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do tio Omar, famoso jornalista que circulava no jet set paquistanês, para tentar descortinar o pai. A inveja que Shani sentia do irmão Omar impulsionou-o para a escrita. Através das letras, território que o irmão famoso dominava, Shani buscava a redenção, e passou a desejar que seu filho, Hanif, também tentasse o caminho das palavras. “Eu havia reconhecido que a leitura de ficção podia ampliar as possibilidades de conscientização, mostrando haver mais sentido e interesse no mundo do que se imaginava. Ler um romance significava conviver com uma pessoa fascinante que nos mostrava seu mundo.” Além de análises mais técnicas sobre a obra do pai, Hanif também discorre sobre as obras que o influenciaram (principalmente Camus, Beckett, Genet e Tchekhov) e sobre sua infância e juventude, quando o racismo ainda imperava nas ruas de Londres, e o jovem tinha que se esgueirar pelas ruas para não ser espancado. Seus dias curtindo Stones, Beatles e Sex Pistols, fumando baseados de boa qualidade e frequentando lugares descolados são eclipsados pelo já maduro Hanif, preocupado com três filhos, questões psicanalíticas e análises da obra de Philip Roth, outra grande influência. É nessa verdadeira salada de ensaio, autobiografia e biografia comentada, que Hanif destila seu talento para mergulhar fundo nos desejos e anseios da máquina humana: “Se ao menos pudéssemos restringir nossa história ao passado, mantendo-a lá... Mas a história

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está a uma piscada, é o presente em outro aspecto. E, ao escrever este livro, fui levado a outros questionamentos, como: qual é a história de cada indivíduo? Onde ela começa e se encerra? E, mais importante, como essa história continua a agir dentro de nós?”. Justamente nesta última pergunta reside o mote de seu último romance, Tenho algo a te dizer, lançado em 2008 na Inglaterra e em 2009 no Brasil. Jamal

“CREIO QUE UM LIVRO SE TORNA UM LIVRO DE VERDADE QUANDO ALGUÉM O ABRE E TENTA PENETRAR SEU SENTIDO” Khan, o protagonista do livro, é um psicanalista atormentado pelo fantasma de um assassinato no passado, e vive, no presente, um pesadelo com seu filho rebelde e uma irmã depressiva que, para sua raiva, começa a ter um caso com seu melhor amigo. O livro é um balanço da sua geração, e página a página somos apresentados à história social da Grã-Bretanha dos últimos 40 anos (Kureishi é um Jonatahn

Cadernos de Não Ficção #3  

Terceiro volume da revista de crítica literária da Não Editora

Cadernos de Não Ficção #3  

Terceiro volume da revista de crítica literária da Não Editora

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