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ZERO HORA SÁBADO, 5 DE ABRIL DE 2014

Nesta ou naquela goleira Diogo Olivier diogo.olivier@zerohora.com.br

A

contecerá em algum canto do novo Beira-Rio. Hoje. O pai apontará para a goleira e lembrará de tudo como se fosse ontem. O filho saberá, então, que ali, por onde agora avançam as folhas metálicas da cobertura arrojada e futurista, existia um incrível placar eletrônico com um não menos incrível relógio de ponteiros da Casa Masson. O avô se intrometerá no assunto e tomará a palavra. Em tempos de celulares que se conectam com a Nasa, um relógio digital não impressionará o neto, sentado ali ao lado. São sábios, os avôs. Há muitas histórias a contar. Figueroa. Um chileno de cabelos que esvoaçavam a cada carrinho. Deslizava pela grama e se erguia lá adiante com a bola dominada, confiante como devem ser os capitães, altivo como todo líder, um movimento contínuo, suave feito o voo do condor. Chegou a Porto Alegre em 1971, declamando Pablo Neruda e dando cotovelaços em Pinochet nas rodas intelectuais da Província de São Pedro. Naqueles anos, nossa

terrível ditadura entrava na sua fase mais sombria, torturando vidas e ceifando sonhos. Ainda haveríamos de vencê-la. Era 1975. Chamavam-no Dom Elias Figueroa. Ele saltou no infinito após o sinal, a meia arregaçada de Valdomiro na hora da cobrança de falta, melhor que um escanteio. Lá estava: o raio de sol iluminando o cabeceio de Figueroa. O Beira-Rio explodia em júbilo por um grande título pela primeira vez. Caía o magnífico Cruzeiro de Raul, Nelinho, Palhinha e Joãozinho. Ali, naquela mesma goleira, insistirá o pai. Muito mais aconteceu, antes e depois. O gol inaugural de Claudiomiro em 1969, a tabela mágica de Falcão e Escurinho em 1976, o tri nacional invicto em 1979, as Libertadores, Recopas e Sul-Americana no milênio novo, a festa do Mundial com Clemer e Fernandão cantando de microfone e camisa vermelha na mão. No meio disso tudo, outras alegrias. E tristezas também, que só a lágrima oferece a dimensão exata do sorriso. Mas tudo se deu nesta ou naquela goleira.

Os próximos capítulos serão contados a partir de hoje, às margens do mesmo Guaíba, quem sabe o carro da família estacionado na mesma vaga da mesma rua. Talvez parte da família esteja sentada no mesmo lugar, trocando só o concreto duro pelas cadeiras padrão Fifa. E o relógio de ponteiros pelos telões gigantes de Full HD, é claro. Quantos clubes podem se dar ao luxo de inaugurar o mesmo estádio duas vezes em grande estilo, como se eles fossem diferentes sem o serem, embora quem entre neste novo Beira-Rio tenha a sensação de estar saindo do térreo para uma cobertura de luxo, tal a impressionante revolução que a festa deste sábado exibirá para o mundo? O neto há de confirmar, no YouTube, como foi o Gol Iluminado, aumentando a admiração pela descrição fantástica do avô. E atento ao pai: “Foi bem ali, ó”. Eles voltarão para viver o presente, revisitar mais histórias do passado e preparar o futuro do Inter com orgulho redobrado. Este é o grande charme do Beira-Rio que ressurge neste 5 de abril de 2014. É um estádio que já nasce com alma.

Carlos Macedo,bd, 26/02/2014

Edição: Natália Leal - natalia.leal@zerohora.com.br

Projeto gráfico: Bruna Bulegon- bruna.bulegon@zerohora.com.br


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