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m uma de suas anotações, publicadas em caixas artesanais e meticulosas ao longo de sua vida (a caixa de 1914, a caixa verde), Duchamp propõe a troca do regard pelo retard. Ou ainda: do mise en regard para o mise en retard, ou seja, da exibição para o atraso, da exposição para a suspensão, do olhar para o gesto. Atrasar o olhar significa apropriar-se da mecânica e do procedimento do objeto artístico, mais do que simplesmente vê-lo. Nas palavras de Duchamp: extrapolar a pintura retiniana. Um exemplo cristalino seria a Gioconda com bigodes – Duchamp, em 1919, capturou um cartão postal do Louvre com a reprodução da Monalisa e, usando um lápis, desenhou bigodes e escreveu embaixo: L. H. O. O. Q., “Ela tem fogo no rabo”, se traduzirmos a leitura rápida das letras em francês. Na década de 1960 Duchamp volta à Monalisa: usa a mesma imagem e a mesma inscrição para a capa de um catálogo, tirando (ou melhor, não colocando) os bigodes e

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Cadernos de Não Ficção #3  

Terceiro volume da revista de crítica literária da Não Editora

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