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RAFHAEL BARBOSA

RICARDO LÊDO/ARQUIVO GA

E POR QUE NÃO EM ARAPIRACA? Domingo D Do om 11/12/2011

O artista plástico Rogério Gomes está entre os nomes que participam do 27º Salão de Arte da Marinha. B7

Marcos Cajueiro e Tales Maia, da My Midi, no alto da Serra das Microondas, um dos cenários mais imponentes na paisagem da cidade

AÇÃO NA CENA. De Hermeto Pascoal a Fernando Melo e seu Duofel e chegando a João Paulo e Júnior Bocão com o Mopho, o agreste alagoano viu nascer alguns dos principais expoentes da música produzida por aqui nas últimas décadas. Agora, num movimento contínuo, a região se transforma numa espécie de palco para a nova cena independente do estado: de lá vem o som do duo My Midi Valentine, que acaba de lançar The Fall of Mesbla, um dos registros mais surpreendentes da nossa safra recente. Mas eles não estão sozinhos. Com o êxito do álbum, evidenciam o momento de ebulição do Coletivo Popfuzz, criado a partir da união de esforços de jovens músicos de Arapiraca e Maceió – e que injetou ânimo no circuito local. A Gazeta conferiu o disco, acompanhou um dia na rotina do coletivo e foi ao último show produzido por eles para montar uma radiografia dessa história. Não perca do Campeonato Brasileiro. Lançado em outubro para download e disponível em suporte físico a partir desta semana, The Fall of Mesbla mostra uma notável evolução no som da My Midi em relação ao primeiro registro.

RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

Arapiraca, AL – “Toda vez/ que eu fico em casa e você não vem/ Vem logo alguém/ Pra me dizer/ Que viu você com outro amor/ Um outro alguém com que você saiu/ Você dançou/ Quem sabe até/ Você amou/ Mas não ligo não/ Pois sei que é meu seu coração...”. Os versos de Esperando Você, do grupo Baby Som, saem da boca de Marcos Cajueiro, 26. Com a letra na ponta da língua, em seu inseparável teclado Casio ele dedilha o acompanhamento da música. O cenário é o Lago da Perucaba, num início de noite de lua cheia. Aquele seria um dos muitos ‘momentos musicais’ testemunhados pela reportagem ao lado da My Midi Valentine, num encontro que começou à tarde e se estenderia madrugada adentro naquele sábado, 12 de novembro. Para conversar sobre The Fall of Mesbla, segundo e recém-lançado disco do da dupla formada também por Tales Maia, 25, fomos até a cidade dos músicos. Em dia de jogo do ASA, a entrevista não poderia ter sido marcada em outro lugar senão em um bar. Numa das choperias mais badaladas do município, na avenida Ceci Cunha, entre outros assuntos eles falaram sobre o novo trabalho, da atual cena roqueira arapiraquense, de videogames e filmes da Sessão da Tarde e, claro, de futebol. “Se o ASA perder esse jogo vai descer para a Série C, e se ganhar vai continuar tentando se manter na série B”, explica Marcos, com um ouvido no papo e outro na partida contra o Duque de Caxias, pela 36ª rodada da série B

MARCOS CAJUEIRO COMPOSITOR

“Com as bandas nós ensaiávamos e fazíamos show, mas uma hora pesou a necessidade de ter um material. Foi quando eu decidi fazer um projeto paralelo, com instrumentos virtuais, que demandasse menos trabalho”

MATURIDADE Mas o amadurecimento, segundo eles, não está apenas na sonoridade. Todo o processo que levou até a realização do disco foi vivenciado com mais profissionalismo. O êxito da dupla, que tem show agendado para a próxima quarta-feira (14) em São Paulo, no 4º Congresso Nacional Fora do Eixo, reflete também o atual momento do Coletivo Popfuzz (leia nas págs. B2, B5 e B6), do qual são integrantes; com o novo álbum, Marcos e Tales assumem a posição de carrochefe – na qual já estiveram as bandas Super Amarelo e Neon Night Riders. Criada em 2006, a My Midi Valentine nasceu em meio à profusão de bandas que emergiam do coletivo naquele período. “No começo nós fazíamos uma banda por semana, uma para cada gênero que queríamos tocar. Tínhamos muitas bandas, mas nenhuma conseguia gravar. Parecia inviável. Mas o que pesava mesmo era a nossa desorganização. Como a nossa cena tinha essa coisa do ‘do it yourself’ (faça você mesmo), nós precisávamos ter a maturidade de não apenas fazer música, mas também de sermos produtores. Com as bandas nós ensaiávamos e fazíamos show, mas uma hora pesou a necessidade de ter um material. Foi quando eu decidi fazer um projeto paralelo, com instrumentos virtuais, que demandasse menos traba-

lho e responsabilidade coletiva. Acho que a mesma coisa aconteceu com outras bandas de Maceió como a BadRec e a Neon Night Riders, que surgiram dessa falta de concretização das bandas orgânicas”, explica Marcos, que na época era guitarrista da extinta Super Amarelo. Foi assim que, aderindo aos procedimentos digitais, a dupla conseguiu gravar o primeiro disco da Popfuzz, Free Songs to Midi Night, lançado exclusivamente na internet. Tipo de som difícil de classificar, a música da My Midi pode ser inicialmente confundida com o chamado 8-bit, gênero que utiliza efeitos sonoros de videogames. Marcos esclarece: “Eu tive a ideia quando ouvia Belle and Sebastian. Pensei que ficaria legal essas músicas bonitinhas com alguns barulhos futuristas e sons de videogame”, diz ele, recusando o rótulo, que considera uma manifestação nerd muito específica, até xiita. “Depois eu descobri que já existia uma cena que fazia isso. Mas nós fazemos música pop, mais próxima do indie-pop. O que a gente classifica como adventure pop”, pontua.

INFLUÊNCIAS No carro de Tales alguns minutos antes, de Aqualung a Grandaddy percebia-se os indícios da miscelânea que construiu a My Midi Valintine. Buscando na memória, Marcos cita Pink Floyd e The Cure como suas principais influências, enquanto Tales diz ter se iniciado pelo rock nacional antes de descobrir a chamada música alternativa. Para além das influências musicais, em seu trabalho o duo imprime o espírito de uma geração que cresceu em

meio aos dispositivos eletrônicos e principalmente diante da consolidação da world wide web. “Talvez por termos sido criados pela internet, não seguimos guetos. Tivemos acesso à informação chegando de um modo muito democrático, o que proporcionou um ecletismo propriamente dito. Ouvimos de Pink Floyd a The Postal Service, nossas preferências foram as mais embaralhadas possíveis”, diz Tales. No entanto, a influência matriz, segundo Marcos, é a banda finlandesa The Crash. “Eles fazem uma música aparentemente feliz, mas que trata de temas melancólicos”, diz. De volta ao jogo, com lance de Raul para Francimar numa cobrança de falta, o ASA faz o primeiro gol da partida. O bar vem abaixo, mas a dupla tenta manter a concentração na entrevista. Seja na relação com o videogame, na capa que estampa um soldadinho ou nas letras repletas de nostalgia, The Fall Mesbla exala o sentimento daquelas tardes vadias da infância. Se há algo de mal resolvido nesse período da vida de ambos? “Meu psicólogo me proibiu de falar sobre isso”, brinca Tales. “Eu morei algum tempo em Maceió, e algumas coisas ficaram presas. Não acho que é uma celebração gratuita da infância. É efeito das memórias que até hoje repercutem da nossa infância em Arapiraca”, diz Marcos. Tales complementa: “As músicas falam não só sobre a infância, mas também sobre a adolescência, são sobre coisas passadas. É o conforto de lembranças boas”. O agreste alagoano já forneceu ao País talentos como Hermeto Pascoal (da vizinha Lagoa da Canoa), Fernando Melo, do

GERAÇÃO 2.0 Para além das influências musicais, em seu trabalho o duo imprime o espírito de uma geração que cresceu em meio aos dispositivos eletrônicos e principalmente diante da consolidação da world wide web

Duofel, e Júnior Bocão e João Paulo, do Mopho. Ao deixar a capital e retornar para a cidade origem, Marcos, que é estudante de Direto, fez o movimento contrário ao de muitos de sua geração. Hoje uma das cidades que mais crescem não apenas em Alagoas, mas no Brasil, Arapiraca estaria começando a oferecer atrativos até para artistas que fazem um som tão experimental como a My Midi? “Musicalmente Arapiraca ainda está na década de 80, e de um modo ruim”, polemiza Marcos. “A cidade tem hoje mais opções para sair, mais opções de balada. Mas aqui não existe uma cena. Vimos nisso a oportunidade de preencher os espaços vazios. Nós assumimos um papel não somente de artistas, mas de fomentadores. Mesmo porque, fazendo o som que a gente faz, não tocaríamos em lugar nenhum se não promovêssemos nossos próprios shows”, constata. “Assumimos um papel catequizador, de influenciar as pessoas a consumir música alternativa”, acrescenta Tales. “E aqui em Arapiraca existe um ‘apoderamento’ dos espaços públicos que não acontece em Maceió”, compara Marcos, referindo-se ao prestígio das praças e parques junto à população do Agreste. Além do Lago da Perucaba, que concentra restaurantes, bares, espaços de recreação e esportes, a cidade conta com o Parque Ceci Cunha, outro grande centro de convivência ao ar livre que pontualmente também sedia shows abertos ao público; há ainda a Área Verde, utilizada pelos moradores para lazer e exercícios. ‡ Leia mais nas págs. B2, B5 e B6


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GAZETA DE ALAGOAS, 11 de dezembro de 2011, Domingo

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. CD serve como suvenir para os shows, dizem os músicos

MÚSICA DE BRINQUEDO RAFHAEL BARBOSA

Cria da internet, a dupla que ‘recicla’ sons de videogame se rende ao disco físico RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

PAPO CABEÇA Marcos Cajueiro, 26 OS JOGOS ∫ Super Mario Bros 3 (Phantom System) ∫ Super Star Soccer Deluxe (Super Nintendo) ∫ Donkey Kong Country (Super Nintendo) ∫ Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time (Super Nintendo) ∫ Out of This World (Super Nintendo) OS FILMES DA SESSÃO DA TARDE ∫ Hook – A Volta do Capitão Gancho ∫ Os Goonies ∫ Ghost – Do Outro Lado da Vida ∫ Christine – O Carro Assassino ∫ Edward Mãos de Tesoura

Tales Maia, 25 OS JOGOS ∫ Pitfall (Atari) ∫ Alex Kid (Master System) ∫ Donkey Kong Country (Snes) ∫ Duke Nukem 3D (PC) ∫ Diablo (PC) OS FILMES DA SESSÃO DA TARDE ∫ Eternamente Jovem ∫ Hook – A Volta do Capitão Gancho ∫ Esqueceram de Mim ∫ Os Goonies ∫ Quero Ser Grande CONEXÕES SONORAS As bandas que ajudaram a construir a My Midi Valentine

∫ Radiohead ∫ The Crash ∫ The Cure ∫ Pink Floyd ∫ The Postal Service ∫ Belle and Sebastian ∫ Pixies ∫ Pavement ∫ Teenage Fanclub ∫ Grandaddy ∫ Super Amarelo

Arapiraca, AL – Na companhia da My Midi Valentine a música está sempre presente, seja nas conversas, no som do carro ou nas reuniões que antecedem a balada. Antes de partir para um giro pela noite arapiraquense, uma parada na casa de Tales para o chamado ‘esquente’. Música, é claro, não poderia faltar. O repertório vai de Fatboy Slim a Johnny Cash. Na vez de I Will Survive (a versão do Cake), Marcos questiona como a canção teria virado um hino gay, já que ele não enxerga nenhuma conotação homossexual na letra. A turma de amigos concorda. O consenso só deixa de existir quando o tema é a melhor versão do game Don-

key Kong. Os jogos foram uma constante na vida da dupla. Marcos diz que hoje joga muito pouco. Já Tales, “por uma questão de saúde”, garante ter se afastado completamente do ‘vício’. “Eu perdi dez anos da minha vida”. A choperia que exibia a partida do ASA era apenas um dos muitos destinos percorridos pela reportagem no encalço da My Midi. Com o avançar da noite, o botequim NaBaxa, no Lago da Perucaba, era um dos points obrigatórios para quem queria dar uma ‘espiada’ na atual cena musical da cidade. Em seu palco costumam se revezar as principais bandas arapiraquenses. Especialmente naquele sábado, o repertório era de dar inveja aos bares de Maceió. Em execuções ao vivo, canções do Oasis,

Tales e Marcos na Área Verde, espaço que marcou sua adolescência

R.E.M., The Cranberries, Radiohead, Coldplay e Amy Winehouse embalavam a noite. Em fevereiro, o mesmo Lago da Perucaba foi palco do Grito Rock, festival que acontece simultaneamente em dezenas de cidades no Brasil e que pela segunda vez teve uma edição em Arapiraca. A noite teria fim no Mistura Fina, pub conhecido tanto pela caprichada am-

bientação quanto pela qualidade musical. Antes, ainda durante o jogo, um assunto não poderia ficar de fora da conversa. Cria da internet, com The Fall of Mesbla a dupla se rende ao disco físico quando artistas como Wado abandonam o formato para apostar definitivamente na rede. Uma contradição? “O disco é para o orgulho dos pais”,

brinca Marcos, para depois falar sério: “Eu não tenho disco, não coleciono, não ouço. A questão para nós foi a experiência da circulação de bandas. O disco físico serve como suvenir nos shows. É frustrante fazer show e não ter disco, porque sempre tem alguém que não foi lá para ver sua banda, mas chegou lá, viu e gostou, então pergunta pelo CD”.

E A MESBLA COM ISSO? IMAGENS: REPRODUÇÃO

Corruptela de The Fall of Math, disco da banda de post-rock 65daysofstatic, segundo o duo alagoano o título The Fall of Mesbla teria surgido ao acaso, como uma sacada sonora, mas acabou se tornando mais uma entre as camadas nostálgicas do trabalho. Extinta em 1999, a famosa loja de departamentos deixou ‘órfãos’ e ainda hoje desperta saudosismo em muita gente. “Depois a gente percebeu o quanto isso é uma coisa que ainda está na memória das pessoas. E realmente, quando a Mesbla fechou foi meio estranho para a gente por que era uma loja grande, que vendia de tudo. Se você queria comprar roupa ia lá, se queria comprar videogame ia lá, se queria comprar Cavaleiros do Zodíaco ia lá. Parecia que ia acabar o mundo quando ela fechou. Foi um grande choque”, explica Marcos. Mesmo por acaso, a sacada rendeu frutos à My Midi: há duas semanas eles foram destaque na re-

vista do jornal O Globo, com uma reportagem que situava o álbum no contexto do fenômeno desencadeado pelo fim da loja.

CANTAR EM INGLÊS A essa altura, o leitor deve estar se perguntando como uma banda surgida em Arapiraca compõe músicas em inglês para falar de assuntos diretamente ligados ao modo de vida de seus integrantes. O assunto é polêmico. Marcos pede a palavra para um desabafo: “A gente escuta sempre esse questionamento. E o que mais me incomoda é o preconceito, principalmente de pessoas que não ouviram o disco. Como se um artista fosse obrigado a produzir música admitindo regras. As pessoas confundem muito folclore com cultura. Nós vivemos num País miscigenado, que foi feito de misturas. No western spaghetti, os melhores filmes de faroeste foram feitos com produção italiana, rodados na Espanha e com elenco francês”, diz.

Enfático, ele segue a enumerar exemplos: “O show com o maior número de pagantes da história foi uma apresentação do A-ha no Rio de Janeiro. Ou seja, uma banda norueguesa, cantando em inglês, num país de língua portuguesa. Isso é cultura humana. Nossa formação foi ouvindo música estrangeira. Nós dialogamos com o que chegou a nós, se misturou com outras referências, e saiu de novo. O samba, por exemplo, que influencia muitas bandas de sucesso, não chegou com força aqui em Arapiraca. Nesse sentido nossas influências seriam Mastruz com Leite, Magníficos, Baby Som, um forrozinho gostoso que ouvíamos na casa dos nossos tios. A My Midi é cultura, e é cultura arapiraquense”, enfatiza ele. A propósito, o ASA venceu o Duque de Caxias por 2x0, e com a vitória contra o Bragantino por 1x0, no dia 19, garantiu sua permanência na série B do Brasileirão. RB ‡

CRÍTICA

UMA AVENTURA DAS TARDES OCIOSAS RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

A receita básica para falar da My Midi Valentine e seu segundo álbum, The Fall of Mesbla, poderia ser definida como uma mistura de música eletrônica made in Arapiraca, 8-bit do Agreste, ‘homenagem’ à loja de departamentos que faliu, e o vocal ‘difícil’ de Marcos Cajueiro. Esqueça tudo. A música mais original produzida em Alagoas neste ano veio sim de Arapiraca, pode até ser classificada como 8-bit ou outra nomenclatura da moda, e carrega a tal loja de departamentos no título. Mas é muito – muito – mais do que isso. O trabalho reúne faixas dos EPs Infinite Coins e My MIDI, como Endless Skylines e Bicycle Purple Dream, mas são as inéditas que se destacam já na primeira audição. O início ‘auto-tunado’ com Press Start e a sequência com a melódica

Hammer é a carta de intenções do duo, condensando experimentalismo e apelo pop. O sample de Sonny & Cher em I Got You Babe surpreende e abre espaço para o teclado viajante e a batida cadenciada. Seja na ingenuidade de Continue? ou na levada rítmica da pungente Junkie, os timbres se acumulam para formar o todo, um punhado coerente de paisagens sonoro-imagéticas que confere sentimento a uma sonoridade tão metálica, alquebrada, processada e reprocessada para ser a trilha sonora de um mundo cada vez menor. Não há mais grandes distâncias separando o interior de Alagoas, Manchester, Williamsburg (bairro nova-iorquino) e a rua Augusta, em Sampa. Os beats de ILUVU, So Far From Home e 11re Stand Down dão o tom: essa música também foi feita para dançar. O coro na faixa-título parece traduzir o que

foi a gravação do disco: amigos fazendo um som. Um grande mosaico-demente de pré-adolescências passadas jogando videogame e lendo gibi, ou assistindo a Os Goonnies na TV. De tardes ociosas surgiu uma aventura. ‡

Serviço Disco: The Fall of Mesbla Banda: My Midi Valentine Lançamento: Popfuzz Records/Midsummer Madness Preço: R$ 10 Onde encontrar: à venda nos eventos da Popfuzz e disponível para download em mymidivalentine.bandcamp.com


Caderno B 5 B

Domingo, 11 de dezembro de 2011, GAZETA DE ALAGOAS

RICARDO LÊDO/ARQUIVO GA

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Representante do ‘novo ativismo’, a Popfuzz é o braço alagoano de um circuito presente em 25 estados brasileiros

MENOS PAPO, MAIS AÇÃO

Da esquerda para a direita, Lueba, Nina, Nando, Caíque e a colaboradora Rose: a turma da Popfuzz põe a mão na massa e faz acontecer

Integrantes do coletivo avaliam que 2011 foi um ano de conquistas – mas também de muito trabalho CARLA CASTELLOTTI REPÓRTER

Para muita gente, a imagem não sugeriria nada além do que se via: num sábado à tarde, cinco jovens de 20 e poucos anos estavam reunidos na garagem da casa na qual alguns deles vivem, no bairro do Feitosa. Confeccionavam pufes feitos de garrafa PET, mas, mais do que um grupo de amigos tentando reciclar o que em geral vai parar no lixo, ali o Coletivo Popfuzz dava sequência a uma de suas inúmeras ações. Com inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, o CNPJ, e formalmente constituída como associação sem fins lucrativos, a Popfuzz nem sempre teve a organização que possui hoje. Há sete anos, o embrião do coletivo nascia como uma simples ação entre amigos cuja meta era viabilizar shows – criando espaço para que suas próprias bandas tocassem. Isso até dois anos atrás, quando, em novembro de 2009, a turma resolveu vestir a camisa e levantar a bandeira do Circuito Fora do Eixo. O start na tão sonhada profissionalização se deu sem investimento financeiro. Nando Magalhães, 23, um dos ‘cabeças’ do coletivo, conta que tudo começou com a união da “força de trabalho” dos amigos. E embora a parceria com o Fora do Eixo tenha sido iniciada há pouco tempo, 2011 já é considerado um divisor de águas na atuação do grupo. “Somente neste ano inscrevemos seis projetos. Estar ligado ao FDE nos dá um lastro”, observa Nando.

Idealizado por Pablo Capilé, de Cuiabá, Talles Lopes, de Uberlândia, e Daniel Zen, de Rio Branco (hoje secretário de Cultura do Acre), o Fora do Eixo foi fundado em 2005. Cinco anos depois, a empreitada deu tão certo que o circuito está presente em 25 dos 27 estados do País, desenvolve ações em países como a Argentina, o Chile e o Uruguai e, no início deste ano, montou seu quartel-general no ‘coração’ do eixo, em São Paulo. Às vésperas do 4º Congresso Fora do Eixo, que acontece entre os próximos dias 13 e 15, outro sinal de prosperidade da iniciativa são os patrocínios angariados. Entre eles, o da gigante Fundação Vale, sem contar o apoio do Auditório Ibirapuera, atualmente sob a gestão do Instituto Itaú Cultural.

MOMENTO DECISIVO Apontado como decisivo, o ingresso do Coletivo Popfuzz no Fora do Eixo tem possibilitado a abertura de portas outrora fechadas no cenário da produção cultural em Alagoas. “Integrar o circuito nos dá uma espécie de selo de qualidade. Nós participamos de uma rede que produz cinco mil eventos por ano”, enfatiza Nando. “Neste ano chegamos a fazer cinco eventos em um único mês. Antigamente levávamos muito prejuízo, a gente deve ter passado três anos levando ‘cano’”, diverte-se ele, para em seguida enumerar as conquistas do coletivo: “Hoje em dia a gente recebe email dos produtores nos convidando para promover eventos em espaços como o Barroco, o Oráku-

lo e o Banga Bar. E em Arapiraca fizemos uma semana de shows com cachê para as bandas, isso com verba proveniente do Ponto de Cultura e da Prefeitura”, assinala. Junto à batalha para viabilizar as produções, uma espécie de bandeira política. Como braço do FDE em Alagoas, uma das obrigações da Popfuzz é disseminar as diretrizes do circuito cuja atuação, diz Nando, também pode ser entendida como a de um movimento social. E embora os rapazes cultivem barba e vez por outra reproduzam palavras de ordem, eles são os primeiros a dizer que de marxista seu ativismo não tem nada. “É a mutação de diversos processos, conseguindo dialogar tanto com as empresas privadas que visam o lucro, quanto com a turma anarquista que ‘mete o pau’ no Estado. A gente busca a convergência”, afirma ele. Ao contrário das gerações que buscavam nas teorias a explicação para as desigualdades, a Popfuzz tenta mudar o cenário com ações calcadas na circulação de bandas e de informação Brasil afora. Definida pelo sociólogo Cláudio Prado de “geração pósrancor”, a turma do FDE, segundo o pensador paulista, “não fica presa às questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito”. “Ninguém aqui é contra ganhar dinheiro; o que se pretende é produzir mais shows, distribuindo mais essa grana”, argumenta Luis Roberto Farias, o Lueba, 27, advogado e integrante do grupo. JOÃO SCHWARTZ/DIVULGAÇÃO

Com gente saindo ‘pelo ladrão’, o Popfuzz na Cozinha faz sucesso e garante uma grana extra ao coletivo

NA TRINCHEIRA DOS LAPTOPS De volta ao começo da história, ao dar um dos passos mais ousados de sua trajetória a Popfuzz alugou um imóvel para fazer as vezes de escritório do coletivo. Depois, a casa no Feitosa acabou por se transformar em morada de três dos cerca de 20 integrantes do grupo – e não demorou para se tornar palco de eventos. “Hoje moramos na casa eu, Rodolfo (Lima) e Caíque (Guimarães). Não fazemos nenhuma outra coisa, não temos nenhum outro trabalho, senão as atividades do coletivo. Não temos uma receita fixa, mas nós pagamos as contas”, conta Nando Magalhães. Na despensa da casa não falta macarrão instantâneo, na geladeira não falta salsicha, e contas como luz, água e o próprio aluguel estão em dia. A manutenção do espaço é feita com a receita dos shows e festas produzidas por eles, que também contam com a contribuição de outros amigos e incentivadores do projeto. “Como qualquer associação sem fins lucrativos, somos custeados com as contribuições dos associados. Há meses em que arrecadamos mais grana, outros menos, e aqueles em que a renda dos shows contribui e até vêm doações de fora”, explica Lueba. Em dez meses como ‘donos’ da casa, os integrantes da Popfuzz acreditam que a organização dos shows e dos festivais Maionese e Grito Rock, ambos sob o guarda-chuva do coletivo, está cada vez melhor. Embora ainda não se qualifiquem como profissionais, eles dizem tocar as ações de modo autônomo. “Se logo no começo a gente bancava a casa com grana dos pais ou dos integrantes que ‘trampam’, ho-

je a gente não precisa mais receber esse dinheiro”, conta Nando. Ainda assim, o chamado ‘núcleo duro’ do coletivo, composto por Caíque Guimarães, que é biólogo, Rodolfo Lima, jornalista, e Nando Magalhães, psicólogo, não é completamente emancipado dos pais. O ‘caixa coletivo’, que reúne toda a captação de recursos da Popfuzz e fica aberto para as necessidades de cada integrante do grupo, é suficiente para pagar as contas da casa e a alimentação, mas não supre necessidades individuais como a compra de uma escova de dente, por exemplo. Com iniciativas simples, no entanto, eles têm conseguido arrecadar algum dinheiro. “A gente trabalha com todas as possibilidades de captação de renda possível. Fazemos eventos como o Popfuzz na Cozinha, que inclusive foi o que ‘salvou’ a gente durante uns quatro meses. Ficamos impressionados, porque o dinheiro vinha unicamente da venda de cerveja. Há dois meses, Caíque e o ilustrador Pablo (Sanches, que também colabora com o coletivo) foram ministrar oficinas em Souza, na Paraíba, e receberam um cachê de R$ 2 mil”, diz Nando.

FUTURO Com seis projetos inscritos em editais federais e um deles aprovado na Lei Rouanet para captação recursos para o Jaraguá Folia – o que consequentemente vai favorecer o Grito Rock, festival aberto ao público que rola durante as prévias carnavalescas da cidade –, a Popfuzz espera ter uma atuação ainda mais ampla em 2012. Muitas dessas iniciativas, porém, só foram possíveis depois do contato com Pa-

blo Capilé, figura que representa uma espécie de líder carismático dessa turma. “O Pablo dizia que tínhamos de nos posicionar, porque fazíamos muita coisa como troca de favores. Ele nos mostrou que estávamos prestando um serviço. Se os serviços não estivessem em pé de igualdade, eles teriam que compensar com dinheiro”, relembra Lueba. Na espera pelos acontecimentos, os integrantes contam que mesmo conseguindo manter algum diálogo com os gestores culturais do Estado e do município na tentativa de obter recursos, uma Lei de Incentivo à Cultura faz, sim, falta. Isso sem falar da incipiente estrutura pública para shows em Maceió e da conhecida dificuldade para conseguir apoio para a logística dos eventos. “Não é simplesmente pegar uma caixa de som de igreja, um microfone, alugar uma bateria e dizer: ‘Agora toca’”, queixa-se Nina Magalhães, 26. Enquanto isso, na trincheira de laptops (alguns deles herdados de coletivos de outros estados) montada na cozinha da sede da Popfuzz, eles planejam chegar cada vez mais longe. O próximo Maionese, principal evento do calendário do coletivo, mudará de data. Nando anuncia que em 2012 a oitava edição da festa vai acontecer em novembro, não apenas para tentar alcançar um público maior, mas para fazer da data um dado estratégico diante de tantos outros festivais do circuito independente. No próximo ano também, diz ele, o Maionese pela primeira vez terá uma atração internacional. Mas afinal, qual o objetivo disso tudo? “Dominar o mundo”, divertem-se eles. CC ‡


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GAZETA DE ALAGOAS, 11 de dezembro de 2011, Domingo

JOÃO SCHWARTZ/DIVULGAÇÃO

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Apresentação atraiu a maior plateia do coletivo alagoano em 2011

Público e banda em comoção no show dos Móveis no Orákulo, em Jaraguá

BALANÇO PARCIAL

Com recorde de público e sabor de sucesso, show do Móveis Coloniais de Acaju tirou a Popfuzz do underground RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

Nem mesmo um pneu de avião furado foi capaz de atrapalhar a passagem dos Móveis Coloniais de Acaju pela cidade, no dia 1º de dezembro. O insólito contratempo foi responsável pelas mais de 14h de viagem entre Porto Alegre e Maceió, a primeira parada da etapa nordestina do Projeto Rotas Musicais – e da turnê de divulgação do segundo disco da banda brasiliense, C_mpl_te, e do DVD Ao Vivo no Auditório Ibirapuera, que passaria

ainda por Recife, João Pessoa e Natal. Produzida pelo Coletivo Popfuzz, a noitada contou com abertura da local Dad Fucked and The Mad Skunks e dos potiguares da Camarones Orquestra Guitarrística. Cerca de 550 pessoas saíram de casa numa noite de quinta-feira e pagaram pela oportunidade de conferir in loco a ‘fórmula’ dos brasilienses – que combinam vitalidade no palco com muito planejamento fora dele. Mas para entender isso melhor é preciso voltar no tempo, mais precisamente

a 2006, ano da primeira passagem dos Móveis por aqui – eles vieram divulgar seu disco de estreia, Idem. O show, realizado na extinta Fábrica 86, ganhou status de lenda na visão de não mais que 50 testemunhas (as mesmas que compareciam a todos os shows de bandas independentes na época). O cenário era (quase) de mais gente no palco do que na plateia, que saiu fisgada pela ‘feijoada búlgara’ dos nove integrantes e propagou o trabalho do grupo até cinco anos depois: a ação multiplicou o

‘Moeda própria’ gera polêmica Aparentemente muito bem intencionada, a turma do Fora do Eixo tem despertado alguma polêmica no meio musical. Entre as diretrizes que movem o circuito (eles seguem os princípios da economia solidária e do trabalho colaborativo) há espaço até para uma moeda própria, o Fora do Eixo Card. “É uma moeda complementar que usamos para sistematizar as trocas

de serviços com nossos parceiros e fornecedores. É uma ferramenta pensada para o desenvolvimento local”, explica Nando. É com essa espécie de cachê virtual que 67% das ações da rede são financiadas, e com ele também são pagas, quando necessário, as bandas que rodam o País a bordo das atividades do coletivo. É justamente aí que reside a controvérsia. Um dos

mais empenhados críticos do formato, no mês passado o músico China causou burburinho ao atacar o circuito nas redes sociais. “Vivo da música e preciso receber os cachês dos shows para conseguir sobreviver. Ainda não estão aceitando Cubo Card (uma das moedas do FDE) na padaria e em nenhuma conta que eu tenho que pagar no fim do mês”, bradou ele.

público por dez e foi responsável por um dos maiores êxitos da banda no Nordeste – e pelo maior da Popfuzz, que em 2011 contabilizou 14 apresentações e três festivais que movimentaram 59 bandas, locais e nacionais. Antes do show, o produtor (e décimo integrante do grupo) Fabrício Ofuji e o flautista Beto Mejia participaram da abertura do II Comúsica, no auditório do Sesc Poço, dividindo a experiência de mais de dez anos de carreira no circuito independente com jornalistas, pesquisadores e estudantes. O bem-sucedido modelo que os Móveis oferecem às bandas novas é calcado na participação ativa de todo o grupo em cada passo do gerenciamento da própria carreira. Da marcação de shows e turnês à presença nas redes sociais e no site da própria banda, passando pela criação de produtos para a loja oficial e pela assessoria de imprensa. Colhendo os frutos do trabalho árduo que é formar público na cena musical independente no Brasil, o sucesso da fórmula criada pelos Móveis já começa a dar sinais de desgaste. O grupo agora fala

em aumentar seu staff para atender às demandas de banda emergente que aliás já possui um festival próprio, o Móveis Convida, realizado anualmente em Brasília. Após o bate-papo e dessa vez no palco, é ao vivo que as coisas se decidem. Aí fica fácil teorizar sobre o sucesso dos Móveis Coloniais de Acaju. Identificação, comunhão total entre palco e plateia. Genuína alegria em cantar mantras que soam como hinos entoados a plenos pulmões por verdadeiros devotos que aguardaram anos para ver sua banda favorita tocar. Na linhagem do pop nacional dos anos 2000 é possível alocar os Móveis como herdeiros diretos dos cariocas Los Hermanos. A comoção ao vivo é bastante semelhante: é quando o fã se transforma em torcedor; carrega a banda e é carregado por ela. Na execução de músicas como O Tempo, CãoGuia e a melódica e autobiográfica Adeus, era difícil ouvir a voz do vocalista André Gonzales. Devoção que atingiu em cheio a banda ao perceber que havia demorado tanto tempo para voltar. ‡

A Popfuzz em números Com foco no rock e privilegiando artistas com repertório autoral, o coletivo alagoano apresenta suas realizações em 2011

>> 32 eventos ∫ 3 festivais ∫ 3 oficinas ∫ 4 sessões do cineclube

∫ 14 shows gratuitos

em 9 locais diferentes, dois deles em Arapiraca

>> 59 bandas ∫ 35 alagoanas

(6 de Arapiraca) ∫ 6 pernambucanas ∫ 4 sergipanas ∫ 4 potiguares ∫ 2 paraibanas ∫ 1 baiana ∫ 5 do Sudeste (3 paulistas, 1 mineira e 1 capixaba) ∫ 1 do Centro-Oeste ∫ 1 do Sul

>> 18 atividades de formação ∫ 6 debates ∫ 6 oficinas ∫ 5 palestras ∫ 1 workshop >> 13 discos lançados (em formato físico e liberados na internet para download gratuito) de 9 bandas diferentes

CONFIRA Mais imagens do Coletivo Popfuzz em www.flickr.com /cadernob


Popfuzz na Gazeta (DEZ 2011)