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Ano 1 - nº1 - 2014. Distribuição gratuita. Proibida a venda completa e parcial.

ENTREVISTA: Vinagre fala sobre o cenário bauruense

Saiba como funcionam as LEIS DE INCENTIVO

MUDANÇAS nas

POLÍTICAS PÚBLICAS

A valorização da Cultura no Brasil


Reitor Julio Cezar Durigan Diretor da FAAC Nilson Ghirardello Coordenador do Curso de Jornalismo Francisco Rolfsen Belda Chefe do Departamento de Comunicação Social Juarez Tadeu de Paula Xavier Professores Orientadores Mauro de Souza Ventura Tássia Caroline Zanini Francisco Rolfsen Belda Endereço Departamento de Comunicação Social. Av. Eng. Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01 Vargem Limpa, BauruSP/(14)3103-6000 Ramal: 6063

Bauru, cultura, Camaleão! Cultura, um assunto tão falado, tão exigido, mas tão pouco conhecido em sua essência. Pede-se por opções diversificadas de cultura mas, na maioria das vezes, desconhece-se o que se passa por trás desse setor. Com a intenção de desmistificar a cultura, a Camaleão traz nas próximas páginas diversas explicações e histórias – muito prazerosas de se ler – sobre a cultura em Bauru e região e as políticas públicas que permeiam sua existência. Cineclubes, leis de incentivo, faça você mesmo, coletivos culturais, religião, resenhas, ensaio fotográfico... são apenas alguns dos assuntos que você vai encontrar aqui. E para compreender tudo o que for dito, trazemos um Glossário com as palavras-chave dessa edição especial.

Editorial + Expediente

Revista produzida pelos alunos do 6º termo do curso de Comunicação Social: Jornalismo, do período noturno da UNESP. Cinthia Quadrado Gabriel Cortez Guilherme Henrique Jayme Rosica Jéssica Sumida Maitê Borges Natália Dário Solon Neto Vinicius Vermiglio Colaboração Rafael Valério (logo) João Macedo (charge) Dennis de Oliveira (artigo)

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Boa leitura!

3 Capa - Foto: Jayme Rosica Produção gráfica: Alexandre Sueishi


Índice

Índice Glossário 8 Leis de incentivo à cultura 19 Camaleão entrevista: Vinagre 27 Cultura aos olhos da mídia 34 A revolução nas políticas culturais 50 A Tropicália do século XXI 61 Mar Vermelho 63 Artigo: Culturas das classes subalternas

Índice

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6 O lado B do cinema 15 Do It Yourself! 22 Deus é brasileiro? 32 A voz e a vez da periferia 42 Ensaio Fotográfico 56 Chico bento bauruense 62 Saída pela loja de presentes 64 5

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Glossário CONTRACULTURA - Surgida nos Estados Unidos na década de 1960, a contracultura pode ser entendida como um movimento de contestação de caráter social e cultural. Em sua conceituação mais ampla, cultura remete à idéia de uma forma que caracteriza o modo de vida de uma comunidade em seu aspecto global, totalizante. Num sentido mais estrito, como anota Raymond Williams, cultura designa o processo de cultivo da mente, nos termos de uma terminologia moderna e cientificista, ou do espírito, para adotar um ângulo mais tradicional.

arte produzida era dirigida somente àquele sistema. Já nos Estados Unidos, Adorno vê o sistema da indústria cultural de forma “enrustida” principalmente no entretenimento, e é através do cinema, por exemplo, que a indústria cultural se faz presente e nos apresenta uma comunicação de massa.

MinC - O Ministério da Cultura é um órgão da administraINDÚSTRIA CULTURAL - ção pública federal Indústria cultural, é um termo direta que tem como áreconcebido pelos teóricos da as de competência a política escola de Frankfurt, Theodor nacional de cultura e a proteAdorno e Max Horkheimer. As ção do patrimônio histórico e reflexões acerca desse tema cultural. Por meio das metas surgiram a partir de uma “cul- do Plano Nacional da Cultura, tura industrializada” vista no o MinC trabalha a concepção período do nazismo, pois toda de cultura articulada em três 6

dimensões: simbólica, cidadã e econômica. A dimensão simbólica aborda o aspecto da cultura que considera que todos os seres humanos têm a capacidade de criar símbolos que se expressam em práticas culturais diversas como idiomas, costumes, culinária, modos de vestir, crenças, criações tecnológicas e arquitetônicas, e também nas linguagens artísticas: teatro, música, artes visuais, dança, literatura, circo, etc.

POLÍTICA CULTURAL - pode ser entendida como um conjunto de iniciativas e medidas de apoio institucional sistemático desenvolvido pela administração pública ou instituições civis, grupos comunitários e empresas privadas na perspectiva de orientar o reconhecimento, a proteção e o estímulo ao desenvolvimento

simbólico material e imaterial de uma determinada sociedade ou grupo social. Em uma ação do poder público, uma política cultural se traduz por operações, princípios e procedimentos administrativos e orçamentários com características de instruções e diretrizes, tanto de ação direta quanto de fomento, assim como de meios regulatórios apropriados ao setor - normas jurídicas que regem as relações entre os sujeitos e os objetos culturais - em modelos e rearranjos ideológicos e econômicos com vistas à conservação de patrimônio e a democratização da cultura. PONTO DE CULTURA - Programa que promove o estímulo às iniciativas culturais da sociedade civil já existentes, por meio da consecução de convênios celebrados após a realização de chamada pública. A prioridade do programa são os convênios com governos estaduais e municipais para fomento e conformação de redes de pontos de cultura em seus territórios. 7


José Augusto Vinagre/Arquivo

O Lado B do Cinema

Cineclubes se apresentam como alternativas às salas comerciais, mas apoio público ainda é insuficiente

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O

s ponteiros do relógio se aproximavam do meiodia, em uma quinta-feira de muito calor em Bauru, quando três estudantes de jornalismo chegaram à porta de um dos shoppings da cidade. Com uma câmera na mão e uma pergunta “no gatilho”, os jovens “dispara-

Gabriel Cortez e Jayme Rosica

ram”, inúmeras vezes, uma única questão: “bom dia, você sabe o que é um cineclube?”. A pergunta parecia, de fato, “atingir” os entrevistados, apesar do tom de abordagem simpático dos rapazes. Uma senhora arriscou: “cineclube é diversão, é alegria!”, mas, com um sorriso envergo-

nhado, não completou a frase. Desnorteado, um garoto devolveu, respondendo com outra pegunta: “é um clube de cinema?”. De forma geral, as pessoas se calaram, se desculparam, ou sorriram por não saberem a resposta exata. Não que isso seja algum demérito, afinal, “os cineclubes perderam espaço desde que os filmes foram para a internet, as locadoras e as salas de cinema modernas”, garante o professor Arlindo Rebbechi Júnior, do Departamento de Ciências Humanas da FAAC (Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação), da UNESP/Bauru. Arlindo pesquisa o cinema moderno brasileiro e coordena o Ciclo Unesp de Cinema, um projeto de exibição e análise de filmes, que funciona como cineclube e é aberto aos universitários e à comunidade bauruense.

lista de Cineclubes. Desde 2004, ele coordena o Cineclube Aldire Pereira Guedes e explica que, de maneira geral, “um cineclube é uma associação de pessoas da sociedade civil que se juntam com o objetivo de desenvolver a formação cultural do público e garantir o acesso de determinada comunidade a uma produção cinematográfica não comercial, sendo, normalmente, entidades sem fins lucrativos”.

“O cineclubismo merece uma política pública própria, assim como a leitura já tem sua política pública”

Mas, afinal, o que é um cineclube?

Arlindo Rebecchi Pesquisador

José Augusto Vinagre, produtor cultural e ex-secretário de cultura de Bauru, é um dos entusiastas da prática e já foi presidente da Federação Pau-

O provável primeiro caso documentado de organização de um cineclube – com estatutos, sessões com debates e produção de filmes – é o do Cinéma du Peuple (Cinema do

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“‘Não existe uma política pública específica para o cineclubismo. O que existe são políticas públicas na área de cultura que acabam chegando aos cineclubes”

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resceram, como o primeiro cineclube da Unesp e o ArtSet Cineclube, ambos independentes. Entretanto, foram inciativas de pouca duração. “Esse período, dos anos noventa até a metade dos anos 2000, marcou a história do cineclubismo em Bauru como um período de retração”, complementa Vinagre. Hoje, a realidade dos cineclubes locais é um pouco melhor, mas continua difícil. Problemas para comprar equipamentos, ter acesso aos filmes e encontrar pessoas interessadas são constantes, bem como a falta de políticas públicas adequadas.

Cine Extinção

No centro da cidade, no andar superior de uma loja de discos, livros e roupas, funciona todo sábado a noite o Cine Extinção, um cineclube voltado para a cultura e a cinematografia “underground”. A loja Extinção Discos abriJosé Augusto Vinagre Produtor Cultural ga o cineclube desde maio de 2011, explica Aran Carriel, o Já nos anos noventa, outras curador do Cine Extinção: “é iniciativas de cineclubismo flo- uma sala pequena, com capa-

Marcelo Cabala

Povo), organização criada por militantes e simpatizantes anarquistas em Paris, em meados de 1913. Em Bauru, a história dos cineclubes começou nos anos 50, com o Fotocineclube, uma entidade que durou três anos e, depois, voltou a funcionar, com o nome Cineclube de Bauru. “Foi um cineclube muito tradicional, faziam exibições em universidades e faculdades, na época”, conta Vinagre. O Cineclube de Bauru funcionou com atividade ininterrupta até o final dos anos 80.

Reprodução do filme Sleeper, 1973, do diretor Wood Allen, no Cine Extinção

cidade pra quinze pessoas, em média. E foi meio que adaptada pra fazer o cineclube. A gente coloca puffs no chão, sofás, tudo recebido por meio de doação”. A proposta de Alan é exibir filmes excluídos do padrão comercial das grandes salas de cinema tradicionais. “O enfoque maior é em produções alternativas, voltado mais para o lado artístico e menos comercial. Coisas que você normalmente não vê no circuito

tradicional de cinema”, ressalta. Apesar dos filmes pertencerem a um nicho mais específico, o público do Cine Extinção varia bastante, dependendo do filme a ser exibido e até de outros eventos organizados pela Extinção Discos que sejam simultâneos às sessões. O incentivo de políticas públicas é inexistente. O Cine Extinção já contou com o suporte de alguns colaboradores, no

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Marcelo Cabala

Projetor, notebook e telão: jovens assistem ao documentário “LoudQUIETloud”, que conta a história da banda norte-americana Pixies

entanto, nenhum diretamente ligado ao governo. “Já tivemos ajuda do coletivo Enxame, aqui de Bauru, por um tempo, e agora temos suporte de uma loja de informática com relação a equipamentos(...). Mas, política pública para o cineclube, nunca teve não”, conta o curador.

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iniciativa é sustentada por voluntários do CEAC (Centro Espírita Amor e Caridade - Bauru SP) e tem como objetivo “divulgar a cultura através da arte do cinema”, como explica Luís Antônio de Mello, um dos coordenadores do projeto. De caráter cult, as obras escolhidas por Luís Antônio são de diversas épocas e nacionaAmor e Luz lidades, mas “sempre apreO Cineclube Amor e Luz é sentam alguma mensagem outro grupo que movimenta cultural e de elevação intea vida cultural bauruense. A rior”, lembra ele, com o sorriso

no rosto de quem havia acabado de encerrar mais uma sessão, com três assíduos presentes: Dona Jaíza (61), Seu João Carlos (72) e Dona Mirtes (65). Desde 2007, data de sua fundação, o Cineclube Amor e Luz já exibiu mais de trezentos filmes diferentes. As projeções são semanais, sempre no mesmo horário, e ocorrem no auditório do CEAC. As peças em exibição não são necessariamente espíritas e a entrada é gratuita. Assim como na maior parte dos cineclubes da cidade, não existe o apoio de políticas públicas. “O CEAC nos fornece o espaço para fazer as sessões, mas a aparelhagem mesmo, projetor, tela e filmes, é toda particular”, lembra Luís Antônio.

Ciclo Unesp

A primeira edição do Ciclo Unesp de Cinema, coordenado pelo professor Arlindo Rebbechi Júnior, ocorreu entre os meses de março e junho de 2013, com encontros semanais, no próprio campus da universidade. Na ocasião, o tema debatido foi “A constru-

ção do olhar dentro do cinema”. A ideia de montar um cineclube na universidade surgiu em conversas do professor com seus alunos, que reclamavam da falta espaço para a difusão e o debate de filmes alternativos na cidade. “E, também, surgiu olhando um pouco para as salas de cinema de Bauru. Há uma demanda desse tipo de evento cultural. Não tem uma sala de cinema com exibições diárias ou semanais de filmes que não estejam nesse circuito blockbuster e que sejam alternativos, antigos, ou de fora do eixo comercial. A nossa proposta é formar este público para discutir, analisar e criticar o que é a linguagem cinematográfica”, reforça. O professor destaca que o cineclubismo é importante porque forma um público privilegiado e leva o espectador a assistir o filme não só de maneira inocente e pelo entretenimento. “Ele quer discutir o filme de maneira crítica, quer debater a partir de outras cinematografias e de outras linguagens. O cineclubismo tem esse papel na sociedade, de formar

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públicos que sejam capazes de neclube em sua forma tradiciover o cinema como um objeto ar- nal, enquanto uma associação tístico, cultural e crítico”, aponta. de pessoas sem fins lucrativos, visando basicamente a questão da exibição”. Ele afirma que o O apoio público ideal seria criar uma política Hoje, o cinelcubismo se pública para garantir a criação apoia em políticas que não de cineclubes, como se fosse lhe são inicialmente dedica- uma incubadora. “Existem hoje das. “Na verdade, não existe cineclubistas antigos, não só uma política pública específi- em Bauru como no estado todo, ca para o cineclubismo. O que que poderiam dar esse suporte existe são políticas públicas inicial para que comunidades na área de cultura que acabam e, principalmente, grupos de chegando aos cineclubes, com a pessoas da periferia, pudessem doação de equipamentos e até se organizar de forma local e mesmo de recursos, como é o começar uma programação. caso do programa dos Pontos Hoje o acesso à mídia e ao equide Cultura, do Ministério da pamento é muito mais fácil”. Arlindo concorda com ViCultura”, explica José Augusto nagre e acredita que o cineVinagre. Ele ressalta que “apesar de não ser uma política clubismo merece uma política voltada especificamente para pública própria, assim como a questão cineclubista, os ci- a leitura já tem sua política neclubes acabam conseguindo pública. Para ele, o Estado se empoderar desses benefícios deve incorporar essa discuse garantir uma programação são, incentivar e patrocinar o com maior estrutura, melho- cineclubismo, não só na unires equipamentos e, até mes- versidade, mas também fora mo, recursos para se manter”. dela: “Bauru não incentiva os Vinagre acredita que deve- cineclubes. A prefeitura deria haver uma política pública veria pensar mais nisso como específica para os cineclubes, forma de produção de cultura “até mesmo para garantir o ci- e de reflexão crítica”, finaliza.

Leis de incentivo à Cultura Como funcionam e quais os entraves da Lei Rouanet

E

m 23 de dezembro de 2013, a Lei nº 8.313/91, que posteriormente ficou conhecida como Lei Rouanet, completou 22 anos. Depois de ser promulgada pelo ex-Presidente Fernando Collor de Melo, a lei, que recebe o nome do então secretário da pasta, Sérgio Paulo Rouanet, foi recepcionada como um avanço no setor cultural do Brasil, já que ela seria a principal forma de financiamento da cultura brasileira. Oriundo da Lei Rouanet, surgiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), que é formado por três mecanismos: o Incentivo Fiscal (Mecenato), o Fundo Nacional de Cultura (FNC) e o Fundo de Investimento Cultural Artístico (Ficart). Seu objetivo é arrecadar recursos para estimular a produção e a disseminação de bens cul-

Cinthia Quadrado e Guilherme Henrique

turais, além de preservar os patrimônios materiais e imateriais e de incentivar a pluralidade da cultura nacional. Os recursos são provenientes do investimento feito por pessoas físicas e jurídicas que usam uma porcentagem do seu Imposto de Renda (IR) em ações culturais aprovadas pelo Ministério da Cultura (MinC). No incentivo fiscal, pessoas físicas e jurídicas podem investir parte do seu Imposto de Renda, com isenções em até 100% do valor do IR, em ações culturais. De acordo com Chico Maia, Secretário de Agricultura em Bauru e consultor na captação de recursos nessa área “a pessoa jurídica pode investir até 4% do Imposto de Renda, enquanto a pessoa física pode investir até 6%. Em ambos os casos, o investidor deve 15


Reprodução/Facebook

Chico Maia, consultor e Secretário da Agricultura.

verno demora aproximadamente 120 dias. O primeiro passo é a pessoa, física ou jurídica, estar cadastrada no Salic Web, site no qual ele poderá ter acesso a todas as fases de desenvolvimento de projeto e busca pelas possíveis empresas investidoras. Depois disso, a pessoa pode entrar em uma área chamada 16

Incentivo Fiscal para apresentar seu projeto à Comissão Nacional de Incentivo à Cultura. Segundo Chico Maia, “a partir do momento em que o projeto é aprovado, ele é publicado no Diário Oficial da União e o responsável pelo projeto está apto para captar os recursos”. Assim, o projeto tem três anos para fazer a captação. No momento em que se atinge 20% da captação, os recursos podem ser usados. Depois do desenvolvimento do projeto, “a pessoa deve prestar contas com notas, recibos, autorizações e materiais que forem produzidos” afirma Chico Maia. Então, o Ministério da Cultura pode aprovar essa prestação de contas e o indivíduo continuará com a oportunidade de apresentar novos projetos ao Ministério. “Quanto mais completo for o projeto, mais rápida e fácil será a análise feita no momento final pelo Ministério da Cultura”, alerta Chico Maia.

A Lei Rouanet em Bauru

Alguns projetos culturais locais conseguem usufruir dos recursos provenientes dessa lei. Uma dessas iniciativas é o Nutriamigos, que visa incentivar uma alimentação saudável em

crianças através de desenhos animados, músicas e material impresso. Coordenado pela nutricionista Suzana Franciscato, o projeto já conseguiu arrecadar junto a empresas quase todo o valor de R$1.163.790,00 ao qual foi autorizado, o que possibilitou a produção de cinco episódios de 11 minutos cada, além de confecção e distribuição de material didático para 3 mil escolas públicas. Suzana conta que sem os recursos levantados via Lei Rouanet, o Nutriamigos não teria tamanha abrangência: “o incentivo da Lei Rouanet foi decisivo para a atualização do Programa Nutriamigos em desenho animado com uma linguagem direta para as crianças”. A nutricionista afirma que a principal dificuldade foi na hora de buscar a verba junto às empresas. “O MinC tem critérios muito bem definidos e tivemos que atender a todas as exigências legais. Mas a grande dificuldade é conseguir os patrocínios, porque a verba destinada é uma parte do que seria recolhido para o Imposto de Renda e num ano de baixo crescimento econômico nem todas as empresas geram lucro”, disse a idealizadora do Nutriamigos.

Embora o projeto de Suzana tenha sido bem sucedido na captação de recursos, isso não

Reprodução/Facebook

depositar o valor desejado para o patrocínio na conta bancária do projeto, que é aberta e supervisionada pelo MinC, até o último dia útil do ano corrente”. Em 2012, foram incentivados três mil projetos com um total de captação de R$ 1,2 bilhão em dedução fiscal. O processo feito pelas pessoas interessadas em ter seus projetos financiados pelo Go-

Suzana Franciscato, idealizadora do Nutriamigos.

é comum em cidades fora dos grandes centros, como Bauru. Muito do fato de poucos projetos conseguirem acessar esses recursos se deve, segundo Chico Maia, a desinformação de quem coordena projetos dos tramites que cercam o incentivo governamental, para ele “essa informação está num nível muito elitizado. Você percebe que as pessoas que acessam esses recursos são aquelas que sempre tiveram acesso às informações”. Isso faz com que os recursos fiquem concentrados em projetos que, em teoria, teriam viabilidade comercial para se manter. Em agosto de 2013, os renomados estilistas Pedro Lourenço, 17


Alexandre Herchcovitch e Ro- esse não é o ponto central. Ela é naldo Fraga foram autorizados a elitista, por que as pessoas que captar recursos para a elaboração tem mais acesso à informação se de três desfiles, sendo dois deles apropriam e vão atrás para obter no exterior. Lourenço abocanhou recursos”, comenta. Chico defende R$ 2,8 milhões, Herchcovitch que haja uma maior capacitação R$ 2,4 milhões e Fraga R$ 2 mi- para que mais interessados poslhões. A reação foi instantânea. sam participar. Diversos setores questionaram a Atualmente, o projeto de lei alocação de recursos para a alta- 6722/2010 tramita no Congresso -costura. O prine caso seja apro“Ela é elitista, vado, instituirá o cipal argumento residiu no fato de Programa Naciopor que as esses desfiles se nal de Fomento e voltarem a fins pessoas que tem Incentivo à cultuexclusivamente mais acesso à ra (Procultura). comerciais. O Outro projeto de informação se MinC, por sua lei, o 1139/2007, vez, se defendeu. apropriam e vão tem como intuito “O Brasil luta há descentralizar para muito tempo atrás para obter além do sudeste a para se introdistribuição de rerecursos”. duzir e ter uma cursos, incentivar a Chico Maia imagem forte na produção de artisSecretário da Agricultura moda internaciotas negros e elevar nal. Essa oportunidade tem como a porcentagem permitida de reconsequência o incremento das núncia fiscal aos incentivadores confecções e gera empregos”, jus- culturais. O projeto que cria o tificou a ministra da pasta Marta Procultura segue seu processo Suplicy. A polêmica envolvendo os de tramitação e desde agosto estilistas suscita a dúvida de uma aguarda audiência pública. Já o suposta concentração de recursos PL1139/2007 foi aprovado em e elitização da Lei Roaunet. dezembro passado pela Comissão Chico Maia concorda com a de Finanças e tributação da Câmatese de que a lei é elitista, mas com ra dos Deputados e agora segue ressalvas. “Quem tem mais acesso para a Comissão de Constituição à informação se apropria. Mas, e Justiça e Cidadania. 18

O que é essa tática e como ela interfere na vida dos seus praticantes

Do N It Yourself!

Natália Dário

ascido nos anos 50 na Inglaterra do pós-guerra, o conceito de Do It Yourself (DIY) indica qualquer atividade feita pela própria pessoa interessada, sem a contratação de profissionais. No momento em que surgiu, estava ligado a uma maneira de acelerar o progresso, e foi só nos anos 70 que passou a ser associado à contracultura, como protesto contra o modelo capitalista representado pela indústria, pregando que todos são capazes de produzir o que consomem. O seu efeito, porém, foi além do esperado: estimulou o espírito inovador da população ganhando espaço ao redor do mundo. Na cidade de Bauru, há vários exemplos de profissionais que trabalham segundo essa filosofia. Luis Paulo Domingues, 19


integrante da banda Universo Elegante conta que se interessou pela ideia do Faça Você Mesmo por não encontrar outras opções de como desenvolver o seu trabalho: “com os músicos das bandas que eu toquei aqui em Bauru não dava para contar, pois o pessoal costuma manter várias bandas ao mesmo tempo e não botar fé em um trabalho específico. Ou seja, se eu quisesse mesmo desenvolver o trabalho que eu já fazia aqui, precisaria fazer por mim mesmo”, comenta. Já Aran Carriel, integrante da banda Autoboneco e do empório contracultural Extinção Discos, Cinema e Artigos Culturais, explica que começou a trabalhar com o DIY para ter o máximo de autonomia fazendo o que gosta: “aliar trabalho, consciência e diversão e compartilhar com quem puder, fora da indústria de massa, por uma relação mais pessoal. ‘Tomar a vida pelas próprias mãos’ faz sentido assim pra mim”, complementa. Manter um trabalho seguindo as ideias do Do It Yourself, implica em se dedicar ao projeto realizando os mais diversos tipos de atividade. Aran edita e produz 20

todo o material da Autoboneco e é o principal compositor, além de ajudar a organizar os eventos. “Fiz a Autoboneco em 1993 e até hoje somos uma ‘unidade mutante’ que grava discos, faz shows audiovisuais, vídeos, fanzines, etc. Temos 15 CDs disponíveis atualmente e muitos K7s, tudo gravado, reproduzido e distribuído de modo independente. Sempre trabalhamos de um jeito muito simples e econômico, de uma a cinco pessoas juntas, sem grandes reuniões ou formalidades”, comenta Aran, que também destaca que a divulgação de todas as atividades da Autoboneco é feita online, pessoalmente e por meio de cartazes físicos nas ruas. Luis explica que a banda Universo Elegante não tem integrantes fixos e que, atualmente, ele tem trabalhado com os músicos que gravaram o CD Mar Vermelho. “Nós fizemos dois shows do disco até agora. Eu fui para São Paulo ensaiar com eles no primeiro show e no segundo eles vieram um dia antes para a gente ensaiar aqui. Nos dois shows nós que corremos atrás de tudo e divulgamos principalmente no Facebook”, aponta Luis.

“Se eu quisesse mesmo desenvolver o trabalho que eu já fazia aqui, precisaria fazer por mim mesmo” Luis Domingues Universo Elegante

E muitas vezes o Faça Você Mesmo requer sacrifícios dos seus praticantes. “Para gravar Mar Vermelho, eu não tentei nenhum contato com gravadoras. Paguei a gravação em São Paulo e os músicos foram o dono do estúdio, os dois produtores do disco e um amigo”, comenta Luis, que afirma não receber muito reconhecimento, por parte do público ouvinte, por bancar a gravação do disco com seu próprio dinheiro. “Criei a loja logo depois de me formar em Jornalismo, sem perspectiva com o meio de trabalho, e eu gostava muito de LP’s e a cultura de reciclagem. A Extinção foi criada para sobrevivência financeira, mas ainda é muito difícil, por isso também realizo outros trabalhos”, conta Aran.

Mesmo com todas as dificuldades apresentadas pela ideia do DIY, Aran afirma que vale a pena: “Meu estilo de vida desde a adolescência tem essa direção”, aponta. Já Luis diz não saber ao certo se é válido, apesar disso lhe fazer bem: “No meu caso, eu sempre tenho a oportunidade de não fazer mais um CD e mergulhar no meu trabalho com minha produtora de cultura e preservação histórica. Mas, assim, eu ficaria tocando sozinho as músicas e isso não tem graça. Gosto de ver a música com os arranjos e com a banda. Não se trata de acreditar ou optar. Só tinha essa escolha se quisesse continuar a desenvolver meu trabalho musical”, finaliza. 21


Camaleão entrevista:

Vinagre

J

Maitê Borges e Natália Dário

osé Augusto Vinagre, 48 anos, ex-secretário de cultura de Bauru. Vinagre tem papel de destaque na cultura bauruense. Durante sua gestão, de 2005 a 2008, trouxe, pela primeira vez para a cidade a Virada Cultural. Foi presidente da Federação Paulista de Cineclubes e delegado pelo Estado de Sao Paulo na I Conferência Nacional de Cultura. É integrante do Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo. Atualmente, trabalha como produtor musical e auxilia na elaboração de projetos culturais. Confira em entrevista como a cultura tem sido tratada em Bauru e no Brasil e conheça mais sobre o trabalho de Vinagre: CAMALEÃO: Como você analisa o cenário cultural hoje em dia no Brasil? VINAGRE: Eu acho que teve uma evolução muito grande na área de cultura do país desde a primeira administração do Lula e do Gilberto Gil como Ministro da Cultura. É lógico que isso acaba contagiando o resto dos processos nos estados e nos municípios. Então, a gente

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teve um crescimento cultural, no qual fala-se mais sobre cultura, discute-se sobre cultura e hoje são mais firmes as políticas culturais. Um exemplo é a política de editais. Antigamente, pra você ter acesso a um recurso público na área de cultura, precisava-se de uma política de balcão. Você tinha que pegar seu projeto, se aproximar de algum político e

pedir no balcão da secretaria do município, dos estados, pra você conseguir um recurso. Hoje, o acesso é mais democrático com as políticas de editais: você entra, participa do concurso, se o seu projeto for legal você acaba acessando os recursos. Isso é uma evolução também. E a própria criação e institucionalização da cultura começou a crescer.

C: E aqui em Bauru? V: Eu acho que o Edson, que é o Secretário de Cultura, é um funcionário de carreira e está na secretaria há muitos anos, então ele conhece essa área e acredito que ele tem tocado dentro das possibilidades e da forma mais adequada sim. Como eu falo, sempre existe o problema de recursos, nunca ele vai conseguir atender a toda a demanda que se tem. Então, é necessário também que o setor cultural corra sozinho, de forma independente. E hoje a gente tem projetos bons em Bauru como o Enxame Coletivo funcionando como Casa Fora do Eixo Bauru e outros espaços próprios como o pessoal do Protótipo e o Centro Cultural Celina Neves que também é independente.

C: Quais as principais dificuldades que você encontrou na sua gestão, em relação às políticas públicas? V: A maior dificuldade, que a maioria encontra é a questão de grana, que é uma característica da área de cultura. Normalmente a cultura é uma das que tem menor orçamento. Tudo isso dificulta todos os projetos que você tem nessa área. C: E como você conseguiu reverter essa situação? V: Parcerias, atuação política forte junto ao Ministério da Cultura... Como Secretário Municipal de Cultura, eu trouxe pela primeira vez a Virada Cultural. Os pontos de cultura foi um programa que a gente começou a desenvolver aqui quando eu era secretário. C: Como você vê a divulgação da cultura na cidade? Você acha que é bem difundida ou é silenciada pela mídia? V: Tem muita gente que trabalha com cultura na capital, por exemplo, e não tem acesso à grande imprensa. Pelo tamanho da cidade e pelas condições dela, em Bauru

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Natália Dário

isso não acontece. Vários órgãos de imprensa locais tiram algum espaço para a divulgação de atividades culturais, então tem alguma facilidade de divulgação nesse plano. Ao mesmo tempo, hoje a gente tem uma facilidade que é a internet. Então com facebook, blog, você consegue divulgar bastante as atividades culturais. C: Você pensa que a cultura bauruense representa todas as classes sociais e etnias, ou é voltada mais para um tipo de público? V: Eu acho que o grande problema da cultura em Bauru é a falta de descentralização das atividades culturais e dos processos de formação da área de cultura. Eu creio que isso é um processo histórico. Bauru não tinha um Centro Cultural e o movimento cultural era muito forte. Depois que criou o Centro Cultural, automaticamente acabou centralizando muito as atividades culturais em determinado ponto da cidade. Acho que um dos grandes desafios de quem assumir daqui pra frente a área de cultura é fazer com que essa descentralização aconteça. É fazer com que as atividades culturais e

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os processos de formação cultural de recursos para a área da cultura, atinjam os bairros da periferia até mesmo por uma situação mais de Bauru. tranquila que a Prefeitura passa. Então é lógico que isso acaba forC: A periferia é defasada talecendo a área de cultura. Ao em termos de cultura? mesmo tempo, eu vejo que com V: É defasada em termos de o surgimento dos coletivos cultuopção cultural e em termos de rais, novos grupos tem surgido, o equipamentos. Você tem al- que também fortalece a manifesgumas bibliotecas espalhadas tação cultural independente da pela cidade, mas Bauru cresceu questão pública. muito e isso acaba não atingindo a maioria da população que C: Você sente que a cidaestá fora do centro urbano. de tem uma boa procura pela cultura por parte da C: Em sua opinião, Bauru população? pode ser considerada uma V: A gente tem um problema na cidade cultural? área de cultura que é a questão da V: Eu creio que sim. Até mes- participação cultural. Hoje, você mo pela questão universitária. vai fazer um show de sertanejo Isso facilita de alguma forma a e vai lotar. Se eu trago uma orprodução cultural e a difusão questra sinfônica, nem sempre também. Então, eu creio, sim, você consegue fazer isso. Cada que Bauru pode ser chamada vez mais, você tem que oferecer de “culturalmente bem servida”. esse tipo de atividade para que as pessoas possam ter acesso a C: Qual é o cenário cultu- esse tipo de produção cultural. ral de Bauru atualmente? Se puder comparar com C: Destaque um ponto a sua gestão... que você considera que se V: Eu acho que cada ano que passa sobressai na questão da vai evoluindo mais a cultura em cultura em Bauru e um Bauru. Essa atual gestão do Rodri- ponto que a cidade ainda go Agostinho teve uma evolução precisa evoluir. 25


C: Como é o seu trabalho como produtor cultural? V: Logo que eu saí da Secretaria de Cultura, eu foquei na produção de teatro, então trouxe várias peças pra Bauru. Isso até o final do ano passado. Eram peças mais pesadas e densas como, por exemplo, “Deus da Carnificina”, com o Paulo Betti e a Debora Evelyn. Agora meu trabalho está mais focado na área de assessoria municipal na área de gestão cultural e elaboração de projetos para leis de incentivo, então trabalho muito com a Lei Rouanet. 26

C: E você tem encontrado alguma dificuldade? V: Com certeza! Vou pegar um exemplo na produção de teatro: pego uma peça de peso e trago pra Bauru. O custo dela é muito alto. A gente não tem a cultura de um empresário local apoiar uma atividade desse porte. Você fica dependendo quase que unicamente da bilheteria. Não é uma certeza se vai ser sucesso de bilheteria ou não. É difícil e isso dificulta muito vir uma atividade grande pra cá. C: O que você levou da sua gestão como secretário de cultura para sua profissão atual de produtor cultural? V: Experiência. Você acaba lidando com uma média de 15, 20 pessoas por dia com os problemas mais diversos e na maioria das vezes você acaba tendo que dizer não para essa procura por não ter recurso financeiro pra atender todo mundo. Então, você acaba tendo que se segurar muito pra seguir com as coisas e isso acaba te dando uma experiência que eu levo no dia a dia.

Clarissa Pacheco

V: Eu acho que um ponto que Bauru se sobressai é exatamente essa estrutura que já existe tanto de equipamentos culturais, como na parte de legislação cultural. Então a gente tem uma lei de fomento à cultura, que é o Programa de Estímulo à Cultura e o Conselho Municipal de Cultura funcionando. Então a cultura de Bauru está bem estruturada. E o que a gente pode destacar negativamente, é que cada vez precisa mais. A gente precisa de mais espaço, a cidade cresceu muito e a gente não está conseguindo acompanhar isso.

Deus é brasileiro? Apesar da maioria cristã, o debate sobre a diversidade religiosa ainda é intenso

O

Brasil é marcado por ser um país com uma diversidade enorme no aspecto físico, sócio-econômico e cultural. Foi por meio da miscigenação, da troca de ideias e do convívio entre pessoas diferentes que o país se enriqueceu culturalmente. Apesar da maioria católica brasileira, as religiões das minorias, como as de origem africana, fizeram com que as músicas, danças e mitos também influenciassem o cotidiano, bem como a história dos brasileiros. Há que se destacar o crescimento na variedade das religiões. Ainda que os dados do censo de 2010 do Instituto Bra-

Cinthia Quadrado e Jéssica Sumida

sileiro de Geografia e Estátistica (IBGE) mostrem que existe uma predominância das religiões cristãs, as religiões das minorias passaram a ter mais adeptos. O Candomblé, por exemplo, apresenta 176.363 pessoas que se consideram seguidoras, a Umbanda aparece com 407.331 praticantes e outras 14.103 pessoas se consideram adeptas a outras religiões da matriz afrobrasileira. A discussão sobre esse assunto não se limita apenas às crendices da religião, mas vai muito além: trata-se de falar na ferida que ainda existe no Brasil, a qual se refere ao preconceito sobre a cultura do negro. 27


Casa Axé Olorokê O Candomblé nasceu na África e, quando chegou no Brasil, trouxe fortes influências para a cultura local. Para Babalorixá Paulo de Éfon, responsável pela Casa de Candomblé Axé Olorokê em Bauru, “nós podemos dizer que o Candomblé no Brasil é uma religião afro-brasileira, já que ela tem matriz africana, mas com influências da cultura diversa do brasileiro”. Essa religião se divide em regiões da África de onde vieram determinadas etnias de culto, como os ketus, que saíram de regiões como a Nigéria; os bantus, que saíram de regiões da Angola e os Jejes, que moravam na região de Gana e Togo. 28

Paulo de Éfon conta que a Casa Axé Olorokê “foi fundanda em outubro de 1979, mas só em 1982 o sacerdote Gilberto, que era responsável pelo lugar, abdicou de seu cargo, fazendo com que Paulo se tornasse o babalorixá da casa”. Sobre o papel do sacerdote, Paulo revela que “é algo que já nasce pré-determinado nas pessoas, faz parte do Odu, ou seja, o destino que as pessoas recebem antes mesmo de nascer”. Sobre a música e a dança, Paulo explica que a música é muito importante durante as rodas de danças. “Na casa, as danças são mais sincronizadas e diferem um pouco da origem africana e o orixá depende da música para que haja o transe. As cantigas são

“Era difícil no início escancarar a bandeira da causa, mas hoje o ICA se considera muito respeitado”. Rodrigo Queiroz Fundador do Instituto Cultural Aruanda

visa o ensinamento para que as cantigas mantenham suas histórias e para que elas continuem fazendo sentido para as outras gerações.

Apesar de receberem o incentivo do governo, o Ponto de Cultura Olorokê ainda não tem verba o suficiente para fazer todas as suas apresentações, festivais e demais atividades. As pessoas confundem os ensinos sobre a cultura afro com o ensino sobre a religião, mas não é algo sobre a religião em si”, disse Paulo de Éfon. Por meio da Lei 10.639/03 há um incentivo para o ensino da cultura negra, mas ainda sim, o preconceito impede que outras pessoas possam aprender a cultura de origem africana. “Nós somos um país de mistura, então nós não podemos dispensar a cultura negra, comenta. Créditos: Clarissa Pacheco

Paulo do Éfon

Festival na Casa de Candomblé Axé Olorokê realizado em janeiro de 2014.

feitas na língua yorubá e nada em português”, revela Paulo de Éfon. Quanto à tradição oral do Candomblé ressalta-se a importância da linguagem. “Nós temos que ter uma boa noção do yorubá para não falar besteira. Cantigas que eram feitas em 200 anos atrás tinham uma dificuldade maior porque não se passava nada por escrito, e sim, oralmente”, disse o Babalorixá. De acordo com o relato dado por Paulo, o yorubá quase foi extinto devido aos problemas da falta de precisão sobre as palavras das cantigas. Por isso, a casa Axé Olorokê, que também serve como um Ponto de Cultura,

Instituto Cultural Aruanda

O ICA é um projeto que combate a intolerância religiosa e também é um dos Pontos de Cultura em Bauru. O instituto foi idealizado pelo professor e escritor Rodrigo Queiroz e firmou-se oficialmente como associação civil em 2006. De acorco com Rodrigo, “o ICA surgiu da necessidade de um grupo de pessoas que buscam consolidar um ambiente para a prática e estudo da religião, bem como legitimar juridicamente as ações sociais, culturais e assistenciais desde grupo”. 29


Com o projeto “Amostras e Mostras da Cultura Popular Brasileira”, o ICA foi selecionado em um edital da Secretaria Municipal de Cultura e tornou-se um ponto de cultura em Bauru. Rodrigo explica que “o Instituto conta com oficinas de teatro, artes plásticas, capoeira e exibições de filmes, com cursos presenciais e também por meio da plataforma de ensino à distância”. Além disso, eles também tem um jornal. uma revista, um canal de TV e uma webrádio, o que fez com que o Instituto se tornasse um centro de referência fora do Brasil.

“Hoje em dia ainda há pessoas que comemoram a libertação dos escravos”.

no início escancarar a bandeira da causa, mas hoje o ICA se considera muito respeitado”. Apesar de ter enfrentado esse tipo de resistência, com a iniciativa de seus participantes foi possível produzir e fomentar cada vez mais a manuntenção da memória e da identidade afrobrasileira. Assim, seus integrantes conseguem promover ainda mais o estudo, a liberdade de crenças, a valorização dos festejos populares, além da produção artística da comunidade em Bauru.

Liberdade de direito ao culto

Mesmo em um país em que a diversidade religiosa tem grandes proporções, a intolerância ainda existe. Não só pelo histórico do país, que criminalizou algumas religiões, mas, também pelo fato de que esse assunto só foi discutido a partir do momento em que as minorias Patrícia Alves passaram a se manifestar com Professora e estudiosa do Candomblé mais força. como em 1995, com Rodrigo Queiroz acredita a Marcha Zumbi dos Palmares que é fundamental o estudo da contra o Racismo. cultura africana pela influência Como afirma Paulo de Éfon, dela na identidade do país. Em o preconceito já vem do fato relação à questão da intolerân- de que as pessoas internalizam cia religiosa, o fundador da ins- uma ideia errônea, disseminada tituição comenta que “era difícil pela sociedade. “O preconceito 30

é o verdadeiro câncer da humanidade”. Esse é um ato de “não compreender a visão do outro e às vezes a gente vê absurdos acontecendo ao mesmo tempo com outras religiões”. Apesar da Casa Axé Olorokê ter sido uma das primeiras construções no bairro Jardim Carolina, certa vez, seguidores de uma igreja evangélica jogaram sal grosso na frente da casa, como sinal de que eles queriam expulsar os moradores do local. Paulo disse que “esse foi um dos atos que mais o deixou alegrado, já que, no Candomblé, o sal grosso renova as energias das pessoas fazendo totalmente o contrário do que as outras pessoas esperavam”. “Hoje em dia ainda há pessoas que comemoram a libertação dos escravos, há quem ainda esteja vivenciando isso”, afirma o Babalorixá. A influência dessa cultura é nítida no cenário brasileiro, seja pelo vocabulário ou até mesmo pelos mitos e lendas africanos. “Mas ainda é necessário que se estimule o aprendizado da cultura afro-brasileira nas escolas”, salienta Paulo. Segundo Patrícia Alves, professora e estudiosa do tema, atualmente existem projetos e leis que tentam evitar ou amenizar o preconceito religioso, sobretudo

por parte das religiões de origem africanas. “Nós temos algumas iniciativas contra a intolerância religiosa, como a ‘Cor da cultura’.”, afirma Patrícia. O projeto “Cor da Cultura” foi criado em 2004 e está apoiado na Lei 10.639/03. O intuito desta lei é valorizar a cultura afro-brasileira por meio da criação de produtos audiovisuais e de ações culturais e coletivas. “Contudo, mesmo que existam incentivos culturais, às vezes não há espaço para recebê-los”, esclarece Patrícia A questão da tolerância não se refere às características das religiões em si, mas à convivência entre a diversidade. É preciso que o Estado atue na promoção da diversidade religiosa no país para que o ensino sobre as religiões também seja abordado nas escolas. A lei 10.639/03 é um dos primeiros indícios para que isso aconteça. Mesmo tendo sida instituída em 2003, a lei de incentivo ao estudo da cultura afro-brasileira ainda não se desenvolveu de forma eficaz. Os brasileiros têm uma nação rica em termos culturais de origens diversas. Por isso, deveria existir uma liberdade de expressão sobre essas culturas para que elas sejam contempladas por incentivos que enriqueçam a história do Brasil. 31


Cultura aos olhos da mídia As responsabilidades e deveres do jornalismo na inclusão cultural

D

Jéssica Sumida e Maitê Borges

evido a representatividade que a cultura propõe, o jornalismo cultural enfrenta desafios para relatar e cobrir todo esse leque. O papel da mídia é retratar manifestações culturais que representem todas as classes sociais e etnias, despida de qualquer preconceito. No entanto, essa responsabilidade dos veículos de comunicação é questionada quanto a sua eficiência. Para debater o tema, a Camaleão entrevistou Denilson Monaco, chefe de redação da TV Tem. Camaleão: O veículo que você trabalha dá espaço para retratar a cultura da cidade? Você considera suficiente? Denilson: Eu acredito que sim. Pois, quase todos os dias, exibimos reportagens mostrando as tradições e os costumes dos moradores do centro oeste paulista. Também valorizamos as festas tradicionais, além de abrirmos espaço, semanalmente, para divulgar outros eventos culturais na nossa agenda.

ções culturais de todas as classes sociais e etnias? D: Penso que sim. Pois a cultura não tem classe social ou de raça. A cultura é universal. Você pode apreciar ou não. Nesse ponto eu vejo que a mídia, no geral, valoriza todos os tipos de cultura. Cabe ao público escolher o que ele considera a melhor opção.

C: Alguns veículos de comunicação silenciam ou retratam de forma marginalizada algumas manifestações culC: Você pensa que a mídia, em turais, como o funk. Como geral, representa manifesta- você vê isso? 32

D: Acredito que não. Hoje o funk está presente no nosso cotidiano. Seja na novela; no espaço comercial e nos shows. O estilo já foi marginalizado. Mas hoje, a própria mídia, começou a aprender a separar melhor as coisas.

C: Você acha as coberturas de eventos culturais eficientes? D: Acredito que o espaço até poderia ser maior, mas a cobertura ficaria segmentada. Algumas revistas se especializaram, mas, nos canais abertos, acredito que essa mudança seria inviável.

Camaleão: O veículo que você trabalha dá espaço para retratar a cultura da cidade? Você considera suficiente? Mariana: Sim, tem espaço. O foco é retratar os eventos locais relacionados à linha editorial. Acho que os assuntos deveriam ser tratados com mais amplitude, contextualização e reflexão. Estes aspectos não são tão explorados por falta de espaço e tempo. Poderia ter mais diversidade nestas retratações.

e valorizar a cultura popular, erudita e de massa.

Entrevistamos também Mariana Cerigatto, repórter da editoria de cultura do Jornal da Cidade desde 2011.

C: Você pensa que a mídia, em geral, representa manifestações culturais de todas as classes sociais e etnias? M: Não, pois os jornalistas que estão dentro de uma redação pertencem a um grupo, uma classe social. Às vezes acabamos privilegiando os grupos e classes que estamos inseridos. É um erro, porque o jornalista deveria representar os interesses das minorias. Temos que parar de classificar e dividir a cultura em alta e baixa,

C: Alguns veículos de comunicação silenciam ou retratam de forma marginalizada algumas manifestações culturais, como o funk. Como você vê isso? M: Quando somos jornalistas, devemos nos despir dos preconceitos.Devemos ter contato com as manifestações, sejam elas de nosso agrado ou não. O funk carrega um estereótipo relacionado à marginalidade pelo fato de a própria mídia representá-lo assim. Mas, a realidade nem sempre é só o que os meios de comunicação mostram. C: As coberturas de eventos culturais são eficientes? M: Nem todos os jornais têm equipe e estrutura para fazer coberturas em eventos. Tudo depende do valor-notícia de um evento. O jornalismo tenta ser democrático, mas a seleção pelas notícias é algo inevitável.

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Jayme Rosica

A voz e a vez da periferia Movimentos musicais da periferia, o hip hop e o carnaval crescem no cenário cultural bauruense Jayme Rosica

Salve quebrada!

já tem um corpo jogado no chão”, assim, Felipe Tayar, MC conheci“O hip hop é a voz da comu- do no cenário do rap bauruense nidade, assim como o samba ou como JotaF, demonstra a imporo funk. Porque se não for pela tância social que o movimento música da periferia, a gente não hip hop exerce nas comunidades tem voz. A mídia e a polícia só de periferia. Desde quando surgiu nos suchegam lá na quebrada quando 34

búrbios de Nova Iorque, a intenção e a função maior da cultura hip hop sempre foi essa, a de ser o mediador entre a periferia e a sociedade, denunciando ao mundo a realidade dura vivida no gueto. O movimento chegou ao Brasil, nos anos 80, em especial na periferia de São Paulo, com a mesma finalidade de dar voz ao povo da periferia. No interior de São Paulo, principalmente em Bauru, ele cresce a cada dia, tendo na cidade uma participação importante nos debates sociais e na inclusão da periferia na cultura municipal. “Bauru é referência no movimento hip hop, e não só no rap, mas também os bboys e o grafite”, afirma JotaF. O MC está envolvido no cenário hip hop bauruense há oito anos, e hoje, além de MC, atua como coordenador cultural do ponto de cultura Acesso Hip Hop. Ele analisa que no princípio a luta para se expressar pelo rap era mais complicada : “a luta era bem mais difícil no começo, mudou muita coisa, tanto pelo avanço da tecnologia quanto pelo boom que a cena hip hop teve na mídia, acabamos ganhando espaço, mas ainda é muito difícil viver do rap.”

Apesar de ter conquistado recentemente um destaque nos meios de comunicação, o rap ainda sofre muito com o preconceito infiltrado na sociedade. “as pessoas olham pro rap e estigmatizam, o preconceito mudou, mas ainda existe, e vai existir por muito tempo, já é meio enraizado socialmente. O rap vai além de um ritmo musical, é um movimento social, é cidadania. a gente usa as ferramentas que tem pra tentar diminuir o preconceito.” A mesma opinião de JotaF é compartilhada por Vanderlei de Oliveira, “a sociedade sempre sentiu muito preconceito com o HIP HOP. O preconceito sempre existe da gente que mora na periferia, a sociedade não gosta de pobre, de gente que vive em exclusão e risco social”. Vanderlei é integrante da ONG Periferia Legal, que atua no núcleo Mary Dota, levando a cultura do hip hop para a comunidade. Vanderlei explica que a ONG surgiu para divulgar a importância que a cultura hip hop exerce na juventude da periferia de Bauru: “surgimos de uma necessidade de levar para as comunidades a educação, a cultura, o lazer”.

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Jayme Rosica

“No encerramento da semana do hip hop o público foi de 17 mil pessoas”

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A ONG trabalha em diversas frentes, envolvendo cinema, arte visual e música. Vanderlei ressalta que os projetos sociais encabeçados pelo hip hop na cidade transformam a vida dos jovens da periferia: “desde quando atuamos já vimos muitos jovens conseguirem uma mudança significativa”. Desta forma, as comunidades da periferia de Bauru inseriram o hip hop em sua rotina, isso ficou explícito na 4ª semana municipal de hip hop, que contou com o apoio da Secretaria de Cultura. JotaF conta que nessa oportunidade o poder público bauruense tomou real conhecimento da dimensão que o movimento tem na cidade: “no encerramento da semana do hip hop o público do último show foi de 17 mil pessoas

Jayme Rosica

Felipe Tayar Coordenador do Acesso Hip Hop

no Parque Vitória Régia, o que é um recorde na história da cidade. Pra se ter uma noção, o revèillón, teve um público de 4 mil pessoas no parque.” A semana surgiu como um evento de dentro do movimento, e sem nenhum recurso público, com o crescimento e a consolidação do hip hop, este ano o mesmo foi incluído em lei, para ter sua verba garantida, o que mostra a força e a mobilização do Hip Hop . “A primeira edição não tinha verba pública, e essa semana já está instituída como lei. A mobilização do movimento hoje é muito estruturada e inteligente.” Além da semana municipal de hip hop, há outros eventos em que o poder público atua em conjunto com o movimento, como acontece com o Periferia Legal: “atualmente o poder público através da Secretaria Municipal de Cultura é o maior apoiador e incentivador de nossas ações no movimento Hip Hop, hoje a ONG Periferia Legal é um Ponto de Cultura que atua com o Projeto Hip Hop Legal”. Já existem eventos na cidade com o apoio da Secretaria de Cultura, como explica JotaF: “a gente tem dois principais

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projetos que já acontecem , o projeto ensaio, onde a gente roda as comunidades trazendo atrações de dentro e de fora, transitando nas quebradas levando som. A aparelhagem, técnico e etc. é fornecido pela Secretaria de Cultura. E tem também o projeto happy hour, que leva as pessoas ao teatro municipal, com música, dança, tudo ligado a cultura de rua”. Apesar de certa atenção dada pela Prefeitura, a ideia é sempre de conquistar mais espaço na pasta da cultura de Bauru. “Nós sempre queremos mais do poder público. E vai de cada movimento trabalhar pra fazer parcerias e reivindicar melhorias junto ao governo. A gente quer pleitear para a prefeitura um projeto da casa do hip hop, onde oferecem aulas de grafite, dj, instrumentos, além de local pra apresentações” comenta Vanderlei. Vanderlei, inclusive, informa que o incentivo público ainda é muito centralizado nos grandes eventos, devendo ser mais diversificado para alcançar os bairros da periferia em si, que são os grandes celeiros da cultura hip hop. “Eu acho que o poder público teria que lançar mais editais para 38

projetos como o que fazemos no movimento Hip Hop e incentivar mais apoios aos jovens talentos que surgem na periferia e acabam não tendo nenhum apoio, descentralizar mais a cultura para os bairros na cidade de Bauru, tudo que acontece de evento na cidade é no Vitória Régia isto tem que mudar ou ter outros espaços, ou seja um local onde pode acontecer vários eventos.” O hip hop bauruense vem tomando grandes proporções atualmente, e a tendência é sempre de crescimento, porém o movimento deve olhar para trás e saber quem ele representa, como JotaF lembra ao encerrar: “hoje o rap toca em vários lugares, e é importante. Mas, mais importante é sempre lembrar de onde o rap veio que é a comunidade.”

A Ópera do Povo

É uma noite de segunda-feira, o céu está nublado, com jeito de chuva, e uma praça no Núcleo Presidente Geisel em Bauru começa a reunir pessoas de várias idades. São adultos, crianças, homens, mulheres, todos empunhando um instrumento musical em mãos.

“O carnaval é uma festa em que todos são iguais. Não importa credo, raça, classe social.” Ulisses Frazão Menbro da escola Águia de Ouro

O ensaio da escola Grêmio Recreativo Cultural e Escola de Samba Águia de Ouro está para começar, ali na rua mesmo. Em pouco tempo a vizinhança vai chegando, atraído pelos primeiros esboços do samba da escola. “A escola de samba sempre teve essa função de envolver a comunidade, as pessoas do bairro sempre vem pra somar”, diz Ulisses Frazão, membro da escola. Ele conta que está envolvido com escola de samba na cidade desde 1976, quando assistiu ao desfile daquele ano, contaminado pelo “vírus” do samba, como ele mesmo define, já procurou imediatamente uma agremiação para poder participar no carnaval do ano seguinte: “vi o desfile, me encantei e escolhi uma escola de samba, a Acadêmicos da Cartola. No mesmo ano procurei a escola,

fui muito bem recebido. Sempre fui envolvido com música, e aí aprendi a tocar os instrumentos. Saí na bateria em 1977, e no próximo ano já fui puxador de samba, que hoje chamam de intérprete.” A Águia de Ouro, surgiu em 1986 e o ensaio que acompanho é o primeiro para o carnaval de 2014, mesmo assim, a presença dos participantes é grande e efusiva. Mas o que faz cada pessoa a sair de sua casa numa segundafeira com ameaça de chuva, para se reunir na rua e participar de um ensaio da escola de samba do bairro? Ulisses consegue resumir o sentimento que move cada um: “o carnaval é uma festa em que todos são iguais. Não importa credo, raça, classe social. O desfile da escola de samba é o dia em que todos se sentem artista, desde mestre sala e porta bandeira até o cara que empurra o carro alegórico.” Antes mesmo da organização de escolas de samba, já existia um carnaval com samba na cidade realizado por blocos e grupos de batuque: “antigamente tínhamos algumas escolas de samba que eram mais grupos de batucada com fantasias.” , explica Ulisses. 39


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Jayme Rosica

Nos anos 70 começaram a se organizar as escolas de samba em si, sendo o desfile realizado na Avenida Rodrigues Alves, e com uma competição por troféu já regulamentada entre as agremiações: “as principais escolas eram a Mocidade Independente e a Camisa 10 do Bela Vista. Essas escolas deram uma cara diferente pro carnaval de bauru, tanto no aspecto visual quanto no samba em si. Já em 76 surgiu a Cartola, que hoje é a escola mais tradicional existente na cidade, depois foram surgindo outras como a União da Vila Independência, Império da Vila Esperança e Flor da Vila Dutra.” Na década de 80 o carnaval passou a ser na Avenida Nações Unidas, contando com maior espaço e iluminação, além de estrutura para o público assistir. Neste meio tempo surgiram novas escolas, dentre elas a Águia de Ouro. Com a construção do sambódromo nos anos 90 o carnaval bauruense cresceu, tomando grande proporção regional, até seu auge no início dos anos 2000. Em 2002 o carnaval deixou de receber verba, o que mergulhou o mesmo no ostracismo. Conjunturas e decisões políticas fizeram

com que Bauru passasse quase uma década sem a festa. Não havia força política e interesse dos governantes no retorno do carnaval bauruense: “o carnaval em Bauru ficou parado em torno de 10 anos. Foi uma grande perda. Todo nível de sociedade tem pessoas boas e ruins. Sempre tem gente que quer se aproveitar, tiveram pessoas que usaram o nome de agremiações em benefício próprio e politicamente travaram o carnaval. Além disso havia uma bancada evangélica muito forte na Câmara que não queria bater de frente pra que pudesse acontecer o retorno”.

A partir desta volta, o carnaval se tornou uma política pública importante para a Prefeitura, se tornando evento primordial para a cultura da cidade, e, desta forma, voltando a ser uma festa do povo. “Hoje existe política pública direcionada pro carnaval, eu vejo que a Prefeitura enxerga o carnaval e sua importância. A secretaria tem bastante jogo de cintura para conduzir o evento na cidade. Hoje o carnaval voltou ao gosto da população”. Apesar deste direcionamento, ainda há muito preconceito quanto ao uso de dinheiro na elaboração da festa: “não entendem Segundo Ulisses, o ímpeto po- que é cultura e a cidade não tem o lítico que faltava foi dado pela atual porte do carnaval de São Paulo ou administração que conseguiu libe- Rio, onde as escolas conseguem se rar verba para a volta dos desfiles manter. As pessoas reclamam por em 2011, quando foi realizado um que dar dinheiro para as escolas desfile único, de todas as agremia- se falta tanta coisa em saúde e ções. Já em 2012 o carnaval voltou educação, mas a verba do carcom força, no modelo de disputa. naval vem da pasta da cultura, E em 2013, a Águia de Ouro, antes que não está vinculada a estas uma escola coadjuvante, conquis- outras áreas”. Assim, ressurgindo das cinzas, tou o vice-campeonato: “na volta do carnaval em 2011 foi dado cin- o carnaval bauruense volta a ter co mil reais para o carnaval e já foi importância, instrumentalizado feito um desfile bem interessante, pelas políticas públicas específiem 2012 já foi um carnaval com a cas e caindo novamente no gosto disputa e no ano passado a gente e na cultura do povo. Um digno foi vice campeão”, comenta Ulisses. teatro musicado a céu aberto. 41


As mudanças nas políticas culturais A valorização do papel da Cultura no Brasil

João Macedo

Vinicius Vermiglio

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E

m 15 de março de 1985 entrou em vigor o decreto 91.144. Sob a justificativa de enriquecimento da cultura nacional e “considerando que os assuntos ligados à cultura nunca puderam ser objeto de uma política mais consistente”, o decreto assinado pelo presidente da república José Sarney criou o Ministério da Cultura (MinC). Antes de 1985, os assuntos ligados à cultura estavam sob a batuta do Ministério da Educação e Cultura. O novo ministério passou a administrar a FUNARTE (Fundação Nacional das Artes), a extinta EMBRAFILME, os conselhos de cultura, secretarias e adjacentes. Reconhecendo que o Brasil é um país grande para prescindir de uma “política nacional”, o MinC foi criado para ampliar a discussão e a criação de “políticas específicas bem caracterizadas” devido a particularidade de cada região.

A cisão com a ideologia neoliberal dos anos 80/90 Adotando as ideias e medidas criadas no Consenso de Washington, coerente com a visão neoliberal dos detentores do poder no Brasil na época, o Estado cuidaria apenas de questões estratégicas. Encarregado das políticas culturais, o mercado agiu como lhe pareceu natural e investiu nas manifestações culturais que possuíssem retorno econômico. Privilegiou-se o cinema e a música e deixou-se de lado outras manifestações menos aliadas ao mercado, como a arte rupestre, a cultura indígena, afrodescendente e quilombola. Segundo o professor de Jornalismo Especializado, Juarez Xavier (Unesp), outro aspecto negativo é que ao mercantilizar as manifestações culturais,

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houve a alienação do produtor cultural. “Por exemplo: as mulheres que fazem panela de barro. Todo o conhecimento contido no processo, seja estratégico, de física, de mercado, de cultura, tudo se perde. Ela faz o produto e entrega para outro vender”. Além de professor universitário, Juarez já coordenou uma mesa de debates sobre a produção cultural para além do mercado composta por Alfredo Manevy e Juca Ferreira, no auditório da Livraria Cultura, na cidade de São Paulo. Para o professor, a grande mudança, a partir da gestão de Lula, foi que o governo do petista “elaborou uma política de prospecção, estudos e ações estratégicas financiada pelo Estado, tirando a prerrogativa do mercado de definir o que é política cultural no Brasil”. Na Europa, há o predomínio da cultura material, como o Coliseu em Roma e as grandes catedrais da Idade Média. No caso do Brasil, houve um empenho para recuperar 44

e preservar os patrimônios imateriais, algo muito próprio das culturas africanas e latino americanas. Esses patrimônios são valores culturais fundamentais para o povo. “A viola caipira, o acarajé, o candomblé, o samba de roda. Todos esses têm formas inteligentes de leitura e intervenção cultural num mundo que não possui bens materiais, mas sim bens estruturantes da nossa identidade cultural”, comenta Juarez.

A importância da Cultura

A criação do MinC elevou a cultura na hierarquia das preocupações do governo brasileiro. Todo país possui um Ministério da Educação ou da Saúde (ou equivalentes), no entanto nem todos possuem um ministério exclusivamente para a cultura. O nível de atenção varia de acordo com cada país. Portugal possui uma Secretaria de Estado da Cultura, diretamente

dependente do Primeiro-Ministro; nos Estados Unidos há o Departamento de Assuntos Educacionais e Culturais (Bureau of Educational and Cultural Affairs); a China possui um Ministério da Cultura; no Reino Unido, há o Departamento para Cultura, Mídia e Esportes (Department for Culture, Media and Sport). Ao lado, vemos o investimento dos países citados. Segundo o Ministério do Planejamento, desde o início do governo Lula (2002) houve um acréscimo de 900% nos recursos orçamentários e de 748% ao se incluir os projetos incentivados. Esse aumento é fruto da primeira grande reestruturação no Ministério feita em 2003.

Mudanças conceituais e estruturais

o braço direito do Secretário de Cultura Juca Ferreira, em São Paulo. Participando ativamente da rotina do Ministério na época, Manevy tem propriedade para falar das principais mudanças.

Investimento em US$ (em 2014)

: 260,15 milhões : 1,576 bilhão : 1 bilhão

: 1,96 bilhão : 1,29 bilhão

Tanto que em 2010, publiAssumindo em diversas oca- cou um artigo intitulado “Dez siões o cargo de Ministro Interi- mandamentos do Ministério da no da Cultura (nas gestões dos Cultura nas gestões Gil e Juca”. ministros Gilberto Gil, seguido No artigo, Manevy relapor Juca Ferreira), Alfredo Ma- ta brevemente como os gonevy, doutor em Ciências da vernos entre 1980 e 1990 Comunicação pela USP, hoje é lidaram com a questão da 45


cultura no Brasil, chamando o período de “décadas perdidas” devido a visão dos governos que na época presidiam o país de que o papel do Estado no apoio à cultura deveria ser mínimo e fora delegado ao mercado a gestão cultural. O primeiro item nos “mandamentos” da gestão dos ministros Gil e Juca é a ampliação na definição do conceito de “cultura”. A mudança em como são concebidas as políticas culturais deram um novo status ao MinC. Retomando a Constituição de 1988, que define a cultura como um “direito social”, o MinC passa a ter um papel universal nas atuações, o que faz aumentar, e muito, o investimento no ministério. Em 2003, o orçamento era de 400 milhões de reais. Cerca de dez anos depois, o MinC conta com 5 bilhões de reais – doze vezes maior que o primeiro orçamento do governo Lula (ainda sob o plano plurianual elaborado ainda na gestão do governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso). Uma parceira inédita, ini 46

Dez mandamentos 1º. Amplo conceito de cultura. 2º. Cultura como direito fundamental e necessidade básica. 3º. Promoção da diversidade cultural brasileira. 4º. Valorização das culturas tradicionais. 5º. Diretrizes para a economia da cultura. 6º. Modernização do direito autoral brasileiro. 7º. Modernização da política do fomento à cultura. 8º. A sociedade civil como conceito da ação estatal. 9º. O papel do Estado na cultura. 10º. Orçamento público para a cultura.

ciada em 2003, entre o Ministério e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), investiu em pesquisas para conhecer a presença da cultura nas cidades, no orçamento da família e na geração de emprego formal do país. A partir desses esforços, nasceu a primeira base de dados oficias relativos a cultura, o Sistema de Informações e Indicadores Culturais do MinC, um passo decisivo para identificar a melhor maneira de criar as políticas culturais. Identificando os problemas do Brasil nesse setor, o MinC realizou as reformas necessárias. A palavra-chave para as ações do ministério passou a ser ACESSO. O

acesso a cultura começou a ser garantido pelas políticas públicas e através do sistema educacional, além das reformas nas leis, principalmente o aperfeiçoamento da Lei Rouanet que garantiram o dinheiro para produtores culturais através de editais ou isenção fiscal de empresas que investem em projetos relativos à cultura. Outro aspecto da nova forma de encarar a cultura no Brasil, tanto na gestão Gilberto Gil quanto na de Juca Ferreira, é que a cultura brasileira “tornou-se um ingrediente essencial e decisivo do novo papel do Brasil no mundo, na medida em que ela parece apresentar o país pela adesão a

A parceira IBGE & MinC descobriu que:

92% do brasileros nunca frequentaram museus; 13% frequentam cinema alguma vez no ano; 93,4% jamais foram a alguma exposição de arte; 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança; Mais de 90% dos municípios não possuem salas de cinema, teatro ou museus. 47


valores, estilos e atitudes de vida, diferentemente de um movimento estratégico estritamente político e orientado economicamente”, nas palavras de Manevy.

Plano Nacional de Cultura

Entre outros projetos que coordenou no MinC, Alfredo Manevy ajudou, em 2010, na criação do Plano Nacional de Cultura (PNC), um projeto que visa a implementação de políticas públicas de longo prazo, previsto para estar com as 53 metas completadas até 2020. A proteção e a promoção da diversidade cultural brasileira são as diretrizes das metas, fruto das pesquisas do IBGE. Algumas delas ousadas, como o primeiro item do plano: “Sistema Nacional de Cultura institucionalizado e implementado, com 100% das Unidades da Federação (UF) e 60% dos municípios com sistemas de cultura institucionalizados e implementados”. O Sistema divide as atribuições e responsa48

bilidades entre os entes da federação (governos federal, estadual e municipal), repasses de recursos e criação de instâncias de controle social. Segundo o site do MinC, em 2010 havia uma unidade da federação (3,7%) e 94 municípios (1,7%) com acordos de cooperação federativa para o desenvolvimento do Sistema Nacional de Cultura publicado. Em 2013, segundo um resumo geral publicado em novembro do ano passado no site do Ministério, há 25 unidades da federação (92,5%) e 2068 municípios (37,4%). Outra meta ousada é a número 53: “4,5% de participação do setor cultural brasileiro no Produto Interno Bruto”, em valores de 2010, ano em que o PNC foi criado, esse valor corresponderia a 164,7 bilhões de reais. A participação da cultura em 2010 representou 2,6% do PIB - cerca de 95 bilhões de reais. Ou seja, a pretensão é quase dobrar a participação do setor cultural em apenas sete anos.

Ponto de Cultura: mais perto, mais acesso Um dos projetos de maior destaque, considerando todas as medidas elaboradas pelo MinC é o Ponto de Cultura. Considerada pelo Ministério da Cultura como a ação prioritária do Programa Cultura Viva, dados publicados no ano passado indicam quem no período entre 2004 e 2011, foram criados 3.670 Pontos de Cultura, presentes em todos os estados, alcançando quase mil municípios. Produtor e difusor de cultura em cidades e periferias, os Pontos de Cultura revolucionaram a relação das comunidades com a cultura, graças a presença desses espaços. O programa é um estímulo a iniciativas culturais já existentes, o que facilita a aceitação das pessoas beneficiadas pelos Pontos. Teixeira Coelho, atual Curador do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) e autor do

“Dicionário Crítico de Políticas Culturais”, escreve sobre os aspectos sob os quais políticas culturais vem sendo revisadas. Considerando o rearranjo do mundo, tanto no setor ideológico quanto econômico do mundo, passando pelos processos de globalização através dos meios de comunicação de massa. No verbete políticas culturais lê-se: “não basta que muitos saibam apreciar algumas ou muitas formas culturais: é preciso garantir ao maior número de pessoas a possibilidade de participar do processo como criadores - e isto tende a dificultar ou impedir o desenvolvimento de políticas de procura do sentido ou de enquadramento ideológico”. O novo papel da cultura no Brasil deve priorizar o acesso e a disseminação da cultura, reconhecendo que cada região compõe a pluralidade do país.

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Domingo no parque Fotos: Jayme Rosica

Parque Vitória Régia é exemplo de ocupação popular destinada ao lazer nos espaços públicos

Peça de teatro encenada ao ar livre. Programação pertencente à Mostra Paulo Neves de Teatro.


Crianças aproveitam o domingo para se divertir.

Confraternizaçþes aos finais de semana sempre ocorrem na grama do parque.


A prática de esporte como o slackline também é presente no Vitória Régia.

É comum aos domingos ver a população aproveitar o parque para rodas de violão.


A Tropicália do século XXI

N

a última década, o Brasil teve um agente de destaque no campo da cultura: os coletivos culturais, que reúnem jovens empreendedores apaixonados por música, dança, artes e cultura em geral. Esses grupos se juntam em torno de atividades culturais e pegam onda, sobretudo, nos incentivos públicos à cultura, através de editais e programas do MinC (Ministério da Cultura), como o Programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura. O fenômeno possui grande importância no cenário nacional: os coletivos são um dos acontecimentos de maior relevância para a cultura brasileira da última década.

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Organizados de forma colaborativa, coletivos e pontos de cultura despontam como expoentes da produção cultural brasileira

Gabriel Cortez e Solon Neto

Ao mesmo tempo, estruturando-se em volta das políticas públicas federais em cultura, outro fenômeno toma conta do campo: os Pontos de Cultura. No período de 2004 a 2011, o Programa Cultura Viva apoiou a instalação de 3.670 Pontos de Cultura, alcançando cerca de mil municípios em todos os estados do Brasil. O Cultura Viva promove iniciativas culturais já existentes, através de editais abertos pelo MinC. Em muitos casos, os coletivos culturais acabam se tornando, também, Pontos de Cultura. As redes estaduais do programa abrangem 25 unidades da federação e o Distrito Federal. Já as redes munici-

pais estão implementadas, ou em estágio de implementação, em 56 municípios. “Quando se fala em olhar para o que aconteceu no cenário cultural brasileiro durante a última década e meia, não há como escapar do impacto da tecnologia. Ela possibilitou a reorganização dos universos da música, dos filmes e dos livros. Motivou igualmente o surgimento das mídias sociais e das megaempresas que as gerenciam, além de democratizar e ampliar a produção em todas as áreas. Nunca se produziu tanto como agora”, explicou Ronaldo Lemos, em texto publicado na edição comemorativa de quinze anos da revista

BRAVO!, publicado em outubro de 2012, com o título ‘Os 15 Fatos mais Relevantes da Cultura Brasileira nos Últimos 15 anos’. É em meio a toda essa efervescência tecnológica que surgem os coletivos no Brasil. Ainda não existe, no entanto, um conceito que defina, com precisão, o que é um coletivo cultural, especialmente por se tratar de um movimento bastante novo. Mas, há quem se arrisque. Aluizio Marino é especialista em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC (Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação), da USP, e publicou, recentemente, um artigo sobre os coletivos 57


culturais. Ele explica que um coletivo é um movimento independente e desierarquizado, formado por um grupo de pessoas “na maioria das vezes jovens oriundos de territórios subalternos, que se unem por interesses comuns e desenvolvem ações de cultura de oposição”.

“[os coletivos] trazem a tona, a partir de ações artísticas, demandas historicamente reprimidas”. Aluizio Marino Gestor de Projetos Culturais

Para Marino, os coletivos culturais representam as vozes de um segmento das juventudes de nosso país e são importantes porque “trazem a tona, a partir de ações artísticas, demandas historicamente reprimidas”. Ele ressalta que a juventude é uma minoria histórica, no sentido de não possuir voz e pouco poder interferir nas decisões 58

políticas, “e é ainda mais minoritária quando pensamos em juventudes periféricas”. O caso do Fora do Eixo, o primeiro coletivo cultural do qual se tem notícia no Brasil, surgiu em 2002, em Cuiabá (MT). Na época, o jovem Pablo Capilé era estudante de comunicação e fazia parte de um grupo interessado em fomentar a cena musical da cidade - especialmente, a produção dos artistas independentes. Por estarem fora do eixo Rio-São Paulo, essas bandas tinham pouco espaço no mercado nacional de gravadoras e suas músicas eram pouco difundidas. Para tentar reverter a situação, Capilé e sua turma alugaram uma casa e fundaram o coletivo Cubo Mágico, a fim de produzir shows, ensaios, discos e até festivais de grupos independentes. O grande problema do coletivo eram as finanças. O prejuízo de um festival era pago com a receita do seguinte, que seria pago com ingresso de outros shows, que seriam pagos com vendas de CDs… e, assim, as contas não fechavam.

Os envolvidos - de músicos a donos de bares - precisavam ser pagos de alguma forma. Foi, então, que Capilé inovou e decidiu rolar o débito entre os próprios artistas, criando uma moeda exclusiva do coletivo, o Cubo Card. Com ela, o grupo passou a pagar a maior parte de seus cachês. Em contrapartida, os cards poderiam ser usados pelos artistas para comprar ensaios na sede do Cubo Mágico, releases, camisetas da banda e serviços prestados por gente ligada ao coletivo. O sucesso da iniciativa alimentou sonhos mais ambiciosos. Em 2006, Capilé se uniu a outros três coletivos, de Londrina (PR), Uberlândia (MG) e Rio Branco (AC), e fundou o Circuito Fora do Eixo, uma rede de coletivos, organizada de forma totalmente cooperativa, sem hierarquia e sem depender de rádios ou de qualquer coisa que remeta à indústria musical tradicional. Hoje, o grupo produz em média 13 eventos culturais por dia, em 112 cidades de 25 estados brasileiros. No ano de 2010, por

exemplo, foram 5 mil shows. Em Bauru, a Casa Fora do Eixo Bauru é um dos coletivos que representam o Fora do Eixo no interior do estado de São Paulo. Fundada em 2009, com o nome Enxame Coletivo, a Casa Fora do Eixo Bauru se define como um empreendimento solidário de comunicação e cultura que atua no campo da cultura independente. O coletivo se baseia na lógica do trabalho colaborativo e utiliza ferramentas de internet e conceitos de economia criativa para realizar eventos e promover alternativas ao circuito de cultura local. Para o estudante de Relações Públicas Arthur Faleiros Neves, um dos moradores mais antigos da casa, o trabalho e as parcerias do coletivo são um importante espaço de circulação de ideias e pessoas da cidade. A sede do grupo é compartilhada. Lá funcionam o coletivo e um Ponto de Cultura, projeto financiado pelo Governo Federal. O ponto de cultura em questão é o Acesso Hip-Hop, que traz ao espaço grande quantidade de artis59


Resenha pessoas ligadas à produção artística. A casa é utilizada como estúdio de música e estúdio para projetos online de mídia, como o PósTv, que faz transmissões de discussões e eventos culturais promovidos pelo coletivo e por agentes de cultura da cidade.

Mais cultura, mais diversidade, mais debates. A explosão dos coletivos e de grupos produtores de cultura por todo o Brasil se liga ao fato de o Ministério da Cultura manter um plano de expansão do conhecimento sobre a cultura brasileira. As seguidas ações afirmativas do governo desde o ano de 2002, com a entrada de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, sucedido por Juca Ferreira, atual secretário de cultura de São Paulo, colaboraram para a ampliação das políticas públicas culturais. Ao lado de Alfredo Manevy, secretário de políticas públicas das gestões Gil/Ferreira, se idealiza no MinC um plano para tornar a diversidade cultural um ativo para o desenvolvimento do país. 60

Com isso, o ������������� Governo Federal tenta garantir um acesso democrático à cultura, realçando um dos aspectos mais latentes da cultura brasileira, que é sua diversidade de expressões e matrizes culturais. Assegurar o acesso e o desenvolvimento por meio das políticas públicas, têm sido encarado como forma de garantir a democracia. Como fenômeno recente que emerge em um contexto de efervescência cultural e tecnológica, resta aos interessados pelo campo esperar. Para entender essas mudanças na forma de se produzir cultura - encabeçada por coletivos, ONGs, e grupos cada vez mais autônomos e independentes - será preciso um longo debate. Por ora, o que se sabe é que nunca se produziu tanto, e que nunca tantos puderam produzir. Cada vez mais plural, o debate no campo da cultura se intensifica e reserva para os próximos anos questões fundamentais em um momento de afirmação do Brasil no mundo.

Mar Vermelho Conheça a “desordem organizada” da banda Universo Elegante

O

CD Mar Vermelho, da banda Universo Elegante, mostra logo de cara uma gama de influências muito grande, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de lado sua personalidade própria e seu conteúdo independente. O álbum é composto por ritmos diferentes, que vão desde batidas rápidas e letras divertidas, que lembram o estilo da banda araraquarense, Os Rélpis, até músicas calmas, um tanto pessimistas, que destacam guitarras e suas melodias, ao estilo da banda Cachorro Grande. Nas primeiras músicas, “A Energia vai na frente” e em “Não para este planeta de rodar”, os rapazes do Universo Elegante trazem uma batida mais viva com letras animadas sobre as adversidades da vida e as futilidades do mundo. Já as músicas como “Caos Contemplativo” e “Sagração da Primavera” têm uma melodia mais tranquila e fazem com que

Cinthia Quadrado

o público mude sua percepção, para um tom mais sossegado, mas sem perder o bom humor ritmado por suas guitarras. O destaque do álbum é a música “Mar Vermelho”, que tem uma composição mais trabalhada e um tom mais lamentoso por parte do vocalista Luís Paulo Domingues. Sobre sua melodia, os sintetizadores brincam com o ritmo do baixo, lembrando os anos 80, quiçá até mesmo do tom de Lobão em “Essa Noite Não”, música de 1989. Nessa viagem pelo Universo Elegante, as músicas também revelam como o universo está cheio de misturas complexas, em uma “desordem organizada”. Seus temas são diferentes, mas, é nessa distinção que existe um sentido, o qual você só encontra após escutar até a última música do CD.

Onde encontrar:

R$ 15,00 www.pisces.art.br

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Resenha

Resenha

Chico bento bauruense

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Saída pela loja de presentes Uma pegadinha de Banksy?

Guilherme Henrique

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Pavor Espaciar Gustavo Duarte Panini Comics R$: 29,90 84 páginas

Imagem: Divulgação

também não ficar folheando o livro a procura das menções à cultura pop e a ficção cientifica. Formado em design gráfico em 1999 na Unesp de Bauru e noroestino de coração, Gustavo Duarte começou a publicar suas primeiras charges em 1997 no finado Diário de Bauru. Depois de formado, Gustavo passou a trabalhar na Editora Abril e como chargista do Lance!. A história de Gustavo Duarte faz valer o investimento pois tem a rara capacidade de ser simples o bastante para agradar as crianças e minuciosa na mesma proporção para não deixar os adultos reclamando.

Divulgação

Q

uinto livro de Gustavo Duarte, Pavor Espaciar consegue unir de forma divertida dois universos aparantemente inconciliáveis: os causos do interior e a ficção científica. Pavor Espaciar conta também com belas ilustrações e diálogos cômicos no mais legítimo “caipirês”. A graphic novel faz parte do selo Graphic MSP, onde artistas são convidados para fazer releituras de personagens da Turma da Mônica em homenagem aos 50 anos de carreira de Maurício de Sousa. Pavor Espaciar conta a história da abdução de Chico Bento, seu primo Zé Lelé, a galinha Griselda e o porco Torresmo, por alienígenas. Pela primeira vez, Gustavo trabalha com diálogos em seus quadrinhos, e são justamente eles que dão o tom a história. É difícil não rir com frases do tipo “Mais ocê acha qui eu vô querdita numa história bissurda dessa?”. Difícil

Em releitura, Gustavo Duarte junta personagens caipiras de Maurício de Sousa e ficção científica

ançado em 2010, “Saída pela loja de presentes” (Exit Through the Gift Shop) é a história de um lojista francês, Thierry Guetta, que pega uma câmera e parte em busca do paradeiro e da ami���� zade de Banksy, um grafiteiro de fama internacional, porém pouquíssimas pessoas conhecem seu rosto. O que se sabe é que sua técnica de stêncil e arte polêmica são inconfundíveis. No filme, Banksy inverte a intenção de Guetta e transforma o documentário na história de um cara que filmou o movimento street art sob o ponto-de-vista de seus grandes realizadores: artistas como Shepard Fairey, Ron English, Dot Masters, Swoon e vários outros. O filme dá mais uma reviravolta quando Banksy incentiva Guetta a se tornar um artista. Incentivado pelo amigo, Guetta espalha pela cidade de Los Angeles um stêncil de si

Vinicius Vermiglio

mesmo segurando uma filmadora e atinge o estrelato em Hollywood com uma exposição de 200 obras, onde em pouco tempo consegue arrecadar 1 milhão de dólares vendendo-as. Além de expor sua arte em Nova York, Londres e até Pequim. O personagem principal do filme é tão caricato que parece ser uma brincadeira muita séria fruto da mente do próprio Banksy, pois em nenhum momento vemos Mr. Brainwash (nome escolhido por Thierry Guetta) criar nada com as próprias mãos. Mais um questionamento do mundo moderno, agora relativo ao próprio movimento da street art: o que faz um artista ser um artista? Fica a pergunta e a divertida discussão sobre o documentário e o que ele quer nos dizer. Ou até se isso é mesmo um documentário!

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Culturas das classes subalternas: entre a visibilidade do capital e a opressão Dennis de Oliveira

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á pouco mais de 20 anos, o pensador estadunidense Samuel Huttington pregava que o conflito geopolítico internacional após o fim da Guerra Fria deslocar-se-ia do viés ideológico (capitalismo versus comunismo) para o “choque de civilizações”, isto é, o conflito de grupos culturais distintos. Por esta razão, Huttington não acreditava na ideia de “fim da história” defendido por outro estadunidense Francis Fukuyama, em função do fim da Guerra Fria, mas a continuidade dos conflitos por outras vieses. É fato que o objetivo desta ideia de Huttington é a defesa da manutenção da extraordinária máquina bélica dos Estados Unidos, que sustenta tanto um setor industrial poderoso, responsável pela maior parte das receitas na balança comercial daquele país, como também da ideologia conservadora que necessita da existência de um “inimigo” para justificar ações de opressão e repressão. Entretanto, é também evidente que

o fim da Guerra Fria trouxe como novidade a emergência de diversos conflitos – não na perspectiva de Huttington de “choque de civilizações” – em função da diversidade cultural ter sido, durante um certo tempo, obliterada pelo conflito central da Guerra Fria.

A extraordinária máquina bélica dos Estados Unidos, que sustenta um setor industrial poderoso [...] necessita da existência de um “inimigo” para justificar ações de opressão e repressão.

As heranças do período da Guerra Fria, discutidas no tópico anterior, deram os contornos da forma que se organizou o mundo nesta globalização. A primeira coisa que 65


A avalanche ideológica conservadora pasteurizou de tal forma o debate político que as antigas divisões ideológicas direita/ esquerda ficaram fragilizadas.

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efervesceu foi a explicitação de conflitos internos mascarados pelo “grande conflito geopolítico mundial” que era a Guerra Fria. Estes conflitos internos explicitaram as intolerâncias étnico-culturais, as divisões internas de grupos entre outros. As preocupações com o problema das intolerâncias étnico-culturais contribuíram para um deslocamento dos conflitos do campo ideológico para o das “diferenças culturais”, surgindo, principalmente nos EUA, o que se convencionou chamar de “esquerda cultural”. No campo acadêmico, alguns pensadores passaram a tratar o problema das diferenciações culturais como elemento chave para refletir sobre os conflitos contemporâneos. O pensador português Boaventura Sousa Santos propôs a chamada “hermenêutica diatópica” como uma metodologia de compreensão e pactuação que articula o direito à diferença e o respeito à dignidade humana. (SANTOS, 1997) Este debate chegou ao âmbito das Nações Unidas, com

a aprovação na Unesco da Convenção de Proteção à Diversidade Cultural, em 2005 e a publicação do Relatório “Investir no Diálogo Intercultural”, em 2009. Estas ações da Unesco mobilizaram pensadores de vários países. A convenção foi assinada por pouco mais de 100 Estados (os EUA não assinaram) e trouxe um novo conflito para a arena geopolítica: o tratamento dos bens culturais como commodities e, portanto, com sua circulação regulada pelos pactos comerciais da OMC (Organização Mundial do Comércio) ou como patrimônios sujeitos, portanto, a políticas regulatórias soberanas dos países. O debate ganha contornos importantes principalmente porque atinge os interesses de um dos pilares de sustentação da nova ordem global, que é a indústria cultural e midiática. O Relatório de 2009 da Unesco constata que os contatos interculturais acontecem objetivamente independente da nossa vontade, em função

de um capital que se globaliza rapidamente e que, na expansão de novos mercados e fronteiras, depara-se com experiências culturais distintas. Além disto, o fluxo global de informações que cresce em função do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação conecta o mundo todo e explicita as diferenças culturais. Diante disto, o Relatório da Unesco defende que os vetores por onde podem fluir os diálogos interculturais são a educação, a língua, a economia e a comunicação. Esta perspectiva da “esquerda cultural” é criticada por Bauman, quando ele afirma que: A nova indiferença à diferença apresenta-se, em teoria, como uma aprovação do “pluralismo cultural”. A prática política constituída e apoiada por esta teoria é definida pelo termo multiculturalismo. Ela é, aparentemente, inspirada pelo postulado da tolerância liberal e do apoio aos direitos das comunidades à independência e à aceitação pública das identidades que escolheram (ou herdaram). Na realidade,

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contudo, o multiculturalismo age como uma força socialmente conservadora. Seu empreendimento é a transformação da desigualdade social, fenômeno cuja aprovação geral é altamente improvável, sob o disfarce da diversidade cultural, ou seja, um fenômeno merecedor do respeito universal e do cultivo cuidadoso. Com esse artifício linguístico, a feiura moral da pobreza se transforma magicamente, como um toque de varinha de condão, no apelo estético da diversidade cultural. (BAUMAN, 2013: P. 46)

Neste debate, há diferentes conceituações de cultura. Nos EUA, a chamada esquerda multicultural surge em oposição a direita fundamentalista em que prega que o conflito atual é a Guerra de Civilizações. O Relatório da Unesco cita a obra de Huttington e faz uma crítica de caráter conceitual, ao afirmar que o erro dela reside no fato de que considera as culturas como entes fechados, autóctones e que, portanto, não são permeáveis a qualquer tipo de diálogo. Bauman (idem), porém, chama a atenção para um aspecto importante que é a 68

transformação de todos os conflitos atuais em dilemas culturais, o que traz o debate político para uma polêmica, ao seu ver incorreta, de mono ou multiculturalismo, de unicidade ou diversidade cultural. Retomando as heranças do período da Guerra Fria, o que ficou foi uma assimetria interna e externa no mundo causada não apenas por diferenças étnicas (embora elas possam ser a expressão mais dinâmica disto e funcionam como arcabouços ideológicos de legitimação das desigualdades), mas por uma brutal concentração de poder e recursos. Os projetos nacional-desenvolvimentistas, identificados com a “esquerda socialista” do Terceiro Mundo, no período da Guerra Fria, são substituídos por formas distintas de inserção na nova ordem global. Os Estados Nacionais destes países se enfraquecem e as elites autocráticas, algumas delas identificadas com estes projetos desenvolvimentistas, ou se rendem a esta nova lógica de articulação com as forças de poder globais ou perdem espaço.

Os projetos nacional-desenvolvimentistas, identificados com a “esquerda socialista” do Terceiro Mundo, no período da Guerra Fria, são substituídos por formas distintas de inserção na nova ordem global.

Assim, nos períodos iniciais do mundo pós-Guerra Fria, a avalanche ideológica conservadora pasteurizou de tal forma o debate político que as antigas divisões ideológicas direita/esquerda ficaram fragilizadas. Várias nações da América Latina se democratizaram, após anos de vigência de ditaduras militares, mas as esferas públicas recém-constituídas foram tomadas por esta configuração cinzenta do debate político-ideológico. Um outro aspecto importante que deve se salientar é que a concentração brutal do capital gerou a necessidade deste mesmo capital em abrir novas fronteiras para reinversões e possibilidades de reprodução. O campo da cultura é uma delas. Daí, então, que a cultura não é apenas o terreno dos novos conflitos em função da emergência da visibilidade das diversidades, mas também o campo de possibilidades de investimentos do capital. As culturas das classes subalternas, em especial nos países da periferia do 69


HUTTINGTON, S. O choque das civilizações e a recomposição da nova ordem mundial. Rio de janeiro: Objetiva, 1997.

SANTOS, Boaventura de Souza. Uma concepção multicultural de direitos humanos. Lua Nova,  São Paulo ,  n. 39,   1997.

UNESCO. Investir no diálogo intercultural. Brasília: Unesco, 2009

Arquivo Pessoal

capitalismo, ficam assim dentro de uma situação de estarem inseridas em um conflito no qual os mecanismos de intolerância e opressão se manifestam cotidianamente, como também são interpelados pela mercantilização oferecida pelo grande capital interessado em abrir estas novas fronteiras de expansão. É por esta razão que visibilidade de culturas periféricas e repressão a movimentos culturais de periferia são dois lados de uma mesma moeda, embora aparentemente sejam contraditórios. Trazer o debate das culturas das classes subalternas para o campo da esfera política é a única forma de impedir que tais manifestações fiquem presas a este duplo grilhão opressivo do capitalismo: a visibilidade gerenciada pelos interesses do capital ou a opressão do sistema.

Dennis de Oliveira. Professor da USP Escola de Comunicações e Artes (ECA) e Escola de Artes, Ciências e HumaniReferências: dades (EACH). Coordenador do CELACC (Centro de EstuBAUMAN, Z. A cultura no mun- dos Latino Americanos sodo líquido-moderno. Rio de Ja- bre Cultura e Comunicação) neiro: Jorge Zahar, 2013 Contato: dennisol@usp.br 70

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Camaleão