Issuu on Google+

A r tefato

Ano 11, n. 3, setembro de 2010 Jornal-laboratório Curso de Comunicação Social Universidade Católica de Brasília www.opn.ucb.br

E se...

a UCB decidisse as eleições?

ilustração: Thiago Fagundes

Enquete inédita realizada com 981 entrevistados, entre professores, alunos e servidores da Católica, indica empate técnico entre Dilma e Marina no primeiro turno, com Serra em terceiro. A candidata do PV levaria vantagem no segundo turno

Pedofilia é assunto presente e polêmico na campanha eleitoral

Rock ou sertanejo: qual a preferência do brasiliense?

Rádio Comunitária na Estrutural traz cidadania e inclusão

Como se prevenir dos problemas causados pela seca


Artefato

Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília Ano 11, nº 3, setembro de 2010 Reitor Pe. Msc. José Romualdo Degasperi Diretor do Curso de Comunicação Social André Luís Carvalho Disciplina Produção e Edição de Impressos Editores-chefes: Lucas Madureira e Sara Mendes Projeto gráfico e diagramação: Nathália Coelho e Paulo Maximiano Fotógrafos: Andressa Gomes, Angelica Novais, Bianca Baamonde, Bruno Santana, Carolina Nogueira, Carolina Freitas, Humberta Macedo, José Eduardo, Kellen Karina, Lanier Rosa, Letícia Freire, Magno Jardel, Marcele Degaspari, Marcelo Coêlho, Maycon Fidalgo, Murilo Augusto, Nayara Machado, Patrick Saint Martin, Rick George, Roberta Sousa , Samuel Paz, Silvia Bertoldo, Thamyres Ferreira, Vitor Rachid Repórteres: Aline Baeza, Carina Lasneaux, Dandara Lima, Elaine Siqueira, Evelyn Louise, Gislene Ribeiro, Jéssica Rodrigues, Leonardo Salomão, Nathália Coelho, Sabrinna Albernaz, Samara Correia, Thandara Yung e Vinícius Rocha Editores: Edmar Araújo, Leidiany Lisley e Suzi Souza Professores responsáveis Orientação de texto: Gustavo Cunha e Karina Gomes Barbosa Orientação de fotografia: André Luís Carvalho Orientação gráfica: Felipe Neves Monitoria: Thiago Fagundes Tiragem 1.000 exemplares Universidade Católica de Brasília EPCT QS 07 lote 1 Águas Claras -DF Cep. 71966-700 Tel. 3356 9337 e-mail: artefato.jornalucb@gmail.com

2

EDITORIAL

Sondagem mostra quem a UCB elege Lucas Madureira e Sara Mendes

N

unca antes na história deste país duas mulheres tiveram chances concretas de chegar ao cargo mais alto da política, a Presidência da República. Em sondagem inédita realizada pela Universidade Católica de Brasília, as presidenciáveis Marina Silva (PV) e Dilma Rousseff (PT) saíram na frente dos demais candidatos e conquistaram a preferência dos eleitores da UCB entre alunos, professores e funcionários. Confira quem lidera essa disputa no nosso encarte especial, que apresenta ainda a corrida pelo Governo do Distrito Federal. Falando em DF, o candidato que vencer terá uma difícil missão na cidade: resolver o problema do transporte público. A superlotação do metrô brasiliense também é tema desta edição, que vai de política à cultura. O Artefato mostra, ainda, como a questão da pedofilia, um

Os sem-sombra do Areal Na região entre Taguatinga e Águas Claras, ponto de ônibus coberto é luxo inexistente. Apesar das muitas promessas do GDF, passageiros continuam reféns da meteorologia

E a nossa Copa? Enquanto o Mundial da África mobiliza milhões de torcedores e aquece o mercado de televisores, a edição de 2014, no Brasil, engatinha nas obras de transporte e do estádio  

Página 3

As eleições e o Twitter. Conheça a estratégia dos presidenciáveis Páginas 4 e 5

Dicas para escrever bem e sair em vantagem nos concursos públicos Páginas 10 e 11

Histórias de quem faz dos bailes noturnos um emprego estável Página 9

N

tema complicado para o poder público e extremamente cruel para as vítimas, está disseminado em todos os círculos sociais do país, a ponto de ser polêmico inclusive na corrida pelo Senado no DF. Tratando de assunto mais leve e prazeroso, o Artefato põe à prova o título de Brasília como capital do rock. A investigação surpreendeu nossa equipe com as respostas encontradas. Se você é um fã do rock ou do sertanejo, vale a pena conferir a matéria. A preocupação com a saúde do brasiliense é outro assunto da edição. O clima do DF nunca esteve tão seco como agora e nossos repórteres foram averiguar o motivo desse fenômeno, além de passar dicas importantes de como se prevenir de doenças causadas pela estiagem. Também fomos conhecer uma família que alterou seu cardápio e hoje tem uma alimentação mais saudável. Esperamos que aproveitem o jornal da mesma maneira que nós ao fazê-lo.

Ombudsman

Ar tefato

Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília Ano 11, n. 2, junho de 2010

Myrcia Hessen

EXPEDIENTE

ítidas mudanças revelam a evolução de um jornal que começa a romper com antigos paradigmas e caminhar, com passos largos, rumo a um modelo mais sofisticado. Ainda com alguns defeitos, comuns a quaisquer mídias com propósitos, públicos e contribuidores diferentes, a segunda edição do “novo Artefato”, em seu décimo primeiro ano, surpreendeu quem não colocava mais fé no jornal produzido por estudantes de jornalismo da UCB. Com o visual reformado, o Artefato ficou mais “leve”. As cores dão mais espaço às palavras e parecem completar cada matéria. A diagramação, repensada, colabora com o conjunto de mudanças. Contudo, é preciso tomar cuidado com a distribuição de editorias. Elas precisam seguir um ritmo para que o leitor não se perca. A primeira editoria trata de um assunto ligado ao sistema de transportes local (ao lado da UCB), a segunda parte para uma discussão política de âmbito nacional e a terceira se volta para assuntos locais e internos da universidade. As matérias estão bem escritas, com informações concisas e claras. A repor-

tagem que abre o jornal, “Ponto de ônibus de ficção”, é um retrato das demais encontradas no periódico. Bem escrita, com excelentes fontes e consegue, além de inserir o leitor naquela realidade, gerar reflexão e propor soluções. Junto a essa, a matéria sobre as obras que serão feitas para a Copa de 2014 só cometem um pecado: esquecer que esses assuntos já foram discutidos em outras edições do Artefato de formas similares. Compreendo a dificuldade de se criar um arquivo ou um sistema de buscas, mas uma medida desse tipo deve ser cogitada.

Um profissional com poucas habilidades práticas não consegue se desenvolver bem no mercado A matéria sobre trotes levantou uma discussão interessante, mas se esqueceu de que esse assunto é uma polêmica (apesar de a palavra aparecer no primeiro parágrafo) e merece que mais opiniões sejam ouvidas. Caio Bruno foi o veterano que deu mais explicações, mas o leitor que não o conhece e não sabe o seu papel de liderança na faculdade de Comunicação da UCB não consegue entender quem é ou o que faz Caio na instituição. Alunos com opiniões diversas a respeito do trote não foram ouvidos e a reportagem formou vítimas e réus. “Viciados em poeira”, “Meu escritório é o palco” e “Classifica ou elimina” são matérias completas, mesmo que alguém

Rafael Querrer

venha a criticar o formato, modelo ou a maneira como foram escritas. Não dá para não elogiar atitudes dos repórteres de buscarem fontes, conteúdo e os diversos ângulos de cada situação. Já a matéria que fecha o jornal, sobre trilhas sonoras, não convence. Traz um assunto, ao meu ver, pouco relevante perante os temas que o jornal tratou e ainda cometeu erros da edição anterior, de falta de fontes. Não há a presença de cineastas ou produtores de cinema para respaldar o que foi dito sobre as trilhas sonoras, não há nenhum dado que possa realmente comprovar a importância das trilhas. Já o Suplemento é reflexo das boas mudanças. Pautas consistentes e matérias estruturadas são constantes. As reportagens trazem o assunto Copa do Mundo para o cotidiano do leitor, não há problema com fontes ou informações. A arte, entretanto, não faz juz às mudanças. A capa contém uma montagem que poderia ser melhor trabalhada e as bandeirinhas, que acompanham cada página, tiram um pouco do brilho das matérias. Em linhas gerais, o Artefato caminha para ser diferente do que era feito, ganha o leitor e os estudantes que participam do projeto. O jornal precisa de mais tempo dentro da Faculdade de Comunicação da UCB e mais dedicação de todos. Não há como desprezar ou tratar como “simples” a produção deste jornal. O Artefato viveu um período em que quem entrava no curso nem o conhecia. A Oficina de Produção de Notícias, o Artefato, os programas de radiojornalismo, de tele e de webjornalismo merecem atenção. Já no meu fim de curso, consigo perceber que um profissional com poucas habilidades práticas não consegue se desenvolver bem no mercado.

Artefato


Magno Jardel

CIDADES

Superlotação do metrô causa transtornos Inaugurado há pouco mais de uma década, sistema enfrenta o caos que toma conta do transporte público do DF Gislene Ribeiro

Rick George

No vagão Nas plataformas de embarque, o tumulto já começou. É possível deduzir onde as portas se abrirão. Justamente nestes locais, as pessoas se agrupam na expectativa de conseguir o melhor lugar – ou mesmo entrar no trem. “Nem é preciso fazer força para entrar: a gente nem entra, os outros que vêm atrás é que ‘entram’ a gente”, brinca João Augusto Sampaio, 33, servidor público. Ir sentado não é sinal de conforto. Muitos acabam incomodados por bolsas, mochilas ou até mesmo por passageiros que se encurvam para se apoiar em algum lugar. A tortura é maior para idosos, deficientes e gestantes, que nem sempre têm seus direitos garantidos. Jovens dificilmente cedem os assentos preferenciais e fingem dormir para não dar o lugar. A grávida Laila Gomes, 23, estagiária, denuncia: “Olha o tamanho da minha barriga! É uma dificuldade enorme entrar e, quando consigo, tenho que ficar protegendo minha barriga o tempo todo, porque tem gente que empurra, bate o cotovelo, bate a bolsa”, reclama. Pontos positivos Segurança, agilidade, limpeza, regularidade na prestação dos serviços e o tempo padrão nas viagens são fatores que fazem as pessoas escolherem o metrô em vez dos ônibus ou do carro. Segundo os usuários, como a auxiliar de enfermagem Monique

Rick George

têm este tempo ainda.” Questionada sobre as reclamações dos usuários, Cecília respondeu que, em média, o índice de reclamações ao serviço prestado fica em torno de sete por dia. Isso, segundo ela, equivale a 0,1% do total de passageiros diários.

Thamyres Ferreira

E

mpurra-empurra, calor, barulho, corpo espremido nas portas dos trens. Imagens comuns a muitas grandes cidades com metrô chegaram a Brasília, na esteira de uma série histórica de problemas com o transporte público no DF. Para tentar acabar com o problema de superlotação foram comprados doze novos trens, que vão compor a frota até 2011. O metrô do Distrito Federal começou a rodar no ano de 2001 e, de lá para cá, o número de usuários quase quadriplicou, passando de 45 mil para 160 mil em 2010. A compra dos trens foi viabilizada com empréstimo do BNDES, de R$ 260 milhões. O GDF desembolsou mais R$ 65 milhões para modernizar e consertar os trens mais antigos. Em média, o tempo ideal de espera entre as partidas é de 10 minutos. No entanto, os passageiros ficam sujeitos a

Thamyres Ferreira

Magno Jardel

atrasos devido ao grande número de pessoas que embarcam nos terminais da Rodoviária do Plano Piloto e de Ceilândia. Além da superlotação e o atraso, os usuários têm outras reclamações. As principais são a frequência com que os trens quebram, quedas de energia e abafamento. “O arcondicionado para de funcionar e fica muito abafado. Já vi gente cair dura aqui, sem ar”, desabafa Rafael Peixoto, 23, estudante. A também estudante Kamila Aleixo, 26, conta que já presenciou várias vezes o metrô quebrar e até mesmo sair fumaça. Os trens que estão em atividade são, na maioria, semi-novos e não recebem manutenção adequada, o que acaba contribuindo para que se danifiquem e intensifique o problema com a superlotação. A assessora e coordenadora de Comunicação do Metrô, Cecília Brandim, confirma o problema da lotação, mas ressalta que só ocorre nos horários de pico, entre 6h30 e 9h e 17h e 19h. Ela assegura que a solução para esse problema é a aquisição de novos trens. Quanto aos problemas de funcionamento, a coordenadora descarta o uso de máquinas velhas: “Os trens fabricados para metrôs, em geral, circulam, com a devida manutenção, três ou quatro décadas de forma segura e os trens daqui não

Problema geral Metrô lotado não é problema só dos brasilienses. No dia 24 de agosto, a superlotação dos vagões na cidade do Rio de Janeiro foi destaque na imprensa. Lá, o tempo de espera é menor que em Brasília (6,5 minutos), mas em compensação, o número de usuários quase quadruplica, variando de 550 a 770 mil passageiros diariamente. Canais de comunicação Atendimento ao Usuário: (61) 3353-7373 e atendimentoaoconsumidor@metro.df.gov.br Balcão de atendimento: Estação Guará, de segunda à sexta, das 7h às 19h. Ouvidoria: (61) 3353- 7084 ouvidoria@metro.df.gov.br Moraes, 28, o metrô facilita a vida diária. A passageira, que trabalha no Núcleo Bandeirante, afirma que tinha que acordar às 5h30, se arrumar rápido para estar na parada de ônibus antes das 6h e chegar ao trabalho às 8h10. “Agora, acordo às 6h30, às 7h, estou no metrô. Acabei ganhando uma hora de sono.”


SERVIÇOS

Q

Saúde em alerta durante a seca Período que vai de maio a setembro é especialmente cruel com crianças e idosos, mas também castiga o meio ambiente Leonardo Salomão

uem mora no Distrito Federal sabe que esta época do ano é difícil de aguentar. A baixa umidade do ar é uma característica do nosso clima, sobretudo entre os meses de maio e setembro. Nos finais de tarde são registradas as horas mais secas do dia. Dessa maneira, a atenção deve ser redobrada com a saúde, principalmente com a de crianças, idosos e pessoas que já têm tendência a sofrer com doenças respiratórias. O meio ambiente também padece com as constantes queimadas. De acordo com a pediatra Rosana de Brito Pereira de Faria, o calor excessivo e a baixa umidade causam desidratação, além de favorecer todo tipo de doenças respiratórias, por isso a necessidade de se tomar alguns cuidados. “É importante dar mais atenção à saúde: tomar bastante líquido; manter a higiene doméstica, evitando o acúmulo de poeira; dormir em local úmido e arejado”, ensina. Ela também aconselha o uso de outros recursos, como o umidificador. “Se necessário, nas horas mais secas do dia. Ou toalhas molhadas ou reservatório de água nos quartos; planejar as atividades físicas para o período da manhã, sempre que possível; usar roupas leves; evitar banhos muito quentes e usar soro fisiológico nos olhos e nas narinas, além do filtro solar, que deve ser usado independentemente da época”, completa. Essas precauções são fundamentais para evitar uma série de complicações. Uma de-

las é com a pele, pois o tecido epitelial tende a ficar vulnerável a doenças alérgicas. “Sentir coceira em algumas partes do corpo é sintoma de uma pele ressecada. É indicado diminuir a quantidade de banhos, evitar o uso de sabonetes em excesso, utilizar protetor labial e creme hidrante com proteção após o banho”, recomenda a médica. As crianças e os idosos sofrem mais com a seca, principalmente por causa de doenças respiratórias. Nos hospitais e clínicas, as principais ocorrências são tosse seca, dificuldade de respirar, sangramento nasal, irritação da pele e dos olhos e sensação de cansaço e indisposição. Caroline Moura, mãe do pequeno Pedro, de dois anos, diz que está sendo muito difícil para o bebê enfrentar este período de estiagem. “É necessário fazer nebulização pelo menos duas vezes ao dia e colocar umidificador no quarto. O Pedro fica com o peito cheio, com dificuldades para respirar e acabou desenvolvendo uma bronquite por conta da poeira. Essa seca está me dando um grande trabalho”, confessa. A mãe também conta que teve problemas quando levou o filho ao Hospital Regional de Taguatinga. A criança não pôde ser atendida porque o hospital não tinha soro oral, apenas para uso venal. “Além da falta de soro, os próprios funcionários me falaram que o álcool e o antisséptico também estão em falta. Isto sem falar na demora do atendimento. É

um verdadeiro descaso com a população”, reclama Caroline. Cerrado também sofre Outra consequência muito comum nesta época do ano são as queimadas. O cerrado, vegetação típica da região, paga o preço por esse mal e, na maioria das vezes, é o ser humano o principal causador. André Barbosa, oficial do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal, explica que o acúmulo de lixo e as pontas de cigarro ainda acesas contribuem para os altos índices de incidentes. Para piorar, há outros riscos de incêndios. “Devido ao grande calor, algumas substâncias encontradas nos entulhos acabam entrando em combustão natural, provocando queimadas difíceis de serem controladas, devido à sequidão em que o cerrado se encontra”, alerta André. “A população pode e deve contribuir em caso de focos de incêndio acionando o Corpo de bombeiros pelo telefone 193.” De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o DF teve um aumento de 264% no número de queimadas em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as chuvas devem voltar a acontecer neste mês de setembro. Nesse período de seca, a umidade do ar abaixo dos 60% é considerada preocupante pela Organização Mundial de Saúde.

Oito ou 80: um período de chuva e outro de seca

Karina Soares

Além das curvas, dos belos monumentos e de um horizonte a perder de vista, o ar seco é característica marcante da capital federal. Durante meses seguidos, Brasília, como quase todo o Centro-Oeste, fica ensolarada e com índices de umidade do ar bem abaixo do recomendado. Em alguns dias, o clima pode se aproximar ao dos desertos. O regime de chuvas é muito bem definido: cerca de 1.552 milímetros, que ocorrem praticamente entre os meses de outubro e abril. O ano mais chuvoso da cidade foi 1965, quando a capital registrou impressionantes 2004,4 milímetros, aproximando Brasília a uma cidade de clima amazônico. Outro ano que provavelmente ficará na história é o de 2009, que registrou 1783,5 milímetros. Só em abril do ano passado foram registrados 375,9 milímetros, quase o triplo do normal para o mês, que tem média de 124 milímetros. Em contrapartida, o ano com a menor quantidade de chuvas foi o de 1986 e a maior estiagem registrada aconteceu em 1970, quando a cidade enfrentou longos 135 dias sem nenhuma precipitação. Artefato


A voz da Estrutural Com as dificuldades típicas de uma rádio comunitária, a FM 106,7, que funciona há oito anos, é uma das principais parceiras da comunidade para resolver problemas, prestar serviços e tocar o que os ouvintes escolhem Elaine Siqueira (texto e foto)

Brasília ainda é fraca para o espaço de rádios comunitárias. Há discriminação, mas não deveria José Paulo, um dos locutores

N

o terceiro andar de um prédio de três pavimentos da Quadra 14 da Estrutural, a música sertaneja dá o tom do início de uma típica tarde seca brasiliense. Por volta das 13h30, a locutora Elizete Aires é supreendida. O padeiro Leurismar entra no estúdio agitado, com pressa. Tinha uma informação importante e queria usar o microfone. Foi atendido. Com a voz pausada, mas sério, contou a história de uma menina de aproximados dez anos que tinha se perdido da mãe pouco antes entre as centenas de pessoas que almoçam no Restaurante Comunitário da cidade. Pedia a ajuda dos cidadãos para localizar a garota. Esse tipo de relação direta entre ouvintes e locutores é uma das características marcantes de uma rádio comunitária, como a FM 106,7, da Estrutural, que existe há oito anos com programação até as 22h. No DF, estima-se que existam de oito a dez do tipo. Com alcance limitado para não ocupar as faixas de emissoras comerciais, elas enfatizam a importância de a comuniLili em ação entre CDs e microfones: paixão pelo trabalho e espaço para os ouvintes

dade atuar na gestão da emissora. Assim, o estilo musical são os ouvintes que ajudam a definir e apoiar. No caso da Estrutural, o sertanejo, artistas independentes e músicas evangélicas dominam a programação. Os voluntários que trabalham na rádio fizeram cursos e oficinas para aprender a operar os equipamentos com o jornalista Dioclécio Luz, especialista no assunto. José Paulo e Elizete Aires, a Lili, são apaixonados pela ideia de transmitir notícias para a comunidade. Contam que a rádio não tem apoio cultural e que os equipamentos saíram do bolso deles. “Corremos atrás para pagar nossos gastos”, diz Lili. Entre os outros voluntários que dão suporte à rádio estão o advogado Gustavo Sanches – responsável por esclarecer semanalmente dúvidas jurídicas – e dentistas convidados quinzenalmente para dar dicas de higiene bucal. A Pastoral da Criança também tem atuação destacada. Parceira da rádio há seis anos, a entidade contribui com materiais complementares sobre assuntos que podem se tornar notícia. “Eles fornecem para a gente um material pronto, completo, com informações sobre saúde e alimentação, tudo incluso em CDs, para ser divulgado ao vivo”, informa

José Paulo. Os debates semanais sobre temas como gravidez precoce e drogas são mantidos para a informação e alerta da sociedade. Nesse período eleitoral, há um projeto de propor um espaço diário aos candidatos a cargos eletivos no DF. Burocracia A importância das rádios comunitárias e a democratização das mídias seriam fatores imprescindíveis para que se tornassem legais, mas o processo jurídico é longo. A rádio 106,7 FM não tem registro formal na relação de entidades aprovadas para executar o serviço de radiodifusão comunitária, conforme previsto pelo Ministério das Comunicações. Entretanto, funciona amparada por liminar judicial enquanto busca a legalização e opera com um transmissor autorizado pela Anatel. Uma vez no ar, a emissora faz campanhas para arrecadação de alimentos, publicidade, bingos, apoia festas. O fato de funcionar “sem fins lucrativos” não a impede de captar recursos para sua melhoria (equipamentos, CDs, aluguel da sala, enfim, se sustentar no ar). Alguns aspectos fazem com que a rádio se encaixe na legislação: alcance de até 1 km, um só canal, publicidade local. As rádios comunitárias não podem ser iguais às comerciais (que têm como prioridade promover o lucro dos proprietários). Segundo o Ministério das Comunicações, uma rádio comunitária deve proporcionar informação, cultura, entretenimento e lazer a pequenas comunidades. Elas nasceram para ser diferentes, para ter uma comunicação aberta e democrática na hora de passar a notícia. “Brasília ainda é fraca para o espaço de rádios comunitárias. Há discriminação, mas não deveria”, diz Paulo. Mesmo com as típicas dificuldades que envolvem o setor, a rádio comunitária da Estrutural mantém princípios e objetivos. O caso do padeiro Leurismar, contado no início do texto, teve desfecho feliz. A garota foi encontrada com a ajuda da Rádio Comunitária, episódio que ajudou a reforçar a credibilidade da emissora na Estrutural.

5


Nada se perde, tudo se transforma

D

a casca de banana, um bolo gostoso e nutritivo. Do milho verde, um saudável suco. Já pensou em usar talos de salsa e agrião para incrementar o arroz de todos os dias? Consumir partes normalmente descartadas dos alimentos ou utilizá-los de forma criativa e consciente contribui não só para a introdução de um cardápio saudável, como traz economia e reduz o desperdício. Saber como escolher, preparar e conservar os alimentos de maneira adequada foi o que incentivou a técnica em nutrição e dietética Ana Carolina Mauricio dos Santos, de 28 anos, moradora da Candangolândia, a participar do programa “Cozinha Brasil”, promovido pelo Sesi. A iniciativa tem o objetivo de ensinar à comunidade e à indústria o conceito do aproveitamento integral dos alimentos. Ana Carolina chegou ao programa a partir de uma dica de sua mãe, que sempre se interessou por cursos do gênero. Durante quatro dias, ela se dividiu em aulas práticas e teóricas. O curso é oferecido em várias instituições do DF. No caso de Ana Carolina, as atividades foram em uma instituição religiosa de mórmons. “Desde que me casei decidi comer apenas coisas saudáveis, para que quando eu tivesse filhos não sentisse dificuldades em proporcionar uma alimentação ideal

Talos, cascas, sementes: muito do que se joga fora tem grande valor nutritivo

6

A

Projeto gratuito ensina a preparar pratos com alto valor nutritivo, baixo custo e aproveitando integralmente os ingredientes Jéssica Rodrigues (texto e fotos)

Bolo econômico de chocolate Valor calórico: 276,75 Kcal Rendimento: 14 porções Tempo de preparo: 1h10min Ingredientes Leite

1 xícara (chá)

Óleo

1 xícara (chá)

Ovo

2 unidades

Farinha de trigo

Ana Carolina mostra o bolo econômico pronto: menos ingredientes, sabor preservado

para eles”, afirma. Outro ganho que ela sentiu foi incrementar o currículo. Segundo a supervisora do Cozinha Brasil, Fernanda Gomes Carvalho da Silva, mais do que reaproveitar os alimentos, o curso tenta mostrar aos alunos que é possível utilizar o alimento como um todo, inclusive talos, cascas e sementes, onde há maior concentração de nutrien-

tes. Tudo, de acordo com ela, sem alterar o sabor da receitas. Adaptações Todos os alunos saem do curso com um livro que inclui 100 receitas. Ana Carolina já testou várias e aprovou o sabor. Entre as que fez, gostou particularmente da torta vegetariana, do bolo econômico de chocolate e do suco da horta, cujos ingredientes são couve, maracujá e limão. Um ponto marcante é que os pratos tradicionais da culinária brasileira são adaptados recebendo novos ingredientes, inclusive alguns produtos regionais. Outra característica da importância da educação alimentar observada pela ex-aluna é que aproveitando os alimentos de forma integral, ela diminuiu os gastos familiares porque as receitas são elaboradas para terem baixo custo. Outro benefício é a quantidade de lixo acumulada após o preparo, que é bem menor, já que o desperdício é quase inexistente. Agora com dois filhos, Ana se orgulha em dizer que não tem problemas com a alimentação das crianças e que para eles é comum ter hábitos alimentares saudáveis e ambos aprovam as refeições preparadas pela mãe.

Quantidade

2 xícaras (chá)

Achocolatado

1 xícara (chá)

Açúcar

1 xícara (chá)

Fermento em pó

1 xícara (chá)

Preparo Bata no liquidificador o leite, o óleo e os ovos. Acrescente a farinha de trigo, o achocolatado e o açúcar e bata novamente. Por último, acrescente o fermento. Coloque em uma assadeira untada e polvilhada. Leve para assar em forno médio preaquecido. Dica Para enfeitar o bolo, pode-se optar por fazer uma calda e polvilhá-lo com açúcar ou cacau em pó. Fonte: Livro “Alimente-se bem com R$ 1”, editado pelo SESI. Julho de 2004.

De onde vem a ideia O Cozinha Brasil existe há seis anos no DF e foi criado a partir de um programa do SESI (Serviço Social da Indústria) de São Paulo chamado Alimente-se bem. A meta é atender 120 alunos por semana em uma unidade móvel equipada com todos os utensílios de uma cozinha especialmente idealizada, percorrendo as regiões administrativas do DF. A equipe da unidade móvel é composta por uma nutricionista, um auxiliar e técnicos para instalação de ponto de água esgoto e energia elétrica compatível. Para saber onde estará a unidade móvel em cada semana, consulte: Sesi-DF Tel: (61) 3362.6000 e 3462.7100 www.sesi.org.br

Artefato


Assim caminha a UCB para as urnas 28,3%

ELEIÇÕES

Intenção de votos para Dilma Rousseff no primeiro turno. Marina Silva teria 24,6%: empate técnico, levando em conta a margem de erro de quatro pontos percentuais

Após quatro dias de apuração de manhã e à noite, entrevistas realizadas e um trabalho que mobilizou dezenas de estudantes, o Artefato mapeia como pretendem votar os eleitores da Católica EXPEDIENTE Sondagem e tabulação: Caroline Coêlho, Elitânia Rocha, Evelyn Louise, Gislene Riberio, Jordana Querino, Lara Lorenna, Leonardo Salomão, Quelma Martins, Samara Correia, Suzi Sousa, Thandara Yung e Wendel Marques

40,8%

Intenção de votos para Agnelo Queiroz, candidato do PT ao GDF. Roriz, seu principal adversário, teria 15,1%

setembro 2010

Nelson Jr./ASICS/TSE

7


Uma outra mulher no Planalto Sondagem eleitoral inédita do Artefato revela em quem a UCB vota Thandara Yung para presidente e governador

S

e a decisão presidencial dependesse apenas dos alunos, professores e funcionários da Universidade Católica de Brasília (UCB), o resultado seria um pouco diferente do que apontam outras pesquisas. Após a disputa do segundo turno, a cadeira do Palácio do Planalto seria entregue à candidata Marina Silva (PV). De maneira geral, apontando as três categorias de entrevistados, entre homens e mulheres, o resultado das eleições presidenciais seria decidido apenas no dia 31 de outubro. No primeiro turno, a candidata do PT, Dilma Rousseff, está em empate técnico com a candidata verde – a petista tem 28,3%, contra 24,6% de Marina, com margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos. Mas na disputa de um eventual segundo turno entre as duas a senadora licenciada vira o jogo e chegaria a 41,4% dos votos contra os 32,3% que receberia a ex-ministra chefe da Casa Civil. O candidato tucano José Serra, que fica em terceiro entre professores e alunos e não lidera em nenhum cenário, veria seus votos irem para Marina Silva na disputa com Dilma. Serra também tem o ápice do índice de rejeição. Em seguida vem Dilma Rousseff. Dos 981 entrevistados, 32,2% não votariam no candidato tucano em hipótese alguma. Já a petista enfrenta 27,1% de rejeição do eleitorado da universidade. Esses índices mostram a força que os alunos têm em relação aos demais eleitores da UCB. Na

Ilustrações: Amaro Júnior

8

decisão presidencial, Dilma permanece com maior intenção de votos em todas as categorias, à exceção dos alunos. Os estudantes seriam decisivos no resultado das eleições, considerando que são muito mais numerosos que os outros eleitores. Muitos entrevistados escolhem Marina “porque votar na Dilma é continuar o governo Lula e votar no Serra é continuar o governo FHC”. A sondagem também ouviu de alguns eleitores que, “mesmo sabendo que o voto vai para o lixo”, escolhem a verde. Ou seja, a candidata do PV representa uma terceira via para o público da universidade. Outra decisão do ambiente universitário que bate de frente com o resultado de pesquisas realizadas pelos institutos é a de quem será o futuro governador do DF. Para 40,8% dos eleitores do campus, o candidato Agnelo Queiroz (PT) é quem deve ocupar o Palácio do Buriti a partir do dia primeiro de janeiro de 2011. Joaquim Roriz (PSC), que disputa ponto a ponto a preferência do eleitorado brasiliense em outras pesquisas, teve apenas 15,1% das intenções de voto dentro da UCB. O candidato petista ao governo do Distrito Federal é bem aceito entre alunos, professores e funcionários. No entanto, é muito alta a porcentagem de eleitores indecisos ou que votariam em branco ou nulo. A soma das duas respostas chega a 37,6%. Esses dados confirmam os comentários de alguns entrevistados durante a sondagem: “Esse ano a gente está meio sem opções para governador”. Em campo De prancheta na mão, dos dias nove a 12 de agosto, nos períodos da manhã e noite, dez integrantes da equipe do Artefato entrevistaram 981 pessoas no interior do Campus I da Universidade. O público-alvo eram alunos, professores e funcionários. As perguntas giravam em torno da escolha dos presidenciáveis; de um hipotético segundo turno entre os três com maior intenção de voto nas pesquisas – Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva; dos

candidatos à Presidência em que não votariam em hipótese alguma; e quem eram os escolhidos a futuro governador do Distrito Federal. As entrevistas foram realizadas na semana anterior ao início do horário eleitoral gratuito, que começou a ser transmitido nas rádios e canais de TV no dia 17 de agosto. A ideia do Artefato foi mostrar como pensam os eleitores da Universidade Católica de Brasília. Afinal, em época de eleição, as pesquisas eleitorais estouram; a cada semana sai um novo resultado para saber quem são os favoritos aos cargos. E mais: os candidatos pautam suas campanhas, muitas vezes, apoiados no que dizem as pesquisas. Dedicam-se à tentativa de conseguir votos nos lugares em que têm baixos índices. Os censos mostram qual é o índice de aceitação dos candidatos em determinadas regiões e grupos, e indicam onde deveriam investir. Candidatos na UCB Mantendo em foco a função das pesquisas como um guia para a campanha, no dia 23 de setembro, quinta-feira, os quatro principais candidatos estarão no auditório central da UCB, no campus de Taguatinga, às 21h30. Dilma, Serra, Marina e Plínio de Arruda Sampaio (PSol) terão a oportunidade de conferir como pensa a universidade, pautados, entre outros elementos, pela sondagem do jornal-laboratório. Vão debater temas cru-

ciais desta campanha à procura de ampliar o favoritismo e a rejeição dos adversários. A presença dos presidenciáveis será conduzida por um debate dividido em quatro blocos. Os candidatos responderão a perguntas de relevância nacional da produção do evento e de representantes da sociedade civil, além de apresentar suas propostas de governo. No último bloco, uma única pergunta será feita para os quatro. O evento será aberto a convidados dos partidos e coligações, alunos, professores, apoiadores e imprensa, todos com credenciamento prévio. Para quem não conseguir se credenciar, o debate será transmitido em telões instalados nos demais auditórios da universidade, pelo portal da UCB na internet (www.ucb.br), TVs e Rádios da inspiração Católica e pela Associação Brasileira de TVs Universitárias (ABTU).

A sondagem realizada no Campus 1 da Universidade Católica de Brasília - UCB, em Taguatinga, entre 9 e 12 de agosto, envolvendo 981 pessoas, escolhidas aleatoriamente nas entradas dos blocos, entre professores, alunos e funcionários técnico-administrativos, relativa a candidatos nas eleições do dia 3 de outubro, foi conduzida sob a responsabilidade do curso de Comunicação Social da Universidade e do Artefato, com a participação dos alunos do Curso, como parte do Projeto do Jornal-Laboratório. O jornal-laboratório é atividade que cumpre exigência, no curso, junto ao Ministério da Educação, para o exercício acadêmico dos estudantes de jornalismo. Trata-se, portanto, de levantamento de opiniões, que dependeu da participação espontânea dos entrevistados, pelo que não se classifica como pesquisa eleitoral, na forma da legislação vigente, circunstância que dispensa o registro no TSE e no TRE, tal como prevê a legislação. O Artefato se coloca à disposição do Ministério Público Eleitoral, dos candidatos e dos partidos ou coligações para apresentar todas as informações, documentos e dados relativos à sondagem/enquete.

Artefato


E

Os principais resultados obtidos

mbora tenha sido produzida sem caráter oficial, a sondagem realizada pelos alunos do Artefato levou em conta ferramentas metodológicas comuns aos institutos oficiais de pesquisa. A definição dos 981 entrevistados, a quantidade de professores (266), funcionários (321) e alunos (394) abordados, assim como os dias, horários e locais de apuração dentro do campus da UCB foram decididos com base em critérios de aleatoriedade e de cálculos amostrais. A ideia era que todos os integrantes da comunidade universitária tivessem a mesma chance de serem entrevistados. “Em toda pesquisa de opinião você tem um problema: o pesquisador não tem como entrevistar todo mundo. Então, ele tem que eleger, selecionar um g r u p o que garanta que o todo foi representado. O mais importante é que a amostra represente o todo. Para isso, é importante seguir o princípio da aleatoriedade. Quanto mais aleatória é a amostra, mais eu garanto que a resposta do grupo seja próxima do todo”, explica o sociólogo e professor universitário Rogério Gimenes. Segue abaixo um resumo dos dados consolidados da enquete, que teve margem de erro definida em quatro pontos percentuais. SONDAGEM

SONDAGEM

PESQUISA PARA O GDF

PESQUISA PRESIDENCIAL

Em %

40,8

Não sabe

20,9

Nenhum deles

16,7 15,1

Joaquim Roriz Toninho do PSol

3,1

Somente entre os professores

Não respondeu

19,5

Toninho

2,5

Somente entre os funcionários Agnelo 27,4 17,4

Nenhum deles

setembro 2010

12,1 2,2

13,9

Agnelo

40,7

Nenhum deles

18

Não sabe Roriz Toninho

17,4 16,7 3,3

José Serra

16,2 9,4

Somente entre os alunos Marina

28,7

Dilma

5,8 2,3

25,9

Serra

16

Não sabe

14,7

Nenhum deles

45,7 24,7

Nenhum 45,7 24,7

20,2 18,7 4,7

Somente entre as mulheres Marina

26,9 26,7 19,5

Serra

5,8

indice de rejeição* 32,2

Dilma

27,1 13,8 7,3

23,7

Não sabe

9,2

Marina Silva

30,5

Dilma

14,6

7,4

Dilma

Não sabe

9,2

Nenhum deles

Somente entre os funcionários

Marina

5,8

Não sabe

11,7

Serra

14,6

Serra

Não sabe

2,5

23,7 18,4

Serra

15,5

Marina Nenhum deles Sem resposta

15,1

Somente entre os homens 38

Não sabe

24,6

Nenhum deles Roriz

10,2

Roriz

41,2

Não sabe

23,4

Roriz

Agnelo

29,3

Marina

Entre Marina e Serra

Somente entre as mulheres 40,9

Nenhum deles

Dilma

30,5

Dilma

4,9

Não sabe

Somente entre os professores

Entre Marina e Dilma

Não sabe

16,4 8,8

Nenhum deles

Marina

Rogério Gimenes, sociólogo e professor universitário

7,5

Agnelo

Nenhum deles

45,9

Nenhum deles

Somente entre os alunos

Toninho

Não respondeu

18

Joaquim Roriz

Toninho

Não sabe

19,2

Não sabe

Não sabe

Dilma Nenhum deles

24,6

José Serra

Entre Serra e Dilma Serra

28,3

Marina Silva

SEGUNDO TURNO

21,4

Nenhum deles Toninho do PSol

O pesquisador não tem como entrevistar todo mundo. Então, ele tem que eleger, selecionar um grupo que garanta que o todo foi representado. Para isso, é importante seguir o princípio da aleatoriedade

44

Agnelo Não sabe

Dilma Rousseff

Em %

Geral Agnelo Queiroz

Geral

*(em quem você não votaria)

Nenhum deles

17 8,4

Somente entre os homens 29,2

Dilma

Marina

22,9

Serra Não sabe Nenhum deles

21,8 12,7 9,2

9


O que simbolizam os números Para especialistas, ampla votação de Marina na UCB indica uma permeabilidade no campus ao discurso “verde” Sara Mendes, Samara Correia, Lucas Madureira e Letícia Freire

ENTREVISTA COM

Wladimir Gramacho*

Letícia Freire

As pesquisas nacionais apontam para Dilma em primeiro e Serra em segundo, com Marina fora do páreo. Como ler essa diferença na UCB? As pesquisas dos grandes institutos falam sobre a realidade da população brasileira, que não necessariamente é a mesma encontrada no campus da UCB. Diferenças de renda e nível educacional são fatores que explicam, em parte, essa diferença de opiniões.

Uma das alunas do Artefato em ação durante a sondagem que envolveu dez recenseadores e dezenas de estudantes na tabulação dos dados

A

sondagem eleitoral realizada pelo Artefato teve resultado distinto das pesquisas realizadas em âmbito nacional. Em função disso, a reportagem procurou especialistas para explicar as razões de algumas dessas diferenças. Uma das principais divergências está no alto índice de intenção de votos para a candidata do PV, Marina Silva. Sempre citada em terceiro pelos institutos nacionais, na enquete restrita ao ambiente da UCB ela aparece à frente do candidato do PSDB, José Serra, e teria mais votos que Dilma Rousseff num hipotético segundo turno. “O bom desempenho da candidata do PV sugere o crescimento do interesse pela temática ambiental nos segmentos mais escolarizados”, avalia o cientista político Paulo Kramer. “O perfil socioeconômico da universidade deve ser avaliado, pois faz diferença. E vale lembrar que o discurso ambiental é contemporâneo e atrai a juventude. Esse dado mostra que talvez daqui a 10, 15 anos, o discurso ambiental venha a ser um dos grandes temas na sociedade”, completa o sociólogo e professor universitário Rogério Gimenes.

10

A cientista política Andrea Azevedo (UnB), que estuda a participação da mulher na política, comentou o aparente domínio feminino na sondagem da UCB, com Dilma e Marina em empate técnico no primeiro turno. “A eleição de uma mulher no contexto dessas eleições

O bom desempenho da candidata do PV sugere o crescimento do interesse pela temática ambiental nos segmentos mais escolarizados Paulo Kramer, cientista político

está ligada mais ao cenário político nacional do que a uma real mudança na mentalidade”, afirma. “Falar de participação política feminina é diferente de falar de representação política feminina. Mulheres participando da política, hoje, no Brasil, de forma competitiva, são raridades, e o quadro que temos hoje, sobretudo no que se refere à Presidência, é reflexo de uma série de eventos que não

necessariamente está ligada com um maior número de mulheres tomando parte na vida partidária”, completa. PhD em ciência política pela Universidade de Cornell, nos EUA, Sérgio Abranches comentou o elevado índice de rejeição a Serra. “A campanha deu a ele uma cara de político tradicional, que vai à televisão fazer promessas ao invés de dar um sonho, uma visão, uma perspectiva. Nem Serra nem Dilma estão conseguindo dar perspectiva”, comentou. Quanto à pesquisa referente ao GDF, a maior diferença percebida está no alto índice de rejeição a Joaquim Roriz (PSC), que em outras pesquisas aparece mais nivelado com o candidato do PT, Agnelo Queiroz. Segundo Rogério Gimenes, os problemas com a Justiça, a fraca base eleitoral do PSC, partido de Roriz, e a bandeira da distribuição de lotes parecem não encontrar apelo no público universitário. O sociólogo também achou significativo o número de indecisos. “Existe um desgaste na política do GDF. Essa indecisão dos eleitores mostra que nenhum dos grupos políticos tem de fato conotação de mudança, que é o que o eleitor espera”.

A sondagem na UCB apontou que, nesse universo restrito, Marina levaria as eleições no segundo turno. Os eleitores de Serra no primeiro turno votariam nela depois. O que explica essa migração? Serra e Marina compartilham o voto de oposição ao governo Lula. Dilma é a candidata oficial. Nesse sentido, é mais provável que o voto de Serra migre para Marina. Qual o significado da escolha de Marina como melhor candidata? A Marina oferece uma agenda pósmaterialista, centrada na pauta ambiental, um tema caro à comunidade universitária em geral e aos jovens, em particular. Nas eleições para o governo do DF, Joaquim Roriz tem pouco mais de 15% dos votos. A que fatores o senhor atribui esse resultado? Ao perfil do eleitor que encontramos na UCB, muito diferente do eleitor típico de Roriz. A porcentagem de indecisos ou de eleitores que não votariam em nenhum candidato ao GDF é grande. O que explica esse fenômeno? A indecisão neste caso não se explica pela falta de informação, mas provavelmente pela insatisfação com o perfil dos candidatos colocados. *Doutor em Ciência Política pela Universidade de Salamanca, na Espanha

Artefato


Abuso sexual sem fronteiras U

CIDADANIA

Denúncia de pedofilia na corrida eleitoral do Distrito Federal reforça a tese de que o problema ocorre em todas as instâncias da sociedade

Dandara Lima

DISQUE 100

ilustração: Thiago Fagundes

de ceber denúncias Criado para re ças al contra crian exploração sexu cia o disque-denún e adolescentes, cias n nú também de acaba recebendo de é de violência e at de outros tipos ci n as recidas. As denú pa sa de s ça n ia cr comdas aos órgãos são encaminha iço rv se 24 horas. O petentes em até ve si às 22h, inclu funciona das 8h oo a e feriados. Com an m se de s ai fin 100 diz, é só digitar próprio nome já é a A chamad no seu telefone. .sedh.gov.br) gratuita. (www

setembro 2010

ma denúncia de pedofilia envolvendo o suplente de um candidato ao Senado gerou constrangimento na corrida eleitoral brasiliense e reforçou o argumento de especialistas da área social. Eles sustentam que o problema do abuso de crianças está presente em todos os círculos da sociedade e, na maioria das vezes, as agressões ocorrem dentro da casa da vítima. Em julho, o deputado federal Rodrigo Rollemberg, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), foi visitado em seu gabinete por uma garota de 23 anos. Ela sustenta ter sido abusada por Hélio José da Silva Costa, tio dela, quando tinha entre 11 e 15 anos. Hélio lidera a Base Petista Socialista (BPS) e foi selecionado pelo PT para ocupar a suplência de Rollemberg. Diante do problema, o deputado protocolou a denúncia no PT-DF. Afirmou que aguardaria decisão do partido sobre o afastamento ou não do político. A direção petista não expulsou Hélio José. Ele afirma ser vítima de armação e conseguiu garantia no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para continuar na chapa. A assessoria de Rollemberg não quis comentar o caso. Hélio José não preferiu não se manifestar. Em entrevista ao Correio Braziliense em 18 de agosto, o presidente do PT-DF, Roberto Policarpo, afirmou que o assunto será retomado internamente: “Preciso consultar advogados e dirigentes do PT para decidir o que fazer”.

Recorrência simbólica O episódio no cenário político local é longe de ser isolado. Um estudo realizado pela Vara da Infância e de Juventude do DF, entre agosto de 2008 e abril de 2009, mostrou que 71% dos agressores e/ou pedófilos eram integrantes da família da vítima. A professora de educação infantil Carolina*, voluntária em um dos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) do DF, hoje com 31 anos, relatou os problemas que enfrentava com o pai adotivo na época em que tinha apenas cinco. Segundo ela, os abusos foram ocorrendo gradativamente e o pai usava a autoridade para convencê-la de que não havia nada de mal. “Só fui perceber que não tinha uma relação saudável com meu pai quando estava com 11 anos e uma professora achou que eu era tímida demais”, afirma. “Minha mãe acreditou em mim e expulsou meu pai de casa. Desde então, nunca mais o vi.” Segundo especialistas, o caso de Carolina é simbólico, pois, de fato, as crianças geralmente demonstram que foram vítimas de abusos com mudanças de comportamento. Carolina* só lamenta o fato de sua mãe não ter denunciado o pai. “Sempre fico pensando que, onde quer que ele esteja, pode estar fazendo a mesma coisa com outras crianças”. Vigiar e punir Para proteger as crianças e adolescentes, além do diálogo e da atenção ao comportamento delas, é necessário ter a coragem para delatar quem comete crimes. Para esse fim foi criado, em 2003, pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, o Disque 100, também conhecido como Disque-Denúncia. Levantamento promovido entre 2001 e 2007 pelo

Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac) demonstra que, dos estados brasileiros, o DF é o que mais registrou denúncias de abuso em proporção ao número de habitantes. Quem comete abuso sexual contra crianças e adolescentes é indiciado por estupro e atentado violento ao pudor. A pena varia de seis a dez anos de cadeia, dependendo das circunstâncias. Abuso x pedofilia A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a pedofilia como a ocorrência de práticas sexuais entre indivíduo maior de 16 anos com criança com menor de 13. Para a psiquiatria, ela não é propriamente uma doença, mas um distúrbio psíquico. “Pedofilia é uma patologia. Ela acontece quando o adulto tem preferência por sexo com crianças”, explica o Professor Vicente Faleiros, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) e um dos colaboradores do Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (CECRIA). “Já o abuso sexual trata-se de uma relação de poder que implica o uso da sexualidade do adulto para se aproveitar da fragilidade da criança”, completa. Em âmbito mundial, o Brasil apresenta um triste cenário. É conhecido como integrante da rota mundial de turismo sexual e está entre os quatro países com o maior volume de compartilhamento de imagens e vídeos relacionados à violência sexual contra crianças – atrás apenas de Alemanha, Espanha e Inglaterra. Exemplos tristes podem ser encontrados no livro A Lógica dos Devassos, do psicólogo clínico Ézio Fávio Bazzo. Nele é relatado, por exemplo, o que acontece com as meninas que se prostituem em regiões pobres do Brasil e do México. Por não agüentar as condições de vida, dentre elas a prática sexual com cerca de 80 a 100 homens por dia, meninos e meninas morrem e são enterradas em covas ilegais. * Nome trocado a pedido da entrevistada

11


Asilados por opção Idosos que prezam por privacidade e liberdade escolhem ficar longe da família para viver em asilos Thandara Yung

Q Fotos: Roberta Sousa

uando já se viveu muitas primaveras, a visão sobre o mundo muda: o ambiente não é mais o mesmo que se ajudou a construir. O ritmo é rápido demais para as articulações cansadas. E, muitas vezes, surge a impressão de não se encaixar na sociedade que construiu. Por esta razão, alguns asilados optam por viver em asilos, onde recebem os cuidados e a atenção que a idade avançada exige, além de terem companheiros para conversar e dividir alegrias e tristezas dos longos anos de história. O Lar dos Velhinhos Maria Madalena, no Núcleo Bandeirante, é um desses lugares que abriga idosos e dá a eles uma nova perspectiva de vida. Em 30 anos, a casa já abrigou milhares deles e com eles, suas vidas. Atualmente, 93 moram ali, 53 homens e 40 mulheres que têm muitas histórias para contar. A do seu Manuel Loiola Menezes é uma delas.

Lar Dos Velhinhos Maria Madalena - Capacidade: 100 idosos. - Moradores: 53 homens e 40 mulheres. Entre os moradores, 23 são dependentes, têm dificuldade de locomoção e precisam de cuidados especiais. - Não há mais espaço para homens na casa. Pré-requisitos para morar no asilo: Ter mais de 60 anos, não ter nenhuma doença infecto-contagiosa e nenhuma alteração psiquiátrica que possa colocar sua vida e a vida de outros pacientes em risco (personalidade violenta, esquizofrenia) Endereço: Setor de Mansões Park Way – Quadra 02 – conjunto 01 – Park Way – DF. Telefone: 3552-0504 / 3552-0872.

12

O ex-caminhoneiro não gosta que se intrometam em sua vida – e diz que nunca gostou de mandar na dos outros. Acha muito bom fazer o que quer, sem dar explicações ou pedir autorização. E essa é a maior satisfação em morar no Maria Madalena. “Minha filha, estou com a vida que pedi a Deus! Não bato um prego numa barra de sabão, tenho meu dinheirinho todo mês e sou muito bem tratado aqui dentro, tenho tudo o que preciso!”, garante. Agora, aos 90, seu Manuel afirma que a melhor coisa dos 38 anos de profissão foi a sabedoria adquirida. Conheceu muitas pessoas, culturas diferentes, pôde estar em vários lugares – um a cada semana – e até viajou para a Argentina. A única coisa que o incomoda na velhice é não poder mais dirigir o seu caminhão. No asilo, tem uma alimentação balanceada. Às terças-feiras faz sessões de fisioterapia, mas garante não precisar: “A moça diz que faz bem, né? Mas eu não preciso disso não. Histórias Reumatismo só atinge quem é velho, não O bem humorado senhor nasceu no dia pega em menino não!”, e se levanta da ca27 de janeiro de 1920. Perguntado onde, deira de balanço baixa para provar a força ele pede licença para uma brincadeira: nas pernas. A saudade da estrada é tanta “Ué, minha filha, nasci onde todo mundo que, se tivesse três desejos concedidos por nasce – na cama!”. E ri abertamente. Mas, um gênio, ele pediria para voltar aos 50 na verdade, a cidade é Acaraú, a 140 km anos, um caminhão para rodar o Brasil e de Fortaleza (CE). Casou-se aos 33 anos e estradas boas para fazer isso. teve 10 filhos: Dulce, Edna, Luís, Rita, Ieda, Nos asilos também nascem histórias de Carlos, Paulo, Socorro, Marcos e Kleber, o amor. Dona Glória Nere, 65, e seu Jorge da caçula. Pelos seus cálculos, tem 17 netos e Silva, 66, se conheceram, se apaixonaram 10 bisnetos, dois dos quais vai conhecer no e se casaram no Maria Madalena, e manfinal deste ano, quando visitar a família no têm uma relação à base de muito carinho e Espírito Santo. marcas de batom no rosto de Caminhoneiro de profissão, seu Jorge. A cerimônia aconseu Manuel já rodou por todo o Sou muito teceu no dia 8 de abril despaís. Só não conheceu o Acre. bem tratado te ano, mesmo dia em que o Há dez anos, deixou para trás aqui dentro e seu Amado Rosa – o morador os filhos no Pará e as filhas no mais velho da casa – completenho tudo Espírito Santo e veio para Bratou 107 anos de vida. Dona que preciso sília, pela quinta vez na vida, Maria Irene Gomes, 81, tem ao encontro dos cinco irmãos 30 anos de hisainda vivos – João, Elcia, Elza, tória no MaTereza e Maria. No entanto, ria Madalena, com tantas opções, decidiu ir vive ali desde morar em um asilo. Morou por a inauguração. dois anos no Bezerra de MeneMesmo com a zes, em Sobradinho, e em abril deficiência físide 2008 chegou ao Maria Maca – a senhora dalena. A decisão não agradou teve uma perna a filha mais velha, que havia amputada anos preparado um quarto especialatrás – é extremente para ele com tudo que precisava, mas mamente vaidosa, e não deixa de exibir seu Manuel manteve sua decisão. unhas bem pintadas um dia sequer.

Artefato


Bordado muda vida de Há quase 10 anos, a Associação das Bordadeiras de Taguatinga gera renda a grupo de antigas feirantes Samara Correia

Q

e pássaros do cerrado, que formariam a marca da Associação. A bordadeira enfatiza que toda parceria com o Sebrae foi gratuita e de grande importância para o sucesso da entidade. Rotina O número de bordadeiras associadas já chegou a 21. “Tínhamos até dois homens bordando. Eles eram maridos de associadas e bordavam muito bem”, disse animadamente Francilene Ferreira Reis. Porém, atualmente são 13 as associadas. Entre elas, há desde advogadas e aposentadas até mulheres que dependem exclusivamente da renda dos bordados. Todas são de Taguatinga ou cidades próximas. Além das associadas, as bordadeiras geram renda para outras famílias, já que com o sistema de terceirização, cada bordadeira tem uma equipe própria para ajudar no trabalho. “Cada associada é responsável por sua equipe. Cada uma acerta a forma de pagamento e o número de ajudantes”, disse Francilene. Dessa forma, a associação distribui renda e conhecimento, já que as terceirizadas aprendem todo processo para promover um trabalho de qualidade. O trabalho entre as bordadeiras é dividido da forma mais igualitária possível. “Sempre seguimos uma ordem, a cada pedido feito uma bordadeira é chamada. Assim, todas têm as mesmas oportunidades”, ressaltou Francilene. Essa seqüência só é quebrada

mulheres quando participam de feiras de exposição. Nelas, todas as bordadeiras enviam trabalhos que são expostos e vendidos de acordo com o gosto do público. Quem vende mais, tem maior lucro. Todas as peças são etiquetadas com o nome da bordadeira responsável para ajudar na identificação. Apesar da temática semelhante, cada costureira tem seu estilo de borda, o que diferencia todas peças que são fabricadas artesanalmente.

a Associação distribui renda e conhecimento, já que as terceirizadas aprendem todo processo para promover um trabalho de qualidade As feiras de exposição são a melhor forma de levar os produtos ao público. Francilene diz que em Brasília não são muitas as feiras e que, por conta do preço do produto, em Taguatinga, por exemplo, o volume de vendas não é tão grande. As peças são mais vendidas por e-mail e divulgadas em diversas feiras em outros estados como São Paulo e Recife.

As bordadeiras lembram com muito carinho que o trabalho delas já foi mostrado em programas como Mais Você, da Rede Globo. Além disso, a emissora encomendou almofadas da Associação para fazer parte do cenário da novela Pé na Jaca. Desde então, vez ou outra os produtos aparecem em programas da TV Globo. “Às vezes, uma das associadas liga só para avisar que uma peça nossa está passando na TV. A gente assiste só para ver nosso trabalho ali”, diz Francilene. Essa divulgação também atrai novas vendas. Durante a entrevista, a bordadeira atendeu clientes pelo telefone e mostrou as poucas peças que estavam na sede da Associação. Ela disse que grande parte da mercadoria estava chegando de uma feira de artesanato em São Paulo. Os produtos têm tecidos finos e sempre branquinhos, com bordados delicados e seguidos do nome da flor ou animal desenhado. Para quem deseja conhecer melhor o trabalho dessas mulheres basta passar pela galeria Concorde, ou entrar em contato pelo telefone (61) 3563-3710.

Humberta Macedo

uando entramos na galeria do Edifício Concorde, em Taguatinga Sul, mal imaginamos o que podemos encontrar lá dentro. A galeria é simples e todas as lojas têm portas de vidro. Uma dessas chama logo atenção. Por ela, pode-se ver diversos tecidos, linhas, tábuas de passar, máquinas de costura e uma diversidade de itens. No meio de todo esse arsenal de costura encontramos Francilene Ferreira Reis. Francilene faz parte da Associação das Bordadeiras de Taguatinga. O grupo é formado por artesãs que produzem colchas, almofadas, sachês e guardanapos que têm em comum o bordado que lembra as flores, os peixes e os pássaros do cerrado. A associação foi formada em setembro de 2001. Na época, as artesãs vendiam as criações na Feira de Artesanato de Taguatinga, que ficava próxima à Avenida das Palmeiras. Uma visita de representantes do Sebrae ao local trouxe a ideia de reunir as artesãs. Francilene lembra que algumas mulheres não aceitaram participar do projeto, mas outras abraçaram a ideia. Assim teve início a associação. Em um primeiro momento, o Sebrae capacitou as futuras bordadeiras em diversas áreas. Através do projeto Empreendedorismo Social, que, segundo o Sebrae-DF, oferece capacitação para grupos de artesãs dos segmentos de moda e decoração de ambiente, as bordadeiras tiveram apoio técnico, gerencial, assessoria em design e orientação para o associativismo. O Sebrae também proporcionou às bordadeiras o encontro com o designer Renato Imbroisi, que ajudou na pesquisa para criação de um perfil. Foi a partir desse encontro que começou um profundo estudo sobre as flores, peixes

.

ECONOMIA


CULT UR A

Capital d

Samuel Paz

Nos anos 80, o som de bandas como Legião Urbana deu a Brasília o título de capital do rock. Hoje, o coturno cedeu lugar à bota, a bandana ao chapéu e o protesto ao romantismo. Artistas, público e megaeventos colocam Brasília como um dos grandes mercados da música sertaneja no Brasil Vinícius Rocha e Edmar Araújo

Pedro Paulo, da dupla Pedro Paulo e Mateus durante show na Festa do Morango, em Brazlândia: a dupla é uma das representantes mais famosas da nova onda sertaneja

C

into fivelão, bota de bico fino, calça jeans apertada com a camisa por dentro, chapéu de couro e um copo de chope na mão. À 1h da madrugada de uma sexta-feira, no Planeta Country, às margens da Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB), o servidor público Marcelo Alcântara, 38 anos, dividia espaço com cerca de 850 pessoas que lotavam o show da dupla Roniel e Rafael. “Sou o mais velho dos sertanejos. Hoje, virou modismo. Ninguém entende nada de boi, de vaca, de fazenda, mas gosta do estilo”, comenta. Marcelo curte as baladas três vezes por semana. A cada noite, gasta de R$ 70 a R$ 100. Por mês, são mais de R$ 1.000 para manter o guarda-roupa na moda caipira.

14

A tendência que movimenta milhões de reais tomou conta do Distrito Federal. Nos últimos cinco anos, a capital do país se firmou como referência no mundo sertanejo. Quase toda região administrativa tem seu point. Mesmo boates e bares não especializados descobriram o potencial mercadológico dessa febre e reservam pelo menos um dia da semana para as duplas locais. A mão-de-obra qualificada é outra vantagem. Um exemplo disso é a dupla Rick e Rangel, que reside há sete anos em Sobradinho e faz em média 20 shows por mês nas casas de shows do DF. Inaugurada há dois anos, a Planeta Country é a mais nova das três casas sertanejas da EPNB que funcionam de terça a do-

mingo. A Roda do Chopp tem três anos e o Barril 66, seis. Em dias de bom movimento, cada uma recebe um público de 800 pessoas e chega a vender 1.500 litros de chope. Os donos calculam que, em média, o visitante gasta R$ 35 ao longo da noite. Só a entrada custa de R$ 10 a R$ 15, com a opção de pagar mais R$ 10 e ter livre acesso ao camarote. O som começa por volta das 22h e acaba depois das 4h. A Roda do Chopp e o Planeta Country, administrados pelo mesmo dono, empregam 70 pessoas, entre garçons, recepcionistas, seguranças e auxiliares de serviços gerais. O gerente Daniel Martins acredita que o mercado impulsionado pela onda sertaneja não vai parar de crescer. “Desde

que abrimos, não tivemos problemas com rendimento”, afirma. No Barril 66, o público só diminui quando a noite não é caipira. “No domingo, dia de forró, cai pela metade. Não aparecem nem 400 pessoas. Tentamos colocar MPB na terça, mas também não deu muito certo”, diz a gerente Gilmara Maciel. Quatro anos atrás, quando ainda não haviam estourado Victor e Leo, Jorge e Mateus e João Bosco e Vinícius, as turmas de dança country na academia Corpos em Par, em Taguatinga, contavam com máximo 20 alunos. Hoje são 78 inscritos — 42 iniciantes e 36 avançados. “Antes só aparecia quem gostava muito de country, era algo restrito. Hoje, podemos falar em um universo serta-

Artefato


l de quê? sília tivesse a fama de ser a capital do rock, sempre ouvi muito sertanejo desde que cheguei aqui”, relata. Rayssa conta que o gosto pelo gênero vem desde a infância e afirma que, embora não se vista como uma cowgirl, gosta muito da atual música sertaneja. “Meus avós e minha mãe ouviam muita música caipira, modão de viola mesmo. Aprendi a gostar e entendo que hoje a tendência é outra. Não me visto como uma sertaneja, mas acho que o estilo é bom. As duplas de Brasília são legais e os ingressos nas casas onde elas se apresentam são mais em conta”, acrescenta.

Domínio Desde o início dos anos 2000, o bom sertanejo encontrou terreno fértil na capital federal, que nunca negou a raiz caipira pela proximidade com Goiás. Hoje, das 10 músicas mais tocadas na Clube FM, a líder do mercado, sete são sertanejas. Há um ano, eram quatro. Todos os dias, uma nova dupla bate à porta da rádio para divulgar o O outro lado da moeda trabalho. “Tocamos sucessos e hoje os sucessos são os sertanejos. É um predomínio “Início dos anos 80. A ditadura militar já absoluto”, reconhece o gerente da rádio, não se aguentava sobre as pernas. Anistia, Arthur Luís. “É uma demanda do merca- grandes greves: o país respirava. A tradido. Sertanejo virou sinônimo de música cional família da MPB era uma réplica da jovem”, completa. própria ditadura, um bambolê sem swing”. Para o cantor sertanejo Rangel, o merca- A afirmação de Marcelo Dolabela sobre a do de Brasília possibilita que as duplas se MPB, no livro ABZ do Rock Brasileiro, pode profissionalizem e permite que mais e mais até não ser das mais precisas, mas foi dessa cantores independentes dediquem-se ex- conjuntura política e cultural que nasceu o clusivamente à música. “Embora a gente que hoje se conhece por rock brasiliense. vislumbre fazer sucesso e tocar em outros Em todo o país, o ritmo explodiu. Bandas estados, hoje o nosso sustento é quase que como Titãs e Ira! surgiram no começo da totalmente captado em Brasília”, afirma. década e ganharam fãs por todo o país. Segundo Rangel, não só Brasília deixou de Um dos grandes celeiros do gênero foi ser a capital do rock como o Brasil é todo um lugar que até então contava com pouca sertanejo. “No Nordeste, por exemplo, não tradição musical e sobre o qual a maioria são mais só forró e axé que predominam. das pessoas só ouvira falar por ser a capital Lá, como em qualquer lugar do país, quem federal: Brasília. A aridez do cerrado não se manda é o sertanejo”, enfatiza. refletiu na juventude da cidade, que foi o lar Desbancando as apresentações de pago- de nomes como Capital Inicial, Legião Urde e axé, os shows sertanejos são os que bana, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso. mais têm atraído público no DF. Não é por Mas e o hoje? Brasília continua sendo a acaso que as princicapital do rock? Pepais duplas do país dro Henrique Desirpassaram a encarar rê, promoter de inúTocamos sucessos e Brasília como um meros eventos com hoje os sucessos são importante mercado bandas de rock, afiros sertanejos e a, obrigatoriamenma que o título não Arthur Luís, gerente da Clube FM te, incluir a cidade pertence mais a Branas turnês. Um dos sília. “Um dia o títumaiores públicos da lo de capital do rock carreira de Bruno e Marrone, por exemplo, já pertenceu a nossa cidade. Se pensarmos foi em 2003, na Granja do Torto, quando em bandas que marcaram décadas, aqui se cerca de 100 mil pessoas os assistiram. Os tem as maiores, mas nós, amantes do rock, dois subiram em palcos candangos pelo infelizmente não conseguimos suportar o menos 16 vezes nos últimos oito anos. Cada nome que foi dado. Hoje existe uma mistushow custa, em média, R$ 120 mil. ra muito grande de culturas, não tem como Rayssa Campos, 21, estudante de jornalis- centralizar no rock”, sentencia. mo, diz que acompanha a noite candanga embalada pelo sertanejo. “Sou mineira e Biquini Cavadão em show na moro em Brasília desde 2001. Embora Bra40ª Corrida de Reis, em janeiro

setembro 2010

- Das 10 músicas mais tocadas na Clube FM, sete são sertanejas. Há um ano, eram quatro. - Segundo números do Ecad, das 10 músicas mais tocadas no CentroOeste, nove são sertanejas. - O compositor que mais arrecadou com a execução de músicas em shows nos últimos dois anos foi Victor Chaves, da dupla Victor e Leo. - A Casa do Cowboy, em Taguatinga, vendeu ingressos para 40 shows em 2009, o dobro em relação a 2008. O faturamento com a venda de acessórios aumentou 40%. - Só a dupla Bruno e Marrone realizou pelo menos 16 shows no DF desde 2000. Uma média de quase dois por ano. O 17º foi na 2ª edição de 2010 da Festa Agropecuária da Granja do Torto - As casas especializadas em música sertaneja recebem até 800 pessoas nas noites mais movimentadas. - Na escola de dança Corpos em Par, em Taguatinga, o número de alunos nas aulas de country quadruplicou em quatro anos.

Samuel Paz

nejo”, compara Wellington Fernandes, professor da academia. Os alunos pagam R$ 65 por mês por duas aulas semanais. Nas casas sertanejas, mostram o que aprendem e, dançando, fazem propaganda da academia.

Mundo country

15


O sonho de Dom Bosco, JK e Seu Toniquinho

PERFIL

A vida de Antônio Soares Neto parece ter começado no dia 4 de abril de 1955, quando ele entrou para a história brasileira com uma simples pergunta, que culminou, anos depois, na construção de Brasília

Fotos: Rick George

Nathália Coelho

C

almo e sem titubear, Seu Toniquinho abriu a porta do apartamento bem decorado, no Setor Oeste, em Goiânia, para a equipe do Artefato numa manhã ensolarada de sábado. Medindo pouco mais de 1,50m, o homem idoso, com sorriso nos lábios, logo perguntou se havíamos feito boa viagem. “Faço o percurso de Brasília a Goiânia desde 1956”, disse, alegre. Atualmente seu Toniquinho mora com a esposa e um neto. Conta que mudou-se para a capital goiana por causa de sua primeira filha, Marcélia, que à época estava estudando em colégio de freiras. Filho de comerciante, Antônio Soares Neto nasceu em 1926, em Jataí, interior de Goiás. Na juventude trabalhou como securitário, uma espécie de corretor. “Antigamente, eu andava atrás das pessoas,

16

batia na porta oferecendo seguro. Hoje são elas que vêm buscar as apólices”, comenta. Casou-se em dezembro de 1955, com uma moça da cidade, Anelita. Da união, nasceram Marcélia, Carlúcio, Isaías, Paulo e Rooswelt. Em 1959, tornou-se fiscal do estado. No ano seguinte, formou-se em direito pela Faculdade Anhanguera e começou a atuar também como advogado. Por essa época, a política já estava na vida de Seu Toniquinho. Ele é primo segundo de Dr. Serafim de Carvalho, um dos líderes políticos mais importantes de Jataí em meados da década de 50. Ambos faziam parte do Partido Social Democrata (PSD), mesma sigla de Juscelino Kubistchek. Entretanto, Toniquinho nunca se candidatou. “Teve uma época em que surgiu a conversa de me lançarem para prefeito. Mas Dr. Serafim me perguntou: você tem dinheiro?”, afirma, rindo. E continua: “Eu respondi que muito pouco, só para meu sustento. E acabei aceitando seu conselho, afinal eu era só um eleitor amigo dos líderes da época”, revela. Com voz firme e memória impecável, seu Toniquinho se emociona ao contar o episódio que mudou sua trajetória, que não consegue desvencilhar dos caminhos de JK. Tudo começou em 4 de abril de 1955. “Vou fazer um retrospecto para

vocês entenderem. Algumas coisas JK me contou pessoalmente.” Assim que Getúlio Vargas morreu em 1954, Café Filho assumiu a presidência do Brasil. Juscelino era Governador de Minas. Na eminência de um golpe militar, o PSD lançou, no início do ano seguinte, JK como candidato à Presidência. Seu Toniquinho recorda-se de JK contar que um dia, ao olhar para o firmamento, uma estrela do Cruzeiro do Sul falou que ele seria o próximo presidente do Brasil. “Sabemos que uma estrela não fala, né? Mas aquilo era uma força positiva que estava com ele internamente”. Por conta do golpe, JK foi aconselhado a começar sua campanha eleitoral pelo interior do país. Como no município de Jataí o diretório do PSD era forte e não tinha oposição, o candidato iniciou seus comícios na terra goiana. Na manhã daquele 4 de abril, Seu Toniquinho e outros colegas foram buscar JK no aeroporto. Por conta da chuva, realizaram o comício num galpão de uma oficina. A caçamba de um caminhão foi o palanque. Depois do discurso, Juscelino abriu para as perguntas. Em meio às lágrimas, Seu Toniquinho relembra as palavras preciosas que o levariam a ficar amigo do presidente que construiu Brasília. “Com o coração saindo pela boca, levantei o dedo e perguntei: ‘já que o senhor

Se eleito for, o senhor vai transferir a capital para o Planalto Central conforme está previsto na Carta Magna?

falou tanto em cumprir a Constituição, nós queremos saber, se eleito for, o senhor vai transferir a capital para o Planalto Central conforme está previsto na Carta Magna?’” Toniquinho explica que o questionamento surgiu porque ele estava estudando a Constituição para prestar vestibular de Direito. “A pergunta foi espontânea, não teve nada forjado. Como alguns escritores disseram por aí”, desmente. Para Seu Toniquinho, aquele momento fazia parte da “predestinação política” de JK.

Quarto de memórias Nos quadros pendurados na parede, as fotos revelavam um passado marcado por títulos de honra ao mérito, homenagens, viagens com a família, encontros políticos com líderes de estados brasileiros e fotografias com o próprio Juscelino. Ao centro do mural, a foto que narra o principal capítulo da vida de seu Toniquinho: o comício em Jataí. No meio da multidão, um círculo aponta para ele. Em cima da mesa uma pilha de documentos também carrega um pouco da história do Brasil. Cartas, reportagens, cópias de documentos e inúmeras bibliografias de Juscelino, todos com o nome de Seu Toniquinho. Dentro do guarda-roupa, livros, revistas, jornais antigos. Em meio a esse acervo histórico, o velho Antônio Soares relembra os momentos em que esteve ao lado do presidente bossanova. “Almocei com JK depois do comício, assisti a primeira missa, fui convidado para a inauguração de Brasília e de seus monumentos. Ele esteve em Jataí outras vezes, até no dia do enterro dele eu estava lá.” Mas seu Toniquinho nunca quis mudar-se para a nova capital. “Na época eu tinha meu emprego, minha casa, meu carro, uma fazendinha. Não precisava mudar de vida”, explica. O olhar de Toniquinho para suas memórias transmite a felicidade dos anos que passou. Juscelino Kubistchek foi seu grande ídolo e parece estar presente até nos mínimos detalhes. Uma memória viva para ser emanada ao seu redor. Mesmo com a idade avançada, Antônio Soares não perdeu o humor. Ao pedir que voltássemos mais tarde, solta: “Você conhece palavra de sapateiro?” E completa: “Quando as pessoas vão buscar o sapato, ele sempre fala: ‘volta amanhã!’”.

Artefato


Artefato