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Charlotte BrontĂŤ JANE EYRE

Jane Eyre

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Tradução Marcos Santarrita Francisco Alves Título original. Jane Eyre Revisão Tipográfica: Márcia Cherman, Jorge A. Uranga, 1983 Diagramação e capa: Nathalia Gomes Todos os direitos desta tradução reservados à: LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S/A Rua Sete de Setembro, 177 — Centro 20050 Rio de Janeiro — RJ

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A W.M. Thackeray, Esq., esta obra é respeitosamente dedicada pelo Autor*

* As primeiras edições de Jane Eyre foram publicadas sob um pseudônimo — Currer Bell — masculino, e assim, as referências de Charlotte Brontë a si mesma, na dedicatória e nos prefácios, são feitas neste gênero. — N.T.

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PREFÁCIO

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omo era desnecessário um prefácio à primeira edição de Jane Eyre, não apresentei nenhum; esta segunda edição, porém, exige algumas palavras, tanto de reconhecimento como de observações variadas. Devo agradecimentos a três setores. Ao Público, pela indulgente atenção que prestou a uma história simples, de poucas pretensões. À Imprensa, pelo bom espaço que seu honesto sufrágio abriu a um aspirante obscuro. Aos meus Editores, pela ajuda que seu tato, energia, senso prático e franca liberalidade concederam a um Autor desconhecido e sem recomendações. A Imprensa e o Público são apenas vagas personificações para mim, e devo agradecer-lhes em termos vagos; mas meus Editores são bem definidos; como o são alguns críticos generosos, que me encorajaram como só os homens de grande coração e espírito elevado sabem encorajar um estranho esforçado; a eles, isto é, a meus Editores e aos seletos críticos, digo cordialmente: Cavalheiros, agradeço-lhes de coração. Tendo assim reconhecido o que devo àqueles que me ajudaram e aprovaram, volto-me para outra classe: uma classe pequena, até onde sei, mas que nem por isso deve ser esquecida. Refiro-me aos poucos tímidos ou descontentes que duvidam da tendência de livros como Jane Eyre: a cujos olhos tudo que seja incomum é errado; cujos ouvidos detectam em cada protesto contra a intolerância — mãe do crime — um insulto à religião, essa regente de Deus na terra. Eu gostaria de sugerir a esses insatisfeitos algumas distinções óbvias; de lembrar-lhes certas verdades 4

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simples. Convencionalismo não é moralidade. Farisaísmo não é religião. Atacar os primeiros não é agredir as últimas. Arrancar a máscara do rosto de um fariseu não é erguer mão ímpia contra a Coroa de Espinhos. Essas coisas e fatos são diametralmente opostos; tão distintos como o vício da virtude. As pessoas muitas vezes os confundem, e não se deve confundilos; não se deve tomar a aparência pela verdade; não se deve substituir o credo de Cristo, que redime o mundo, por tacanhas doutrinas humanas, que apenas tendem a ensoberbecer e glorificar uns poucos. Existe — repito — uma diferença; e é uma boa ação, e não má, estabelecer ampla e nitidamente uma linha de separação entre eles. O mundo talvez não goste de ver essas idéias separadas, pois está acostumado a confundi-las; achando conveniente fazer a aparência externa passar por valor autêntico — fazer paredes caiadas passarem por santuários limpos. Talvez odeie aquele que ousa examinar e denunciar, descascar o dourado e mostrar o vil metal por baixo, penetrar no sepulcro e revelar relíquias carnais; porém, por mais que o odeie, tem uma dívida com ele. Ahab não gostava de Miquéias, porque jamais profetizava coisas boas a seu respeito, só más; provavelmente gostava mais do filho bajulador de Chenaannah; e no entanto ele poderia ter escapado a uma morte sangrenta, se tapasse os ouvidos à lisonja e os abrisse ao conselho fiel. Existe um homem em nossos dias cujas palavras não se destinam a acariciar ouvidos delicados; que, em minha opinião, vem antes dos grandes da sociedade, do mesmo modo como Imlah precedia os reis entronizados de Judá e Israel, e que diz uma verdade tão profunda, com um poder tão semelhante ao dos profetas, tão vital, e com uma expressão tão destemida e ousada, quanto ele. O salirista de Feira das Vaidades é admirado em altos círculos? Não sei dizer; mas creio que, se alguns daqueles entre os quais ele lança o fogo grego do seu sarcasmo, e sobre os quais fulmina o raio de sua denúncia, levassem suas advertências a sério, eles mesmos ou sua progênie escapariam ainda de um fatal Ramoth-Gilead. Por que me referi a este homem? Referi-me a ele, Leitor, pon que julgo ver nele um intelecto mais profundo e mais exclusivo que o reconhecido por seus contemporâneos; porque o encaro como o primeiro Jane Eyre

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regenerador social de nossa época, como o próprio líder daquele grupo ativo que devolveria a retidão ao distorcido sistema de coisas; porque acho que nenhum comentarista de seus escritos descobriu a comparação que lhe serve, os termos que caracterizam corretamente seu talento. Dizem que ele é como Fielding; falam de seu espírito, seu humor, seus poderes cômicos. Ele se assemelha a Fielding como uma águia a um abutre; Fielding curva-se até a carniça, mas Thackeray não. Seu espírito é brilhante, seu humor atraente, mas ambos mantêm com seu gênio sério a mesma relação que o simples reflexo do relâmpago na borda de uma nuvem de verão mantém com a mortal faísca elétrica em seu bojo. Finalmente, referi-me ao Sr. Thackeray porque a ele — se ele aceitar o tributa de um total estranho — dediquei esta segunda edição de Jane Eyre. CURRER BELL 21 de dezembro de 1847

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NOTA À TERCEIRA EDIÇÃO

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alho-me da oportunidade que me apresenta u m a t e r c e i r a e d i ç ã o d e J a n e E y r e , d e n o va m e n t e dirigir uma palavra ao Público, para explicar q u e m eu di rei t o ao título de roman cis t a s e a p óia nesta obra apenas. Assim, se a autoria de outras obras de ficção me tem sido atribuída, trata-se de honra concedida a quem não a merece, e, em conseqüência, subtraída a quem justamente devida. Esta explicação servirá para corrigir enganos que talvez já se tenham cometido, e para prevenir futuros erros. CURRER BELL 13 de abril de 1848

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CAPÍTULO 1

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ão havia possibilidade de dar um passeio naquele dia. Na verdade, pela manhã, tínhamos andado durante uma hora entre os arbustos desfolhados; mas depois do jantar (a Sra. Reed jantava cedo, quando não tinha visitas), o frio vento do inverno trouxera consigo nuvens tão sombrias, e uma chuva tão penetrante, que não se podia pensar em mais exercícios ao ar livre. Isso me agradava; jamais gostara de longas caminhadas, especialmente em tardes frias; era terrível para mim voltar à casa no gélido crepúsculo, com os dedos das mãos e dos pés congelados, o coração entristecido pelas repreensões de Bessie, a babá, e humilhada pela consciência de minha inferioridade física em relação a Eliza, John e Georgiana Reed. Os ditos Eliza, John e Georgiana reuniam-se agora em torno da mãe, na sala de estar: ela, reclinada num sofá diante da lareira, com seus queridos em volta (no momento nem brigando nem chorando), parecia inteiramente feliz. A mim, proibira-me de juntar-me ao grupo, dizendo que “Lamentava a necessidade de manter-me à distância; mas enquanto não falasse com Bessie e não descobrisse por si própria se eu tentava seriamente adquirir uma natureza mais sociável e infantil, maneiras mais atraentes e alegres — algo mais leve, mais franco, mais natural, por assim dizer — realmente tinha de me excluir dos privilégios destinados apenas a crianças contentes e felizes”.

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— Que foi que Bessie disse que eu fiz? — perguntei. — Jane, eu não gosto de objeções e perguntas; além disso, existe alguma coisa de realmente desagradável numa criança que se dirige aos mais velhos dessa forma. Sente-se em alguma parte; c enquanto não souber falar de um modo agradável, fique calada. Havia uma pequena sala de desjejum vizinha à sala de estar, e me esgueirei para lá. A sala continha uma biblioteca; logo me apoderei de um volume, cuidando de que fosse um livro cheio de figuras. Subi para o batente da janela; recolhendo os pés, senteime de pernas cruzadas, como um turco; e, tendo quase fechado a cortina de morim vermelho, fiquei abrigada em duplo retiro. As dobras de tecido escarlate tapavam minha visão à direita; à esquerda, estavam as límpidas lâminas de vidro, que me protegiam, mas não me separavam, do melancólico dia de novembro. A intervalos, quando virava as páginas do livro, eu estudava o aspecto daquela tarde de inverno. À distância, ela apresentava uma pálida cortina de neblina e nuvem; perto, um cenário de grama molhada, com a chuva incessante açoitando selvagemente, impelida por uma longa e lamentosa ventania. Retornava a meu livro — a História dos Pássaros Britânicos, de Bewick: com o texto, importava-me pouco, em geral; e no entanto, havia certas páginas de introdução que, apesar de criança, eu não podia passar inteiramente por cima. Eram as que tratavam das áreas de aves marinhas; das “solitárias rochas e promontórios” só por elas habitados; da costa da Noruega, pontilhada de ilhas desde o extremo sul, as Lindeness, ou Naze, até o Cabo Norte... Onde o Mar do Norte, em enormes redemoinhos, Fervilha em torno das nuas e melancólicas ilhas Da distante Thule; e a vaga do Atlântico Se despeja entre as tempestuosas Hébridas. Tampouco poderia eu deixar de notar a sugestão das sombrias praias da Lapônia, Sibéria, Spitzbergen, Nova Zembla, Islândia, Groenlândia, com “o vasto círculo da Zona Ártica, e aquelas desoladas regiões de lúgubre espaço — aquele reservatório de Jane Eyre

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gelos e neves, onde firmes campos de gelo, acumulados por séculos de invernos, vitrificados em alturas alpinas, cercam o pólo, e concentram os múltiplos rigores do frio extremo”. Desses reinos brancos como a morte eu formava uma idéia própria: sombria, como todas as idéias mal compreendidas que pairam difusas no cérebro de uma criança, mas estranhamente impressionante. As palavras naquelas páginas de introdução se relacionavam com as sucessivas vinhetas, e davam significado à rocha que se erguia solitária num mar de ondas e espuma; ao barco despedaçado encalhado numa costa deserta; à lua fria e espectral que espiava por entre barras de nuvens um náufrago afundando. Não sei dizer que sentimento rondava aquele cemitério solitário, com sua lápide inscrita; seu portão, suas duas árvores, seu baixo horizonte, rodeado por um muro quebrado, e seu crescente recém-saído, testemunhando a hora do entardecer. Os dois navios retardados num mar entorpecido, eu julgava serem fantasmas marinhos. O demônio levando a mochila de ladrão às costas, eu passava por cima rapidamente: era motivo de terror. O mesmo acontecia com a coisa negra, de chifres, sentada à parte num rochedo, vigiando a distante multidão que cercava um patíbulo. Cada figura contava uma história; muitas vezes misteriosa para meu entendimento não desenvolvido e meus sentimentos imperfeitos, mas apesar disso sempre de um profundo interesse:’ tão interessante mesmo quanto as histórias que Bessie às vezes contava nas noites de inverno, quando acontecia estar de bom humor; quando, tendo trazido sua tábua de passar para o quarto das crianças, deixava que nos sentássemos ao redor, e enquanto aprontava os babados de renda da Sra. Reed, e pregueava as abas de suas toucas de dormir, alimentava nossa ávida atenção com trechos de amor e aventura extraídos de velhos contos de fadas e de baladas ainda mais antigas; ou (como descobri numa época posterior) das páginas de Pamela e Henry, Conde de Moreland. Com Bewick sobre os joelhos, eu me sentia feliz então; feliz pelo menos à minha maneira. Temia apenas a interrupção, e essa 10

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veio cedo demais. A porta da sala de desjejum abriu-se. — Bah! Senhora Pateta! — exclamou a voz de John Reed; depois ele parou, achou o quarto aparentemente vazio. — Onde diabos está ela? — continuou. — Lizzy! Georgy! (chamando suas irmãs). Jane não está aqui, diga a mamãe que ela saiu para a chuva... animal ruim! “Ainda bem que corri a cortina”, eu pensava, e desejava ardentemente que ele não descobrisse o meu esconderijo; e John Reed não o descobriria por si mesmo; não tinha nem a vista nem a mente rápidas; mas Eliza acabava de pôr a cabeça na porta, e foi logo dizendo: — Ela está no batente da janela, certamente, Jack. E eu saí logo, pois temia à idéia de ser arrastada para fora pelo dito Jack. — Que quer você? — perguntei, com desajeitada insegurança. — Diga: “Que quer o senhor, Amo Reed” — foi a resposta. — Quero que você venha aqui — e, sentando-se numa poltrona, sugeriu por um gesto que eu me aproximasse e ficasse de pé à sua frente. John Reed era um colegial de quatorze anos; quatro anos mais velho que eu, que tinha apenas dez; grande e gordo para sua idade, tinha uma pele fosca e doentia; grossas dobras no rosto amplo, membros pesadões e extremidades grandes. Costumava se empanturrar à mesa, o que o tornava bilioso e o deixava com os olhos turvos e as bochechas flácidas. Devia estar nesse momento na escola; mas a mãe o trouxera para casa por um ou dois meses, “devido à sua saúde delicada”. O Sr. Miles, o professor, afirmava que ele passaria muito bem se comesse menos os bolos e doces que lhe enviavam de casa; mas o coração materno recusava uma opinião tão severa, e inclinava-se mais para a idéia mais refinada de que a amarelidão de John se devia ao excesso de aplicação e, talvez, à saudade de casa. John tinha um grande afeto pela mãe e as irmãs, e uma grande antipatia por mim. Castigava-me e maltratava-me; não duas ou três vezes por semana, nem uma ou duas vezes por dia, mas continuamente; eu o temia com todos os meus nervos, Jane Eyre

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e cada fibra de carne em meus ossos se encolhia quando ele se aproximava. Havia momentos em que me espantava com o terror que ele me inspirava, porque eu não tinha nenhum recurso contra suas ameaças ou castigos; os criados não gostavam de ofender o jovem amo tomando meu partido contra ele, e a Sra. Reed era cega e surda a esse respeito, nunca o via me bater nem o ouvia me maltratar, embora ele fizesse ambas as coisas de vez em quando na frente dela; mais freqüentemente, porém, pelas suas costas. Acostumada a obedecer a John, aproximei-me de sua cadeira: ele passou uns três minutos dando-me a língua, até onde pôde fazê-lo sem prejuízo para as raízes daquele órgão: eu sabia que logo me bateria, e enquanto temia o golpe, pensava na repugnante e feia aparência daquele que terminaria por desferi-lo. Imagino se ele leu essa idéia em meu rosto; porque, de repente, sem falar, bateu rapidamente e com força. Eu cambaleei, e ao recuperar o equilíbrio recuei um passo ou dois de sua cadeira. — Isto é por sua impudência em responder à mamãe há pouco — ele disse — e por seu jeito furtivo de se enfiar por trás das cortinas, e pela expressão que tinha nos olhos há dois minutos, sua rata! Acostumada aos maus tratos de John Reed, não tive idéia de responder-lhe; minha preocupação era sobre como agüentar o golpe que certamente acompanharia o insulto. — Que estava fazendo atrás da cortina? — ele perguntou. — Estava lendo. — Mostre o livro. Voltei à janela e apanhei-o. — Você não tem nada que pegar nossos livros; é uma dependente, mamãe disse; não tem dinheiro; meu pai não lhe deixou nenhum; você tem de pedir esmola, e não viver aqui com filhos de cavalheiro, como nós, e comer as mesmas comidas que nós, e usar roupas às custas de mamãe. Agora eu vou lhe ensinar a mexer em minhas estantes: porque elas são minhas; a casa toda me pertence, ou pertencerá dentro de poucos anos. Fique de pé ao lado da porta, longe do espelho e das janelas. Obedeci, sem perceber a princípio as intenções dele; mas quando o vi erguer e depor o livro, e levantar-se para atirá-lo, 12

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instintivamente me desviei para um lado com um grito de alarme; e não foi sem tempo; o volume foi lançado, atingiu-me, eu caí, batendo a cabeça na porta e ferindo-a. O corte sangrou, a dor foi aguda: meu terror ultrapassara seu clímax; seguiram-se outros sentimentos. — Menino mau e cruel! — eu disse. — Você é como um assassino... é como um capataz de escravos... como os imperadores romanos! Eu lera a História de Roma, de Goldsmith, e formara minha opinião de Nero, Calígula, etc. Também estabelecera paralelos em silêncio, que jamais pensara em declarar assim em voz alta. — Quê? Quê? — ele gritou. — Ela disse isso a mim? Vocês a ouviram, Eliza e Georgiana? Não vou dizer a mamãe? Mas primeiro... Lançou-se de cabeça para mim, senti-o agarrar-me o cabelo e o ombro; atacava como um desesperado. Realmente o vi como um tirano: um assassino. Senti uma ou duas gotas de sangue de minha cabeça me escorrerem pelo pescoço, e tive consciência de uma dor pungente: no momento, tais sensações predominaram sobre o medo, e recebi-o num estado frenético. Não sei muito bem o que fiz com as mãos, mas ele me chamava de “Rata! Rata!” e berrava. O socorro estava perto, Eliza e Georgiana haviam corrido a chamar a Sra. Reed, que fora lá para cima; e agora ela chegava ao cenário, seguida por Bessie e sua criada Abbot. Apartaramnos: ouvi as palavras: — Cara! Cara! Que fúria contra o Amo John! — Será que alguém já viu um tal imagem de furor? Então a Sra. Reed acrescentou: — Levem-na para o quarto vermelho e tranquem-na lá. Quatro mãos se abateram imediatamente sobre mim, e fui levada para cima.

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CAPÍTULO 2

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esisti até o fim, coisa nova em mim, e que muito fortaleceu o mau conceito em que Bessie e a Srta. Abbot se dispunham a ter-me. A verdade é que eu estava um pouco fora de mim; ou antes, inteiramente fora de mim, como diriam os franceses. Sabia que aquele instante de revolta já me tornara sujeita a estranhas punições, e, como qualquer outro escravo rebelde, sentia-me decidida, em meu desespero, a ir até o fim. — Segure os braços dela, Srta. Abbot; parece uma gata brava. — Que vergonha, que vergonha! — exclamou a criada da senhora. — Que conduta chocante, Srta. Eyre, bater num jovem cavalheiro, filho de sua benfeitora! Seu jovem amo. — Amo! Quem é meu amo? Eu sou criada? — Não; é menos que uma criada, porque não faz nada para se manter. Vamos, sente-se, e pense melhor em sua maldade. Haviam-me introduzido a essa altura no aposento indicado pela Sra. Reed, e me colocado sobre um tamborete; meu impulso foi de saltar dele como uma mola, mas os dois pares de mãos me detiveram no mesmo instante. — Se você não se sentar quieta, terá de ser amarrada — disse Bessie. — Srta. Abbot, empreste-me suas ligas; ela quebraria as minhas logo. A Srta. Abbot virou-se, para privar a gorda perna da necessária ligadura. Esse preparativo para me amarrar, e mais a ignomínia que pressupunha, tirou um pouco de minha excitação. 14

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— Não as tire — gritei. — Não me moverei. Para provar o que dizia, apeguei-me ao assento com as mãos. — Veja lá se não vai sair — disse Bessie; e quando se certificou de que eu estava realmente cedendo, soltou-me; ela e a Srta. Abbot ficaram paradas de braços cruzados, olhando sombria e desconfiadamente o meu rosto, como incrédulas de minha sanidade. — Ela nunca fez isso antes — disse finalmente Bessie, voltandose para Abigail. — Mas estava o tempo todo nela — foi a resposta. — Eu já disse muitas vezes à patroa minha opinião sobre essa menina, e ela concordou comigo. É uma coisinha traiçoeira; nunca vi uma menina da idade dela com tanta sonsidão. Bessie não respondeu; mas em breve, dirigindo-se a mim, disse: — Deve saber, senhorita, que tem obrigações para com a Sra. Reed: ela a mantém; se lhe desse as costas, a senhorita teria de ir para um asilo de indigentes. Eu nada tinha a dizer a essas palavras; não eram novidade para mim, minhas primeiras lembranças da vida incluíam insinuações do mesmo tipo. Essa censura à minha dependência tornara-se uma vaga cantilena em meus ouvidos; muito dolorosa e arrasadora, mas apenas meio inteligível. A Srta. Abbot acrescentou: — E não deve se julgar em pé de igualdade com as Srtas. Reed e o Amo Reed, porque a patroa tem a bondade de deixar que seja criada com eles. Eles terão muito dinheiro, e a senhorita nenhum; cabe-lhe ser humilde e tentar tornar-se agradável a eles. — O que estamos dizendo é para seu bem — acrescentou Bessie, com voz branda. — Deve tentar ser útil e agradável, e então, talvez, tenha um lar aqui; mas se se torna apaixonada e rude, a patroa a mandará embora, tenho certeza. — Além disso — disse a Srta. Abbot — Deus a punirá: Ele pode fulminá-la no meio de seus faniquitos, e então onde estará ela? Vamos, Bessie, vamos deixá-la; eu não quereria ter o coração dela por nada neste mundo. Diga suas preces, Srta. Eyre, quando ficar Jane Eyre

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sozinha; pois se não se arrepender, pode-se deixar que alguma coisa ruim desça pela chaminé para pegá-la. Saíram, fechando a porta, a chave, atrás de si. O quarto vermelho era um aposento de reserva, em que muito raramente se dormia; eu poderia dizer nunca, na verdade, a não ser quando uma invasão incomum de visitantes em Gateshead obrigava a utilizar todas as acomodações da casa, e no entanto, era um dos quartos maiores e mais suntuosos da mansão. Uma cama apoiada em maciças colunas de mogno, guarnecida com cortinas de um damasco vermelho-escuro, destacava-se como um tabernáculo no centro, e as duas grandes janelas, com seus estores sempre fechados, ficavam meio veladas por festões e cortinas de um tecido semelhante; o tapete era vermelho; a mesa ao pé da cama era coberta com um tecido púrpura; as paredes, de um marrom suave, tendendo para o róseo; o guarda-roupa, a mesa de toalete, as cadeiras, de mogno coberto de verniz escuro. Dessas profundas sombras circundantes, emergiam altos e brancos os colchões empilhados e os travesseiros da cama, cobertos com uma alvíssima colcha de Marselha. Pouco menos proeminente, uma poltrona ampla e acolchoada à cabeceira da cama, também branca, com um descansa-pés na frente, assemelhava-se, em meus pensamentos, a um pálido trono. Esse quarto era frio, porque raramente se acendia a lareira; silencioso, porque ficava distante do quarto das crianças e da cozinha; solene, porque se sabia que quase nunca se entrava ali. Só a arrumadeira entrava nos sábados, para espanar dos espelhos e móveis o silencioso pó de uma semana; e á própria Sra. Reed, a grandes intervalos, visitava-o para examinar o conteúdo de uma certa gaveta secreta no guarda-roupa, onde se guardavam diversos documentos, seu estojo de jóias e uma miniatura de seu finado marido; e nestas últimas palavras repousa o segredo do quarto vermelho — o sortilégio que o fazia tão solitário apesar de sua grandiosidade. O Sr. Reed morrera havia nove anos; naquele quarto, ele exalara seu último suspiro; ali ficara o seu corpo exposto; dali fora levado pelos agentes funerários; e, desde aquele dia, uma sensação de 16

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lúgubre consagração protegera-o de intrusões freqüentes. Meu assento, ao qual Bessie e a raivosa Srta. Abbot me tinham deixado pregada, era uma otomana baixa perto do batente de mármore da lareira; a cama erguia-se à minha frente; à minha direita ficava o guarda-roupa alto e escuro, com reflexos baços e fragmentados fazendo variar o lustro de seus painéis; à esquerda ficavam as janelas com as cortinas fechadas; um grande espelho entre elas duplicava a vazia majestade da cama e do quarto. Eu não sabia exatamente se elas tinham fechado a porta; e quando ousei me mover, levantei-me e fui ver. Ai, sim! Nenhum cárcere seria mais seguro. Voltando, tive de passar diante do espelho; meu olhar fascinado explorou involuntariamente a profundidade que ele revelava. Tudo parecia mais frio e sombrio naquele vazio visionário que na realidade; e a estranha figurinha a olhar-me ali com um rosto e uns braços brancos pontilhando a penumbra, e olhos reluzentes de medo movendo-se em meio à completa quietude em volta, teve o efeito de um verdadeiro espírito; achei-a parecida com um dos pequenos fantasmas, meio fada, meio diabinho, que as histórias noturnas de Bessie apresentavam como brotados de solitárias encostas cobertas de fetos nas charnecas, surgindo aos olhos de viajantes retardatários. Voltei a meu assento. A superstição estava comigo naquele momento mas ainda não chegara o momento de sua vitória total, eu ainda tinha o sangue quente; o ânimo de escrava revoltada ainda me reforçava com seu irado vigor; eu tinha de desviar um fluxo de pensamento retrospectivo antes de recuar para o sombrio presente. Todas as violentas tiranias de John Reed, toda a soberba indiferença de suas irmãs, toda a aversão de sua mãe, toda a parcialidade das criadas se agitavam em minha mente perturbada como um negro depósito em um poço revolto. Por que estava eu sempre sofrendo, sempre sendo repreendida, sempre acusada, para sempre condenada? Por que não agradava nunca? Por que era inútil tentar conquistar os favores de qualquer um? Eliza, obstinada e egoísta, era respeitada. Georgiana, que tinha um temperamento mimado, um despeito bastante acre, um porte capcioso e insolente, era Jane Eyre

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universalmente tolerada. Sua beleza, suas faces róseas, seus cachos dourados pareciam deliciar todos que a olhavam, e comprar indenização para todas as faltas. A John ninguém contrariava, e muito menos punia, embora ele torcesse os pescoços dos pombos, matasse os pavõezinhos, soltasse os cachorros contra as ovelhas, despisse as vinhas de estufa de seus frutos e quebrasse os rebentos das plantas mais exclusivas do conservatório; e chamava à mãe de “velha”, também; às vezes a insultava por sua cor morena, idêntica à dele próprio; ignorava grosseiramente os desejos dela; não poucas vezes rasgava e sujava suas vestes de seda; e ainda assim era “seu queridinho”. Eu não ousava cometer falta alguma; esforçava-me por cumprir todos os deveres; e era chamada de desobediente e chata, rabugenta e traiçoeira, de manhã ao meiodia, de meio-dia à noite. Minha cabeça ainda doía e sangrava da pancada e da queda; ninguém repreendera John por me bater arbitrariamente; e porque eu me voltara contra ele, para evitar mais violências irracionais, era objeto de opróbrio geral. “É injusto!... Injusto!”, dizia minha razão, obrigada, por aquele agônico estímulo, a desenvolver um poder precoce, embora transitório; e uma decisão, igualmente arrancada a força, instigavame a algum estranho expediente para conseguir escapar daquela opressão insuportável — como fugir de casa, ou, se isso não fosse possível, não comer nem beber mais, e deixar-me morrer. Como minha alma estava consternada naquela triste tarde! Como todo meu cérebro estava em tumulto, e todo meu coração em insurreição! E no entanto, em que escuridão, em que densa ignorância se travava a batalha mental! Eu não podia responder à incessante pergunta íntima — por que sofria assim? Hoje, à distância de — não direi quantos anos — vejo-o claramente. Eu era uma discórdia em Gateshead Hall; não era como ninguém ali; nada tinha em harmonia com a Sra. Reed ou seus filhos, ou com sua seleta vassalagem. Se não me amavam, eu, na verdade, tampouco os amava. Não iam encarar com afeição uma coisa que não simpatizava com nenhum deles; uma coisa heterogênea, oposta a eles por temperamento, capacidade, 18

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propensões; uma coisa inútil, incapaz de servir a seus interesses ou aumentar seus prazeres; uma coisa nociva, que alimentava os germes da indignação com seu tratamento, e do desprezo pela sua opinião. Eu sei que se fosse uma criança ativa, brilhante, descuidada, exigente, bonita, traquina — mesmo dependente e sem amigos —, a Sra. Reed teria tolerado minha presença com mais complacência; seus filhos teriam sentido por mim mais cordialidade e companheirismo; os criados tenderiam menos a fazer de mim o bode expiatório das crianças. A claridade do dia começava a deixar o quarto vermelho; passava das quatro, e a tarde nublada descambava para o sombrio crepúsculo. Eu ouvia a chuva ainda açoitando continuamente a janela da escada, e o vento uivando na alameda atrás da sala; fui ficando fria como uma pedra, e aí minha coragem afundou. O habitual estado de humilhação, insegurança e depressão em que eu vivia se abateu, frio, sobre as brasas de meu ardor em declínio. Todos diziam que eu era má, e talvez fosse mesmo, que idéia tivera eu, se não a de me imaginar deixando-me morrer de fome? Isso certamente era um crime e estava eu preparada para morrer? Ou seria a cripta sob o coro da Igreja de Gateshead um destino convidativo? Naquela cripta, tinham-me dito, jazia enterrado o Sr. Reed; e levada por esse pensamento a lembrá-lo, demorei-me nisso com crescente temor. Não me lembrava dele, mas sabia que era meu tio — irmão de minha mãe —, que me trouxera consigo, uma criança sem pais, para sua casa; e que em seus últimos momentos exigira da Sra. Reed a promessa de que me diária e manteria como um de seus filhos. A Sra. Reed provavelmente considerava que tinha mantido a promessa; e tinha mesmo, eu diria, tanto quanto lhe permitia a sua natureza; mas como poderia realmente gostar de uma intrusa, que não era de sua raça, e sem nenhuma relação com ela, após a morte do marido, por nenhum laço? Deve ter sido desagradável descobrir-se presa por uma promessa arrancada de substituir a mãe de uma criança a quem não podia amar, e ver uma estranha destoante permanentemente instalada em seu grupo familiar. Ocorreu-me então uma idéia singular. Não duvidava — nunca Jane Eyre

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duvidei — de que, se o Sr. Reed estivesse vivo, me trataria com bondade; e agora, sentada ali olhando a cama branca e as paredes ensombrecidas — e ocasionalmente, também, volvendo um olhar fascinado para o espelho de brilho baço — comecei a lembrarme de que tinha ouvido falar que os mortos, perturbados em suas tumbas pela violação de seus últimos desejos, revisitavam a terra para punir os perjuros e vingar os oprimidos; e pensei que o espírito do Sr. Reed, atormentado pelos maus tratos à filha da irmã, podia abandonar sua morada — na cripta da igreja ou no mundo desconhecido dos que se foram — e erguer-se à minha frente ali no quarto. Enxuguei as lágrimas e abafei os soluços, temendo que algum sinal de dor violenta despertasse alguma voz sobrenatural para consolar-me, ou evocasse algum rosto aureolado, curvando-me sobre mim com estranha piedade. Senti que essa idéia, consoladora em teoria, seria terrível se realizada; esforcei-me por sufocá-la com toda a minha força — esforcei-me por ser firme. Afastando os cabelos dos olhos, ergui a cabeça e tentei olhar corajosamente em volta do quarto escuro; nesse momento, uma luz fulgiu na parede. Perguntei-me se seria um raio de lua que penetrava por alguma abertura na veneziana. Não; o luar era parado, e aquilo se movia; vi a luz subir deslizando para o teto e tremular acima de mim. Posso conjeturar agora que aquele raio era, com toda probabilidade, a luz de uma lanterna levada por alguém que atravessava o gramado; mas naquele momento, preparada como estava a minha mente para o horror, abalados como estavam meus nervos pela agitação, pensei que o rápido raio era o anúncio de alguma visão próxima do outro mundo. Meu coração disparou, minha cabeça ficou quente; encheu-me os ouvidos um som que julguei ser o bater de asas; parecia haver alguma coisa perto de mim; sentia-me oprimida, sufocada; a resistência cedeu; corri para a porta e sacudi a maçaneta, num esforço desesperado. Ouvi passos que se aproximavam correndo pelo corredor externo; a chave girou, e Bessie e Abbot entraram. — Srta. Eyre, está doente? — Que barulho terrível! Me penetrou até as entranhas! — exclamou a Srta. Abbot. 20

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— Deixem-me sair! Deixem-me ir para o quarto das crianças! — foi o meu grito. — Para quê? Está machucada? Viu alguma coisa? — perguntou de novo Bessie. — Oh! Eu vi uma luz, e pensei que vinha um fantasma. — Apoderara-me da mão de Bessie, e ela não a retirou. — Ela gritou de propósito — declarou Abbot, com certa repugnância. — E que grito! Se estivesse com alguma dor forte, seria desculpável, mas era só para nos trazer aqui; conheço os truques baixos dela. — Que confusão é essa? — perguntou outra voz, peremptória; e a Sra. Reed veio pelo corredor, a touca ampla esvoaçando, o vestido farfalhando ruidosamente. — Abbot e Bessie, creio que dei ordens para que Jane Eyre fosse deixada no quarto vermelho até que eu própria viesse vê-la. — A Srta. Jane gritou tão alto, madame — suplicou Bessie. — Solte-a — foi a única resposta. — Solte as mãos de Bessie, filha; não conseguirá sair por esses meios, pode estar certa disso. Detesto artifícios, particularmente em crianças; é meu dever mostrar-lhe que os truques não funcionam; agora você ficará aqui uma hora mais, e só a libertarei sob a condição de total submissão e silêncio. — Oh, tia! Tenha piedade! Perdoe-me! Eu não agüento... que eu seja castigada de outra forma! Morrerei se... — Silêncio! Essa violência é quase repulsiva. — E era, sem dúvida, o que ela sentia. A seus olhos, eu era uma atriz precoce; sinceramente, encarava-me como um misto de paixões violentas, espírito mesquinho e perigosa duplicidade. Tendo-se Bessie e Abbot retirado, a Sra. Reed, impaciente com a minha agora frenética angústia e meus desenfreados soluços, empurrou-me abruptamente para trás e me trancou, sem maiores delongas. Ouvi-a afastar-se; e pouco depois de ela se ir, suponho que tive uma espécie de ataque, a inconsciência encerrou a cena.

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CAPÍTULO 3

A

proxima coisa de que me lembro é que despertei sentindo-me como se tivesse tido um medonho pesadelo, e vi diante de mim um terrível clarão vermelho, cortado por grossas barras negras. Ouvia vozes também, falando com um som cavo, e como abafadas por uma rajada de vento ou de água: agitação, incerteza, e uma sensação de terror que predominava sobre tudo confundiam minhas faculdades. Logo tomei consciência de que alguém me pegava, erguendo-me e mantendo-me sentada, e de uma maneira mais terna do que fora erguida ou segurada antes. Recostei a cabeça num travesseiro ou braço, e me senti à vontade. Dentro de mais uns cinco minutos, a nuvem de confusão se dissolveu; eu sabia muito bem que estava em minha própria cama, e que o clarão vermelho era a lareira do quarto das crianças. Anoitecera, uma vela ardia sobre a mesa, Bessie estava ao pé da cama com uma bacia na mão, e um cavalheiro sentava-se numa cadeira à minha cabeceira, curvando-se sobre mim. Senti um alívio inexprimível, uma apaziguante certeza de proteção e segurança, quando soube que havia um estranho no quarto, um indivíduo que não pertencia a Gateshead nem era parente da Sra. Reed. Desviando o olhar de Bessie (embora sua presença me fosse muito menos odiosa do que a de Abbot, por exemplo, teria sido), examinei o rosto do cavalheiro, reconheci-o; era o Sr. Lloyd, um boticário que a Sra. Reed chamava, às vezes, quando os criados estavam doentes. Para si mesma e as crianças, 22

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ela chamava um médico. — Bem, quem sou eu? — ele perguntou. Pronunciei o nome dele, oferecendo-lhe ao mesmo tempo minha mão; ele a tomou, sorrindo e dizendo: — Vamos ficar bons pouco a pouco. Depois, me deitou e, dirigindo-se a Bessie, disse-lhe que tivesse muito cuidado para que eu não fosse perturbada durante a noite. Tendo dado mais algumas instruções, e dizendo que viria novamente no dia seguinte, partiu, para meu pesar: eu me sentia tão protegida e querida com ele ali sentado perto de minha cabeceira; e quando fechou a porta atrás de si, todo o quarto escureceu e meu coração afundou de novo. Uma tristeza inexprimível pesava sobre ele. — Está com vontade de dormir, senhorita? — perguntou Bessie, baixinho. Mal ousei responder-lhe; pois temia que a próxima frase pudesse ser rude. — Vou tentar. — Gostaria de beber, ou poderia comer alguma coisa? — Não, obrigada, Bessie. — Então eu acho que vou para a cama, pois já passa da meianoite; mas pode me chamar se quiser alguma coisa durante a noite. Maravilhosa civilidade aquela! Encorajou-me a fazer uma pergunta: — Bessie, que é que há comigo? Estou doente? — Creio que a senhorita ficou doente de tanto chorar no quarto vermelho; vai ficar boa logo, sem dúvida. Ela passou para o quarto de empregada que ficava ao lado. Ouvi-a dizer: — Sarah, venha dormir comigo no quarto das crianças; não ouso por nada neste mundo ficar sozinha com essa pobre criança esta noite; ela poderia morrer; é uma coisa tão estranha que tenha tido esse ataque, imagino se viu alguma coisa. A patroa foi um pouco dura demais. Sarah veio com ela; as duas foram para a cama; e ficaram sussurrando por uma meia hora, antes de adormecerem. Jane Eyre

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Peguei fragmentos da conversa, dos quais pude inferir muito distintamente o principal assunto em discussão. — Uma coisa passou por ela, toda de branco, e desapareceu. — Com um grande cão negro atrás. — Três batidas fortes na porta do quarto. — Uma luz no cemitério bem em cima da cova dele. Afinal, ambas adormeceram; o fogo e a vela se apagaram. Para mim, as vigílias daquela longa noite passaram-se em horrível consciência: ouvidos, olhos e mente bem tensos pelo medo, como só as crianças podem sentir. Nenhuma doença séria ou prolongada se seguiu a esse incidente do quarto vermelho: apenas causou um impacto sobre meus nervos, um choque cuja reverberação até hoje sinto. Sim, Sra. Reed, à senhora eu devo algumas medonhas pontadas de angústia mental. Mas devo perdoá-la, pois a senhora não sabia o que fazia: quando me atormentava o coração, julgava estar apenas extirpando minhas más tendências. No dia seguinte, ao meio-dia, eu estava de pé e vestida, e sentava-me envolta num xale em frente à lareira do quarto das crianças. Sentia-me fisicamente fraca e alquebrada; mas meu pior mal era uma inexprimível infelicidade mental; uma tristeza que me arrancava contínuas lágrimas silenciosas. Assim que enxugava uma gota salgada da face, logo outra surgia. E no entanto, eu sentia que devia estar feliz, pois nenhum dos Reeds se achava ali — tinham saído todos de carruagem com a mãe. Também Abbot costurava em outro quarto, e Bessie, movendo-se de um lado para outro, guardando brinquedos e arrumando gavetas, me dirigia de vez em quando uma palavra de desusada bondade. Esse estado de coisas devia ser para mim um paraíso de paz, acostumada como estava a uma vida de incessantes repreensões e ingrata exploração; na verdade, porém, meus nervos despedaçados se achavam agora em tal estado, que nenhuma calma podia aliviálos, e nenhum prazer excitá-los agradavelmente. Bessie descera à cozinha, e trazia consigo uma torta num certo prato de porcelana lindamente pintado, cuja ave do paraíso, aninhada numa grinalda de convólvulos e botões de rosa, sempre 24

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me provocava a mais entusiástica admiração. Muitas vezes eu pedira para ter aquele prato nas mãos, a fim de examiná-lo mais de perto, mas sempre, até então, fora julgada indigna de tal privilégio. Aquele vaso precioso fora agora colocado em meus joelhos, e convidavam-me cordialmente a comer a rodinha de delicada confeitaria dentro dele. Inútil favor!, vindo, como a maioria de outros favores há muito adiados e há muito desejados, tarde demais! Eu não podia comer a torta e a plumagem da ave, as cores das flores pareciam estranhamente desbotadas! Afastei o prato e a torta. Bessie perguntou se eu queria um livro. A palavra livro agiu como um estímulo passageiro, e pedi-lhe que apanhasse As Viagens de Gulliver na biblioteca. Eu folheara repetidas vezes esse livro, com prazer. Considerava-o uma narrativa de fatos, e descobria nele uma veia de interesse mais profunda que a que encontrava nos contos de fada: pois, tendo procurado em vão os duendes entre as folhas e campânulas das dedaleiras, debaixo dos cogumelos e das trepadeiras que cobriam os muros velhos, chegara finalmente à triste verdade de que haviam todos deixado a Inglaterra por algum país selvagem, onde os bosques eram mais ignotos e densos, e a população mais escassa; ao passo que, sendo Liliput e Brobdingnag, em minha crença, sólidas partes da superfície da terra, eu não duvidava de que poderia um dia, fazendo uma longa viagem, ver com meus próprios olhos os minúsculos campos, casas e árvores, as diminutas pessoas, vacas, carneiros e pássaros de um daqueles reinos; e os campos de milho da altura de uma floresta, os enormes mastins, os gatos monstruosos, os homens e mulheres do tamanho de torres, do outro reino. Contudo, quando aquele adorado volume me foi posto nas mãos — quando virei suas páginas, e busquei em suas maravilhosas gravuras o encanto que até então jamais deixara de encontrar — tudo se revelou sinistro e lúgubre; os gigantes eram desolados gobelinos, os pigmeus malévolos e medonhos diabinhos, Gulliver um tristíssimo viajante em regiões as mais pavorosas e perigosas. Fechei o livro, que não ousei mais folhear, e o pus sobre a mesa, ao lado da torta intacta. Bessie acabava agora de espanar e arrumar o quarto, e, tendo Jane Eyre

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lavado as mãos, abriu uma certa gavetinha, cheia de esplêndidos retalhos de seda e cetim, e começou a fazer uma nova touca para a boneca de Georgiana. E cantava, enquanto isso; sua canção dizia: “Nos dias em que andávamos jeito ciganos, Muito tempo atrás”. Eu ouvira muitas vezes essa canção antes, e sempre com vivo deleite; pois Bessie tinha uma voz doce — pelo menos, assim eu pensava. Mas agora, embora a voz continuasse doce, eu descobria em sua melodia uma indescritível tristeza. Às vezes, preocupada com seu trabalho, ela cantava o refrão bem baixinho, bem arrastado: ‘”Muito tempo atrás” soava como a mais triste cadência de um hino fúnebre. Ela passou para outra balada, desta vez uma realmente melancólica. “Tenho os pés doloridos, e as pernas cansadas; Extenso é o caminho, e as montanhas, selvagens; Em breve virá o crepúsculo, sem lua e triste, Sobre o caminho da pobre criança órfã. Por que me mandaram tão longe e tão só, Aqui onde os pântanos tudo cobrem e se amontoam os cinzentos rochedos Os homens têm corações duros, e só os anjos bons Velam sobre os passos de uma pobre criança órfã. Contudo, distante e suave, a brisa da noite sopra, Nuvens, não há nenhuma, e claras estrelas brilham adoráveis; Deus, em Sua misericórdia, demonstra proteção, Conforto e esperança para a pobre criança órfã. Mesmo que eu caísse sobre a amurada da ponte quebrada; Ou me perdesse nos charcos, atraída por falsas luzes, Ainda assim meu Pai, com promessas e bênçãos, Tomaria em Seu seio a pobre criança órfã. Há um pensamento que, por sua força, me valerá; Mesmo privada de abrigo e família; O céu é um lar, e um repouso não me negará; Deus é um amigo da pobre criança órfã.” — Vamos, Srta. Jane, não chore — disse Bessie, quando acabou. 26

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Podia muito bem ter dito ao fogo: “Não queime!” Mas como poderia adivinhar o mórbido sofrimento do qual eu era presa? Enquanto eu chorava, o Sr. Lloyd entrou. — Que, já de pé? — ele disse, entrando no quarto. — Bem, babá, como está ela? Bessie respondeu que eu ia indo muito bem. — Então devia parecer mais animada. Venha cá, Srta. Jane. Seu nome é Jane, não é? — Sim, senhor; Jane Eyre. — Bem, você esteve chorando, Srta. Eyre: pode me dizer por quê? Está sentindo alguma dor? — Não, senhor. — Oh! Eu diria que ela está chorando porque não pôde ir com a patroa na carruagem — interpôs Bessie. — É claro que não! Ora, ela já está grandinha demais para tal criancice. Eu também pensava assim; e, como minha auto-estima fora ferida por uma falsa acusação, respondi prontamente: — Eu nunca chorei por uma coisa dessas em minha vida, cdeio sair de carruagem. Estou chorando porque me sinto infeliz. — Oh, que vergonha, senhorita! — disse Bessie. O bom boticário pareceu um pouco intrigado. Eu estava de pé diante dele, que fixou os olhos em mim com muita firmeza: tinha os olhos pequenos e cinzentos, não muito brilhantes; mas aposto que os julgaria espertos hoje; um rosto de feições duras, mas bondoso. Tendo-me examinado à vontade, disse: — Que a fez adoecer ontem? — Ela levou uma queda — disse Bessie, novamente se interpondo. — Queda? Ora, é como se fosse um bebezinho de novo! Será que ela não consegue caminhar nessa idade? Deve ter oito ou nove anos. — Fui derrubada — foi a explicação sem rodeios, arrancada de mim por outra pontada de orgulho mortificado. — Mas não foi isso que me deixou doente — acrescentei, enquanto o Sr. Lloyd se servia de uma pitada de rape. Jane Eyre

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Quando ele repunha a caixa no bolsinho do colete, ouviu-se um alto toque da sineta que chamava para o jantar dos criados; ele sabia o que era. — Isso é para você, babá — disse. — Pode descer. Vou ter uma conversinha com a Srta. Jane até você voltar. Bessie preferiria ficar, mas tinha de ir, porque a pontualidade nas refeições era algo rigidamente imposto em Gateshead Hall. — A queda não a deixou doente; então que foi? — prosseguiu o Sr. Lloyd, quando Bessie saiu. — Elas me trancaram num quarto onde há um fantasma, até a noite. Vi o Sr. Lloyd sorrir e franzir o cenho ao mesmo tempo. — Fantasma! Que, então você é mesmo um bebê, afinal! Tem medo de fantasmas? — Do do Sr. Reed eu tenho; ele morreu naquele quarto, e ficou exposto lá. Nem Bessie nem qualquer outra pessoa entra lá à noite, se puder evitar; e foi cruel trancar-me sozinha sem uma vela... tão cruel, que acho que jamais vou esquecer. — Bobagem! E é isso que a faz tão infeliz? Está com medo agora, em plena luz do dia? — Não, mas a noite virá outra vez em breve; e além disso, eu sou infeliz...muito infeliz, por outras coisas. — Que outras coisas? Pode-me dizer algumas delas? Como eu desejaria responder plenamente a essa pergunta! Como era difícil formular qualquer resposta! As crianças podem sentir, mas não podem analisar seus sentimentos; e embora efetuem a análise parcialmente em pensamento, não sabem como expressar o resultado desse processo em palavras. Temendo, contudo, perder essa primeira e única oportunidade de aliviar minha dor compartilhando-a com alguém, eu, após uma perturbada pausa, consegui formular uma resposta tíbia, se bem que verdadeira. — Um dos motivos é que não tenho pai nem mãe, irmãos ou irmãs. — Você tem uma tia e primos bondosos. Tornei a fazer uma pausa; depois, desajeitadamente, 28

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enunciei: — Mas }ohn Reed me derrubou, e minha tia me trancou no quarto vermelho. O Sr. Lloyd pegou mais uma vez sua caixa de rape. — Você não acha Gateshead Hall uma casa muito bonita? — perguntou. — Não está muito agradecida por ter um lugar tão bom onde viver? — Não é minha casa, senhor; e Abbot diz que tenho menos direito a estar aqui que um criado. — Bah! Você não pode ser tola a ponto de deixar um lugar tão esplêndido? — Se eu tivesse qualquer outro lugar para onde ir, eu o deixaria com prazer; mas não posso jamais sair de Gateshead até tornarme uma mulher feita. — Talvez possa... quem sabe? Você tem outros parentes além da Sra. Reed? — Acho que não, senhor. — Nenhum do lado de seu pai? — Não sei; perguntei à Tia Reed uma vez, e ela disse que era possível que eu tivesse alguns parentes pobres e inferiores chamados Eyre, mas nada sabia a respeito deles. — Se os tivesse, gostaria de ir morar com eles? Eu refleti. A pobreza parece triste às pessoas adultas, e ainda mais às crianças; elas não têm muita idéia da pobreza indus-triosa, trabalhadora, respeitável; só pensam na palavra relacionada com roupas esfarrapadas, comida escassa, lareiras sem fogo, maneiras grosseiras e vícios vis; pobreza para mim era sinônimo de degradação. — Não; eu não gostaria de pertencer a gente pobre — foi minha resposta. — Nem mesmo se fossem bons com você? Balancei a cabeça; não conseguia ver como gente pobre teria os meios de ser bondosa, e depois, aprender a falar com eles, adotar suas maneiras, não ter educação, crescer como uma daquelas mulheres pobres que eu via às vezes amamentando suas crianças ou lavando suas roupas nas portas dos casebres da aldeia de Jane Eyre

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Gateshead, não, eu não era suficientemente heróica para comprar a liberdade ao preço da casta. — Mas serão os seus parentes tão pobres? São trabalhadores braçais? — Não sei dizer; Tia Reed diz que, se tenho algum, devem ser uma gente miserável; eu não gostaria de sair mendigando. — Gostaria de ir para uma escola? Refleti de novo; mal sabia o que era uma escola; Bessie às vezes falava nelas como um lugar onde mocinhas se sentavam em bancos, usavam encostos e se esperava que fossem excessivamente delicadas e precisas; John Reed odiava sua escola e insultava seu professor; mas os gostos dele não constituíam regras para mim, embora as histórias de Bessie sobre a disciplina escolar (recolhidas das jovens de uma família com quem vivera antes de vir para Gateshead) fossem um tanto apavorantes, os detalhes que ela dava de certos dons adquiridos por aquelas mesmas moças não deixavam de ser, a meu ver, igualmente atraentes. Ela falava de lindas pinturas de paisagens e flores executadas por elas; de músicas que sabiam cantar e peças que sabiam tocar, de bolsas que sabiam tricotar, de livros franceses que podiam traduzir; até que meu espírito era levado à emulação, ouvindo-a. Além disso, a escola seria uma completa mudança; implicava uma longa jornada, uma total separação de Gateshead, uma entrada numa nova vida. — Eu gostaria realmente de ir para a escola — foi a audível conclusão de minhas reflexões. — Bem, bem, quem sabe o que pode acontecer? — disse o Sr. Lloyd, levantando-se. — A menina deve ter uma mudança de ares e cenário — acrescentou, falando consigo meSmo. — Não está com os nervos em boas condições. Bessie retornava agora; ao mesmo tempo, ouvia-se a carruagem rolando no cascalho lá fora. — Ê a sua patroa, babá? — perguntou o Sr. Lloyd. — Eu gostaria de falar com ela antes de partir. Bessie convidou-o a passar para a sala de desjejum e saiu na frente. Na entrevista que se seguiu entre ele e a Sra. Reed, 30

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presumo pelos acontecimentos subseqüentes que o boticário se aventurou a recomendar que me enviassem para a escola; e a recomendação foi sem dúvida muito prontamente adotada, pois como disse Abbot, ao discutir o assunto com Bessie, quando as duas costuravam, sentadas, no quarto das crianças, certa noite, depois que eu já estava na cama e, pensavam elas, adormecida: — Apostava que a patroa estava bastante satisfeita por livrar-se de uma criança tão aborrecida e mal-educada, que sempre parecia estar vigiando todo mundo, e tramando coisas às escondidas. Creio que Abbot me tomava por uma espécie de Guy Faw-kes infantil. Nessa mesma ocasião eu soube pela primeira vez, através da comunicação da Srta. Abbot a Bessie, que meu pai fora um pobre clérigo; que minha mãe se casara com ele contra a vontade dos amigos, que consideravam o casamento abaixo dela; que meu avô Reed ficara tão irritado com a desobediência dela, que a deserdara, deixando-a sem um xelim; que um ano após o casamento de minha mãe com meu pai, este contraíra a febre tifóide, quando visitava os pobres de uma grande cidade fabril onde se situava seu curato, e onde a doença grassava então; que minha mãe pegara a doença dele, e ambos haviam morrido com uma diferença de um mês. Bessie, ao ouvir essa narrativa, suspirou e disse: — A pobre Srta. Jane é digna de pena também, Abbot. — Sim — respondeu Abbot — se ela fosse uma criança boazinha e bonitinha, podia-se ter compaixão de sua miséria; mas ninguém pode se importar muito com uma coisinha tão detestável dessas. — Não muito, claro — concordou Bessie. — De qualquer modo, uma beleza como a Srta. Georgiana seria mais comovente, nas mesmas condições. — Sim, eu sou louca pela Srta. Georgiana! — exclamou a espalhafatosa Abbot. — Queridinha! Com aqueles longos cachos e aqueles olhos azuis, e com aquela cor tão adorável; igual-1 zinha a uma pintura! Bessie, eu gostaria de um coelho galés para a ceia. — Eu também... com cebola frita. Vamos, vamos descer. Desceram.

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CAPÍTULO 4

D

e minha conversa com o Sr. Lloyd, c da conferência acima relatada entre Bessie e Abbot, recolhi bastante esperança para desejar ficar boa; parecia próxima uma mudança — eu a desejava e esperava em silêncio. Mas demorou; dias e semanas passaram-se; eu readquirira meu estado normal de saúde, mas não se fez nenhuma nova alusão ao assunto sobre o qual eu meditava. A Sra. Reed às vezes me examinava com um olhar severo, mas raramente se dirigia a mim; depois de minha doença, traçara uma linha de separação mais acentuada que nunca entre mim e seus filhos, designando-me um cantinho onde dormir sozinha, condenando-me a fazer minhas refeições sozinha, e a passar todo o meu tempo no quarto das crianças, enquanto meus primos estavam constantemente na sala de estar. Não fez nenhuma insinuação, contudo, sobre minha ida para a escola; mas eu sentia uma instintiva certeza de que ela não me toleraria por muito tempo sob o mesmo teto consigo; pois seu olhar, agora mais do que nunca, quando se voltava para mim, manifestava uma insuperável e arraigada aversão. Eliza e Georgiana, evidentemente agindo sob ordens, falavamme tão pouco quanto possível; John empurrava a bochecha para fora com a língua sempre que me via, e uma vez tentou me castigar; mas como eu no mesmo instante investi contra ele, inflamada pelo mesmo sentimento de profunda ira e desesperada revolta que causara minha explosão anterior, achou melhor desistir e correu de mim, soltando pragas e jurando que eu lhe quebrara o nariz. 32

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Na verdade, eu tinha desferido contra aquele destacado órgão um golpe tão forte, com os nós dos dedos, quanto poderia infligir-lhe; e quando vi que isso, ou minha expressão, o assustava, senti a maior vontade de explorar minha vantagem com decisão, mas ele já estava com a mãezinha. Ouvi-o começar sua história, num tom lacrimoso, contando que “aquela malcriada da Jane Eyre” voara sobre ele como uma gata brava; foi contido um tanto duramente: — Não me fale dela, John, eu lhe disse para não se aproximar dela, não é digna de atenção. Não gosto que nem você nem suas irmãs se associem com ela. Neste ponto, debruçando-me sobre o corrimão, eu gritei de repente, e sem pensar de modo algum em minhas palavras: — Eles não são dignos de se associar comigo. A Sra. Reed era uma mulher um tanto gorda; mas, ao ouvir essa estranha e audaciosa declaração, correu lepidamente escada acima, arrastou-me como um pé de vento para o quarto das crianças, e espremendo-me contra minha cama, desafiou-me em voz enfática a levantar-me daquele lugar, ou a falar uma única sílaba, durante o resto do dia. — Que diria o Tio Reed à senhora, se estivesse vivo? — foi a minha pergunta, dificilmente voluntária. Digo dificilmente voluntária porque foi como se a língua pronunciasse as palavras sem o consentimento da vontade; era algo em mim, sobre o qual eu não tinha controle, que falava. — Quê? — disse a Sra. Reed, contendo a voz; seus olhos geralmente frios, comedidos, cinzentos, ficaram perturbados com uma expressão de temor; ela retirou a mão de meu braço e me fitou como se realmente não soubesse se eu era uma criança ou um demônio. Eu estava agora disposta a tudo. — Meu Tio Reed está no céu, e pode ver tudo que a senhora faz e pensa; e o mesmo acontece com papai e mamãe; eles sabem que a senhora me tranca o dia inteiro, e que me deseja morta. A Sra. Reed logo se recuperou, sacudiu-me com força, deu-me tapas nos ouvidos, e depois me deixou sem uma palavra. Bessie preencheu o hiato com uma homilia de uma hora de duração, na qual provou sem sombra de dúvida que eu era a criança Jane Eyre

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mais malvada e perversa já criada debaixo de um teto. Eu quase acreditava nela, pois só sentia na verdade maus sentimentos inchando-me o peito. Novembro, dezembro e metade de janeiro passaram-se. O Natal e o Ano-novo foram comemorados em Gateshead Hall com a costumeira animação festiva; haviam-se trocado presentes, e dado jantares e festas noturnas. Eu fui excluída de todos os prazeres, é claro; minha parte da alegria consistiu em assistir à arrumação diária de Eliza e Georgiana, e vê-las descer para a sala de estar, embonecadas em vestidos de musselina e faixas escarlate, os cabelos elaboradamente cacheados; e depois, em ouvir o som do piano ou da harpa lá embaixo, as idas e vindas do mordomo e do lacaio, o tinir dos copos e da louça quando se serviam as bebidas, o zumbido fragmentário das conversas quando as portas da sala de visita se abriam e fechavam. Quando me cansava dessa ocupação, retirava-me do alto da escada para o solitário e silencioso quarto das crianças; ali, apesar de um pouco triste, não me sentia infeliz. Para falar a verdade, não tinha a menor vontade de juntar-me aos outros, pois entre eles raramente me notavam; e se Bessie ao menos fosse boa e amigável, eu acharia um deleite passar as noites tranqüilamente com ela, em vez de passá-las sob o formidável olhar da Sra. Reed, numa sala cheia de damas e cavalheiros. Mas Bessie, assim que vestia suas jovens damas, costumava retirar-se para as animadas regiões da cozinha e do quarto do chefe dos criados, geralmente levando a vela consigo. Eu então me sentava com minha boneca nos joelhos, até que o fogo morria, olhando de vez em quando em redor para assegurarme de que nada pior que eu mesma assombrava o quarto escuro; e quando as brasas se reduziam a um rubro mortiço, despia-me às pressas, puxando os cordões e laços o melhor que podia, e buscava refúgio do frio e da escuridão em meu catre, para o qual sempre levava minha boneca; os seres humanos precisam amar alguma coisa, e, na falta de objetos mais dignos de afeição, eu conseguia encontrar prazer amando e acariciando uma desbotada imagem pintada, esfarrapada como um espantalho em miniatura. Intrigame hoje lembrar-me com que absurda sinceridade eu adorava 34

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àquele pequeno brinquedo, meio imaginando-o vivo e capaz de sensações. Eu não podia dormir se não tivesse a boneca envolta em minha camisola; e quando ela lá estava, protegida e aquecida, eu me sentia relativamente feliz, julgando-a igualmente feliz. Longas pareciam as horas em que eu esperava a partida das pessoas, e ficava à escuta do som dos passos de Bessie na escada. Às vezes ela vinha no intervalo para pegar o dedal ou a tesoura, ou talvez para trazer-me algo à guisa de ceia — um bolo ou um pudim de queijo — e então se sentava na cama enquanto eu comia, e quando eu acabava, ela ajeitava os cobertores à minha volta, beijava-me duas vezes e dizia: — Boa-noite, Srta. Jane. Quando era assim bondosa, Bessie me parecia a melhor, a mais bonita, a mais bondosa pessoa do mundo; e eu desejava intensamente que ela sempre fosse tão agradável ou amigável, e jamais me apoquentasse, ou ralhasse comigo, ou me sobrecarregasse de trabalho, como muitas vezes costumava fazer. Acho que Bessie Lee deve ter sido uma moça de boas tendências naturais, pois era esperta em tudo que fazia, e tinha um jeito notável para contar histórias; pelo menos, era o que eu achava da impressão que me causavam suas histórias da carochinha. Era bonita também, se minhas lembranças de seu rosto e pessoa são corretas. Lembro-a como uma jovem esbelta, de cabelos negros, olhos negros, feições muito bonitas e uma tez boa e clara; mas tinha um temperamento caprichoso e brusco, e idéias indiferentes do princípio da justiça; mesmo assim como era, eu a preferia a qualquer outra pessoa em Gateshead Hall. Era a 15 de janeiro, cerca de nove horas da manhã. Bessie descera para o desjejum; meus primos ainda não tinham sido chamados pela mãe; Eliza punha sua touca e um quente avental de jardim para ir alimentar suas galinhas — uma ocupação de que gostava, e não menos de vender os ovos para a governanta e amealhar o dinheiro assim obtido. Tinha uma vocação para o comércio e uma acentuada propensão para a poupança — demonstradas não apenas na venda de ovos e frangos, mas também nas duras negociações que fazia com o jardineiro sobre raízes de flores, Jane Eyre

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sementes e mudas de plantas — tendo aquele empregado ordens da Sra. Reed para comprar da jovem todos os produtos de seu canteiro que ela desejasse vender; e Eliza teria vendido os cabelos da cabeça se pudesse obter um bom lucro com isso. Quanto ao seu dinheiro, ela primeiro o escondera em estranhos recantos, envoltos em trapos ou em velhos papelões enrugados; mas, como alguns desses esconderijos foram descobertos pela arrumadeira, Eliza, temendo um dia perder seu valioso tesouro, consentiu em confiá-lo à mãe, a uma taxa de juros usurária — cinqüenta ou sessenta por cento — que ela extorquia a cada trimestre, mantendo sua contabilidade num livrinho com ansiosa precisão. Georgiana sentava-se num banquinho alto, penteando os cabelos no espelho, e entremeando seus cachos com flores artificiais e penas descoradas, das quais descobrira um monte numa gaveta do sótão. Eu fazia minha cama, pois recebera ordens estritas de Bessie para arrumá-la antes de ela voltar (pois Bessie agora freqüentemente me usava como uma espécie de criada assistente do quarto das crianças, para arrumar o quarto, espa-nar as cadeiras e coisas assim). Tendo estendido a colcha e dobrado minha camisola de dormir, fui até o batente da janela para pôr em ordem alguns livros ilustrados e móveis de bonecas espalhados por ali; uma abrupta ordem de Georgiana, para deixar seus brinquedos em paz (pois as minúsculas cadeiras e espelhos, os pratos e xícaras em miniatura eram de sua propriedade), deteve meus movimentos; e então, por falta de outra ocupação, passei a bafejar os cristais de neve que cobriam a janela, abrindo assim espaço na vidraça para poder olhar os arredores, onde tudo estava quieto e petrificado sob a influência de uma severa geada. Dessa janela, viam-se o alojamento do porteiro e a estrada de carruagens, e no momento mesmo em que eu dissolvia o bastante das prateadas ramificações que velavam as vidraças para me permitir ver lá fora, vi os portões abrirem-se e uma carruagem passar. Observei-a subir o caminho com indiferença; sempre vinham carruagens a Gateshead Hall, mas nenhuma trazia jamais visitantes em que eu estivesse interessada; parou em frente da casa, a campainha da porta vibrou alto, o recém-chegado foi 36

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admitido. Como tudo isso nada representava para mim, minha atenção distraída logo encontrou interesses mais animados no espetáculo de um pequeno tordo faminto, que veio chilrear sobre os galhos da cerejeira desfolhada pregados na parede perto do caixilho da janela. Os restos de meu desjejum de pão e leite estavam sobre a mesa, e, tendo esfarelado um pedacinho de pão, eu puxava o caixilho para pôr os farelos no batente, quando Bessie subiu correndo as escadas e entrou no quarto. — Srta. Jane, tire seu avental. Que está fazendo aqui? Lavou o rosto e as mãos esta manhã? Dei outro puxão, antes de responder, pois queria que o pássaro tivesse seu pão; o caixilho cedeu, espalhou os farelos — alguns no batente de pedra, outros no ramo da cerejeira; e então, fechando a janela, respondi: — Não, Bessie; acabei agorinha mesmo de espanar. — Menina encrenqueira, desmazelada! E que está fazendo agora? Está muito corada, como se estivesse metida em alguma traquinagem; para que estava abrindo a janela? Fui poupada do trabalho de responder, porque Bessie parecia ter muita pressa para ouvir explicações; ela me arrastou para a bacia, infligiu-me uma esfregadela impiedosa, mas felizmente rápida, no rosto e nas mãos, com sabão, água e uma áspera toalha; disciplinou-me os cabelos com uma escova dura, despiume o avental, e depois, empurrando-me para o alto da escada, ordenou-me que descesse imediatamente, pois me queriam na sala de desjejum. Eu teria perguntado quem me queria — teria exigido saber se a Sra. Reed estava lá; mas Bessie já se tinha ido, e fe-: chara a porta do quarto das crianças em minha cara. Desci lentamente. Durante quase três meses, eu nunca fora chamada à presença da Sra. Reed; confinada por tanto tempo ao quarto das crianças, as salas de desjejum, jantar e de visitas se haviam tornado para mim regiões terríveis, nas quais me constrangia intrometer-me. Estava agora no vazio saguão; à minha frente ficava a porta da sala de desjejum, e parei, intimidada e trêmula. Que miserável covardezinha tinha o medo, engendrado pelo castigo injusto, feito Jane Eyre

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de mim naquele tempo! Eu temia voltar ao quarto das crianças, e temia seguir em frente até o parlatório; dez minutos ali fiquei, em agitada hesitação; o soar veemente da sineta da sala de desjejum me decidiu; eu tinha de entrar. “Quem poderia me querer?” perguntava-me intimamente, enquanto, com as duas mãos, girava a dura maçaneta que, por um segundo ou dois, resistiu aos meus esforços. “Quem vou ver além da Tia Reed no aposento... um homem ou uma mulher?” A maçaneta girou, a porta abriu-se, e passando por ela e fazendo uma vênia, ergui os olhos para... uma pilastra negra! Assim, pelo menos, me pareceu à primeira vista a forma reta, estreita e enlutada, parada ereta sobre o tapete; o rosto sombrio em cima era como uma máscara esculpida, colocada sobre a coluna à guisa de capitel. A Sra. Reed ocupava sua costumeira cadeira diante da lareira; fez-me um sinal para que me aproximasse; obedeci, e ela me apresentou ao pétreo estranho com as palavras: — Esta é a menina sobre a qual me dirigi ao senhor. Ele — pois era um homem — volveu lentamente a cabeça para onde eu estava parada e, tendo-me examinado com os dois olhos cinza de aparência inquisitiva, que reluziam sob um par de hirsutas sobrancelhas, disse solenemente, numa voz de baixo: — É pequena; que idade tem? — Dez anos. — Isso tudo? — foi a duvidosa resposta; e ele prolongou seu escrutínio por alguns minutos. Finalmente, dirigiu-se a mim: — Seu nome, menininha? — Jane Eyre, senhor. Ao emitir estas palavras, ergui os olhos; ele me parecia um cavalheiro alto, mas também eu era muito pequena; tinha feições grandes e, como todas as linhas de sua constituição, igualmente duras e empertigadas. — Bem, Jane Eyre, você é uma boa menina? Impossível responder a isso na afirmativa; meu pequeno mundo tinha uma opinião contrária: fiquei calada. A Sra. Reed respondeu por mim com um expressivo movimento de cabeça, logo acrescentando: 38

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— Talvez, quanto menos se disser sobre esse assunto, melhor, Sr. Brocklehurst. — É uma pena mesmo saber disso! Ela e eu devemos ler uma conversinha. — E, curvando-se da perpendicular, ele instalou sua pessoa na poltrona defronte à Sra. Reed. — Venha cá — disse. Atravessei o tapete; ele me colocou diretamente à sua frente. Que rosto tinha, agora que estava quase no mesmo nível com o meu! Que narigão! E que boca! E que dentes grandes e saltados! — Não há nada tão triste quanto uma criança levada — começou — especialmente uma menininha levada. Sabe para, onde vão os maus após a morte? — Vão para o inferno — foi minha pronta e ortodoxa resposta. — E que é o inferno? Pode me dizer isso? — Um poço cheio de fogo. — E você gostaria de cair nesse poço, e ficar lá queimando para sempre? — Não, senhor. — Que deve fazer para evitar isso? Eu pensei por um momento; minha resposta, quando veio, era contestável: — Devo me manter em boa saúde, e não morrer. — Como pode se manter em boa saúde? Crianças mais novas que você morrem diariamente. Enterrei uma criança de cinco anos há apenas um ou dois dias... uma boa criancinha, cuja alma agora está no céu. É de se temer que não se possa dizer o mesmo de você, se fosse chamada desta vida. Não estando em condições de afastar a sua dúvida, apenas baixei os olhos para os dois grandes pés plantados no tapete e suspirei, desejando estar muito longe dali. — Espero que esse suspiro venha do coração, e que você se arrependa de algum dia ter sido motivo de aflição para sua excelente benfeitora. “Benfeitora! Benfeitora!” eu disse comigo mesma. “Todos chamam a Sra. Reed de minha benfeitora; se assim é, uma Jane Eyre

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benfeitora é uma coisa desagradável.” — Você faz suas orações à noite e pela manhã? — prosseguiu meu interrogador. — Sim, senhor. — Lê a Bíblia? — Às vezes. — Com prazer? Gosta dela? — Gosto das Revelações, e do Livro de Daniel, e do Gênese, e de Samuel, e um pouco do Êxodo, e algumas partes de Reis e Crônicas, e de Jó e de Jonas. — E dos Salmos? Espero que goste deles? — Não, senhor. — Não? Oh, que chocante! Eu tenho um garotinho, mais novo que você, que conhece seis Salmos de cor e quando se pergunta a ele o que prefere, comer um pedaço de bolo de gengibre ou aprender um Salmo, responde: “Oh, o verso de um Salmo! Os anjos cantam Salmos”, ele diz. “Eu quero ser um anjinho aqui embaixo”. Aí, recebe dois bolos como recompensa por sua devoção infantil. — Os Salmos não são interessantes — observei. — Isso prova que você tem um coração perverso; e deve rezar a Deus para dar-lhe um novo e limpo; para tirar-lhe seu coração de pedra e dar-lhe um de carne. Eu estava para propor uma questão, relativa à maneira na qual se devia realizar essa operação para mudar meu coração, quando a Sra. Reed interveio, mandando-me sentar; e então passou a conduzir ela própria a conversa. — Sr. Brocklehurst, creio ter dado a entender, na carta que lhe escrevi há três semanas, que essa menina não tem exatamente o caráter e a natureza que eu desejaria; se o senhor recebê-la na escola de Lowood, eu ficaria satisfeita se a superintendente e as professoras mantivessem uma severa atenção sobre ela, e, acima de tudo, se prevenissem contra seu pior defeito, uma tendência à mentira. Menciono isso diante de você, Jane, para que não tente enganar o Sr. Brocklehurst. Eu bem podia temer, bem podia detestar a Sra. Reed; pois 40

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estava em sua natureza ferir-me cruelmente; nunca fui feliz em sua presença. Por mais cuidadosamente que lhe obedecesse, por mais esforçadamente que lutasse para agradar-lhe, meus esforços eram sempre repelidos, e retribuídos por sentenças como esta acima. Ora, feita diante de um estranho, a acusação me feriu até o coração; percebia vagamente que ela já estava apagando a esperança da nova fase de existência a que me destinava. Sentia, embora não pudesse ter exprimido o sentimento, que ela semeava aversão e ruindade ao longo de meu futuro caminho; vime transformada, sob o olhar do Sr. Brocklehurst, numa criança manhosa, perniciosa, e que podia eu fazer para remediar a injúria? “Na verdade, nada”, pensava, enquanto lutava para reprimir um soluço, e enxugava às pressas algumas lágrimas, provas impotentes de minha angústia. — A mentira é deveras um triste defeito numa criança — disse o Sr. Brocklehurst. — É irmã da falsidade, e todos os mentirosos terão seu quinhão no lago ardente de fogo e enxofre; mas ela será vigiada, Sra. Reed. Falarei com a Srta. Temple e as professoras. — Eu gostaria que ela fosse educada de uma maneira condizente com suas perspectivas — continuou minha benfeitora. — Que se torne útil, se mantenha humilde. Quanto às férias, ela as passará sempre, com a sua permissão, em Lowood. — Suas decisões são perfeitamente judiciosas, madame — respondeu o Sr. Brocklehurst. — A humildade é uma graça cristã, e peculiarmente adequada às alunas de Lowood; eu, por conseguinte, ordeno que se dê especial atenção ao seu cultivo entre elas. Tenho estudado como melhor mortificar nelas o sentimento mundano do orgulho, e ainda outro dia tive uma agradável prova de meu sucesso. Minha segunda filha, Augusta, foi com sua mãe visitar a escola, e ao voltar exclamou: “Oh, papai querido, como todas as moças em Lowood parecem quietas e sem atrativos; com os cabelos penteados por trás das orelhas, aqueles longos aventais e aqueles bolsinhos de linho cru na frente dos vestidos, quase parecem filhos de gente pobre! E, ela disse, “olharam para meu vestido e o de mamãe como se nunca tivessem visto um vestido de seda antes”. Jane Eyre

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— Esse é o estado de coisas que eu aprovo — disse a Sra. Reed. — Se tivesse procurado por toda a Inglaterra, dificilmente teria encontrado um sistema mais exatamente apropriado a uma menina como Jane Eyre. Coerência, meu caro Sr. Brocklehurst... defendo a coerência em tudo. — Coerência, madame, é o primeiro dos deveres cristãos, e tem sido observada em todos os arranjos relacionados com o estabelecimento de Lowood: comida simples, roupas simples, acomodações simples, hábitos frugais e ativos: esta é a ordem do dia na casa e seus habitantes. — Muito correto, senhor. Posso então confiar em que essa criança será recebida como aluna em Lowood, e ali educada em conformidade com sua posição e perspectivas? — Madame, pode, sim; ela será colocada naquela estufa de plantas selecionadas, e confio em que se mostrará agradecida pelo inestimável privilégio de sua escolha. — Eu a mandarei, então, tão logo seja possível, Sr. Brocklehurst; porque, garanto-lhe, sinto-me ansiosa por livrar-me de uma responsabilidade que estava se tornando demasiado cansativa. — Sem dúvida, sem dúvida, madame. E agora desejo-lhe um bom dia. Voltarei a Brocklehurst Hall dentro de uma semana ou duas; meu bom amigo, o Arquidiácono, não me permitirá deixá-lo antes disso. Mandarei à Srta. Temple o aviso de que) deve esperar uma nova menina, para que não haja problemas para recebê-la. Até logo. — Até logo, Sr. Brocklehurst; lembranças minhas à Sra. e à Srta. Brocklehurst, e a Augusta e Theodore, e ao Sr. Broughton Brocklehurst. — Darei, madame. Menina, aqui está um livro intitulado Guia da Criança; leia-o com preces, especialmente a parte que contém “a história da terrível e súbita morte de Martha G..., uma menina má, dada à falsidade e à mentira”. Com estas palavras, o Sr. Brocklehurst pôs em minha mão um fino folheto costurado numa capa, e, tendo tocado para pedir sua carruagem, partiu. A Sra. Reed e eu fomos deixadas sozinhas. Alguns minutos se 42

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passaram em silêncio; ela costurava, eu a observava. A Sra. Reed devia ter nessa época uns trinta e seis a trinta e sete anos; era um mulher de constituição robusta, ombros largos e membros fortes, não alta, e, apesar de gorda, não obesa; e bastante sólida. Tinha a testa baixa, o queixo grande e proeminente, boca e nariz suficientemente regulares; sob as sobrancelhas claras luziam uns olhos desprovidos de compaixão; a pele era morena e opaca, o cabelo quase louro. Sua constituição era sadia como de ferro — a doença nunca se aproximava dela; administradora exigente e esperta, mantinha a casa e os arrendatários inteiramente sob controle; só os filhos, às vezes, desafiavam sua autoridade, e sorriam dela com desprezo. Vestia-se bem, e tinha uma presença e um porte apropriados para receber trajes elegantes. Sentada num banquinho baixo, a alguns metros da poltrona dela eu examinava sua figura, estudava suas feições. Nas mãos, tinha o tratado que continha a morte súbita da Mentirosa; narrativa para a qual minha atenção fora chamada como para uma advertência adequada. O que acabara de passar-se; o que a Sra. Reed tinha dito sobre mim ao Sr. Brocklehurst; todo o teor da conversa deles era recente, cru, e latejava em minha mente; eu sentira cada palavra tão agudamente quanto as ouvira com clareza, e um fogo de ressentimento ardia agora dentro de mim. A Sra. Reed levantou as vistas de seu trabalho, os olhos fixaram-se nos meus, e os dedos, ao mesmo tempo, suspenderam seus ágeis movimentos. — Vá para o seu quarto; volte para o quarto das crianças — foi a sua ordem. Minha expressão, ou qualquer outra coisa, deve ter-lhe parecido ofensiva, pois ela falou com extrema irritação, embora contida. Levantei-me; encaminhei-me para a porta; tornei a voltar; fui até a janela do outro lado da sala, e depois me aproximei dela. Tinha de falar; fora severamente espezinhada, e tinha de retribuir, mas como? Que força tinha eu para lançar retaliação à minha antagonista? Reuni minhas energias e lancei-as nesta sentença sem rodeios: — Eu não sou mentirosa: se fosse, diria que amo a senhora; mas Jane Eyre

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declaro que não a amo, detesto-a mais que a qualquer pessoa no mundo, com exceção de John Reed; e este livro sobre a Mentirosa, a senhora deve dar à sua filha Georgiana, pois ela é quem conta mentiras, não eu. As mãos da Sra. Reed permaneciam paradas sobre seu trabalho inativo; seu olhar de gelo continuava gelidamente pousado no meu. — Que mais você tem a dizer? — ela perguntou, mais no tom que uma pessoa dirige a um oponente adulto do que o que se usa comumente com uma criança. Aqueles olhos dela, aquela voz, despertaram toda a antipatia que eu sentia. Tremendo dos pés à cabeça, tomada de incontrolável excitação, continuei: — Estou satisfeita por a senhora não ser minha parenta. Jamais a chamarei de tia outra vez enquanto viver. Jamais virei vê-la quando for adulta; e se alguém me perguntar o quanto gostava da senhora, e como a senhora me tratou, direi que só a idéia da senhora me deixa doente, e que a senhora me tratou com miserável crueldade. — Como ousa você afirmar isso, Jane Eyre? — Como ouso, Sra. Reed? Como ouso? Porque é a verdade. A senhora pensa que eu não tenho sentimentos, e que posso passar sem um pouco de amor ou bondade; mas não posso viver assim, e a senhora não tem piedade. Eu me lembrarei de como a senhora me empurrou — me empurrou rude e violentamente para dentro do quarto vermelho, e me trancou lá, até o dia de minha morte, embora eu sofresse agonias, embora eu gritasse, sufocando de desespero: “Tenha piedade! Tenha piedade, Tia Reed!” E a senhora me fez sofrer esse castigo porque seu perverso filho me bateu... me derrubou por nada. Direi a quem quer que me faça perguntas essa história exata. As pessoas a julgam uma boa mulher, mas a senhora é má, tem o coração duro. A senhora é que é mentirosa. Antes de acabar essa resposta, minha alma já começara a se expandir, a exultar, com a mais estranha sensação de liberdade, de triunfo, que já senti. Era como se uma cadeia invisível se houvesse rompido, e eu tivesse lutado até uma inesperada liberdade. Esse 44

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sentimento não era sem causa, a Sra. Reed parecia assustada; o trabalho escorregara-lhe dos joelhos; ela erguia ambas as mãos, balançando-se para a frente e para trás, e con-torcia mesmo o rosto, como se fosse chorar. — Jane, você está enganada, que é que há com você? Por que treme de modo tão violento? Gostaria de um pouco d’água? — Não, Sra. Reed. — Há qualquer outra coisa que deseje, Jane? Eu lhe asseguro: quero ser sua amiga. — A senhora, não. A senhora disse ao Sr. Brocklehurst que eu tinha um mau caráter, uma natureza mentirosa, e eu vou dizer a todo mundo em Lowood o que a senhora é, e o que fez. — Jane, você não entende essas coisas, as crianças devem ser corrigidas em suas faltas. — A mentira não é uma de minhas faltas — gritei em voz alta e desesperada. — Mas você é arrebatada, Jane, isso você tem de admitir; e agora volte ao quarto das crianças... seja boazinha... e se deite um pouco. — Eu não sou boazinha; não posso me deitar. Mande-me logo para a escola, Sra. Reed, pois odeio morar aqui. — Eu a mandarei realmente logo para a escola — murmurou a Sra. Reed, sotto você; e pegando seu trabalho, deixou abruptamente o aposento. Fui deixada sozinha, ali — vencedora da batalha. Era a mais dura batalha que já travara, e a primeira vitória que conquistava. Fiquei algum tempo no tapete, onde o Sr. Brocklehurst tinha estado, e desfrutei de minha solidão de conquistador. Primeiro, sorri para mim mesma e me senti exultante; mas esse prazer feroz diminuiu dentro de mim com a mesma rapidez das batidas aceleradas de meu pulso. Uma criança não pode discutir com os mais velhos, como eu fiz não pode dar a seus furiosos sentimentos descontrolada vazão, como eu dera aos meus — sem experimentar depois a pontada do remorso e o calafrio da reação. Um monte de urzes em chamas, vivas, devoradoras, teria sido um grande símbolo de minha mente quando acusei e ameacei a Sra. Reed; o Jane Eyre

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mesmo monte, negro e devastado depois de mortas as chamas, teria representado de modo igualmente apropriado minha condição subseqüente, quando meia hora de silêncio e reflexão me mostraram a loucura de minha conduta, e a melancolia de minha odiada e odiosa posição. Eu provara um pouco de vingança pela primeira vez. Parecia um vinho aromático, ao ser degustado, cálido e vigoroso; o sabor que deixava depois, metálico e corrosivo, dava-me a sensação de ter sido envenenada. De boa vontade eu teria ido agora pedir perdão à Sra. Reed; mas sabia, em parte por experiência, e em parte por instinto, que esse era o meio de fazê-la repelir-me com duplo desprezo, reexcitando com isso todo impulso tuburlento de minha natureza. De bom gosto eu exerceria alguma faculdade melhor que aquela de falar com ferocidade — de bom gosto encontraria estímulo para algum sentimento menos demoníaco que aquele de sombria indignação. Peguei um livro — de contos árabes; senteime e tentei ler. Não tinha idéia do assunto; meus pensamentos se interpunham sempre entre mim e a página que geralmente achava fascinante. Abri a porta de vidro da sala de desjejum, as moitas estavam inteiramente paradas; reinava a negra geada, intocada pelo sol ou pela brisa por toda parte. Cobri a cabeça e os braços com a saia de meu vestido e saí para caminhar por uma parte da plantação que era bastante isolada; mas não encontrei prazer algum nas árvores silenciosas, nos cones dos pinheiros, nas congeladas relíquias do outono, folhas avermelhadas varridas por ventos passados até formarem montes, agora solidificados. Encostei-me num portão, e olhei um campo vazio onde nenhum carneiro pastava, onde a grama curta estava queimada e esbranquiçada. Era um dia muito cinzento; um céu por demais opaco recobria tudo; e dele flocos caíam a intervalos, assentandose na dura estrada e no branco prado sem se derreterem. Fiquei ali de pé, uma criança muito infeliz, murmurando para mim mesma repetidas vezes: “Que farei? Que farei?” De repente, ouvi uma voz clara chamar:

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— Jane Eyre, onde está você? Venha almoçar! Era Bessie, eu sabia muito bem; mas não me movi. — Por que não vem quando a chamam? A presença de Bessie, comparada com os pensamentos sobre os quais eu estivera meditando, parecia animada, mesmo estando ela, como de hábito, um tanto irritada. A verdade é que, após meu conflito e vitória sobre a Sra. Reed, eu não estava disposta a me preocupar muito com a raiva transitória da babá; e estava disposta a aquecer-me na leveza juvenil de seu coração. Simplesmente pus meus dois braços em volta dela e disse: — Vamos, Bessie, não faça essa carranca! A ação foi mais franca e destemida que qualquer outra que eu estivesse habituada a me permitir. Mas, de algum modo, agradoulhe. — A senhorita é uma menina estranha, Srta. Jane — disse, baixando os olhos para mim. — Uma coisinha errante, solitária. E vai para a escola, suponho. Assenti com a cabeça. — E não terá pena de deixar a pobre Bessie? — E Bessie liga para mim? Está sempre me repreendendo. — Porque a senhorita é uma coisinha esquisita, assustada, tímida. Devia ser mais ousada. — Quê? Para levar mais tapas! — Bobagem! Mas a senhorita é um tanto maltratada, isto é certo. Minha mãe disse, quando veio me ver na semana passada, que não gostaria de que uma filha dela estivesse em seu lugar. Agora, vamos, eu tenho boas notícias para a senhorita. — Não creio que tenha, Bessie. — Menina! Que quer dizer? Que olhos tristes põe em mim! Bem, mas a patroa, as senhoritas e o amo John vão tomar chá fora esta tarde, e a senhorita tomará chá comigo. Vou pedir à cozinheira para fazer um pequeno bolo, e depois a senhorita me ajudará a arrumar suas gavetas, pois devo em breve arrumar suas malas. A patroa pretende que a senhorita deixe Gateshead Hall dentro de um dia ou dois, e a senhorita vai escolher os brinquedos que gostaria de levar consigo. Jane Eyre

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— Bessie, você tem de prometer que não ralha mais comigo até eu ir embora. — Bem, prometo: mas procure ser uma boa menina e não tenha medo de mim. Não se assuste quando eu por acaso falar um tanto duramente; é tão provocante. — Não creio que jamais venha a ter medo de você de novo, Bessie, porque me acostumei com você; e logo terei outras pessoas a temer. — Se a senhorita as teme, elas não gostam da senhorita. — Como você, Bessie? — Eu não desgosto da senhorita; creio que gosto mais da senhorita do que de todos os outros. — Não demonstra. — Sua coisinha saliente! Arranjou uma maneira bastante nova de falar. Que a torna tão ousada e corajosa? — Ora, logo estarei longe de você, e além disso... — Ia dizer alguma coisa do que acontecera entre mim e a Sra. Reed; mas, pensando bem, achei melhor ficar calada sobre esse assunto. — Quer dizer então que está feliz por me deixar? — De modo algum, Bessie; na verdade, neste momento estou até triste. — Neste momento! E até! Como minha senhorinha diz isso friamente! Aposto que, se lhe pedisse um beijo agora, não me daria, diria que até preferia não dar. — Eu a beijarei de bom gosto, abaixe a cabeça. — Bessie curvou-se, nós nos abraçamos, e a segui para dentro de casa bastante reconfortada. Aquela tarde passou em paz e harmonia; e à noite Bessie me contou algumas de suas mais encantadoras histórias, e cantou algumas de suas mais doces cantigas. Mesmo para mim, a vida tinha seus raios de sol.

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CAPÍTULO 5

M

al tinham soado cinco horas na manhã do dia 19 de janeiro, quando Bessie trouxe uma vela ao meu canto e já me encontrou desperta e quase inteiramente vestida. Eu me levantara meia hora antes de ela entrar, lavara o rosto e vestira as roupas à luz da meia lua que descia no horizonte, e cujos raios jorravam pela janela estreita perto de meu catre. Ia deixar Gateshead naquele dia, por uma diligência que passava pelos portões da propriedade às seis horas da manhã. Bessie era a única pessoa já desperta; acendera a lareira no quarto das crianças, onde agora preparava meu desjejum. Poucas crianças conseguem comer quando excitadas com o pensamento de uma viagem; também eu não consegui. Bessie, tendo insistido em vão para que eu tomasse algumas colheres do leite fervido e do pão que preparara para mim, embrulhou alguns biscoitos num papel e os pôs em minha mochila; depois me ajudou com a peliça e a touca, e, envolvendo-se num xale, deixou comigo o quarto. Ao passarmos pelo quarto da Sra. Reed, ela disse. — Não vai entrar e se despedir da patroa? — Não, Bessie; ela veio à minha cama na noite passada, quando você desceu para cear, e disse que eu não precisava perturbá-la pela manhã, nem a meus primos; e disse que me lembrasse de que ela sempre foi minha melhor amiga, e para falar dela e ser grata de acordo com isso. — Que foi que respondeu, senhorita? — Nada, cobri o rosto com os cobertores e me virei para a Jane Eyre

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parede. — Isso foi errado, Srta. Jane. — Eu estava absolutamente certa, Bessie: sua patroa não tem sido minha amiga: tem sido minha inimiga. — Oh, Srta. Jane, não diga isso! — Adeus a Gateshead! — gritei, quando atravessamos o saguão e saímos pela porta da frente. A lua sumira, e estava muito escuro; Bessie levava uma lanterna, cuja luz se refletia nos degraus molhados e na estrada encharcada por um recente degelo. Dura e gélida era a manhã de inverno, eu batia os dentes quando desci apressada o caminho. Havia uma luz no alojamento do porteiro; quando chegamos lá, encontramos a mulher do porteiro acendendo o fogo; minha mala, que fora descida na noite anterior, estava amarrada com cordas na porta. Faltavam apenas uns poucos minutos para as seis, e pouco depois de soar essa hora, o rolar distante de rodas anunciou a vinda da diligência; fui para a porta e vi suas lâmpadas se aproximando rapidamente dentro da escuridão. — Ela vai sozinha? — perguntou a mulher do porteiro. — Sim. — E a que distância fica? — Cinqüenta milhas. — Que longa viagem! Admira-me que a Sra. Reed não receie deixá-la ir tão longe sozinha. A diligência se aproximava; lá estava ela, no portão, com seus quatro cavalos e cheia de passageiros; o guarda e o cocheiro pediram pressa em voz alta; guindaram minha mala; arrancaramme do pescoço de Bessie, à qual eu me apegava com beijos. — Tenha muito cuidado com ela — Bessie gritou ao guarda, quando ele me ergueu para colocar-me lá dentro. — Sim, sim! — foi a resposta: bateram a porta, uma voz exclamou “Tudo certo”, e partimos. Assim me separaram de Bessie e Gateshead; assim me lançaram para regiões desconhecidas e, segundo me parecia então, remotas e misteriosas. Lembro-me apenas vagamente da viagem; só sei que o dia me pareceu de um comprimento anormal, e que parecemos 50

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rodar por centenas de milhas de estrada. Passamos por diversas cidades, e’ numa delas, uma muito grande, a diligência parou; desatrelaram os cavalos, e os passageiros saltaram para jantar. Levaram-me para estalagem, onde o guarda quis que eu jantasse; mas, como eu não tinha apetite, ele me deixou numa imensa sala com uma lareira em cada ponta, um candelabro pendente do teto e uma pequena galeria vermelha, no alto da parede, cheia de instrumentos musicais. Ali passeei por longo tempo, sentindo-me muito estranha, e mortalmente apreensiva com a possibilidade de alguém vir e me seqüestrar; pois acreditava em seqüestradores, uma vez que seus feitos freqüentemente figuravam nas crônicas de Bessie ao calor da lareira. Finalmente, o guarda voltou, mais uma vez fui acomodada na diligência, meu protetor retomou seu assento, tocou sua cava cometa, e lá fomos nós pela “rua de pedras” de L... A tarde caiu chuvosa e um tanto enevoada; ao fazer-se noite, comecei a sentir que estávamos chegando muito longe na verdade de Gateshead: deixamos de atravessar cidades; a paisagem mudou; grandes morros cinzentos elevavam-se no horizonte; quando o crepúsculo se fechava, descemos um vale escuro de florestas, e muito depois de a noite ter apagado a perspectiva ouvi um vento forte correndo entre as árvores. Acalantada pelo som, caí finalmente no sono; não tinha dormido muito, quando a súbita cessação de movimento me despertou; a porta da diligência estava aberta, e alguém parecendo uma criada lá estava de pé; vi o rosto e o vestido dela à luz das lâmpadas. — Há uma menina chamada Jane Eyre aqui? — ela perguntou. Respondi: — Sim. — E então me ergueram e puseram do lado de fora; baixaram minha mala, e a diligência imediatamente se afastou. Eu estava rígida, por ter passado tanto tempo sentada, e atordoada com o barulho e o movimento da diligência; recompondo meus sentidos, olhei em volta. Chuva, vento e escuridão enchiam o ar; apesar disso, divisei vagamente um muro diante de mim, e nele uma porta aberta; passei por essa porta com minha nova guia: ela a fechou e trancou atrás de si. Jane Eyre

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Via-se agora uma casa, ou casas — pois o prédio estendia-se até longe — com muitas janelas, e luzes brilhando em algumas delas; subimos um largo caminho de seixos, encharcado, e fomos admitidas numa porta; depois uma criada me levou por um corredor para um quarto com uma lareira, onde me deixou sozinha. Fiquei parada aquecendo os dedos dormentes sobre as chamas, e depois olhei em volta; não havia nenhuma vela, mas a luz incerta da lareira mostrava, a intervalos, paredes empapeladas, tapetes, cortinas, reluzentes móveis de mogno; era um parlatório, não tão espaçoso ou esplêndido quanto a sala de visitas de Gateshead, mas bastante confortável. Eu me esforçava para distinguir o tema de um quadro na parede, quando a porta se abriu e entrou uma pessoa trazendo uma luz; outra a seguia, logo atrás. A primeira era uma senhora alta, de cabelos escuros, olhos escuros e uma testa pálida e grande; tinha o corpo parcialmente envolto num xale, um rosto grave, porte ereto. — A menina é muito nova para ter sido mandada sozinha — ela disse, pondo a vela numa mesa. Examinou-me atentamente por um minuto ou dois, e acrescentou: — É melhor pô-la na cama logo; ela parece cansada. — Está cansada?— perguntou-me, pousando a mão em meu ombro. — Um pouco, madame. — E com fome também, sem dúvida; que coma alguma coisa antes de ir para a cama, Srta. Miller. É a primeira vez que você deixa seus pais para vir a escola, minha garotinha? Expliquei-lhe que não tinha pais. Ela me perguntou há quanto tempo eles tinham morrido; depois minha idade, qual era meu nome, se sabia ler, escrever e coser um pouco: em seguida tocou minha face suavemente com o indicador, e depois, dizendo que “esperava que eu fosse uma boa menina”, despediu-me juntamente com a Srta. Miller. A senhora que eu deixara devia ter uns vinte e nove anos; a que foi comigo parecia alguns anos mais jovem; a primeira me impressionara por sua voz, expressão e aparência. A Srta. Miller 52

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parecia mais comum; de compleição rósea, embora com um rosto preocupado, porte e gestos apressados, como alguém que sempre tem muitas tarefas a fazer; parecia na verdade, o que depois descobri que realmente era, uma professora assistente. Conduzida por ela, passei de compartimento em compartimento, de corredor em corredor, num prédio grande e irregular; até que, emergindo de um silêncio total e um tanto sombrio, que impregnava aquela parte da casa que tínhamos atravessado, chegamos a um rumor de muitas vozes, e finalmente entramos numa sala ampla e comprida, com grandes mesas, duas em cada extremidade, sobre cada uma das quais ardia um par de velas, e sentadas em toda a volta, em bancos, uma congregação de meninas de todas as idades, de nove ou dez até os vinte anos. Vistas à fraca luz das velas de sebo, pareceram-me incontáveis, embora na verdade não passassem de oitenta; estavam uniformemente metidas em vestidos de um tecido marrom de estranho feitio, e compridos aventais de linho cru. Era a hora de estudos; elas faziam seus deveres do dia seguinte, e o zumbido que eu tinha ouvido era o resultado combinado de suas murmuradas lições. A Srta. Miller fez-me um sinal para que me sentasse num banco perto da porta, e depois se encaminhou para a frente do comprido salão e gritou: — Monitoras, recolham os livros de lições e os guardem! Quatro moças altas se levantaram de diferentes mesas e, fazendo a ronda, recolheram os livros e os levaram. A Srta. Miller deu novamente a ordem de comando: — Monitoras, peguem as bandejas da ceia! As moças altas saíram e retornaram depois de algum tempo, cada uma trazendo uma bandeja com pedaços de alguma coisa, eu não sabia o quê, arrumados em ordem, e uma jarra de água e uma caneca no meio de cada bandeja. Os pedaços foram distribuídos; as que queriam, tomaram um gole d’água na caneca comum a todas. Quando chegou minha vez, bebi, porque estava com sede, mas não toquei na comida, pois a excitação e o cansaço me deixavam incapaz de comer: eu via agora, no entanto, que era um bolo de aveia, dividido em pedaços. Jane Eyre

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Acabada a refeição, a Srta. Miller leu as preces e a classe formou filas para sair, duas a duas, em direção ao andar de cima. Dominada a essa altura pelo cansaço, mal notei que tipo de lugar era o dormitório; a não ser que, como a sala de aulas, era muito comprido. Naquela noite eu ia dormir com a Srta. Miller; ela me ajudou a tirar a roupa; quando me deitei, dei uma olhada às longas filas de camas, cada uma delas rapidamente tomada por duas ocupantes; em dez minutos, a única luz se apagou; e em meio ao silêncio e à total escuridão, adormeci. A noite passou rapidamente; eu estava cansada demais até para sonhar; acordei apenas para ouvir o vento uivando em furiosas rajadas, e a chuva caindo em torrentes, e para sentir que a Srta. Miller tomara seu lugar a meu lado. Quando tornei a abrir os olhos, uma sineta forte tocava; as meninas estavam de pé e se vestiam; o dia ainda não começara a amanhecer, e uma luz ou duas ardiam no aposento. Também me levantei, relutantemente; estava muito frio, e me vesti o melhor que pude, em meio aos tremores, e me lavei quando vagou uma bacia, o que não ocorreu tão cedo, uma vez que havia uma bacia para cada seis meninas, nos suportes existentes no meio do aposento. A sineta tocou outra vez; todas fizeram fila, duas a duas, e nessa ordem desceram as escadas e entraram na fria e mal-iluminada sala de aula; ali, a Srta. Miller leu as preces; depois, ordenou: — Entrem em forma por classes. Seguiu-se um grande tumulto por alguns minutos, durante os quais a Srta. Miller exclamou repetidas vezes “Silêncio!” e “Ordem!” Quando diminuiu a agitação, vi-as todas formadas em quatro semicírculos, diante de quatro cadeiras, colocadas às quatro mesas; todas tinham livros nas mãos, e havia um livro grande, como a Bíblia, em cada mesa, diante do assento vazio. Seguiu-se uma pausa de alguns segundos, preenchida pelo rumor vago e baixo da multidão; a Srta. Miller foi de classe em classe, calando esse som indefinido. Soou uma sineta distante: imediatamente, três senhoras entraram na sala, cada uma se dirigiu a uma mesa e tomou seu 54

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assento; a Srta. Miller assumiu a quarta cadeira vazia, que era a mais próxima da porta, e em torno da qual se reuniam as meninas menores; fui chamada a essa classe inferior, e colocada no fim dela. Começavam as atividades: repetiu-se a oração do dia, e depois recitaram-se alguns trechos das Escrituras, aos quais se sucedeu uma demorada leitura de capítulos da Bíblia, que durou uma hora. Quando terminou esse exercício, o dia já tinha amanhecido plenamente. A incansável sineta soou pela quarta vez, as classes foram ordenadas e marcharam para outra sala, para o desjejum. Como eu me sentia contente ao contemplar a perspectiva de conseguir alguma coisa para comer! Estava quase doente de inanição, tendo comido tão pouco no dia anterior. O refeitório era uma sala grande, de teto baixo, sombria; nas duas compridas mesas fumegavam bacias de alguma coisa quente, que no entanto, para minha consternação, emitiam um odor que estava longe de ser convidativo. Vi uma manifestação geral de descontentamento quando os vapores do repasto chegaram às narinas daquelas que deviam engoli-lo; da vanguarda da procissão, as meninas maiores da primeira classe, ergueram-se as palavras murmuradas: — Nojento! O mingau de aveia está queimado de novo! — Silêncio! — ordenou uma voz, não da Srta. Miller, mas de uma das professoras superiores, uma personagenzinha morena, elegantemente vestida, mas de aspecto um tanto indolente, que se instalou à cabeceira de uma mesa, enquanto uma senhora mais clara presidia a outra. Procurei em vão a que eu tinha visto na noite anterior; não estava à vista. A Srta. Miller ocupou a outra cabeceira da mes à qual eu estava; e uma senhora estranha, de aparência estrangeira e idosa, a professora de francês, como descobri mais tarde, tomou o assento correspondente à outra mesa. Rezou-se uma longa oração, e cantou-se um hino; em seguida, uma criada trouxe um pouco de chá para as professoras, e começou a refeição. Faminta, e agora muito fraca, devorei uma colherada ou duas de minha porção sem pensar em seu gosto, mas, contida a Jane Eyre

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primeira ânsia de fome, percebi que tinha diante de mim uma meleira nauseante — mingau de aveia queimado é quase tão ruim quanto batatas podres; a própria fome logo esmorece. As colheres moviam-se lentamente; eu via cada menina provar sua comida e tentar engoli-la; mas na maioria dos casos logo se abandonava esse esforço. O desjejum terminou, e ninguém tinha des-jejuado. Havendo-se dado graças pelo que não tínhamos obtido, e após cantar-se um segundo hino, o refeitório foi evacuado para a sala de aula. Fui uma das últimas a sair, e ao passar pelas mesas, vi uma professora pegar uma tigela de mingau e prová-la; olhou as outras; todos os rostos delas manifestavam repugnância, e uma, a gorda, murmurou: — Coisa abominável! Que vergonha! Passou-se um quarto de hora antes do reinicio das lições, e nesse tempo a sala de aula esteve em glorioso tumulto; nesse período, parecia ser permitido falar em voz alta e mais livremente, e as meninas usavam seu privilégio. Todas as conversas se centravam no desjejum, que todas denunciavam unanimemente. Coitadas! Era a única consolação que tinham. A Srta. Miller era agora a única professora na sala; um grupo de meninas maiores, de pé à sua volta, falava com gestos sérios e carrancudos. Ouvi alguns lábios pronunciarem o nome do Sr. Brocklehurst, ao que a Srta. Miller balançou a cabeça desaprovadoramente; mas não fez muita força para conter a ira geral; sem dúvida, partilhava dela. Um relógio na sala de aula bateu nove horas, a Srta. Miller deixou seu círculo e, parada no meio da sala, gritou: — Silêncio! Para suas cadeiras! A disciplina prevaleceu: em cinco minutos, a confusa multidão entrou em ordem, e um relativo silêncio calou o clamor babelesco de línguas. As professoras das classes superiores retomaram devidamente seus postos; mas todas ainda pareciam esperar. Enfileiradas em bancos nos lados da sala, as oitenta meninas se sentavam imóveis e eretas: pareciam um estranho grupo, todas com os cabelos penteados para trás, sem um cacho visível; em vestidos marrom até o pescoço e com um lenço apertado em torno da garganta, bolsinhos de linho cru (às vezes com a forma 56

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da mochila de um montanhês da Escócia) na frente dos vestidos, destinados a servir como bolsa de trabalho; todas usando também meias de lã e sapatos de camponês, fechados com fivelas. Mais de vinte das que se vestiam desse jeito eram moças feitas, ou antes mulheres jovens; o traje assentava-lhes mal, e dava um ar de esquisitice mesmo às mais bonitas. Eu ainda as olhava, e também examinava de vez em quando as professoras — nenhuma das quais me agradava exatamente, pois a gorda era um tanto grosseira, a morena não pouco feroz, a estrangeira dura e grotesca, e a Srta. Miller, coitada!, parecia roxa, curtida pelo tempo e vítima do excesso de trabalho — quando, meu olhar vagando de rosto em rosto, toda a escola se levantou simultaneamente, como movida por uma mola comum. Que estava havendo? Eu não ouvira ordem alguma; fiquei intrigada. Antes de recuperar os sentidos, as classes estavam novamente sentadas, mas, como todos os olhos se voltavam agora para um ponto, os meus acompanharam a direção geral e encontraram a personagem que me recebera na noite passada. Ela estava parada no fundo da comprida sala, junto à lareira, pois havia fogo em cada uma das extremidades; examinava em silêncio as duas filas de meninas, gravemente. A Srta. Miller, aproximando-se, pareceu fazer-lhe uma pergunta, e, tendo recebido sua resposta, voltou ao seu lugar e disse alto: — Monitora da primeira classe, pegue os globos! Enquanto a ordem era executada, a senhora consultada subia lentamente a sala. Suponho que tenho um considerável órgão de veneração, pois ainda retenho o senso de temor e admiração com que meus olhos acompanharam os passos dela. Vista agora, em plena luz do dia, parecia alta, loura e bem feita; olhos castanhos, com uma luz benigna nas íris e longos cílios de delicado desenho em volta, aliviavam a brancura de sua larga fronte; em cada uma das têmporas o cabelo, de um castanho bastante escuro, se arrepanhava em cachos redondos, de acordo com a moda daquela época, quando nem bandos lisos nem cachos longos estavam em moda. O vestido, também à moda da época, era de tecido púrpura, aliviado por uma espécie de babado espanhol Jane Eyre

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de veludo negro; um relógio de ouro (os relógios não eram então tão comuns como agora) reluzia em sua cinta. Que o leitor acrescente, para completar o quadro, feições refinadas; uma tez clara, embora pálida; e um ar e um porte senhoriais, e terá, pelo menos tão claramente quanto as palavras podem dá-la, a idéia correta da aparência da Srta. Temple — Maria Temple, como posteriormente vi o nome escrito num Livro de Orações que me foi confiado para levar à igreja. A superintendente de Lowood (pois isto é o que era aquela senhora), tendo tomado assento diante de um par de globos colocado numa das mesas, chamou a primeira classe à sua volta e começou a dar uma lição de geografia; as classes inferiores foram chamadas por suas professoras. Fizeram-se sabatinas de história, gramática etc. durante uma hora; seguiram-se composição e aritmética, e a Srta. Temple deu lições de música a algumas das meninas mais velhas. A duração de cada lição era medida pelo relógio, que afinal bateu doze horas. A superintendente se levantou. — Quero dirigir uma palavra às alunas — disse. Já começava o tumulto do fim das lições, mas cessou à sua voz. Ela prosseguiu: — Vocês tiveram esta manhã um desjejum que não conseguiram comer. Ordenei que se sirva a todas uma merenda de pão e queijo. As professoras olharam-na com uma espécie de surpresa. — Isso será feito sob minha responsabilidade — ela acrescentou, num tom explicativo para elas, e imediatamente a seguir deixou a sala. O pão e o queijo foram afinal trazidos e distribuídos, para grande deleite e refrigério de toda a escola. Deu-se então a ordem: — Para o jardim! Cada uma pôs um grosseiro chapéu de palha, com tiras de chita colorida, e um guarda-pó de frisa cinza. Eu fui igualmente equipada e, seguindo a corrente, cheguei ao ar livre. O jardim era um amplo terreno cercado por muros tão altos, que excluíam qualquer vislumbre da paisagem; uma varanda coberta de um lado e amplas calçadas ladeava um espaço no 58

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meio, dividido em dezenas de pequenos canteiros; esses canteiros eram designados como jardins para as alunas cultivarem, e cada um tinha uma proprietária. Quando cheios de flores, pareceriam sem dúvida lindos, mas agora, em fins de janeiro, tudo era seca de inverno e parda decomposição. Eu tremia, ao ficar ali de pé e olhar em volta: era um dia inclemente para exercícios ao ar livre — não exatamente chuvoso, mas escurecido por uma garo-enta neblina amarela; tudo sob os pés estava ainda encharcado pelas chuvas do dia anterior. As meninas mais fortes corriam em volta e se empenhavam em, jogos ativos, mas várias das outras, pálidas e magras, se reuniam em busca de abrigo e calor na varanda; e entre estas, à medida que a densa neblina penetrava em seus trêmulos corpos, eu ouvia freqüentemente o som de uma tosse seca. Eu não tinha falado com ninguém ainda, nem vira ninguém tomar conhecimento de mim; fiquei ali bastante solitária, mas estava acostumada a essa sensação de isolamento: não me oprimia muito. Encostei-me a uma coluna da varanda, apertei minha manta cinzenta em torno de mim e, tentando esquecer o frio que me comia por fora, e a fome insaciada que me roia por dentro, entreguei-me à tarefa de observar e pensar. Minhas reflexões eram demasiado fragmentárias e indefinidas para merecerem registro. Eu mal sabia ainda onde me achava. Gateshead e minha vida passada pareciam ter sumido, flutuando para uma imensurável distância. O presente era vago e estranho, e sobre o futuro eu não podia formar nenhuma conjetura. Olhei em torno o jardim, parecido a um convento, e depois a casa — um prédio grande, metade do qual parecia cinzenta e velha, e a outra metade bastante nova. A parte nova, que continha a sala de aula e o dormitório, era iluminada por janelas com barras e gelosias, que lhe davam um aspecto de igreja. Uma lápide de pedra sobre a porta trazia a seguinte inscrição: “Instituição Lowood. — Esta parte foi construída no A.D. de.... por Naomi Brocklehurst, de Brocklehurst Hall, neste condado.” “Que sua luz brilhe de tal modo perante os homens, que eles possam ver suas boas obras, e glorificar seu Pai que está no Céu.” S. Mat. V.16. Jane Eyre

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Li essas palavras repetidas vezes. Sentia que tinham uma explicação, e não conseguia penetrar plenamente em seu significado. Ainda ponderava sobre o significado de “Instituição”, e tentava estabelecer uma relação entre as primeiras palavras e o versículo das Escrituras, quando o som de uma tosse atrás de mim me fez voltar a cabeça. Vi uma menina sentada num banco de pedra próximo. Curvava-se sobre um livro, na leitura do qual parecia absorvida. De onde eu estava, podia ver o título — era Rasselas — um nome que me pareceu estranho, e conseqüentemente atraente. Ao virar uma página, ela por acaso ergueu os olhos, e eu lhe disse diretamente: — Esse livro é interessante? — Já formara a intenção de pedirlhe que me emprestasse a obra um dia. — Eu gosto dele — ela respondeu, após uma pausa de um segundo ou dois, durante os quais me examinou. — De que trata? — continuei. Não sabia onde encontrara a coragem para iniciar assim uma conversa com uma estranha. A ação era contrária à minha natureza e hábitos; mas creio que a ocupação dela tocou uma fibra de simpatia em alguma parte, pois eu também gostava de ler, embora leituras de um tipo frívolo e infantil. Não podia digerir ou compreender coisas sérias ou substanciais. — Pode olhá-lo — respondeu a menina, oferecendo-me o livro. Olhei. Um breve exame convenceu-me de que o conteúdo era menos interessante que o título. Rasselas pareceu enfadonho ao meu gosto leviano. Não vi nada sobre fadas, nada sobre gênios; nenhuma bela variedade parecia espalhar-se pelas páginas de composição cerrada. Devolvi-o a ela, que o recebeu tranqüilamente e, sem dizer coisa alguma, preparava-se para recair em sua estudiosa atitude anterior. Aventurei-me a perturbá-la de novo. — Sabe me dizer o que significa o que está escrito naquela pedra acima da porta? Que é a Instituição Lowood? — Esta casa onde você veio morar. — E por que a chamam de Instituição? É de alguma forma diferente de outras escolas? 60

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— É em parte uma escola de caridade. Você e eu, e todo o resto, somos crianças mantidas pela caridade. Suponho que você é órfã. Seu pai ou sua mãe não morreu? — Os dois morreram antes de eu poder sequer me lembrar deles. — Bem, todas as meninas aqui perderam um ou os dois pais, e esta é chamada uma Instituição para educação de órfãs. — Não pagamos dinheiro nenhum? Eles nos mantêm de graça? — Nós, os nossos amigos, pagamos quinze libras por ano cada. — Então por que nos chamam de crianças mantidas pela caridade? — Porque quinze libras não bastam para a pensão e o ensino, e o que falta é fornecido por contribuições. — Quem contribui? — Diferentes damas e cavalheiros de natureza bondosa nesta região e em Londres. — Quem foi Naomi Brocklehurst? — A dama que construiu a parte nova desta casa, como registra aquela lápide, e cujo filho supervisiona e dirige tudo aqui. — Por quê? — Porque ele é o tesoureiro e administrador do estabelecimento. — Quer dizer que esta casa não pertence àquela senhora alta que usa um relógio, e que disse que íamos receber um pouco de pão e queijo? — À Srta. Temple? Oh, não! Eu gostaria que pertencesse. Ela tem de responder perante o Sr. Brocklehurst por tudo que faz. O Sr. Brocklehurst é quem compra toda a nossa comida e todas as nossas roupas. — Ele mora aqui? — Não... a duas milhas de distância, numa grande casa. — É um homem bom? — É um clérigo, e diz-se que faz um bocado de boas obras. — Você disse que aquela senhora alta se chamava Srta. Temple? — Foi. — E como se chamam as outras professoras? — A de bochechas vermelhas chama-se Srta. Smith; cuida do Jane Eyre

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trabalho e faz corte, pois nós costuramos nossas próprias roupas, nossos vestidos e peliças, e tudo mais; a pequenininha de cabelos negros é a Srta. Scatcherd; ela ensina história e gramática, e ouve as recordações da segunda classe; e a que usa um xale, e um lenço de bolso atado ao lado com uma fita, é Madame Pierrot; ela é de Lisle, na França, e ensina francês. — Você gosta das professoras? — Bastante. — Gosta da morena, e de Madame... Não consigo pronunciar o nome dela como você. — A Srta. Scatcherd é afobada... você deve ter cuidado para não ofendê-la; Madame Pierrot não é má pessoa. — Mas a Srta. Temple é a melhor, não é? — A Srta. Temple é muito boa, e muito inteligente; está acima do resto, porque sabe muito mais do que elas. — Você está aqui há muito tempo? — Dois anos. — É órfã? — Minha mãe morreu. — É feliz aqui? — Você faz muitas perguntas. Já lhe dei todas as respostas suficientes por agora. Agora quero ler. Mas nesse momento a sineta tocou para o jantar. Todas reentramos na casa. O odor que agora enchia o refeitório dificilmente seria mais apetitoso que o que regalara nossas narinas no desjejum. O jantar foi servido em duas imensas vasilhas de estanho, de onde se elevava um forte vapor, que rescendia a banha rançosa. Descobri que a comida consistia em batatas não escolhidas e estranhos fiapos de carne escura, misturados e cozinhados juntos. Desse preparado, um prato consideravelmente abundante era servido a cada aluna. Comi o que pude, imaginando com meus botões se a comida de todos os dias seria assim. Após o jantar, passamos imediatamente para a sala de aula. Recomeçaram as lições, que continuaram até as cinco horas. O único acontecimento marcante da tarde foi que vi a menina com quem conversara na varanda ser expulsa humilhante-mente 62

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pela Srta. Scatcherd da aula de história, e posta de pé no meio da grande sala de aula. O castigo me pareceu ignominioso em alto grau, especialmente para uma menina tão crescida — parecia ter treze anos ou mais. Esperei que ela mostrasse sinais de grande aflição e vergonha, mas para minha surpresa nem chorou nem corou. Calma, apesar de séria, ali ficou, ponto central de todas as atenções. “Como pode ela suportar isso tão tranqüilamente ... tão firmemente?” eu me perguntava. “Se estivesse no lugar dela, parece-me que desejaria que a terra se abrisse e me engolisse. Ela parece estar pensando em outra coisa que não o seu castigo... que não a sua situação; em alguma coisa que não está à sua volta ou à sua frente. Já ouvi falar em sonhar acordado... será que ela está sonhando acordada agora? Tem os olhos fixos no chão, mas tenho certeza de que não o vê... o olhar parece voltado para dentro, desceu para o coração: está olhando o que consegue lembrar, creio; não o que está realmente presente. Imagino que tipo de menina é, boa ou má.” Logo depois das cinco da tarde fizemos outra refeição, que consistiu em uma pequena caneca de café e meia fatia de pão pardo. Devorei meu pão e bebi meu café com prazer; porém gostaria de muito mais — ainda estava faminta. Seguiu-se um recreio de uma hora, e depois, estudo; em seguida, o copo d’água e o pedaço de bolo de aveia, preces e cama. Assim foi meu primeiro dia em Lowood.

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CAPÍTULO 6

O

dia seguinte começou como antes; levantar e me vestir na penumbra, mas nessa manhã fomos obrigadas a dispensar a cerimônia da lavagem; a água nas jarras estava congelada. Ocorrera uma mudança no tempo na noite passada, e um penetrante vento nordeste, soprando pelas fendas das janelas do dormitório por toda a noite, tinha-nos feito tremer nas camas, e transformara em gelo o conteúdo das jarras. Antes que acabasse a longa hora e meia de preces e leitura da Bíblia, eu já estava para morrer de frio. A hora do desjejum chegou afinal, e nessa manhã o mingau de aveia não estava queimado; a qualidade era comível, a quantidade pouca; como parecia pequena a minha porção! Eu desejaria o dobro. Durante o dia, colocaram-me na quarta classe, e designaramme tarefas e ocupações regulares; até então, eu tinha sido apenas espectadora das atividades em Lowood; agora, ia me tornar participante. A princípio, estando pouco acostumada a decorar, as lições me pareceram longas e difíceis; a freqüente mudança de uma tarefa a outra também me confundia; e fiquei, satisfeita quando, cerca das três horas da tarde, a Srta. Smith me pôs nas mãos um pedaço de musselina de dois metros de comprimento, juntamente com uma agulha, dedal etc., e mandou-me sentar num canto tranqüilo da sala de aula, com instruções para fazer bainha. A essa hora, a maioria das outras estava costurando também; mas uma classe ainda permanecia lendo em torno da cadeira da Srta. 64

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Scatcherd, e como tudo estava em silêncio, podia-se ouvir o tema da aula delas, juntamente com a maneira como cada menina se saía, e as repreensões e ordens da professora sobre os desempenhos. Era história inglesa; entre as leitoras, observei minha conhecida da varanda: no início da lição, seu lugar era no topo da classe, mas, por algum erro de pronúncia ou alguma desatenção às pausas, fora de repente mandada para o ponto mais baixo. Mesmo nessa obscura posição, a Srta. Scatcherd continuava a fazer dela objeto de constante atenção; dirigia-lhe constantemente frases como as seguintes: — Burns (era este o nome dela, as meninas ali eram todas chamadas pelos sobrenomes, como os meninos em outros lugares), Burns, você está calcanhando o sapato, ponha as pontas dos pés para fora imediatamente. — Burns, você adianta o queixo de uma maneira desagradável; encolha-o. — Burns, insisto em que mantenha a cabeça erguida; não a tolerarei diante de mim nessa atitude. E assim por diante. Tendo-se lido duas vezes um capítulo de ponta a ponta, os livros foram fechados e as meninas sabatinadas. A lição compreendia parte do reinado de Charles I, e havia várias perguntas sobre tonelagem, libras-peso e moedas marítimas, que a maioria parecia incapaz de responder; contudo, todas essas pequenas dificuldades eram instantaneamente solucionadas quando chegavam a Burns; sua memória parecia ter retido a substância de toda a lição, e ela tinha respostas prontas em todos os pontos. Eu esperava sempre que a Srta. Scatcherd elogiasse sua atenção; mas, em vez disso, ela gritou de repente: — Sua menina imunda, desagradável! Você não limpou as unhas esta manhã! Burns não deu resposta; admirou-me o seu silêncio. “Ora”, pensei, “ela não explica que não pôde nem limpar as unhas nem lavar o rosto, porque a água estava congelada?” Minha atenção foi então atraída pelo fato de a Srta. Smith desejar que eu segurasse uma meada de linha; enquanto ela a enrolava, falava comigo de quando em quando, perguntando-me Jane Eyre

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se já estivera numa escola antes, se sabia marcar, pontear, tricotar etc.; até me dispensar, não pude continuar com a observação dos movimentos da Srta. Scatcherd. Quando retornei a meu assento, aquela dama dava uma ordem, que não consegui pegar; mas Burns imediatamente deixou a classe, e, encaminhando-se para o pequeno quarto interno onde se guardavam os livros, retornou em meio minuto trazendo nas mãos um feixe de galhos atado numa das extremidades. Esse sinistro instrumento, ela o entregou à Srta. Scatcherd com uma respeitosa cortesia; depois, silenciosamente e sem ser mandada, desabotoou seu avental, e a professora aplicou-lhe no mesmo instante e com força uma dúzia de vergastadas no pescoço com o feixe de galhos. Nem uma lágrima brotou dos olhos de Burns e, enquanto eu parava minha costura, porque meus dedos tremiam diante daquele espetáculo, com um sentimento de inútil e impotente raiva, nem um traço de seu rosto pensativo alterou a expressão costumeira. — Menina empedernida! — exclamou a Srta. Scatcherd. — Nada pode corrigi-la de seus hábitos desmazelados; leve o açoite daqui. Burns obedeceu, eu a olhei atentamente quando saiu do quartinho dos livros; recolocava o lenço no bolso, e o vestígio de uma lágrima brilhava em sua magra bochecha. A hora do recreio à noite era para mim a parte mais agradável do dia em Lowood: o pedaço de pão, o gole de café engolido às cinco horas revitalizavam as energias, embora não saciassem a fome; a longa repressão do dia era aliviada; a sala de aula estava mais quente do que pela manhã — pois deixavam que as lareiras ardessem um pouco mais claramente, para compensar, em certa medida, a falta de velas, ainda não trazidas; o róseo crepúsculo, a livre gritaria, a confusão de muitas vozes nos dava uma bemvinda sensação de liberdade. Na noite do dia em que vi a Srta. Scatcherd açoitar sua aluna Burns, vagueei como sempre entre os bancos, mesas e grupos sorridentes, desacompanhada, mas nem por isso me sentindo solitária; quando passava pelas janelas, de vez em quando levantava um estore e olhava para fora; nevava muito, uma 66

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camada de neve já se formava contra os vidros de baixo; pondo a orelha perto da janela, podia distinguir do alegre tumulto do lado de dentro o desconsolado lamento do vento lá fora. Provavelmente, se eu tivesse deixado pouco antes um bom lar e pais bondosos, aquela seria a hora em que mais agudamente teria sentido a separação; aquele vento me teria então entristecido o coração, aquele caos escuro me teria perturbado a paz; na verdade, porém, eu extraía de ambos uma estranha excitação, e, inquieta e febril, desejava que o vento uivasse mais selvagemente, que o lusco-fusco se aprofundasse em trevas, e que a confusão se erguesse num clamor. Saltando sobre os bancos e arrastando-me sob as mesas, encaminhei-me para uma das lareiras; ali, ajoelhada defronte da alta grade protetora, encontrei Burns, absorvida, calada, distraída de tudo à sua volta pela companhia de um livro, que lia à pouca claridade das brasas. — Ainda é Rasselas? — perguntei, aproximando-me por trás dela. — Sim — ela disse. — E estou acabando-o agora. Em cinco minutos mais, fechou-o. Fiquei contente com isso. “Agora”, pensei, “talvez possa conversar com ela”. Sentei-me a seu lado, no chão. — Como é seu nome, além de Burns? — Helen. — É de muito longe daqui? — Sou de um lugar mais do norte; bem na fronteira da Escócia. — Vai voltar algum dia? — Espero que sim; mas ninguém pode ter certeza do futuro. — Você deve querer deixar Lowood. — Não, por que deixaria? Fui mandada para Lowood para receber educação; e não adiantaria nada ir embora enquanto não atingir esse objetivo. — Mas aquela professora, a Srta. Scatcherd, é tão cruel com você! — Cruel? De modo nenhum. É severa; não gosta de meus defeitos. Jane Eyre

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— Se eu estivesse em seu lugar, não gostaria dela; resistiria a ela; se me batesse com aquele açoite, eu o tiraria das mãos dela; eu o quebraria debaixo do nariz dela. — Provavelmente, você não faria nada disso; mas se fizesse, o Sr. Brocklehurst a expulsaria da escola; isso seria um grande pesar para seus parentes. É muito melhor suportar pacientemente uma sova que ninguém sente, a não ser a gente, do que cometer uma ação apressada cujas más conseqüências se estenderão a todos os relacionados com a gente; e, além disso, a Bíblia nos manda retribuir o mal com o bem. — Mas é vergonhoso ser açoitada, e ser posta de pé no meio de uma sala cheia de gente; e você é uma menina tão crescida; eu sou muito mais jovem que você, e não poderia tolerar isso. — Mas seria o seu dever tolerar, se não pudesse evitar; é fraqueza e tolice dizer que não pode tolerar o que o destino da gente exige que tolere. Eu a ouvia maravilhada, não podia compreender essa doutrina de tolerância; e ainda menos compreender ou simpatizar com a clemência que ela manifestava por sua algoz. Contudo, sentia que Helen Burns considerava as coisas a uma luz invisível para meus olhos. Desconfiava de que ela podia estar certa e eu errada; mas não ia ponderar o assunto profundamente; como Felix, adiei-o para uma época mais adequada. — Você diz que tem defeitos, Helen, quais são? A mim você me parece muito boa. — Então aprenda comigo a não julgar pelas aparências. Eu sou, como disse a Srta. Scatcherd, desmazelada; raramente ponho, e nunca mantenho, as coisas em ordem; sou descuidada; esqueço as regras; leio quando devia aprender minhas lições; não tenho método; e às vezes digo, como você, que não posso tolerar ser submetida a arranjos sistemáticos. Tudo isso é muito irritante para a Srta. Scatcherd, que é naturalmente asseada, pontual e exigente. — E zangada e cruel — acrescentei; mas Helen Burns não admitiu meu acréscimo, manteve-se calada. — A Srta. Smith é tão severa com você quanto a Srta. Scatcherd? Ao som do nome da Srta. Smith, um suave sorriso pairou 68

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pelo seu rosto sério. — A Srta. Temple é plena de bondade: dói-lhe ser severa .com qualquer uma, mesmo as piores da escola: ela vê meus erros, e me fala deles delicadamente; e, se faço alguma coisa digna de louvor, ela me dá meu quinhão liberalmente. Uma forte prova de minha natureza desgraçadamente defeituosa é que mesmo suas reprimendas, tão brandas, tão racionais, não têm influência para curar-me de meus defeitos; e mesmo seus louvores, que valorizo muitíssimo, não podem me estimular para continuar cuidadosa e previdente. — Isso é curioso — eu disse. — É tão fácil ser cuidadosa. — Para você, não tenho dúvida de que seja. Eu a observei em sua classe esta manhã, e vi que você estava muito atenta, seus pensamentos jamais pareciam vagar enquanto a Srta. Miller explicava a lição e a interrogava. Ora, o meu se desvia continuamente; quando devia estar ouvindo a Srta. Scatcherd, e recolhendo tudo que ela diz com assiduidade, muitas vezes perco até o som da voz dela; caio numa espécie de sonho. Às vezes, penso que estou em Northumberland, e que os ruídos que ouço em volta de mim são o borbulhar de um pequeno regato que atravessa Deepden, perto de nossa casa; depois, quando chega a minha vez de responder, tenho de ser acordada; e, não tendo ouvido nada do que foi lido, por ter ficado ouvindo o regato visionário, não tenho resposta para dar. — E no entanto, como você respondeu bem esta tarde. — Foi mera sorte; o assunto sobre o qual líamos me interessou. Esta tarde, em vez de sonhar com Deepden, eu estava pensando como um homem que desejava agir corretamente pôde agir tão injusta e insensatamente como Charles I às vezes agiu; e pensava em como era uma pena que, com sua integridade e conscienciosidade, ele não pudesse ver além das prerrogativas da Coroa. Se pelo menos pudesse ter visto à distância, e para onde o que chamam o espírito da época tendia! Contudo, eu gosto de Charles... respeito-o... tenho pena dele, pobre rei assassinado! Sim, os inimigos dele eram piores, derramaram sangue que não Jane Eyre

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tinham o direito de derramar. Como ousaram matá-lo! Helen falava consigo mesmo agora, esquecera de que eu podia não entendê-la muito bem... que eu era ignorante, ou quase, do assunto que ela discutia. Chamei-a ao meu nível. — E quando a Srta. Temple lhe ensina, seus pensamentos vagueiam então? — Não, certamente, não muitas vezes; porque a Srta. Temple geralmente tem alguma coisa a dizer que é mais nova que minhas reflexões; a linguagem dela é singularmente agradável, e a informação que dá muitas vezes é exatamente a que eu desejo obter. — Bem, então com a Srta. Temple você é boa? — Sim, de uma forma passiva; não faço esforço; sigo aonde a inclinação me leva. Não há mérito nessa bondade. — Há muito; você é boa para aqueles que são bons com você. É tudo que desejo ser. Se as pessoas fossem sempre boas e obedientes com aqueles que são cruéis e injustos, os maus teriam tudo à sua maneira; jamais teriam medo, e assim jamais se modificariam, mas se tornariam cada vez piores. Quando nos golpeiam sem motivo, devemos retribuir o golpe com toda força; estou certa de que devemos... com tanta força, que ensine à pessoa que nos bateu a nunca mais fazer isso de novo. — Você mudará de idéia, espero, quando ficar mais velha; ainda é uma menininha inculta. — Mas me sinto assim, Helen; tenho de detestar aqueles que, por mais que eu faça para agradar-lhes, persistem em me detestar; tenho de resistir àqueles que me castigam injustamente. É igualmente natural que eu ame aqueles que me demonstram afeição, e que me submeta ao castigo quando acho que é merecido. — Os infiéis e as tribos selvagens têm essa doutrina; mas os cristãos e os países civilizados a repelem. — Como? Não compreendo. — Não é a violência que melhor vence o ódio... nem a vingança o que mais justamente sana a injúria. — Que é então? — Leia o Novo Testamento, e observe o que Cristo diz, e como 70

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Ele age; faça da palavra d’Ele a sua regra, e da conduta d’Ele o seu exemplo. — Que é que Ele diz? — Amai a vossos inimigos; abençoai aos que vos maldizem; fazei o bem aos que vos odeiam e vos usam despeitosamente. — Então eu devo amar a Sra. Reed, o que não posso fazer; devo abençoar o filho dela, John, o que é impossível. Por sua vez, Helen Buns pediu-me que explicasse; e me pus imediatamente a despejar, à minha maneira, a história de meus sofrimentos e ressentimentos. Amarga e truculenta quando excitada, falei como sentia, sem reserva ou abrandamento. Helen me ouviu pacientemente até o fim; eu esperava que fosse então fazer uma observação, mas ela nada disse. — Bem — perguntei impacientemente — a Sra. Reed não c uma mulher de coração duro, má? — Ela foi ruim para você, sem dúvida, porque, sabe, ela não gosta do seu tipo de caráter, como a Srta. Scatcherd não gosta do meu; mas como você se lembra nos mínimos detalhes de tudo que ela lhe fez e lhe disse! Que impressão singularmente profunda a injustiça dela parece ter deixado em seu coração! Nenhum maltrato deixa tanta marca em meus sentimentos. Você não seria mais feliz se tentasse esquecer a severidade dela, juntamente com as emoções apaixonadas que causou? A vida me parece curta demais para ser passada alimentando-se animosidade, ou anotando-se ofensas. Nós estamos, e devemos estar, todos, carregados de defeitos neste mundo; mas confio em que chegará o tempo em que os descarregaremos de nossos corpos corruptíveis; em que a degradação e o pecado cairão de nós com esta embaraçosa estrutura de carne, e só restará a centelha do espírito — o impalpável princípio da vida e do pensamento, puro como quando deixou o Criador para inspirar a criatura; de onde veio, para lá retornará, talvez para ser de novo comunicado a algum ser superior ao homem... talvez para passar por gradações de glória, da pálida alma humana para o brilhante serafim! Certamente jamais se deixará Jane Eyre

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que, ao contrário, degenere do homem para o demônio? Não, não posso crer nisso, tenho outro credo, que ninguém jamais me ensinou, e que raramente menciono, mas com o qual me deleito, e ao qual me apego, pois estende a esperança a todos; torna a eternidade um repouso... um lar formidável... não um terror e um abismo. Além disso, com esse credo, eu posso distinguir muito claramente entre o criminoso e seu crime, posso muito sinceramente perdoar o primeiro abominando o último; com esse credo, a vingança jamais preocupa meu coração, a degradação nunca me desagrada demasiado profundamente, a injustiça nunca me esmaga demais; vivo em calma, olhando o fim. A cabeça de Helen, sempre caída, afundou um pouco mais quando ela terminou esta sentença. Vi pela sua expressão que ela não desejava mais conversar comigo, mas antes com seus próprios pensamentos. Não lhe davam muito tempo para meditação. Uma monitora, uma menina grande e grosseira, apareceu afinal, exclamando com um forte sotaque de Cumberland: — Helen Burns, se você não for arrumar sua gaveta, e dobrar seu trabalho agorinha mesmo, eu vou dizer à Srta. Scatcherd para vir dar uma olhada nele! Helen suspirou, enquanto seu devaneio se desfazia, e, levantando-se, obedeceu à monitora sem responder e sem delongas.

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CAPÍTULO 7

M

eu primeiro trimestre em Lowood pareceu uma era, e não a era de ouro, certamente; compreendeu uma cansativa luta com problemas para habituar-me a novas regras e tarefas desusadas. O temor do fracasso nesses pontos acossava-me mais que as durezas físicas de minha sorte, que não eram pouca coisa. Durante janeiro, fevereiro e parte de março, a neve profunda e, depois do degelo, as estradas quase intransitáveis impediram-nos de mover-nos além dos muros do jardim, a não ser para ir à igreja; mas dentro desses limites tínhamos de passar uma hora todo dia ao ar livre. As roupas não bastavam para proteger-nos do frio intenso; não tínhamos botas, a neve nos entrava nos sapatos e derretia-se lá dentro; nossas mãos sem luvas ficavam dormentes e cobertas de frieiras, e o mesmo nos acontecia aos pés. Lembrome bem da perturbadora irritação que eu suportava por isso toda noite, quando meus pés se inflamaram, e a tortura de enfiar os dedos inchados, em carne viva, rígidos, dentro dos sapatos pela manhã. Também a pouca comida era angustiante; com o ávido apetite de crianças em desenvolvimento, mal tínhamos o suficiente para manter vivo um frágil inválido. Dessa deficiência alimentar resultou uma violência que oprimia duramente as alunas mais novas; sempre que as meninas maiores, famintas, tinham uma oportunidade, enganavam ou ameaçavam as pequenas para tomar a parte delas. Muitas vezes reparti entre duas reclamantes o precioso naco de pão pardo distribuído à hora do chá, e após ter Jane Eyre

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entregue a uma terceira a metade do conteúdo de minha caneca de café, engolia o restante com um acompanhamento de lágrimas secretas, arrancadas pela exigência da fome. Os domingos eram dias tristes naquele inverno. Tínhamos de andar duas milhas até a igreja de Brocklebridge, onde nosso patrono oficiava. Partíamos geladas, e chegávamos à igreja mais geladas ainda; durante o serviço matinal, ficávamos quase paralisadas. Era longe demais para voltar para o jantar, e servia-se entre os ofícios uma porção de carne fria e pão, na mesma mísera proporção observada em nossas refeições comuns. Ao final do serviço vesperal, retornávamos por uma estrada aberta e montanhosa, onde o forte vento frio do inverno, soprando por cima de uma cadeia de cumes gelados ao norte, quase nos arrancava a pele do rosto. Lembro-me da Srta. Temple caminhando leve e rapidamente ao lado de nossa frouxa fila, o casaco axadrezado, que o vento gelado fazia flutuar, apertado contra o corpo, encorajando-nos, pela palavra e o exemplo, a manter o ânimo e marchar em frente, como ela dizia, “como soldados valentes”. As outras professoras, coitadas, estavam geralmente demasiado abatidas elas próprias para tentar a tarefa de encorajar os outros. Como ansiávamos pela luz e o calor de um fogo vivo, quando chegávamos! Mas, para as menores ao menos, também isso era negado; cada lareira na sala de aula era imediatamente cercada por uma dupla fila de meninas grandes, e atrás delas as mais novas se agachavam em grupos, envolvendo os braços famintos em seus aventais. Com a hora do chá, vinha um pequeno alívio, sob a forma de uma dupla ração de pão — uma fatia inteira, em vez de metade — com o delicioso acréscimo de uma fina camada de manteiga; era o regalo semanal pelo qual todas ansiávamos de sábado a sábado. Em geral, eu conseguia reservar uma metade desse generoso repasto para mim; mas o resto, era invariavelmente obrigada a entregar. A noite de domingo era passada a repetir, de cor, o Cate-, cismo da Igreja, e o quinto, sexto e sétimo capítulos de São Mateus; e a 74

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ouvir um longo sermão lido pela Srta. Miller, cujos irreprimíveis bocejos atestavam sua exaustão. Um interlúdio freqüente nessas atuações era a encenação da parte de Eutico por uma meia dúzia de menininhas, que, vencidas pelo sono, caíam, se não do terceiro sótão, pelo menos do terceiro banco, e eram retiradas meio mortas. O remédio era empurrá-las para o centro da sala de aula, e obrigá-las a ficar de pé ali até o sermão acabar. Às vezes seus pés lhes faltavam, e elas afundavam juntas formando um monte; eram então escoradas com os tamboretes altos das monitoras. Ainda não me referi às visitas do Sr. Brocklehurst; e na verdade esse cavalheiro esteve fora de casa a maior parte do primeiro mês após a minha chegada, talvez prolongando sua estada com seu amigo o arquidiácono; essa ausência foi um alívio para mim. Não preciso dizer que tinha meus próprios motivos para temer a sua vinda; mas ele veio afinal. Uma tarde (eu estava então havia três semanas em Lowood), cm que me sentava com uma lousa na mão, quebrando a cabeça com uma soma numa longa divisão, meus olhos, erguidos em abstração para a janela, avistaram uma figura que passava. Reconheci quase instintivamente aquela sombria silhueta; e quando, dois minutos depois, toda a escola, incluindo as professoras, se levantou en masse, não me foi necessário erguer o olhar para saber quem era assim cumprimentado ao entrar. Longas passadas cruzaram a sala de aula, e ao lado da Srta. Temple, que se tinha levantado, ergueu-se a mesma pilastra negra que me armara aquela carranca tão sinistra no tapete diante da lareira de Gateshead. Agora eu olhava de lado aquela peça arquitetônica. Sim, estava certa, era o Sr. Brocklehurst, abotoado até em cima num sobretudo e parecendo mais comprido, mais estreito e mais rígido que nunca. Eu tinha minha própria razão para ficar consternada com aquela aparição; lembrava-me muito bem das pérfidas insinuações feitas pela Sra. Reed sobre minha natureza etc.; e da promessa feita pelo Sr. Brocklehurst de informar à Srta. Temple e a todas as professoras sobre minha natureza perversa. O tempo todo eu estivera temendo o cumprimento dessa promessa — esperando dia a dia o “Homem que vem”, cujas informações sobre minha Jane Eyre

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vida passada e cuja conversa iriam qualificar-me para sempre como uma menina má; agora ali estava ele. De pé, ao lado da Sita. Temple, falava baixo no ouvido dela; eu não tinha dúvidas de que fazia revelações sobre minha vilania; e observava os olhos dela com dolorosa ansiedade, esperando a cada momento ver suas negras órbitas lançarem-me um olhar de repugnância e desprezo. E escutava também; como estava por acaso sentada bem à frente da sala, captei a maior parte do que ele dizia: isso aliviou minha apreensão imediata. — Suponho, Srta. Temple, que a linha que comprei em Lowton dará: pareceu-me que seria da qualidade certa para as camisolas de chita, e selecionei as agulhas adequadas. Pode dizer à Srta. Miller que esqueci de fazer um memorando sobre as agulhas de cerzir, mas lhe enviarão alguns pacotes na próxima semana; e ela não deve, de modo algum, dar mais de uma a cada aluna de cada vez... se elas tiverem mais, podem tornar-se descuidadas e perdêlas. E oh, madame! Eu gostaria de que as meias de lã fossem mais cuidadas também. Quando estive aqui da última vez, fui à horta e examinei as roupas secando na corda; havia muitas meias em péssimo estado; pelo tamanho dos buracos nelas, fiquei certo de que não tinham sido bem remendadas de tempos em tempos. Fez uma pausa. — Suas instruções serão seguidas, senhor — disse a Srta. Temple. — E, madame — ele continuou — a lavadeira me disse que algumas das meninas têm dois cachecóis limpos por semana: isso é demais; as regras limitam-se a um. — Creio que posso explicar essa circunstância, senhor. Agnes e Catherine Johnstone foram convidadas a tomar chá com algumas amigas em Lowton na última quinta-feira, e eu lhes dei permissão para usar cachecóis limpos nessa ocasião. O Sr. Brocklehurst assentiu com a cabeça. — Bem, por esta vez passa; mas, por favor, não deixe que a circunstância ocorra com muita freqüência. E há outra coisa que me surpreendeu: vi nos livros de contas com a governanta que uma merenda, de pão e queijo, foi servida às meninas durante a 76

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quinzena passada. Como é isso? Olhei os regulamentos, e não vi menção alguma a uma refeição chamada merenda. Quem introduziu essa inovação, e com que autoridade? — Devo me responsabilizar pela circunstância, senhor — respondeu a Srta. Temple. — O desjejum foi tão mal preparado, que as alunas não puderam comê-lo; e não tive coragem de deixálas em jejum até a hora do jantar. — Madame, permita-me um instante. A senhora está ciente de que meu plano, ao educar essas meninas, não é acostumá-las a hábitos de luxo e indulgência, mas torná-las duras, pacientes, resignadas. Se ocorrer alguma decepção acidental do apetite, como uma refeição estragada, tempere a menos ou a mais num prato, o incidente não deve ser neutralizado substituindo-se com algo mais delicado o conforto perdido, mimando-se assim o corpo e removendo o objetivo desta instituição; deve ser aproveitado para edificação espiritual das alunas, encorajando-as a demonstrar fortitude sob a privação temporária. Não seria fora de propósito nessas ocasiões um breve discurso, no qual um instrutor judicioso aproveitaria a oportunidade para referir-se aos sofrimentos dos primitivos cristãos; aos tormentos dos mártires; às exortações de Nosso Bendito Senhor, chamando Seus discípulos a tomarem a cruz e segui-Lo; às Suas advertências de que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus; às Suas divinas consolações: ‘”Se sofrerdes fome e sede em Meu nome, sereis felizes”. Oh, Madame, quando a senhora põe pão e queijo, em vez de mingau de aveia queimado, nas bocas dessas crianças, pode na verdade alimentar seus corpos vis, mas esquece como deixa à míngua suas almas imortais! O Sr. Brocklehurst fez nova pausa — talvez vencido por seus sentimentos. A Srta. Temple baixara os olhos quando ele começara a falar; mas agora olhava em frente, e seu rosto, naturalmente pálido como mármore, pareceu assumir também a frieza e fixidez desse material; em especial a boca, fechada como se fosse preciso o cinzel de um escultor para abri-la, e a testa, que assumira pouco a pouco uma petrificada severidade. Enquanto isso, o Sr. Brocklehurst, parado diante da lareira Jane Eyre

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com as mãos às costas, examinava majestosamente toda a escola. De repente, seus olhos piscaram, como se houvessem encontrado alguma coisa que deslumbrara ou chocara suas pupilas; voltandose, ele disse em tom mais rápido que o que usara até então: — Srta. Temple, Srta. Temple, que... que é aquela menina de cabelos cacheados? Cabelo ruivo, madame, cacheado... todo cacheado? — E, estendendo sua bengala, indicava o pavoroso objeto, a mão tremendo enquanto o fazia. — É Julia Severn — respondeu a Srta. Temple, muito calmamente. — Julia Severn, madame! E por que tem ela, ou qualquer outra, cabelos cacheados? Por que, em desafio a todo preceito e princípio desta casa, ela segue o mundo tão abertamente... aqui, num estabelecimento evangélico, beneficente.... a ponto de usar o cabelo numa massa de cachos? — O cabelo de Julia cacheia naturalmente — respondeu a Srta. Temple, ainda mais calma. — Naturalmente! Sim, mas não devemos submeter-nos à natureza. Desejo que essas meninas sejam filhas da Graça; e por que essa abundância? Eu já disse repetidas vezes que desejo que os cabelos sejam arrumados lisos, modesta, comumente. Srta. Temple, o cabelo daquela menina deve ser cortado inteiramente; mandarei um barbeiro amanhã; e vejo outras meninas que têm demais dessa excrescência... aquela menina grande, diga-lhe para dar uma volta. Diga a toda a primeira classe para se levantar e virar-se para a parede. A Srta. Temple passou o lenço pelos lábios, como para desfazer o involuntário sorriso que os franzia; mas deu a ordem, e quando a primeira classe entendeu o que se desejava dela, todas obedeceram. Reclinando-me um pouco em meu banco, eu podia ver as expressões e caretas com que elas comentavam essa manobra: era uma pena que o Sr. Brocklehurst não pudesse vêlas também; talvez houvesse sentido que, independente do que fizesse com o exterior da xícara e do pires, o interior estava muito mais além de sua interferência do que ele imaginava. Ele examinou o reverso daquelas medalhas vivas por uns cinco 78

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minutos, e depois pronunciou a sentença. Suas palavras soaram como o sino da condenação: — Todos esses coques devem ser cortados. A Srta. Temple pareceu reagir. — Madame — ele prosseguiu — eu tenho um Senhor a servir, cujo reinado não é deste mundo; minha missão é mortificar nessas meninas as luxúrias da carne, ensinar-lhes a vestirem-se com vergonha e sobriedade, não com cabelos trançados e vestes caras; e cada uma das jovens diante de nós tem uma mecha de cabelos feita em trancas, que a própria vaidade poderia ter trançado; essas, repito, devem ser cortadas; pense no tempo desperdiçado, no... O Sr. Brocklehurst foi interrompido neste ponto; três outras visitantes entravam agora na sala. Deviam ter vindo um pouco antes, para ouvir o sermão dele sobre vestidos, pois estavam esplendidamente trajadas de veludo, seda e peles. As duas mais jovens do trio (belas garotas de dezesseis e dezessete anos) usavam chapéus de pele de castor cinza, então na moda, enfeitados com plumas de avestruz, e de baixo da borda desses graciosos adereços de cabeça caía uma profusão de trancas louras, elaboradamente cacheadas; a senhora mais velha estava envolta num caro xale de veludo, debruado de arminho, e usava uma falsa franja de cachos franceses. Essas senhoras foram deferentemente recebidas pela Sita. Temple como a Sra. e as Srtas. Brocklehurst, e conduzidas a assentos de honra na frente da sala. Parece que tinham vindo na carruagem com seu reverendo parente, e haviam estado a realizar um escrupuloso exame dos quartos lá de cima, enquanto ele se entendia com a governanta, interrogava a lavadeira e instruía a superintendente. Elas agora faziam várias observações e reprovações à Srta. Temple, que era encarregada de cuidar da roupa branca e da inspeção dos dormitórios; mas não tive tempo de ouvir o que diziam, pois outros assuntos exigiam e prendiam minha atenção. Até então, recolhendo a conversa do Sr. Brocklehurst e da Srta. Temple, eu não deixara, ao mesmo tempo, de tomar precauções Jane Eyre

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para proteger minha segurança pessoal, o que achava que podia fazer se pudesse fugir à observação. Para isso, sentara-se bem atrás da classe, e enquanto parecia ocupada com minha soma, mantivera a lousa erguida de modo a esconder-me o rosto. Podia ter escapado de chamar a atenção, se a traiçoeira lousa não me houvesse deslizado de algum modo das mãos e, caindo com um grande barulho, atraído diretamente todos os olhares para mim; eu sabia que estava tudo acabado agora, e, ao curvar-me para apanhar os dois pedaços da lousa, reuni minhas forças para enfrentar o pior. E foi o que aconteceu. — Uma menina descuidada! — disse o Sr. Brocklehurst, e imediatamente depois: — É a nova aluna, percebo. — E, antes que eu pudesse respirar: — Não devo esquecer que tenho uma palavra a dizer a respeito dela. — Depois, em voz alta... como me pareceu alta! — Que a menina que quebrou a lousa se adiante! Por minha própria vontade, eu não poderia ter-me mexido, estava paralisada; mas as duas meninas grandes que se sentavam a meus lados me puseram de pé e me empurraram para o terrível juiz, e depois a Srta. Temple me ajudou delicadamente a chegar aos pés dele; captei seu conselho sussurrado: — Não tenha medo, Jane, eu vi que foi um acidente; você não será punida. O bondoso sussurro foi direto ao meu coração, como uma adaga. “Mais um minuto, e ela me desprezará como uma hipócrita”, pensei; e uma onda de fúria contra Reed, Brocklehurst e Cia. tomou minhas pulsações a essa convicção. Eu não era Helen Burns. — Apanhem aquele banco — disse o Sr. Brocklehurst, indicando um banco muito alto que uma monitora acaba de levantar; trouxeram-no. — Ponham a menina em cima dele. E fui posta ali — por quem, não sei. Não estava em condições de observar minúcias. Só sabia que me haviam guindado à altura do nariz do Sr. Brocklehurst, que ele estava a uma jarda de mim, e que um borrão de peliças de seda laranja-vivo e púrpura, e uma nuvem de plumagens prateadas, se estendiam e ondeavam abaixo. O Sr. Brocklehurst pigarreou. 80

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— Senhoras — disse, voltando-se para sua família. — Srta. Temple, professores e meninas, vocês todas vêem esta menina? É claro que viam; pois eu sentia seus olhares dirigidos como lentes de queimar contra minha pele crestada. — Vêem que ainda é nova; observem que possui a forma comum da infância; Deus graciosamente lhe deu a forma que deu a todos nós; nem uma só deformidade a assinala como um caráter acentuado. Quem pensaria que o Daninho já encontrou nela uma serva e uma agente? E no entanto, este, lamento dizer, é o caso. Uma pausa — na qual comecei a estudar a paralisia de meus nervos, e a sentir que o Rubicão já fora atravessado, e que o julgamento, que não mais podia ser evitado, devia ser firmemente sustentado. — Minhas queridas crianças — prosseguiu o clérigo de mármore negro com ardor — esta é uma ocasião triste, melancólica; pois é meu dever adverti-las de que esta menina, que poderia ser um dos cordeirinhos de Deus, é uma pequena réproba... não um membro do verdadeiro rebanho, mas evidentemente uma intrusa e estranha. Vocês devem manter-se em guarda contra ela; devem fugir ao seu exemplo... se necessário, evitar a sua companhia, excluí-la de suas diversões, e bani-la de suas conversas. Professoras, vocês devem vigiá-la; trazer de olhos seus movimentos, pesar bem suas palavras, examinar suas ações, punir seu corpo para salvar sua alma... se, na verdade, tal salvação for possível, pois (minha língua fraqueja quando digo isto) esta menina, esta criança, nativa de uma terra cristã, pior que muitos infieizinhos que dizem suas preces a Brahma e se ajoelham diante de Crixna... esta menina é... uma mentirosa! Houve então uma pausa de dez minutos, durante a qual eu — a essa altura em perfeito domínio de meus sentidos — observei todas as Brocklehurst pegarem seus lenços e levarem-nos aos olhos, enquanto a senhora mais velha oscilava para a frente e para trás, e as duas mais novas sussurravam: — Que coisa mais chocante! O Sr. Brocklehurst reiniciou. — Eu soube isso da benfeitora dela... da devota e caridosa Jane Eyre

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senhora que a adotou em sua condição de órfã, criou-a como sua própria filha, e cuja bondade, cuja generosidade, a infeliz menina pagou com uma ingratidão tão má, tão terrível, que finalmente sua excelente protetora foi obrigada a separá-la dos filhos, temendo que seu perverso exemplo contaminasse a pureza deles. Ela a enviou aqui para ser curada, como os judeus de antanho mandavam seus doentes para o revolto poço de Bethesda; e, professoras, superintendente, peço-lhes que não deixem as águas se estagnarem em torno dela. Com esta sublime conclusão, o Sr. Brocklehurst ajeitou o botão de cima do sobretudo, murmurou algo para a família, que se levantou, fez uma curvatura para a Srta. Temple, e depois toda aquela gente importante saiu em grande estilo da sala. Voltandose da porta, meu juiz disse: — Deixem-na ficar meia hora mais de pé nesse banco, e que ninguém fale com ela pelo resto do dia. Lá estava eu, assim, trepada lá no alto; eu, que dissera que não poderia suportar a vergonha de ficar em meus pés naturais no meio da sala, estava agora exposta à visão geral num pedestal de infâmia. Quais eram minhas sensações, nenhuma linguagem pode descrever; mas, no momento em que se manifestavam, sufocando-me a respiração e constrangendo-me a garganta, uma menina se adiantou e passou por mim; ao passar, ergueu os olhos. Que estranha luz os inspirava! Que extraordinária sensação aquele raio me enviou! Como essa nova sensação me sustentou! Era como se um mártir, um herói, houvesse passado por um escravo ou vítima, e comunicado força ao passar. Dominei minha crescente histeria, ergui a cabeça e assumi uma posição firme sobre o banco. Helen Burns fez algumas perguntas sobre seu trabalho à Srta. Smith, foi repreendida pela trivialidade da consulta, voltou ao seu lugar e sorriu-me ao passar de novo. Que sorriso! Lembro-o agora, e sei que era a emanação de um belo intelecto, da verdadeira coragem; iluminou seus traços marcados, seu rosto magro, seus fundos olhos cinza, como o reflexo da expressão de um anjo! E no entanto, naquele momento Helen Burns usava no braço o “emblema do desmazelo”; menos de uma hora atrás eu a 82

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ouvira ser condenada pela Srta. Scatcherd a uma refeição de pão e água na manhã seguinte, porque tinha borrado um exercício ao copiá-lo. Tal é a imperfeita natureza do homem! Tais manchas estão lá, no disco do mais claro planeta; e olhos como os da Srta. Scatcherd só podem ver esses minúsculos defeitos, e são cegos ao brilho pleno da esfera.

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CAPÍTULO 8

A

ntes de acabar a meia hora, bateram cinco horas; a escola foi liberada, e todas se dirigiram ao refeitório para o chá. Aventurei-me então a descer; estava muito escuro; retirei-me para um canto e sentei-me no chão. A magia que me sustentara até então começou a dissolver-se; veio então a reação, e logo, tão esmagadora foi a dor que se apoderou de mim, caí prostrada com o rosto no chão. Chorava agora: Helen Burns não estava ali; nada me amparava; entregue a mim mesma, abandoneime, e minhas lágrimas molharam o assoalho. Eu pretendera ser tão boa, e fazer tanta coisa em Lowood: fazer tantas amigas, e conquistar afeição. Já fizera visível progresso: naquela mesma manhã chegara ao alto de minha classe; a Srta. Miller me elogiara calorosamente; a Srta. Temple dera um sorriso de aprovação; prometera ensinar-me a desenhar, e deixar-me aprender francês, se eu continuasse me aperfeiçoando assim por mais dois meses: e também era bem acolhida por minhas colegas; tratada como uma igual pelas de minha idade, e não molestada por nenhuma; agora jazia ali novamente, esmagada e espezinhada; poderia algum dia reerguer-me de novo? “Nunca”, eu pensava; e desejava ardentemente morrer. Enquanto soluçava esse desejo em tons entrecortados, alguém se aproximou; estremeci — Helen Burns estava novamente junto a mim; os fogos que morriam mal a iluminavam subindo a sala comprida, vazia; trazia meu café com pão. — Vamos, coma alguma coisa — ela disse, mas eu os afastei de 84

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mim, sentindo como se uma gota ou uma migalha fossem sufocarme em minhas atuais condições. Helen me encarou provavelmente com surpresa: eu não podia agora conter minha agitação, embora tentasse com todas as forças; continuava a chorar alto. Ela se sentou no chão junto a mim, abraçou os joelhos e repousou a cabeça neles; e nessa atitude ficou, calada, como uma índia. Eu fui a primeira a falar: — Helen, por que você fica com uma menina que todos julgam ser uma mentirosa? — Todos, Jane? Ora, existem apenas oitenta pessoas que ouviram você ser chamada assim, e o mundo contém centenas de milhões. — Mas que tenho eu a ver com milhões! As oitenta que conheço me desprezam. — Jane, você está enganada: provavelmente ninguém na escola a despreza ou odeia; estou certa de que muitas têm pena de você. — Como podem ter pena de mim depois do que o Sr. Brocklehurst disse? — O Sr. Brocklehurst não é um deus; não é sequer um grande homem, admirado: é pouco querido aqui; nunca tomou medidas para se fazer querido. Se a tivesse tratado como uma favorita especial, você teria encontrado inimigas, declaradas ou encobertas, em toda a sua volta; do jeito como estão as coisas, a maioria lhe ofereceria simpatia, se ousasse. Professoras e alunas podem olhá-la com frieza por um dia ou dois, mas haverá sentimentos amistosos ocultos nos corações delas; e se você perseverar em fazer o bem, esses sentimentos não custarão a se manifestar, e mais evidentes devido à temporária supressão. Além disso, Jane... — Parou. — Sim, Helen? — eu disse, pondo minha mão na sua. Ela esfregou meus dedos delicadamente, para aquecê-los, e prosseguiu: — Se todo o mundo a odiasse, e a achasse má, mas sua consciência a aprovasse e a absolvesse de culpa, você não ficaria sem amigos. — Não; sei que pensaria bem de mim mesma; mas isso não Jane Eyre

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basta; se outros não me amam, eu preferiria morrer a viver... não posso suportar ser solitária e odiada, Helen. Olhe aqui; para conquistar alguma verdadeira afeição de você, da Srta. Temple ou de qualquer outra pessoa a quem realmente amo, eu me submeteria de boa vontade a ter os ossos de meu braço quebrados, ou a deixar que um touro me atingisse, ou a ficar atrás de um cavalo escoiceador e deixá-lo bater com os cascos em meu peito... — Cale-se, Jane! Você pensa muito no amor dos seres humanos; é impulsiva demais, veemente demais; a Mão soberana que criou seu corpo e pôs vida nele lhe proporcionou outros recursos além de seu débil eu, ou de criaturas débeis como você. Além desta terra, e da raça humana, há um mundo invisível e um reino dos espíritos; esse mundo está à nossa volta, pois está em toda parte; e esses espíritos nos observam, pois receberam ordens para vigiarnos; e mesmo que estivéssemos morrendo de dor e vergonha, que o desprezo nos cercasse de todos os lados, e o ódio nos esmagasse, os anjos vêem nossas torturas, reconhecem nossa inocência (se somos inocentes, como sei que você é dessa acusação que o Sr. Brocklehurst repetiu débil e pomposamente, em segunda mão, da Sra. Reed, pois leio uma natureza sincera em seus olhos ardentes e em sua fronte límpida), e Deus espera apenas uma separação do espírito da carne para coroar-nos com uma recompensa plena. Por que, então, deveríamos nós algum dia afundar arrasados pela angústia, quando a vida acaba tão cedo, e a morte é uma entrada tão certa para a felicidade... a glória? Fiquei calada: Helen me acalmara; mas na tranqüilidade que ela transmitia havia um veio de inexprimível tristeza. Senti a impressão de desventura enquanto ela falava, mas não podia dizer de onde vinha; e quando, tendo acabado de falar, ela começou a respirar um pouco depressa, e tossiu, esqueci momentaneamente minhas próprias mágoas para ceder a uma vaga preocupação por ela. Descansando a cabeça no ombro de Helen, pus meus braços em volta de sua cintura; ela me puxou para si, e repousamos em silêncio. Não estávamos assim sentadas havia muito tempo, quando outra pessoa apareceu. Algumas nuvens escuras, varridas 86

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do céu por um vento cada vez mais forte, desnudaram a lua; e sua luz, jorrando por uma janela próxima, batia em cheio sobre nós e sobre a figura que se aproximava, e que logo reconhecemos como a Srta. Temple. — Vim expressamente para buscá-la, Jane Eyre — ela disse. — Quero-a em meu quarto, e como Helen Burns está com você, pode vir também. Fomos: seguindo a orientação da superintendente, tivemos de atravessar alguns intricados corredores e subir uma escada, antes de chegar aos aposentos dela, que continha um bom fogo e parecia animado. A Srta. Temple disse a Helen Burns que se sentasse numa poltrona baixa a um lado da lareira e, sentando-se ela própria numa outra, chamou-me para seu lado. — Já acabou? — perguntou, baixando o olhar para o meu rosto. — Já chorou o bastante para expulsar sua dor? — Receio que jamais consiga isso. — Por quê? — Porque fui injustamente acusada; e a senhora, madame, e todas as outras agora me julgarão má. — Nós a julgaremos o que você provar que é, minha criança. Continue a agir como uma boa menina, e nos satisfará. — Satisfarei, Srta. Temple? — Satisfará — ela disse, passando o braço em torno de mim. — E agora me diga quem é a senhora a quem o Sr. Brocklehurst chamou de sua benfeitora. — A Sra. Reed, a esposa de meu tio. Meu tio morreu, e me deixou aos cuidados dela. — Então ela não a adotou por sua própria vontade? — Não, madame; ela sentiu muito ter de fazê-lo, mas meu tio, como muitas vezes ouvi as criadas dizerem, fez com que ela prometesse, antes de ele morrer, que sempre cuidaria de mim. — Bem, agora, Jane, você sabe, ou pelo menos eu vou lhe dizer, que quando um criminoso é acusado, sempre tem o direito de falar em sua própria defesa. Você pode ter sido acusada de falsidade; defenda-se para mim o melhor que puder. Diga o que quer que sua memória lhe sugira como verdade; mas não acrescente nada e não exagere nada. Jane Eyre

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Eu decidi, no fundo de meu coração, que seria moderadíssima — corretíssima; e, tendo refletido alguns minutos, a fim de arrumar coerentemente o que tinha a dizer, contei-lhe toda a história de minha triste infância. Exaurida pela emoção, minha linguagem foi muito mais atenuada do que era geralmente quando desenvolvia esse triste tema; e tendo em mente as advertências de Helen para não me entregar ao ressentimento, infundi na narrativa muito menos rancor e amargura do que de hábito. Assim contida e simplificada, ela soou mais digna de crédito; eu sentia, enquanto prosseguia, que a Srta. Temple acreditava plenamente em mim. Durante a narrativa eu mencionara o fato de o Sr. Lloyd ter vindo ver-me após o ataque, pois jamais esqueci o episódio terrível, para mim, do quarto vermelho; ao contar os detalhes, minha excitação certamente excedeu os limites, em certa medida; pois nada podia suavizar em minha lembrança o espasmo de agonia que se apoderou de meu coração quando a Sra. Reed desdenhou minha desesperada súplica de perdão, e me trancou uma segunda vez na câmara escura e assombrada. Acabei: a Srta. Temple encarou-me alguns minutos me silêncio; depois, disse: — Conheço um pouco o Sr. Lloyd; vou escrever a ele; se a resposta dele concordar com sua declaração, você será publicamente absolvida de toda acusação; para mim, Jane, você já está absolvida agora. Beijou-me, e, ainda mantendo-me a seu lado (onde eu estava muito contente de ficar, pois extraía um prazer infantil da contemplação do rosto dela, de seu vestido, seus um ou dois enfeites, sua testa branca, seus cachos brilhantes e seu reluzentes olhos negros), dirigiu-se a Helen Burns: — Como está esta noite, Helen? Tossiu muito hoje? — Não muito, creio, madame. — E a dor no peito? — Está um pouco melhor. A Srta. Temple se levantou, tomou a mão dela e examinoulhe o pulso; depois voltou à sua poltrona; ao tornar a sentarse, ouvi-a suspirar baixinho. Ficou pensativa alguns minutos, e 88

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depois, levantando-se, disse animadamente: — Mas vocês duas são visitas esta noite; tenho de tratá-las como tais. — Tocou a sineta. — Barbara — disse à criada que atendeu — ainda não tomei o meu chá; traga a bandeja, e ponha xícaras para essas duas senhoritas. E logo uma bandeja foi trazida. Como pareciam belas, a meus olhos, as xícaras de louça e a reluzente chaleira, colocadas na mesinha redonda perto do fogo! Como era cheiroso o vapor da infusão, e a fragrância de torrada, da qual, no entanto, eu, para minha consternação (pois começava a ficar faminta), discerni apenas um pedaço muito pequeno: a Srta. Temple teve o mesmo discernimento. — Barbara — disse — não pode trazer um pouco mais de pão e manteiga? Não há o bastante para três. Barbara saiu. Voltou logo. — Madame, a Sra. Harlen diz que mandou a quantidade de sempre. A Sra. Harden, diga-se de passagem, era a governanta, uma mulher ao gosto do Sr. Brocklehurst, composta de partes iguais de barbatana de baleia e ferro. — Oh, muito bem — respondeu a Srta. Temple — creio que temos de fazer dar, Barbara. — E, quando a moça se retirou, ela acrescentou, sorridente: — Felizmente, está em meu poder sanar deficiências desta vez. Tendo-nos convidado, a mim e a Helen, para aproximar-nos da mesa, e colocando diante de cada uma de nós uma xícara de chá com um delicioso mas minúsculo pedaço de torrada, ela se levantou, abriu uma gaveta e, tirando dali um embrulho de papel, revelou afinal a nossos olhos um bolo de cominho de bom tamanho. — Eu pretendia dar a cada uma de vocês um pedaço disso para levarem consigo — disse. — Mas, como há tão pouca torrada, devem comê-lo agora. — E passou a cortar fatias com mão generosa. Banqueteamo-nos naquela noite como com néctar e ambrosia; Jane Eyre

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e o menor prazer da diversão não foi, certamente, o sorriso de satisfação com que nossa anfitriã nos olhava, enquanto satisfazíamos nossos famintos apetites com a delicada refeição que ela tão liberadamente fornecia. Acabado o chá e retirada a bandeja, ela nos chamou novamente para junto do fogo; sentamonos uma a cada lado dela, e seguiu-se uma conversa entre ela e Helen, que era de fato um privilégio ouvir. A Srta. Temple tinha sempre algo de serenidade em seu aspecto, de grandeza em sua expressão, de refinada propriedade em sua linguagem, que eliminava desvios para o ardor, a excitação, a avidez, algo que refinava o prazer daqueles que a olhavam e ouviam, através de uma controlada sensação de temor; e isso era o que eu sentia agora, mas, quanto a Helen Burns, eu estava maravilhada. A restauradora refeição, o fogo brilhante, a presença e bondade de sua amada instrutora, ou, talvez, mais que isso tudo, algo em sua própria mente única, despertara seus poderes dentro dela. Eles despertaram, se animaram; primeiro, fulgiram na cor viva de suas faces, que até então eu só vira pálidas e exangues; depois, brilharam no líquido lustro de seus olhos, que haviam repentinamente adquirido uma beleza mais singular que a da Srta. Temple — uma beleza que não era nem de belas cores, nem de cílios longos, nem de sobrancelhas desenhadas, mas de significado, de movimento, de radiação. Também a alma se mostrava nos lábios, e a linguagem fluía, de qual fonte não sei dizer; terá uma menina de quatorze anos um coração grande o bastante, vigoroso o bastante para abrigar o volume da pura, plena, ardente eloqüência? Tal era a característica do discurso de Helen, naquela noite para mim memorável; seu espírito parecia apressar-se a viver, dentro de um período muito breve, o que muitos vivem durante uma prolongada existência. Elas conversavam sobre coisas que eu jamais ouvira; de nações e tempos passados; de países distantes; de segredos da natureza descobertos ou imaginados; falaram de livros, quantos tinham lido! Que reservas de conhecimento possuíam! Depois, pareciam tão familiarizadas com nomes e autores franceses: mas meu pasmo 90

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atingiu o clímax quando a Srta. Temple perguntou a Helen se ela às vezes retirava um momento para lembrar o latim que seu pai lhe ensinara, e, pegando um livro de uma estante, mandou-a ler e comentar uma página de Virgílio; e Helen obedeceu, meu órgão de veneração expandindo-se a cada verso. Ela mal terminara quando a sineta anunciou a hora de dormir: não se podia admitir nenhum atraso; a Srta. Temple abraçou-nos a ambas, dizendo, ao apertar-nos contra o coração: — Deus as abençoe, minhas filhas! A Helen, ela abraçou um pouco mais que a mim; deixou-a ir-se com mais relutância. Foi a Helen que seus olhos acompanharam até a porta; foi por ela que exalou pela segunda vez um triste suspiro; por ela enxugou uma lágrima da face. Ao chegarmos ao dormitório, ouvimos a voz da Srta. Scatcherd: ela examinava gavetas, e acabava de puxar a de Helen Burns. Quando entramos, Helen foi saudada com uma severa reprimenda, ouvindo que no dia seguinte teria meia dúzia de artigos mal dobrados presos ao ombro. — Minhas coisas estavam realmente em vergonhosa desordem — murmurou Helen para mim, em voz baixa. — Eu pretendia arrumá-las, mas esqueci. Na manhã seguinte, a Srta. Scatcherd escreveu em letras grandes, num pedaço de papelão, a palavra “Desmazelada”, e amarrou-o como um filactério em torno da testa grande, suave, inteligente e de aparência benigna de Helen. Ela o usou até a noite, paciente, sem ressentimento, encarando-o como um merecido castigo. No momento em que a Srta. Scatcherd se retirou, após as aulas da tarde, corri para Helen, arranquei-o e o joguei no fogo. A fúria de que ela era incapaz estivera ardendo-me na alma o dia todo, e lágrimas grossas e quentes haviam-me escaldado continuamente as faces; pois o espetáculo de sua triste resignação causava-me uma dor insuportável no coração. Cerca de uma semana depois dos incidentes acima narrados, a Srta. Temple, que tinha escrito ao Sr. Lloyd, recebeu sua resposta; parecia que o que ele dizia corroborava minha história. A Srta. Temple, tendo reunido toda a escola, anunciou que se fizera uma Jane Eyre

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investigação sobre as acusações assacadas contra Jane Eyre, e que ela tinha o máximo prazer de declará-la completamente livre de todas as imputações. As professoras então me apertaram a mão e me beijaram, e um murmúrio de prazer correu pelas fileiras de minhas colegas. Assim aliviada de um penoso fardo, a partir dessa hora dediquei-me ao trabalho com renovada força, decidida a abrir caminho através de todas as dificuldades. Trabalhei duro, e o sucesso foi proporcional aos esforços; minha memória, não naturalmente tenaz, melhorou com a prática; o exercício aguçou minha inteligência. Em poucas semanas, fui promovida a uma classe superior; em menos de dois meses, permitiram-me começar o francês e o desenho. Aprendi os dois primeiros tempos do verbo Être, e desenhei minha primeira casa (cujas paredes, a propósito, batiam em inclinação as da torre inclinada de Pisa) no mesmo dia. Naquela noite, ao ir para a cama, esqueci de preparar em minha imaginação a ceia de batatas assadas quentes, ou pão branco e leite novo, com que costumava entreter meus anseios interiores. Banqueteei-me, em vez disso, com o espetáculo de desenhos ideais, que via na escuridão — tudo obra de minhas mãos; casas e árvores livremente riscadas, rochas e ruínas pitorescas, grupos de animais de criação à maneira de Cuyp, suaves pinturas de borboletas pairando sobre botões de rosas, de pássaros bicando cerejas maduras, ninhos de carriças envolvendo ovos que pareciam pérolas, e feitos de tenros galhos de hera. Examinei também, em pensamento, a possibilidade de um dia ser capaz de traduzir fluentemente um certo livro de histórias francês que Madame Pierrot me mostrara naquele dia; mas não consegui resolver satisfatoriamente esse problema antes de adormecer. Bem disse Salomão: “É melhor um jantar de ervas quando há amor, do que um boi no estábulo com ódio.” Eu não teria trocado então Lowood, com todas as suas privações, por Gateshead e seu luxo diário.

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CAPÍTULO 9

M

as as privações, ou antes, os apuros de Lowood, diminuíram. A primavera chegava — na verdade, já tinha chegado; as geadas do inverno haviam cessado: as neves tinham-se derretido, e os ventos cortantes amainado. Meus pobres pés, que o frio de janeiro esfolara e fizera inchar até deixar-me manca, começaram a sarar e desinchar com as brisas mais suaves de abril; as noites e manhãs não mais nos congelavam até o sangue nas veias, com aquela temperatura canadense; podíamos agüentar a hora de recreio no jardim, que às vezes, num dia de sol, começava mesmo a tornar-se agradável e alegre; e naqueles canteiros pardos brotava um verdor que, revivendo a cada dia, sugeria a idéia de que a esperança os percorria à noite, deixando a cada manhã traços mais vividos de seus passos. Entre as folhas, brotavam flores: galantos, açafrões, aurículas roxas e amores perfeitos de olhos dourados. Nas tardes de quinta-feira (quando tínhamos um meio feriado), fazíamos agora passeios, e descobríamos flores ainda mais lindas abrindose à beira do caminho, sob as sebes. Descobri também que, além dos altos muros protegidos por pontas de nosso jardim, nos esperava um grande prazer, um deleite só limitado pelo horizonte, o panorama de nobres cumes rodeando uma grande concha entre os montes, exuberante de verdura e sombras; e um riacho luminoso, cheio de pedras escuras e cristas faiscantes. Como esse cenário parecera diferente quando eu o vira sob o férreo céu do inverno, endurecido pela Jane Eyre

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geada, velado pela neve! Quando névoas frias como a morte vagavam ao impulso dos ventos leste por aqueles cumes roxos, e rolavam pelas encostas abaixo até fundirem-se com a neblina congelada do arroio! O próprio arroio era agora uma torrente, turva e incontível; rasgava o bosque e enchia o ar de delirante sonoridade, sendo muitas vezes engrossado pela chuva forte ou o granizo; e quanto à floresta em suas margens, esta mostrava apenas fileiras de esqueletos. Abril avançou para maio — e foi um maio luminoso e sereno; dias de céu azul, sol plácido e suaves ventos oeste ou sul o mês todo. E agora a vegetação amadurecia com vigor; Lowood soltava as trancas; tornou-se toda verde, toda flores; os grandes esqueletos de seus olmos, freixos e carvalhos voltaram à sua vida majestosa; o mato brotou abundante nos recessos; inúmeras variedades de musgo encheram os vãos; e a riqueza das prímulas silvestres fazia um estranho espetáculo à luz do sol no chão; eu via o seu ouro pálido reluzir em zonas de sombra como respingos do mais doce esplendor. De tudo isso eu desfrutava freqüente e plenamente, livre, não observada e quase só; pois essa desusada liberdade e prazer tinham uma causa, para a qual se torna agora meu dever chamar a atenção. Não descrevi um lugar agradável para uma casa, quando falei do local como cercado de montes e bosques, e erguendose à margem de um regato? Certamente muito agradável, mas quanto à salubridade, é outra questão. Aquele pequeno e estreito vale na floresta, onde ficava Lowood, era um foco de nevoeiro e da pestilência por ele gerada; o que, avançando com o avanço da primavera, invadiu o Asilo de Órfãs, soprando o tifo pela superlotada sala de aula e o dormitório, e, antes da chegada de maio, transformando o seminário num hospital. A inanição e os resfriados malcuidados haviam predisposto a maioria das alunas à infecção; quarenta e cinco das oitenta meninas caíram doentes de uma vez. As aulas foram interrompidas, as regras relaxadas. Deu-se às poucas que continuaram sãs uma liberdade quase ilimitada; porque o médico chamado insistia na 94

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necessidade de exercício freqüente para mantê-las saudáveis; e mesmo que assim não fosse, ninguém tinha tempo para vigiálas ou reprimi-las. Toda a atenção da Srta. Temple era absorvida pelas pacientes; ela vivia na enfermaria, jamais deixando-a, a não ser para conseguir umas poucas horas de repouso à noite. As professoras estavam inteiramente ocupadas preparando as malas e fazendo outros preparativos necessários à partida das meninas afortunadas o bastante para terem amigos e parentes capazes e dispostos a retirá-las do local de contágio. Muitas, já atingidas, iam para casa apenas para morrer; algumas morreram na escola, e foram enterradas discreta e rapidamente, pois a natureza da doença proibia demoras. Enquanto a doença se tornava assim uma habitante de Lowood, e a morte sua visitante freqüente; enquanto havia tristeza e medo entre suas paredes; enquanto seus quartos e corredores rescendiam com odores de hospital, a droga e a pílula tentando inutilmente vencer os eflúvios da mortalidade, aquele maio luminoso brilhava sem nuvens sobre as íngremes montanhas e a soberba mata lá fora. Os jardins, também, refulgiam de flores: malvas rosas haviam brotado das grandes árvores, os lírios se abriam, tulipas e rosas floresciam; as bordas dos pequenos canteiros alegravam-se com róseos cravos-de-paris e margaridas rubras; as rosas amarelas desprendiam pela manhã e à noite seu odor de especiaria e maçãs; e esses fragrantes tesouros eram todos inúteis para a maioria das internas de Lowood, a não ser para fornecer de vez em quando um punhado de ervas e flores a serem postas num caixão. Mas eu, e as outras que continuavam sãs, desfrutávamos plenamente das belezas do cenário e da estação: deixavam-nos vaguear pela mata como ciganas, da manhã à noite; fazíamos o que queríamos, íamos aonde gostávamos, e também vivíamos melhor. O Sr. Brocklehurst e sua família jamais se aproximavam de Lowood agora, os assuntos da casa não eram examinados; a rabugenta governanta se fora, expulsa pelo temor à infecção; sua sucessora, que tinha sido a matrona do Dispensário de Lowton, não acostumada aos usos da nova morada, servia com relativa liberalidade. Além disso, havia menos bocas a alimentar: as Jane Eyre

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doentes só podiam comer pouco; nossas tigelas de desjejum eram mais cheias; quando não havia tempo de preparar um jantar regular, o’ que acontecia muitas vezes, ela nos dava grandes pedaços de torta fria, ou uma grossa fatia de pão e queijo, e isso nós levávamos para a mata, onde cada uma escolhia o local de que gostava mais e jantava suntuosamente. Meu local favorito era uma pedra lisa e larga, que se elevava branca e seca no meio do regato, e à qual só se podia chegar vadeando a água; um feito que eu realizava descalça. A pedra era larga apenas o suficiente para acomodar confortavelmente outra menina e eu, naquela época a companheira que eu escolhera — uma certa Mary Ann Wilson, personagem astuta e observadora, cuja companhia me dava prazer, em parte porque ela era espirituosa e original, e em parte porque tinha uns modos que me punham à vontade. Alguns anos mais velha que eu, sabia mais sobre o mundo e podia dizer-me muitas coisas que eu gostava de ouvir; com ela, minha curiosidade encontrava satisfação; às minhas faltas, também, ela dava muita indulgência, jamais impondo freio ou rédea a qualquer coisa que eu dissesse. Tinha um jeito para contar histórias, e eu para a análise; ela gostava de informar, e eu de questionar; assim nos dávamos muito bem, extraindo grande prazer, se não grande aperfeiçoamento, de nosso mútuo intercurso. E onde, enquanto isso, estava Helen Burns? Por que eu não passava aqueles doces dias de liberdade com ela? Tinha-a esquecido? Ou seria tão imprestável a ponto de ter-me cansado de sua pura companhia? Sem dúvida a Mary Ann Wilson que mencionei era inferior à minha primeira amiga, só podia contar-me histórias divertidas, e retribuir algum mexerico picante e mordaz a que eu me entregasse; ao passo que, se falei a verdade sobre Helen, ela era capaz de dar àqueles que desfrutavam do privilégio de sua conversa um gosto de coisas muito mais elevadas. É verdade, leitor, e eu sabia e sentia isso; e embora seja um ser com defeitos, com muitas falhas e poucos pontos redentores, nunca me cansei de Helen Burns, e nunca deixei de alimentar por ela um sentimento de ligação mais forte, terno e respeitoso do 96

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que qualquer um que já me animou o coração. E como poderia ser de outra forma, quando Helen, em todos os momentos e circunstâncias, me demonstrara uma tranqüila e fiel amizade, jamais azedada por nenhum mau humor, jamais perturbada por nenhuma irritação? Mas Helen estava doente agora, havia algumas semanas que fora removida de minha vista para não sei que quarto lá em cima. Disseram-me que não estava na parte hospitalar da casa com as pacientes febris, pois seu mal era a tísica, não o tifo; e por tísica eu, em minha ignorância, entendia alguma coisa branda, que o tempo e os cuidados certamente aliviariam. Confirmou-me essa idéia o fato de ela uma ou duas vezes ter descido, em tardes de sol muito quentes, e ser levada pela Srta. Temple para o jardim: mas, nessas ocasiões, não me deixavam ir falar com ela; apenas a via da janela da sala de aula, e mesmo assim não muito claramente, pois ela estava sempre muito envolta em abrigos, e sentava-se longe, sob a varanda. Uma noite, no início de junho, eu ficara até muito tarde com Mary Ann na mata; como sempre, havíamo-nos separado das outras, afastando-nos muito, tanto, que perdemos o caminho e tivemos de perguntar por ele numa cabana solitária, onde moravam um homem e uma mulher, que cuidavam de uma vara de porcos meio selvagens, alimentados de bolotas de carvalho na mata. Quando voltamos, a lua já tinha nascido; um pônei, que sabíamos ser do médico, estava parado na porta do jardim. Mary Ann observou que achava que alguém devia estar muito doente, uma vez que tinham chamado o Sr. Bates àquela hora da noite. Ela entrou em casa; eu fiquei para trás alguns minutos, a fim de plantar em meu jardim um punhado de raízes que cavara na floresta, e que temia viessem a murchar se esperasse até a manhã seguinte. Feito isso, demorei-me ainda um pouco; as flores tinham um perfume tão doce quando o sereno começava a cair; era uma noite tão agradável, tão serena, tão cálida; o ocidente ainda fulgurante prometia tão lindamente mais um belo dia no dia seguinte; a lua elevava-se com tal majestade no grave oriente! Eu observava essas coisas e as desfrutava como só uma criança sabe desfrutar, quando me entrou na mente, como nunca entrara Jane Eyre

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antes: “Como é triste estar agora deitada num leito de doente, e em perigo de morte! Este mundo é agradável... seria terrível ser chamada dele, e ter de ir, quem sabe para aonde?” E então minha mente fez seu primeiro esforço sério para compreender o que se infundira nela sobre céu e inferno, e pela primeira vez recuou intrigada; e, pela primeira vez olhando para trás, para cada lado e em frente, viu em toda a volta um insondável fosso, sentiu o ponto único onde estava — o presente; todo o resto era nuvem informe e profundo vazio; e estremeceu à idéia de cambalear e mergulhar no meio do caos. Enquanto ponderava essa nova idéia, ouvi a porta da frente abrir-se; o Sr. Bates saiu, e com ele vinha uma enfermeira. Após tê-lo visto montar em seu cavalo e partir, ela estava para fechar a porta, quando corri até ela. — Como está Helen Burns? — Muito mal — foi a resposta. — Foi a ela que o Sr. Bates veio ver? — Foi. — E que é que ele diz sobre ela? — Diz que não estará aqui por muito tempo. Esta frase, dita ao alcance de meus ouvidos no dia anterior, teria apenas transmitido a idéia de que ela estava para ser removida para Northumberland, para sua casa. Eu não teria suspeitado de que significava que ela estava morrendo; mas agora o soube ao mesmo instante; abriu-se claro em minha compreensão o fato de que Helen Burns contava seus últimos dias neste mundo, que ia ser levada para a região dos espíritos, se tal região existia. Experimentei um choque de horror, depois um forte sentimento de dor, e em seguida um desejo — uma necessidade de vê-la; e perguntei em que quarto ela estava. — Está no quarto da Srta. Temple — disse a enfermeira. — Posso subir e falar com ela? — Oh, não, menina! Não é provável; e agora é hora de você entrar; vai pegar a febre se ficar aí fora com o sereno caindo. A enfermeira fechou a porta da frente; eu entrei pela entrada lateral, que levava à sala de aula, e bem a tempo; eram nove horas, 98

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e a Srta. Miller chamava as alunas para a cama. Poderiam ser duas horas depois, provavelmente quase onze, quando eu — não tendo conseguido dormir, e julgando, pelo absoluto silêncio no dormitório, que minhas companheiras estavam todas mergulhadas em profundo repouso — me levantei silenciosamente, pus o vestido sobre a camisola de dormir, e, descalça, deslizei do aposento e parti em busca do quarto da Srta. Temple. Ficava no outro extremo da casa; mas eu sabia o caminho, e a luz da lua estivai, sem nuvens, penetrando aqui e ali pelas janelas do corredor, permitiram-me encontrá-lo sem dificuldade. Um cheiro de cânfora e de vinagre queimado avisou-me quando me aproximei do quarto da febre, e passei por sua porta rapidamente, temendo que a enfermeira que ficava de plantão a noite toda me ouvisse. Temia ser descoberta e mandada de volta; porque tinha de ver Helen — tinha de abraçá-la antes de ela morrer — tinha de dar-lhe um último beijo, trocar com ela uma última palavra. Tendo descido uma escada, atravessado uma parte da casa embaixo e conseguido abrir e fechar, sem barulho, duas portas, cheguei a outro lance de escadas; subi-o, e então, bem à minha frente, vi o quarto da Srta. Temple. Uma luz brilhava pelo buraco de fechadura e por baixo da porta; um profundo silêncio reinava em torno. Aproximando-me, encontrei a porta ligeiramente entreaberta; sem dúvida para deixar que um pouco de ar fresco penetrasse na estreita morada da doença. Não querendo hesitar, e cheia de impulsos impacientes — a alma e os sentidos estremecendo com fortes pulsações — empurrei-a e olhei para dentro. Meus olhos buscavam Helen, e temiam encontrar a morte. Perto da cama da Srta. Temple, e meio coberta com suas cortinas brancas, havia uma tarimba. Vi os contornos de uma forma sob os lençóis, mas o rosto estava oculto pelo cortinado; a enfermeira com quem eu falara no jardim sentava-se numa poltrona, adormecida; uma vela não espevitada ardia fracamente sobre a mesa. Não se via a Srta. Temple: eu soube depois que fora chamada para junto de uma paciente delirante no quarto da febre. Adiantei-me, e parei ao lado da tarimba: tinha a mão na cortina, mas preferi falar antes de puxá-la. Ainda recuava diante do temor Jane Eyre

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de ver um cadáver. — Helen! — sussurrei baixinho. — Está acordada? Ela se moveu, puxou a cortina, e vi seu rosto pálido, esgotado, mas muito calmo; parecia tão pouco mudada que meu temor se dissipou no mesmo instante. — É possível que seja você, Jane? — ela perguntou, em sua voz delicada. “Oh!” pensei, “ela não vai morrer; estão enganados; ela não poderia falar e parecer tão calma se fosse”. Meti-me em sua cama e beijei-a; a testa estava fria, e o rosto frio e magro, e o mesmo acontecia com a mão e o pulso; mas sorria como antes. — Por que veio aqui, Jane? Já passa das onze; ouvi bater há alguns minutos. — Vim vê-la, Helen, ouvi dizer que você estava muito doente, e não pude dormir sem falar com você. — Veio me dizer adeus então, e chegou bem a tempo, provavelmente. — Vai a algum lugar, Helen? Vai para casa? — Sim; para minha casa distante... minha última morada. — Não, não, Helen! — Parei, angustiada. Enquanto tentava engolir as lágrimas, Helen teve um acesso de tosse; mas isso não acordou a enfermeira. Quando passou, ela ficou alguns minutos exausta; depois, murmurou: — Jane, seus pezinhos estão descalços; deite-se e cubra-se com minha colcha. Obedeci; ela passou o braço por cima de mim, e eu me aninhei junto dela. Após um longo silêncio, ela recomeçou, ainda murmurando: — Estou muito feliz, Jane; e quando você souber que eu morri, deve sentir-se segura e não lamentar, não há nada a lamentar, Todos temos de morrer um dia, e a doença que está me levando não é dolorosa; é suave e gradual; minha mente está em repouso. Não deixo ninguém que sinta muito a minha falta: tenho só meu pai, e ele se casou há pouco, e não sentira a minha falta. Morrendo jovem, escaparei de grandes sofrimentos. Eu não tinha qualidades ou talentos para abrir meu caminho muito bem no mundo: estaria 100

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continuamente em falta. — Mas aonde você vai, Helen? Pode ver? Você sabe? — Eu creio; tenho fé: vou para Deus. — Onde está Deus? Que é Deus? — Meu Criador e o seu, que jamais destruirá o que criou. Apóio-me implicitamente em Seu poder, e confio inteiramente em Sua bondade, conto as horas até chegar aquela hora memorável que me devolverá a Ele, que O revelará a mim. — Você está certa, então, Helen, de que há um céu; e de que nossas almas podem ir para lá quando morrermos? — Estou certa de que há uma existência futura; creio que Deus é bom; posso entregar-Lhe minha parte imortal sem nenhuma apreensão. Deus é meu pai; Deus é meu amigo; eu O amo; e creio que Ele me ama. — E a verei de novo, Helen, quando eu morrer? — Você virá à mesma região de felicidade, será recebida pelo mesmo poderoso e universal Pai, sem dúvida, querida Jane. Tornei a perguntar, mas desta vez apenas em pensamento; “Onde fica essa região? Será que existe?” E apertei Helen mais fortemente em meus braços; ela me parecia mais querida que nunca; sentia-me como se não pudesse deixá-la partir; fiquei ali deitada, com o rosto escondido em seu pescoço. Afinal, ela me disse no tom mais doce: — Como me sinto confortável! O último acesso de tosse me cansou um pouco; sinto que poderia dormir; mas não me deixe, Jane; gosto de tê-la perto de mim. — Ficarei com você, querida Helen, ninguém me tirará daqui. — Você está aquecida, querida? — Estou. — Boa-noite, Jane. — Boa-noite, Helen. Ela me beijou, e eu a ela, e ambas logo adormecemos. Quando acordei, já era dia; um movimento incomum me despertara; ergui o olhar; estava nos braços de alguém, a enfermeira me segurava; levava-me pelo corredor de volta ao dormitório. Não fui repreendida por deixar minha cama; as Jane Eyre

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pessoas tinham outra coisa em que pensar; não se deu nenhuma explicação então em resposta às minhas muitas perguntas; mas um dia ou dois depois eu soube que a Srta. Temple, ao voltar para seu quarto de madrugada, me encontrara deitada na tarimba, o rosto no ombro de Helen Burns, meus braços em torno do pescoço dela. Eu dormia, e Helen estava... morta. O túmulo dela é no Cemitério de Brocklebridge: durante quinze anos após a sua morte, esteve coberto apenas por um monte de grama; mas agora uma lápide de mármore cinza assinala o local, com seu nome inscrito, e a palavra Resurgam.

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CAPÍTULO 10

A

té agora tenho recordado em detalhes os acontecimentos de minha insignificante existência: aos primeiros dez anos de minha vida, dediquei quase outros tantos capítulos. Mas esta não será uma autobiografia regular: devo invocar a memória apenas onde sei que suas respostas terão algum grau de interesse; assim, passarei agora por cima de um período de oito anos quase em silêncio: apenas algumas linhas serão necessárias para manter os cios de ligação. Quando a febre tifóide cumpriu sua missão de devastação em Lowood, foi aos poucos desaparecendo de lá; mas não antes que sua virulência e o número de suas vítimas houvessem chamado a atenção do público para a escola. Efetuou-se um inquérito sobre a origem do flagelo, e aos poucos surgiram vários fatos que causaram um alto grau de indignação pública. A natureza insalubre do local; a quantidade e a qualidade da comida das crianças; a água intragável, fétida, usada em sua preparação; as miseráveis roupas e acomodações das alunas — todas essas coisas foram descobertas; e a descoberta produziu um resultado vexatório para o Sr. Brocklehurst, mas benéfico para a instituição. Várias pessoas ricas e benevolentes da região deram grandes contribuições para a construção de um prédio mais adequado, num local mais bem situado; as verbas da escola foram confiadas à administração de uma comissão. O Sr. Brocklehurst, que, por Jane Eyre

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sua riqueza e suas relações de família, não podia ser afastado, ainda mantinha o posto de tesoureiro; mas era auxiliado, no desempenho desses deveres, por cavalheiros de mentes mais abertas e simpáticas; também seu cargo de inspetor era partilhado por aqueles que sabiam combinar razão com exatidão, conforto com economia, compaixão com probidade. A escola, assim melhorada, tornou-se com o tempo uma nobre e útil instituição. Continuei interna entre seus muros, após essa regeneração, por mais oito anos — seis como aluna e dois como professora; e em ambas as condições atesto seu valor e importância. Durante esses oito anos, minha vida foi uniforme, mas não infeliz, porque não era inativa. Eu tinha os meios de obter uma excelente educação ao meu alcance; e era estimulada pelo gosto por alguns de meus estudos e o desejo de ser excelente em todos, juntamente com um grande prazer em agradar minhas professoras, em particular as que eu amava. Aproveitei plenamente as vantagens que me eram oferecidas. Com o tempo, vim a ser a primeira menina da primeira classe; depois, investiram-me com o cargo de professora, do qual me desincumbi com zelo durante dois anos; mas no fim desse tempo me modifiquei. A Srta. Temple, em meio a todas as mudanças, havia continuado até então a ser a superintendente do seminário; à sua instrução, devo a melhor parte de minhas aquisições; sua amizade e companhia foram um contínuo alívio para mim; ela me amparara no lugar de mãe, governanta e, mais tarde, companheira. Nessa época, casou-se, mudou-se com o marido (um clérigo, um homem excelente, quase digno de tal esposa) para uma região distante, e conseqüentemente perdeu-se para mim. Desde o dia em que ela partiu, não fui mais a mesma: com ela se fora todo sentimento assentado, toda associação que fazia de Lowood, em certa medida, um lar para mim. Eu tinha absorvido algo de sua natureza e muito de seus hábitos; idéias mais harmoniosas; sentimentos aparentemente mais bem regrados se haviam instalado em minha mente. Aceitara o dever e a ordem; era calma; julgava-me satisfeita; aos olhos dos outros, e usualmente até aos meus próprios, parecia uma pessoa disciplinada e contida. 104

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Mas o destino, sob a forma do Rev. Sr. Nasmyth, se interpôs entre mim e a Srta. Temple: vi-a em seu vestido de viagem subir numa carruagem de posta, pouco depois da cerimônia de casamento. Observei a carruagem subir o morro e desaparecer depois do cume; e depois me retirei para meu quarto, e ali passei em solidão a maior parte do meio feriado concedido em honra da ocasião. Andei pelo quarto a maior parte do tempo. Imaginava que apenas lamentava minha perda e pensava em como repará-la; mas quando se concluíram minhas reflexões, e ergui o olhar e vi que a tarde se acabara, e que a noite já ia adiantada, ocorreu-me outra descoberta — isto é, que sofrerá naquele intervalo um processo de transformação; que minha mente rejeitara tudo que eu tomara de empréstimo à Srta. Temple — ou antes, que ela levara consigo a serena atmosfera que eu respirava em sua vizinhança — e que agora eu fora deixada em meu elemento natural, e começava a sentir o despertar de velhas emoções. Não era como se se houvesse retirado um esteio, mas antes como se uma motivação houvesse desaparecido: não era a capacidade de ficar tranqüila que me faltava, mas o motivo de tranqüilidade que não mais existia. Meu mundo fora por alguns anos em Lowood; minha experiência tinha sido a de suas regras e sistemas; agora eu me lembrava de que o verdadeiro mundo era amplo, e que um variado campo de esperanças e temores, de sensações e excitações, esperava aqueles que tinham a coragem de lançar-se em sua vastidão, para buscar o verdadeiro conhecimento da vida em meio a seus perigos. Fui à minha janela, abri-a e olhei para fora. Lá estavam as duas alas do prédio; lá estava o jardim; lá estavam os arredores de Lowood; lá estava o montanhoso horizonte. Meus olhos passaram por todos os outros pontos para repousarem naqueles mais remotos, os cumes azuis. Era àqueles que eu ansiava por ultrapassar; tudo dentro de seus limites de rochas e charnecas parecia área de prisão, confins de exílio. Distingui a branca estrada serpeando em torno da base da montanha e desaparecendo numa garganta entre duas delas. Como eu ansiava por segui-la além! Lembrava-me do tempo em que viajara por aquela mesma estrada Jane Eyre

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numa diligência; lembrava-me de que descera aquela colina ao crepúsculo. Parecia ter-se passado um século desde o dia que me trouxera pela primeira vez a Lowood, e eu jamais saíra dali desde então. Minhas férias, passara-as todas na escola. A Sra. Reed jamais mandara me buscar para ir a Gateshead; nem ela nem qualquer outra pessoa de sua família jamais viera visitarme. Eu não tivera nenhuma comunicação por carta ou mensagem com o mundo lá fora. As regras da escola, os deveres da escola, os hábitos, idéias, vozes, rostos, frases, costumes, preferências e antipatias da escola, isso era o que eu sabia da existência. E agora achava que não era o bastante. Cansei-me da rotina de oito anos numa tarde. Desejei a liberdade; ansiei pela liberdade; pela liberdade, fiz uma prece, que pareceu espalhar-se no vento que então soprava fracamente. Abandonei-a e arranjei uma súplica mais humilde. Pedindo mudança, estímulo. Esse pedido também pareceu ser varrido para o vago espaço. “Então”, exclamei, meio desesperada, “concedei-me ao menos uma nova servidão!” Nesse momento uma sineta, batendo a hora da ceia, chamou me lá para baixo. Não pude reiniciar a cadeia de minhas reflexões até a hora de dormir; e mesmo então uma professora que ocupava o mesmo quarto comigo me afastou do tema ao qual eu ansiava por retomar, com uma prolongada efusão de mexericos. Como eu gostaria de que o sono a silenciasse! Parecia que, se ao menos pudesse retornar à idéia que me entrara na cabeça quando estava à janela, surgiria alguma sugestão inventiva para meu alívio. A Srta. Gryce ressonou afinal. Era uma galesa forte, e até então eu só tinha encarado seus habituais ruídos nasais como incômodo. Naquela noite, porém, saudei as primeiras notas profundas com satisfação. Estava livre de interrupção; meu pensamento meio apagado reviveu no mesmo instante. “Uma nova servidão! Há alguma coisa nisso aí”, disse a mim mesma (mentalmente, entenda-se; não falava em voz alta). “Sei que há, porque não soa tão bom. Não é igual a palavras como Liberdade, Excitação, Prazer; sons deliciosos na verdade, mas não mais que sons para mim, e tão ocos e fugidios que é mera perda de tempo ouvi-los. Mas Servidão! Este deve ser concreto. Qualquer 106

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uma serve. Servi aqui oito anos; agora quero apenas servir em outra parte. Será que não posso conseguir isso de minha própria vontade? Não será exeqüível? Sim, s;m, a ;meta não é tão difícil, basta que eu tenha um cérebro ativo o bastante para descobrir os meios de atingi-la.” Pus-me sentada na cama, para despertar o dito cérebro. Era uma noite fria; cobri os ombros com um xale, e depois prossegui pensando de novo com todas as minhas energias. “Que é que eu quero? Um novo lugar, numa nova casa, entre novos rostos, em novas circunstâncias. Quero isso porque não adianta querer nada melhor. Com as pessoas conseguem um novo lugar? Recorrem a amigos, suponho. Eu não tenho amigos. Há muitos outros que não têm amigos, e que devem procurar por si mesmos e ser seus próprios amparos; e qual é o recurso deles?” Não sabia dizer, nada me respondia. Então ordenei a meu cérebro que encontrasse uma resposta, e rapidamente. Ele trabalhou e trabalhou mais rápido. Senti suas pulsações latejando em minha cabeça e minhas têmporas; mas durante quase uma hora ele trabalhou no caos, e não veio nenhum resultado de seus esforços. Febril com o trabalho inútil, levantei-me e dei uma volta no quarto, abri a cortina, observei uma estrela ou duas e novamente me enfiei na cama. Uma fada bondosa, em minha ausência, certamente jogarame a sugestão necessária no travesseiro, pois assim que me deitei ela me veio tranqüila e naturalmente à mente: “Os que querem empregos põem anúncios: você deve pôr um anúncio no... shire Herald.” “Como? Eu nada sei sobre anúncios.” As respostas vinham suaves e prontas agora: “Você deve pôr o anúncio e o dinheiro para pagá-lo dentro de um envelope endereçado ao editor do Herald. Deve colocá-lo, na primeira oportunidade que tiver, no correio em Lowton. As respostas deverão ser encaminhadas a J. E., na agência do correio daqui. Você pode ir perguntar, cerca de uma semana depois de mandar a carta, se há alguma resposta, e agir de acordo com isso.” Repassei esse plano duas, três vezes; até que minha mente Jane Eyre

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o digeriu: eu o tinha de uma forma clara e prática, senti-me satisfeita, e adormeci. De manhã bem cedinho, eu já estava de pé; escrevi meu anúncio, pu-lo no envelope e enderecei-o antes de tocar a sineta que acordava a escola; era assim: “Jovem acostumada a ensinar” (eu não tinha sido professora dois anos?) “deseja encontrar emprego junto a uma família particular com crianças de menos de quatorze anos”. (Eu pensava que, como mal tinha dezoito anos, não adiantaria assumir a orientação de alunos mais próximos de minha idade.) “Ela está qualificada para ensinar as matérias usuais de uma boa educação inglesa, juntamente com francês, desenho e música” (naquele tempo, leitor, esse hoje magro catálogo de aptidões seria julgado toleravelmente amplo). “Respostas para J. E., Agência do Correio, Lowton,... shire.” Esse documento ficou fechado em minha gaveta o dia todo. Após o chá, pedi permissão à nova superintendente para ir a Lowton, a fim de fazer algumas pequenas compras para mim mesma e uma ou duas de minhas colegas professoras; concederamme prontamente a permissão; parti. Era uma caminhada de duas milhas, e a tarde estava chuvosa, mas os dias ainda eram compridos; visitei uma ou duas lojas, pus a carta no correio e voltei debaixo de chuva grossa, com as roupas encharcadas, mas com o coração aliviado. A semana seguinte pareceu longa; mas acabou afinal, como todas as coisas terrestres, e mais uma vez, lá pelo fim de um agradável dia de outono, encontrei-me andando pela estrada de Lowton. Era uma estrada pitoresca, a propósito; correndo ao lado do regato e através das mais suaves curvas do vale; mas naquele dia eu pensava mais em cartas, que poderiam ou não estar à minha espera no pequeno burgo ao qual me encaminhava, do que nos encantos de prados e regatos. Minha missão ostensiva nessa ocasião era tirar as medidas para um par de sapatos; assim, tratei desse assunto primeiro, e quando acabei, atravessei a limpa e tranqüila ruazinha, da casa do sapateiro ao correio defronte, que era servido por uma velha 108

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dama de óculos de aros de tartaruga no nariz e luvas pretas nas mãos. — Há alguma carta para J. E.? — perguntei. Ela me espiou por cima dos óculos, e depois abriu uma gaveta e remexeu seu conteúdo por um longo tempo, tão longo que minhas esperanças começaram a fraquejar. Afinal, tendo segurado um documento diante dos óculos por quase cinco minutos, estendeu-o por cima do balcão, acompanhando o ato com outro olhar inquisitivo e desconfiado — era para J. E. — Só uma? — perguntei. — Não há mais nenhuma — ela disse; e eu pus a carta no bolso e me virei em direção à escola: não podia abri-la ali; os regulamentos obrigavam-me a estar de volta às oito, e já eram sete e meia. Vários deveres me aguardavam à minha chegada. Tinha de ficar com as meninas durante a hora de estudo delas; depois era a minha vez de ler as preces; acompanhá-las à cama; em seguida, ceei com as outras professoras. Mesmo quando nos retiramos, finalmente, para dormir: a inevitável Srta. Gryce ainda me acompanhava, tínhamos apenas um curto toco de vela no castiçal, e eu temia que ela falasse até a vela acabar; felizmente, porém, a pesada ceia que ela comera produziu um efeito soporífero: já ressonava antes de eu acabar de despir-me. Restava ainda uma polegada de vela: então saquei a carta; o lacre era uma inicial, F.; rompi-o; o conteúdo era breve. “Se J. E., que pôs um anúncio no ...shire Herald de quinta-feira passada, possui as aptidões mencionadas; e se está em condições de dar referências satisfatórias quanto ao seu caráter e competência, pode-se oferecer-lhe um emprego em casa com uma só aluna, uma menininha de menos de dez anos; e na qual o salário é de trinta libras por ano. Pede-se a ). E. que envie referências, nome e endereço, e todos os detalhes, para o endereço: Sra. Fairfax, Thornfield, perto de Millcote, ...shire.” Examinei longamente o documento: a letra era antiga e um tanto insegura, como a de uma senhora idosa. Essa circunstância era satisfatória: obcecara-me um temor íntimo de que agindo Jane Eyre

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assim por mim mesma, e seguindo minha própria orientação, me arriscava a entrar em alguma encrenca; e acima de tudo desejava que o resultado de minhas iniciativas fosse respeitável, apropriado, en règle. Agora achava que uma senhora idosa não era um mau ingrediente no problema que tinha em mãos. Sra. Fairfax! Eu a via num vestido negro e com uma touca de viúva; frígida talvez, mas não sem educação; um modelo de idosa respeitabilidade inglesa. Thornfield! Esse, sem dúvida, era o nome da casa; um lugar limpo e arrumado, eu tinha certeza; embora fracassasse em meus esforços para conceber um plano correto da propriedade, Millcote, ...shire; espanei minhas lembranças do mapa da Inglaterra; sim, via-o; tanto o condado como a cidade.... shire ficava setenta milhas mais perto de Londres que o remoto condado onde eu morava agora: isso era uma recomendação para mim. Eu ansiava por ir aonde houvesse vida e movimento. Millcote era uma grande cidade manufatureira nas margens do A...; um lugar bastante ativo, sem dúvida; tanto melhor; seria uma completa mudança, pelo menos. Não que minha fantasia fosse muito cativada pela idéia das longas chaminés e nuvens de fumaça. “Mas”, eu argumentava, “Thornfield provavelmente ficará a uma boa distância da cidade”. Nesse ponto, o soquete da vela caiu, e o pavio se extinguiu. No dia seguinte, novos passos tinham de ser dados, meus planos não podiam mais confinar-se em meu peito; eu tinha de comunicá-los, para levá-los a bom termo. Tendo pedido e obtido uma audiência com a superintendente, durante o recreio do meiodia, disse-lhe que tinha uma perspectiva de um novo emprego, onde o salário seria o dobro do que o que eu ganhava agora (pois em Lowood ganhava apenas quinze libras por ano); a pedi-lhe que levasse o assunto para mim ao Sr. Brocklehurst ou a alguém da comissão, e verificasse se me permitiam mencioná-los como referências. Ela consentiu amavelmente em agir como mediadora no caso. No dia seguinte, expôs a questão ao Sr. Brocklehurst, que disse que se devia escrever à Sra. Reed, uma vez que ela era a minha guardiã natural. Endereçou-se por conseguinte uma nota àquela senhora, que escreveu em resposta que “eu podia fazer o 110

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que quisesse: ela havia muito abrira mão de toda interferência em meus assuntos”. Essa nota correu a comissão, e afinal, após o que me pareceu uma tediosíssima demora, deram-me permissão para melhorar de condição, se pudesse; e um atestado acrescentava que, como eu sempre me conduzira bem, tanto como professora quanto como aluna, em Lowood, me seria fornecido um atestado de caráter e capacidade, assinado pelos inspetores da instituição. Recebi portanto essa recomendação dentro de um mês, enviei uma cópia dela para a Sra. Fairfax e recebi sua resposta, dizendo que estava satisfeita e fixando quinze dias, a partir daquele, como o período para que eu assumisse o posto de governanta em sua casa. Lancei-me então aos preparativos: a quinzena passou rapidamente. Eu não tinha um guarda-roupa muito grande, embora fosse adequado às minhas necessidades; e o último dia bastou para arrumar minha mala — a mesma que trouxera comigo oito anos antes de Gateshead. A mala foi amarrada com corda, a identificação colada. Em meia hora, o carregador iria levá-la a Lowton, onde eu mesma deveria estar bem cedo na manhã seguinte, para encontrar a diligência. Escovei meu vestido preto de viagem, preparei minha touca, luvas e regalo; revistei todas as minhas gavetas, para ver se não estava deixando nada, e sentei-me para tentar descansar. Não pude; embora houvesse passado o dia todo de pé, não podia agora repousar um instante; estava excitada demais. Uma fase de minha vida encerrava-se naquela noite, uma nova abria-se no dia seguinte: impossível dormir no intervalo; tinha de observar febrilmente enquanto a mudança se realizava. — Senhorita — disse a criada que me encontrou no saguão onde eu vagueava como um espírito perturbado — uma pessoa lá embaixo deseja vê-la. “O carregador, sem dúvida”, pensei, e corri para baixo sem perguntar nada. Atravessava o parlatório de trás, ou sala de estar das professoras, cuja porta estava meio aberta, para ir à cozinha, quando alguém se precipitou para fora. Jane Eyre

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— É ela, tenho certeza! Eu a reconheceria em qualquer parte! — gritou a pessoa que deteve minha marcha e me tomou a mão. Olhei, vi uma mulher vestida como uma criada bem trajada, matronal mas ainda jovem; muito bonita, com cabelos e olhos negros, e uma tez vivida. — Bem, quem é? — ela perguntou, numa voz e com um sorriso que me pareceu reconhecer. — Creio que não me esqueceu, Srta. Jane? No segundo seguinte eu a estava abraçando e beijando arrebatadamente: — Bessie! Bessie! Bessie! — era tudo que eu dizia, enquanto ela meio ria, meio chorava, e ambas passávamos ao parlatório. Ao lado da lareira estava um camaradinha de três anos, de bata pregueada e calças. — Esse é o meu menininho — disse logo Bessie. — Então você se casou, Bessie? — Sim; já faz quase cinco anos, com Robert Leaven, o cocheiro; e tenho uma menininha, além de Bobby aí, que batizei como Jane. — E não mora em Gateshead? — Moro na portaria; o velho porteiro partiu — Bem, e como vão todos? Conte-me tudo sobre eles, Bessie; mas sente-se primeiro, e você, Bobby, venha sentar-se em meus joelhos, quer? Mas Bobby preferiu ficar ao lado da mãe. — Não ficou muito alta, Srta. Jane, nem muito gorda — continuou a Sra. Leaven. — Aposto que não a trataram muito bem na escola; a senhorita daria nos ombros da Srta. Reed; e a Srta. Georgiana dá duas da senhorita em largura. — Georgiana está bonita, suponho, Bessie? — Muito. Ela foi a Londres no inverno passado com a mãe, e lá todos a admiraram, e um jovem lorde se apaixonou por ela: mas os parentes dele foram contra o casamento; e... que acha a senhorita? Ele e a Srta. Georgiana planejaram fugir; mas foram descobertos e detidos. Foi a Srta. Reed que os descobriu; creio que estava com inveja; e agora ela e a irmã levam uma vida de gato e cachorro juntas; estão sempre brigando. 112

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— Bem, e que me diz de John Reed? — Oh, ele vai tão bem quanto a mãe poderia desejar. Foi para a faculdade e... levou pau... creio que é assim que dizem. E depois os tios quiseram que ele fosse advogado e estudasse direito; mas é um jovem tão dissipado que jamais farão grande coisa dele, eu penso. — Que aparência tem ele? — É muito alto. Algumas pessoas dizem que é um jovem dé bela aparência; mas tem uns lábios tão grossos. — E a Sra. Reed? — A patroa está gorda e muito bem de rosto, mas acho que não está com o espírito muito tranqüilo. A conduta do Sr. John não lhe agrada... ele gasta um bocado de dinheiro. — Foi ela quem a mandou aqui, Bessie? — Não, realmente, mas eu há muito queria vê-la, e quando soube que chegara uma carta sua, e que a senhorita ia para outra parte do país, pensei que devia vir e dar uma olhada na senhorita antes que estivesse muito longe de meu alcance. — Receio que se tenha decepcionado comigo, Bessie? Eu disse isso rindo. Percebi que o olhar de Bessie, embora expressasse interesse, não denotava admiração de modo algum, — Não, Srta. Jane, não exatamente. A senhorita é bastante gentil; parece uma dama, e é tudo que eu esperava da senhorita: não era nenhuma beldade quando criança. Sorri à franca resposta de Bessie; senti que era correta, mas confesso que não fiquei exatamente indiferente ao seu sentido. Aos dezoito anos, a maioria das pessoas deseja agradar, e a convicção de que não tem uma aparência capaz de apoiar esse desejo traz tudo, menos satisfação. — Mas aposto que a senhorita é inteligente — continuou Bessie, como consolação. — Que sabe fazer? Sabe tocar piano? — Um pouco. Não havia ninguém na sala; Bessie se encaminhou para o piano, abriu-o e pediu-me que me sentasse e lhe tocasse uma música. Toquei uma ou duas valsas, e ela ficou encantada. — As Srtas. Reed não sabiam tocar tão bem! — ela disse, Jane Eyre

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exultante. — Eu sempre disse que a senhorita poderia superá-las no aprendizado; e sabe desenhar? — Ali está uma de minhas pinturas no aparador da chaminé. — Era uma paisagem em aquarela, que eu presenteara à superintendente, em reconhecimento por sua amável mediação junto à comissão em meu favor, e que ela mandara emoldurar e envidraçar. — Bem, é bonita, Srta. Jane! É um quadro tão bonito quanto qualquer um que o professor de desenho das Srtas. Reed pintaria, quanto mais as próprias jovens, que não poderiam chegar nem perto; e aprendeu francês? — Sim, Bessie; sei ler e falar francês. — E sabe trabalhar em musselina e tela? — Sei. — Oh, é uma verdadeira dama, Srta. Jane! Eu sabia que seria; vencerá, quer seus parentes a notem ou não. Havia uma coisa que eu queria lhe perguntar. Algum dia soube alguma coisa dos parentes de seu pai, os Eyre? — Jamais em minha vida. — Bem, a senhorita sabe que a patroa sempre disse que eles eram pobres e muito desprezíveis; e eles podem ser pobres; mas creio que são tão fidalgos quanto os Reeds; pois um dia, há quase sete anos, apareceu em Gateshead um certo Sr. Eyre querendo ver a senhorita. A patroa disse que a senhorita estava na escola, a cinqüenta milhas de distância: ele pareceu tão desapontado, por não poder ficar; ia viajar para um país estrangeiro, e o navio devia partir de Londres dentro de um dia ou dois. Ele parecia um completo cavalheiro, e creio que era irmão de seu pai. — Para que país estrangeiro ia ele, Bessie? — Uma ilha a milhares de milhas de distância, onde fazem vinho... o mordomo me disse... — Madeira? — sugeri. — Sim; é isso... é essa mesma a palavra. — Então ele partiu? — Sim; não permaneceu muitos minutos na casa: a patroa foi muito altiva com ele; chamou-o depois de um “servil comerciante”. 114

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Meu Robert acha que ele era um comerciante de vinhos. — Muito provavelmente — respondi. — Ou talvez caixeiro ou agente de algum comerciante de vinhos. Bessie e eu conversamos sobre os velhos tempos por mais uma hora, e depois ela teve de deixar-me: tornei a vê-la de novo por alguns minutos em Lowton, enquanto esperava a diligência. Despedimo-nos finalmente ali, na porta do Brocklehurst Arms: cada uma seguiu seu caminho distinto: ela partiu para a borda de Lowood Fell, a fim de pegar o transporte que a leva* ria de volta a Gateshead; eu subi no veículo que ia me levar para novos deveres e uma nova vida, nas desconhecidas cercanias de Millcote.

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CAPÍTULO 11

U

m novo capítulo num romance é algo como um novo cenário numa peça; e quando suspendo a cortina desta vez, leitor — você deve imaginar que vê uma sala na George Inn, em Millcote, com o papel de parede de grandes desenhos que as salas das hospedarias costumam ter; e os mesmos tapetes, móveis, adornos no aparador da lareira e gravuras — inclusive um retrato de George III e outro do Príncipe de Gales, e um quadro da morte de Wolfe. Tudo isso é visível à luz de uma lâmpada de petróleo que pende do teto, e de um excelente fogo, perto do qual me sento com meu casaco e touca; o regalo e a sombrinha estão na mesa, e espanto com o calor a dormência e o frio contraídos em dezesseis horas de exposição à inclemência de um dia de outubro: deixei Lowton às quatro horas da manhã, e o relógio municipal de Millcote acaba de bater as oito. Leitor, embora eu pareça confortavelmente acomodada, não tenho o espírito muito tranqüilo. Pensava que, quando a diligência parasse aqui, haveria alguém para me receber; olhei ansiosamente em volta, ao descer os degraus de madeira que os criados colocaram para minha conveniência, esperando ouvir pronunciarem meu nome e ver algum tipo de carruagem esperando para transportar-me até Thornfield. Não se via nada disso; e quando perguntei a um garçom se alguém viera perguntar por uma certa Srta. Eyre, recebi uma resposta negativa; assim, não tive outro jeito senão pedir que me conduzissem a uma sala 116

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privada, e aqui estou esperando, enquanto toda sorte de dúvidas e temores me perturbam os pensamentos. É uma sensação muito estranha, para uma jovem inexperiente, sentir-se inteiramente sozinha no mundo, cortada de toda ligação, insegura sobre se pode alcançar o porto aonde se destina, e impossibilitada por muitos obstáculos de retornar ao que deixou. O encanto da aventura suaviza essa sensação, e o fulgor do orgulho aquece-a: mas aí o latejar do medo a perturba; e o medo tomou conta de mim quando meia hora se passou e eu continuava só. Decidi tocar a sineta. — Existe um lugar por aqui chamado Thornfield? — perguntei ao garçom que respondeu ao chamado. — Thornfield? Não sei, madame: vou perguntar no bar. Ele desapareceu, mas reapareceu no mesmo instante. — Seu nome é Eyre, senhorita? — Sim. — Há uma pessoa aqui esperando a senhorita. Eu me pus de pé num salto, peguei o regalo e a sombrinha e saí correndo para o corredor da hospedaria: havia um homem parado na porta aberta, e na rua iluminada pela lâmpada vi um transporte puxado por um só cavalo. — Será esta a sua bagagem, senhorita? — disse o homem um tanto abruptamente quando me viu, apontando minha mala no corredor. — Sim. — Ele a levou para o veículo, que era uma espécie de carro, e depois eu subi: antes de ele fechar a porta, perguntei-lhe a que distância ficava Thornfield. — Coisa de umas seis milhas. — Quanto tempo demoraremos para chegar lá? — Coisa de uma hora e meia. Ele fechou a porta do carro, subiu para o seu assento do lado de fora, e partimos. Nossa marcha era vagarosa, e me deu bastante tempo para refletir: estava satisfeita por me achar tão perto do fim de minha jornada; e enquanto me reclinava na carruagem confortável, embora nada elegante, meditava muito em meu caso. “Suponho”’, pensava, “a julgar pelo aspecto comum do criado Jane Eyre

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e da carruagem, que a Sra. Fairfax não é uma pessoa muito refinada: tanto melhor; só vivi entre pessoas refinadas uma vez, e fui muito infeliz com elas. Imagino se ela vive sozinha, a não ser pela menina; se assim for, e se ela demonstrar um mínimo de amabilidade, certamente poderei me dar bem com ela; farei o melhor que puder: é uma pena que isso nem sempre resolva. Em Lowood, na verdade, tomei essa resolução, mantive-a e consegui agradar; mas com a Sra. Reed, lembro-me de que o melhor que fazia era sempre desdenhado. Rogo a Deus que a Sra. Fairfax não se revele uma segunda Sra. Reed, mas se se revelar, não sou obrigada a ficar com ela: se acontecer o pior, porei outro anúncios. Imagino quanto já fizemos de nosso caminho?” Baixei a janela e olhei para fora; Millcote ficara para trás; a julgar pelo número de suas luzes, parecia um lugar de considerável magnitude, muito maior que Lowton. Estávamos agora, até onde eu podia julgar, numa espécie de terras comunais; mas havia casas espalhadas por todo o distrito; eu sentia que estávamos numa região diferente de Lowood, mais populosa, menos pitoresca; mais excitante, menos romântica. As estradas eram pesadas, a noite nevoenta: meu condutor deixou o cavalo seguir a passo até o fim, e a hora e meia se estendeu, creio, a duas horas; finalmente, ele se voltou em seu assento e disse: — A senhorita não está tão longe de Thornfield agora. Tornei a olhar para fora: passávamos por uma igreja: vi a torre baixa e larga contra o céu, e o sino batia o quarto de hora; vi também uma estreita galáxia de luzes numa encosta, assinalando uma aldeia ou vila. Cerca de dez minutos depois, o cocheiro desceu e abriu um par de portões; passamos por eles, que bateram atrás de nós. Subíamos agora lentamente a entrada de uma propriedade, e chegamos diante da comprida frente de uma casa; de uma janela de sacada em arco, cortinada, vinha uma luz de vela; tudo mais estava escuro. A carruagem parou na porta da frente, que foi aberta por uma criada; desci e entrei. — Quer fazer o favor de vir por aqui, madame? — disse a moça, e atravessei atrás dela um saguão quadrado com altas 118

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portas em toda a volta: ela me introduziu numa sala cuja dupla iluminação, de lareira e vela, a princípio me ofuscou, contrastando com a escuridão a que meus olhos se tinham habituado por duas horas; quando consegui enxergar, contudo, um quadro acolhedor e agradável se apresentou à minha visão. Uma sala aconchegante, pequena; uma mesa redonda ao lado de um bom fogo; uma poltrona de espaldar alto e fora de moda, onde se sentava uma pequena senhora idosa, com uma touca de viúva, vestido de seda negra e um avental de musselina branca como a neve; exatamente como eu imaginara a Sra. Fairfax, apenas menos pomposa e de aparência mais suave. Estava ocupada tricotando; um grande gato sentava-se muito sério a seus pés; nada, em suma, faltava para completar o belo ideal de conforto doméstico. Dificilmente se poderia conceber uma introdução mais tranqüilizante para uma nova governanta; não havia grandeza esmagadora, nem pompa embaraçosa; e depois, quando entrei, a velha senhora se levantou e pronta e bondosamente veio me receber. — Como vai, minha querida? Receio que tenha tido uma viagem aborrecida; John dirige tão devagar; deve estar com frio; venha para junto do fogo. — Sra. Fairfax, suponho? — eu disse. — Sim, está certa, sente-se. Conduziu-me até sua própria poltrona, e depois começou a remover meu xale e desatar as fitas de minha touca; pedi-lhe que não tivesse tanto trabalho. — Oh, não é trabalho; aposto que suas mãos estão quase dormentes de frio. Leah, faça um pouco de chá quente e um ou dois sanduíches; aqui estão as chaves do depósito. E tirou do bolso um caseiríssimo molho de chaves e o entregou à criada. — Agora, então, chegue mais perto do fogo — ela continuou. — Trouxe sua bagagem consigo, não trouxe, minha querida? — Sim, madame. — Farei com que a levem para seu quarto — ela disse, e saiu às pressas. Jane Eyre

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“Ela me trata como uma visita”, pensei. “Eu não esperava uma tal recepção; previ apenas frieza e rigidez: isto não é como o que ouvi dizer do tratamento que se dispensa às governantas; mas não devo exultar cedo demais”. Ela voltou; com as próprias mãos retirou seus instrumentos de tricô e um ou dois livros de cima da mesa, para dar espaço à bandeja que Leah trazia agora, e depois me serviu ela própria a refeição. Eu me sentia um tanto confusa por ser objeto de mais atenção do que jamais recebera, e ainda por cima dispensada por minha patroa e superiora; mas como ela mesma não parecia achar que estava fazendo qualquer coisa demais, achei melhor aceitar suas cortesias discretamente. — Terei o prazer de ver a Srta. Fairfax esta noite? — perguntei, quando havia partilhado de tudo que ela me oferecera. — Que disse, minha querida? Eu sou um pouco surda — disse a boa senhora, aproximando o ouvido de minha boca. Repeti a pergunta mais distintamente. — Srta. Fairfax? Oh, quer dizer Srta. Varens! Varens é o nome de sua futura pupila. — De fato! Então não é sua filha? — Não... eu não tenho família. Eu devia ter prosseguido com minha investigação, perguntando de que modo a Srta. Varens se relacionava com ela; mas lembrei de que não era muito polido fazer muitas perguntas: além disso, tinha certeza de que o saberia no devido tempo. — Estou tão contente — ela continuou, sentando-se à minha frente e pondo o gato nos joelhos. — Estou tão contente de que a senhorita tenha vindo; será muito agradável viver aqui agora com uma companhia. Evidentemente, é agradável em qualquer tempo; pois Thornfield é uma ótima mansão velha, um tanto abandonada nos últimos anos, talvez, mas ainda um lugar respeitável; mas, você sabe, no inverno a gente se sente triste sozinha, mesmo nos melhores lugares. Eu digo sozinha... Leah é uma ótima moça, sem dúvida, e John e sua esposa são gente muito decente; mas também, você sabe, são apenas criados, e não se pode conversar com eles em termos de igualdade. Deve-se mantê-los à devida 120

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distância, para não se perder a autoridade. Estou certa de que no inverno passado (foi muito severo, se a senhorita se lembra, e quando não nevava, chovia e ventava) nenhuma criatura, a não ser o açougueiro e o carteiro, veio à casa, de novembro até fevereiro; fiquei realmente muito melancólica, aqui sentada sozinha noite após noite; tinha Leah para ler para mim às vezes, mas não creio que a pobre moça gostasse muito da tarefa: achava-a confinadora. Na primavera e no verão, a gente passa melhor; o sol e os dias compridos fazem muita diferença; e depois, no começo deste outono, vieram a pequena Adela Varens e sua babá; uma criança torna a casa viva de repente; e, agora que a senhorita está aqui, ficarei muito contente. Meu coração realmente simpatizou com a digna senhora, ouvindo-a falar; puxei minha cadeira um pouco mais para perto dela, e manifestei meu sincero desejo de que ela achasse minha companhia tão agradável quanto previa. — Mas não vou mantê-la sentada aqui a noite toda — ela disse. — Vão bater doze horas, e a senhorita viajou o dia todo; deve estar cansada. Se está com os pés bem aquecidos, eu lhe mostrarei o seu quarto. Mandei preparar o quarto vizinho ao meu para a senhorita; é um aposento pequeno, mas achei que gostaria mais dele do que de um dos grandes quartos da frente: claro que têm móveis melhores, mas são tão sombrios e solitários, que eu mesma nunca durmo neles. Agradeci-lhe por sua sábia escolha, e como me sentia realmente fatigada com a longa viagem, manifestei a disposição de me recolher. Ela pegou sua vela e saiu à minha frente do quar* to. Primeiro foi ver se a meia porta estava trancada; tendo tirado a chave da fechadura, seguiu em frente escada acima. Os degraus e corrimãos eram de carvalho; a janela da escada, alta e com gelosia; tanto essa janela como a extensa galeria para a qual se abriam as portas dos quartos pareciam pertencer mais a uma igreja que a uma casa. Um ar muito frio, como de abóbada, impregnava a escada e a galeria, sugerindo tristes idéias de espaço e solidão; e fiquei satisfeita quando finalmente fui introduzida em meu quarto e o achei de pequenas Jane Eyre

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dimensões e mobiliado em estilo moderno comum. Depois que a Sra. Fairfax me desejou uma boa noite, que fechei a porta e olhei demoradamente em torno, e de certa forma desfiz, com o aspecto mais animador de meu quarto, a impressão lúgubre causada por aquele amplo saguão, aquela escura e espaçosa escada, e aquela extensa e fria galeria, lembrei-me de que, após um dia de cansaço físico e ansiedade mental, eu estava agora, finalmente, num porto seguro. O impulso de gratidão me fez inchar o coração, e me ajoelhei à beira da cama e dei graças a quem as merecia; não esquecendo, antes de me levantar, de implorar ajuda para meu caminho futuro, e o poder de merecer a bondade que parecia tão francamente oferecida antes de ser conquistada. Meu leito não teve espinhos naquela noite; meu quarto solitário, nenhum temor. Ao mesmo tempo exausta e contente, dormi logo e sadiamente: quando acordei, era dia claro. O quarto parecia um lugarzinho tão iluminado, quando o sol penetrava por entre as cortinas de alegre chita azul da janela, mostrando paredes empapeladas e um piso acarpetado, tão diferente das tábuas nuas e do reboco manchado de Lowood, que meu espírito se exaltou com aquela visão. As aparências externas têm um grande efeito sobre os jovens. Pensei que uma era mais justa da vida começava para mim, uma era que teria suas flores e prazeres, além dos espinhos e trabalhos. Minhas faculdades, excitadas pela mudança de cenário, o novo campo de esperança oferecido, pareciam todas alvoroçadas. Não posso definir precisamente o que esperavam, mas era alguma coisa agradável, não talvez naquele dia ou dentro de um mês, mas num período futuro indefinido. Levantei-me; vesti-me com cuidado; obrigada a parecer comum — pois não tinha nenhum artigo de vestuário que não fosse feito com extrema simplicidade — ainda era, por natureza, dada a ser esmerada. Não era hábito meu desdenhar a aparência, ou descuidar-me da impressão que causava; ao contrário, sempre desejava parecer tão bem quanto pudesse, e agradar tanto quanto minha falta de beleza permitisse. Às vezes lamentava não ser mais bonita: às vezes desejava ter faces róseas, um nariz reto e 122

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uma boquinha de cereja; desejava ser alta, imponente e com um belo físico; achava uma infelicidade ser tão pequena, tão pálida, e ter feições tão irregulares e acentuadas. E por que tinha tais aspirações e pesares? Seria difícil dizer, ou não podia então dizêlo distintamente para mim mesma; mas tinha uma razão, lógica e natural também. Contudo, depois de ter escovado o cabelo até deixá-lo bem liso, de pôr meu vestido negro — que, apesar de seu estilo Quaker, tinha pelo menos o mérito de assentar-me muito bem — e de ajeitar meu cachecol branco limpo, pensei que estava bastante decente para aparecer diante da Sra. Fairfax; e que minha nova aluna pelo menos não recuaria diante de mim com antipatia. Tendo aberto a janela do quarto, e vendo que deixara todas as minhas coisas arrumadas e limpas na mesa de toalete, aventurei-me a ir em frente. Atravessando a extensa e atapetada galeria, desci os escorregadios degraus de carvalho; depois ganhei o saguão; parei ali um minuto; olhei alguns quadros nas paredes (um, lembro-me, representava um homem sombrio numa couraça, e uma senhora com cabelo empoado e um colar de pérola), um candelabro de bronze que pendia do teto e um grande relógio cuja caixa era de carvalho curiosamente esculpido e ébano enegrecido pelo tempo e o polimento. Tudo me parecia muito grandioso e imponente, mas também eu estava tão pouco acostumada à grandeza. A porta do saguão, que era metade de vidro, estava aberta; cruzei-lhe a soleira. Era uma bela manhã de outono; o sol novo brilhava serenamente sobre os sulcos marrons e os campos ainda verdes; adiantando-me para o gramado, olhei para cima e examinei o frontão da mansão. Tinha três andares, mas suas proporções não eram vastas, apesar de consideráveis; a mansão senhorial de um cavalheiro, não a sede de um nobre: ameias em torno do telhado davam-lhe uma aparência pitoresca. Seu frontão cinza se destacava bastante contra o fundo de um viveiro de corvos, cujos crocitantes moradores estavam agora no ar. Voavam sobre o gramado e o terreno em volta e foram pousar num grande prado, dos quais os jardins eram separados por uma cerca caída, e onde uma variedade de espinheiros, fortes, nodosos e grossos como carvalhos, explicava ao mesmo tempo a etimologia Jane Eyre

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do nome da mansão*. Mais adiante ficavam as montanhas; não tão vistosas como as de Lowood, não tão escarpadas, não tão parecidas com barreiras de separação do mundo dos vivos; mas ainda assim muito quietas e solitárias, parecendo envolver Thornfield numa reclusão que eu não esperava encontrar tão perto da movimentada localidade de Millcote. Uma pequena aldeia, cujos tetos se misturavam com as árvores, espalhava-se pela encosta de uma dessas montanhas; a igreja do distrito ficava mais perto de Thornfield; o alto de sua velha torre surgia sobre um outeiro entre a casa e os portões. Eu ainda desfrutava a calma paisagem e o agradável ar fresco, ainda ouvia com prazer o crocitar dos corvos, ainda examinava o amplo e vetusto frontão da casa, e pensava em como aquele era um ótimo lugar para uma pequena dama solitária como a Sra. Fairfax habitar, quando esta senhora apareceu na porta. — Quê! Aqui fora, já? — ela disse. — Vejo que é madrugadora. — Aproximei-me dela, e fui recebida com um beijo afável e um aperto de mão. — Que acha de Thornfield? — ela perguntou. Eu lhe disse que gostava muito. — Sim — ela disse — é um belo lugar; mas receio que vá cair aos pedaços, a menos que o Sr. Rochester meta na cabeça a idéia de vir morar aqui permanentemente... ou, pelo menos, visitá-lo com mais freqüência. Grandes casas e belas propriedades exigem a presença do proprietário. — Sr. Rochester! — perguntei. — Quem é? — O dono de Thornfield! — ela respondeu calmamente. — A senhorita não sabia que ele se chamava Rochester? Era evidente que eu não sabia: jamais ouvira falar dele antes; mas a velha senhora parecia encarar sua existência como um fato universalmente sabido, que todo mundo devia saber por instinto. — Eu pensava — continuei — que Thornfield pertencia à senhora. — A mim? Bendita seja, criança; que idéia! A mim? Eu sou apenas a governanta... a administradora. Claro, sou remotamente aparentada com os Rochesters pelo lado de minha mãe... ou, pelo 124

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menos, o meu marido era. Ele era um clérigo, encarregado de Hay... aquela aldeiazinha na montanha... e aquela igreja perto do portão era dele. A mãe do atual Sr. Rochester era uma Fairfax, e prima segunda de meu marido; mas eu nunca me aproveito dessa relação... na verdade, não significa nada para mim. Considerome bem à luz de uma governanta comum. Meu patrão é sempre educado, e não espero nada mais. — E a menininha... minha pupila? — É protegida do Sr. Rochester. Ele me mandou procurar uma governanta para ela. Quer que ela seja criada em ...shire, creio. Aí vem ela, com sua bonne, como chama a babá. — Explicado o enigma, então, aquela afável e bondosa viúva não era nenhuma grande dama, mas uma dependente como eu própria. Não gostei menos dela por isso; ao contrário, senti-me mais satisfeita que antes. A igualdade entre ela e eu era real, não simples resultado de condescendência de sua parte. Tanto melhor; minha posição era tanto mais livre. Enquanto meditava nessa descoberta, uma menininha, acompanhada de sua babá, aproximou-se correndo pelo gramado. Examinei minha pupila, que a princípio não pareceu me notar. Era bem nova — talvez sete ou oito anos — de corpinho frágil, com um rosto pálido de traços miúdos, e cabelos abundantes caindo em cachos até a cintura. — Bom-dia, Srta. Adela — disse a Sra. Fairfax. — Venha falar com a dama que vai ensinar-lhe e fazer de você uma mulher inteligente algum dia. — Ela se aproximou. — Cest la gouvernante?* — ela disse, indicando-me e dirigindose à sua babá, que respondeu: — Mais oui, certainement.** — São estrangeiras? — perguntei. — A babá é estrangeira, e Adela nasceu no Continente; e, creio, jamais o deixou até seis meses atrás. Quando chegou aqui não sabia falar inglês; agora pode mudar para ele um pouco. Eu não a compreendo, pois ela o mistura muito com francês; mas aposto que a senhorita saberá o que ela diz muito bem. Felizmente, eu tivera a vantagem de aprender francês com uma Jane Eyre

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dama francesa; e como sempre fizera questão de conversar com Madame Pierrot com tanta freqüência quanto podia, e aprendera além disso, nos últimos sete anos, um trecho de francês de cor todo dia — aplicando-me esforçadamente no sotaque e imitando tão de perto quanto podia a pronúncia de minha professora — adquirira um certo grau de presteza e correção nessa língua, e não era provável que ficasse muito perdida com Mademoiselle Adela. Ela se aproximou e me apertou a mão, ao saber que eu era sua governanta; mas depois que nos sentamos à mesa, e que ela me examinou por uns dez minutos com seus grandes olhos de avelã, começou de repente a tagarelar fluentemente. — Ah! — exclamou em francês — A senhorita fala minha língua tão bem quanto o Sr. Rochester. Posso falar com a senhorita como com ele, e Sophie também. Ela ficará feliz; ninguém aqui a entende; Madame Fairfax é toda inglesa. Sophie é minha babá; veio comigo por mar num grande navio com uma chaminé que fumegava... como fumegava!... e eu fiquei enjoada, e Sophie também, e o Sr. Rochester também. O Sr. Rochester deitou-se num sofá num belo salão chamado salon, e a mim e a Sophie nos deram pequenas camas em outra parte. Eu quase caí da minha; era como uma prateleira. E, Mademoiselle... como é seu nome? — Eyre... Jane Eyre. — Aire? Bah! Não consigo pronunciá-lo. Bem, nosso navio parou pela manhã, antes de ser dia claro, numa grande cidade.... uma cidade imensa, com casas muito escuras e coberta de fumaça; muito diferente da linda e bela cidade de onde vim; e o Sr. Rochester me carregou nos braços por uma prancha até em terra, e Sophie veio atrás, e entramos todos numa diligência, que nos levou a uma bela casa grande, maior que esta c mais bonita, chamada hotel. Ficamos ali quase uma semana: eu e Sophie saíamos a passear todos os dias, num lugar grande e cheio de árvores, chamado Park; e também havia muitas crianças lá além de mim, e um lago com belos pássaros, que eu alimentava com migalhas de pão. — Você pode entendê-la quando ela dispara tão rápido? — perguntou a Sra. Fairfax. 126

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Eu a entendia muito bem, pois estava acostumada à linguagem fluente de Madame Pierrot. — Eu desejo — continuou a boa senhora — que você lhe faça uma ou duas perguntas sobre seus pais. Imagino se ela se lembra deles. — Adela — perguntei — com quem você morava, quando estava nessa bela e limpa cidade de que falou? — Há muito tempo, eu morava com mamãe; mas ela se foi para a Santa Virgem. Mamãe me ensinou a dançar e a cantar, e a recitar versos. Muitos cavalheiros e damas vinham ver mamãe, e eu dançava diante deles, ou me sentava nos joelhos deles e cantava, gostava disso. Posso cantar para a senhorita agora? Acabara o seu desjejum, de modo que permiti que me desse uma mostra de seus talentos. Descendo de sua cadeira, ela veio colocar-se em meus joelhos; depois, cruzando as mãozinhas afetadamente na frente, pondo os cachos para trás com um gesto da cabeça e erguendo os olhos para o teto, começou a cantai uma canção de uma ópera. Era a ária de uma dama abandonada, que, após lamentar a perfídia do amado, invoca o orgulho em sua ajuda; deseja que seu pretendente a cubra com as jóias mais brilhantes e os mais ricos vestidos, e decide-se a enfrentar o falso nessa noite no baile, e provar-lhe, pela alegria de seu comportamento, quão pouco a deserção dele a afetou. O tema parecia estranhamente escolhido para uma cantora infantil; mas suponho que o interesse da exibição estava em ouvir as notas de amor e ciúme chilreadas com o cicio da infância; um interesse de muito mau gosto, de fato — pelo menos assim eu pensava. Adèle* cantou a cançoneta com bastante entoação, e com a naiveté de sua idade. Feito isso, saltou de meus joelhos e disse: — Agora, Mademoiselle, vou recitar para a senhorita um pouco de poesia. E, assumindo uma atitude, começou La Ligue des Rats; fable de La Fontaine.** Declamou a pequena peça com atenção à pontuação e à ênfase, com uma flexibilidade de voz e uma correção de gestos bastante incomuns, de fato, à sua idade, e que provava que fora Jane Eyre

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cuidadosamente treinada. — Foi sua mamãe quem lhe ensinou essa peça? — perguntei. — Sim; e ela a dizia assim: “Qu’avez-vous donc? lui dit un de ces rats; parlez!”*** Mandava-me erguer a mão... assim... para lembrar-me de erguer a voz na pergunta. Posso dançar agora para a senhorita? — Não, isso já chega. Mas depois que sua mãe foi para a Santa Virgem, como diz, com quem você foi morar? — Com Madame Frédéric e o marido dela; ela cuidava de mim, mas não é minha parenta. Acho que é pobre, porque não tinha uma casa tão bonita quanto a de mamãe. Não fiquei muito tempo lá. O Sr. Rochester me perguntou se eu gostaria de ir morar com ele na Inglaterra e eu disse que sim; pois conhecia o Sr. Rochester antes de conhecer a Madame Frédéric, e ele sempre foi bom para mim, e me dava bonitos vestidos e brinquedos; mas, sabe, ele não cumpriu sua palavra, pois me trouxe para a Inglaterra e agora voltou outra vez, e eu nunca o vejo. Após o desjejum, Adèle e eu nos retiramos para a biblioteca, aposento que, aparentemente, o Sr. Rochester ordenara que fosse usado como sala de aula. A maioria dos livros estava trancada por trás de portas de vidro; mas havia uma estante aberta, e que continha todo o necessário em matéria de obras elementares, etc. Suponho que, para ele, aquilo era tudo que a governanta precisaria para suas leituras pessoais; e na verdade me satisfez amplamente no momento; comparados com as escassas obras que eu pudera ocasionalmente ler em Lowood, aqueles livros pareciam oferecerme uma abundante safra de diversão e informação. No aposento havia também um piano, bastante novo e de qualidade superior, e ainda um cavalete de pintura e um par de globos. Achei minha pupila suficientemente dócil, embora sem inclinação à aplicação; não estava acostumada a uma ocupação regular de espécie alguma. Senti que não seria justo confiná-la demasiado a princípio; assim, depois de haver-lhe falado um bocado, e conseguido que aprendesse um pouco, e quando a manhã já alcançara o meio-dia, deixei-a voltar à sua babá. Então, decidi ocupar-me até a hora do jantar fazendo alguns pequenos 128

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desenhos para uso dela. Quando subia a escada para pegar minha pasta de desenho e os pincéis, a Sra. Fairfax me chamou: — Creio que suas aulas da manhã acabaram — ela disse. Estava num aposento cujas portas dobradiças permaneciam abertas. Entrei, quando ela me falou. Era um aposento grande, imponente, com cadeiras e cortinas púrpura, um tapete turco, paredes com painéis de nogueira, uma vasta janela rica em vitrais e um teto vistoso, nobremente modelado. A Sra. Fairfax espanava alguns vasos de fino espato púrpura. — Que bela sala! — exclamei, olhando em volta; pois jamais vira algo tão imponente. — Sim; esta é a sala de jantar. Acabei de abrir a janela, para deixar entrar um pouco de ar e sol; pois tudo fica tão úmido em aposentos pouco habitados; a sala de estar ao lado parece uma cripta. Indicou um amplo arco correspondente à janela, e guarnecido como ela com cortinas de padronagem tíria, agora enroladas. Subindo até lá por dois largos degraus, e olhando para dentro, pensei ter uma visão de um local de fadas, tão luminoso, a meus olhos de noviça, pareceu o ambiente além. E no entanto, era apenas uma sala de estar muito bonita, e dentro dela um boudoir, ambos cobertos com tapetes brancos, sobre os quais parecia haver brilhantes guirlandas de flores; ambos com modelagens semelhantes a neve no teto, formando uvas e folhas de parreira brancas, abaixo das quais fulgiam em rico contraste sofás e otomanas rubras; enquanto os enfeites no claro aparador da lareira eram de faiscantes cristais da Boêmia, cor de rubi; e entre as janelas, grandes espelhos duplicavam a mistura geral de neve e fogo. — Em que ordem a senhora mantém estes quartos, Sra. Fairfax! — eu disse — Nenhuma poeira, nenhuma capa. A não ser pelo ar frio, dirse-ia que são freqüentados todos os dias! — Ora, Srta. Eyre, embora as visitas do Sr. Rochester a esta casa sejam raras, são sempre súbitas e inesperadas; e como Jane Eyre

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observei que o irrita encontrar tudo embalado, e uma correria de arrumações à sua chegada, achei melhor manter os aposentos prontos. — O Sr. Rochester é do tipo exigente, difícil de contentar? — Não, particularmente; mas tem os gostos e hábitos de um cavalheiro, e espera que se trate de tudo de acordo com eles. — A senhora gosta dele? As pessoas gostam dele, em geral? — Oh, sim; a família sempre foi respeitada aqui. Quase toda a terra nessa vizinhança, até onde se pode ver, pertence aos Rochester há tempos imemoriais. — Sim, mas deixando a terra de lado, a senhora gosta dele? Gostam dele por si mesmo? — Eu não tenho motivo para não gostar dele; e creio que seus rendeiros o consideram um proprietário justo e liberal, mas ele nunca viveu muito entre eles. — Mas não tem peculiaridades? Qual é, em suma, o seu caráter? — Oh, seu caráter é inatacável, suponho. É um tanto peculiar, talvez: viajou muito, e viu muito do mundo, eu pensaria. Diria que é inteligente; mas nunca tive muita conversa com ele. — De que modo ele é peculiar? — Não sei... não é fácil de descrever... nada impressionante, mas a gente o sente quando ele fala com a gente, não se pode ter sempre certeza sobre se está brincando ou falando sério, se está satisfeito ou o contrário; em suma, não se pode entendê-lo inteiramente... pelo menos eu não posso; mas isso não tem muita importância, pois é um patrão muito bom. Esta foi toda explicação que obtive da Sra. Fairfax sobre o seu patrão e o meu. Há pessoas que parecem não ter a mínima noção de como se esboça uma personalidade, ou de como se observam e descrevem pontos destacados, em pessoas ou em coisas: a boa senhora evidentemente pertencia a esse tipo; minhas perguntas a intrigavam, mas não a puxavam para fora. A seus olhos, o Sr. Rochester era o Sr. Rochester; um proprietário de terras — nada mais: ela não perguntava nem investigava além disso, e evidentemente se surpreendia com meu desejo de obter uma idéia 130

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mais definida da identidade dele. Quando deixamos a sala de jantar, ela propôs mostrar-me o resto da casa, e eu a segui escadas acima e abaixo, admirandome à medida que prosseguia; pois tudo era bem arrumado e bonito. Os grandes quartos da frente, acheio-os especialmente grandiosos; e alguns do terceiro andar, apesar de escuros c baixos, eram interessantes pelo seu ar de antigüidade. Os móveis outrora adequados aos aposentos mais baixos haviam sido removidos de tempos em tempos para ali, à medida que a moda mudava; e a luz imperfeita que entrava por seus estreitos caixilhos mostrava camas de cem anos atrás; arcas de carvalho ou nogueira, parecendo, com seus estranhos ornamentos lavrados de galhos de coqueiros e cabeças de querubins, tipos da arca dos hebreus; fileiras de veneráveis cadeiras, de espaldar alto e estreito; bancos ainda mais antiquados, em cujos assentos estofados se viam ainda traços de bordados meio apagados, feitos por dedos que há duas gerações já eram pó. Todas essas relíquias davam ao terceiro andar de Thornfield Hall o aspecto de uma casa do passado — um santuário da memória. Eu gostava do silêncio, da escuridão, da estranheza daqueles redutos durante o dia; mas de modo algum ambicionava dormir uma noite numa daquelas amplas e pesadas camas, algumas delas fechadas com portas de carvalho; outras sombreadas com velhos cortinados ingleses cobertos de grosso lavor, retratando efígies de estranhas flores, pássaros mais estranhos, e seres humanos mais estranhos ainda — coisas que teriam parecido estranhas de fato à pálida luz da lua. — Os criados dormem nestes quartos? — perguntei. — Não; eles ocupam uma série de aposentos menores nos fundos; ninguém jamais dorme aqui. Quase se diria que, se houvesse um fantasma em Thornfield Hall, este seria o seu antro. — É o que eu penso. Não têm fantasma aqui? — Não que eu saiba — respondeu a Sra. Fairfax, sorrindo. — Nem há tradição de algum? Nenhuma lenda ou história de fantasmas? — Creio que não. E no entanto, diz-se que os Rochesters foram uma raça mais violenta que tranqüila em seu tempo. Talvez, Jane Eyre

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porém, seja este o motivo pelo qual repousam tranqüilamente em seus túmulos agora. — Sim... “após a febre própria da vida eles dormirão bem” — murmurei. — Onde vai agora, Sra. Fairfax? — perguntei, porque ela se afastava. — Para o terraço; quer vir comigo e ver o panorama lá de cima? Segui calada, subindo uma escada muito estreita para o sótão, e dali, por outra escada e passando por um alçapão no teto, até o telhado da mansão. Estava agora no mesmo nível da colônia de corvos, e podia ver o interior de seus ninhos. Curvando-me sobre as ameias e olhando lá embaixo, examinei os terrenos estendidos como num mapa; a relva brilhante e aveludada cercando estreitamente a base cinza da mansão; o campo, amplo como um parque, pontilhado de suas árvores antigas; o bosque, pardo e seco, dividido por um caminho visivelmente invadido pelo mato, mais verde de musgo que de árvores com folhagem; a igreja no portão, a estrada, as tranqüilas montanhas, tudo repousando ao sol do dia outonal; o horizonte cercado por um céu propício, azul, marmorizado com um branco de pérola. Nenhum traço do panorama era extraordinário, mas o todo agradava. Quando lhe demos as costas e tornamos a passar pelo alçapão, mal pude ver o caminho escada abaixo; o sótão parecia negro como uma cripta, comparado com aquele arco de ar azul ao qual estivera olhando, e com aquele ensolarado cenário de sulcos, pastos e montanhas verdes do qual a mansão era o centro, e ao qual eu estivera olhando com deleite. A Sra. Fairfax ficou para trás um momento, para fechar o alçapão. Às apalpadelas, encontrei a saída do sótão e desci a estreita escada. Demorei-me no extenso corredor ao qual dava essa escada, e que separava os quartos da frente e de trás do terceiro andar — estreito, baixo e escuro, com apenas uma pequena janela no extremo oposto, e parecendo, com suas duas filas de pequenas portas pretas todas fechadas, um corredor num castelo de BarbaAzul. Enquanto andava por ali sem fazer barulho, chegou-me aos ouvidos o último som que esperava ouvir numa região tão 132

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silenciosa — uma risada. Era uma risada curiosa — clara, formal, sem alegria. Parei. O som cessou, apenas por um instante. Começou de novo, mais alto — pois o primeiro, apesar de muito claro, fora muito baixo. Transformou-se num clamoroso estrépito, que pareceu ecoar em todos os quartos vazios, embora se originasse em apenas um, e eu poderia ter apontado a porta de onde saía. — Sra. Fairfax! — gritei, pois agora a ouvia descendo as grandes escadas. — A senhora ouviu essa risada alta? Quem é? — Alguma das criadas, muito provavelmente — ela respondeu. — Talvez Grace Poole. — A senhora ouviu? — tornei a perguntar. — Sim, claramente; muitas vezes a ouço. Ela costura num desses quartos. Às vezes Leah fica com ela; as duas muitas vezes são barulhentas. A risada repetiu-se em seu tom baixo, silábico, e terminou num curioso murmúrio. — Grace! — exclamou a Sra. Fairfax. Eu realmente não esperava que nenhuma Grace respondesse, pois a risada era mais trágica, sobrenatural, do que qualquer uma que já ouvi; e, não fosse pelo fato de que era uma hora da tarde, e de que nenhuma circunstância fantasmagórica acompanhava a curiosa gargalhada; não fosse pelo fato de que nem o cenário nem o momento favoreciam o medo, eu teria ficado supersticiosamente apavorada. Contudo, o acontecimento mostrou-me que eu era uma tola por alimentar um senso até de surpresa. A porta mais próxima a mim se abriu, e uma criada apareceu — uma mulher entre os trinta e os quarenta anos; figura baixa, quadrada, ruiva e com um rosto duro e vulgar: dificilmente se poderia conceber uma aparição menos romântica ou menos fantasmal. — Barulho demais, Grace — disse a Sra. Fairfax. — Lembre-se das instruções. Grace fez uma mesura em silêncio e entrou. — É uma pessoa que temos para costurar e ajudar Leah em seu trabalho de criada — continuou a viúva. — Não inteiramente irrepreensível em alguns pontos, mas vai bastante bem. A Jane Eyre

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propósito, como foi a senhorita com sua nova pupila esta manhã? A conversa transposta assim para Adèle continuou até chegarmos à região iluminada e alegre embaixo. Adèle veio correndo encontrar-nos no saguão, exclamando: — Mesdames, vous êtes servies! — E acrescentando: — J’ai bien faim, moi!* Encontramos o almoço pronto e à nossa espera na sala da Sra. Fairfax.

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CAPÍTULO 12

A

promessa de uma carreira tranqüila, que minha primeira e calma introdução a Thornfield Hall parecera representar, não foi desmentida pelo conhecimento mais demorado do lugar e seus habitantes. A Sra. Fairfax mostrou ser o que parecia, uma mulher de temperamento plácido e natureza bondosa, de educação competente e inteligência mediana. Minha pupila era uma criança viva, que tinha sido mimada e estragada, e por conseguinte se mostrava às vezes obstinada; mas como estava inteiramente entregue aos meus cuidados, e como nenhuma interferência indevida, de qualquer parte, frustrava meus planos para seu aperfeiçoamento, ela logo esqueceu seus pequenos caprichos e se tornou obediente e ensinável. Não tinha grandes talentos, nem traços de caráter acentuados, nem um desenvolvimento peculiar de sentimento ou gosto que a elevassem uma polegada acima do nível comum da infância; mas tampouco tinha alguma deficiência ou vício que a fizessem descer abaixo desse nível. Fazia razoável progresso, alimentava por mim uma viva afeição, embora talvez não muito profunda; e com sua simplicidade, sua tagarelice alegre e seus esforços para agradar, inspirava-me em troca um grau de ligação suficiente para fazer-nos ambas contentes com a companhia uma da outra. Esta, par parenthèse, será julgada uma linguagem fria, por pessoas que nutrem solenes doutrinas sobre a natureza angelical Jane Eyre

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das crianças e o dever dos encarregados de sua educação de conceber por elas uma devoção idolatra. Mas não escrevo para bajular egoísmos paternos, para repetir lugares-comuns ou promover imposturas; simplesmente digo a verdade. Sentia uma consciente solicitude pelo bem-estar e progresso de Adèle, e uma tranqüila simpatia por sua pessoinha; do mesmo modo como nutria pela Sra. Fairfax um sentimento de gratidão por sua bondade, e um prazer em sua companhia proporcional à tranqüila consideração que ela tinha por mim e à moderação de sua mente e caráter. Pode me censurar quem quiser, quando eu acrescentar ainda que, uma vez ou outra, quando passeava sozinha pela propriedade; quando descia até os portões e olhava por eles a estrada; ou quando, enquanto Adèle brincava com sua babá, e a Sra. Fairfax fazia geléias na despensa, eu subia as três escadas, erguia o alçapão do sótão e, tendo chegado ao telhado, olhava à distância os campos e montes confinados e a linha do horizonte — ansiava por um poder de visão que ultrapassasse aquele limite; que alcançasse o mundo ativo, as cidades, as regiões cheias de vida das quais ouvira falar mas nunca vira; desejava mais experiência prática que a que possuía; maior relacionamento com minha espécie, maior conhecimento de caráteres variados, do que o que havia ali ao meu alcance. Eu valorizava o que era bom na Sra. Fairfax, e o que era bom em Adèle; mas acreditava na existência de outros e mais vividos tipos de bondade, e o que acreditava queria contemplar. Quem me censura? Muitos, sem dúvida: e serei chamada de descontente. Eu não podia impedi-lo, a inquietação estava em minha natureza; agitava-me até a dor às vezes. Então meu único alívio era caminhar pelo corredor do terceiro andar, de um lado para outro, segura no silêncio e na solidão do local, e deixar que minha visão mental repousasse em quaisquer panoramas luminosos que se erguessem diante dela — e certamente eram muitos e refulgentes; deixar meu coração pesar com o movimento de exultação que, fazendo-o inchar de perturbações, o expandia de vida; e, melhor ainda, abrir meu ouvido interior para uma história 136

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que nunca acabava — uma história que minha imaginação criava e narrava continuamente; acelerada com todos os incidentes, vida, fogo, sentimentos que eu desejava e não tinha em minha existência real. É inútil dizer que os seres humanos devem satisfazer-se com a tranqüilidade; eles precisam de ação; e a criarão se não puderem encontrá-la. Milhões são condenados a uma sorte mais parada que a minha, e milhões estão em silenciosa revolta contra seu destino. Ninguém sabe quantas rebeliões, além das rebeliões políticas, fermentam nas massas de vida que povoam a terra. Supõe-se que as mulheres são muito calmas em geral, mas elas sentem da mesma forma que os homens; precisam tanto do exercício para suas faculdades, e de um campo para seus esforços, quanto seus irmãos; sofrem com uma contenção demasiado rígida, uma estagnação demasiado absoluta, exatamente como os homens sofreriam; e é tacanhez das criaturas irmãs mais privilegiadas dizer que elas devem limitar-se a fazer pudins e tricotar meias, a tocar piano e bordar mochilas. É impensado condená-las, ou rir delas, se buscam fazer mais ou aprender mais que o que os costumes decretam necessário para seu sexo. Quando assim sozinha, eu ouvia não poucas vezes a risada de Grace Poole, o mesmo estrépito, o mesmo haê ha! baixo, lento, que, quando ouvi pela primeira vez, me arrepiou: ouvia também seus excêntricos murmúrios, mais estranhos que seu riso. Havia dias em que ela ficava muito calada; mas em outros eu não podia explicar os sons que fazia. Às vezes eu a via: ela saía de seu quarto com uma tigela, ou um prato, ou uma bandeja nas mãos, descia à cozinha e em breve voltava, geralmente (oh, leitor romântico, perdoe-me por dizer a verdade chã!) trazendo uma caneca de cerveja. O aparecimento dela sempre atuava como um arrefecedor da curiosidade que suas excentricidades orais despertavam; feições duras e calma, não tinha nenhum ponto que pudesse causar interesse. Fiz algumas tentativas de atraí-la a uma conversa, mas parecia uma pessoa de poucas palavras: uma resposta monossilábica geralmente cortava todo esforço nesse sentido. Jane Eyre

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Os outros membros da casa, isto é, John e sua mulher, Leah, a criada, e Sophie, a babá francesa, eram pessoas decentes, mas de modo nenhum notáveis; com Sophie eu costumava falar em francês, e às vezes fazia-lhe perguntas sobre seu país natal; mas ela não tinha uma veia narrativa ou descritiva, e geralmente dava respostas tão insípidas e confusas que pareciam calculadas mais para conter do que para encorajar a curiosidade. Outubro, novembro, dezembro passaram-se. Uma tarde, em janeiro, a Sra. Fairfax pediu um feriado para Adèle, porque ela estava com um resfriado; e como a menina apoiara o pedido com um ardor que me lembrara como os feriados tinham sido preciosamente poucos em minha infância, concedi-o, achando que demonstrava flexibilidade nesse ponto. Era um dia bonito, calmo, apesar de muito frio; eu estava cansada de sentar-me quieta na biblioteca por toda uma longa manhã; a Sra. Fairfax acabara de escrever uma carta que esperava ser enviada, de modo que pus minha touca e ofereci-me para levá-la ao correio em Hay; a distância, duas milhas, daria um agradável passeio vesperal. Tendo posto Adèle confortavelmente sentada em sua cadeirinha diante da lareira no parlatório da Sra. Fairfax, e após dar-lhe sua melhor boneca de cera (que eu geralmente mantinha embrulhada em papel prateado numa gaveta) para brincar, e um livro de histórias para variar de divertimento; e tendo respondido a seu “Revenez bientôt, ma bonne amie, ma chère Mlle Jeannette”* com um beijo, parti. A terra estava dura, o ar parado, a estrada solitária; apertei o passo até aquecer-me, e depois afrouxei-o, para desfrutar e analisar as espécies de prazer que se me apresentavam naquele momento e situação. Eram três horas; o sino da igreja bateu quando eu passava embaixo do campanário; o encanto da hora estava no lusco-fusco que se aproximava, no pálido sol que deslizava lentamente para baixo. Eu estava a uma milha de Thornfield, numa alameda conhecida pelas rosas silvestres no verão, pelas nozes e amoras pretas no outono, e que mesmo agora possuía alguns tesouros corais em frutos de roseira brava e de espinheiro, mas cujo maior deleite no inverno eram sua absoluta 138

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solitude e seu desfolhado repouso. Se uma lufada de ar soprava, não fazia nenhum som ali; pois não havia nem um azevim, nem uma sempre-viva para farfalhar, e as macegas de espinheiros e aveleiras estavam tão paradas quanto as polidas pedras brancas que julcavam o meio da estrada. Até muito longe, de ambos os lados, viam-se apenas campos, onde nenhum gado pastava agora; e os poucos passarinhos pardos que saltitavam ocasionalmente na sebe pareciam solitárias folhas de macieira brava que haviam esquecido de cair. Essa alameda subia a encosta até Hay; tendo chegado ao meio, sentei-me nos degraus de um passadiço que ia dar num campo vizinho. Abrigando-me mais dentro do casaco, e protegendo as mãos no regalo, eu não sentia o frio que, no entanto, era de congelar, como o mostrava uma camada de gelo que cobria a pequena ponte, embaixo da qual um pequeno arroio, agora congelado, havia transbordado após um rápido degelo alguns dias antes. De meu lugar podia ver Thornfield lá embaixo; a mansão cinzenta e com ameias era o principal objeto no vale a meus pés; seus bosques e seus negros corvos erguiam-se contra o poente. Ali fiquei até que o sol mergulhou entre as árvores, desaparecendo rubro e nítido no meio delas. Depois virei-me para o leste. No cume da montanha à minha frente pairava a lua nascente; pálida ainda, como uma nuvem, mas tornando-se mais vivida a cada momento; pairava sobre Hay, que, meio perdida entre as árvores, desprendia uma fumaça azulada de suas poucas chaminés; estava ainda a uma milha, mas no absoluto silêncio eu podia ouvir claramente os débeis murmúrios de sua vida. Meus ouvidos sentiam também o fluir dos regatos, em que vales e profundezas eu não saberia dizer, mas havia muitas montanhas além de Hay, e sem dúvida muitos fios d’água atravessavam suas gargantas. Aquele silencioso entardecer denunciava igualmente o marulhar dos regatos mais próximos e o murmúrio dos mais remotos. Um barulho forte irrompeu sobre esses delicados marulhos e murmúrios ao mesmo tempo tão distantes e tão claros, um decidido toque-toque, um clangor metálico, que abafou o suave Jane Eyre

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fluir das correntes; como, num quadro, a sólida massa de um penhasco, ou os rudes troncos de um grande carvalho, desenhados fortes e negros no fundo, desfazem a diáfana distância de uma montanha azul, um ensolarado horizonte e nuvens, onde os tons se dissolvem. O barulho era no pontilhão; um cavalo se aproximava; as curvas da estrada ainda o ocultavam, mas chegava cada vez mais perto. Eu acabava de deixar meu assento; mas, como a estrada era estreita, fiquei parada para deixá-lo passar. Naquele tempo eu era jovem, e toda espécie de fantasias, boas e más, me ocupavam a mente; lembranças de histórias da carochinha lá estavam, entre outras tolices; e quando retornavam, a juventude em amadurecimento acrescentava-lhes um vigor e vividez além do que a infância poderia dar. À medida que aquele cavalo se aproximava, e eu esperava que aparecesse em meio ao luscofusco, lembrei-me de algumas das histórias de Bessie, nas quais figurava um espírito do norte da Inglaterra chamado “Gytrash”, que em forma de cavalo, mula ou cachorro grande, assombrava as estradas solitárias, e às vezes caía sobre viajantes retardatários, do mesmo modo como aquele cavalo vinha agora sobre mim. Estava muito perto, mas ainda não à vista, quando, além do toque-toque, ouvi um movimento debaixo da sebe, e ali perto, ao lado dos galhos da aveleira, deslizou um grande cão, cujo pêlo branco e preto o tornava um objeto distinto contra as árvores. Era uma máscara exata do Gytrash de Bessie — uma criatura leonina de pêlo longo e cabeça enorme, mas passou por mim muito tranqüilo, sem parar para olhar, com aqueles estranhos olhos sobrenaturais, o meu rosto, como eu esperara que fizesse. Veio a seguir o cavalo — um animal grande, tendo às costas um cavaleiro. O homem, o ser humano, quebrou imediatamente o encanto. Nada cavalgara jamais um Gytrash: ele andava sempre só; e os gobelinos, ao que eu sabia, embora pudessem habitar as carcaças brutas dos animais, dificilmente poderiam querer abrigo na vulgar forma humana. Aquilo não era nenhum Gytrash — penas um viajante tomando um atalho para Millcote. Ele passou e seguiu adiante. Dei uns poucos passos e voltei-me; o som de um 140

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escorregão, uma exclamação — “Que diabo é isso agora?” — e um sonoro baque me tinham chamado a atenção. Cavalo e cavaleiro jaziam no chão; haviam escorregado na camada de gelo que cobria o passadiço. O cachorro voltou aos saltos, e vendo seu amo num apuro, e ouvindo o cavalo gemer, latiu até as montanhas noturnas ecoarem o som, que era profundo, em relação ao seu tamanho. Ele farejou em volta do grupo prostrado, e depois correu ao meu encontro; era tudo que podia fazer — não havia outra ajuda à mão que pudesse convocar. Obedeci-lhe e desci até o viajante, que a essa altura lutava para livrar-se do cavalo. Seus esforços eram tão vigorosos, que achei que não podia estar muito machucado; mas fiz-lhe a pergunta: — Está ferido, senhor? Penso que ele praguejava, mas não estou segura; contudo, pronunciava alguma fórmula que o impediu de responder-lhe imediatamente. — Posso fazer alguma coisa? — tornei a perguntar. — Deve simplesmente não se meter — ele respondeu ao levantar-se, primeiro pondo-se de joelhos, e depois de pé. Fiz o que ele mandava, em seguida ao que teve início um processo de arquejar, bater os pés, sons metálicos, acompanhado de latidos e uivos, que me afastaram realmente algumas jardas; mas eu não seria afastada até ver o que aconteceria. O resultado terminou sendo feliz; o cavalo restabeleceu-se e o cachorro foi silenciado com um “Sente-se, Pilot!” O viajante, agora curvado, apalpava o pé e a perna, como se examinasse se estavam inteiros; aparentemente alguma coisa lhe doía, pois ele parou no pontilhão de onde eu acabava de me levantar e sentou-se. Eu estava numa disposição de querer ser útil, ou pelo menos solícita, creio, porque tornei a me aproximar dele. — Se está machucado e precisa de ajuda, senhor, posso ir chamar alguém de Thornfield Hall ou de Hay. — Obrigado; posso passar sem isso, não tenho nenhum osso quebrado... só uma torção. — E novamente se levantou e experimentou o pé, mas o resultado arrancou-lhe um involuntário, — Ugh! Jane Eyre

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Ainda restava um pouco de claridade do dia, e a lua tornavase mais luminosa; eu podia vê-lo claramente. Sua figura estava envolta num casaco de montaria, com gola de pele e fivela de aço; os detalhes não eram visíveis, mas identifiquei os pontos gerais — altura média e peito consideravelmente largo. Tinha um rosto moreno, com traços severos e uma fronte pesada: os olhos e as sobrancelhas unidas pareciam irados e frustrados naquele momento; ele já passara da juventude, mas ainda não chegara à meia idade; teria talvez uns trinta e cinco anos. Eu não sentia medo dele, e apenas um pouco de timidez. Fosse um jovem cavalheiro bonito, de aparência heróica, eu não teria ousado ficar assim a questioná-lo contra a sua vontade, e a oferecer meus serviços não solicitados. Eu dificilmente vira algum dia um jovem bonito, e jamais em minha vida falara com um. Tinha uma reverência e uma veneração teóricas pela beleza, a elegância, a galanteria, o fascínio; mas se encontrasse essas qualidades encarnadas em forma masculina, teria sabido instintivamente que elas não tinham nem podiam ter simpatia com qualquer coisa em mim, c as teria afastado como se afasta o fogo, o raio ou qualquer outra coisa brilhante mas antipática. Se mesmo aquele estranho houvesse sorrido e se mostrasse bem-humorado quando lhe falei; se tivesse recusado minha oferta de ajuda alegremente e com agradecimentos, eu teria seguido meu caminho sem sentir nenhuma vocação para renovar as perguntas, mas a carranca, a rudeza do viajante me deixaram à vontade, mantive minha posição quando ele me mandou ir embora com um gesto, anunciei: — Não posso pensar em deixá-lo, senhor, a uma hora tão tardia, nesta alameda solitária, até constatar que pode montar em seu cavalo. Ele olhou quando eu disse isso: mal tinha voltado os olhos em minha direção antes. — Julgo que a senhorita deveria estar em casa — disse — se é que tem uma casa por aqui. De onde vem? — De pouco abaixo; e não tenho medo algum de ficar fora até tão tarde quando há lua. Irei a Hay para o senhor com todo 142

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prazer, se o senhor o desejar; na verdade, estou indo para lá, a fim de pôr uma carta no correio. — A senhorita mora pouco abaixo... quer dizer, naquela casa com ameias? — apontava para Thornfield Hall, sobre a qual a lua lançava uma branca claridade, ressaltando-a distinta e pálida dos bosques, que, em contraste com o céu do ocidente, agora pareciam uma única massa de sombra. — Sim, senhor. — De quem é a casa? — Do Sr. Rochester. — A senhorita conhece o Sr. Rochester? — Não, nunca o vi. — Ele não mora lá, então. — Não. — Sabe me dizer onde ele está? — Não sei. — A senhorita não é uma das criadas da mansão, por certo. É... — Parou, correu os olhos pelo meu vestido, que como sempre era simples — um casaco negro de merino, um chapéu negro de castor; nem um deles suficientemente refinado para a criada de uma dama. Pareceu intrigado para determinar o que eu era. — Sou a governanta. — Ah, a governanta! — ele repetiu. — Diabos me levem se eu não tinha esquecido! A governanta! — E novamente meus trajes passaram por um exame. Em dois minutos, ele se levantou da amurada; seu rosto expressou sofrimento quando tentou se mover. — Não posso mandá-la buscar ajuda — ele disse. — Mas a senhorita pode me ajudar um pouco, se tiver a bondade. — Sim, senhor. — Não tem uma sombrinha, que eu possa usar como bengala? — Não. — Tente agarrar a brida de meu cavalo e trazê-lo a mim. Não tem medo? Eu devia ter medo de tocar um cavalo quando só, mas ordenada a fazê-lo, estava disposta a obedecer. Pus meu regalo no pontilhão Jane Eyre

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e encaminhei-me para o grande animal; tentei agarrar a brida, mas ele era um bicho esquentado, e não me deixava chegar perto de sua cabeça; fiz seguidos esforços, em vão: enquanto isso, sentia um medo mortal de suas patas dianteiras. O viajante esperou e observou por algum tempo, e finalmente riu. — Estou vendo — disse — que a montanha jamais será trazida a Maomé; assim, a única coisa que a senhorita pode fazer é ajudar Maomé a ir à montanha; devo pedir-lhe que venha cá. Fui. — Desculpe-me — ele continuou. — A necessidade obriga-me a usá-la. — Pôs uma pesada mão em meu ombro e, apoiando-se em mim com alguma força, manquejou até o cavalo. Tendo agarrado a brida, dominou-o logo e saltou sobre a sela, fazendo sombrias caretas durante esse esforço, pois forçava sua torção. — Agora — disse, soltando o lábio inferior de uma forte mordida — dê-me o chicote; está ali debaixo da sebe. Procurei-o e encontrei-o. — Obrigado; agora apresse-se com essa carta para May, e volte o mais breve possível. Um toque de espora fez o cavalo primeiro sobressaltar-se e recuar, e depois saltar para a frente; o cachorro disparou em suas pegadas: os três desapareceram... “Como urzes que, no agreste, O vento bravo leva no redemoinho.” Peguei meu regalo e segui em frente. O incidente ocorrera e passara: fora, em certo sentido, um incidente sem nenhuma importância, nenhum romance, nenhum interesse; e no entanto, marcara com a mudança uma hora de uma vida monótona. Minha ajuda fora necessária e solicitada, eu a dera, estava satisfeita por ter feito alguma coisa; trivial e transitório como fora o fato, ainda assim era uma coisa ativa, e eu estava cansada de uma existência inteiramente passiva. O novo rosto, também, era como um novo quadro introduzido na galeria da memória, e não se assemelhava a nenhum dos outros que pendiam ali, primeiro, porque era masculino; e segundo, porque era moreno, forte e severo. Ainda o tinha à minha frente quando entrei em Hay e pus a carta no 144

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correio, via-o quando desci depressa a colina até em casa. Quando cheguei ao passadiço, parei um minuto, olhei em volta e fiquei à escuta, com a idéia de que cascos do cavalo poderiam ressoar de novo ali, e de que um cavalheiro metido num casaco, acompanhado de um cão Newfoundland parecendo um Gytrash, poderia aparecer novamente: vi apenas a sebe e um salgueiro à minha frente, erguendo-se imóvel e reto ao encontro dos raios de lua; ouvi apenas a mais fraca lufada de vento correndo entre as árvores em volta de Thornfield, a uma milha de distância; e quando baixei o olhar na direção do murmúrio, meus olhos, atravessando a frente da mansão, divisaram uma luz brk lhando numa janela: isso me lembrou de que estava atrasada, e apresseime. Eu não gostava de voltar a Thornfield. Transpor sua soleira era retornar à estagnação; atravessar o silencioso saguão, subir a escura escada, buscar meu quartinho solitário, e depois encontrar a tranqüila Sra. Fairfax e passar a longa noite de inverno com ela, e somente ela, era abafar inteiramente a débil sensação causada pelo meu passeio — lançar novamente sobre minhas faculdades as cadeias cegas de uma existência uniforme e demasiado parada; de uma existência da qual até os privilégios de segurança e conforto eu me tornava incapaz de apreciar. Que bem me faria, naquela época, ser jogada nas tormentas de uma vida incerta e de lutas, e aprender com a rude e amarga experiência a ansiar pela calma em meio à qual agora me lamentava! Sim, quase o mesmo bem que faria a um homem cansado de ficar sentado, parado, numa “poltrona confortável demais”, dar uma longa caminhada; e quase tão natural era o meu desejo de me mover, em minhas circunstâncias, quanto seria o dele. Demorei-me nos portões; demorei-me no gramado; andei de um lado para outro na calçada: os estores das portas de vidro estavam fechados; eu não podia ver lá dentro; e meus olhos e espírito pareciam igualmente atraídos para longe da sombria casa — daquele grande vazio composto de células sem luz, segundo me parecia — para aquele céu que se expandia à minha frente — um mar azul intocado por qualquer sugestão de nuvem; a lua Jane Eyre

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subindo-o em sua marcha solene, o disco parecendo olhar para cima, ao transpor os cumes das montanhas de trás das quais saíra, e que ficavam cada vez mais longe abaixo, e aspirar ao zê-nite, agora escuro como à meia-noite em sua insondável profundeza e imensurável distância; e quanto às trêmulas estrelas que lhe acompanhavam o curso, faziam meu coração tremer, minhas veias refulgirem quando as via. Pequenas coisas nos chamam de volta à terra: o relógio bateu no saguão; foi o bastante. Dei as costas à lua e às estrelas, abri uma porta lateral e entrei. O saguão estava às escuras, não fora ainda iluminado, a não ser pela lâmpada de bronze pendurada muito alto. Um quente fulgor banhava o aposento e os degraus de baixo da escada de carvalho. Essa luz avermelhada vinha da grande sala de jantar, cuja porta de duas folhas estava aberta, e mostrava um fogo agradável na grade, reluzindo no batente de mármore da lareira e nos atiçadores de bronze, e revelando os tecidos púrpura e os móveis polidos na mais agradável radiação. Revelava também um grupo perto da lareira. Eu mal o percebera, e mal tomara consciência da animada mistura de vozes, entre as quais me pareceu distinguir a de Adèle, quando a porta se fechou. Corri ao quarto da Sra. Fairfax. Havia um fogo lá também, mas nenhuma vela, e nada da Sra. Fairfax. Em vez disso, sentado empertigado no tapete, inteiramente só, e olhando com gravidade o fogo, vi um grande cachorro preto e branco, de pêlo longo, exatamente como o Gytrash da alameda. Era tão parecido com ele que me adiantei e disse “Pilot”, e o animal se levantou, veio até mim e me cheirou. Acariciei-o, e ele abanou a grande cauda; mas parecia uma criatura fantástica para se ficar só com ele, e eu não sabia de onde viera. Toquei a sineta, pois queria uma vela; e queria também uma explicação sobre aquele visitante. Leah entrou. — Que cachorro é esse? — Veio com o amo. — Com quem? — Com o amo... o Sr. Rochester... ele acabou de chegar. — Verdade? E a Sra. Fairfax está com ele? 146

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— Sim, e a Srta. Adela; estão na sala de jantar, e John foi buscar um médico, pois o amo sofreu um acidente. O cavalo dele caiu, e ele torceu o pé. — O cavalo caiu em Hay Lane? — Sim, descendo a ladeira; escorregou no gelo. — Ah! Traga-me uma vela, por favor, Leah. Leah a trouxe. Entrou acompanhada pela Sra. Fairfax, que repetiu as notícias, acrescentando que o Sr. Carter, o médico, chegara, e estava agora com o Sr. Rochester. Depois correu para fora, a fim de dar ordens sobre o chá, e eu subi as escadas para tirar minhas coisas.

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CAPÍTULO 13

O

Sr. Rochester, aparentemente, a julgar pelas ordens do médico, foi para a cama cedo naquela noite; e tampouco se levantou cedo na manhã seguinte. Quando desceu, foi para tratar de negócios. Seu agente e alguns de seus rendeiros tinham chegado, e esperavam para falar-lhe. Adèle e eu tínhamos agora de desocupar a biblioteca: seria requisitada todo dia como sala de recepção para os visitantes. Acendeu-se um fogo no aposento de cima, e para ali levei nossos livros e o arrumei para ser a futura sala de aula. Percebi com o correr da manhã que Thornfield era um lugar mudado. Não mais silencioso como uma igreja, ressoava a cada uma ou duas horas com uma batida na porta ou o toque da sineta. Passos também cruzavam freqüentemente o saguão, e novas vozes falavam em diferentes tons lá embaixo. Um riacho vindo do mundo externo o atravessava. Tinha um amo; de minha parte, eu gostava mais assim. Adèle não foi fácil de ensinar naquele dia; não conseguia concentrar-se. Corria o tempo todo para a porta e olhava por sobre o corrimão para ver se conseguia ter um vislumbre do Sr. Rochester. Depois inventava pretextos para ir lá embaixo, a fim, como desconfiei, de visitar a biblioteca, onde eu sabia que não a queriam. Depois, quando fiquei um tanto irritada e a fiz sentarse quieta, ela continuou a falar incessantemente de seu “ami 148

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Monsieur Édouard Fairfax de Rochester”, como o chamava (eu não ouvira antes seus prenomes), e a conjeturar sobre que presentes ele lhe trouxera; pois parece que ele insinuara na noite passada que, quando sua bagagem chegasse de Millcote, se encontraria no meio uma caixinha em cujo conteúdo ela tinha um interesse. — Et cela doit signifier — ela dizia — qu’il y aura là-de-dans un cadeau pour moi, et peut-être pour vous aussi, mademoiselle. Monsieur a parle de vous: il m’a demande le nom de ma gouvernante, et si elle n’était pas une petite personne, assez mince et un peu pàle. J’ai dit qu’oui: car c’est vrai, n’est-ce pas, mademoiselle?* (E isso deve querer dizer que haverá dentro dela um presente para mim, e talvez para a senhorita também, mademoiselle. O senhor falou da senhorita: perguntou-me o nome de minha governanta, e se não era pessoa pequenina, muito magra e um pouco pálida. Respondi que sim: pois é verdade, não é, mademoiselle?) Eu e minha pupila almoçamos como sempre no parlatório da Sra. Fairfax. A tarde foi inclemente e nevada, e a passamos na sala de aula. Ao escurecer, permiti que Adèle deixasse os livros e o estudo, e corresse lá para baixo, pois, pelo relativo silêncio, e pela cessação dos chamados na sineta da porta, conjeturei que o Sr. Rochester estava agora livre. Ficando só, dirigi-me à janela; mas nada havia para ver ali. O crepúsculo e os flocos de neve adensavam o ar, e ocultavam até os arbustos do gramado. Deixei cair a cortina e retornei para junto do fogo. Identificava nas brasas vivas uma paisagem, não muito diferente de um quadro que me lembrava ter visto do castelo de Heidelberg, no Reno, quando a Sra. Fairfax entrou, desfazendo com sua entrada o ardente mosaico que eu estivera armando, e espalhando também alguns pensamentos pesados e importunos que começavam a atropelar minha solidão. — O Sr. Rochester ficaria agradecido se você e sua pupila tomassem chá com ele na sala de visitas esta noite — ela disse. — Esteve tão ocupado o dia todo, que não pôde pedir para vê-la antes. — A que horas é o chá? — perguntei. — Oh, às seis horas. Ele faz tudo cedo no campo. É melhor Jane Eyre

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mudar o vestido agora: irei com você e o abotoarei. Aqui está uma vela. — É necessário mudar meu vestido? — Sim, é melhor. Sempre me visto para a noite, quando o Sr. Rochester está aqui. Essa cerimônia a mais parecia um tanto formal. Contudo, fui para meu quarto, e, com a ajuda da Sra. Fairfax, troquei o vestido negro por um de seda negra; o melhor e o único extra que tinha, a não ser por um cinza-claro, que, com minhas idéias lowoodianas de toalete, achava bom demais para ser usado, exceto em ocasiões de primeira. — Você precisa de um broche — disse a Sra. Fairfax. Eu tinha um único adorno, com uma pequena pérola, que a Srta. Temple me dera como presente de despedida. Coloquei-o, e fomos lá para baixo. Desacostumada como estava com estranhos, foi uma provação aparecer assim formalmente convocada à presença do Sr. Rochester. Deixei a Sra. Fairfax entrar à minha frente na sala de jantar, e mantive-me à sua sombra quando atravessamos aquele aposento; e, passando pelo arco, cuja cortina estava agora descida, entrei no elegante recesso atrás. Duas velas de cera iluminavam a mesa, e havia duas outras no batente da lareira; refestelado à luz e calor de um fogo soberbo, lá estava Pilot, com Adèle ajoelhada junto. Meio reclinado num sofá, via-se o Sr. Rochester, o pé apoiado numa almofada; olhava Adèle e o cachorro. O fogo brilhava em cheio em seu rosto. Reconheci o meu viajante, com suas amplas e negras sobrancelhas, sua testa quadrada, tornada mais quadrada ainda pela mecha horizontal de cabelo negro. Reconheci o nariz decidido, mais notável pelo caráter do que pela beleza; as narinas dilatadas, que denotavam cólera, a meu ver; a boca, o queixo, a mandíbula, sombrios — sim, todos três eram sombrios, não havia engano. Sua forma, agora despojada do capote, harmonizava em quadratura com a fisionomia, eu percebia agora. Suponho que era uma boa figura, no sentido atlético do termo — peito largo e flancos estreitos, embora nem alta nem graciosa. O Sr. Rochester deve ter percebido a entrada da Sra. Fairfax e a 150

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minha; mas parece que não estava disposto a notar-nos, pois não ergueu a cabeça quando nos aproximamos. — Aqui está a Srta. Eyre, senhor — disse a Sra. Fairfax, em sua maneira discreta. Ele fez uma curvatura, ainda sem tirar os olhos do grupo formado pelo cachorro e a menina. — Que a Srta. Eyre se sente — disse; e havia algo na rígida curvatura forçada, no tom impaciente, embora formal, que parecia acrescentar: “Que diabo me importa se a Srta. Eyre está aqui ou não? Neste momento, não estou disposto a falar com ela”. Eu me sentei bastante embaraçada. Uma recepção de refinada polidez provavelmente me teria deixado confusa, não poderia ter retribuído com graça e elegância de minha parte; mas aquele grosseiro capricho não me deixava sob qualquer obrigação; ao contrário, uma decente aquiescência, à guisa de educação, me dava vantagem. Além disso, a excentricidade dos procedimentos era provocante: senti-me interessada em ver como ele prosseguiria. Ele permaneceu como uma estátua, isto é, nem falou nem se moveu. A Sra. Fairfax pareceu julgar necessário que alguém fosse amistoso, e começou a falar. Bondosamente, como de hábito — e, como de hábito, um tanto banalmente — condoeu-se com ele pela pressão dos negócios que sofrerá o dia todo, depois louvou sua paciência e perseverança passando por tudo aquilo. — Madame, eu gostaria de um pouco de chá — foi a única resposta que obteve. Ela se apressou a tocar a sineta; e quando a bandeja veio, pôs-se a arrumar as xícaras, colheres etc., com diligente rapidez. Eu e Adèle fomos para a mesa; mas o amo não deixou o seu sofá. — Quer entregar a xícara do Sr. Rochester? — disse-me a Sra. Fairfax. — Adèle poderia entorná-la, talvez. Fiz o que me pediam. Quando ele recebeu a xícara de minhas mãos, Adèle, julgando o momento propício para fazer um pedido em meu favor, exclamou: — N’est-ce pas, monsieur, qu’il a un cadeau pour Mademoiselle Eyre dans votre petite coffre? (Não é verdade, senhor, que há um presente para Mademoiselle no seu cofrezinho?) Jane Eyre

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— Quem falou em presente? — perguntou ele, arrufado. — A senhorita esperava um presente, Srta. Eyre? Gosta de presentes? — E vasculhou meu rosto com olhos que eu via serem escuros, irados e penetrantes. — Mal sei, senhor; tenho pouca experiência deles; geralmente são considerados coisas agradáveis. — Geralmente? Mas que pensa a senhorita? — Eu seria obrigada a demorar um pouco, senhor, antes de poder dar-lhe uma resposta digna de sua aceitação: um presente tem muitas faces, não tem? E deve-se considerar todas, antes de se emitir uma opinião quanto à sua natureza. — Srta. Eyre, a senhorita não é tão sem sofisticação quanto Adèle; ela pede um cadeau clamorosamente, no momento em que me vê; a senhorita fica fazendo rodeios. — Porque eu tenho menos confiança em meus méritos que Adèle; ela pode alegar uma velha amizade, e o direito, também, do hábito, pois diz que o senhor sempre teve o hábito de dar-lhe brinquedos; mas se eu tivesse de falar por mim, ficaria confusa, uma vez que sou uma estranha, e nada tenho que me dê direito a um reconhecimento. — Oh, não apele para o excesso de modéstia! Eu examinei Adèle, e descobri que a senhorita se deu muito trabalho com ela: Adèle não é brilhante, não tem talentos; mas em pouco tempo fez grandes progressos. — Senhor, já me deu o meu cadeau; sou-lhe grata; é a recompensa que os professores mais cobiçam: o elogio pelo progresso de seus alunos. — Hum! — disse o Sr. Rochester, e tomou seu chá em silêncio. — Venham para junto do fogo — disse o amo, quando a bandeja foi retirada e a Sra. Fairfax se sentou num canto com seu tricô, enquanto Adèle me levava pela mão em volta do aposento, mostrando-me os lindos livros e enfeites nos consoles e cômodas. Obedecemos, como devíamos; Adèle quis sentar-se em meus joelhos, mas recebeu a ordem de ir divertir-se com Pilot. — A senhorita está morando em minha casa há três meses? — Sim, senhor. 152

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— E vem de... ? — Da escola de Lowood, em ... shire. — Ah, uma instituição de caridade. Quanto tempo ficou lá? — Oito anos. — Oito anos! Deve ter muito apego à vida. Eu achava que metade desse tempo num lugar daqueles liquidaria qualquer constituição! Não admira que tenha uma aparência um tanto do outro mundo. Eu imaginava onde conseguira esse tipo de rosto. Quando veio a mim, em Hay, na noite passada, pensei inexplicavelmente em contos de fada, e estava meio inclinado a perguntar se tinha enfeitiçado meu cavalo, ainda não estou certo. Quem são seus pais? — Não tenho nenhum. — E nunca teve, suponho; lembra-se deles? — Não. — Era o que eu pensava. Então estava esperando sua gente sentada naquela amurada? — Quem, senhor? — Os homenzinhos verdes: era uma noite de luar adequada para eles. Terei quebrado um de seus círculos, para que a senhorita espalhasse aquele maldito gelo na estrada? Balancei a cabeça. — Todos os homenzinhos verdes deixaram a Inglaterra há cem anos — eu disse, falando tão seriamente quanto ele o fizera. — E nem mesmo em Hay Lane, ou nos campos em volta, pode-se encontrar o menor vestígio deles. Não creio que nenhum verão ou colheita, nenhuma lua de inverno venha a brilhar algum dia sobre as festas deles. A Sr. Fairfax deixara cair o seu tricô e, com as sobrancelhas erguidas, parecia perguntar-se que espécie de conversa era aquela. — Bem — reiniciou o Sr. Rochester — se não tem pais, deve ter algum tipo de parentes: tios e tias. — Não; nenhum que eu conheça. — E sua casa? — Não tenho nenhuma. — Onde moram seus irmãos e irmãs? Jane Eyre

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— Não tenho irmãos ou irmãs. — Quem a recomendou para trabalhar aqui? — Pus um anúncio, e a Sra. Fairfax respondeu. — Sim — disse a boa senhora, que sabia agora em que terreno estávamos pisando — e todo dia dou graças pela escolha que a Providência me levou a fazer. A Srta. Eyre tem sido uma companhia inestimável para mim, e uma professora bondosa e atenciosa para Adèle. — Não se preocupe em atribuir-lhe um caráter — respondeu o Sr. Rochester. — Os elogios não me afetarão; julgarei por mim mesmo. Ela começou por derrubar o meu cavalo. — Senhor? — disse a Sra. Fairfax. — Tenho de agradecer a ela por esta torção. A viúva pareceu espantada. — Srta. Eyre, algum dia já morou numa cidade? — Não, senhor. — Já viu muita gente? — Só as alunas e professoras de Lowood, e agora os moradores de Thornfield. — Leu muito? — Só os livros que encontrei; e não foram numerosos nem muito eruditos. — A senhorita viveu uma vida de freira, sem dúvida é bem treinada em coisas de religião; Brocklehurst, que segundo entendo dirige Lowood, é um clérigo, não é? — Sim, senhor. — E vocês meninas provavelmente o adoravam, como um convento cheio de religiosas adoraria seu diretor. — Oh, não. — A senhorita é muito fria! Não! Quê! Uma noviça não adorar o seu sacerdote! Isso soa a blasfêmia. — Eu detestava o Sr. Brocklehurst; e não era a única a sentir isso. Ele é um homem duro; ao mesmo tempo pomposo e enxerido: cortava nossos cabelos, e por economia comprava-nos agulhas e linhas ruins, com as quais mal podíamos costurar. — Isso era falsa economia — observou a Sra. Fairfax, que agora 154

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pegava novamente o significado do diálogo. — E era só isso o que ele fazia de ruim? — perguntou o Sr. Rochester. — Deixava-nos morrer de fome quando era o único superintendente do departamento de provisões, antes de se nomear à comissão; e cansava-nos com longas leituras uma vez por semana, e com leituras noturnas de livros de sua indicação, sobre mortes súbitas e julgamentos, que nos deixavam com medo de ir para a cama. — Que idade tinha a senhorita quando foi para Lowood? — Cerca de dez anos. — E ficou lá oito anos: tem agora, então, dezoito? Assenti. — A aritmética, como vê, é útil; sem sua ajuda, eu dificilmente poderia calcular sua idade. É um ponto difícil de estabelecer, quando as feições e a expressão são tão diferentes como em seu caso. E agora, que aprendeu em Lowood? Sabe tocar piano? — Um pouco. — Claro, é a resposta estabelecida. Vá até a biblioteca... quero dizer, por favor. (Desculpe meu tom de comando; estou acostumado a dizer: “Faça isso”, e se faz; não posso alterar meus hábitos costumeiros por uma nova moradora). Vá, então, à biblioteca; leve uma vela consigo; deixe a porta aberta; sente-se ao piano e toque uma música. Eu parti, obedecendo às suas instruções. — Chega! — ele gritou dentro de poucos minutos. — A senhorita toca um pouco, estou vendo; como qualquer outra colegial inglesa; talvez até melhor que algumas, mas não bem. Fechei o piano, e voltei. O Sr. Rochester continuou: — Adèle me mostrou alguns desenhos esta manhã, que disse serem seus. Não sei se eram inteiramente de sua autoria; provavelmente um mestre a ajudou. — Não, realmente! — interrompi. — Ah, isso espeta o seu orgulho. Bem, traga-me sua pasta, se pode garantir que o conteúdo é original; mas não o faça a menos que esteja certa: sei reconhecer colagens. — Então não direi nada, e o senhor poderá julgar por si mesmo. Jane Eyre

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Eu trouxe a pasta da biblioteca. — Aproxime a mesa — ele disse, e eu a empurrei para junto de seu sofá. Adèle e a Sra. Fairfax se aproximaram para ver os desenhos. — Não se amontoem — disse o Sr. Rochester. — Peguem os desenhos em minhas mãos à medida que eu for acabando de examiná-los; mas não comprimam os rostos contra o meu. Examinou demoradamente cada desenho e pintura. Separou três; os outros, depois de examiná-los, afastou-os de si. — Leve estes para a outra mesa, Sra. Fairfax — disse — e olheos com Adèle; a senhorita (olhando-me), volte ao seu assento, e responda às minhas perguntas. Percebo que estes quadros foram feitos por uma única mão; essa mão é a sua? — Sim. — E quando encontrou tempo para pintá-los? Tomaram muito tempo, e alguma meditação. — Pintei-os nas duas últimas férias que passei em Lowood, quando não tinha outra ocupação. — Onde conseguiu os modelos? — Em minha cabeça. — Essa cabeça que vejo agora em seus ombros? — Sim, senhor. — Ela tem outras coisas do mesmo tipo dentro? — Eu diria que pode ter, ou melhor, esperaria. Ele espalhou os quadros à sua frente, e de novo os examinou alternadamente. Enquanto assim se ocupava, eu lhe direi, leitor, quais são os quadros; e, primeiro, devo mencionar de antemão que não eram nada maravilhosos. Os temas me tinham na verdade surgido vividamente na cabeça. Do jeito que os vi, com os olhos do espírito, antes de tentar dar-lhes corpo, eram impressionantes; mas minha mão não estava à altura de minha imaginação, e em cada caso extraíra apenas um pálido retrato da coisa que eu concebera. Esses quadros eram em aquarela. O primeiro representava nuvens baixas e lívidas, rolando sobre um mar encapelado; toda a distância se eclipsava, e também o primeiro plano; ou antes, 156

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as vagas mais próximas, pois não havia terra. Um raio de luz punha em relevo um mastro meio submerso, no qual pousava um cormorão, negro e grande, com as asas respingadas de espuma; trazia no bico um bracelete de ouro com gemas incrustadas, a que eu dera nuanças tão brilhantes quanto minha paleta podia produzir, e tanta definição quanto meu lápis podia comunicar. Afundando abaixo do pássaro e do mastro, um cadáver afogado aparecia em meio à água verde; o único membro visível era um braço branco, do qual o bracelete fora retirado ou arrancado pelas ondas. O segundo quadro continha como primeiro plano apenas o escuro cume de uma montanha, com um gramado e algumas folhas curvadas, como sopradas por uma brisa. Além e acima espalhava-se a amplidão do céu, azul escuro como ao crepúsculo: erguendo-se para o céu via-se a forma de uma mulher até o busto, um retrato em tons tão escuros e suaves quanto eu podia combinar. A testa escura era coroada por uma estrela; viam-se os traços abaixo como através de um vapor; os olhos luziam negros e selvagens; o cabelo escorria sombrio, como uma nuvem sem raios rasgada pela tempestade, ou por uma descarga elétrica. No pescoço havia um pálido reflexo, como do luar; o mesmo brilho fraco tocava o conjunto de diáfanas nuvens do qual se erguia e se curvava essa visão da Estrela Vespertina. O terceiro mostrava o cume de um iceberg varando um céu de inverno polar; a aurora boreal erguia suas sombrias lanças serrilhadas ao longo do horizonte. Lançando tudo isso à distância erguia-se, no primeiro plano, uma cabeça — uma cabeça colossal, curvada para o iceberg, e repousando nele. Duas mãos diáfanas, unidas sob a testa e apoiando-a, formavam um véu escuro diante das feições inferiores; uma fronte inteiramente exangue, branca como osso, e uns olhos vazios e fixos, desprovidos de sentido, a não ser pelo vidrado do desespero, eram os únicos detalhes visíveis. Acima das têmporas, em meio às dobras de um turbante de tecido negro, de aspecto e consistência vagos como uma nuvem, luzia um anel de chama branca, incrustado com fagulhas de uma cor mais lívida. O pálido crescente era como “a imagem de uma Jane Eyre

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coroa real”; o que envolvia, como um diadema, era “a forma que a forma não tinha”. — Sentiu-se feliz quando pintou esses quadros? — perguntou o Sr. Rochester, afinal. — Estava absorvida, senhor; sim, estava feliz. Pintá-los foi, em suma, desfrutar de um dos mais sensíveis prazeres que já conheci. — Isso não é dizer muito. Seus prazeres, segundo a senhorita mesma, têm sido poucos; mas aposto que viveu numa espécie de terra dos sonhos dos artistas, enquanto misturava e distribuía essas estranhas cores. Demorava-se muito nelas, de cada vez? — Não tinha mais nada a fazer, porque estávamos nas férias, e eu trabalhava nelas de manhã até meio-dia, e do meio-dia até a noite: a extensão dos dias de pleno verão favorecia minha concentração. — E sentiu-se satisfeita com o resultado desses ardentes esforços? — Longe disso. Era atormentada pelo contraste entre minha idéia e o trabalho de minha mão: em cada caso, imaginara algo que era inteiramente impotente para realizar. — Não inteiramente: a senhorita conseguiu capturar a sombra de seu pensamento; porém não mais, provavelmente. Não possuía o bastante da habilidade e da ciência do artista para darlhe existência plena: contudo, os desenhos são, para uma colegial, peculiares. Quanto aos pensamentos, são fugidios. Esses olhos na Estrela Vespertina, a senhorita deve tê-los visto em sonhos. Como poderia fazê-los parecer tão nítidos, e no entanto nada brilhantes? Pois o planeta acima empana seus raios. E que sentido é esse na profunda solenidade deles? E quem lhe ensinou a pintar o vento? Há uma forte ventania nesse céu, e nesse cume de montanha. Onde viu Latmos? Pois este é Latmos... Está bem, guarde os desenhos! Eu mal acabara de amarrar os cordões da pasta, quando, olhando seu relógio, ele disse abruptamente: — São nove horas: que faz a senhorita. Srta. Eyre, que deixa Adèle acordada até tão tarde? Leve-a para a cama. Adèle foi dar-lhe um beijo antes de deixar a sala: ele suportou 158

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a carícia, mas não pareceu apreciá-la mais do que Pilot o faria, e nem tanto assim. — Desejo a todas boa-noite agora — disse, fazendo um movimento com a mão em direção à porta, mostrando que estava cansado de nossa companhia e desejava despedir-nos. A Sra. Fairfax dobrou seu tricô; eu peguei minha pasta, fizemos-lhe uma saudação e recebemos uma frígida curvatura em troca, e assim saímos. — A senhora disse que o Sr. Rochester não era particularmente peculiar, Sra. Fairfax — observei, quando me juntei a ela em seu quarto, depois de pôr Adèle na cama. — Bem, e é? — Eu acho: é muito instável e abrupto. — É verdade, sem dúvida pode parecer assim a uma estranha, mas estou tão acostumada com suas maneiras, que nunca penso nisso; e depois, se ele tem peculiaridades de temperamento, devese dar uma margem para isso. — Por quê? — Em parte porque é a natureza dele... e nenhum de nós pode ir contra a própria natureza; e em parte porque tem pensamentos dolorosos, sem dúvida, que o perseguem e tornam seu gênio desigual. — Sobre quê? — Problemas de família, por exemplo. — Mas ele não tem família. — Agora, não, mas teve... ou, pelo menos, parentes. Perdeu o irmão mais velho há poucos anos. — Irmão mais velho? — Sim. O atual Sr. Rochester não está há muito de posse da propriedade; só uns nove anos. — Nove anos é um tempo considerável. Ele gostava tanto do irmão assim, a ponto de ainda estar inconsolável com sua perda? — Bem, não... talvez não. Creio que havia algum desentendimento entre eles. O Sr. Rowland Rochester não foi exatamente justo com o Sr. Edward; e talvez tenha posto o pai contra ele. O velho cavalheiro era apegado ao dinheiro, e ansioso Jane Eyre

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por manter a propriedade da família intata. Não gostava de diminuir a propriedade com divisões, mas se preocupava com que o Sr. Edward tivesse riqueza, para manter a importância de seu nome; e, assim que ele atingiu a maioridade, tomaram-se algumas medidas que não foram muito justas e causaram um bocado de danos. O velho Sr. Rochester e o Sr. Rowland combinaram-se para pôr o Sr. Edward no que este considerava uma posição penosa, para fazer sua fortuna; qual era a natureza exata dessa posição, eu nunca soube claramente, mas o espírito dele não podia agüentar o que tinha de sofrer nela. Ele não é muito de perdoar; rompeu com a família, e há muitos anos leva um tipo de vida errante. Não creio que algum dia tenha ficado em Thornfield Hall por uma quinzena, desde que a morte do irmão, sem deixar testamento, o fez senhor da propriedade; e, na verdade, não admira que evite a velha casa. — Por que deveria evitá-la? — Talvez a julgue sombria. A resposta era evasiva. Eu teria gostado de alguma coisa mais clara, mas a Sra. Fairfax ou não podia ou não queria me dar informações mais explícitas sobre a origem e a natureza das provações do Sr. Rochester. Afirmava que elas eram um mistério para si mesma, e que o que sabia provinha basicamente de conjeturas. Era evidente, de fato, que desejava que eu abandonasse o assunto, o que fiz devidamente.

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CAPÍTULO 14

D

urante vários dias, depois disso, pouco vi o Sr. Rochester. Pelas manhãs, ele parecia muito empenhado nos negócios, e à tarde recebia visitas de cavalheiros de Millcote ou das vizinhanças, que às vezes ficavam para jantar com ele. Quando sua torção sarou o suficiente para permitir-lhe exercícios a cavalo, cavalgava um bocado; provavelmente para retribuir a essas visitas, pois em geral só voltava tarde da noite. Nesse intervalo, até Adèle só raramente era chamada à sua presença; e todo o meu conhecimento com ele se limitava a um encontro ocasional no saguão, na escada ou na galeria, quando às vezes passava por mim altiva e friamente, apenas reconhecendo minha presença por um aceno distante ou um frio olhar, e outras vezes fazendo uma curvatura e sorrindo com uma afabilidade de cavalheiro. Suas mudanças de ânimo não me ofendiam, porque eu via que eu nada tinha com essas alterações; o fluir e refluir delas dependiam de causas inteiramente alheias a mim. Um dia, ele teve companhia para jantar e mandou pedir minha pasta de desenhos; sem dúvida a fim de exibir o seu conteúdo: os cavalheiros saíram cedo para assistir a um ato público em Millcote, como me informou a Sra. Fairfax; mas como a noite era muito chuvosa e inclemente, o Sr. Rochester não os acompanhou. Pouco depois dos outros partirem, ele tocou a sineta; veio um recado para que eu e Adèle descêssemos. Escovei o cabelo dela, Jane Eyre

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arrumei-a e, tendo-me assegurado de que eu própria estava arrumada, à minha moda Quaker, não havendo nada a retocar — pois tudo era muito justo e simples, incluindo as trancas, para admitir desarranjos — descemos, Adèle imaginando se o petit coffre tinha afinal chegado; pois devido a algum engano, sua chegada fora retardada até então. Ela ficou satisfeita: lá estava a pequena caixa sobre a mesa, quando entramos na sala de jantar. A menina pareceu saber por instinto. — Ma boite! Ma boite!* — exclamou, correndo para a mesa. — Sim, aí está sua boite afinal; leve-a para um canto, sua autentica filha de Paris, e divirta-se destripando-a — disse a voz profunda e um tanto sarcástica do Sr. Rochester, do recesso de uma imensa poltrona diante da lareira. — E veja bem — continuou — não me aborreça com os detalhes do processo anatômico ou qualquer comunicação sobre as condições das entranhas; que suas operações se conduzam em silêncio: tiens-foi tranquile, enfant; comprends-tu?(Fique quieta, menina: está entendendo?) Adèle dificilmente precisava da advertência; já se retirara para um sofá com o seu tesouro, e atarefava-se desamarrando o cordão que segurava a tampa. Tendo removido esse obstáculo, e erguido alguns envoltórios de papel prateado, simplesmente exclamou: — Oh, ciel! Que c’est beau!*** — e permaneceu absorta em extática contemplação. *** Oh, céus! Como é belo! (N. do T.) — A Srta. Eyre está aí? — perguntou então o amo, semierguendo-se do assento para olhar a porta, perto da qual eu estava. — Ah! bem, adiante-se; sente-se aqui. — Puxou uma cadeira para perto da sua. — Não gosto da tagarelice das crianças — continuou — porque, velho solteirão como sou, não tenho associações agradáveis relacionadas com os cicios delas. Seria intolerável para mim passar toda uma noite em tête-à-tête com uma fedelha. Não afaste essa cadeira, Srta. Eyre; sente-se exatamente onde eu a pus...por favor, quero dizer. Ao diabo com essas civilidades! Estou sempre esquecendo-as. E tampouco tenho afeto por velhas senhoras simplórias. A propósito, devo me lembrar; 162

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não é bom negligenciá-la; é uma Fairfax, ou casou-se com um; e diz-se que o sangue é mais grosso que a água. Tocou a sineta e enviou um convite à Sra. Fairfax, que logo apareceu, com a cesta de tricô nas mãos. — Boa-noite, madame; mandei chamá-la com um fim caridoso. Proibi Adèle de conversar comigo sobre seus presentes, e ela está explodindo de vontade de falar; tenha a bondade de servir-lhe de ouvinte; será um dos atos mais benévolos que a senhora já realizou. Adèle, de fato, tão logo viu a Sra. Fairfax, convidou-a ao sofá, e ali rapidamente lhe encheu o colo com a porcelana, o marfim, os artigos de cera de sua boite; despejando, enquanto isso, explicações e exclamações naquele inglês capenga que dominava. — Agora, que já desempenhei o papel de bom anfitrião — prosseguiu o Sr. Rochester — pondo minhas hóspedes em posição de divertirem-se uma à outra, devo ter liberdade para cuidar de meu próprio prazer. Srta. Eyre, adiante sua cadeira mais um pouco, ainda está muito recuada: não posso vê-la sem perturbar minha posição nesta confortável poltrona, o que não pretendo fazer. Fiz o que me ordenavam, embora tivesse preferido ficar um tanto à sombra; mas o Sr. Rochester tinha um modo tão direto de dar ordens, que parecia indiscutível obedecer-lhe prontamente. Estávamos, como já disse, na sala de jantar, o lustre que fora aceso para o jantar enchia o aposento com uma festiva expansão de luz; o grande fogo ardia rubro e límpido; as cortinas púrpura pendiam ricas e amplas diante da imponente janela, e do arco mais imponente ainda; tudo estava em silêncio, a não ser pela abafada tagarelice de Adèle (ela não ousava falar alto), e, preenchendo cada pausa, o bater da chuva de inverno contra as vidraças. O Sr. Rochester, sentado na poltrona coberta de damasco, parecia ter uma aparência diferente da que eu lhe vira antes; não tão severo — muito menos sombrio. Havia um sorriso em seus lábios, e os olhos luziam, se por efeito do vinho ou não, não estou certa, mas acho muito provável. Encontrava-se, em suma, em seu estado de espírito de após jantar; mais expansivo e, jovial, e Jane Eyre

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também mais solto que o temperamento frígido e rígido da manhã: contudo, parecia bastante sombrio, apoiando a grande cabeça contra o recosto acolchoado de sua poltrona, e recebendo a luz da lareira nas feições esculpidas em granito e nos olhos escuros; pois tinha grandes olhos negros, e muito bonitos também — não sem uma certa mudança em suas profundezas, às vezes, que se não era suavidade, pelo menos lembrava essa sensação. Olhava o fogo havia uns dois minutos, e eu o observava durante esse mesmo tempo, quando, voltando-se de repente, ele surpreendeu meu olhar fixado em sua fisionomia. — Está me examinando, Srta. Eyre — disse. — Acha-me bonito? Se eu tivesse pensado, deveria ter respondido a essa pergunta com alguma coisa convencionalmente vaga e polida; mas a resposta de certa forma me escapuliu da língua antes que eu tivesse consciência. — Não, senhor. — Ah! Por minha honra! A senhorita tem esse algo singular — disse ele. — Tem o ar de uma pequena nonnette;* singular, quieta, séria e simples, aí sentada com as mãos no colo e os olhos geralmente baixados para o tapete (exceto, a propósito, quando se dirigem penetrantemente para meu rosto; como ainda agora, por exemplo); e quando alguém lhe faz uma pergunta, ou uma observação à qual tem de responder, a senhorita se sai com uma resposta direta que, se não é rude, é pelo menos brusca. Que quer dizer com isso? — Senhor, fui muito direta, desculpe-me. Devia responder que não era fácil dar uma resposta imediata a uma pergunta sobre aparências; que a maioria dos gostos diverge; e que a beleza tem pouca importância, ou alguma coisa desse tipo. — A senhorita não devia ter respondido nada disso. A beleza tem pouca importância, veja! E assim, a pretexto de amaciar o insulto prévio, de me alisar e consolar até a placidez, enfia-me um ardiloso canivete sob a orelha! Vá em frente, que defeitos encontra em mim, por favor? Suponho que tenho todos os meus membros e todas as minhas feições, como qualquer outro homem? 164

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— Sr. Rochester, permita-me retirar minha primeira resposta: não pretendia dar nenhuma resposta habilidosa: foi apenas um erro. — Exatamente, é o que eu penso, e a senhorita responderá por ele. Critique-me: minha testa não lhe agrada? Ergueu as negras ondas de cabelo que atravessavam horizontalmente a testa, e mostrou uma massa bastante sólida de órgãos intelectuais, mas com uma abrupta deficiência onde devia elevar-se o suave sinal de benevolência. — Vamos, madame, sou um idiota? — Longe disso, senhor. Talvez me achasse rude se eu lhe perguntasse, em resposta, se é um filantropo? — Aí está de novo! Outra espetada com o canivete, quando fingia dar-me tapinhas na cabeça, e isso porque eu disse que não gostava da companhia de crianças e de velhas (falemos baixo!) Não, jovem senhora, não sou um filantropo em geral; mas tenho uma consciência. — E indicou as saliências, na testa, que se diz indicarem essa faculdade, e que, felizmente para ele, eram suficientemente conspícuas; dando, de fato, uma acentuada amplidão à parte superior da testa. — E, além disso, tive outrora uma espécie de rude ternura no coração. Quando tinha a sua idade, era um sujeito bastante emotivo; com uma queda para os imaturos, desfavorecidos e infelizes; mas a sorte me desancou depois, chegou mesmo a me amassar com os nós dos dedos, e agora gabo-me de ser tão duro e resistente quanto uma bola de borracha; mas acessível ainda, através de uma ou duas fendas, e com um ponto sensível no meio do bolo. Sim, será que isso deixa esperança para mim? — Esperança de que, senhor? “Decididamente bebeu muito vinho”, pensei; e não sabia que resposta dar à sua esquisita pergunta: como poderia saber se era capaz de ser retransformado? — A senhorita parece muito intrigada, Srta. Eyre, e embora não seja mais bonita do que eu, um ar intrigado lhe assenta bem; além disso, é conveniente, pois mantém esses seus olhos inquisidores distantes de minha fisionomia, e os ocupa com as flores de lã do Jane Eyre

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tapete; assim, continue intrigada. Jovem dama, estou disposto a ser gregário e comunicativo esta noite. Com este anúncio, levantou-se de sua poltrona, e ficou de pé, apoiando o braço no batente de mármore da lareira: nessa atitude, via-se seu corpo claramente, assim como o rosto; o peito incomumente largo quase desproporcional ao comprimento dos membros. Estou certa de que a maioria das pessoas o teria achado um homem feio; contudo, havia tanto orgulho inconsciente em seu porte; tanta naturalidade em sua conduta; uma tal aparência de completa indiferença à sua imagem externa; uma confiança tão altiva no poder de outras qualidades, intrínsecas ou adventícias para compensar a falta da simples atração pessoal, que, olhando-o, inevitavelmente se partilhava dessa indiferença, e, mesmo num sentido cego, imperfeito, punha-se fé na confiança. — Estou disposto a ser gregário e comunicativo esta noite — ele repetiu — e foi por isso que mandei chamá-la: o fogo e o candelabro não eram companhia suficiente para mim; e tampouco Pilot teria sido, pois nenhum deles pode falar. Adèle é um pouco melhor, mas ainda muito abaixo da marca; a Sra. Fairfax, o mesmo; a senhorita, estou convencido, pode servir-me se quiser; intrigoume na primeira noite em que a convidei a descer até aqui. Quase a esqueci depois disso: outras idéias expulsaram a sua de minha cabeça; mas esta noite estou resolvido a ficar à vontade; afastar o que importuna e chamar o que agrada. Agradar-me-ia agora puxar pela senhorita... saber mais da senhorita ... portanto, fale. Em vez de falar, eu sorri; e não foi um sorriso muito complacente ou submisso. — Fale — ele exortou. — Sobre que, senhor? — Sobre o que queira. Deixo a escolha do assunto e a maneira de tratá-lo inteiramente à senhorita. Continuei sentada, sem dizer nada. “Se ele espera que eu fale apenas por falar e para me exibir, vai descobrir que se dirigiu à pessoa errada”, pensei. — É muda, Srta. Eyre? Continuei calada. Ele adiantou um pouco a cabeça para mim, 166

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e com um único olhar rápido pareceu mergulhar em meus olhos. — Obstinada? — disse. — E aborrecida. Ah! é coerente. Fiz meu pedido de uma forma absurda, quase insolente. Srta. Eyre, desculpe-me. A verdade, de uma vez por todas, é que não desejo tratá-la como uma inferior; isto é (corrigindo-se), exijo apenas a superioridade que deve resultar de uma diferença de vinte anos de idade, e a dianteira de um século de experiência. Isso é legítimo, et j’y íiens, como diria Adèle: e é em virtude dessa superioridade, e dela apenas, que desejo que a senhorita tenha a bondade de conversar um pouco comigo agora, e de afastar meus pensamentos, que estão esfolados de permanecerem num só ponto...corroídos como um prego enferrujado. Elaborara uma explicação, quase um pedido de desculpa; não fiquei insensível sua condescendência e não quis parecê-lo. — Estou disposta a entretê-lo, se puder, senhor... bastante disposta; mas não posso introduzir um assunto, porque sei eu o que lhe interessa? Faça-me perguntas, e farei o melhor que possa para respondê-las. — Então, em primeiro lugar, concorda comigo em que tenho o direito de ser um pouco dominador, abrupto, talvez exigente, às vezes, com base no que declarei, isto é, que sou velho o bastante para ser seu pai, e que batalhei, através de uma variada experiência, com muitos homens de muitos países, e errei pela metade do globo, enquanto a senhorita viveu tranqüilamente com um grupo de pessoas numa casa. — Faça como quiser, senhor. — Isto não é resposta; ou antes, é uma resposta muito irritante, porque muito evasiva. Responda claramente. — Não creio, senhor, que tenha o direito de me dar ordens; apenas por ser mais velho que eu, ou porque viu mais do mundo do que eu; sua reivindicação à superioridade depende do uso que fez de seu tempo e experiência. — Hum! Falado prontamente. Mas não permitirei isso, visto que nunca serviria à minha argumentação, pois fiz um uso indiferente, para não dizer ruim, de ambas as vantagens. Deixando a superioridade fora de questão, ainda deve concordar Jane Eyre

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em receber minhas ordens de vez em quando, sem ficar despeitada ou magoada pelo tom de comando. Aceita? Eu sorri, pensei comigo mesma: o Sr. Rochester ê peculiar — parece esquecer que me paga trinta libras por ano para receber suas ordens. — O sorriso está muito bem — ele disse, captando num instante a expressão passageira. — Mas fale, também. — Eu estava pensando, senhor, que muito poucos patrões se dariam o trabalho de perguntar se seus subordinados pagos ficavam despeitados ou magoados com suas ordens. — Subordinados pagos! Quê! A senhorita é minha subordinada paga, é? Oh, sim, tinha esquecido o salário! Bem, então, nessa base mercenária, concorda em deixar-me dominar um pouco? — Não, senhor, não nessa base; mas com base em que o senhor o esqueceu, e que se importa com o fato de um dependente estar ou não à vontade sob sua dependência, concordo de todo coração. — E consentirá em dispensar muitas formas e frases convencionais, sem pensar que a omissão deriva de insolência? — Tenho certeza, senhor, de que jamais tomaria informa-lismo por insolência; de uma eu até gosto, à outra ninguém nascido em liberdade se submeteria, mesmo por um salário. — Conversa fiada! A maioria das pessoas nascidas livres se submeterá a qualquer coisa por um salário; portanto, guarde isso para si mesma, e não se arrisque a generalizações sobre o que ignora absolutamente. Contudo, aperto-lhe mentalmente a mão por sua resposta, apesar da imprecisão; e tanto pela forma como foi dada quanto pela substância do discurso; a forma foi fran-> ca e sincera; não se vê com freqüência uma forma assim; não, ao contrário, a afetação, ou frieza, ou a estúpida e grosseira má compreensão do que dizemos são as recompensas usuais da franqueza. Nem três em três mil governantas de colegiais teriam respondido como a senhorita respondeu. Mas não pretendo lisonjeá-la; se feita de um molde diferente da maioria, não é mérito seu, foi a natureza que a fez assim. E, afinal, estou me apressando demais em minhas conclusões: pelo que sei até agora, a senhorita pode não ser melhor que o resto; pode ter defeitos insuportáveis 168

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para contrabalançar seus poucos pontos bons. “E o senhor também”, pensei. Meus olhos encontraram os dele quando a idéia me cruzou a mente: ele pareceu ler o olhar, respondendo como se seu conteúdo tivesse sido falado, além de imaginado: — Sim, sim, está certa — disse. — Eu tenho bastante defeitos, sei-o, e não quero reduzir a importância deles, garanto-lhe. Deus sabe que não devo ser demasiado severo com os outros; tenho uma experiência atrás, uma série de atos, uma cor de vida a contemplar dentro de meu peito, que bem poderiam provocar muitos escárnios e censuras de meus próximos. Eu comecei, ou antes (pois, como outros faltosos, gosto de pôr metade da culpa na má sorte e nas circunstâncias adversas), fui jogado numa estrada errada, com a idade de vinte e um anos, e jamais retomei o curso certo desde então; mas poderia ter sido bem diferente; poderia ter sido tão bom quanto a senhorita... mais sensato... quase tão imaculado. Invejo sua paz de espírito, sua consciência limpa, sua memória não poluída. Menina, uma memória sem mancha ou contaminação deve ser um perfeito tesouro... uma fbnte inesgotável de puro refrigério, não é? — Como era a sua memória quando tinha dezoito anos, senhor? — Muito bem, então: límpida, saudável: nenhum jorro de água suja a tinha transformado numa poça fétida. Eu era igual à senhorita aos dezoito anos... exatamente igual. A natureza pretendia que eu fosse, no todo, um homem bom, Srta. Eyre; um homem da melhor espécie, e está vendo que não sou assim. A senhorita diria que não está vendo: pelo menos, gabo-me de ler isso em seus olhos (cuidado, a propósito, com o que expressa com esses órgãos; sou muito rápido na interpretação da linguagem deles). Assim, aceite minha palavra, não sou um vilão, não deve supor que... não deve atribuirme nada dessa má eminência; mas devido, creio piamente, mais às circunstâncias do que à minha inclinação natural, sou um pecador banal, comum, curtido em todas as pequenas e pobres dissipações com as quais os ricos e imprestáveis tentam assumir a vida. Admira-se de eu confessar-lhe isso? Saiba que no curso de sua Jane Eyre

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vida futura se verá freqüentemente escolhida como involuntária confidente dos segredos de seus conhecidos: as pessoas descobrirão instintivamente, como eu, que seu forte não é falar de si mesma, mas ouvir quando os outros falam de si; sentirão, também, que a senho-rita não ouve com malévolo desprezo pela indiscrição deles, mas com uma espécie de simpatia inata, não menos reconfortante e encorajadora por ser manifestada muito discretamente. — Como sabe... como pode presumir tudo isso? — Sei muito bem: portanto, ajo quase tão livremente como se estivesse anotando meus pensamentos num diário. A senhori-ta diria que eu deveria ter sido superior às circunstâncias; e deveria ... e deveria; mas, como vê, não fui. Quando o destino me prejudicou, não tive a sabedoria de permanecer frio; fiquei desesperado; depois degenerei. Agora, quando qualquer simplório pervertido provoca minha antipatia por sua torpe libertinagem, não posso gabar-me de ser melhor que ele: sou obrigado a confessar que ele e eu estamos no mesmo nível. Desejaria ter permanecido firme... Deus sabe que desejaria! Receie o remorso quando se vir tentada a errar, Srta. Eyre: o remorso é o veneno da vida. — Dizem que o arrependimento o cura, senhor. — Não cura. A reforma pode curar; e eu poderia me reformar ... se tivesse a força para isso... se... mas de que adianta pensar nisso, estorvado, carregado, amaldiçoado como sou? Além disso, como a felicidade me é irrevogavelmente negada, tenho o direito de obter prazer da vida: e vou obtê-lo, custe o que custar. — Então vai degenerar ainda mais, senhor. — É possível, mas por que deveria, se posso obter um prazer doce, novo? E posso obtê-lo tão doce e novo quanto o mel silvestre que as abelhas colhem na charneca. — Arderá... terá um gosto amargo, senhor. — Como sabe? Jamais o experimentou. Como a senhorita parece tão séria, tão solene; e é tão ignorante do assunto quanto este camafeu vpegando-o do batente da lareira). Não tem o direito de me pregar sermões, sua neófita, que não cruzou ainda o pórtico da vida e desconhece totalmente os seus mistérios. 170

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— Apenas lhe lembro suas próprias palavras, senhor; o senhor disse que o erro trazia remorso, e declarou o remorso o veneno da existência. — E quem fala de erro agora? Não acho que a idéia que me tremulou no cérebro tenha sido um erro. Creio que foi mais uma inspiração que uma tentação; foi muito agradável, muito apaziguante... sei disso. Lá vem ela de novo! Não é demônio, garanto-lhe; ou, se for, pôs as vestes de um anjo de luz. Acho que devo admitir uma hóspede tão bela quando pede para entrar em meu coração. — Desconfie dela, senhor; não é um anjo verdadeiro. — Mais uma vez, como sabe? Por qual instinto pretende distinguir entre um serafim caído do abismo e um mensageiro do trono eterno... entre um guia e um sedutor? — Julguei pela sua expressão, senhor, que estava perturbada quando disse que a sugestão lhe voltara. Estou segura de que lhe trará mais infelicidade, se lhe der ouvidos. — De modo nenhum... ela traz a mais graciosa mensagem do mundo: quanto ao resto, a senhorita não é a guardiã de minha consciência, e portanto não se inquiete. Aqui, venha, bela errante! Disse isso como se falasse a uma aparição, invisível a quaisquer olhos que não os seus; depois, dobrando os braços, que tinha meio estendidos sobre o peito, pareceu encerrar entre eles a coisa invisível. — Agora — continuou, dirigindo-se novamente a mim — já recebi a peregrina... uma divindade disfarçada, como creio piamente. Ela já me fez bem; meu coração era uma espécie de cemitério; agora será um santuário. — Para falar a verdade, senhor, não o compreendo de modo algum; não posso manter a conversa, porque saiu das minhas águas. Só de uma coisa eu sei: o senhor disse que não era tão bom quanto gostaria, e que lamentava sua imperfeição; uma coisa eu posso compreender: deu a entender que ter uma memória suja era uma perpétua perdição. Parece-me que, se tentasse com afinco, com o tempo acharia possível tornar-se o que o senhor próprio aprovaria; e que se, a partir de hoje, começasse com Jane Eyre

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decisão a corrigir seus pensamentos e ações, em poucos anos teria armazenado um novo e imaculado depósito de lembranças, às quais poderia retornar com prazer. — Bem pensado; bem dito, Srta. Eyre; e neste momento estou pavimentando o inferno com toda energia. — Senhor? — Estou assentando boas intenções, que julgo duradouras como pedra. Certamente, meus auxiliares e interesses serão diferentes do que têm sido. — E melhores? — E melhores... tão melhores quanto o puro minério é melhor que a suja escória. A senhorita parece duvidar de mim; eu não duvido de mim mesmo, sei qual é meu objetivo, quais são meus motivos; e neste momento promulgo uma lei, inalterável como a dos medas e persas, afirmando que ambos são corretos. — Não podem ser, senhor, se exigem um novo estatuto para legalizá-los. — São, Srta. Eyre, apesar de exigirem, absolutamente, um novo estatuto; combinações de circunstâncias inauditas exigem leis inauditas. — Isso soa como uma máxima perigosa, senhor; porque se pode ver logo que está sujeita a abuso. — Sentenciosa sábia! Assim é, mas juro por meus deuses domésticos não abusar dela. — O senhor é humano e falível. — Sou, e a senhorita também... e daí? — Os humanos e falíveis não devem arrogar-se um poder que só se pode confiar com segurança ao divino e perfeito. — Que poder? — O de dizer sobre qualquer linha de ação estranha e não sancionada: “Que seja correta”. — “Que seja correta”... as palavras exatas: a senhorita as pronunciou. — Que seja correta então — eu disse, enquanto me levantava, julgando inútil continuar uma conversa que era apenas treva para mim; e além disso, sentindo que o caráter de meu interlocutor 172

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ultrapassava a minha compreensão, pelo menos o seu alcance atual; e sentindo a incerteza, o vago senso de insegurança, que acompanham uma convicção de ignorância. — Aonde vai? — Pôr Adèle na cama, já passou da sua hora de dormir. — Tem medo de mim, porque falo como uma esfinge. — Sua linguagem é enigmática, senhor; mas embora eu esteja confusa, certamente não estou com medo. — A senhorita está com medo... sua auto-estima receia um erro. — Nesse sentido eu me sinto apreensiva... não tenho a menor vontade de falar tolices. — Se o fizesse, seria de um modo tão sério e discreto, que eu tomaria por sensatez. Nunca ri, Srta. Eyre? Não se dê o trabalho de responder... vejo que raramente ri; mas pode rir com muita alegria; creia-me, a senhorita não é naturalmente austera, não mais do que eu sou naturalmente perverso. A repressão de Lowood ainda se apega à senhorita de alguma forma; controlando suas feições, abafando sua voz e restringindo seus membros; e teme, em presença de um homem e um irmão... ou pai, ou patrão, ou o que queria... sorrir muito alegremente, falar muito francamente, ou movimentar-se com muita rapidez; no devido tempo, creio que será natural comigo, como eu sinto impossível ser convencional com a senhorita; e então sua aparência e seus movimentos terão mais vivacidade e variedade que os que ousam apresentar agora. Vejo de vez em quando o olhar de uma espécie curiosa de pássaro, através das estreitas barras de uma gaiola; há uma vivida, inquieta e decidida cativa lá dentro; se se visse livre, voaria pelas nuvens. Ainda está inclinada a ir-se? — Já bateram nove horas, senhor. — Deixe pra lá... espere um minuto: Adèle não está pronta para ir para a cama ainda. Minha posição, Srta. Eyre, de costas para o fogo e com o rosto para a sala, favorece a observação. Enquanto converso com a senhorita, tenho observado de vez em quando Adèle (tenho meus próprios motivos para achá-la um estudo curioso — motivos que posso, não, que lhe comunicarei algum dia). Ela retirou de sua caixa, há cerca de dez minutos, um Jane Eyre

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vestidinho rosa; o encanto iluminou-lhe o rosto ao desdobrá-lo; a faceirice corre no sangue dela, mistura-se com o cérebro e tempera a medula dos ossos. “Id faut que je 1’essaie!” ela gritou, “et à l’instant même!”* E saiu correndo da sala. Está agora com Sophie, passando por um processo de vestir-se: em poucos minutos voltará a entrar; e eu sei o que vou ver...uma miniatura de Céline Varens, como aparecia no palco ao erguerem-se as... mas deixemos isso pra lá. Contudo, meus sentimentos mais ternos estão para receber um choque, é o que pressinto; fique agora, para ver se se realizará. Pouco depois, ouviram-se os pezinhos de Adèle atravessarem o saguão. Ela entrou, transformada como seu guardião predissera. Um vestido de cetim rosa, muito curto, e tão rodado na saia quanto possível, substituíra o marrom que usava antes; uma grinalda de botões de rosa envolvia-lhe a cabeça; os pés estavam metidos em meias de seda e pequenas sandálias de cetim branco. — Est-ce que ma robe va bien? — ela exclamou, saltando para a frente. — Et mes souliers? Et mes bas? Tenez, je crois que je vais danser! (Meu vestido me assenta bem? E meus sapatos? E minhas meias ‘Olhem, acho que vou dançar!) E, espalhando o vestido, correu pelo quarto, até que, tendo alcançado o Sr. Rochester, rodopiou à sua frente nas pontas dos pés, e depois caiu com um joelho no chão, exclamando: — Monsieur, je vous remercie mille fois de votre bonté. — Depois, erguendo-se, acrescentou: — Cest comme cela que maman faisait, n’est-ce pas, monsieur?(Senhor, agradeço-lhe mil vezes a sua bondade. Era assim que mamãe fazia, não era, senhor?) — Pre-ci-sa-mente — foi a resposta. — E, comme cela, ela enfeitiçava meu ouro inglês para deixar o bolso de minhas britânicas calças. Eu já fui verde também, Srta. Eyre, verde como a grama: a senhorita não tem hoje uma cor mais primaveril que a que eu tive outrora. Minha primavera passou, mas deixou-me essa florzinha francesa nas mãos, da qual em alguns momentos eu gostaria de me livrar. Não valorizando agora a raiz da qual ela brotou; tendo descoberto que era do tipo que nada, a não ser ouro em pó, poderia adubar, tenho apenas um pouco de afeição pelo broto, especialmente quando parece tão artificial, como agora. 174

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Eu a mantenho e a educo no princípio católico romano de expiar numerosos pecados, grandes ou pequenos, por uma boa ação. Explicarei tudo isso algum dia. Boa-noite.

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CAPÍTULO 15

O

Sr. Rochester explicou, numa ocasião posterior. Foi numa tarde em que me encontrou por acaso, a mim e a Adèle, nos jardins da propriedade, e enquanto ela brincava com Pilot e sua peteca, ele me convidou a passear por uma longa alameda de faias à vista dela. Disse-me então que Adèle era filha de uma dançarina de ópera francesa, Céline Varens, pela qual tivera outrora o que chamava de uma grande passion. Céline professava retribuir a essa passion com um ardor ainda maior. Ele se julgava o seu ídolo: feio como era, acreditava, segundo disse, que ela preferia seu taille d’athlète* à elegância do Apollo Belvedere. — E, Srta. Eyre, eu fiquei tão lisonjeado por essa preferência da sílfide galesa pelo seu gnomo britânico, que a instalei num palacete, dei-lhe um estabelecimento completo de criados, uma carruagem, casimiras, diamantes, rendas etc. Em suma, dei início ao processo de arruinar-me no estilo clássico, como qualquer outro apaixonado. Não tive, aparentemente, a originalidade de traçar uma nova estrada para a vergonha e a destruição, mas trilhei a velha rota com estúpida exatidão, para não me desviar uma polegada do centro batido. Tive... como merecia ter... o destino de todos os apaixonados. Visitando-a uma noite, quando Céline não me esperava, desmascarei-a; mas era uma noite cálida, e eu estava cansado de vaguear por Paris, e assim me sentei em seu boudoir, 176

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feliz por respirar o ar tão recentemente consagrado pela presença dela. Não... estou exagerando; nunca pensei que houvesse alguma virtude consagradora nela; era mais uma espécie de perfume de pastilha que ela deixara atrás de si, um cheiro de almíscar e âmbar, do que um odor de santidade. Eu começava a sufocar com os vapores das flores de estufa e das essências borrifadas, quando me ocorreu abrir a janela e sair para a sacada. Havia luar, e além disso a luz de gás, e tudo estava muito quieto e sereno. A sacada tinha uma ou duas cadeiras. Sentei-me e puxei um charuto... vou puxar um agora, se a senhorita me perdoar. Seguiu-se uma pausa, preenchida pelo aparecimento e acendimento do charuto; tendo-o colocado entre os lábios e inalado um hausto de incenso havanês no; ar frio e sem sol, ele prosseguiu: — Eu também gostava de bombons naquele tempo, Srta. Eyre, e estava croquant (perdoe o barbarismo) croquant confeitos de chocolate e fumando, alternadamente, observando enquanto isso as equipagens que rolavam pelas ruas da moda em direção à ópera ali próxima, quando, numa elegante carruagem fechada, puxada por um belo par de cavalos ingleses, e distintamente visível na brilhante noite citadina, reconheci a voiture que dera a Céline. Ela voltava; é claro, que meu coração bateu com impaciência contra o balaustre de ferro no qual me apoiava. A carruagem parou, como eu esperava, na porta do palacete; minha chama (esta é a palavra exata para uma inamorata de ópera) baixou; apesar de envolta num casaco... um estorvo desnecessário, a propósito, numa noite de junho tão quente... reconheci-a no mesmo instante pelo pezinho, que apareceu por baixo da barra do vestido, quando ela saltou dos degraus da carruagem. Curvando-me sobre a sacada, eu estava para murmurar “Mon ange”... num tom, evidentemente, que só deveria ser audível para o ouvido do amor... quando um vulto saltou da carruagem atrás dela; também envolto num casaco; mas foi um calcanhar com esporas o que pisou na calçada, e era uma cabeça com chapéu que agora passava sob a porte cochère em arco do palacete. “A senhorita nunca sentiu ciúme, não é, Srta. Eyre? É claro Jane Eyre

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que não, não preciso perguntar-lhe; porque jamais sentiu amor. Ainda precisa experimentar os dois sentimentos; sua alma dorme; ainda está por vir o choque que irá acordá-la. A senhorita pensa que toda a existência passa num fluir tão tranqüilo quanto aquele em que sua juventude até agora deslizou. Continuando a flutuar com os olhos fechados e os ouvidos tapados, nem vê os rochedos que se eriçam não distantes do leito do rio, nem ouve as ondas fervilharem em suas bases. Mas eu lhe digo... e guarde bem minhas palavras... a senhorita chegará um dia a uma passagem escarpada no canal, onde toda a corrente da vida se quebrará em redemoinho e tumulto, espuma e barulho: ou será reduzida a átomos nas pontas das escarpas, ou erguida e levada por alguma onda mestra a uma corrente mais calma... como estou agora. “Gosto deste dia; gosto deste céu de aço; gosto da severidade e quietude do mundo sob esta geada. Gosto de Thornfield, sua antigüidade, seu recolhimento, suas árvores e espinheiros, sua fachada cinzenta e suas fileiras de janelas escuras refletindo essa abóbada metálica; e no entanto, quanto tempo detestei até mesmo a idéia deste lugar, evitei-o como uma grande casa empesteada. Como ainda detesto...” Rangeu os dentes e calou-se; deteve os passos e bateu a bota contra o solo duro. Algum pensamento odioso parecia terse apoderado dele, e segurá-lo tão firmemente, que não podia avançar. Subíamos a alameda quando ele parou assim; tínhamos a mansão à nossa frente. Erguendo os olhos para suas ameias, ele lhes dirigiu um olhar como nunca vi antes ou depois disso. Sofrimento, vergonha, ira... impaciência, repugnância, antipatia... pareciam travar um trêmulo conflito nas grandes pupilas que se dilatavam sob as sobrancelhas de ébano. Bárbara era a luta que devia predominar; mas outro sentimento surgiu e triunfou; algo duro e cínico; auto-imposto e resoluto; acalmou-lhe paixão e petrificou-lhe a expressão: ele prosseguiu: — Durante o momento em que fiquei em silêncio, Srta. Eyre, eu acertava uma questão com o meu destino. E esse destino ficou ali, ao lado do 178

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tronco de faia... uma bruxa como as que apareceram a Macbeth na charneca em Forres. “Gostas de Thornfield?” disse-me, erguendo um dedo; e depois escreveu no ar um memento, que cobria em sinistros hieróglifos toda a frente da casa, entre a fileira de cima e a de baixo de janelas. “Gosta se puderes! Gosta se ousares!” “’Gostarei’, eu disse; ‘ouso gostar’; e (acrescentou sombriamente) ‘manterei minha palavra, romperei os obstáculos à felicidade, à bondade... sim, bondade. Desejo ser um homem melhor do que tenho sido, do que sou; como o leviatã de Jó quebrou a lança, o dardo e a cota de malha, os obstáculos que outros contam como ferro e cobre, eu considerarei apenas palha e madeira podres”. Adèle correu então para ele com sua peteca. — Fora! — ele gritou brutalmente. — Fique longe, menina, ou entre e vá ficar com Sophie! Continuando então a acompanhar seu passeio em silêncio, aventurei-me a chamá-lo ao ponto onde ele abruptamente se desviara: — O senhor deixou a sacada, senhor — perguntei — quando Mlle Varens entrou? Quase esperava uma repreensão por esta pergunta dificilmente oportuna; mas, ao contrário, despertando de sua carrancuda abstração, ele volveu os olhos para mim, e a sombra pareceu abandonar sua fronte. — Oh, tinha esquecido Céline! Bem, reiniciando. Quando vi minha feiticeira entrar assim acompanhada por um cavalheiro, pareceu-me ouvir um silvado, e a serpente verde do ciúme, erguendo-se em anéis da sacada enluarada, deslizou para dentro de meu colete, e abriu caminho roendo em dois minutos até o centro de meu coração. Estranho! — exclamou de repente, desviando-se de novo da história. — Estranho que eu a tenha escolhido para confidente disso tudo, senhorita; mais que estranho que me ouça silenciosamente, como se fosse a coisa mais comum do mundo um homem como eu contar histórias de suas amantes da ópera a uma moça estranha e inexperiente como a senhorita. Mas a Jane Eyre

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última singularidade explica a primeira, como eu já disse antes: a senhorita, com sua gravidade, consideração e cautela, foi feita para ser uma recipiente de segredos. Além disso, sei que tipo de mente coloquei em comunicação com a minha, sei que uma mente não sujeita a contaminação, uma mente peculiar; única. Felizmente, não pretendo prejudicá-la; mas se pretendesse, ela não receberia danos de mim. Quanto mais eu e a senhorita conversarmos, melhor; pois enquanto eu não posso feri-la, a senhorita pode refrescar-me. — Após esta digressão, ele prosseguiu: — Permaneci na sacada: “Virão ao boudoir dela, sem dúvida”, pensava. “Deixe-me preparar uma emboscada”. Assim, passando a mão pela janela aberta, fechei as cortinas; depois fechei o caixilho, deixando apenas uma fresta aberta o suficiente para permitir a passagem das juras abafadas dos amantes; depois me esgueirei de volta à minha cadeira, e quando a retomei o par entrou. Pus rapidamente os olhos na abertura. A camareira de Céline entrou, acendeu uma lâmpada, deixou-a na mesa e retirou-se. O casal ficou assim plenamente visível para mim: tiraram os casacos, e lá estava “a Varens”, reluzindo em cetim e jóias... presentes meus, é claro... e lá estava seu companheiro, num uniforme de oficial; e eu o conhecia como um jovem roué*, um visconde... um jovem desmiolado e pervertido a quem encontrara algumas vezes em sociedade, e ao qual jamais pensara odiar, por desprezá-lo tão absolutamente. Ao reconhecê-lo, a presa da serpente do ciúme se quebrou no mesmo instante; porque naquele momento meu amor por Céline se apagou sob um extintor. Uma mulher que podia me trair com tal rival não merecia uma disputa; merecia apenas desprezo; menos, porém, do que eu, que fora seu bobo. “Começaram a conversar, e a conversa me pôs inteiramente à vontade; frívola, mercenária, sem coração e sem sentido, era mais calculada para entediar do que para enfurecer um ouvinte. Havia um cartão meu sobre a mesa, que, tendo sido visto, trouxe meu nome à discussão. Nenhum deles tinha energia ou espírito para desancar-me em regra, mas me insultaram tão grosseiramente quanto podiam, à sua maneira mesquinha, especialmente Céline, que se mostrou até brilhante sobre meus defeitos pessoais... 180

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deformidades, como ela os chamava agora. Ora, era seu costume lançar-se em ardorosa admiração do que chamava de minha “bauté mâle”**; no que diferia diametricalmente da senhorita, que me disse à queima-roupa, na segunda entrevista, que não me achava bonito. O contraste me chamou a atenção na hora e...” Adèle veio correndo de novo. — Monsieur, John veio há pouco dizer que seu agente está aí e deseja vê-lo. — Ah, neste caso, devo resumir. Abrindo a janela, marchei para eles; liberei Céline de minha proteção; dei-lhe um prazo para deixar o palacete; ofereci-lhe uma quantia para as necessidades imediatas; ignorei gritos, histeria, rogos, protestos, convulsões; marquei com o visconde um encontro no Bois de Boulogue. Na manhã seguinte, tive o prazer de enfrentá-lo, deixei uma bala num de seus pobres braços estiolados, fracos como a asa de um pinto, e depois achei que liquidara todo o assunto. Mas infelizmente a Varens, seis meses antes, me dera essa fillette Adèle, que afirmava ser minha filha; e talvez seja, embora eu não veja provas de tão triste paternidade escritas em seu rosto; Pilot parece mais comigo do que ela. Alguns anos depois de eu romper com a mãe, ela abandonou a filha e fugiu para a Itália com um músico ou cantor. Não reconheci nenhum direito de Adèle a ser sustentada por mim, nem reconheço nenhum agora, pois não sou o pai dela; mas sabendo que estava muito abandonada, retirei a coitadinha do lodo e da lama de Paris e a transplantei para aqui, para criar-se limpa no íntegro solo de um jardim rural inglês. A Sra. Fairfax encontrou a senhorita para educá-la; mas, agora que sabe que ela é filha ilegítima de uma moça da ópera francesa, talvez faça uma idéia diferente de sua pupila e protegida; virá a mim algum dia com a notícia de que encontrou outro lugar... que me pede para procurar uma nova governanta etc. — Não: Adèle não é responsável pelos erros da mãe ou os seus; tenho consideração por ela; e agora que sei que ela é, em certo sentido, órfã... abandonada pela mãe e rejeitada pelo senhor... me apegarei ainda mais a ela do que antes. Como poderia eu preferir o mimado Jane Eyre

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rebento de uma família rica, que odiaria sua governanta como uma praga, a uma orfãzinha solitária que a busca como amiga? — Oh, é essa a luz em que a senhorita vê o caso! Bem, tenho de ir agora; e a senhorita também; está escurecendo. Mas eu fiquei lá fora mais alguns minutos com Adèle e Pilot — disputei uma corrida com ela e um jogo de raqueta e peteca. Quando entramos, e depois de remover sua touca e casaco, tomei-a nos joelhos e mantive-a assim por uma hora, deixando-a tagarelar à vontade, não repelindo nem mesmo algumas pequenas liberdades e trivialidades em que costumava se lançar quando lhe davam muita atenção, e que traíam nela um caráter superficial, herdado provavelmente da mãe e dificilmente compatível com uma mente inglesa. Contudo, tinha seus méritos; e eu estava disposta a apreciar ao máximo tudo que houvesse de bom nela. Buscava em seu rosto e feições alguma semelhança com o Sr. Rochester, mas não encontrei nenhuma; nenhum traço, nenhuma expressão anunciava algum parentesco. Era uma pena; se se pudesse provar que ela parecia com ele, ele teria um melhor conceito dela. Só depois de retirar-me para meu quarto foi que examinei cuidadosamente a história que o Sr. Rochester me tinha contado. Como ele dissera, não havia provavelmente nada de extraordinário no teor da narrativa em si; a paixão de um inglês rico por uma dançarina francesa, e a traição dela a ele, eram coisas bastante corriqueiras, sem dúvida, em sociedade; mas havia algo decididamente estranho no paroxismo de emoção que subitamente o tomara quando expressava a atual satisfação de seu estado de espírito, e em seu recém-revivido prazer pela velha mansão e seus arredores. Meditei intrigada sobre esse incidente; mas, deixando-o aos poucos, por achá-lo no momento inexplicável, voltei-me para o exame das maneiras de meu patrão para comigo. A confiança que ele julgara apropriado depositar em mim parecia um tributo à minha discrição: eu a encarava e aceitava como tal. Sua conduta já por algumas semanas era mais uniforme, para comigo, do que a princípio. Eu nunca parecia atrapalhá-lo; ele não tinha acessos de arrepiante altivez; quando me encontrava inesperadamente, o encontro parecia bem-vindo; sempre tinha uma palavra e às vezes 182

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um sorriso para mim: quando chamada por um convite formal à sua presença, eu era honrada com uma recepção cordial que me fazia sentir que realmente possuía o poder de entretê-lo, e que aquelas conferências noturnas eram buscadas tanto para o prazer dele como meu. Na verdade, eu falava relativamente pouco, mas ouvia-o falar com prazer. Era de sua natureza ser comunicativo; gostava de abrir a uma mente que não conhecia o mundo vislumbres de seus cenários e costumes (não me refiro a seus cenários corruptos e seus maus costumes, mas aos que extraíam seu interesse da grande escala em que se desenrolavam, da estranha novidade que os caracterizava); e eu sentia um intenso prazer em receber as novas idéias que ele oferecia, em imaginar os novos quadros que ele pintava, e em segui-lo em pensamento pelas novas regiões que revelava, jamais ficando espantada ou perturbada por uma alusão perniciosa. A liberdade de suas maneiras libertava-me de qualquer contenção penosa; a amistosa franqueza, tão correta quanto cordial, com que me tratava, atraía-me para ele. Eu sentia às vezes que ele era meu parente, em vez de patrão: contudo, ainda era às vezes imperioso; mas eu não me importava com isso; via que era o seu jeito. Fiquei tão feliz, tão satisfeita com esse novo interesse acrescentado à vida que deixei de ansiar por parentes: meu destino, uma fina lua crescente, parecia ampliar-se; os vazios da existência enchiam-se; minha saúde física melhorou; ganhei carne e vigor. E o Sr. Rochester, era agora feio a meus olhos? Não, leitor; a gratidão e muitas associações, todas agradáveis e alegres, faziam do seu rosto a coisa que eu mais gostava de ver; a presença dele numa sala era mais animadora que o mais vivo fogo. Mas eu não esquecera seus defeitos; na verdade, não poderia, pois ele os punha freqüentemente diante de mim. Era orgulhoso, sardônico, duro com os inferiores de todos os tipos: no íntimo, eu sabia que sua grande bondade para comigo era contrabalançada por uma injusta severidade com muitos outros. Era mal-humorado, também, indizivelmente; mais de uma vez, quando chamada a Jane Eyre

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ler para ele, encontrei-o sentado sozinho em sua biblioteca, a cabeça curvada sobre os braços cruzados; e, quando erguia o olhar, uma carranca sombria, quase maligna, enegrecia-lhe as feições. Mas eu acreditava que seu mau humor e suas antigas faltas de moralidade (digo antigas porque agora parecia corrigido delas) tinham origem em alguma cruel contrariedade da sorte. Acreditava que ele era naturalmente /um homem de melhores tendências, princípios mais elevados e gostos mais puros que os que as circunstâncias tinham desenvolvido, a educação instilado ou o destino encorajado. Achava que havia excelentes materiais nele; embora no momento estivessem um tanto estragados e embaraçados. Não posso negar que sofria com seu sofrimento, fosse qual fosse, e que daria muito para aliviá-lo. Embora houvesse apagado minha vela e estivesse deitada na cama, não conseguia dormir, pensando na aparência dele quando parará na alameda e dissera como o destino se erguera à sua frente e o desafiara a ser feliz em Thornfield. “Por que não?” perguntei a mim mesma. “Que é que o separa de sua casa? Será que a deixará logo? A Sra. Fairfax disse que ele raramente ficava mais de uma quinzena de cada vez; e ele está morando aqui agora há dois meses. Se partir, a mudança será dolorosa. E se ficar ausente a primavera, verão e outono, como o sol e os belos dias parecerão sem alegria!” Eu não sabia se dormira ou não após esses pensamentos; de qualquer forma, estremeci, inteiramente desperta, ao ouvir um vago murmúrio, peculiar e lúgubre, que soou, segundo me pareceu, bem em cima de mim. Desejava ter deixado a vela acesa; a noite estava terrivelmente escura; eu tinha o espírito deprimido. Ergui-me e pus-me sentada na cama, à escuta. O som desapareceu. Tentei dormir novamente; mas meu coração batia ansioso; minha tranqüilidade interna se fora. O relógio, lá embaixo no saguão, bateu duas horas. Nesse mesmo momento pareceu que tocaram em minha porta; como se dedos houvessem corrido pelas folhas tateando o caminho ao longo da escura galeria lá fora. Eu disse: — Quem está aí? 184

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Nada me respondeu. Eu estava gelada de medo. De repente, lembrei-me de que podia ser Pilot, que, quando a porta da cozinha ficava aberta, não poucas vezes subia até a soleira da porta do Sr. Rochester; eu mesma o tinha visto deitado ali pelas manhãs. A idéia me acalmou um pouco; e como um total silêncio reinava agora por toda a casa, comecei a sentir a volta do sono. Mas não estava escrito que eu dormiria naquela noite. Um sonho mau tinha se aproximado de meus ouvidos, quando voou assustado por um incidente de gelar os ossos, realmente. Foi uma risada demoníaca — baixa, abafada e profunda — dada, ao que parecia, no próprio buraco da fechadura da porta de meu quarto. A cabeceira de minha cama ficava perto da porta, e pensei a princípio que o gobelino estava ali junto — ou antes, agachado ao lado de meu travesseiro, mas levantei-me, olhei em torno e não consegui ver nada; e enquanto olhava, o som sobrenatural se repetiu, e eu soube que vinha de detrás da porta. Meu primeiro impulso foi saltar e fechar o ferrolho; e o seguinte, tornar a gritar: — Quem está aí? Alguma coisa gorgolejou e gemeu. Dentro em pouco, ouvi passos retirando-se galeria acima, em direção à escada do terceiro andar; fizera-se ultimamente uma porta para fechar essa escada; ouvia-a abrir-se e fechar-se, e tudo ficou quieto. “Terá sido Grace Poole? E estará ela possuída pelo demônio?” pensei. Impossível agora ficar sozinha: eu tinha de ir procurar a Sra. Fairfax. Enfiei apressada o vestido e o xale; puxei o ferrolho e abri a porta com mão trêmula. Havia uma vela acesa diante da porta, no tapete da galeria. Fiquei surpresa com essa circunstância, porém ainda mais me surpreendeu perceber o ar bastante denso, como cheio de fumaça; e, enquanto olhava à direita e à esquerda, para descobrir de onde saíam aquelas colunas azuis, tomei maior consciência de um forte cheiro de coisa queimada. Alguma coisa rangeu, era uma porta aberta; e a porta era a do Sr. Rochester, e a fumaça saía numa nuvem dali. Não pensei mais na Sra. Fairfax; não pensei mais em Grace Poole ou na risada; num instante, estava dentro do quarto. Línguas de chamas lambiam Jane Eyre

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em torno da cama, as cortinas ardiam. No meio do incêndio e da fumaça, o Sr. Rochester jazia estendido imóvel, num sono profundo. — Acorde! Acorde! — gritei. Sacudi-o, mas ele apenas murmurou e se voltou: a fumaça tinha-o estupidificado. Não se podia perder um momento; os próprios lençóis alimentavam o fogo. Corri para a jarra e a bacia; felizmente, uma era ampla e a outra funda, e ambas estavam cheias d’água. Peguei-as, inundei a cama e seu ocupante, voei de volta a meu quarto, trouxe meu jarro d’água, batizei a cama de novo e, com a ajuda de Deus, consegui extinguir as chamas que a devoravam. O chiado do elemento encharcado, o barulho do jarro quebrado que eu jogara no chão depois de esvaziar, e acima de tudo o jorro do banho de chuveiro que eu despejara liberalmente, despertaram o Sr. Rochester afinal. Embora estivéssemos agora na escuridão, eu sabia que ele estava acordado; porque o ouvi fulminando estranhos anátemas ao descobrir-se deitado numa poça d’água. — É uma inundação? — gritou. — Não, senhor — respondi. — Mas houve um incêndio; levante-se, por favor; está encharcado agora; vou buscar uma vela. — Em nome de todos os duendes da cristandade, é Jane Eyre? — ele perguntou. — Que fez comigo, feiticeira, bruxa? Quem está no quarto além de você. Tramava afogar-me? — Vou buscar-lhe uma vela, senhor; e, em nome dos céus, se levante. Alguém tramou alguma coisa; o senhor não pode perder tempo para descobrir quem e o que é. — Está bem! Estou de pé agora; mas é sob seu próprio risco que vai buscar uma vela. Espere dois minutos até eu enfiar algumas roupas secas, se é que há alguma... sim, aqui está minha camisola de dormir. Agora corra! Corri; trouxe a vela que ainda estava na galeria. Ele a tomou de minhas mãos, ergueu-a e examinou a cama, toda enegrecida e escorchada, os lençóis encharcados, o tapete em volta nadando em água. — Que é? E quem fez isso? — ele perguntou. Contei-lhe em poucas palavras o que havia transpirado; a estranha risada que 186

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ouvira na galeria; os passos subindo para o terceiro andar; a fumaça — o cheiro de incêndio que me havia conduzido ao seu quarto; o estado em que encontrei as coisas ali, e como o inundara com toda a água em que pudera pôr as mãos. Ele ouviu muito seriamente; seu rosto, à medida que eu prosseguia, expressava mais preocupação que espanto; ele não falou imediatamente quando concluí. — Devo chamar a Sra. Fairfax? — perguntei. — A Sra. Fairfax? Não; para que diabos iria chamá-la? Que pode ela fazer? Deixe-a dormir em paz. — Então vou buscar Leah, e acordar John e a mulher dele. — De jeito nenhum, simplesmente fique quieta. Está com o xale. Se não estiver aquecida o bastante, pode pegar meu capote ali; enrole-se nele, e sente-se na poltrona, ali... eu a porei. Agora ponha os pés no banco, para mantê-los fora do molhado. Vou deixá-la em alguns minutos. Levarei a vela. Fique onde está até eu voltar; quieta como um rato. Tenho de fazer uma visita ao terceiro andar. Não se mova, lembre-se, nem chame ninguém. Saiu; vi a luz afastar-se. Ele percorreu a galeria em silêncio, abriu a porta da escada com o menor ruído possível, fechou-a atrás de si, e o último raio desapareceu. Fiquei na escuridão total. Tentei escutar algum ruído, mas não havia nenhum. Passou-se um longo tempo. Eu estava cansada; sentia frio, apesar do capote; e depois não via a utilidade de ficar, uma vez que não devia acordar a casa. Estava a ponto de arriscar incorrer no desagrado do Sr. Rochester, desobedecendo suas ordens, quando a luz mais uma vez brilhou fracamente na parede da galeria, e ouvi seus pés descalços pisarem o tapete. “Espero que seja ele”, pensei, “e não alguma coisa pior”. Ele tornou a entrar, pálido e muito carrancudo. — Descobri tudo — disse, pondo a vela no suporte da bacia. — É como eu pensava. — Como, senhor? Ele não respondeu, mas ficou de pé com os braços cruzados, fitando o chão. Ao cabo de alguns minutos, perguntou num tom um tanto peculiar: Jane Eyre

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— Esqueci se a senhorita disse ter visto alguma coisa quando abriu a porta de seu quarto. — Não, senhor, só o castiçal no chão. — Mas ouviu uma risada estranha? Ouviu essa risada antes, me pergunto, ou alguma coisa parecida? — Sim, senhor; há uma mulher que costura aqui, chamada Grace Poole... ela ri desse jeito. É uma pessoa singular. — Exato. Grace Poole... a senhorita adivinhou. Ela é, como diz, singular... muito. Bem, vou pensar no assunto. Enquanto isso, estou satisfeito por ser a senhorita a única pessoa, além de mim mesmo, a saber dos detalhes exatos do incidente desta noite. A senhorita não é nenhuma tola linguaruda, não diga nada sobre isso. Eu darei uma explicação para esse estado de coisas (apontando a cama), e agora volte para seu quarto. Ficarei muito bem no sofá da biblioteca pelo resto da noite. São quase quatro horas: dentro de duas horas os criados estarão de pé. — Boa-noite, então, senhor — eu disse, saindo. Ele pareceu surpreso — muito incoerentemente, uma vez que acabara de mandar-me embora. — Quê! — exclamou. — Está me deixando, já, e dessa forma? — O senhor disse que eu podia ir. — Mas não sem se despedir; não sem uma ou duas palavrinhas de reconhecimento e boa vontade; não, em suma, dessa maneira curta e seca. Ora, a senhorita salvou minha vida... arrancou-me de uma morte horrível e excruciante! E passa por mim como se fôssemos estranhos um para o outro! Pelo menos apertemo-nos as mãos. Estendeu a mão; eu lhe dei a minha; ele a tomou primeiro numa, e depois em ambas as suas. — A senhorita salvou minha vida, tenho prazer em ter uma tão imensa dívida consigo. Não posso dizer mais nada. Nada mais seria tolerável para mim na condição de credor de tal obrigação; mas com a senhorita, é diferente... não sinto o seu favor como nenhum fardo, Jane. 188

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Fez uma pausa; olhava-me, palavras quase visíveis tremiamlhe nos lábios — mas sua voz foi contida. — Boa-noite, novamente, senhor. Não há dívida, favor, fardo, obrigação, no caso. — Eu sabia — ele disse — que você me faria bem de alguma forma, em algum tempo: vi-o em seus olhos quando primeiro a contemplei; a expressão e o sorriso deles não — tornou a parar — não prosseguiu depressa — causaram prazer ao mais íntimo de meu coração por nada. As pessoas falam de simpatias naturais; já ouvi falar de gênios bons, há grãos de verdade na fábula mais desenfreada. Minha querida salvadora, boa-noite! Havia uma estranha energia em sua voz, um estranho fogo em seus olhos. — Estou feliz por ter estado acordada — eu disse, e ia saindo. — Quê! Vai mesmo? — Sinto frio, senhor. — Frio? Sim... e pisando numa poça! Vá então, Jane; vá! — Mas ainda retinha minha mão, e eu não conseguia libertá-la. Ocorreume usar de um expediente. — Creio que ouvi a Sra. Fairfax se mover, senhor — disse. — Bem, deixe-me. — Ele relaxou os dedos, e eu saí. Voltei à minha cama, mas nem pensei em dormir. Até a manhã clarear, vime jogada no mar alegre, mas agitado, onde vagas de problemas rolavam sob ondas de alegria. Eu pensava às vezes ver além daquelas águas revoltas uma praia, doce como as colinas de Beulah; e de vez em quando um vento refrescante, levantado pela esperança, transportava meu espírito triunfantemente naquela direção, mas eu não podia alcançá-la, mesmo em imaginação — uma brisa contrária soprava de terra, e empurrava-me continuamente para trás. O senso resistia ao delírio; o julgamento advertia a paixão. Demasiado febril para descansar, levantei-me assim que o dia clareou.

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CAPÍTULO 16

E

u desejava e temia, ao mesmo tempo, ver o Sr. Rochester no dia seguinte a essa noite insone: queria ouvir de novo a sua voz, mas temia enfrentar seu olhar. Durante a primeira parte da manhã, esperava a cada momento a sua vinda; ele não costumava entrar na sala de aula, mas às vezes aparecia por alguns minutos, e eu tinha a impressão de que certamente viria nesse dia. Mas a manhã passou como sempre: não aconteceu nada para interromper o tranqüilo curso dos estudos de Adèle; ouvi apenas, pouco depois do desjejum, um certo movimento para os lados do quarto do Sr. Rochester, a voz da Sra. Fairfax, e os tons grosseiros de Leah e da cozinheira — isto é, a mulher de John — e do próprio John. Houve exclamações de “Que sorte o patrão não ter sido queimado na cama!” “É sempre perigoso manter uma vela acesa à noite!” “Como foi providencial que ele tivesse a presença de espírito de pensar no jarro d’água!” “Admira-me de que ele não tenha acordado ninguém!” “Esperemos que não pegue um resfriado por ter dormido no sofá da biblioteca!”. Etc. A essa confabulação seguiu-se um barulho de escovadelas e arrumação; e quando passei pelo quarto, ao descer para o almoço, vi pela porta aberta que tudo fora restaurado à mais completa ordem; só a cama se apresentava sem as cortinas. Leah estava trepada no batente da janela, esfregando as vidraças enegrecidas de fumaça. Ia dirigir-me a ela, pois desejava saber que explicação 190

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se dera para o caso; mas, ao adiantar-me, vi uma segunda pessoa no quarto — uma mulher sentada numa cadeira ao lado da cama, costurando passadeiras para a nova cortina. Essa mulher outra não era senão Grace Poole. Ali se sentava ela, calma e com uma aparência taciturna, como sempre, em seu vestido de tecido marrom, o avental de xadrez, o lenço branco e a touca. Concentrava-se no trabalho, em que todos os seus pensamentos pareciam absorvidos: na dura testa, e nas feições comuns, nada havia da palidez ou do desespero que se esperaria ver assinalando o rosto de uma mulher que tentara cometer um assassinato, e cuja vítima a seguira na noite passada até o seu antro, e (eu acreditava) a acusara com o crime que ela desejara perpetrar. Fiquei espantada — pasmada. Ela ergueu o olhar, enquanto eu a olhava: nenhum susto, nenhum aumento ou diminuição em sua cor traíam qualquer emoção, consciência de culpa ou temor do desmascaramento. Ela disse “Bom-dia, senhorita”, à sua costumeira maneira fleumática e breve; e pegando outra passadeira e mais fita, continuou com sua costura. “Farei um teste com ela”, pensei. “Uma tal impenetrabilidade absoluta ultrapassa a compreensão”. — Bom-dia, Grace — eu disse. — Aconteceu alguma coisa aqui? Pensei ter ouvido os criados falando todos juntos há pouco. — Foi só o patrão que estava lendo na cama a noite passada, adormeceu com a vela acesa, e as cortinas pegaram fogo; mas, felizmente, ele acordou antes de os lençóis ou a madeira da cama se incendiarem, e conseguiu abafar as chamas com a água do jarro. — Caso estranho! — eu disse em voz alta, olhando-a fixamente. — O Sr. Rochester não acordou ninguém? Ninguém o ouviu? Ela tornou a erguer os olhos para mim; e desta vez havia algo de consciência na expressão deles. Ela parecia examinar-me cautelosamente; depois respondeu: — Os criados dormem tão distante, a senhorita sabe, que não era provável que ouvissem. O quarto da Sra. Fairfax e o seu são os mais próximos do do patrão; mas a Sra. Fairfax diz que não Jane Eyre

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ouviu nada; quando as pessoas ficam velhas, muitas vezes têm sono pesado. — Fez uma pausa, e depois acrescentou com uma espécie de indiferença fingida, mas ainda num tom acentuado e significativo: — Mas a senhorita é jovem; e eu diria que tem sono leve, talvez tenha ouvido algum barulho. — Eu ouvi — respondi, baixando a voz, para que Leah, que ainda polia as vidraças, não pudesse escutar-me. — E a princípio pensei que fosse Pilot, mas Pilot não pode rir; e estou certa de que ouvi uma risada, e uma risada estranha. Ela pegou um novo pedaço de linha, encerou-a cuidadosamente, enfiou-a na agulha com mão firme, e depois observou, com perfeita compostura: — Não é muito provável que o patrão sorrisse, eu julgaria, senhorita, estando em tal perigo: a senhorita deve ter sonhado. — Eu não estava sonhando — eu disse, com algum ardor pois sua imprudente frieza me provocava. Ela me olhou de novo, e com o mesmo olhar examinador e consciente. — A senhorita disse ao patrão que ouviu uma risada? — perguntou. — Não tive oportunidade de falar com ele esta manhã. — Não pensou em abrir a porta e olhar a galeria? — ela tornou a perguntar. Parecia estar me interrogando, tentando extrair de mim alguma informação sem eu saber. Ocorreu-me a idéia de que, se ela descobrisse que eu sabia ou desconfiava de sua culpa, usaria algum de seus malignos truques contra mim; julguei aconselhável ficar em guarda. — Ao contrário — eu disse. — Aferrolhei minha porta. — Quer dizer que não costuma aferrolhar sua porta toda noite, antes de ir para a cama? “Demônio! Ela quer conhecer meus hábitos, para fazer seus planos de acordo com isso!” A indignação, mais uma vez, prevaleceu sobre a prudência: respondi acerbamente: — Até agora sempre deixei de aferrolhar: não julgava que fosse necessário. Não sabia que havia algum perigo ou aborrecimento a temer em Thornfield Hall, mas daqui para a frente (e acentuei as palavras) terei muito cuidado de trancar tudo antes de aventurar192

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me a deitar-me. — Será uma coisa sensata a fazer — foi sua resposta. — Essa vizinhança é tão tranqüila quanto qualquer uma que conheço, e nunca ouvi falar que ladrões ameaçassem a mansão desde que ela existe; embora haja centenas de libras em prataria na prateleira, como bem se sabe. E sabe, para uma casa tão grande, há muito poucos criados, porque o patrão nunca morou aqui por muito tempo; e quando vem, sendo um solteirão, precisa de pouco serviço; mas eu sempre penso que o seguro morreu de velho; uma porta é melhor fechada, e é bom ter um ferrolho passado entre a gente e o mal que pode andar por aí. Muita gente, senhorita, gosta de confiar tudo à Providência; mas eu digo que a Providência não dispensa os meios, embora Ele muitas vezes os abençoe, quando são usados discretamente. — E neste ponto encerrou sua arenga, bastante longa para ela, e dita com a gravidade de uma Quaker. Eu permanecia absolutamente perplexa com o que me parecia seu miraculoso autodomínio e sua inescrutável hipocrisia, quando a cozinheira entrou. — Sra. Poole — disse ela, dirigindo-se a Grace — o almoço dos criados logo estará pronto; vai descer? — Não; ponha minha porção de cerveja preta e um pedaço de pudim numa bandeja, que eu levarei para cima. — Vai querer um pouco de carne? — Só um naco, e um nadinha de queijo, só isso. — E o sagu? — Não no momento; descerei antes da hora do chá e o farei eu mesma. A cozinheira então se voltou para mim, dizendo que a Sra. Fairfax estava à minha espera; assim, parti. Mal ouvi a versão que a Sra. Fairfax deu do incêndio das cortinas, durante o almoço, tão ocupada estava em forçar o cérebro em relação ao caráter enigmático de Grace Poole, e ainda mais em ponderar o problema de sua posição em Thornfield, e interrogar por que ela não fora posta sob custódia naquela manhã, ou, no mínimo, despedida do serviço de seu patrão. Ele havia praticamente declarado sua convicção quanto à criminalidade dela Jane Eyre

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na noite passada: que causa misteriosa o impedia de acusá-la? E por que me pedira segredo, também? Era estranho: um cavalheiro audaz, vingativo e altivo parecia de algum modo sob o poder de uma das mais baixas de seus dependentes; tanto, que mesmo quando ela erguia a mão contra sua vida, não ousava acusá-la abertamente do atentado, e muito menos puni-la por isso. Se Grace fosse jovem e bonita, eu teria sido tentada a pensar que idéias mais ternas que a prudência influenciavam o Sr. Rochester em favor dela; mas, pouco favorecida e matronal como era, não se podia admitir a idéia. “Contudo”, refleti, “ela foi jovem outrora; sua juventude seria contemporânea da do seu patrão: a Sra. Fairfax me disse uma vez que ela vivia aqui há muitos anos. Não creio que possa algum dia ter sido bonita; mas, pelo que sei, pode possuir originalidade e força de caráter para compensar a falta de atrativos pessoais. O Sr. Rochester gosta dos decididos e excêntricos: e Grace é no mínimo excêntrica. E se um antigo capricho (uma extravagância bem possível numa natureza tão repentina e obstinada como a dele) o pôs à mercê dela, e ela agora exerce sobre as ações dele uma influência-secreta, resultado da própria indiscrição dele, da qual não pode se livrar e não se atreve a ignorar?” Mas, tendo chegado a este ponto de conjetura, a figura atarracada e tosca da Sra. Poole, e seu rosto feio, seco e mesmo grosseiro, voltaram-me tão distintamente à lembrança, que pensei: “Não; impossível! Minha suposição não pode ser correta. Contudo”, sugeriu a voz secreta que nos fala em nossos corações, “você tampouco é bonita, e talvez o Sr. Rochester a aprove: de qualquer forma, você tem achado freqüentemente que assim é; e na noite passada... lembre-se das palavras dele, lembre-se de sua aparência, lembre-se de sua voz!” Eu me lembrava bem de tudo — a linguagem, o olhar, o tom pareceram no momento vividamente renovados. Eu estava agora na sala de aula, Adèle desenhava; curvei-me sobre ela e orientei o seu lápis. Ela ergueu o olhar com uma espécie de estremeção, — Qu’avez vous, mademoiselle? — disse. — Vos doigts tremblent comme la feuille, et vos joues sont rouges: mais, rouges comme des cerises! (Que tem, mademoiselle? Seus dedos estão tremendo como 194

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folhas, e suas faces estão vermelhas; ora, vermelhas como cerejas!) — Estou com calor, Adèle, de tanto me curvar! — Ela prosseguiu desenhando; eu continuei pensando. Apressei-me a afastar da mente a idéia odiosa que estivera concebendo a respeito de Grace Poole: repugnava-me. Compareime com ela, e descobri que éramos diferentes. Bessie Leaven dissera que eu era uma perfeita dama, e falara a verdade — eu era uma dama. E agora eu tinha uma aparência muito melhor do que quando Bessie me vira; apresentava mais cor e mais carne, mais vida, mais vivacidade, porque tinha esperanças mais luminosas e prazeres mais intensos. “A noite se aproxima”, pensei, olhando em direção à janela. “Não ouvi a voz ou as passadas do Sr. Rochester na casa hoje; mas certamente o verei antes da noite: temia o encontro pela manhã; agora o desejo, porque a expectativa foi por tanto tempo frustrada, que já se tornou impaciência.” Quando escureceu realmente, e quando Adèle me deixou para ir brincar no quarto das crianças com Sophie, desejei-o mais intensamente. Fiquei à escuta para ouvir a sineta tocar lá embaixo; à escuta para ouvir Leah subir com um recado; imaginava às vezes que ouvia os passos do próprio Sr. Rochester, e voltava-me para a porta, esperando que ela se abrisse e o admitisse. A porta permanecia fechada; só a escuridão entrava pela janela. Contudo, não era muito tarde; ele muitas vezes me mandava chamar às sete e às oito horas, e não eram ainda seis. Certamente, eu não me decepcionaria nessa noite, em que tinha tantas coisas a dizer-lhe! Queria abordar novamente o assunto de Grace Poole, e ouvir o que ele responderia; queria lhe perguntar diretamente se de fato acreditava que fora ela quem praticara o horrível atentado da noite passada; e se assim era, por que mantinha a perversidade dela em segredo. Pouco importava se minha curiosidade o irritasse; eu conhecia o prazer de embaraçá-lo e acalmá-lo alternadamente; era um prazer do qual eu gostava especialmente, e um instinto seguro sempre me impedia de ir longe demais; nunca me aventurava além do limite da provocação; gostava de experimentar minha habilidade até o último extremo. Mantendo todas as mínimas Jane Eyre

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formas de respeito, toda propriedade de minha posição, ainda podia enfrentá-lo na discussão sem o embaraço do medo ou da inibição; isso servia tanto a mim quanto a ele. A escada rangeu sob passos afinal; Leah apareceu; mas vinha apenas dizer que o chá estava pronto no quarto da Sra. Fairfax. E para lá me encaminhei, satisfeita ao menos por descer; pois imaginava que isso me punha mais perto da presença do Sr. Rochester. — Você deve estar querendo seu chá — disse a boa senhora, quando me juntei a ela. — Comeu tão pouco no almoço. Receio — continuou — que não esteja bem hoje: parece corada e febril. — Oh, estou muito bem! Nunca me senti melhor. — Então deve provar isso demonstrando um bom apetite; quer encher a chaleira enquanto desembaraço esta agulha? — Tendo concluído sua tarefa, levantou-se para fechar a cortina, que até então estivera suspensa, suponho que para aproveitar ao máximo a luz do dia, embora o crepúsculo se adiantasse agora para a total escuridão. — Está uma bela noite — ela disse, olhando pelas vidraças — embora não estrelada; o Sr. Rochester teve, no todo, um dia favorável para sua viagem. — Viagem! O Sr. Rochester foi a algum lugar? Eu não sabia que ele tinha saído. — Oh, partiu assim que tomou o desjejum! Foi a Leas, a casa do Sr. Esthon, dez milhas além de Millcote. Creio que há um grande grupo reunido lá, Lorde Ingram, Sir George Lynne, o Coronel Dent e outros. — A senhora o espera de volta esta noite? — Não; nem amanhã tampouco; eu diria que é bem provável que ele fique uma semana ou mais; quando essa gente fina, da moda, se reúne, se vê tão cercada de elegância e diversões, tão provida de tudo que pode agradar e entreter, que não tem pressa de se separar. Os cavalheiros, especialmente, são muito requisitados em tais ocasiões; e o Sr. Rochester é tão talentoso e animado em sociedade, que acredito que seja um favorito de todos: as damas gostam muito dele, embora não se julgasse sua aparência capaz 196

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de recomendá-lo particularmente aos olhos delas; mas suponho que seus dons e habilidades, talvez a riqueza e o bom sangue, compensem qualquer pequena falha na aparência. — Há damas em Leas? — Há a Sra. Esthon e as três filhas... jovens damas muito elegantes de fato; e há as Honoráveis Blanche e Mary Ingram, mulheres belíssimas, suponho; na verdade vi Blanche, há seis ou sete anos, quando era uma mocinha de dezoito anos. Veio a um baile de Natal aqui, dado pelo Sr. Rochester. Você devia ter visto a sala de jantar nesse dia... como estava ricamente decorada e brilhantemente iluminada! Eu diria que havia cinqüenta damas e cavalheiros presentes... todos pertencentes às primeiras famílias do condado, e a Srta. Ingram foi considerada a rainha da noite. — A senhorita diz que a viu, Sra. Fairfax; como era ela? — Sim, vi-a. As portas da sala de jantar foram abertas de par em par; e, como era época de Natal, permitiu-se que os criados se reunissem no saguão, para ouvir alguma das damas cantarem e tocarem. O Sr. Rochester quis que eu entrasse, e sentei-me num cantinho discreto e fiquei olhando-os. Nunca vi um quadro mais bonito; as damas estavam magnificamente vestidas; a maioria... pelo menos a maioria das jovens... parecia bela; mas a Srta. Ingram era certamente a rainha. — E que aparência tinha? — Alta, um belo busto, ombros em declive; um pescoço longo e gracioso; cor de oliva, morena clara; feições nobres; olhos mais ou menos como os do Sr. Rochester, grandes e negros, e tão brilhantes quanto as jóias que usava. E tinha também uma tão linda cabeleira, negra como um corvo, e estava tão elegantemente arrumada; uma coroa de grossas trancas atrás, e na frente os cachos mais longos e brilhantes que já’ vi. Estava vestida de puro branco; um echarpe cor de âmbar cobria-lhe os ombros e cruzava-se no peito, amarrada a um lado, e descia em pontas longas, franjadas, até abaixo dos joelhos. Ela usava também uma flor ambarina no cabelo, que contrastava bem com a massa negra dos cachos. — Foi muito admirada, é claro. — Sim, de fato, e não apenas por sua beleza, mas por seus Jane Eyre

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talentos. Foi uma das damas que cantaram, um cavalheiro acompanhou-a ao piano. Ela e o Sr. Rochester cantaram um dueto. — O Sr. Rochester? Eu não sabia que ele cantava. — Oh, ele tem uma bela voz de baixo, e um gosto excelente para a música. — E a Srta. Ingram, que tipo de voz tem? — Uma voz rica e potente: ela cantou deliciosamente; era um regalo ouvi-la; e tocou depois. Não sou juíza de música, mas o Sr. Rochester é; e ouvi-o dizer que a execução dela fora notavelmente boa. — E essa linda e talentosa dama não se casou ainda? — Parece que não; imagino que nem ela nem a irmã têm fortunas muito grandes. As propriedades do velho Lorde Ingram eram em sua maioria inalienáveis, e o filho mais velho ficou com quase tudo. — Mas me admira que nenhum nobre ou cavalheiro rico tenha se apaixonado por ela, o Sr. Rochester, por exemplo. Ele é rico, não é? — Oh, sim. Mas, sabe, há uma considerável diferença de idade. O Sr. Rochester tem quase quarenta anos, e ela apenas vinte e cinco. — E daí? Casamentos mais desiguais se fazem todos os dias. — É verdade: mas não imagino que o Sr. Rochester alimentasse uma idéia dessas. Mas você não está comendo nada; mal provou alguma coisa desde que começou o chá. — Não, estou com muita sede para poder comer. Pode me servir outra xícara? Estava para retornar à probabilidade de uma união entre o Sr. Rochester e a bela Blanche; mas Adèle entrou, e a conversa tomou outro rumo. Quando fiquei novamente só, examinei a informação que obtivera; olhei dentro de meu coração, analisei seus pensamentos e sentimentos, e tentei conter com mão severa aqueles que se tinham desviado pela ilimitada e inidentificável vastidão da imaginação, trazendo-os de volta ao seio seguro da sensatez. Acusada em meu próprio tribunal, tendo a memória dado seu 198

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testemunho das esperanças, desejos e sentimentos que eu estivera nutrindo desde a noite passada — do estado geral de espírito a que me entregara por quase uma quinzena, tendo-se a razão contado, à sua maneira tranqüila, uma história simples e sem enfeites, mostrando como eu rejeitara o real e rapidamente devorara o ideal — pronunciei o seguinte julgamento: Que uma tola maior que Jane Eyre jamais respirara o hausto da vida, que uma mais fantástica idiota jamais se empanturrara de mentiras mais doces e engolira veneno como se fosse néctar. “Você”, eu disse, “favorita do Sr. Rochester? Você dotada do poder de agradá-lo? Você, tendo importância para ele de qualquer modo? Ora, vá! Sua loucura me enoja. E obteve prazer de sinais ocasionais de preferência — sinais equívocos, dados por um cavalheiro de família e um homem do mundo a uma dependente e noviça. Como ousou você? Pobre boba estúpida! Nem mesmo o interesse próprio a fez mais sensata? Você repetia para si mesma esta manhã a breve cena da noite passada? Cubra o rosto e tome vergonha! Ele disse alguma coisa em louvor de seus olhos, disse? Pirralha cega! Abra as turvas pálpebras e veja bem sua maldita insensatez! Não faz bem a mulher nenhuma ser elogiada por seu superior, que não pode pretender casar-se com ela; e é loucura em todas as mulheres deixar um amor secreto vicejar dentro delas, um amor que, se não correspondido e conhecido, devorará a vida que o alimenta; e, se descoberto e correspondido, conduzirá como um fogo fátuo a lodosos pantanais de onde não se poderá extricar”. “Escute então, Jane, sua sentença: amanhã, ponha o espelho à sua frente e desenhe a giz seu retrato, fielmente, sem minimizar um só defeito; não omita nenhuma linha grosseira, não suavize nenhuma irregularidade desagradável, e escreva embaixo: ‘Retrato de uma Governanta, sem relações, pobre e comum’. “Em seguida, pegue um pedaço de marfim liso — você tem um preparado em sua caixa de pintura; pegue sua paleta; misture suas tintas mais novas, melhores, mais claras; escolha seus mais delicados pincéis de pêlo de camelo; delineie cuidadosamente a Jane Eyre

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face mais adorável que possa imaginar; pinte-a com os tons mais suaves e os mais doces matizes, segundo a descrição dada pela Sra. Fairfax de Blanche Ingram: lembre-se dos cachos negros, dos olhos orientais. Que! Retorna ao Sr. Rochester como modelo! Ordem! Nada de fingimento! Nada de sentimento! Nada de arrependimento! Só tolerarei senso e decisão! Recorde os traços augustos mas harmoniosos, o pescoço e o busto gregos; deixe o braço curvilíneo à vista, e a mão delicada; não omita nem o anel de diamante nem o bracelete de ouro; retrate fielmente o traje, a diáfana renda e o reluzente cetim, a graciosa echarpe e a rosa dourada; chame-o ‘Blanche, uma talentosa dama de classe’. “Sempre que, no futuro, lhe ocorra imaginar que o Sr. Rochester pensa bem de você, pegue esses dois quadros e compare-os, diga: ‘O Sr. Rochester poderia provavelmente conquistar o amor dessa nobre dama, se quisesse lutar por ele; será provável que desperdice um pensamento sério com essa indigente e insignificante plebéia?’ “Vou fazer isso”, decidi; e, tendo tomado essa determinação, fiquei mais calma e adormeci. Mantive minha palavra. Uma ou duas horas bastaram para desenhar meu retrato com crayons: e em menos de uma quinzena concluíra uma miniatura em marfim de uma imaginária Blanche Ingram. Parecia um rosto bastante adorável, e quando comparado com a cabeça real a giz, o contraste era tão grande quanto o autocontrole poderia desejar. Extraí benefícios dessa tarefa: manteve minha cabeça e minhas mãos ocupadas, e deu força e permanência às novas impressões que eu desejava gravar indelevelmente em meu coração. Dentro em pouco, tinha motivos para congratular-me pela linha de total disciplina à qual submetera assim meu coração; graças a isso, pude enfrentar as ocorrências posteriores com uma calma decente, e que, se me encontrassem despreparada, eu provavelmente não estaria à altura de manter, mesmo externamente.

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CAPÍTULO 17

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assou-se uma semana, e não chegaram notícias do Sr. Rochester; dez dias, e ele não voltara. A Sra. Fairfax disse que não se surpreenderia se ele fosse direto de Leas para Londres, e de lá para o Continente, sem mostrar o rosto de novo em Thornfield durante um ano; não poucas vezes havia deixado a mansão de maneira assim abrupta e inesperada. Quando ouvi isso, comecei a sentir um estranho frio e desânimo no coração. Na verdade, estava me permitindo experimentar uma nauseante sensação de decepção; mas reunindo forças e princípios, chamei imediatamente minhas sensações à ordem; e foi maravilhoso o modo como superei o temporário erro — como afastei o engano de supor os movimentos do Sr. Rochester um assunto no qual tivesse algum motivo de interesse vital. Não que me humilhasse com uma servil noção de inferioridade; ao contrário, apenas disse: “Você nada tem a ver com o senhor de Thornfield, além de receber o salário que ele lhe paga para ensinar à sua protegée, e ser grata pelo respeito e o tratamento bondoso que, se cumprir seu dever, tem o direito de esperar dele. Esteja certa de que este é o único laço que ele reconhece seriamente entre vocês dois; assim, não o faça objeto de seus belos sentimentos, seus arrebatamentos, agonias e coisas assim. Ele não é de sua classe: mantenha-se em sua casta e tenha auto-estima suficiente para não esbanjar o amor de todo o seu coração, alma e vigor onde tal dádiva não é querida Jane Eyre

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e seria desprezada.” Prossegui com minhas tarefas diárias tranqüilamente; mas de vez em quando vagas sugestões continuavam a cruzar-me o cérebro, de motivos pelos quais devia deixar Thornfield; e eu continuava involuntariamente imaginando anúncios e fazendo conjeturas sobre novas colocações: não achava necessário conter esses pensamentos; podiam germinar e dar frutos, se calhasse. O Sr. Rochester estava ausente havia mais de uma quinzena, quando o correio trouxe uma carta para a Sra. Fairfax. — É do amo — ela disse, ao olhar o endereço. — Agora suponho que saberemos se devemos esperar sua volta ou não. E enquanto quebrava o selo e examinava o documento, continuei tomando meu café (era na hora do desjejum); fazia calor, e atribuí a essa circunstância o intenso ardor que me subiu de repente às faces. Por que minha mão tremia, e por que eu derramava involuntariamente o conteúdo de minha xícara no pires, preferi não descobrir. — Bem, às vezes penso que somos muito parados aqui; mas teremos uma oportunidade de nos ocupar bastante agora, pelo menos por algum tempo — disse a Sra. Fairfax, ainda segurando a nota diante dos óculos. Antes que eu me permitisse pedir uma explicação, amarrei o cordão do avental de Adèle, que por acaso estava solto; tendo-lhe servido também outro bolo e tornado a encher sua caneca com leite, disse com indiferença: — Não é provável que o Sr. Rochester volte logo, suponho? — Na verdade é... dentro de três dias, ele diz; será na próxima quinta-feira; e não vem sozinho, também. Não sei quantas daquelas belas pessoas de Leas virão com ele; manda ordens para que se preparem todos os melhores quartos de dormir; a biblioteca e as salas de estar devem ser limpas; tenho de arranjar mais gente para a cozinha na George Inn, em Millcote e onde mais puder; e as damas trarão suas criadas e os cavalheiros seus valetes; assim, teremos uma casa cheia. — E a Sra. Fairfax engoliu seu desjejum e apressou-se a começar as operações. Os três dias seguintes foram, como ela previra, 202

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bastante atarefados. Eu julgava que todos os quartos de Thornfield estavam lindamente limpos e bem-arrumados; mas parece que me enganava. Conseguiramse três mulheres para ajudar; e jamais vi, antes ou depois disso, tanto esfregar, tanto escovar, tanto lavar paredes e bater tapetes, tanto tirar e colocar quadros, tanto polir espelhos e lustres, tanto acender lareiras nos quartos de dormir, tanto arejar lençóis e cobertores de penas. Adèle ficou excitadíssima em meio a isso tudo; os preparativos para a comitiva e a perspectiva de sua chegada pareciam lançá-la em êxtases. Queria que Sophie cuidasse de suas toilettes, como chamava os vestidos; que reformasse as que estivessem passées, e arejasse e arrumasse as novas. Ela própria não fazia nada, a não ser cabriolar pelos quartos da frente, pular para cima e para baixo das camas e deitar-se nos colchões, almofadas e travesseiros empilhados diante dos imensos fogos que rugiam nas lareiras. Fora exonerada dos deveres escolares; a Sra. Fairfax pusera-me a seu serviço, e eu passava o dia todo na despensa, ajudando (ou atrapalhando) a ela e à cozinheira; aprendendo a fazer pudins, bolos de queijo e massa francesas, a tratar caça e guarnecer pratos de sobremesa. Esperava-se que o grupo chegasse quinta-feira à tarde, a tempo para o jantar às seis. No período até então não tive tempo de alimentar quimeras; e creio que me mostrei tão ativa e animada quanto qualquer um — com exceção de Adèle. Contudo, de vez em quando, recebia uma desanimadora freada em minha animação; e era, apesar de mim mesma, lançada de volta à região de dúvidas e portentos e sombrias conjeturas. Isso ocorria quando por acaso via a porta da escada do terceiro andar (que ultimamente era sempre mantida fechada a chave) abrir-se lentamente e dar passagem ao vulto de Grace Poole, em elegante touca, avental branco e lenço; quando a via deslizar ao longo da galeria, os passos discretos abafados numas chinelas velhas; quando a via olhar os quartos agitados, revirados — dizer apenas uma palavra, talvez, à arrumadeira sobre a maneira correta de polir uma grade, ou limpar um batente de mármore de lareira, ou tirar manchas do papel de parede, e depois seguir adiante. Ela descia assim à Jane Eyre

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cozinha uma vez por dia, comia seu jantar, dava uma moderada cachimbada na lareira e voltava, levando a caneca de cerveja consigo, para seu consolo privado, naquele antro solitário lá em cima. Só uma hora das vinte e quatro ela passava com os criados embaixo; todo o resto de seu tempo era passado em algum quarto de teto baixo e revestido de carvalho no terceiro andar: ali ela se sentava e costurava — tão sem companhia como um prisioneiro numa masmorra. O mais estranho de tudo era que nem uma alma na casa, com exceção de mim, notava seus hábitos, ou parecia espantar-se com eles; ninguém discutia a posição ou emprego dela; ninguém se apiedava de sua solidão e isolamento. Ouvi certa vez, na verdade, parte de um diálogo entre Leah e uma das arrumadeiras, do qual Grace Poole era o tema. Leah dissera alguma coisa que eu não pegara, e a arrumadeira observou: — Ela recebe um bom salário, imagino? — Sim — disse Leah. — Eu queria ter um tão bom; não que o meu seja de me queixar... não há sovinice em Thornfield; mas não é um quinto da soma que a Sra. Poole recebe. E ela está economizando; vai a cada três meses ao banco em Millcote. Eu não me admiraria se já houvesse economizado o bastante para manter-se independente, se quisesse deixar o emprego; mas suponho que se acostumou; e também ainda não fez quarenta anos, e é forte e capaz para qualquer serviço. É cedo demais para abandonar o emprego. — É uma boa trabalhadora, eu diria — disse a arrumadeira. — Ah! Ela entende o que tem de fazer... ninguém melhor — disse Leah, significativamente. — E não é qualquer uma que poderia ocupar o seu lugar... nem mesmo por todo o dinheiro que ela recebe. — Não é mesmo! — foi a resposta. — Imagino se o patrão... A arrumadeira ia prosseguir, mas nesse ponto Leah voltou-se e me viu, e no mesmo instante deu uma cotovelada na companheira. — Ela não sabe? — ouvi a mulher sussurrar. Leah balançou a cabeça, e a conversa, é claro, morreu. Tudo que depreendi dela foi o seguinte: havia um mistério em 204

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Thornfield, e eu estava deliberadamente excluída de participação nesse mistério. Chegou a quinta-feira: todo o trabalho havia sido concluído na noite anterior; os carpetes foram postos, os cortinados das camas pregados, as colchas, de um branco radiante, estendidas, as mesas de toalete arrumadas, os móveis polidos, as flores dispostas em vasos; quartos e salões pareciam tão novos e brilhantes quanto o pessoal podia torná-los. Também o saguão fora lavado; e o grande relógio lavrado, assim como os degraus e os corrimãos da escada, haviam sido polidos até reluzirem como vidro; na sala de jantar, o guarda-louça resplendia com pratarias; na sala de estar e no boudoir, vasos de plantas exóticas floresciam por todos os lados. Chegou a tarde, a Sra. Fairfax pôs seu melhor vestido de cetim negro, suas luvas e seu relógio de ouro; pois cabia-lhe receber a comitiva — conduzir as damas a seus quartos etc. Adèle também queria estar arrumada, embora eu achasse que ela tinha pouca possibilidade de ser apresentada ao grupo, pelo menos naquele dia. Contudo, para satisfazê-la, permiti que Sophie a aprontasse num de seus compridos vestidos de musselina. Quanto a mim mesma, não tinha necessidade alguma de fazer qualquer mudança; não deveria ser convidada a abandonar meu abrigo na sala de aula; pois era um abrigo que ela se tornara agora para mim — “um refúgio muito agradável em tempo de apuro”. Fora um dia suave e sereno de primavera — um daqueles dias que, em fins de março ou princípios de abril, se erguem luminosos sobre a terra como arautos do verão. Chegava ao fim agora; mas mesmo a noite era cálida, e sentei-me para trabalhar na sala de aula com a janela aberta. — Está ficando tarde — disse a Sra. Fairfax, entrando alvoroçada. — Estou satisfeita por ter ordenado o jantar para uma hora após a que o Sr. Rochester mencionou; pois já passa das seis. Mandei John ir até o portão para ver se há alguma coisa na estrada: pode-se ver ao longe dali para os lados de Millcote. — Foi até a janela. — Lá vem ele! — disse. — Bem, John (curvando-se para fora), alguma notícia? — Estão chegando, madame — foi a resposta. — Estarão aqui Jane Eyre

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dentro de dez minutos. Adèle voou para a janela. Eu a segui, tendo o cuidado de ficar de lado, para, protegida pela cortina, poder ver sem ser vista. Os dez minutos que John falara pareceram muito longos, mas finalmente ouviram-se rodas; quatro cavaleiros galopavam pela estrada, e em seguida vinham duas carruagens abertas. Véus flutuantes e plumas ondulantes enchiam os veículos; dois dos cavalheiros eram jovens; o terceiro era o Sr. Rochester, em seu cavalo negro Mesrour, e Pilot vinha pulando à frente; a seu lado cavalgava uma dama, e os dois eram os primeiros do grupo. O traje de montaria da jovem, púrpura, quase varria o chão, e seu véu flutuava comprido na brisa; misturando-se com as dobras transparentes, e brilhando através delas, reluziam belos cachos negros. — A Srta. Ingram! — exclamou a Sra. Fairfax, e saiu correndo para assumir seu posto lá embaixo. A cavalgada, seguindo a curva da estrada diante da casa, virou rapidamente na esquina e a perdi de vista. Adèle pedia agora para descer; mas eu a tomei nos joelhos e a fiz ver que não devia, de modo nenhum, aventurar-se à vista das damas, nem agora nem em qualquer outro momento, a menos que fosse expressamente chamada; que o Sr. Rochester ficaria muito zangado etc. “Algumas lágrimas naturais ela derramou” ao ouvir isso; mas como comecei a parecer muito aborrecida, ela consentiu afinal em enxugá-las. Ouvia-se agora um alegre rebuliço no saguão: os tons profundos dos cavalheiros e os acentos argentinos das damas misturavamse harmoniosamente, e bem distinguível acima de todas, embora não alta, lá estava a sonora voz do senhor de Thornfield Hall, acolhendo os belos e galantes hóspedes sob seu teto. Depois, passos leves subiram a escada; e houve um tropel pela galeria, suaves risinhos animados, abrir e fechar de portas, e, durante algum tempo, silêncio. — Elles changent de toilettes* — disse Adèle, que, ouvindo atentamente, seguira cada movimento; e suspirou. — Chez maman — disse — quand il y avait du monde, je le suivais partout au salon et à leurs chambres; souvent je regardait les femmes de 206

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chambre coiffer et habiller les dames, et c’était si amusant: comme cela on apprend.(Na casa de minha mãe, quando havia visitas, eu as seguia por toda parte, no salão e em seus quartos; muitas vezes ficava olhando as camareiras pentearem e vestirem as senhoras, e era tão divertido; assim a gente aprende.) — Não está com fome, Adèle? — Mais oui, mademoiselle: voilà cinq ou six heures que nous n’avons pas mangé.(Mas claro, mademoiselle; faz cinco ou seis horas que não comemos.) — Bem, agora, enquanto as damas estão em seus quartos, vou me aventurar lá embaixo e trazer-lhe alguma coisa para comer. E deixando meu asilo com precaução, busquei uma escada de fundos, que conduzia diretamente à cozinha. Tudo naquela região era fogo e agitação; a sopa e o peixe achavam-se no último estágio de preparação, e a cozinheira pairava sobre seus cadinhos num estado mental e físico que ameaçava combustão espontânea. Na sala dos criados, viam-se dois cocheiros e três valetes de pé ou sentados em torno da lareira; as damas de honra, suponho, estavam lá em cima com suas senhoras; os novos criados, que tinham sido contratados em Millcote, atarefavam-se por toda parte. Atravessando esse caos, cheguei finalmente à despensa; ali me apoderei de um frango frio, um pão, algumas tortas, um ou dois pratos, uma faca e um garfo; com esse butim, executei uma apressada retirada. Tinha alcançado a galeria, e fechava a porta do fundo atrás de mim, quando um zumbido acelerado me avisou que as damas estavam para sair de seus quartos. Eu não podia prosseguir para a sala de aula sem passar por algumas de suas portas e correr o risco de ser surpreendida com minha carga de vitualhas; assim me quedei parada naquela extremidade, que, não tendo janelas, era escura, bastante escura agora, pois o sol se havia posto e o crepúsculo se adensava. Afinal os quartos deitaram fora suas belas ocupantes uma após outra: todas saíam alegres e frescas, com vestidos que brilhavam lustrosos na penumbra. Por um momento, ficaram paradas juntas na outra extremidade da galeria, conversando num tom de abafada vivacidade; depois, desceram a escada quase tão sem Jane Eyre

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barulho quanto uma luminosa neblina rolando por uma colina abaixo. O aparecimento coletivo delas deixara-me uma impressão de elegância bem nascida, que eu nunca recebera antes. Encontrei Adèle espiando pela porta da sala de aula, que mantinha entreaberta. — Que belas damas! — ela exclamou em inglês. — Oh, como eu gostaria de ir me juntar a elas! A senhorita acha que o Sr. Rochester nos mandará chamar após o jantar? — Na verdade, não acho; o Sr. Rochester tem algo mais em que pensar. Esqueça as damas esta noite; talvez as veja amanhã; aqui está seu jantar. Ela estava realmente com fome, de modo que o frango e as tortas serviram para desviar sua atenção por algum tempo. Foi bom que eu tivesse providenciado essa pilhagem, senão ela, eu e Sophie, a quem dei uma parte de nosso repasto, teríamos corrido o risco de ficar sem jantar: todo mundo lá embaixo estava muito ocupado para se lembrar de nós. A sobremesa não foi servida senão depois das nove; e às dez os criados ainda corriam de um lado para outro com bandejas e xícaras de café. Deixei Adèle ficar acordada até muito mais tarde que de hábito; pois ela declarava que não poderia, certamente, ir dormir enquanto as portas continuassem abrindo-se e fechando-se lá embaixo, e as pessoas correndo para lá e para cá. Além disso, acrescentou, poderia vir um recado do Sr. Rochester quando já estivesse despida: “et alors, quel dommager (E aí, que pena!) Contei-lhe histórias tão compridas quanto ela queria ouvir; e depois, para variar, levei-a para fora, para a galeria. A lâmpada do saguão estava acesa agora, e divertiu-a olhar por cima da balaustrada e observar os criados passando de um lado para outro. Quando a noite já ia bem avançada, elevou-se um som de música da sala de estar, para onde se removera o piano. Afinal, uma voz fundiu-se com os ricos sons do instrumento: era uma dama que cantava, e suas notas pareciam muito suaves. Acabado o solo, seguiu-se um dueto, e depois um coral; um alegre murmúrio de conversas preenchia os intervalos. Fiquei ouvindo por muito tempo: de repente, descobri que meus ouvidos estavam 208

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inteiramente empenhados em analisar os sons misturados e tentar distinguir, em meio à confusão de vozes, a do Sr. Rochester; e quando a captaram, o que logo fizeram, descobriram uma tarefa posterior — a de articular os sons, tornados indistintos pela distância, em palavras. O relógio bateu doze horas. Olhei Adèle, cuja cabeça repousava em meu ombro; seus olhos tornavam-se pesados, e assim peguei-a nos braços e levei-a para a cama. Era quase uma hora quando os cavalheiros e damas procuraram seus quartos. O dia seguinte foi tão bonito quanto o seu antecessor; o grupo dedicou-o a uma excursão a algum local das vizinhanças. Partiram de manhã cedo, uns a cavalo, o resto em carruagens; assisti tanto à partida quanto à volta. A Srta. Ingram, como antes, era a única dama eqüestre; e, como antes, o Sr. Rochester cavalgava a seu lado; os dois iam um pouco à parte do resto. Indiquei essa circunstância à Sra. Fairfax, que estava de pé à janela, junto a mim. — A senhora disse que não era provável que eles pensassem em casar-se — disse. — Mas está vendo que o Sr. Rochester evidentemente a prefere a qualquer uma das outras damas. — Sim, ouso dizer que, sem dúvida, ele a admira. — E ela a ele — acrescentei. — Veja como inclina a cabeça para o lado dele, como se estivesse conversando confidencialmente; gostaria de poder ver o rosto dela; nunca consegui sequer um vislumbre dele. — Você a verá esta noite — respondeu a Sra. Fairfax. — Observei por acaso ao Sr. Rochester como Adèle desejava ser apresentada às damas, e ele disse: ‘Oh, que ela venha à sala de estar após o jantar; e peça à Srta. Eyre que a acompanhe’. — Sim; ele disse isso por mera polidez: não preciso ir, estou certa — respondi. — Bem, eu observei a ele que, como você não estava acostumada a muita gente, não achava que gostaria de aparecer diante de um grupo tão alegre... todos estranhos; e ele respondeu à sua maneira brusca: “Bobagem! Se ela fizer objeção, diga-lhe que é meu desejo particular; e se resistir, diga-lhe que eu irei buscá-la em caso de resistência”. Jane Eyre

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— Não lhe darei esse trabalho — respondi. — Irei, se não há melhor saída; mas não gosto disso. A senhora estará lá, Sra. Fairfax? — Não; pedi para ser dispensada, e ele acolheu meu pedido. Eu lhe direi como fazer para evitar o embaraço de uma entrada formal, que é a parte mais desagradável da coisa. Deve ir para a sala de estar enquanto está vazia, antes das damas deixarem a mesa do jantar; escolha seu lugar em qualquer cantinho discreto que preferir; não precisa ficar muito tempo depois de os cavalheiros entrarem, a não ser que lhe agrade: apenas deixe o Sr. Rochester ver que você está lá, e depois escapula... ninguém a notará. — Essa gente vai ficar muito tempo, a senhora acha? — Talvez duas ou três semanas, certamente não mais. Depois do recesso da Páscoa, Sir George Lynn, que foi recentemente eleito parlamentar por Millcote, terá de ir para a capital e tomar seu assento; diria que o Sr. Rochester o acompanhará: surpreende-me que já tenha se demorado tanto tempo em Thornfield. Foi com certa trepidação que vi aproximar-se a hora em que deveria comparecer com minha pupila à sala de estar. Adèle estivera em estado de êxtase o dia todo, após saber que seria apresentada às damas à noite; e só depois que Sophie iniciou a operação de vesti-la foi que se acalmou. A importância do processo aquietou-a rapidamente então, e quando se viu com os cabelos arranjados em longos cachos, metida no vestido de cetim rosa, a longa faixa amarrada, e as luvas de renda postas, parecia tão grave quanto um juiz. Desnecessário avisá-la para não desarrumar seu traje: depois de vestir-se, sentou-se solenemente em sua cadeirinha, tendo antes o cuidado de erguer a saia de cetim para não amarrotá-la, e assegurou-me que não se moveria dali até eu ficar pronta. E isso eu logo fiquei: meu melhor vestido (o de cinza prateado, comprado para o casamento da Srta. Temple, e nunca mais usado desde então) logo estava posto; meu cabelo logo penteado; meu único adorno, o broche de pérola, logo pregado. Descemos. Felizmente, havia outra entrada para a sala de estar além da do salão onde estavam todos sentados a jantar. Achamos o aposento 210

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vazio; um grande fogo ardia silenciosamente na lareira, e velas de cera brilhavam em luminosa solidão em meio às flores perfeitas que adornavam as mesas. A cortina rubra pendia diante do arco; tênue como era a separação que esse tecido fazia do grupo no salão vizinho, eles falavam num tom tão baixo, que nada se podia distinguir de sua conversa, além de um suave murmúrio. Adèle, que parecia estar ainda sob a influência de uma impressão soleníssima, sentou-se sem uma palavra num descansapés que lhe indiquei. Retirei-me para um batente de janela, e, pegando um livro de uma mesa próxima, tentei ler. Adèle trouxe seu banquinho para junto de mim; e em pouco tocava em meu joelho. — Que é, Adèle? — Est-ce que je ne puis pas prendre une seule de ces fleurs magnifiques, mademoiselle? Seulement pour completer ma toilette. (Será que não posso pegar nem uma dessas flores magníficas, mademoiselle? Só para complementar minha toalete.) — Você pensa demais em sua toilette, Adèle, mas pode pegar uma flor. — E tirei uma rosa de um vaso e preguei-a em sua faixa. Ela soltou um suspiro de inefável satisfação, como se sua taça de felicidade estivesse agora transbordante. Voltei o rosto para esconder um sorriso que não pude suprimir: havia algo de cômico, e ao mesmo tempo de penoso, na ansiedade e inata devoção da parisiensezinha às questões de vestimenta. Ouviu-se então um barulho abafado de pessoas levantandose; a cortina foi puxada do arco, e através dele apareceu a sala de jantar, com seu lustre derramando luz sobre as pratas e cristais de um magnífico serviço de sobremesa que cobria uma comprida mesa; um grupo de senhoras estava parado na abertura; entraram, e a cortina caiu atrás delas. Havia apenas oito; contudo, de alguma forma, quando entraram davam a impressão de um número muito maior. Algumas delas eram muito altas; muitas estavam bem vestidas de branco; e todas tinham uma vastidão de vestes que parecia ampliar suas pessoas, como a neblina amplia a lua. Levantei-me e cumprimentei-as, uma ou duas curvaram a cabeça em retribuição; as outras apenas Jane Eyre

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me fitaram. Elas se espalharam pela sala, lembrando-me, pela leveza e animação de seus movimentos, um bando de plumosos pássaros brancos. Algumas se lançaram em posições meio reclinadas, nos sofás e otomanas, algumas se curvaram sobre as mesas e examinaram as flores e livros; o resto se reuniu num grupo em redor do fogo; todas falavam em voz baixa mas distinta, que lhes parecia habitual. Fiquei sabendo de seus nomes depois, e posso muito bem mencioná-los agora. Primeiro, havia a Sra. Eshton e duas de suas filhas. Ela fora evidentemente uma mulher bonita, e ainda estava bem conservada. Das filhas, a mais velha, Amy, era um tanto baixa, ingênua, parecendo uma criança no rosto e nos modos; tinha formas provocantes; seu vestido de musselina branca com uma faixa azul lhe assentava bem. A segunda, Louisa, era mais alta q mais elegante de corpo; tinha um rosto muito bonito, do tipo que os franceses chamam de minois chiffonné; as duas irmãs eram brancas como lírios. Lady Lynn era uma personagem grande e gorda de cerca de quarenta anos, de aparência muito altiva, ricamente vestida num costume de cetim de um brilho cambiante; o cabelo escuro brilhava luzidio à sombra de uma pluma azul e dentro do círculo de uma diadema de gemas. A Sra. Coronel Dent era menos vistosa; mas, pensei, mais senhorial. Tinha uma silhueta esbelta, um rosto pálido e delicado, e cabelos louros. Seu vestido de cetim preto, a echarpe de rica renda estrangeira e os adornos de pérolas me agradaram mais que a radiância de arco-íris da dama com o título. Mas as três mais distintas — em parte, talvez, devido às silhuetas mais altas do grupo — eram a viúva dotada Lady Ingram e suas filhas, Blanche e Mary. Eram todas três da mais vistosa estatura feminina. A viúva deveria estar entre os quarenta e os cinqüenta anos; seu corpo ainda era esbelto; o cabelo (pelo menos à luz de velas), ainda negro; os dentes, também, ainda estavam aparentemente perfeitos. A maioria das pessoas a teria qualificado de uma mulher esplêndida em sua idade, e assim era, 212

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sem dúvida, do ponto de vista físico; mas também havia uma expressão de quase insuportável altivez em seu porte e em seu rosto. Tinha feições romanas e queixo duplo, que desaparecia numa garganta semelhante a um pilar. Essas feições me pareceram não apenas inchadas e escurecidas, mas mesmo vincadas de orgulho; e o queixo era mantido pelo mesmo princípio, numa posição de ereção quase sobrenatural. Tinha igualmente um olhar feroz e duro; lembrou-me o da Sra. Reed; ela moldava as palavras com a boca ao falar; a voz era profunda, as inflexões muito pomposas, muito dogmáticas — muito intolerante, em suma. Um vestido púrpura e um turbante de algum dourado tecido indiano investiam-na (suponho que pensava) de uma dignidade verdadeiramente imperial. Blanche e Mary eram de igual estatura — retas e altas como alamos. Mary era demasiado magra para sua altura, mas Blanche parecia modelada como uma Diana. Eu a olhava, é claro, com um interesse especial. Primeiro, queria ver se sua aparência correspondia à descrição da Sra. Fairfax; segundo, se se assemelhava de algum modo à miniatura de imaginação que eu pintara dela; e terceiro — tem de sair! — se era do tipo que eu imaginaria provável de corresponder ao gosto do Sr. Rochester. No que se referia ao físico, ela respondia ponto por ponto tanto ao meu quadro segundo a descrição da Sra. Fairfax. O busto nobre, os ombros caídos, o pescoço gracioso, os olhos e os cachos negros estavam todos lá, mas e o rosto? O rosto era como o da mãe; um retrato juvenil e sem rugas, a mesma testa baixa, as mesmas feições elevadas, o mesmo orgulho; não era no entanto um orgulho tão melancólico. Ela ria continuamente, seu riso era satírico, e o mesmo acontecia com a expressão habitual de seus lábios arqueados e altivos. Dizem que o gênio é convencido: não posso dizer se a Srta. Ingram era um gênio, mas era convencida — notoriamente convencida, na verdade. Iniciou uma conversa sobre botânica com a delicada Sra. Dent. Aparentemente, a Sra. Dent não havia estudado essa ciência, embora, como disse, gostasse de flores, “especialmente as silvestres”; a Srta. Ingram estudara, e percorreu Jane Eyre

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o seu vocabulário com empáfia. Terminei percebendo que ela estava (como se diz no vernáculo) provocando a Sra. Dent; isto é, jogando com a ignorância dela: a provocação podia ser astuta, mas não era, decididamente, generosa. Ela jogava; sua execução ao piano era brilhante; cantava; tinha uma voz ótima; falava francês à parte com a mãe; e falava-o bem, com fluência e boa pronúncia. Mary tinha um rosto mais suave e mais aberto que Blanche; feições mais delicadas, também, e uma pele alguns tons mais clara (a Srta. Ingram era morena como uma espanhola) — mas faltavalhe vida, seu rosto não tinha expressão, nem o olhar brilho; nada tinha a dizer, e, uma vez sentada, permanecia fixa como uma estátua num nicho. As duas irmãs vestiam um branco imaculado. Achava eu, agora, que a Srta. Ingram era uma escolha que o Sr. Rochester poderia fazer? Não sabia dizer — não conhecia o gosto dele em beleza feminina. Se gostava do majestoso, ela era o próprio tipo da majestade; depois, era talentosa, vivaz. A maioria dos cavalheiros a admiraria, pensei; e parecia-me já ter obtido provas de que ele a admirava, para afastar a última sombra de dúvida: só faltava vê-los juntos. Não deve supor, leitor, que Adèle tinha durante esse tempo todo permanecido sentada, imóvel, no banquinho a meus pés: não; quando as damas entraram, ela se levantara, fora ao encontro delas, fizera uma solene reverência e dissera com gravidade: — Bon jour, mesdames. E a Srta. Ingram a olhara com um ar zombeteiro e exclamara: — Oh, que bonequinha! Lady Lynn observara: — É a pupila do Sr. Rochester, suponho... a garotinha francesa de que ele falava. A Sra. Dent tomara bondosamente a mão dela e dera-lhe um beijo. Amy e Louisa Eshton haviam exclamado simultaneamente: — Que amor de criança! E depois chamaram-na para o sofá, onde agora se sentava, aconchegada entre elas, tagarelando alternadamente em francês e num inglês estropiado; absorvendo não apenas a atenção das jovens damas, mas a da Sra. Eshton e a de Lady Lynn, e sendo mimada a seu gosto. 214

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Afinal trouxeram o café, e os cavalheiros foram convocados. Eu permanecia sentada na sombra — se é que havia qualquer sombra naquele aposento brilhantemente iluminado; a cortina da janela me escondia um pouco. Outra vez o arco se abriu; eles vieram. O aparecimento coletivo dos cavalheiros, como o das damas, foi muito imponente; a maioria era alta, alguns jovens. Henrry e Frederick Lynn eram almofadinhas bem alinhados, na verdade; e o Coronel Dent, um belo homem de aspecto marcial. O Sr. Eshton, magistrado do distrito, parecia um cavalheiro, cabelo inteiramente branco, sobrancelhas e suíças ainda negras, o que lhe dava de algum modo a aparência de um “père noble de íkeâtre”. Lorde Ingram, como suas irmãs, era muito alto; e também como elas, bonito; mas tinha a aparência apática e lânguida de Mary, parecia ter mais comprimento de perna que vivacidade de sangue ou vigor de cérebro. E onde andava o Sr. Rochester? Ele entra afinal, não estou olhando para o arco, mas vejo-o entrar. Tento concentrar minha atenção apenas nas agulhas de tricô, nas tramas da bolsa que vou formando — desejo pensar apenas no trabalho que tenho em mãos, ver apenas as contas prateadas e os fios de seda que estão em meu colo; entretanto, vejo distintamente a sua figura, e inevitavelmente me lembro do momento em que o vi pela última vez; pouco depois de haver-Ihe prestado o que ele considerou um serviço essencial, e, segurando minha mão e olhando meu rosto, me examinou com olhos que revelavam um coração cheio e ávido a ponto de transbordar; emoções nas quais eu tinha uma parte. Como me aproximara dele naquele momento! Que ocorrera desde então, para mudar nossas posições em relação um ao outro? E no entanto, agora, como estávamos afastados! Tão afastados, que eu não esperava que ele viesse falar-me. Não me admirei quando, sem me olhar, ele se sentou do outro lado da sala e começou a conversar com algumas das damas. Assim que vi a atenção dele concentrada nelas, e que podia observar sem ser observada, meus olhos foram involuntariamente atraídos para seu rosto; não podia manter as pálpebras sob Jane Eyre

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controle, elas se erguiam, e as pupilas se fixavam nele. Eu olhava, e sentia um intenso prazer em olhar — um prazer precioso, apesar de pungente; ouro puro, com uma agônica ponta de aço, um prazer como o que sentiria o homem morto de sede ao saber que o poço para o qual se arrastou está envenenado, e que apesar disso se curva e bebe goles divinos. É uma grande verdade a afirmação de que a “beleza está nos olhos de quem a vê”. O rosto descorado, cor de oliva, a testa quadrada e maciça, as sobrancelhas grossas e negras, os olhos profundos, os traços fortes, a boca sombria — toda energia, decisão, vontade — de meu amo não eram bonitos, segundo as regras; mas eram mais que bonitos para mim, eram cheios de um interesse, uma influência que me dominavam inteiramente — que tiravam meus sentimentos do meu poder e os acorrentavam ao dele. Eu não pretendera amá-lo; sabe o leitor que me esforcei muito para extirpar de minha alma os germes do amor ali detectados; e agora, na primeira vez em que o revia, eles reviviam espontaneamente, verdes e fortes! Ele me fazia amá-lo sem olhar para mim. Comparei-o com os hóspedes. Que eram a graça galante dos Lynn, a lânguida elegância de Lorde Ingram, mesmo a distinção militar do Coronel Dent, contrastadas com sua aparência de vigor nativo e autêntico poder? Eu não sentia simpatia pela aparência deles, pela expressão deles, mas imaginava que a maioria dos observadores os chamaria de atraentes, bonitos, imponentes; ao passo que declarariam o Sr. Rochester, de saída, um homem de feições grosseiras e aparência melancólica. Eu os via sorrir, rir — não era nada; a luz das velas tinha tanta alma quanto seus sorrisos; o tinido da sineta, tanto significado quanto seus risos. Via o Sr. Rochester sorrir — as feições severas se suavizavam; os olhos se tornavam brilhantes e gentis, com lampejos penetrantes e doces. Ele falava no momento com Louisa e Amy Eshton. Eu me admirava de vê-las receberem calmamente aquele olhar que me parecia tão penetrante, esperava que baixassem os olhos, enrubescessem; contudo, fiquei satisfeita ao constatar que elas não estavam de modo algum enternecidas. “Ele não é para elas o que é para mim”, pensei; “não é da espécie delas. Acredito que 216

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seja da minha — estou certa de que é — sinto afinidade com ele — entendo a linguagem de seu rosto e de seus movimentos; embora a classe e a riqueza nos separem largamente, tenho algo no cérebro e no coração, no sangue e nos nervos, que me assimila mentalmente a ele. Terei dito, há uns poucos dias, que nada tinha com ele a não ser para receber meu salário de suas mãos? Terei proibido a mim mesma pensar nele em qualquer outra condição que não a de pagador? Blasfêmiai contra a natureza! Todo sentimento bom, autêntico, vigoroso que tenho se concentra impulsivamente em torno dele. Sei que devo ocultar meus sentimentos; devo sufocar a esperança; tenho de me lembrar que ele não pode se interessar muito por mim. Pois quando digo que sou de sua espécie, não quero dizer que tenha a sua força para influenciar, e a sua magia para atrair; quero dizer apenas que tenho certos gostos e sentimentos em comum com ele. Tenho de me repetir continuamente, portanto, que estamos para sempre separados — e no entanto, enquanto eu respirar e pensar, terei de amá-lo.” O café é servido. As damas, desde que os cavalheiros entraram, tornaram-se animadas como cotovias; a conversa faz-se viva e alegre. O Coronel Dent e o Sr. Eshton discutem política; suas esposas ouvem. As duas orgulhosas aristocratas, Lady Lynn e Lady Ingram, confabulam. Sir George — a quem, a propósito, esqueci de descrever — um cavalheiro rural muito grande e de aparência bastante jovem — está parado diante do sofá delas e ocasionalmente diz uma palavra. O Sr. Frederick Lynn sentou-se ao lado de Mary Ingram e mostra-lhe as gravuras de um esplêndido volume, ela olha, sorri de vez em quando, mas aparentemente pouco fala. O alto e fleumático Lorde Ingram apóia-se com os braços cruzados no respaldar da poltrona da miúda e animada Amy Eshton; ela o olha e tagarela como uma carriça; gosta mais dele do que do Sr. Rochester. Henri Lynn apoderou-se de uma otomana aos pés de Louisa, Adèle partilha-a com ele, que tenta falar francês com ela, e Louisa ri de seus erros. Com quem Blanche Ingram se juntará? Está parada sozinha à mesa, graciosamente curvada sobre um álbum. Parece esperar que a requisitem; mas não esperará muito tempo, ela própria escolhe um companheiro. Jane Eyre

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O Sr. Rochester, tendo deixado as Eshton, está parado ao lado da lareira, tão solitário quanto ela à mesa; ela se põe diante dele, tomando posição do outro lado do batente da lareira. — Sr. Rochester, eu pensava que o senhor não gostava de crianças. — E não gosto. — Então que o levou a se encarregar de uma bonequinha dessas? (Apontando Adèle). Onde a arranjou? — Eu não a arranjei; ela foi deixada em minhas mãos. — Podia tê-la mandado para uma escola. — Não podia, as escolas são muito caras. — Ora, suponho que tem uma governanta para ela: vi uma pessoa com ela há pouco... já se foi? Oh, não! Lá está ela ainda, por trás da cortina da janela. O senhor a paga, é claro; eu julgaria isso tão caro... e mais ainda; pois tem de mantê-las às duas, ademais. Eu temia — ou devo dizer que esperava? — que a alusão a mim fizesse o Sr. Rochester olhar em minha direção; e me encolhi mais ainda, involuntariamente, para dentro da sombra, mas ele não volveu os olhos. — Não pensei no assunto — disse indiferentemente, olhando direto em frente. — Não, vocês homens nunca pensam em economia e sensatez. Devia ouvir o que mamãe fala sobre as governantas. Mary e eu tivemos, eu diria, pelo menos uma dúzia delas em nosso tempo; metade detestável, e o resto ridículo, e todas uns pesadelos... não eram, mamãe? — Você falou, minha querida? A jovem dama assim reclamada como propriedade especial da viúva repetiu sua pergunta com uma explicação. — Minha querida, não fale em governantas; a palavra me deixa nervosa. Sofri um verdadeiro martírio com a incompetência e os caprichos delas. Dou graças aos céus por ter acabado com elas! A Sra. Dent se curvou sobre a devota senhora e sussurrou-lhe alguma coisa ao ouvido; suponho, pela resposta que provocou, que era uma lembrança de que havia uma representante da raça 218

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anatematizada presente. — Tant pis* — disse sua excelência. — Espero que isso lhe faça bem. — Depois, num tom mais baixo, mas ainda suficientemente alto para que eu ouvisse: — Eu a notei; sei julgar fisionomias, e vejo na dela todos os defeitos de sua classe. — E quais são, madame? — inquiriu o Sr. Rochester em voz alta. — Eu lhe direi em particular — respondeu ela, balançando o turbante três vezes com sinistro significado. — Mas minha curiosidade terá perdido o apetite; e anseia por alimento agora. — Pergunte a Blanche; ela está mais perto do senhor que eu. — Oh, não o passe para mim, mamãe! Tenho apenas uma palavra a dizer sobre toda a tribo; são uma praga. Não que tenha algum dia sofrido muito com elas: eu tinha o cuidado de virar as mesas. Que truques Theodore e eu costumávamos pregar em nossas Srta. Wilson, Sra. Grey e Madame Joubert! Mary estava sempre com sono demais para juntar-se a uma conspiração com graça. O melhor divertimento era com a Madame Joubert; a Srta. Wilson era uma coisinha doentia, lacrimosa e pouco esperta; não valia o esforço de vencê-la, em suma; e a Sra. Grey era grosseira e insensível; nenhum golpe tinha efeito sobre ela. Mas a coitada da Madame Joubert! Ainda a vejo em suas fúrias, quando a tínhamos levado ao extremo... derramado o nosso chá, esmagado nosso pão com manteiga, jogado nossos livros para o teto e feito um carnaval com a régua e a mesa, a grade e os atiçadores. Theodore, lembra-se desses dias felizes? — Sim, claro que me lembro — disse, em voz arrastada, Lorde Ingram. — E a pobre vara velha gritava: “Oh, crianças perversas!” e depois nós lhe pregávamos sermões sobre a presunção de tentar ensinar a meninos espertos como nós, quando ela própria era tão ignorante. — Era o que fazíamos; e, Tedo, sabe, eu ajudei a acusar (ou perseguir) seu tutor, o Sr. Vining cara-pálida... o pároco ainda na casca, como o chamávamos. Ele e a Srta. Wilson tomaram a Jane Eyre

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liberdade de se apaixonar um pelo outro... pelo menos, Tedo e eu assim pensávamos; surpreendemos diversos olhares ternos e suspiros que interpretamos como sinais de la belle passion, e garanto-lhe que o público logo teve o favor de nossa descoberta; usamo-la como uma espécie de alavanca para remover nossos pesos mortos da casa. A mamãe querida ali, assim que teve uma idéia do caso, descobriu que aquilo era de natureza imoral. Não descobriu, minha senhora mãe? — Certamente, minha flor. E estava inteiramente correta, pode confiar nisso: há mil motivos para que uma ligação entre governantas e tutores não devam nunca ser toleradas por um só momento em qualquer casa bem regrada; primeiro... — Oh, bondosa mamãe! Poupe-nos a enumeração! Au reste, todos nós a conhecemos: perigo de mau exemplo para a inocência da infância; distrações e conseqüente negligência do dever, da parte dos agregados... aliança e dependência mútuas, resultando disso a confidencia, a insolência, o amotinamento e explosão geral. Estou certa, Baronesa Ingram, de Ingram Park? — Meu lírio, você está certa, como sempre. — Então não há mais necessidade de dizer, mude de assunto. Amy Eshton, não ouvindo ou não dando atenção a essa ordem, acrescentou com sua voz suave, infantil: — Louisa e eu também provocávamos nossas governantas; mas ela era uma criatura tão boa, que tolerava qualquer coisa; nada a irritava. Nunca se zangava conosco; não era, Louisa? — Não, nunca; podíamos fazer o que quiséssemos... assaltar sua mesa e sua caixa de trabalho, virar suas gavetas pelo avesso; e tinha uma natureza tão boa que nos dava tudo que pedíamos. — Suponho então — disse a Srta. Ingram, curvando os lábios sarcasticamente — que agora teremos um resumo das lembranças de todas as governantas existentes. Para evitar uma tal visita, proponho mais uma vez a introdução de outro assunto. Sr. Rochester, o senhor apóia a minha moção? — Madame, eu a apoio neste ponto e em todos os outros. — Então que recaia sobre mim o ônus de tê-lo trazido à baila. 220

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Signior Eduardo, tem a voz em forma esta noite? — Donna Bianca, se a senhora me ordena, terei. — Então, signior, lanço sobre o senhor meu soberano comando de que prepare seus pulmões e outros órgãos vocais, pois eles serão necessários ao meu real serviço. — Quem não seria o Rizzio de uma tão divina Mary? — Que me importa Rizzio! — ela exclamou, jogando a cabeça para trás com todos os seus cachos, ao adiantar-se para o piano. — Em minha opinião, o violinista David deve ter sido um tipo insípido de sujeito; gosto mais do negro Bothwell: em minha opinião, um homem não é nada sem uma pitada do demônio em si; e a história pode dizer o que quiser de James Hepburn, mas tenho a idéia de que ele foi exatamente o tipo de herói bandido bárbaro, feroz, a quem eu poderia ter consentido em dar minha mão. — Cavalheiros, estão ouvindo! Vamos, qual de vocês mais se parece com Bothwell? — gritou o Sr. Rochester. — Eu diria que a preferência recai em você — respondeu o Coronel Dent. — Por minha honra, fico-lhe muito grato — foi a resposta. A Srta. Ingram, que se tinha sentado com altiva graça ao piano, espalhando seu vestido de neve em majestosa amplitude, iniciou um brilhante prelúdio, falando enquanto tocava. Parecia estar em sua melhor forma nessa noite; tanto suas palavras como seu ar pareciam destinados a provocar não apenas admiração, mas o pasmo dos ouvintes: estava evidentemente inclinada a impressioná-los como algo muito impulsivo e ousado deveras. — Oh, estou tão farta dos jovens de hoje! — exclamou, martelando no instrumento. — Coisinhas medíocres, débeis, que não servem para dar um passo além dos portões do parque dos papais, nem para chegar sequer aí sem a permissão e a proteção das mamães! Criaturas tão absorvidas em cuidados com suas lindas faces, e suas mãos brancas, e seus pezinhos; coma se um homem tivesse algo a ver com a beleza! Como se a graciosidade não fosse prerrogativa especial da mulher... seu legítimo apanágio e legado! Admito que uma mulher feia é uma mancha na bela face Jane Eyre

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da criação; mas quanto aos cavalheiros, que se preocupem em possuir apenas força e coragem, que seu motto seja caçar, atirar e lutar: o resto não vale nada. Este seria o meu lema, se fosse um homem. “Quando me casar”, continuou, após uma pausa que ninguém interrompeu, “estou decidida a que meu marido não seja um rival, mas um contraste para mim. Não tolerarei nenhum competidor perto do trono; exigirei uma homenagem indivisa; sua devoção não será partilhada entre mim e a forma que ele vê no espelho. Sr. Rochester, agora cante, que tocarei para o senhor.” — Sou todo obediência — foi a resposta. — Aqui então está uma música de corsários. Saiba que adoro os corsários; e por isso, cante-a con spirito. — Ordens dos lábios da Srta. Ingram poriam espírito até numa caneca de leite aguado. — Cuidado então: se não me agradar, eu o envergonharei mostrando como se deve fazer as coisas. — E isso é dar um prêmio à incapacidade: agora vou tentar fracassar. — Gardez-vous-en bien!* Se errar deliberadamente, pensarei num castigo proporcional ao crime. — A Srta. Ingram deve ser clemente, pois tem em seu poder infligir um castigo maior do que o que um mortal pode suportar. — Ha! Explique — ordenou a dama. — Perdoe-me, madame, não há necessidade de explicação; seu próprio senso refinado deve informar-lhe que um franzir de testa seu seria substituto suficiente para uma pena capital. — Cante! — ela disse, e tocando de novo o piano, começou um acompanhamento em estilo espirituoso. “Chegou a hora de me esgueirar”, pensei; mas os tons que então cortaram o ar me prenderam. A Sra. Fairfax dissera que o Sr. Rochester possuía uma bela voz, e possuía mesmo — um baixo sazonado, potente, no qual lançava seu sentimento, sua força; encontrando um caminho, pelo ouvido, até o coração, e despertando ali, estranhamente, sensações. Esperei até que a última e plena vibração houvesse expirado — até que a maré 222

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das conversas, um instante contida, voltasse a fluir; deixei então meu canto abrigado e saí pela porta lateral, que felizmente era próxima. Dali, uma estreita passagem levava ao saguão: ao cruzálo, notei que minha sandália estava solta; parei para amarrála, ajoelhando-me para isso no tapete ao pé da escada. Ouvi a porta da sala de jantar abrir-se; um cavalheiro saiu; erguendo-me rapidamente, vi-me frente a frente com ele: era o Sr. Rochester. — Como vai? — ele perguntou. — Muito bem, senhor. — Por que não veio falar comigo na sala? Pensei que poderia devolver a pergunta a ele, que a fizera; mas não tomaria essa liberdade. Respondi: — Não queria importuná-lo, pois parecia ocupado, senhor. — Que esteve fazendo em minha ausência? — Nada em particular; ensinando a Adèle, como sempre. — E ficando bem mais pálida do que era... como vi à primeira vista. Que é que há? — Absolutamente nada, senhor. — Pegou algum resfriado naquela noite em que quase me afogou? — De modo nenhum. — Volte para a sala de jantar: está desertando cedo demais. — Estou cansada, senhor. Ele me olhou por um minuto. — E um pouco deprimida — disse. — Por quê? Diga-me. — Nada, nada, senhor. Não estou deprimida. — Mas eu afirmo que está: tão deprimida, que mais umas poucas palavras lhe trariam lágrimas aos olhos... na verdade, aí estão elas já, brilhantes e transbordantes; e uma conta escorreu da pestana e caiu no chão. Se eu tivesse tempo, e não sentisse um temor mortal de que algum criado tagarela passasse por aqui, gostaria de saber o que significa tudo isso. Bem, esta noite eu lhe desculpo; mas compreenda que, enquanto meus visitantes permanecerem, espero que a senhorita apareça na sala de jantar todas as noites; é o meu desejo; não o ignore. Agora vá, e mande Sophie buscar Adèle. Boa-noite, minha... — Ela parou, mordeu os lábios e me deixou, abruptamente.

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CAPÍTULO 18

D

ias alegres foram aqueles em Thornfield Hall; e agitados também: como diferiam dos primeiros três meses de quietude, monotonia e solidão que eu passara sob aquele teto! Todos os sentimentos tristes pareciam agora ter sido expulsos da casa, todas as sombrias associações haviam sido esquecidas: existia vida por toda parte, movimento o dia todo. Não se podia atravessar a galeria, antes tão silenciosa, nem entrar nos quartos da frente, antes tão desabitados, sem encontrar uma dama elegante ou um valete almofadinha. A cozinha, a copa do mordomo, a sala dos criados, o saguão de entrada mostravam-se igualmente animados; e os salões só ficavam vazios e silenciosos quando o céu azul e o fabuloso sol da agradável primavera chamavam seus ocupantes para os jardins. Mesmo quando esse tempo se interrompia, e a chuva caía continuamente por alguns dias, nenhum esmorecimento se abatia sobre a alegria: as diversões dentro de casa apenas se tornavam mais vivas e variadas, em conseqüência da paralisação imposta às atividades ao ar livre. Imaginei o que iam fazer na primeira noite em que se propôs uma mudança de divertimento; falaram de “matar charadas”, mas em minha ignorância, não entendi o termo. Chamaram-se os criados, retiraram-se as mesas da sala de jantar, mudou-se a disposição das luzes, colocaram-se as cadeiras em semicírculo diante do arco. Enquanto o Sr. Rochester e os outros cavalheiros 224

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orientavam essas alterações, as senhoras subiam e desciam as escadas em busca de suas criadas. A Sra. Fairfax foi chamada para dar informações sobre os recursos da casa em xales, vestidos, tecidos de toda espécie; e alguns guarda-roupas do terceiro andar foram saqueados, e seu conteúdo, sob a forma de saias bordadas e com anquinhas, mantos de cetim, babados de renda etc, foi trazido para baixo às braçadas pelas damas de honra; depois, fezse uma seleção, e levaram-se as coisas escolhidas para o boudoir dentro da sala de estar. Enquanto isso, o Sr. Rochester reunira novamente as senhoras à sua volta, e escolhia algumas delas para participar de seu grupo. — A Srta. Ingram é minha, claro — disse; depois, indicou as duas Srtas. Eshton e a Sra. Dent. Olhou-me: eu estava perto dele, pois travava o fecho do bracelete da Sra. Dent, que se soltara. — Quer participar? — ele perguntou. Balancei a cabeça. Ele não insistiu, o que eu temera que fizesse; deixou-me retornar calmamente a meu lugar. Ele e suas assistentes retiraram-se então para trás da cortina: o outro grupo, que era chefiado pelo Coronel Dent, sentouse no anfiteatro de cadeiras. Um dos cavalheiros, o Sr. Eshton, observando-me, pareceu propor que me chamassem para juntarse a eles; mas Lady Ingram no mesmo instante refutou a idéia. — Não — ouvi-a dizer. — Ela parece demasiado estúpida para qualquer jogo desse tipo. Dentro em pouco, uma sineta soou, e a cortina ergueu-se. Sob o arco, viu-se a vultosa figura de Sir George Lynn, que o Sr. Rochester também escolhera, envolta num lençol branco: diante dele, numa mesa, havia um grande livro aberto; e a seu lado estava Amy Eshton, vestindo o capote do Sr. Rochester e tendo um livro na mão. Alguém, que não se via, tocava a sineta animadamente; então Adèle (que insistira em fazer parte do grupo de seu tutor) saltou para a frente, espalhando em torno de si o conteúdo de uma cesta de flores que trazia no braço. Depois apareceu a magnífica figura da Srta. Ingram, vestida de branco, um longo véu na cabeça e uma coroa de flores circundando a testa; a seu lado vinha o Sr. Rochester, e juntos se aproximaram da mesa. Ajoelharam-se; Jane Eyre

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enquanto a Sra. Dent e Louisa Eshton, também de branco, tomavam suas posições atrás deles. Seguiu-se uma cerimônia, em cena muda, na qual era fácil reconhecer a pantomima de um casamento. Quando acabou, o Coronel Dent e seu grupo confabularam em sussurros, e depois o Coronel gritou: — Noiva! — O Sr. Rochester curvou-se, e a cortina caiu. Passou-se um intervalo considerável antes de tornar a erguerse. A segunda subida revelou uma cena preparada com mais cuidado que a última. A sala de estar, como observei antes, elevava-se dois degraus acima da sala de jantar, e no alto do degrau de cima, recuada uma ou duas jardas para dentro da sala, aparecia um grande tanque de mármore, que reconheci ser um adorno da estufa — onde geralmente ficava, cercado por plantas exóticas e habitado por peixinhos dourados — de onde devia ter sido transportado com alguma dificuldade, em vista de seu tamanho e peso. Sentado no tapete, ao lado dessa bacia, via-se o Sr. Rochester, envolto em xales, com um turbante na cabeça. Seus olhos negros, a pele morena e as feições orientais combinavam exatamente com o traje: ele parecia o próprio modelo de um emir do Oriente, agente ou vítima de estrangulamento. Depois de algum tempo, surgiu a Srta. Ingram. Também ela se vestia à moda oriental; uma echarpe escarlate amarrada, como uma faixa, em torno da cintura; um lenço bordado amarrado em torno das têmporas: os braços, lindamente modelados, despidos, um deles erguido no ato de segurar uma jarra graciosamente posta na cabeça. Tanto sua forma quanto suas feições, a cor e a aparência geral sugeriam a idéia de uma princesa israelita dos dias patriarcais; e tal era sem dúvida a personagem que ela pretendia representar. Ela se aproximou da bacia, e curvou-se como para encher a bilha; tornou a levá-la à cabeça. O personagem à beira do poço pareceu abordá-la; fazer algum pedido. “Ela se apressou a baixar a bilha e deu-lhe de beber”. Do recesso de suas vestes, ele retirou um estojo, abriu-o e mostrou magníficos braceletes e brincos; ela encenou espanto e admiração; ajoelhando-se, ele depôs o tesouro 226

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a seus pés; a aparência e os gestos dela exprimiram incredulidade e prazer; o estranho prendeu-lhe os braceletes nos braços e os brincos nas orelhas. Era Eliezer e Rebeca, só faltavam os camelos. O grupo encarregado de adivinhar juntou as cabeças: aparentemente, não podiam concordar sobre a palavra ou sílaba que a cena ilustrava. O Coronel Dent, porta-voz deles, pediu “o quadro do todo”; ao que a cortina foi novamente baixada. Ao erguer-se pela terceira vez, via-se apenas uma parte da sala de estar, pois o resto era ocultado por um anteparo, feito com algum tipo de tecido escuro e grosso, pendurado. A bacia de mármore fora removida; em seu lugar havia uma mesa e uma cadeira de cozinha: esses objetos eram visíveis a uma luz muito fraca, que vinha de uma lanterna de chifre, e todas as velas tinham sido apagadas. Em meio à cena de pobreza, sentava-se um homem com os punhos cerrados apoiados nos joelhos, os olhos baixados para o chão. Reconheci o Sr. Rochester, embora o rosto coberto de fuligem, as roupas desarranjadas (o capote pendia solto de um braço, como se tivesse sido quase arrancado numa luta), a expressão desesperada e carrancuda, o cabelo desgrenhado bem pudessem tê-lo disfarçado. Quando se movia, ouvia-se o som de uma corrente: tinha cadeias nos pulsos. — Bridewell!* — exclamou o Coronel Dent, e a charada foi solucionada. (Jogo de palavras que só dá sentido em inglês: junção de bride (noiva) e well (poço, simbolizado no tanque do segundo quadro, do qual a Srta. Ingram tira água), formando o nome próprio Bridewell, famosa prisão inglesa.) Tendo-se escoado um intervalo suficiente grande para os atores retomarem suas vestes habituais, eles voltaram à sala de jantar. O Sr. Rochester trazia a Srta. Ingram pelo braço; ela o cumprimentava por sua atuação. — Sabe — dizia — que, dos três personagens, gostei mais de você no último? Oh, se tivesse vivido alguns anos antes, que galante cavalheiro-salteador você teria dado! — A fuligem de meu rosto saiu toda? — ele perguntou, voltando-se para ela. Jane Eyre

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— Ai! sim; o que é uma pena! Nada poderia assentar mais à sua pele que o ruge do rufião. — A senhorita gostaria de um herói da estrada, então? — Um herói inglês da estrada seria a melhor coisa depois de um bandido italiano; e este só poderia ser superado por um pirata levantino. — Bem, seja eu o que for, lembre-se de que é minha esposa; casamo-nos há uma hora, em presença de todas essas testemunhas. — Ela deu uma risadinha e corou. — Agora, Dent — continuou o Sr. Rochester — é a sua vez. — E, enquanto o outro grupo se retirava, ele e o seu, tomaram os lugares deixados vazios. A Srta. Ingram pôs-se à direita de seu líder; os outros adivinhadores sentaram-se nas cadeiras de ambos os lados dos dois. Não observei os atores; não mais observei espectadores; meus olhos, até então fixados no arco, eram agora irresistivelmente atraídos para o semicírculo de cadeiras. Que charada o Coronel Dent e seu grupo armaram, que palavra eles escolheram, como se saíam, não me lembro mais; mas ainda vejo a consulta que se seguia a cada cena, vejo o Sr. Rochester voltar-se para a Srta. Ingram, e ela para ele; vejo-a inclinar a cabeça para ele, até seus cachos negros quase tocarem o ombro dele e ondearem contra a sua face; ouço seus sussurros mútuos; lembro-me dos olhares trocados; e mesmo alguma coisa do sentimento despertado pelo espetáculo retorna-me à memória neste momento. Já lhe disse, leitor, que aprendera a amar o Sr. Rochester: não podia desamá-lo agora, simplesmente por descobrir que ele deixara de me notar — porque eu podia passar horas em sua presença e ele nem por uma vez voltar os olhos em minha direção — porque via toda a sua atenção tomada por uma grande dama, que evitava tocar-me até com a borda de suas saias quando passava; que, se em algum momento seus olhos negros e imperiosos caíam sobre mim por acaso, ela os desviava no mesmo instante, como de um objeto demasiado inferior para merecer observação. Eu não podia desamá-lo por ter certeza de que ele logo desposaria essa mesma dama — porque lia diariamente nela uma orgulhosa segurança quanto às intenções dele em relação a ela — porque via a toda 228

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hora nele um estilo de cortejamento que, apesar de descuidado, e preferindo mais ser procurado do que procurar, ainda assim era, em seu descuido, cativante e irresistível em seu orgulho. Nada havia para esfriar ou repelir nessas circunstâncias, embora houvesse muito para criar desespero. E muito também, você pensará, leitor, para engendrar ciúmes, se uma mulher em minha posição podia meter-se a ter ciúmes de uma mulher na posição da Srta. Ingram. Mas eu não sentia ciúmes, ou só muito raramente; a natureza da dor que experimentava não podia ser explicada por essa palavra. A Srta. Ingram estava um grau abaixo do ciúme; era demasiado inferior para provocar esse sentimento. Perdoe-me o aparente paradoxo; falo sério. Ele gostava muito de se mostrar, mas não era autêntica; tinha um belo físico, muitos dotes brilhantes, mas sua mente era pobre, o coração estéril por natureza; nada florescia espontaneamente naquele solo; nenhum fruto natural se deleitava a não ser a força com seu frescor. Não era boa; não era original; repetia frases sonoras de livros; jamais apresentava, ou tinha, opiniões próprias. Defendia um alto grau de sentimentos, mas não conhecia as sensações de simpatia e piedade; não havia nela ternura e verdade. Demasiadas vezes traía isso, pela exagerada vazão que dava à despeitada antipatia que concebera contra a pequena Adèle, afastando-a com algum epíteto injurioso, se a menina por acaso se aproximava dela; ordenando-lhe às vezes que deixasse a sala, e sempre tratando-a com frieza e acrimônia. Outros olhos, além dos meus, observavam essas manifestações de seu caráter — observavam-nas de perto, penetrantemente, astutamente. Sim; o futuro noivo, o próprio Sr. Rochester, exercia sobre sua pretendida uma vigilância incessante, e era dessa sagacidade — dessa precaução dele — dessa consciência perfeita e clara dos defeitos de sua bela — dessa óbvia ausência de paixão em seus sentimentos para com ela, que brotava minha dor torturante. Eu via que ele ia desposá-la, por razões de família e talvez políticas; porque a classe e as conexões dela lhe serviam; sentia que ele não lhe dera seu amor, e que as qualificações dela eram inadequadas para conquistar dele esse tesouro. Essa era a questão Jane Eyre

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— era aí que o nervo era tocado e irritado — era aí que a febre se mantinha e alimentava: ela não podia enfeitiçá-lo. Se ela houvesse conseguido a vitória de uma vez, e ele tivesse cedido e deposto sinceramente seu coração aos pés dela, eu teria coberto meu rosto, me voltado para a parede, e (falando num sentido figurado) morrido para eles. Se a Srta. Ingram fosse uma boa e nobre mulher, dotada de força, ardor, bondade, sensatez, eu teria tido uma luta de vida ou morte com dois tigres — o ciúme e o desespero; depois, com o coração despedaçado e devorado, eu a teria admirado — reconhecido sua excelência, e ficado quieta pelo resto de meus dias; e quanto mais absoluta a sua superioridade, mais profunda teria sido a minha admiração — mais verdadeiramente tranqüila a minha quietude. Mas, como estavam de fato as coisas, observar os esforços da Srta. Ingram para fascinar o Sr. Rochester, testemunhar seus repetidos fracassos — com ela própria inconsciente disso, imaginando que cada seta lançada atingia o alvo, e pavoneando-se presunçosamente com o sucesso, quando seu orgulho e auto-complacência repeliam cada vez mais o que desejavam atrair — testemunhar isso era estar ao mesmo tempo sob constante ex-citação e implacável contenção. Porque, quando ela falhava, eu via como poderia ter tido êxito. Setas que continuamente se desviavam do peito do Sr. Rochester e caíam inofensivas a seus pés poderiam, eu sabia, ser atiradas por uma mão mais certeira, atingir o seu orgulhoso coração — trazer amor a seus olhos severos e suavidade a sua face sardônica; ou, melhor ainda, se poderia efetuar sem armas uma silenciosa conquista. “Por que ela não consegue influenciá-lo mais, quando tem o privilégio de trazê-lo tão próximo de si?” eu me perguntava. “Sem dúvida não pode realmente gostar dele, ou não gosta dele com verdadeira afeição! Se gostasse, não precisaria cunhar seus sorrisos de maneira tão pródiga, lançar seus olhares tão incansavelmente, fabricar ares tão elaborados, graças tão sufocantes. Parece-me que ela poderia, simplesmente sentando-se tranqüila a seu lado, dizendo pouca coisa e olhando menos ainda, chegar mais perto do coração dele. Já vira no rosto dele uma expressão muito diferente 230

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daquela que a endurecia agora, quando ela tão vivazmente o abordava; mas também, a expressão que vi veio por si mesma, não foi arrancada por artes meretrícias e manobras calculadas; e bastaria apenas aceitá-la — responder ao que< ele perguntava sem pretensão, falar-lhe quando necessário sem trejeitos — para que ela se tornasse mais bondosa e agradável, aquecendo a interlocutora como um acariciante raio de sol. Como conseguirá ela agradá-lo quando estiverem casados? Não creio que os dois consigam; e no entanto, podia-se conseguir; e sua mulher poderia, creio piamente, ser a mulher mais feliz sobre a qual brilha o sol.” Eu ainda não disse nada condenando o plano do Sr. Rochester de casar-se por interesse e ligações. Surpreendeu-me quando descobri que essa era a sua intenção: achava-o um homem incapaz de ser influenciado por motivos tão vulgares na escolha de uma esposa; porém, quanto mais considerava a posição, educação etc, das partes, menos me sentia justificada em julgar e acusar a ele ou à Srta. Ingram por agirem em conformidade com idéias e princípios neles insulados, sem dúvida, desde a infância. Toda a sua classe mantinha esses princípios: eu supunha, assim, que tinham motivos para mantê-los, motivos que eu não podia imaginar. Parecia-me que, se eu fosse um cavalheiro como ele, tomaria em meu seio a esposa a quem pudesse amar; mas o próprio óbvio das vantagens para a felicidade do marido oferecidas por esse plano me convenceram de que devia haver argumentos contra a sua adoção generalizada, que eu ignorava inteiramente; se não fosse assim, tinha certeza de que todo o mundo agiria como eu desejava agir. Mas em outros pontos, assim como nesse, eu me tornava muito leniente para com meu amo, esquecia todos os seus defeitos, para os quais estava antes tão atenta. Ultimamente, vinha sendo meu objetivo estudar todos os ângulos de seu caráter; ver o ruim tanto quanto o bom; e, da justa pesagem de ambos, formar um julgamento eqüitativo. Agora não via o ruim. O sarcasmo que me havia repelido, a severidade que me espantara outrora eram apenas como picantes condimentos num prato raro: sua presença era pungente, mas a ausência seria sentida como relativamente Jane Eyre

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insípida. E quanto àquela vaga qualquer coisa — seria uma expressão sinistra ou penosa, intencional ou triste — que se abria a um observador cuidadoso, de vez em quando, em seus olhos, fechava-se de novo antes que se pudesse sondar a estranha profundeza parcialmente revelada; aquela qualquer coisa que antes me fazia temer e me encolher, como se vagueasse entre montanhas semelhantes a vulcões e de repente sentisse o solo estremecer e abrir-se; aquela qualquer coisa, eu, a intervalos, contemplava ainda, com o coração pulsando forte, mas não com os nervos paralisados. Em vez de desejar evitar, eu ansiava por ousar — adivinhá-la; e julgava a Srta. Ingram feliz, porque um dia poderia olhar dentro daquele abismo à vontade, explorar seus segredos e analisar sua natureza. Enquanto isso, enquanto pensava apenas em meu amo e em sua futura noiva — via apenas eles, ouvia apenas a conversa deles, e achava importantes apenas os seus movimentos — o resto do grupo se ocupava com seus próprios interesses e prazeres distintos. As Ladies Lynn e Ingram continuavam a juntar-se em solenes conferências, nas quais balançavam seus turbantes uma para a outra e erguiam as quatro mãos em gestos respectivos de surpresa, ou mistério, ou horror, segundo o tema sobre o qual seus mexericos discorriam, como um par de bonecas ampliadas. A suave Sra. Dent conversava com a bondosa Sra. Eshton; e as duas às vezes me concediam uma palavra ou um sorriso corteses. Sir George Lynn, o Coronel Dent e o Sr. Eshton discutiam política, ou questões regionais, ou assuntos da justiça. Lorde Ingram cortejava Amy Eshton; Louisa tocava e cantava para um dos Srs. Lynn; e Mary Ingram ouvia languidamente as galantes conversas do outro. Às vezes todos, como de comum acordo, suspendiam suas ações para observar e ouvir os atores principais; pois, afinal de contas, o Sr. Rochester e — por estar intimamente associada a ele — a Srta. Ingram eram a vida e a alma do grupo. Se ele se ausentava da sala por uma hora, um tédio perceptível parecia insinuar-se no espírito de seus hóspedes; sua reentrada certamente dava um novo impulso à vivacidade das conversas. 232

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A falta de sua animadora influência pareceu ser peculiarmente sentida um dia em que ele foi chamado a Millcote, a negócios, e não era provável que voltasse até tarde. A tarde era chuvosa, e um passeio que o grupo planejara fazer para ver um acampamento cigano, recém-instalado numa terra comunal além de Hay, fora conseqüentemente adiado. Alguns dos cavalheiros tinham ido para os estábulos: os mais jovens, junto com as jovens damas, jogavam no salão de bilhar. As aristocratas Ingram e Lynn buscaram consolação num tranqüilo jogo de baralho. Blanche Ingram, depois de haver repelido, com altaneira taciturnidade, alguns esforços das Sras. Dent e Eshton para atraí-la a uma conversa, primeiro murmurara em cima de algumas melodias e árias sentimentais ao piano, e depois, tendo apanhado um romance na biblioteca, jogara-se em altiva indiferença num sofá, e dispusera-se a matar, com o fascínio da ficção, as tediosas horas de ausência. Era a hora próxima do crepúsculo, e o relógio já avisara que estava na hora de vestir-se para o jantar, quando a pequena Adèle, que se ajoelhava a meu lado no batente da janela da sala de estar, exclamou de repente: — Voilà Monsieur Rochester, qui revient!* Virei-me, e vi a Srta. Ingram saltar do sofá: também os outros ergueram o olhar de suas diversas ocupações; pois ao mesmo tempo começou-se a ouvir no cascalho molhado o som rangente das rodas e o espadanar das patas dos cavalos. Uma charrete aproximava-se. — Que terá dado nele para voltar para casa em tal estilo? — disse a Srta. Ingram. — Cavalgava Mesrour (o cavalo negro), não foi, quando saiu? E Pilot o acompanhava... que terá feito com os animais? Ao dizer isso, aproximou tanto sua alta pessoa e suas amplas vestes da janela, que fui obrigada a me inclinar para trás até quase quebrar minha espinha; em sua avidez, ela não me vira a princípio, mas ao ver-me, franziu o lábio e mudou-se para o outro caixilho. A charrete parou; o cocheiro tocou a sineta da porta e um cavalheiro apeou, vestindo trajes de viagem; mas não era o Jane Eyre

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Sr. Rochester; era um homem alto e de aparência mundana, um estranho. — Como é provocadora! — exclamou a Srta. Ingram. — Sua macaquinha aborrecida! (Invectivando Adèle.) Quem a pendurou na janela para dar falsa informação? — e me dirigiu um olhar irado, como se eu fosse a culpada. Ouviu-se uma consulta no saguão, e em breve o recém-chegado entrava. Fez um cumprimento a Lady Ingram, como se a julgasse a mais velha senhora presente. — Parece que cheguei num momento inoportuno, madame — disse — quando o meu amigo, o Sr. Rochester, não está em casa; mas chego de uma viagem muito longa, e creio poder aproveitarme de um antigo e íntimo relacionamento para instalar-me aqui até que ele volte. Tinha maneiras educadas; seu sotaque, ao falar, pareceume um tanto incomum — não exatamente estrangeiro, mas tampouco inteiramente inglês; devia ter mais ou menos a idade do Sr. Rochester — entre trinta e quarenta anos; e sua cor era singularmente pálida; fora isso, um homem de bela aparência, sobretudo à primeira vista. A um exame mais detalhado, detectavase algo no rosto que desagradava; ou antes, que não conseguia agradar. Seus traços eram regulares, mas relaxados demais; tinha olhos grandes e bem desenhados, mas a vida que olhava por eles era uma vida mansa, vazia — pelo menos assim eu julgava. O som da sineta para vestir-se dispersou o grupo. Só depois do jantar foi que tornei a vê-lo: parecia então bem à vontade. Mas gostei ainda menos de sua fisionomia do que antes: pareceu-me ao mesmo tempo desarrumada e inanimada. Os olhos vagavam, e não tinham sentido algum nesse vagar: isso lhe dava uma aparência esquisita, como eu não me lembrava de ter visto jamais. Para um homem bonito e de aparência não desagradável, ele me repugnava demais; não havia força naquele rosto de pele lisa e forma oval; não havia firmeza no nariz aquilino e na pequena boca de amora; não havia pensamento /ha testa baixa e plana; não havia comando nos olhos vazios, castanhos. Sentada em meu cantinho usual, olhando-o com a luz das 234

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girândolas no batente da lareira batendo em cheio nele — pois ocupava uma poltrona perto do fogo, e se aproximava dele cada vez mais, como se tivesse frio — comparei-o com o Sr. Rochester. Acho (com toda deferência, devo dizer) que não poderia ser muito maior o contraste entre um lustroso ganso e um feroz falcão, entre um manso carneiro e um cachorro de pêlo duro e olho aguçado, seu guardião. Ele falara do Sr. Rochester como um velho amigo. Amizade curiosa devia ser a deles, uma objetiva ilustração, na verdade, do velho adágio de que “os extremos se tocam”. Dois ou três dos cavalheiros sentavam-se perto dele, e captei ocasionalmente trechos da conversa que mantinham no outro lado da sala. A princípio, não consegui extrair muito sentido do que ouvia; pois a conversa de Louisa Eshton e Mary Ingram, que se sentavam mais perto de mim, confundia os fragmentos de frases que me chegavam a intervalos. Elas discutiam o estranho; ambas o chamavam de “um homem bonito”. Louisa disse que ele era “um amor de criatura”, e que “o adorava”; e Mary citou a “bela boquinha e o lindo nariz” do desconhecido como seu ideal de encanto. — E que testa benigna ele tem! — exclamou Louisa. — Tão lisa... nada dessas rugosas irregularidades que tanto detesto; e que olhos e sorriso tão plácidos! E então, para meu grande alívio, o Sr. Henry Lynn chamou-as para o outro lado da sala, para resolver algum ponto da adiada excursão a Hay Common. Eu podia agora concentrar minha atenção no grupo diante da lareira, e afinal fiquei sabendo que o recém-chegado se chamava Sr. Mason; depois, soube que ele acabava de chegar à Inglaterra, e que vinha de um país quente, o que era o motivo, sem dúvida, de ter o rosto tão pálido e sentar-se tão perto da lareira, e de usar um sobretudo dentro de casa. Finalmente as palavras Jamaica, Kingston, Spanish Town indicaram as índias Ocidentais como sua residência; e foi com não pequena surpresa que depreendi, dentro de pouco tempo, que fora ali que conhecera e ficara amigo do Sr. Rochester. Falou da antipatia de seu amigo pelos calores ardentes, Jane Eyre

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os furacões e as estações de chuva daquela região. Eu sabia que o Sr. Rochester viajara muito; fora o que a Sra. Fairfax dissera; mas pensava que suas andanças se haviam limitado ao continente europeu; até então, não tinha ouvido sequer uma insinuação de visitas a praias longínquas. Eu ponderava essas coisas, quando um incidente, e um incidente um tanto inesperado ainda por cima, interrompeu o fio de meus pensamentos. O Sr. Mason, tremendo quando alguém por acaso abria a porta, pediu que se pusesse mais carvão no fogo, cujas chamas se haviam extinguido, embora as brasas ainda ardessem rubras e quentes. O criado que trouxe o carvão, ao sair, parou perto da cadeira do Sr. Eshton e lhe disse algo em voz baixa, permitindo-me ouvir apenas as palavras “velha” — “bastante encrenqueira”. — Diga-lhe que será posta a ferros se não for embora — respondeu o magistrado. — Não... pare!... — interrompeu o Coronel Dent. — Não a mande embora, Eshton; podíamos aproveitar a coisa; é melhor consultar as damas. — E, erguendo a voz, continuou: — Senhoras, as senhoras falaram em ir a Hay Common visitar o acampamento cigano; Sam, aqui, diz que uma das ciganas está na sala dos criados neste momento, e insiste em ser trazida diante da “sociedade”, para dizer-lhe suas sortes. Gostariam de vê-la? — Sem dúvida, Coronel — exclamou Lady Ingram — o senhor não estimularia uma impostora tão baixa? Despeça-a de vez! — Mas não posso convencê-la a ir-se embora, minha senhora — disse o criado. — E nenhum dos criados consegue: a Sra. Fairfax está com ela neste momento, pedindo-lhe que se vá; mas ela se apoderou de uma cadeira no canto da chaminé e diz que nada a moverá dali até ter permissão de vir aqui. — Que é que ela quer? — perguntou a Sra. Eshton. — “Dizer aos grã-finos a sorte deles”, ela diz, madame; e jura que tem de fazer isso e fará. — Que aparência tem ela? — perguntaram as duas Srtas. Eshton, a uma só voz. — Uma criatura velha e pasmosamente feia, senhorita; quase 236

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tão negra quanto um corvo. — Ora, é uma verdadeira feiticeira! — exclamou Frederick Lynn. — Mandemos que entre, é claro! — Claro — disse seu irmão. — Seria uma enorme pena jogar fora uma tal oportunidade de nos divertirmos. — Meus caros rapazes, em que estão pensando? — exclamou a Sra. Lynn. — Não posso tolerar uma coisa tão incoerente — queixou-se a viúva Ingram. — De fato, mamãe, mas a senhora pode... e tolerará — declarou altiva voz de Blanche, ao se voltar no banquinho do piano, onde até então se sentara calada, aparentemente examinando várias partituras de músicas. — Tenho curiosidade de ouvir dizerem a minha sorte; portanto, Sam, ordene que entre a megera. — Minha querida Blanche; lembre-se... — Eu me lembro... me lembro de tudo que a senhora possa sugerir; e tem de ser como eu quero... rápido, Sam! — Sim... sim... sim... — gritaram todos os jovens, tanto as damas quanto os cavalheiros. — Que ela venha... será uma excelente diversão! O criado ainda se demorava. — Ela parece uma pessoa grosseira — disse. — Vá! — ordenou a Srta. Ingram, e o homem se foi. A excitação se apoderou no mesmo instante de todo o grupo; uma onda de risadas e piadas estava em franco andamento quando Sam voltou. — Agora ela não vem — ele disse. — Disse que não é sua missão comparecer perante o “rebanho vulgar” (foram as palavras dela). Devo deixá-la num quarto sozinha, e então, aqueles que desejarem consultá-la devem ir a ela um a um. — Está vendo agora, minha querida Blanche — começou Lady Ingram — ela se aproveita. Seja sensata, meu anjo... e.. — Introduza-a na biblioteca, é claro — cortou o “anjo” — Não é minha missão ouvi-la diante do rebanho comum tampouco: pretendo tê-la só para mim. Há um fogo na biblioteca? — Sim, madame, mas ela parece uma tal funileira. Jane Eyre

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— Deixe de conversa fiada, cabeça oca! E faça o que eu mandei! Sam desapareceu novamente; e o mistério, a animação, a expectativa voltaram a fluir a todo vapor mais uma vez. — Ela já está pronta — disse o criado, ao reaparecer. — Quer saber quem será o primeiro visitante. — Creio que é melhor eu dar uma olhada nela antes de alguma das damas ir — disse o Coronel Dent. — Diga-lhe, Sam, que está indo um cavalheiro. Sam foi e voltou. — Ela diz, senhor, que não aceitará nenhum cavalheiro; eles não precisam se dar o trabalho de ir lá; e tampouco — acrescentou, suprimindo com dificuldade um risinho silencioso — nenhuma dama, a não ser as jovens e solteiras. — Por Júpiter, ela tem gosto! — exclamou Henry Lynn. A Srta. Ingram ergueu-se solenemente: — Eu vou primeiro — disse, num tom que ficaria bem num líder de um credo obstinado, invadindo uma brecha à vanguarda de seus homens. — Oh, meu amor, minha querida! Pare... reflita! — foi o grito de sua mamãe, mas a moça passou por ela em imponente silêncio, atravessou a porta que o Coronel Dent mantinha aberta, e ouvimola entrar na biblioteca. Seguiu-se um relativo silêncio. Lady Ingram achou que era “le cas” de torcer as mãos, o que fez, conseqüentemente. A Srta. Mary declarou que sentia, por sua vez, que jamais ousaria aventurarse. Amy e Louisa Eshton deram risinhos à socapa, parecendo um pouco assustadas. Os minutos passaram muito lentamente: contaram-se quinze antes que a porta da biblioteca voltasse a abrir-se. A Srta. Ingram retornou a nós atravessando o arco. Ia rir? Ia tomar a coisa como uma piada? Todos os olhos a acolheram com uma expressão de ansiosa curiosidade, e ela os enfrentou a todos com um ar de repulsa e frieza: não parecia nem agitada nem alegre; encaminhou-se rigidamente até seu banco e sentou-se em silêncio. — Bem, Blanche? — disse Lorde Ingram. — Que foi que ela disse, irmã? — perguntou Mary. — Que 238

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foi que você achou? Como se sente? É uma verdadeira ledora de sorte? — perguntaram as Srtas. Eshton. — Vamos, vamos, boa gente — disse a Srta. Ingram — não me pressionem. Realmente seus órgãos de admiração e credulidade se excitam com muita facilidade; vocês parecem, pela importância que todos... incluindo minha boa mãe... dão a esse assunto, acreditar absolutamente que temos uma autêntica feiticeira na casa, em estreita aliança com o velho cavalheiro. Eu vi uma vagabunda cigana: ela praticou vulgarmente a ciência da quiromancia e me disse o que essa gente em geral diz. Meu capricho está satisfeito; e agora creio que o Sr. Eshton fará bem pondo a bruxa a ferros amanhã de manhã, como ameaçou. A Srta. Ingram pegou um livro, reclinou-se em sua poltrona, e assim se recusou a mais conversas. Observei-a por quase meia hora: durante todo esse tempo ela não virou uma página sequer, e seu rosto foi se tornando cada vez mais sombrio, contrariado, e com uma expressão cada vez mais azeda de decepção. Obviamente, não ouvira alguma coisa favorável, e pareceu-me, por seu prolongado acesso de tristeza e taciturnidade, que ela própria, apesar de sua professada indiferença, atribuía uma importância indevida às revelações que lhe tinham sido feitas. Enquanto isso, Mary Ingram, Amy e Louisa Eshton declararam que não se atreviam a ir sozinhas; mas todas desejavam ir. Iniciouse uma negociação através do embaixador, Sam; e após muitas idas e vindas, que deixaram, penso, o dito Sam com as batatas das pernas doendo com o exercício, arrancou-se finalmente, com grande dificuldade, permissão da rigorosa sibila para que as três a visitassem em conjunto. A visita das três não foi tão discreta quanto a da Srta. Ingram: ouvimos risinhos histéricos e gritinhos que vinham da biblioteca; e ao cabo de cerca de vinte minutos, elas escancararam a porta e vieram correndo pelo saguão, como se estivessem meio fora de seu juízo, de medo. — Temos certeza de que não é muito correta! — gritaram, a uma voz. — Disse-nos cada coisa! Sabe tudo a nosso respeito! — E afundaram sem fôlego nos vários assentos que os cavalheiros se Jane Eyre

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apressaram a trazer-lhes. Pressionadas por maiores explicações, declararam que a bruxa lhe dissera coisas que tinham dito e feito quando eram simples crianças; descrevera livros e adornos que tinham em seu boudoir em casa; lembranças que diferentes parentes lhes haviam presenteado. Afirmaram que ela havia inclusive adivinhado seus pensamentos, e murmurara no ouvido de cada uma o nome da pessoa de quem mais gostava no mundo, e informara-lhes do que mais desejavam. Nessa altura, os cavalheiros interpuseram ávidos pedidos de maiores esclarecimentos sobre os dois últimos pontos, mas obtiveram apenas rubores, exclamações, tremores e risinhos, em resposta à sua importunidade. As matronas, enquanto isso, ofereciam vinaigrettes e cediam leques; e voltaram a reiterar a manifestação de sua preocupação pelo fato do aviso que tinham dado não ter sido levado em conta a tempo; e os cavalheiros mais velhos riam, e os mais jovens ofereciam seus préstimos às belas. No meio do tumulto, e enquanto eu mantinha olhos e ouvidos inteiramente pregados na cena à minha frente, ouvi um pigarro a meu lado. Virei-me, e vi Sam. — Por favor, senhorita, a cigana declara que há outra jovem solteira na sala que ainda não foi vê-la, e jura que não se irá enquanto não vir todas. Achei que devia ser a senhorita, não há mais nenhuma. Que devo dizer a ela? — Oh, eu irei, sem dúvida — respondi; e fiquei muito grata pela inesperada oportunidade de satisfazer minha muito excitada curiosidade. Esgueirei-me da sala, sem ser observada por ninguém — pois o grupo se^ reunia num bolo em torno do trêmulo trio que acabara de voltar — e fechei a porta silenciosamente atrás de mim. — Se quiser, senhorita — disse Sam — esperarei no saguão pela senhorita; se ela a assustar, basta gritar, que eu entro. — Não, Sam, volte à cozinha: não tenho o menor medo. — E não tinha mesmo; mas estava um bocado interessada e excitada.

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CAPÍTULO 19

A

biblioteca parecia bastante silenciosa quando entrei, e a sibila — se era uma sibila — sentavase muito aconchegada numa poltrona no canto da lareira. Tinha um casaco vermelho e uma touca preta; ou antes, um chapéu de cigano, de abas largas, amarrado com um lenço listrado sob o queixo. Havia uma vela apagada sobre a mesa; ela se curvava sobre o fogo e parecia ler um livrinho negro, semelhante a um Livro de Preces, à luz das chamas: murmurava as palavras para si, como faz a maioria das velhas, enquanto lia; não abandonou essa atividade imediatamente após eu entrar: parecia querer terminar um parágrafo. Fiquei parada no tapete, aquecendo as mãos, que estavam um tanto frias por eu ter-me sentado duranta tanto tempo longe da lareira da sala de estar. Sentia-me agora tão composta quanto sempre estive em minha vida: nada havia realmente na aparência da cigana para perturbar a calma de alguém. Ela fechou seu livro e ergueu lentamente o olhar; a aba de seu chapéu cobria-lhe em parte o rosto, mas pude ver, quando o ergueu, que era um rosto estranho. Parecia inteiramente pardo e negro: mechas de duende eriçavam-se de debaixo de uma faixa branca, que lhe passava pelo queixo e chegava até metade das faces, ou antes mandíbulas: os olhos enfrentaram logo os meus, com uma mirada ousada e direta. — Bem, a senhorita quer saber a sua sorte? — ela disse, numa voz tão decidida quanto o olhar, tão dura quanto as feições. Jane Eyre

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— Não me importo com ela, mãe; pode fazer como quiser, mas devo avisar-lhe que não creio. — É típico de sua impudência dizer isso: eu esperava isso da senhorita, ouvi-o em sua pisada quando atravessou a soleira. — Ouviu? Tem um bom ouvido. — Tenho; e um olho e um cérebro rápidos. — Precisa deles em seu ofício. — Preciso, especialmente quando tenho de lidar com clientes como a senhorita. Por que não está tremendo? — Não estou com frio. — Por que não fica pálida? — Não estou doente. — Por que não consulta minha arte? — Não sou tola. A velha bruxa deu uma risada por baixo de sua touca e faixa, depois pegou um curto cachimbo preto e, acendendo-o, começou a fumar. Tendo-se entregue por algum tempo a esse sedativo, ergueu o corpo curvado, tirou o cachimbo da boca e, olhando firmemente o fogo, disse com muita decisão: — Você está com frio; você está doente; você é tola. — Prove — retruquei. — Provarei em poucas palavras. Está com frio porque está só: nenhum contato acende o fogo que há em você. Está doente porque o melhor dos sentimentos, o mais elevado e o mais doce concedido ao homem, mantém-se longe de você. E é tola porque, por mais que sofra, não pedirá que esse sentimento se aproxime, nem dará um passo para ir encontrá-lo onde ele o espera. Tornou a pôr seu curto cachimbo preto na boca e recomeçou a fumar com vigor. — A senhora poderia dizer tudo isso a quase qualquer pessoa que soubesse que vive como dependente solitária numa grande casa. — Posso dizê-lo a quase qualquer um; mas seria verdade para quase qualquer um? — Em minhas circunstâncias. — Sim; exatamente, em suas circunstâncias; mas encontre-me 242

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outra pessoa colocada precisamente na sua posição. — Seria fácil encontrar milhares. — Você dificilmente encontraria uma. Embora não saiba, está numa situação peculiar, muito perto da felicidade; sim, ao alcance dela. Os materiais estão todos preparados; falta apenas um movimento para combiná-los. O acaso os pôs um tanto separados; é só aproximá-los, e lá estará a felicidade. — Não compreendo enigmas. Nunca consegui solucionar um quebra-cabeça em minha vida. — Se deseja que eu fale mais claro, mostre-me sua mão. — E devo untá-la com prata, suponho. — Claro. Dei-lhe um xelim; ela o pôs num velho pé de meia que tirou do bolso e, tendo-o amarrado e tornado a guardar, disse-me que estendesse a mão. Obedeci. Ela aproximou o rosto da palma e estudou-a, sem tocá-la. — É fina demais — disse. — Não posso fazer nada com uma mão dessas; quase sem linhas; além disso, que é uma palma? O destino não está escrito aí. — Creio na senhora — eu disse. — Não — ela continuou. — É no rosto, na testa, em volta dos olhos e nos próprios olhos, nas linhas da boca. Ajoelhe-se e erga a cabeça. — Ah! Agora a senhora está chegando à realidade — eu disse, obedecendo-lhe. — Vou terminar tendo alguma fé na senhora. Ajoelhei-me a cerca de meia jarda dela. A bruxa atiçou o fogo, até que uma língua de luz irrompeu do carvão agitado: o brilho no entanto, quando ela se sentou, apenas lançava seu rosto numa sombra mais densa, enquanto iluminava o meu. — Eu me pergunto com quais sentimentos a senhorita veio a mim esta noite — ela disse, depois de me examinar por al^ gum tempo. — Pergunto-me que pensamentos se agitavam em seu coração durante todo o tempo em que ficou sentada na outra sala, com aquela gente bonita passando à sua frente como sombras numa lanterna mágica, com tão pouca comunhão e simpatia entre a senhorita e eles quanto se eles fossem realmente meras sombras Jane Eyre

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de formas humanas, e não a substância concreta. — Sinto-me cansada muitas vezes, sonolenta às vezes, mas raramente triste. — Então tem alguma esperança secreta a estimulá-la e a agradá-la com os murmúrios do futuro? — Eu, não. A maior esperança é de economizar dinheiro suficiente, dos meus salários, para um dia pôr uma escola numa casinha alugada por mim mesma. — Um fraco alimento para manter o espírito vivo, e sentada naquele batente de janela (vê que conheço seus hábitos)... — Soube deles pelos criados. — Ah! Julga-se esperta! Bem, talvez eu tenha sabido: para falar a verdade, conheço uma delas, a Sra. Poole... Pus-ime de pé num salto ao ouvir esse nome. “Conhece, é?” pensei. “Existe diabolismo neste negócio, afinal, então!” — Não fique assustada — continuou o estranho ser. — Ela é uma pessoa sadia, a Sra. Poole, fechada e quieta; qualquer um pode depositar confiança nela. Mas, como estava dizendo, sentada naquele batente de janela, a senhorita pensa apenas em sua futura escola? Não tem interesse atualmente em nenhum membro do grupo que ocupa os sofás e cadeiras à sua frente? Não há um rosto que a senhorita estuda? Uma figura cujos movimentos a senhorita segue pelo menos com curiosidade? — Gosto de observar todos os rostos, todas as figuras. — Mas nunca distingue um do resto... ou serão dois? — Faço-o freqüentemente; quando os gestos ou as aparências de um par parecem contar uma história, diverte-me olhá-los. — Que história mais gosta de ouvir? — Oh, não tenho muita escolha! Geralmente são sobre o mesmo tema... namoro; e prometem terminar na mesma catástrofe ... casamento. — E a senhorita gosta desse tema monótono? — Positivamente, não me preocupo com isso, não significa nada para mim. — Nada para a senhorita? Quando uma dama, jovem e cheia de vida e saúde, encantadora, bela e dotada com os dons de classe 244

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e fortuna, se senta e sorri nos olhos de um cavalheiro, a senhorita... — Eu o quê? — A senhorita sabe... e talvez faça bom juízo. — Eu não conheço os cavalheiros aqui. Mal troquei uma sílaba com um deles; e quanto a fazer bom juízo deles, considero alguns respeitáveis, e solenes, e de meia idade; e outros jovens, ousados, bonitos e vivazes, mas certamente todos têm o direito de receber os sorrisos que quiserem, sem que eu me sinta disposta a considerar a transação de qualquer importância para mim. — Não conhece os cavalheiros aqui? Não trocou uma sílaba com um deles? Dirá isto do dono da casa? — Ele não está em casa. — Uma profunda observação! Um engenhosíssimo jogo de palavras! Ele foi a Millcote esta manhã, e estará de volta esta noite ou amanhã de manhã: será que essa circunstância o exclui da lista de seus conhecidos... elimina-o, por assim dizer, da existência? — Não; mas não consigo ver o que o Sr. Rochester tem a ver com o tema que a senhora introduziu. — Eu falava de damas sorrindo para cavalheiros; e ultimamente tantos sorrisos têm sido despejados sobre o Sr. Rochester, que os olhos dele transbordam como duas taças cheias além das bordas, nunca observou isso? — O Sr. Rochester tem o direito de desfrutar da companhia de seus convidados. — Não se discute esse direito; mas nunca observou que, de todas as histórias contadas aqui sobre matrimônio, o Sr. Rochester tem sido favorecido com as mais animadas e contínuas? — A seriedade do um ouvinte ativa a língua do narrador. — Eu disse isso mais para mim mesma que para a cigana, cuja estranha conversa, voz e modos me tinham a essa altura envolvido numa espécie de sonho. De seus lábios brotavam uma sentença inesperada após outra, até que me vi envolvida numa teia de mistificações; e me perguntava que espíritos invisíveis haviam ficado durante semanas junto a meu coração observando seu funcionamento e registrando cada batida. — A seriedade do ouvinte! — ela repetiu. — Sim; o Sr. Rochester Jane Eyre

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tem ficado horas e horas com o ouvido voltado para uns lábios fascinantes, que têm tanto prazer em sua tarefa de comunicação; e ele estava tão disposto a receber, e parecia tão agradecido pelo passatempo que lhe proporcionavam, notou isso? — Agradecido? Não me lembro de ter detectado gratidão em seu rosto. — Detectado? Analisou, então. E que detectou, se não gratidão? Eu nada disse. — Viu amor, não viu? E, olhando em frente, viu-o casado, e contemplou sua noiva feliz? — Hum! Não exatamente. Sua habilidade de feiticeira às vezes falha. — Que diabos viu então? — Não se preocupe, vim aqui para fazer perguntas, não para confessar. É sabido que o Sr. Rochester vai se casar? — Sim; e com a bela Srta. Ingram. — Logo? — As aparências indicariam essa conclusão; e, sem dúvida (embora, com uma audácia que precisaria ser-lhe retirada com castigo, a senhorita pareça questioná-lo), farão um par soberbamente feliz. Ele deve amar uma dama tão bonita, nobre, espirituosa e dotada; e provavelmente ela o ama, ou, se não à sua pessoa, pelo menos à sua bolsa. Sei que ela considera a propriedade dos Rochester desejável ao máximo; embora (Deus me perdoe!) eu lhe tenha dito algo sobre isso, há cerca de uma hora, que a fez parecer extraordinariamente grave: os cantos da boca caíram meia polegada. Eu aconselharia seu mal avisado pretendente a ter cuidado: se aparecer outro, com uma lista de inquilinos mais longa ou mais importante... ele está frito... — Mas, mãe, eu não vim saber da sorte do Sr. Rochester, vim saber da minha; e a senhora nada me disse dela. — Sua sorte é ainda duvidosa: quando examinei seu rosto, um traço contradizia outro. A sorte concedeu-lhe uma medida de felicidade; disso eu sei. Sabia antes de a senhorita vir aqui esta tarde. Ela a reservou para a senhorita. Vi-a fazer isso. Depende da senhorita estender a mão e pegá-la, mas se o fará, é um problema 246

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que ainda estudo. Ajoelhe-se de novo no tapete. — Não me retenha muito; o fogo me escalda. Ajoelhei-me. Ela não se curvou para mim, mas apenas olhou, reclinando-se na poltrona. Começou a murmurar: — A chama tremula em seus olhos; os olhos brilham como orvalho; parecem suaves e cheios de sentimento; sorriem, de minha linguagem, são susceptíveis; uma impressão se segue à outra através de suas límpidas esferas; quando deixam de sorrir, são tristes; uma inconsciente lassidão pesa nas pálpebras; isso significa melancolia, que resulta da solidão. Evitam-me; não tolerarão a continuação do exame; parecem negar, com uma expressão zombeteira, a verdade das descobertas que já fiz... repudiar a acusação de sensibilidade e sofrimento: o orgulho e reserva deles apenas confirmam minha opinião. Os olhos são favoráveis. “Quanto à boca, deleita-se às vezes num sorriso; dispõe-se a transmitir tudo que o cérebro concebe; embora eu aposte que silenciaria muito do que o coração experimenta. Móvel e flexível, jamais se destinou a comprimir-se no eterno silêncio da solidão; é uma boca que deveria falar muito e sorrir com freqüência, e ter afeição humana pelo interlocutor. Também essa feição é propícia. “Não vejo inimigo a uma solução feliz, a não ser na testa; e essa testa pretende dizer: ‘Posso viver sozinha, se o respeito próprio e as circunstâncias exigirem que o faça. Não preciso vender minha alma em troca da felicidade. Tenho um tesouro íntimo que nasceu comigo, e que pode me manter viva se todos os prazeres externos me forem negados, ou oferecidos apenas a um certo preço, que não posso permitir-me pagar.’ A testa declara: ‘A razão está firme e mantém as rédeas, e não deixará que os sentimentos se soltem e a precipitem em pântanos selvagens. As paixões podem rugir furiosas, como verdadeiros infiéis, o que são; e os desejos podem imaginar todo tipo de coisas vãs; mas o julgamento terá ainda a última palavra em toda discussão, e o voto decisivo em toda questão. Fortes ventos, terremotos e fogo podem passar, mas eu seguirei a orientação dessa voz tranqüila que interpreta os ditames da consciência’.” Jane Eyre

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“Bem dito, testa; sua declaração será respeitada. Tá formei meus planos... e os julgo planos corretos... atendendo neles os’ reclamos da consciência, os conselhos da razão. Sei como a juventude cedo se desfaz, e o florescer perece, se, na taça de felicidade oferecida, se detecta apenas um vestígio de vergonha ou um sabor de remorso; e não quero sacrifícios, mágoas, dissolução... não é esse o meu gosto. Quero promover, não ferir... conquistar gratidão, não arrancar lágrimas de sangue... não, nem de sal; minha colheita deve ser de sorrisos, de carinhos, de doces... já chega. Creio que tenho uma espécie de delírio esquisito. Gostaria agora de estender este momento ad infinitum; mas não me atrevo. Até agora, me controlei inteiramente. Agi como jurei intimamente que agiria; mas ir além poderia testar-me além de minhas forças. Levante-se, Srta. Eyre; deixe-me: ‘o jogo está feito.’ “ Onde estava eu? Acordada ou dormindo? Estivera sonhando? Sonhava ainda? A voz da velha mudara; seu sotaque, seus gestos e tudo me eram familiares como meu próprio rosto num espelho — como a fala de minha própria língua. Levantei-me, mas não saí. Olhei; aticei o fogo e olhei de novo, mas ela cerrou mais a touca e a faixa em torno do rosto, e mais uma vez me pediu que saísse. As chamas iluminavam sua mão estendida; desperta agora, e alerta para quaisquer descobertas, notei logo essa mão. Não era mais um membro murcho de duende que a minha; era um membro pleno, esguio, com dedos lisos, simétricos; um largo anel faiscava no dedo mínimo, e curvando-me para frente o olhei e vi uma gema que já tinha visto centenas de vezes antes. Tornei a olhar o rosto; que não mais me evitava — ao contrário, a touca foi removida, a faixa retirada, a cabeça avançou. — Bem, Jane, conhece-me? — perguntou a voz familiar. — Tire apenas o casaco vermelho, senhor, e então... — Mas o cordão está com um nó... ajude-me. — Quebre-o, senhor. — Aí, sim... “Fora, seus empréstimos!” — E o Sr. Ro-chester emergiu de seus disfarces. — Ora, senhor, que idéia estranha! — Mas bem executada, hem? Não acha? 248

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— Com as damas, o senhor deve ter-se saído bem. — Mas não com você? — O senhor não fez o papel de uma cigana comigo. — Que papel fiz? O meu próprio? — Não; um papel inexplicável. Em resumo, creio que tentava me provocar; esteve falando bobagens para me fazer falar bobagens. Não é justo, senhor. — Perdoa-me, Jane? — Não posso saber até ter refletido sobre tudo isso. Se, depois, achar que não caí em nenhum grande absurdo, tentarei perdoá-lo; mas não foi direito. — Oh, você foi muito correta... muito cautelosa, muito sensata. Refleti e achei que, no todo, fora mesmo. Era um conforto; mas, na verdade, estivera em guarda desde o princípio da entrevista. Desconfiava de alguma impostura. Sabia que os ciganos e quiromantes não se expressavam como aquela suposta velha se expressava; além disso, observara sua voz fingida, sua ansiedade de esconder as feições. Mas minha mente estava em Grace Poole... aquele enigma vivo, aquele mistério dos mistérios, quando pensava nela. Não pensara um minuto sequer no Sr. Rochester. — Bem — ele disse. — Em que está pensando? Que significa esse grave sorriso? — Admiração e autocongratulação, senhor. Tenho sua permissão para retirar-me agora, suponho. — Não; fique um momento; e diga-me o que as pessoas na sala estão fazendo. — Discutindo a cigana, eu diria. — Sente-se; deixe-me ouvir o que dizem sobre mim. — É melhor eu não ficar muito tempo, senhor; devem ser quase onze horas. Oh, o senhor sabe, Sr. Rochester, que chegou um estranho depois que o senhor partiu esta tarde? — Um estranho! Não; quem pode ser? Eu não esperava ninguém. Ele já se foi? — Não; disse que conhecia o senhor há muito tempo, e que podia tomar a liberdade de instalar-se aqui até a sua volta. — O diabo que podia! Disse o seu nome? Jane Eyre

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— Chama-me Mason, senhor; e vem das índias Ocidentais; de Spanish Town, na Jamaica, creio. O Sr. Rochester estava de pé a meu lado; tomara-me a mão, como para conduzir-me a uma cadeira. Quando falei, deu-me um apertão convulsivo no pulso; o sorriso em seus lábios congelouse: aparentemente, um espasmo cortou-lhe a respiração. — Mason! Índias Ocidentais! — disse, num tom em que se poderia imaginar um autômato falante enunciando palavras soltas. — Mason! Índias Ocidentais! — repetiu; e repassou as sílabas três vezes, ficando mais branco que a cinza nos intervalos: parecia não saber o que fazia. — Sente-se mal, senhor? — perguntei. — Jane, sofri um golpe... sofri um golpe, Jane! — Cambaleou. — Oh, apóie-se em mim, senhor. — Jane, você me ofereceu seu ombro antes; deixe-me tê-lo agora. — Sim, senhor, sim; e meu braço. Ele se sentou e me fez sentar a seu lado. Segurando minha mão entre as suas, esfregou-a; olhando-me, ao mesmo tempo, com a aparência mais perturbada e triste. — Minha amiguinha — disse. — Eu queria estar numa ilha tranqüila apenas com você; sem os problemas, perigos e horríveis lembranças que tenho. — Posso ajudá-lo, senhor? Eu daria minha vida para servi-lo. — Jane, se houver necessidade de ajuda, eu a buscarei em suas mãos; prometo-lhe isso. — Obrigada, senhor. Diga-me o que fazer... tentarei fazê-lo, pelo menos. — Traga-me agora, Jane, um copo de vinho da sala de jantar; estarão ceando agora; e diga-me se Mason está com eles, e o que está fazendo. Eu fui. Encontrei todo o grupo na sala de jantar, ceando, como o Sr. Rochester dissera; não estavam sentados à mesa... a ceia fora servida no aparador; cada um pegara o que quisera, e estavam todos por ali em grupos, pratos e copos nas mãos. Todos pareciam muito alegres; os risos e conversas eram gerais e animados. O Sr. 250

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Mason achava-se perto da lareira, conversando com o Coronel e Sra. Dent, e parecia tão alegre quanto os outros. Enchi um copo de vinho (vi a Srta. Ingram olhando-me com a testa franzida quando fiz isso: pensava que eu tomava uma liberdade, eu diria), e retornei à biblioteca. A extrema palidez do Sr. Rochester desaparecera, e ele parecia novamente firme e severo. Tomou-me o copo das mãos. — À sua saúde, espírito benévolo! — disse. Engoliu a bebida e me devolveu o copo. — Que estão fazendo, Jane? — Rindo e conversando, senhor. — Não parecem sérios e misteriosos, como se tivessem sabido de alguma coisa estranha? — De modo nenhum, estão em meio a piadas e alegria. — E Mason? — Estava rindo também. — Se toda essa gente viesse em massa e cuspisse em mim, que faria você, Jane? — Eu os expulsaria da sala, senhor, se pudesse. Ele deu um meio sorriso. — Mas se eu me dirigisse a eles, e eles apenas me olhassem friamente, e sussurrassem com desprezo entre si, e depois se fossem e me deixassem, um a um, que faria você então? Iria com eles? — Penso que não, senhor: eu teria mais prazer permanecendo com o senhor. — Para confortar-me? — Sim, senhor, para confortá-lo, o melhor que pudesse. — E se eles a proibissem de juntar-se a mim? — Eu provavelmente ignoraria a proibição deles; e se soubesse, não daria a mínima para ela. — Então enfrentaria a censura por minha causa? — Eu a enfrentaria por qualquer amigo que merecesse minha adesão; como o senhor, tenho certeza, merece. — Volte agora à sala; dirija-se discretamente a Mason e sussurre em seu ouvido que o Sr. Rochester chegou e deseja vê-lo; traga-o aqui, e depois deixe-me. — Sim, senhor. Jane Eyre

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Fiz o que ele mandava. O grupo todo me olhou quando passei direta entre eles. Procurei o Sr. Mason, dei o recado e conduzi-o para fora da sala, introduzi-o na biblioteca, e depois fui lá para cima. Tarde da noite, depois de já estar na cama havia algum tempo, ouvi os visitantes voltarem a seus quartos; distingui a voz do Sr. Rochester, e ouvi-o dizer: — Por aqui, Mason; este é o seu quarto. Falava animadamente; o tom alegre pôs meu coração à vontade. Logo adormeci.

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CAPÍTULO 20

E

squeci de fechar a cortina, o que geralmente fazia, e também de baixar o estore da janela. Em conseqüência disso, quando a lua, cheia e brilhante (pois era uma bela noite), chegou em seu curso ao espaço diante de minha janela, e me olhou através das vidraças desprotegidas, sua gloriosa mirada me acordou. Despertada no silêncio da noite, abri os olhos para o seu disco — de um branco de prata e límpido como cristal. Era lindo, mas muito solene; ergui-me a meio e estendi o braço para puxar a cortina. Deus do céu! Que grito! A noite — seu silêncio, seu repouso — foi rasgada em duas por um som bárbaro, agudo, estridente, que ressoou de uma ponta a outra de Thornfield Hall. Meu coração parou, ficou quieto; meu braço estendido quedouse paralisado. O grito morreu, e não se renovou. Na verdade, qualquer que fosse o ser que tivesse dado aquele terrível berro, não poderia tão cedo repeti-lo; nem o maior condor dos Andes poderia dar duas vezes um grito daquele, dentro do envoltório de nuvens em torno de seu ninho. A coisa que fizera tal barulho teria de descansar antes de poder repetir o esforço. Viera do terceiro andar; pois passara acima de mim. E acima — sim, no quarto bem em cima do teto do meu — ouvi então ruídos de luta, uma luta mortal, a julgar pelo barulho; e uma Voz meio abafada gritou: Jane Eyre

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— Socorro! Socorro! Socorro! — três vezes, rapidamente. — Não virá ninguém? — tornou a gritar; e então, enquanto prosseguiam selvagemente os cambaleios e as patadas, distingui, do outro lado das tábuas e do reboco: — Rochester! Rochester! Pelo amor de Deus, venha! Uma porta de quarto abriu-se; alguém correu, ou se precipitou, ao longo da galeria. Outra pisada ressoou no assoalho acima, e alguma coisa caiu; depois, fez-se silêncio. Eu pusera algumas roupas, embora o horror me sacudisse todos os membros; saí de meu quarto. Os que dormiam estavam todos despertos: exclamações, murmúrios aterrorizados ressoavam em todos os quartos; abria-se uma porta após outra; rostos emergiam; a galeria encheu-se de gente. Cavalheiros e damas haviam deixado igualmente suas camas; e de todos os lados perguntava-se confusamente: “Oh! que é isso?” — “Quem está ferido?” — “Que aconteceu?” — “Tragam uma luz!” — “É incêndio?” — “São ladrões?” — “Para onde vamos correr?” Não fosse a luz da lua, estariam todos em total escuridão. Corriam de um lado para outro; amontoavam-se; alguns soluçavam, outros tropeçavam, a confusão era inextricável. — Onde diabos está Rochester? — gritou o Coronel Dent. — Não consigo encontrá-lo em seu quarto. — Aqui! Aqui! — gritou alguém em resposta. — Fiquem calmos todos; já estou indo. E a porta no fim da galeria se abriu, e o Sr. Rochester adiantouse com uma vela: acabava de descer do andar de cima. Uma das damas correu diretamente para ele; tomou-lhe o braço: era a Srta. Ingram. — Que horrível acontecimento foi esse? — ela disse. — Fale. Conte-nos logo o pior! — Mas não me puxem para baixo nem me estrangulem — ele respondeu; pois as Srtas. Eshton se penduravam dele agora, e as duas viúvas, em imensas camisolas brancas, caíam sobre ele como navios a plena vela. — Está tudo bem! Está tudo bem! — ele gritou. — É um simples ensaio de Muito Barulho Por Nada. Senhoras afastem-se, 254

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ou me tornarei perigoso. E parecia perigoso mesmo: os olhos negros soltavam faíscas. Acalmando-se com visível esforço, acrescentou: — Uma criada teve um pesadelo, só isso. É uma pessoa excitável, nervosa; tomou o sonho por uma aparição, ou alguma coisa desse tipo, sem dúvida; e teve um ataque de pavor. Agora, vamos, devo conduzi-los todos de volta a seus quartos; pois não se pode cuidar dela enquanto a casa não estiver em paz. Cavalheiros, tenham a bondade de dar exemplo às damas. Srta. Ingram, estou certo de que não deixará de demonstrar superioridade em relação a terrores ociosos. Amy e Louisa, voltem a seus ninhos como um par de pombas, que vocês são. Mesdames (às viúvas), as senhoras certamente apanharão um resfriado, se permanecerem nesta gélida galeria por mais tempo. E assim, alternando pedidos e ordens, conseguiu pô-los todos novamente isolados em seus distintos dormitórios. Não esperei a ordem para voltar ao meu, mas me retirei sem ser notada, como sem ser notada o deixara. Não, porém, para ir para a cama: ao contrário, comecei a me vestir cuidadosamente. Os sons que ouvira após o grito, e as palavras que haviam sido ditas, só tinham sido ouvidas, provavelmente, por mim; pois vieram do quarto acima do meu, mas me convenceram de que não fora o sonho de uma criada que espalhara daquela forma o terror pela casa; e que a explicação dada pelo Sr. Rochester era apenas uma invenção destinada a apaziguar seus hóspedes. Depois de vestir-me, fiquei um longo tempo sentada junto à janela, olhando além dos silenciosos jardins e campos prateados, e esperando não sabia o quê. Parecia-me que alguma coisa se devia seguir aos estranhos grito, luta e apelo. Não, voltou a quietude; cessaram aos poucos todos os murmúrios e movimentos, e dentro de uma hora Thornfield Hall estava de novo tão silenciosa quanto um deserto. Parecia que a noite e o sono haviam reconquistado seu império. Enquanto isso, a lua baixava, estava para se pôr. Não gostando nada de ficar sentada no frio e nas trevas, pensei em me deitar na cama, vestida como estava. Afastei-me da janela e atravessei com pouco Jane Eyre

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barulho e tapete; quando me abaixei para tirar os sapatos, uma rrtão cautelosa bateu baixinho na porta. — Precisam de mim? — perguntei. — Está de pé? — perguntou a voz que eu esperava ouvir, isto é, a de meu amo. — Sim, senhor. — E vestida? — Sim. — Saia então, sem fazer barulho. Obedeci. O Sr. Rochester estava na galeria, segurando uma vela. — Preciso de você — disse. — Venha por aqui, devagar, e não faça barulho. Meus chinelos eram finos, eu podia andar pelo assoalho atapetado tão silenciosamente quanto um gato. Ele deslizou pela galeria e escada acima, e parou no corredor escuro e baixo do fatídico terceiro andar: eu o tinha seguido e estava a seu lado. — Tem uma esponja em seu quarto? — ele perguntou num sussurro. — Sim, senhor. — E sais... sais voláteis? — Sim. — Volte e traga-os. Voltei, procurei a esponja no suporte da bacia, os sais em minha gaveta, e mais uma vez refiz meus passos. Ele ainda esperava; tinha uma chave na mão: aproximando-se de uma das portas pequenas, negras, colocou-a na fechadura; fez uma pausa, e falou-me de novo. — Você não fica nauseada à vista de sangue? — Creio que não ficarei, senhor: nunca passei por isso antes. Senti uma certa emoção ao responder-lhe; mas nenhum calafrio, e nenhuma vertigem. — Dê-me sua mão — ele disse. — Não adianta arriscar um desmaio. Pus meus dedos entre os dele. — Quentes e firmes — foi a sua observação; girou a chave e abriu a porta. 256

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Vi um quarto que me lembrava de ter visto antes, no dia em que a Sra. Fairfax me mostrara a casa toda: estava guarnecido com tapeçarias; mas a tapeçaria fora dobrada de um lado, e via-se uma porta, que da outra vez estivera escondida. Essa porta estava aberta; do quarto além vinha uma luz, ouvi saindo dali um som rosnante, abocanhante, quase como de um cachorro brigando. O Sr. Rochester, depositando sua vela, disse-me: — Espere um minuto. E adiantou-se para o quarto interno. Uma sonora risada acolheu sua entrada; ruidosa a princípio, e terminando no ha! ha! de gobelino de Grace Poole. Então ela estava lá. Ele fez algum tipo de arranjo, sem falar, embora eu tenha ouvido uma voz baixa dizer-lhe alguma coisa, depois saiu e fechou a porta atrás de si. — Aqui, Jane! — disse; e eu fui para o outro lado da grande cama, que, com as cortinas corridas, ocultava uma considerável parte do quarto. Havia uma poltrona junto à cabeceira da cama, um homem sentava-se nela, vestido, mas sem o paletó; estava quieto, a cabeça pendida para trás, os olhos fechados. O Sr. Rochester segurou a vela acima dele; reconheci no rosto pálido e aparentemente sem vida — o estranho, Mason; vi também que sua camisa branca tinha um lado e um braço quase encharcados de sangue. — Segure a vela — disse o Sr. Rochester, e eu a peguei; ele apanhou uma bacia de água no suporte. — Segure isso — disse. Obedeci. Ele pegou a esponja, mergulhou-a na água e umedeceu o rosto cadavérico; pediu o frasco de sais, e aplicou-o às narinas do homem. O Sr. Mason em breve abriu os olhos; gemeu. O Sr. Rochester abriu a camisa do ferido, cujo braço e ombro estavam enfaixados, limpou o sangue, que escorria com muita rapidez. — Há perigo imediato? — perguntou o Sr. Mason. — Bah! Não... um simples arranhão. Não fique tão abatido, homem, agüente! Eu mesmo vou buscar o médico para você agora: poderá ser removido pela manhã, espero. Jane — continuou. — Senhor? — Vou ter de deixá-la neste quarto com este cavalheiro, por uma hora, talvez duas: você limpará o sangue como eu faço Jane Eyre

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quando voltar a sangrar, se ele se sentir fraco, ponha o copo d”água naquele suporte nos lábios dele, e os sais no nariz. Não fale com ele sob nenhum pretexto... e... Richard, você correrá perigo de vida se falar com ela: abra os lábios... faça qualquer esforço... e não responderei pelas conseqüências. O pobre homem gemeu novamente; parecia não se atrever a fazer um movimento; aparentemente, o temor, da morte ou de qualquer outra coisa, quase o paralisava. O Sr. Rochester pôs a esponja agora sanguinolenta em minhas mãos, e comecei a usá-la como ele fizera. Ele me observou por um segundo, e depois, dizendo “Lembrem-se, nada de conversas”, deixou o quarto. Assim, lá estava eu, no terceiro andar, presa em uma de suas místicas celas; a noite me cercava; tinha sob os olhos um pálido e sangrento espetáculo; e uma única porta mal me separava de uma assassina; sim — isso é que era apavorante — o resto eu podia suportar; mas tremia à idéia de Grace Poole caindo sobre mim. Mas tinha de manter-me em meu posto. Tinha de olhar aquele rosto espectral — aqueles lábios azulados e quietos, proibidos de abrirem-se — aqueles olhos ora fechados, ora abertos, ora vagando pelo quarto, ora fixando-se em mim, e sempre vidrados com o embaçamento do horror. Tinha de mergulhar a mão a todo momento na bacia de sangue e água, e limpar a ferida gotejante. Tinha de ver a luz da vela não espevitada diminuir sobre minha atividade; as sombras se adensarem na tapeçaria antiga à minha volta, tornarem-se negras sob as cortinas da imensa cama, e tremerem estranhamente sobre as portas de um grande armário defronte — cuja frente, dividida em doze painéis, mostrava em sombrio desenho, as cabeças dos doze apóstolos, cada um dentro de um painel diferente, como numa moldura; enquanto acima deles, no topo, erguia-se um crucifixo de ébano e um Cristo agonizante. Segundo a obscuridade cambiante e a luz trêmula batessem aqui ou ali, uma hora era o médico barbudo, Lucas, que curvava a testa; outra hora os longos cabelos de São João que ondeavam; outra ainda a demoníaca face de Judas, que se projetava do painel 258

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e parecia adquirir vida e ameaçar uma revelação do arqui-traidor — do próprio Satã — sob a forma de seu subordinado. Em meio a tudo isso, eu tinha também de ouvir, além de vigiar; ficar à escuta de movimentos da besta selvagem ou demônio no antro ao lado. Mas após a visita do Sr. Rochester ela parecia enfeitiçada, durante toda a noite ouvi apenas três sons, em três longos intervalos — um rangido agudo, um momentâneo reinicio do rosnado canino, e um profundo gemido humano. Depois, meus próprios pensamentos me preocupavam. Que crime era aquele, que vivia encarnado naquela mansão isolada, e não podia ser nem expulso nem dominado pelo proprietário? Que mistério, que irrompia ora em fogo, ora em sangue, nas mais mortas horas da noite? Que criatura era aquela, que, disfarçada com o rosto e a forma de uma mulher comum, emitia a voz ora de um demônio zombeteiro, ora de uma ave de rapina em busca de carniça? E aquele homem sobre o qual me curvava — aquele estranho comum, tranqüilo — como se envolvera naquela teia de horror? E por que a fúria se lançara sobre ele? Que o fizera buscar aquela parte da casa a uma hora tão imprópria, quando devia estar dormindo em sua cama? Eu ouvira o Sr. Rochester, designar-lhe um aposento embaixo — que o trouxera até ali? E por que, agora, estava tão manso sob a violência da traição que lhe fora feita? Por que se submetia tão quietamente à ocultação que o Sr. Rochester forçava? Por que o Sr. Rochester forçava aquela ocultação? Seus hóspedes tinham sido ofendidos, havia-se tramado pavorosamente contra sua própria vida numa ocasião anterior; e a ambas as tentativas ele as envolvera em segredo e as afundara no esquecimento! Por último, eu via que o Sr. Mason se submetia ao Sr. Rochester; que a impetuosa vontade deste último tinha completo domínio sobre a inércia do primeiro: as poucas palavras trocadas entre eles me haviam mostrado isso. Era evidente que, no relacionamento anterior deles, a passiva disposição de um fora habitualmente influenciada pela ativa energia do outro; de onde, então, surgira a consternação do Sr. Rochester quando soubera da chegada do Sr. Mason? Por que o simples nome daquele Jane Eyre

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indivíduo sem resistência — ao qual sua palavra agora bastava para controlar como uma criança — caíra sobre ele, havia umas poucas horas, como um raio sobre um carvalho? Oh! Eu não podia esquecer sua aparência e suas frases quando murmurara: “Jane, sofri um golpe... sofri um golpe, Jane.” Não podia esquecer como tremera o braço que ele apoiava em meu ombro; e não podia ser pouca coisa o que assim dobrava o espírito decidido e a vigorosa estrutura de Fairfax Rochester. “Quando virá ele? Quando virá ele?” eu gritava intimamente, à medida que a noite se arrastava — à medida que meu paciente sangrante se abatia, gemia, piorava, e nem o dia nem mais ar chegavam. Repetidas vezes, eu levara a água até os pálidos lábios do Sr. Mason; repetidas vezes oferecera-lhe os sais estimulantes: meus esforços pareciam ineficazes, o sofrimento, físico ou mental, ou a perda de sangue, ou todas as três coisas juntas, esvaíam rapidamente suas forças. Ele gemia tanto, e parecia tão fraco, desvairado e perdido, que eu temia que estivesse agonizante; e nem sequer podia falar-lhe. A vela, consumida afinal, apagou-se; enquanto expirava, percebi estrias de luz cinza em torno das cortinas da janela: a madrugada aproximava-se então. Afinal ouvi Pilot latir bem lá embaixo, de seu distante canil no pátio: renasceu a esperança. E não sem razão: em cinco minutos mais, a chave rangente, a fechadura que cedia avisaram-me que a vigília acabara. Não podia ter durado mais de duas horas, mas muitas semanas me pareceram mais curtas. O Sr. Rochester entrou, e com ele o médico que fora buscar. — Agora, Carter, fique alerta — ele disse ao outro. — Dou-lhe apenas uma hora e meia para pensar o ferimento, enfaixar, fazer descer o paciente e tudo. — Mas ele está em condições de mover-se, senhor? — Não há dúvida quanto a isso; não é nada sério; ele está nervoso, deve ser animado. Vamos, ao trabalho. O Sr. Rochester puxou a grossa cortina, suspendeu o estore de linho cru, deixou entrar toda a luz que podia; e fiquei surpresa e alegre ao ver como a madrugada já avançava, que estrias róseas 260

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começavam a clarear o leste. Depois, ele se aproximou de Mason, de quem o médico já tratava. — Agora, meu bom camarada, como está você? — perguntou. — Ela me liquidou — foi a débil resposta. — De modo nenhum! Coragem! Daqui a quinze dias você dificilmente estará pior por isso; perdeu um pouco de sangue; é só. Carter, assegure-lhe que não há perigo. — Posso fazer isso em sã consciência — disse Carter, que desfizera as bandagens. — Gostaria apenas de ter chegado aqui mais cedo: ele não teria sangrado tanto. Mas que é isso? A carne, no ombro, está despedaçada, além de cortada. Esta ferida não foi feita com uma faca, houve dentes aqui. — Ela me mordeu — ele murmurou. — Atacou-me como um tigre, quando Rochester lhe tirou a faca. — Você não devia ter cedido; devia ter-se agarrado com ela de vez — disse o Sr. Rochester. — Mas, nas circunstâncias, que se podia fazer? — respondeu Mason. — Oh, foi pavoroso! — acrescentou, estremecendo. — E eu não esperava: ela parecia tão calma, a princípio. — Eu lhe avisei — foi a resposta de seu amigo. — Eu disse: fique em guarda, quando se aproximar dela. Além disso, devia ter esperado até o dia seguinte, e vir comigo: foi simples loucura tentar a entrevista esta noite, e sozinho. — Pensei que podia fazer algum bem. — Pensou! Pensou! Sim, ouvir você me deixa impaciente, mas você sofreu, e provável que sofra bastante ainda, por não aceitar meu conselho; assim, não digo mais nada. Carter... depressa! Depressa! O sol logo nascerá, e tenho de tirá-lo daqui. — É já, senhor; acabei de enfaixar o ombro. Preciso olhar esse outro ferimento no braço, ela enfiou os dentes aqui também, creio. — Ela sugou o sangue, disse que drenaria meu coração — disse Mason. Vi o Sr. Rochester estremecer: uma expressão singularmente acentuada de repugnância, horror, ódio contorceu-lhe o rosto, quase distorcendo-o; mas ele apenas disse: — Vamos, fique calado, Richard, e não se importe com a Jane Eyre

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tagarelice dela; não a repita. — Eu queria poder esquecê-la — foi a resposta. — Esquecerá, quando deixar o país; quando voltar a Spanish Town, pode pensar nela como morta e enterrada... ou antes, não precisa pensar nela de modo nenhum. — Impossível esquecer esta noite! — Não é impossível: tenha um pouco de energia, homem. Você achava que estava morto como um arenque há duas horas, e está vivo e falando agora. Pronto! Carter acabou, ou quase; vou deixálo decente num piscar de olhos. Jane (voltou-se para mim, pela primeira vez, desde sua reentrada), pegue esta chave, desça até o meu quarto e vá direto a meu quarto de vestir; abra a gaveta de cima do guarda-roupa e pegue uma camisa limpa e uma echarpe; traga-os aqui; e seja rápida. Eu fui; procurei o repositório que ele mencionara, encontrei os artigos indicados e voltei com eles. — Agora — ele disse — vá para o outro lado da cama enquanto ajeito a toalete dele; mas não saia do quarto, pode ser necessária de novo. Fiz o que ele mandava. — Tinha alguém se mexendo lá embaixo quando você desceu, Jane? — inquiriu o Sr. Rochester depois de algum tempo. — Não, senhor; estava tudo muito quieto. — Vamos tirar você daqui com todo cuidado, Dick; e será melhor, tanto por você quanto pela pobre criatura aí ao lado. Esforço-me há muito tempo para evitar que a descubram, e não gostaria que isso acontecesse afinal. Aqui, Carter, ajude-o com seu colete. Onde deixou a sua capa de peles? Não pode viajar uma milha sem ela, eu sei, neste maldito clima frio. Em seu quarto? Jane, corra até o quarto do Sr. Mason... o quarto junto ao meu... e pegue uma capa que encontrará lá. Tornei a correr, e a voltar, trazendo uma imensa manta forrada e debruada de peles. — Agora, tenho outra missão para você — disse meu incansável amo. — Você deve sair do quarto de novo. Que felicidade você estar calçada com veludo, Jane! Uma mensageira batendo os 262

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tamancos por aí nunca serviria nessa conjuntura. Deve abrir a gaveta do meio de minha mesa de toalete e pegar um frasquinho e um pequeno copo que encontrará lá... rápido! Voei para lá e voltei, trazendo os vasos desejados. — Muito bem! Agora, doutor, tomarei a liberdade de ministrar eu mesmo uma dose, sob minha própria responsabilidade. Consegui este cordial em Roma, de um charlatão italiano...um sujeito que você teria afastado a pontapés, Carter. Não é coisa para ser usada indiscriminadamente, mas em certas ocasiões é boa; como agora, por exemplo. Jane, um pouco d’água. Estendeu o minúsculo copo, e eu o enchi até a metade com a garrafa de água que estava no lavatório. — Assim está bom, agora umedeça a boca do vidrinho. Eu o fiz; ele contou doze gotas de um líquido rubro e o ofereceu ao Sr. Mason. — Beba, Richard, isto lhe dará a coragem que lhe falta, por uma hora, mais ou menos. — Mas vai me fazer mal... é inflamatório? — Beba! Beba! Beba! O Sr. Mason obedeceu, porque, evidentemente, era inútil resistir. Estava vestido agora, ainda parecia pálido, mas não estava mais sangrando e sujo. O Sr. Rochester deixou-o ficar sentado por três minutos, após haver engolido o líquido; depois, pegou-o pelo braço. — Agora estou certo de que pode ficar em pé — disse. — Tente. O paciente levantou-se. — Carter, pegue-o por baixo do outro ombro. Ânimo, Richard; ande... isso! — Sinto-me melhor — observou o Sr. Mason. — Estou certo que sim. Agora, Jane, vá à nossa frente até a escada dos fundos; desaferrolhe a porta da passagem lateral e diga ao cocheiro da charrete que encontrará no pátio... ou logo adiante, pois eu lhe disse que não andasse com aquelas rodas barulhentas por sobre o pavimento... diga-lhe que esteja pronto; estamos indo: e, Jane, se houver alguém por aí, volte ao pé da escada e pigarreie. Já eram cinco e meia, e o sol estava a ponto de surgir; mas Jane Eyre

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encontrei a cozinha ainda às escuras e silenciosa. A porta da passagem lateral estava fechada; abri-a com o mínimo barulho possível; todo o pátio estava quieto; mas os portões se abriam, e havia uma charrete, com os cavalos prontos e o cocheiro sentado na boléia, parada lá fora. Aproximei-me do homem e disse-lhe que os cavalheiros estavam vindo; ele acenou com a cabeça; depois, olhei cuidadosamente em volta e fiquei à escuta. A quietude da manhã cedo dormitava por toda parte; as cortinas ainda estavam fechadas nos quartos dos criados; passarinhos trinavam nas árvores do pomar cobertos de flores, cujos galhos pendiam como guirlandas brancas sobre o muro que cercava um lado do pátio; os cavalos da carruagem pateavam de vez em quando em seus estábulos fechados. Tudo mais estava quieto. Os cavalheiros apareceram então. Mason, apoiado pelo Sr. Rochester e o médico, parecia andar com tolerável facilidade: eles o ajudaram a subir à charrete; Carter acompanhou-o. — Cuide dele — disse o Sr. Rochester ao último — e mantenha-o em sua casa até ficar inteiramente bom; irei lá dentro de um ou dois dias, para ver como ele vai indo. Richard, como está? — O ar fresco me reanima, Fairfax. — Deixe a janela aberta deste lado, Carter; não há vento. Adeus, Dick. — Fairfax... — Bem, que é? — Que se cuide dela; que seja tratada tão carinhosamente quanto possível; que... — Parou e explodiu em soluções. — Farei o melhor que puder; é o que tenho feito e continuarei fazendo — foi a resposta: ele fechou a porta da carruagem, e o veículo se afastou. — Contudo, quisera Deus que houvesse um fim para tudo isso! — acrescentou o Sr. Rochester, ao fechar e trancar os pesados portões do pátio. Feito isso, encaminhou-se com passo pesado e ar absorto em direção à porta no muro que cercava o pomar. Eu, supondo que ele não precisava mais de mim, me dispunha a voltar à casa; novamente, porém, ouvi-o chamar “Jane!” Abrira a porta e estava 264

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parado nela, à minha espera. — Venha para onde há um certo frescor, por alguns minutos — ele disse. — Esta casa é uma masmorra; você não acha? — Parece-me uma esplêndida mansão, senhor. — O deslumbramento da inexperiência cobre seus olhos — ele respondeu. — E você a vê através de um meio mágico; não pode discernir que o dourado é limo, e as cortinas de seda teias de aranha; que o mármore é sórdida ardósia, e as madeiras envernizadas simples cavacos do lixo e cascas escamadas de árvores. Agora, aqui (indicou o cercado cheio de folhagem onde entráramos), tudo é real, doce e puro. Desviou-se por um sendeiro bordejado de macieiras, pereiras e amoreiras de um lado, e de um canteiro do outro, cheio de toda espécie de flores antigas, troncos, cravinas-dos-poetas, prímulas, amores-perfeitos, misturadas com flores do sul, rosas amarelas e várias ervas fragrantes. Estavam tão frescas agora quanto podia torná-las uma sucessão de chuvas e dias de sol de abril, seguida de uma adorável manhã de primavera: o sol entrava no salpicado leste, e sua luz banhava as floridas e orvalhadas plantas do pomar, e brilhava nos tranqüilos sendeiros embaixo delas. — Jane, quer uma flor? Colheu uma rosa semi-aberta, a primeira do canteiro, e me ofereceu. — Obrigada, senhor. — Gosta deste amanhecer, Jane? Este céu, com suas nuvens altas e leves, que certamente se dissolverão à medida que o dia esquente; esta atmosfera plácida e cheirosa? — Gosto muito. — Passou uma noite estranha, Jane. — Sim, senhor. — E isso a deixou pálida... ficou com medo, quando a deixei sozinha com Mason? — Tive medo de que alguém saísse do quarto interno. — Mas eu tinha trancado a porta... estava com a chave em meu bolso, seria um pastor descuidado se deixasse uma ovelha... minha ovelha de estimação... assim tão perto do covil de um lobo, Jane Eyre

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desprotegida: você estava em segurança. — Grace Poole vai continuar vivendo aqui, senhor? — Oh, sim! Não perturbe sua cabeça com ela... afaste isso de seus pensamentos. — Mas me parece que sua vida não está em segurança, com ela por aí. — Não tema... cuidarei de mim. — Já passou o perigo que o senhor temia na noite passada? — Não posso garantir isso enquanto Mason não estivei fora da Inglaterra: e nem mesmo então. Viver, para mim, Jane, é ficar em cima de uma crosta de cratera que pode rachar e cuspir fogo a qualquer dia. — Mas o Sr. Mason me parece um homem facilmente manejável. Sua influência, senhor, é evidentemente poderosa sobre ele: jamais o contestará ou magoará deliberadamente. — Oh, não! Mason não me desafiará; nem, deliberadamente, me fará mal...mas, sem intenção, poderia num momento, com uma palavra descuidada, privar-me, se não da vida, pelo menos da felicidade, e para sempre. — Diga-lhe que tenha cuidado, senhor, informe-lhe o que o senhor teme, e mostre-lhe como evitar o perigo. Ele riu sardonicamente, tomou minha mão com um gesto rápido, e com um gesto rápido a largou. — Se eu pudesse fazer isso, sua tola, onde estaria o perigo? Aniquilado num instante. Desde que conheço Mason, só tenho precisado dizer-lhe: “Faça isso”, e a coisa é feita. Mas não posso dar-lhe ordens neste caso, não posso dizer: “Cuidado para não me ferir, Richard”; pois é imperativo que o mantenha na ignorância de que pode machucar-me. Agora você parece intrigada; e a deixarei mais intrigada ainda. Você é minha amiguinha, não é? — Gosto de servi-lo, senhor, e de obedecer-lhe em tudo que seja correto. — Precisamente: vejo que o faz. Vejo genuína satisfação em seu porte e expressão, em seus olhos e seu rosto, quando me ajuda e me agrada... trabalhando para mim, e comigo, em, como você diz caracteristicamente, “tudo que seja correto”, pois se eu lhe mandar 266

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fazer algo que você considere errado, não haveria corridas lépidas, alegria nem olhares vivazes e cores animadas. Minha amiga se viraria para mim, tranqüila e pálida, e diria: “Não, senhor; isso é impossível, não posso fazê-lo, porque é errado”; e se tornaria imutável como uma estrela fixa. Bem, você também tem poder sobre mim, e pode magoar-me: contudo, não ouso dizer-lhe onde sou vulnerável, para que, apesar de fiel e amiga como é, não me trespasse de uma vez. — Se o senhor não tem mais medo do Sr. Mason do que de mim, então está em muita segurança. — Deus queira que assim seja! Aqui, Jane, está um caramanchão; sente-se. O caramanchão era um arco na parede, coberto de hera; continha um rústico assento. O Sr. Rochester ocupou-o, deixando no entanto espaço para mim, mas fiquei de pé à sua frente. — Sente — ele disse. — O banco é suficientemente comprido para dois. Você não hesita em sentar-se junto a mim, hesita? Isso é errado, Jane? Respondi sentando-me: senti que recusar seria pouco sábio. — Agora, minha amiguinha, enquanto o sol bebe o orvalho, enquanto todas as flores neste jardim velho se abrem e expandem, e os pássaros trazem o desjejum de seus filhos do milharal, e as primeiras abelhas fazem seu primeiro turno de trabalho, eu lhe porei uma questão, que você deve tentar supor ser sua: mas primeiro, olhe para mim e me diga se está à vontade, e não teme que eu erre detendo-a, ou que você erre ficando. — Não, senhor, estou satisfeita. — Bem, então, Jane, recorra à sua imaginação: suponha que não fosse mais uma moça bem-educada e disciplinada, mas um rapaz aloucado e mimado desde a infância; imagine-se numa distante terra estrangeira; conceba que ali tenha cometido um erro capital, não importa de que tipo ou por quais motivos, mas um erro cujas conseqüências devem acompanhá-lo por toda a vida e empanar toda a sua existência. Veja que não digo um crime; não estou falando em derramar sangue ou qualquer ato de culpa, que pudesse tornar o perpetrador conduzível à lei: a Jane Eyre

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palavra que uso é erro. Os resultados do que você fez se tornam com o tempo extremamente insuportáveis, você toma medidas para conseguir alívio; medidas incomuns, mas não ilegais nem culpáveis. Mas continua infeliz; pois a esperança a deixou nos próprios confins da vida; seu sol, ao meio-dia, escurece-se num eclipse, que você sente que não o deixará até a hora do poente. Associar ções amargas e baixas tornaram-se o único alimento de sua memória; você vagueia de um lado para outro, buscando repouso rio exílio; felicidade no prazer... quero dizer, no prazer bruto, sensual... que embota o intelecto e fere os sentimentos. Com o coração cansado e a alma murcha, você volta para casa após anos de banimento voluntário; faz um novo conhecimento... como ou onde, não importa; encontra nessa pessoa estranha muitas das boas e brilhantes qualidades que vem buscando há vinte anos e jamais encontrou antes; e são todas novas, saudáveis, sem mácula. Uma companhia dessas revive, regenera; você sente que dias melhores voltaram... desejos mais elevados, sentimentos mais puros; deseja recomeçar sua vida, e passar os dias que lhe restam de uma maneira mais digna de um ser imortal. Para atingir essa meta, estará justificada em saltar um obstáculo dos costumes... um simples impedimento convencional que nem sua consciência santifica nem seu julgamento aprova? Parou, à espera de uma resposta: que podia eu dizer? Oh, se algum espírito benévolo me sugerisse uma resposta judiciosa e satisfatória! Vã aspiração! O vento oeste sussurrava na hera à minha volta; mas nenhum gentil Ariel emprestava seu fôlego como um meio de fala; os pássaros cantavam no topo das árvores; mas a canção deles, por mais doce que fosse, não deixava de ser incompreensível. O Sr. Rochester propôs novamente sua questão: — Estará o homem errante e pecaminoso, mas agora em busca de repouso e arrependido, justificado em enfrentar a opinião do mundo, a fim de ligar a ele para sempre essa gentil, graciosa e jovial estranha, assegurando com isso sua paz de espírito e a regeneração de sua vida? — Senhor — respondi — o repouso de um errante ou a reforma 268

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de um pecador não devem jamais depender de uma criatura-irmã. Homens e mulheres morrem; os filósofos falham em sabedoria, e os cristãos em bondade: se alguém que o senhor conhece sofreu e errou, que olhe mais alto que a seus iguais, em busca de força para consertar e alívio para curar. — Mas o instrumento! O instrumento! Deus, que faz a obra, ordena o instrumento. Eu próprio... digo-lhe sem parábolas... tenho sido um homem mundano, dissipado, inquieto; c acredito que encontrei o instrumento para minha cura em... Parou; os pássaros continuavam cantando, as folhas farfalhando levemente. Eu quase me admirava de eles não pararem suas músicas e sussurros, para captar a revelação iminente; mas teriam tido de esperar muitos minutos — tanto se prolongou o silêncio. Afinal, ergui o olhar para o atrasado orador; ele me olhava ansiosamente. — Amiguinha — disse, num tom inteiramente mudado, enquanto seu rosto também mudava, perdendo toda a suavidade e gravidade, e tornando-se duro e sarcástico — você notou minha terna queda pela Srta. Ingram: não acha que se a desposasse ela me regeneraria com alguma vingança? Levantou-se no mesmo instante, foi até o fim do sendeiro, e quando voltou trauteava uma melodia. — Jane, Jane — disse, parando à minha frente —, você está muito pálida, com suas vigílias; não me maldiz por perturbar seu repouso? — Maldizê-lo? Não, senhor. — Apertemos as mãos, em confirmação da palavra. Que dedos frios! Estavam mais quentes na noite passada, quando os toquei na porta do misterioso quarto. Jane, quando fará vigília comigo de novo? — Sempre que possa ser útil, senhor. — Por exemplo, na noite anterior a meu casamento tenho certeza de que não poderei dormir. Promete ficar acordada comigo e me fazer companhia? A você eu posso falar de minha amada, pois agora você a viu e a conhece. — Sim, senhor. Jane Eyre

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— É uma pessoa rara, não é, Jane? — Sim, senhor. — Uma mulherona... uma verdadeira mulherona, Jane: grande, morena e rosada; com cabelos exatamente como as mulheres de Cartago devem ter tido. Deus me abençoe! Lá estão Dent e Lynn nos estábulos. Entre por aquelas moitas, por aquela portinhola. Enquanto eu seguia por um lado, ele ia pelo outro, e o ouvi dizer no pátio animadamente: — Mason passou à frente de vocês todos esta manhã: partiu antes do sol nascer; levantei-me às quatro para despedir-me.

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CAPÍTULO 21

O

s pressentimentos são coisas estranhas! E o mesmo acontece com as simpatias; e com os sinais; e os três combinados compõem um mistério para o qual a humanidade ainda não encontrou a chave. Nunca ri dos pressentimentos em minha vida, porque eu mesma tive alguns bem estranhos. Existem simpatias, creio (por exemplo, entre parentes separados por grandes distâncias, há muito tempo, e inteiramente afastados, que afirmam, apesar da separação, a unidade da fonte na qual cada um identifica suas origens), cujo funcionamento confunde a compreensão mortal. E os sinais, por tudo que sabemos, podem ser apenas as simpatias da natureza com o homem. Quando eu era pequena, com apenas seis anos, uma noite ouvi Bessie Leaven dizer a Martha Abbott que sonhara com uma criança; e que sonhar com criança era um sinal certo de problemas, para a própria pessoa ou para um parente. A história poderia ter-se apagado em minha memória, não fosse uma circunstância que se seguiu imediatamente, e que serviu para fixá-la indelevelmente. No dia seguinte, mandaram chamar Bessie à sua casa, para o leito de morte de sua irmãzinha. Nos últimos tempos, eu me lembrava com freqüência dessa história e desse incidente; pois durante a semana anterior dificilmente passava uma noite em minha cama sem sonhar com uma criança que eu às vezes acalentava nos braços, às vezes Jane Eyre

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balançava nos joelhos, às vezes via brincar com margaridas no gramado, ou ainda enfiar as mãos na água corrente. Era uma criança chorando numa noite, uma criança rindo na outra; ora se aninhava junto a mim, ora fugia de mim; mas, fosse qual fosse o estado de espírito que a aparição demonstrasse, fosse qual fosse o aspecto que tivesse, não deixou, durante sete noites, sucessivas, de vir ao meu encontro assim que eu entrava na terra do sono. Eu não gostava da insistência dessa idéia — da estranha recorrência dessa imagem, e ficava nervosa quando se aproximava a hora de ir para a cama, e da visão. Fora por companheirismo com esse bebê-fantasma que eu despertara naquela noite enluarada em que ouvi o grito; e foi na tarde do dia seguinte que fui chamada lá embaixo por um recado de que alguém me procurava no quarto da Sra. Fairfax. Apresentando-me lá, encontrei um homem à minha espera, com a aparência do criado de um cavalheiro: trajava luto fechado, e o chapéu que tinha nas mãos estava cercado com o crepe preto. — Eu diria que a senhorita não se lembra de mim — ele disse, levantando-se quando entrei. — Mas meu nome é Leaven; eu era cocheiro da Sra. Reed quando a senhorita estava em Gateshead, há oito ou nove anos, e ainda moro lá. — Oh, Robert! Como vai? Lembro-me muito bem de você: costumava me montar de vez em quando no pônei baio da Srta. Georgiana. Como está Bessie? Você se casou com Bessie? — Sim, senhorita, minha mulher está muito bem, obrigado; ela me deu outro pimpolho há cerca de dois meses... temos três agora... e a mãe e a criança vão bem. — E os donos da casa estão bem, Robert? — Sinto não poder dar-lhe melhores notícias deles, senhorita, estão muito mal atualmente... em grande aflição. — Espero que não tenha morrido ninguém — eu disse, olhando seu traje negro. Ele também olhou o crepe negro no chapéu e respondeu: — O Sr. John morreu fez uma semana ontem, em seus aposentos em Londres. — O Sr. John? 272

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— Sim. — E como está a mãe dele? — Ora, a senhorita sabe, Srta. Eyre, não se trata de um infortúnio comum: a vida dele foi muito desastrada, nestes últimos três anos ele se entregou a estranhos hábitos, e sua morte foi chocante. — Eu soube por Bessie que ele não ia indo bem. — Indo bem! Não podia ir pior; arruinou a saúde e a fortuna em companhia dos piores homens e mulheres. Afundou em dívidas e foi para a cadeia: a mãe o ajudou duas vezes, mas assim que se via livre, ele voltava aos velhos companheiros e hábitos. Não tinha a cabeça forte, os patifes no meio dos quais vivia o iludiam além de qualquer limite que eu tenha sabido. Ele veio a Gateshead cerca de três semanas atrás, e queria que a patroa lhe entregasse tudo. Ela recusou; as extravagâncias dele há muito reduziram bastante os bens dela; assim, ele voltou de novo, e a próxima notícia que tivemos foi de que estava morto. Como morreu, só Deus sabe... dizem que se matou. Fiquei calada; as notícias eram pavorosas. Robert Leaven recomeçou: — A patroa não está bem de saúde há já algum tempo; ficou muito gorda, mas não forte; e a perda do dinheiro e o medo da pobreza a enfraqueceram muito. A informação sobre a morte do Sr. John e a maneira como se deu vieram demasiado de repente, causaram um ataque. Ela ficou três dias sem falar, mas na última terça-feira parecia melhor; parecia querer dizer alguma coisa, e ficava fazendo sinais a minha mulher e murmurando. Só ontem de manhã, no entanto, foi que Bessie entendeu que ela pronunciava o nome da senhorita; e terminou compreendendo as palavras: “Traga Jane... vá buscar Jane Eyre, quero falar com ela.” Bessie não sabe se ela está em seu juízo perfeito, ou se queria mesmo dizer alguma coisa com essas palavras; mas ela falou à Srta. Reed e à Srta. Georgiana, e aconselhou-as a mandar chamar a senhorita. As jovens damas recusaram a princípio; mas a mãe ficou muito agitada e dizia “Jane, Jane” tantas vezes, que afinal elas consentiram. Parti de Gateshead ontem; e se a senhorita puder se aprontar, eu a levarei lá amanhã de manhã cedo. Jane Eyre

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— Sim, Robert, eu me aprontarei, parece-me que devo ir. — Eu também acho, senhorita. Bessie disse que tinha certeza de que a senhorita não se recusaria; mas suponho que tenha de pedir licença para poder ir? — Sim; e vou fazer isso agora mesmo. — E, tendo-o encaminhado à sala dos criados, e recomendado à mulher de John que cuidasse dele, e ao próprio John também, saí à procura do Sr. Rochester. Ele não estava em nenhum dos quartos de baixo; não estava no pátio, nos estábulos ou nos jardins. Perguntei à Sra. Fairfax se o tinha visto — sim, ela acreditava que ele estava jogando bilhar com a Srta. Ingram. Corri ao salão de bilhar; vinham dali o chocalhar das bolas e um zumbido de vozes; o Sr. Rochester, a Srta. Ingram, as duas Srtas. Eshton e seus admiradores estavam todos ocupados com o jogo. Foi preciso alguma coragem para incomodar um grupo tão interessante; minha missão, contudo, era das que não podem ser adiadas, e assim me aproximei do patrão, que estava ao lado da Srta. Ingram. Ela se voltou quando me aproximei, e me olhou altivamente: seus olhos pareciam perguntar: “Que pode querer agora essa criatura rastejante?” E quando eu disse em voz baixa: “Sr. Rochester”, ele fez um movimento como se se sentisse tentada a mandar-me embora. Lembro-me de sua aparência no momento — muito graciosa e impressionante, usava um vestido matinal de crepe azul-celeste e tinha uma diáfana echarpe azul em volta do cabelo. Estava toda animada com o jogo, e o orgulho irritado não reduziu a expressão de seus traços altivos. — Essa pessoa quer falar com você? — ela perguntou ao Sr. Rochester; e ele se voltou para ver quem era a “pessoa”. Fez uma careta curiosa — uma dessas demonstrações estranhas e equívocas — largou o taco e me seguiu para fora da sala. — Bem, Jane? — disse, recostando-se na porta da sala de aula, que tinha fechado. — Por favor, senhor, quero uma licença de um ou duas semanas. — Para fazer o quê... para ir aonde? — Para ir ver uma dama doente que mandou me chamar. — Que dama doente? Onde mora? 274

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— Em Gateshead, em ... shire. — ...shire? Isso fica a cem milhas! Quem pode mandar chamar pessoas para vê-la a essa distância? — O nome dela é Reed, senhor... Sra. Reed. — Reed de Gateshead? Havia um Reed de Gateshead que era magistrado. — É a viúva dele, senhor. — E que tem você a ver com ela? Como a conhece? — O Sr. Reed era meu tio... irmão de minha mãe. — O diabo que era! Você nunca me disse isso antes; sempre disse que não tinha parentes. — Não tinha nenhum que me reconhecesse, senhor. O Sr. Reed morreu, e a mulher dele me mandou embora. — Por quê? — Porque eu era pobre e um fardo, e ela me detestava. — Mas Reed deixou filhos? Você deve ter primos? Sir George Lynn falava ontem de um Reed de Gateshead, que segundo disse era um dos maiores patifes da cidade; e Ingram falou de uma Georgina Reed do mesmo lugar, que foi muito admirada por sua beleza uma ou duas temporadas atrás, em Londres — John morreu, senhor; arruinou-se e quase arruinou a família, e supõe-se que tenha cometido suicídio. A notícia causou um tal choque na mãe, que resultou num ataque apoplético. — E que bem pode fazer você a ela? Bobagem, Jane! Eu nunca pensaria em correr cem milhas para ver uma velha que talvez já esteja morta antes de você alcançá-la; além disso, você diz que ela a expulsou. — Sim, senhor, mas isso foi há muito tempo; e quando as circunstâncias dela eram muito diferentes: eu não ficaria tranqüila se ignorasse seus desejos agora. — Quanto tempo vai ficar? — O mais curto tempo possível, senhor. — Prometa-me que só ficará uma semana... — É melhor eu não dar minha palavra, senhor; posso ser obrigada a quebrá-la. — De qualquer forma, vai voltar, não será induzida, sob Jane Eyre

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pretexto nenhum, a fixar residência com ela? — Oh, não! Certamente voltarei, se tudo correr bem. — E quem vai com você? Não vai viajar cem milhas sozinha. — Não senhor, ela mandou seu cocheiro. — Pessoa digna de confiança? — Sim, senhor, ele vive há dez anos com a família. O Sr. Rochester pensou um pouco. — Quando deseja ir? — Amanhã de manhã cedo, senhor. — Bem, deve levar algum dinheiro; não pode viajar sem dinheiro, e aposto que não tem muito: não lhe paguei nenhum salário ainda. Quanto tem você no mundo, Jane? — perguntou sorrindo. Peguei minha bolsa; era uma coisinha magra. — Cinco xelins, senhor. Ele tomou a bolsa, despejou o conteúdo na palma da mão e deu uma risadinha, como se aquela pobreza o divertisse. Logo puxou sua carteira: — Aqui — disse, oferecendo-me uma nota; eram cinqüenta libras, e ele só me devia quinze. Eu lhe disse que não tinha troco. — Não quero troco; você sabe disso. Pegue seu salário. Recuseime a aceitar mais do que me era devido. Ele armou uma carranca a princípio; depois, como se se lembrasse de algo disse: — Certo, certo! É melhor não lhe dar tudo agora: você talvez ficasse três meses fora se tivesse cinqüenta libras. Aqui estão dez; não é o bastante? — Sim, senhor, mas agora o senhor me deve cinco. — Volte para recebê-las, então; sou seu banqueiro para quarenta libras. — Sr. Rochester, posso muito bem mencionar-lhe outro assunto de negócios, enquanto tenho a oportunidade. — Assunto de negócios? Estou curioso para ouvir. — O senhor teve a bondade de me informar que vai se casar em breve. — Sim; e então? — Neste caso, senhor, Adèle deve ir para uma escola: tenho certeza de que perceberá a necessidade disso. 276

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— Para tirá-la do caminho de minha noiva, que de outro modo poderia atropelá-la com demasiada gana? É uma sugestão sensata; e você, é claro, deve marchar diretamente para... para o diabo. — Espero que não, senhor; mas preciso procurar outro emprego, em outra parte. — Decerto! — ele exclamou, com um tom de voz e as feições distorcidas de um modo ao mesmo tempo fantástico e cômico. Olhou-me por alguns minutos. — E suponho que pedirá à velha Madame Reed, ou às senhoritas, suas filhas, que lhe arranjem um lugar? — Não, senhor; não estou em tais termos, com minhas parentas, que justifiquem pedir favores a elas... mas porei um anúncio. — Você subirá as pirâmides do Egito — ele rosnou. — Você que ponha anúncio! Eu gostaria de ter-lhe dado apenas um soberano, em vez das dez libras. Devolva-me nove libras, Jane; preciso delas. — E eu também, senhor — respondi, pondo as mãos e a bolsa às costas. — Não posso dispor do dinheiro em hipótese alguma. — Sua avarentazinha! — ele disse. — Recusando-me um pedido de dinheiro! Dê-me cinco libras, Jane. — Nem cinco xelins, senhor; nem cinco pence. — Deixe-me só ver o dinheiro. — Não, senhor; não confio no senhor. — Jane! — Senhor? — Prometa-me uma coisa. — Prometo-lhe qualquer coisa, senhor, que eu me ache capaz de realizar. — Não ponha anúncio, e confie essa questão do emprego a mim. Eu lhe encontrarei um no devido tempo. — Terei prazer em fazer isso, se o senhor, em troca, me prometer que eu e Adèle estaremos seguras na casa enquanto sua noiva não entrar nela. — Muito bem! Muito bem! Dou minha palavra quanto a isso. Você parte amanhã, então? — Sim, senhor; bem cedo. Jane Eyre

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— Descerá à sala de estar após o jantar? — Não, senhor, tenho de me preparar para a viagem. — Então temos de nos despedir por algum tempo? — Suponho que sim, senhor. — E como as pessoas realizam essa cerimônia de despedida, Jane? Ensine-me; não estou muito à altura. — Elas dizem adeus, ou qualquer outra forma que prefiram. — Então diga. — Adeus, Sr. Rochester, por enquanto. — Que devo eu dizer? — O mesmo, se quiser, senhor. — Adeus, Srta. Jane, por enquanto; é só isso? — Sim. — Parece-me pouca coisa, em minha opinião, e seco, e inamistoso. Gostaria de alguma coisa mais, um pequeno acréscimo ao rito. Se apertássemos as mãos, por exemplo; mas não... isso tampouco me deixaria satisfeito. Então não fará mais que dizer adeus, Jane? — É o bastante, senhor; pode-se transmitir tanta boa vontade numa palavra sincera quanto em muitas. — É bem provável; mas é vazio e frio... “Adeus”. “Quanto tempo ele vai ficar recostado contra a porta?” eu me perguntava. “Preciso começar a fazer as malas.” A sineta do jantar tocou, e de repente ele se afastou, sem mais uma sílaba: não tornei a vêlo durante o dia, e parti antes que ele se levantasse na manhã seguinte. Cheguei ao portão de Gateshead cerca das cinco horas da tarde de 1.° de maio: entrei no alojamento do porteiro, antes de subir para a mansão. Estava muito limpo e arrumado, as janelas ornamentais tinham pequenas cortinas brancas, o piso estava imaculado; a grade da lareira e os atiçadores brilhavam de polimento; e o fogo ardia límpido. Bessie sentava-se junto à lareira, ninando seu recém-nascido, e Robert e a irmã brincavam tranqüilamente num canto. — Bendita seja! Eu sabia que a senhorita viria! — exclamou a Sra. Leaven quando entrei. 278

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— Sim, Bessie — eu disse, depois de tê-la beijado. — E espero não chegar muito atrasada. Como está a Sra. Reed? Viva ainda, espero? — Sim, ela está viva; e mais consciente e aprumada que antes. O médico diz que ela pode durar mais uma ou duas semanas ainda; mas não acha que se recupere. — Ela falou em mim ultimamente? — Estava falando da senhorita esta manhã mesmo, e desejando que viesse, mas está dormindo agora, ou estava há dez minutos, quando fui à casa. Ela geralmente fica numa espécie de torpor a tarde toda, e acorda lá pelas seis ou sete horas. Quer descansar aqui por uma hora, e depois eu subo com a senhorita? Robert entrou, e Bessie pôs sua criança adormecida no berço e foi recebê-lo; depois, insistiu em que eu tirasse minha touca e tomasse um pouco de chá; pois disse que eu parecia pálida e cansada. Fiquei satisfeita em aceitar a sua hospitalidade; e deixei que me aliviasse de meus apetrechos de viagem de modo tão passivo quanto costumava deixá-la despir-me quando criança. Os velhos tempos voltaram-me todos, observando-a atarefarse pela casa — arrumando a bandeja do chá com sua melhor louça, cortando o pão e a manteiga, fazendo um bolo, e nos intervalos dando no pequeno Robert ou em Jane um tapa ou empurrão ocasionais, do mesmo modo como me dava em outra época. Bessie continuava pouco paciente, e com os mesmos pés ágeis e a boa aparência. Pronto o chá, ia aproximar-me da mesa; mas ela quis que eu ficasse quieta, no mesmo tom peremptório de antigamente. Tinha de ser servida diante da lareira, disse, e colocou à minha frente uma mesinha com a xícara e um prato de torrada, absolutamente como costumava me acomodar, com alguma fina iguaria apanhada às escondidas, numa cadeira no quarto das crianças, e eu lhe sorri e obedeci como nos dias passados. Ela queria saber se eu era feliz em Thornfield Hall, e que tipo de pessoa era a patroa; e quando eu lhe disse que havia apenas um patrão, se ele era um cavalheiro decente, e se eu gostava dele. Eu lhe disse que era um homem mais para feio, mas um Jane Eyre

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completo cavalheiro; e que me tratava com bondade, e que eu estava satisfeita. Depois passei a descrever para ela o alegre grupo que se hospedava nos últimos tempos na casa: e Bessie ouviu esses detalhes com interesse: eram precisamente do tipo que ela apreciava. Nessa conversa, passou-se logo uma hora: Bessie devolveume minha touca etc, e, acompanhada por ela, deixei o alojamento e fui para a mansão. Também fora acompanhada por ela que eu descera, quase nove anos atrás, o caminho que agora subia. Numa manhã escura, nevoenta e crua de janeiro, deixara um teto hostil com o coração desesperado e amargurado — uma sensação de proscrição e quase de reprovação — para ir em busca do frio abrigo de Lowood; aquela meta tão distante e inexplorada. O mesmo teto hostil erguia-se agora novamente diante de mim; minhas perspectivas ainda eram duvidosas; e ainda tinha o coração dorido. Ainda me sentia como uma errante na face da terra; mas experimentava uma confiança mais firme em mim mesma e em minhas próprias forças, e menos medo da opressão. A ferida aberta de meus malfeitos, também, estava agora inteiramente curada; e a chama do ressentimento, extinta. — A senhorita irá à sala de desjejum primeiro — disse Bessie, ao atravessar o saguão na minha frente. — As jovens senhoras estarão lá. No momento seguinte, eu estava no aposento. Todas as peças de mobiliário pareciam exatamente do jeito que estavam na manhã em que fui apresentada ao Sr. Brocklehurst: o tapete sobre o qual ele ficara ainda cobria o piso. Olhando as estantes de livros, julguei poder distinguir os dois volumes dos Pássaros Britânicos, de Bewick, ocupando seu antigo lugar na terceira prateleira, e as Viagens de Gulliver e As Mil e Uma Noites logo acima. Os objetos inanimados não tinham mudado; mas as coisas vivas se haviam alterado além de qualquer reconhecimento. Duas jovens damas surgiram à minha frente, uma delas muito alta, quase como a Srta. Ingram — muito esguia também, com um rosto pálido e uma expressão severa. Havia alguma coisa de ascético em sua aparência, que era acentuada pela 280

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extrema simplicidade de uma saia reta, vestido de tecido preto, um colarinho de linho engomado, cabelo penteado para trás, e enfeitado como uma freira, com um cordão de contas de ébano e um crucifixo. Aquela, tive certeza de que era Eliza, embora só conseguisse identificar uma pequena semelhança com a pessoa de antes naquele rosto alongado e sem cor. A outra era certamente Georgiana, mas não a Georgiana de quem eu me lembrava — a menina esguia e parecendo uma fada, de onze anos. Aquela era uma donzela plenamente desenvolvida, muito cheia, branca como uma figura de cera, com feições regulares e bonitas, lânguidos olhos azuis e cabelo louro e cacheado. A cor de seu vestido era negra também; mas o modelo era tão diferente do da irmã — tão mais fluido e assentado — que parecia tão sofisticado quanto o outro era puritano. Em cada uma das irmãs havia um traço da mãe — e um apenas; a filha mais velha, magra e pálida, tinha os olhos da Sra. Reed; a mais jovem, em flor e luxuriante, o contorno da mandíbula e do queixo — talvez um pouco suavizado, mas transmitindo ainda uma indescritível dureza ao rosto, fora isso tão voluptuoso e rosado. Quando me aproximei, elas se levantaram e ambas se dirigiram a mim chamando-me de “Srta. Eyre”. O cumprimento de Eliza foi em voz breve, abrupta, sem um sorriso; e depois ela voltou a sentar-se, fixou os olhos no fogo e pareceu esquecerme. Georgiana acrescentou ao seu “Como vai?” vários lugarescomuns sobre minha viagem, o tempo, e essas coisas, ditos num tom um tanto arrastado, e acompanhado por várias olhadas de lado, que me avaliavam dos pés à cabeça — ora varando as dobras de minha gasta peliça de merino, ora demorando-se no debrum barato de minha touca. As jovens damas têm uma maneira notável de nos fazer saber que nos acham um “enigma”, sem na verdade o dizerem com palavras. Uma certa arrogância no olhar, uma certa frieza nos modos, uma certa indiferença no tom expressam plenamente seus sentimentos nesse ponto, sem comprometê-las por meio de qualquer rudeza clara nas palavras ou atos. Mas um olhar de desprezo, disfarçado ou aberto, não tinha Jane Eyre

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mais sobre mim aquele poder que tinha antigamente; sentada ali entre minhas primas, eu me surpreendia ao descobrir como me sentia à vontade diante da total indiferença de uma e das atenções meio sarcásticas da outra — Eliza não me deixou mortificada, nem Georgiana me irritou. A verdade era que eu tinha outras coisas em que pensar; nos últimos meses haviam-se agitado dentro de mim sentimentos tão mais poderosos que os que elas podiam me provocar — sofrimentos e prazeres tão mais agudos e estranhos do que quaisquer uns que estivesse em seu poder infligir ou provocar — que seus ares não me preocupavam, nem para o bem nem para o mal. — Como está a Sra. Reed? — perguntei logo, olhando calmamente para Georgiana, que julgou adequado empertigar-se à pergunta direta, como se fosse uma liberdade inesperada. — A Sra. Reed? Ah! mamãe, você quer dizer; ela está extremamente mal, duvido que possa vê-la esta noite. —Se — eu disse — você simplesmente subisse e dissesse a ela que cheguei, eu lhe ficaria muito agradecida. Georgiana quase saltou, e arregalou os olhos azuis. — Sei que ela tinha um desejo particular de me ver — acrescentei — c não adiaria o atendimento de seu desejo mais tempo que o absolutamente necessário. — Mamãe não gosta de ser perturbada à tarde — observou Eliza. Eu me levantei logo, peguei tranqüilamente minha touca e minhas luvas, sem ser convidada a isso, e disse que iria ver Bessie — que se achava, sem dúvida, na cozinha — e pedir-lhe para verificar se a Sra. Reed estava disposta a me receber ou não naquela noite. Saí, e, tendo encontrado Bessie e mandado que ela desse o recado, passei a tomar outras medidas. Até então, costumava evitar a arrogância: recebida como fora naquele dia, decidiria, um ano atrás, deixar Gateshead na manhã seguinte; agora, descobria que isso teria sido um plano tolo. Eu fizera uma viagem de cem milhas para ver minha tia, e devia ficar com ela até que melhorasse — ou morresse: quanto ao orgulho ou loucura de suas filhas, devia ignorá-los, tornar-me independente deles. Assim, dirigi-me à governanta; pedi-lhe que me desse um quarto, 282

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disse-lhe que provavelmente ficaria por uma semana ou duas, fiz com que levassem minha mala ao meu quarto e acompanhei-a pessoalmente até lá; encontrei Bessie np patamar da escada. — A patroa está acordada — ela disse. — Eu disse a ela que a senhorita está aqui; venha e vamos ver se ela a reconhece. Eu não precisava ser conduzida ao conhecido quarto, ao qual fora tantas vezes convocada para ser castigada ou repreendida em outros tempos. Segui depressa à frente dei Bessie; abri a porta de mansinho; sobre a mesa havia uma luz velada, pois estava ficando escuro. Lá estava a cama de quatro colunas, com as cortinas ambarinas, de antigamente; a mesa de toalete, a poltrona e o banquinho de descansar os pés, no qual eu fora uma centena de vezes sentenciada a ajoelhar-me, para pedir perdão por faltas que não cometera. Olhei para um certo canto próximo, meio esperando ver a fina forma de uma temida vara que costumava esconder-se ali, à espera para saltar como um demônio e atingir minha mão trêmula ou meu pescoço encolhido. Aproximei-me da cama; abri as cortinas e curvei-me sobre os travesseiros empilhados altos. Bem me lembrava do rosto da Sra. Reed, e busquei avidamente a conhecida imagem. É uma boa coisa que o tempo sufoque os anseios de vingança e silencie os impulsos de raiva e aversão. Eu tinha deixado aquela mulher com amargor e ódio, e voltava a ela agora sem outra emoção que uma espécie de pesar pelo seus grandes sofrimentos, e um forte anseio de esquecer e perdoar todas as ofensas —de reconciliar-me com ela e apertar sua mão em amizade. O conhecido rosto ali estava; severo, inflexível como sempre — ali estavam aqueles olhos peculiares que nada poderia derreter, e as sobrancelhas um tanto alçadas, imperiosas, despóticas. Quantas vezes me haviam lançado ameaça e ódio! E como a lembrança dos terrores e mágoas da infância revivia enquanto eu identificava suas linhas duras agora! E no entanto, curvei-me e beijei-a. — É Jane Eyre? — ela disse. — Sim, Tia Reed. Como está, cara tia? Eu tinha jurado outrora que jamais a chamaria de tia de novo; achei que não era pecado esquecer e quebrar esse juramento agora. Jane Eyre

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Meus dedos haviam agarrado a mão dela, que repousava para fora do cobertor; se ela houvesse comprimido a minha bondosamente, eu teria experimentado naquele momento um verdadeiro prazer. Mas as naturezas não impressionáveis não se suavizam tão cedo, nem se erradicam tão prontamente antipatias naturais. A Sra. Reed recolheu a mão, e, desviando um pouco o rosto de mim, observou que a noite estava cálida. Olhou-me outra vez de modo tão gélido, que senti logo que a opinião que tinha de mim— seus sentimentos para comigo — não mudará e não mudaria. Soube por seus olhos pétreos — opacos para a ternura, indissolúveis para as lágrimas — que ela estava decidida a me considerar má até o fim; porque julgar-me boa não lhe daria nenhum prazer generoso, apenas uma sensação de mortificação. Senti dor, e depois ira; e depois uma determinação de subjugála — dominá-la a despeito de sua natureza e sua vontade. As lágrimas me inundavam os olhos: exatamente como na infância, ordenei que retornassem às suas fontes. Trouxe uma cadeira para junto da cabeceira da cama; sentei-me e curvei-me sobre o travesseiro. — A senhora mandou me chamar — eu disse — e aqui estou; e pretendo ficar até ver como vai a senhora. — Oh, decerto! Viu minhas filhas? — Sim. — Bem, pode dizer a elas que quero que você fique até que eu possa discutir algumas coisas que tenho em mente com você. Esta noite já está tarde demais e tenho dificuldade em lembrá-las. Mas havia alguma coisa que eu queria dizer...deixe-me ver... O olhar errante e o tom mudado mostravam o estrago que ocorrera em sua estrutura outrora tão vigorosa. Virando-se agitada, puxou os cobertores à sua volta; meu cotovelo, apoiado num canto da colcha, prendia-a; ela ficou logo irritada. — Sente-se ereta! — disse. — Não me aborreça prendendo os lençóis. Você é Jane Eyre? — Sou Jane Eyre. — Eu tive mais problemas com essa criança do que qualquer um acreditaria. 284

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Um tal fardo para ser deixado em minhas mãos... e tanto aborrecimento ela me causava a cada dia, a cada hora, com sua natureza incompreensível e seus súbitos ataques de mau gênio, e aquela vigilância contínua e incomum sobre os movimentos da gente! Afirmo que ela uma vez me falou como alguma coisa louca, ou como um demônio... nenhuma criança jamais falou ou teve a aparência dela naquele dia; fiquei aliviada por mandá-la embora de casa. Que fizeram com ela em Lowood? A febre grassou por lá, e muitas das alunas morreram. Mas ela não morreu, embora eu dissesse que morrera... gostaria que tivesse morrido! — Um estranho desejo, Sra. Reed; por que a odeia tanto assim? — Sempre detestei a mãe dela; porque era a única irmã de meu marido, e a grande favorita dele; opôs-se a que a família a deserdasse quando ela fez aquele casamento infeliz; e quando se soube da morte dela, ele chorou como um bobalhão. Queria mandar buscar o bebê da irmã; embora eu lhe pedisse que a entregasse a uma babá e pagasse por sua manutenção. Odiei-a desde a primeira vez que pus os olhos nela... uma coisinha doentia, chorona, definhante! Chorava no berço a noite toda... não gritando bravamente como qualquer outra criança, mas soluçando e gemendo. Reed tinha pena dela; e costuma^ va niná-la e dar-lhe atenções como se fosse sua própria filha; mais, na verdade, do que jamais dera atenção aos seus naquela idade. Tentava fazer meus filhos gostarem da mendigazinha: os queridinhos não podiam suportá-la, e ele ficava furioso com eles quando demonstravam sua antipatia. Em sua última doença, ele a fazia trazer constantemente para o lado da cama; e apenas uma hora antes de morrer, prendeu-me por um juramento de manter a criatura. Eu preferiria ficar encarregada de uma moleca do asilo de pobres: mas ele era fraco, naturalmente fraco. John não se parece em nada ao pai, e alegra-me isso: John é como eu e como meus irmãos...um verdadeiro Gibson. Oh, eu gostaria que ele deixasse de me atormentar com cartas pedindo dinheiro! Não tenho mais dinheiro para dar-lhe, estamos ficando pobres. Preciso mandar embora metade dos criados e fechar parte da casa; ou alugá-la. Jamais poderei me submeter a isso... e no entanto, como vamos passar? Dois terços de minha renda vão para Jane Eyre

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pagar os juros de hipotecas. John joga terrivelmente, e sempre perde... pobre coitado! Está cercado de trapaceiros; afundou na degradação... tem uma aparência pavorosa... sinto vergonha por ele quando o vejo. Estava ficando muito excitada. — Creio que é melhor eu deixá-la agora — eu disse a Bessie, que eslava de pé do outro lado da cama. — Talvez seja, senhorita, mas ela muitas vezes fala assim ao anoitecer... pela manhã fica mais calma. Levantei-me. — Pare! — exclamou a Sra. Reed. — Há outra coisa que eu queria dizer. Ele me ameaça... ameaça-me continuamente com sua própria morte, ou a minha, e eu às vezes sonho que o vejo caído com um grande ferimento na garganta, ou com o rosto inchado e enegrecido. Cheguei a uma estranha situação, tenho sérios problemas. Que se pode fazer? Como se vai conseguir dinheiro? Bessie tentou persuadi-la a tomar uma bebida sedativa; conseguiu-o com dificuldade. Pouco depois, a Sra. Reed se recompôs mais e afundou numa madorna. Então, eu a deixei. Passaram-se mais de dez dias antes que eu tivesse outra conversa com ela. Continuava ou delirante ou letárgica; e o médico proibiu tudo que pudesse excitá-la dolorosamente. Enquanto isso, eu me havia o melhor que podia com Georgiana e Eliza. Elas foram muito frias, na verdade, a princípio. Eliza ficava o dia todo sentada a costurar, ler ou escrever, e mal dizia uma palavra a mim ou à irmã. Georgiana falava tolices ao seu canário toda hora, e não me dava atenção. Mas eu decidi não parecer à cata de ocupação ou diversão; tinha trazido meu material de pintura, e isso me serviu para ambas as coisas. Armada com uma caixa de lápis e algumas folhas de papel, sentava-me numa cadeira longe delas, perto da janela, e ocupavame em desenhar vinhetas de fantasia, representando qualquer cena que por acaso se formasse no momento no sempre cambiante caleidoscópio de minha imaginação: uma nesga de mar entre dois penhascos; a lua nascendo, com um barco atravessando o 286

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seu disco; um grupo de juncos e caniços, e uma cabeça de náiade coroada com flores de lótus, erguendo-se do meio deles; um duende sentado num ninho de pardal, sob uma guirlanda de flores de espinheiro. Certa manhã, pus-me a desenhar um rosto: que tipo de rosto ia ser, não me importava nem eu sabia. Peguei um lápis negro mole, fiz-lhe uma ponta grossa e comecei a trabalhar. Em breve, havia riscado no papel uma testa larga e pontuda, e o contorno inferior quadrado de um rosto; esse contorno causou-me satisfação; meus dedos foram em frente ativamente, enchendo-o de feições. Sob aquela testa, devia-se traçar sobrancelhas horizontais fortemente acentuadas; depois vinha, naturalmente, um nariz bem definido, com uma crista reta e narinas amplas; em seguida, uma boca de aparência flexível, de modo nenhum estreita; um queixo firme, com uma nítida fenda no meio; evidentemente, eram necessárias umas suíças negras, e um cabelo negro, com tufos nas têmporas e ondulado acima da testa. Agora, os olhos; deixara-os por último, porque exigiam o trabalho mais cuidadoso. Desenheios grandes; dei-lhes boa forma; tracei os cílios longos e negros; as íris lustrosas e grandes. “Está bom! Mas não é a coisa exata”, pensei, examinando o efeito. “Precisa de mais força e espírito.” E tornei as sombras mais escuras, para que as luminosidades pudessem sobressair mais brilhantes... um ou dois toques felizes asseguraram o êxito. Lá estava, tinha um rosto amigo sob meu olhar, e que importava que as duas jovens damas me ignorassem? Olhei-o; sorri com a visível semelhança, estava absorta e contente. — É um retrato de alguém que você conhece? — perguntou Eliza, que se aproximara de mim sem ser notada. Respondi que era apenas uma cabeça desenhada de imaginação, e apressei-me a cobri-la com outras folhas. É claro que mentia; era, de fato, uma fiel imagem do Sr. Rochester. Mas que significava isso para cia, ou para qualquer outra pessoa além de mim mesma? Georgiana também se aproximou para olhar. Os outros desenhos muito lhe agradaram, mas ela chamou a cabeça de “um homem feio”. Ambas pareceram surpresas com o meu talento. Ofereci-me para desenhar seus retratos; e as duas, uma de cada vez, posaram para Jane Eyre

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um desenho a lápis. Depois Georgiana mostrou seu álbum. Prometi contribuir com uma aquarela; isso a pôs de bom humor. Sugeriu um passeio pelo jardim. Ainda não estávamos lá fora duas horas, e já nos achávamos em uma profunda conversa confidencial: ela me presenteara com uma descrição do brilhante inverno que passara em Londres duas temporadas atrás — da admiração que causara — da atenção que recebera; e obtive até mesmo insinuações da aristocrática conquista que ela fizera. Com o correr da tarde e da noite, essas insinuações se ampliaram; várias entrevistas românticas foram narradas, e cenas sentimentais representadas; e, em suma, um volume de um romance sobre a vida mundana foi naquele dia improvisado por ela para mim. A comunicação renovou-se dia a dia, sempre sobre o mesmo tema — ela mesma, seus amores e sofrimentos. Era estranho que jamais se referisse à doença da mãe, à morte do irmão ou ao sombrio estado atual das perspectivas da família. Parecia ter o espírito inteiramente tomado por reminiscências de prazeres passados, e aspirações de dissipações futuras. Passava cerca de cinco minutos, cada dia, no quarto de doente da mãe, e nunca mais que isso. Eliza ainda falava pouco, evidentemente; não tinha tempo para falar. Nunca vi uma pessoa mais ocupada do que ela parecia; contudo, era difícil dizer o que fazia, ou antes, descobrir qualquer resultado de sua diligência. Tinha um despertador para acordála cedo. Não sei como se ocupava antes do desjejum, mas após essa refeição dividia seu tempo em períodos regulares, e cada hora tinha sua tarefa marcada. Três vezes por dia, estudava um livrinho, que descobri, ao examinar, ser um Livro de Preces. Perguntei-lhe certa vez qual era a grande atração daquele volume, e ela disse: “A Rubrica”. Dedicava três horas a pespontar, com linha dourada, a bainha de um pedaço quadrado de pano vermelho, quase grande o bastante para um tapete. Em resposta às minhas perguntas sobre o uso desse artigo, informou-me que era uma toalha para cobrir o altar de uma nova igreja construída recentemente perto de Gateshead. Dedicava duas horas ao seu diário; duas a trabalhar sozinha na horta; e uma a pôr em dia suas contas. Parecia não precisar de companhia ou de conversas. 288

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Creio que era feliz à sua maneira; essa rotina bastava-lhe; e nada a aborrecia tanto como a ocorrência de qualquer incidente que a obrigasse a variar essa regularidade de relógio. Disse-me uma noite, quando mais disposta a ser comunicativa que de hábito, que a conduta de John, e a ameaça de ruína da família, tinham sido uma fonte de profunda aflição para ela; mas já acalmara a mente e tomara sua decisão. Tivera o cuidado de assegurar sua própria fortuna; e quando a mãe morresse — e era totalmente improvável, observava muito tranqüila, que se recuperasse ou resistisse por muito tempo — ela executaria um projeto havia muito acalentado: buscar um retiro onde os hábitos de pontualidade estivessem permanentemente a salvo de distúrbios, e pôr barreiras entre si mesma e o mundo frívolo. Perguntei se Georgiana a acompanharia. Decerto que não. Georgiana e ela nada tinham em comum, nunca tinham tido. Ela não toleraria a companhia da outra sob nenhuma hipótese. Georgiana deveria seguir seu próprio caminho; e ela, Eliza, seguiria o seu. Georgiana, quando não estava aliviando o coração comigo, passava a maior parte do tempo reclinada no sofá, queixando-se do tédio da casa e desejando repetidas vezes que sua Tia Gibson lhe enviasse um convite para ir à cidade. — Seria tão melhor — dizia — se pudesse sair dali apenas por um mês ou dois, até que tudo estivesse acabado. Não perguntei o que queria dizer com “tudo estar acabado”, mas suponho que se referia ao esperado falecimento da mãe e aos tristes ritos funerários subseqüentes. Eliza em geral não tomava mais conhecimento da indolência da irmã do que se tais murmúrios e anseios não se fizessem à sua frente. Um dia, no entanto, ao pôr de lado seu livro de contabilidade e desdobrar seu bordado, ela reagiu de repente da seguinte maneira: — Georgiana, um animal mais vaidoso e mais absurdo que você jamais teve permissão para estorvar a terra. Você não tinha o direito de nascer; pois não faz nenhum uso da vida. Em vez de viver para si, em si e consigo, como deve fazer um ser racional, busca apenas ligar sua fraqueza à força de alguma outra pessoa: se não pode Jane Eyre

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encontrar ninguém disposto a carregar uma coisa tão gorda, fraca e inchada, grita que é maltratada, negligenciada, infeliz. Também, a existência deve ser para você um cenário de contínua mudança e excitamento, pois senão o mundo é uma masmorra; tem de ser admirada, tem de ser cortejada, tem de ser lisonjeada... tem de ter música, dança e companhia... senão enlanguesce, definha. Não tem senso para imaginar um sistema que a torne independente de todos os esforços, e de todas as vontades, além dos seus próprios? Tome um dia; divida-o em partes; a cada parte atribua uma tarefa, não deixe nem um quarto de hora, dez minutos, cinco minutos, ociosos — inclua tudo; faça cada coisa de vez e com método, com rígida regularidade. O dia acabará antes que você perceba que começou; e você não estará em dívida com ninguém por ajudá-la a livrar-se de um momento vago; não precisará buscar a companhia de ninguém, nem a conversa, a simpatia, a tolerância de ninguém; terá vivido, em suma, como um ser independente deve viver. Aceite este conselho, o primeiro e último que lhe dou; e não precisará de mim e de ninguém mais, aconteça o que acontecer. Ignore-o... continue como até agora, ansiando, choramingando e mandriando... e sofra as conseqüências de sua idiotice, por mais ruins e insuportáveis que sejam. Digo-lhe isto claramente, e ouça, pois embora eu não vá repetir mais o que estou para dizer, agirei decididamente assim. Após a morte de minha mãe, lavo minhas mãos de você: a partir do dia que o caixão dela for levado para a cripta da igreja de Gateshead, você e eu estaremos tão separadas quanto se nunca tivéssemos conhecido uma à outra. Não deve pensar que, por termos nascido casualmente dos mesmos pais, vou tolerar que você me prenda mesmo que seja pela mais frágil reivindicação; posso dizer-lhe isto: se toda a raça humana, com exceção de nós, desaparecesse, e só nós duas restássemos sobre a terra, eu a deixaria no Velho Mundo e me transportaria para o Novo. Fechou os lábios. — Podia ter-se poupado o trabalho de lançar essa tirada — respondeu Georgiana. — Todo mundo sabe que você é a criatura mais egoísta e cruel que existe; e eu conheço o seu ódio despeitado 290

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contra mim: tive uma amostra dele antes, no truque que você me pregou com Lorde Edwin Vere: não podia ver-me elevar-me acima de você, ter um título, ser recebida em círculos onde você não ousa mostrar o rosto, e por isso bancou a espiã e delatora, e arruinou minhas perspectivas para sempre. — Georgiana tirou o lenço e ficou a assoar o nariz durante uma hora, após isso; Eliza continuou sentada, fria, impassível e sempre industriosa. É verdade, há quem faça pouco dos sentimentos generosos; mas ali estavam duas naturezas tornadas, uma intoleravelmente acre, a outra desprezivelmente insípida, pela falta de tais sentimentos. O sentimento indiscriminado é algo intragável, sem dúvida; mas a sensatez não temperada pelo sentimento é demasiado amarga e áspera para a deglutição humana. Era uma tarde de chuva e vento; Georgiana adormecera no sofá, lendo um romance; Eliza saíra, para assistir ao serviço de um santo na nova igreja — pois em questão de religião era uma rígida formalista; nenhum tempo impedia nunca o cumprimento pontual do que ela considerava seus deveres de devota; com sol ou com chuva, ia à igreja três vezes todo domingo, e tantas vezes durante a semana quantas houvesse preces. Decidi subir e ver como ia a agonizante, que ficava lá deitada quase sem assistência: os próprios criados só lhe davam atenção de vez em quando; a enfermeira contratada, sendo pouco vigiada, escapulia para fora do quarto sempre que podia. Bessie era fiel; mas tinha sua própria família para cuidar, e só ocasionalmente podia vir à mansão. Encontrei o quarto da doente abandonado, como esperava: não havia sinal da enfermeira; a paciente estava deitada imóvel e aparentemente letárgica, o rosto lívido afundado nos travesseiros: o fogo morria na lareira. Renovei o combustível, rearrumei os lençóis da cama, olhei enquanto isso àquela que não podia olhar-me, e depois me afastei para a janela. A chuva batia fortemente contra as vidraças, o vento soprava tempestuoso: “Aqui jaz uma”, eu pensei, “que logo estará além da guerra dos elementos terrestres. Para onde voará esse espírito— que agora luta para deixar sua morada material — quando finalmente se libertar?” Jane Eyre

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Ponderando sobre o grande mistério, pensei em Helen Burns, lembrei-me de suas palavras ao morrer — sua fé — sua doutrina da igualdade das almas desencarnadas. Ainda ouvia em pensamentos sua saudosa voz — ainda via na imaginação aquela aspecto pálido e espiritual, aquele rosto desgastado e aquele olhar sublime, ali deitada em seu plácido leito de morte e murmurando o anseio de ser devolvida ao seio do divino Pai — quando uma voz débil murmurou da cama atrás de mim: — Quem é? Eu sabia que a Sra. Reed não falava havia dias; estava se recuperando? Fui até ela. — Sou eu, Tia Reed. — Eu... quem? — foi sua resposta. — Quem é você? — olhandome com uma espécie de alarme, mas ainda não desvairada. — Você me é inteiramente estranha... onde está Bessie? — No alojamento do porteiro, tia. — Tia! — ela repetiu. — Quem me chama de tia? Você não é uma das Gibson; e no entanto eu a conheço... esse rosto, os olhos e a testa me são bastante familiares: você é como... ora, se parece com Jane Eyre! Eu nada disse: temia causar algum choque declarando minha identidade. — Mas — ela disse — receio que seja um engano, meus pensamentos me iludem. Eu queria ver Jane Eyre, e imagino uma imagem onde não existe nenhuma: além disso, ela deve ter mudado em oito anos. — Assegurei-lhe então que eu era a pessoa que ela supunha e desejava que fosse, e vendo que me entendia, e que seus sentidos estavam inteiramente atilados, expliquei-lhe que Bessie mandara o marido buscar-me em Thornfield. — Estou muito doente, você sabe — ela disse pouco tempo depois. — Estava tentando me virar há pouco, e descobri que não posso mover um membro. É bom que possa aliviar a mente antes de morrer: aquilo de que fazemos pouco caso quando estamos sãos pesa sobre nós numa hora como é a atual para mim. A enfermeira está aí? Ou não há mais ninguém no quarto além de você? Assegurei-lhe que estávamos sós. 292

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— Bem, eu lhe fiz mal duas vezes, o que agora lamento. Uma foi quando quebrei a promessa que fiz a meu marido de criá-la como minha filha; a outra...— parou. — Afinal, talvez não tenha grande importância — murmurou para si mesma. — E depois, eu posso ficar melhor; e humilhar-me desta maneira é muito penoso. Fez um esforço para mudar de posição, mas não conseguiu; seu rosto mudou; ela parecia experimentar alguma sensação interna — precursora, talvez, da última pontada. — Bem, tenho de acabar com isso. A eternidade está diante de mim, é melhor dizer a ela. Vá à minha mala de toalete, abra-a e retire uma carta que encontrará ali. Obedeci às suas instruções. — Leia a carta — ela disse. Era curta, e nos seguintes termos: Madame, Quer ter a bondade de enviar-me o endereço de minha sobrinha, Jane Eyre, e dizer-me como está ela? Pretendo escrever brevemente a ela e dizer-lhe que venha ter comigo em Madeira. A Providência abençoou meus esforços para conseguir independência, e como sou solteiro e sem filhos, desejo adotá-la durante minha vida, e legar-lhe após minha morte tudo que possa deixar. Sou, Madame, etc. etc, John Eyre, Madeira. Datava de três anos atrás. — Por que eu nunca soube disso? — perguntei. — Porque eu a detestava tão fixa e totalmente, que jamais daria uma ajuda para elevá-la à prosperidade. Não podia esquecer de sua conduta comigo, Jane.. a fúria com a qual uma vez se voltou contra mim; o tom com que declarou que me detestava mais que a qualquer pessoa no mundo; a aparência e a voz nada infantis com que afirmou que até a idéia de mim a nauseava, e que eu a tratara com miserável crueldade. Não podia esquecer minhas sensações quando você saltou assim e despejou o veneno de sua Jane Eyre

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mente: senti medo, como se um animal que eu tivesse golpeado ou empurrado erguesse o olhar para mim com olhos humanos e me maldissesse em voz humana. Traga-me um pouco d’água! Oh, depressa! — Cara Sra. Reed — eu disse, ao oferecer-lhe o gole que pedira — não pense mais em nada disso, afaste tudo de sua mente. Perdoe-me por minha linguagem apaixonada; eu era uma criança então; passaram-se oito, nove anos desde então. Ela não deu atenção a nada do que eu disse; mas quando provou a água e suspirou, prosseguiu: — Digo-lhe que não podia esquecer; e me vinguei, pois não podia suportar que você fosse adotada por seu tio e colocada em condições de independência e conforto. Escrevi a ele; disse que sentia por sua decepção, mas Jane Eyre estava morta; morrera de tifo em Lowood. Agora aja como quiser, escreva e contradiga minha afirmação... denuncie minha falsidade assim que quiser. Você nasceu, eu acho, para ser meu tormento: minha última hora é angustiada pela recordação de um ato que, não fosse por você, eu jamais teria sido tentada a cometer. — Se eu pudesse convencê-la a não pensar mais nisso, tia, e a encarar-me com bondade e perdão... — Você tem uma natureza muito má — ela disse — uma natureza que até hoje não consegui entender: como durante nove anos conseguiu ser paciente e tolerante sob todos os tratamentos, e no décimo irrompeu em fogo e violência, é algo que jamais poderei compreender. — Minha natureza não é tão má quanto a senhora pensa. Eu sou apaixonada, mas não vingativa. Muitas vezes, em criança, eu teria ficado satisfeita por amá-la, se a senhora me tivesse deixado, e anseio por me reconciliar com a senhora agora: beije-me, tia. Aproximei a face de seus lábios: ela não quis tocá-la. Disse que eu a abafava, curvando-me sobre a cama, e tornou a pedir água. Quando a larguei — pois a tinha erguido e segurado nos braços enquanto ela bebia — cobri sua mão gelada e úmida com a minha: os dedos frágeis encolheram-se ao meu toque — os olhos vítreos evitaram os meus. 294

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— Ame-me, então, ou me odeie, como quiser — eu disse afinal. — A senhora tem meu pleno e livre perdão: agora peça o de Deus e descanse em paz. Pobre sofredora! Era demasiado tarde para que ela fizesse então o esforço para mudar seu habitual esquema mental: viva, sempre me odiara — agonizante, tinha de me odiar ainda. A enfermeira entrou, seguida por Bessie. Ainda me demorei mais meia hora, esperando ver algum sinal de amizade, mas ela não deu nenhum. Recaía rapidamente no estupor; e não recuperou a consciência de novo: morreu às doze horas daquela noite. Eu não estava presente para fechar-lhe os olhos; tampouco estava qualquer uma das filhas. Vieram dizer-nos na manhã seguinte que tudo terminara. A essa altura, ela já estava exposta. Eliza e eu fomos olhá-la, Georgiana, que irrompera num choro alto, disse que não ousava ir. Lá estava estendida a figura outrora robusta e ativa de Sarah Reed, rígida e imóvel; os olhos pétreos cobertos pelas frias pálpebras; a testa e os traços fortes ainda exibiam a impressão de sua alma inexorável. Estranho e solene objeto era aquele corpo para mim. Olhei-o com tristeza e dor; não inspirava nada suave, nada doce, nada piedoso ou esperançoso; só uma áspera angústia pelas misérias dela, — não pela minha perda — e uma consternação sombria e sem lágrimas diante da coisa terrível que era a morte daquela forma. Eliza examinou a mãe calmamente. Após um silêncio de alguns minutos, observou: — Com a constituição dela, devia ter vivido até uma boa idade; sua vida foi abreviada por problemas. — E então um espasmo contorceu-lhe a boca por um instante: quando passou, ela se virou e deixou o quarto, e o mesmo fiz eu. Nenhuma de nós derramara uma lágrima.

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CAPÍTULO 22

O

Sr. Roch es ter me dera ap e n a s u ma s e ma n a d e l i cenç a; mas p as s ou-s e um mê s a té e u d e ix a r Gat es h ead. Eu queria p artir ime d ia ta me n te a p ós o f u ner a l , mas Georgiana me pediu que ficasse até ela viajar para Londres, onde fora agora afinal convidada pelo tio, o Sr. Gibson, que viera orientar o enterro da irmã e acertar os assuntos da família. Georgiana disse que temia ser deixada só com Eliza; dela, não recebia nem simpatia na tristeza, nem apoio nos temores, nem ajuda nos preparativos; assim, suportei como pude seus choros de pessoa fraca e suas lamentações egoístas, e fiz o melhor que pude costurando para ela e pondo seus vestidos nas malas. É verdade que, enquanto eu trabalhava, ela não fazia nada; e eu pensava comigo mesma: “Se fôssemos viver sempre juntas, prima, começaríamos as coisas num pé diferente. Eu não me resignaria brandamente a ser a parte tolerante; designaria sua parte do trabalho, e a obrigaria a realizá-la; senão, ficaria sem fazer; insistiria também em que você guardasse parte dessas lamentações arrastadas, não muito sinceras, para si mesma. Apenas porque nossa relação é bastante transitória, e vem numa época particularmente triste, é que consinto em tolerá-la de modo tão paciente e flexível.” Afinal embarquei Georgiana; mas então foi a vez de Eliza me pedir que ficasse mais uma semana. Disse que seus planos lhe exigiam todo o tempo e atenção; estava para partir com destino 296

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a algum local ignorado; e ficava o dia todo em seu quarto, com a porta fechada por dentro, enchendo baús, esvaziando gavetas, queimando papéis, sem se comunicar com ninguém. Desejava que eu cuidasse da casa, que recebesse os visitantes e respondesse às cartas de condolências. Certa manhã, ela me disse que eu estava livre. — E — acrescentou — sou-lhe grata por seus valiosos serviços e sua conduta discreta! Há certa diferença entre viver com alguém como você e com Georgiana; você faz sua parte na vida, e não se encosta em ninguém. Amanhã — continuou— eu parto para o Continente. Vou viver numa casa religiosa perto de Lisle... um convento, pode-se dizer; ali ficarei tranqüila, sem ninguém me molestar. Vou me dedicar por algum tempo ao exame dos dogmas católicos romanos, e a um cuidadoso estudo do funcionamento do sistema deles; se achar que c, como já estou meio desconfiada de que é, o mais bem calculado para fazerem-se decentemente e em ordem todas as coisas, abraçarei os princípios de Roma e provavelmente tomarei o véu. Eu nem manifestei surpresa diante dessa resolução nem tentei dissuadi-la. “A vocação lhe assentará como uma luva”, pensei; “pode fazer-lhe muito bem”. Quando nos despedimos, ela disse: — Adeus, prima Jane Eyre, desejo-lhe felicidade, você tem algum senso. Eu respondi: — Você também não deixa de ter, prima Eliza; mas suponho que o que tem, dentro de mais um ano estará emparedado vivo num convento francês. Contudo, não é de minha conta, e se isso lhe serve... não me importo muito. — Você está certa — ela disse, e com estas palavras cada uma seguiu seu caminho distinto. Como não terei ocasião de voltar a referir-me a ela ou à sua irmã, posso muito bem mencionar aqui que Georgiana fez um vantajoso casamento com um homem rico e decadente, da moda; e que Eliza realmente tomou o véu, e é hoje Superiora do convento onde passou o período de noviciado, e ao qual legou sua fortuna. Eu não sabia como as pessoas se sentem quando voltam à casa, Jane Eyre

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após uma ausência, longa ou curta: nunca experimentara essa sensação. Sabia o que era voltar a Gateshead, quando criança, após uma longa caminhada — para ser repreendida por parecer fria ou sombria; e depois, o que era voltar da igreja para Lowood — para ansiar por uma refeição abundante e um bom fogo, e não conseguir nenhuma das duas coisas. Nenhuma dessas voltas era muito agradável ou desejável; nenhum magneto me atraía para um determinado ponto, aumentando sua força de atração à medida que me aproximava. A volta a Thornfield, eu ainda estava por experimentar. Minha viagem pareceu-me tediosa — muito tediosa, cinqüenta milhas num dia, uma noite passada numa estalagem; cinqüenta milhas no dia seguinte. Durante as primeiras doze horas, pensei na Sra. Reed em seus últimos momentos; via seu rosto desfigurado e descorado, e ouvia sua voz estranhamente alterada. Pensava no dia do funeral, o caixão, o carro fúnebre, a negra fila de rendeiros e criados — pequeno era o número dos parentes — a abóbada escancarada, a igreja silenciosa, o serviço solene. Depois pensei em Eliza e Georgiana; via uma como o centro de atração de um salão de baile, e a outra como a interna de uma cela de convento; e demorava-me e analisava as diferentes peculiaridades pessoais e de caráter de cada uma. A chegada da noite, na grande cidade de..., dispersou esses pensamentos, e deu-lhes outro curso; deitada em minha cama de viajante, deixei a lembrança pela previsão. Voltava a Thornfield, mas quanto tempo ficaria lá? Não muito; disso tinha certeza. Tivera notícias da Sra. Fairfax no intervalo de minha ausência; o grupo da mansão se dispersara; o Sr. Rochester partira para Londres havia três semanas, mas esperava-se que voltasse dentro de uma quinzena. A Sra. Fairfax supunha que ele fora fazer arranjos para seu casamento, pois falara em comprar uma nova carruagem: ela dizia que a idéia de ele casar-se com a Srta. Ingram ainda lhe parecia estranha; mas pelo que todo mundo dizia, e pelo que ela própria vira, não podia mais duvidar de que o acontecimento teria lugar dentro de pouco tempo. “A senhora seria estranhamente incrédula se duvidasse”, foi meu comentário mental. “Eu não duvido.” 298

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Seguia-se a questão: “Para aonde eu iria?” Sonhei com a Srta. Ingram a noite toda: num vivido sonho matinal, vi-a fechando os portões de Gateshead em minha cara e apontando-me outra estrada; e o Sr. Rochester apenas olhava, com os braços cruzados — sorrindo sardonicamente, ao que parecia, tanto de mim quanto dela. Eu não comunicara à Sra. Fairfax o dia exato de minha chegada; pois não queria que um carro ou carruagem viesse me esperar em Millcote. Dispunha-me a percorrer a distância calmamente, sozinha; e muito calmamente, após deixar minha mala aos cuidados do moço da estrebaria, esgueirei-me da George Inn, cerca de seis da tarde de um dia de junho, e tomei a velha estrada para Thornfield, uma estrada que passava sobretudo por campos, e era àquela hora pouco freqüentada. Não era uma brilhante ou esplêndida noite de verão, embora estivesse bonita e suave; os cortadores de feno trabalhavam ao longo de toda a estrada; e o céu, embora tivesse nuvens, prometia bom tempo à frente; o azul — onde se via o azul— era suave e parado, e as camadas de nuvens, altas e finas. Também o oeste estava quente, nenhum brilho aquoso o esfriava — era como se houvesse um fogo aceso, um altar ardendo por trás da cortina de marmóreo vapor, e pelas aberturas refulgisse uma dourada vermelhidão. Sentia-me satisfeita à medida que a estrada se encurtava à minha frente, tão satisfeita, que parei uma vez para perguntarme o que significava aquela alegria, e para lembrar à razão que não era à minha casa que eu ia, ou a um lugar de repouso permanente, ou a um lugar onde amigos bondosos ansiassem por mim e aguardassem minha chegada. “A Sra. Fairfax lhe dará um tranqüilo sorriso de acolhida, sem dúvida”, disse a mim mesma; “e a pequena Adèle baterá palmas e pulará para vê-la, mas você sabe muito bem que está pensando em outro que não elas, e que ele não está pensando em você”. Mas que existe de mais obstinado que a juventude? E de tão cego quanto a inexperiência? Estas afirmavam que já era suficiente prazer ter o privilégio de tornar a olhar o Sr. Rochester, quer ele Jane Eyre

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me olhasse ou não; e acrescentavam: “Depressa! Depressa! Fique com ele enquanto pode: mais uns poucos dias ou semanas, no máximo, e será separada dele para sempre!” E então estrangulei uma recém-nascida agonia — uma coisa deformada, que eu não podia convencer-me a aceitar e criar — e corri. Estão preparando o feno, também, nos campos de Thornfield, ou antes, os trabalhadores deixam o trabalho e voltam para casa com seus ancinhos nos ombros, agora, na hora em que chego. Falta-me atravessar apenas um ou dois campos, e depois cruzarei a estrada e chegarei aos portões. Como as sebes estão cheias de rosas! Mas não tenho tempo de colher nenhuma; quero estar em casa. Passei por uma sarça alta, que lança galhos folhudos e floridos por sobre a estrada; vejo o estreito passadiço por cima da cerca com seus degraus de pedra; e vejo — o Sr. Rochester ali sentado, com um livro e um lápis nas mãos; está escrevendo. Bem, não é um fantasma; contudo, cada um de meus nervos se desata; por um momento, perco todo domínio. Que significa isso? Eu não pensava que tremeria assim quando o visse, ou que perderia a voz e o poder de me movimentar em sua presença. Voltarei tão logo consiga mexer-me: não preciso dar um espetáculo. Conheço outro caminho para a casa. Mas não importava que conhecesse até vinte caminhos; pois ele me vira. — Alô! — ele grita; e depõe o livro e o lápis. — Aí está você! Venha, por favor. Suponho que me aproximo; embora, de que modo, não sei; mal tendo consciência de meus movimentos, e preocupada apenas em parecer calma; e, acima de tudo, em controlar os músculos móveis de meu rosto — que sinto se rebelarem insolentemente contra minha vontade, lutando para manifestar o que decidi ocultar. Mas estou usando um véu — e ele está abaixado: posso agir ainda de modo a me conduzir com decente compostura. — Essa é Jane Eyre? Está vindo de Millcote, e a pé? Sim... é bem um de seus truques, não mandar buscar uma carruagem, e vir caminhando por ruas e estradas como um mortal comum, para se esgueirar pela vizinhança de sua casa ao anoitecer, como se 300

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fosse um sonho ou uma sombra. Que diabos fez consigo mesma este último mês? — Estive com minha tia, que morreu. — Uma verdadeira resposta de Jano! Que bons anjos me guardem! Ela vem do outro mundo... da morada dos mortos; e me diz isso ao me encontrar aqui sozinho no crepúsculo! Se eu me atrevesse, tocaria em você, para ver se é concreta ou uma sombra, sua duende! Mas seria o mesmo que tentar segurar um ignis fatuus azul num pântano. Gazeteira! Gazeteira! — acrescentou, após uma curta pausa. — Longe de mim por todo um mês, e me esquecendo inteiramente, juro. Eu sabia que teria prazer em encontrar novamente o meu amo; mesmo abatida pelo temor de que logo deixasse de ser meu amo, e pelo conhecimento de que nada representava para ele: mas havia sempre no Sr. Rochester (pelo menos, eu assim pensava) uma tal abundância do poder de transmitir felicidade, que provar mesmo as migalhas que ele espalhava aos pássaros perdidos e estranhos como eu era um agradável banquete. Suas últimas palavras foram bálsamo, pareciam dar a entender que lhe importava alguma coisa se eu o esquecia ou não. E falara de Thornfield como minha casa — quem dera que fosse! Ele não abandonou o passadiço, e eu não gostaria de pedir para passar. Logo perguntei se não fora a Londres. — Sim; suponho que descobriu isso por uma visão. — A Sra. Fairfax me disse, numa carta. — E lhe informou do que fui fazer? — Oh, sim, senhor! Todo mundo sabia de sua missão. — Você deve ver a carruagem, Jane, e dizer-me se não acha que ela combinará exatamente com a Sra. Rochester; e se ela não ficará parecendo com a Rainha Boadicea, reclinada naquelas almofadas púrpura. Eu desejaria, Jane, ser um pouco melhor adaptado ao casamento com ela externamente. Diga-me, agora, já que é uma fada... não pode me dar um feitiço, um filtro, ou alguma coisa desse tipo, para tornar-me um homem bonito? — Isso está além do poder de minha mágica, senhor. — E, em pensamento, acrescentei: “Um olho amante é todo o encanto de Jane Eyre

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que o senhor precisa; para um olho assim, o senhor já é bonito o bastante; ou antes, a sua severidade tem um poder que vai além da beleza.” O Sr. Rochester tinha às vezes lido meus pensamentos não expressos com um tino que eu não compreendia: no caso presente, não tomou conhecimento de minha resposta vocal; mas sorriu-me com um certo sorriso que tinha, e que só usava em raras ocasiões. Parecia julgá-lo bom demais para fins comuns, era o verdadeiro sol do sentimento — e ele o lançava sobre mim agora. — Passe, Jane — disse, abrindo espaço para que eu atravessasse o passadiço. — Suba para a casa, e descanse seus cansados e errantes pezinhos na soleira de um amigo. A única coisa que eu podia fazer era obedecer-lhe em silêncio: não havia necessidade de maiores colóquios. Passei pelo passadiço sem uma palavra, e pretendia deixá-lo calmamente. Mas um impulso me deteve — uma força me fez virar-me. Eu disse — ou alguma coisa dentro de mim disse por mim, e a despeito de mim: — Obrigada, Sr. Rochester, por sua grande bondade. Sintome estranhamente satisfeita por voltar de novo ao senhor; e onde quer que o senhor esteja, aí será minha casa... minha única casa. Parti tão depressa, que mesmo ele dificilmente poderia terme alcançado, se houvesse tentado. A pequena Adèle ficou meio doida de alegria quando me viu. A Sra. Fairfax recebeu-me como sua simples amizade costumeira. Leah sorriu, e até Sophie me deu um “Bon soir” alegre. Aquilo foi muito agradável; não há felicidade como a de ser amada pelas criaturas nossas irmãs, e sentir que nossa presença é um acréscimo ao conforto delas. Naquela noite, fechei decididamente os olhos para o futuro, tapei os ouvidos contra a voz que continuava me avisando da separação próxima e da dor que viria. Quando terminou o chá, depois de a Sra. Fairfax ter pegado seu tricô, de eu ter tomado um banquinho baixo junto dela, e Adèle, ajoelhada no tapete, terse aninhado perto de mim, e quando uma sensação de afeição parecia cercar-nos com uma aura de dourada paz, fiz uma prece silenciosa para que não nos separássemos tão cedo; mas quando, 302

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estando nós todas assim sentadas, o Sr. Rochester entrou sem se fazer anunciar, e, olhando-nos, pareceu sentir prazer com o espetáculo de um grupo tão amigável — quando disse que a velha dama estava em paz agora, por ter conseguido sua filha adotiva de volta, e acrescentou que Adèle estava “prête à croquer sa petite mamem Anglaise”* — aventurei-me a esperar que ele, mes mo após seu casamento, nos mantivesse juntas em alguma parte, sob o manto de sua proteção, e não inteiramente exiladas do sol de sua presença. Seguiu-se à minha volta a Thornfield Hall uma quinzena de dúbia calma. Não se dizia nada sobre o casamento do patrão, e eu não via nenhum preparativo em andamento para tal acontecimento. Quase todo dia eu perguntava à Sra. Fairfax se soubera de alguma coisa decisiva: sua resposta era sempre negativa. Uma vez, ela disse que fizera a pergunta ao Sr. Rochester, sobre quando ia trazer sua noiva para casa; mas ele lhe respondera apenas com uma piada e um de seus olhares esquisitos, e ela não soubera o que pensar. Uma coisa me surpreendia especialmente: era que não havia viagens de um lado para outro, não havia visitas a Ingram Park: evidentemente, isso ficava a vinte milhas de distância, nas fronteiras de outro condado; mas que era essa distância para um amante ardente? Para um cavaleiro tão treinado e incansável como o Sr. Rochester, seria apenas uma manhã de cavalgada. Comecei a alimentar esperanças que não tinha o direito de conceber: de que o casamento fora desfeito; que os rumores tinham sido errados; que um ou ambos os lados tinham mudado de idéia. Olhava o rosto de meu amo, para ver se estava triste ou zangado; mas não podia lembrar um tempo em que estivesse tão uniformemente desprovido de nuvens ou maus sentimentos. Se, nos momentos que eu e minha pupila passávamos com ele, me faltava a coragem e eu afundava em inevitável abatimento, ele se tornava até alegre. Jamais tinha me chamado com mais freqüência à sua presença; jamais fora tão bondoso comigo quando me achava ali— e, ai!, jamais o tinha eu amado tanto.

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CAPÍTULO 23

U

m esplêndido solstício de verão refulgia sobre a Inglaterra: céus tão puros, sóis tão radiantes quanto os que se sucediam em longa série, quase nunca favoreciam nossa terra sombria, mesmo isoladamente. Era como se dias italianos tivessem vindo do sul, como um bando de pássaros gloriosos, e pousassem para descansar nos rochedos de Albion. O feno fora todo armazenado; as estradas estavam brancas e crestadas; as árvores, exuberantemente verdes; sebes e bosques, cobertos de folhagens e de uma cor profunda, faziam um belo contraste com a coloração ensolarada dos campos ceifados entre eles. Na véspera do solstício, Adèle, cansada de colher morangos silvestres em Hay Lane durante metade do dia, fora para a cama com o sol. Vi-a cair no sono, e quando a deixei, fui para o jardim. Era a mais doce hora das vinte e quatro do dia: “um dia que seu próprio fogo ardente consumira”, e o sereno caía frio nos prados ofegantes e nos cumes crestados. Nos locais onde o sol se pusera com simples imponência — sem a pompa das nuvens — espalhara um púrpura solene, ardente com a luminosidade do rubi e da chama da fornalha num ponto, num pico de montanha, e estendendo-se alta e imensa, cada vez mais suave, por metade do céu. O leste tinha seu próprio encanto de belo e profundo azul, e sua própria gema modesta, uma estrela nascente e solitária; logo ostentaria a lua; mas ela ainda estava abaixo do horizonte. 304

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Caminhei um pouco sobre o calçamento; mas um odor sutil e conhecido — o de um charuto — escapava por uma janela; vi o caixilho da biblioteca entreaberto; sabia que podia ser observada dali; assim, afastei-me para o pomar. Não havia recanto na propriedade mais abrigado e mais paradisíaco: um muro muito alto ocultava-o do pátio, de um lado; do outro, uma alameda de faias isolava-o do gramado. No fundo, havia uma cerca caída, a única separação dos campos solitários: um sendeiro serpeante, ladeado por loureiros e terminando num gigantesco castanheiro, cercado na base por um banco, descia até a cerca. Ali, podia-se vaguear sem ser visto. Enquanto caía aquele sereno, reinava aquele silêncio e aquele crepúsculo se adensava, eu sentia que poderia habitar aquele abrigo para sempre. Mas enquanto percorro as leiras de flores e frutos na parte de cima do cercado, atraída para lá pela luz que a lua agora nascente lança nesse trecho mais aberto, meus passos se detêm — não devido a um som, não devido a uma visão, mas uma, vez mais por uma fragrância de aviso. Rosas amarelas e flores do sul, jasmins, cravos e rosas há muito fazem sua vespertina oferenda de incenso: esse novo odor não é de arbusto nem flor: é — conheço-o bem — é o charuto do Sr. Rochester. Olho em redor e escuto. Vejo árvores carregadas de frutos maduros. Ouço um rouxinol cantar num bosque a uma meia milha: não se vê forma alguma, não se ouve passo algum; mas o perfume aumenta, tenho de escapar. Encaminho-me para a portinhola que leva ao matagal, e vejo o Sr. Rochester entrando. Afasto-me para dentro do recesso de hera; ele não ficará por muito tempo, logo retornará ao lugar de onde veio, e se eu ficar quieta, jamais me verá. Mas não — o crepúsculo é tão agradável para ele quanto para mim, e este jardim antigo é atraente; e ele perambula, ora erguendo os ramos da groselheira para olhar os frutos, grandes como ameixas, com os quais estão carregados; ora colhendo uma cereja madura do muro; ora curvando-se para uma touceira de flores, para aspirar sua fragrância ou admirar as gotas de sereno em suas pétalas. Uma grande mariposa passa zumbindo por mim; pousa numa planta aos pés do Sr. Rochester; ele a vê e se curva Jane Eyre

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para examiná-la. “Agora ele está de costas para mim”, penso, “e ocupado também; talvez, se caminhar de mansinho, eu possa me esgueirar sem ser notada”. Andava pelo mato à beira do caminho, para que o ranger dos seixos não me denunciasse; ele estava parado entre as leiras e uma ou duas jardas de onde eu tinha de passar; a mariposa aparentemente o prendera. “Vai dar para eu passar”, calculei. Quando cruzei a sua sombra, projetada muito comprida sobre o jardim pela lua, que ainda não ia alta, ele disse baixinho, sem se voltar: — Jane, venha olhar esse sujeito. Eu não fizera barulho algum; ele não tinha olhos atrás da cabeça — será que sua sombra tinha sentidos? Assustei-me a princípio, e depois me aproximei. — Olhe as asas dele — disse o Sr. Rochester. — Lembra^ me um pouco um inseto das Índias Ocidentais; não se vê como muita freqüência um vagueante noturno tão grande e alegre na Inglaterra; pronto! voou! A mariposa se afastou. Eu também me retirava, timidamente; mas o Sr. Rochester me seguiu, e quando chegamos- ao portãozinho, disse: — Volte; numa noite tão adorável, é uma vergonha ficar dentro de casa; e certamente ninguém pode querer ir para a cama quando o pôr-do-sol se encontra assim com o nascer da lua. Um de meus defeitos é que, embora minha língua às vezes se mostre bastante expedita para responder, outras vezes me falha tristemente quando se trata de arranjar uma desculpa; e o lapso sempre ocorre em alguma crise, quando preciso especialmente de uma palavra fácil ou de um pretexto plausível para tirar-me de um penoso embaraço. Eu não gostaria de passear àquela hora, sozinha, com o Sr. Rochester, no escuro pomar; mas não encontrei nenhum motivo a alegar para deixá-lo. Segui arrastando os passos, o pensamento muito ocupado em descobrir um meio de escapulir; mas ele próprio parecia tão calmo e tão grave, também, que me envergonhei de sentir qualquer confusão: o mal — se mal 306

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havia, real ou em perspectiva — parecia estar apenas em mim; ele tinha a mente inconsciente e em paz. — Jane — ele recomeçou, quando entramos na alameda de loureiros e lentamente nos desviamos em direção à cerca caída e ao castanheiro — Thornfield é um lugar agradável no verão, não é? — Sim, senhor. — Você deve ter-se ligado, em certa medida, à casa... você, que tem olho para as belezas naturais, e muita capacidade de apego. — Estou ligada a ela, na verdade. — E embora eu não compreenda como é isso, percebo que adquiriu um certo grau de interesse por aquela menininha tola, Adèle, também; e até pela simples Sra. Fairfax. — Sim, senhor; de modos diferentes, tenho afeição pelas duas. — E sentiria ter de separar-se delas? — Sim. — Que pena! — ele disse, suspirou e fez uma pausa. — É sempre assim com as coisas desta vida — continuou finalmente. — Assim que a gente se instala num agradável lugar de repouso, uma voz nos manda levantar e ir andando, pois a hora de repouso expirou. — Tenho de ir andando, senhor? — perguntei. — Tenho de deixar Thornfield? — Creio que tem, Jane. Sinto muito, Janet, mas creio realmente que tem. Isso foi um golpe, mas não deixei que me derrubasse. — Bem, senhor, estarei pronta quando a ordem de partida vier, — Já chegou... tenho de dá-la esta noite. — Então o senhor vai mesmo se casar? — E-xa-ta-men-te... pre-ci-sa-men-te; com sua habitual perspicácia, você acertou na mosca. — Em breve, senhor? — Muito breve, minha... isto é, Srta. Eyre, e você se lembrará, Jane, da primeira vez em que eu, ou os boatos, demos a entender claramente que eu pretendia pôr meu pescoço de velho solteirão no sagrado laço, entrar no sagrado estado do matrimônio... tomar Jane Eyre

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a Srta. Ingram em meu peito, em suma (ela mal cabe num abraço, mas não é disso que se trata... uma coisa tão excelente como minha linda Blanche nunca tem nada sobrando): bem, como eu ia dizendo...escute-me, Jane! Não está se voltando em busca de outras mariposas, está? Era apenas uma joaninha, filha, -’voando para casa”. Desejo lembrar-lhe que foi você quem primeiro me disse, com essa discrição que respeito em você... com essa previsão, prudência e humildade que condizem com sua posição responsável e dependente... que no caso de eu me casar com a Srta. Ingram, seria melhor que você e Adèle partissem. Passo por cima do descrédito que essa sugestão lança sobre o caráter de minha amada; na verdade, quando você estiver distante, Janet, tentarei esquecer isso, notarei apenas sua sabedoria; que é tal, que fiz dela minha lei de ação. Adèle deve ir para a escola; e você, Srta. Eyre, deve encontrar um novo emprego. — Sim, senhor, porei um anúncio imediatamente, e enquanto isso, suponho... — Ia dizer: “suponho que posso ficar aqui, até encontrar outro abrigo para onde me mudar”; mas parei, sentindo que não seria bom arriscar uma longa sentença, pois não tinha pleno domínio sobre minha voz. — Dentro de um mês, espero ser um noivo no altar — continuou o Sr. Rochester. — E nesse ínterim, eu mesmo buscarei emprego e amparo para você. — Obrigada, senhor; sinto muito dar... — Oh, não precisa se desculpar! Considero que, quando uma dependente cumpre o seu dever tão bem quando você cumpriu o seu, tem uma espécie de direito sobre o patrão a qualquer pequena ajuda que ele possa convenientemente lhe prestar; na verdade, através de minha futura sogra, eu já soube de um lugar que lhe servirá: vai encarregar-se da educação das cinco filhas da Sra. Dionysius O’Gall, de Bitternut Lodge, Connaught, na Irlanda. Você vai gostar da Irlanda, creio; é uma gente tão generosa lá, dizem. — É um bocado distante, senhor. — Não importa... uma moça com seu senso não fará objeções 308

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à viagem ou à distância. — À viagem, não, mas à distância, sim; e depois, o mar é uma barreira... — Contra quê, Jane? — A Inglaterra e Thornfield, e... — Sim? — O senhor, senhor. Eu disse isso quase involuntariamente, e com tão pouca sanção do livre arbítrio, que minhas lágrimas jorraram. Mas não chorei a ponto de ser ouvida; evitei os soluços. A idéia da Sra. 0’Gall, de Bitternut Lodge, gelou-me o coração; e mais gelado ainda ficou à idéia de todas aquelas ondas e águas que iam se interpor entre mim e o patrão a cujo lado eu passeava agora; e ainda mais gelado com a lembrança do mais amplo oceano — riqueza, casta, costumes — entre mim e aquele que eu natural e inevitavelmente amava. — É muito longe — tornei a dizer. — É, sem dúvida; e quando você estiver em Bitternut Lodge, Connaught, Irlanda, nunca mais tornarei a vê-la, Jane, isto é moralmente certo. Nunca vou à Irlanda, pois não me atrai o país. Fomos bons amigos, Jane; não fomos? — Sim, senhor. — E quando os amigos estão em vésperas de se separar, gostam de passar o pouco tempo que lhes resta juntos. Vamos! Falaremos da viagem e da separação tranqüilamente, meia hora, mais ou menos, enquanto as estrelas entram em sua brilhante vida no céu lá em cima: eis o castanheiro, aí está o banco em suas velhas raízes. Venha, vamos nos sentar aqui em paz esta noite, embora estejamos destinados a nunca mais nos sentar aí juntos. Ele nos sentou, a mim e a si mesmo. — É muito longe a Irlanda, Janet, e sinto enviar minha amiguinha em viagens tão cansativas; mas se não posso fazer algo melhor, que jeito se pode dar? Você acha que tem alguma ligação comigo, Jane? Eu não podia arriscar nenhuma espécie de resposta dessa vez: tinha o coração paralisado. Jane Eyre

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— Porque — ele disse — tenho às vezes uma sensação esquisita com relação a você... especialmente quando está junto a mim, como agora; é como se eu tivesse um fio em alguma parte debaixo de minhas costelas esquerdas, firme e inextricavelmente amarrado a um fio semelhante situado na parte correspondente de seu pequeno corpo. E se aquele tempestuoso Canal, e mais umas duas milhas de terra, se interpuserem entre nós, receio que essa linha de comunicação se parta; e aí, tenho a nervosa idéia de que sangrarei internamente. Quanto a você... me esquecerá. — Isso eu nunca farei, senhor; o senhor sabe... — Impossível prosseguir. — Jane, está ouvindo aquele rouxinol cantando no bosque? Escute! Ao escutar, solucei convulsivamente; pois não podia mais reprimir o que sentia; fui obrigada a ceder, e uma intensa angústia me sacudiu dos pés à cabeça. Quando falei, foi apenas para manifestar o incontível desejo que sentia de nunca ter nascido, ou de jamais ter vindo para Thornfield. — É porque está sentida por ter de deixá-la? A força da emoção, agitada pelo sofrimento e o amor dentro de mim, me vencia, lutava pelo completo domínio, e afirmava o direito de predominar, superar, viver, crescer e reinar afinal; sim — e falar. — Dói-me deixar Thornfield, amo Thornfield, amo-a, porque vivi aqui uma vida plena e deliciosa... momentaneamente, ao menos. Não fui espezinhada. Não fui petrificada. Não fui enterrada com mentalidades inferiores e excluída de todo vislumbre de comunhão com o que é brilhante, vigoroso e elevado. Falei face a face com o que reverencio, com o que me dá prazer... com uma mente original, vigorosa, ampla. Conheci o senhor, Sr. Rochester; e causa-me terror e angústia sentir que tenho de me separar do senhor para sempre. Vejo a necessidade da partida; e é como contemplar a necessidade da morte. — Onde você vê essa necessidade? — ele perguntou subitamente. — Onde? O senhor a colocou à minha frente. 310

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— De que forma? — Na forma da Srta. Ingram; uma mulher nobre e bela... sua noiva. — Minha noiva? Que noiva? Eu não tenho noiva! — Mas terá. — Sim... terei! Terei! — cerrou os dentes. — Então eu tenho de partir... o senhor mesmo o disse. — Não; você deve ficar! Eu juro... e o juramento será mantido. — Digo-lhe que tenho de ir! — retruquei, inflamada por alguma coisa semelhante à paixão. — Pensa que posso ficar para tornar-me um nada para o senhor? Pensa que sou um autômato... uma máquina sem sentimentos? E que posso suportar ter meu naco de pão arrancado de meus lábios, e minha vital gota d’água derramada de meu copo? Pensa que, porque sou pobre, obscura, sem atrativos e pequena, não tenho alma nem coração? Está pensando errado! Tenho alma tanto quanto o senhor... e um coração tão pleno quanto o seu! E se Deus me houvesse dotado de alguma beleza e muita riqueza, eu tornaria tão duro para o senhor deixar-me quanto é para mim deixá-lo. Não lhe falo agora por meio dos costumes, convencionalismos, nem mesmo da carne mortal: é meu espírito que fala ao seu; do mesmo modo como se ambos tivéssemos passado pela sepultura e estivéssemos aos pés de Deus, iguais... como somos! — Como somos! — repetiu o Sr. Rochester. — É isso — acrescentou, encerrando-me em seus braços, tomando-me contra o peito, comprimindo seus lábios nos meus. — É isso, Jane! — Sim, é isso, senhor — repeti. — E no entanto, não é, pois o senhor é um homem casado... ou o mesmo que casado, e com alguém que lhe é inferior... alguém por quem não sente nenhuma simpatia... a quem não acredito que ame realmente; pois o tenho visto e ouvido zombar dela. Eu desprezaria uma tal união; assim, sou melhor que o senhor... deixe-me ir! — Para aonde, Jane? Para a Irlanda? — Sim... para a Irlanda. Eu disse o que pensava, e posso ir para qualquer parte agora. Jane Eyre

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— Fique quieta, Jane; não lute assim, como um frenético pássaro selvagem que solta a plumagem em desespero. — Não sou nenhum pássaro; e nenhuma rede me prende; sou um ser humano livre, com uma vontade independente, que agora exercerei para deixá-lo. Outro esforço me libertou, e ergui-me ereta à frente dele. — E sua vontade decidirá o seu destino — ele disse. — Ofereçolhe meu coração, minha mão e uma parte de todos os meus bens. — O senhor desempenha uma farsa, da qual eu simplesmente rio. — Estou lhe pedindo que passe a vida a meu lado... que seja meu segundo eu e a melhor companheira terrena. — Para esse destino, o senhor já fez sua escolha, e deve a ter-se a ela. — Jane, fique quieta só alguns momentos: você está superexcitada, eu ficarei parado também Uma rajada de vento varreu a alameda de loureiros e tremulou por entre os galhos do castanheiro; afastou-se — para longe — para uma distância infinita — e morreu. O canto do rouxinol tornou-se então a única voz daquela hora: ouvindo-a, tornei a chorar. O Sr. Rochester permanecia sentado, quieto, olhando-me suave e seriamente. Passou-se algum tempo antes que falasse; finalmente, disse: — Venha para junto de mim, Jane, e expliquemos e compreendamos um ao outro. — Nunca mais irei para junto do senhor, estou separada agora, e não posso voltar. — Mas, Jane, eu a chamo como minha esposa, é só com você que pretendo me casar. Fiquei calada: achava que ele se divertia comigo. — Venha, Jane, chegue aqui. — Sua noiva se interpõe entre nós. Ele se levantou e, com uma passada, me alcançou. — Minha noiva está aqui — disse, puxando-me novamente para si — porque minha igual está aqui, e minha imagem. Jane, quer casar-se comigo? 312

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Também desta vez não respondi, e me encolhi diante dele. pois ainda não acreditava. — Duvida de mim, Jane? — Inteiramente. — Não tem fé em mim? — Nem um pouco. — Quer dizer que sou um mentiroso a seus olhos? — ele perguntou apaixonadamente. — Pequena cética, você será persuadida. Que amor sinto eu pela Srta. Ingram? Nenhum, e disso estou certo. Que amor tem ela por mim? Nenhum: como me dei o trabalho de provar: fiz com que chegasse a ela o rumor de que minha fortuna não era nem um terço do que se supunha, e após isso me apresentei para ver o resultado; foi só frieza da parte dela e da mãe. Eu não casaria... não poderia... com a Srta. Ingram. Você... sua coisinha estranha, quase exótica!... eu a amo como à minha própria carne. Você... pobre e obscura, pequena e sem atrativos como é... peço-lhe que me aceite como marido. — Que, eu! — exclamei, começando a acreditar em sua sinceridade, devido à sua seriedade e, especialmente, à sua incivilidade. — Eu, que não tenho um só amigo no mundo além do senhor... se é que é meu amigo; que não tenho um xelim além do que o que o senhor me deu? — Você, Jane: preciso tê-la para mim... inteiramente para mim. Você será minha? Diga sim, depressa. — Sr. Rochester, deixe-me olhar o seu rosto, volte-se para a luz da lua. — Por quê? — Porque quero ler sua expressão... volte-se! — Aí está. Você dificilmente a achará mais legível que uma página amassada, rabiscada. Leia: apenas, apresse-se, pois estou sofrendo. O rosto dele estava muito agitado e muito ruborizado, e havia fortes tensões em suas feições, e estranhos lampejos em seus olhos. — Oh, Jane, você me tortura! — ele exclamou. — Com esse olhar penetrante, e apesar disso fiel e generoso, você me tortura! — Como posso fazer isso? Se o senhor é sincero, e sua oferta Jane Eyre

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real, meus únicos sentimentos para com o senhor devem ser de gratidão e dedicação... não podem torturar. — Gratidão! — ele exclamou; e acrescentou meio louco: — Jane, aceite-me logo. Diga: Edward... chame-me pelo meu nome... Edward... eu me casarei com você. — Fala sério? Realmente me ama? Deseja sinceramente que eu seja sua esposa? — Desejo; e se é necessário um juramento para satisfazê-la, eu juro. — Então, senhor, eu me casarei com o senhor. — Edward... minha mulherzinha! — Querido Edward! — Venha para mim... venha para mim inteiramente agora — ele disse; e acrescentou no tom mais profundo, falando em meu ouvido, a face colada na minha: — Faça a minha felicidade... eu farei a sua. — Deus me perdoe — acrescentou dentro em pouco. — E que homem algum se meta comigo: eu a tenho, e a manterei. — Não há ninguém para se meter, senhor. Não tenho parente para interferir. — Não... isso é o melhor — ele disse. E se eu o amasse menos teria julgado seu tom e aparência de uma exaltação selvagem; mas, sentada ao lado dele, despertada do pesadelo da separação — chamada ao paraíso da união — pensava apenas na felicidade que me davam a beber num fluxo tão abundante. Repetidas vezes ele disse: “Sente-se feliz, Jane?” E repetidas vezes eu respondi: “Sim”. Após o que ele murmurava: “Isso expiará... expiará. Não a encontrei sem amigos, com frio e sem conforto? Não a protegerei, estimarei e consolarei? Não há amor em meu coração, e constância em minhas decisões? Isso expiará no tribunal de Deus. Eu sei que meu Criador aprova o que estou fazendo. Quanto ao julgamento do mundo... lavo minhas mãos dele. Quanto à opinião humana, eu a desafio.” Mas que acontecera à noite? A lua ainda não descera, e estávamos mergulhados em sombras: eu mal podia ver o rosto de meu amo, apesar de tão perto. E que afligia o castanheiro? 314

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Ele estremecia e gemia; enquanto o vento rugia na alameda de loureiros, e avançava sobre nós. — Temos de ir — disse o Sr. Rochester. — O tempo está mudando. Eu poderia ficar sentado aqui com você até a manhã, Jane. “E eu também”, pensei, “com você”. Devia tê-lo dito, talvez, mas uma lívida e vivida faísca desprendeu-se de uma nuvem que eu olhava, e houve um estrondo, um baque, e um estrepitoso matraquear perto; e pensei apenas em proteger os olhos ofuscados no ombro do Sr. Rochester. A chuva desabou. Ele me fez subir correndo a alameda, atravessar os jardins e entrar em casa; mas já estávamos bastante molhados quando cruzamos a soleira. Ele tirava meu xale no saguão, e espremia a água de meus cabelos encharcados, quando a Sra. Fairfax surgiu de seu quarto. Não a vi a princípio, nem o Sr. Rochester. A lâmpada estava acesa. O relógio ia bater doze horas. — Tire logo essas coisas molhadas — ele disse. — E antes de se ir... boa-noite... boa-noite, minha querida. Beijou-me repetidas vezes. Quando ergui o olhar, ao deixar os seus braços, lá estava a viúva, pálida, séria e pasmada. Apenas sorri para ela e corri para cima. “A explicação ficará para outra hora”, pensei. Contudo, ao chegar ao meu quarto, senti uma pontada à idéia de que ela poderia, mesmo temporariamente, entender errado o que vira. Mas a alegria logo apagou todos os outros sentimentos; e embora o vento sofresse ruidoso, os trovões estrondassem próximos e profundos, os raios luzissem ferozes e freqüentes, e a chuva caísse em cataratas, numa tempestade de duas horas, não senti medo e só pouco temor. O Sr. Rochester veio três vezes à minha porta durante a borrasca, para perguntar se eu estava segura e tranqüila; e isso era conforto, era força para qualquer coisa. Antes de deixar a cama na manhã seguinte, a pequena Adèle veio correndo dizer-me que o grande castanheiro no fundo do pomar fora atingido por um raio à noite e rachado ao meio.

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CAPÍTULO 24

D

epois de levantar-me e vestir-me, pensei em tudo que acontecera e perguntei-me se não fora um sonho. Não poderia ter certeza da realidade até ver novamente o Sr. Rochester, e ouvi-lo renovar suas palavras de amor e promessa. Enquanto arrumava o cabelo, olhei meu rosto no espelho, e senti que não era mais o de uma jovem de aparência comum: havia esperança em seu aspecto e vida em sua cor; e meus olhos pareciam ter contemplado a fonte do prazer, e dela tomado de empréstimo os raios das ondas lustrosas. Muitas vezes eu não quisera olhar o meu amo, temendo que não lhe fosse agradável a minha aparência, mas agora tinha certeza de que poderia erguer o rosto para o dele, e não esfriar sua afeição com minha expressão. Peguei um vestido simples, mas limpo e leve, de verão, em minha gaveta e o vesti: parecia que nenhum traje me assentara tão bem antes, porque eu nunca usara nenhum num estado de espírito de tamanha felicidade. Não me surpreendi, quando desci correndo para o saguão, ao ver que uma luminosa manhã de junho sucedera à tempestade da noite passada; e ao sentir, através da porta de vidro aberta, o sopro de uma brisa fresca e fragrante. A natureza devia estar satisfeita quando eu me sentia tão feliz. Uma mendiga e seu filhinho — ambos pálidos, maltrapilhos — subiam a entrada da propriedade, e desci correndo e dei-lhes todo o dinheiro que tinha, na bolsa — 316

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uns três ou quatro xelins: bons ou maus, tinham de partilhar de meu júbilo. Os corvos crocitavam, e pássaros ainda mais alegres cantavam, mas nada era tão feliz ou tão musical quanto meu coração transbordante de alegria. A Sra. Fairfax surpreendeu-me, olhando pela janela com uma expressão triste e dizendo gravemente: — Srta. Eyre, quer entrar para o desjejum? Durante a refeição, ela permaneceu calada e fria, mas eu não podia tirá-la de seu engano então. Tinha de esperar que meu amo desse as explicações; e ela também. Comi o que pude, e depois corri lá para cima. Encontrei Adèle saindo da sala de aula. — Aonde vai você? É a hora das lições. — O Sr. Rochester me mandou para o quarto das crianças. — Onde está ele? — Aí dentro — indicando o aposento que deixara; e eu entrei, e lá estava ele. — Venha desejar-me bom-dia — ele disse. Adiantei-me alegremente; e não foi apenas uma palavra fria agora, ou mesmo um aperto de mão, o que recebi, mas um abraço e um beijo. Parecia natural, parecia reconfortante ser tão amada, tão acariciada por ele. — Jane, você parece em flor, sorridente, e linda — ele disse. — Realmente linda esta manhã. Será essa minha pálida duendezinha? Será essa o meu grão de mostarda? Essa mocinha de rosto ensolarado, com faces cheias de covinhas e lábios róseos; o cabelo de avelã liso como cetim, e radiantes olhos de avelã? (Eu tinha olhos verdes, leitor; mas deve perdoar o engano: para ele, eles tinham novas cores, suponho). — É Jane Eyre, senhor. — Em breve, Jane Rochester — ele acrescentou — dentro de quatro semanas, Jane; nem um dia mais. Está ouvindo isso? Eu estava, e não podia compreender inteiramente: deixava-me zonza. A sensação que o anúncio causou em mim era mais forte do que a alegria podia suportar — algo que batia e estonteava: era, creio, quase medo. — Você corou, e agora está pálida, Jane, por que isso? Jane Eyre

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— Porque o senhor me deu um novo nome... Jane Rochester; e parece tão estranho. — Sim, Sra. Rochester — ele disse —; a jovem Sra. Rochester... a noiva de Fairfax Rochester. — Nunca poderá ser assim, senhor; não soa convincente. Os seres humanos jamais gozam de completa felicidade neste mundo. Não nasci para um destino diferente do do resto de minha espécie: imaginar que uma tal sorte me caberá é um conto de fadas... sonhar acordada. — Um sonho que eu posso realizar e realizarei. Começarei hoje. Esta manhã, escrevi a meu banqueiro em Londres para que me enviasse algumas jóias que tem sob sua guarda... heranças tradicionais das damas de Thornfield. Dentro de um ou dois dias, espero despejá-las em seu colo, pois todos os privilégios, todas as atenções que eu concederia à filha de um par, se estivesse para desposá-la, serão seus. — Oh, senhor, esqueça as jóias! Não gosto de ouvir falar delas. Jóias para Jane Eyre soa não natural e estranho: eu preferia não tê-las. — Eu próprio porei o colar de diamantes em torno de seu pescoço, e a tiara em sua cabeça... onde assentará bem, pois a natureza, ao menos, imprimiu sua patente de nobreza nessa testa, Jane; e fecharei os braceletes nesses belos pulsos, e encherei de anéis esses dedos de fada. — Não, não, senhor! Pense em outras coisas, e fale delas, e em outro tom. Não me fale como se eu fosse uma beldade; sou sua governante de aparência comum, como uma Quaker. — Você é uma beldade a meus olhos, e uma beldade na medida exata de meu coração... delicada e diáfana. — Fraca e insignificante, o senhor quer dizer. Está sonhando, senhor... ou estará se divertindo? Por Deus, não seja irônico! — E também farei com que o mundo a reconheça como uma beldade — ele prosseguiu, enquanto eu realmente me tornava inquieta com o tom que ele adotara, porque sentia que estava se iludindo ou tentando me iludir. — Vestirei minha Jane de cetim e rendas, e ela usará rosas nos cabelos; e cobrirei a cabeça que mais 318

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amo com um véu inestimável. — E aí não me reconhecerá, senhor; e não serei mais sua Jane Eyre, mas uma macaca num traje de Arlequim... um gaio com plumas emprestadas. Eu preferiria vê-lo ao senhor, Sr. Rochester, vestido com trajes teatrais, do que a mim vestida em trajes de dama da corte; e não o chamo de bonito, senhor, embora o ame muitíssimo; muitíssimo mesmo, para lisonjeá-lo. Não me lisonjeie. Ele prosseguiu em seu tema, no entanto, sem dar atenção à minha advertência. — Hoje mesmo eu a levarei na carruagem a Millcote, e você escolherá alguns vestidos para si. Já lhe disse que nos casaremos dentro de quatro semanas. O casamento deverá realizar-se discretamente, na igreja ali embaixo; e depois eu a raptarei logo para a cidade. Após uma breve estada ali, levarei meu tesouro para regiões mais próximas do sol, às vinhas francesas e às planícies italianas; e ela verá tudo que há de famoso na velha história e nos anais modernos; provará também da vida nas cidades; e aprenderá a valorizar-se pela justa comparação com outros. — Vou viajar? E com o senhor? — Você passará temporadas em Paris, Roma e Nápoles; em Florença, Veneza e Viena; toda a terra que percorri será revisitada por você; onde quer que eu tenha posto o pé, seu pezinho de sílfide pisará também. Há dez anos, voei pela Europa meio louco, tendo o desgosto, o ódio e a raiva como companheiros; agora a revisitarei curado e limpo, tendo um verdadeiro anjo como minha confortadora. Sorri dele quando disse isso. — Não sou um anjo — afirmei. — E não serei até morrer; serei eu mesma. Sr. Rochester, o senhor não deve esperar nem exigir nada celestial de mim... pois não conseguirá, não mais do que eu conseguirei do senhor; o que não prevejo de modo algum. — Que prevê de mim? — Por algum tempo, o senhor será talvez como é agora... por muito pouco tempo; e depois se tornará frio; e depois caprichoso; e depois severo, e terei muito trabalho para agradar-lhe; mas quando se acostumar comigo, talvez volte a gostar de mim... Jane Eyre

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digo gostar, não amar. Suponho que seu amor fervilhará durante seis meses ou menos. Tenho observado em livros escritos por homens que esse é o período atribuído como o máximo a que se estende o ardor de um marido. Contudo, afinal, como amiga e companheira, espero nunca me tornar inteiramente desagradável ao meu querido senhor. — Desagradável! E eu voltar a gostar de você! Creio que voltarei a gostar de você, e voltarei de novo; e a farei confessar que não apenas gosto de você, mas a amo... com sinceridade, ardor, constância. — Mas o senhor não é caprichoso? — Com mulheres que me agradam apenas pelos seus rostos, sou o próprio demônio quando descubro que elas não têm alma nem coração... quando me revelam uma perspectiva de chatice, trivialidade, e talvez imbecilidade, grosseria e mau gênio; mas à visão clara e à língua eloqüente, à alma feita de fogo e ao caráter que enverga mas não quebra... ao mesmo tempo flexível e estável, tratável e consistente... sou sempre terno e sincero. — Já teve alguma experiência com um caráter assim, senhor? Já amou alguém assim? — Estou amando agora. — Mas antes de mim, se é que eu, em algum aspecto, correspondo ao seu difícil padrão? — Nunca conheci alguém como você, Jane. Você me agrada, e me domina...parece submeter-me, e gosto da sensação de flexibilidade que transmite; e enquanto enrolo no dedo esse fio macio e sedoso, ele envia braço acima uma emoção que vai até o coração. Sou influenciado... vencido; e a influência é mais doce do que o que consigo expressar; e a derrota que sofro tem um feitiço que ultrapassa qualquer triunfo que eu possa conquistar. Por que está sorrindo, Jane? Que significa essa expressão inexplicável e esquisita? — Eu estava pensando, senhor (vai desculpar a idéia; foi involuntária), estava pensando em Hércules e Sansão com suas feiticeiras... — Estava, não estava, sua duendezinha?... 320

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— Silêncio, senhor! Não está falando com muita sensatez agora; não mais do que aqueles heróis se portaram sensatamente. Contudo, se eles se tivessem casado, teriam sem dúvida, com a severidade de maridos, compensado a debilidade de quando eram pretendentes; e assim fará o senhor, receio. Imagino como me responderá daqui a um ano, se eu lhe pedir um favor que não lhe seja conveniente ou agradável conceder. — Peça-me alguma coisa agora, Jane... a mínima coisa, desejo ser solicitado a... — Eu o farei mesmo, senhor; já tenho o pedido pronto. — Fale! Mas se me olhar e sorrir com essa expressão, jurarei conceder antes de saber o quê, e isso fará de mim um idiota. — De modo nenhum, senhor; peço-lhe apenas isso: não mande buscar as jóias, e não me coroe com rosas: seria o mesmo que pôr uma borda dourada em torno desse seu lenço de bolso. — Seria o mesmo que “dourar ouro refinado”. Sei disso, seu pedido está concedido então... por enquanto. Cancelarei a ordem que mandei ao meu banqueiro. Mas você ainda não pediu nada, pediu que um presente fosse retomado; tente outra vez. — Bem, então, senhor, tenha a bondade de satisfazer minha curiosidade, que está muito espicaçada quanto a uma coisa. Ele pareceu inquieto. — Quê? Quê? — apressou-se a dizer. — Curiosidade é um pedido perigoso; ainda bem que não jurei conceder todos os pedidos... — Mas não há perigo algum em atender a este, senhor. — Diga-o, Jane; mas eu desejava que, em vez de uma simples pergunta sobre um segredo, talvez, fosse um desejo de ter metade de meus bens. — Ora, Rei Ashaverus! Que quero eu com metade de suas propriedades? Acha que sou um usurário judeu, buscando bom investimento em terras? Eu preferiria muito mais ter metade de sua confiança. Não vai me excluir de sua confiança, quando me admite em seu coração? — Você é bem-vinda a toda a minha confiança que valha a pena ter, Jane; mas, pelo amor de Deus, não deseje um fardo inútil! Não Jane Eyre

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anseie pelo veneno...não se transforme numa completa Eva em minhas mãos! — Por que não, senhor? Acabou de me dizer que gostava muito de ser vencido, e que o excesso de persuasão lhe era muito agradável. Não acha que era melhor eu me aproveitar da confissão e começar a pedir e adular... e mesmo chorar e ficar macambúzia, se necessário... apenas para testar meu poder? — Você que faça qualquer experiência desse tipo! Invada, seja presunçosa, e o jogo está acabado. — Está, senhor? O senhor cede logo. Como parece severo agora! Suas sobrancelhas se tornaram grossas como meu dedo, e a testa parece o que, numa poesia bastante surpreendente, vi uma vez descrito como “um pára-raios envolto em azul”. Será essa a sua aparência quando casado, senhor, suponho? — Se essa for a sua aparência quando casada, eu, como cristão, logo abandonarei a idéia de consorciar-me com um mero espírito ou salamandra. Mas que tinha a perguntar, coisinha... vamos com isso? — Aí está, o senhor se mostra menos polido agora; e eu gosto muito mais da rudeza do que da lisonja. Prefiro ser uma coisinha a um anjo. O que tenho a perguntar é o seguinte: por que se esforçou tanto para fazer-me crer que desejava casar-se com a Srta. Ingram? — É só isso? Graças a Deus não é algo pior! — E ele afrouxou as negras sobrancelhas; baixou o olhar, sorrindo-me, e alisoume o cabelo, como satisfeito por ver um perigo evitado. — Creio que posso confessar — continuou — mesmo correndo o risco de deixá-la um pouco indignada, Jane... e já vi que espírito de fogo você se torna quando indignada. Você ardeu à fria luz da lua ontem à noite, quando se revoltou contra o destino e reivindicou igualdade de condições comigo. A propósito, Jane, foi você quem me fez a proposta. — É claro que fiz. Mas atenha-se a questão, por favor, senhor... a Srta. Ingram? — Bem, fingi fazer a corte à Srta. Ingram porque queria deixar você tão loucamente apaixonada por mim quanto eu estava por você; e sabia que o ciúme seria o melhor aliado que poderia 322

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convocar para chegar a esse fim. — Excelente! Agora o senhor está pequeno... nem um tiquinho maior que a ponta de meu dedo mindinho. Foi uma indesculpável vergonha e uma escandalosa desgraça agir dessa forma. Não pensou nada nos sentimentos da Srta. Ingram, senhor? — Os sentimentos dela se concentram num só: orgulho; e isso precisa ser humilhado. Ficou com ciúmes, Jane? — Deixe isso para lá, Sr. Rochester; não lhe interessa de modo algum saber isso. Responda-me sinceramente mais “.’ma vez. Acha que a Srta. Ingram não sofrerá com sua desonesta coqueteria? Não se sentirá ela abandonada e desertada? — Impossível! Quando já lhe disse que foi ela, ao contrário, quem me desertou: a idéia de minha insolvência esfriou, ou antes extinguiu, o ardor dela num instante. — O senhor tem uma mente curiosa, calculista, Sr. Rochester. Receio que seus princípios sejam excêntricos em alguns pontos. — Meus princípios nunca foram treinados, Jane: devem ter-se tornado um tanto tortos por falta de atenção. — Mais uma vez, falemos sério; será que posso desfrutar do grande bem que me foi concedido, sem temer que qualquer outra pessoa esteja sofrendo a amarga dor que eu própria sentia há pouco? — Isso pode, sim, minha boa menininha; não existe outro ser no mundo que tenha o mesmo amor puro por mim que você tem... pois despejo esse agradável ungüento em minha alma, Jane, a crença em sua afeição. Volvi os lábios para a mão que pousava em meu ombro. Amava-o muito — mais do que poderia confiar em mim mesma para dizer — mais do que as palavras podiam expressar. — Peça mais alguma coisa — ele disse afinal. — É um prazer para mim ser solicitado, e conceder. Mais uma vez, eu estava pronta com meu pedido. — Comunique suas intenções à Sra. Fairfax, senhor; ela me viu com o senhor na noite passada, no saguão, e ficou chocada. Dê-lhe alguma explicação antes que eu torne a vê-la. Dói-me ser mal julgada por uma mulher tão boa. Jane Eyre

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— Vá para seu quarto, e ponha sua touca — ele respondeu. — Quero que você me acompanhe a Millcote esta manhã; e enquanto se prepara para a viagem, esclarecerei a velha dama. Será que ela pensou, Jane, que você tinha dado o mundo pelo amor, considerando-o bem perdido? — Creio que ela pensou que me esqueci de minha posição, e da posição do senhor. — Posição! Posição!... Sua posição é no meu coração, e no pescoço daqueles que a insultaram, agora e daqui por diante. Vá. Eu logo estava vestida; e quando ouvi o Sr. Rochester deixar o parlatório da Sra. Fairfax, apressei-me a descer. A velha dama estivera lendo seu trecho matinal das Escrituras... a Lição do dia; tinha a Bíblia aberta diante de si, e os óculos em cima dela. Sua ocupação, suspensa pelo anúncio do Sr. Rochester, parecia esquecida agora; os olhos, fixos na branca parede defronte, manifestavam a surpresa de uma mente tranqüila agitada por acontecimentos desusados. Ao ver-me, despertou, fez uma espécie de esforço para sorrir, e formulou algumas palavras de congratulação; mas o sorriso morreu, e a frase foi abandonada inacabada. Ela pôs os óculos, fechou a Bíblia c afastou sua cadeira da mesa. — Estou tão surpresa — começou — que mal sei o que dizerlhe, Srta. Eyre. Não estive sonhando, certamente, estive? Às vezes caio no sono quando estou sentada sozinha e imagino coisas que jamais aconteceram. Já me pareceu mais de uma vez, quando cochilo, que meu querido marido, que morreu há quinze anos, entrava e se sentava a meu lado; e até o ouvia me chamar pelo meu nome, Alice, como costumava fazer. Agora, pode dizer-me se é realmente verdade que o Sr. Rochester lhe pediu que se casasse com ele? Não ria de mim. Mas realmente pensei que ele veio aqui há cinco minutos e disse que, dentro de um mês, você será esposa dele. — Ele me disse a mesma coisa — respondi. — Disse! E você acredita nele? Aceitou-o? — Sim. Ela me olhava espantada. 324

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— Eu jamais teria pensado nisso. Ele é um homem orgulhoso; todos os Rochester foram orgulhosos, e o pai dele, pelo menos, gostava de dinheiro. Ele também sempre foi chamado de cuidadoso. Pretende casar-se com você? — Foi o que me disse. Ela examinou toda a minha pessoa: li em seus olhos que hão encontrara nenhum poder suficientemente forte para solucionar o enigma. — Não entendo! — ela continuou. — Mas sem dúvida é verdade, uma vez que você o diz. O que resultará disso, eu não sei; realmente não sei. A igualdade de posições e fortuna é muitas vezes aconselhável em tais casos; e há vinte anos de diferença nas idades de vocês. Ele quase podia ser seu pai. — Não, deveras, Sra. Fairfax! — exclamei, irritada: — ele não tem nada de meu pai! Ninguém que nos tenha visto juntos suporia isso, por um só instante. O Sr. Rochester parece tão jovem, e é tão jovem, quanto alguns homens aos vinte e cinco anos. — Será realmente por amor que ele vai se casar com você? — ela perguntou. Fiquei tão magoada com sua frieza e ceticismo, que as lágrimas me subiram aos olhos. — Sinto magoá-la — prosseguiu a viúva — mas você é tão jovem, e conhece tão pouco os homens, que eu desejava pô-la de sobreaviso. Há um velho ditado que diz que “nem tudo que reluz é ouro”; e neste caso eu receio que se descubra alguma coisa diferente do que eu ou você esperamos. — Por quê? Serei eu um monstro? — eu disse. — Será impossível que o Sr. Rochester tenha um afeto sincero por mim? — Não, você está muito bem; e muito melhor ultimamente; e o Sr. Rochester, eu diria, gosta de você. Sempre notei que você era uma espécie de bichinho de estimação dele. Houve algumas vezes em que, por sua causa, fiquei um pouco inquieta com essa acentuada preferência, e desejei pô-la em guarda; mas não gostava de sugerir sequer a possibilidade de erro. Sabia que uma tal idéia a chocaria, e talvez até a ofendesse; e você era tão discreta, e tão inteiramente recatada e sensata, que eu esperava que se pudesse Jane Eyre

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confiar em que soubesse proteger-se. Não posso lhe dizer o que sofri na noite passada, quando a procurei por toda a casa e não consegui encontrá-la em parte alguma, e nem ao patrão; e então, às doze horas, vi você entrando com ele. — Bem, esqueça isso agora — interrompi impaciente. — Basta saber que era tudo correto. — Espero que seja tudo correto no fim — ela disse; — mas, creia-me, todo cuidado é pouco de sua parte. Tente manter o Sr. Rochester à distância, desconfie tanto de você quanto dele. Cavalheiros na posição dele não costumam desposar suas governantas. Eu estava ficando verdadeiramente irritada: felizmente, Adèle entrou correndo. — Deixe-me ir... deixe-me ir a Millcote também! — gritava. — O Sr. Rochester não deixa, embora haja tanto espaço na nova carruagem. Peça a ele que me deixe ir, mademoiselle. — Vou pedir, Adèle. — E apressei-me a sair com ela, satisfeita por deixar minha sombria monitora. A carruagem estava pronta: traziam-na para a frente da casa, e meu amo passejava pela calçada, com Pilot seguindo-o de um lado para outro. — Adèle pode acompanhar-nos, não pode, senhor? — Eu já disse a ela que não. Não tolerarei fedelhas... só levarei você. — Deixe-a ir, Sr. Rochester, por favor, seria melhor. — Não, ela será um impedimento. Era muito peremptório, tanto na aparência quanto na voz. A água fria das advertências da Sra. Fairfax e a umidade de suas dúvidas caíram sobre mim: alguma coisa de insubstancial e incerto toldara minhas esperanças. Perdi a sensação de poder sobre ele. Estava para obedecer-lhe mecanicamente, sem maiores resistências; mas quando me ajudava a entrar na carruagem, ele me olhou rosto. — Qual é o problema? — perguntou. — Toda a luz do sol se foi. Deseja realmente que a criança vá? Ficará aborrecida se a deixarmos para trás? — Eu preferia que ela fosse, senhor. 326

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— Então corra a buscar sua touca, e volte como um raio! — ele gritou para Adèle. Ela obedeceu com a rapidez que podia. — Afinal, a interrupção de uma única manhã não importará muito — ele disse — quando pretendo muito breve reclamá-la... seus pensamentos, conversas e companhia... para a vida toda. Adèle, quando a ergueram para dentro da carruagem, começou a beijar-me, como forma de manifestar sua gratidão por minha intercessão; foi no mesmo instante afastada para um canto, do outro lado dele. Ela então espiou para onde eu me sentava; um vizinho tão severo era muito restritivo; a ele, em seu atual estado de espírito rabugento, ela não ousava murmurar observações, nem pedir nenhuma informação. — Deixe-a vir para junto de mim — pedi. — Talvez o incomode, senhor: há bastante espaço deste lado. Ele me entregou a menina como se fosse um cãozinho fraldiqueiro. — Ainda a mando para a escola — disse, mas agora sorria. Adèle ouviu-o, e perguntou se ia para a escola “sans mademoiselle”. — Sim — ele respondeu —, absolutamente sans mademoiselle; pois eu vou levar mademoiselle para a lua, e ali buscarei uma caverna num dos vales brancos entre os cumes dos vulcões, e mademoiselle viverá comigo lá, só comigo. — Ela não terá nada para comer; o senhor vai matá-la de fome — observou Adèle. — Apanharei maná para ela de manhã e de noite: as planícies e encostas da lua estão brancas de maná, Adèle! — Ela precisará de se aquecer: que usará para fazer uma fogueira? — O fogo brota das montanhas lunares; quando ela tiver frio, eu a carregarei para um pico, e a depositarei na beira de uma cratera. — Oh, qu’elle y será mal... peu confortable!** E as roupas dela, que se gastarão, como poderá conseguir novas? O Sr. Rochester admitiu que estava enrascado. — Hem! — disse. — Que faria você, Adèle? Esprema o cérebro Jane Eyre

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para arranjar um jeito. Que tal uma nuvem branca ou rosa para um vestido, hem? E podia-se fazer uma bela echarpe com um pedaço do arco-íris. — Ela está muito melhor assim — concluiu Adèle, após pensar por algum tempo. — Além disso, se cansaria de viver apenas com o senhor na lua. Se eu fosse mademoiselle, jamais consentiria em ir com o senhor. — Ela consentiu, deu sua palavra. — Mas o senhor não pode levá-la lá; não há estrada para a lua; só ar; e nem o senhor nem ela podem voar. — Adèle, olhe aquele campo. — Estávamos agora fora dos portões de Thornfield, percorrendo a suave estrada para Millcote, onde a poeira fora bem assentada pela tempestade, e onde as baixas sebes e as vistosas árvores em cada lado reluziam verdes e refrescadas pela chuva. — Naquele campo, Adèle, eu caminhava ao fim de uma tarde, há uma quinzena... na noite do dia em que você me ajudou a arrumar o feno nos prados do pomar; e como estava cansado de arrumar os montes de feno com o ancinho, sentei-me para descansar num passadiço; e ali peguei um caderninho e um lápis, e comecei a escrever sobre o infortúnio que se abateu sobre mim há muito tempo, e sobre o desejo que tinha de dias felizes no futuro. Escrevia muito rápido, embora a luz do dia esmorecesse na página, quando alguma coisa surgiu na estrada e parou a duas jardas de mim. Olhei-a. Era uma coisinha com um véu de gaze na cabeça. Pedi que se aproximasse; e logo ela estava em meu joelho. Não falei com ela, nem ela comigo, em palavras; mas eu lia os olhos dela, e ela lia os meus; e nosso mudo colóquio tratou do seguinte: “Era uma fada, e vinha da terra dos duendes, segundo ela; e sua missão era fazer-me feliz: eu devia sair com ela do mundo comum e ir para um lugar solitário... como a lua, por exemplo... e ela acenou com a cabeça para a lua, que se erguia sobre Hayhill, falou-me da caverna de alabastro e do vale de prata onde poderíamos viver. Eu disse que gostaria de ir; mas lembrei-lhe, como você, de que não tinha asas para voar. 328

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“— Oh — respondeu a fada —, isso não significa nada! Eis aqui um talismã que afastará as dificuldades.” — E estendeu um belo anel de ouro. — “Ponha-o” — disse — “no quarto dedo de minha mão esquerda, e serei sua, e você meu: e deixaremos a terra, e faremos nosso próprio céu além”. — Indicou novamente a lua com um aceno. O anel, Adèle, está no meu bolso, disfarçado de um soberano; mas pretendo em breve transformá-lo em anel de novo. — Mas que tem mademoiselle a ver com isso? Não me interessa a fada: o senhor disse que era a mademoiselle que levaria para a lua. — Mademoiselle é uma fada — ele disse, sussurrando misteriosamente. Ao que eu disse a ela que não se importasse com a travessura dele; e ela, por sua parte, demonstrou um fundo de genuíno ceticismo francês; denominando o Sr. Rochester de “un vrai mentem”*, e assegurando-lhe que não levava em conta nenhum de seus “contes de fée”**, e que, “du reste, il n’y avait pas de fées, et quand même il y en avait”***, tinha certeza de que jamais apareceriam a ele, e jamais lhe dariam anéis, ou se ofereceriam para viver com ele na lua. A hora que passamos em Millcote foi um tanto incômoda para mim. O Sr. Rochester obrigou-me a ir a uma certa loja de sedas: ali, ordenaram-me que escolhesse meia dúzia de vestidos. Odiei o problema, pedi para adiá-lo: não — tinha de ser resolvido na hora. Através de pedidos expressos em enérgicos pessoalmente. Com ansiedade, observei seu olhar vagar pelos alegres estoques: fixou-se numa bela seda da cor da mais brilhante ametista, e num soberbo cetim rosa. Eu lhe disse, numa nova série de sussurros, que tanto fazia me comprar logo um vestido de ouro e uma touca de prata: eu certamente jamais usaria os que ele escolhera. Com infinita dificuldade, pois ele era teimoso como uma pedra, convenci-o a fazer uma troca em favor de um sóbrio cetim negro e uma seda cor de pérola. — Podia passar por agora — ele disse — mas ainda me veria reluzente como um. canteiro de flores. Fiquei feliz por arrancá-lo da loja de sedas, e depois de uma Jane Eyre

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joalheria: quanto mais ele fazia compras para mim, mais minhas faces ardiam com uma sensação de aborrecimento e degradação. Quando voltamos a subir na carruagem, e me sentei, febril e exausta, lembrei-me daquilo que, na pressa de todos aqueles acontecimentos, tristes e alegres, tinha esquecido completamente — a carta de meu tio, John Eyre, à Sra. Reed, sua intenção de adotar-me e fazer-me sua herdeira. “Seria realmente um alívio”, pensei, “se eu tivesse mesmo uma pequena independência dessa; jamais poderei suportar ser vestida como uma boneca pelo Sr. Rochester, ou ficar sentada como uma segunda Danae, com a chuva de ouro caindo todo dia à minha volta. Escreverei para a ilha da Madeira assim que chegar em casa, e direi ao tio John que vou me casar, e com quem: se tivesse ao menos a perspectiva de um dia trazer ao Sr. Rochester alguma fortuna, poderia suportar melhor o ser mantida por ele”. E, um tanto reconfortada por essa idéia (que não deixei de executar naquele dia), aventurei-me uma vez mais a enfrentar o olhar de meu senhor e amo, que buscava o meu com a máxima insistência, embora eu desviasse tanto o rosto como os olhos. Ele sorriu; e achei que aquele sorriso era o que um sultão, num momento de felicidade e bondade, teria dado a uma escrava a quem seu ouro e jóias houvessem enriquecido; apertei fortemente a mão dele, que estava sempre à procura da minha, e a soltei vermelha da apaixonada pressão. — O senhor não precisa olhar dessa maneira — eu disse. — Se olhar, só usarei meus velhos vestidos de Lowood até o fim. Me casarei com aquele de algodãozinho lilás; o senhor pode fazer um robe para o senhor com seda cor de pérola, e uma série infinita de coletes com o cetim preto. Ele deu uma risadinha; esfregou as mãos. — Oh, como é belo vê-la e ouvi-la! — exclamou. — Não é original? Não é provocante! Eu não trocaria essa mocinha inglesa por todo o serralho do Grão Turco... com olhos de gazela e tudo! A alusão ao Oriente me irritou novamente. — Não substituirei um serralho para o senhor de modo nenhum — eu disse. — Assim, não me considere o equivalente de um. Se gosta de 330

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alguma coisa nesse estilo, vá procurar os bazares de Istambul sem mais demora, senhor, e aplique na compra de muitas escravas o dinheiro que parece não saber onde gastar satisfatoriamente aqui. — E que fará você, Jane, enquanto eu negocio tantas toneladas de carne humana e um tal sortimento de olhos negros? — Estarei me preparando para ir como missionária pregar a liberdade às escravas... as integrantes de seu harém entre elas. Eu me farei admitir lá e provocarei motins; e o senhor, como paxá, se verá num instante a ferros em nossas mãos, e eu, pelo menos, não consentirei em abrir suas cadeias até que tenha assinado uma carta, a mais liberal que um déspota já concedeu. — Eu consentiria em ficar à sua mercê, Jane. — Eu não teria mercê, Sr. Rochester, mesmo que o senhor a suplicasse com um olhar desses. Olhando assim, eu teria certeza de que, fosse qual fosse a carta que concedesse sob coerção, seu primeiro ato, quando libertado, seria violar suas condições. — Ora, Jane, que quereria você? Receio que me obrigue a submeter-me a uma cerimônia de casamento privada, além de que se realizará no altar. Estipulará, vejo, termos particulares... quais serão eles? — Desejo apenas tranqüilidade de espírito, senhor; não quero ter o espírito esmagado sob obrigações. Lembra-se do que disse de Céline Varens? Dos diamantes, das casimiras que deu a ela? Eu não serei sua Céline Varens inglesa. Continuarei a agir como governanta de Adèle; com isso ganharei minha casa e comida, e mais trinta libras por ano. Guarnecerei meu guarda-roupa com esse dinheiro, e o senhor me dará apenas... — Bem, o quê? — Sua consideração; e se eu lhe der a minha em troca, a dívida estará quitada. — Bem, quanto a fria impudência e puro orgulho inatos, você não tem rival — ele disse. Aproximávamo-nos agora de Thornfield. — Serlhe-á agradável jantar comigo esta noite? — perguntou, quando atravessamos os portões. — Não, obrigada, senhor. Jane Eyre

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— E por que esse “não, obrigada, senhor”, se se pode perguntar? — Eu nunca jantei com o senhor; e não vejo porque deva agora; até... — Até o quê? Você adora frases inacabadas. — Até que eu não possa evitar. — Será que você acha que eu como um ogre ou monstro, para temer me fazer companhia em meu repasto? — Não fiz nenhuma idéia quanto a isso, senhor; mas quero continuar como até agora por mais um mês. — Você deixará sua escravidão de governanta imediatamente. — Na verdade, e pedindo-lhe perdão, senhor, não farei isso. Continuarei como até agora. Vou me manter longe de seu caminho o dia todo, como estou acostumada a fazer; o senhor pode mandar me chamar à noite, quando tiver vontade de me ver, e eu irei então; mas não em outra hora. — Quero fumar, Jane, ou tomar uma pitada de rape, para confortar-me em tudo isso, “pour me donner une contenance”*, como diria Adèle; e infelizmente, não trouxe nem minha caixa de charutos nem minha caixa de rape. Mas escute. Agora é sua vez, pequena tirana, mas você acabará sendo minha; e assim que eu me apodere de você, para ter e manter, eu simplesmente ... usando uma linguagem figurada... a porei em cadeias assim (tocando a corrente do relógio). Sim, coisinha bonita, eu a usarei no peito, para não perder minha jóia. Disse isso ao me ajudar a descer da carruagem; e enquanto tomava depois Adèle nos braços, entrei em casa e me recolhi lá em cima. Ele me convocou à sua presença à noite, como combinado. Eu tinha preparado uma ocupação para ele; pois estava decidida a não passar todo o tempo numa conversa tête-à-tête. Lembreime de sua bela voz; sabia que ele gostava de cantar — os bons cantores geralmente gostam. Eu não era nenhuma vocalista, e, no fastidioso julgamento dele, tampouco uma boa música; mas adorava ouvir quando a apresentação era boa. Assim que o crepúsculo, hora romântica, começou a baixar sua cortina azul e estrelada sobre a gelosia, levantei-me, abri o piano e pedi-lhe, 332

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pelo amor de Deus, que cantasse para mim. Ele disse que eu era uma feiticeira caprichosa, e que preferia cantar em outra hora; mas afirmei que nenhuma hora era como aquela. — Eu gostava de sua voz? — ele me perguntou. — Muito. — Não me agradava alimentar sua suscetível vaidade; mas por aquela vez, e por uma questão de interesse, eu a bajularia e estimularia. — Então, Jane, você deve tocar o acompanhamento. — Muito bem, senhor, vou tentar. Tentei, mas acabei sendo afastada do banquinho e denominada de “uma desastradazinha”. Sendo eu posta de lado com tão pouca cerimônia — que era precisamente o que desejava — ele usurpou meu lugar e passou a se acompanhar a si mesmo; pois sabia tocar tão bem quanto cantar. Corri a instalar-me no vão de uma janela; e enquanto me sentava ali e olhava lá fora as árvores paradas e o escuro gramado, a seguinte canção era cantada com uma música suave e em tons suaves: O amor mais sincero que um coração já sentiu em seu âmago ardente, Despejou em cada veia, em rápido ritmo, a onda da existência. Eu esperava a sua vinda, a cada dia, E sua partida era a minha dor; O acaso que retardava seus passos Era gelo em todas as veias. Eu sonhava que seria uma felicidade indizível pois amava, para ser amado; E a esse objeto me abraçava cega e avidamente. Mas vasto e sem caminhos era o espaço Que havia entre nossas vidas, E perigoso como a espumosa impetuosidade Das verdes ondas do oceano. E assombrado como a estrada do assaltante, Através de desertos e bosques; Pois a Força, o Direito, a Desgraça e a Ira Se erguiam entre nossos espíritos. Perigos enfrentei; obstáculos desprezei; Maus augúrios desafiei; Tudo que ameaçava, perseguia, advertia, passei com impetuosidade. Jane Eyre

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Adiante seguia meu arco-íris, veloz como a luz; Eu voava como em sonhos; Pois gloriosa surgia à minha vista Aquela filha da Chuva e do Sol. Ainda brilhante em nuvens de penosa escuridão Refulge aquela alegria suave, solene; E neto me importa agora como os desastres Se acumularão em breve. Não me importa neste doce momento, Mesmo que tudo para o que corri Viesse aparado, forte e passageiro, Proclamando dorida vingança. Mesmo que o altivo ódio me golpeasse, E o Direito, a prisão me trouxesse, E a Força esmagadora, com furiosa carranca, Me jurasse eterna inimizade. Meu amor pôs sua mãozinha Com nobre fé sobre a minha, E jurou que o sagrado laço do matrimônio Nossa natureza entrelaçaria. Meu amor jurou, com o selo de um beijo, Comigo viver — e morrer; Tenho afinal minha felicidade indizível: Como amo — amado sou! Ele se levantou e se aproximou de mim, e vi aquele rosto ardente, aqueles olhos de falcão chispando, ternura e paixão em todos os seus traços. Fraquejei por um instante — mas logo me refiz. Não toleraria cenas melosas, manifestações ousadas; e estava em perigo de ambas; precisava preparar uma arma de defesa — afiei a língua; e quando ele me alcançou, perguntei com aspereza “a quem ele ia desposar”. — Aquela era uma estranha pergunta a ser feita por sua querida Jane. — De fato! Eu considerava uma pergunta muito natural e necessária, ele falara de sua futura esposa morrendo consigo. Que queria dizer com tal idéia paga? Eu não tinha nenhuma intenção de morrer com ele... podia contar com isso. — Oh, tudo que ansiava, tudo por que rezava, era que eu 334

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vivesse com ele! A morte não era para alguém como eu. — Na verdade era, eu tinha tanto direito a morrer, quando chegasse minha hora, quanto ele, mas esperaria essa hora, e não seria apressada como uma esposa hindu. — Será que eu lhe perdoaria a idéia egoísta, e demonstraria meu perdão com um beijo de reconciliação? — Não, eu preferiria que me desculpassem. Neste ponto ouvi-me chamada de “coisinha dura”; e acrescentou-se que “qualquer outra mulher se teria derretido até a medula ao ouvir tais stanzas cantadas em seu louvor”. Assegurei-lhe que eu era naturalmente dura — bastante empedernida, e que ele muitas vezes me acharia assim; e que, além disso, estava decidida a mostrar-lhe diversos pontos espinhosos de meu caráter: antes de se passarem as quatro semanas seguintes, ele devia saber plenamente que espécie de barganha fizera, enquanto ainda havia tempo de rescindi-la. — Poderia eu ficar quieta e falar racionalmente? — Eu ficaria quieta se ele quisesse; e quanto a falar racionalmente, eu me gabava de estar fazendo exatamente isso agora. Ele se lamuriou, muxoxeou. “Muito bem”, pensei, “pode fumegar e se agitar, como quiser, mas este é o melhor plano a seguir com o senhor, estou certa. Gosto mais do senhor do que posso exprimir; mas não vou mergulhar em sentimentalismo; e com esse aguilhão de despedida o manterei afastado da borda do fosso, também; e, além disso, manterei com sua ajuda perfurante essa distância entre o senhor e eu, que é o que melhor conduz à nossa mútua vantagem”. Pouco a pouco, eu o pusera num considerável estado de irritação; depois, quando se retirara ressentido para o outro extremo da sala, levantei-me e, dizendo “Desejo-lhe uma boa noite, senhor”, em minha natural e costumeira maneira, esgueireime pela porta lateral e me fui. Prossegui com o sistema assim iniciado durante todo o período de experiência; e com o maior sucesso. Ele ficou, evidentemente, um tanto irritado e encrespado; mas no todo eu podia ver que Jane Eyre

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estava sendo excelentemente entretido, e que uma submissão de ovelha e uma sensibilidade de rolinha, embora alimentassem mais o seu despotismo, teriam agradado menos o seu julgamento, satisfeito menos o seu bom senso e servido menos ao seu gosto. Na presença de outras pessoas, eu era, como antes, deferente e calada; qualquer outra linha de conduta teria sido inoportuna: só nas entrevistas noturnas é que o frustrava e afligia assim. Ele continuava a mandar chamar-me pontualmente assim que o relógio batia sete horas; embora, quando eu aparecia à sua frente, não usasse mais termos melosos como “amor” e “querida”: as melhores palavras a meu serviço eram “boneca provocante”, “duende maliciosa”, “bruxa”, “enjeitada” etc. Em vez de carícias, também, eu recebia agora caretas; em vez de um aperto na mão, um beliscão no braço; em vez de um beijo no rosto, um severo puxão de orelha. Estava tudo bem: no momento, eu decididamente preferia esses ferozes favores a qualquer coisa mais carinhosa. Via que a Sra. Fairfax me aprovava; sua ansiedade a meu respeito desaparecera; desta forma, eu tinha certeza de que agia bem. Enquanto isso, o Sr. Rochester afirmava que eu o estava desgastando até a pele e o osso, e ameaçava com terrível vingança por minha conduta atual em um período que se aproximava rapidamente. Eu sorria à socapa de suas ameaças. “Posso mantêlo em razoável contenção agora”, refletia, “e não duvido de que seja capaz de fazê-lo depois: se um expediente perde sua eficácia, imagina-se outro”. Contudo, minha tarefa não era fácil, afinal; muitas vezes eu preferiria agradá-lo a irritá-lo. Meu futuro marido tornava-se para mim o mundo inteiro; e mais que o mundo; quase a minha esperança de paraíso. Erguia-se entre mim e toda idéia de religião, como um eclipse intervém entre o homem e o vasto sol. Naqueles dias, eu não conseguia ver Deus por causa de Sua criatura, à qual idolatrava.

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CAPÍTULO 25

O

mês de namoro passou: suas últimas horas estavam contadas. Não havia como adiar o dia que se aproximava — o dia dos esponsais; e todos os preparativos para sua chegada estavam completos. Eu, pelo menos, nada mais tinha a fazer: lá estavam meus baús, arrumados, fechados a chave, encordoados, enfileirados junto à parede de meu quartinho; no dia seguinte, àquela hora, estariam longe, a caminho de Londres; e o mesmo aconteceria comigo (Data Vertia) — ou antes, não comigo, mas com uma certa Jane Rochester, uma pessoa a quem eu ainda não conhecia. Só faltava pregar as etiquetas com os endereços, e lá estavam elas, quatro cartõezinhos quadrados, na gaveta. O próprio Sr. Rochester escrevera o endereço: “Sra. Rochester, Hotel..., Londres”, em cada um: eu não conseguia decidir-me a colá-los, ou a mandar colá-los. Sra. Rochester! Não existia uma tal pessoa, só nasceria na manhã seguinte, em algum momento após as oito horas; e eu esperaria para ter certeza de que viera ao mundo viva, antes de atribuir-lhe toda aquela propriedade. Bastava que no armário do outro lado, defronte à minha penteadeira, roupas que se dizia serem dela já houvessem substituído meu vestido negro e meu chapéu de palha, pois não era a mim que pertencia aquele conjunto de vestes matrimoniais; o vestido cor de pérola, o vaporoso véu suspenso da usurpada valise. Fechei o armário para esconder o estranho objeto em forma de visagem que continha; e que, àquela hora Jane Eyre

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noturna — nove horas — emitia sem dúvida um fulgar bastante fantasmagórico em meio à penumbra do aposento. “Eu o deixarei sozinho, meu sonho branco”, disse. “Estou febril, ouço o vento soprando; sairei ao ar livre para senti-lo.” Não era apenas o corre-corre dos preparativos que me deixava febril; não era apenas a antecipação da grande transformação — a nova vida que se iniciaria no dia seguinte: essas duas circunstâncias tinham sua parcela, sem dúvida, na produção daquele estado de espírito irrequieto e excitado que me impelia a uma hora tão tardia para os jardins mergulhados na escuridão; mas uma terceira causa me influenciava o espírito mais que essas. Eu tinha no íntimo uma estranha e ansiosa idéia. Acontecera alguma coisa que não conseguia entender; ninguém soubera do acontecimento nem o vira, a não ser eu: ocorrera na noite anterior. O Sr. Rochester estava ausente de casa, e não tinha voltado ainda; fora a negócios a uma pequena propriedade de duas ou três fazendas que possuía a trinta milhas de distância — negócios que tinha de acertar pessoalmente, antes da planejada partida da Inglaterra. Eu aguardava seu retorno, ansiosa por aliviar meu espírito e buscar junto a ele a solução do enigma que me deixava perplexa. Espere até a volta dele, leitor; e, quando eu lhe revelar meu segredo, você partilhará da confidencia. Busquei o pomar, impelida ao seu abrigo pelo vento, que soprara forte e pleno todo o dia vindo do sul, sem no entanto trazer uma gota de chuva. Em vez de amainar com o avanço da noite, parecia aumentar de impetuosidade e aprofundar seu rugido: as árvores inclinavam-se uniformemente numa só direção, jamais voltando à posição normal, e mal recolhendo os galhos uma vez a cada hora; tão contínua era a força que as curvava para o norte — as nuvens vagavam de um pólo a outro, passando rápido, massa após massa: não se vira nenhum vislumbre de céu azul naquele dia de julho. Não foi sem certo prazer que corri diante do vento, entregando minha perturbação mental à imensurável torrente de ar que rugia pelo espaço. Descendo a alameda de loureiros, cheguei diante dos destroços do castanheiro; ele se erguia, negro e rachado; o 338

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tronco, dividido ao meio, abria-se fantasmagoricamente. As duas metades não se haviam separado uma da outra, pois a base firme e as fortes raízes as mantinham unidas embaixo; embora a comunidade vital estivesse destruída — a seiva não mais poderia fluir, os grandes galhos de ambos os lados estavam mortos, e as tempestades do inverno seguinte certamente derrubariam uma ou ambas; por enquanto, porém, podia-se dizer que formavam uma árvore — uma ruína, mas uma ruína inteira. — Vocês fizeram bem em se apegarem uma à outra — eu disse, como se os monstruosos fragmentos fossem coisas vivas e pudessem ouvir. — Acho que, mesmo danificadas como estão, carbonizadas e crestadas, deve haver uma pequena sensação de vida em vocês ainda: brotando dessa adesão às fiéis e honestas raízes, jamais voltarão a ter folhas verdes — jamais verão os pássaros fazendo ninhos e cantando idílios em seus galhos; para vocês, acabou-se o tempo do prazer e do amor; mas não estão desoladas; cada uma tem uma companheira para simpatizar consigo em sua decomposição. — Enquanto as olhava, a lua apareceu por um momento na parte do céu que ficava na fissura, o disco de um vermelho sangrento e meio encoberto; parecia lançarme um olhar espantado, lúgubre, e voltou a ocultar-se no mesmo instante na profunda vaga de nuvens. O vento se abateu por um segundo em torno de Thornfield; mas lá longe, sobre bosques e ribeiros, ressoou um bárbaro e melancólico lamento: era triste de ouvir, e pus-me novamente a correr. Vagueei de um lado para outro pelo pomar, recolhi as maçãs que juncavam o relvado em torno das raízes das árvores; depois me ocupei em separar as maduras das verdes; levei-as para dentro de casa e guardei-as na despensa. Depois fui à biblioteca, para ver se a lareira estava acesa, pois, embora fosse verão, sabia que numa noite tão escura o Sr. Rochester gostaria de ver um fogo vivo quando voltasse; sim, a lareira fora atiçada algumas vezes, e ardia bem. Coloquei a poltrona dele no canto da chaminé; rolei a mesa para junto dela; baixei a cortina, e mandei vir velas prontas para serem acesas. Mais inquieta que nunca, depois de concluir esses arranjos, Jane Eyre

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não conseguia ficar parada, nem mesmo permanecer dentro de casa: um pequeno relógio na sala e o velho relógio do saguão bateram dez horas simultaneamente. — Como está ficando tarde! — eu disse. — Vou correr até os portões lá embaixo; há luar de vez em quando; posso ver a uma boa distância na estrada. Ele pode estar vindo agora, e ir ao seu encontro me poupará alguns minutos de espera. O vento rugia no topo das grandes árvores que ladeavam os portões; mas a estrada, até onde eu podia ver, parecia inteiramente silenciosa e deserta, em ambas direções; a não ser pelas sombras das nuvens que a cruzavam ocasionalmente, quando a lua aparecia, era apenas uma longa e pálida linha, não assinalada por um único ponto. Uma lágrima pueril turvou-me a vista enquanto olhava — uma lágrima de decepção e impaciência; envergonhada dela, enxuguei-a. E fui ficando; a lua fechou-se inteiramente em sua câmara, e cerrou a cortina de densa nuvem; a noite escureceu; veio a chuva, soprada com força pelo vento. — Eu queria que ele viesse! Eu queria que ele viesse! — exclamei, tomada de hipocondríaco pressentimento. Esperara a chegada dele antes do chá; agora já estava escuro, que poderia tê-lo retido? Ocorrera um acidente? O acontecimento da noite passada me voltou à mente. Interpretei-o como um aviso de desgraça. Temia que minhas esperanças fossem demasiado brilhantes para se realizarem; e gozara de tanta felicidade ultimamente, que imaginava que minha felicidade passara o auge, e devia agora declinar. “Bem, não posso voltar à casa”, pensei. “Não posso ficar sentada diante da lareira, enquanto ele está lá fora neste tempo inclemente; melhor cansar as pernas que angustiar o coração; vou ao seu encontro.” Parti; andava rápido, mas não fui muito longe; não tinha ainda percorrido um quarto de milha, e já ouvia o bater dos cascos; surgiu um cavaleiro a todo galope; um cachorro corria a seu lado. Fora com os maus pressentimentos! Era ele, ali estava, montado em Mesrour, acompanhado por Pilot. Viu-me, pois a lua abrira 340

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um campo azul no céu e nadava em aquosa luminosidade: ele tirou o chapéu e o agitou sobre a cabeça. Corri ao seu encontro. — Aí está! — ele exclamou, estendendo a mão e curvando-se sobre a sela. — Você não pode passar sem mim, isso é evidente. Pise na ponta de minha bota; dê-me ambas as mãos: monte! Obedeci; a alegria tornava-me ágil; saltei para a frente dele. Como boas-vindas, recebi um ardente beijo e uma demonstração de triunfo, que engoli como pude. Ele se conteve em sua exaltação para perguntar: — Mas há algum problema, Janet, para que você venha ao meu encontro a esta hora? Alguma coisa errada? — Não, mas pensei que o senhor jamais viria. Não pude agüentar ficar esperando-o dentro de casa, especialmente com esta chuva e este vento. — Chuva e vento, realmente! Sim, você está pingando como uma sereia; entre em meu capote; mas acho que está febril, Jane. O rosto e a mão estão escaldando. Pergunto novamente: há algum problema? — Agora, nenhum; não estou com medo nem infeliz. — Então estava assim? — Mais ou menos; mas lhe direi tudo aos poucos, senhor; e aposto que simplesmente rirá de meus sofrimentos. — Vou rir de você com vontade depois de amanhã; até então, não me atrevo, meu prêmio ainda não é certo. Mas esta é você, que esteve tão escorregadia quanto uma enguia no último mês, e tão espinhenta como um espinheiro? Eu não podia pôr um dedo em lugar algum sem ser picado; e agora é como se tivesse recolhido uma ovelha perdida nos braços. Você se desviou do rebanho para buscar seu pastor, não foi, Jane? — Eu queria o senhor; mas não se gabe. Chegamos a Thornfield; agora deixe-me descer. Ele me depositou no calçamento. Enquanto John levava o seu cavalo, e ele me seguia para dentro de casa, disse-me que me apressasse a pôr algumas roupas secas e depois voltasse para encontrá-lo na biblioteca; e me deteve, quando me dirigia à escada, para fazer-me prometer que não me demoraria; e não me Jane Eyre

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demorei; em cinco minutos, juntei-me a ele. Encontrei-o ceando. — Sente-se e faça-me companhia, Jane: se Deus quiser, esta é a penúltima refeição que você fará em Thornfield Hall por um longo tempo. Sentei-me junto dele, mas disse-lhe que não podia comer. — É porque tem a perspectiva de uma viagem à sua frente, Jane? É a idéia de que vai para Londres que lhe tira o apetite? — Não posso ver claramente minha perspectiva esta noite, senhor; e mal sei que idéias tenho na cabeça. Tudo na vida parece irreal. — Exceto eu; sou bastante concreto... toque-me. — O senhor é o mais fantasmal de todos, é um simples sonho. Ele estendeu a mão, rindo. — Isto é um sonho? — disse, colocando-a perto de meus olhos. Tinha uma mão redonda, musculosa e vigorosa, e um braço comprido e forte. — Sim, mesmo que eu a toque, é um sonho — eu disse, afastando-a de diante de meu rosto. — Senhor, acabou a ceia? — Sim, Jane. Toquei a sineta e ordenei que retirassem a bandeja. Quando voltamos a ficar sós, aticei o fogo, e depois tomei um banquinho junto aos joelhos de meu senhor. — É quase meia-noite — eu disse. — Sim, mas lembre-se, Jane, que prometeu fazer vigília comigo na noite anterior ao meu casamento. — Prometi; e manterei minha promessa, ao menos por uma ou duas horas; não tenho nenhuma vontade de ir para a cama. — Todos os seus preparativos já estão concluídos? — Todos, senhor. — E os meus também — ela retrucou. — Já acertei tudo, e deixaremos Thornfield amanhã, meia hora após nossa volta da igreja. — Muito bem, senhor. — Você disse essa expressão... “muito bem”, com um extraordinário sorriso, Jane! Que bela mancha de rubor tem em cada face! E como seus olhos brilham estranhamente! Está se 342

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sentindo bem? — Creio que estou. — Crê! Que é que há? Diga-me o que está sentindo. — Eu não poderia, senhor, nenhuma palavra poderia exprimir o que sinto. Queria que esta hora agora jamais cessasse: quem sabe que destino a próxima pode trazer? — Isso é hipocondria, Jane. Você tem estado superexcitada, ou superfatigada. — O senhor se sente calmo e feliz? — Calmo?... Não; mas feliz... até o fundo do coração. Ergui o olhar para ele, para ler os sinais de felicidade em seu rosto: estava ardente e corado. — Dê-me sua confiança, Jane — ele disse. — Descarregue o espírito de qualquer peso que o oprima, comunicando-o a mim. Que teme você? Que eu não me revele um bom marido? — É a idéia mais distante de meus pensamentos. — Sente-se apreensiva quanto à nova esfera em que está para entrar? Quanto nova vida para a qual está passando? — Não. — Você me intriga, Jane, sua aparência e seu tom de sentida audácia me deixam perplexo e sofrendo. Quero uma explicação. — Então, senhor, escute. O senhor esteve fora ontem à noite? — Estive, sei disso, e você insinuou há pouco algo que aconteceu em minha ausência; nada importante, provavelmente; mas, em suma, a perturbou. Ouçamos o que foi. A Sra. Fairfax disse alguma coisa, por acaso? Ou você ouviu os criados falando? Seu sensível respeito próprio foi ferido? — Não, senhor. — Bateram doze horas; esperei que o reloginho da sala concluísse seu trinado cristalino, e o da sala suas grossas e vibrantes badaladas, e depois prossegui: — Durante todo o dia, ontem, estive ocupada, e muito satisfeita com minha incessante ocupação; pois não me sinto perturbada, como o senhor parece pensar, por quaisquer temores obsessivos sobre a nova esfera etc: acho uma coisa gloriosa ter a esperança de viver com o senhor, porque o amo. Não, senhor, não me acaricie agora... deixe-me falar sem atrapalhação. Ontem eu confiava muito na Providência, Jane Eyre

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e acreditava que os acontecimentos trabalhavam em combinação para o seu bem e o meu; fez um belo dia, se o senhor se lembra... a calma do ar e do céu impedia apreensões a respeito de sua segurança ou conforto, em sua viagem. Passeei um pouco no calçamento após o chá, pensando no senhor; e o via tão perto de mim, em minha imaginação, que mal sentia a sua ausência. Pensava na vida que tinha diante de mim... sua vida, senhor... uma existência mais ampla e movimentada que a minha, tanto mais quanto as profundezas do oceano o são do riacho que corre para ele. Perguntava-me por que os moralistas chamam este mundo de um lúgubre deserto: para mim, ele florescia como uma rosa. Ao pôr-do-sol, o ar se tornou frio e o céu nublado: entrei. Sophie me chamou lá em cima para ver meu vestido de noiva, que acabavam de trazer; e debaixo dele, dentro da caixa, encontrei seu presente... o véu que, em sua principesca extravagância, o senhor mandou buscar em Londres, resolvido, suponho, já que eu não aceitaria jóias, a tapear-me para aceitar uma coisa igualmente cara. Sorri ao desdobrá-lo, e imaginei de que modo ia arreliá-lo sobre seus gostos aristocráticos e seus esforços para disfarçar uma noiva plebéia nos atributos de uma nobre. Pensei em como lhe traria o quadrado de renda sem bordado que mandei preparar como cobertura para minha cabeça de baixa extração, e perguntaria se aquilo não era suficientemente bom para uma mulher que não podia trazer ao marido nem fortuna, nem beleza, nem ligações. Via claramente a aparência que o senhor teria; e ouvia suas respostas impetuosamente republicanas, e a altiva negação de qualquer necessidade de aumentar sua riqueza, ou elevar sua posição casando-se com uma bolsa ou com uma coroa. — Como viu bem dentro de mim, sua feiticeira! — interrompeu o Sr. Rochester. — Mas que encontrou no véu além do bordado? Encontrou veneno, ou uma adaga, para parecer tão triste agora? — Não, não, senhor; além da delicadeza e riqueza do tecido, não encontrei nada a não ser o orgulho de Fairfax Rochester, e isso não me assustou, porque estou acostumada à visão desse demônio. Mas, senhor, à medida que escurecia, o vento ficou mais forte, soprou ontem à noite não como sopra agora... violento e 344

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impetuoso... mas “com um som triste, lamentoso”, muito mais sinistro. Eu desejava que o senhor estivesse em casa. Vim a esta sala, e a visão da poltrona vazia e da lareira sem fogo me causou um calafrio. Durante algum tempo depois de ter ido para a cama, não consegui dormir... uma sensação de ansiosa excitação me perturbava. O vento, sempre aumentando de força, parecia a meus ouvidos abafar um lamentoso sub-som: se era dentro de casa ou lá fora, eu não podia distinguir a princípio, mas voltava sempre, incerto mas dolente a cada rajada; afinal decidi que devia ser algum cachorro uivando longe. Fiquei satisfeita quando acabou. Quando adormeci, continuei em sonhos com a idéia de uma noite escura e tempestuosa. Continuei também a desejar estar com o senhor, e experimentava uma estranha e lamentável consciência de que alguma barreira nos dividia. Durante todo o primeiro sono, eu percorria os meandros de uma estrada desconhecida; cercava-me uma total escuridão; a chuva me açoitava; eu estava assoberbada com o peso de uma criança, uma criaturinha bem pequena, demasiado nova e frágil para andar, e que tremia em meus braços frios e chorava impiedosamente em meus ouvidos. Eu achava que o senhor estava na estrada muito à minha frente; e forçava cada nervo do corpo para alcançá-lo, e fazia repetidos esforços para emitir o seu nome e pedir-lhe que parasse... mas meus movimentos estavam acorrentados, e minha voz morria inarticulada; enquanto o senhor, eu sentia, afastava-se mais e mais a cada momento. — E esses sonhos pesam em seu espírito agora, Jane, que estou junto a você? Coisinha nervosa! Esqueça as desgraças imaginárias, pense apenas na felicidade real! Você diz que me ama, Jane: sim... não vou esquecer isso; e você não pode negá-lo. Essas palavras não morreram inarticuladas em seus lábios. Eu as ouvi, claro e suave; um pensamento demasiado solene, talvez, mas doce como música: “Acho uma coisa gloriosa ter a esperança de viver com o senhor, porque o amo.” Você me ama, Jane? Repita. — Amo, senhor... amo, com todo o meu coração. — Bem — ele disse, após um silêncio de alguns minutos — é estranho; mas essa sentença entrou dolorosamente em meu peito. Jane Eyre

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Por quê? Acho que porque você a disse com um vigor tão sério, tão religioso, e porque seu olhar, erguido para mim agora, é a própria sublimidade da fé, da verdade, da devoção; é demasiado como se um espírito estivesse junto a mim. Pareça má, Jane, como você bem sabe parecer; fabrique um de seus sorrisos loucos, tímidos, provocativos; diga que me odeia... arrelie-me, embarace-me; eu preferia ser insultado a entristecido. — Eu o arreliarei e embaraçarei a seu gosto, senhor, quando acabar minha história; mas ouça-me até o fim. — Eu pensava, Jane, que roce já tinha me contado tudo. Achava que tinha descoberto a origem de sua melancolia num sonho. Balancei a cabeça. — Quê! Ainda há mais coisas? Mas não creio que seja algo importante. Comunico-lhe antecipadamente minha incredulidade. Prossiga! A inquietude de sua expressão, a impaciência um tanto apreensiva de suas maneiras me surpreenderam; mas prossegui. — Tive outro sonho, senhor; sonhei que Thornfield Hall era uma lúgubre ruína, um reduto de morcegos e corujas. Pensei que de todo o imponente frontão nada mais restava a não ser um muro parecido a uma casca, muito alto e de aparência muito frágil. Eu vagueava ao luar pelo terreno lá dentro, invadido pelo mato; aqui, dava com uma lareira de mármore, ali, com um pedaço caído de cornija. Envolta num xale, levava ainda a criancinha desconhecida; não podia depositá-la em parte alguma, por mais cansados que estivessem meus braços — por mais que o peso dela impedisse o meu avanço, eu tinha de segurá-la. Ouvia o galope de um cavalo distante, na estrada; tinha certeza de que era o senhor, que partia por muitos anos, e para um país distante. Trepei na fina parede com rapidez frenética, perigosa, ansiosa por conseguir ter um vislumbre do senhor lá de cima; as pedras rolavam sob meus pés, os ramos de hera a que me agarrava cediam, a criança se agarrava a meu pescoço aterrorizada, e quase me estrangulava. Via o senhor como um ponto numa trilha branca, diminuindo a cada instante. O temporal soprava tão forte, que eu não conseguia me aprumar. Sentei-me na estreita borda; silenciei a estranha 346

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criança que tinha no colo: o senhor dobrou uma curva da estrada, curvei-me para ter uma última visão; a parede desmoronou; fui sacudida; a criança rolou-me dos joelhos, perdi o equilíbrio, caí e acordei. — E agora, Jane, é tudo? — Todo o prefácio, senhor: a história ainda está por vir. Ao despertar, um brilho me ofuscou os olhos, pensei: oh, já é dia! Mas estava enganada; era apenas uma vela. Sophie, eu supunha, tinha entrado. Havia uma luz em minha penteadeira, e a porta do armário, onde eu pendurara meu vestido de noiva c meu véu antes de ir para a cama, estava aberta; ouvi um farfalhar lá dentro. Perguntei: “Sophie, que está fazendo?” Ninguém respondeu; mas um vulto emergiu do armário; pegou a vela, ergueu-a, e examinou as roupas penduradas. “Sophie! Sophie!” tornei a gritar, e novamente só houve silêncio. Eu me tinha erguido na cama, e me curvei: primeiro a surpresa, e depois o pasmo tomaram conta de mim; e então senti o sangue gelar-me nas veias. Sr. Rochester, aquela não era Sophie, não era Leah, não era a Sra. Fairfax; não era... não, eu tinha certeza, e ainda tenho... não era nem mesmo aquela estranha mulher, Grace Poole. — Deve ter sido uma delas — interrompeu-me o meu amo. — Não, senhor, asseguro-lhe solenemente que não. A forma à minha frente jamais cruzara minha vista dentro de Thornfield Hall antes; a altura, os contornos eram novos para mim. — Descreva-a, Jane. — Parecia, senhor, uma mulher, alta e grande, com cabelos bastos e negros que lhe caíam até as costas. Não sei que traje usava: era branco e reto; mas se era vestido, lençol ou mortalha, não sei dizer. — Viu o rosto dela? — A princípio, não. Mas ela acabou tirando o véu de seu lugar; ergueu-o, olhou-o demoradamente, e depois o jogou sobre a cabeça, e se voltou para o espelho. Nesse momento, vi o reflexo do rosto e as feições bem distintamente, no escuro espelho retangular. — E como eram? Jane Eyre

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— Para mim, pavorosos e fantasmagóricos... oh, senhor, nunca vi um rosto como aquele! Era um rosto descorado... era um rosto selvagem. Gostaria de poder esquecer o rolar daqueles olhos injetados e a pavorosa inchação negra daqueles traços! — Os fantasmas geralmente são pálidos, Jane. — Aquele senhor, era violáceo; os lábios inchados e negros; a testa vincada; as sobrancelhas negras erguidas num grande arco sobre os olhos rubros. Posso dizer-lhe o que me lembrou? — Pode. — O abominável espectro alemão... o vampiro. — Ah! Que foi que ela fez? — Senhor, tirou o véu da descarnada cabeça, rasgou-o em duas partes e, jogando ambas no chão, pisoteou-as. — E depois? — Puxou a cortina da janela e olhou para fora; talvez visse a madrugada se aproximando, pois, pegando a vela, recuou para a porta. Bem ao lado de minha cama, parou, os olhos de fogo me encararam... ela aproximou a vela de meu rosto, e apagou-a sob meus olhos. Eu tinha consciência de que seu rosto lúgubre ardia acima do meu, e perdi os sentidos; pela segunda vez em minha vida... só a segunda vez... tornei-me insensível ao terror. — Quem estava a seu lado quando voltou a si? — Ninguém, senhor, só o dia claro. Levantei-me, lavei a cabeça e o rosto, bebi um longo gole d’água; sentia que, apesar de enfraquecida, não estava doente, e decidi que ninguém, a não ser o senhor, saberia dessa visão. Agora, senhor, diga-me quem, o que era essa mulher? — Criação de um cérebro superestimulado; uma coisa é certa, preciso cuidar de você, meu tesouro; nervos como os seus não foram feitos para duros tratos. — Senhor, pode acreditar em mim, a culpa não foi de meus nervos; a coisa foi real, o incidente realmente aconteceu. — E seus sonhos anteriores, foram reais também? Thornfield Hall é uma ruína? Estou separado de você por obstáculos insuperáveis? Estou deixando-a sem uma lágrima... sem um beijo... sem uma palavra? 348

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— Ainda não. — Estou para fazer isso? Ora, já nasceu o dia que nos unirá indissoluvelmente; e uma vez unidos, não haverá repetições desses terrores mentais; isso eu garanto. — Terrores mentais, senhor! Eu gostaria de poder acreditar que fossem apenas isso; gostaria agora mais do que nunca, uma vez que nem mesmo o senhor consegue explicar-me o mistério daquela horrível visitante. — E, já que não posso explicá-lo, Jane, deve ter sido irreal. — Mas, senhor, quando eu disse isso a mim mesma ao me levantar hoje de manhã, e quando olhei em volta do quarto para ganhar coragem e conforto com o aspecto revificante de cada objeto familiar em plena luz do dia, lá... no tapete... vi o que desmentia claramente a minha hipótese, o véu, rasgado de alto a baixo em duas metades! Senti o Sr. Rochester estremecer; apressou-se a passar os braços em torno de mim. — Graças a Deus! — exclamou — pelo fato de que, se alguma coisa maligna chegou perto de você na noite passada, foi só o véu que ficou danificado. Oh, pensar no que poderia ter acontecido! Inspirou e puxou-me para tão perto de si, que eu mal podia respirar. Após um silêncio de alguns minutos, continuou animadamente: — Agora, Janet, vou lhe explicar tudo isso. Foi meio sonho, meio realidade. Não duvido de que uma mulher entrou em seu quarto, e essa mulher era... devia ser... Grace Poole. Você mesma a chama de um ser estranho: por tudo o que sabe, tem motivos para chamá-la assim... o que ela me fez... o que fez a Mason? Num estado entre o sono e a vigília, você notou a entrada e os atos dela; mas febril, quase em delírio como estava, deu-lhe uma aparência de gobelino, diferente da que ela tem: os longos cabelos descabelados, o escuro rosto inchado, a estatura exagerada, foram criações de sua imaginação; resultados do pesadelo, o desdenhoso rompimento do véu foi real; e isso é bem dela. Vejo que gostaria de me perguntar por que mantenho uma mulher dessas em casa: quando tivermos um ano e um dia de casados, eu lhe direi; mas Jane Eyre

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não agora. Está satisfeita, Jane? Aceita minha solução para o mistério? Refleti, e na verdade me pareceu a única possível: satisfeita não estava, mas para agradá-lo tentei parecer estar — aliviada, certamente me sentia; assim, respondi-lhe com um sorriso de satisfação. E então, como passava muito de uma hora, prepareime para deixá-lo. — Sophie não dorme com Adèle no quarto das crianças? — ele me perguntou, quando acendi minha vela. — Sim, senhor. — E há espaço suficiente na cama do Adèle para você. Deve partilhá-la com ela esta noite, Jane: não admira que o incidente que você me relatou a deixe nervosa, e eu preferia que não dormisse sozinha: prometa-me ir para o quarto das crianças. — Terei muito prazer em fazer isso, senhor. — E tranque a porta firmemente por dentro. Acorde Sophie quando subir, a pretexto de pedir-lhe que a acorde cedo amanhã; pois deve estar vestida e alimentada antes das oito. E agora, chega de pensamentos sombrios, expulse essas aborrecidas preocupações, Janet. Não ouve a que suaves murmúrios o vento se reduziu? E a chuva não bate mais nas vidraças: olhe aqui (ergueu a cortina)... está uma noite adorável! E estava mesmo. Metade do céu mostrava-se pura e sem mancha: as nuvens, que agora cavalgavam diante do vento, que mudara para o oeste, enchiam os lados do leste em colunas compridas e prateadas. A lua luzia pacificamente. — Bem — disso o Sr. Rochester, olhando-me inquisitivamente nos olhos — como está minha Janet agora? — A noite está serena, senhor; eu também. — E não sonhará com separação e sofrimento esta noite; mas com um amor feliz e uma união benfazeja. Essa previsão só se cumpriu pela metade: não sonhei realmente com sofrimento, mas tampouco sonhei com alegrias; pois nem cheguei a dormir. Com a pequena Adèle nos braços, fiquei observando o sono da infância — tão tranqüilo, tão desapaixonado, tão inocente — à espera da chegada do dia: toda 350

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a minha vida estava desperta e se agitava dentro de mim, e assim que o sol nasceu, levantei-me também. Adèle agarrou-se a mim quando a deixei; lembro-me de que a beijei ao tirar suas mãozinhas de meu pescoço; e chorei curvada sobre ela com uma estranha emoção, deixando-a por temer que meus soluços interrompessem seu ainda tranqüilo repouso. Ela parecia o símbolo de minha vida passada; e aquele para quem eu ia agora me ataviar, o símbolo temido, mas adorado, de meus desconhecidos dias futuros.

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CAPÍTULO 26

S

ophie veio às sete para vestir-me; demorou-se muito, de fato, para realizar essa tarefa; tanto, que o Sr. Rochester, impacientando-se, suponho, com minha demora, mandou perguntar por que eu não descia. Ela acabava de pregar-me o véu (o simples quadrado de renda, afinal) nos cabelos com um broche; apressei-me a sair de suas mãos assim que pude. — Pare! — ela gritou em francês. — Olhe-se no espelho, não deu nem uma olhada. Assim, voltei-me à porta; vi uma figura vestida e velada, tão diferente de minha costumeira imagem que parecia quase a imagem de uma estranha. — Jane! — gritou uma voz, e corri para baixo. Fui recebida aos pés da escada pelo Sr. Rochester. — Retardatária! — ele disse. — Tenho a cabeça em fogo de impaciência, e você demora tanto! Levou-me para a sala de jantar, examinou-me toda cuidadosamente, declarou-me “bela como um lírio, e não apenas o orgulho de sua vida, mas o desejo de seus olhos”, e depois, dizendo-me que me daria cerca de dez minutos para comer o desjejum, tocou a sineta. Um dos criados que ele contratara ultimamente, um palafreneiro, respondeu-lhe. — John está aprontando a carruagem? — Sim, senhor. — A bagagem já foi trazida para baixo? 352

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— Estão trazendo-a, senhor. — Vá à igreja, veja se o Sr. Wood (o clérigo) e o ajudante estão lá, volte e me diga. A igreja, como sabe o leitor, ficava logo além dos portões; o palafreneiro logo retornou. — O Sr. Wood está na sacristia, senhor, pondo a sobrepeliz. — E a carruagem? — Os cavalos estão sendo atrelados. — Não queremos que vá à igreja; mas deve estar pronta assim que voltarmos, todas as caixas e bagagens arrumadas e amarradas, e o cocheiro em seu assento. — Sim, senhor. — Jane, está pronta? Levantei-me. Não havia damas de companhia nem parentes para assistir ou pôr em ordem: ninguém, a não ser o Sr. Rochester e eu. A Sra. Fairfax estava no saguão quando passamos. Eu gostaria de falar com ela, mas minha mão estava presa num aperto de ferro: era arrastada por uns passos que mal conseguia acompanhar; e bastava olhar para o rosto do Sr. Rochester para ver que não se toleraria nem um segundo de atraso, por nenhum motivo. Imagino se outro noivo algum dia pareceu com ele — tão decidido a um propósito, tão sombriamente resoluto; ou que, debaixo de sobrancelhas tão franzidas, revelasse olhos tão inflamados e chispantes. Não sei se o dia estava bonito ou feio; ao descer o caminho de entrada da propriedade, não olhei nem o céu nem a terra: meu coração estava com meus olhos; e ambos pareciam ter migrado para o corpo do Sr. Rochester. Queria ver a coisa invisível que, enquanto prosseguíamos, ele parecia olhar ferozmente. Queria sentir os pensamentos cuja força ele parecia enfrentar e resistir. No portão do cemitério, paramos: ele descobriu que eu estava inteiramente sem fôlego. — Estou sendo cruel em meu amor? — ele perguntou. — Descanse um momento, apóie-se em mim, Jane. E agora consigo lembrar-me da imagem da velha casa cinzenta de Deus erguendo-se tranqüila à minha frente, de um corvo Jane Eyre

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voando em círculos em torno do campanário, de um encrespado céu matinal acima. Lembro-me alguma coisa, também, das sepulturas cobertas de verde; e não esqueci tampouco de duas figuras estranhas andando entre os montículos e lendo gravemente as inscrições gravadas nas poucas lápides musgosas. Notei-as porque, quando nos viram, passaram para os fundos da igreja; e não tive dúvidas de que iam entrar pela porta lateral e assistir à cerimônia. O Sr. Rochester não os viu; olhava seriamente meu rosto, do qual o sangue tinha momentaneamente fugido, aposto, pois sentia a testa molhada, e as faces e os lábios gelados. Quando me refiz, o que logo aconteceu, ele subiu delicadamente comigo o caminho até o pórtico. Entramos no silencioso e humilde templo; o sacerdote esperava com sua sobrepeliz branca no altar baixo, o sacristão ao lado. Tudo estava parado, só duas sombras se moviam num canto remoto. Minha conjectura fora correta: os estranhos haviamse esgueirado à nossa frente, e agora estavam ao lado da cripta dos Rochester, de costas para nós, olhando através do corrimão o túmulo de mármore manchado pelo tempo, onde um anjo ajoelhado guardava os restos de Damer Rochester, assassinado em Marston Moor, na época das guerras civis, e de Eliza-beth, sua mulher. Tomamos nosso lugar na grade de comunhão. Ouvindo um passo cauteloso atrás de mim, olhei por cima do ombro: um dos estranhos — um cavalheiro, evidentemente — adiantava-se pela capela. O serviço começou. A explicação da intenção do casamento passou, e depois, o clérigo deu um passo à frente, e, curvando-se ligeiramente para o Sr. Rochester, prosseguiu: — Exijo e cobro de vocês dois (pois terão de responder no terrível Dia do Julgamento, quando os segredos de todos os corações serão revelados), que se qualquer um conhece algum impedimento pelo qual não possam ser legalmente unidos em matrimônio, confesse agora; pois saibam bem que os que não se unem pela Palavra de Deus, não estão unidos por Deus, nem seu casamento é legal. Fez uma pausa, como manda o costume. Quando é que a pausa 354

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após essa sentença é quebrada por uma resposta? É possível que nem uma só vez em cem anos. E o clérigo, que não erguera os olhos de seu livro, e suspendera a respiração apenas por um momento, ia prosseguir: já tinha a mão estendida para o Sr. Rochester, e seus lábios se abriam para perguntar: “Aceita essa mulher como sua legítima esposa?”, quando uma voz clara e próxima disse: — O casamento não pode prosseguir: eu declaro a existência de um impedimento. O sacerdote ergueu o olhar para o homem que falara e ficou mudo; o sacristão fez a mesma coisa; o Sr. Rochester moveu-se ligeiramente, como se um terremoto houvesse rolado sob seus pés: tomando uma posição mais firme, e sem voltar a cabeça ou os olhos, disse: — Prossiga. Um profundo silêncio se abateu quando ele pronunciou esta palavra, com entonação baixa mas profunda. Afinal, o Sr. Wood disse: — Não posso prosseguir sem fazer uma investigação sobre o que foi afirmado, e provar sua verdade ou falsidade. — A cerimônia está inteiramente interrompida — acrescentou uma voz às nossas costas. — Tenho condições de provar minha acusação: existe um impedimento insuperável a esse casamento. O Sr. Rochester ouviu, mas não deu atenção: permaneceu obstinado e rígido, sem fazer movimento algum, a não ser para se apoderar de minha mão. Que aperto quente e forte dava! E como sua fronte, como mármore lapidado, estava pálida e maciça naquele momento! Como seus olhos fulgiam, ainda atentos, ainda alucinados! O Sr. Wood parecia não saber o que fazer. — Qual é a natureza do impedimento? — perguntou. — Talvez possa ser superado... afastado com alguma explicação. — É difícil — foi a resposta. — Eu o chamei de insuperável, e falei judiciosamente. O homem que falava se adiantou e se apoiou na grade. E continuou, emitindo cada palavra distintamente, calmamente, mas não em voz muito alta: Jane Eyre

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— Consiste simplesmente na existência de um casamento anterior. O Sr. Rochester tem uma esposa viva. Meus nervos vibraram, com aquelas palavras faladas em voz baixa, como jamais tinham vibrado com o trovão — meu sangue sentiu a sua sutil violência como jamais sentira o gelo ou o fogo; mas estava calma, em nenhum perigo de desmaiar. Olhei o Sr. Rochester; fiz com que ele me olhasse. Todo o seu rosto era uma rocha sem cor; os olhos eram ao mesmo tempo chispas e pedra. Ele não negava nada; parecia pronto a desafiar tudo. Sem falar, sem sorrir, sem parecer reconhecer em mim um ser humano, apenas puxou-me pela cintura com o braço e me pôs a seu lado. — Quem é o senhor? — perguntou ao intruso. — Meu nome é Briggs, solicitador da Rua..., em Londres. — E me atribui uma esposa? — Lembro-lhe a existência de sua senhora, senhor, que a lei reconhece, mesmo que o senhor não. — Tenha a bondade de dar-me uma descrição dela... com nome, filiação, lugar de moradia. — Certamente. — O Sr. Briggs tomou um papel do bolso e o leu, numa espécie de voz oficial, anasalada: — “Afirmo c posso provar que a 20 de outubro, D.... (uma data de quinze anos atrás), Edward Fairfax Rochester, de Thornfield Hall, no condado de..., e de Ferndean Manor, em......shire, Inglaterra, casou-se com minha irmã, Bertha Antoinetta Mason, filha de Jonas Mason, comerciante, e de Antoinetta Mason, sua esposa, uma mestiça, na Igreja de..., Spanish Town, Jamaica. O registro do casamento será encontrado no cartório daquela igreja — e uma cópia está agora em meu poder. Assinado, Richard Mason”. — Este... se é um documento autêntico... prova que me casei, mas não prova que a mulher aí mencionada como minha esposa ainda está viva. — Estava viva há três meses — respondeu o advogado. — Como o senhor sabe? — Tenho uma testemunha do fato, cujo depoimento nem mesmo o senhor contradirá. 356

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— Apresente-a, ou vá para o inferno. — Prefiro apresentá-lo... ele está no local. Sr. Mason, tenha a bondade de adiantar-se. O Sr. Rochester, ao ouvir esse nome, cerrou os dentes; experimentou também uma espécie de forte tremor convulsivo; perto dele como eu estava, senti o espasmódico movimento de fúria ou desespero percorrer-lhe o corpo. O segundo estranho, que até então tinha ficado no fundo, aproximou-se; um rosto pálido apontou por sobre o ombro do solicitador — sim, era o próprio Sr. Mason. O Sr. Rochester voltou-se e fuzilou-o com o olhar. Seus olhos, como já disse muitas vezes, eram negros, agora tinham uma luz fulva, ou antes, sangrenta, de ira; e o rosto enrubesceu — as faces oliváceas e a testa descorada receberam um fulgor semelhante ao de um incêndio que se alastra: ele se moveu, ergueu o forte braço — poderia ter atingido o Sr. Mason, tê-lo atirado no chão da igreja, ter-lhe tirado o fôlego com um golpe brutal— mas Mason recuou e gritou debilmente, — Deus de piedade! O desprezo caiu gélido sobre o Sr. Rochester — sua paixão morreu, como se um furo a tivesse feito murchar: ele apenas perguntou: — Que é que você tem a dizer? Uma resposta inaudível escapou dos lábios brancos do Sr. Mason. — Diabos o levem se não responder claramente. Pergunto-lhe novamente o que você tem a dizer? — Senhor, senhor — interrompeu o sacerdote — não esqueça de que está num lugar sagrado. — Depois, dirigindo-se a Mason, perguntou delicadamente: — O senhor sabe, senhor, se a esposa deste cavalheiro está viva ou não? — Coragem — exortou o advogado. — Fale! — Ela está agora em Thornfield Hall — disse Mason, em tom mais articulado. — Eu a vi em abril passado. Sou o irmão dela. — Em Thornfield Hall! — exclamou o clérigo. — Impossível! Moro aqui há muito tempo, senhor, e nunca ouvi falar de uma Jane Eyre

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Sra. Rochester em Thornfield Hall. Vi um triste sorriso contorcer os lábios do Sr. Rochester, e ele murmurou: — Não, por Deus! Eu cuidei para que ninguém soubesse dela... pelo menos com esse nome. — Refletiu por alguns instantes; por uns dez minutos, consultou-se a si mesmo, tomou sua decisão e anunciou-a. — Já chega! Tudo deve ser expelido de uma vez, como a bala de um cano. Wood, feche seu livro, e tire sua sobrepeliz; John Green (ao acólito), saia da igreja; não haverá casamento hoje. — O homem obedeceu. O Sr. Rochester continuou, ousada e indiferentemente: — Bigamia é uma palavra feia! E no entanto, eu pretendia ser um bígamo; mas o destino me cercou, ou a Providência me conteve... talvez a última. Sou pouco melhor que um demônio neste momento; e, como me diria o meu pastor aqui, mereço sem dúvida os mais severos julgamentos de Deus, até a condenação ao fogo eterno e aos vermes imortais. Cavalheiros, meu plano foi destroçado! O que esse advogado e seu cliente dizem é verdade, fui casado, e a mulher com quem me casaram está viva! Você diz que jamais soube de uma Sra. Rochester na casa ao lado, Wood; mas aposto que muitas vezes deu ouvidos aos mexericos sobre a misteriosa louca mantida sob guarda lá. Alguém lhe sussurrou que ela é minha meia irmã bastarda; outro, minha amante abandonada. Informo-lhe agora que ela é minha esposa, a quem desposei há quinze anos... de nome Bertha Mason; irmã desse decidido personagem, que está agora, com os membros trêmulos e as faces pálidas, mostrando-lhe o que um homem corajoso pode enfrentar. Ânimo, Dick... não tenha medo de mim! Eu antes bateria numa mulher do que em você. Bertha Mason está louca; e veio de uma família de loucos; idiotas e maníacos por três gerações. A mãe, a mestiça,, era louca e bêbada! Como descobri após ter desposado a filha, pois silenciaram os segredos da família antes. Bertha, como uma filha obediente, copiou a mãe em ambos os pontos. Eu tinha uma cônjuge encantadora... pura, sensata, modesta, podem imaginar que era um homem feliz. Passei por belas cenas! Oh, 358

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minha experiência foi celestial, se vocês soubessem! Mas não lhes devo mais nenhuma explicação. Briggs, Wood, Mason, convidoos todos a virem à casa e visitarem a paciente da Sra. Poole, e minha esposa! Verão que tipo de ser me tapearam para desposar, e julgarão se eu tinha ou não o direito de romper o acordo e procurar simpatia junto a alguma coisa ao menos humana. Esta moça — continuou, olhando-me — não sabia mais do que você, Wood, sobre esse repugnante segredo: ela pensava que tudo era direito e legal, e jamais sonhou em que ia ser apanhada numa união fingida com um infeliz lesado, já amarrado a uma cônjuge louca e embrutecida! Venham todos... sigam-me! Ainda me segurando firme, deixou a igreja; os três cavalheiros vieram atrás. Na porta da frente da mansão, encontramos a carruagem. — Leve-a de volta à cocheira, John — disse o Sr. Rochester friamente — não será necessária hoje. À nossa entrada, a Sra. Fairfax, Adèle, Sophie, Leah adiantaramse para cumprimentar-nos. — Dêem o fora... todas! — gritou o amo. — Fora com suas congratulações! Quem precisa delas? Eu, não! Estão quinze anos atrasadas! Seguiu em frente e subiu a escada, ainda segurando-me a mão, e ainda chamando os cavalheiros a acompanhá-lo, o que eles faziam. Subimos a primeira escada, atravessamos a galeria, seguimos para o terceiro andar: a porta baixa e negra, aberta pela chave-mestra do Sr. Rochester, admitiu-nos num quarto com tapeçarias, uma grande cama e um armário. — Você conhece o local, Mason — disse nosso guia. — Ela o mordeu e esfaqueou aqui. Levantou as cortinas da parede, revelando uma segunda porta, que também abriu. Num quarto sem janela, ardia um fogo, protegido por uma grade alta e forte; uma lâmpada pendia de uma corrente do teto. Grace Poole curvava-se sobre o fogo, aparentemente cozinhando alguma coisa numa caçarola. No fundo escuro, do outro lado do quarto, uma figura corria de um lado para outro. Não se podia dizer à primeira vista o que Jane Eyre

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era, uma fera ou um ser humano; aparentemente, arrastava-se de quatro; abocanhava e rosnava como algum estranho animal selvagem; mas estava coberta de roupas, e uma massa de cabelos negros, grisalhos, revoltos como uma crina, ocultava a cabeça e o rosto. — Bom-dia, Sra. Poole! — disse o Sr. Rochester. — Como vai? E como está sua protegida hoje? — Estamos suportáveis, senhor, obrigada — respondeu Grace, erguendo a comida fumegante até um pino. — Um tanto brava, mas não furiosa. Um grito feroz pareceu desmentir seu favorável comunicado: a hiena vestida ergueu-se e postou-se, muito alta, sobre as patas traseiras. — Ah, senhor, ela o vê! — exclamou Grace. — É melhor não ficar aqui. — Só uns poucos momentos, Grace, deve me permitir alguns momentos. — Cuidado então, senhor! Por Deus, tenha cuidado! A maníaca uivou; afastou as mechas embaraçadas de cabelo do rosto e olhou selvagemente seus visitantes. Reconheci o rosto violáceo — as feições desfeitas. A Sra. Poole se adiantou. — Mantenha-se afastada — disse o Sr. Rochester, empurrando-a para um lado. — Ela não tem nenhuma faca agora, creio? E estou em guarda. — A gente nunca sabe o que ela tem, senhor; é tão astuta: não há mortal que possa prever o que fará. — É melhor deixarmo-la — sussurrou Mason. — Vá para o inferno — foi a resposta de seu cunhado. — Cuidado! — gritou Grace. Os três cavalheiros recuaram ao mesmo tempo. O Sr. Rochester me empurrou para trás de si; a lunática saltou e agarrou-lhe traiçoeiramente a garganta, e ferrou-lhe os dentes na face; lutaram. Era uma mulher grande, quase igualando o marido em estatura, e além disso corpulenta: demonstrou força viril na disputa — por mais de uma vez quase o estrangulou, apesar de ele ser atlético. Ele poderia tê-la prostrado 360

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com um soco bem dado; mas não queria bater, apenas lutar. Finalmente, subjugou os braços dela; Grace Poole deu-lhe uma corda; ele os amarrou por trás; com mais cordas, que estavam à mão, amarrou-a a uma cadeira. Essa operação se realizou em meio aos berros mais ferozes e aos mais convulsivos mergulhos. O Sr. Rochester voltou-se então para os espectadores, olhou-os com um sorriso ao mesmo tempo sarcástico e desolado. — Esta é minha esposa — disse. — Esse é o único abraço conjugai que conhecerei... essas são as carícias que me confortam nas horas de lazer. E isso era o que eu desejava ter (pondo a mão em meu ombro), esta jovem, tão grave e quieta na boca do inferno, olhando calmamente as cambalhotas de um demônio. Eu a queria como uma mudança, após esse bárbaro ragu. Wood e Briggs, vejam a diferença! Comparem esses olhos límpidos com os globos rubros ali... esse rosto com aquela máscara... essa forma com aquela massa; depois me julguem, sacerdote do evangelho e homem da lei, e lembrem-se de que, como julgarem, assim serão julgados. Saiam agora! Devo trancar meu tesouro. Retiramo-nos todos. O Sr. Rochester quedou-se um momento atrás, para dar mais alguma ordem a Grace Poole. O solicitador falou-me quando descíamos a escada. — A senhorita, madame — disse — está isenta de toda culpa: seu tio terá prazer em saber disso... se na verdade ainda estiver vivo... quando o Sr. Mason voltar a Madeira. — Meu tio? Que há com ele? O senhor o conhece? — O Sr. Mason conhece. O Sr. Eyre é o correspondente em Funchal da casa dele há alguns anos. Quando seu tio recebeu sua carta informando a projetada união entre a senhorita e o Sr. Rochester, o Sr. Mason, que estava em Madeira para recuperar a saúde, a caminho da Jamaica, o encontrou por acaso. O Sr. Eyre comunicou a informação; pois sabia que meu cliente conhecia um cavalheiro chamado Rochester. O Sr. Mason, espantado e perturbado como a senhorita pode imaginar, revelou a verdadeira situação. Sinto dizer que seu tio está agora doente, de cama; da qual, considerando-se a natureza da doença... velhice... e o estágio que atingiu, não é provável que volte a levantar-se. Assim, ele não Jane Eyre

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pôde correr pessoalmente à Inglaterra para salvá-la da armadilha em que caíra, mas implorou ao Sr. Mason que não perdesse tempo para tomar medidas que evitassem o falso casamento. Enviou-o a mim, para que lhe desse assistência. Usei de todos os recursos, e estou satisfeito por não ter chegado tarde demais, como a senhorita, sem dúvida, também deve estar. Se não tivesse certeza de que seu tio estará morto antes da senhorita chegar a Madeira, eu a aconselharia a acompanhar o Sr. Mason na volta; mas, do jeito que estão as coisas, creio que é melhor permanecer na Inglaterra, até obter mais notícias, do Sr. Eyre ou sobre ele. Temos mais alguma coisa a fazer aqui? — perguntou ao Sr. Mason. — Não, não, vamo-nos — foi a ansiosa resposta; e sem esperarem para despedir-se do Sr. Rochester, saíram pela porta da mansão. O sacerdote ficou, para trocar algumas palavras, de advertência ou censura, com o altivo paroquiano; cumprido esse dever, também ele se foi. Ouvi-o sair parada na porta entreaberta de meu quarto, para o qual me havia retirado. Esvaziada a casa, tranquei-me, passei o ferrolho, para que ninguém se intrometesse, e pus-me — não a chorar, não a lamentar, pois estava demasiado calma para isso, mas — mecanicamente, a tirar o vestido de noiva e substituí-lo pelo de tecido barato que usara no dia anterior, segundo pensava pela última vez. Depois me sentei: sentia-me fraca e cansada. Apoiei os braços numa mesa e deixei cair sobre eles a cabeça. E então comecei a pensar: até então apenas ouvira, vira, me movimentara — seguira acima e abaixo aonde me levavam ou arrastavam — observara um acontecimento após outro, revelação após revelação; mas agora, pensava. A manhã fora bastante tranqüila — com exceção da breve cena com a louca, o incidente na igreja não fora barulhento; não houvera explosão de paixão, discussão em voz alta, disputa; não houvera contestação ou desafio; lágrimas, soluços: umas poucas palavras tinham sido trocadas, uma objeção fora calmamente expressa ao casamento; algumas perguntas curtas, severas, feitas pelo Sr. Rochester; respostas, explicações, provas; uma clara admissão da verdade feita pelo meu amo; depois vira-se a prova 362

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viva; os intrusos tinham partido; e tudo estava acabado. Eu estava em meu quarto, como sempre — simplesmente eu mesma, sem nenhuma mudança óbvia, nada me atingira, ferira ou estropiara. E no entanto, onde estava a Jane Eyre do dia anterior? Onde estava a sua vida? Onde estavam as suas perspectivas? Jane Eyre, que fora uma mulher ardente e esperançosa — quase uma noiva — era novamente uma moça fria e solitária; suas perspectivas, desoladas. Uma geada de Natal viera em pleno solstício; uma branca tempestade de dezembro redemoinhara sobre junho; o gelo cobria as maçãs maduras, nevascas esmagavam as rosas em flor; sobre os campos de feno e de milho jazia uma gélida mortalha; paisagens que ontem enrubesciam cheias de flores, hoje estavam cobertas de neve imaculada; e os bosques, que doze horas antes ondeavam folhudos e fragrantes como canteiros nos trópicos, agora se estendiam, desertos, selvagens e brancos como florestas de pinheiros na invernal Noruega. Minhas esperanças estavam todas mortas — atingidas por uma sutil condenação, como a que, numa só noite, se abatera sobre todos os primogênitos do Egito. Eu contemplava minhas nutridas esperanças, ainda ontem tão florescentes e luminosas; estavam por terra, cadáveres rígidos, frios, lívidos, que jamais ressuscitariam. Contemplei o meu amor, aquele sentimento que era de meu amo — que ele criara; tiritava em meu coração, como um bebê doente num berço frio; a doença e a angústia haviam-se apoderado dele; não podia buscar os braços do Sr. Rochester — não podia extrair calor de seu peito. Oh, eu nunca mais poderia voltar-me para ele; pois a fé fora ferida — a confiança destruída! O Sr. Rochester não era mais para mim o que tinha sido; pois não era o que eu julgava que fosse. Eu não lhe atribuiria maldade; não diria que me traíra; mas o atributo da imaculada verdade se desligara da idéia que eu fazia dele, e eu tinha de sumir de sua presença; isso eu percebia bastante bem. Quando — como — para aonde, não podia ainda discernir; mas não duvidava de que ele próprio me tocaria de Thornfield. Parecia-me que não poderia ter uma verdadeira afeição por mim; fora apenas uma paixão, derrotada; ele não me quereria mais. Eu devia temer até cruzar o seu caminho agora: Jane Eyre

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minha visão devia ser-lhe odiosa. Oh, como meus olhos tinham sido cegos! Como fora fraca a minha conduta! Tinha os olhos tapados e fechados; a escuridão parecia redemoinhar à minha volta, e as reflexões me vinham como uma negra e confusa torrente. Abandonada, relaxada e sem esforço, era como se me tivesse deitado no leito seco de um grande rio; ouvia uma inundação desencadear-se nas montanhas distantes, e sentia a vinda da torrente, mas de levantar-me não tinha vontade, e para fugir não tinha forças. Jazia débil, ansiando pela morte. Só uma idéia pulsava ainda, como a vida, dentro de mim — uma lembrança de Deus: isso gerou uma prece muda, cujas palavras vaguearam de um lado para outro em minha escura mente, como algo que devia ser murmurado, mas não havia energia alguma para emiti-las. “Não se afaste de mim, porque o mal está perto; não há ninguém para ajudar.” Estava perto; e, como eu não elevara nenhum pedido aos Céus para desviá-lo— não juntara as mãos, nem dobrara os joelhos, nem movera os lábios — chegou: com toda força, a torrente se despejou sobre mim. Toda a consciência de minha vida despedaçada, meu amor perdido, minha esperança morta, pairou inteira e poderosa acima de mim numa única e sombria massa. Essa hora amarga não pode ser descrita: na verdade, “as águas me inundaram a alma; afundei em profunda lama; não tomava pé; caí em águas profundas; a enchente me cobriu”.

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CAPÍTULO 27

A

certa altura da tarde ergui a cabeça e, olhando em torno e vendo o sol no ocidente, traçando em ouro a marca de seu declínio na parede, perguntei: “Que devo fazer?” Mas a resposta dada por minha mente — “Deixe Thornfield imediatamente”— foi tão imediata, tão terrível, que tapei os ouvidos. Disse que não podia tolerar tais palavras agora. “O fato de eu não ser a esposa de Edward Rochester é a parte mínima de minha infelicidade”, afirmei. “O fato de que despertei dos sonhos mais gloriosos, e os descobri vazios e vãos, é um horror que eu poderia suportar e dominar; mas que tenha de deixá-lo decididamente agora mesmo, por completo, é intolerável. Não posso fazer isso.” Mas então uma voz dentro de mim admitiu que eu podia fazê-lo, e previu que o faria. Lutei com minha própria resolução: quis ser fraca, para poder evitar a terrível passagem por outros sofrimentos que via à minha espera; e a Consciência, transformada num tirano, agarrou a Paixão pela garganta, disselhe escarnecedoramente que ela por enquanto só afundara os delicados pés na lama, e jurou que, com aquele seu braço de ferro, a empurraria para insondáveis profundezas de agonia. “Que me tirem disso então!” gritei. “Que alguém me ajude!” “Não; você mesma sairá; ninguém vai ajudá-la; você mesma arrancará o seu olho direito; você mesma cortará sua mão direita: seu coração será a vítima, e você a sacerdotisa que o trespassará”. Jane Eyre

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Levantei-me de repente, aterrorizada por aquela solidão habitada por tão impiedoso juiz — pelo silêncio preenchido por aquela voz tão terrível. Minha cabeça girava quando me pus de pé. Percebi que estava adoecendo de excitação e inanição; nem comida nem bebida passara por meus lábios naquele dia, pois eu não tomara desjejum. E, com uma estranha pontada, refleti então que, apesar do tempo que passara trancada ali, não se mandara ninguém saber como eu estava ou convidar-me lá para baixo; nem mesmo a pequena Adèle batera na porta; nem mesmo a Sra. Fairfax me procurara. “Os amigos sempre esquecem aqueles a quem a fortuna abandona”, murmurei, ao puxar o ferrolho e sair. Tropecei num obstáculo; ainda tinha a cabeça zonza, a vista turva e as pernas muito fracas. Não pude me recuperar imediatamente. Caí, mas não no chão; um braço estendido me amparou: ergui o olhar — estava segura pelo Sr. Rochester, que se sentava numa cadeira defronte à soleira de minha porta. — Você saiu, afinal — ele disse. — Bem, estive muito tempo à sua espera, e <a escuta; mas não ouvi nenhum movimento, nenhum soluço; mais cinco minutos desse silêncio mortal, e eu teria forçado a fechadura como um arrombador. Quer dizer que me evita? Tranca-se e sofre sozinha! Eu preferia que viesse me censurar furiosa. Você é passional, eu esperava uma cena, de algum tipo. Estava preparado para a ardente chuva de lágrimas; apenas, queria que fossem vertidas em meu peito; agora, um assoalho insensível as recebeu, ou seu lenço encharcado. Mas me engano, você não chorou de modo algum! Vejo faces pálidas e olhos baços, mas nenhum sinal de lágrimas. Suponho, então, que seu coração andou chorando lágrimas de sangue? “Então, Jane, nem uma palavra de reprovação? Nada irado... nada ferino? Nada para matai um sentimento ou ferir uma paixão? Senta-se tranqüilamente onde a pus, e me olha com uma aparência cansada, passiva? “Jane, jamais pretendi feri-la desse jeito. Se um homem que tivesse uma ovelhinha à qual quisesse como a uma filha, que comesse de seu pão e bebesse de seu copo, e se deitasse em seu colo, a tivesse por algum engano matado no matadouro, não 366

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lamentaria mais o seu sangrento engano do que eu lamento agora. Será que me perdoará um dia?” Leitor, eu o perdoei ali e então. Havia um remorso tão profundo em seu olhar, uma contrição tão sincera em seu tom, uma energia tão varonil em sua maneira; e, além disso, havia um amor tão intocado em toda a sua aparência e expressão — que lhe perdoei tudo; mas não com palavras, não externamente; só no fundo do coração. — Sabe que sou um patife, Jane? — ele me perguntou melancolicamente, depois de algum tempo; surpreso, sem dúvida, com a continuação de meu silêncio e mansidão, resultantes mais da franqueza do que da vontade. — Sim, senhor. — Então me diga sonora e duramente... não me poupe. — Não posso, estou cansada e doente. Quero um pouco d’água. Ele exalou uma espécie de trêmulo suspiro, e, tomando-me nos braços, levou-me lá para baixo. A princípio eu não soube para que aposento me levara: tudo estava enevoado a meus olhos vidrados; acabei sentindo o ressuscitante calor de uma lareira; pois, embora fosse verão, eu ficara gelada em meu quarto. Ele me pôs vinho nos lábios; provei-o e revivi; depois comi alguma coisa que ele me ofereceu, e logo voltava a ser eu mesma. Estava na biblioteca — sentada na cadeira dele, que se achava bem perto. “Se eu pudesse deixar a vida, agora, sem uma dor muito aguda, seria bom para mim”, pensei; “aí, não teria de fazer o esforço de partir as cordas de meu coração, ao separá-las das cordas do coração do Sr. Rochester. Tenho de deixá-lo, parece. Não quero deixá-lo — não posso deixá-lo”. — Como está você agora, Jane? — Muito melhor, senhor; logo estarei bem. — Tome mais vinho, Jane. Obedeci-lhe; depois, ele pôs o copo sobre a mesa, ergueu-se à minha frente e olhou-me com atenção. De repente, voltou-se, com uma exclamação incompreensível, cheia de algum tipo de apaixonada emoção; andou rápido pela sala e voltou, curvouse para mim, como para beijar-me, mas me lembrei de que as Jane Eyre

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carícias estavam proibidas agora. Virei o rosto e afastei-o. — Quê! Que é isso? — ele se apressou a exclamar. — Oh, eu sei! Você não quer beijar o marido de Bertha Mason? Considera meus braços tomados e que meus abraços têm dona? — Pelo menos, não há nem lugar nem direito para mim, senhor. — Por que, Jane? Vou lhe poupar o trabalho de falar muito; vou responder por você... porque eu já tenho uma esposa, você responderia... calculei corretamente? — Sim, senhor. — Se pensa assim, deve ter uma estranha opinião de mim; deve encarar-me como um manhoso devasso... um patife baixo e vil que simulou amor desinteressado para atraí-la a uma armadilha deliberadamente colocada, tirar-lhe a honra e roubar-lhe o respeito próprio. Que tem a dizer sobre isso? Vejo que não pode dizer nada; em primeiro lugar, está fraca ainda, e tem de fazer muito esforço para respirar; em segundo lugar, ainda não pode se acostumar à idéia de acusar-me e ofender-me; e além disso, as comportas das lágrimas estão abertas, e elas podem se precipitar se você falar muito; e você não tem nenhum desejo de repreender, censurar, fazer uma cena: está pensando em como agir — pois acha que falar não adianta. Eu a conheço... estou em guarda. — Senhor, não desejo agir contra o senhor — eu disse; e minha voz insegura me aconselhou a abreviar a sentença. — Não no seu sentido da palavra, mas, no meu, você está planejando destruir-me. Você praticamente disse que sou um homem casado... e como um homem casado me repelirá, se manterá longe de meu caminho; ainda há pouco recusou-se a beijar-me. Pretende tornar-se uma completa estranha para mim; viver sob este teto apenas como governanta de Adèle; se eu algum dia lhe disser uma palavra amável, se algum dia um sentimento amável a inclinar para mim, você dirá: “Esse homem quase me tornou sua amante, devo mostrar-me gelada e pétrea para ele”; e gelada e pétrea se tornará, conseqüentemente. Limpei e firmei a voz para responder: — Tudo à minha volta mudou, senhor; e tenho de mudar também... quanto a isso, não há dúvida; e para evitar flutuações de 368

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sentimentos, e contínuos combates com lembranças e associações, só há um caminho... Adèle deve ter uma nova governanta, senhor. — Oh, Adèle irá para a escola... já acertei isso; e não pretendo atormentá-la com as hediondas lembranças e associações de Thornfield Hall... este lugar amaldiçoado... esta tenda de Achan... esta cripta insolente, que oferece a fantasmagoria da morte em vida à luz do céu aberto... este estreito inferno de pedra, com seu único demônio real, pior do que uma legião daqueles que imaginamos. Jane, você não ficará aqui, nem eu. Errei ao trazê-la a Thornfield Hall, sabendo como sabia que a casa era assombrada. Mandei que escondessem de você, antes de sequer ter-lhe posto os olhos em cima, todo o conhecimento da maldição do lugar; simplesmente porque julgava que Adèle jamais teria uma governanta que ficasse se a, governanta soubesse a paciente que a casa abrigava: e meus planos não permitiam que transferisse a louca para outra parte... embora eu possua uma velha casa, Ferndean Manor, ainda mais retirada e escondida que esta, onde a poderia ter alojado com bastante segurança, se um escrúpulo quanto a insalubridade da localização, no coração de uma mata, não fizesse minha consciência recuar desse arranjo. Provavelmente aquelas paredes úmidas logo me teriam livrado do fardo; mas, a cada vilão, seu próprio vício; e o meu não é uma tendência ao assassinato indireto, mesmo do que mais odeio. “Ocultai a vizinhança da louca de você, no entanto, era como cobrir uma criança com um capote e deixá-la deitada perto de uma planta perigosa: a vizinhança desse demônio é venenosa, e sempre foi. Mas vou fechar Thornfield Hall; fecharei com pregos a porta da frente, e com tábuas as janelas de baixo; darei à Sra. Poole duzentas libras por ano para viver aqui com minha esposa, como você chama aquele horrível trapo; Grace fará muita coisa por dinheiro, e terá seu filho, o caseiro de Grimsby Retreat, para fazer-lhe companhia e estar sempre à mão para lhe dar ajuda nas crises, quando minha esposa é levada a queimar as pessoas nas camas à noite, esfaqueá-las, mordê-las até o osso, e coisas assim... — Senhor — interrompi-o — o senhor é inexorável com aquela infeliz; fala dela com ódio... com vingativa antipatia. É cruel... não Jane Eyre

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é culpa dela ser louca. — Jane, minha queridinha (assim a chamo, pois assim é você), você não sabe do que está falando; julga-me erroneamente de novo; não é por ela ser louca que a odeio. Se você fosse louca, acha que eu a odiaria? — Na verdade acho, senhor. — Então está enganada, e não sabe nada a meu respeito, e nada sobre o tipo de amor de que sou capaz. Cada átomo de sua carne me é tão querido quanto a minha própria; na dor e na doença, ainda seria querida. Sua mente é o meu tesouro, e se se fosse, ainda seria o meu tesouro: se você enlouquecesse, seriam meus braços que a segurariam, e não uma camisa-de-força... o seu aperto, mesmo em fúria, teria um encanto para mim: se se lançasse selvagemente contra mim, como aquela mulher se lançou hoje de manhã, eu a receberia com um abraço, pelo menos tão bondoso quanto restritivo. Eu não me esquivaria de você, repugnado, como me esquivei dela: em seus momentos de calma, não teria outro vigia ou enfermeiro além de mim; e eu me curvaria sobre você com incansável ternura, mesmo que não me desse nenhum sorriso em troca; e jamais me cansaria de olhar dentro de seus olhos, mesmo que não mais tivessem um raio de reconhecimento para mim. Mas por que prossigo nessa linha de idéias? Estava falando de tirá-la de Thornfield. Tudo está preparado, você sabe, para uma partida imediata: amanhã você par tira. Peço-lhe apenas que agüente mais uma noite sob este teto, Jane; e depois, adeus às suas misérias e terrores para sempre! Tenho um lugar para onde ir que será um abrigo seguro contra as reminiscências odiosas, contra a intrusão importuna... até contra a falsidade e a calúnia. — Leve Adèle consigo, senhor — interrompi. — Ela será uma companhia para o senhor. — Que quer dizer, Jane? Já lhe disse que ia mandar Adèle para a escola; que vou fazer tendo uma criança como companhia, e uma criança que não é minha filha... a bastarda de uma dançarina francesa? Por que me importuna com ela? Por que me destina Adèle como companhia? — O senhor falou de um retiro, senhor; e o retiro e a solidão 370

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são aborrecidos: aborrecidos demais para o senhor. — Solidão! Solidão! — ele repetiu com irritação. — Vejo que tenho de chegar a uma explicação. Não sei que expressão de esfinge se está armando em seu rosto. Você partilhará de minha solidão. Está entendendo? Balancei a cabeça: era necessário ter um certo grau de coragem, diante da excitação dele, até para arriscar um mudo sinal de discordância. Ele estivera dando passadas rápidas pelo aposento, e parou, como se subitamente enraizado naquele ponto. Olhoume demorada e fixamente: desviei os olhos, fixei-os no fogo, e tentei assumir uma expressão calma, digna. — Agora, o defeito no caráter de Jane — ele disse afinal, falando mais calmamente do que se poderia esperar de sua aparência. — O carretel de seda desenrolou-se suavemente até agora; mas eu sempre soube que viria um nó, e um enigma, aqui está. Para vexame, exasperação e infinita encrenca! Por Deus! Anseio por exercer uma fração da força de Sansão, e romper o nó! Reiniciou seu passeio, mas logo tornou a parar, e desta vez bem à minha frente. — Jane, não quer ouvir a razão? (curvou-se e aproximou os lábios de minha orelha); porque, se não quer, experimentarei a violência. — A voz estava rouca; a aparência era a de um homem na iminência de romper um laço insuportável e mergulhar de cabeça em desenfreada licenciosidade. Vi que, dentro de mais um instante, e com mais um ímpeto de frenesi, eu não poderia fazer nada com ele. O presente — o segundo de tempo que passava — era todo o tempo que tinha para controlá-lo e contê-lo: um movimento de repulsa, fuga, medo teria selado minha condenação — e a dele. Mas eu não tinha medo — nem um pouco. Sentia uma força interior; uma sensação de influência, que me suportava. A crise era perigosa; mas não deixava de ter o seu encanto, como o que o índio, talvez, sente ao deslizar por uma corredeira em sua canoa. Peguei-lhe a mão cerrada, descerrei os dedos contorcidos e lhe disse, tranqüilizadoramente: — Sente-se; falarei com o senhor o quanto quiser, e ouvirei tudo que tenha a dizer, de razoável ou irrazoável. Jane Eyre

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Ele se sentou; mas não pôde falar imediatamente. Eu lutava com as lágrimas havia já algum tempo: fazia grandes esforços para contê-las, porque sabia que ele não gostaria de me ver chorar. Agora, no entanto, achei que faria bem deixando-as correr o mais livre e o mais demoradamente que quisessem. Se a inundação o aborrecesse, tanto melhor. Assim, cedi e chorei à vontade. Logo o ouvi pedindo-me que me recompusesse. Eu disse que não podia, enquanto ele estivesse numa tal paixão. — Mas não estou zangado, Jane: simplesmente a amo demais; e você tinha endurecido seu pálido rostinho com uma aparência tão decidida, gelada, que eu não podia suportar. Cale-se agora, e enxugue os olhos. A voz amaciada indicava que ele fora dominado; assim eu, por minha vez, me acalmei. Agora ele tentava repousar a cabeça em meu ombro, mas eu não podia permiti-lo. Depois ele me puxaria para si: não. — Jane! Jane! — ele disse, num tom de tão amarga tristeza, que me comoveu todas as fibras. — Não me ama então? Era apenas minha posição, e a condição de minha esposa, que você valorizava? Agora que me julga incapaz de ser seu marido, recua de qualquer contato comigo como se eu fosse um sapo ou um macaco. Essas palavras me feriram; contudo, que poderia eu fazer ou dizer? Provavelmente, não devia ter feito ou dito nada; mas estava tão torturada por uma sensação de remorso, por ferir daquele jeito os sentimentos dele, que não pude controlar o desejo de deitar bálsamo sobre os lugares que ferira. — Eu o amo — eu disse — mais que nunca; mas não devo demonstrar ou permitir-me esse sentimento; e esta é a última vez que o expresso. — A última vez, Jane! Quê! Acha que pode viver comigo, verme diariamente, e mesmo assim, se ainda me ama, ser sempre fria e distante? — Não, senhor; isso, eu certamente não poderia fazer; e assim, vejo que só há um caminho: mas o senhor ficará furioso se eu o mencionar. 372

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— Oh, diga! Se eu explodir, você tem a arte do choro. — Sr. Rochester, tenho de deixá-lo. — Por quanto tempo, Jane? Por alguns minutos, enquanto penteia o cabelo...que está um tanto desfeito; e lavar o rosto... que parece febril? — Tenho de deixar Adèle e Thornfield. Tenho de me separar do senhor por toda a vida, tenho de começar uma nova existência entre rostos e cenários estranhos. — Evidentemente, eu lhe disse que devia fazer isso. Passarei por cima da loucura de se separar de mim. Quer dizer que tem de se tornar parte de mim. Quanto à nova existência, está certo, você ainda será minha esposa; não sou casado. Você será a Sra. Rochester... virtual e nominalmente eu me apegarei apenas a você, enquanto vivermos. Você irá para uma casa que tenho no sul da França, uma vila branca nas margens do Mediterrâneo. Ali viverá uma vida feliz, protegida e inocentíssima. Jamais tema que eu deseje atraí-la ao erro... torná-la minha amante. Por que balançou a cabeça? Jane, você tem de ser razoável, ou na verdade ficarei frenético de novo. Sua voz e sua mão estremeceram; as largas narinas dilataram-se; o olhar faiscou; mas ousei falar. — Senhor, sua esposa está viva: este é um fato que foi reconhecido hoje de manhã pelo senhor. Se eu vivesse com o senhor, como quer... seria sua amante: chamar isso de outra coisa é sofisma... é falso. — Jane, não sou um homem de temperamento delicado... está se esquecendo disso; não sou resignado; não sou frio e desapaixonado. Por piedade por mim e por si mesma, ponha o dedo em meu pulso, sinta como lateja, e... cuidado! Descobriu o pulso e o ofereceu; o sangue deixava-lhe as faces e os lábios, que se tornavam lívidos; fiquei inteiramente perturbada. Agitá-lo tão profundamente, com uma resistência que ele odiava tanto, era crueldade; ceder estava fora de questão. Fiz o que os seres humanos fazem instintivamente quando são levados ao extremo — busquei ajuda junto a alguém mais elevado que o homem: as palavras “Deus me ajude” explodiram-me Jane Eyre

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involuntariamente nos lábios. — Eu sou um idiota! — gritou o Sr. Rochester de repente. — Fico dizendo a ela que não sou casado, e não lhe explico porquê. Esqueço-me de que ela nada conhece do caráter daquela mulher, das circunstâncias que cercaram minha infernal união com ela. Oh, tenho certeza de que Jane concordará comigo em opinião, quando souber tudo que eu sei! Ponha as mãos nas minhas, Jane... para que eu tenha a prova do toque, além da visão, para mostrar que você está junto a mim... e lhe mostrarei em poucas palavras a verdadeira situação. Pode ouvir-me? — Sim, senhor? durante horas, se o senhor quiser. — Peço apenas alguns minutos. Jane, já ouviu dizer ou soube que eu não era o filho mais velho de minha casa; que tive um irmão mais velho? — Lembro-me de que a Sra. Fairfax me disse isso certa vez. — E sabia que meu pai era um homem avarento? — Depreendi algo nesse sentido. — Bem, Jane, assim sendo, ele decidiu manter a propriedade intata; não suportava a idéia de dividi-la e deixar-me uma boa parte: tudo deveria ir para meu irmão, Rowland. Mas tampouco podia suportar a idéia de um filho seu ser um homem pobre. Eu devia ser provido por um casamento rico. E procurou para mim uma cônjuge. O Sr. Mason, um fazendeiro e comerciante das índias Ocidentais, era seu velho amigo. Ele tinha certeza de que as propriedades de Mason eram concretas e vastas; fez investigações. Descobriu que o outro tinha um filho e uma filha; e soube do próprio fazendeiro que a filha receberia de dote uma fortuna de trinta mil libras: era o bastante. Quando deixei a escola, enviaramme à Jamaica, para desposar uma noiva já cortejada para mim. Meu pai nada disse sobre o dinheiro dela; mas me contou que a Srta. Mason era o orgulho de Spanish Town por sua beleza; e não mentia. Achei-a uma bela mulher, no estilo de Blanche Ingram: alta, morena e majestosa. A família dela queria segurar-me, porque eu era de boa cepa; e ela também queria. Mostraram-me a moça esplendidamente vestida, em festas. Raramente eu a via a sós, e tive muito poucas conversas privadas 374

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com ela. Ela me bajulava, e exibia prodigamente, para meu prazer, seus encantos e dotes. Todos os homens em seu círculo pareciam admirá-la e invejar-me. Fiquei deslumbrado, estimulado: meus sentidos se excitaram; e sendo ignorante, cru e inexperiente, julguei que a amava. Não há loucura tão idiota que as tolas rivalidades da sociedade, a comichão, a imprudência, a cegueira da juventude não levem um homem a cometer. Os parentes dela me encorajavam; os competidores me espicaçavam: ela me atraía: o casamento realizou-se quase antes que eu soubesse onde estava. Oh, não tenho respeito por mim mesmo quando penso nesse ato! Uma agonia de íntimo desprezo me toma. Nunca amei, nunca estimei, nem sequer a conheci. Não sabia da existência de uma só virtude em sua natureza: não notara nem modéstia nem benevolência, nem candura, nem refinamento em seu espírito ou em suas maneiras... e desposei-a; cabeça de pau grosseiro, bajulador, toupeira que era! Com menos pecado poderia... mas deixe-me lembrar com quem estou falando. “Nunca vi a mãe de minha noiva; entendi que morrera. Acabada a lua-de-mel, soube de meu erro; ela estava simplesmente louca, e trancada num asilo de doidos. Havia um irmão mais novo, também... um completo idiota mudo. O mais velho, que você viu (e a quem não posso odiar, embora deteste todos os seus parentes, porque tem algumas migalhas de afeição no débil cérebro, demonstradas no constante interesse pela desgraçada irmã, e também pelo pegadio canino que teve outrora comigo), provavelmente se verá no mesmo estado um dia. Meu pai e meu irmão Rowland sabiam disso tudo; mas pensavam apenas nas trinta mil libras, e mancomunaram-se na trama contra mim. “Foram descobertas vis, essas que fiz; mas, a não ser pela traição da ocultação, eu não as transformaria em motivos de censura à minha esposa, mesmo quando descobri que tinha uma natureza inteiramente alheia à minha, gostos odiosos, um espírito vulgar, baixo, estreito, e singularmente incapaz de ser levado a qualquer coisa mais elevada, expandido para qualquer coisa maior... quando descobri que não podia passar em conforto uma única noite, nem mesmo uma única hora do dia com ela; que não Jane Eyre

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podíamos manter uma amistosa conversa entre nós, porque, fosse qual fosse o assunto que eu abordasse, recebia imediatamente dela uma resposta ao mesmo tempo grosseira e banal, perversa e imbecil... quando percebi que jamais teria uma casa tranqüila ou arrumada, porque nenhum criado podia suportar as contínuas explosões de sua natureza violenta e irracional, ou os vexames de suas ordens absurdas, contraditórias, exigentes... mesmo então, me contive; evitava as repreensões, continha as censuras; tentava devorar meu arrependimento e repugnância em segredo; reprimia a profunda antipatia que sentia. “Jane, não vou aborrecê-la com detalhes abomináveis; umas poucas palavras fortes exprimirão o que tenho a dizer. Vivi com essa mulher lá em cima quatro anos, e antes desse tempo ela já me tinha feito passar o diabo; seu caráter amadureceu e se desenvolveu com apavorante rapidez; seus vícios brotaram rápidos e abundantes: eram tão fortes, que só a crueldade conseguia contê-los, e eu não queria usar de crueldade. Que intelecto pigmeu tinha, e que gigantescas tendências! Como eram pavorosas as maldições que essas tendências me acarretavam. Bertha Mason, verdadeira filha de uma mãe infame, arrastou-me por todas as horríveis e degradantes agonias que esperam um homem amarrado a uma esposa ao mesmo tempo imoderada e devassa.” “Meu irmão, nesse intervalo, morreu, e ao fim dos quatro anos também meu pai. Eu estava bastante rico então... e no entanto pobre até a mais horrível indigência: a natureza mais grosseira, impura e depravada que já vira estava ligada à minha, e era chamada pela lei e a sociedade parte de mim. E eu não podia me livrar dela por quaisquer procedimentos legais; pois os médicos descobriram então que minha esposa estava louca... seus excessos tinham desenvolvido prematuramente os germes da insanidade. Jane, você não gosta de minha narrativa; parece quase doente... devo adiar o resto para outro dia?” — Não, senhor, termine-a agora; tenho pena do senhor... tenho pena do senhor. — A piedade, Jane, vinda de algumas pessoas, é uma odiosa e 376

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insultante espécie de tributo, que se tem razão de lançar de volta nos dentes daqueles que a oferecem; mas essa é uma espécie de piedade própria de corações empedernidos, egoístas; é uma dor híbrida e egoísta, ao saberem de sofrimentos, misturada com um ignorante desprezo por aqueles que os suportaram. Mas não é essa a sua piedade, Jane; não é esse o sentimento que inunda todo o seu rosto agora... com o qual seus olhos quase transbordam... com o qual seu coração pesa... com o qual sua mão treme na minha. Sua piedade, minha querida, é a mãe sofredora do amor; sua angústia é a própria dor do nascimento da divina paixão. Eu a aceito, Jane; que a filha tenha livre advento... meus braços esperam para recebê-la. — Agora, senhor, prossiga: que fez quando descobriu que ela estava louca? — Jane, cheguei à beira do desespero; só um resto de respeito próprio se interpunha entre mim e o abismo. Aos olhos do mundo, estava sem dúvida coberto de suja desonra; mas decidi ser limpo à minha própria vista... e repudiei até o fim o contágio dos crimes dela, e desgarrei-me de qualquer ligação com seus problemas mentais. Contudo, a sociedade ligava meu nome e pessoa ao nome e pessoa dela; eu ainda a via e ouvia diariamente; alguma coisa de seu bafio (ugh!) se misturava com o ar que eu respirava; e além disso, eu me lembrava de que um dia fora seu marido... essa lembrança era-me então, e agora, inexprimivelmente odiosa; e sabia que, enquanto ela vivesse, eu jamais poderia ser marido de outra esposa, diferente; e, apesar de cinco anos mais velha que eu (a família e o pai tinham mentido até no detalhe de sua idade), provavelmente viveria tanto quanto eu, pois era tão robusta no físico quanto enferma na mente. Assim, aos vinte e seis anos, eu não tinha esperanças. “Uma noite, fui acordado por berros (desde que os médicos a tinham declarado louca, ela fora, evidentemente, trancada). Era uma quente noite das índias Ocidentais; uma daquelas noites que freqüentemente precedem os furacões em tais climas. Incapaz de dormir na cama, levantei-me e abri a janela. O ar parecia uma corrente de enxofre... eu não podia me refrescar em parte alguma. Jane Eyre

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Os mosquitos entravam zumbindo e continuavam a zumbir obstinadamente pelo quarto; o mar, que eu podia ouvir dali, rumorejava abafado como um terremoto... nuvens negras se formavam acima dele; a lua se punha sobre as ondas, grande e rubra, como uma bala de canhão em brasa... lançava uma última olhada sangrenta sobre um mundo que estremecia com o fermento da tempestade. A atmosfera e o cenário me influenciavam fisicamente, e eu tinha os ouvidos cheios das maldições que a louca ainda berrava; e às quais misturou por um momento meu nome com um tal tom de ódio demoníaco, com tal linguagem ... nenhuma prostituta confessa jamais teve um vocabulário tão sujo: embora a dois quartos de distância, eu ouvia cada palavra... pois as finas divisões da casa das índias Ocidentais só opunham uma leve obstrução a seus gritos de loba.” ‘Esta vida’, disse a mim mesmo afinal, ‘é o inferno: este é o ar... e aqueles são os sons do poço sem fundo! Tenho o direito de me livrar daqui se puder. Os sofrimentos deste mortal estado me deixarão com a pesada carne que agora me embaraça a alma. Não temo as chamas da eternidade dos fanáticos; não há vida futura pior do que esta atual... deixe-me romper com tudo, e voltar para Deus!’ “Disse isso de joelhos, abrindo um baú que continha um par de pistolas carregadas; pretendia dar-me um tiro. Mantive essa intenção apenas por um momento; pois, não sendo louco, a crise de total e puro desespero, que dera origem ao desejo e ao plano de autodestruição, passou num segundo.” “Um vento fresco vindo da Europa soprou do oceano e invadiu a janela aberta: a tempestade se desencadeou, bateu, trovejou, ardeu, e o ar se tornou puro. Então, formulei e tomei uma decisão. Enquanto passeava sob as laranjeiras encharcadas de meu jardim, entre romãs e abacaxis, e enquanto a refulgente aurora tropical se acendia à minha volta, fiz o seguinte raciocínio, Jane... e agora escute; pois foi a verdadeira Sabedoria que me consolou naquela hora, e me mostrou o caminho certo a seguir. “O doce vento da Europa ainda sussurrava nas folhas refrescadas, e o Atlântico trovejava em gloriosa liberdade; meu 378

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coração, seco e calcinado por longo tempo, reviveu com aquilo e se encheu de sangue vivo... meu ser ansiava por renovação... minha alma estava sequiosa por um puro gole d’água. Vi a esperança renascer... e senti que a regeneração era possível. De um arco florido ao fundo de meu jardim, olhei o mar lá embaixo... mais azul que o céu: o velho mundo aguardava além; claras perspectivas se abriam, da seguinte maneira: ‘Parta’, dizia a Esperança, ‘e volte a viver na Europa: lá não se sabe o nome conspurcado que você tem, nem que imundo fardo está ligado a você. Pode levar a louca consigo para a Inglaterra; confine-a com a devida assistência e precauções em Thornfield; depois viaje para o clima que desejar, e forme a nova ligação que quiser. Essa mulher, que tanto abusou de sua resignação, que tanto sujou o seu nome, que tanto ultrajou sua honra, que tanto feriu sua juventude, não é sua esposa, nem você é marido dela. Providencie para que seja cuidada como exige a sua condição, e terá feito tudo que Deus e a humanidade requerem de você. Que a identidade dela, e sua ligação consigo, se enterrem no esquecimento: não deve comunicá-las a nenhum ser vivo. Ponha-a em segurança e conforto; guarde sua degradação em segredo, e deixe-a’. “Agi exatamente segundo essa sugestão. Meu pai e meu irmão não tinham comunicado meu casamento a seus conhecidos; porque, na primeira carta que lhes escrevi para comunicar-lhes a união... tendo já começado a sentir extrema repugnância por suas conseqüências, e, pelo caráter e constituição da família, vendo um horrível futuro abrir-se à minha frente... acrescentei um urgente pedido que se a mantivesse em segredo; e muito em breve a infame conduta da esposa que meu pai escolhera para mim era tal, que o fazia corar ao reconhecê-la como sua nora. Longe de desejar tornar pública a ligação, ele se tornou tão preocupado em ocultá-la quanto eu próprio. “Para a Inglaterra, então, a trouxe; viagem terrível fiz eu com um tal monstro no navio. Fiquei satisfeito quando finalmente a trouxe a Thornfield e a vi seguramente alojada naquele quarto do terceiro andar, cujo gabinete interno faz dez anos que ela transformou num covil de besta selvagem... uma cela de gobelino. Jane Eyre

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Tive alguma dificuldade para encontrar-lhe uma assistente, uma vez que era necessário escolher uma em cuja fidelidade se pudesse confiar; pois os ataques dela inevitavelmente trairiam meu segredo; além disso, tinha intervalos lúcidos de dias... às vezes semanas... que preenchia com insultos a mim. Finalmente, contratei Grace Poole, do Grimsby Retreat. Ela e o médico, Carter (que pensou os ferimentos de Mason na noite em que ele foi esfaqueado e ficou apavorado), são os dois únicos seres que admiti em meu segredo. A Sra. Fairfax pode de fato ter suspeitado de alguma coisa, mas não pode ter adquirido conhecimento preciso dos fatos. Grace revelou-se, no todo, uma boa guardiã; embora, devido em parte a uma falta sua, da qual nada parece poder curála, e que acompanha sua ingrata profissão, sua vigilância tenha mais de uma vez sido burlada. A louca é astuta e maligna; jamais deixou de se aproveitar dos lapsos temporários da guardiã; uma vez para esconder a faca com a qual esfaqueou o irmão, e duas vezes para apoderar-se da chave de sua cela e sair dali à noite. Na primeira dessas ocasiões, perpetrou a tentativa de atear-me fogo à cama, na segunda fez aquela espectral visita a você. Dou graças à Providência, que protege você, pelo fato de ela ter esgotado sua fúria no vestido de noiva, que talvez lhe tenha trazido vagas reminiscências de seus próprios dias nupciais; mas não agüento refletir no que poderia ter acontecido. Quando penso na coisa que se atirou à minha garganta hoje de manhã, aquele rosto negro e escarlate pairando sobre o ninho de minha pombinha, meu sangue gela...” — E que, senhor — perguntei-lhe, enquanto ele fazia uma pausa — fez o senhor quando a instalou aqui? Para onde foi? — Que fiz, Jane? Transformei-me num fogo fátuo. Aonde fui? Vagueei tão loucamente quanto o espírito de março. Busquei o Continente, e errei por todas as suas terras. Meu desejo fixo era buscar e encontrar uma mulher boa e inteligente, a quem pudesse amar; um contraste com a fúria que deixara em Thornfield... — Mas não podia casar-se, senhor. — Eu decidira e estava convencido de que podia e devia. Não pretendia originalmente enganar, como a enganei. Pretendia 380

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contar minha história claramente, e fazer minhas propostas abertamente; e isso me parecia tão absolutamente racional, que eu fosse considerado livre para amar e ser amado, que nunca duvidei de que encontraria uma mulher disposta e capaz de compreender meu caso e me aceitar, apesar da maldição que pesava sobre mim. — Bem, senhor? — Quando você é tão inquisitiva, Jane, sempre me faz sorrir. Arregala os olhos como um pássaro faminto, e faz de vez em quando um movimento impaciente, como se as respostas não lhe viessem com bastante prontidão, e quisesse ler a tábua do coração da gente. Mas, antes de prosseguir, diga-me o que quer dizer com seu “Bem, senhor?”. É uma frasezinha muito freqüente em você; e que muitas vezes me arrasta a uma conversa interminável, não sei muito bem por quê. — O que quero dizer é: e depois? Como agiu o senhor? Que resultou de tal acontecimento? — Precisamente! E que deseja saber agora? — Se encontrou alguma de quem gostasse; se lhe pediu que o desposasse; e que disse ela? — Posso dizer-lhe se encontrei alguma de quem gostasse. e se lhe pedi que me desposasse; mas o que ela disse ainda não foi escrito no Livro do Destino. Durante dez longos anos vagueei por aí, vivendo primeiro numa capital, depois noutra, às vezes em São Petersburgo, mais freqüentemente em Paris, ocasionalmente em Roma, Nápoles e Florença. Munido de bastante dinheiro e de um passaporte com um nome antigo, podia escolher minhas companhias; não havia círculos fechados para mim. Busquei meu ideal de mulher entre ladies inglesas, condessas francesas, signoras italianas, gräfinen alemãs. Não consegui encontrá-lo. Às vezes, num momento passageiro, pensava que captara um olhar, ouvira uma voz, contemplara uma forma, que anunciavam a realização de meu sonho; mas terminava me desenganando. Você não deve supor que eu buscava a perfeição, espiritual ou física. Buscava apenas o que me servia... o posto da mestiça, e ansiava em vão. Entre todas elas, não encontrei uma só que, se fosse livre, eu... advertido como já estava dos riscos, dos horrores, da antipatia Jane Eyre

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das uniões incongruentes... pediria para casar-se comigo. A decepção deixou-me inquieto. Experimentei a dissipação... nunca a devassidão; odiava e odeio isso. Esse era o atributo de minha Messalina índia, uma arraigada repugnância contra isso e contra ela me refreava bastante, mesmo no prazer. Qualquer divertimento que beirasse o descontrole parecia aproximar-me dela e de seus vícios, e eu o repelia. “Contudo, não podia viver só; assim, tentei a companhia de amantes. A primeira que escolhi foi Céline Varens... outro daqueles passos que fazem um homem desprezar-se quando os lembra. Você sabe o que ela era, e como terminou minha ligação com ela. Céline teve duas sucessoras: uma italiana, Giacinta, e uma alemã, Clara; ambas consideradas particularmente bonitas. Mas que era a beleza delas, para mim, dentro de poucas semanas? Giacinta não tinha princípios e era violenta: cansei-me dela em três meses. Clara era honesta e discreta; mas pesadona, desmiolada e insensível, nem um pouco ao meu gosto. Fiquei satisfeito quando lhe dei uma soma considerável para estabelecê-la num bom ramo de negócios, e assim me livrei decentemente dela. Mas, Jane, vejo por seu rosto que não está formando uma opinião muito favorável de mim neste momento. Acha-me um patife insensível, de frouxos princípios; não acha? — Não gosto tanto do senhor agora como gostei algumas vezes, é verdade, senhor. Não lhe pareceu nem um pouco errado viver dessa maneira, primeiro com uma amante e depois com outra? O senhor fala disso como uma coisa normal. — Era algo que estava em mim; e eu não gostava. Era uma forma de vida vil: eu não gostaria de voltar nunca mais a ela. Pagar uma amante é a coisa pior do mundo depois da compra de uma escrava: ambas são freqüentemente por natureza, e sempre por posição, inferiores, e viver familiarmente com inferiores é degradante. Hoje odeio a lembrança do tempo que passei com Céline, Giacinta e Clara. Senti a verdade dessas palavras; e tirei delas a inferência certa de que, se eu chegasse ao ponto de esquecer-me de todos os ensinamentos que me haviam sido insulados, de modo a — 382

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sob qualquer pretexto, com qualquer justificação, por quaisquer tentações — tornar-me a sucessora dessas pobres moças, ele me encararia um dia com o mesmo sentimento que agora, em sua mente, profanava a memória delas. Não externei essa convicção; bastava senti-la. Gravei-a em meu coração, para que ficasse ali e me servisse como ajuda em tempos de provação. — Agora, Jane, por que não diz “Bem, senhor”? Eu não fiz. Você parece séria. Ainda me desaprova, estou vendo. Mas deixeme chegar ao que interessa. Em janeiro passado, livre de todas as amantes... num estado mental azedo, amargo, resultado de uma vida inútil, ao léu... corroído pela decepção, amargamente disposto contra todo mundo, e especialmente contra as mulheres (pois começara a encarar a idéia de uma mulher intelectual, fiel, amorosa como um mero sonho), chamado de volta a negócios, retornei à Inglaterra. “Numa gélida tarde de inverno, eu cavalgava já à vista de Thornfield Hall. Local detestado! Não esperava paz nem prazer aqui. Num passadiço em Hay Lane, vi uma figurinha quieta, sentada sozinha. Passei por ela tão indiferentemente quanto pelo salgueiro podado defronte dela; não pressentia o que ela se tornaria para mim; não houve nenhum aviso interior de que a juíza de minha vida... meu gênio para o bem ou para o mal... esperava ali em humilde disfarce. Não o soube nem mesmo quando, por ocasião do acidente de Mesrour, ela se aproximou e gravemente me ofereceu ajuda. Infantil e minúscula criatura! Era como se um milheiro houvesse saltitado a meus pés e sugerido amparar-me em sua minúscula asa. Eu estava mal-humorado; mas a coisinha não se ia; ficou a meu lado com estranha perseverança, e parecia e falava com uma espécie de autoridade. Eu tinha de ser ajudado, e por aquelas mãos; e fui. “Assim que me apoiei no frágil ombro, alguma coisa nova... uma nova seiva e sensação... percorreu-me o corpo. Ainda bem que soubera que aquela duende teria de voltar a mim... que pertencia à minha casa lá embaixo... ou não teria deixado que me escapulisse das mãos, vendo-a desaparecer atrás da fina sebe, sem um certo pesar. Ouvi quando você veio naquela noite, Jane, embora não Jane Eyre

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seja provável que soubesse que eu pensava em você, ou esperava a sua vinda. No dia seguinte, observei-a... sem me deixar ver... durante meia hora, enquanto você brincava com Adèle na galeria. Era um dia de neve, lembro-me, e vocês não podiam sair ao ar livre. Eu estava em meu quarto, a porta entreaberta; podia ouvi-la e observá-la. Adèle reclamava sua atenção por algum tempo; mas senti que seus pensamentos estavam em outra parte, e no entanto, você foi muito paciente com ela, minha pequena Jane; falou com cia e a entreteve por longo tempo. Quando afinal ela a deixou, você logo mergulhou em profundo devaneio, pôs-se a andar lentamente pela galeria. De vez em quando, ao passar por uma janela, olhava lá fora a neve caindo grossa; ouvia os soluços do vento; e voltava a andar mansamente e a sonhar. Creio que as visões daquele dia não eram sombrias: havia uma agradável luminosidade em seus olhos de vez em quando, uma delicada excitação em seu aspecto, que não traíam pensamentos amargos, biliosos, hipocondríacos: sua aparência revelava antes as doces meditações da juventude, quando o espírito segue em asas dispostas o vôo da Esperança rumo a um céu ideal. A voz da Sra. Fairfax, falando a uma criada no saguão, despertou-a; e como você sorriu curiosamente consigo mesma, Jane! Havia muito significado naquele sorriso: era muito astuto, e parecia menosprezar sua própria abstração. Parecia dizer: ‘Minhas belas visões estão muito bem, mas não devo esquecer de que são absolutamente irreais. Tenho um róseo céu e um verde Éden florido em minha mente; mas aqui fora, sei perfeitamente, estende-se a meus pés um rude pedaço a viajar, e em meu redor se armam negras tempestades a enfrentar.’ Você correu para baixo e pediu alguma coisa para fazer à Sra. Fairfax; as contas semanais da casa ou algo desse tipo, creio eu. Fiquei aflito com você por sair de minhas vistas. “Esperei impacientemente a noite, quando poderia chamá-la à minha presença. Suspeitava de que seu caráter era incomum... para mim... inteiramente novo, desejava investigá-lo mais a fundo e conhecê-lo melhor. Você entrou no aposento com uma aparência e um ar ao mesmo tempo tímidos e independentes: vestia-se simplesmente... em grande parte como agora. Fiz com 384

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que falasse: em breve, julguei-a cheia de estranhos contrastes. Suas roupas e maneiras eram contidas pelas regras; tinha um ar muitas vezes desafiante, e sempre de uma pessoa refinada por natureza, mas absolutamente desacostumada a companhia, e bastante receosa de tornar-se desvantajosamente conspícua por algum solecismo ou erro; contudo, quando lhe dirigiam a palavra, você erguia uns olhos penetrantes, ousados e refulgentes para o rosto do interlocutor: havia penetração e força em cada olhar que dava; quando importunada por perguntas indiscretas, encontrava respostas prontas e completas. Muito em breve pareceu acostumar-se comigo: creio que sentia a existência de simpatia entre você e seu sombrio e mal-humorado patrão, Jane; pois foi espantoso ver como logo-logo um certo à-vontade agradável tranqüilizou seus modos: por mais que eu rosnasse, você não demonstrava nenhuma surpresa, temor, aborrecimento ou desprazer com meu enfado; observava-me, e de vez em quando sorria-me com uma graça simples más sagaz, que não consigo descrever. Eu me sentia ao mesmo tempo satisfeito e estimulado com o que via; gostava do que vira e desejava ver mais. Contudo, durante longo tempo a tratei com frieza, e raramente buscava a sua companhia. Era um epicuro intelectual, e desejava prolongar a satisfação de estabelecer aquela nova e estimulante amizade; além disso, fui por algum tempo perturbado por um obcecante temor de que, se tratasse a flor sem cuidado, ela morreria... o doce encanto do frescor a deixaria. Não sabia então que não era um desabrochar transitório, mas antes a radiante imagem de um desabrochar, talhada em uma gema indestrutível. Ademais, desejava ver se você me procuraria, se eu a evitasse... mas você não o fez; manteve-se na sala de aula, tão quieta quanto sua mesa e cavalete; se por acaso eu a encontrava, você passava por mim tão depressa, e com tão pouco sinal de reconhecimento, quanto fosse condizente com o respeito. Sua expressão habitual naquele tempo, Jane, era uma aparência pensativa; não triste, pois não era doentia; mas tampouco animada, pois tinha pouca esperança, e nenhum prazer real. Eu imaginava o que pensava de mim... ou se chegava a pensar em mim; para descobrir isso, recomecei a Jane Eyre

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dar-lhe atenção. Havia alguma coisa de alegre em seu olhar, e de agradável em suas maneiras, quando conversava; eu via que você tinha um coração sociável; era a silenciosa sala de aula... era o tédio de sua vida... que a tornava circunspecta. Permiti-me o prazer de ser bom para você; a bondade logo despertou a emoção; a expressão de seu rosto se suavizou, sua voz se tornou delicada; eu gostava de ouvir o meu nome pronunciado por seus lábios, com um tom agradecido, feliz. Gostava de desfrutar um encontro casual com você, Jane, nesse período; havia uma curiosa hesitação em seus modos; você me olhava com uma leve perturbação... uma dúvida no ar; não sabia qual seria o meu capricho... se eu ia bancar o patrão e ser severo, ou o amigo e ser benigno. Eu estava então muito ligado a você para simular o primeiro capricho; e, quando estendia cordialmente a mão, subia às suas feições jovens, anelantes, um tal florescer, uma luminosidade, uma felicidade tais, que muitas vezes eu tinha muito trabalho para evitar apertála ali e então contra o coração.” — Não fale mais desse tempo, senhor — interrompi, vertendo furtivamente algumas lágrimas; a linguagem dele era uma tortura para mim; pois eu sabia o que tinha de fazer, e fazer logo, e todas aquelas reminiscências, e aquelas revelações de seus sentimentos, só tornavam minha tarefa mais difícil. — Não, Jane — ele recomeçou — que necessidade há de demorar no passado, quando o presente é tão mais seguro... o futuro tão mais luminoso? Estremeci ao ouvir essa apaixonada afirmação. — Vê agora em que pé está o caso, não vê? — ele continuou. — Após uma juventude e uma vida adulta passadas metade em inexprimível infelicidade, e metade em horrenda solidão, encontrei pela primeira vez aquela a quem posso realmente amar... encontrei você. Você é minha simpatia, a melhor parte de mim, meu anjo bom. Estou atado a você por uma forte ligação. Acho-a boa, talentosa, adorável: nasceu em meu coração uma paixão ardente, solene, que me puxa para você, que a atrai para o meu centro e a minha fonte de vida, envolve minha existência em torno de você, e, brilhando em pura e poderosa chama, nos funde 386

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um no outro. “Foi porque eu sentia e sabia disso, que resolvi desposá-la. Dizer-me que eu já tinha uma esposa é uma vazia zombaria: você sabe agora que eu só tenho um horrendo demônio. Fui errado ao tentar enganá-la; mas temia a obstinação que existe em seu caráter. Temia os preconceitos insulados na juventude, queria têla segura antes de arriscar-me a confidencias. Isso foi covardia; eu devia ter apelado para sua nobreza e magnitude primeiro, como faço agora... devia ter aberto a você claramente minha vida de agonia... devia ter descrito a você minha fome e sede de uma existência mais elevada e mais digna... devia ter mostrado a você não a minha decisão (esta palavra é fraca), mas minha irresistível inclinação a amar fielmente e bem a quem me amasse fielmente e bem em troca. Depois, ter-lhe-ia pedido que aceitasse minha jura de fidelidade e me desse a sua. Jane... dê-me isso agora.” Uma pausa. — Por que está calada, Jane? Eu passava por uma provação: uma mão de ferro em brasa agarrava minhas entranhas. Momento terrível, cheio de luta, escuridão, fogo! Nenhum ser humano que já existiu poderia desejar ser mais amado do que eu; e eu adorava aquele que me amava assim; e tinha de renunciar ao amor e ao ídolo. Uma triste palavra compreendia o meu intolerável dever: “Parta!” — Jane, você entende o que quero de você? Só essa promessa: “Eu serei sua, Sr. Rochester.” — Sr. Rochester, eu não serei sua. Outro longo silêncio. — Jane! — ele recomeçou, com uma delicadeza que me partiu de dor e me deixou fria como pedra com sinistro terror; pois aquela voz baixa era o arquejo de um leão levantando-se. — Jane, você pretende seguir para um lado, no mundo, e deixar-me seguir outro? — Pretendo. — Jane — curvando-se para mim e abraçando-me — pretende fazer isso agora? — Pretendo. — E agora? —. beijando-me levemente a testa e a face. Jane Eyre

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— Pretendo — desvencilhando-me rápida e completamente do abraço. — Oh, Jane, isso é duro! Isso... isso é mau. Não seria mau amar-me. — Seria mau obedecer ao senhor. Uma expressão alucinada ergueu-lhe as sobrancelhas — cruzou-lhe as feições: ele se levantou; mas se agüentou ainda. Pus a mão nas costas da cadeira, para apoiar-me: tremia, tremia— mas decidi. — Um instante, Jane. Dê uma olhada à minha vida horrível quando se for. Toda felicidade me será arrancada com você. Que restará então? Por esposa, tenho uma louca lá em cima; seria o mesmo que você me enviar a um cadáver no cemitério ao lado. Que farei, Jane? Para onde me voltar, em busca de uma companheira, e de um pouco de esperança? — Faça como eu; confie em Deus e em si mesmo. Creia no céu. Espere encontrarmo-nos de novo lá. — Então não vai ceder? — Não. — Então me condena a viver desgraçado, e a morrer amaldiçoado? — Aconselho-o a não viver em pecado, e desejo que morra tranqüilo. — Então tira o amor e a inocência de mim? Lança-me de volta à luxúria em lugar da paixão... ao vício como ocupação? — Sr. Rochester, não lhe destino essa sorte mais do que a destino a mim mesma. Nascemos para lutar e suportar... o senhor tanto quanto eu: faça-o. O senhor me esquecerá antes que eu o esqueça. — Você me chama de mentiroso com tal linguagem; conspurca minha honra. Declarei que não podia mudar; você me diz em minha cara que logo mudarei. E que distorção em seu julgamento, que perversidade em suas idéias, demonstra essa sua conduta! É melhor levar uma criatura irmã ao desespero do que transgredir uma simples lei humana, quando ninguém sai ferido com a violação? Pois você não tem parentes nem amigos aos quais vá 388

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ofender vivendo comigo. Isso era verdade, e enquanto ele falava, minha própria consciência e razão tornaram-se traidoras contra mim, e me acusaram de crime ao resistir-lhe. Falaram quase tão alto quanto o Sentimento; e esse clamava bravamente: “Oh, ceda!”, dizia. “Pense na infelicidade dele; pense no perigo que ele corre; veja o seu estado quando deixado a sós; lembre-se da natureza precipitada dele; considere a temeridade dele após o desespero — alivie-o; salve-o; ame-o; diga-lhe que o ama e será dele. Quem, neste mundo, se interessa por você, ou será prejudicado pelo que fizer?” Contudo, a resposta era indômita: “Eu me interesso por mim. Quanto mais solitária, mais sem amigos, mais sem amparo eu for, mais me respeitarei a mim mesma. Manterei a lei dada por Deus; sancionada pelo homem. Eu me apegarei aos princípios que recebi quando estava sã, e não louca, como estou agora. As leis e princípios não são para épocas em que não há tentação; são para momentos como este, quando corpo e alma se levantam em motim contra o rigor deles; são severos; serão invioláveis. Se, por minha conveniência pessoal, eu os quebrasse, qual seria o valor deles? Têm um valor — sempre acreditei nisso; e se não posso acreditar agora, é porque estou insana, com fogo correndo nas veias e o coração batendo mais rápido do que posso contar suas batidas. Opiniões preconcebidas, decisões superadas são tudo que tenho para me amparar nesta hora; aí planto meu pé.” E o fiz. O Sr. Rochester, lendo minha expressão, viu que eu o fizera. Sua fúria chegou ao auge; tinha de ceder a ela por um momento, acontecesse o que acontecesse; atravessou o aposento, e pegou-me pelo braço e a cintura. Parecia devorar-me com aquele olhar inflamado; senti-me no momento fisicamente impotente como um graveto exposto ao calor e fulgor da fornalha; mentalmente, ainda era dona de meu espírito e, com ele, da certeza da segurança final. O espírito, felizmente, tem um intérprete — muitas vezes inconsciente, mas ainda assim fiel — nos olhos. Os meus elevaram-se para os dele; e olhando sua face feroz, exalei um suspiro involuntário; o aperto dele era doloroso, e minha Jane Eyre

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força, sobrecarregada, estava exausta. — Nunca — ele disse, rangendo os dentes — nunca houve uma coisa tão frágil e tão indomável. Parece um simples caniço em minhas mãos! (E sacudiu-me com força.) Eu podia dobrá-la com o indicador e o polegar, e que adiantaria dobrá-la, quebrá-la, esmagá-la? Veja esses olhos; veja a coisa selvagem e livre que olha por eles, desafiando-me, com muito mais do que coragem... com um severo triunfo. O que quer que eu faça com sua gaiola, não posso chegar a ela... à selvagem e bela criatura! Se eu arrombar, se destruir a frágil prisão, meu crime simplesmente deixará a cativa solta. Posso ser o conquistador da casa; mas a moradora escaparia para o céu antes que eu pudesse declarar-me dono de sua morada de barro. E é você, espírito... com determinação e energia, virtude e pureza... que eu quero, não apenas seu corpo eriçado. Por si mesma, você poderia vir em vôo suave e aninharse em meu coração, se quisesse; apanhada contra sua vontade, iludirá a posse como uma essência... se evaporará antes que eu inale sua fragrância. Oh, venha, Jane, venha! Dizendo isso, libertou-me e apenas ficou me olhando. O olhar era muito pior de resistir do que o frenético abraço: só uma idiota, no entanto, teria sucumbido agora. Eu enfrentara e vencera a sua fúria; devia escapar ao seu sofrimento; recuei para a porta. — Vai embora, Jane? — Vou, senhor. — Está me abandonando? — Sim. — Não virá? Não será meu conforto, minha salvadora? Meu profundo amor, minha louca aflição, minha frenética prece nada significam para você? Que inexprimível drama havia em sua voz! Como foi duro reiterar mais uma vez: — Eu vou. — Jane! — Sr. Rochester! — Retire-se então; eu consinto; mas lembre-se, deixa-me aqui em angústia. Suba ao seu quarto, reconsidere tudo que eu lhe disse, e, Jane, lance uma olhada aos meus sofrimentos... pense em 390

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mim. Deu-me as costas; atirou-se de rosto no sofá. — Oh, Jane! Minha esperança... meu amor... minha vida! — as palavras brotaram-lhe angustiadas dos lábios. Depois veio um soluço fundo, forte. Eu já tinha chegado à porta; mas, leitor, voltei — voltei tão decidida quanto tinha recuado. Ajoelhei-me ao lado dele; virei seu rosto da almofada para mim; beijei-lhe a face; alisei seus cabelos com a mão. — Deus o abençoe, meu querido amo! — disse. — Deus o proteja do mal e do erro... Deus o oriente, o console... o recompense bem por sua bondade para comigo. — O amor da pequena Jane teria sido minha melhor recompensa — ele respondeu. — Sem ele, meu coração está partido. Mas Jane me dará o seu amor, sim... nobremente, generosamente. O sangue subiu-lhe às faces; seus olhos faiscaram; ele saltou de pé; estendeu os braços; mas fugi ao abraço, e deixei imediatamente a sala. “Adeus!”, foi o grito de meu coração quando o deixei. O desespero acrescentou: “Adeus para sempre!” Naquela noite, nem pensei em dormir; mas uma modorra se abateu sobre mim assim que me deitei. Fui transportada em sonhos às cenas da infância; sonhei que estava deitada no quarto vermelho de Gateshead; que a noite era escura, e que estranhos temores me impressionavam a mente. A luz que muito tempo atrás me causara aquela síncope, recordada nessa visão, parecia subir deslizando a parede e parar, tremulante, no centro do teto escuro. Eu erguia a cabeça para olhar; o teto dissolvia-se em nuvens, altas e sombrias, o brilho era como o que a lua transmite aos vapores que vai desfazer. Observei-a vir — observei-a com a mais estranha previsão; como se alguma palavra de condenação estivesse para ser escrita em seu disco. Ela surgiu como nunca lua alguma surgiu das nuvens: primeiro, uma mão penetrou nas brancas dobras e afastou-as; depois, não a lua, mas uma alva forma humana brilhou no azul do céu, inclinando a gloriosa testa para a terra. Olhou-me e olhou-me. Falou ao meu espírito: Jane Eyre

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imensuravelmente distante era a voz, e no entanto tão próxima, que murmurava em meu coração: “Minha filha, fuja da tentação.” “Fugirei, mãe.” Assim respondi, após despertar daquele sonho que mais parecia um transe. Era noite ainda, mas as noites de julho são curtas; a madrugada chega pouco depois da meia-noite. “Não será demasiado cedo para iniciar a tarefa que tenho de cumprir”, pensei. Levantei-me, estava vestida; pois tirara apenas os sapatos. Eu sabia onde encontrar, em minhas gavetas, roupa branca, um medalhão, um anel. Procurando esses artigos, achei as contas do colar de pérolas que o Sr. Rochester me obrigara a aceitar alguns dias atrás. Deixei-as; não eram minhas; eram da noiva visionária que se dissolvera no ar. Embrulhei os outros artigos; pus no bolso minha bolsa, contendo vinte xelins (era tudo que eu tinha), amarrei minha touca de palha, preguei o xale, peguei o embrulho e as sandálias, que não ia calçar ainda, e me esgueirei de meu quarto. — Adeus, bondosa Sra. Fairfax! — murmurei, ao passar pela porta do quarto dela. — Adeus, minha querida Adèle! — disse, ao olhar para o quarto das crianças. Não podia admitir nenhuma idéia de entrar para abraçá-la. Tinha de iludir um ótimo ouvido: pelo que eu sabia, esse ouvido podia estar à escuta. Teria passado pelo quarto do Sr. Rochester sem parar; mas, como meu coração parou momentaneamente de bater naquela soleira, meus pés também se viram obrigados a parar. Não se dormia ali; o ocupante andava impacientemente de uma parede a outra; e repetidas vezes suspirou, enquanto eu escutava. Havia um paraíso — um paraíso temporário — naquele quarto para mim, se eu quisesse: tinha apenas de entrar e dizer: — Sr. Rochester, eu o amarei e viverei com o senhor a vida inteira, até a morte. E uma fonte de encanto brotaria os meus lábios. Pensei nisso. Aquele bondoso amo, que não podia dormir agora, esperava o dia com impaciência. Mandaria me chamar pela manhã; eu teria partido. Ele mandaria me procurar; inutilmente. Ele se sentiria abandonado; seu amor rejeitado, sofreria; talvez se desesperasse. 392

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Pensei nisso também. Minha mão se moveu em direção à fechadura: contive-a e afastei-me. Tristemente, segui meu caminho para baixo: sabia o que tinha de fazer, e o fiz mecanicamente. Procurei a chave da porta lateral na cozinha; procurei também um frasco de óleo e uma pena; lubrifiquei a chave e a fechadura. Peguei um pouco de água, um pouco de pão; pois talvez tivesse de percorrer uma grande distância a pé; e minhas forças, seriamente abaladas nos últimos dias, não deviam faltar. Fiz tudo isso sem o menor barulho. Abri a porta, saí, fechei-a silenciosamente. A mortiça madrugada começava no pátio. Os grandes portões permaneciam fechados e trancados; mas um portãozinho num deles estava apenas com a taramela. Por ele eu parti, depois de tornar a fechá-lo; e agora estava fora de Thornfield. A uma milha de distância, além dos campos, estendia-se uma estrada que seguia em direção oposta à de Millcote; uma estrada que eu nunca percorrera, mas vira muitas vezes e imaginava aonde levava: para lá encaminhei meus passos. Não podia permitir-me nenhuma reflexão agora: nem um olhar lançado para trás; nem mesmo para a frente. Não podia dedicar nem um pensamento ao passado ou ao futuro. O primeiro era uma página tão celestialmente doce — tão mortalmente triste — que ler uma linha dela seria dissolver minha coragem e desfazer minha energia. O último era uma terrível página em branco; algo como o mundo após o dilúvio. Contornei campos, sebes e alamedas até depois da aurora. Creio que era uma bela manhã estivai; sei que meus sapatos, que eu pusera após deixar a casa, logo estavam úmidos de orvalho. Mas não olhei nem o sol nascente, nem o céu sorridente, nem a natureza que despertava. Quem é levado a passar por um belo cenário em direção ao cadafalso não pensa nas flores que sorriem à beira da estrada, mas no cepo e no fio do machado; na separação de ossos e veias; na sepultura escancarada ao fim; e eu pensava na lúgubre fuga e na peregrinação ao léu — e, oh! com agonia pensava no que deixara. Não podia deixar de pensar. Pensava nele agora — em seu quarto, olhando o nascer do sol; esperando Jane Eyre

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que em breve eu viesse, para dizer-lhe que ficaria consigo e seria sua. Eu ansiava por ser sua; morria por voltar; não era tarde demais. Podia ainda poupar-lhe a amarga dor da privação. Tinha certeza de que não haviam ainda descoberto a minha fuga. Podia voltar e ser sua consoladora — o seu orgulho; sua redenção da infelicidade, talvez da ruína. Oh, aquele temor de que ele se abandonasse a si mesmo — pior ainda que o meu abandono — como me aguilhoava! Era uma seta serrilhada em meu peito; rasgava-me quando eu tentava extraí-la; deixava-me doente quando a lembrança a enterrava mais. Os pássaros começavam a cantar nos matos e capoeiras; eram fiéis a seus companheiros; eram símbolos do amor. Que era eu? Em meio à dor de meu coração e aos frenéticos esforços dos princípios, eu me detestava. Não tinha o consolo da auto-aprovação: nem mesmo do respeito próprio. Eu ferira — machucara —, abandonara meu amo. Era odiosa a meus próprios olhos. Contudo, não podia voltar, refazer um único passo. Deus devia me conduzir. Quanto à minha própria vontade e consciência, a dor da paixão havia espezinhado uma e sufocado a outra. Eu chorava desesperadamente ao percorrer meu caminho solitário; seguia rápido, rápido, como alguém em delírio. Uma fraqueza que começara interiormente, estendendose aos meus membros, apoderou-se de mim e caí; fiquei no chão alguns minutos, comprimindo o rosto contra a relva úmida. Tinha um pouco de medo — e de esperança — de morrer ali; mas logo me ergui, arrastando-me de quatro, e depois me pus de pé — ansiosa e decidida como nunca a alcançar a estrada. Quando cheguei lá, fui obrigada a sentar-me para descansar sob a sebe; e ali sentada ouvi um barulho de rodas, e vi uma diligência aproximar-se. Levantei-me e ergui a mão; ela parou. Perguntei aonde ia: o cocheiro disse o nome de um lugar muito distante, e onde eu sabia que o Sr. Rochester não tinha relações. Perguntei-lhe por quanto me levaria até lá; ele disse trinta xelins; respondi que só tinha vinte; bem, ele tentaria fazer isso dar. Deume permissão para entrar, pois o veículo estava vazio; entrei, ele fechou a porta, e a diligência seguiu seu caminho. Gentil leitor, que você jamais sinta o que senti então! Que 394

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seus olhos nunca vertam lágrimas tão abundantes, escaldadantes, arrancadas do coração, como as que transbordaram dos meus. Que nunca apele aos céus em preces tão desesperançadas e agônicas como as que deixaram meus lábios naquele dia; pois que nunca tema você, como eu, ser o instrumento do mal para aquele a quem ama inteiramente.

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CAPÍTULO 28

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assaram-se dois dias. É um entardecer de verão; o co-cheiro me desembarcou num lugar chamado Whitcross; não podia levar-me mais longe pela soma que eu lhe dera, e eu não possuía nem mais um xelim no mundo. A diligência já vai a uma milha de distância a essa altura; estou só. Neste momento, descubro que esqueci de pegar meu embrulho na mala da diligência, onde o guardei por segurança; lá está, e lá deverá ficar; e agora, estou na mais absoluta indigência. Whitcross não é uma cidade, nem mesmo uma aldeia; apenas um pilar de pedra numa encruzilhada, caiado, suponho, para tornar-se mais visível à distância, na escuridão. Quatro braços se projetam no topo da coluna: a cidade mais próxima, segundo a indicação, fica a dez milhas; a mais distante, cerca de vinte. Pelos conhecidos nomes dessas cidades, sei em que condado me encontro; um burgo das Midlands do norte, coberto de charnecas, eriçado de montanhas, é o que vejo. Há grandes pântanos atrás e a cada lado de mim; e ondas de montanhas até muito além do vale a meus pés. A população aqui deve ser escassa, e não vejo passantes por estas estradas, que se estendem para leste, oeste, norte e sul — brancas, amplas, solitárias; todas cortam as charnecas, e o mato cresce denso e bravo nas margens. Mas um passante casual aparece; e não desejo que olho algum me veja agora: um estranho imaginaria o que ando fazendo, parada aqui no poste de sinalização, evidentemente sem objetivo e perdida. Poderia 396

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interrogar-me, e eu só poderia dar uma resposta que soaria incrível e despertaria suspeitas. Nenhum laço me liga à sociedade humana neste momento — nem um encanto ou esperança me chama para junto das criaturas minhas irmãs — ninguém que me visse teria um pensamento bondoso ou um bom desejo para mim. Não tenho parente algum, além da mãe universal, a Natureza: buscarei seu seio e pedirei para descansar. Enfiei-me na charneca; meti-me numa clareira que sulcava profundamente a parda margem do pântano; andei enterrada até os joelhos em meio à escura vegetação; acompanhei suas curvas e, encontrando um rochedo de granito coberto de musgo num ângulo escondido, sentei-me a seus pés. Estava cercada de altas margens de pântanos; o rochedo protegia-me a cabeça; o céu pairava acima. Passou-se algum tempo até que me sentisse tranqüila mesmo ali: eu tinha um vago temor de que houvesse gado bravo por perto, ou de que algum caçador ou transgressor me descobrisse. Quando uma rajada de vento açoitava o mato, eu erguia a cabeça, temendo que fosse a arremetida de um touro. Se uma lavandeira piava, eu imaginava que era um homem. Descobrindo que minhas apreensões eram infundadas, no entanto, e tranqüilizada pelo profundo silêncio que reinava com o cair da tarde, ganhei confiança. Não tinha nenhuma idéia ainda; apenas ouvira, observara, temera; agora, readquiria a faculdade de refletir. Que ia fazer? Aonde ir? Oh, perguntas insuportáveis, quando eu nada podia fazer nem ir a parte alguma! Quando minhas pernas fatigadas e trêmulas ainda tinham de percorrer uma longa estrada, antes que eu alcançasse uma habitação humana — quando teria de implorar a fria caridade para conseguir um abrigo; de importunar a relutante simpatia alheia, e quase certamente incorrer em repulsa, para que se ouvisse a minha história, ou se satisfizesse qualquer das minhas necessidades! Toquei o chão da charneca; estava seco e cálido com o calor de um dia de verão. Olhei o céu; estava puro, uma bondosa estrela piscava pouco acima da montanha. O sereno caía, mas com propícia suavidade; não soprava brisa alguma. A natureza Jane Eyre

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parecia-me benigna e boa; pensei que ela me amava, por mais abandonada que eu estivesse; e eu, que só poderia esperar desconfiança, rejeição, insulto do ser humano, agarrei-me a ela com filial devoção. Naquela noite, pelo menos, seria sua hóspede, como era sua filha: minha mãe me alojaria sem dinheiro e sem cobrança. Eu ainda tinha um naco de pão, o resto de um pão inteiro que comprara numa cidade pela qual passáramos ao meio-dia, com um pêni que encontrara por acaso — minha última moeda. Via bagas de mirtilo brilhando aqui e ali, como contas negras no matagal: colhi um punhado e as comi com pão. Minha fome, aguda antes, foi, se não satisfeita, pelo menos apaziguada por essa refeição de eremita. Fiz minhas preces noturnas ao terminála, e depois escolhi o meu leito. Além do rochedo, a charneca era muito profunda: quando eu dava uma passada, o pé afundava nela; elevando-se alta de todos os lados, deixava apenas um estreito espaço para o ar da noite entrar. Dobrei meu xale, e estendi-o sobre mim como um cobertor; um tufo de mato baixo, musgoso, era o meu travesseiro. Assim alojada, não senti frio, pelo menos no começo da noite. Meu repouso poderia ter sido bastante feliz; só que meu coração partido o interrompeu. Queixava-se de suas feridas abertas, do sangramento interno, das cordas partidas. Tremia pelo Sr. Rochester e sua condenação; lamentava-o com profunda piedade; exigia-o com um anseio incessante; e, impotente como um pássaro com ambas as asas quebradas, ainda debatia seus cotos despedaçados em vãs tentativas de ir buscá-lo. Exausta com essa tortura mental, pus-me de joelhos. A noite caíra, e seus planetas giravam no céu: uma noite tranqüila, silenciosa, serena demais para se ter medo. Sabemos que Deus está em toda parte; mas certamente sentimos mais Sua presença quando Suas obras se mostram em maior escala à nossa frente; e é no céu noturno sem nuvens, onde Seus mundos giram em círculos silenciosos, que lemos mais clara a Sua infinitude, a Sua onipotência, a Sua onipresença. Eu me pusera de joelhos para rezar pelo Sr. Rochester. Erguendo a cabeça, vi, com os olhos cheios de lágrimas, a poderosa Via Láctea. Lembrando-me do que era —que 398

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incontáveis sistemas varriam ali o espaço como um suave facho de luz — senti o poder e a força de Deus. Estava certa de Sua eficiência para proteger o que criara, convenci-me de que nem a terra pereceria, nem qualquer uma das almas que entesourava. Volvi minha prece para um agradecimento; a Fonte da Vida era também o Salvador dos espíritos. O Sr. Rochester estava em segurança, pertencia a Deus, e por Deus seria protegido. Aninheime novamente no seio da montanha; e em pouco tempo esqueci no sono o sofrimento. Mas no dia seguinte, veio-me a Necessidade, pálida e nua. Muito depois de os passarinhos terem deixado seus ninhos; muito depois de as abelhas virem, nas doces primícias do dia, colher o mel das urzes antes que o orvalho secasse — quando as compridas sombras da manhã se encolheram, e o sol encheu o céu e a terra — me levantei e olhei em volta. Que dia quieto, quente, perfeito! Que dourado deserto aquela extensa charneca! Por toda parte, a luz do sol. Desejei poder viver ali e dali. Vi um lagarto subir correndo o rochedo; vi uma abelha atarefada entre as doces bagas de mirtilo. Eu teria de bom grado me transformado em abelha ou lagarto, para encontrar alimentação adequada e abrigo permanente ali. Mas era um ser humano, e tinha as necessidades de um ser humano, não devia demorar-me onde não havia nada para satisfazê-las. Levantei-me; olhei a cama que deixara. Sem esperanças para o futuro, desejava apenas isso — que meu Criador tivesse naquela noite julgado bom requisitar minha alma, enquanto eu dormia; e que aquele cansado corpo, absolvido pela morte de mais outros conflitos com a sorte, tivesse agora apenas de decompor-se tranqüilamente e misturar-se em paz com o solo do agreste. A vida, no entanto, ainda me possuía, com todas as suas exigências, e sofrimentos, e responsabilidades. O fardo tinha de ser carregado; a necessidade satisfeita; o sofrimento suportado; a responsabilidade cumprida. Parti. Voltando a Whitcross, segui uma estrada que ia em direção oposta à do sol, agora ardente e alto. Por nenhuma circunstância tinha eu vontade de decidir minha sorte. Caminhei por um longo Jane Eyre

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tempo, e quando achei que já tinha andado bastante, e que poderia conscienciosamente ceder à fadiga que quase me dominava — poderia relaxar aquela marcha forçada, e, sentando-me numa pedra que via próxima, submeter-me sem resistência à apatia que me pesava no coração e nos membros — ouvi um sino tocar, um sino de igreja. Voltei-me na direção do som, e ali, entre as românticas montanhas, cujas mudanças e aspecto deixara de notar uma hora atrás, vi uma aldeia e um campanário. Todo o vale à minha direita estava cheio de campos de pastagem, campos de milho e florestas; e um reluzente riacho ziguezagueava pelos vários tons de verde, do grão que amadurecia, da sombria mata, do claro e ensolarado prado. Atraída pelo rumor de rodas na estrada à minha frente, vi uma carroça sobrecarregada mourejando colina acima, e não muito além duas vacas e seu condutor. A vida e o trabalho humanos estavam perto. Eu devia prosseguir na luta, lutar pela vida e curvar-me sob o trabalho como os demais. Cerca de duas horas da tarde, entrei na aldeia. No fim de sua única rua, havia uma lojinha com alguns pães na vitrina. Cobicei um pão. Com aquela restauração, poderia talvez readquirir um pouco de energia; sem ela, seria difícil prosseguir. O desejo de ter alguma força e energia me voltaram assim que me vi entre os seres meus irmãos. Achei que seria degradante desmaiar de fome na rua de uma aldeia. Não teria nada comigo que pudesse trocar por um daqueles pães? Pensei. Tinha um pequeno lenço de seda atado em volta do pescoço; tinha minhas luvas. Não sabia como os homens e mulheres que haviam chegado ao extremo da miséria agiam. Não sabia se algum daqueles artigos seria aceito, provavelmente não; mas tinha de tentar. Entrei na loja; havia uma mulher lá dentro. Vendo uma pessoa respeitavelmente vestida, uma dama, como supunha, ela se adiantou com civilidade. Em que podia me servir? Fui tomada de vergonha, minha língua não exprimia o pedido que eu preparara. Não ousava oferecer-lhe as luvas meio gastas, o lenço amassado; além disso, sentia que seria absurdo. Pedi apenas permissão para sentar-me por um momento, pois estava cansada. Decepcionada 400

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na esperança de uma freguesa, ela acedeu friamente ao pedido. Indicou-me um assento; afundei nele. Sentia uma dolorosa vontade de chorar; mas, sabendo como seria irrazoável uma tal manifestação, contive-me. Em breve, perguntei “se havia alguma costureira ou auxiliar de costureira na aldeia?” — Sim; duas ou três. O bastante para o trabalho que há. Refleti. Fora impelida ao ponto agora. Fora posta frente a frente com a necessidade. Estava na posição de uma pessoa sem recursos, sem um amigo, sem uma moeda. Tinha de fazer alguma coisa. O quê? Tinha de recorrer a alguma coisa. Onde? — Ela sabia de algum lugar nas vizinhanças onde se precisasse de uma criada? — Não; não sabia dizer. — Qual era a principal atividade daquele lugar? Que era que a maioria das pessoas fazia? — Alguns eram trabalhadores de roça; muitos trabalhavam na fábrica de agulhas do Sr. Oliver, e na fundição. — O Sr. Oliver empregava mulheres? — Não; era trabalho de homem. — E que faziam as mulheres? — Não sei, não — foi a resposta. — Umas fazem uma coisa, e outras outra. A gente pobre deve passar como pode. Parecia estar cansada de minhas perguntas; e, na verdade, que direito tinha eu de importuná-la? Entraram um ou dois vizinhos; precisavam evidentemente de minha cadeira. Subi a rua, olhando ao passar todas as casas de um lado e de outro; mas não conseguia descobrir nenhum pretexto nem ver nenhum motivo para entrar em nenhuma delas. Vagueei pela aldeia, às vezes saindo até uma certa distância e depois voltando, durante uma hora ou mais. Bastante exausta, e sofrendo muito agora pela falta de comida, dobrei por uma alameda e me sentei sob a sebe. Antes de passarem muitos minutos, estava novamente de pé, e novamente buscando algo — um recurso, ou pelo menos um informante. No alto da colina, erguia-se uma bela casinha, com um jardim na frente, perfeitamente arrumado e brilhantemente florido. Parei diante dela. Que tinha eu de me aproximar da porta Jane Eyre

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branca e tocar a reluzente maçaneta? De que modo interessaria aos habitantes daquela morada ajudar-me? Uma jovem de aparência suave, muito limpa, abriu a porta. Numa voz como a que se poderia esperar de um coração sem esperança e um corpo a ponto de desfalecer — uma voz desgraçadamente baixa e falha —, perguntei se precisavam de uma criada ali. — Não — ela disse — não temos criada. — Pode dizer-me onde posso arranjar algum tipo de emprego? — continuei. — Sou estranha, sem conhecimentos neste lugar. Preciso de um trabalho; não importa qual. Mas não era problema dela pensar por mim, ou arranjar um emprego para mim; além disso, a seus olhos, como deveriam parecer duvidosos o meu caráter, a minha posição, a minha história. Ela balançou a cabeça, “sentia muito não poder me dar nenhuma informação”, e a porta branca se fechou, muito delicada e polidamente; mas me deixava de fora. Se a moça » houvesse mantido aberta um pouco mais, creio que eu teria pedido um pedaço de pão; pois estava agora no fundo. Eu não podia suportar um retorno à sórdida aldeia, onde, ademais, não era visível nenhuma perspectiva de ajuda. Eu devia preferir desviar-me para um bosque que via não muito distante, e que parecia, com sua densa sombra, oferecer um abrigo convidativo; mas estava tão doente, tão fraca, tão aferroada pelos anseios da natureza, que o instinto me manteve rondando casas onde havia possibilidade de arranjar comida. A solidão não seria solidão, o repouso não seria repouso, enquanto aquele abutre, a fome, afundasse assim seus esporões e seu bico em meu flanco. Aproximei-me das casas; deixava-as e tornava a voltar, e novamente me afastava: sempre repelida pela consciência de que não tinha direito algum a pedir — direito algum a esperar qualquer interesse pela minha infeliz sorte. Enquanto isso, a tarde avançava, enquanto eu vagueava assim, como um cão perdido e faminto. Ao atravessar um campo, vi uma torre de igreja à minha frente, corri para ela. Perto do cemitério, e no meio de um jardim, erguia-se uma casa bem construída, apesar de pequena, que eu 402

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não tinha dúvida de que era a casa do pároco. Lembrei-me de que os estranhos que chegam a um lugar onde não têm amigos, e que procuram emprego, às vezes apelam para o clérigo, para que os apresente e ajude. É função do clérigo ajudar — ao menos com conselhos — os que desejam ajudar-se a si mesmos. Parecia-me que tinha algum direito a buscar conselho ali. Recuperando então a coragem, e reunindo meus débeis restos de energia, segui em frente. Cheguei à casa e bati na porta da cozinha. Uma velha abriu; perguntei se aquela era a casa paroquial. — Sim. — O sacerdote estava? — Não. — Voltaria logo? — Não, estava ausente de casa. — Longe? — Não muito... umas três milhas. Fora chamado para lá pela morte súbita de seu pai: estava em Marsh End agora, e muito provavelmente permaneceria lá por mais uma quinzena. — Havia alguma dona da casa? — Não — havia apenas ela, que era a governanta. E a ela, leitor, eu não podia suportar pedir alívio da necessidade em que me afundava, não podia mendigar ainda, e mais uma vez me afastei, arrastando-me. Mais uma vez peguei meu lenço; mais uma vez pensei nos pães da lojinha. Oh, ao menos uma migalha! Apenas um bocado para aplacar a dor da fome! Instintivamente, tornei a voltar-me para a aldeia; tornei a encontrar a loja, e entrei; e embora houvesse outras pessoas lá, além da mulher, aventurei-me a perguntar: — Será que ela me daria um pão por aquele lenço? Ela me olhou com evidente suspeita. — Não, não vendia coisas como aquela. Quase desesperada, pedi meio pão; ela tornou a recusar. — Como podia saber onde eu conseguira o lenço? — Aceitaria minhas luvas? — Não! Que iria fazer com elas? Leitor, não é agradável demorar-me nesses detalhes. Algumas Jane Eyre

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pessoas dizem que há prazer em lembrar experiências penosas passadas; mas até hoje mal posso suportar rever a época a que me refiro: a degradação moral, misturada ao sofrimento físico, deixa uma lembrança demasiado angustiante para que um dia alguém se demore deliberadamente nela. Eu não censurava a nenhum daqueles que me repeliam. Sentia que era o que se devia esperar, e que não se podia evitar: um mendigo comum já é freqüentemente objeto de suspeitas; um mendigo bem vestido o será inevitavelmente. Sem dúvida, o que eu mendigava era um emprego; mas de quem era o problema de me arranjar um? Não, certamente, de pessoas que me viam então pela primeira vez, e que nada sabiam de meu caráter. E quanto à mulher que não quis aceitar meu lenço em troca de pão, ora, estava certa, se a oferta lhe parecia sinistra ou a troca não lucrativa. Vou resumir agora. Estou nauseada do tema. Pouco antes do anoitecer, passei por uma casa de fazenda, a cuja porta aberta se sentava o fazendeiro, tomando sua sopa de pão e queijo. Parei e disse: — O senhor me dá um pedaço de pão? Pois tenho muita fome. — Ele me lançou um olhar de surpresa; mas, sem responder, cortou uma grossa fatia de seu pão e me deu. Imagino que não me achava uma mendiga, mas apenas uma espécie de dama excêntrica, que se tomara de encantos pelo seu pão pardo. Assim que estava fora das vistas da casa, sentei-me e comi-o. Não podia esperar conseguir abrigo sob um teto, e busquei-o no bosque a que me referi há pouco. Mas minha noite foi desgraçada, e meu repouso interrompido: o chão estava úmido, o ar frio; além disso, intrusos passaram perto de mim mais de uma vez, e tive de mudar repetidas vezes de lugar; não tinha nenhuma sensação de segurança ou tranqüilidade. Lá pela madrugada, choveu; e todo o dia seguinte foi de chuva. Não me peça, leitor, para darlhe uma versão detalhada daquele dia; como antes, fui repelida; como antes, morria de fome; mas comi uma vez. À porta de uma cabana, uma menina ia jogar um bolo de mingau de aveia frio num cocho de porcos. — Você me dá isso? — perguntei. Ela me olhou com olhos 404

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arregalados. — Mãe! — exclamou. — Uma mulher aqui quer que eu lhe dê esse mingau. — Bem, menina — respondeu uma voz lá dentro — dê, se é uma mendiga. O porco não quer. A menina esvaziou o bolo duro em minha mão, e o devorei famintamente. Quando o chuvoso crepúsculo se adensou, parei no solitário sendeiro que percorria havia uma hora ou mais. — Minhas forças me abandonam inteiramente — disse, num solilóquio. — Sinto que não posso ir muito mais longe. Serei uma marginal outra vez esta noite? Com a chuva caindo de tal modo, terei de repousar a cabeça no chão frio, encharcado? Temo que não possa ser de outra forma, pois quem me receberá? Mas será pavoroso, com esta sensação de fome, fraqueza, frio, e essa desolação...esta total prostração da esperança. Muito provavelmente, porém, estarei morta antes do amanhecer. E por que não posso reconciliar-me com a perspectiva da morte? Por que luto para manter uma vida que não vale nada? Porque sei, ou creio, que o Sr. Rochester vive, e depois, morrer de privação e frio é uma sorte a que a natureza não pode se submeter passivamente. Oh, Providência, mantenha-me ainda um pouco mais! Ajude! Oriente-me! “Bem, eu preferiria morrer aqui do que numa rua ou num local freqüentado”, refleti. “É muito melhor que os corvos e aves de rapina — se é que os há nesta região — me tirem as carnes dos ossos do que tê-los aprisionados num caixão de indigente e mofar numa cova de pobre.” Para a montanha, então, me voltei. Alcancei-a. Restava apenas, agora, encontrar um buraco onde pudesse deitar-me, e sentir-me ao menos escondida, se não segura. Mas toda a superfície da mata parecia nivelada. Mostrava variações apenas de cor; verde, onde os juncos e musgos cobriam os pântanos; negra, onde o solo seco alimentava apenas a morte. Apesar de estar escurecendo, ainda podia ver mudanças, embora apenas como alterações de luz e sombra; pois as cores se tinham apagado com a luz do dia. Meus olhos ainda vagavam pela melancólica montanha e ao Jane Eyre

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longo da margem do pântano, perdendo-se em meio ao mais agreste panorama, quando num ponto obscuro e distante, entre os pântanos e os montes, surgiu uma luz. “É um ignis fatuus”, foi meu primeiro pensamento; e esperei que logo desaparecesse. Mas continuou a brilhar, com total constância, não recuando nem avançando. “Será então uma fogueira acesa agora?” pergunteime. Esperei para ver se se ampliava; mas não; como não diminuía, tampouco aumentava. “Pode ser uma vela numa casa”, conjeturei então; “mas, se é, jamais poderei alcançá-la. Está longe demais: e, mesmo que estivesse a uma jarda de mim, de que adiantaria? Bastava bater na porta para tê-la fechada em minha cara”. E afundei no lugar onde estava, escondendo o rosto contra o solo. Fiquei imóvel algum tempo: o vento da noite passava pelo monte e por mim, e morria gemendo na distância; a chuva caía grossa, molhando-me de novo até os ossos. Se pelo menos eu me enrijecesse até a imobilidade — a amiga dormência da morte— ela poderia continuar a cair: eu não a sentiria; mas minha carne molhada, ainda viva, tremia à sua congelante influência. Em breve, levantei-me. A luz ainda estava lá, brilhando minúscula mas constante através da chuva. Tentei voltar a caminhar: arrastei as pernas cansadas em direção a ela, o que me conduziu de viés pela colina, passando por um largo lamaçal, que seria intransponível no inverno, e que mesmo agora, no auge do verão, era um atoleiro. Ali caí duas vezes; mas outras tantas me levantei e reuni minhas faculdades. Aquela luz era minha obstinada esperança; tinha de chegar a ela. Tendo atravessado o pântano, vi uma tira branca na charneca. Aproximei-me; era uma estrada ou trilha: levava direto à luz, que agora refulgia de uma espécie de outeiro, em meio a um grupo de árvores — pinheiros, aparentemente, pelo que pude distinguir do aspecto de suas formas e folhagens na escuridão. Minha estrela desapareceu quando me aproximei; algum obstáculo se havia interposto entre eu e ela. Estendi a mão, para apalpar a massa escura à minha frente: distingui as ásperas paredes de um muro baixo — acima, alguma coisa como uma paliçada, e dentro, uma 406

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alta e espinhosa sebe. Continuei tateando. Novamente um objeto esbranquiçado brilhou diante de mim: era um portão — uma pequena cancela, que se moveu nas dobradiças quando a toquei. De cada lado, havia uma moita escura— azevinho ou teixo. Entrando eu pelo portão e passando pelas moitas, ergueu-se à minha vista a silhueta de uma casa, negra, baixa e um tanto comprida, mas a luz-guia não brilhava em parte alguma. Tudo era escuridão. Haviam-se os moradores recolhido para dormir? Eu temia que assim fosse. Ao procurar a porta, dobrei uma esquina; e lá estava a luz amiga de novo, saindo das vidraças em losango de uma janela muito pequena, com gelosias, a um pé do chão e tornada ainda menor pela vegetação de hera ou de alguma outra trepadeira, cujas folhas se concentravam densamente na parte da parede da casa onde ela ficava. A abertura era tão obstruída e estreita, que não se julgara necessário cortina ou estore; e quando me abaixei e afastei a folhagem que a cobria, pude ver tudo lá dentro. Via claramente uma sala com o assoalho areado, limpo; uma cômoda de nogueira, com vasilhas de estanho enfileiradas, refletindo o fulgor e a radiação de um rubro fogo de turfa. Via um relógio, uma mesa branca, algumas cadeiras. A vela, cujos raios tinham sido meu farol, ardia na mesa; e à sua luz uma mulher idosa, de aparência um tanto rude, mas escrupulosamente limpa, como tudo à sua volta, tricotava uma meia. Notei esses objetos apenas de passagem — nada havia neles de extraordinário. Um grupo mais interessante reunia-se perto da lareira, todos sentados quietos em meio à rósea paz e calor que se irradiava dela. Duas jovens graciosas — damas em todos os sentidos — sentavam-se, uma numa cadeira de balanço baixa, a outra num banquinho ainda mais baixo; ambas vestiam luto fechado de crepe e bombazina, trajes negros que ressaltavam singularmente seus brancos pescoços e rostos; um grande e velho perdigueiro repousava a maciça cabeça no joelho de uma das moças — no colo da outra se aninhava um gato negro. Estranho lugar era aquela humilde cozinha para tais ocupantes! As jovens não podiam ser filhas da velha à mesa; pois ela parecia rústica, e elas eram todas delicadeza e refinamento. Eu não vira Jane Eyre

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em parte alguma rostos como os delas, e no entanto, enquanto as olhava, cada traço me parecia conhecido. Não posso dizer que fossem bonitas — eram demasiado pálidas e graves para esta palavra: como ambas se curvavam sobre um livro, pareciam pensativas até quase a severidade. Um suporte entre elas continha uma segunda vela e dois grandes volumes, ao qual recorriam freqüentemente, comparando-os, aparentemente, com os livros menores que tinham nas mãos, como pessoas que consultam um dicionário para ajudá-las numa tradução. A cena era tão silenciosa como se todas as figuras fossem sombras, e o aposento iluminado pela luz da lareira um quadro: o silêncio era tanto, que eu podia ouvir a cinza cair da grade, e o relógio bater em seu canto escuro; e imaginei que podia ouvir até o clique-clique das agulhas de tricô da mulher. Quando, assim, uma voz quebrou a estranha quietude afinal, foi bastante audível para mim. — Escute, Diana — disse uma das absortas estudantes —, Franz e o velho Daniel estão juntos à noite, e Franz conta um sonho do qual acordou aterrorizado... escute! — E leu em voz baixa alguma coisa, da qual nem uma palavra me era inteligível; pois era numa língua desconhecida — nem francês nem latim. Se era grego ou alemão, eu não sabia. — Isto é forte — ela disse, quando acabou. — Eu gosto. — A outra moça, que erguera a cabeça para escutar a irmã, repetiu olhando o fogo uma linha do que fora lido. Posteriormente, fiquei sabendo do idioma e do livro; assim, citarei aqui a linha, embora quando a tenha ouvido pela primeira vez me soasse apenas como algo metálico, sem nenhum sentido: — Da trat hervor Einer, anzusehen wie die Sternen Nacht. É bom! É bom! —ela exclamou, os olhos negros e profundos faiscando. — Aí tem você um sombrio e poderoso arcanjo bem disposto à sua frente! A linha vale cem páginas de retórica oca. “Ich wäge die Gedanken in der Schale meines Zornes und die Werke mit dem Gewichte meines Grimms”. Gosto disso! Voltaram a calar-se. — Existe algum país onde falem desse jeito? — perguntou a velha, erguendo o olhar de seu tricô. 408

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— Sim, Hannah... um país muito maior que a Inglaterra, onde não falam de outro jeito. — Bem, sem dúvida, não sei como podem entender uns aos outros, e se uma das senhoritas fosse lá, ia saber o que eles diziam? — Provavelmente poderíamos saber alguma coisa do que dissessem, mas não tudo... pois não somos tão inteligentes quanto você nos julga, Hannah. Não falamos alemão, e não podemos lêlo sem a ajuda de um dicionário. — E de que lhes serve isso? — Pretendemos ensiná-lo um dia... ou pelo menos os rudimentos, como dizem; e então ganharemos mais dinheiro do que ganhamos agora. — É bem possível; mas acabem com o estudo; já fizeram bastante por esta noite. — Achamos que sim; pelo menos, eu estou cansada. E você, Mary? — Morta: afinal, é duro labutar com uma língua sem nenhum outro mestre além de um dicionário. — É, especialmente com uma língua como esse intricado, apesar de glorioso, alemão. — Certamente ele não vai demorar muito agora; são apenas dez horas (olhando um reloginho de ouro que tirou da cintura). Está chovendo muito. Hannah, quer ter a bondade de olhar o fogo na sala de visitas? A mulher levantou-se, abriu uma porta, pela qual vi um corredor escuro, logo a ouvi atiçar um fogo num quarto interno, e voltou. — Ah, meninas — disse — me dá muito trabalho ir na sala ao lado agora: parece tão solitário com a cadeira vazia e recostada a um canto. Enxugou os olhos com o avental: as duas moças, sérias antes, pareciam tristes agora. — Mas ele está num lugar melhor — continuou Hannah — não devíamos querê-lo de volta aqui. E depois, ninguém pode ter uma morte tão tranqüila quanto a que ele teve. — Você disse que ele não falou nem uma vez em nós? — Jane Eyre

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perguntou uma das damas. — Não teve tempo, criança: foi-se num minuto, seu pai. Tinha estado um pouco mal, como no dia anterior, mas nada sério; e quando o Sr. St. John perguntou se queria que mandasse chamar uma de vocês, riu bastante dele. Começou a sentir de novo uma espécie de peso na cabeça, no outro dia... quer dizer, há quinze dias... e foi dormir e nunca mais acordou: estava quase duro quando seu irmão entrou lá e o encontrou. Ah, meninas, foi o último da cepa: as senhoritas e o Sr. St. John são de uma espécie diferente daqueles que se foram, pois a mãe de vocês era muito parecida com vocês, e muito dada a livros. Era o retrato da senhorita, Srta. Mary; a Srta. Diana parece mais com o pai. Eu as achava tão parecidas, que não podia dizer onde a velha criada (pois agora concluía que era isso que ela era) via a diferença. Ambas eram brancas e esguias; ambas tinham rostos cheios de distinção e inteligência. Uma, certamente, tinha o cabelo um pouquinho mais escuro que o da outra, e havia uma certa diferença no estilo de o pentearem; os cachos castanhos claros de Mary eram partidos e trançados; as trancas mais escuras de Diana cobriam-lhe o pescoço com grossos rolos. O relógio bateu dez horas. — Vão querer sua ceia, tenho certeza — observou Hannah — e o Sr. St. John também, quando chegar. E pôs-se a preparar a refeição. As damas levantaram-se: pareciam dispostas a retirar-se para a sala de visitas. Até esse momento, eu tinha estado tão atenta a observá-las, a aparência e a conversa delas me tinham provocado um interesse tão vivo, que eu quase esquecera minha própria posição desgraçada; agora, ela me voltava. Mais desolada, mais desesperada que nunca, parecia agora em contraste. E como parecia impossível interessar as habitantes daquela casa por mim; fazê-las acreditar na verdade de minhas privações e sofrimentos; levá-las a dar um repouso às minhas andanças! Quando tateava até a porta, e batia nela hesitantemente, achei que a última idéia era uma simples quimera. Hannah abriu. 410

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— Que é que você quer? — perguntou numa voz de surpresa, examinando-me luz da vela que segurava. — Posso falar com suas patroas? — eu disse. — É melhor me dizer o que quer falar com elas. De onde vem? — Sou uma estranha. — Que quer aqui a esta hora? — Quero abrigo por uma noite, numa casinha aqui fora ou em qualquer parte, e um pedaço de pão para comer. A desconfiança, exatamente o sentimento que eu temia, surgiu no rosto de Hannah. — Vou lhe dar um pedaço de pão — ela disse, após uma pausa — mas não podemos alojar uma vadia. Não é possível. — Deixe-me falar com suas patroas. — Não, eu, não. Que podem elas fazer por você? Não devia andar vagando por aí; isso parece muito mal. — Mas aonde irei, se você me expulsar? Que farei? — Oh, garanto que você sabe para onde ir e o que fazer. Cuide de não fazer nada errado, só isso. Tome aqui um pêni; agora vá... — Um pêni não pode me alimentar, e não tenho mais forças para ir adiante. Não feche a porta, oh, não, pelo amor de Deus! — Tenho de fechar, a chuva está entrando... — Fale com as jovens damas. Deixe-me vê-las... — Não vou fazer isso de jeito nenhum. Você não é o que devia ser, senão não faria tal barulho. Mexa-se. — Mas vou morrer, se me expulsarem. — Você, não. Receio que tenha algumas idéias más, que a trazem às casas das pessoas a esta hora da noite. Se tem cúmplices... arrombadores ou coisas assim...aí por perto, pode dizer a eles que não estamos sozinhas aqui; temos um cavalheiro, e cães, e armas. — E a honesta mas inflexível criada bateu a porta e a aferrolhou por dentro. Foi o clímax. Uma pontada de total sofrimento — um latejar do verdadeiro desespero — lacerou e afundou meu coração. Eu estava na verdade exausta; não podia dar nem mais um passo. Arriei nos degraus molhados; gemi... torci as mãos — chorei na Jane Eyre

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maior angústia. Oh, aquele espectro da morte! Oh, aquela última hora, aproximando-se com tamanho horror! Ai, aquela desolação — aquela expulsão do meio de minha espécie! Fora-se não apenas a âncora da esperança, mas a base da fortitude — ao menos por um momento; mas logo me esforcei e readquiri a última. — Só posso morrer — eu disse — e acredito em Deus. Vou tentar aguardar Sua vontade em silêncio. Estas palavras, não apenas as pensei, mas externei; e afundando toda a minha miséria no coração, fiz um esforço para obrigá-la a permanecer ali — calada e quieta. — Todos devem morrer — disse uma voz tranqüila bem perto — mas nem todos estão condenados a enfrentar um fim prolongado e prematuro, como seria o seu se morresse aqui de privação. — Quem ou que está falando? — perguntei, aterrorizada com o som inesperado, e incapaz agora de extrair de qualquer ocorrência alguma esperança de auxílio. Um vulto estava ali junto — que vulto, o negrume da noite me impedia de distinguir. Com batidas altas e demoradas, o recém-chegado chamou à porta. — É o senhor, Sr. St. John? —< gritou Hannah. — Sim... sim; abra agora mesmo. — Bem, o senhor deve estar molhado e com frio, numa noite tão feia dessa! Entre... suas irmãs estão bastante preocupadas com o senhor, e creio que há malfeitores por aí. Esteve aqui uma mendiga... ora, ela ainda não foi embora! Deitada aqui! Levantese! Tome vergonha! Vá andando, vamos! — Cale a boca, Hannah! Tenho de falar com essa mulher. Você cumpriu seu dever expulsando-a, agora deixe-me cumprir o meu admitindo-a. Eu estava perto, e ouvi vocês duas. Acho que este é um caso especial... tenho de ao menos examiná-lo. Levante-se, jovem, e entre em casa. Obedeci-lhe, com dificuldade. Acabei parada dentro daquela cozinha limpa e iluminada — diante da própria lareira — tremendo, nauseada; extremamente consciente de meu aspecto espectral, desvairada e encharcada. As duas damas, o irmão, Sr. St. John, e a velha criada olhavam-me de olhos arregalados. 412

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— Quem é, St. John? — ouvi uma perguntar. — Não sei dizer, encontrei-a na porta — foi a resposta. — Ela parece pálida — disse Hannah. — Pálida como barro ou a morte — foi a resposta. — Ela vai cair, que se sente. E na verdade minha cabeça girava: desabei; mas uma cadeira me recebeu. Eu ainda tinha o domínio de meus sentidos, embora no momento não pudesse falar. — Talvez um pouco d’água a restaurasse: Hannah, vá buscar. Mas ela está reduzida a nada. Como está magra e exangue! — Um mero espectro! — Estará doente, ou apenas faminta? — Faminta, creio. Hannah, isso é leite? Dê-me, e um pedaço de pão. Diana (eu a reconhecia pelos compridos cachos que vi pendentes diante do fogo, quando ela se curvou sobre mim) partiu um pedaço de pão, mergulhou-o no leite e o pôs em meus lábios. Tinha o rosto perto do meu: vi que havia piedade nele, e senti simpatia em sua respiração acelerada. Também em suas palavras a mesma emoção que era como um bálsamo falou: — Tente comer. — Sim... tente — repetiu Mary, delicadamente; e sua mão retirou minha touca encharcada e me ergueu a cabeça. Provei o que me davam, debilmente a princípio, e logo com avidez. — Não demasiado a princípio... contenham-na — disse o irmão. — Ela já comeu o bastante. — E retirou a xícara de leite e o prato de pão. — Um pouco mais, St. John... veja a avidez nos olhos dela. — Agora, não, irmã. Veja se ela pode falar... pergunte-lhe como se chama. Senti que podia falar, e respondi: — Meu nome é Jane Elliot. — Ansiosa como sempre em evitar ser descoberta, havia decidido antes assumir um outro nome. — E onde mora? Onde estão seus amigos? Fiquei calada. — Podemos mandar chamar alguém a quem conheça? Balancei a cabeça. — Que pode dizer sobre si mesma? Jane Eyre

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De algum modo, agora que tinha cruzado a soleira daquela casa, e me via frente a frente com seus donos, eu não me sentia mais abandonada, errante e deserdada pelo vasto mundo. Ousava deixar o aspecto de mendiga e assumir meus modos e caráter naturais. Comecei de novo a reconhecer-me; e quando o Sr. St. John pediu uma explicação — que no momento eu estava demasiado fraca para dar — eu lhe disse, após uma breve pausa: — Senhor, não posso lhe dar nenhum detalhe esta noite. — Mas que espera, então, que eu faça pela senhorita? — Nada — respondi. Minha força só dava para respostas curtas. Diana tomou a palavra. — Quer dizer — perguntou — que já lhe demos o auxílio que você precisa? E que podemos mandá-la embora para a char-neca e a noite de chuva? Olhei-a. Tinha, achei, um rosto notável, cheio de força e bondade. Encorajei-me de repente. Respondendo a seu olhar compadecido com um sorriso, disse: — Confiarei em você. Se eu fosse um cão sem dono e perdido, sei que você não me expulsaria de sua casa esta noite: assim, não tenho medo algum. Faça comigo e para mim o que lhe agradar; mas não me exija que fale muito... estou sem fôlego... sinto um espasmo quando falo. Todos os três me examinavam, e todos os três ficaram calados. — Hannah — disse o Sr. St. John afinal — deixe-a ficar aqui por enquanto, e não lhe faça perguntas; daqui a dez minutos, dêlhe o resto daquele pão e leite. Mary e Diana, vamos para a sala discutir o assunto. Retiraram-se. Muito em breve uma das damas voltou — eu não podia dizer qual. Uma espécie de estupor insinuava-se em mim, sentada diante daquele fogo agradável. Em voz baixa, ela deu algumas instruções a Hannah. Dentro em pouco, com a ajuda da criada, consegui subir uma escada; minhas roupas encharcadas foram retiradas; e logo uma cama quente e seca me recebia. Dei graças a Deus, senti em meio à indizível exaustão um brilho de grata alegria, e adormeci.

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CAPÍTULO 29

A

lembrança dos mais ou menos três dias e noites que se seguiram a isso é muito vaga em minha mente. Lembro-me de algumas sensações que experimentei nesse intervalo; mas só de poucos pensamentos que tive, e de poucas ações que executei. Sabia que estava num quarto pequeno e numa cama estreita. Parecia ter-me grudado a essa cama; jazia nela imóvel como uma pedra; e arrancar-me dali seria quase o mesmo que me matar. Não tinha consciência dos lapsos de tempo — da mudança da manhã para tarde, da tarde para a noite. Via quando alguém entrava ou deixava o aposento; podia até dizer quem era; entendia o que se dizia quando quem falava estava junto a mim; mas não podia responder; abrir os lábios ou mover os membros eram-me igualmente impossíveis. Hannah, a criada, era minha visitante mais freqüente. Suas vindas me perturbavam. Tinha a sensação de que ela me queria longe; que não me compreendia a mim ou às minhas circunstâncias; que tinha preconceitos contra mim. Diana e Mary apareciam no quarto uma ou duas vezes por dia. Sussurravam frases desse tipo ao lado de minha cama: — Foi bom que a tivéssemos acolhido. — Sim; certamente teria sido encontrada morta na porta pela manhã, se fosse deixada lá fora a noite toda. Imagino o que ela passou. — Estranhas privações, imagino... errante pobre, emaciada, Jane Eyre

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pálida. — Não é uma pessoa inculta, eu diria, pela sua maneira de falar; a pronúncia era bastante pura; e as roupas que tirou, apesar de enlameadas e molhadas, estavam pouco gastas e eram boas. — Tem um rosto peculiar; apesar de descarnado e desfigurado, gosto dele; e quando em boa saúde e animada, imagino que sua fisionomia seja agradável. Nem uma vez em seus diálogos ouvi uma sílaba de arrependimento pela hospitalidade que me haviam concedido, ou de desconfiança, ou de aversão por mim. Senti-me reconfortada. O Sr. St. John só veio uma vez; olhou-me e disse que meu estado de letargia resultava da reação à fadiga excessiva e prolongada. Declarou que não era necessário mandar chamar um médico; tinha certeza de que a natureza agiria melhor, entregue a si mesma. Disse que todos os meus nervos tinham sido demasiado forçados de alguma forma, e que todo o sistema devia ficar em torpor por algum tempo. Não havia doença. Imaginava que minha recuperação seria bastante rápida, assim que começasse. Externou essas opiniões em poucas palavras, numa voz tranqüila e baixa; e acrescentou após uma pausa, no tom de um homem pouco acostumado a comentários expansivos: — Uma fisionomia um tanto incomum; certamente, não denota vulgaridade ou degradação. — Muito pelo contrário — respondeu Diana. — Para dizer a verdade, St. John, meu coração simpatiza com a pobre alma. Gostaria de podermos favorecê-la permanentemente. — Isso não é muito provável — foi a resposta. — Vai descobrir que é alguma jovem dama que teve algum mal-entendido com os amigos, e talvez impensadamente os deixou. Podemos talvez conseguir devolvê-la a eles, se ela não for teimosa; mas distingo traços de força no rosto dela que me deixam cético quanto à sua tratabilidade. — Ficou a examinar-me por alguns minutos; depois acrescentou: — Ela parece sensível, mas de modo nenhum bonita. — Está tão doente, St. John. — Doente ou sã, será sempre sem atrativos. Faltam a graça e a harmonia da beleza nessas feições. 416

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No terceiro dia, eu estava melhor; no quarto, podia falar, moverme, erguer-me na cama, e virar-me. Hannah trouxe-me um pouco de sopa de aveia e uma torrada, mais ou menos, imaginei, na hora do jantar. Comi com gosto; a comida era boa — sem o sabor febril que até então envenenava tudo que eu engolia. Quando Hannah me deixou, senti-me relativamente forte e revivida, e logo a saciedade do repouso e o desejo de agir me agitaram. Desejava levantar-me; mas que podia vestir? Só minhas roupas úmidas e enlameadas, com as quais dormira no chão e caíra no pântano. Tinha vergonha de aparecer diante de meus benfeitores vestida assim. Mas fui poupada dessa humilhação. Numa cadeira ao lado da cama estavam todas as minhas coisas, limpas e secas. Meu vestido de seda negra pendia da parede. As manchas de lama haviam sido removidas; as rugas deixadas pela chuva, alisadas; estava bastante decente. Até meus sapatos e meias estavam limpos e apresentáveis. Havia meios de me lavar no quarto, e um pente e uma escova para alisar meu cabelo. Após um cansativo processo, repousando a cada cinco minutos, consegui vestir-me. Minhas roupas pendiam frouxas no corpo, pois eu estava muito magra; mas cobri as deficiências com um xale, e mais uma vez, limpa e com uma aparência respeitável — nenhum traço de sujeira, de desarrumação, que eu tanto detestava, e que pareciam degradar-me — arrastei-me por uma escada abaixo, apoiando-me no corrimão, até um corredor estreito e baixo, e encontrei afinal o caminho até a cozinha. O cheiro de pão fresco e o calor de um generoso fogo a inundavam. Hannah cozinhava. Sabe-se que os preconceitos são muito difíceis de erradicar do coração cujo solo nunca foi revolvido ou fertilizado pela educação; vicejam ali, firmes como o mato entre as pedras. Hannah fora fria e rígida, de fato, a princípio; ultimamente, começara a ceder um pouco; quando me viu entrar arrumada e bem vestida, chegou mesmo a sorrir. — Que, levantou-se! — disse. — Está melhor, então. Pode sentar-se em minha cadeira diante da lareira, se quiser. Indicou-me a cadeira de balanço. E voltou às suas ocupações, examinando-me de vez em quando pelos cantos dos olhos. Jane Eyre

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Voltando-se para mim, ao retirar alguns pães do forno, perguntou sem rodeios: — Alguma vez mendigou antes de vir aqui? Fiquei indignada por um momento; mas, lembrando-me de que a raiva estava fora de questão, e de que na verdade eu lhe aparecera como uma mendiga, respondi tranqüilamente, mas nem por isso sem uma certa firmeza: — Está enganada ao achar que sou uma mendiga. Não sou; não mais que você e suas jovens patroas. Após uma pausa, ela disse: — Não entendo isso, você não tem casa nem cobre, suponho? — A falta de uma casa ou de cobre (pelo que suponho que você quer dizer dinheiro) não faz de mim uma mendiga, na sua idéia da palavra. — Você é entendida em livros? — ela perguntou depois de algum tempo. — Sim, muito. — Mas nunca esteve num internato? — Estive num internato durante oito anos. Ela arregalou os olhos. — Então por que não pode se manter? — Eu me mantinha; e espero voltar a me manter. Que vai fazer com essas groselhas? — perguntei, pois ela trazia uma cesta dessas frutas. — Vou fazer torta. — Me dê que eu as cato. — Não; não quero que você faça nada. — Mas tenho de fazer alguma coisa. Dê-me as groselhas. Ela consentiu; e até me trouxe uma toalha limpa para pôr em cima dos joelhos, “para não”, disse, “borrá-los todos”. — Você não está acostumada a trabalho de criada, segundo vejo por suas mãos — ela observou. — Terá sido por acaso costureira? — Não, está enganada. E agora, esqueça o que eu fui; não canse mais a cabeça comigo; mas me diga o nome da casa onde estamos. — Algumas pessoas a chamam de Marsh End, e outras de Moor House. 418

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— E o cavalheiro que mora aqui se chama Sr. St. John? — Não; ele não mora aqui; está apenas por algum tempo. A casa dele é sua paróquia em Morton. — Aquela aldeia a poucas milhas daqui? — É. — E que é ele? — Um clérigo. Lembrei-me da resposta da velha governanta na casa paroquial, quando lhe pedi para ver o pároco. — Então esta casa era a residência do pai dele? — É; o velho Sr. Rivers morava aqui, e o pai dele, e o avô, e o bisavô, antes. — O nome desse cavalheiro é então Sr. St. John Rivers? — É, St. John é nome de batismo. — E as irmãs se chamam Diana e Mary Rivers? — Sim. — O pai morreu? — Há três semanas, depois de um ataque. — Eles não têm mãe? — A patroa morreu faz um ano este mês. — Você vive com a família há muito tempo? — Vivo aqui há trinta anos. Criei todos três. — Isso prova que deve ter sido uma criada honesta e leal. Esse crédito eu lhe dou, embora tenha tido a indelicadeza de me chamar de mendiga. Ela tornou a me olhar com uma expressão de surpresa. — Creio — disse — que estava muito enganada nas idéias que fazia sobre a senhorita; mas há tantos ladrões por aí, que a senhorita deve me perdoar. — E embora — continuei, um tanto severamente — você quisesse me enxotar da porta, numa noite em que não deveria enxotar nem um cachorro. — Bem, foi cruel, mas que é que a gente pode fazer? Pensei mais nas meninas que em mim mesma, coitadas! Não têm ninguém para cuidar delas a não ser eu. Eu sou cautelosa. Mantive um grave silêncio por alguns minutos. Jane Eyre

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— Não deve me levar muito a mal — ela observou de novo. — Mas eu levo — eu disse — e vou lhe dizer porque... não tanto porque se recusou a me dar abrigo, ou por me encarar como uma impostora, mas porque ainda há pouco você fez uma espécie de censura por eu não ter “cobre” nem casa. Algumas das melhores pessoas que já viveram foram tão pobres quanto eu; e se você é uma cristã, não devia considerar a pobreza um crime. — Não vou mais fazer isso — ela disse. — O Sr. St. John me disse a mesma coisa; e vejo que estava errada... mas tenho uma idéia muito diferente da senhorita, agora, do que tinha antes. A senhorita parece uma criaturinha bastante decente. — Assim está bem... vou perdoá-la desta vez. Aperte minha mão. Ela pôs a mão enfarinhada e curtida na minha; outro sorriso, mais gostoso, iluminou-lhe o rosto duro, e a partir desse momento nos tornamos amigas. Hannah gostava evidentemente de falar. Enquanto eu catava as frutas, e ela fazia a massa para as tortas, deu-me vários detalhes sobre os falecidos patrão e patroa, e sobre as “crianças”, como chamava os jovens. Disse que o velho Sr. Rivers era um homem bastante comum, mas um cavalheiro, e de uma família tão antiga quanto se podia encontrar. Marsh End pertencia aos Rivers desde que fora construída; e tinha, ela afirmava, “mais de duzentos anos — embora parecesse uma casa pequena e humilde, que não podia se comparar com a grande mansão do Sr. Oliver lá embaixo, em Morton Vale. Mas ela se lembrava do pai de Bill Oliver, um fabricante de agulhas diarista; enquanto os Rivers eram fidalgos já nos velhos tempos dos Henry, como qualquer um podia ver olhando os registros na sacristia da igreja de Morton”. Contudo, reconhecia que “o velho amo era como qualquer outro... não muito fora do comum; louco por caça e pelo trabalho agrícola, e coisas assim”. A patroa era diferente. Era uma grande leitora, e estudava um bocado; e as “crianças” tinham saído a ela. Não havia nada como eles por aquelas bandas, e nunca houvera; gostavam de estudar, todos três, quase desde o momento que tinham 420

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aprendido a falar; e sempre tinham sido “de um jeito” próprio. O Sr. St. John, quando crescesse, deveria ir para um colégio e tornarse sacerdote; e as moças, assim que deixassem a escola, buscariam empregos como governantas, pois lhe tinham dito que o pai, havia alguns anos, perdera muito dinheiro quando um homem em quem confiava fora à bancarrota; e como ele não era então suficientemente rico para deixar-lhes fortuna, tinham de se haver consigo mesmos. Durante muito tempo, tinham vivido muito pouco em casa, e só tinham vindo agora por algumas semanas, devido à morte do pai; mas gostavam muito de Marsh End e de Morton, e de todas aquelas charnecas em torno. Tinham estado em Londres e em muitas outras cidades grandes, mas sempre diziam que não havia lugar como a terra deles; e depois, sentiam-se tão bem uns com os outros — jamais brigavam ou se ameaçavam. Ela não sabia de família tão unida quanto aquela. Tendo acabado minha tarefa de catar as groselhas, perguntei onde estavam agora as duas damas e o irmão. — Tinham ido dar um passeio em Morton; mas voltariam em meia hora para o chá. Eles voltaram dentro do prazo que Hannah lhes atribuíra; entraram pela porta da cozinha. O Sr. St. John, ao me ver, simplesmente me fez uma curvatura e seguiu em frente; as duas damas pararam: Mary, em poucas palavras, manifestou bondosa e calmamente o prazer que sentia em me ver suficientemente boa para descer; Diana tomou-me a mão, balançou a cabeça para mim. — Devia ter esperado que eu lhe permitisse descer — disse. — Você ainda está muito pálida... e tão magra! Pobre criança... pobre moça! A voz de Diana parecia a meus ouvidos o arrulhar de uma pomba. Deliciava-me encontrar os olhos dela. Todo o seu rosto me parecia cheio de encanto. O rosto de Mary era igualmente inteligente — as feições igualmente bonitas; mas sua expressão era mais reservada, e suas maneiras, apesar de delicadas, mais distantes. Diana aparentava e falava com certa autoridade, era voluntariosa, evidentemente. Estava em minha natureza sentir prazer em ceder a uma autoridade como a dela, e curvar-me, no Jane Eyre

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que minha consciência e respeito próprio permitissem, a uma vontade ativa. — E que está fazendo aqui? — ela continuou. — Não e o seu lugar. Mary e eu nos sentamos na cozinha às vezes, porque em casa gostamos de ser livres, até demais... mas você é uma visita, e deve ir para a sala de visitas. — Estou muito bem aqui. — De modo nenhum, com Hannah atarefada por aí e cobrindo-a de farinha. — Além disso, o fogo está quente demais para você — interpôs Mary. — Claro — acrescentou a irmã. — Venha, deve ser obediente. — E, ainda segurando-me a mão, fez-me levantar e levou-me para a sala interna. — Sente-se aí — disse, colocando-me no sofá —, enquanto tiramos nossas coisas e preparamos o chá; é outro privilégio que exercemos quando estamos em nossa casinha na charneca... preparar nossas próprias refeições quando queremos, ou quando Hannah está assando pão, cozinhando, lavando ou passando a ferro. Fechou a porta, deixando-me sozinha com o Sr. St. John, que se sentava defronte a mim, um livro ou jornal nas mãos. Examinei primeiro a sala, e depois seu ocupante. A sala de visitas era um tanto pequena, mobiliada com simplicidade, mas confortável, porque limpa e arrumada. As cadeiras antigas reluziam muito, e a mesa de nogueira parecia um espelho. Uns poucos retratos estranhos e antigos, de homens e mulheres de outras épocas, decoravam as paredes manchadas; um armário com portas de vidro continha alguns livros e um antigo serviço de louça. Não havia enfeites supérfluos no aposento — nem uma peça moderna de mobiliário, a não ser uma prateleira de caixas de costura e uma escrivaninha portátil de senhora, em pau-rosa, que ficava numa mesa lateral; tudo — inclusive o tapete e as cortinas — parecia ao mesmo tempo bastante usado e bastante conservado. O Sr. St. John, sentado tão quieto como um dos quadros nas 422

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paredes, mantendo os olhos fixos na página que lia, e os lábios mudamente selados — era bastante fácil de examinar. Fosse uma estátua, em vez de um homem, não poderia ser mais fácil. Era jovem — talvez de vinte e oito a trinta anos —, alto, esbelto; o rosto atraía o olhar; era como um rosto grego, de linhas muito puras, um nariz bastante reto, clássico; boca e queixo inteiramente atenienses. É raro, na verdade, um rosto inglês se aproximarem tanto dos modelos antigos quanto o seu. Ele bem podia ficar um tanto chocado com a irregularidade de minhas feições, uma vez que as suas eram tão harmoniosas. Tinha olhos grandes e azuis, com cílios castanhos; a testa alta, pálida como marfim, era em parte coberta por descuidadas mechas de cabelo louro. Trata-se de uma descrição delicada, não é, leitor? Contudo, aquele a quem se descreve dificilmente daria a idéia de uma natureza delicada, generosa, impressionável ou mesmo plácida. Quieto como se sentava agora, havia algo em suas narinas, em sua boca, em sua testa, que para mim indicava elementos internos de inquietação, dureza ou impetuosidade. Ele não me disse uma palavra, nem mesmo me dirigiu um olhar, até que suas irmãs voltaram. Diana, entrando e saindo na preparação do chá, trouxeme um pequeno bolo, assado em cima do fogão. — Coma isso agora — disse. — Deve estar com fome. Hannah disse que você não comeu nada, a não ser um pouco de mingau de aveia, desde o desjejum. Não recusei, pois meu apetite estava desperto e aguçado. O Sr. Rivers fechou então o seu livro, aproximou-se da mesa, e, ao sentar-se, fixou os olhos azuis, parecendo os de um quadro, diretamente em mim. Havia uma direiteza sem cerimônia, uma penetração, uma decidida firmeza em seu olhar agora, que dizia que fora intencionalmente, e não por indiferença, que o tinha mantido desviado até então da estranha. — Está com muita fome — ele disse. — Estou, senhor. — É meu costume, sempre foi, por instinto, responder à coisa breve com brevidade, à coisa direta com simplicidade. — Foi bom que a febrezinha a tenha obrigado a abster-se nos Jane Eyre

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últimos três dias; seria perigoso ceder aos anseios de seu apetite a princípio. Agora pode comer, embora ainda não sem moderação. — Espero não comer muito tempo às suas custas, senhor foi minha resposta, inteiramente desastrada e indelicada. — Não — ele disse friamente. — Quando nos tiver indicado a residência de seus amigos, poderemos escrever a eles, e a senhorita será mandada de volta à sua casa. — Isso, devo dizer-lhe claramente, está fora de meu poder fazer; pois não tenho, absolutamente, casa ou amigos. Os três me olharam, mas não com desconfiança; senti que não havia suspeita em seus olhares, mas antes curiosidade. Falo particularmente das jovens damas. Os olhos do Sr. St. John, apesar de bastante claros no sentido literal, num sentido figurativo eram difíceis de sondar. Ele parecia usá-los mais como instrumentos para investigar os pensamentos dos outros do que como agentes para revelar os seus: combinação de agudeza e reserva que era consideravelmente mais calculada para embaraçar do que para encorajar. — Quer dizer — ele perguntou — que está inteiramente isolada de toda ligação? — Quero. Nenhum laço me liga a qualquer coisa viva: não tenho nenhum direito a ser admitida sob nenhum teto na Inglaterra. — Posição singularíssima, em sua idade! Nesse ponto vi que dirigia o olhar às minhas mãos, que estavam cruzadas sobre a mesa. Imaginei o que buscava ali, mas suas palavras logo explicaram o que era. — Nunca se casou? É uma solteirona? Diana riu. — Ora, ela não pode ter mais de dezessete ou dezoito anos, St. John — disse. — Tenho quase dezenove, mas não sou casada. Não. Senti um ardente rubor subir-me às faces; pois a alusão ao casamento despertara amargas e inquietantes lembranças. Todos notaram meu embaraço e emoção. Diana e Mary trouxeram-me alívio desviando os olhos de meu rosto corado; mas o irmão, mais frio e severo, continuou a olhar, até que a angústia que provocara me fez chorar, além de corar. 424

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— Onde morou pela última vez? — ele perguntou então. — Você é muito inquisitivo, St. John — murmurou Mary em voz baixa; mas ele se curvou sobre a mesa e exigiu uma resposta com um segundo e penetrante olhar. — O nome do lugar onde vivi, e da pessoa com quem vivi, é um segredo meu — respondi concisamente. — E que, em minha opinião, você tem, se quiser, o direito de guardar, tanto de St. John quanto de qualquer outro interrogador — observou Diana. — Mas, se não sei nada sobre a senhorita ou sua história, não posso ajudá-la? — ele disse. — E precisa de ajuda, sabe disso. — Preciso, e busco, senhor, até onde um verdadeiro filantropo me ponha em posição de arranjar um trabalho que eu possa fazer, e com cuja remuneração possa me manter, mesmo que apenas quanto às mais elementares necessidades da vida. — Não sei se sou um verdadeiro filantropo; mas estou disposto a ajudá-la o máximo que puder num objetivo tão honesto. Assim, diga-me primeiro o que está acostumada a fazer, e o que sabe fazer. Eu tinha agora tomado o meu chá. Fora vigorosamente revigorada pela infusão; tanto quanto um gigante com vinho, a bebida dera um novo tom a meus nervos destroçados e permitiame dirigir-me com firmeza àquele jovem juiz. — Sr. Rivers — eu disse, voltando-me para ele, que me olhava abertamente e sem acanhamento — o senhor e suas irmãs me prestaram um grande favor... o maior que o homem pode prestar a seus irmãos; com sua nobre hospitalidade, resgataram-me da morte. Esse benefício feito lhes dá um direito ilimitado à minha gratidão, e em certa medida à minha confiança. Vou-lhes contar tanto, da história da errante que abrigaram, quanto possa contar sem comprometer minha paz de espírito..., minha segurança, moral e física, e a de outros. — Sou órfã, filha de um sacerdote. Meus pais morreram antes que eu pudesse conhecê-los. Fui criada como uma dependente; educada numa instituição de caridade. Vou lhes dizer até o nome do estabelecimento, onde passei seis anos como aluna e dois como professora, o Asilo de Órfãs de Lowood, em ... shire, o senhor sem Jane Eyre

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dúvida já ouviu falar dele, Sr. St. John? O Rev. Robert Brocklehurst é o tesoureiro. — Ouvi falar do Sr. Brocklehurst, e conheço a escola. — Deixei Lowood há quase um ano, para tornar-me governanta particular. Obtive uma boa colocação, e era feliz. Fui obrigada a deixar esse lugar quatro dias antes de chegar aqui. A razão de minha partida, não posso nem devo explicar: seria inútil, perigoso, e soaria incrível. Não tenho nenhuma culpa, estou tão livre de culpabilidade quanto qualquer um de vocês três. Sou infeliz, e assim tenho de ser por algum tempo; pois a catástrofe que me expulsou de uma casa onde encontrei um paraíso foi de natureza estranha e terrível. Cuidei de apenas dois pontos ao planejar minha partida: rapidez e segredo; para assegurá-los, tive de deixar para trás tudo que possuía, com exceção de um embrulho pequeno; que, em minha pressa e perturbação mental, esqueci de pegar na diligência que me trouxe até Whitcross. Cheguei assim a esta região inteiramente na miséria. Dormi duas noites ao relento, e vagueei por aí durante dois dias sem entrar numa casa, mas duas vezes, nesse espaço de tempo, comi alguma coisa; e foi quando cheguei pela fome, a exaustão e o desespero até quase o último suspiro, que o senhor, Sr. Rivers, me impediu de morrer de privação em sua porta, e tomou-me sob a proteção de seu teto. Sei tudo que suas irmãs têm feito por mim desde então... e tenho para com a compaixão espontânea, autêntica e amável delas uma dívida tão grande quanto a que tenho para com sua caridade evangélica. — Não a obrigue a falar mais agora, St. John — disse Diana, quando parei. — Ela ainda não está, evidentemente, em condições de excitar-se. Venha para o sofá e sente-se agora, Srta. Elliot. Tive um involuntário estremecimento ao ouvir o nome falso; esquecera-o. O Sr. Rivers, a quem nada parecia escapar, notou-o imediatamente: — A senhorita disse que se chamava Jane Elliot — observou. — Disse, sim; e é o nome pelo qual acho conveniente que me chamem por enquanto; mas não é meu nome verdadeiro, e quando o ouço, soa-me estranho. 426

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— Não nos dirá seu verdadeiro nome? — Não, temo ser identificada acima de tudo; e evito qualquer revelação que leve a isso. — Tenho certeza de que está inteiramente correta — disse Diana. — Agora, irmão, deixe-a em paz por algum tempo. Mas St. John, depois de refletir alguns instantes, recomeçou, tão imperturbável e com tanta argúcia quanto antes. — A senhorita não gostaria de depender por muito tempo de nossa hospitalidade... vejo que gostaria de dispensar o mais breve possível a compaixão de minhas irmãs, e acima de tudo a minha caridade (sou muito sensível à distinção feita, e não me ressinto... é justa); deseja ser independente de nós? — Desejo: já o disse. Mostre-me como trabalhar, ou como buscar trabalho: é só o que peço agora; depois, deixe-me ir mesmo que seja para a mais pobre cabana; mas até então, deixe-me ficar aqui: temo outra prova dos horrores da pobreza sem lar. — Na verdade, você vai ficar aqui — disse Diana, pondo a alva mão em minha cabeça. — Vai — repetiu Mary, no tom de discreta sinceridade que lhe parecia natural. — Minhas irmãs, como está vendo, têm prazer em mantê-la aqui — disse o Sr. St. John — como teriam prazer em manter e cuidar de um pássaro meio congelado que um vento invernal lançasse através de suas janelas. Eu me sinto mais inclinado a pô-la em posição de manter-se a si mesma, e me esforçarei por fazer isso; mas veja, meu campo é estreito. Sou apenas o cura em exercício da paróquia de um pequeno condado: minha ajuda tem de ser do tipo mais humilde; e se a senhorita se inclina a desprezar coisas pequenas, deve buscar auxílio mais eficiente que o que eu lhe posso dar. — Ela já disse que está disposta a fazer qualquer coisa honesta que possa fazer — respondeu Diana por mim. — E você sabe, St. John, que ela não pode estar escolhendo quem a ajudará: é obrigada a haver-se com gente rabugenta como você. — Serei costureira; serei uma operária comum; serei criada, babá, se não encontrar coisa melhor — respondi. Jane Eyre

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— Certo — disse St. John bastante friamente. — Se essa é sua disposição, prometo ajudá-la, à minha maneira e no devido tempo. Voltou então ao livro com que se ocupava antes do chá. Eu logo me retirei, pois tinha falado tanto, e ficado tanto tempo sentada, quanto minhas forças no momento me permitiriam.

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CAPÍTULO 30

Q

uanto mais eu conhecia os moradores de Moor House, mais gostava deles. Em poucos dias, recuperara de tal modo a saúde, que podia ficar sentada o dia todo, e passear algumas vezes. Podia juntar-me a Diana e Mary em suas ocupações, conversar com elas o tanto que quisessem, e ajudá-las quando e onde me deixavam. Havia um prazer restaurador nesse relacionamento, de um tipo que eu experimentava pela primeira vez — o prazer nascido da perfeita harmonia de gostos, sentimentos e princípios. Eu gostava de ler o que elas gostavam; o que lhes dava prazer me deliciava; o que aprovavam, eu reverenciava. Elas gostavam de sua casa isolada. Eu também encontrava, na construção cinzenta, pequena, antiga — com seu teto baixo, suas janelas com gelosias, as paredes mofadas, a avenida de vetustos pinheiros, todos curvados sob a força dos ventos da montanha, o jardim cheio de teixos e azevinhas, onde só floresciam as flores dos tipos mais resistentes — um encanto ao mesmo tempo poderoso e permanente. Elas se apegavam às púrpuras charnecas atrás e em volta da casa — ao vale côncavo ao qual conduzia o sendeiro de seixos que partia do portão, descendo, e que serpeava primeiro entre grupos de samambaias, e depois por entre alguns dos mais agrestes campos de pastagem que já ladearam um deserto de urzes, ou alimentaram um rebanho de cinzentas ovelhas das charnecas, com cordeirinhos de focinhos musgosos — apegavam-se a esse Jane Eyre

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cenário com total entusiasmo. Eu compreendia o sentimento, e partilhava de sua força e sinceridade. Via o fascínio do local. Sentia a consagração de sua solidão; meus olhos se banqueteavam com as silhuetas dos morros — com as loucas cores emprestadas à cordilheira e ao vale pelo musgo, a urze, a turfa salpicada de flores, a brilhante samambaia e os rochedos de granito. Esses detalhes eram para mim exatamente o que eram para elas — outras tantas fontes puras e doces de prazer. O vento forte e a brisa suave, o dia feio e o bonito, as horas do amanhecer e do crepúsculo, a noite de lua e a nublada exerciam sobre mim, naquelas regiões, a mesma atração que exerciam sobre elas — envolvia minhas faculdades no mesmo fascínio que deixava as delas em transe. Dentro de casa, concordávamos igualmente bem. As duas eram mais preparadas e mais lidas que eu; mas eu seguia avidamente o caminho do conhecimento que elas haviam trilhado à minha frente. Devorava os livros que me emprestavam; depois, era uma plena satisfação discutir com elas à noite o que lera durante o dia. Os pensamentos se encaixavam; as opiniões correspondiam umas às outras; em suma, coincidíamos em tudo perfeitamente. Se havia em nosso grupo uma superiora e condutora, era Diana. Fisicamente, superava-me em muito; era bonita; era vigorosa. Havia em sua natureza uma abundância de vida e uma certeza que provocavam minha admiração, embora me confundissem a compreensão. Eu podia falar um pouco quando começava a noite, mas, esgotado o primeiro ímpeto de vivacidade e fluência, gostava de sentar-me num banquinho aos pés de Diana, repousar a cabeça em seu joelho e ouvir ora Mary, ora ela, que dissecavam inteiramente o tópico em que eu apenas tocara. Diana ofereceu-se para ensinar-me alemão. Eu gostava de aprender com ela; via que o papel de instrutora lhe agradava e servia; e o de estudante não me agradava e servia menos. Nossas naturezas se complementavam; e disso resultava a mútua afeição — do tipo mais forte. Elas descobriram que eu sabia desenhar, e imediatamente puseram seus lápis e caixas de tintas à minha disposição. Minha habilidade, maior nesse ponto que a delas, surpreendeu-as e encantou-as. Mary sentava-se e olhava horas e 430

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horas, depois tomava lições; e era uma aluna dócil, inteligente, aplicada. Assim ocupadas, e mutuamente entretidas, os dias passavam como horas, e as semanas como dias. Quanto ao Sr. St. John, a intimidade que nascera tão natural e rapidamente entre eu e suas irmãs não se estendeu a ele. Um dos motivos para a distância ainda observada entre nós era que ele ficava relativamente pouco em casa; grande parte de seu tempo parecia ser dedicada a visitar os doentes e pobres, entre a dispersa população de sua paróquia. Nenhum tipo de tempo parecia atrapalhá-lo nessas excursões pastorais: com chuva ou com sol, quando acabavam suas horas de estudo matinal, ele pegava o chapéu, e, acompanhado pelo velho perdigueiro do pai, Carlo, saía em sua missão de amor e dever — eu não sabia em que luz ele a via. Às vezes, quando o dia era muito desfavorável, as irmãs o repreendiam. Ele então dizia, com um sorriso peculiar, mais solene que animado: — E se eu deixar que uma rajada de vento ou um salpico de chuva me desviem dessas fáceis tarefas, que preparativo essa indolência seria para o futuro que me proponho? A resposta de Diana e Mary a esta questão em geral era um suspiro, e alguns minutos de meditação aparentemente triste. Mas, além de suas freqüentes ausências, havia outra barreira à amizade com ele; o Sr. St. John parecia ter uma natureza reservada, absorta e mesmo meditativa. Zeloso em seus trabalhos paroquiais, inatacável em sua vida e hábitos, ele no entanto não parecia gozar da serenidade mental, da satisfação íntima, que devia ser a recompensa de todo cristão sincero e de todo filantropo na prática. Muitas vezes, à noite, quando se sentava à janela, a escrivaninha e os papéis à sua frente, parava de ler ou escrever, apoiava o queixo na mão e entregava-se a não sei qual pensamento; mas podia-se ver que era perturbador e inquietante pelos freqüentes lampejos e dilata-ções de seus olhos. Penso além disso que a natureza não era para ele o tesouro de deleite que era para as suas irmãs. Ele manifestou uma vez, e só uma vez ao alcance de meus ouvidos, um forte sentimento pelo rústico encanto das montanhas, e uma inata afeição pelas Jane Eyre

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escuras e vetustas paredes do que chamava de seu lar; porém havia mais melancolia que prazer no tom e nas palavras com que se manifestou esse sentimento; e ele nunca parecia vagar pelas charnecas em busca de seu tranqüilizante silêncio — nunca buscava ou se demorava nos milhares de apaziguantes deleites que elas podiam proporcionar. Incomunicativo como era, passou-se algum tempo até eu ter oportunidade de avaliar sua mente. Tive a primeira idéia do calibre dessa mente quando o ouvi pregar em sua igreja, em Morton. Gostaria de poder descrever esse sermão; mas está além de minhas forças. Não posso sequer transmitir fielmente o efeito que causou em mim. Começou calmo — e na verdade, no que se referia à expressão e ao tom de voz, foi calmo até o fim; um zelo avidamente sentido, mas estritamente contido, porém logo inspirou a pronúncia clara, e provocou a linguagem nervosa, que ganhou força — comprimida, condensada, controlada. Emocionava o coração, pasmava a mente, com o poder do pregador; mas nem o coração nem a mente eram tranqüilizados. Em todo o sermão havia um estranho amargor; uma ausência da delicadeza que consola; severas alusões às doutrinas calvinistas — escolha, predestinação, reprovação — eram freqüentes; e cada referência a esses pontos soava como uma sentença de condenação. Quando acabou, em vez de me sentir melhor, mais calma, mais esclarecida pelo seu sermão, eu experimentava uma inexprimível tristeza, pois me parecia — não sei se ocorria o mesmo com os outros — que a eloqüência que estivera ouvindo brotara de um fundo poço onde jaziam turvos vestígios de decepção, onde se agitavam inquietantes impulsos de anseios não saciados e perturbadoras aspirações. Estava certa de que St. John Rivers — um homem de vida pura, zeloso, consciente como era — ainda não encontrara aquela paz divina que ultrapassa todo entendimento, não a encontrara mais, pensei, do que eu, com meus pesares ocultos e lacerantes em relação ao meu ídolo partido e ao meu paraíso perdido — pesares aos quais evitava me referir ultimamente, mas que me possuíam e me tiranizavam impiedosamente. 432

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Enquanto isso, passou-se um mês. Diana e Mary logo deixariam Moor House e voltariam àquela vida e cenário muito diferentes que as aguardavam, como governantas numa grande e mundana cidade do sul da Inglaterra, onde tinham empregos em casas de famílias cujos ricos e orgulhosos membros as consideravam apenas como humildes dependentes, não conheciam nem buscavam nenhum de seus dotes excelentes, e apreciavam apenas os conhecimentos adquiridos, como apreciavam a habilidade da cozinheira ou o gosto da dama de companhia. O Sr. St. John nada me dissera sobre o emprego que me prometera conseguir; e no entanto, tornava-se urgente arranjar uma ocupação de alguma espécie. Certa manhã, ficando sozinha com ele por alguns minutos na sala de visitas, aventurei-me a aproximar-me do recesso da janela consagrado por sua cadeira, mesa e escrivaninha como uma espécie de estúdio; e já ia falar, embora não sabendo muito bem com que palavras formular minha pergunta — pois é sempre difícil quebrar o gelo de reserva que recobre naturezas como a dele — quando ele me poupou o trabalho sendo o primeiro a iniciar o diálogo. Erguendo a cabeça ao ver-me aproximar-me, disse: — Tem uma pergunta a fazer-me? — Sim, desejo saber se o senhor soube de algum serviço que eu possa me apresentar para fazer? — Encontrei ou imaginei alguma coisa para a senhorita há três semanas; mas como parecia útil e feliz aqui... como minhas irmãs se tinham evidentemente ligado à senhorita, e sua companhia lhes dava um prazer incomum... julguei inconveniente interromper a satisfação de todas até que a próxima partida delas de Marsh End tornasse a sua necessária. — E elas partirão dentro de três dias agora? — Sim; e quando partirem, eu voltarei à casa paroquial de Morton; Hannah me acompanhará; e esta velha casa será fechada. Esperei alguns instantes, julgando que prosseguiria com o assunto em pauta; mas ele pareceu entrar em outra linha de pensamento; sua aparência denotava abstração de mim e de meu assunto. Fui obrigada a chamá-lo de volta a um tema que me era Jane Eyre

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necessariamente próximo e de ansioso interesse. — Qual era o emprego que o senhor tinha em vista, Sr. Rivers? Espero que essa demora não tenha aumentado a dificuldade de consegui-lo. , — Oh, não; uma vez que é um emprego que depende apenas de mim, para oferecer, e da senhorita, para aceitar. Fez nova pausa: como parecia haver uma certa relutância em prosseguir, fiquei impaciente: um ou dois movimentos de inquietação, e um olhar ávido e exigente grudado em seu rosto, transmitiram-lhe essa sensação tão efetivamente quanto o teriam feito as palavras, e com menos problema. — Não precisa se apressar em saber — ele disse. — Deixe-me dizer-lhe francamente: não tenho nada disponível ou lucrativo a sugerir. Antes de explicar, lembre-se, por favor, de meu aviso, dado anteriormente, de que se a ajudasse, seria como o cego ajudando ao aleijado. Eu sou pobre; pois descobri que, depois de pagar as dívidas de meu pai, todo o patrimônio que me resta é esta granja caindo aos pedaços, a fileira de esparsos pinheiros atrás, e o pedaço de solo pantanoso, com os teixeiros e azevinheiros na frente. Sou obscuro; Rivers é um nome antigo, mas dos três únicos descendentes da raça, duas ganham o pão da dependência entre estranhos, e o terceiro considera-se um estrangeiro em seu país natal... não apenas para a vida toda, mas também na morte. Sim, e se julga, e é obrigado a se julgar, honrado com essa sorte, e aspira apenas pelo dia em que a cruz da separação dos laços da carne lhe seja posta sobre os ombros, e em que o Chefe dessa Igreja militante, da qual ele é um dos membros mais humildes, dê a ordem: “Levanta-te e segue-Me!” St. John disse estas palavras como pronunciava seus sermões, com uma voz tranqüila e profunda; com o rosto em sua cor normal, e um brilho coruscante no olhar. Recomeçou: — E como sou pobre e obscuro, só posso oferecer-lhe um serviço de pobreza e obscuridade. A senhorita pode até julgá-lo degradante... pois vejo agora que seus hábitos têm sido daqueles que o mundo chama de refinados: seus gostos tendem para o ideal, e seu lugar foi pelo menos entre pessoas educadas; mas acho que 434

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nenhum serviço degrada se pode aprimorar nossa raça. Afirmo que, quanto mais árido e abandonado for o solo que mandam o trabalhador cristão arar... quanto mais magra a recompensa que lhe traga o seu esforço... maior a honra. O seu destino, em qualquer circunstância, é o do pioneiro, e os primeiros pioneiros do Evangelho foram os apóstolos... e o capitão deles, o próprio Jesus, o Redentor. — Bem? — eu disse, quando ele tornou a parar. — Prossiga. Ele me olhou antes de prosseguir; na verdade, parecia lerme calmamente o rosto, como se minhas feições e traços fossem caracteres numa página. Manifestou em parte as conclusões tiradas desse escrutínio nas observações que fez a seguir. — Creio que aceitará o posto que lhe ofereço — disse. — E ficará nele por um tempo; mas não permanentemente, não mais do que eu poderia ficar no cargo estreito e estreitante... tranqüilo e obscuro... de cura rural inglês; pois há em sua natureza uma liga tão contrária ao repouso quanto na minha, embora de uma espécie diferente. — Explique — pedi, quando ele parou mais uma vez. — Vou explicar; e saberá como é pobre a proposta... como é trivial, tacanha. Não vou ficar muito tempo em Morton, agora que meu pai morreu e que sou dono de mim. Ocuparei o cargo provavelmente por doze meses; mas enquanto permanecer, me esforçarei ao máximo para melhorá-lo. Morton, quando lá cheguei há dois anos, não tinha escola: os filhos dos pobres estavam excluídos de toda esperança de progresso. Estabeleci uma para meninos; pretendo agora abrir uma segunda escola para meninas. Aluguei uma casa para isso, com uma cabana de dois aposentos pegada para a professora morar. O salário dela será de trinta libras por ano: a casa já está mobilizada, muito simplesmente, mas com o suficiente, graças à bondade de uma dama, a Srta. Oliver, filha única do único homem rico de minha paróquia... o Sr. Oliver, proprietário de uma fábrica de agulhas e uma fundição no vale. A mesma dama pagará pela educação e vestimenta de uma órfã do asilo de pobres, com a condição de que ela ajude a professora nos trabalhos domésticos relacionados com a casa e a escola, uma Jane Eyre

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vez que sua ocupação magisterial a impedirá de cuidar disso ela própria. Quer ser a professora? Ele fez a pergunta um tanto abruptamente; parecia meio temeroso de uma rejeição indignada, ou pelo menos desdenhosa, à oferta, não conhecendo todos os meus pensamentos e sentimentos, embora imaginando alguns deles: não sabia em que luz aquela proposta se me apresentava. Na verdade era humilde — mas também era uma segurança, e eu queria um abrigo seguro; era trabalho duro —mas também, comparado com o de uma governanta numa casa rica, era independente, e o medo da servidão a estranhos me penetrava a alma como ferro; não era ignóbil — indigno — nem mentalmente degradante. Tomei minha decisão. — Agradeço-lhe .a proposta, Sr. Rivers, e aceito-a de todo coração. — Mas será que me compreende? — ele disse. — Ê uma escola de aldeia, suas estudantes serão apenas meninas pobres ... filhas das cabanas... na melhor das hipóteses, filhas de agricultores. Terá de ensinar apenas tricô, costura, a ler, a escrever, contar. Que fará com suas qualificações? E com a maior parte de sua mente, de seus sentimentos, gostos? — Eu os guardarei até que sejam necessários. Eles se manterão. — Sabe o que vai empreender, então? — Sei. Ele sorriu então; e não um sorriso amargo ou triste, mas de prazer e muito agradecido. — E quando começará a exercer suas funções? — Vou para minha casa amanhã, e abrirei a escola, se o senhor quiser, na próxima semana. — Muito bem, que assim seja. Levantou-se e andou pela sala. Parando, tornou a olhar-me. Balançou a cabeça. — Que é que o senhor desaprova, Sr. Rivers? — perguntei. — A senhorita não ficará muito tempo em Morton, não, não! — Por quê? Que motivos tem para dizer isso? — Leio-o em seus olhos; não são daquele tipo que promete a 436

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manutenção de um mesmo teor de vida. — Eu não sou ambiciosa. Ele estremeceu à palavra “ambiciosa”. Repetiu: — Não. Que a fez pensar em ambição? Quem é ambicioso? Eu sei que sou; mas como descobriu? — Eu falava de mim mesma. — Bem, se a senhorita não é ambiciosa, é... — parou. — O quê? — Eu ia dizer: apaixonada. Mas talvez a senhorita entendesse mal a palavra, e se aborrecesse. Quero dizer que as afeições e simpatias humanas têm um poderoso domínio sobre a senhorita. Tenho certeza de que não se contentará por muito tempo em passar suas horas de lazer em solidão, e em dedicar suas horas de trabalho a uma atividade monótona inteiramente desprovida de estímulo, não mais do que eu me contento — acrescentou, com ênfase — em viver enterrado aqui no pântano, preso entre estas montanhas. Minha natureza, que Deus me deu, está em conflito com isso; minhas faculdades, concedidas pelos céus, estão paralisadas, inúteis. Vê agora como me contradigo, eu, que preguei a satisfação com uma sorte humilde, e justifiquei a profissão até dos cortadores de madeira e dos carregadores de água a serviço de Deus... eu, ministro ordenado d’Ele, quase enlouqueço em minha impaciência. Bem, as inclinações e os princípios devem se reconciliar de algum modo. Deixou a sala. Nessa breve ocasião, eu aprendera mais sobre ele do que em todo o mês anterior; contudo, ele ainda me intrigava. Diana e Mary tornavam-se mais tristes e caladas à medida que se aproximava o dia em que deixariam a casa e o irmão. Tentavam parecer as mesmas; mas o sofrimento contra o qual tinham de lutar não podia ser inteiramente dominado ou ocultado. Diana disse que aquela seria uma separação diferente de qualquer uma que já tinham conhecido. Provavelmente, no que se referia a St. John, seria uma separação por anos; podia ser uma separação pela vida toda. — Ele sacrificará tudo às suas decisões, há muito tomadas — ela disse. — Afeições naturais e sentimentos ainda mais fortes. Jane Eyre

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St. John parece tranqüilo, Jane; mas esconde uma febre em seu íntimo. A gente o julgaria delicado, mas em algumas coisas é tão inexorável quanto a morte; e o pior é que minha consciência não me permitirá dissuadi-lo de sua severa decisão: certamente não posso, nem por um momento, culpá-lo por ela. É correta, nobre, cristã; mas me parte o coração! — E as lágrimas brotaram de seus belos olhos. Mary curvou a cabeça sobre o trabalho que fazia. — Agora não temos mais um pai, logo ficaremos sem casa e sem irmão — murmurou. Nesse momento, sobreveio um pequeno acidente, que pareceu expressamente destinado pela sorte a provar a verdade do ditado segundo o qual “as desgraças nunca vêm sozinhas”, e a acrescentar à angústia daquelas moças mais uma provação. St. John passou pela janela lendo uma carta. Entrou. — Nosso tio John morreu — disse. As duas irmãs pareceram paralisadas, não chocadas ou apavoradas; as notícias pareciam a seus olhos mais significativas que aflitivas. — Morreu? — repetiu Diana. — Sim. Ela pregou um olhar interrogativo no rosto do irmão. — E agora? — perguntou em voz baixa. — E agora, Di? — ele respondeu, mantendo uma imobilidade de mármore nas feições. — E agora? Ora... nada. Leia. Jogou a carta no colo dela, que a olhou e passou para Mary. Esta a leu em silêncio e a devolveu ao irmão. Os três se olhavam, e sorriram — um sorriso muito triste e pensativo. — Amém! Ainda podemos viver — disse Diana afinal. — De qualquer forma, não nos deixa em pior situação do que antes — observou Mary. — Apenas nos faz pensar mais fortemente no que poderia ter sido — disse o Sr. Rivers — e o contrasta mais vivida-mente com o que é. Dobrou a carta, guardou-a em sua escrivaninha e tornou a sair. Durante alguns minutos, ninguém falou. Depois, Diana voltou-se para mim. 438

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— Jane, você deve estar admirada conosco e com nossos mistérios — disse — e julgar-nos seres empedernidos, por não estarmos mais comovidos com a morte de um parente tão próximo quanto um tio; mas nós nunca o vimos ou conhecemos. Era irmão de minha mãe. Meu pai e ele brigaram há muito tempo. Foi a conselho dele que meu pai arriscou a maior parte de seus bens na especulação que o arruinou. Houve recriminações mútuas entre eles, separaram-se furiosos, e jamais se reconciliaram. Meu tio se meteu depois disso em empreendimentos bastante prósperos: parece que amealhou uma fortuna de vinte mil libras. Nunca se casou, e não tinha parentes próximos além de nós e de uma outra pessoa, não mais próxima como parente do que nós. Meu pai sempre alimentou a idéia de que ele repararia seu erro deixandonos seus bens; aquela carta nos informa de que ele deixou até o último pêni à outra parenta, com exceção de trinta guinéus, a serem divididos entre St. John, Diana e Mary Rivers, para a compra de três fumos de luto. Ele tinha o direito, evidentemente, de fazer o que quisesse; mas os espíritos sofrem um momentâneo abatimento ao receberem uma notícia dessas. Mary e eu nos teríamos julgado ricas com mil libras cada; e para St. John, uma soma dessas seria valiosa, pelo bem que lhe possibilitaria fazer. Dada esta explicação, o assunto foi abandonado, e nem o Sr. Rivers nem suas irmãs fizeram mais referência a ele. No dia seguinte, parti de Marsh End para Morton. Um dia depois, Diana e Mary partiram para a distante B... Uma semana depois, o Sr. Rivers e Hannah estavam na casa paroquial: e assim a velha granja foi abandonada.

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CAPÍTULO 31

M

inha casa, assim — quando finalmente encontro uma casa — é uma cabana; uma salinha de paredes caiadas e assoalho areado, contendo quatro cadeiras pintadas e uma mesa, um relógio, um guarda-louça com dois ou três pratos e um serviço de chá holandês. Em cima, há um quarto das mesmas dimensões da cozinha, com uma cama de tábuas e uma cômoda — pequena, mas apesar disso demasiado grande para ser enchida com meu pobre guarda-roupa, embora a bondade de minhas gentis e generosas amigas o tenha aumentado de um modesto estoque de coisas necessárias. É noite. Despedi, com o pagamento de uma laranja, a pequena órfã que me serve de criada. Estou sentada sozinha junto à lareira. Hoje de manhã, inaugurou-se a escola da aldeia. Tenho vinte estudantes. Apenas três delas sabem ler; nenhuma sabe escrever ou contar. Várias tricotam, e umas poucas costuram um pouco. Falam com o sotaque mais rústico do distrito. Por enquanto, elas e eu temos uma certa dificuldade em entender a linguagem umas das outras. Algumas são mal-educadas, grosseiras, intratáveis, além de ignorantes; mas outras são dóceis, desejam aprender, e demonstram uma disposição que me agrada. Preciso não esquecer que essas camponesinhas mal vestidas são de carne e osso, tão boas como os rebentos da mais grã-fina genealogia; e que os germes da excelência, refinamento, bons sentimentos 440

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inatos são tão prováveis em seus corações quanto nos dos mais bem-nascidos. Minha obrigação será desenvolver essas sementes; certamente encontrarei alguma felicidade em desincumbir-me desse cargo. Não espero muito prazer da vida que se abre à minha frente; contudo, me dará sem dúvida o bastante para viver o diaa-dia, se eu regular minha mente e exercer meus poderes como devo. Estaria eu muito alegre, acomodada, satisfeita, durante as horas que passei na sala de aula nua e humilde ao lado, hoje de manhã e de tarde? Para não me iludir, tenho de responder; não; sentia-me em certa medida desolada. Sentia-me — sim, idiota que sou — degradada. Achava que dera um passo que me afundava, em vez de elevar-me, na escala da existência social. Fiquei desanimadamente consternada com a ignorância, a pobreza, a rudeza de tudo que ouvia e via à minha volta. Mas não devo odiar-me ou desprezar-me demasiado por esses sentimentos; sei que são errados — que é um grande passo conquistado; lutarei por superá-los. Amanhã, espero, levarei a melhor sobre eles, em parte; e talvez dentro de algumas semanas estejam inteiramente dominados. É possível que em poucos meses a felicidade de constatar progresso e uma mudança para melhor em minhas alunas substitua a repugnância pela satisfação. Enquanto isso, deixe-me fazer-me uma pergunta: Que seria melhor? Ter-me entregue à tentação, dado ouvido à paixão, sem fazer nenhum esforço penoso; não ter lutado, mas afundado na armadilha de seda; adormecido nas flores que a cobriam; acordado num clima do sul, entre os luxos de uma mansão do prazer; estar agora morando na França, amante do Sr. Rochester; delirante com seu amor metade do tempo — pois ele me teria — oh, teria, sim — amado bastante por algum tempo. Ele me amava — ninguém jamais me amará tanto. Nunca mais conhecerei a doce homenagem prestada à beleza, juventude, graça — pois nunca mais, para ninguém, parecerei ter tais encantos. Ele gostava e sentia orgulho de mim — o que nenhum outro homem fará. Mas para onde derivo, que estou dizendo, e acima de tudo sentindo? Seria melhor, pergunto, ser escrava Jane Eyre

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num falso paraíso em Marselha — febril de ilusória felicidade uma hora — sufocando com as mais amargas lágrimas de remorso e vergonha na outra — ou ser uma professora de aldeia, livre e honesta, num ventoso recanto de montanha no saudável coração da Inglaterra? Sim; sinto agora que estava certa quando aderi aos princípios e à lei, e desprezei e esmaguei os insanos impulsos de um momento de frenesi. Deus me orientou para uma escolha correta; agradeço à Sua Providência pela orientação! Tendo chegado a este ponto em minhas reflexões do anoitecer, levantei-me, fui até a porta e olhei o crepúsculo do dia de colheita, e os tranqüilos campos diante de minha cabana, que, como a escola, distavam meia milha da aldeia. Os pássaros cantavam seus últimos compassos. “O ar era suave, o orvalho um bálsamo.” Ali parada, olhando, julguei-me feliz, e surpreendi-me ao descobrir-me chorando pouco tempo depois — e por quê? Pela condenação que me ficara de não ter permanecido com meu amo; por aquele a quem não mais veria; pelo desesperado sofrimento e a fúria fatal — conseqüências de minha partida — que talvez estivessem agora a arrastá-lo demasiado do caminho da retidão para que houvesse esperança de retorno. A esse pensamento, virei o rosto do adorável céu da noite e do solitário vale de Morton — digo solitário porque, naquela curva dele que me era visível, não se via nenhuma construção além da igreja e da casa paroquial, meio escondidas entre as árvores, e, lá no fim, o telhado de Vale Hall, onde moravam o rico Sr. Oliver e sua filha. Cobri os olhos, e encostei a cabeça no umbral de pedra da porta; mas logo um leve ruído perto do portão que separa meu minúsculo jardim do prado além me fez erguer a cabeça. Um cão — o velho Carlo, o perdigueiro do Sr. Rivers, como vi logo — empurrava o portão com o focinho, e o próprio St. John se debruçava nele com os braços cruzados; a testa franzida, e o olhar, grave até quase o desagrado, me fixavam. Convidei-o a entrar. — Não, não posso ficar; só vim lhe trazer um pequeno embrulho que minhas irmãs lhe deixaram. Acho que contém uma 442

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caixa de tintas, lápis e papel. Aproximei-me para recebê-lo: era um presente muito bemvindo. Ele me examinava o rosto, eu pensava, com austeridade, quando me aproximei: os vestígios das lágrimas estavam sem dúvida bastante visíveis. — Achou seu primeiro dia de trabalho mais duro do que esperava? — ele perguntou. — Oh, não! Ao contrário, acho que com o tempo me darei muito bem com minhas alunas. — Mas talvez suas acomodações... sua cabana... seus móveis ... tenham decepcionado suas expectativas. Na verdade, são bastante pobres, mas... Interrompi-o. — Minha cabana é limpa e resistente; meus móveis são suficientes e cômodos. Tudo que vi me deixou agradecida, e não desesperada. Não sou, em absoluto, idiota e sensualista para lamentar a ausência de um tapete, um sofá, prataria; além disso, há cinco semanas não tinha nada... era uma marginal, uma mendiga, uma errante; agora tenho amizade, um lar, um ofício. Maravilho-me com a bondade de Deus, a generosidade de meus amigos, a liberalidade de minha sorte. Não me queixo. — Mas acha a solidão uma opressão? A casinha aí atrás é escura e vazia. — Mal tive tempo ainda de desfrutar de uma sensação de tranqüilidade, e muito menos para me impacientar com a de solidão. — Muito bem; espero que sinta a satisfação que manifesta; de qualquer modo, seu bom senso lhe dirá que ainda é cedo demais para ceder aos vacilantes temores da esposa de Lot. O que deixou para trás antes de eu conhecê-la, certamente não sei; mas aconselho-a a resistir firmemente a toda tentação que a incline a olhar para trás; siga seu curso atual com firmeza, pelo menos por alguns meses. — É o que pretendo fazer — respondi. St. John continuou: — É tarefa difícil controlar as tendências e conter a inclinação da natureza; mas pode-se fazer isso, sei-o por experiência própria. Jane Eyre

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Deus nos deu, em certa medida, o poder de fazer nosso próprio destino; e quando nossas energias parecem exigir um apoio que não podem conseguir... quando nossa força luta por um caminho que não podemos seguir... não precisamos nem morrer de fome, nem ficar parados em desespero: temos apenas de buscar outro alimento para a mente, tão forte quanto o fruto proibido pelo qual ela ansiava... e talvez mais puro; e abrir para o pé aventureiro uma estrada tão reta e ampla quanto aquela que a fortuna bloqueou contra nós, apesar de mais acidentada que ela. “Há um ano, eu próprio estava extremamente infeliz, porque achava que cometera um erro ao abraçar o sacerdócio; os deveres uniformes me matavam de tédio. Eu ardia pela vida mais ativa do mundo... pelos labores mais excitantes de uma carreira literária... pelo destino de um pintor, escritor, orador, qualquer coisa que não o de um sacerdote: sim, o coração de um político, de um soldado, de um adepto da glória, um amante da fama, um ambicioso pelo poder, batia sob minha sobrepeliz sacerdotal. Eu refletia; minha vida era tão desgraçada que tinha de ser mudada, ou eu teria de morrer. Após uma temporada de trevas e lutas, surgiu a luz e veio o alívio: minha tacanha existência subitamente se ampliou numa planície sem limites; meus poderes ouviram um chamado do Céu para que se erguessem, reunissem toda a sua força, abrissem as asas e voassem para além do horizonte. Deus tinha uma missão para mim; para o cumprimento da qual eram necessárias a habilidade e a força, a coragem e a eloqüência, as melhores qualificações do soldado, do estadista e do orador, pois tudo isso se concentra no bom missionário. “E decidi ser um missionário. A partir desse momento, meu estado de espírito mudou; as cadeias se dissolveram e libertaram todas as faculdades, nada deixando da servidão, a não ser suas esfoladas machucaduras, que só o tempo pode curar. Meu pai, na verdade, se opôs a essa decisão; mas após a morte dele não tenho nenhum obstáculo legítimo a vencer; acertados alguns negócios, arranjado um sucessor para Morton, um ou dois problemas sentimentais resolvidos ou simplesmente cortados... um último conflito com a fraqueza humana, que sei que superarei, porque 444

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jurei que vou superar... e deixo a Europa pelo Oriente.” Ele disse isso naquela voz contida, mas enfática, que lhe era peculiar; olhando, quando deixou de falar, não para mim, mas para o sol poente, que eu olhava também. Dávamos ambos as costas ao caminho que subia do campo para o portão. Não ouvíramos nenhum passo na trilha invadida pelo mato; a água que corria no vale era o único som a embalar a hora e a paisagem; assim, nada mais natural do que nos sobressaltarmos quando ouvimos uma voz, doce como uma sineta de prata, exclamar: — Boa-noite, Sr. Rivers. Boa-noite, velho Carlo. Seu cachorro reconhece os amigos mais depressa que o senhor; ele ergueu as orelhas e abanou a cauda quando eu ainda estava lá embaixo, no campo, e o senhor estava de costas para mim agora. Era verdade. Embora o Sr. Rivers tivesse estremecido aos primeiros daqueles sons musicais, como se um raio houvesse rachado em duas uma nuvem sobre sua cabeça, ainda permanecia, ao final da sentença, na mesma atitude em que a pessoa que falara o surpreendera — os braços apoiados no portão, o rosto voltado para o Ocidente. Voltou-se afinal, com medida deliberação. Uma visão, parecia-me, erguera-se a seu lado. Lá estava a três pés dele, uma forma vestida de puro branco— uma forma juvenil e graciosa, cheia, mas de finos contornos; e quando, após abaixar-se para acariciar Carlo, levantou a cabeça e afastou um comprido véu, floresceu sob o olhar dele um rosto de perfeita beleza. Perfeita beleza é uma expressão forte; mas não a retiro nem retoco; feições tão doces quanto o clima temperado de Albion já havia modelado, nuanças tão puras de rosa e lilás quanto os ventos úmidos e os céus nublados do país já haviam gerado e velado, justificavam, neste caso, o termo. Não faltava nenhum encanto, não se percebia nenhum defeito; a jovem tinha traços regulares e delicados; uns olhos com aquela forma e cor que vemos em belos quadros, grandes, escuros e plenos; aqueles longos e sombreados cílios que cercam olhos tão lindos de um fascínio tão suave; as sobrancelhas bem traçadas que dão tamanha nitidez; a testa branca, lisa, que acrescenta tal repouso às belezas mais vividas de cor e brilho; a face oval, fresca e meiga; os lábios também, rubros, saudáveis, Jane Eyre

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de formas suaves; os dentes certos e reluzentes, sem uma falha; o queixo pequeno e com uma covinha; o ornamento de trancas ricas e abundantes — ela possuía plenamente todas as vantagens, em suma, que, combinadas, realizavam o ideal da beleza. Eu estava maravilhada, olhando aquela bela criatura; admirava-a com todo o meu coração. A natureza certamente a modelara com favoritismo; e, esquecendo-se de sua habitual parcimônia de dons, dotara aquela sua favorita com uma liberalidade de grande dama. Que pensava o Sr. St. John daquele anjo terrestre? Eu me fiz naturalmente esta pergunta ao vê-lo virar-se para ela e olhá-la; e, com a mesma naturalidade, busquei a resposta em sua expressão. Ele já retirara os olhos da Peri, e olhava uma humilde touceira de margaridas que brotava ao lado do portão. — Uma noite adorável, mas já tarde para a senhorita estar fora de casa sozinha — disse, esmagando os níveos botões das flores com o pé. — Oh, acabei de voltar de S... (citou o nome de uma grande cidade, a umas vinte milhas de distância) esta tarde. Papai me disse que o senhor tinha aberto sua escola, e que a nova professora chegara; assim, pus minha touca após o chá e subi o vale para vêla; é essa? — indicou-me. — É — disse St. John. — Você acha que vai gostar de Morton? — ela me perguntou, com um tom e uma maneira diretos e de uma simplicidade ingênua. — Espero que sim. Tenho muitos estímulos para isso. — Achou suas alunas tão atentas quanto esperava? — Bastante. — Gosta de sua casa? — Muito. — Mobiliei-a bem? — Muito bem, na verdade. — E fiz uma boa escolha pondo Alice Wood como sua criada? — Realmente fez. Ela é inteligente e prestativa. (Esta, então, é a Srta. Oliver, a herdeira, eu pensava; favorecida, ao que parece, com os dotes da fortuna, além dos da natureza! Que feliz 446

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combinação dos planetas presidiu seu nascimento, imagino?) — Subirei algumas vezes para ajudá-la a ensinar — ela acrescentou. — Será uma mudança, para mim, visitá-la de vez em quando; e gosto de uma mudança. Sr. Rivers, fiquei tão contente durante minha estada em S... Na noite passada, ou antes esta madrugada, dancei até as duas horas da manhã. O regimento... está estacionado lá desde os motins; e os oficiais são os homens mais agradáveis do mundo; põem todos os nossos jovens fabricantes de facas e comerciantes de tesouras no chinelo. Pareceu-me que o lábio inferior do Sr. St. John se projetava para fora, e o superior para dentro, por um momento. Sua boca certamente pareceu um bocado franzida, e a parte inferior do rosto incomumente severa e quadrada, quando a sorridente moça lhe deu essa informação. Ergueu o olhar, também, das margaridas, e voltou-o para ela. Era um olhar nada sorridente, mas penetrante, significativo. Ela o respondeu com um segundo sorriso;, e o sorriso assentava à sua juventude, suas cores rosas, suas covinhas, seus olhos brilhantes. Enquanto ele permanecia grave e mudo, ela se pôs novamente a acariciar Carlo. — O pobre Carlo me ama — disse. — Ele não é severo e distante com sua amiga; e se pudesse falar, não ficaria calado. Enquanto ela dava tapinhas na cabeça do cachorro, curvandose com graça inata diante do jovem e austero senhor, percebi que um rubor subia às faces do reverendo. Vi seus olhos solenes derreterem-se com um fogo súbito, e tremeluzirem com uma irresistível emoção. Assim corado e excitado, ele parecia quase tão bonito, como homem, quanto ela como mulher. Seu peito subiu e desceu visivelmente, como se o grande coração, cansado de uma despótica constrição, se houvesse expandido, independente da vontade, e desse um vigoroso salto para atingir a liberdade. Mas ele o conteve, creio, como um cavaleiro decidido refrearia um teimoso corcel. Não respondeu nem com palavras nem com gestos aos gentis avanços que lhe faziam. — Papai diz que o senhor nunca vem nos visitar — continuou a Srta. Oliver, erguendo a cabeça. — É um total estranho em Vale Jane Eyre

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Hall. Ele está sozinho esta noite, e não passa muito bem; quer voltar comigo e visitá-lo? — A hora não é apropriada para intrometer-me junto ao Sr. Oliver — respondeu St. John. — Não é apropriada? Mas se eu declaro que é. É exatamente a hora em que papai mais precisa de companhia; quando as fábricas estão fechadas, e ele não tem nada com que se ocupar. Ora, Sr. Rivers, venha. Por que é tão tímido, e tão sombrio? — E preencheu o hiato deixado pelo silêncio dele respondendo ela própria: — Esqueci! — exclamou, balançando a linda cabeça de cabelos encaracolados, como se chocada consigo mesma. — Sou tão tonta e desmiolada! Desculpe-me. Escapou-me da memória o fato de que o senhor tem boa razão para não querer participar de minha tagarelice. Diana e Mary o deixaram, e Moor House está fechada, e o senhor se sente muito solitário. Eu certamente tenho pena do senhor. Venha e veja papai. — Esta noite, não, Srta. Rosamond, esta noite, não. O Sr. St. John falou quase como um autômato; só ele próprio sabia o esforço que lhe custava essa recusa. — Bem, se é tão obstinado, vou deixá-lo; pois não ousa dizer mais; o sereno começa a cair. Boa-noite! Estendeu a mão. Ele apenas a tocou. — Boa-noite! — repetiu, numa voz baixa e cava como um eco. Ela se voltou, mas logo retornou. — O senhor está bem? — perguntou. E com razão; o rosto dele estava branco como o vestido dela. — Muito bem — ele enunciou; e, com uma curvatura, deixou o portão. Ela seguiu um caminho, ele outro. Ela se voltou duas vezes para olhá-lo, enquanto descia como uma fada em direção ao vale; ele, andando firmemente na direção oposta, não se voltou nem uma vez. Esse espetáculo do sofrimento e sacrifício alheios tirou meu pensamento da exclusiva meditação nos meus. Diana Rivers qualificara o irmão de “inexorável como a morte”. Não tinha exagerado. 448

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CAPÍTULO 32

C

ontinuei com as tarefas da escola da aldeia tão ativa e fielmente quanto possível. Foi realmente um trabalho duro a princípio. Passou-se um certo tempo até que eu pudesse, com todos os meus esforços, compreender minhas alunas e a natureza delas. Inteiramente incultas, com faculdades inteiramente entorpecidas, pareciamme de uma estupidez sem esperança; e, à primeira vista, todas igualmente estúpidas: mas logo descobri que me enganara. Havia entre elas a mesma diferença que há entre os educados; e quando vim a conhecê-las, e elas a mim, essa diferença desenvolveu-se rapidamente. Uma vez vencida a perplexidade delas comigo, com minha linguagem, minhas regras e maneiras, constatei que algumas daquelas rústicas de olhar pesado e boca aberta se revelavam meninas de mente muito viva. Muitas se mostravam prestativas, e amistosas também; e descobri entre elas não poucos exemplos de polidez natural e inato respeito próprio, assim como de excelentes capacidades, que conquistaram minha boa vontade e admiração. Estas logo pegaram o gosto por fazer bem suas tarefas, manter-se arrumadas, aprender as lições regularmente, adquirir maneiras ordeiras e discretas. A rapidez do progresso delas, em alguns casos, foi mesmo surpreendente; e eu sentia um honesto e feliz orgulho com isso; ademais, comecei a gostar pessoalmente de algumas das melhores meninas; e elas gostavam de mim. Tinha entre minhas alunas várias filhas de camponeses Jane Eyre

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— jovens crescidas, quase mulheres. Estas já sabiam ler, escrever e costurar; e a elas ensinei os primeiros conhecimentos de gramática, geografia, história, e tipos mais finos de costura. Encontrei caracteres estimáveis entre elas — caracteres desejosos de informação e dispostos a se aperfeiçoarem — com os quais passei muitas vezes uma hora agradável, à noite, em suas casas. Os pais então (o agricultor e a esposa) me cumulavam de atenções. Era um prazer aceitar a simples bondade deles, e retribuí-la com uma consideração — um escrupuloso respeito por seus sentimentos — à qual talvez não estivessem acostumados sempre, e que os encantava e beneficiava; porque, elevandoos a seus próprios olhos, estimulava-os a merecer o tratamento deferente que recebiam. Eu sentia que me tornava uma favorita na região. Sempre que saía, ouvia saudações cordiais de todos os lados, e era acolhida com sorrisos amigos. Viver em meio à consideração geral, mesmo que seja apenas da gente trabalhadora, é como “sentar-se ao sol, calmo e doce”; serenos sentimentos íntimos brotam e florescem sob os raios. Nessa época de minha vida, meu coração se enchia muito mais vezes de gratidão do que mergulhava em tristeza; e no entanto, leitor, para dizer-lhe a verdade, em meio a essa calma, a essa existência útil — após um dia passado em honrosa atividade, uma noite passada desenhando ou lendo satisfeita e sozinha — eu me precipitava em estranhos sonhos à noite, sonhos de muitas cores, agitados, cheios do ideal, do excitante, do tempestuoso — sonhos em que, em meio a cenas incomuns, carregadas de aventura, de agitados perigos e acasos românticos, encontrava sempre o Sr. Rochester, sempre em alguma crise dramática; e então a sensação de estar em seus braços, ouvir sua voz, olhar os seus olhos, tocar sua mão e sua face, amá-lo, ser amada por ele — a esperança de passar a vida a seu lado, se renovavam, com toda a sua primeira força e ardor. Então eu acordava. Então me lembrava de onde estava, e em que situação. Então me levantava de minha cama sem cortinado, tremendo e estremecendo; e então a noite quieta e negra testemunhava a convulsão de meu desespero, e ouvia a explosão da paixão. Às nove horas da manhã seguinte, 450

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eu estava abrindo pontualmente a escola; tranqüila, recomposta, preparada para os constantes deveres do dia. Rosamond Oliver manteve a palavra, vindo visitar-me. Fazia sua visita à escola, geralmente, durante o passeio a cavalo que dava pela manhã. Subia a meio galope até a porta em seu pônei, seguida por um criado de libre também montado. Dificilmente se pode imaginar qualquer coisa mais perfeita que sua aparência, naquele traje púrpura, com o boné de amazona, de veludo negro, graciosamente assentado sobre os longos cachos que lhe acariciavam as faces e lhe caíam em cascatas até os ombros; e era assim que ela entrava na construção rústica, e deslizava por entre as deslumbradas fileiras de meninas da aldeia. Em geral, vinha no momento em que o Sr. Rivers dava sua aula diária de catecismo. Penetrantes, receio, os olhos da visitante varavam o coração do jovem pastor. Uma espécie de instinto parecia avisá-lo de sua entrada, mesmo quando não a via; e olhando numa direção inteiramente oposta à porta, se ela aparecia, as faces dele ardiam, e as feições de mármore, apesar de se recusarem a relaxar, se transformavam de uma maneira indescritível, expressando em sua imobilidade um reprimido fervor, mais forte que a mobilidade dos músculos ou o olhar direto poderiam indicar. Evidentemente, ela sabia de seu poder; na verdade, ele não o ocultava dela, porque não podia ocultar. Apesar de seu estoicismo cristão, quando ela se adiantava e falava com ele, e lhe sorria alegremente, encorajadoramente, e até amorosamente no rosto, as mãos dele tremiam e os olhos ardiam. Ele parecia dizer, com sua aparência triste e resoluta, mesmo não o dizendo com os lábios: “Eu amo você, e sei que me prefere. Não é a desesperança do sucesso que me emudece. Se oferecesse meu coração, creio que você o aceitaria. Mas este coração já foi deposto num altar sagrado; o fogo está aceso ao seu redor. Em breve não será mais que um sacrifício consumado.” E então ela fazia beicinho, como uma criança desapontada; uma nuvem de reflexão suavizava sua radiante vivacidade; retirava apressadamente a mão da dele e dará com transitória petulância as costas ao seu aspecto, ao mesmo tão heróico e tão martirizado. Jane Eyre

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St. John, sem dúvida, teria dado o mundo para segui-la, chamála, retê-la, quando ela assim o deixava, mas não abria mão do céu, não desistia, pelo elíseo de seu amor, de uma esperança do verdadeiro, do eterno Paraíso. Além disso, não podia conter tudo que tinha em sua natureza — o viajante, o aspirante a poeta, o sacerdote — dentro dos limites de uma só paixão. Não podia — não queria — renunciar ao amplo campo de sua guerra missionária pelos salões e a paz de Vale Hall. Eu soube disso por ele mesmo, numa incursão que certa vez, apesar de sua reserva, tive a audácia de fazer em sua confidencia. A Srta. Oliver já me honrava com freqüentes visitas à minha cabana. Eu já conhecia todo o seu caráter, que não tinha mistérios nem disfarces. Ela era faceira, mas não cruel; exigente, mas não indignamente egoísta. Fora mimada desde o nascimento, mas não estava absolutamente estragada. Era impetuosa, mas bemhumorada; vaidosa (não podia deixar de sê-lo, quando cada olhar ao espelho lhe mostrava tanta graça), mas não afetada; generosa; inocente do orgulho da riqueza; ingênua; suficientemente inteligente; alegre, vivaz c irrefletida. Era muito encantadora, em suma, mesmo a uma fria observadora de seu próprio sexo como eu; mas não muito interessante nem inteiramente impressionante. Uma mentalidade muito diferente, por exemplo, da das irmãs de St. John. Contudo, eu gostava dela quase tanto quanto de minha pupila Adèle; a não ser pelo fato de que, por uma criança de quem cuidamos e a quem ensinamos, nasce uma afeição maior que a que podemos dar a uma amiga adulta igualmente atraente. Ela pegara um amistoso capricho para comigo. Dizia que eu era como o Sr. Rivers, só que, sem dúvida, admitia, “nem um décimo tão bonita, embora fosse uma almazinha bastante boa e limpa, mas ele era um anjo”. Eu era no entanto boa, inteligente, calma e firme como ele. Era um lusus naturae, afirmava, como professora da aldeia; tinha certeza de que minha história passada, se conhecida, daria um delicioso romance. Certa noite em que, como sua costumeira agitação infantil, e sua curiosidade impensada, embora não ofensiva, remexia no guarda-louça e na mesa com gavetas de minha cozinha, descobriu 452

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primeiro dois livros franceses, um volume de Schiller, uma gramática e um dicionário alemães, e depois meus materiais de pintura e alguns desenhos, incluindo uma cabeça a crayon de uma linda menininha parecendo um querubim, uma de minhas alunas, e várias paisagens da natureza, tomadas no Vale de Morton e nas charnecas em volta. Primeiro, ficou paralisada de surpresa, e depois eletrizada de alegria. — Fora eu que fizera aqueles quadros? Eu sabia francês e alemão? Que amor! Que milagre era eu! Desenhava melhor que seu professor na primeira escola de S... Eu desenharia um retrato dela, para mostrar ao papai? — Com prazer — respondi; e senti uma pontada do prazer do artista à idéia de ter um modelo tão perfeito e radiante. Ela usava então um vestido de seda azul escuro; braços e pescoço à mostra; o único adorno eram suas trancas castanhas, que lhe ondeavam pelos ombros com toda a graça selvagem dos cachos naturais. Peguei uma folha de fina cartolina e desenhei um cuidadoso esboço. Prometi-me a mim mesma o prazer de colori-lo; e, como estava ficando tarde, disse-lhe que devia vir posar outro dia. Ela falou de tal modo de mim a seu pai, que o próprio Sr. Oliver a acompanhou na noite seguinte — um homem alto, de feições pesadas, de meia-idade e grisalho, a cujo lado a adorável filha parecia uma brilhante flor junto a uma vetusta torre. Ele parecia um personagem taciturno, e talvez orgulhoso; mas foi muito bondoso comigo. O esboço do retrato de Rosamond agradou-lhe muito; disse que eu devia fazer um quadro acabado. Insistiu também em que eu fosse no dia seguinte visitá-lo à noite em Vale Hall. Eu fui. Achei-a uma residência grande e bonita, demonstrando sinais abundantes da riqueza do proprietário. Rosamond mostrouse cheia de alegria e prazer todo o tempo que permaneci lá. O pai foi afável; e quando começou a conversar comigo após o chá, manifestou em termos vigorosos sua aprovação ao que eu tinha feito na escola de Morton, e disse que temia apenas, pelo que via e ouvia, que eu fosse boa demais para o lugar, e logo o deixasse por um mais adequado. Jane Eyre

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— Na verdade — exclamou Rosamond — ela é bastante inteligente para ser governanta numa família elevada, papai. Pensei que preferia muito mais ficar onde estava do que com alguma elevada família da região. O Sr. Oliver falou do Sr. Rivers — da família Rivers — com grande respeito. Disse que era um nome muito antigo por ali; que os ancestrais da casa tinham sido ricos; que toda Morton lhes pertencera outrora; que mesmo agora ele considerava que o representante daquela casa poderia, se quisesse, fazer uma aliança com os melhores. Achava uma pena que um jovem tão fino e talentoso tivesse tomado a decisão de partir como missionário; era jogar fora uma vida valiosa. Parecia, assim, que o pai não poria obstáculo à união de Rosamond com St. John. O Sr. Oliver evidentemente encarava o bom nascimento, o nome antigo e a profissão sagrada do jovem clérigo como compensação suficiente para a falta de fortuna. Era o dia 5 de novembro, e feriado. Minha pequena criada, após ajudar-me a limpar a casa, se fora, muito satisfeita com o pagamento de um pêni por sua ajuda. Tudo à minha volta estava impecável e reluzente — o assoalho areado, a grade da lareira polida, as cadeiras bem esfregadas. Eu também me arrumara, e agora tinha diante de mim a tarde, para passar como quisesse. A tradução de algumas páginas do alemão ocuparam uma hora; depois peguei minha paleta e pincéis, e entreguei-me à ocupação mais apaziguante, porque mais fácil, de completar a miniatura de Rosamond Oliver. A cabeça já estava concluída; faltava apenas pintar o fundo e sombrear os cortinados; e acrescentar também um toque de carmim aos lábios maduros, um cacho aqui e ali às trancas, um tom mais escuro à sombra dos cílios sob a pálpebra azulada. Estava absorta na execução desses detalhes, quando, após uma rápida batida, a porta se abriu, admitindo St. John Rivers. — Vim ver como está passando seu feriado — ele disse. — Não pensando, espero? Não, assim está bem; enquanto pinta, não se sente solitária. Como vê, ainda desconfio da senhorita, embora tenha se conduzido admiravelmente até agora. Trouxelhe um livro para consolo noturno — e depôs sobre a mesa uma 454

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publicação — um poema; uma daquelas produções tantas vezes concedidas ao afortunado público daqueles tempos passados... £i era de ouro da literatura moderna. Ai! os leitores de nossa era são menos favorecidos. Mas coragem! Não me deterei a acusar nem lamentar. Sei que a poesia não está morta, nem o gênio perdido; e tampouco Mamom assumiu o poder ainda, para escravizar ou matar; ambos voltarão a afirmar sua existência, sua presença, sua liberdade e força um dia. Poderosos anjos, a salvo no céu! Sorriem quando as almas sórdidas triunfam, e os fracos choram sobre sua própria destruição. A poesia destruída? O gênio banido? Não! Mediocridade, não; não deixe que a inveja a leve a esse pensamento. Não; eles não apenas vivem, mas reinam e redimem; e sem sua divina influência espalhada por toda parte, estaríamos no inferno... o inferno de nossa própria mesquinhez. Enquanto eu olhava avidamente as páginas brilhantes de Marmion (pois era Marmion), St. John se curvou para examinar a pintura. Sua alta figura pôs-se de novo ereta com o choque; não disse nada. Ergui o olhar para ele. Conhecia bem seus pensamentos, e podia ler claramente o seu coração; no momento, sentia-me mais calma c fria que ele; levava temporariamente vantagem, c concebi uma inclinação a fazer-lhe algum bem, se pudesse. “Com toda a sua firmeza c controle”, pensei, “ele se força demais; tranca dentro de si todo sentimento e dor... não manifesta, confessa, comunica nada. Tenho certeza de que lhe faria bem conversar um pouco sobre sua meiga Rosamond, com quem pensa que não deve casar-se; vou fazê-lo falar.” Eu disse primeiro: — Pegue uma cadeira, Sr. Rivers. — Mas ele respondeu, como sempre fazia, que não podia ficar. “Muito bem”, respondi mentalmente, “fique de pé se quiser; mas não se irá ainda, estou decidida; a solidão é pelo menos tão ruim para o senhor quanto para mim. Tentarei, se puder, descobrir a mola secreta de sua confiança, e encontrarei uma brecha nesse peito de mármore pela qual possa deitar uma gota do bálsamo da simpatia”. — O retrato está parecido? — perguntei sem rodeios. — Parecido! Parecido com quem? Não o olhei de perto. Jane Eyre

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— Olhou, sim, Sr. Rivers. Ele também estremeceu com minha súbita e estranha brusquidão; olhou-me espantado. “Oh, isso ainda não é nada”, murmurei para mim mesma. “Não pretendo ser derrotada por um pouco de rigidez de sua parte; estou disposta a ir a consideráveis distâncias”, continuei. “O senhor o observou de perto e distintamente; mas não tenho nenhuma objeção a que o olhe de novo.” E levantei-me e o pus nas mãos dele. — Um quadro bem executado — ele disse. — Cores muito suaves e claras; desenho muito correto e gracioso. — Sim, sim; eu sei de tudo isso. Mas que tal a semelhança? Dominando alguma hesitação, ele respondeu: — A Srta. Oliver, suponho. — Evidentemente. E agora, senhor, para recompensá-lo por seu palpite acurado, prometo-lhe pintar uma cuidadosa e fiel duplicata dessa mesma pintura, bastando que admita que o presente lhe seria aceitável. Não desejo desperdiçar meu tempo e esforço numa oferta que o senhor julgaria indigna. Ele continuou a fitar o quadro; quanto mais olhava, mais firme o segurava e mais parecia cobiçá-lo. — Parece! — murmurou. — Os olhos estão bem feitos; as cores, a luz, a expressão estão perfeitas. Sorri! — Dar-lhe-á prazer ou sofrimento ter uma pintura idêntica? Diga-me! Quando estiver em Madagascar, ou no Cabo, ou na índia, seria um consolo ter esse memento em seu poder? Ou a visão dele traria lembranças capazes de deixá-lo nervoso ou angustiá-lo? Ele ergueu furtivamente os olhos; olhou-me, indeciso, perturbado; tornou a examinar o quadro. — É certo que eu gostaria de tê-lo; se isso seria sensato ou apropriado, é outra questão. Como verificara que Rosamond realmente o preferia, e que não era provável uma oposição do pai dela, eu — menos exaltada em minhas opiniões que St. John — me dispusera vigorosamente, no íntimo, a defender a união dos dois. Parecia-me que, se ele se tornasse dono da grande fortuna do Sr. Oliver, poderia fazer tanto bem com ela quanto se 456

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partisse e deixasse seu gênio murchar, desperdiçando suas forças, sob um sol tropical. Com essa convicção, respondi então: — Até onde posso ver, seria mais sensato e apropriado se ficasse de vez com o original. A essa altura, ele se sentara; pusera o quadro na mesa à frente, e com a testa apoiada em ambas as mãos curvava-se amorosamente sobre ele. Percebi que não estava então nem furioso nem chocado com minha audácia. Vi mesmo que começava a sentir como um prazer, como um alívio inesperado, que lhe falassem assim de um assunto que considerava inabordável — ouvi-lo assim livremente tratado. As pessoas reservadas muitas vezes precisam realmente mais da discussão franca de seus sentimentos e sofrimentos do que as expansivas. O estóico de mais severa aparência é humano, afinal; e “irromper” com audácia e boa vontade no “mar silencioso” de suas almas é muitas vezes conferir-lhes o primeiro dos favores. — Ela gosta do senhor, estou certa — eu disse, parada atrás de sua cadeira — e o pai dela o respeita. Além disso, ela é uma jovem adorável... um tanto desmiolada; mas o senhor teria miolo suficiente para os dois. Deve casar-se com ela. — Ela gosta de mim? — ele perguntou. — Certamente; mais do que de qualquer outra pessoa. Fala do senhor o tempo todo; não há assunto de que goste tanto ou que aborde com mais freqüência. — É muito agradável saber disso — ele disse — muito; continue por mais um quarto de hora — E na verdade retirou o relógio e o depositou sobre a mesa, para medir o tempo. — Mas que adianta prosseguir — perguntei — quando o senhor provavelmente estará preparando algum férreo golpe de contradição, ou forjando uma nova cadeia para aprisionar seu coração? — Não imagine coisas tão duras. Imagine-me cedendo e derretendo-me, como estou fazendo; o amor humano nascendo como uma fonte recém-aberta em minha mente e transbordando com uma tão doce inundação todo o campo que preparei com tanto cuidado e esforço... tão assiduamente semeado com as sementes das boas intenções, dos planos de autonegação. E agora Jane Eyre

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está inundado com uma enchente de néctar... os novos brotos afogados... um delicioso veneno a corroê-los: agora me vejo estendido numa otomana na sala de estar de Vale Hall, aos pés de minha noiva Rosamond Oliver; ela me fala com sua voz doce... olhando-me com aqueles olhos que suas mãos habilidosas tão bem copiaram... sorrindo-me com aqueles lábios de coral. É minha... eu sou dela... meu coração transborda de prazer... meus sentidos estão em transe... que o tempo que marquei passe em paz. Fiz a sua vontade; o relógio tiquetaqueava; ele respirava apressado e baixo: eu permanecia calada. Em meio a esse silêncio, o quarto de hora se acelerou; ele tornou a guardar o relógio, depôs o quadro, levantou-se e ficou junto da lareira. — Agora — disse — esse pequeno espaço foi dedicado ao delírio e à ilusão. Repousei as têmporas no seio da tentação, e pus voluntariamente o pescoço sob sua canga de flores; provei de sua taça. O travesseiro ardia; há uma áspide na guirlanda; o vinho tem um gosto amargo; suas promessas são vazias... suas ofertas falsas: vejo e sei de tudo isso. Eu o olhava, perplexa. — É estranho — ele prosseguiu — que enquanto amo Rosamond Oliver tão loucamente... com toda a intensidade, na verdade, de uma primeira paixão, cujo objeto é perfeitamente lindo, gracioso e fascinante... experimento ao mesmo tempo uma calma e reta consciência de que ela não seria uma boa esposa para mim; que não é a parceira adequada para mim; que eu descobriria isso dentro de um ano após nosso casamento; e que a doze meses de enlevo se sucederia uma vida inteira de arrependimento. Sei disso. — Realmente estranho! — não pude deixar de exclamar. — Enquanto alguma coisa em mim — ele continuou — é agudamente sensível aos encantos dela, uma outra coisa se impressiona profundamente com seus defeitos; e são tais, que não poderiam combinar em nada com aquilo a que aspiro... não poderiam cooperar em nada que eu empreendesse. Rosamond, uma trabalhadora, uma sofredora, uma apóstola? Rosamond, esposa de um missionário? Não! 458

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— Mas o senhor não precisa ser missionário. Podia desistir desse plano. — Desistir! Quê! Minha vocação? Minha grande obra? O alicerce que construo na terra para uma mansão no céu? Minhas esperanças de integrar o conjunto daqueles que fundiram todas as ambições na única e gloriosa ambição de aprimorar sua raça... de levar o conhecimento aos domínios da ignorância... de substituir a guerra pela paz, a escravidão pela liberdade, a superstição pela religião, o temor do inferno pela esperança do céu? Devo desistir disso? É-me mais caro que o sangue em minhas veias. É o que devo aspirar, aquilo para que devo viver. Após uma considerável pausa, eu disse: — E a Srta. Oliver? O sofrimento e a decepção dela não lhe afetam de modo nenhum? — A Srta. Oliver está constantemente cercada de pretendentes e bajuladores; em menos de um mês, minha imagem se apagará de seu coração. Ela me esquecerá; e se casará, provavelmente, com alguém que a fará muito mais feliz do que eu a faria. — O senhor fala com muita frieza, realmente; mas sofre com o conflito. Está se desgastando. — Não. Se eu emagrecer um pouco, será com ansiedade por meus planos, ainda não acertados... minha partida continuamente adiada. Ainda esta manhã recebi informação de que o sucessor, cuja chegada espero há tanto tempo, não pode estar pronto para me substituir por três meses ainda; e talvez os três meses se estendam para seis. — O senhor treme e se ruboriza sempre que a Srta. Oliver entra na sala de aula. Mais uma vez, a expressão de surpresa cruzou o seu rosto. Ele não imaginara que uma mulher ousasse falar assim a um homem. Quanto a mim, sentia-me à vontade nessa espécie de conversa. Não me cansava de comunicar-me com mentes fortes, discretas e refinadas, masculinas ou femininas, enquanto não ultrapassasse as barreiras externas da reserva convencional e cruzasse a soleira da confiança, conquistando um lugar no centro mesmo de seus corações. Jane Eyre

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— A senhorita ê original — ele disse — e nada tímida. Há alguma coisa corajosa em seu espírito, e penetrante em seus olhos; mas permita-me assegurar-lhe que interpreta erroneamente, em parte, minhas emoções. Julga-as mais poderosas e profundas do que são. Dá-me uma margem de simpatia mais larga que a que tenho direito. Quando me ruborizo, e quando tremo diante da Srta. Oliver, não sinto pena de mim mesmo, desprezo a fraqueza. Sei que é ignóbil; uma mera febre da carne; não, declaro, uma convulsão da alma. Esta é tão fixa quanto uma rocha, firmemente plantada nas profundezas de um mar agitado. Reconheça-me pelo que sou... um homem frio e duro. Sorri, incrédula. — A senhorita tomou de assalto minha confidencia — ele continuou — e agora ela está em grande parte à sua disposição. Estou, simplesmente, em meu estado original... despido daquele manto manchado de sangue com o qual o cristianismo cobre a deformidade humana... um homem frio, duro, ambicioso. Só a afeição natural, entre todos os sentimentos, tem um poder permanente sobre mim. A razão, e não o sentimento, é o meu guia; minha ambição não tem limites; meu desejo de elevar-me mais alto, fazer mais que os outros, é insaciável. Respeito a resistência, a perseverança, a diligência, o talento; porque esses são os meios pelos quais os homens atingem grandes metas e se erguem à grande eminência. Observo sua carreira com interesse, porque a considero um espécime de mulher diligente, ordenada, enérgica; não porque me compadeça profundamente pelo que sofreu, ou sofrerá ainda. — O senhor se descreveria como um simples filósofo pagão? — eu disse. — Não. Existe a seguinte diferença entre eu e os filósofos deístas; eu creio; e creio no Evangelho. A senhorita falhou em seu epíteto. Não sou um pagão, mas um filósofo cristão... um seguidor da seita de Jesus. Como discípulo d’Ele, adoto Suas doutrinas puras, misericordiosas, benignas. Defendo-as; jurei disseminá-las. Conquistado para a religião na juventude, foi ela que cultivou minhas qualidades originais, da seguinte maneira: a partir do minúsculo germe, a afeição natural, desenvolveu 460

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a frondosa árvore, a filantropia. Da mesquinha raiz da retidão humana, criou um senso correto da justiça divina. Da ambição por conquistar poder e fama para meu desgraçado eu, formou a ambição para ampliar o Reino de meu Senhor, conquistar vitórias para o estandarte da Cruz. Foi isso o que a religião fez por mim; extraindo o melhor dos materiais originais; podando e treinando a natureza. Mas não podia erradicar a natureza, que não será erradicada “até que este mortal assuma a imortalidade”. Tendo dito isso, pegou o chapéu, que estava na mesa ao lado de minha paleta. Olhou mais uma vez o retrato. — Ela é adorável — murmurou. — Na verdade, seu nome, Rosa do Mundo, é bem apropriado! — E não devo pintar um retrato como esse para o senhor? — Cui bono?* Não. Cobriu o retrato com a folha de papel fino em que eu costumava apoiar a mão ao pintar, para não sujar a cartolina. O que viu de repente naquela folha branca, não posso dizer; mas alguma coisa prendeu o seu olhar. Ele a levantou com um gesto brusco; olhou a borda; depois lançou-me um olhar, inexprimivelmente peculiar e bastante incompreensível; um olhar que parecia tomar nota de todos os pontos de minha forma, rosto, roupa; pois atravessou tudo, rápido, intenso como um raio. Seus lábios se abriram, como para dizer alguma coisa; mas ele conteve a frase que vinha, fosse qual fosse. — Qual é o problema? — perguntei. — Absolutamente nada — foi a resposta; e, recolocando o papel no lugar, vi que rasgava habilmente uma tira da margem, que desapareceu em sua luva; e, com um apressado aceno de cabeça e um “boa-tarde”, sumiu. — Bem! — exclamei, usando uma expressão do distrito — isso fecha a questão, de qualquer forma! Examinei por minha vez o papel; mas nada vi nele a não ser umas pequenas manchas de tinta, onde experimentara as cores. Ponderei sobre esse mistério por um ou dois minutos; mas, achando-o insolúvel, e tendo certeza de que não poderia ter muita importância, afastei-o da mente e esqueci-o. Jane Eyre

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CAPÍTULO 33

Q

uando o Sr. St. John se foi, começava a nevar; a tempestade, em redemoinhos, durou a noite toda. No dia seguinte, um vento penetrante trouxe novas e cegantes nevascas; ao crepúsculo, o vale estava submerso em neve e quase intransitável. Eu fechara a janela, colocara um tapete embaixo da porta para impedir que a neve entrasse por ali, atiçara o fogo, e após sentar-me por quase uma hora diante da lareira, ouvindo a abafada fúria da tempestade, acendi a vela, peguei Marmion e comecei a ler: O dia se fez sobre a acastelada encosta de Norham, E sobre o belo rio de Tweed, largo e fundo, E as solitárias montanhas de Cheviot; As torres maciças, o torreão, Os muros em volta que os cercam De amarela luz brilhavam... E logo esqueci a música da tempestade. Ouvi um ruído; pensei que era o vento que sacudia a porta. Não; era St. John Rivers que, erguendo a tranca, entrava, refugiandose do gelado furacão, da escuridão uivante, e punha-se à minha frente, o casaco que cobria a sua figura branco como uma geleira. Eu estava quase consternada, uma vez que não esperava nenhuma visita vinda do vale bloqueado naquela noite. — Alguma má notícia? — perguntei. — Aconteceu alguma coisa? 462

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— Não. Como a senhorita se alarma facilmente! — ele respondeu, retirando o casaco e pendurando-o na porta, para a qual tornou a empurrar o tapete que afastara ao entrar. Bateu os pés para retirar a neve dos sapatos. — Vou sujar a pureza de seu chão — disse — mas deve me desculpar por esta vez. — Aproximou-se do fogo. — Tive muita dificuldade para chegar aqui, garanto-lhe — observou, aquecendo as mãos sobre as chamas. — Num lugar, enterrei-me na neve quase até a cintura; felizmente, a neve ainda está bastante mole. — Mas por que veio? — não pude deixar de perguntar. — Eis uma pergunta um tanto inospitaleira a fazer a um visitante; mas, já que a faz, respondo simplesmente que vim ter uma conversinha com a senhorita; cansei-me de meus mudos livros e quartos vazios. Além disso, desde ontem experimento a excitação de uma pessoa a quem se contou uma história pela metade, e que está impaciente para ouvir a continuação. Sentou-se. Lembrei-me de sua conduta singular no dia anterior, e realmente comecei a temer que tivesse o espírito afetado. Se estava insano, porém, sua insanidade era muito calma e digna; eu nunca vira seu belo rosto mais parecido com mármore cinzelado do que naquele momento, em que afastava do rosto os cabelos molhados de neve e deixava a luz da lareira brilhar livremente na testa e no rosto pálidos, onde me doía descobrir o sinal da preocupação ou mágoa tão claramente gravado. Aguardei, esperando que dissesse alguma coisa que eu pudesse ao menos compreender; mas ele tinha agora a mão no queixo, o dedo no lábio; pensava. Impressionou-me o fato de sua mão parecer tão desgastada quanto o rosto. Uma onda de piedade talvez inoportuna tomou-me o coração; fui levada a dizer: — Eu gostaria que Diana ou Mary viessem morar com o senhor; é muito ruim que fique inteiramente só; e o senhor é muito duro com sua saúde. — De jeito nenhum — ele disse. — Cuido de mim quando necessário. Estou bem agora. Que vê de errado em mim? Disse isso com uma indiferença descuidada e distraída, que mostrava ser a minha solicitude, ao menos em sua opinião, Jane Eyre

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inteiramente supérflua. Calei-me. Ele ainda movia lentamente o dedo sobre o lábio superior, e seus olhos ainda pousavam sonhadoramente na rubra grade da lareira, julgando urgente dizer alguma coisa, terminei perguntando-lhe se sentia alguma corrente de ar frio vinda da porta, às suas costas. — Não, não! — respondeu, curta e um tanto irritadamente. “Bem!”, refleti. “Se o senhor não quer falar, pode ficar aí parado; vou deixá-lo sozinho agora, e voltar ao meu livro.” Assim, espevitei a vela e retomei a leitura de Marmion. Ele logo se moveu; meus olhos foram no mesmo instante atraídos para seus movimentos; mas ele apenas tirou uma carteira de marroquim, e dela uma carta, que leu em silêncio, dobrou, pôs de volta na carteira e recaiu em sua meditação. Era inútil tentar ler com uma pessoa tão imóvel diante de mim; tampouco consentiria, em minha impaciência, em ficar muda; que me repelisse se quisesse, mas eu falaria. — Teve notícias de Mary e Diana ultimamente? — Não depois da carta que lhe mostrei há uma semana. — Houve alguma mudança em seus preparativos? Não será chamado a deixar a Inglaterra mais cedo do que esperava? — Receio que não, na verdade; uma sorte dessas é boa demais para me caber. — Repelida até então, mudei de terreno. Achei por bem falar da escola e de minhas alunas. — A mãe de Mary Garrett está melhor, e Mary voltou à escola hoje de manhã. Para a semana, terei quatro novas meninas da Fundição Close; teriam vindo hoje, não fosse pela neve. — Verdade! — O Sr. Oliver paga por duas. — Paga? — Ele pretende dar a toda a escola um presente no Natal. — Eu sei. — Foi sugestão sua? — Não. — De quem, então? — Da filha dele, creio. — Isso é bem dela; uma natureza tão boa. 464

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— É. Mais uma vez, o espaço em branco da pausa; o relógio deu oito badaladas. Isso o despertou; descruzou as pernas, empertigou-se e voltou-se para mim. — Deixe seu livro por um momento, e aproxime-se mais do fogo — disse. Intrigada, e não encontrando uma saída para essa intriga, obedeci. — Meia hora atrás — ele prosseguiu — falei de minha impaciência por ouvir a continuação da história: refletindo melhor, acho que a questão será mais bem resolvida se eu assumir o papel do narrador e transformá-la em ouvinte. Antes de começar, é justo avisá-la de que a história parecerá um tanto trivial a seus ouvidos; mas os detalhes rançosos muitas vezes readquirem um certo grau de frescor quando passam por novos lábios. De resto, batida ou nova, é curta. “Há vinte anos, um pobre cura... não se incomode com o nome dele por enquanto... se apaixonou pela filha de um rico; ela também se apaixonou por ele e desposou-o, contra a opinião de todos os seus amigos, que conseqüentemente se afastaram logo após o casamento. Em menos de dois anos, os dois estavam mortos, e enterrados discretamente lado a lado sob a mesma lápide. (Vi a sepultura deles; fazia parte do pavimento de um imenso cemitério que cercava a sombria e velha catedral, coberta de fuligem, de uma inflada cidade manufatureira em ... shire.) Deixaram uma filha, que, logo no nascimento, a Caridade tomou no colo... um colo frio como o da neve em que quase me atolei esta noite. A Caridade levou a coisinha sem amigos para a casa dos parentes ricos, do lado materno; ela foi criada por uma tia pelo casamento, chamada (chego aos nomes agora) Sra. Reed de Gateshead. A senhorita estremece ... ouviu algum barulho? Aposto que é apenas algum rato subindo pelos caibros do telhado da sala de aula; era um celeiro antes que eu a consertasse e alterasse, e os celeiros geralmente são cheios de ratos. Mas, prosseguindo. A Sra. Reed manteve a órfã por dez anos; se a menina foi feliz ou não com ela, não sei, pois nunca me disseram, mas ao fim desse tempo a tia a transferiu para um lugar que a senhorita conhece... pois Jane Eyre

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não é outro senão a Escola Lowood, onde a senhorita morou por tanto tempo. Parece que a carreira dela ali foi muito honorável: de aluna, passou a professora, como a senhorita...realmente, pareceme que há pontos paralelos entre a história dela e a sua. Ela deixou a escola para ser governanta: também nisso seus destinos foram análogos; ela assumiu a educação da protegida de um certo Sr. Rochester.” — Sr. Rivers! — interrompi-o. — Posso imaginar seus sentimentos — ele disse — mas contenha-os por algum tempo; já quase terminei, ouça-me até o fim. Do caráter do Sr. Rochester, nada sei, a não ser do único fato de que ele professou oferecer um honrado casamento a essa jovem, e que já no altar ela descobriu que ele tinha uma esposa viva, embora louca. Quais foram sua conduta e propostas depois disso, é um caso de pura conjetura; mas quando surgiu um fato que fez com que procurassem a governanta, descobriu-se que ela partira... ninguém sabia quando, para onde, ou como. Deixara Thornfield Hall à noite; todas as buscas foram, evidentemente, em vão; a região foi vasculhada em todos os sentidos; não se conseguiu um vestígio de informação sobre ela. Contudo, tornouse de séria urgência que ela fosse encontrada; puseram-se anúncios nos jornais; eu mesmo recebi uma carta de um certo Sr. Briggs, solicitador, comunicando os detalhes que acabo de fornecer. Não uma história curiosa? — Diga-me apenas o seguinte — eu disse. — E já que sabe tanto, certamente pode me dizer: que aconteceu com o Sr. Rochester? Como e onde está ele? Que está fazendo. Está bem? — Ignoro tudo o que se refere ao Sr. Rochester: a carta só o menciona para contar a tentativa fraudulenta e ilegal a que me referi. A senhorita devia antes perguntar o nome da governanta... o tipo de fato que exige o aparecimento dela. — Ninguém foi a Thornfield Hall, então? Ninguém viu o Sr. Rochester? — Suponho que não. — Mas escreveram a ele? — Evidentemente. 466

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— E que foi que ele disse? Quem tem as cartas dele? — O Sr. Briggs dá a entender que a resposta às suas perguntas não vieram do Sr. Rochester, mas de uma senhora; está assinada “Alice Fairfax”. Eu me sentia gelada e consternada: meus piores temores eram então verdadeiros: com toda probabilidade, ele deixara a Inglaterra e lançara-se em imprudente desespero em algum antigo antro do Continente. E que ópio para suas severas dores... que objeto para suas fortes paixões... buscara ali? Oh, meu pobre amo... outrora quase meu marido... a quem tantas vezes eu chamara de “meu querido Edward”. — Ele deve ter sido um homem mau — observou o Sr. Rivers. — O senhor não o conhece... não emita uma opinião sobre ele — eu disse com ardor. — Muito bem — ele respondeu tranqüilamente. — E na verdade minha cabeça tem outras coisas com que se ocupar, que não ele; tenho de terminar minha história. Como não pergunta o nome da governanta, devo dizê-lo de moto próprio. Fique! Tenho-o aqui... é sempre mais satisfatório ver pontos importantes escritos, bem seguros em preto e branco. E a carteira foi mais uma vez sacada com deliberação, aberta e revistada; de um de seus compartimentos, foi extraída uma amassada tira de papel, rasgada às pressas de algum lugar; reconheci em sua textura e suas manchas de azul-marinho, carmesim e vermelhão: a margem rasgada da cobertura de meu retrato. Ele se levantou, segurou-a perto dos olhos! e eu li, escritas em nanquim, e em minha letra, as palavras: JANE EYRE — obra sem dúvida de algum momento de distração. — Briggs escreveu-me sobre uma certa Jane Eyre — ele disse. — Os anúncios falavam de uma certa Jane Eyre: eu conhecia uma Jane Eliot. Confesso que tinha minhas suspeitas, mas só ontem à tarde foi que elas se transformaram em certeza de uma vez. Reconhece o nome e renuncia ao pseudônimo? — Sim... sim; mas onde está o Sr. Briggs? Talvez ele saiba mais que o senhor sobre o Sr. Rochester. Jane Eyre

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— Briggs está em Londres. Duvido que saiba qualquer coisa sobre o Sr. Rochester; não é no Sr. Rochester que ele está interessado. Enquanto isso, a senhorita esquece pontos essenciais para ir atrás de bobagens; não quer saber por que o Sr. Briggs a procurou... o que queria da senhorita? — Bem, que era que ele queria? — Simplesmente comunicar-lhe que seu pobre tio, o Sr. Eyre, de Madeira, está morto; que lhe deixou todos os seus bens, e que a senhorita agora é rica... simplesmente isso... nada mais. — Eu! Rica? — Sim, a senhorita, rica... uma completa herdeira. Seguiu-se um silêncio. — Tem de provar sua identidade, é claro — recomeçou St. John afinal — um passo que não oferecerá nenhuma dificuldade; e poderá então entrar na posse imediata. Sua fortuna está investida em fundos ingleses; Briggs tem o testamento e os documentos necessários. Ali estava outra carta jogada! Ê uma coisa magnífica, leitor, ser elevada num momento da indigência à riqueza... uma coisa magnífica mesmo; mas não algo que se possa compreender, ou desfrutar, conseqüentemente, assim de repente. E depois, há outras oportunidades na vida muito mais emocionantes e arrebatadoras: aquilo era sólido, uma questão do mundo real, não tinha nada de ideal; todas as associações são sólidas e sóbrias, e suas manifestações também. Não se salta, e pula, e grita hurra! ao se saber que herdou uma fortuna; começa-se a pensar em responsabilidades, e a ponderar negócios; sobre uma base de constante satisfação erguem-se certas preocupações sérias, e nos contemos, e meditamos em nossa felicidade com uma expressão solene. Além disso, as palavras Legado, Herança, vêm lado a lado com as palavras Morte, Funeral. Soubera que meu tio morrera... meu único parente; desde quando soubera de sua existência, eu alimentava a esperança de um dia vê-lo; agora, jamais o veria. E depois, aquele dinheiro vinha apenas para mim; não para mim 468

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e uma família regozijante, mas para minha isolada pessoa. Era uma grande dádiva, sem dúvida; e a independência seria gloriosa — sim, eu sentia isso — esse pensamento fazia meu coração transbordar de alegria. — A senhorita move a cabeça, afinal — disse o Sr. Rivers. — Pensei que Medusa a tinha olhado, e que a senhorita se havia transformado em pedra. Talvez me pergunte agora quanto possui. — Quanto possuo? — Oh, uma ninharia! Nada, certamente, digno de menção... vinte mil libras, creio que é o que dizem; mas que significa isso? — Vinte mil libras? Outra coisa estonteante — eu calculara umas quatro ou cinco mil. Essa notícia me tirou realmente o fôlego por um momento; o Sr. St. John, a quem eu nunca vira rir antes, ria agora. — Bem — ele disse — se a senhorita houvesse cometido um assassinato, e eu lhe tivesse dito que seu crime fora descoberto, não poderia parecer mais espantada. — É uma grande soma... não acha que há algum erro? — Nenhum erro, absolutamente. — Talvez tenha lido os números errado... podem ser dois mil! — Está escrito com letras, não com números... vinte mil! Voltei a sentir-me um tanto como um indivíduo de poderes gastronômicos apenas medianos sentando-se para banquetear-se sozinho a uma mesa servida com pratos para cem. O Sr. Rivers levantou-se então e pôs o casaco. — Se não fosse uma noite tão inclemente — disse — eu mandaria Hannah aqui para fazer-lhe companhia; a senhorita parece demasiado descoroçoada para ser deixada só. Mas Hannah, coitada!, não poderia atravessar a nevada como eu; não tem as pernas tão compridas: assim, devo deixá-la com suas mágoas. Boa-noite. Levantava a tranca; um súbito pensamento me ocorreu. — Pare um minuto! — gritei. — Bem? — Intriga-me saber porque o Sr. Briggs lhe escreveu sobre Jane Eyre

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mim; ou como o conheceu, ou imaginou que o senhor, vivendo num lugar tão isolado, tivesse meios de ajudar a encontrar-me. — Oh! Eu sou um clérigo — ele disse — e freqüentemente se recorre ao clero em questões curiosas. — Mais uma vez, a tranca da porta rangeu. — Não; isso não me satisfaz! — exclamei; e de fato havia algo naquela resposta apressada e nada explicativa que, em vez de acalmar, excitou minha curiosidade mais que nunca. — É um caso muito estranho — acrescentei. — Preciso saber mais a respeito. — Outra hora. — Não, esta noite! — e, quando ele se voltou da porta, eu me coloquei entre ela e ele, que pareceu um tanto embaraçado. — Certamente o senhor não sairá daqui antes de me contar tudo — eu disse. — Eu preferia não contar neste momento. — Vai contar! Tem de contar! — Eu preferia que Diana ou Mary lhe informassem. É claro que essas objeções levaram minha ansiedade a um clímax; e tinha de ser satisfeita, sem demora; e eu disse isso a ele. — Mas eu lhe informei que sou um homem duro — ele disse. — Difícil de persuadir. — E eu sou uma mulher dura... impossível de pôr de lado. — E depois — ele continuou — sou frio, nenhum ardor me contagia. — Enquanto eu sou quente, e o fogo dissolve o gelo. O fogo ali derreteu toda a neve de seu casaco; da mesma forma, a água escorreu para o meu assoalho, transformando-o numa rua em que muitos passam. Como espera um dia ser perdoado, Sr. Rivers, do grande crime e mau comportamento de sujar uma cozinha areada, diga-me o que quero saber. — Bem, então — ele disse — eu cedo; se não à sua ansiedade, ao menos à sua perseverança; como a água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Além disso, vai ter de saber algum dia... e tanto faz agora como depois. Seu nome é Jane Eyre? 470

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— Evidentemente, isso já foi decidido antes. — Talvez a senhorita não saiba que sou seu xará... que fui batizado com o nome de St. John Eyre Rivers. — Não, na verdade! Lembro-me agora de ter visto a letra E entre as suas iniciais escritas em livros que me emprestou, em ocasiões diferentes; mas nunca perguntei o que significava. Mas e daí? Sem dúvida... Parei: não confiava em mim mesma para alimentar, e muito menos manifestar, o pensamento que me ocorreu de repente — que tomou forma — que, num segundo, se ergueu como uma forte e sólida probabilidade. As circunstâncias se emaranharam, se ordenaram, a cadeia que até então jazia como um monte de elos sem ligações se endireitou — todos os aros eram perfeitos, a conexão completa. Eu sabia, por instinto, em que pé estavam as coisas, antes de St. John dizer mais uma palavra; mas não posso esperar que o leitor tenha a mesma percepção intuitiva, e assim tenho de repetir a informação dele. — O nome de minha mãe era Eyre-; ela tinha dois irmãos; um, um clérigo, que se casou com a Srta. Jane Reed, de Gateshead; o outro, lohn Eyre, Esq., comerciante, de Funchal, Madeira. O Sr. Briggs, sendo solicitador do Sr. Eyre, escreveu-nos em agosto para informar-nos da morte de nosso tio, e para dizer que ele deixara seus bens para a filha órfã de seu irmão clérigo, passando por cima de nós, em conseqüência de uma disputa, jamais esquecida, entre ele e meu pai. Voltou a escrever há poucas semanas, para informar que a herdeira desaparecera, e perguntando se eu sabia alguma coisa sobre ela. Um nome casualmente escrito numa tira de papel possibilitou-me encontrá-la. A senhorita sabe o resto. — Novamente, ia saindo, mas me recostei contra a porta. — Deixe-me falar — eu disse — deixe-me respirar e refletir por um momento. — Fiz uma pausa — ele estava parado à minha frente, de chapéu na mão, com uma aparência bastante composta. Recomecei: — Sua mãe era irmã de meu pai? — Sim. — Minha tia, portanto? Ele assentiu com a cabeça. Jane Eyre

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— Meu tio John era seu tio John? O senhor, Diana e Mary são filhos da irmã dele, como eu sou filha do irmão? — Inegavelmente. — Vocês três então são meus primos; metade do nosso sangue, de cada lado, provém da mesma fonte? — Somos primos; sim. Examinei-o. Parecia-me ter encontrado um irmão; um irmão do qual podia me orgulhar — a quem podia amar; e duas irmãs, cujas qualidades eram tais que, quando as conhecia como simples estranhas, me tinham inspirado sincero afeto e admiração. As duas moças que, ajoelhada no chão molhado, e olhando através da janela baixa, com gelosias, da cozinha de Moor House, eu olhara com uma mistura tão amarga de interesse e desespero, eram minhas parentas próximas; e o jovem e imponente cavalheiro que me encontrara quase morrendo na soleira de sua porta era meu parente de sangue. Gloriosa descoberta para uma infeliz solitária! Aquilo era realmente a riqueza! Riqueza para o coração — uma mina de afetos puros e agradáveis. Era uma bênção, brilhante, vivida e estimulante — não como a maciça dádiva de ouro, rica e muito bem-vinda à sua maneira, mas que causava sobriedade com seu peso. Bati então as mãos em repentina felicidade — meu pulso saltava, minhas veias vibravam. — Oh, estou feliz! Estou feliz! — exclamei. St. John sorriu. — Eu não disse que a senhorita esquecera de pontos essenciais para procurar saber de bobagens? — perguntou. — A senhorita ficou séria quando eu disse que tinha ganho uma fortuna; e agora, por uma coisa sem importância, está excitada. — Que quer dizer? Pode não ter importância para o senhor; tem irmãs e não liga para uma prima; mas eu não tinha ninguém; e agora três parentes... ou duas, se o senhor preferir não ser incluído... brotaram em meu mundo inteiramente adultas. Repito; estou feliz! Andava rápido pelo aposento; parei, meio sufocada com as idéias que surgiam com mais rapidez do que eu as podia receber, compreender, assentar, idéias do que poderia, deveria e iria acontecer, e muito em breve. Olhei a parede branca: parecia um 472

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céu cheio de estrelas ascendentes — e cada uma me despertava um propósito ou um prazer. Aqueles que me haviam salvo a vida, e aos quais até então eu amava sem poder retribuir, podia agora beneficiá-los. Eles estavam sob um jugo — eu podia libertálos; estavam dispersos — eu podia reuni-los; a independência, a riqueza que eram minhas podiam ser deles também. Não éramos quatro? Vinte mil libras, divididas igualmente, dariam cinco mil para cada — bastava e sobrava; a justiça seria feita — e se asseguraria a mútua felicidade. Agora a riqueza não me pesava; agora não era uma simples herança em moeda — era um legado de vida, esperança, deleite. Não sei que aparência eu tinha enquanto essas idéias me tomavam o espírito de assalto; mas logo percebi que o Sr. Rivers colocara uma cadeira atrás de mim, e tentava delicadamente fazer-me sentar nela. Também me aconselhou a manter a calma; desdenhei a insinuação de desamparo e distração, afastei sua mão e pus-me a andar de novo. — Escreva a Diana e Mary amanhã — eu disse — e diga-lhes que venham para casa imediatamente. Diana disse que as duas se considerariam ricas com mil libras; assim, com cinco mil, ficarão muito bem. — Diga-me onde posso arranjar-lhe um copo d’água — disse St. John. — A senhorita deve realmente fazer um esforço para acalmar seus sentimentos. — Bobagem! E que tipo de efeito a herança terá sobre o senhor? Será que o manterá na Inglaterra, o levará a casar-se com a Srta. Oliver e assentar-se como um mortal comum? — A senhorita se desvaria; sua cabeça torna-se confusa. Fui abrupto demais ao transmitir as notícias; isso a excitou além de suas forças. — Sr. Rivers, o senhor me deixa muito impaciente, sou bastante racional; é o senhor quem está entendendo mal, ou antes, finge entender mal. — Talvez, se a senhorita se explicasse um pouco mais completamente, eu compreendesse melhor. — Explicar! Que há para explicar? O senhor não pode deixar de Jane Eyre

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ver que vinte mil libras, a soma em questão, dividida igualmente entre o sobrinho e as três sobrinhas de nosso tio, darão cinco mil libras para cada um? O que desejo é que o senhor escreva às suas irmãs e conte a elas a fortuna que lhes coube. — Que coube à senhorita, é o que quer dizer. — Eu já disse minha opinião sobre o caso; não posso tomar nenhuma outra. Não sou brutalmente egoísta, cegamente injusta ou demoniacamente ingrata. Além disso, estou decidida a ter uma casa e parentes. Gosto de Moor House, e viverei em Moor House; gosto de Diana e Mary, e me ligarei por toda vida a Diana e Mary. Cinco mil libras me agradariam e beneficiariam; vinte mil me atormentariam e oprimiriam; e, além disso, jamais poderiam ser minhas com justiça, embora possam ser pela lei. Abandono-lhes assim o que me é absolutamente supérfluo. Que não haja oposição e discussão sobre isso; concordemos e decidamos a questão de uma vez. — Isso é agir com base em primeiros impulsos; a senho-rita deve levar dias considerando um assunto desses, antes que sua palavra possa ser encarada como válida. — Oh, se duvida apenas de minha sinceridade, estou tranqüila; vê a justiça do caso? — Eu vejo uma certa justiça; mas é contrária a todos os costumes. Além disso, toda a fortuna é sua por direito; meu tio ganhou-a com seus esforços; tinha a liberdade de deixá-la para quem quisesse; deixou-a para a senhorita. Afinal, a justiça permite que a mantenha; a senhorita pode, em sã consciência, considerá-la absolutamente sua. — Comigo — eu disse — trata-se inteiramente de uma questão mais de sentimento do que de consciência: tenho de satisfazer meus sentimentos; é tão raro eu ter uma oportunidade de fazêlo. Mesmo que o senhor discutisse, se opusesse e me aborrecesse durante um ano, eu não abriria mão do prazer do qual consegui um vislumbre... o de pagar, em parte, uma grande dívida, e ganhar amigos para a vida inteira. — A senhorita pensa assim agora — retrucou St. John — porque não sabe o que é possuir, e conseqüentemente desfrutar, 474

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da riqueza: não pode formar uma idéia da importância que vinte mil libras lhe dariam; do lugar que lhe possibilitariam ocupar na sociedade; das perspectivas que lhe abririam; não pode... — E o senhor — interrompi — não pode de modo algum imaginar o anseio que sinto de amor fraterno. Nunca tive um lar, nunca tive irmãos ou irmãs; preciso tê-los e os terei agora; o senhor não se opõe a me admitir, e me reconhecer, se opõe? — Jane, eu serei seu irmão... minhas irmãs serão suas irmãs... sem exigirmos esse sacrifício de seus justos direitos. — Irmão? Sim; à distância de mil léguas! Irmãs? Sim; escravizando-se entre estranhos! Eu, rica... entupida de ouro que jamais ganhei e não mereço! Vocês, sem tostão! Bela igualdade e fraternização! Estreita união! Intima ligação! — Mas, Jane, suas aspirações de laços familiares e felicidade doméstica podem se realizar por outros meios além daqueles que você pensa; você pode casar-se. — Bobagem, de novo! Casar! Não quero me casar, e nunca me casarei. — Esta é uma afirmação exagerada; afirmações assim arriscadas são uma prova da excitação sob a qual você age. — Não é exagerada, sei o que sinto, e como minhas intenções são aversas ao simples pensamento de casar-me. Ninguém me aceitaria por amor; e não serei encarada como uma simples especulação monetária. E não quero um estranho...sem simpatia, alheio, diferente de mim; quero os meus; aqueles com quem tenho um completo sentimento de companheirismo. Diga de novo que será meu irmão; quando disse essas palavras eu fiquei satisfeita, feliz; repita-as, se pode repeti-las com sinceridade. — Eu acho que posso. Sei que sempre amei minhas irmãs; e sei em que se baseia meu afeto por elas... respeito pelo valor e admiração pelos talentos delas. Você também tem uma mente e princípios, seus gostos e hábitos se assemelham aos de Diana e Mary; sua presença me é sempre agradável; em sua conversa, já encontrei por algum tempo um alívio salutar. Sinto que posso fácil e naturalmente abrir espaço em meu coração para você, como minha terceira e mais jovem irmã. Jane Eyre

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— Obrigada; isso me satisfaz por esta noite. Agora, é melhor ir-se; pois, se demorar mais, talvez me irrite de novo com algum escrúpulo de desconfiança. — E a escola, Srta. Eyre? Terá de ser fechada agora, suponho. — Não. Manterei meu posto de professora até que o senhor consiga uma substituta. Ele deu um sorriso de aprovação, apertamo-nos as mãos, e ele partiu. Não preciso narrar em detalhes as lutas posteriores que enfrentei, e os argumentos que usei, para acertar como queria os problemas relativos à herança. Minha tarefa foi muito difícil; mas, como estava absolutamente decidida — como meus primos viram afinal que eu tinha a mente real e imutavelmente fixa em fazer uma justa divisão dos bens; como devem ter sentido em seus íntimos a eqüidade de minha intenção; e como, além disso, deviam estar intimamente conscientes de que, em meu lugar, teriam feito precisamente o que eu pretendia fazer — cederam afinal até o ponto de submeter a questão à arbitragem. Os juizes escolhidos foram o Sr. Oliver e um hábil advogado: os dois concordaram com minha opinião; venci. Os instrumentos de transferência foram elaborados; St. John, Diana, Mary e eu tornamo-nos, cada um, possuidores de uma renda suficiente para a subsistência.

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CAPÍTULO 34

Q

uando tudo ficou acertado, já estávamos perto do Natal; a estação das férias gerais se aproximava. Fechei a escola de Morton, tendo o cuidado de que a despedida não fosse estéril de meu lado. A boa sorte abre as mãos, assim como os corações, de uma forma maravilhosa; e dar alguma coisa quando muito recebemos é apenas dar uma válvula de escape à incomum ebulição das sensações. Havia muito que eu achava que muitas de minhas rústicas alunas gostavam de mim, e quando nos despedimos, essa consciência se confirmou: elas manifestaram seu afeto clara e vigorosamente. Profunda foi a minha satisfação ao descobrir que tinha realmente um lugar em seus simples corações: prometi-lhes que não passaria nem uma semana, no futuro, em que não as visitasse e lhes desse uma hora de aula em sua escola. O Sr. Rivers apareceu quando, tendo visto as classes, agora em número de sessenta meninas, saírem em fila à minha frente, e fechado a porta, eu estava parada com a chave na mão, trocando algumas palavras de despedida especial com uma meia dúzia de minhas melhores alunas; mocinhas tão decentes, respeitáveis, modestas e bem-informadas quanto se podia encontrar nas fileiras do campesinato inglês. E isso é dizer muito; pois, afinal, o campesinato inglês é o mais bem treinado, mais bem-educado e que tem mais respeito próprio entre todos os da Europa; desde então, tenho visto paysannes e Bauerinnen; e mesmo as melhores Jane Eyre

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delas me pareceram ignorantes, grosseiras e tolas, comparadas com minhas meninas de Morton. — Acha que obteve sua recompensa por uma temporada de trabalho? — perguntou o Sr. Rivers, quando elas se foram. — A consciência de ter feito algum bem verdadeiro em sua época e geração não lhe dá prazer? — Sem dúvida. — E você trabalhou apenas alguns meses! Uma vida dedicada à tarefa de aperfeiçoar sua gente não seria bem vivida? — Sim — eu disse — mas eu não poderia continuar para sempre assim: quero desfrutar de minhas faculdades, além de cultivar as dos outros. E devo desfrutá-las agora; não me puxe nem a mente nem o corpo para a escola; estou fora dela e disposta a umas férias completas. Ele pareceu sério. — E agora? Que súbito anseio é esse que você demonstra agora? Que vai fazer? — Agir; agir tanto quanto possível. E primeiro devo pedir-lhe que libere Hannah e arranje outra pessoa para servi-lo. — Você a quer? — Sim; quero que ela vá comigo para Moor House. Diana e Mary estarão em casa dentro de uma semana, e quero ter tudo em ordem para a chegada delas. — Compreendo. Pensava que você ia partir em alguma viagem. É melhor assim; Hannah irá com você. — Diga-lhe que esteja pronta amanhã, então; e aqui está a chave da escola; eu lhe darei a chave de minha cabana pela manhã. Ele a recebeu. — Você a entrega com muita alegria — disse. — Não compreendo inteiramente sua despreocupação, porque não sei que atividade se propõe em substituição à que está deixando. Que objetivo, que propósito, que ambição na vida você tem agora? — Meu primeiro objetivo é limpar (compreende toda a força da expressão?)...limpar Moor House dos quartos ao porão; depois, encerá-la com cera de abelha, óleo e uma quantidade infinita de panos, até que ela volte a reluzir; em terceiro lugar, arrumar toda 478

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corrente, mesa, cama, tapete, com precisão matemática; e em seguida vou levá-lo quase à ruína com as despesas com carvão e turfa para manter bons fogos em cada aposento; e por último, os dois dias anteriores à chegada de suas irmãs serão dedicados por Hannah e eu a um tal bater de ovos, catar groselhas, ralar especiarias, fazer bolos de Natal, cortar ingredientes para pastéis recheados e outros rituais culinários, que as palavras só podem transmitir uma idéia inadequada aos não iniciados como você. St. John deu um leve sorriso; mas continuava insatisfeito. — Está tudo muito bem, por agora — disse — mas, seriamente, espero que, quando passar o primeiro impulso de animação, você olhe um pouco mais acima dos prazeres e alegrias domésticos. — As melhores coisas do mundo! — interrompi. — Não, Jane, não; este mundo não é um cenário de deleites; não tente fazê-lo assim; nem de repouso; não se torne indolente. — Eu pretendo, ao contrário, me ocupar bastante. — Jane: eu a desculpo por agora: dou-lhe dois meses de graça para o total desfrute de sua nova posição, e para refestelar-se com esse recém-descoberto encanto de parentesco; mas depois, espero que comece a olhar além de Moor House e Morton, da companhia fraterna, da tranqüilidade egoísta e do conforto dos sentidos que a riqueza civilizada proporciona. Espero que suas energias voltem a inquietá-la com sua força. Olhei-o surpresa. — St. John — disse — creio que você é quase mesquinho falando assim. Estou querendo me sentir tão satisfeita quanto uma rainha, e você tenta me causar inquietação! Para quê? — Para transformar em lucros os talentos que Deus confiou à sua guarda; e dos quais Ele certamente lhe pedirá contas exatas um dia. Jane, eu a vigiarei estreita e ansiosamente... aviso-a disso. E tente conter o fervor desproporcional com que se atira a prazeres domésticos menores. Não se apegue tão tenazmente aos laços da carne; poupe sua constância e ardor para uma causa adequada; abstenha-se de desperdiçá-los com objetivos triviais transitórios. Está ouvindo, Jane? — Sim; exatamente como se você estivesse falando grego. Acho Jane Eyre

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que tenho motivo adequado para ser feliz; e vou ser feliz. Adeus! E feliz eu fui em Moor House, e trabalhei duro; e também Hannah; ela estava encantada por ver como eu podia ser alegre em meio às atividades de uma casa revirada de pernas para o ar — como eu sabia escovar, espanar, limpar e cozinhar. E realmente, após um ou dois dias de confusão, era um prazer invocar aos poucos a ordem do caos que nós mesmas tínhamos criado. Eu fizera antes uma viagem a S... para comprar alguns móveis; meus primos tinham-me dado carte Manche para efetuar as alterações que me agradasse, e destinara-se uma soma para esse fim. A sala de estar e os quartos de dormir comuns, eu os deixei em grande parte como estavam; pois sabia que Diana e Mary teriam mais prazer em rever as velhas mesas, cadeiras e camas familiares do que com o espetáculo de inovações mais elegantes. Contudo, era necessária alguma novidade, para dar ao retorno delas a pungência com que eu desejava investi-lo. Novos e bonitos tapetes e cortinas escuros, um arranjo de alguns enfeites antigos cuidadosamente escolhidos, em porcelana e bronze, novas coberturas, espelhos e penteadeiras, para as mesas de toalete, serviram para isso; pareciam novos sem ser berrantes. Uma sala c um quarto de reserva, eu os reformei inteiramente, com velho mogno e guarnições rubras; pus lonas no corredor e tapetes nas escadas. Quando tudo acabou, achei Moor House um modelo tão completo de modesto conforto por dentro, quanto era, naquela estação, um modelo de desolação invernal e deserta solidão por fora. Chegou afinal a momentosa quinta-feira. Elas eram esperadas ao escurecer, antes que se acendessem as lareiras no andar de cima e de baixo; a cozinha estava perfeitamente arrumada; Hannah e eu de roupa trocada, e tudo pronto. St. John chegou primeiro. Eu lhe pedira que se mantivesse longe de casa até que tudo estivesse arrumado; e na verdade, a simples idéia da agitação, ao mesmo tempo suja e trivial, dentro daquelas paredes, era o bastante para assustá-lo e mantê-lo à distância. Ele me encontrou na cozinha, observando o andamento da feitura de uns bolos para o chá, e depois assando-os. , Aproximandose do fogão, perguntou “se eu estava finalmente satisfeita com o 480

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trabalho de criada?” Respondi convidando-o a acompanhar-me numa generosa inspeção do resultado de meus esforços. Com alguma dificuldade, consegui que percorresse a casa. Ele apenas olhava para dentro das portas que eu abria; e enquanto subíamos e descíamos as escadas, disse-me que eu devia ter passado por muita fadiga e problemas para fazer mudanças tão consideráveis em tão curto tempo; mas não disse nem uma sílaba que indicasse prazer com o aspecto melhorado de sua morada. Esse silêncio tirou-me o entusiasmo. Achei que talvez as alterações tivessem prejudicado algumas velhas lembranças que valorizasse muito. Perguntei se assim era, sem dúvida num tom um tanto abatido. — De modo nenhum; ele observava, ao contrário, que eu havia respeitado escrupulosamente todas as associações; temia, de fato, que eu tivesse dado mais importância a esse assunto do que merecia. Quantos minutos, por exemplo, eu dedicara a estudar o arranjo daquele mesmo aposento? A propósito, poderia dizer-lhe onde estava tal livro? Mostrei-lhe o volume na estante; ele o pegou e, retirando-se para seu costumeiro canto de janela, começou a lê-lo. Ora, não gostei disso, leitor. St. John era um bom homem; mas eu começava a sentir que falara a verdade quando dissera que era frio e duro. As humanidades e amenidades da vida não tinham atração para ele — seus pacíficos prazeres, nenhum encanto. Ele vivia apenas, literalmente, para aspirar — ao que era grande e bom, sem dúvida; mas ainda assim nunca descansava, e não aprovava que outros descansassem à sua volta. Olhando sua vistosa testa, imóvel e pálida como uma pedra branca — seus finos traços fixados no estudo — compreendi de repente que dificilmente daria um bom marido, que seria uma provação ser esposa dele. Entendi, como por inspiração, a natureza de seu amor pela Srta. Oliver; concordei com ele em que era apenas um amor dos sentidos. Compreendi então como ele se desprezaria a si mesmo pela febril influência que aquele amor exercia sobre ele; como gostaria de sufocá-lo e destruí-lo; como duvidava de que algum dia levasse à felicidade permanente dele ou dela. Vi que Jane Eyre

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era do material com que a natureza esculpe os heróis — cristãos e pagãos — seus legisladores, seus estadistas, seus conquistadores; um firme baluarte para sustentar os grandes interesses; mas, no lar, freqüentemente um frio e incômodo pilar, sombrio e deslocado. “Esta sala de visitas não é esfera dele”, refleti; “o pico do Himalaia, ou a selva de Caffre, mesmo o empesteado pântano da Costa da Guiné, lhe serviriam melhor. Fazia bem em evitar a tranqüilidade da vida doméstica; não era seu elemento; ali, suas faculdades se estagnavam — não podiam se desenvolver nem se destacar. É nas cenas de luta e perigo — onde se prova a coragem, se exerce a energia e se testa a firmeza — que ele falará e se moverá, líder e superior. Uma alegre criança levaria vantagem sobre ele nesta casa. Ele está certo ao escolher a carreira de missionário — vejo agora”. — Estão chegando! Estão chegando! — exclamou Hannah, abrindo de chofre a porta da sala de visitas. Ao mesmo tempo, o velho Carlo se pôs a ladrar alegremente. Corri para fora. Estava escuro agora; mas ouvia-se um rumor de rodas. Hannah logo acendia uma lanterna. O veículo parará no portão; o cocheiro abriu a porta; primeiro uma figura bem conhecida, depois outra, saltaram. Num minuto, eu tinha o rosto debaixo de suas toucas, em contato primeiro com a macia face de Mary, e depois com os abundantes cachos de Diana. Elas riam — beijavam-me — e depois a Hannah; davam tapinhas em Carlo, que estava meio louco de alegria; perguntaram ansiosamente se tudo estava bem; e, informadas de que sim, correram para dentro de casa. Estavam entorpecidas da longa e sacolejante viagem desde Whitcross, e geladas com o frígido ar noturno; mas seus rostos satisfeitos se abriram para a viva lareira. Enquanto o cocheiro e Hannah traziam as caixas para dentro, perguntaram por St. John. Nesse momento, ele avançou da sala de visitas. Deu um discreto beijo em cada uma delas, disse em voz baixa umas poucas palavras de boas-vindas, ficou algum tempo para que conversassem com ele, e depois, dizendo supor que elas logo se juntariam a ele na sala de visitas, retirou-se para lá como para um local de refúgio. Eu acendera velas para que elas subissem, mas Diana tinha 482

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primeiro de dar ordens hospitaleiras em relação ao cocheiro; feito isso, as duas me seguiram. Ficaram deliciadas com a renovação e decoração de seus quartos; com as novas cortinas e tapetes, e com os vasos de louça de belas cores; manifestaram sua satisfação sem reservas. Tive o prazer de sentir que meus arranjos combinavam exatamente com seus desejos, e que o que fizera acrescentava um vivido encanto à sua feliz volta ao lar. Adorável foi aquela noite. Minhas primas, cheias de entusiasmo, eram tão eloqüentes em suas histórias e comentários, que a fluência delas cobriu a taciturnidade de St. John; ele estava sinceramente feliz por ver as irmãs; mas não podia simpatizar com todo aquele ardor e alegria. O acontecimento do dia — isto é, o retorno de Diana e Mary — agradava-lhe; mas a seqüência desse acontecimento, o alegre tumulto, a gárrula festa da recepção, irritava-o; eu via que ele desejava a chegada do amanhã mais calmo. No meio das alegrias da noite, cerca de uma hora após o chá, ouviu-se uma batida na porta. Hannah entrou dizendo que “um pobre rapaz viera, naquela hora imprópria, buscar o Sr. Rivers para ver a mãe dele, que estava morrendo”. — Onde mora ela, Hannah? — Lá em Whitcross Brow, quase quatro milhas, e pântano c mato o caminho todo. — Diga a ele que eu vou. — Estou certa, senhor, de que era melhor não ir. É a pior estrada para se percorrer após o escurecer; não há trilha nenhuma no lamaçal. E depois, está uma noite tão feia... o vento mais cortante que já se viu. É melhor mandar dizer, senhor, que estará lá pela manhã. Mas ele já estava no corredor, pondo seu velho casaco; e sem uma objeção, um murmúrio, partiu. Eram então nove horas; não voltou até a meia-noite. Estava faminto e bastante cansado; mas parecia mais feliz do que quando partira. Realizara um ato de dever; fizera um trabalho; sentira sua própria força para agir e negar, e estava em melhores termos consigo mesmo. Receio que toda a semana seguinte tenha sido uma provação para a sua paciência. Era a semana do Natal; nós não fizemos Jane Eyre

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nada preciso, mas passamo-la numa espécie de alegre dissipação doméstica. O ar das charnecas, a liberdade do lar, a aurora de prosperidade agiram no espírito de Diana e Mary como um elixir restaurador; elas se mostravam alegres da manhã ao meio-dia, e de meio-dia à noite. Conversavam o tempo todo; e suas conversas, espirituosas, expressivas, originais, tinham tal encanto para mim, que eu preferia ouvir, e participar, a fazer qualquer outra coisa. St. John não censurava nossa animação; mas fugia dela; raramente estava em casa; sua paróquia era grande, a população dispersa, e ele encontrava ocupação diária visitando os pobres e doentes nos diferentes distritos. Certa manhã, ao desjejum, Diana, após parecer pensativa por alguns minutos, perguntou-lhe “se seus planos não tinham mudado?” — Não mudaram nem mudarão — foi a resposta. E ele passou a informar-nos de que sua partida da Inglaterra estava agora definitivamente marcada para o próximo ano. — E Rosamond Oliver? — sugeriu Mary, as palavras parecendo escapar-lhe involuntariamente dos lábios; pois assim que as externou, fez um gesto como se quisesse recapturá-las. St. John tinha um livro nas mãos — era seu rude hábito ler durante as refeições — e fechou-o e ergueu o olhar. — Rosamond Oliver — disse — está para se casar com o Sr. Granby, um dos moradores mais bem relacionados e mais estimáveis de S..., neto e herdeiro de Sir Frederic Granby; eu soube a informação pelo pai dela, ontem. As irmãs se olharam uma à outra, e a mim; e as três o olhamos; ele estava sereno como vidro. — O casamento deve ter sido arrumado às pressas — disse Diana. — Eles não podem ter-se conhecido por muito tempo. — Apenas dois meses; conheceram-se em outubro, no baile do condado em S... Mas, quando não existem obstáculos a uma união, como no presente caso; quando a ligação é desejável em todos os pontos, as demoras são desnecessárias; eles se casarão assim que S... Place, que Sir Frederic lhes presenteia, seja remodelada para recebê-los. 484

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Na primeira vez em que encontrei St. John a sós, após essa comunicação, senti-me tentada a perguntar-lhe se aquele acontecimento o angustiava; mas ele parecia precisar tão pouco de simpatia que, longe de aventurar-me a oferecer-lhe mais, experimentei um pouco de vergonha à lembrança da que já arriscara. Além disso, perdera a prática de falar com ele; sua reserva voltara a ser gélida, e minha franqueza se congelara sob ela. Ele não mantivera a promessa de tratar-me como a suas irmãs; fazia continuamente pequenas e frias distinções entre nós, o que não tendia de modo algum ao desenvolvimento da cordialidade; em suma, agora que eu era reconhecida como sua parenta e vivia sob o mesmo teto com ele, sentia que a distância entre nós era muito maior do que quando ele me conhecia apenas como a professora da aldeia. Quando me lembrava de até onde fora admitida outrora em sua confiança, mal conseguia compreender sua atual frigidez. Como este era o caso, senti-me não pouco surpresa quando ele ergueu de repente a cabeça da mesa sobre a qual se curvava, e disse: — Sabe, Jane, a batalha foi travada, e a vitória conquistada. Espantada por ver-me assim abordada, não respondi logo; mas, após um momento de hesitação, disse: — Mas tem certeza de que não está na posição daqueles vencedores cujas vitórias lhes custaram caro demais? Será que outra vitória dessas não o arruinaria? — Creio que não; e se me arruinasse, isso não teria muita importância; nunca mais serei chamado a lutar por outra. O resultado do conflito é decisivo; meu caminho está aberto agora; dou graças a Deus por isso! — E, assim dizendo, retornou aos seus papéis e ao seu silêncio. Quando a nossa mútua felicidade (isto é, de Diana, Mary e eu) se assentou num tom mais calmo, e retomamos nossos hábitos usuais e nossos estudos regulares, St. John passou a ficar mais em casa; sentava-se conosco na mesma sala, às vezes durante horas. Enquanto Mary desenhava, Diana prosseguia num curso de leitura enciclopédica que (para meu pasmo e espanto) empreendera, e eu Jane Eyre

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mourejava no alemão, ele ponderava sobre uma mística ciência própria — a de alguma língua oriental, cujo domínio julgava necessário a seus planos. Assim empenhado, parecia, sentado em seu canto, bastante quieto e absorvido; mas aqueles seus olhos azuis tinham o hábito de deixar a exótica gramática e vagar em torno, fixando-se às vezes sobre nós, suas companheiras de estudo, com uma curiosa intensidade; se surpreendidos, desviavam-se no mesmo instante; mas sempre retornavam, inquisitivamente, à nossa mesa. Eu imaginava o que significava aquilo; admirava-me também a infalível satisfação que ele nunca deixava de exibir numa ocasião que parecia de tão pouca importância, isto é, nas minhas visitas semanais à escola de Morton; e mais intrigada ainda ficava quando, se o dia era desfavorável, se nevava, ou chovia, ou ventava forte, e suas irmãs me pediam que não fosse, ele invariavelmente fazia pouco da solicitude delas e me encorajava a cumprir a tarefa sem consideração para com os elementos. — Jane não é essa fraqueza em que vocês gostariam de transformá-la — dizia. — Ela pode enfrentar uma ventania na montanha, ou um aguaceiro, ou alguns flocos de neve, tão bem quanto qualquer um de nós. A constituição dela é sadia e flexível, mais adequada para suportar variações de clima que muitas mais robustas. E quando eu voltava, às vezes um bocado cansada e não pouco descoroçoada, não ousava queixar-me, porque sabia que protestar seria causar-lhe um embaraço; em todas as ocasiões, a fortitude lhe agradava; o contrário seria um aborrecimento especial. Certa tarde, no entanto, deixaram-me ficar em casa, pois realmente tinha um resfriado. As irmãs dele tinham ido a Morton em meu lugar; eu me sentava lendo Schiller; ele, decifrando seus espinhosos manuscritos orientais. Quando eu trocava uma tradução por um exercício, olhei por acaso em sua direção; e vime sob a influência daqueles olhos azuis sempre vigilantes. Por quanto tempo eles me dissecavam, não posso dizer; eram tão penetrantes, e no entanto tão frios, que me senti no momento supersticiosa — como se estivesse sentada na sala com alguma 486

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coisa sobrenatural. — Jane, que está fazendo? — Aprendendo alemão. — Quero que você desista do alemão e aprenda hindustânico. — Não está falando sério. — Tão sério, que é preciso que seja assim; e lhe direi por quê. Passou então a explicar que o hindustânico era a língua que estudava no momento; que, ao avançar, esquecia o começo; que o ajudaria muito ter uma aluna com a qual pudesse repetir sempre os fundamentos, fixando-os assim inteiramente na memória; que sua escolha pairara por algum tempo entre mim e suas irmãs; mas que se fixara em mim porque via que eu podia me dedicar a um trabalho por mais tempo que elas. Eu lhe faria esse favor? Não teria, talvez, de fazer esse sacrifício por muito tempo, uma vez que mal faltavam agora três meses para a sua partida. St. John não era homem de ser facilmente repelido; sentia-se que cada impressão que recebia, de dor ou prazer, se gravava profunda e permanentemente nele. Consenti. Quando Diana e Mary voltaram, a primeira encontrou sua aluna transferida de si para seu irmão; ela riu, e tanto ela como Mary concordaram cm que St. John jamais as teria persuadido a dar tal passo. Ele se apressou a responder: — Eu sei disso. Achei-o um professor muito paciente, muito tolerante, mas também muito exigente; esperava que eu realizasse muito; e quando eu correspondia às suas expectativas, ele, à sua maneira, demonstrava plenamente sua aprovação. Aos poucos, foi adquirindo sobre mim uma influência que me tirou a liberdade mental; seus louvores e atenções eram mais restritivos que sua indiferença. Eu não podia mais falar ou rir livremente quando ele estava por perto, porque um instinto irritantemente importuno me lembrava de que a animação (pelo menos em mim) lhe era desagradável. Eu estava tão consciente de que só as expressões e ocupações sérias eram aceitáveis, que em sua presença todos os esforços para apresentar ou exercer outras expressões e ocupações se tornavam vãos; caí sob um gélido sortilégio. Quando ele dizia Jane Eyre

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“vá”, eu ia; “venha”, eu vinha; “faça isso”, eu fazia. Mas não amava minha servidão; muitas vezes desejei que tivesse continuado a ignorar-me. Certa noite, quando, à hora de deitar, suas irmãs e eu estávamos em torno dele, dando-lhe boa-noite, ele beijou todas, como era seu costume; e, como era igualmente seu costume, deu-me a mão. Diana, que por acaso se achava num estado de espírito brincalhão (não era demasiado controlada pela vontade dele; pois a dela, em outro sentido, era igualmente forte), exclamou: — St. John, você costuma chamar Jane de sua terceira irmã, mas não a trata como tal; devia beijá-la também. E me empurrou para ele. Achei-a muito provocadora, e me senti incomodomente confusa; e enquanto pensava e me sentia assim, St. John curvou a cabeça; com o rosto grego no mesmo nível que o meu, seus olhos me interrogaram penetrantemente — e ele me beijou. Não existem beijos de mármore ou de gelo, ou talvez eu deva dizer que a saudação de meu eclesiástico primo não pertencia a nenhuma dessas categorias; mas pode haver beijos experimentais, e aquele foi um desses. Depois, ele me olhou para ver o resultado; não foi impressionante, estou certa de que não corei; talvez tenha ficado um pouco pálida, pois senti aquele beijo como um selo afixado às minhas cadeias. Ele jamais omitiu a cerimônia depois disso, e a gravidade e aquiescência com que eu a recebia pareceu investi-la, para ele, de um certo encanto. Quanto a mim, cada dia queria agradá-lo mais; mas para fazer isso, sentia cada vez mais que tinha de negar a minha natureza, sufocar metade de minhas faculdades, tirar meus gostos de sua tendência original, obrigar-me a adotar interesses para os quais não tinha nenhuma vocação natural. Ele queria treinar-me para atingir uma altura que eu jamais poderia alcançar; torturava-me aspirar a toda hora ao padrão que ele apresentava. Aquilo era tão impossível como modelar minhas feições irregulares no seu padrão correto e clássico, dar a meus mutáveis olhos verdes a cor azul-marinho e o brilho solene dos dele. Não era só sua ascendência, porém, que me escravizava no momento. Ultimamente, tinha sido fácil para mim parecer triste; 488

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um mal corrosivo se instalara em meu coração e sorvia minha felicidade na fonte — o mal da apreensão. Talvez pense que eu esquecera o Sr. Rochester, leitor, entre essas mudanças de lugar e sorte. Nem por um momento. A idéia dele continuava comigo, porque não era nenhuma névoa que o sol pudesse dispersar, nem uma efígie traçada na areia, que as tempestades pudessem varrer; era um nome gravado em lápide, destinado a durar tanto quanto o mármore em que se inscrevia. O anseio por saber o que lhe acontecera me acompanhava por toda parte; quando estava em Morton, voltava à minha cabana toda noite para pensar nisso; e agora, em Moor House, eu procurava meu quarto toda noite para meditar sobre isso. No curso de minha necessária correspondência com o Sr. Briggs sobre o testamento, eu perguntara se ele sabia alguma coisa sobre o atual paradeiro e estado de saúde do Sr. Rochester; mas, como St. John conjeturara, ele ignorava tudo sobre o outro. Escrevi então à Sra. Fairfax, solicitando informação a esse respeito. Calculara, com certeza, que esse passo responderia ao meu anseio; estava segura de que traria alguma resposta. Fiquei surpresa quando se passou uma quinzena sem qualquer resposta; mas, quando passaram dois meses, e dia após dia o correio chegava e não trazia nada para mim, fui presa da mais aguda ansiedade. Tornei a escrever; havia uma possibilidade de minha primeira carta ter-se extraviado. À renovada esperança seguiu-se uma renovada tentativa, que brilhou como a anterior durante algumas semanas, e depois, como a outra, diminuiu, tremulou; nem uma linha, nem uma palavra me alcançou. Quando passou metade de um ano em vã expectativa, minha esperança esmoreceu, e então me senti realmente triste. Uma bela primavera resplendia à nossa volta, e eu não podia desfrutá-la. O verão se aproximava; Diana tentou animar-me; disse que eu parecia doente, e quis acompanhar-me ao litoral. St. John opôs-se a isso; disse que eu não precisava de dissipação, precisava de ocupação; minha vida atual era sem objetivo; e suponho que, para sanar essa deficiência, prolongou ainda mais as lições de hindustânico, e tornou-se mais insistente ao exigir a Jane Eyre

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sua realização; e eu, como uma tola, jamais pensei em resistir-lhe — não podia resistir-lhe. Um dia, cheguei para o estudo num estado mais abatido que o usual; o refluxo fora causado por uma decepção que eu sentira pungentemente. Hannah me dissera pela manhã que havia uma carta para mim, e quando desci para pegá-la, quase certa de que as notícias havia muito esperadas me eram concedidas encontrei apenas um bilhete sem importância do Sr. Briggs, sobre negócios. A amarga frustração me arrancara algumas lágrimas; e agora, ali sentada estudando os emaranhados caracteres e os floreados tropos de um texto indiano, meus olhos se inundaram de novo. St. John chamou-me a seu lado, para ler; ao tentar fazêlo, minha voz fraquejou; as palavras perderam-se em soluços. Ele e eu éramos os únicos ocupantes da sala de visitas; Diana praticava sua música na sala de estar, Mary fazia jardinagem — era um belíssimo dia de maio, claro, ensolarado e fresco. Meu companheiro não demonstrou surpresa com aquela emoção, nem me perguntou por sua causa; apenas disse: — Vamos esperar alguns minutos, Jane, até que você se recomponha. — E enquanto eu me apressava a superar a crise, ele se sentava calmo e paciente, curvado sobre sua mesa e parecendo um médico, olhando com o olho da ciência uma crise esperada e plenamente compreendida na doença de um paciente. Tendo sufocado meus soluços, enxugado os olhos e murmurado alguma coisa, dizendo que não me sentia bem naquela manhã, retomei minha tarefa, e consegui concluí-la. St. John guardou meus livros e os dele, fechou a mesa e disse: — Agora, Jane, você dará um passeio; e comigo. — Vou chamar Diana e Mary. — Não; quero só uma companhia esta manhã, e essa deve ser a sua. Ponha suas coisas; saia pela porta da cozinha; tome a estrada para o alto de Marsh Green: eu a alcançarei num momento. Eu não conheço meios termos; nunca cm minha vida conheci quaisquer meios termos, ao lidar com os caracteres positivos, duros, antagônicos ao meu, entre a submissão absoluta e a revolta decidida. Sempre observei fielmente um, até o momento mesmo 490

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de explodir, às vezes com vulcânica intensidade, na outra; e como nem as atuais circunstâncias justificavam, nem meu atual estado de espírito me inclinavam para o motim, observei uma cuidadosa obediência às instruções de St. John; e dentro de dez minutos estava percorrendo a agreste trilha do estreito vale, ao lado dele. O vento soprava do oeste; vinha por sobre os montes, doce com fragrâncias de urzes e juncos; o céu era de um azul imaculado; o regato que descia a ravina, engrossado com as passadas chuvas da primavera, corria ao lado abundante e límpido, captando reflexos dourados do sol, e tons safira do firma-mento. Quando avançamos e deixamos a trilha, continuamos andando sobre a relva macia, delicada como musgo e de um verde esmeralda, minusculamente salpicada por uma florzinha branca e outra amarela em forma de estrela: os morros, enquanto isso, nos cercavam de todos os lados; pois o valezinho, em sua extremidade, entrava no próprio seio deles. — Vamos descansar aqui — disse St. John, quando chegamos às primeiras rochas dispersas do batalhão que guardava uma espécie de passo, além do qual o regato se precipitava numa queda d’água; e onde, um pouco mais adiante ainda, a montanha não aceitava relva ou flor, mas apenas urzes como vestes e rochedos como enfeites — onde exagerava o agreste até o selvagem, e trocava o verdor pela escarpa — onde guardava a obstinada esperança de solidão, e de um último refúgio para o silêncio. Sentei-me; St. John ficou de pé a meu lado. Ele olhou o passo e a depressão abaixo; seu olhar vagueou com o regato, e voltou a varar o céu sem nuvens que coloria as águas; tirou o chapéu, deixou a brisa assanhar-lhe os cabelos e beijar-lhe a fronte. Parecia em comunhão com o gênio do lugar. — E eu verei isso de novo — disse em voz alta — em sonhos, quando dormir margem do Ganges; e novamente, numa hora mais remota... quando outro sono se apoderar de mim, na margem de um rio mais negro! Estranhas palavras, de um estranho amor! A paixão de um austero patriota pela sua pátria! Ele se sentou; por meia hora, não falamos; nem ele a mim, nem eu a ele; após esse intervalo, Jane Eyre

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recomeçou: — Jane, parto dentro de seis semanas; comprei passagem num navio mercante das Índias Orientais que zarpa a 20 de junho. — Deus o protegerá; pois você assumiu a obra d’Ele — respondi. — Sim — ele disse — nisso está minha glória e alegria. Sou servo de um Amo infalível. Não estou partindo sob orientação humana, sujeito às leis defeituosas e ao controle falho dos frágeis vermes meus irmãos; meu rei, meu legislador, meu capitão é o perfeitíssimo. Parece-me estranho que todos à minha volta não ardam por alistar-se sob a mesma bandeira... juntar-se na mesma empresa. — Nem todos têm os seus poderes; e seria loucura os fracos desejarem marchar com os fortes. — Não falo dos fracos, nem penso neles; dirijo-me apenas aos que são dignos da obra, e têm competência para realizá-la. — Esses são poucos, e difíceis de descobrir. — Você diz a verdade; mas, quando os descobrimos, é correto incitá-los...urgi-los e exortá-los ao esforço... mostrar-lhes os seus dons, e porque lhes foram dados... transmitir a mensagem dos Céus a seus ouvidos... oferecer-lhes, diretamente de Deus, um lugar nas fileiras de Seus escolhidos. — Se eles estiverem realmente qualificados para a tarefa, não serão seus próprios corações os primeiros a informá-los disso? Eu me sentia como se um terrível encanto se formasse em torno de mim, concentrando-se; tremia diante da possibilidade de alguma palavra fatal que revelasse e fixasse o encanto. — Que diz o seu coração? — perguntou St. John. — Meu coração está mudo... meu coração está mudo — respondi, pasmada e emocionada. — Então eu devo falar por ele — continuou a voz profunda e implacável. — Jane, venha comigo para a índia; venha como minha ajudante e companheira de trabalho. O vale e o céu giraram à minha volta, os montes cresceram! Era como se eu tivesse ouvido o chamado do Céu — como se um mensageiro visionário, como aquele da Macedônia, tivesse dito: 492

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“Vem e ajuda-nos!” Mas eu não era nenhum apóstolo — não podia contemplar o arauto — não podia receber seu chamado. — Oh, St. John! — exclamei — tenha um pouco de piedade. Apelava a alguém que, no desempenho do que acreditava ser seu dever, não conhecia piedade nem remorso. Ele continuou: — Deus e a natureza a destinaram a ser esposa de um missionário. Não foram dotes pessoais, mas mentais, os que lhe deram; você foi feita para o trabalho, não para o amor. E esposa de missionário você deve ser... e será. Será minha; reclamo-a... não para o meu prazer, mas para o serviço de meu Soberano. — Não sou capaz disso; não tenho vocação — eu disse. Ele contara com essas primeiras objeções; não se irritou com elas. Na verdade, ao recostar-se no rochedo às suas costas, cruzar os braços e fixar a expressão, vi que estava preparado para uma longa e exaustiva oposição, e reservara uma quantidade de paciência suficiente para durar até o encerramento da luta — decidido, no entanto, a que esse encerramento fosse uma vitória para ele. — A humildade, Jane — disse — é a base das virtudes cristãs: você fala certo, ao dizer que não está capacitada para o trabalho. Quem está? Ou quem, tendo um dia sendo chamado, se julgou digno do chamado? Eu, por exemplo, não passo de pó e cinzas. Como São Paulo, reconheço-me o maior dos pecadores; mas não deixo que esse senso de vileza pessoal me obceque. Conheço meu Condutor; sei que Ele é tão justo quanto poderoso; e embora tenha escolhido um frágil instrumento para realizar uma grande tarefa, Ele provera, das infinitas reservas de Sua providência, a inadequação dos meios para esse fim. Pense como eu, Jane... confie como eu. É na Rocha das Eras que lhe peço para se apoiar: não duvide de que ela suportará o peso de sua fraqueza humana. — Eu não entendo uma vida de missionário, nunca estudei os trabalhos dos missionários. — Nisso eu, humilde como sou, posso dar-lhe a ajuda que você precisa; posso estabelecer seu trabalho hora por hora; ficar sempre a seu lado; ajudá-la a todo momento. Isso eu posso fazer no início: em breve (pois conheço seus poderes), você estará tão forte e capaz quanto eu, e não precisará de minha ajuda. Jane Eyre

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— Mas meus poderes... onde estão eles para essa empresa? Não os sinto. Nada me fala ou incita enquanto você fala. Não sinto nenhuma luz se acendendo... nenhuma vida despertando... nenhuma voz aconselhando ou animando. Oh, eu desejaria poder fazê-lo ver como minha mente neste instante é como uma masmorra sem luz, com um único temor encolhido e acorrentado em suas profundezas... o temor de ser convencida por você a tentar o que não posso realizar! — Tenho uma resposta para você... ouça-a. Tenho-a observado desde que nos encontramos pela primeira vez, tenho-a feito objeto de estudo há dez meses. Testei-a nesse período com variadas provas, e que vi e provoquei? Descobri que você podia se desincumbir bem na escola da aldeia, pontualmente, honradamente, de um trabalho contrário a seus hábitos e inclinações; vi que podia realizá-lo com capacidade e tato, podia conquistar, controlando ao mesmo tempo. Na calma com que soube que se tinha tornado de repente rica, vi uma mente livre do vício de Demas... o lucro não exercia um poder indevido sobre você. Na decidida prontidão com que dividiu sua riqueza em quatro partes, guardando apenas uma para si, e abrindo mão das três outras ao reclame da justiça abstrata, reconheci uma alma que se deliciava na chama e excitação do sacrifício. Na docilidade com que, a meu pedido, abandonou um estudo no qual estava interessada, e adotou outro porque isso me interessava; na incansável constância com que desde então perseverou nele... na energia inabalável e no gênio firme com que enfrentou as dificuldades desse estudo... reconheço o complemento das qualidades que busco. Jane, você é dócil, diligente, desinteressada, fiel, constante e corajosa; muito delicada, muito heróica: deixe de desconfiar de si mesma... eu confio em você sem reservas. Como condutora de escolas indianas, e auxiliar entre as indianas, sua assistência me será inestimável. O sudário de ferro contraía-se em torno de mim; a persuasão avançava com passos lentos, seguros. Por mais que eu fechasse os olhos, essas últimas palavras dele conseguiram deixar o caminho, que parecia bloqueado, relativamente aberto. Minha obra, que parecia tão vaga, tão desesperançadamente difusa, condensava-se 494

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medida que ele prosseguia, e assumia uma forma definida sob sua mão modeladora. Ele esperava uma resposta. Pedi um quarto de hora para pensar, antes de voltar a arriscar-me a dá-la. — Com todo gosto — ele respondeu; e, levantando-se, caminhou até uma curta distância: no passo, jogou-se numa touceira de urzes e ali quedou-se quieto. “Eu posso fazer o que ele quer que eu faça, sou forçada a ver e a reconhecer isso”, eu meditava, “quer dizer, se a vida me for poupada. Mas sinto que minha existência não será longa sob o sol indiano. E então? Ele não liga para isso: quando chegar a hora de eu morrer, renunciará a mim, com toda serenidade e santidade, para o Deus que me deu. O caso é muito claro para mim. Deixando a Inglaterra, eu deixaria uma terra amada mas vazia... o Sr. Rochester não está aqui; e se estivesse, que é isso, que poderia isso ser algum dia para mim? O que me resta é viver sem ele agora, e nada é tão absurdo, tão fraco, como arrastarme de um dia para outro, como se estivesse à espera de alguma impossível mudança nas circunstâncias, que pudesse reunir-me a ele. É claro que (como disse St. John) preciso procurar outro interesse na vida para substituir aquele que perdi: não será a ocupação que ele agora me oferece realmente a mais gloriosa que o homem pode adotar ou Deus destinar? Não será, por seus nobres interesses e seus sublimes resultados, a mais adequada para preencher o vazio deixado por afetos despedaçados e esperanças destruídas? Acredito que devo dizer sim — mas tremo. Ai! Se me junto a St. John, abandono metade de mim mesma; se vou para a índia, vou para a morte prematura. E como se preencherão os intervalos entre deixar a Inglaterra pela índia, e a índia pela sepultura? Oh, eu sei bem! Também isso é muito claro à minha visão. Esforçando-me para satisfazer St. John até a exaustão, eu o satisfarei — até o ponto mais central e o mais amplo círculo de suas expectativas. Se eu for com ele — se fizer o sacrifício que me pede, o farei absolutamente, jogarei tudo no altar — coração, entranhas, a vítima toda. Ele nunca me amará; mas me aprovará; mostrarei a ele energias que ainda não viu, recursos de que jamais suspeitou. Sim, posso trabalhar tão duro quanto ele, e com tão Jane Eyre

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pouca reclamação”. “Assim, é possível aceder ao pedido dele; a não ser por um ponto — um ponto terrível. E este é — que me peça para ser sua esposa, sem me querer mais, como esposo, do que aquela rocha gigante e carrancuda sob a qual o regato espuma na garganta além. Ele me dá o valor que um soldado dá a uma boa arma, só isso. Não sendo casada com ele, isso jamais me magoaria; mas posso eu deixá-lo completar seus cálculos — pôr friamente era prática seus planos — passar pela cerimônia do casamento? Posso eu receber dele a aliança, suportar todas as formas de amor (que não duvido de que cumpriria escrupulosamente) e saber que o espírito está inteiramente ausente? Poderei suportar a consciência de que todo carinho que me fizer será um sacrifício feito por princípio? Não; um tal martírio seria monstruoso. Nunca me submeterei a isso. Como sua irmã, poderei acompanhá-lo — não como sua esposa; e é o que lhe direi.” Olhei em direção ao outeiro; lá estava ele deitado, imóvel como uma coluna prostrada; voltou o rosto para mim, os olhos faiscando, vigilantes e penetrantes. Pôs-se de pé e aproximou-se. — Estou disposta a ir para a índia, se puder ir livre. — Sua resposta exige uma explicação — ele disse. — Não é clara. — Você tem sido até agora meu irmão adotivo... e eu, sua irmã adotiva; continuemos assim; é melhor você e eu não nos casarmos. Ele balançou a cabeça. — A irmandade adotada não servirá neste caso. Se você fosse realmente minha irmã, seria diferente; eu a levaria, e não buscaria esposa. Mas do jeito que é, ou nossa união deve ser consagrada e selada pelo casamento, ou não pode existir; obstáculos práticos opõem-se a qualquer outro plano. Não está vendo, Jane? Pense um momento... seu forte senso a orientará. Eu pensei; e mesmo assim meu senso só me orientava para o fato de que nós não nos amávamos como devem se amar marido e mulher; e assim, deduzia que não nos devíamos casar. Foi o que eu disse. — St. John — disse — eu o encaro como um irmão... e você me 496

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encara como uma irmã; continuemos assim. — Não podemos... não podemos — ele respondeu, com curta e aguda determinação. — Não daria certo. Você disse que irá comigo para a índia; lembre-se... disse isso. — Com uma condição. — Bem... bem. Vamos ao ponto principal... à partida comigo da Inglaterra, à cooperação comigo em futuros trabalhos ... você não se opõe. Praticamente já pôs a mão no arado, e é demasiado coerente para retirá-la. Tem apenas uma meta a observar... como melhor realizar a tarefa que empreendeu. Simplifique seus complicados interesses, sentimentos, desejos, objetivos; funda todas as considerações num só propósito; o de cumprir efetivamente... com poder... a missão de seu grande Senhor. Para fazer isso, precisa de um coadjutor, não um irmão... isso é um laço frouxo... mas um marido. Eu, também, não quero uma irmã: uma irmã poderia um dia ser-me retirada. Quero uma esposa, a única auxiliar que poderei influenciar eficientemente na vida, e reter absolutamente até a morte. Eu tremia enquanto ele falava; sentia sua influência em minha medula — seu domínio em meus membros. — Busque outra, St. John, busque uma que lhe sirva. — Uma que sirva ao meu fim, você quer dizer... que sirva à minha vocação. Torno a dizer-lhe que não é o insignificante indivíduo privado... o mero homem, com os sentidos egoístas do homem... que quero casar; é o missionário. — E eu darei ao missionário minhas energias... é só o que ele quer... mas não a mim mesma; isso seria apenas juntar a casca à polpa. Ele não precisa dela; eu a retenho. — Você não pode... não deve. Acha que Deus se satisfará com uma doação pela metade? Que Ele aceitará um sacrifício mutilado? Ê a causa de Deus que eu defendo; é sob o estandarte d’Ele que a alisto. Não posso aceitar em nome d’Ele uma aliança dividida; tem de ser inteira. — Oh, eu darei meu coração a Deus — eu disse. — Você não precisa dele. Não vou jurar, leitor, que não houvesse algo de reprimido Jane Eyre

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sarcasmo no tom em que eu disse essa sentença, e na sensação que a acompanhou. Eu tinha temido silenciosamente St. John até então, porque não o havia compreendido. Ele me mantinha apavorada, porque me mantinha na dúvida. Quanto dele era santo, quanto mortal, eu não poderia até hoje dizer: mas faziam-se revelações naquela conferência, a análise de sua natureza se processava diante de meus olhos. Eu via suas fraquezas; compreendia-as. Entendia que, sentada ali onde me sentei, na touceira de urzes, e com aquele homem bonito à minha frente, sentava-me aos pés de um homem, falível como eu. Caiu o véu que ocultava a dureza e o despotismo dele. Tendo sentido nele a presença desses defeitos, senti sua imperfeição, e ganhei coragem. Eu estava com um igual — alguém com quem podia discutir — alguém a quem, se me aprouvesse, eu poderia resistir. Ele ficou calado depois de eu dizer a última frase, e acabei arriscando um olhar ao seu rosto. Seus olhos, voltados para mim, manifestavam ao mesmo tempo severa surpresa e aguda interrogação. “Estará ela sendo sarcástica, e sarcástica comigo!”, pareciam dizer. “Que significa isso?” — Não nos esqueçamos de que este é um assunto solene — ele disse em breve — um assunto sobre o qual não podemos pensar nem falar levianamente sem cair em pecado. Espero, Jane, que você fale sério quando diz que dará seu coração a Deus; é só o que Ele quer. Uma vez arrancado seu coração do homem, e tendo-o fixado em seu Criador, o avanço do reino espiritual desse Criador na terra será seu principal prazer e esforço; você estará disposta a fazer sem demora o que quer que favoreça essa meta. Verá que impulso será dado aos seus esforços e aos meus com sua união física e mental no casamento... a única união que dá um caráter de permanente conformidade aos destinos e desígnios dos seres humanos...e, passando por cima de todos os caprichos mesquinhos... todas as dificuldades e delicadezas triviais dos sentimentos, todos os escrúpulos sobre o grau, o tipo, a força ou ternura da simples inclinação pessoal... você correrá a lançar-se de vez nessa união. — Correrei? — eu disse simplesmente; e olhei as feições dele, belas em sua harmonia, mas estranhamente formidável em sua 498

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imóvel severidade; a testa, imperiosa, mas não aberta; os olhos, brilhantes, profundos e penetrantes, mas nunca suaves; a alta e imponente figura; e imaginei-me na idéia de sua esposa. Oh, jamais ia dar certo! Como sua coadjutora, sua camarada, tudo estaria certo; eu cruzaria os oceanos com ele nessa condição; mourejaria sob o sol oriental, em desertos asiáticos com ele, nesse ofício; admiraria e emularia sua coragem, dedicação e vigor; me acomodaria calmamente ao seu domínio; sorriria imperturbável à sua inerradicável ambição; distinguiria o cristão do homem; estimaria profundamente um e perdoaria de boa vontade o outro. Sofreria freqüentemente, sem dúvida, ligada a ele apenas nessa condição; teria o corpo sob uma canga um tanto severa, mas o coração e a mente estariam livres. Ainda teria meu eu intato a que recorrer; e meus sentimentos naturais não escravizados com que me comunicar em momentos de solidão. Haveria recessos de minha mente que seriam só meus, e aos quais ele jamais chegaria; e os sentimentos que ali nascessem, novos e protegidos, que a austeridade dele nunca poderia ferir, nem sua compassada marcha de guerreiro pisotear. Mas como sua esposa — sempre a seu lado, e sempre reprimida, sempre contida — obrigada a manter a chama de minha natureza continuamente baixa, forçála a arder intimamente, e nunca externar um grito, mesmo que a chama aprisionada consumisse uma entranha após outra — isso seria insuportável. — St. John! — exclamei, ao chegar a esse ponto em minha meditação. — Bem? — ele respondeu. — Repito que consinto livremente em ir com você como companheira missionária, mas não em ser sua esposa; não posso casar-me com você, e tornar-me parte de você. — Tem de se tornar parte de mim — ele respondeu com firmeza. — De outro modo, toda a transação é vazia. Como posso eu, um homem que não fez ainda trinta anos, levar comigo para a índia uma moça de dezenove, a menos que esteja casada comigo? Como poderemos estar para sempre juntos... às vezes em solidão, outras entre tribos selvagens... não sendo casados? Jane Eyre

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