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rar com a tiragem média brasileira de, com sorte, três mil unidades.) Três milhões – e, não bastasse isso, o livro foi lançado uma semana antes do 11 de setembro. (Em um dos ensaios de How to be alone, Franzen trata justamente do périplo de tentar – ou ter de – divulgar o livro em um ambiente no qual a literatura havia despencado às últimas das prioridades nacionais – um cenário que, em meus dias mais pessimistas, me faz lembrar o pacífico e diplomático Brasil.) Porém alguma e bem-sucedida divulgação foi realizada, pois em pouco tempo o livro já havia incitado uma recorrente e babaca discussão americana, a do ‘Great American Novel’, atraído a atenção da mídia e sido selecionado a integrar o clube do livro da Oprah daquele ano (não será preciso dizer como este selinho alavanca as vendas de um livro – em 2003 Oprah colocou Steinbeck no topo das listas de vendas só com a força de seu endosso). Franzen aceitou, os selinhos foram confeccionados, depois Franzen repensou, hm, sei não, Oprah, o que vão dizer lá em casa, e pronto: elitista. Do dia para a noite, Franzen fora de Grande Escritor Americano a elitista almofadinha bundinha – recusando todas essas coisas que Marx diz que elitistas almofadinhas bundinhas recusam (luta de classes, alienação, Banda Calypso). Oprah e Franzen se desentenderam, Franzen tentou se explicar, Oprah ficou ofendida, o meio literário tomou seu lado na contenda e Jonathan Franzen se estabeleceu como trending topic

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(ou o equivalente da vida real). Não foi de todo inesperado, portanto, que com o lançamento de Freedom Franzen tenha sido capa da revista Time (o primeiro escritor em mais de uma década – o último havia sido Stephen King, em 2000), e, ainda, leitura de verão do presidente Barack Obama (que considerou o livro ‘terrific’, como até mesmo a Wikipedia atesta com suas devidas fontes) – o mesmo Obama que Franzen, em uma entrevista à revista Focus alemã, chamou (carinhosamente) de Papai Noel . E, cereja no topo do bolo, Freedom foi incluído no clube do livro da Oprah de 2010 – uma “obra-prima”, ela afirmou. E Franzen, desta vez, aceitou. Corta para Oprah gritando: Freedoooooooooooooooooom. E Freedom é uma obra tão incrivelmente ambiciosa que seria impossível analisá-la satisfatoriamente aqui (envolveria, sem exagero, construir uma rede de referências cruzadas com Shakespeare, Flaubert, Tolstoi, Thoreau, DeLillo, Pynchon, Ian McEwan e, talvez, o mais recente álbum do Arcade Fire – e eu juro que não estou aqui apenas namedropping). Freedom é gigante, cheio de falhas, compulsivamente legível (mas não mais que As Correções), com personagens obsessivamente construídos, borderline romance engajado, possivelmente eco-chato, e certamente grande candidato a este posto engraçado e desconfortável do grande livro americano que Updike representa tão bem (uh, mais um nome). Mas não tem problema que não dê pra falar mais sobre o livro. O que eu queria mesmo era falar sobre literatura brasileira.

Cadernos de Não Ficção #3  

Terceiro volume da revista de crítica literária da Não Editora

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