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15 a 21 de fevereiro de 2017 | www.arquisp.org.br

Nayá Fernandes

nayafernandes@gmail.com

Bolo de rolo, pamonha, frutas e café à mesa. É hora do lanche no apartamento ensolarado onde mora a família Araújo Cavalcanti: as irmãs Ana Karla e Luciana, e a mãe, Vilma. “Têm dias em que é preciso frear o apetite dela, mas há outros em que ela não quer comer nada”, conta Ana Karla, que, aos 40 anos, escolheu não trabalhar fora para se dedicar inteiramente aos cuidados da mãe. Com Alzheimer em estágio avançado, a Vilminha, como é apresentada pelas filhas, não pode mais ficar sozinha,

Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno. Cecília Meireles

nem mesmo à noite, enquanto dorme. Ana Karla dorme ali, numa cama auxiliar aos pés da mãe e, assim, soma 24 horas seguidas ao lado dela. A realidade de Ana Karla é a mesma de tantas outras pessoas que, em certo momento da vida, precisam tomar uma decisão. Como cuidar dos idosos? E não só. O que fazer em muitas outras situações, como a de pessoas com deficiência ou aquelas que, ainda jovens, sofreram acidentes ou tiveram alguma complicação na saúde? Em todos os casos, contudo, desponta uma atitude: a solidariedade de quem deixa tudo para se dedicar ao cuidado de outra pessoa. O “tudo” que é deixado inclui, na maioria das vezes, o trabalho remunerado fora de casa e a participação em eventos sociais. Por curtos períodos de tempo, ou até mesmo por anos, há alguém que se dedica exclusivamente para cuidar da mãe, pai, irmão ou de uma pessoa querida. A motivação pode ser financeira, pois contratar um cuidador está fora do orçamento familiar, mas há quem faça essa opção por razões afetivas. Em português, o verbo cuidar significa “atenção, cautela, zelo”. Na prática,

A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas vossos cuidados, mas também o vosso coração. Madre Teresa de Calcutá

porém, representa muito mais que um estado de atenção: é um se preocupar, um sentir com o outro, uma atitude que revela grande amor e envolvimento com o ser cuidado. Por isso, há quem prefira assumir esse cuidado em primeira pessoa, porque vai além do fisiológico ou temporal, é como comprometer a vida, numa atitude de profunda gratidão.

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Luciney Martins/O SÃO PAULO

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Vilminha

Quando Vilminha – Vilma de Araújo Cavalcanti – foi diagnosticada com Alzheimer, Ana Karla Araújo Cavalcanti morava em Brasília (DF). “Minha irmã estava bastante preocupada com uma forte depressão que mamãe apresentava desde a morte de nosso avô, em janeiro de 2011. A depressão piorou depois da morte da irmã mais ligada à mamãe, em março de 2012. Luciana [Araújo Cavalcanti] percebia lapsos frequentes de memória, mas os médicos diziam que era a depressão”, contou Ana Karla ao O SÃO PAULO. De repente, começaram a chegar cobranças, fato que causou estranheza às filhas, pois a mãe havia sempre administrado muito bem o orçamento da casa. Além disso, a balconista da farmácia comentou que Vilminha estava comprando os mesmos remédios da diabetes ou controle do colesterol várias vezes na semana e que, algumas vezes, esquecia o dinheiro ou o cartão de crédito. As irmãs desconfiaram de que algo mais grave estava acontecendo. Luciana a levou em consultas ao geriatra e ao neurologista, que fizeram os primeiros testes para detectar o Alzheimer. “O diagnóstico de Alzheimer é feito por exclusão.

Não te deixes destruir... Ajuntando novas pedras E construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens E na memória das gerações que hão de vir. Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem a estas páginas E não entraves seu uso aos que têm sede. Cora Coralina

Quando outras causas são excluídas, é feito o teste cognitivo que indica o Alzheimer. No dia 30 de agosto de 2012, a neurologista nos comunicou que mamãe tinha Alzheimer. Foi um grande choque! Nós vivemos uma espécie de luto logo depois do diagnóstico”, disse Ana Karla. Já de volta a Recife (PE), onde nasceram e moram atualmente, Ana Karla e Luciana conversavam sobre a melhor maneira de cuidar da mãe. “Estudamos muito sobre a doença e ouvimos diferentes profissionais de saúde. No início da

O cuidado que cura doença, mamãe preservava um bom nível de consciência e independência e era resistente à ideia de ter uma cuidadora. Somado a isso, vimos num telejornal o caso de duas cuidadoras que torturavam uma senhora idosa e ficamos assustadas”, disse Ana Karla, a filha mais velha. A questão financeira também pesou na decisão. Ao fazer as contas, elas perceberam que os empregos geralmente têm uma jornada diária de oito horas, mais o tempo de deslocamento e do intervalo para almoço. O que daria cerca de 11 horas fora de casa. “Uma cuidadora que trabalha todo dia só pode fazer até duas horas extras por dia. Portanto, precisaríamos contratar duas cuidadoras, o que seria economicamente inviável. Decidimos, então, que eu ficaria como cuidadora familiar”, relatou Ana Karla.

Laura

Para Elane Cristina Bispo de Santana, 31, a decisão de deixar tudo e cuidar da avó, Laura de Jesus Bispo, partiu da necessidade de cuidar de si mesma. Aos 24 anos, a jovem vivia um momento de crise e acabava de ser diagnosticada com uma depressão no segundo estágio. “Meus cabelos estavam caindo, eu não tinha mais vontade de viver e percebi que precisava cuidar da minha saúde física e psicológica”, disse Elane à reportagem.

Na época, Laura tinha 74 anos e estava sob os cuidados de uma pessoa contratada pela família. Elane queria sair de seu emprego e conseguiu ser contratada, durante 40 dias, como recenseadora, o que começou a reanimá-la. “Cheguei a conversar com meu chefe sobre a depressão, mas ele disse que não me dispensaria, pois aquilo iria passar logo. Pedi férias, quando trabalhei como recenseadora no bairro Elisa Maria, coincidentemente onde moro hoje”, contou Elane. Pelo contato com situações de extrema pobreza e todo tipo de histórias, ela percebeu também o quanto a vida era preciosa, e então decidiu que seria ela a ficar com a avó. Aos 75 anos, Laura já demonstra-

va sinais de Alzheimer, doença que foi diagnosticada quando ela tinha 78. Além disso, a baiana, que veio com a filha e os netos para São Paulo, já tinha Parkinson. A avó de Elane passou também pela depressão. “Foi a convivência conosco que a reanimou”, contou a mulher, que tem quatro irmãos. Na primeira consulta à geriatra, Elane foi orientada pela médica a conseguir uma procuração judicial que a autorizasse a cuidar de todas as coisas da avó. Isso incluiria administrar a aposentadoria, remédios, bilhetes para transporte público, decisões sobre tratamentos médicos etc. E, após a conversa com todos os membros da família, Elane, ainda muito jovem, assumiu uma responsabilidade

que mudaria para sempre sua vida. Foram dois anos de dedicação exclusiva até a morte de Laura, que aconteceu no dia 18 de agosto de 2012, após uma parada cardiorrespiratória, quando ela tinha 86 anos.

Toda ajuda é bem-vinda

“Há momentos nos quais penso que não vou conseguir. Um desses momentos foi em agosto de 2016, quando mamãe parou de andar de repente! Nem sentada ela ficava. Levamos ao hospital para fazer exames e não encontraram explicações para ela ter ficado naquela situação. Eu não conseguia fazer a higiene dela e nem trocar fraldas sozinha. Foi um dos momentos mais difíceis! Aos poucos, ela foi se recuperando e voltou a andar com apoio de duas pessoas. Atualmente, ela Uma riqueza tão grande de humanidade e de fé não deve ficar perdida, melhorou muito e até já anda mas sim ajudar-nos a enfrentar as nossas fraquezas humanas e, ao mesmo tempo, sozinha quando a gente se disos desafios presentes em âmbito sanitário e tecnológico. Por ocasião do Dia Mundial trai”, relatou Ana Karla. do Enfermo, podemos encontrar novo impulso a fim de contribuir para a difusão A cobrança em relação aos cuidadores também é muito duma cultura respeitadora da vida, da saúde e do meio ambiente; encontrar um renovado frequente, sobretudo porque impulso a fim de lutar pelo respeito da integridade e dignidade das pessoas, a maioria não tem nenhuma inclusive mediante uma abordagem correta das questões bioéticas, a tutela formação profissional na área da saúde. Vilminha conta com dos mais fracos e o cuidado pelo meio ambiente. plano de saúde que tem um [...] Reitero a minha proximidade feita de oração e encorajamento às famílias programa de atendimento doque cuidam amorosamente dos seus membros doentes. A todos, desejo que possam miciliar de uma equipe multidisciplinar. Ela é atendida três ser sempre sinais jubilosos da presença e do amor de Deus. vezes por semana por uma Trecho da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Enfermo 2017 fisioterapeuta, duas vezes por

semana por uma terapeuta ocupacional, uma vez por semana por uma fonoaudióloga e uma vez por mês recebe a visita do médico e de uma enfermeira. Segundo as filhas, os exercícios e orientações desses profissionais de saúde ajudam a retardar o avanço inevitável da doença e, assim, a preservar a qualidade de vida dela. “Ela é também acompanhada por duas geriatras, uma do Hospital Universitário Osvaldo Cruz e outra particular. Os custos são bastante altos, os remédios são caros, além dos gastos com fraldas. Atualmente, ela recuperou a continência diurna, mas ainda usa fraldas”, explicou Ana Karla. E, se há dificuldades, como a vivida por Elane, que foi acusada por um dos familiares de ter empurrado a própria avó na escada – quando esta caiu dentro do quarto – há também um círculo de solidariedade que se forma em torno da pessoa que precisa de cuidados. Quando precisava sair ou mesmo ir a uma festa para se distrair um pouco, a mãe ou os irmãos de Elane assumiam o cuidado da avó, que fez todo o tratamento no Centro de Referência do Idoso (CRI), no Complexo do Mandaqui, hospital na zona Norte de São Paulo. Ana Karla e Luciana recebem a ajuda dos vizinhos que se colocam à disposição para apoiar Vilma quando ela não está caminhando bem, ou até para comprar algo, quando Ana Karla não pode sair. “Uma amiga vem me ajudar a dar

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: “Coitado, até essa hora no serviço pesado”. Arrumou pão, deixou tacho no fogão com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo. Adélia Prado

banho na mamãe, quando estou sozinha com ela. E alguns amigos aparecem nas emergências ”, disse Ana Karla.

‘Nenhuma doença destrói a essência’

Tanto Elane, cuja avó faleceu em 2012, quanto Ana Karla, que está ensaiando alguns passinhos de frevo com a mãe, disseram que se sentem “em paz” com a decisão tomada. Elane enfatizou que a experiência de cuidar da avó transformou seu modo de ver a vida e, sobretudo, a sensibilidade com as pessoas doentes e idosas. Hoje ela trabalha como massoterapeuta e fez um curso de cuidadora de idosos no Senac – São Paulo. “Acompanhar o desenvolvimento da doença de mamãe me faz pensar bastante na importância de valorizar a vida, de viver bem, de ser uma boa pessoa. Lem-

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bro que, no início da doença, quando saía com mamãe e alguém que eu não conhecia a cumprimentava, ela costumava responder à minha pergunta sobre quem era a pessoa da seguinte forma: ‘Não lembro, mas ela não sabe que tenho Alzheimer e não quero que fique triste pensando que me esqueci dela’”, recordou Ana Karla. Um episódio também marcou profundamente a experiência de Elane. Uma noite, ela acordou e não viu a avó na cama. Desceu as escadas e viu a porta da sala aberta, era cerca de 4h da manhã. “Vovó estava sentada na cadeira, na calçada, dizendo que esperava o ônibus

Tu que me deste o teu carinho E que me deste o teu cuidado, Acolhe ao peito, como o ninho Acolhe ao pássaro cansado, O meu desejo incontentado. Há longos anos ele arqueja Em aflitiva escuridão. Sê compassiva e benfazeja. Dá-lhe o melhor que ele deseja: Teu grave e meigo coração. Manuel Bandeira

para Pirajá, bairro que ela morava em Salvador (BA). Então, eu disse a ela que o ônibus não passava àquela hora e ela voltou para a cama e adormeceu. No outro dia, não se lembrou de nada.” “Nenhuma doença destrói o que somos na essência, essa é uma das maiores lições que cuidar da mamãe me ensinou. Claro que não é bom ficar doente, mas precisamos aprender a conviver com as doenças, e nunca desistir de melhorar a qualidade de vida dos doentes e de quem cuida deles”, ressaltou Ana Karla.

Uma natural solidariedade

“Não penso em minha atitude em relação a mamãe como solidária, acho que é natural, apenas retribuo o amor que recebi”, respondeu Ana Karla, ao ser perguntada sobre como vê sua atitude em relação à mãe. Muito mais que solidariedade ou fraternidade, pode-se dizer que é um gesto de altruísmo e renúncia, mas uma renúncia que agrega, cheia de desafios e também de alegria para quem a vive. “Uma experiência linda e única”, confirmou Elane. Emocionada, ela afirmou que o que fez pela avó foi um retribuir tudo o que Laura havia feito por ela e por seus irmãos. Desde que o pai de Elane faleceu, foi com a mãe que Maria José de Jesus Bispo pôde contar. “Não espero reconhecimento nenhum de ninguém, mas sei que estou juntando tesouros no céu, como diz a Bíblia”, lembrou Elane.

Coração que bate-bate… Antes deixes de bater! Só num relógio é que as horas Vão passando sem sofrer. Mario Quintana

Cuidado que cura  

É mais que solidariedade, é altruísmo, é um "dar-se" verdadeiramente. Escolher deixar o trabalho e a participação em em muitos eventos socia...

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