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Entrevista

Membro do Conselho Internacional do FSC, instituição que oferece o selo florestal mais respeitado do mundo, e presidente de uma das maiores empresas florestais do Brasil, Roberto Waack protesta: “O brasileiro é informado, mas, quando vai comprar madeira, se esquece de tudo” murillo contanstino/horizinte

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reconhecimento do trabalho do biólogo Roberto Waack foi coroado em 2008 com sua eleição para presidente do Conselho Internacional do FSC (Forest Stewardship Council). A ONG estabelece padrões rigorosos de exploração sustentável de madeira e certifica empresas que seguem seus preceitos em mais de 50 países do mundo. Seu mandato acabou em dezembro de 2010, mas o trabalho de Waack com exploração sustentável de florestas vai além da FSC, instituição da qual permanece como membro do Conselho Internacional. Presidente da empresa florestal Amata, Waack comanda atividades de plantio de espécies exóticas, como o eucalipto, de manejo de florestas nativas e de reflorestamento em áreas da Amazônia com fins de futura exploração econômica. Sob a sua liderança estão quase 50% das atividades de manejo na Floresta Nacional Jamari (RO), primeira terra pública concedida para essa atividade (saiba mais sobre a concessão na página 47). Em entrevista concedida a Natália Martino, Waack falou sobre as vitórias e os obstáculos a serem ainda vencidos pelo país até que se torne um líder em desenvolvimento sustentável.

O que determina a sustentabilidade de uma exploração florestal? O conceito é, em síntese, conhecer a floresta, separar as áreas que devem ser mantidas intocadas das que podem ser exploradas e, nessas últimas, trabalhar de forma que não haja su-

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E como fazer para que toda a exploração de florestas seja sustentável? Além do domínio dessa tecnologia de produção que falei, é preciso conscientizar o consumidor e disponibilizar madeira legal no mercado. Em relação à conscientização do consumidor, em que estágio estamos? No Brasil, vivemos uma situação esquizofrênica. O brasileiro é informado sobre o assunto, já que nos últimos anos o tema entrou na pauta da grande mídia. Quando vai comprar madeira, porém, ele se esquece de tudo. São duas posturas diferentes diante do mesmo fato. A informação foi nosso primeiro passo. O próximo é elaborar esse processo do ponto de vista educacional e, depois, disponibilizar produtos legais no mercado. Não há disponibilidade suficiente de madeira legal? Esse é o maior gargalo. A situação fundiária da Amazônia é tão complicada que a extensão da atividade madeireira no Brasil vai depender da utilização de terras públicas para manejo. É onde entra o novo modelo de concessão de florestas. Essa é a alternativa para que florestas com titulação adequada entrem no mercado como fontes de madeira. E como o consumidor reconhece uma madeira legal? Ele tem de ter confiança no local em que compra e procurar selos do tipo FSC. É o selo que faz esse trabalho para o consumidor, já que ele não tem como ir atrás de nota fiscal e fazer a rastreabilidade do que está comprando.

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“Precisamos sufocar a ilegalidade”

perexploração de nenhuma espécie. Esse tipo de atividade faz com que a floresta tenha valor econômico e é esse o incentivo para ela não ser convertida para outra atividade, como agricultura ou pecuária. Então, a sustentabilidade tem um aspecto ambiental e outro econômico. Há ainda um terceiro elemento, a questão social. Qualquer floresta tem uma relação com a existência humana muito forte, seja porque abriga povos indígenas, seja pela relação com as comunidades que vivem em seu entorno.

O selo do FSC é um dos mais aceitos mundialmente, mas esse sucesso não se repete na certificação de outros setores. Por quê? Eu acabo de chegar da Malásia, onde aconteceu a Assembleia-Geral do FSC, que ocorre a cada três anos. Ali estavam 500 pessoas do mundo inteiro, as grandes ONGs, os atores do mercado florestal, todos reunidos para definir as regras do jogo para os próximos três anos. Esse é o diferencial: as regras do FSC são oriundas de um amplo debate com a sociedade. Esse processo de governança é um sistema extremamente importante no mundo da certificação. Para o consumidor final, isso não é transparente, ele não sabe o que está por trás dos selos e a proliferação de certificações por todos os lados o confunde. Então, se antes o problema era diferenciar produtos bons e ruins, agora a discussão também abrange selos bons e ruins. Para garantir a legitimidade, é preciso investigar quem está por trás das certificações e, nesse sentido, o papel da mídia é fundamental.

Roberto Waack (à direita) e Gilmar Bertoloti, diretor de operações da Amata, na primeira floresta pública com exploração sustentável da madeira

O novo modelo de concessão de florestas públicas para manejo é a alternativa para que florestas com titulação adequada entrem no mercado como fontes de madeira Horizonte Geográfico

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Medição de circunferência do tronco em espécime da Floresta Nacional Jamari

Já é possível avaliar o impacto do selo FSC no mercado florestal? Foram muitas frentes de impacto. Na área social, as evidências dos benefícios do ponto de vista de condições de trabalho, distribuição de renda, inclusão social e valorização de culturas indígenas são bastante fortes. Na área ambiental, os impactos são mais simples de serem medidos. O volume de florestas protegidas ou preservadas graças às operações certificadas é grande. No Brasil, por exemplo, por muito tempo praticamente só se explorava o mogno. As empresas certificadas abriram mercado para mais de 40 espécies nos últimos anos e, no lugar de acabarmos com o mogno, passamos a explorar de forma mais equilibrada outras espécies. Existem dados sobre a porcentagem de certificação da exploração madeireira no mundo? Estimamos que no Brasil seja menos de 5%, mas em outros lugares os números são bem maiores. Na Polônia, por exemplo, chegamos a cerca de 95% de florestas certificadas. Na Suécia, o índice está acima de 50%. Na bacia do Congo (África), estamos entre 20% e 30%. Infelizmente, o Brasil está muito atrás nisso. Para mudar esse quadro, repito, precisamos disponibilizar áreas. A titulação de terras é o ponto central no Brasil.

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Apesar de todas essas dificuldades, conseguimos reduzir a presença de madeira ilegal no mercado brasileiro de 90% para 30% nos últimos anos. A que devemos essa vitória? Sem dúvida ao monitoramento e ao controle. Esse trabalho teve origem nas ações da Marina Silva, no início do governo Lula, quando ela era ministra do Meio Ambiente. Foi quando o policiamento das estradas começou a ser colocado em prática de maneira enfática. Outras razões são a tecnologia de imagens de satélite e as compras públicas. O governo é o grande comprador de madeira; se ele só aceita o produto legal, sufoca a ilegalidade. É isso mesmo que precisamos fazer: sufocar a ilegalidade por meio de monitoramento, controle e poder de compra. Qual é o papel do Brasil no cenário mundial da sustentabilidade? Eu não vejo nenhum outro país no mundo com condições de assumir uma liderança nesse novo modelo de desenvolvimento sustentável que o planeta demanda. Nós temos áreas suficientes e tecnologias adequadas. Por outro lado, não estamos sendo capazes de conduzir de forma adequada as discussões sobre o assunto, o que ficou evidente com a votação do Código Florestal, na qual entramos em um combate da produção com a preservação, um dilema falso, que é ruim para o país. Pode ser que o Brasil não assuma essa liderança, apesar do potencial do país? Às vezes tenho duvidas. O que vem do âmbito político é muito ruim. Por outro lado, o que vem da sociedade organizada brasileira é bom. A resposta à sua pergunta depende, então, do quanto a sociedade vai conseguir influenciar o ambiente político. A verdade é que não temos sido eficientes nesse sentido. Como exemplo, a questão da corrupção. Não aceitamos, todo mundo fica horrorizado, mas não conseguimos mudar; pelo contrário, reafirmamos o sistema da corrupção o tempo inteiro. Então a questão é se a gente vai conseguir, na discussão da sustentabilidade, mudar essa forma de pressionar o ambiente político.


Entrevista - Roberto Waak