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Lazer,

aprendizado e

TEXTO NATÁLIA MARTINO

O Pantanal é um ótimo local para observar aves, já que muitas espécies são de fácil visualização ao longo do dia, como este grupo de colhereiros rosados com a garça ao centro

DANIEL DE GRANVILLE

preservação

A OBSERVAÇÃO DE AVES FAZ DA PRESERVAÇÃO AMBIENTAL UM BOM NEGÓCIO E O BRASIL DÁ LIÇÃO DE TURISMO SUSTENTÁVEL

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ão cinco da manhã e o grupo já está de pé. Nenhum deles está muito preocupado em usufruir das comodidades e regalias comuns a quem está de férias num hotel turístico. É cedo demais para o café da manhã e o desjejum fica por conta dos biscoitos e barras de cereal que cada um guardou no próprio quarto. Isso não os incomoda. O pequeno grupo está mais preocupado com o equipamento que carrega, como binóculos e guias de observação de pássaros, e com os primeiros raios de sol, que já começam a despontar. Essa é a melhor hora. Durante boa parte da manhã, eles se dedicarão a localizar e identificar espécies de pássaros que nunca viram, guardando o feito em seus cadernos de anotação como um pequeno e valioso tesouro.

FOTOS: DANIEL DE GRANVILLE

A PAIXÃO POR AVES DOS OBSERVADORES ESTÁ AJUDANDO A SALVAR IMPORTANTES BIOMAS NO MUNDO

Qual é o surpreendente fascínio que leva essas pessoas a atravessarem o oceano – a maioria vem dos Estados Unidos e da Europa – , se hospedarem num remoto rincão do Pantanal e se dedicarem exclusivamente a observar e reconhecer pássaros? “É como colecionar selos. O objetivo é ter muitos itens na sua coleção e, quanto mais raros, melhor”, responde Marcelo Pádua, guia de grupos de observadores de aves sediado em Cuiabá, no Mato Grosso. Existem os colecionadores que se contentam em ter um selo e os que gostam de entender a história de cada exemplar de sua coleção. “Com os observadores de aves é a mesma coisa: para alguns, a lista é mais importante que o pássaro, mas a maioria gosta de conhecer as peculiaridades das espécies que observa”, explica o guia. Para ir a campo, esses observadores se preparam meticulosamente: pesquisam as espécies existentes na região, procuram entender seus hábitos e até treinam os ouvidos para reconhecer o canto de cada uma delas. Durante a pesquisa de campo, são observadores silenciosos, vestidos com roupas camufladas e munidos de ex-

Binóculos e guias de observação de aves fazem parte do equipamento básico dos adeptos da atividade 56 HORIZONTE GEOGRÁFICO


Paraísos das aves

São 1.825 espécies de aves catalogadas pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. O número coloca o Brasil em segundo lugar no ranking de nações com a maior quantidade de espécies do mundo, atrás apenas da Colômbia, com 1.871 espécies catalogadas, e ganhou recentemente a dianteira em relação ao terceiro colocado, o Peru, com 1.804 espécies. A mudança nas posições reflete que a lista de nenhum país é definitiva, sendo que novas espécies são descobertas e outras, infelizmente, extintas. O que intriga, no entanto, é como Colômbia e Peru, com territórios tão pequenos, conseguem ter números de espécies parecidos com o do Brasil, de dimensões continentais. A resposta está na Cordilheira dos Andes. A enorme diferença de altitude leva ao surgimento de biomas distintos, que abrigam pássaros diversos, como explica Pedro Develey, da Sociedade para a Conservação de Aves do Brasil (SAVE/ Bird Life). “Em um país em que a altitude varia de zero a seis mil metros, isso faz toda a diferença”, esclarece.

O uruatu usa sua plumagem para se camuflar e é confundido com troncos pelos predadores HORIZONTE GEOGRÁFICO 57


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trema paciência para esperar o momento certo de... ver. Ao fim, podem sair sabendo ainda mais sobre a espécie – a forma como se alimenta, voa e se relaciona com os filhotes. “Quando as pessoas começam a prestar atenção nas aves, percebem sua beleza e, de repente, se especializam no assunto até se tornarem quase ornitólogos”, afirma Pedro Develey, da Sociedade para a Conservação de Aves do Brasil (Save/Bird Life).

O local, batizado de Reserva Guainumbi, abriga uma pousada voltada exclusivamente para esse tipo de turismo há dois anos. “No Brasil ainda existe a crença de que natureza só gera dinheiro se for destruída. A observação de aves é uma boa maneira de mostrar que não é verdade”, diz, indicando a atividade como uma ótima alternativa para as unidades de conservação. Para que todo o potencial dessa atividade seja explorado no Brasil, porém, há alguns obstáculos a serem superados. O principal talvez seja a estrutura oferecida a esse tipo de atividade. “A maioria dos parques dificulta muito a nossa vida. Para começar, abrem às 8 horas da manhã. É muito tarde!”, diz o guia Marcelo Pádua, explicando que o melhor horário para a observação na maioria dos biomas é entre 6 e 8 da manhã. Além disso, não há torres nas regiões mais procuradas, o que não permite a contemplação de aves acima das copas das árvores. Por esse motivo, os estrangeiros que querem observar aves amazônicas preferem muitas vezes ir ao Peru, que, apesar de ter uma área menor desse bioma, conta com melhor infraestrutura.

CRISTALINO JUNGLE LODGE

Militância preservacionista

A harpia é uma das maiores e mais belas aves brasileiras

E é essa paixão que está ajudando a salvar importantes biomas no mundo. Segundo Develey, algumas pessoas se envolvem de tal forma com a atividade que acabam transformado-se em militantes. É o caso, por exemplo, de turistas estrangeiros que vêm observar aves no Brasil e, encantados, acabam doando dinheiro para a preservação de espécies e da região, afinal, uma ave só pode sobreviver se seu habitat estiver de pé. Quando falamos de militância, o veterinário e ambientalista João Marcelo da Costa é um exemplo retumbante. Há cinco anos, ele comprou uma área de 56 hectares de Mata Atlântica, dos quais 15 estão sendo reflorestados. E, sob a égide de uma Reserva Particular de Patrimônio Nacional (RPPN), está executando um projeto de manejo da área financiado com recursos obtidos do turismo de observação de aves.

Brasil das aves

CRISTALINO JUNGLE LODGE

O colorido do aracari pode ser observado na Amazônia

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Por outro lado, já começam a existir bons exemplos. Um deles é o Cristalino Jungle Lodge, situado próximo à cidade de Alta Floresta, no norte do Mato Grosso. Voltado para o mercado internacional e com uma torre de 50 metros de altura, construída especificamente para a observação de aves, o Cristalino surgiu em uma das primeiras RPPN do Brasil e o ecoturismo, principalmente a observação de aves, é desenvolvido no local desde 1992. O grande número de aves endêmicas (que não existem em outros lugares) no Brasil abre mercado para que esse exemplo seja replicado em todo território nacional, fazendo da manutenção dos biomas uma vantagem econômica, já que pode significar geração de rendas para os moradores dos locais preservados. E todos os biomas nacionais, cada um com sua peculiaridade, podem ser campos férteis para o desenvolvimento da atividade. No Pantanal, por exemplo, os observadores de aves iniciantes encontrarão a escola perfeita, já que há muitas espécies de fácil visualização. O cerrado, por sua vez, é o ambiente dos mais experientes, com muitas espécies, porém de difícil visualização. O fato é que o Brasil tem uma ornitofauna tão rica que não é preciso ir longe de casa para se tornar um obervador de aves. “Para desenvolver a atividade, basta gostar de pássaros e observá-los,


Macho de picapau-louro observa filhote no ninho

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Os primeiros passos

A curiosidade do homem em relação à natureza é antiga, mas a maneira como ela se manifesta mudou de forma significativa ao longo dos séculos. “Antes, amar a natureza significava ter a natureza. As pessoas caçavam e prendiam as aves para que elas enfeitassem suas casas”, diz o veterinário João Marcelo da Costa. Foi só no início do século 20 que essa relação começou a se tornar mais contemplativa e a conservação ambiental passou a fazer parte do dia a dia de alguns grupos sociais, principalmente nos países desenvolvidos. As primeiras expedições organizadas com o intuito de observar aves aconteceram no início do século 20 e saíram do Reino Unido em direção ao próprio continente europeu e ao norte da África. Nos Estados Unidos, as primeiras viagens organizadas com esse fim foram na década de 1940 e eram realizadas dentro do país. Com o aumento das viagens aéreas nas décadas de 1950-60, a atividade ganhou impulso e na década de 1970 foram organizadas as primeiras viagens internacionais nos Estados Unidos para a prática do birdwatching. Também foi nessa época que a atividade começou a nascer no Brasil com a criação de alguns clubes de observadores de aves. Muitos desses clubes ainda existem e estão ativos até hoje.


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QUALQUER UM PODE DESENVOLVER A ATIVIDADE: BASTA OBSERVAR AS AVES SOLTAS, MESMO QUE DA JANELA DE CASA nem que seja da sua janela”, diz Guto Carvalho, idealizador do Avistar, maior encontro de observadores de aves da América Latina. Para Carvalho, o mercado brasileiro de observação de aves é subestimado porque acredita-se que para realizar a atividade seja necessário embarcar em viagens longas e caras. “Não é isso. Qualquer um que tenha o hábito de observar pássaros ao redor da sua casa, desde que as espécies não estejam presas, é um praticante dessa atividade”, diz. Mesmo para os que quiserem se especializar, não é preciso muito. Em geral, o equipamento consiste em um par de binóculos ou uma câmera fotográfica e um guia, para identificar as aves. Outros equipamentos podem tornar a atividade ainda mais interessante – como, por exemplo, aqueles que imitam a vocalização dos pássaros – e há até sites pelos quais é possível baixar arquivos com o canto

Fauna à venda

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Um mercado que movimenta entre US$ 10 e US$ 20 bilhões por ano. É o terceiro maior comércio ilegal do mundo – atrás apenas dos tráficos de drogas e de armas. A comercialização de animais silvestres é proibida no Brasil pela Lei de Crimes Ambientais, de 1998 – com exceção apenas para os animais que tenham nascido em cativeiros aprovados pelo Ibama. Segundo estatísticas de 2002 do Ibama, cerca de 82% dos animais resgatados desse mercado ilegal no Brasil são aves. E a lógica é cruel: quanto mais raro o animal, mais caro ele será vendido. Ou seja, animais em extinção são os preferidos dos traficantes.

Bando de príncipes-negros alimenta-se no pantanal 60 HORIZONTE GEOGRÁFICO

de pássaros específicos, como o www.xeno-canto. org. Alguns adeptos da atividade também utilizam luneta e tripé para aumentar o alcance da visão. Independentemente de o observador desenvolver a atividade olhando pela janela de casa ou viajando quilômetros para encontrar pássaros raros, ele pode contribuir para a disseminação de conhecimento e, consequentemente, para o planejamento de ações de preservação. Prova disso é o site wikiaves.com.br, uma referência dentro desse universo.

Disseminação de informações Criado em 2008 pelo analista de sistema Reinaldo Guedes, a comunidade virtual permite a publicação de fotos de pássaros e a troca de informações sobre as várias espécies. Ao incluir uma nova foto, o usuário não precisa, por exemplo, colocar a espécie, ele pode deixar que os membros o ajudem nessa tarefa. E Guedes informa que, às vezes, quando, por exemplo, os usuários ficam em dúvida entre duas espécies, a discussão fica quase científica, com a análise das características de cada uma. Mesmo com pouca divulgação, o site já conta hoje com quatro mil membros, provenientes de todos os estados brasileiros, sinal do crescente interesse pela atividade. São desde ornitólogos e biólogos até gente sem nenhuma especialização na área, com intenções puramente diletantes. Foi lá que o observador de aves Osmar Borges publicou o registro do pássaro anambé-de-whitely, feito pela primeira vez no Brasil por ele no Parque Nacional do Monte Roraima, localizado bem na fronteira do Brasil com a Guiana e a Venezuela. Outro bom exemplo de disseminação de informações a partir da atividade vem de Santa Catarina. Em 2002, foi fundado na região de Blumenau o Clube de Observação de Aves do Vale Europeu (Coave) com o objetivo de promover a atividade como lazer para a população local. Hoje, o clube está mais voltado para a educação ambiental, segundo o seu presidente Maicon Mohr. Além de palestras e seminários nas escolas, o Coave tem feito eleições para escolher as aves símbolos das cidades da região. No município de Indaial, a saíra-de-sete-cores foi eleita por meio de votação na internet e em urnas distribuídas pela cidade – 30% da população foi envolvida. Conhecimento associado a lazer, uma união que, para o bem do meio ambiente, tem atraído um enorme grupo de pessoas em todo o mundo. Enorme mesmo. Segundo pesquisa realizada em 2001 nos Estados Unidos, 46 milhões de america-


nos se dedicam a alguma forma de observação de aves, o suficiente para movimentar quase US$ 32 bilhões anualmente com a atividade, que envolve desde a compra de equipamentos e guias turísticos até hospedagem e viagens a lugares distantes como o Pantanal brasileiro. A pesquisa também mostra que, desse total, 18 milhões de “birders” (nome dado nos EUA aos observadores de aves) viajam para praticar a atividade – uma boa perspectiva para o Brasil, país com o segundo maior número de espécies de aves no mundo (veja quadro da página 55) e, portanto, candidato natural para os planos de viagem dos birders. Um mercado promissor que alia economia a preservação ambiental, transforma turistas em guardas florestais e faz de investimentos na natureza um bom negócio. “O observador frequenta parques, faz levantamento das aves. Se um pássaro desaparece, se é descoberta uma nova espécie ou, ainda, se um lugar está degradado, isso logo vira notícia”, explica Carvalho, do Avistar. “Trata-se de um trabalho constante de fiscalização, de busca de conhecimento. E conhecimento é sempre transformador”, completa.

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CRISTALINO JUNGLE LODGE

Com uma torre de 50 metros, o Cristalino Jungle Lodge se tornou uma referência para os observadores de aves estrangeiros que vêm ao Brasil (acima). Clubes de observação de aves organizam com frequência saídas de campo para a realização da atividade (abaixo)

Saiba mais no guia de campo Aves do Brasil – Pantanal & Cerrado. Lançamento da Editora Horizonte, 336 páginas, mais de 1.000 ilustrações, à venda no site www.horizontegeografico.com.br

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