvolveu um trabalho notável para ilustração do romance de Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reihttp://www.alfarrabista.eu/livros.php?artg=1034161

tor. Como mencionado anteriormente, a edição de luxo que continha suas aquarelas foi feita em 1874. Ao lado, a capa rebuscada dessa edição especial. Nas próxima página, você pode conferir algumas das ilustrações que esA capa dura da edição de luxo.

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Júlio Dinis

tão no interior desse belíssimo livro.


15 JĂşlio Dinis

http://jcabral.info/RG/TP%200% 200%20Alfredo/Pupilas%20SR/3vTP00%20Pupilas.html


Resumo da obra

As Pupilas

do Senhor Reitor O best-seller de Júlio Dinis fala de amor, casamento, intrigas, fofocas... Enfim, tudo o que é capaz de fazer o leitor ficar com o livro nas mãos até a última página

O narrador começa a história descrevendo a família de José das Dornas, um fazendeiro que tinha dois filhos e havia perdido a esposa muito cedo. O filho mais velho, Pedro, era forte e trabalhador e seguia os passos do pai, enquanto Daniel, o mais novo, não gostava dos ofícios do campo e passava boa parte do tempo no ócio. Vendo a inaptidão do menino mais novo aos serviços do pai e do irmão, Padre Antônio, religioso próximo à família, aconselha José das Dornas transformar o menino em padre. Logo começa a aplicar lições de latim ao garoto, que se sai bem nos estudos. Porém, ao notar os constantes atrasos do garoto para voltar à casa depois das aulas, o padre segue o menino e o vê conversando com Margarida, a quem Daniel prometera não se tornar padre para um dia casarem-se. Vendo a cena, padre Antônio aconselha José das Dornas a mandá-lo ao Porto para que lá estude Medicina. Assim se faz, para a tristeza de Margarida. E o rapaz é bem sucedido nesse projeto. Voltando do Porto, Daniel encontra seu irmão Pedro noivo de clara, meia irmã de Margarida, porém não se recorda do amor de sua infância aos poucos vai se encantando com a noiva do irmão. Na aldeia, Daniel encontra um "rival", o doutor João Semana, médico experiente que muito confronta com ele nas ideias e opiniões. A população da aldeia vê com receio o no vo médico, ainda mais devido a suas visitas a filha do comerciante João da Esquina a quem escrevera poesias como receita. Apesar da má fama que lhe rendeu esse fato, pela necessidade, pois o velho médico já não dava conta de todos os pacientes, acabou se inserindo profissionalmente naquela sociedade. As duas famílias aproximadas tanto pelo noivado do irmão, como pela amizade em comum com padre Antonio, levou Daniel a estreitar laços com sua cunhada Clara. Algumas vezes foi encontrá-la em sua casa, mas margarida sofrendo sempre assumia ser com ela os encontros para preservar a reputação da irmã, arriscando a sua, e evitar tragédias, como em uma das vezes que Pedro flagrou o encontro. 16

Júlio Dinis


Nesse último encontro, a falsa história de que Daniel se encontrava com Margarida tornou-se popular. Os boatos de espalharam rapidamente. Para preservar a honra da moça Daniel propõe que se casem, porém ela não aceita, devido o pedido não ser motivado por sentimento verdadeiro. Clara insiste para que a irmã aceite, caso contrário contaria toda a verdade, o que poderia resultar em uma grande desgraça nas duas famílias. Daniel se impressiona com a abnegação de Margarida e recorda do amor de sua infância. Resignado do comportamento que tinha, o jovem médico se propõe a mudar seus hábitos e com o consentimento do pai e do padre pede novamente Margarida em casamento. A princípio a moça muito relutou, mas depois ciente de que dessa vez o sentimento nobre que trazia o rapaz até ela aceita o casamento e se entrega ao amor de sua infância.

FIM Afinal, onde se passa o ro-

mance As Pupilas do Senhor Reitor? Quem diria que isso seria um problema! Enquanto os leitores de A Moreninha, de Manoel de Macedo, estão convictos de que é a Ilha de Paquetá o cenário do romance mesmo que nenhuma linha do livro dê garantias exatas de que seja esse mesmo o lugar, os leitores de As Pupilas dividem suas opiniões. A questão, aparentemente simples, gerou alguns pequenos problemas: Roque Gameiro se enroscou ao adequar o traje das personagens com a narrativa em suas ilustrações. Ora, pois! Egas Moniz, em “Júlio Dinis e a sua obra”, defende ter sido Ovar a terra-palco do romance. Mas Leitão de Barros, que não concordava com essa possibilidade, fez o seu filme com as mesmas dúvidas de Roque Gameiro. Encafifado, o ilustrador fez suas pesquisas e, em artigo no Diário de Notìcias, revelou estar inclinado para a possibilidade de ter sido Santo Tirso o cenário para a história. Ovar ou Santo Tirso? Eis a questão!

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José das Dornas é um fazendeiro viúvo que passa a obra a zelar pelo futuro dos filhos. Inteligente, logo percebe pelo perfil dos rapazes o melhor destino a encaminhá-los.

Pedro é filho mais velho do fazendeiro. Rapaz forte, sério e trabalhador, desde cedo se destaca pelos serviços que realiza na propriedade do pai se tornando seu natural sucessor. Ama Clara, de quem é noivo por grande parte da obra e com quem se casa no fim. É muito respeitoso, zeloso e fiel à moça.

Padre Antônio é um homem sério e prestigiado na localidade. Era amigo próximo da famìlia de José das Dornas e o tutor das meninas depois que elas ficaram órfãs. Muito inteligente, dava conselhos e tinha as ideias que solucionavam os problemas e as peripécias da obra, sempre estava no local certo quando necessário.

Personagens Clara é a meia-irmã de Guida. Moça alegre gostava das conversas e das festas. Amava muito a irmã e fazia questão que ela também desfrutasse de sua herança, pois a julgava merecedora. Devido seus devaneios se dão vários episódios centrais da obra.

Daniel é o filho mais novo do das Dornas. Rapaz pouco apto aos serviços braçais. Gosta do ócio e de gozar a vida. Inteligente e interessado desde pequeno recebe instrução intelectual e se forma em medicina de forma bem sucedida.

João Semana é o velho e respeitado médico da aldeia. Apesar de possuir muito vigor fìsico, a idade avançada já faz com que ele não dê conta de todos os pacientes, o que possibilita a inserção de Daniel como segundo médico daquela população. Apesar das divergências de pensamentos, possui bom relacionamento com o rapaz. É também muito próximo às meninas.

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Júlio Dinis

Margarida (Guida) é uma moça órfã, muito séria, recatada e inteligente. Administra a herança da meia-irmã mais nova e cuida muito bem da garota. É o amor da infância de Daniel, a quem ela ama durante toda a obra e no fim após muito relutar devido os comportamentos do rapaz decide se casar por estar convencida de que o médico realmente a ama.

João da Esquina é um comerciante que vive com a esposa e uma filha. É um homem avesso a novidades e difìcil de relacionar-se. Sua venda é o centro das fofocas na aldeia.

Francisca é a filha do vendeiro. Menina esperta por quem Daniel enamorara-se após umas consultas, entregandolhe poesias como receita.

Dona Tereza é a esposa do vendeiro. É quem sempre tem as informações sobre a vida das personagens e espalha as histórias pelo povoado.

Joana é a criada do doutor João Semana. Sempre solicita e disposta a ajudar é quem por não querer incomodar o patrão que dormia destina a Daniel seu primeiro paciente. É também muito próxima às meninas.


Análise do romance Não é de se estranhar que As Pupilas agradaram o público leitor do século retrasado e a crítica. O enredo da obra é cercado de conspirações, intrigas e movimentações. Ao longo dela há uma sequência de fatos surpreendentes que prendem a atenção do leitor. Essa é a principal característica que o aponta como romance folhetinesco. Esse efeito, que desperta a curiosidade e faz sucesso com o público, se dá através de interrupções em pontos culminantes da história e quebra de ações, encerrando-se os capítulos em peripécias a serem resolvidas no capítulo seguinte. Um trecho que caracteriza bem esse caráter da obra é o seguinte: “Que circunstância tinha convocado o conciliábulo conjugal, e o que foi fazer o João da Esquina assim ataviado? Vê-lo-emos no capítulo seguinte.” A história gira em torno dos sentimentos amorosos das personagens jovens e acordos e suposições de possíveis casamentos, deixando de lado maiores detalhes sobre aspectos que poderiam ser importantes, como por exemplo, o período em que Daniel vive no Porto.

As personagens são retratos fieis de habitantes do campo, carregando a obra de tipos naturais e decoro (ação das personagens segundo a idade, sexo, origem, etc.), que tanto pediam a crítica literária do século XIX. A linguagem é fácil e atrai a grande massa a sua leitura. O narrador dialoga com o leitor e muitas vezes se confunde com este, por se posicionar também como espectador dos fatos. Mostra-se curioso e interessado com o que irá acontecer. Usa ironias bem-humoradas, fazendo com que, apesar de haver uma intenção moralista, a leitura da obra se torne leve. Exemplos de uso desses recursos pelo autor estão no seguinte trecho: ―O leitor concordará comigo, decerto, que será melhor deixar passar estes momentos de expansões e retirarmo-nos discretamente, como hóspedes importunos sempre nestas cenas de tanta alegria doméstica. Deixemos Daniel gozar-se à vontade dos abraços da família [...] Mas para justificarmos a opinião do reitor a respeito da nova inclinação de Pedro, digamos quem era Clara que assim de repente pusemos diante do leitor sem prévia apresentação‖. E, por fim, o narrador não faz digressões, nem descrições cansativas. Quer um conselho? Leia esse romance!

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Crítica: atual e contemporânea ao autor Analisando a crítica atual da obra de ferta de uma solução ficcional dos conflitos Júlio Dinis percebe-se forte presença do es- político-sociais. Solução essa que transita pela categoria dos sentimentos e que se propõe tudo sobre a representação da mulher. num texto cujas características metafóricas Contatamos essa presença nas teses Represão sustentadas pela intencionalidade pedagósentação do Feminino em Júlio Dinis: Uma Leigica‖. tura de Uma Família Inglesa e As Pupilas do Também há análise sobre aspectos huSenhor Reitor (FREITAS, Maria Neni de), As manos como a moral e o sentido social. Este Pupilas do Senhor Reitor: Um retrato das Muestudo está presente em Júlio Dinis: O Valor lheres na Sociedade Portuguesa do Início da SeMoral de Sua obra (COSTA, Joaquim) e em gunda Metade do Século XIX (PEREIRA, Ma- Júlio Dinis e o sentido social de sua obra (CRUZ, ria De Jesus Antunes) e A Mão que Balança Liberto). Como se verá a seguir, a maneira que o Berço- Funções do Feminino em Júlio Dinis (FIDELI, Maria Ivone Pereira de Miranda). se analisa atualmente a obra desse escritor é Também se encontra o tema nos se- bem diferente da maneira que a olhavam na guintes artigos: A Mulher na obra de Júlio Di- época contemporânea a ele. nis (ARAÚJO, Matilde Rosa) e Presença Feminina na Obra de Júlio Dinis (MEIRELES, Cecília). O resumo da tese A Mão que Balança o Berço- Funções do Feminino em Júlio Dinis, que se encontra a seguir, exemplifica essa linha de estudo: ―Este trabalho estuda as heroínas de Júlio Dinis, mostrando como no universo narrativo do autor, são sempre as protagonistas femininas, figuras de síntese entre o tradicional e o novo, a determinar a direção dos eventos narrativos, na 20

Júlio Dinis

Crítica contemporânea ao autor No seu tempo Júlio Dinis foi bem visto pela crítica, que enxergava inovações em sua obra e exaltava a verossimilhança e boa construção dos tipos de suas personagens. Podemos perceber essa visão nos comentários de Teixeira Vasconcelos, no jornal A Reforma (1871): “Gomes Coelho não apresenta nos seus livros nenhum d’estes repugnantíssimos typos, cuja história o leitor se enfada de lêr”.


Segundo o mesmo autor, nesse mesmo excerto, Júlio Dinis retrata cenas que fazem bem ao coração do leitor. Lúcio Mendonça, no jornal Pharol (1889), em resposta à carta de uma leitora, recomenda Júlio Dinis e Walter Scott como leituras adequadas às mulheres. Em 1872, o Correio do Brazil o classifica como ―talentoso e malogrado escritor portuense Gomes Coelho‖, ao se referir à obra Os Fidalgos da Casa Mourisca. Em uma propaganda de um livro de poesias, datado de 1872, no Diário de Notícias do Rio de Janeiro há a descrição ―do talentoso Gomes Coelho, que com o seu pseudomyno de Julio Dinis se fez tão conhecido no romance.‖

“R

omances, pois não! Há romances que lhe aconselho: os de Walter Scott e os de Julio Diniz.‖

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No Almanach Illustrado, F. Guimarães Fonseca declara a literatura portuguesa como órfã, lamentando a morte de vários de seus autores, entre eles Júlio Dinis. O Mequetrefe (1885), ao noticiar a estreia da peça extraída de seu romance Os Fidalgos da Casa Mourisca, define este como primoroso. Em 1886, também em propaganda da peça, O Paiz define o romance como magnífico e o escritor como imortal e ainda acrescenta sobre a adaptação da obra: ―e que conta em Portugal mais de trezentas representações, sempre com extraordinário agrado‖.

Os jornais do século XIX traziam elogiosas frases a respeito de Júlio Dinis e suas obras. Eram anúncios e mais anúncios de venda de seus livros e numerosas notícias a respeito das adaptações teatrais de seus romances.

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Júlio Dinis


“E Margarida?... Essa mais pungentes sentia ainda as saudades. Sempre assim acontece. Em todas as separações, tem mais amargo quinhão de dores o que fica, do que o que vai partir.”

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Júlio Dinis 24

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