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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 2 – O Império dos Vampiros

esumo

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 2 – O Império dos Vampiros

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Feito por:

AnDREIA ANDYINHA JULIANA KENIA TATIANA

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 2 – O Império dos Vampiros

SINOPSE: Após cinco anos, Jan Kamn volta a São Luís na companhia do Rei dos vampiros, o milenar Ariel Simon. As ruas da cidade estão tomadas por boatos. Um manuscrito promete revelar aos mortais os segredos de um reino guardado a sete chaves. Mas o que os cidadãos nem imaginam é que um ser maldito está à solta, fazendo vitimas que logo despertarão com sede de sangue. Para impedir que o caos se espalhe, vampiros dos quatros cantos do mundo se reunirão em arena para decidir o destino dos imortais. Entre alianças e desavenças, os inimigos do rei não hesitarão em, tentar derrubá-lo e roubar sua coroa. Dando seqüência à jornada de horror, intrigas e sedução iniciada em Alma e sangue – O Despertar do Vampiro, a heroína Kara Ramos se vê agora como peça central desse jogo de sucessão e morte, e terá de lutar sozinha pela vida daqueles que ama. E quando o círculo se fechar e tudo parecer estar perdido, uma nova esperança brilhará para Kara, iluminada ao amor que a uma a Jan Kmam.

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UNIDADE I SEGREDOS DE SANGUE

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1. PARIS, FRANÇA No apartamento só se ouvia o tique-taque do relógio de peso, uma jóia feita há séculos para marcar o tempo. As janelas estavam cobertas por espessas persianas que permitiam a Jan Kmam dormir na cama. Tinham sido fabricadas por um engenheiro militar chamado Bertrand e eram de uma mistura de metais capazes de deter o fogo e o sol. Depois de instaladas, elas mantinham o ambiente protegido, o que poderia ser útil no caso de ataques. O vampiro dormia de bruços sobre os lençóis de seda negra com o rosto metido na camisola de Kara. Um hábito antigo que mantinha sem culpa. A beleza do corpo másculo e pálido era um convite irrecusável aos olhos. Seu aroma estava no ar. Os cabelos em desalinho sobre os travesseiros. Despertou de um salto e sussurrou ofegante: - Kara!... Sua presença o rodeava num pedido de socorro muito fraco. Cobriu o rosto com as mãos e tocou as têmporas, deixou por fim os olhos surgirem debaixo das palmas. Fitou o quadro pendurado diante da cama e viu sua amante plena em beleza e encanto. Vestida em uma de suas camisas, ela parecia enfrentar seu olhar de modo enigmático. Nos lábios vermelhos, um sorriso quase infantil, porém diabólico. Ele conhecia seus mistérios. A pintura estava impregnada com seu sortilégio único capaz de seduzir até mesmo o espectador mais insensível. Era quase palpável. A alma de Kara havia sido capturada pelo pintor. Ele havia conseguido dar à simples tela a força sobrenatural de uma vampira com uma doçura tão inebriante quanto as das rosas que amava. Talvez fosse por isso que a fizesse tão singular, as rosas. Ela as espalhava pela casa, no banho, nos travesseiros, nas páginas dos livros que lia, guardava pétalas até dentro dos bolsos. O vampiro quase riu lembrado-se de suas surpresa. Era poderosa e irresistível na hora de satisfazer seus desejos, no entanto em seus braços, não passava de uma menina que já se acreditava adulta. Ele fitava a rosa tatuada em seu seio que parecia espiar para fora da camisa. Os olhos de Jan Kmam passearam pelo ventre liso, sobre os pelos negros que sumiam dentro da seda, pela coxa firme. Sua seminudez era encantadora demais para que o vampiro não odiasse os olhos e mãos que ali a fixaram. Maldito pintor. Sua presença estava em todos os cantos do apartamento, nos detalhes da decoração que escolheu e nos livros que tocara, porém na tela estava mais forte que nunca. Para seu desespero, onde realmente deveria estar ela sumia. Jan tocou o relicário e tentou chamá-la mentalmente, mas só havia silencio. Por um momento acreditou estar sendo acometido por um surto de loucura. A situação era inconcebível. Ela não o estava afastando de sua mente, simplesmente sua presença tinha sido apagada. Deixou sua cama, vestiu seu roupão e continuou tentando contato, sem sucesso. - Kara! Não, de novo não, meu amor Esmurrou a mesa próxima estraçalhando-a. Era como de houvessem destruído Kara. Havia acontecido alguma coisa. Vestia-se apressado quando o celular tocou, imaginou o pior, foi impossível evitar. As noticias não o surpreenderam. Ouviu com atenção, trocando monossílabos como Togo, uma espécie de policial no mundo dos vampiros. Era dele o comando da Ordem dos Pacificadores, responsável pela manutenção dos segredos dos vampiros e por assuntos ligados à lei e à segurança, inclusive a do rei. Ao desligar o aparelho, Kmam percebeu que o peito reclamava oprimido. Enfiou algumas roupas na mochila de couro, pegou a jaqueta e a espada e partiu. Uma hora depois , Otavio e o rei Ariel Simon chegavam ao apartamento de Jan e Kara. - Não há ninguém. - Tenho as chaves – falou Otavio, para logo depois abrir a porta. Ariel Simon lançou um olhar significativo em direção ao irmão, algo estava acontecendo. Com as mãos perdidas dentro do bolso do sobretudo, Ariel andou pelo apartamento refazendo os passos de Jan Kmam lentamente, sua presença ainda estava forte. Fitou as paredes e viu vazios os ganchos onde a espada de seu preferido costumava repousar. Parou no meio da sala ampla e Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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percebeu a pressa de Jan nas gavetas abertas, no leito desfeito. O celular de Ariel tocou dentro de sue bolso. Era togo. Tinha más noticias, mais um Sentinela havia sido assassinado, e o vampiro por ele protegido raptado. Era o quinto num curto intervalo de três anos. Tais acontecimentos haviam forçado a Ordem a estabelecer duplas, para que trabalhassem resguardados. Graças a isso, o segundo Sentinela estava vivo e tinha informações. Testemunhou fatos reveladores, informações que Ariel vinha ocultando há séculos dos Cinco Poderes. O mundo vampiro possui organização e leis do mesmo modo que o mundo humano mortal. Poderes, cinco deles regidos por um rei. O conselho, o quarto poder, era o lugar ideal para um jovem vampiro com sede de disputa e ascensão. A Ordem orgulhava-se por ter os melhores soldados sob seu comando, e pertencer ao terceiro poder era privilégio conseguido com força, coragem e destreza. Era deles a função de defender o rei e o Livro, posição nobre. O segundo poder, A casa dos Lordes, reunia a herança sanguínea dos mais antigos, enquanto o terceiro poder é o lugar em que o rei busca apoio quando a disputa tem como base essa herança. O rei é o primeiro poder e é em sua pessoa em que todos os demais se apóiam. O Livro obedece e faz dele sua voz para governar os filhos da noite, os deuses feitos de carne e sangue. - Membro do Conselho? – quis saber o rei, tentando não pensar no pior. Há poucas horas tinha sentido o coração saltar no peito agoniado. A imagem de Kara encheu sua mente. - Não trata-se de Kara, a escolhida de seu favorito. Marques morreu para defendê-la. Era um dos melhores – revelou Togo, com cautela e preocupação. - Avisou a Jan Kmam? - Por lei, o mestre é o primeiro a saber. Ele já está a caminho do Brasil – Togo percebeu o aborrecimento de rei com suas decisões. - Romano e os demais Lordes já sabem? - Sim, eles sentiram e esperam somente suas decisões. - Como você deveria ter esperado, afinal conhece as implicações. Agora são dois correndo perigo – lamentou contido. Estava realmente perturbado com as noticias. - Sinto majestade, mas nada o deteria. Kmam sentiu o contato entre eles ser desfeito. - Convoque a Ordem, quero – a de prontidão - Assim será feito, majestade. Otávio e Asti esperavam a distância, interrogativos. O rei explicou a situação em poucas palavras. Otavio isolou-se num pesado silêncio. Asti estendeu a mão tentando tocar seu ombro, mas ele recuou. Cansada de lutar contra a recente frieza de Otavio, resolveu ir embora com a desculpa de fazer as malas. A essa altura o rei já havia se afastado, seus passos o levaram ao quarto do casal. Ele conhecia bem o caminho. Seus olhos notaram de imediato o manto de veludo ocultando algo na parede, aquilo era novo. Ariel desvendou o quadro num puxão e deparou co o sorriso de Kara. Sentou-se na poltrona mais próxima, para vagarosamente, deixar que seu olhar pousasse na sobre a pintura com muita atenção. Kara parecia destinada a ser retratada em telas e objetos como um ser mítico. Primeiro, dentro do relicário de prata, que Jan Kmam não tirava do pescoço por temer se separar da única lembrança que possuía da mulher amada. Anos depois, como o mais doce de seus mistérios. Parado na porta do quarto. Otavio fitava o irmão com muita atenção. Ariel desviou o olhar temendo que notasse suas emoções, desconfiasse de algo. Era exótica como uma deusa que os artistas insistem em retratar, tentando tocar sua imortalidade através da arte, mas ela estava bem diferente, e ele sabia o quanto. Poe vezes, ainda podia sentir o sabor de seus lábios. Há um ano a teve em seu poder. Ariel ainda trazia vívida na lembrança a maciez de sua boca, seu corpo delicado. Guardou no olfato o sweu cheiro doce de rosas, a delicadeza dos cachos. O sabor de seu sangue e o som de seu coração ainda embalava sua solidão. Abriu os olhos e encontrou Otávio bem de perto sondando seus gestos. O que estava diante dele não era uma pintura, uma obra de arte bem concebida. Era o olhar mortal sobre a imortalidade, o sobrenatural, a beleza de uma vampira. Porventura, o pintor saberia o que teve diante de si? O artista precisava ser morto, provavelmente Jan Kmam havia feito isso. Pelo modo como cobriu o quadro antes da sua saída apressada, o ciúme o torturava mentalmente. - Quem teve tão encantadora idéia? – perguntou o rei, voltando à frieza habitual.

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- Kara, para comemorar cinco anos de união. Ela se prende aos costumes mortais e Jan aceita como um cordeiro. - Deixe que ele a mime como bem quiser. Ela merece que seus menores desejos sejam realizados, pensou. - Ela queria presentear Jan com algo diferente, então procurou um pintor desconhecido e fez o primeiro quadro. – Otavio viu os olhos do rei brilharem deslumbrados. - Quantos são? - Três. Venha compartilhe comigo algumas certezas. Ariel seguiu Otávio até a sala de música, fingindo não esta familiarizado com o apartamento. Seguiu o irmão até um espaço separado por ladrilhos de vidro. Lá, resguardados, ficavam o piano diante da grande janela, a harpa e demais instrumentos que o casal de vampiros costumava tocar. E finalmente os cavaletes de costa para a entrada, cobertos. Otávio descobriu o primeiro quadro e viu os olhos do rei faiscarem. Trazia Kara em seu vestido negro, altiva e espectral. - Este sorriso é perfeito. Parece viva – murmurou Ariel, semicerrado os olhos. - Estes quadros trouxeram muito aborrecimento a Jan Kmam. Ele não a divide com ninguém e no ultimo ano se tornou mais possessivo. Certamente este é o que mais revolta trouxe ao coração de nosso ciumento Jan – Otávio desvendou a última tela. Ariel recuou como se houvesse sido tocado por algo, talvez uma verdade inegável, o tempo havia passado, mas ela jamais mudaria. Estava óbvia a cadeia sanguínea que os ligava através de Otávio, o criador de Jan Kmam, e que agora encontrava abrigo em tão singular criatura. Era sabido de todos que nos primeiros anos ele a seguia temendo por sua segurança quando ela buscava saciar sua sede de sangue. Kara lhe trouxe medo, paixão e vida. O artista absorveu no exato momento em que o pincel a desenhou. A cena retratada beirava a simplicidade, o observador sentia-se compelido a ficar a sós com o quadro, com ela, pois a tela invadia sua intimidade a ponto de fazê-lo se envergonhar do ato de admirá-la. Estava em um divã de veludo cor de sangue, com almofadas de damasco dourado, nas quais o acetinado perdia o brilho comparado à pele leitosa. As mãos delicadas da vampira as puxavam de encontro ao colo. A rosa tatuada saltava sanguínea pedindo, quem sabe, um beijo. Havia a sensação nítida de vê-la chegando de modo felino deitando sobre o veludo. Mão no queixo apoiando a cabeça, os cachos despencado, mantinha as pernas lisas e flexionadas. Bastaria estender as mãos para tocá-la. Até mesmo a morte poderia lhe invejar a beleza e a paixão daquele corpo extraordinário. - Por uma jóia tão preciosa, um rei seria capaz de sacrificar seus soldados, o reino e o próprio trono. Ir ao inferno somente para possuí-la – murmurou Ariel sem medo, deslizando os dedos pela pintura. Há quase cinco anos o rei sentia a presença de Kara. Sua alma tocou a dela, invadiu seu mundo, surgiu em seus sonhos e o enlouqueceu. Ariel lutava com um titã em forma de vampira. Jan Kmam havia perdido o poder de senti-la, mas ele não. A vampira estava viva, em algum ponto além de seu poder de visão. Otávio sequer desconfiou quando Ariel sugeriu a visita ao seu favorito. O que o rei necessitava era rever Kara, mas no meio da viagem foi surpreendido por seu medo. Tudo que restava era averiguar seu desaparecimento. Ninguém precisava saber, muito menos o mestre dela. A revelação o encheria de ciúmes e o frustraria. Faria milhões de pergunta às quais não desejava responder. No entanto, o modo que partiu sem nada dizer a Otávio mostrava que o vampira estava prevenido. O incidente a um ano o tinha deixado cauteloso, certamente havia sentido seu cheiro em Kara e desconfiado do contato. Temia por seu sangue, mesmo sem conhecer o enorme perigo que a rodeava. Jan Kmam ficaria mortificado diante de tais observações e certamente faria o que prometeu desde o primeiro instante em que viu as telas. Ele as colocaria dentro de um cofre na Suíça, mas agora era tarde, a confusão já havia começado. Uma cadeia de eventos se seguiria, como dominós que caem uns sobre os outros, só parando quando a última peça tomba no chão.

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2. SOB O VÉU DA ILUSÃO Jan Kmam chegou ao Brasil e foi transportado para um hotel no centro de São Luís. Assim que a noite caiu sobre a cidade, ele cruzou as portas de vidro rumo à rua. Ali na calçada do hotel ele respirou a mistura adocicada, sufocante e peculiar da brisa impregnada com o cheiro das Alamedas. Sentiu-se em casa e compelido a andar. A magia de São Luís o havia tocado novamente. Aquele pedaço de mundo tinha uma atmosfera especial. Sentia o babaçu sendo beneficiado nas fábricas, a lama do mangue, o cheiro de peixe do rio São Francisco mergulhado na escuridão. Os ônibus lotados desciam e subiam ladeiras e ruas, onde o suor e o calor se confundiam. Faróis de carros em movimento e parando em sinais vermelhos que duravam uma eternidade. Espiou o rosto cansado dos vendedores, as portas fechando, desenrolan¬do-se ruidosas, enquanto outras eram abertas para receber o público noturno. Ao andar pela cidade, perdido num emaranhado de sons e lugares novos, perce¬beu que a cidade tinha crescido. Um carro passou na rua e o som melódico do reggae da Poliana fez Jan Kmam voltar o rosto. Aquela era uma das músicas preferidas de Kara, e ela a ouvia com freqüência, talvez por gostar de dançar ou simplesmente para provocá-lo com movimentos insinuantes. Aquela cidade era parte dela mesma, como era dele agora. Ele trazia no bolso uma das cartas de Vitor e achou com facilidade o endereço. Certamente havia estado com Kara e deveria saber do seu paradeiro. Ignorou a portaria do prédio e escalou suas pa¬redes de vidro e concreto. Finalmente, saltou para dentro da sacada da cobertura e encontrou uma das portas da varanda abertas. O luxuoso apartamento estava vazio. A secretária eletrônica estava cheia de recados. Pelo visto Vitor estava desaparecido. Havia uma ligação da polícia. Um detetive o procurava e pedia que entrasse em contato o mais breve possível. Uma jornalista também tinha deixado recado, queria fazer algumas perguntas. Algo estava errado. Vitor teria sido morto? Sem perder tempo, Jan vasculhou tudo, mas nada encontrou que pudesse levá-lo ao paradeiro de Kara. O endereço do laboratório estava na primeira página da agenda. Jan Kmam foi até o quarto e viu o guarda-roupa cheio de belos ternos. A mala estava no fundo do armário. Na mesinha de cabeceira havia algum dinheiro, um talão de cheques e cartões de crédito. Vitor não havia fugido. Jan procurava algo em es¬pecial. Examinou pastas e puxou a gaveta da escrivaninha com violência, cansado da busca infrutífera. Caída no chão, a gaveta revelou as cartas de Kara. A busca havia chegado ao fim. Ele recolheu o saco onde estavam guardadas e saiu do apartamento. Precisava de um canto tranqüilo para ler. Entrou no primeiro bar que encontrou, sentou numa das mesas e pediu um cálice de vinho tinto. Kmam descobriu através das palavras sinceras de sua amante que ela temia perdê-lo para Otávio ou que ele assumisse o controle total de sua vida. Sorriu de seus segredos tão inocentes. Na maioria das cartas ela buscava informações sobre sua família e, algumas vezes, falava do que sentia quando matava para se alimentar. Seu desejo de conceber um filho fez o vampiro suspirar emocionado. Com certo receio, segredava a Vitor os sonhos estranhos que vinha tendo com um vampiro que acreditava ser o rei. A revelação o aborreceu, mas não tanto quanto sua intenção de escrever um manuscrito caso não conseguisse se aproximar de Marcos. Não precisava ler mais nada. Ele pagou a conta e saiu do bar. Entrou no primeiro beco que encontrou, moveu um latão de lixo, jogou as cartas dentro e ateou fogo. A idéia de ver a vampira que amava ser punida pelo Conselho não lhe agradou. Fitava o fogo pensativo e quando tudo se transformou em cinzas, escalou a parede e sumiu. Precisava localizar Kara depressa e destruir o tal manuscrito. Se a conhecia bem, o texto já existia. Uma banca de jornal chamou a atenção de Jan Kmam. Comprou um dos exemplares e finalmente encontrou uma pista concreta sobre o paradeiro de Kara. A matéria falava de um assassinato na velha pensão onde ela tinha insistido em se hospedar. Para completar, tinham surgido corpos sem sangue e com estranhas marcas pelo corpo. De fato, uma coluna inteira de insinuações perigosas e não muito longe da verdade. Jogou o jornal no lixo, mas não antes de ver quem tinha escrito a matéria. Estava furioso. Jan Kmam escolheu o prédio mais alto que encontrou naquela área. No te-lhado, fitava a noite e as ruas. A brisa noturna sacudia seu casaco e os cabelos claros. Riscou no chão de concreto Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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um círculo repleto de símbolos e pôs-se sobre ele. Fechou os olhos e vagou pelas ruas, sentia as pessoas à sua volta. Precisava de uma grande força para usar tal poder; no entanto, valia-se dele há mais de quatrocentos anos. Buscava a mente e o coração de Kara. A pensão não estava longe, mas sabia que ela não estava mais lá. Seus sentidos trabalhavam unicamente para encontrá-la. Estava se pondo vulnerável, vasculhando. Como proteção, só o círculo de poder aos seus pés. Magia? Sim, ele conhecia as velhas artes, não foi por acaso que chegou a ser o favorito do rei. Havia algo diferente na cidade, uma fera sedenta de sangue, um amaldiçoado. Ele o perdeu no meio da confusão humana de medos e desejos sem poder ver sua face. Os homens falavam temerosos sobre as mortes e criavam hipóteses. A palavra vampiro surgiu, mas foi imediatamente ridicularizada. Todavia, os velhos compreendiam os mistérios e a força que pairava sobre a cidade, que se escondia nas sombras. Uma dessas mentes fez o convite. Ela chamava os imortais sem medo. Seus olhos haviam testemunhado algo muito sério e assustador. A velha pensão surgiu como o último lugar a ser visitado em busca de pistas. O último contato feito por Kara vinha de muito longe. Entrou pela janela e percebeu as marcas feitas pela polícia, a presença daquela mesma mente perturbada, o cheiro do sangue. Constatou com alegria que nenhuma gota derramada era de Kara. Não havia nada dela ali. Olhou pela janela e ainda ouvia o convite ser feito à exaustão. Ele vinha de um prédio moderno a poucos metros de onde estava, e foi então que compreendeu tudo vinha de um prédio moderno a poucos metros de onde estava, e foi então que compreendeu tudo. Ele apareceu na janela como uma brisa suave, uma carícia no rosto. Uma mulher por volta de oitenta anos estava sentada em uma cadeira de rodas diante da TV. O quarto era espaçoso e estava cheios de livros, velhos álbuns de recortes de jornal e fotos antigas. Nas paredes havia fotos de uma mulher vibrante com seus filhos e netos. Sobre a mesinha de cabeceira, vários remédios. Nos olhos amarelados e na face enrugada, o toque da morte. Não a morte lenta da velhice, mas a certeza de sua proximidade anunciada por uma doença terminal. Ela desligou a TV e girou a cadeira de rodas em direção à janela. Fitou a noite com a visão precária e dirigiu-se a Jan, como se houvesse sentido a sua presença. - Vamos, entre, não vou fugir com medo. Sei que está na janela, acredita que não reconheceria a presença da morte diante dela? Se aceitou meu convite, por que hesita? O que posso lhe fazer que não fizesse a mim primeiro? Além disso, não estou à espera de Tom Cruise riu e tossiu sem ar, estava ficando ansiosa. O vampiro se revelou. Estava contra luz, o que parecia deixá-lo bem mais espectral do que desejava. Não queria assustá-la, o que acreditou ser impossível. No olhar envelhecido surgiu a admiração. Fascinada com sua aparência, ela não se preocupava com sua segurança, só conseguia pensar na beleza de sua face e no modo como andou até o meio do quarto. Quando foi capaz de falar novamente, expressou toda sua fascinação. - Você é lindo - sussurrou maravilhada, com forças para ir além e bancar a boa anfitriã. Vamos, não fique aí parado, sente-se - pediu mostrando a cadeira próxima. Jan Kmam sentou-se e percebeu que ela estava bastante à vontade na sua presença. Chegou mesmo a ajeitar os cabelos brancos, presos no alto da nuca. Sorriu, pois sabia que era observada. - É, estou velha. O que posso fazer se você demorou a voltar? Como vê, a juventude se foi, estou morrendo. Não me deixe acreditar que estou caduca depois de tanta comida natural e exercícios. - Sabe o que sou? - O mais belo dos fins. Tenho esperado este momento por toda minha vida. Há quarenta anos fui atacada por um de vocês. Desde então os procuro a cada anoitecer. A noite nunca foi tão real aos meus olhos, o amanhecer tão triste. Vou lhe mostrar algo. Moveu a cadeira de rodas e trouxe consigo uma pasta que entregou nas mãos de Jan Kmam. Ele a abriu e deparou com um grande amontoado de notícias, a maioria sobre mortes misteriosas, com fotos de corpos perfurados. O trabalho de um pesquisador, o olhar de um humano sabedor da existência de vampiros ao seu redor. - Por que me convidou, Rosaria? O que espera de mim? - perguntou sabendo que ela guardava algo consigo.

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- Vi um vampiro naquele casarão - apontou além da janela. - Ouvi uma briga, já era madrugada quando chegaram - tossiu, bastante ansiosa. - Rosaria, permite que eu toque sua mente? - pediu, beijando-lhe a mão. - Sim, apesar de não saber o que fará - ela comentou feliz. Jan Kmam sorriu e a fez recuar com medo de seus caninos. Acariciou-lhe a face com a ponta dos dedos e por fim tocou suas têmporas. Um suspiro escapou dos lábios da mulher. Os olhos se arregalaram, fitava um ponto distante. O vampiro estava dentro de sua mente, revirando suas lembranças. Rosaria estava colada ao parapeito da janela com seus binóculos. Era desse modo que passava o tempo, vigiando as pessoas. Localizou a pensão ao ouvir o som da briga. Pela janela aberta, ela percebeu o corpo de Marques no chão; logo depois, viu Vitor ser espancado, a extrema violência usada contra ele e, finalmente, o tiro que o matou. O coração de Rosaria disparou, focalizou o chão e viu sangue, um corpo caído. Ela não suportou a tensão e teve um ataque de tosse, se afastou da janela, mas ainda pôde ver a arca sendo levada por dois vampiros, mas era dia! Como seria possível? Minutos depois, ouviu mais gritos vindos do quarto, um urro quase animal. A polícia chegou, houve correria. Rosaria não viu o corpo cair, mas ouviu o baque, os gritos dos vizinhos. Jan Kmam se afastou da mente da mortal, ela estava fraca e despencou sobre o próprio corpo. Ele a ergueu nos braços e a ouviu murmurar agitadíssima: - Foi maravilhoso. - Acalme-se - pediu, deitando-a sobre os travesseiros. - Não vá ainda. Acabe com isso. Não vou suportar ser deixada novamente. Leve-me com você em suas veias, assim serei eterna como a mulher que procura - murmurou suplicante. Parte do que Jan Kmam era ficou na mente de Rosaria, tornando-o ainda mais fantástico aos seus olhos. Ele sentou na cama, segurou sua mão e pergun-tou-lhe olhando dentro de seus olhos opacos: - É o que realmente deseja? - Não tenho mais o que esperar da vida. Eu estou finalmente em paz - disse, tocando o rosto do vampiro com carinho e admiração. Jan abraçou o corpo frágil e a matou suavemente. A última imagem que a mortal levou consigo foi a de sua face. A mão ossuda cobria a do vampiro, que se curvou reverente, beijou-lhe a testa e fechou seus olhos. Ele partiu levando a tristeza de Rosaria dentro de suas veias. O dia estava por nascer quando mergulhou no seu caixão, lançando o último pensamento para o coração de Kara. Infelizmente, ela não pôde ouvi-lo.

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3. ARIEL SIMON, O REI DOS VAMPIROS Por ser o rei, Ariel Simon despertava antes de qualquer outro vampiro no mundo, estivesse inscrito ou não no Livro. Ele sempre é o primeiro a despertar e permitir que todos os demais façam o mesmo. O criado havia preparado o quarto, as luzes estavam acesas e espessas cortinas tinham sido postas sobre a porta de vidro da varanda. O rei o achou simples, mas confortável. Subitamente, sentiu falta do jardim em Chantilly, pois na França dispunha da tranquilidade e segurança do castelo. Nele desfrutava de horas valiosas durante o dia para fazer negócios, ler, viver, se livrar do peso da coroa. Esteve fora de Paris um mês inteiro resolvendo assuntos do reino. Quando chegou, a primeira coisa que fez foi visitar Otávio, eles precisavam conversar sobre os últimos acontecimentos. Boatos corriam pelo mundo vampiro civilizado. Fitou a noite estabelecida sobre o Brasil. Duas batidas na porta anunciaram a chegada de Max, seu criado. Entrou nos aposentos e se curvou ligeiramente, pois sabia que Ariel detestava mesuras e só as aceitava de seus inimigos. - Boa noite, majestade. - Boa noite, Max - respondeu abrindo as portas de vidro. Ariel se segurou na borda de concreto e aspirou o ar com prazer. De olhos fechados, sentia o cheiro do mar bem próximo. Estava ansioso e sedento. O criado lhe serviu um cálice de sangue. O rei sorveu o líquido em dois ou três goles. Voltou ao quarto e pegou seu violino. Tirou algumas notas perdidas. Ele dominava o instrumento como um grande virtuose, tinha vários deles, alguns raríssimos devido ao tempo de existência. Subitamente a melodia surgiu, era Vivaldi, um dos seus compositores preferidos. A primavera preencheu o quarto. Sentia-se muito bem, e por longos segundos fechou os olhos. Max trabalhava silenciosamente ouvindo o rei tocar. Escolheu um traje e o depositou sobre o leito, fechou a tampa do caixão e o ocultou sobre um manto de veludo com desenhos retangulares. O manto confundia a visão fazendo o objeto parecer bem menor. Ao ouvir as batidas na porta, foi receber a convidada do rei. A jovem mulher usava roupas caras e elegantes e perfume suave. Era alta e magra, do tipo exuberante. Possuía lindos cabelos castanhos. Enquanto Max passava as instruções à jovem, ela só conseguia ouvir a música que preenchia o quarto. Lançou um olhar curioso sobre o ombro do criado e viu as costas de seu acompanhante. Entregou a bolsa e o casaco e seguiu para o local indicado. A música parou, Ariel Simon parecia mais calmo. Voltou ao quarto e aprovou a escolha da roupa para aquela noite. Despiu-se da camisa branca e da calça negra e recebeu nos ombros o roupão de seda. Soltou os cabelos vermelhos e observou o baú de madeira próximo ao leito. Era uma peça rara que guardava várias caixas menores repletas de jóias. Nelas estavam distribuídos vários anéis, broches, moedas, relógios de vários tipos e alguns brincos ao gosto de um pirata. O rei procurava algo específico. Quando fechou o baú, abriu um maior, onde havia um punhal com cabo ricamente decorado e vários sacos de veludo repletos de pequenos mimos, jóias antigas de vítimas e amantes. Finalmente, achou o que buscava, o Ânkh. A jóia era feita de ouro puro, corno a corrente em que jazia pendurado. O amuleto era considerado a chave do Nilo para os egípcios. Ariel o pendurou em volta do pescoço e recebeu mais um cálice de sangue das mãos de Max. Ele havia retirado a garrafa de champanhe, substituído o gelo por água quente e nela depositado uma garrafa com sangue. Enquanto sorvia o sangue, Ariel brincou com um escaravelho de olhos e asas de lápis-lazúli. Naquele baú havia uma fortuna incalculável, cuja cada uma de suas peças marcava um período de tempo, um lugar onde vivera. No entanto, nenhuma das peças significava tanto quanto uma caixa de prata que mantinha trancada em um pequeno cofre. Dentro dela, uma mecha de cabelo negro presa por uma fita vermelha. Ele aspirou o perfume esmaecido e sorriu tornado por doces lembranças, mas elas se tornaram um rio de tristeza. Quando guardou a mecha na caixinha, parecia novamente tenso.

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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 2 – O Império dos Vampiros

Max começou a guardar as caixas a pedido do rei, mas quando pegou a de laca com desenhos japoneses, Ariel mandou que voltasse. Abriu a caixa e encontrou algo adequado para aquela noite. Fitou a joia e percebeu que a pedra era perfeita. Ele colocou o anel no dedo mínimo e esperou o criado se afastar. Ficou diante do espelho e os dedos pálidos tocaram o Ânkh sobre o peito forte e atraente. Por um instante pensou ouvir um riso de mulher rodeá-lo num aviso. Olhou à sua volta e esperou. Conhecia a dona daquela risada, podia vê-la refletida no espelho através de suas lembranças. Os olhos misteriosos, a boca, os lábios. Seu nome? O nome de uma deusa, Afrodite. No banheiro encontrou a sua convidada como esperava, imersa em banho de espuma. O cabelo estava preso no alto da cabeça, seus fios perdidos escorregavam, grudavam-se à pele úmida, lisa e fragrante. O perfume suave da Eau Florale de Lavande de O'occitane imiscuía-se no ambiente junto com o calor do corpo da jovem. Fechou os olhos perdido num campo azulado de lavanda em Provence. A jovem virou o rosto suavemente e encontrou os olhos do vampiro sobre si. Cobriu-se instintivamente e constatou que seu cliente era mais bonito do que supunha. Esperou imóvel com o coração disparado, era medo. Ariel sentou na beirada da banheira para contemplar sua beleza desnuda. O desejo era indisfarçável no olhar fascinante. Ele era a imagem de um leão que observa a presa pacientemente. Tocou o colo, a curva cheia e redonda dos seios, o pescoço esguio. Ariel nada falava, simplesmente deslizou os dedos vagarosamente pela pele úmida e morna. Ele esperava que o coração da mortal se deixasse acalmar. Podia sentir a ansiedade e o desejo que vinham dela. Finalmente, alcançou sua mão para beijar a palma expressando suas intenções. Ela tremeu. - Acalme-se, veio aqui para sentir prazer - depositou um beijo na orelha pequena e delicada. Não haverá medo e posso lhe garantir que se houver dor, ela será minimizada ao máximo - disse tirando o anel do dedo mínimo para passá-lo à mão da jovem mulher. - Qual seu nome? - Virginia - disse ela muito baixo. Ariel tomou sua boca num beijo esfomeado. - Muito prazer - o rei sussurrou, deixando o roupão cair para exibir sua nudez máscula e descorada. Ariel estava dentro da banheira e por algum tempo ele apenas cobriu o corpo de Virginia com beijos e carícias. Quando a puxou para seu colo, as mãos delicadas afagarem suas costas largas, os seios estavam sob sua língua. A mão do vampiro vagava pelo ventre liso. Curvou-se e devorou sua cintura, apertou a nádega fazendo-a gemer e buscar sua boca num sussurro de prazer. A ansiedade crescia à medida que as carícias se intensificavam. A súplica de Virgínia foi atendida. Ariel puxou-a contra o peito enquanto lhe examinava o rosto e os olhos, aspirava seu perfume e o calor que emanava. O corpo ardia de desejo, ela estava pronta. Mergulhou no pescoço primeiro para lambê-lo, beijá-lo, e finalmente mordê-lo. As mãos másculas vagavam sobre a pele carinhosamente, tentando aplacar a dor com prazer, contendo a fuga tardia. O anel de rubi cintilou contra a luz, enquanto a jovem gemia lânguida com os lábios entreabertos. Uma gota de sangue escorregou por seu ombro, percorreu suas costas e despencou dentro da espuma branca. O único som dentro do ambiente era a respiração suave de Virgínia, a única cor, o vermelho de seu sangue. Pouco depois, Ariel esperava-a na sala. Ela surgiu pronta para partir. Um discreto lenço de seda cobria o curativo. O rei estendeu a mão, trouxe-a para junto do peito e beijou-a longamente. Ainda havia muito desejo nele, o coração da mortal era forte, o corpo encantador. A mão do vampiro passeou por sua cintura e vagou pela circunferência do quadril; enquanto sorria, seduzia-a com pequenas carícias. Ariel desatou-lhe o lenço. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Os olhos de Virginia brilhavam cheios de temor, sabia que não resistiria a mais uma mordida. Ariel a acalmou e somente lambeu os furos para que sarassem mais depressa. Antes de sair, Virginia quis lhe devolver o anel de brilhante. - De modo algum, o anel é seu agora. É um diamante tão perfeito quanto você. O rei fitou os lábios rosados e não resistiu, puxou-a para si de modo selvagem e lhe devorou a boca para soltá-la somente minutos depois. - Antes de partir a chamarei novamente - murmurou olhando-a nos olhos. - Estarei a sua espera, Ariel - disse, limpando seu rosto sujo de batom. Ariel tirou um maço de notas do casaco de veludo e colocou na bolsa de Virgínia sob protestos. Ela estava pronta para ceder a seu menor desejo. - Compre roupas novas, uma mulher sempre precisa de roupas novas - disse fechando sua bolsa. Saciado, Ariel sentou na poltrona diante da janela e esperou. Os outros já estavam despertos a essa altura, mas ele ainda tinha algum tempo para pensar sozinho. Contemplava a beleza do Brasil, um mundo que ainda não conhecia, mas que lhe pertencia. Como rei dos vampiros, tinha responsabilidades e deveres, mesmo no Novo Mundo. Conhecia a data do descobrimento, sua evolução ao longo dos muitos séculos que se passaram e os imortais que em suas terras pisaram e morreram. Ariel governava um mundo feito das trevas onde a cidade mergulha depois do entardecer. Seu poder pesa invisível sobre os habitantes. Em suas mãos está o controle, o equilíbrio entre mortais e imortais. A cada nova mordida um risco de revelação, o perigo dentro de um prazer único, necessário a cada vampiro vivo e consciente. O anel de rubi cintilou sanguíneo, era o símbolo do lugar que ocupava. Perguntou-se por quanto tempo mais o usaria. Tinha colocado a joia em 167 d.C. e jamais tirado. Simplesmente não podia, pois o anel não sairia até que existisse outro rei. Costumava distraidamente puxá-lo vez ou outra quase para adivinhar o que viria. Puxou-o e notou que estava tão imóvel quanto no dia em que o colocou pela primeira vez. Muitos tentaram arrancá-lo de sua mão, mas nenhum dos usurpadores teve êxito e no máximo sentiram o aço frio de sua espada real. O que desejam usurpando a coroa? Poder absoluto. Para os vampiros, não existe uma coroa, somente um manto, uma espada e um anel de rubi. O que, na opinião de Ariel, é mais do que suficiente. Governar significa controlar a si mesmo e a todos os demais. Ariel Simon é o quarto rei vampiro, o que há mais tempo permanece no poder. Seu governo tem conseguido manter os Cinco Poderes unidos, apesar dos atritos. Sua habilidade como rei tem sido admirada por muitos e questionada por outros. Aos olhos humanos tudo parece absurdo, irreal, mas os vampiros existem além do véu dos conceitos de vida e morte, do que é certo e errado. A descrença os manteve seguros e protegidos ao longo dos séculos, mas por quanto tempo mais ela duraria? Havia uma ameaça rondando lá fora. Por causa dela, tinha ido ao apartamento de Jan Kmam em Paris. Ele contava com seu apoio para vencê-la, fosse o que fosse. Os relatórios feitos pela Ordem mostravam o desaparecimento de vampiros no passar dos séculos e com mais freqüência nos últimos dez anos no Brasil. Vítimas de um mal antigo conhecido por Ariel, Otávio e algumas casas de poder. O rapto de Kara e o assassinato de sua Sentinela só vinham a confirmar suas suspeitas. Subitamente, a imagem da vampira invadiu sua mente. Ariel desejou que ela não estivesse nas mãos do vampiro que perseguia secretamente. - Entre - murmurou ao sentir Otávio à porta. - Trouxe o jornal, mesmo sabendo que os detesta. A manchete vai interessá-lo. Ariel Simon fitou o irmão percebendo seu aborrecimento e resolveu não levá-lo em consideração, jamais levava. Estendeu o jornal e leu as manchetes. O criado surgiu com a bandeja e Otávio aceitou prontamente o cálice de sangue. As notícias falavam da morte do estrangeiro Marques Bryantt. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Falava-se em tráfico de drogas devido ao passaporte de Marques. Sua profissão o fazia viajar pelo mundo todo, o que chamava muita atenção. Nada além de dúvidas, suspeitas infundadas. A polícia estava tão cega que não custava nada oferecer uma bengala, mas havia uma coluna em particular que se aproximava da verdade. O jornalista trouxe à tona os estranhos assassinatos de cinco anos atrás praticados pelo "Assassino do Robe Vermelho". Estava tudo muito claro. Ariel chegou ao fim da página com avidez e deparou com um nome, Persa Zanne. - Há muito a ser feito. - Acredita que tenha sido ele? - O tempo dirá. Há um novo vampiro entre nós. É um amaldiçoado. Veja - disse, devolvendo o jornal. A notícia tinha passado despercebida por Otávio, mas jamais aos olhos frios de Ariel Simon. As vítimas do maníaco tinham a garganta estraçalhada, como mostravam claramente as fotos na página policial. - Se um amaldiçoado as tocou, logo estarão vagando pela cidade com mais sede que ele concluiu Otávio, prevendo o desastre eminente. - Os corpos fo-ram enterrados esta manhã. - O corpo de Marques ainda está no necrotério, precisa ser destruído como manda a lei e sua posição. Os demais já desceram à terra e precisamos visitá-los o quanto antes. O rastro deve ser apagado. - E quanto a Kara, o que faremos? -Vamos ajudar Jan Kmam a encontrá-la e bem depressa. Seu desaparecimento nos servirá de motivo para essa visita ao Brasil. - Jan precisa saber sobre o estado de Kara, ele é seu favorito. - Não. Otávio ficou sem entender o olhar de censura de Ariel. - Quanto menos ele souber, melhor. Só o atormentaríamos com nossos segredos. Jan Kmam precisa de força e confiança para continuar, não vou tirar dele a esperança de encontrar Kara viva. Sem contar que poderíamos ganhar seu desagrado. Sabe, sempre imaginei que houvesse contado a Asti - disse, fitando o irmão e afastando-o do assunto. Otávio perdeu a tranqüilidade que restava e se esqueceu das perguntas que pretendia fazer ao rei. Começou a perambular novamente pelo quarto de braços cruzados, o rosto tenso, lábio comprimido. Desde que Togo surgira com os primeiros relatórios, Otávio vivia atormentado por seu passado. - Asti sabe o suficiente para não me odiar. Melhor assim - respondeu consciente dos erros cometidos. - Ela jamais o odiará de verdade. Todavia, pode se afastar caso continue a tratá-la com indiferença, punindo-a por sua ignorância aos fatos. Ela e Kara são inocentes de nossos crimes. - Melhor que houvesse ficado em Paris como lhe implorei. - Tolo! Asti é parte de seu coração. O que teme, afinal? Sabe que Caio precisa ser destruído, é inevitável. Lamenta por seu sangue, é isso? - quis saber aborrecido. - Jamais! O que me atormenta é a falta de contato entre Jan Kmam e Kara. Você viu os quadros. Ela tem somente cinco anos de existência como vampira e já aparenta mil. O poder da Fonte está em Kara e em Caio, mas não pode renas¬cer através de nenhum dos dois. - Prometemos não falar da Fonte. Ela já nos causou todo mal que podia - queixou-se Ariel, pela primeira vez. - Quantos dos nossos já perdemos? - Três da Ordem, alguns do Conselho, vários desgarrados agora Kara. To-dos eram muito antigos. Caio está buscando respostas, mas no lugar errado. - Talvez as encontre através de Kara - disse Otávio, observando a noite pela janela. - Não sabemos quem a mantém prisioneira. Precipitação agora significa condenação. Devemos esperar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Você consegue senti-la? - Como sabe? - Eu o conheço bem, Ariel. Seus olhos sobre aquelas telas me disseram muito. Você a deseja, não é mesmo, meu irmão? - E você, não? - Ariel jogou com habilidade, temendo falar demais. - Nós somos movidos pelo desejo. Kara é movida pelo amor que sente por Jan Kmam. Jamais aceitaria outro além dele, nem que fosse por uma noite - comentou, lançando um olhar significativo ao rei. - Fico feliz por ela estar viva. Ele não suportaria perdê-la novamente. - Sim, viva e lúcida. Pensando em seu amando mestre a cada segundo. No entanto, a mente dele não está mais com ela. - Então é verdade, os laços mentais foram quebrados. - Completamente, mas restam os de sangue. Ela está vulnerável, sozinha e triste. - Quem teria tamanho poder? - Nenhum semideus que eu conheça. - Kara pode subir ao trono como rainha? - Seguramente. Há séculos não nascia uma vampira com tamanho poder disse, contendo seu entusiasmo. - Jan Kmam em seu amor desmedido deu a Kara mais poder do que poderia imaginar. O fez sem reservas ou medos, mas fico feliz, afinal tudo vai ficar em família. Os Poderes serão preservados e Radamés permanecerá adormecido. Ariel disse a última frase mentalmente para Otávio, pois se tratava de um segredo mantido pela casa dos Lordes, da qual Otávio fazia parte. - Então o desaparecimento de Kara põe os Poderes em perigo. - Não temo a sucessão, Otávio, é inevitável e bem-vinda. Estou há muito tempo no poder. Claro, sempre esperei que fosse você ou Jan Kmam a me substituir, pois assim encontraria paz. O Livro estaria sob seu controle. Contudo, com Kara no poder obrigo-me a permanecer ao seu lado como consorte. Tarefa agradável, confesso, mas possuiria uma vampira que jamais me amaria. Sem falar que teria meu favorito como inimigo. - Caio tem as mesmas chances, então - conclui enfurecido. - Não duvido disso, mas para que isso aconteça Kara terá de ceder, possuir e ser possuída, provar do sangue dele espontaneamente. Caso esteja em seu poder, obviamente. O amor que divide com Jan Kmam a protegerá. - Caio jamais irá dissuadi-la, pode decidir destruí-la simplesmente. Conhecemos seus atos e vítimas. - Ele não é louco a esse ponto. Ela vale mais viva do que morta. Temos algum tempo, ainda não há confirmação. Togo trará notícias em breve - comentou esperançoso. - Noventa e cinco anos - disse Otávio, pensativo. - O tempo está contra o amor desses dois, sempre esteve. Bastará um olhar dos Poderes sobre ela para que a obriguem a fazer o teste. O Conselho sentenciará a união deles. - É bem mais tempo de amor do que conheci em minha longa existência e será somente o que Jan Kmam terá ao lado de Kara, noventa e cinco anos - afirmou Ariel, mantendo sua postura de rei. Dentro de seu coração havia uma mistura de esperança e tristeza. Eles deixaram o hotel e caminharam juntos novamente, figuras de um mundo perdido dentro de séculos de existência. Atrás deles o passado, à frente, o presente. Sua sombra ainda trazia o mesmo temor. A última vez que andaram lado a lado ainda havia lampiões a gás. Agora havia carros e luzes elétricas e as pessoas que passavam apresadas sem perceber o olhar vítreo dos vampiros. A fome permanecia a mesma e seria satisfeita do mesmo modo: com sangue. Quatro faces diferentes, todas imortais, o mesmo poder, um mesmo convite e sobre eles à noite. Asti caminhava ao lado de Otávio, no silêncio costumeiro. Era comum buscar a companhia de Jan, mas naquela noite ele estava distante. Tentava não demonstrar sua preocupação, ela o conhecia bem demais para não notar a dor em seu olhar sombrio.

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O rei notou o carinho da vampira e se reservou. Era hora de se separarem. Ariel e Jan Kmam seguiram para o cemitério, Otávio e Asti para o Instituto Médico Legal. A sós com o rei, Jan Kmam revelou o que havia testemunhado no contato com Rosaria. O rei queria desabafar, contar toda a verdade a seu favorito, mas temeu perder a confiança e o respeito que dividiam. Como falar sobre Veneza, do passado recente, sem provocar seu ódio? Encheu-se de coragem e começou, mas a simples menção do nome Bruce irritou Jan Kmam profundamente. Lorde Bruce havia conquistado a antipatia do favorito do rei, seu comportamento e as insinuações criaram um abismo quase intransponível. Jan tinha com ele uma dívida, mas não iria tolerar suas demonstrações de afeto. Amava Kara, e Bruce parecia determinado a separá-la dele. O vampiro poderia lhe trazer grandes problemas. O assunto foi esquecido, afinal não é isso que um imortal enterra todas as noites, o seu passado? O peso das responsabilidades sufocou as palavras na garganta. Tocou-o no ombro e sorriu tristemente. Ainda não era o momento de revelar nada. Apesar da pista iluminada na calçada do cemitério, era estranho o toque sombrio que os mortais dão a certas construções sem perceber. Os portões marcam limites de um campo sagrado que os vivos não desejam transpor. Ariel quebrou o cadeado com um puxão e entrou num labirinto de edificações antigas, anjos de mármore, cruzes e figuras inanimadas, representações do divino. As lápides estavam cobertas de folhas e flores secas, como os corpos dentro dos jazigos. Sombras multiplicavam-se por entre as quadras de modo fantasmagórico. A luz da lua estava tênue e encantadora. Os vampiros podem sentir sua energia na ponta dos dedos, sobre seus corpos. O sussurro do vento nas folhas parecia uma voz feminina, sensações para o mundo de sentidos no qual um vampiro vive. Ariel entrou na guarita como uma brisa mais forte, escondeu-se nas sombras e deixou os olhos examinarem sua vítima. O ajudante do coveiro arrumou a gola da camisa. Um arrepio de medo percorreu sua espinha. Tentou se concentrar no futebol que ouvia pelo rádio de pilhas. Estava cansado das histórias de seu chefe. Aquele homem velho só sabia falar de morte, fantasmas e demônios! Mais um arrepio. Ele acreditou ter visto alguém andando entre os túmulos a distância. Saiu da janela. Fitar as quadras depois do anoitecer e mesmo durante o dia trazia estranhas sensações. Naquele ramo sempre se pode ver algo inexplicável. Concentrou-se no jogo, seu time estava ganhando. Voltou-se rapidamente ao sentir roçarem em seu braço. Ao fazê-lo.encontrou olhos profundamente verdes que o fitavam. O mortal sentiu o ar faltar no peito, o coração disparou. Era o abraço poderoso do vampiro fechando-se sobre sua vida. Havia pressão e gentileza, pois Ariel realmente abraçava seu corpo forte. Ele gostava de matar com tranqüilidade. Só usava de violência em último caso. Mantinha-o junto ao peito. Não lhe restava fuga, somente uma mistura de excitação e dor. Os lábios jaziam entreabertos como se houvesse tentado dizer algo sem conseguir. Por fim, relaxou, fechou os olhos entregando-se à força esmagadora que o dominava pouco a pouco numa lassidão jamais sentida. Quando seu coração silenciou, o vampiro o segurou pelo pulso e deixou que escorregasse suavemente ao chão. Ariel fitou o coveiro. Ele esteve durante todo o ataque paralisado. Quando viu os caninos pontudos surgirem entre os lábios vermelhos do vampiro, tentou fugir, mas foi detido por Jan Kmam. - Traga sua pá, temos muito trabalho a fazer. O coveiro tremia e tentava dominar o medo, mas o olhar do vampiro o inquietava. Trazia na mão o martelo, na outra uma talhadeira. As batidas na lápide quebravam o cimento e logo o túmulo estaria aberto. Tentava manter os olhos no trabalho, mas os dois seres atrás de si conseguiam tirar sua concentração. Transpirava e a todo instante deslizava as costas das mãos pela testa. Por duas vezes errou a talhadeira, e o martelo atingiu o mármore fazendo soltar faíscas. Aquele homem simples vivia algo que muitos desejavam e poucos conseguiam. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Claro, não supunha estar diante da prova viva da imortalidade, mas os compreendia diferentes depois de ver um deles matar e beber sangue. Que criatura faria tal coisa e continuaria humana? - Depressa homem! - disse Ariel impaciente com a demora do coveiro. Duas marteladas mais fortes e finalmente conseguiu abrir o túmulo. Estava muito assustado e duvidava que pudesse sair com vida daquele episódio. - Sempre lacra com tanto cimento? Quem mandou lacrar desse modo? perguntou Jan. - Um homem da família, eu acho. Pediu para fazer um cimento mais forte que não deixasse nem mosca entrar. Jan Kmam avançou sobre o coveiro e segurou sua cabeça com força debaixo do olhar aborrecido de Ariel. Quando finalmente o soltou, o homem caiu zonzo no chão. - É o mesmo homem que roubou a arca da pensão - confirmou fechando os olhos. Ele estava visivelmente abatido. - Kmam, você sabe o quanto nos custa esse tipo de contato. Precisa economizar suas forças ou ficará enfraquecido, não sabemos o que teremos de enfrentar. - Kara vale o sacrifício murmurou Jan, recomposto. - Sim, vale, mas não quero vê-lo exaurido - disse o rei, andando ao redor do túmulo aberto de Matilde, a dona da pensão. - O que vamos usar? - Estaca? - sugeriu Jan, pegando a talhadeira. - Melhor cortarmos a cabeça. Veja, ela despertou. Há séculos não via um desses. Matilde abandonou a vida de modo violento. Tinha um aspecto apavorante. Seus olhos estavam arregalados, a pele macilenta, os lábios roxos. Sentou-se ainda com os braços cruzados sobre o peito, por fim se segurou na beirada do caixão e fitou o coveiro. Ela podia ouvir seu coração e abriu a boca exibindo os caninos. Estava faminta e sabia muito bem o que desejava. Gritou e foi o bastan¬te para que agissem: - Corte! - ordenou Ariel com tranqüilidade. A cabeça saltou dos ombros e caiu no chão aos pés do coveiro, que gritou apavorado. Ele a recolheu segurando a pelos cabelos e devolveu-a ao caixão com o resto do corpo. Ariel assobiava uma peça alegre de Mozart, enquanto tirava do casaco um frasco. Abriu-o cuidadosamente e despejou algumas gotas do líquido verde e fluorescente sobre o corpo, era a Seiva. Imediatamente uma nuvem de fumaça se elevou. O cadáver decompunha-se rapidamente. Algumas quadras abaixo o processo se repetiu em mais duas covas. Haviam terminado quando o celular de Ariel tocou. Era Otávio. Ele e Asti estavam no necrotério. - Marques foi morto com dois tiros de silenciador, um na nuca e o segundo nas costas sobre o coração como todos os Sentinelas - falava diante do corpo estirado sobre a bandeja metálica. Asti estava debruçada sobre um dos cadáveres, os dedos sobre a face do morto enquanto fitava seus olhos vidrados. Agia como se absorvesse algo, talvez o momento de sua morte. A carne fria era familiar, assim como os membros rígidos que mais pareciam feitos de aço. Ela observou os cabelos do homem e sorriu deslizando os dedos por eles. Ele cheirava a algo doce, apodrecia lentamente. O frio nada conservava além da casca. O sangue estava pastoso em suas veias, os órgãos estraçalhados. Ela quase podia ouvir sua voz, o momento que deixou de viver. Não sentiu pena, só desejo. Gostaria de tê-lo mordido, era tão jovem, por fim o beijou. A boca fria, a carne sedosa provando da morte num jogo sedutor. - Ele nos serviu com fidelidade e honradez. Que encontre o fim digno de um Sentinela - falou Ariel. - Assim será - afirmou Otávio, fitando a Seiva em um pequeno frasco entre os dedos. - E quanto à jornalista? - Em breve lhe faremos uma visita para silenciá-la. Otávio deslizou o celular e observou o líquido devorar a carne e os ossos do Sentinela. Logo só restavam cinzas sobre a placa de metal, que Otávio recolheu num frasco escuro e guardou consigo. Estava feito. - Senhora, o líquido na bandeja é formol, tenha cuidado. Asti conteve o gesto e falou: - Não me agrada ser chamada de senhora.

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Asti abraçou Otávio, beijou-o com ardor e recostou a cabeça em seu peito com carinho. - Senti sua falta, onde estava? - Distante demais - respondeu, tocando-lhe os cabelos lisos vagarosamente. - Fique comigo - murmurou, beijando-o longamente, ela estava faminta. - Ser seu é embriagador. - Deixe-me, então, embriagá-lo. Asti assumiu o controle e Otávio cedeu. A vampira mantinha-o entre os braços e o enlaçava com carinho. O corpo delicado ardia de desejo, queria possuir e ser possuída e quando beijou seu pescoço ouviu o coração dele disparar. A fome aumentava a cada beijo que trocavam. Ansioso, Otávio ergueu a vampira nos braços e a sentou sobre a mesa da recepção. Circundou a cintura delicada e buscou o seio firme. Ela o enlaçou com as pernas e sussurrou seu nome. - Aqui não. Não assim. A vampira tinha os lábios inchados, tamanha a força das carícias trocadas. Otávio colocou-a no chão acalmando a amante e a si mesmo. Não houve queixas, mas ela esperava se unir a ele na escuridão do caixão quando a manhã chegasse. Tinha se acostumado com a distância imposta por Otávio sempre que o rei chegava, mas desta vez era diferente, o rei manteve-se quase às escondidas em Paris por dois meses, para somente anunciar sua presença há duas noites. Desde então Otávio se tornou ausente. Há várias noite não a tocava, enquanto ansiava por um beijo, algo que a fizesse se sentir real. Ele possuía um lado obscuro inacessível para ela. - O rei anda aborrecido, o que o aflige? - Ariel está, como direi? ... Precisando de um pouco de ... - cochichou no ouvido da vampira fazendo-a sorrir manhosa. Ele brincava com a vida solitária de Ariel. - Sempre há mulheres em seu leito - falou, enquanto seguiam para a saída. - Ele precisa de amor, é diferente. - Ah! Então por isso vive nesse bom humor. - Sim. Afinal nós sempre ... - cochichou, arrancando outra gargalhada. Otávio tinha voltado para Asti pelo menos por enquanto, e ela fez o que qualquer vampira apaixonada faria, abriu os braços, mesmo que depois tivesse que secar lágrimas vermelhas. No cemitério, Ariel sentiu a presença do amaldiçoado. Havia cheiro de sangue fresco não muito longe. Devia ter imaginado que ele ficaria próximo a sua prole. Jan Kmam olhou com surpresa o nome no portal de entrada, Alcântara. O rei apontou o cadeado quebrado e teve certeza de que estava no caminho certo. O mausoléu era bastante antigo e parecia abrigar gerações inteiras daquela família. As paredes exibiam lápides, todas com nomes escritos em bronze, nelas somente restos mortais. Cansado de guiar o coveiro, Ariel acendeu o resto das velas que encontrou nos candelabros que ladeavam a entrada de um pequeno salão. Adiante, havia um altar com uma grande cruz de metal, e ao fundo, os túmulos altos. O cheiro de sangue fresco estava no ar misturando-se ao mofo e à poeira. Um animal surgiu da escuridão, Ariel foi o primeiro a vê-la. Era uma gata de pelagem negra e olhos verdes. Ela se aproximou sem medo e se enroscou em suas pernas. Ele a pegou nos braços e viu o quanto era encantadora, mansa, uma caçadora noturna como eles. Um ser digno de admiração, inteligente e sagaz. Jan encontrou um corpo caído detrás de um dos túmulos, uma mulher. Estava ali já há quase vinte quatro horas, logo despertaria como mortaviva. Sem hesitar, ele cortou sua cabeça. A gata rosnou nos braços de Ariel, possivelmente assustada com os movimentos bruscos. Desvencilhou-se das mãos do rei e fugiu sumindo na noite. Ela havia sentido algo. O corpo de Jan Kmam voou pelo mausoléu e despencou sobre o altar quebrando o granito ao meio. A velocidade do ataque foi tremenda. O coveiro tentou correr, mas esbarrou com uma criatura feroz e sedenta que o agarrou e mordeu. O sangue esguichou e seu grito engasgado não deteve o vampiro, que se alimentava de forma grotesca e ruidosa. Quando soltou o corpo, fitou seus iguais e riu demoníaco. Dentro dos seus olhos ardia um fogo desconhecido e custou a Jan Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Kmam reconhecê-lo, mas ali estava Vitor, médico e cientista, transformado em um amaldiçoado! Vestia trapos sujos, fétidos, e agia como os mortos-vivos do Velho Mundo que habitavam covas pútridas. Espectros como ele tinham criado grande parte das superstições sobre a espécie, pois levavam terror a pequenas vilas e povoados. Sua força sobrenatural os rodeava incomodando sua mente que só captava dele fome e morte. Terminavam sendo caçados e queimados vivos antes que fizessem mais estragos - Vitor? - chamou Jan, tentando despertar o homem perdido dentro da besta. - Sou eu, Jan Kmam, onde está Kara? Vitor o encarou meio louco, um brilho quase metálico iluminava seu olhar. - Não perca seu tempo. Nada mais resta do homem que ele foi. O que está a sua frente é um assassino sedento de sangue, mesmo que seja o nosso - avisou puxando sua espada do casaco. - Preciso de respostas e ele as tem. - Ele não dirá nada. Perdeu a consciência e nós precisamos destruí-lo. - Pode sentir seu mestre? - Não, está ligado a outro vampiro - assegurou Ariel, sondando sua alma. A busca por respostas cegava Jan Kmam para o perigo. Fitava a fera sem receio e queria tocálo. Se o fizesse estaria perdido. Vitor abriu a boca e mostrou os caninos de forma ameaçadora, rugiu selvagem. - Kmam,não! Ameaçado,Vitor pulou sobre ele. Os dois rolaram pelo chão, trocando chutes e socos, pois Vitor tentava morder sua jugular. Foi com muita dificuldade que Jan o afastou de si, num empurrão. Vitor caiu de cócoras e segurou o golpe da espada de Jan Kmam com a mão limpa. O metal o feriu, mas a cicatrização foi tão rápida que não lhe permitiu enfraquecimento. Ariel transpassou seu corpo com a sua espada, mas foi afastado por uma braçada violenta que o jogou longe. Vitor mostrava-se fisicamente superior. Não fosse Vitor saltar, agarrar-se à parede e correr como uma aranha, Kmam teria cortado sua cabeça. A espada atingia o mármore arrancando faíscas, enquanto Vitor se esquivava. Cansado de fugir, arremessou-se sobre ele num voo ágil, decidido a matá-lo. A espada era a única coisa que separava os dentes de Vitor da face de Kmam. A situação exigia medidas extremas. Jan soltou o braço e alcançou sua adaga na velha bota. A lâmina atingiu o ombro de Vitor por várias vezes. Foi nesse momento que Ariel o arrancou de cima de Kmam e o lançou contra a parede. O impacto sacudiu o mausoléu e fez pedaços do teto despencarem. Havia uma nuvem de cimento e poeira no ar. Caído e ferido, Vitor catou algo no chão. Jan aproximou-se e sem hesitar cravou a espada em seu estômago para vê-lo cuspir sangue. O rei ergueu a espada. Ia cortar sua cabeça, quando o martelo do coveiro voou no ar e se chocou contra seu crânio. O som surdo e a queda de Ariel foram o suficiente para tirar a atenção de Jan Kmam, que foi atingido pelas unhas de Vitor. Ele havia se transformado numa máquina de guerra, golpeando e atacando. Entretanto, isso não intimidou o favorito do rei, que em questão de minutos conseguiu novamente cravar a espada em seu peito. Vitor tombou de joelhos e viu a lâmina suja de sangue, pronta para cortar sua cabeça, mas algo inesperado aconteceu, ele gritou e soltou a espada. Estava indefeso diante de Vitor. Ele segurava a cabeça gritando, bufando de dor. Vitor preparou-se para banque¬tear-se com seu sangue quando Ariel se atracou com ele. Os dois voaram pelo mausoléu usando toda gama de seus poderes e chocando-se contra as paredes. Quando finalmente despencaram no chão, Ariel viu-se empalado. A ponta da cruz sobre o altar o perfurou e prendeu. Vitor também estava ferido, mas conseguia ficar de pé. Ele se aproximou do rei, observou-o tocar os ferimentos, sangrar pela boca e nariz. Jan estava curvado sobre o próprio corpo. Rugia e segurava a cabeça que parecia prestes a explodir, as veias estavam saltadas e os olhos dilatados. A dor era enorme. Ariel viu a face de Vitor cada vez mais próxima, mas em vez de se defender, libertou seu favorito, que já sangrava pelos ouvidos. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Livre da força da mente do amaldiçoado, Jan caiu ao chão ofegante e quase desmaiado. Balançou a cabeça mantendo-se desperto, até sentir dor novamente. O coração acelerou e enfraqueceu. Vitor havia mordido o rei dos vampiros. Sugava-lhe o sangue precioso e raro. Jan Kmam, numa carreira cega, lançou-se sobre Vitor. Ele o empurrou com o peso de seu corpo sobre o portão do mausoléu. As barras de ferro o transpassaram e por alguns minutos ficou preso. Ele arquejava, grunhia como um animal ferido. Beber do sangue do rei lhe custaria muito caro. Jan libertou o corpo de Ariel das pontas da cruz. Os cortes eram profundos e atingiam suas costas e seus ombros. Apoiou-o junto à parede. - Cuidado, Jan! Um pedaço de mármore partiu-se contra as costas de Jan Kmam. Caído no chão, viu-se longe da espada. Sem alternativas, lutou com os punhos. Esmurrava seu agressor com força, vendo-o suportar os golpes. Otávio e Asti surgiram à porta do mausoléu. A essa altura Jan rolava com Vitor pelo chão como se fossem cães. Ariel tentava se recostar na parede e respirava com dificuldade. - Ariel? - Afrodite ... - balbuciou no ouvido de Otávio, apoiando-se em seu ombro. - Ele é filho de Afrodite. A simples menção daquele nome maldito entre eles lhe causou terror. Aquele era um nome para ser apagado da memória. Asti apoiou Ariel, enquanto Otávio em passo de combate arrancava Vitor das mãos de Jan Kmam para esmurrá-lo violentamente. Vitor caiu no chão, rastejava. Nem mesmo o grito de alerta de Asti pôde alertá-lo para que não recebesse o golpe. A talhadeira de ferro usada pelo coveiro para abrir os túmulos foi cravada em seu peito. Otávio viu seu sangue salpicar o rosto de Vitor, que dele provou com grande prazer e de forma demoníaca. - Maldito! Asti partiu para a luta. Arrancou uma das barras do portão com as mãos limpas e transpassou o tórax de Vitor. Ao tentar erguê-lo, foi atingida por uma braçada. Vitor finalmente dava mostras de cansaço. Otávio e Jan avançaram, mas em questão de segundos foram lançados sobre os escombros do altar. O impacto fez O teto ruir sobre ambos. Livre dos seus agressores mais ferozes, ele investia so-bre Asti que lutava de mãos limpas usando a arte do Kalarippayat. Com movimentos que lembravam o kung-fu e a ioga, a vampira chutava e golpeava Vitor de mãos limpas. Ele tentou livrar-se dos golpes, mas foi atingido com força e caiu; ela parecia dançar a sua volta. Otávio e Jan aproximaram-se e ele ficou cercado, mas não por muito tempo, pois passou a usar seu poder mental contra eles, que se afastaram segurando a cabeça. Ariel a essa altura já estava de pé pronto para lutar. Reuniu o resto de suas forças para defender a si e aos demais. Puxou de dentro da camisa o Ânkh, apertou-o entre os dedos e fez surgir uma pequena lâmina afiada. O corte foi ligeiro, assim como o grito animalesco de Vitor, que tocou a garganta ferida sentindo a mão encharcar-se. A fumaça subiu da carne ferida. A lâmina tinha sido banhada na Seiva. O ato destemido de Ariel o colocou debaixo das garras de Vitor. Estava prestes a estraçalhar o rosto do rei com as presas quando um vulto pequeno surgiu das sombras. Livre das mãos do amaldiçoado, Ariel Simon despencou no chão. A cena era inusitada. Vitor rodava tentando se livrar do animal agarrado a sua face. Com muita luta, lançou o animal ao chão. A gata caiu de pé e continuou rosnando e investindo furiosamente contra Vitor, que resolveu fugir, sumindo na escuridão. No limite de suas forças, Ariel viu a gata se aproximar amorosa e aflita. Eles se juntaram alquebrados, feridos e sujos em volta do rei, vendo a gata lamber seu rosto pálido. - Quem é essa criatura? - perguntou Otávio, sem tocar no animal. - Minha salvadora - sussurrou Ariel, fitando os olhos verdes da gata. Não havia cicatrização. O rei não conseguia pôr-se de pé e sentia dores horríveis. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Otávio sentou no chão e o tomou nos braços. Analisou a mordida no pescoço, os cortes fundos, e o sentiu tremer. - Por que não há cicatrização? - Eu não sei. Jamais o vi assim. A ferida não fecha - revelou infeliz. - Impossível. Ele é imortal, é o rei dos vampiros - balbuciou Asti, tentando controlar o nervosismo. O sangue perdia-se vagarosamente, deixando-o fraco. - Cuidaremos dele - disse Kmam. Tentou passar uma segurança que não sentia, mas era necessário. Mais um pouco, e Otávio enlouquecia de preocupação. Ariel Simon tremia e balbuciava em egípcio, segurava com força o Ânkh. - Proteção contra os filhos de Afrodite. Kmam viu com pesar a aflição de Otávio com o estado miserável do rei. Ele o segurava junto ao peito, balançava-o, até que por fim beijou sua testa. Tinha os olhos enormes pela angústia. - Nós precisamos sair daqui, Otávio, a aurora não tarda - avisou Jan. Otávio se ergueu com Ariel nos braços, nervoso e sem rumo. Asti tentou ajudá-lo, mas foi repudiada por um vampiro sem condições de reconhecer quem quer que fosse além do irmão ferido. - O rei precisa ser protegido. Estamos em perigo - falou Jan, de modo firme. Alguém havia aberto a Caixa de Pandora e todos os males pareciam estar soltos no mundo. O mausoléu estava destruído, Vitor transformado numa fera sem consciência e o rei dos vampiros ferido. A calma delicada vivida pelo mundo vampiro havia acabado de ser destruída. De agora em diante, somente punição e morte. - Não podemos voltar para o hotel - afirmou Asti, enquanto caminhava rumo à parte mais velha do cemitério. - Esta manhã ficaremos aqui. Na parte antiga do cemitério há um canto seguro para nos protegermos. Um sentimento de inquietação e incerteza tomou-os de assalto e permaneceria em seus corações por muito tempo até que a paz fosse restaurada. O rei fora atacado e todos os inscritos no Livro, todos os que provaram de seu sangue, tinham conhecimento de seu estado. Havia revolta e instabilidade pesando sobre suas cabeças. Jan Kmam, Otávio e Asti já haviam provado da morte diversas vezes, eram mestres em sobrevivência, mas nenhuma de suas experiências os havia preparado para tal momento. Durante uma existência como vampiro, existem poucos momentos de verdadeira alegria, amor, segurança absoluta e paz, a mesma desejada pelos mortais como bálsamo para suas vidas, algo que Vitor não mais encontraria, pois seria caçado e morto. Jan Kmam perdeu a tranqüilidade no instante em que sua mente passou a ser incapaz de sentir Kara, e a segurança ao fitar a face doente do rei. Sentiu-se frágil e vazio. O sangue de Ariel Simon corria poderoso nas veias de seu favorito, fazendo-o experimentar seu sofrimento e compreender que estava muito doente. O cemitério serviria de abrigo por enquanto. Estavam abalados demais para pensar em algo melhor. O dia vinha ligeiro e o tempo corria contra eles. Lá havia mausoléus esquecidos e cobertos com hera. Foi para onde rumaram. Bastariam dois túmulos para se protegerem àquela manhã, nada mais. Por estar ferido, provavelmente Vitor procuraria uma cova para se esconder. Asti, sentada no chão, mantinha Ariel nos braços. Fitava-o com pesar e carinho, limpava o rosto belo com um lenço perfumado, tinha-o por vezes como um filho. Secou o sangue do corte na testa do rei e segurou sua mão sobre o peito tentando lhe passar algum conforto. Quando os túmulos foram esvaziados de seus caixões apodrecidos, Otávio aproximou-se e tirou Ariel de seus braços. Carregava-o como uma criança em direção ao leito. Deitou-o cuidadosamente e afastou-se por um momento para verificar os portões. Passou por Asti indiferente ao seu olhar suplicante. Fechou-se no túmulo com o irmão, e por aquela noite tudo estava encerrado. A vampira ficou de pé no meio do mausoléu sentindo-se esquecida. Abraçou a si mesma num gesto de fragilidade e sentiu a gata se esfregar em suas pernas.

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Segurou-a nos braços e a acariciou, deixou o rosto roçar no pelo aveludado e negro. Soltou-a sobre o altar de pedra e afastou-se. A gata pareceu compreender que iam se recolher, pois se sentou e passou a observá-los. Kmam podia perceber a tristeza de Asti, enquanto retirava o resto da sujeira do sepulcro. Estendeu a mão em sua direção e a colocou dentro do túmulo. Ariel estava em primeiro lugar na vida de Otávio. Pelo irmão, nutria uma afeição além da vida e da morte, por ele sacrificaria sua própria vida. Asti lutava uma guerra silenciosa na qual a paciência era sua melhor e maior arma. Não se dava ao luxo de reclamar e jamais o fez. Isso a teria feito perdedora. Uma lágrima rolou e caiu sobre sua mão pálida. - Não deixe que a frieza de Otávio a afaste dele - afirmou dentro do túmulo com ela. - O amor que os une é forte. Ele divide seu coração entre você e Ariel. - Diante dele, desapareço. - Não se compare a Ariel, é um erro. É a amada dele. Quando tudo terminar, converse com ele - falou carinhoso, beijando-lhe os lábios. - Não é momento para fazer cobranças. Otávio está com medo. Jan Kmam puxou a tampa de pedra e fechou o túmulo. - Medo? - murmurou, aninhando-se junto ao seu peito. - Sim, medo de perder a única coisa humana que lhe restou, o irmão. - Está com medo também? - Sim, tanto quanto você. Medo de perder o que amo. Ele abraçou seu corpo e finalmente a viu ceder ao sono. Melhor assim, ele não tinha forças para lutar com a amargura daquela vampira. Não conseguia compreender sua própria dor, a revolta que dilacerava seu coração. Sentia-se um humano impotente. Num último pensamento, trouxe a imagem de Kara para perto de si, o seu cheiro, o seu corpo. Queria ouvir sua voz dizendo: "Bom dia, meu Jan Kmam". Kara geralmente sussurrava, enquanto roçava os lábios nos seus, sem consumar o beijo na escuridão do caixão. Nesses momentos, podia sentir a maciez dos seus cabelos tocando sua face e dormir tranqüilo.

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4. O QUE NÃO PODE SER NEGADO Uma mulher frágil deslizava pela rua deserta. Puxava o xale sobre os ombros magros, um tanto curvados pela idade. Numa mão a garrafa de café, na outra um saco de pães ainda quentes. Atravessou a rua, chegou à calçada do velho cemitério e cruzou os portões. Só então percebeu que estavam abertos e ao cadeado quebrado. O coração sentiu uma forte pressão. Voltou-se para as quadras ao longe e viu-se sozinha, os pássaros meio que agourentos piavam desdenhosos aos seus temores. Deixou os mantimentos sobre uma lápide e rogou a Deus para que tudo não passasse de um engano. Correu pelo canário de eterno descanso olhando para os lados e, guiadas por seus instintos, cruzou por túmulos violados até ao mausoléu. A noite nada mais ocultava, a verdade surgia cruel iluminada por um dia maravilhoso de céu azul, num desdém insultante. O grito de terror e desespero da velha senhora cortou o ar e chegou aos transeuntes e casa mais próximas. Minutos depois a polícia apareceu. Com muito custo consegui afastar a mulher do corpo do marido morto. Enlouquecida, suja com seu sangue, balbuciava coisas sem coerência, enquanto uma multidão de curiosos invadia o cemitério. Uma hora depois apareceu Léo Millano. O frescor do dia já cedia a um sol escaldante. No ar pesava um bafo quente e o cheiro de suor. Fez o sinal da cruz ao entrar no cemitério e tocou o velho portão arrombado, fitou os curiosos por trás das lente escuras dos óculos e chamou um dos policiais, deu instruções. A integridade da cena do crime havia sido violada, mas não seria por isso que ia trabalhar diante daquela multidão de espectadores, tampouco da imprensa que ele mandou expulsar de imediato. Um policial foi designado para controlar as entradas e saídas do local, agora sob investigação. Léo foi para um ponto do cemitério e isolou toda a área violada. Quando o técnico da pericia chegou, cumprimentou-o e entregou-lhe as fotos tiradas. Léo era considerado pelos colegas um policial linha dura. Perfeccionista, tinha métodos de investigação pouco ortodoxo. Entretanto, sempre chegava à verdade. Muitos criticavam sua permanência na policia, afinal, era advogado, havia feito vários cursos no exterior. Com seu currículo, poderia estar de uma mesa dando ordens. Para ele a cena do crime era sua sala, e as evidências o material de trabalho. Dizia que as provas são sempre muito obvias, por isso passam despercebidas. O cenário do cemitério não o pegou de surpresa, estavam esperando por mais. Essas coisas têm um ritmo certo: o assassino de Marques Bryantt, o sumiço de uma inquilina da qual ninguém lembrava o nome, a forma como a dona da pensão fora assassinada, os corpos encontrados sem sangue pela cidade nos últimos dias. Poderia fazer uma lista. As cinzas encontradas no Instituto Médico Legal, onde o corpo de Marques Bryantt descansava, levaram-no ao necrotério ainda aquela madrugada. Parado diante do túmulo de Matilde, ele observou as cinzas que certamente eram dela. Ficou se perguntando que produto químico poderia queimar um corpo inteiro sem poupar nem mesmo os ossos. Todas as vitimas com a garganta estilhaçada tiveram o mesmo tratamento. Seja lá o que fosse, era uma forma de cremação bastante eficaz. Amostras foram recolhidas para serem examinadas num laboratório. Seguiu em frente e parou enfrente ao mausoléu dos Alcântaras; uma ligação era obvia demais para ser ignorada. Em sua mente, uma teoria que não ousava dividir com ninguém até encontrar provas. Os policiais encontraram mais um corpo, o ajudante do coveiro. Fora posto dentro de um túmulo vazio. Léo entrou no mausoléu e viu sua estrutura comprometida. Calçou as luvas, nunca andava sem um par. Sampaio, o legista, trabalhava há algum tempo na cena do crime, assim como seu assistente, o técnico forense Fabrício. Afastou-se do corpo, olhou à sua volta e constatou a luta que fora travada naquele espaço. Um suave cintilar chamou sua atenção. Curvou –se encontrou um brinco feito de ouro e enfeitado com um rubi. O objeto não fora tocado, Fabrício o fotografou e por fim o recolheu, pondo-o dentro de um saco plástico. Perguntou –se quem seria o dono da jóia, percebendo o quanto era antiga e valiosa. Provavelmente pertencia a um dos Alcântaras ali enterrados, já que vários túmulos haviam sido violados. O que chamou sua atenção foram as estranhas manchas no chão. Não era terra, ou cimento do teto, na verdade eram muito

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similares a cinzas. Millano sequer imaginava que as manchas eram sangue de um vampiro tocado pelo sol. As evidencias eram muitas e certamente iriam conduzi-lo à resolução do caso. Fabrício ficou encantado com a cruz banhada em sangue. - Acho que a cruz foi usada como arma. - Pesada demais para ser erguida. E onde está o corpo atingido por ela? O coveiro e o ajudante tiveram a garganta dilacerada – afirmou Léo Millano, descartando a hipótese. Fabrício ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido por uma voz feminina e furiosa. - Solte-me isso é ridículo! - Tenente Millano, esta mulher estava tirando foto dos corpos. Deve ter entrado pelos fundos do cemitério. O que faço com ela ? O policial passou a câmera fotográfica da jornalista para as mãos de seu superior. Millano jogava um olhar indiferente para a jovem que tentava agradecer ao subalterno. - Fez um ótimo trabalho, policial Feliciano, eu cuidarei dela. Só depois que o homem se retirou, Millano voltou sua atenção para aquele belo e problemático ser chamado Persa Zanne. Confiscou o cartão de memória e a jornalista recebeu a maquina vazia, fuzilando o policial com seus lindos olhos cor de mel. - Não tem o direito de fazer isso. Estou fazendo o meu trabalho, tenente – disse, debochando de seu posto. - Tenho e farei – esclareceu, guardando o cartão no bolso da jaqueta. – Não sabia que invasão fazia parte do currículo de um jornalista. - A cidade tem o direito de saber a verdade. - Deixe de conversa. Tudo que consegue é gerar insegurança e falatório. Se continuar escrevendo essas matérias, vai acabar perdendo sua credibilidade. As pessoas não acreditam nessa bobagem sobrenatural. Selecionarei o que pode ser publicado. Não destruirei seu trabalho – enfatizou, observando os olhos de Persa soltarem faíscas. - Se existe perigo nas ruas, a população deveria ser avisada. - Não seja dramática, Persa. A mulher do coveiro está em choque, logo surgirão grupos suspeitos e confusão. E isso é o bastante para mim. Léo Millano lançou um olhar significativo para Persa. Talvez repreensivo demais para se lançar sobre a namorada, mas era preciso. Percebendo que ainda o enfrentava, puxou-a para um canto mais reservado. - Isso é censura, eu quero minhas fotos, Léo, por favor. - Aqui é tenente Millano. - Podemos discutir isso durante o jantar. - Isso é chantagem. A jornalista Persa Zanne havia procurado Kara no hospital há cinco anos, após o ataque de Jan Kmam. Ela e o Léo Millano se conheceram no corredor. Ele consegui interrogar Kara, mas Persa não passou da porta. Todavia a possibilidade de um ataque de vampiro jamais deixou sua mente. A profissão ensinou Persa a se competitiva e por vezes agressiva. Léo sabia que Persa conseguiria tirar o filme de suas mãos, mas não iria permitir que o fizesse tão facilmente. Bastava um sorriso para lhe derreter o coração. Ele adorava o tom castanho-claro de seus cabelos, a cor da pele, as pequenas sardas que cultivava sobre as maçãs do rosto, o nariz empinado e altivo. Conhecendo o jogo, ela se aproximou; estavam longe um do outro há quatro dias. A saudade ardia em seus olhos. Ela sorriu vitoriosa e falou bem perto de seus lábios: - Posso olhar em volta, tenente? Persa deixou Léo esperando o beijo que não veio e sorriu malvada. De longe, ele prometeu vingança. Caminhou até os corpos e falou com Fabrício. Já se conheciam de outras cenas de crimes. Ergueu o saco plástico e analisou as marcas recentes no corpo do coveiro. Sem poder se conter, pensou consigo: eles voltaram - Será que não percebe que tudo isso é uma grande tolice? Vampiros! Só você mesmo, Persa. Admira-me que sendo uma pessoa inteligente não perceba a verdade. Isso é mito, fantasia e maluquice – criticou verdadeiramente aborrecido. - Pouco importa se você não acredita. É verdade, eu sei, eu... – percebendo-o mudo, se calou. – Acorde Léo São Luis esta sob poder deles. Apenas junte os fatos, você é um investigador, pelo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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amor de Deus. Coisas estranhas vêm acontecendo pela cidade. A quem pertence esse mausoléu? – comentou atenta. - O nome esta na porta, Alcântara. Familia tradicional, rica e de poucos herdeiros. Pode ser vandalismo sabia? – Léo tentava desviar sua atenção. - Léo, isso não é coluna social. Esta mausoléu pertence a família de Vitor. Vitor Alcântara, o medico que atendeu Kara Ramos na emergência. Ela era a jovem restauradora que após ser atacada por um maníaco, foi envolvida numa serie de crimes e encontrou a morte num acidente na ponte do rio São Francisco com o noivo, um homem misterioso, sem passado e sem documentos conhecido apenas como Jan Kmam. A mente de Léo Millano fervilhava com milhões de conjecturas. - Gisele, a filha de Matilde, confirmou a presença de Kara Ramos na pensão – revelou orgulhosa de suas descobertas. - O tumulo de Kara Ramos está há algumas quadras daqui. - Está vazio. Os corpos nunca foram encontrados. Mostrei a foto de Kara para Gisele. Ela é a misteriosa hospede desaparecida. Chegou há uma semana e pagou em dinheiro. Tinha na bagagem uma pesada arca de madeira. Dormia o dia todo, saía ao anoitecer e só voltava de madrugada. Além de sua aparência, que admitiu ser estranha. - Era Kara Ramos ou não? - Sim, mas agora vampira – sussurrou, aproximando-se de Léo. – Gisele fez observações interessantes enquanto olhava a foto. Garantiu, era a mesma mulher, só que mais pálida. Segundo me relatou, jamais a vi se alimentar com os outros hóspedes. - Talvez a comida da pensão fosse ruim. Eu estive lá, ouvi o corpo cai sobre o casarão vizinho, fiz perguntas não havia nada. Em nenhum momento Kara Ramos foi mencionada, não mexa com os mortos. - Acho que teve medo de fazer as perguntas certas, Léo. - Sua sede de informações é assustadora. Não faz outra coisa há cinco anos. Continue agindo dessa forma e vou te chamar de papa defunto – brincou. Léo precisou impedir Persa de se afastar. Fez cara de arrependido e tentou expor seus argumentos. - Sinto muito, não tive a intenção de insultá-la. E que só falamos disso. Você mudou – revelou falando pela primeira vez como seu namorado. - Eu os vejo, você fingi que não – calou-se, pois não queria revelar as provas que possuía nem perder sua confiança e seu respeito. - Sei que essa invasão é o menor de seus delitos, Persa, mas aviso, isso não é uma fantasia. Quem destruiu este lugar tem muita violência dentro de si. Pouco importa se vampiro, humano ou um ET! Vou pega-lo, e quando o fizer, vai pagar pelas mortes e destruição que anda causando. Léo Millano afastou-se para liberar a retirada dos corpos da cena do crime. Persa sabia que não podia cobrar tanto, ele não tinha lido o manuscrito. Para ele, dentro da investigação só havia espaço para a lógica, mas o mundo é uma caixa de surpresas. Persa andava a esmo pelo o mausoléu. Deslizou os dedos pelo mármore rachado e cortou acidentalmente a ponta de um deles. Um filete de seu sangue misturou-se ao sangue sobre o mármore. Persa gemeu e levou o dedo a boca. Um segundo depois, suas pupilas dilataram. Arie abriu os olhos no tumulo, o coração de Persa o despertou. As mãos repousavam sobre o peito, o corpo estava imóvel, mas sua mente estava muito longe. Persa tinha a visão embaçada, o coração aos pulos, a respiração ofegante. Um ataque de pânico? Quando o sussurro chegou aos seus ouvidos, tentou compreender o que a cercava. O ar tremeu na sua frente, e ele se materializou. O rei Ariel Simon apareceu deslumbrante com um riso de vitoria no canto dos lábios, expressando todo o seu contentamento e prazer. O olhar verde passeou sobre seu corpo, deslizou sobre as curvas e formas de maneira luxuriante. Persa podia sentir a caricia e gemeu confusa. O rei estendeu a mão, exigindo sua aproximação. Ela o temeu, mesmo parecendo reconhecê-lo. Foi então que ele sussurrou: “Venha comigo, Norine”. Só havia seu olhar, sua presença. Não conseguia pensar em fuga, só rendição. Ela estava diante de uma manifestação poderosa, capaz de influenciar a mente mais cética. Estava prestes a lhe tocas os dedos quando algo aconteceu. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Persa? O rosto fascinante de Ariel se desfez no ar a Léo Millano assumiu o seu lugar. O contato foi interrompido bruscamente, o que deixou Persa desnorteada. Despertou do transe em extrema confusão, olhos arregalados e pupilas muito dilatadas. Léo a tomou em seus braços e a colocou sobre um dos túmulos, enquanto um dos policiais trazia água. - Persa acalme-se, por favor – pediu, segurando-a pelos ombros. Ela não respondeu, apenas o abraçou com força. Um estranho pressentimento assaltou Léo Millano: ela estava em perigo. Persa fitou o mausoléu e desejou sair daquele lugar o mais rápido possível. Talvez ter passado a noite toda lendo o manuscrito de Kara em busca de pistas tivesse provocado a estranha visão. Sua mente estava exausta. - Para onde ia? Chamei-a diversas vezes. Fico dias longe de você, e o que faz? Tenta se matar de fome. Preciso ficar de olho em você. Não faça mais isso comigo, Persa, sabe o quanto te amo. Venha, precisa sair. Vou liberar o local para imprensa. Fabrício recolheu provas e equipamentos usados no local. Carregava tudo numa maleta de mão, uma sacola cheia de zíperes e bolsos. Pegou a cruz envolta em um saco plástico e dirigiuse a Léo. Persa fitou a cruz e desejou uma amostra daquele sangue raro e precioso. Tinha certeza que se tratava de sangue vampiro. - Podemos jantar juntos? - Na sua casa ou na minha? - Na minha. Lá tenho algemas, posso deter você por algumas horas – afirmou puxando-a consigo. Gritos fizeram Léo e Persa correrem para fora e encontrarem Fabrício envolto em chamas com a mão agarrada à cruz. Imediatamente os policiais foram em seu socorro tentando abafar as chamas, o fogo parecia não ceder. Um extintor foi trazido de uma das viaturas, mas ele já estava muito ferido. Fabrício jazia no chão desacordado. Para o espanto de todos, o fogo também rodeou Léo Millano. Sua jaqueta cobriu-se de labaredas. Ligeiro, ele a tirou do corpo e a lançou no chão, enquanto Persa ajudava a arrancar sua camisa. Nu da cintura pra cima, Léo viu a pele do abdômen queimada e as mãos feridas. Fabrício foi levado para o hospital, não podia esperar a ambulância. Enquanto aguardava o socorro, Léo quis saber o que havia causado o incêndio em sua roupa. Jogou areia sobre a jaqueta que ainda era consumida e a cutucou com um pedaço de pau. Tudo que encontrou foi o resto das luvas. Havia tocado na cruz com elas, a mesma cruz que Fabrício segurava. O sangue, Léo compreendeu por fim. O sangue das amostras agora destruídas com o resto das provas. Voltou-se para Persa, percebeu seu rosto tenso preocupado. - Foi o sangue em incendiou, não foi? - Eu não sei. - Está mentindo! O sangue é dele? Responda. - Sim. É o mais lógico a ser pensado. O sol o torne inflamável. - Por deus! – reclamou, soltando-a para cuidar do corpo queimado. Léo foi atendido na ambulância. Enquanto o levavam para fazer os curativos, Persa pegou o cartão de memória da maquina no resto da jaqueta queimada. Por um milagre ele estava ileso. Escondeu-o em sua bolsa e foi para ambulância também. Léo estava sentada com uma bandagem grossa envolta de seu peito e abdômen. Ele a abraçou e resolveu nada mais questionar, pelo menos por hora.

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5. INTERMEZZO – PRIMEIRA NOITE Aos despertarem àquela noite enfrentaram uma difícil realidade. Ariel estava realmente doente. A movimentação dos no cemitério os obrigou a permanecer em semiconsciência a maior parte do dia, deixando–os agressivos como leões numa jaula pequena. As características vampiricas assumiram o controle, privando–os da capa da falsa humanidade. As sombras, nesse caso. Eram a única saída. Jan Kmam movia–se inquieto e faminto, e Asti não estava muito diferente. Eles encontraram Ariel desperto, entregue a uma sede primitiva que o fazia se alimentar de ratazanas. Sentado num dos túmulos empoeirados, sugava o sangue de um grande roedor peludo, enquanto mantinha um segundo debaixo de sua bota, ainda vivo. Otávio trouxe consigo mais duas ratazanas penduradas pela cauda. O rei as aceitou prontamente e quando finalmente terminou o grotesco banquete, pareceu um pouco melhor. Sua pele adquiriu um tom macilento. Os olhos verdes estavam enormes, talvez pela dor. O certo é que em seu estado não podia ser visto por olhos humanos. A ferida não cicatrizou como esperado. Otávio tirou o casaco de modo aborrecido e rasgou a manga de sua camisa para improvisar ataduras. Abriu a camisa de Ariel e examinou a mordida sob o olhar também atento de Jan Kmam. Estava com um aspecto horrível. Otávio dobrou o tecido e cobriu a ferida, vendo Ariel fechar os olhos penosamente. A carne doía. Cuidava do irmão como uma mãe extremosa. Catou um vaso de flores e umedeceu o lenço com a água. Afastando seus cabelos, deslizava o lenço sobre sua face, tirando as manchas de sangue e poeira. Calmo e alimentado, o rei nada falou. Olhava a escuridão à sua frente e, quando estendeu a mão, a gata surgiu. Pulou e foi recebida em seu colo. O animal negro e sedoso esfregava–se nele com prazer. Apesar de faminto, não se permitiu matá–la. Desenvolvera um profundo respeito pelo animal. Beijou sua cabeça e a presenteou com sua pulseira. O objeto ao redor do pescoço da gata virou uma coleira magnífica. – Mon ange gardien “Anjo da guarda”. Não estava distante de vardade. Se não fosse aquele animal, o rei poderia estar morto. Angel agora lhe pertencia, segui–o espontaneamente. Atravessaram o cemitério escuros e chegaram ao portão que os separava da saída. Bastou um puxão de Jan Kmam para o cadeado enferrujado ceder. Enquanto caminhavam pela rua deserta, Ariel começou a falar algo com Otávio de modo rude. – Jan, Asti, afastem–se! – percebendo que hesitavam, berrou. – Agora ! Eles obedeceram tentando no ouvir o conteúdo da conversa, mas com seus sentidos apurados foi quase impossível, o que não significa compreende–los, pois usavam uma língua semítica do ramo afro–asiático que não conheciam. Ariel deu preferência a mais antigas delas, o Acádio, ou língua assírio–babilônica, uma língua morta. – Ela está viva, Otávio? Afrodite está viva? – Ariel esta furioso. – Não ela esta morta, a Ordem a executou. Eu mesmo colhi o sangue. Voce viu o corpo – disse Otavio, sabendo o quanto aquilo poderia perturbá–lo. – Basta! Eles me desejam morto? Não sou um bom rei? Não tenho cumprido as leis? Eu os protejo com minha vida há mais tempo do que posso me lembrar. E para que tanto sacrifício? Para meu próprio irmão venha me trair dois mil anos depois? – era uma acusação perigosa o mas ele era rei. – Jamais! – Os poderes o querem vivo, desejaram–no como rei. – Tenho sacrificado tudo em nome deles. O que tenho além desse maldito anel como companhia? Furioso, Ariel tentou tirar o anel do dedo. Não conseguiu, no entanto, algo havia mudado, ele sentiu o artefato de ouro rodar sobre sua pele. Os olhos ficaram esgarçados e por muito pouco não foi ao chão. Recostou–se na arvore próxima. – Não, não é nada. Logo estarei livre –Ariel estava resignado e tinha os olhos febris. – Amaro – disse Otavio sem perceber, mas era tarde.

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Encolerizado e magoado demais para se conter, esbofeteou o irmão. A violência de Ariel contra Otavio os distanciou, sua revolta paralisou Otávio por alguns minutos, mas ele logo voltou a si e caiu de joelhos diante de seu rei. – Mereço sua ira, majestade – falou Otávio, curvando a cabeça. A distancia Jan Kmam preparou–se para intervir, mas Asti o conteve a tempo. Eles não podiam se envolver. Só então ele se deu conta de que via Ariel como menino, quando na verdade era o senhor de seu mundo e de suas vidas. – Não sou amaro há dois mil anos. Eu sou Ariel! A amostra, o que fez? Eles a roubaram de você? Porque não me contou? – O conselho e a Ordem nada sabem. Dei a amostra a Kara – revelou. – Maldito seja! Por quê? Pretendia matá–la? Você não sabe o que aconteceria se ela tocasse na amostra. Como pode? – Meu primeiro pensamento era protegê–lo. Tive medo de que tudo viesse a tona, que o depusessem e usassem a amostra contra você ou que num gesto louco você a usasse – disse olhando Ariel nos olhos – É por isso que me toma, um suicida? – Vossa majestade não pode negar que a buscou duas vezes. – Cale–se! Minha dor não pode ter parecido tão grande. O que o levou a tal gesto, Octavio? Minha amargura, minha solidão? Contemple o seu feito. A nossa amante me devora! – rugiu mostrando a carne, os braços com as mãos crispadas. – Sinto seu sangue dentro de minhas veias como se a houvesse possuído. – Perdão. Jamais desejei ser seu carrasco. Basta–me ser o seu carcereiro – murmurou aflito. – Não consigo odiá–lo. Já o destino, este não perdoarei. Como ele ousa me tocar como a mais devassa das mundanas tirando–me o orgulho e a dignidade? – Vou me entregar à Ordem como causador de nossa queda. – Otavio revelou. – Não. Voce vai ficar ao meu lado e me defender. Não vou morrer agora. Minha borboleta está viva – falou andando pela rua deserta. – Os poderes não aceitarão. – Ainda sou o rei, minha vontade prevalecerá. Vai trazê–la pra mim. Uma discussão de séculos atrás se repitia e parecia tão acalorada quanto a primeira. Ariel estava agressivo. Era febre que brilhava em seus olhos. Nada satisfeito, Otávio tentava se manter respeitoso. Quando tentou tocar seu ombro, teve a mão afastada rispidamente. – Eu entreguei Norine em suas mãos, majestade, e saiba que a matarei se tocá–la novamente. – Não vou permitir – sentenciou, já falando em português . – Afaste–se! Fique longe de mim! Jam? Jam Kmam? Onde esta meu favorito, o maldito burguês? Jam Kmam aproximou–se de Ariel e o viu desmaiar. Tomou – o nos braços. Otávio se aproximou e viu sua dor e agonia. – O que foi tudo isso, Otávio? – O peso do passado – revelou visivelmente perturbado. – O rei está muito fraco, vou providenciar algo – disse Asti, antes de sumir na rua escura. Quando retornou, trazia consigo um homem desacordado, mas intocado. Parecia um leoa oferecendo o fruto da caçada ao leão. Entregou – o nas mãos de Otávio, que passou para Ariel já desperto, a certa distância. – O que ta fazendo? – Jam Kmam e Asti perguntaram quase ao mesmo tempo, sem entender o ato de Otávio. Ele deveria sorver o sangue do mortal e alimentar Ariel de suas veias, assim o processo de cura seria mais rápido. – O rei não pode se alimentar do meu pulso tão pouco do de vocês dois. Morrera se o fizer. Não sou criação de Ariel nem ele minha, somos filhos da mesma fonte vampira. Você e Asti, no entanto são minhas criações. O sangue que corre nas veias de Ariel é único, pois venceu o de três reis antes dele. Isso fez dele um dos mais fortes e poderosos vampiros. – Otavio, o que há de errado, afinal? – perguntou Jan Kmam, cansado de tantos mistérios. – Quem imortalizou Vitor? Otávio encheu–se de reservas, mas Jan não podia nem devia se aproximar de sua mente, pois seria desrespeitoso. Lá dentro so havia os gritos e os olhos suplicantes de um vampiro quase enlouquecido pelo medo. Olhou para Ariel sentado na calçada do beco onde se ocultaram, estava Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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perdido em pensamentos acariciando sua gata. O homen do qual se alimentou jazia morto a poucos passos. Mantinha–se alheio a todos. – Vitor é filho da vampira que transformou a mim e ao rei. – Não faz sentido. Sabemos que todo aquele que beber mais do que um gole do sangue morrerá, mas isso jamais afetaria Ariel ou o deixaria doente. Eles são irmão de sangue, por que Vitor o adoeceu dessa forma? – Vitor é a ultima criação da fonte. Seu nascimento foi um acidente. Nosso sangue evoluiu, o dela não. O sangue de Ariel está séculos à frente do sangue do amaldiçoado. Nós acompanhamos as mudanças sanguíneas da humanidade, suas pestilências. Vitor esta puro, o sangue em suas veias corre como há dois mil anos. – O que manteve a fonte inalterada, por que não evolui? Jan Kmam fazia as perguntas com suavidade. Ele sempre soube como conseguir fazer Otávio falar. No estado em que se encontrava, um movimento em falso e sumiria pelas ruas. Não gostava de assumir posição de comando. Se fazia parte da casa dos Lordes, era simplesmente porque não podia negar a idade e aos poderes que adquirira durante séculos. – Ariel é diferente de nós. Desde o primeiro minuto de imortalidade mostrou ser mais forte. Isso criou um abismo entre ele e sua mestra, de tal forma que somente sua saliva o mataria. Vitor é tal força renascida, a mordida é fatal – disse num murmúrio baixo. – O que houve com a Fonte? – insistiu Jan Kmam. – Foi condenada à morte pelo machado. Então, como é possível que tenha gerado Vitor ? – perguntou Asti, vendo a culpa de Otávio transbordar. – Uma amostra de sangue da Fonte foi preservada e dela fui feito guardião. Venho mantendo– a em meu poder, esperando uma oportunidade de destruí–la. – Por que manter tal sangue? – quis saber, indignada. – Para se protegerem. Os poderes temiam Ariel. Não sabiam que espécie de rei ele se revelaria. Por isso preservaram a amostra, para poderem destruí–lo, se necessário. Só não entendo como a amostra foi parar nas mãos de Vitor – revelou Kmam, compreendendo os motivos. – Decidi destruir a amostra, mesmo sem o conhecimento dos Poderes. Carreguei o frasco comigo por todos mundo, como se ainda estivesse viva, lembrando–me noite após noite que não podia mudar ou ser restaurado. Como se não bastasse meu desejo de destruí–la, encontrei Ariel buscando–a em Paris. Sim, ele pretendia se matar. Nada mais precisava ser pensado. Quando Kara pediu uma amostra de meu sangue, não hesitei – Dividir o peso dos segredos deixou–o mais aliviados. – Kara estava com sangue da Fonte e não me disse nada? – Ela precisava de uma amostra de sangue antigo. Confesso que não ouvi suas explicações nem avisei dos riscos que corria oferecendo seu sangue para um mortal. Crime por crime, já estava a caminho da condenação. Sei que é um ótimo mestre, Jan, e que ela conhece as leis. Quem era eu pra julga–la? Não havia melhor portador, meu segredo e o dela estariam protegidos. – Como ela pode menti dessa forma? – Jan estava furioso. – Tranquilizei meu coração. A amostra seria diluída e perderia seu potencial. – Por que não me contou? Como pode passar por cima de tantas proibições? Kara é uma criança em nosso mundo. Você deveria tê–la impedido, eu a teria impedido, eu a teria punido. – Você jamais puniria Kara. Está sempre cedendo a ela, a esse amor que só o aprisiona e destrói. – É assim que me vê, Otávio, como um fraco? – Kara sabia dos riscos. – A verdade é que colocou a vida de Kara em perigo para se livrar de seu problema. – Kmam estava realmente aborrecido, andava a esmo pelo beco. – Não houve risco, ninguém buscava a amostra. – Um sentinela foi morto, Vitor sorveu a amostra, Kara esta desaparecida, o rei está doente, acha realmente que não houve riscos? – São acontecimentos isolados.

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– Estão todos ligados. Algo acontece alem de nosso conhecimento. – Jan estava irredutível. Vitor pode nos contaminar? – Sim, pode. Afinal, sou parte da fonte. O sangue que me tornou vampiro nada mais é do que uma vaga lembrança em minhas veias. – Por que a amostra pode ferir Ariel e não matou Vitor? Ele era um simples mortal. – O sangue que sorveu precisava de um hospedeiro. Vitor é um amaldiçoado. Nada resta do humano que foi. Alem disso, não há garantia de sua sobrevivência, é uma questão de tempo. Sinto muito, Kmam. Tudo que desejava era destruir a amostra de sangue. Não pensei que alguém a sorveria – Aprendi a ver Ariel como alguém indestrutível, jamais imaginei que poderia ficar doente. Vamos esperar que ele morra? – questionou–se Asti. – O tempo esta contra nós. O Intermezzo já foi estabelecido. Logo, Togo e os demais representantes dos Poderes virão até nós. – Não há um modo de evitarmos o Intermezzo? – Asti procurava uma saída lógica. – Infelizmente não. Todo aquele que do sangue de Ariel provou sentiu sua dor. Sua fragilidade é agora conhecida por todos, mas eles podem ganhar tempo com o Desígnio. O rei escolherá candidatos para ocupar seu lugar. Otávio falava de coisas que estavam perdidas dentro das paginas do Livro. Procedimentos que os vampiros mais jovens desconheciam e que em breve veriam diante de seus olhos. Impaciente demais para se manter quieta, Asti foi se sentar junto a Ariel , que buscou seus braços. – Diante disso, Ariel tem somente dois caminhos a seguir. O primeiro deles o leva ao Legado. O rei escolhe um sucessor e entrega–se à morte. O segundo nos arrasta para o Combate. O rei mantém–se e enfrenta os usurpadores, se ele não puder fazê–lo, os Poderes o apoiam e o representante em campo de batalha. Junto dele deve permanecer sua guarda, seus herdeiros de sangue. Isso se aplica a nós dois. Tanto o Legado quanto o Combate somente se estabelecerão após três dias de trégua, que somente será respeitada pelos inscritos no Livro, os demais poderão oferecer resistência e teremos de enfrentá–lo. – Vão caça–lo como um animal. Como os Poderes podem permitir tal coisa? – perguntou Jan, indignado demais para se conter. – Os Lordes, a Ordem e o Livro estarão ao lado do rei, assim como nós para defendê–lo. – Sim, estaremos, mas e quanto ao Conselho? – O conselho é berço dos piores inimigos de Ariel. Muitos deles virão atrás de sua cabeça. O favorito do rei via com pesar o resultado de sua decisão. Não havia dúvidas, Kara seria responsabilizada pelo desequilíbrio que atingia o mundo vampiro. – E quanto as chances de cura? Ele pensava rápido. Se houvesse uma cura, a pena poderia ser reduzida. E se ele, o favorito, encontrasse essa cura, poderia negociar a vida de sua pupila diante do Conselho. – Sim, há uma chance. Otávio fitou Jan Kmam com carinho, era tão bonito. A sua melhor e mais bela criação. Estava muito pálido, espectral. Perguntou–se por um momento se ele estaria preparado, se iria suportar o peso do que tinha por lhe revelar. – O velho código sanguíneo precisa ser restaurado, nada mais do que um gole. Um dentre nós pode fazê–lo, mas haverá consequências. – Imaginei algo desse tipo. Pouco importa, darei meu sangue para ele – afirmou destemido. Valia–se do fato de ser seu favorito. – Referia–me a Kara. – Otávio expôs a verdade sem mais delongas. – Se Kara fizer isso... – Asti calou–se subitamente. O silencio envolveu a todos e mais pesadamente Jan Kmam. A consternação e angustia caíram sobre seus ombros. O olhar muito claro ficou escuro e distante. O maxilar contraiu–se, e certamente sua voz estaria carregada de uma dureza quase cínica, mas que revelava a quem conhecia toda sua dor. – Tem de haver outro modo. Alem disso, Kara é minha criação, como pode restaurar os danos? – Porque a batizou com seu sangue anos atrás, quando a tocou pela primeira vez. Não é necessário negar, sei que assegurou seus direitos sobre Kara para defendê–la de Gustave. Ela Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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tem seu sangue, Jan, você é o favorito do rei, o que mais próximo dele chegou. Por muito pouco não assumiu o trono. Kara possui parte desse sangue. Queira ou não, ela é parte de todos nós. Minha, sua e de Ariel. – Não. Kara vem se alimentando como nós mesmos, noite após noite. Somos todos iguais agora – considerou. – Kara ainda pode ser considerada humana, seus poderes sequer surgiram completamente. Cinco anos de imortalidade, isso não é nada! Ela tem nas veias e no coração seu sangue adormecido por cento e vinte anos. É o mais perto que chegaremos do antigo código, a cura para Ariel Simon. Jan Kmam escondeu–se dentro da escuridão. Não pretendia sentir sobre si os olhares penalizados. Fitou o rei. Asti o colocava de pé, precisavam partir. Escolha? Não, não teria escolha. Ele se viu preso sob um regime maior e mais forte, uma decisão política. O que importava quando o que está em jogo são sentimentos? O rei iria adquirir direitos sobre Kara e a tornaria sua concubina. Para garantir a cura, ela teria de provar do sangue de Ariel. Em pequena quantidade, seu sangue liga qualquer vampiro ao Livro, mas roubado ou em união pode significar a morte. Ariel podia possuir, mais jamais ser possuído. Kara estava condenada a morrer nos braços de Ariel. Pelo menos era em que todos acreditavam. – Kara está tão inacessível quanto a Fonte ou Vitor – falou Asti, preocupada com Kmam, que caminhava ao lado deles como um zumbi. – Mas talvez haja outro caminho. Vitor tem usado o sangue de Kara em suas pesquisas em busca de uma cura. – Ainda pode ter uma amostra do sangue de Kara de cinco anos atrás. Preciso ir ao laboratório onde Vitor trabalhava – Jan pensou alto. – Não acredito ser possível, o sangue precisa estar vivo. Os Poderes não acitarão o risco – argumentou Otávio para despertá–los do sonho. – Quer que eu fique parado assistindo a Ariel morrer e que eu entregue Kara para ele? – a voz de Jan falhou no desabafo. – Acredite, entregá-la nas mãos de Ariel não doera tanto quanto vê–la sentenciada e morta pelos Poderes. Otávio expunha os possíveis acontecimentos com frieza. Chocava Asti e feria Jan Kmam, fazendo que não o reconhecessem. Parecia ter perdido a força para lutar, só conseguia ver o pior. – Sou o culpado por tudo que está acontecendo, cedi aos caprichos de Kara, mas, como seu mestre, tenho dever de protegê–la. No que me concerne, tenho chances de salva–la e, mantê–la ao meu lado – a voz de Jan estava firme mas cheia de angustia. – Prometi que nenhum outro vampiro a tocaria e assim será. – Não permitirei que cometa tal loucura. Kara pode está morta, a quanto tempo não a sente? Ariel precisa da nossa proteção – afirmou, cobrando suas responsabilidades. – Kara está viva! O que está escondendo dentro do seu silencio? – Não tenho nada a revelar – Otávio assegurou enfrentando Jan Kmam altivo. – Quando colocou a amostra na mão dela, passou por cima de minha autoridade como mestre, agora quer em fazer desistir de lutar por ela. – Duvido muito, afinal naquela casa quem manda é Kara Ramos. – Otávio, não duvide de minha capacidade de controlar minha pupila. Afina, sua fraqueza condenou Ariel a morrer lentamente. – Por favor, acalmem–se – pediu Asti, tentando dissolver a tensão. Jan Kmam estava encolerizado demais para se conter diante do sussurro de Asti. Alterado, chutou uma lata de lixo com força fazendo–a voar e se chocar ruidosamente contra a parede no fim do beco. – Pagarei por meus erros quando os Poderes se reunirem diante do rei. Kara certamente fará o mesmo. É crime revelar o mundo vampiro ao escárnio humano – revelou Otávio, sem pena. – Do que está falando? – Kara comprometeu a segurança de nossa espécie ao escrever um manuscrito. A jornalista que vem cobrindo as mortes conhece Kara e tem muito a nos dizer – completou, distante de emoções que poderiam comprometer seu silêncio.

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– Precisamos encontrá–la e matá–la – Asti foi rigorosa como os Poderes eram com todos os que quebram as leis. – Vou ao laboratório. Vitor é um cientista, fez anotações. Se guardou algo, eu encontrarei. Se ele não puder desenvolver o soro, eu o farei. Não cheguei ao décimo poder por acaso. – Eu o proíbo – Otávio falou imperativo. – Não tem poder para isso, Otávio. Sou o favorito do rei. – É, mas sua autoridade está abaixo da minha. Como Lorde, ordeno que fique. Jan Kmam estancou no meio de sua caminhada. Otávio jamais havia usado sua autoridade com ele. Na verdade, todos conheciam suas posições naquele mundo, todavia, preferiam não usá–las, pois havia a flexibilidade conseguida pela amizade e pelo amor que os unia, mas depois de tantos séculos, Otávio finalmente impunha seu poder, seu cargo. Jan Kmam voltou–se ele e puxou a espada de sua capa revelando a lâmina fria. Asti aproximou–se por reflexo, mas sabia que ele jamais conseguiria levantar sua espada contra Otávio, isso o deixaria em pedaços. Dividam bem mais do que sangue e passado. – Diante de um Lorde, eu me curvo e ofereço minha espada – refez seu juramento gelado, mas cheio de respeito. – Levante–se – ordenou infeliz, mas mantendo a distância que decidiu usar. – Nossa prioridade é encontrar Kara, o tempo está passando. Não estou contra o amor que os une. Estou somente cumprindo meu papel diante dos Poderes, de nossa espécie e do meu rei e irmão.

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6. TRÊS DIAS ANTES – O RAPTO Kara despertou com o som dos disparos. O corpo de Marques caindo pesadamente no chão pareceu selar seu destino. O cheiro de sangue invadiu seu olfato sensível. Além da proteção da arca, havia passos, vozes exaltadas, luta e a certeza do dia. Sair significaria a morte. Vitor era espancado violentamente e mesmo assim insistia em enfrentar seus agressores, defendendo a vampira. Angustiada e sem nenhuma chance de defesa, ela lançou uma ameaça aos seus raptores através de sua mente e lábios: "Não existe futuro para aquele que profana o sono de um vampiro". - Chega! - falou Perez, empurrando Vitor, mas parou ao ver a arca vibrar no chão. Aproveitando o medo de todos no quarto que tremia inteiro, Vitor avançou sobre Perez para lutar pela arma. Seu gesto desesperado provocou mais disparos. A quietude do quarto foi quebrada por um gemido, Vitor fora atingido. O cheiro de sangue estava no ar. A consciência de Kara perdia-se na letargia do sono vampiro. Nesse último instante, chamou Jan Kmam. - Vamos, o que temem? Tragam a arca - ordenou Perez, fazendo seus capangas agirem bem depressa. O quarto silenciou com a partida do grupo, revirado pelo vento frio da desgraça e do perigo. A agonia de Vitor teve início. Caído no chão, fitava a porta fechada, sentia o sangue ensopar suas roupas. Sua visão estava tomada por borrões vermelhos e negros. Moveu o corpo e sentiu muita dor. A secura na boca foi substituída por uma golfada de sangue. Tossiu, engasgou e agora estava a poucos centímetros do corpo de Marques. Vitor sabia que precisava ajudar Kara, avisar Jan Kmam. Um pensamento o torturava, enchendo-o de culpa: "eu falhei... Devia ter resistido!" Sua vida perdia-se pelo buraco da bala. Ele sabia que ninguém surgiria para salvá-lo. Mesmo na iminência da morte, só conseguia pensar em avisar Kmam. Algo cutucava sua coxa. Era a amostra que havia recebido noites atrás. O frasco saltou do bolso, ele o catou com os dedos trêmulos e o fitou em dores. - Sangue vampiro de mais de mil anos. O que pode me acontecer? Vitor desejava qualquer coisa, menos morrer. Movido pelo desejo de sobrevivência, tomou uma decisão que mudaria sua vida e a dos vampiros que conhecia para todo o sempre. Puxou a tampa antiga e foi como se houvesse libertado um sussurro feminino de contentamento e prazer que prometia vida eterna e ao mesmo tempo morte. Fechou os dedos sobre o frasco e corajosamente o levou aos lábios arquejantes. Hesitou por um momento, mas fechou os olhos e o sorveu num gole ávido. O sangue encheu sua boca, invadiu o paladar de modo doce, ferruginoso e denso. Engasgou, pois o engoliu muito depressa. Parecia ter dobrado de volume. Estava feito. O quarto tornava-se cada vez mais escuro aos olhos de Vitor, estava morrendo. O coração bateu mais uma, duas, três vezes e silenciou. Seus bonitos olhos estavam parados, fixos em algum ponto do teto. O rosto lívido foi tomando contornos amortalhados, a vida se extinguiu. Entretanto, sua consciência, a alma e o cérebro ainda permaneciam vivos, presos à matéria, algo mais forte do que a morte os prendia ao corpo. O sangue da amostra tomava seu organismo rapidamente. Cada veia e vaso eram sobrepujados, o sangue mortal foi dominado e modificado. O corpo moveu-se, piscou, os olhos readquiriam a capacidade de ver, mas agora toldados por uma cortina rubra. Sem saber como, Vitor ficou de pé e num gesto impaciente arrancou do corpo a camisa e o jaleco como se pegassem fogo. Fitava pasmo o buraco da bala se fechar diante de seus olhos. O sangue desaparecia como se sua pele fosse uma esponja faminta. Cambaleou pelo quarto e ficou diante da janela aberta onde o sol tentava se libertar das nuvens. Com um grunhido tocou o peito, uma dor lancinante o transpassou. Caiu de joelhos e sentiu o coração bater pela primeira vez depois de ter conhecido a morte. Tinha os olhos e a boca exageradamente abertos, tentava falar e respirar, aflito em sua nova condição. Agarrou-se ao parapeito da janela e novamente ficou de pé. O sol estava à sua frente encoberto por nuvens pesadas, mas Vitor não sabia o perigo que corria. A manhã seguia o curso natural e a força do sol tornava-se cada vez mais presente. Assim Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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que as nuvens o descobriram totalmente, sua luz banhou o quarto. A ignorância de Vitor foi retribuída com dor. Escondeu-se em meio à fumaça e vomitou. A movimentação dos homens levando a arca e os ruídos que faziam chamaram a atenção da dona da pensão. Seus passos pesados fizeram-se ouvir no corredor. A porta cedeu, e um rosto curioso surgiu na soleira. Vitor moveu a cabeça, fitou-a passando as costas da mão sobre os lábios úmidos. Ele era a imagem de uma besta. Olhos imensos, caninos expostos através do lábio entreaberto, seminu. O grito de horror não o intimidou. Saltou sobre a mulher puxando-a para dentro do quarto, batendo a porta. Em questão de segundos rasgava sua garganta provando pela primeira vez o sangue humano. A casa estava em alerta, e quando o corpo caiu no chão Vitor era a imagem de um estranho. Sua transformação foi rápida, completa e irreversível. O sol enchia todo o quarto e sua pele esfumaçava tocada pela luz. Escondeu-se debaixo da cama e começou a ouvir as sirenes da polícia. Acuado, sentindo o calor atormentá-lo, aproximando-se mais e mais sobre o piso, desejou a escuridão mentalmente. A janela bateu sob a força de seu desejo e poder vampiros que usava inconsciente. Havia sombra agora, mas a pele ainda ardia, doía. Podia ouvir com trejeitos quase animais o som das vozes relatando sobre os estranhos sons vindos do quarto. Não demorou muito para ouvir passos nos degraus e murros na porta, estava perdido! - Abra a porta! É a polícia! O tenente Léo Millano tentava girar a maçaneta. O quarto tremeu com as batidas, o frasco da amostra rolou e sumiu dentro do piso de madeira. Os olhos de Vitor brilharam com uma certeza. Aconteceu muito depressa. O som da janela se partindo, o baque de algo pesado despencando sobre as telhas do casarão ao lado. Era o corpo da primeira vítima de Vitor. A mulher estatelou-se no chão, dentro da sala do vizinho. Os gritos seguiram os chutes na porta, que cedeu à violência escancarando-se ruidosamente. Léo Millano fitou o quarto de arma em punho, mas só encontrou o corpo de Marques, o vômito que pisou sem perceber, a janela pendurada por uma dobradiça capenga e uma melhor visão do corpo da mulher metros abaixo. Os donos da casa ainda em suas roupas de dormir fitavam o corpo da vizinha com assombro. Os pombos voavam assustados pelo céu azul, mas não havia sinal de viva alma pelos telhados ou nos quintais próximos. - Quero uma busca na área e chame o legista, Afonso - pediu Léo Millano, fitando seu colega de profissão. Ao apoiar as mãos no parapeito da janela, espetou-se. Observou a madeira debaixo dos dedos, rasgada como se alguém houvesse ali se segurado e cravado as unhas. A rua encheu-se de curiosos. Duas horas depois, os corpos foram retirados da cena do crime. Milhões de perguntas agitavam a mente do policial, perguntas para as quais não encontraria resposta lógica, pelo menos, por enquanto. A arca foi transportada durante três horas em um carro forte. Havia correntes sobre a madeira, vozes, corações e odores. Quando o veículo finalmente parou, Kara lutava para manter-se desperta. Enquanto carregavam a arca, ela pegou a espada que estava presa por dentro da tampa, precisava estar pronta para lutar por sua liberdade. Mantinha sua mente voltada para Jan Kmam, mesmo sabendo que ele dormia. Estava com medo, seu coração batia agitado, desejou tê-lo ao seu lado, contar com sua proteção. Precisava ser forte. Aquilo não era treinamento, teria de se defender sozinha. As correntes foram puxadas e houve um momento de silêncio. Haveria resistência a sua espera. Os lados da arca cederam, puxados e estraçalhados por ganchos. Exposta e desprotegida, a vampira surgiu entre os destroços da arca. A luz forte ofuscava seus olhos. Em retribuição, ela cortava o ar à sua frente com a espada. Ao sentir o primeiro toque, saltou. O teto foi o limite. Do alto, no canto da parede, fitou os inimigos como uma aranha acuada. Seis vultos de branco moviam-se pelo quadrado feito de metal, todos com as faces cobertas por máscaras cirúrgicas e de mãos enluvadas. Kara lançou-se sem medo sobre eles e a espada cortou e feriu. Havia gritos de dor, mãos fechando-se sobre seu corpo. A tática era sobrepujar a força com número. Os agressores eram vampiros! Ela podia ver seus olhos mudados, os cortes cicatrizarem rapidamente. _ Soltem-me! Larguem-me! - berrava, sentindo a pressão sobre o corpo. Tentaram arrancar a espada de sua mão. Seus gritos, chutes, golpes e mordidas deixavam-nos loucos. Empurrou dois Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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e conseguiu espaço para cortar um deles, mas lutar em um espaço tão resumido também a feriu no braço. Eles a empurraram para o chão usando toda a força que possuíam. Um deles estava sobre suas costas, apertando seus ombros. Sem alternativa, Kara alçou voo e o levou nas costas para esmagá-lo contra a parede como a um inseto. O cubículo tinha sido planejado para deter, limitar os movimentos. A vampira conseguiu afastar dois com a força de sua mente. Não era muito, mas certamente os espantou um bocado. Logo depois sentiu o nariz sangrar, era muito jovem para tamanho esforço. Cansada daquele estranho jogo, desceu pela parede cortando quem aparecesse na sua frente. Quando a cabeça rolou no quadrado, sentiu que havia se machucado, tinha um corte no rosto. Nesse momento um vulto de negro surgiu à porta e berrou: - Chega de brincadeira, quero-a viva. Sem hesitar mais um minuto e fitando a porta aberta, Kara avançou sobre o vulto. Um disparo seco a atingiu em pleno salto, e ela despencou como um pássaro ferido. Ainda conseguiu puxar o dardo de seu ombro, mas era muito tarde, sentia a boca amarga. Imobilidade total. Fora severamente drogada. - Jan - gemeu uma vez e nada mais. Apesar de sentir o peso da espada em sua mão, não conseguia fechar os dedos sobre o cabo, como se não mais obedecessem ao cérebro. Tentou falar, gritar, mas nenhum som era emitido, assim como nenhum movimento era permitido. O rosto do atirador tornou-se um mistério contra a luz. A vampira foi erguida do chão e colocada gentilmente sobre uma maca. Havia se tornado uma boneca de pano. O estranho tocava seu rosto, os dedos frios provocavam repúdio. Ele podia ver raiva e indignação dentro dos olhos da vampira, e em retribuição beijou sua testa para depois se afastar. Fez um movimento de mão, dando permissão para que seus comandados prosseguissem. A camisa de seda foi arrancada do corpo de Kara e um lençol ocultou sua nudez. Kara sofria indefesa e fitava seus raptores pelas pálpebras entreabertas, num pesadelo do qual não despertava. Sentia muito frio, o lençol que a cobria não a protegia, a mesa de metal sob seu corpo só piorava tudo. Foi submetida a vários exames e filmada. Pôde sentir agulhas perfurarem sua pele, um corte de bisturi na altura do braço, e por fim um exame minucioso de sua boca e seus dentes. Estava quase despertando quando foi posta de bruços, com a cabeça apoiada (lado e os cabelos presos em uma touca. Quando o bisturi cortou a pele de sua nuca, Kara sentiu dor e fechou a mão sobre o braço mais próximo que encontrou, causando alvoroço. Recebeu a aplicação de uma droga que a paralisou. E questão de segundos estava inconsciente. O responsável pela operação saiu da sala com a aparência cansada. Examinou e coletou dados da vampira por seis horas. Tirou a máscara e secou o suor do rosto, ainda fitando sua paciente pela janela de vidro. Sem mais a fazer, seguiu pelo corredor branco, deixando para trás uma porta metálica onde havia uma imponente sigla: CEPS - Centro de Pesquisas Sanguíneas. Nível quatro, Laboratório Central-Subsolo.

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7. SEMELHANTES -Não! Na maciez da cama, os últimos vestígios do sedativo ainda a enjoavam, seu grito pareceu se repetir à exaustão. De um salto, ela sentou no leito completamente desperta. Estava rodeada por finas cortinas. A cama de dossel era luxuosa, assim como a camisola de renda que vestia. Saiu do leito e correu para a janela, dando de cara com uma parede de tijolos. A porta era bem pior, pois ridicularizava o olhar, uma pintura feita sobre o metal. Uma porta falsa que não possuía maçaneta e só poderia ser aberta por fora. Olhou em volta e percebeu que toda a decoração do quarto era bem ao gosto de 1870. Vagou por um mundo de cadeiras de damasco e veludo, vasos de porcelana com rosas e flores frescas sobre um piano. Sob seus pés descalços, havia um tapete oriental. Admirou a parede repleta de livros, uma escrivaninha, papel e tudo mais que desejasse. Havia dois ambientes: sala e quarto. No quarto, uma cama alta de madeira escura, uma penteadeira e um espelho de cristal. Sobre ela Kara encontrou objetos de toucador, perfumes e sabonetes. Foi até o guarda-roupa e, sem surpresas, encontrou vestidos tão antigos quanto à camisola que usava. Sapatos, chapéus, sombrinhas e bolsinhas, tudo o que uma jovem dama de posses poderia desejar. Enfurecida, a vampira bateu a porta do guarda-roupa. Talvez por estar com fome sentiu uma estranha tontura a sacudi-la. Sentou na cadeira próxima e só então percebeu um terceiro ambiente, oculto detrás de um biombo com detalhes chineses. Havia uma banheira, mesa para asseio, jarra de porcelana com água perfumada e um grande espelho, mas nenhuma porta de saída. Ela se encolheu na cadeira, o local estava frio. Ainda estaria no Brasil ou pelo menos em São Luís? Não havia um relógio sequer, provavelmente para que perdesse a noção do tempo. Dia ou noite, o que haveria detrás da porta? Com a mente cheia de dúvidas, Kara percebeu que não conseguia sentir a presença de Jan Kmam. Tocou as têmporas e fechou os olhos tentando dizer onde estava. Nada. Provavelmente estava em um quarto de paredes metálicas. Sim, elas impediam o contato com ele. Precisava sair daquela cela dourada para senti-lo. Como estaria Vitor? Não quis ser pessimista, mas acreditava que estivesse morto. Segurou os ombros sentindo frio, devia vestir algo mais composto do que aquela camisola. Kara viu-se obrigada a usar um dos vestidos. Sua mochila com as roupas, o manuscrito e a espada haviam desaparecido. O vestido preto de tafetá a tinha deixado austera, porém bonita. O broche de prata arrematou seus cabelos no alto da cabeça. Era o que esperavam, que ela participasse daquele jogo de faz de conta. Sentou em uma das poltronas e esperou, enquanto ocultava a tesourinha de bordado no bolsinho do vestido. Não era grande, mas certamente poderia machucar se cravada no lugar certo. Foi com grande esforço que se manteve sentada ao ouvir a porta ser destrancada. Precisava descobrir a face de seus inimigos. O raptor surgiu na figura de um vampiro. Num primeiro momento Kara espiou além da porta entreaberta, sua espessura a espantou. Era como estar presa em um cofre de banco. Quando a pesada porta se fechou tirando-lhe a visão do corredor, só restou o vampiro em sua frente. Sim, era ele, o vulto que a tinha alvejado quando saíra da arca. O rosto era solene como sua postura segura. Possuía um brilho selvagem no olhar castanho-avermelhado. Tinha nariz afilado, testa larga e sobrancelhas retas. O sorriso brotou mecânico debaixo dos lábios que não eram nem finos nem grossos. O vampiro vestia um terno negro completo. O cabelo caía descuidadamente sobre as orelhas, em mechas curtas e castanhas jogadas para trás, de um jeito um tanto revolto, dando-lhe um ar másculo. Sua aproximação fez Kara questionar sua altura real, pois a sombra cobria seu corpo de maneira ameaçadora. Na mão direita repousava um anel de ouro desenhado de modo a lembrar escamas de uma serpente de duas cabeças, que se encontravam fechando suas presas de prata pura sobre um rubi. Uma joia bastante exótica. Certamente a herdara de seu mestre, mas julgando pelo seu ato criminoso, parecia não possuir nenhum nem mesmo saber que o rapto de um vampiro é punido com morte. Kara retribuiu ao cumprimento estendendo a mão para sentir a carícia fria de seus lábios. Tendo-o tão perto, percebeu o quanto era velho, o modo como se Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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movia, o olhar. Puxou a mão para não prolongar o contato. O vampiro notou, todavia, limitou-se a proferir um: - Boa noite, Kara. O tom de sua voz era profundo e enigmático. Os gestos humanos haviam sumido há muitos séculos. - Quem é você? - Kara estava sem vontade de trocar cordialidades. - Sou Graco, seu anfitrião - respondeu de maneira simpática. - Está admitindo que me sequestrou? - Pergunta-me o óbvio. Devo acreditar que não conheça todo o seu potencial de vampira? É tão bonita e viva, pura em sua concepção. Sabe, tive o prazer de vê-la nua, é magnífica sussurrou, dando ênfase a cada palavra de modo malicioso. Kara fechou os olhos por um instante, controlando o ímpeto de rasgar sua cara a unhadas, tirar o sorriso de prazer que esboçou sem nenhum constrangimento. Todavia, conteve sua ira, não podia ater-se a melindres. Graco sentou-se diante dela e continuou a observação enfadonha. Ela ficou imóvel, uma tática ensinada por Jan Kmam para deixar o inimigo com dúvidas a respeito de seu real poder, mas não duvidava nem por um instante de que ele soubesse sua idade. - Certamente não matou meu Sentinela, raptou-me e montou este mundinho perdido em 1800 para se ocupar com minha beleza - retorquiu. - Em meu mundo não há crime nem punição, eu escrevo todas as leis, mas, acredite-me, possuí-la valeria o esforço de quebrar qualquer regra. Pagaria mil vezes seu peso em ouro. Seu Sentinela escapou da morte diversas vezes em Paris. Venho tentando capturá-la há muito tempo, desde sua transformação no Brasil. Se não fosse a intromissão de Gustave e a atenção que ele chamou, nada disso seria necessário. Felizmente, foi até bem fácil tirá-la deles. - A quem se refere? _ Ao seu amante Jan Kmam e ao rei Ariel Simon. Acalme-se, em breve saberá seu valor nesse jogo chamado sucessão. Por enquanto, estou satisfeito em tê-la à minha presença - murmurou encantado. _ Quer lutar com o rei pelo trono? Não significo nada para o rei, sequer o conheço, pegou a vampira errada. _ Está enganada. Seu poder está em cada gesto, músculo e sorriso seus. - Há quanto tempo estou aqui? - cobrou impaciente. - Dois dias. Estava realmente encantado, o modo como a observava era enervante. Após a transformação, houve mudanças que Kara não via claramente, mas o cuidado exagerado de Jan Kmam gritava a verdade aos seus ouvidos. Ela começou a se questionar. Tinha sido seguida por vários meses por uma sombra que se revelou seu Sentinela. O que não sabia é que a sensação havia perdurado e que havia mais uma sombra de fato. A insegurança assaltou sua mente. Kara sentiuse desconfortável, a presença de Graco era intimidadora, o que não era normal, já que possuía poderes como os dele. - Esperei por você toda a minha existência como vampiro. - Cometeu um engano. _ Não há engano algum. Sei quem é, Kara, somos semelhantes – dizendo isso, fechou a mão sobre seu punho. Seu coração respondeu ao dele. Havia laços de sangue entre os dois. Graco parou diante da vampira, que se defendeu afastando-o de sua mente e puxando o braço. Encarava-o de modo destemido enquanto tentava controlar a respiração. - Acalme-se, não lhe causarei nenhum mal. Pelo contrário, estou aqui para despertá-la deste mundo de sonhos em que tem vivido - decidiu abandonar o ar grave antes de prosseguir. - Notei que não está usando nenhuma das joias que deixei à sua disposição. Não a agradaram? Vejo que pelo menos os vestidos e sapatos serviram. Agachou-se diante de Kara e num gesto rápido amarrou o cadarço do borzeguim que ela usava. Segurou seu tornozelo deixando os dedos subirem pelo couro macio. Estava prestes a tocar sua perna torneada, quando ela empurrou a saia de tafetá tirando-lhe da visão. Graco não se queixou, simplesmente beijou a barra da saia negra, olhando-a de modo cobiçoso. Levantou fitando maliciosamente seus seios ressaltados pelo decote do vestido. Ela estava em perigo. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- A situação é ridícula e minha paciência acabou. Aonde quer chegar com tudo isso? Kara ficou de pé e alerta. Não ia permitir que a tocasse novamente. O vampiro deixou bastante clara as suas intenções e tudo que ela conseguiu sentir foi repulsa. - Quero chegar até a verdade, e ela não está nas palavras de Jan Kmam que você replicou no manuscrito. Sim, li seu manuscrito, cada palavra. Está em meu poder e no momento certo vou usá-lo. - O manuscrito me pertence - afirmou, aborrecida. - Ele é tão valioso quanto você, e agora possuo os dois - ele riu de seu aborrecimento e se afastou. - Jan Kmam mantém você prisioneira e sequer nota, não é mesmo, caríssima? Uma prisão sem grades, o pior dos grilhões, o amor. Ele quer recuperar a imagem de um amor perdido. - Jan Kmam e eu somos amantes, é diferente. Você está equivocado e em perigo. Por que arriscar sua imortalidade? - Entenderá os meus motivos em breve, mas saiba que é o desejo que a prende a Jan Kmam, e não existe justificativa lógica para o desejo, não é mesmo? O que é essa força de proporções desconhecidas, que nos leva a cometer loucuras? Quebrar regras e leis? Veja seu caso. Quebrou várias leis do Livro só para se justificar e limpar seu nome perante sua família. É tão doce - debochou, citando palavras de Kara. Um brilho maligno e irreverente iluminou o sorriso de Graco, que parecia se deleitar com o som da própria voz. Tinha certeza de sua vitória. Antipático pareceu para Kara um adjetivo pobre para denominá-lo. - Veja meu caso, sou filho do desejo. Todavia, Jan Kmam escravizou, usou e por fim matou Thais - resumiu, aproximando-se de Kara. - Por Deus, quando me livrarei desse fantasma? Não sou Thais - reclamou, perdendo a paciência, enquanto andava arrastando o vestido pelo tapete. - Eu sei disso, Kara, apenas se parece com ela. Esta é sua maldição: parecer com a mulher que rejeitou o favorito do rei. Se realmente acreditasse nisso, não teria montado este teatro. Quer trazê-la dos mortos? retrucou olhando a volta. - Não fui o primeiro nem serei o último a tentar - ele avançou mais um passo e Kara recuou imediatamente. - Não há necessidade de ter medo, sou quase inofensivo. - Isso somente o tempo dirá. Não tem o direito de me prender nem de usar meu manuscrito. É a minha história que está lá. - Você escreveu a história de todos eles, listou seus segredos e crimes. Acaso não passou por sua linda cabecinha que ao fazê-lo estaria expondo seu amado Jan Kmam, o rei, e todo o resto daquela laia? Estou declarando guerra ao rei e a Jan Kmam. Está aqui para trazê-los aos meus pés e eles virão, não duvide. Você faz parte de algo grandioso - sussurrou enlevado. - Não me submeterei. - Cale essa boca, vampira mimada! - berrou, mostrando a face alterada. Depois de alguns segundos se conteve e sorriu. - Em suas veias corre sangue real, algo digno somente de sua beleza. Acredite-me, senti o exato momento de sua concepção há cinco anos. Senti sua agonia e seu prazer. Seu coração morrendo para que renascesse como vampira. Você é minha metade, minha cura. - Liberte-me, ainda há tempo de evitar o pior - sugeriu Kara, corajosa. - É uma ameaça ou um pedido desesperado? Você cometeu um crime ao escrever o manuscrito. Somos iguais ao quebrar regras e leis, mas e daí? Eu não me curvo diante de ninguém. Só me curvarei diante de você, minha rainha - murmurou sedutor, acuando Karajunto à parede. - Afaste-se ou não responderei por meus atos - ordenou, sentindo a respiração dele junto ao seu rosto. Graco havia posto as mãos na parede, uma de cada lado do seu corpo. Kara juntou forças e encarou seus olhos escuros até que ele fizesse o que dizia. - O que quer de mim? - Preciso de sangue para viver. Sou imortal, mas não fui transformado em vampiro, nasci assim. Sou o que chamam de meio-vampiro. Herdei de meu pai a fome de sangue e de minha mãe a mortalidade. A beleza que vê em meu corpo hoje é fruto do que corre em suas veias. Há cinco anos eu era a imagem da decadência, um morto-vivo no sentido mais amplo da palavra. Tal Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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condição se prolongou por tantos anos que tentei me matar, mas não consegui nem com armas nem com afogamento. - Por que não tentou o sol? - ponderou Kara, mas se calou logo em seguida. - Muita gentileza sua tentar me ajudar, mas que o sol não me afeta como afetaria você. Ele me acompanhou durante toda a vida. Claro, é uma resistência limitada. Imagine se encher de feridas e não saber que é a luz do sol que as provoca? Outro presente de minha mãe mortal. Felizmente, o tempo da loucura passou e não desejo mais morrer. - Sinto muito por sua condição, mas não é minha culpa. - Kara, somente você poderia dizer isso. Acho que jamais vai perder sua doçura humana suspirou e quando voltou a falar estava frio novamente. - Vitor me trouxe você durante os anos de estudo. Já deve saber que Perez o matou, foi inevitável. Infelizmente, ele arrumou um jeito de escapar, transformou-se num amaldiçoado. - Seu verme! - Minha vez de dizer: sinto muito, mas não é minha culpa. Talvez ele tenha provado uma de suas descobertas e se transformado. Você sabe que ele era um homem à frente de seu tempo e não dividia tudo o que descobria conosco. Talvez o detenha mais adiante. Não quero escândalos nem o meu laboratório envolvido nisso - falou pensativo. - Seu laboratório? Você estava enganando Vitor e usando minhas amostras? - Perspicaz, não? Eu sou o dono do Centro de Estudos e Pesquisas Sanguíneas, fundado em 1890 em Paris. Vitor não queria dividir seus avanços com Sila, o chefe de meus cientistas, mesmo assim lhe demos carta branca e muito dinheiro. Vitor mereceu, pois me trouxe a promessa da verdadeira imortalidade. Logo depois tentei capturar você, mas mandei três incompetentes que só conseguiram perder a cabeça. Eu não podia me aproximar, pois havia Gustave e Jan Kmam atrapalhando o meu caminho - divagou aborrecido, enumerando seus guardiões. - Quero que veja algo. Graco entregou-lhe recortes de jornais que traziam as piores notícias possíveis. Era como se houvesse voltado no tempo. Os crimes, as insinuações, seu nome sendo citado. Sua família era novamente assediada pela imprensa. - Sua obstinação em voltar ao Brasil me deu a chance que tanto esperei, mas também trouxe a desgraça sobre seu amado, algo que não lamento. Será punida, Kara. A cidade está novamente cheia de falatório. Parte de você está dentro de meu sangue, correndo em minhas veias, a coisa mais bela de que já provei. - E aí você me agradece com mentiras e um quartinho retrô que mais parece um mausoléu. Se o curei de seus males, me solte em retribuição, mostre que tem um mínimo de decência. - Desconheço o significado dessa palavra, mas não me julgue mal, não me agrada mantê-la presa, é uma questão de necessidade. Levará sua imortalidade com todo o luxo e prazer que desejar. Para tanto, basta me dar seu precioso sangue. Podemos ser amantes também,já que eu posso lhe dar prazer de verdade. Afinal, o que são beijos e carícias quando pode desfrutar dos prazeres mortais ao lado de um homem? Graco oferecia-se como amante de forma patética. Kara gargalhou até precisar se apoiar no móvel mais próximo, foi incontrolável. Sempre acontecia em momentos de perigo. Esforçou-se um pouco mais ao perceber que Graco tentava ocultar o aborrecimento para manter sua máscara social. - Acredita realmente que trocaria Jan Kmam por você? Então, cometeu outro grande erro. Ele é meu mestre e não é gentil com quem tenta me tirar de seu poder. Kara era forçada a usar argumentos que a desagradavam profundamente. Jan Kmam era seu amor e amante, mas ela sabia que no mundo vampiro era necessário ter um mestre. - Ele tem muito a perder vindo aqui, não se dará ao trabalho. O fato de Graco duvidar da coragem de Kmam e de seu desejo de salvá-la enfureceu Kara. - Ele irá encontrá-lo e cortará sua cabeça. A morte de Gustave parecerá o paraíso perto da sua. Solte-me e pedirei por sua vida - debochou. Desta vez quem gargalhou insultuoso foi Graco. - Ele não vai viver o suficiente para fazê-lo. Não bastasse arcar com os erros de sua pupila, ainda terá que responder pela minha criação. É crime punido com morte gerar um meio-vampiro. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Sou filho de Jan Kmam. - Vampiros são gerados por contaminação sanguínea, isso é impossível. - Se aquilo fosse verdade, haveria punição e castigo, além de provar que Jan Kmam havia mentido. A sombra da traição a cobriu ameaçadora. As perguntas explodiam em sua mente em proporção astronômica, mas não as confessaria àquela criatura. Se alguém as podia esclarecer, este alguém era Jan Kmam e mais ninguém. - Para você é impossível gerar vida. Ao transformá-la, Jan Kmam tirou-lhe o poder da maternidade, mas ele não conseguiu tirar isso da minha mãe. As palavras do vampiro levantaram suspeitas e ódio no coração da vampira. Ela tocou a tesourinha em seu bolso e esperou. - Estão mentindo há séculos enquanto venho me arrastando como um pedaço de carne podre esperando por um de vocês. Vivo em São Luís desde 1973, e lhe asseguro, se soubesse que Kmam repousava naquele casarão, teria me servido de seu sangue _ confessou num sussurro faminto. - Só que então você surgiu e me deu forças para procurá-lo e exigir meus direitos. Tentei comprá-la, mas Jan Kmam não aceitou. Sei da briga que tiveram, de como foi a partida. - Você mente, está apenas repetindo o que leu no manuscrito. Nem ao menos se parece com ele. Acha que eu não perceberia os traços de meu amor em seu rosto? _ provocou, apesar de sentir o parentesco em seu sangue. - Kara, acorde! Ele vem mentindo para se proteger. Ele sabia que enquanto a mantivesse em seu poder, eu não poderia fazer nada contra ele. Não bastava vigiar seus passos, ele colocou um dos melhores Sentinelas para protegê-la e vigiar o apartamento em Paris. Ele tem medo de que o Conselho descubra seus atos criminosos. - Pois eu vou procurar o Conselho e contar sobre você, desgraçado. - Ótimo. Podemos ir juntos vestidos em traje de gala para a ocasião. Faça isso e estará assinando a sentença de morte de três vampiros: a sua, a minha e a de Jan Kmam. Três cabeças enfeitando o chão. Kara tentou se manter distante das palavras de Graco. Se eram ou não verdades somente o tempo diria. A única prova que ele tinha eram os laços de sangue, e tais laços não tinham sido passados pelo sangue da amostra, vinham de fato do vampiro que o tornou imortal. - Então, está disposta a pedir piedade por seu amante e se humilhar diante do rei. Tocante. Só me pergunto se conseguirá, depois dos crimes que cometeu. Os Poderes são muito cruéis com quem quebra as leis. Posso adiantar que eles não fazem perguntas, apenas julgam e sentenciam, pois os nossos crimes, minha criança, são de sangue. Qual será a punição por dar amostras de seu sangue para um mortal e escrever um manuscrito? Ficar trancada na caixa por vinte anos ou talvez enfrentar o chicote. Não, acho que não. Com certeza vão cortar sua cabeça também. Logo agora que começa a desfrutar de sua imortalidade em toda plenitude. Estamos sozinhos no mesmo barco. Aceite isso. - Fale por você, criatura. Eu jamais estarei sozinha, pois tenho um mestre, sou uma vampira, um ser imortal. - Não diga isso. Há um laço mais forte que nos une e que suas encarnações jamais poderão apagar: Thais era minha mãe. - Agora você foi longe demais. - Suas palavras naquele manuscrito só me trouxeram revolta. Jan Kmam mentiu e você acreditou na linda história de amor que ele contou - rugiu rouco. - Foi tão inocente quanto minha mãe. - Ninguém pediu que você lesse, não é mesmo? Devia ter pegado uma revista em quadrinhos se estava tão entediado - disse friamente. - Cínica! - empurrou Kara sobre a cadeira. - Se teve paciência para ouvir as mentiras de J an Kmam, também terá para ouvir a verdade. Thais vivia na rua, metida em trapos, vendendo rosas. Seu erro foi oferecer rosas a um vampiro. Ele virou seu cliente, vigiava seus passos, defendeu-a de ladrões, mas ela jamais aceitou suas investidas. Era fiel ao seu futuro marido, que Kmam fez questão de afastar. Cansado de suas negativas, ele a atacou na rua, levou-a para sua casa e lhe prometeu uma vida melhor. Sem alternativa e fadada à miséria, ela aceitou. Oferecia-lhe sangue e companhia, mas a felicidade deles durou pouco. Pierre reencontrou Thais e juntos armaram um plano de fuga, mas a governanta que ajudava minha mãe contou tudo para ele. Enlouquecido de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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ciúmes, ele matou Pierre. Prisioneira, a única coisa que a mantinha viva era o bebê que carregava no ventre. Não preciso falar do horror de Jan Kmam ao descobrir que ela estava grávida. Tentou fazê-la abortar, mas tudo que conseguiu foi envenenar sua amada. Otávio salvou Thaís dando um pouco de seu sangue misturado ao vinho, talvez a única verdade de seus relatos. Não havia esperanças para ela ou o bebê até Gustave surgir. Kara ouvia em silêncio e revolta. Suas revelações não pareciam reais, todas vinham do manuscrito de forma manipulada. Como podia acreditar que ela se aliaria a ele? Sua loucura parecia não ter limites. - Gustave havia sido expulso de casa por desagradar Jan Kmam. Thais precisava ser levada para diante dos Poderes, seria executada. Contudo, esse seria um fim mais piedoso. A gestação a condenaria à morte durante o parto. A criança nasceu e Thais milagrosamente sobreviveu. O menino foi deixado aos cuidados de Consuelo, a única que teve coragem de enfrentá-lo. Eles lutaram e Jan Kmam matou Thais diante dos olhos de Gustave. Kara compreendia que Graco precisava de seu sangue, mas por qual motivo queria fazê-la odiar Jan Kmam? - Lindo anel este que traz no dedo - disse para recapturar sua atenção. - Sabe a quem ele pertenceu? Há uma inscrição em francês que talvez dê uma dica. Está escrito em relevo: minha rosa eterna. A pedra azul do anel brilhou como seus olhos sobre ela. Kara não se moveu, conhecia a inscrição, mas como ele poderia saber? Só nesse momento percebeu algo, tirou o anel do dedo com certa dificuldade. As letras estavam em relevo para que Thais pudesse senti-las. Deixou que o anel escorregasse até o chão. - Como sabia? _ Gustave e Consuelo sabiam, eu só descobri depois - disse manso, recolhendo o anel aos pés da vampira. - Quando acreditar completamente em minhas palavras terá sua liberdade de volta. Graco tomou sua mão delicadamente e recolocou o anel. O choque jogou Kara dentro das lembranças que tanto a atormentavam. Ela tentava entender o que acontecia com o mundo que julgava conhecer. Olhava o anel e tentava acreditar nas palavras de Jan Kmam, no que sempre demonstrou sentir, mas até onde poderia acreditar? Mesmo que Graco estivesse manipulando a verdade, não podia negar que Kmam era mestre em omitir fatos. _ Kara, seu futuro ao meu lado é grandioso, seu poder vai além do que o rei pode supor. Jan não merece o amor que sente por ele. Nós nos completamos, sua imortalidade alimenta a minha e meus poderes farão de você uma rainha. Fique comigo, deixe-me cuidar de você. Não permitirei que o Conselho toque em um fio do seu cabelo. Está livre de seus crimes ao meu lado, basta aceitar a sua nova vida. A declaração acompanhou uma carícia possessiva e imperiosa. A revolta cresceu como uma tempestade em alto mar. Kara afastou-se dele ouvindo o tafetá da saia ranger. Percebeu que ele queria trazer Thais à vida através dela como Gustave tentou. Fitou sua face no belo espelho sobre a falsa lareira e viu uma vampira amarga e insegura. Furiosa, quebrou o espelho. Olhou a mão sangrenta com indiferença e a ofereceu a Graco. Ele caiu de joelhos aos pés da vampira e se deliciou. Deslizou a língua por sua mão sorvendo o sangue, olhando-a com entusiasmo e prazer. - Aproveite, Graco, pois é tudo que terá do meu sangue. E é desse modo que morrerá: de joelhos. Será um prazer vê-lo perder a cabeça no fio da espada de Jan Kmam. A voz de Kara estava carregada de abonação. Olhava Graco como uma rainha que espia o lacaio servil, afirmando sua superioridade. Ela não sabia de onde vinham tais sentimentos, entretanto eles a protegiam. Tendo-o aos seus pés, percebeu a fria revolta cobrir sua face, o que não a impediria de prosseguir com as provocações. - Pagará bem caro por desafiar o rei Ariel Simon e o seu favorito. - A espada de Jan Kmam não é invencível - murmurou Graco, ressentido. - Saberei lidar com seu antigo amante. Graco semi cerrou os olhos, avançou e estendeu a mão em direção ao pescoço de Kara como se pretendesse torcê-lo. Ela o encarou corajosamente e esperou pelo que seria seu último ato. - Não vou perder a cabeça como o pobre Gustave. Ao ler o manuscrito, percebi essa sua Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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tendência de supervalorizar este vampiro. Você verá. - Seu fim? - completou cruel, debochada e cortante. - Serei um mestre bem diferente de Jan Kmam - divagou insistindo em seu desejo louco e descabido. - Disso eu não tenho a menor dúvida. Sua presunção o matará antes que possa perceber. Sua reação no mínimo inesperada exasperou o vampiro. De certo, acreditou que ela correria para seus braços, renegando o amor de Kmam. Havia dúvidas, mas não seria um completo desconhecido quem as esclareceria definitivamente ou a faria deixar de amá-lo, ainda mais um louco com o Graco. Ele se aproximou com a clara intenção de intimidá-la. A vampira o olhou com extremo nojo e cuspiu, demonstrando o seu desprezo. Ele precisava conhecer Kara Ramos. Os olhos de Graco soltavam chispas de ódio, mas se conteve ao limpar a face feita de pedra. - Jamais perverterei o sangue que me foi dado com amor, misturando-me a um parasita - as palavras saíram com um prazer inconfessável. - Vou lhe ensinar a me respeitar como seu mestre! O sequestrador avançou para agredi-la severamente. A tesourinha brilhou afiada tendo como alvo a garganta de Graco. O sangue jorrou do corte sujando sua veste. Ele tocou o rasgo, incrédulo. Jamais imaginara o ataque. O líquido esguichava por entre seus dedos, sufocando-o, inundando sua boca, mas ele ainda avançava. Fechou a mão sobre o pulso de Kara, tentava mordê-la. Ela o empurrou com força e cravou a tesourinha em seu peito. Enquanto gritava engasgado, um alarme soou. Agora Graco tentava se livrar dela, mas tudo que conseguia era arquejar sufocado com o próprio sangue. Kara saiu de cima dele, que passou a rastejar em fuga. O corte cicatrizava com extrema lentidão, e seu agressor parecia bem humano agora. A porta abriu e a sala se encheu de seguranças. Kara voltou-se e fitou os bastões em suas mãos. Eles estavam prontos para detê-la com choques elétricos. Sorriu e percebeu o medo em seus olhos, os corações agoniados. Suas mãos estavam sujas de sangue e seu olhar dilatado os fez recuar. Antes que a atacassem, pulou sobre o grupo e sem piedade quebrou pescoços e braços para conseguir escapar. Enquanto lutava, ouviu os gritos estrangulados de Graco para que fechassem a porta, mas era muito tarde, ela tinha alcançado o extenso e iluminado corredor. Entrou na primeira porta que encontrou destrancada. A sala era mobiliada luxuosamente e exibia o gosto do dono, certamente o escritório de Graco. O alarme continuava a soar irritante. Kara procurava um telefone quando deparou com sua mochila vazia sobre a poltrona de couro. Fitou o armário atrás da escrivaninha, arrancou as portas, puxou as gavetas e, por fim, achou o manuscrito, a espada e o resto de seus pertences. Rapidamente, desfez-se do vestido e pôs seu jeans negro, a camisa branca e o corselete de seda. Despejou o conteúdo da mochila e pegou o essencial; todo o resto teria de ficar. Enrolou a caixa de música numa camiseta e pegou a pasta contendo o manuscrito. Resolveu deixá-la de lado e o envolveu num saco plástico. Era tudo de que precisava. Saiu do escritório e agarrou-se à parede fazendo do teto seu caminho. Movia-se com rapidez. As câmeras de vigilância eram um alvo fácil para sua espada. Outro grupo de seguranças surgiu no caminho oposto ao seu. A porta do elevador mostrou a saída. Em seu interior havia dois vampiros. Ela esperou o momento certo e pulou empurrando-os para fora, acenando gentilmente enquanto as portas se fechavam. Quando a porta voltou a abrir, lançou-se dentro de um grande galpão. Havia sons de máquinas, o cheiro do arroz em casca era forte. Estava em uma usina de arroz, mais precisamente na área de estocagem. Era uma fachada grandiosa para o esconderijo de um vampiro. O vento trouxe o cheiro do rio. Seu olfato não se enganaria, o odor daquela lama sempre estaria em sua memória. Continuava no Brasil, no interior de São Luís, Pindaré. Percorreu os corredores repletos de sacas empilhadas buscando a saída. O som de tiros tomou o ambiente, junto com o cheiro de sangue humano. Kara correu na direção do som dos disparos e espiou pela porta entreaberta. Viu dois vampiros se alimentando, enquanto um mortal, trajando roupas de segurança, tentava se defender de arma em punho. Tinha a camisa rasgada, sangue no ombro e o pavor estampado na face. Kara entrou suavemente e balançou a lâmpada pendurada no centro da sala. O piscar das luzes assustou-os. Os vampiros não conseguiam senti-la, mas experimentaram o aço frio de sua espada. O mortal sentiu o jorro de sangue ainda quente em sua face. Assustado, buscou Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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ferimentos sobre o corpo. Nesse momento, algo bateu contra seus pés. No vaivém da luz, viu a cabeça do vampiro. Seus gritos encheram a sala. A vampira empurrou-o e continuou atacando, cortando, sentindo o sangue do inimigo salpicar seu rosto. A lâmpada iluminava os corpos mutilados, sem vida. Vendo o segurança paralisado, Kara pegou-o pelas vestes e ordenou: - Corra! Ele cruzou a porta com a respiração acelerada, o coração a mil. Kara foi logo atrás. Puxou-o na esquina de uma parede de sacas de arroz e cobriu sua boca para que não gritasse. Havia vampiros procurando por ela por todos os lados do galpão. Vampiros jovens, recém-gerados, provavelmente filhos de sangue de Graco. - Se quer continuar vivo, fiquei quieto - sussurrou, mirando os olhos do mortal. O homem, muito nervoso, respondeu com um aceno de cabeça. Quando ela retirou a mão de sua boca, olhou para cima e viu as vigas de sustentação do teto, um bom lugar para guiar seus passos. Saltou sem fazer ruído, e de lá, ainda incógnita aos olhos dos seus perseguidores, estudou dois caminhos: a porta da frente do galpão, distante e bastante vigiada, e a dos fundos, que anunciava uma possibilidade de liberdade. Os vampiros comandados por Graco esgueiravam-se pelos corredores. Em breve, ela e o segurança estariam cercados. Kara tornou uma decisão e voltou ao chão silenciosamente. Sabia que havia chegado o momento de usar todo o conhecimento passado por Jan Kmam. Artes marciais, combate com espada e luta em campo de batalha. Ela segurou a espada com as duas mãos e se jogou em combate direto. O metal rugia entre saltos e empurrões, chutes e gritos. Matou vários vampiros num balé gracioso. Num giro, pegou um deles do ombro para baixo, para espanto dos demais. Eles pararam de avançar, sem coragem de enfrentá-la. Uma seta metálica atingiu o ombro direito de Kara, e seu grito cortou o galpão. Sua espada pendeu ao chão. O sangue pingava de seus dedos. O segurança aproximou-se e estancou sem saber se poderia tocá-la ou não. Kara viu a face vitoriosa de Graco no corredor a alguns metros de distância. Ele sorriu e sumiu nas sombras. Os vampiros tomaram novo ânimo e se aproximaram. Enquanto o círculo se fechava, o segurança buscou em vão algo com que pudesse se defender. Kara reuniu suas forças, era o momento de medidas extremas. Segurou a espada com vigor. - Agarre-se em mim. Agora! O homem seguiu as ordens e passou os braços sobre seus ombros com força, com a vampira já em movimento. Kara segurava a espada firmemente com as duas mãos, o peso do segurança fazia o ferimento doer ainda mais. As telhas se quebraram quando passaram velozes pelo teto. O salto foi o mais alto que conseguiu alcançar, e a espada amorteceu a colisão. Atravessaram o teto e despencaram de uma altura de quase dez metros. Caíram pesadamente no chão de forma dolorosa. Estavam a céu aberto, mas não em liberdade. À frente deles havia uma cerca de cinco metros coberta por fios elétricos. O som das balas era real e não tardou para Kara ser atingida. Queriam detê-la a todo custo, mas agora faltava pouco. Ela correu levando o segurança, bloqueando os tiros que poderiam atingi-lo. Precisava dele vivo. Conseguiram despistar os perseguidores por alguns minutos e se esconderam num galpão de caminhões de transporte de arroz. Num canto isolado, Kara cravou a espada no chão e tocou o ombro. A seta enterrada na carne não tinha atravessado o osso, tinha ficado no meio do caminho. Trincou os dentes e se jogou contra a parede sufocando o grito. A ponta da seta surgiu sangrenta do outro lado do ombro. Segurou-a e puxou com força. Caída no chão e completamente fatigada, percebeu o segurança olhando-a mais do que admirado. - Como se chama? - Fernando Miranda. Para ele, Kara era um espectro. A pele pálida, suja de sangue, e os olhos negros dilatados a deixavam ainda mais singular. Nesse momento, ela notou a visão turva. Examinou a ponta da seta e sentiu o cheiro forte do narcótico sobre o metal. A letargia iria dominá-la em breve. Não conseguiria fugir, pensou frustrada, mas o homem à sua frente, sim. As balas saíam lentamente de seu corpo, perdia muito sangue, enfraquecia depressa. - Preciso de sua ajuda. Tome - murmurou passando-lhe a mochila e um cartão. - Ligue para este homem e conte tudo a ele. Só entregue a mochila a ele e a mais ninguém, compreendeu? Somente a Jan Kmam - seu peito doía, ainda havia balas em seu corpo. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Você está muito machucada. É como eles? - Não. Sou diferente. - Posso ajudá-la, apoie-se em meu ombro. Podemos fugir pelo rio, logo vai amanhecer. Fernando sorriu. Era um homem de coração forte. Seu pescoço ficou próximo aos lábios da vampira. - Desculpe-me, mas só existe um modo de me ajudar - sussurrou hipnotizando-o, prendendo-o com seu olhar. Agarrou-o com força e o mordeu. Ele tentou lutar debilmente, mas estava debaixo das mãos pequenas, porém fortes, de uma vampira. Ela sugava suavemente, não queria matá-lo. Bebeu somente o necessário para se fortalecer e lambeu a ferida antes de soltá-lo. Ao tocar o pescoço, Miranda viu o sangue, afastou-se dela e a fitou com uma expressão pouco definida, pois pensava ter sido beijado. - Perdoe-me, foi preciso. Nada vai acontecer. - Vamos, deve haver alguma brecha nessa cerca por onde possamos passar - balbuciou ao retomar seus pensamentos, sem entender o que tinha acontecido. Só queria ajudá-la, estava penalizado com seu estado. Saíram do galpão em silêncio, ocultando-se como podiam. Estavam próximos da cerca quando Kara, num último esforço, o jogou sobre a cerca eletrificada. Foi muito rápido. Miranda caiu no rio e sumiu dentro das águas escuras, emergindo minutos depois. Havia conseguido. Nadou para a margem e de lá fitou Kara, para desaparecer entre as árvores. A vampira caminhou entre o aglomerado de máquinas abandonadas onde o mato crescia alto, e viu um casebre a distância. Ficava junto aos silos de arroz. Tremia de frio, a visão estava cada vez mais turva. A cabeça doía como se estivesse doente. Forçou a velha porta de madeira e mergulhou na escuridão do casebre. Deparou com um depósito. Buscou um interruptor e percebeu que ali não havia luz elétrica. Kara via bem no escuro, mas não o suportava, havia algo nele que a aterrorizava. Viu o lampião pendurado num gancho enferrujado na parede, estava coberto de poeira, mas tinha um pouco de querosene. Abriu as gavetas da velha mesa e achou uma caixa de fósforos surrada. Iluminada pela pequena chama, acomodou-se sobre a cadeira alquebrada enquanto o seu precioso sangue imortal escorria pelos ferimentos. Estava encharcada, sentindo-se imunda. Seus músculos estavam tensos, a nuca doía. Tocou o pescoço e sentiu o nódulo latejar. A cicatrização estava lenta e isso a enfraquecia. Kara virou o rosto e, debaixo da cascata de seus cabelos, viu as escadas. Pegou o lampião e desceu os degraus rumo ao porão. Por muito pouco não caiu direto até o piso de baixo. O local era um quadrado perfeito de concreto com paredes limpas. Sentou-se no chão grosseiro, recostou a cabeça na parede e ouviu os ratos passearem. Sentia sua presença, mas não conseguia vê-los com nitidez. Kara colocou a espada no colo e tentou se concentrar, precisava falar com Jan Kmam. Ele tinha protelado a viagem para o Brasil e só a permitiu sob recomendações extremas. Poderia haver verdade nas palavras de Graco? A vampira sorriu com certa amargura e lembrou-se de sua última noite em Paris. - Jan, você me olha como se eu não fosse voltar. Saiba que ninguém será capaz de me impedir de voltar para os seus braços, meu amor. Veja, estou levando somente a mochila. Asti e Otávio visitam você todas as noites, não há como sentir solidão. E a arca é segura. Tenho dormido nela, esqueceu? - Quando você quer, sabe ser cruel como nenhuma outra vampira, Kara. Vamos, ainda há tempo para desistir disso. Se quer tanto viajar, vamos passar o carnaval em Veneza, o que me diz, ma petite? Dormiremos num palácio,passearemos de gôndola ao luar, nos vestiremos como lordes. - Iremos quando eu voltar de São Luís. - Tudo bem. Então vou com você. Ficarei a distância - falou Jan em tom conciliador, tentando evitar a discussão. - O que teme, meu amor? - Tudo. Tortura-me e apavora-me saber que sai sozinha para tão longe. Deixe os mortos descansarem em paz. Não precisa fazer isso, você está morta. - Saberei como me defender se for preciso. Vou levar minha espada. - Sim, é uma ótima aluna, mas existem vampiros mais poderosos. Fique e esqueça essa ideia de uma vez. Não é costume um vampiro tão jovem deixar a companhia do mestre. Ariel disse algo que me fez pensar por muitas noites depois. Se não bebêssemos o sangue dos mortais, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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seríamos somente imortais, mas mesmo assim não seríamos aceitos por eles, pois tal poder é demais para os que se sabem condenados à morte. Temo por seu coração, Kara. Jamais será a mesma mulher que beijei pela primeira vez. Sabe-se mudada, meu amor. Não quero que sofra. - Talvez eu precise sofrer para entender que não sou mais a mesma. Dê-me o direito de descobrir o que os séculos já te ensinaram. Não me trate como uma rosa que precisa de uma redoma de vidro. Preciso do orvalho, preciso sentir a força da tempestade. Deixe-me sentir a chuva e a luz da lua sobre minhas pétalas - arquejou segurando seu rosto entre as mãos e beijando-o longamente. - Você é a mais poderosa e convincente das forças que conheço. Maldita! Vou permitir sua partida, mas quando voltar, saiba que não me deixará novamente. Kara reviveu o momento em que o cobriu de beijos, sentindo suas mãos segurarem seu cabelo com força. - Serei cuidadosa. Olharei os dois lados da rua antes de atravessar e escovarei os dentes antes de dormir. - Quero que me ligue todas as noites. - Ligarei. Agora, tenho algo para você, meu mestre. Kara parecia se ver correndo até o guarda-roupa e voltando com a caixa de presente. Sentou no colo de Jan com jeito de moleca. Ele a beijou na testa e abriu o presente. - Guardei as roupas com a esperança de que um dia as vestisse para mim. Jan Kmam tocou a camisa antiga e agora perfeitamente costurada e perfumada. A calça tingida como nova, o lenço bordado. Os olhos brilharam emocionados. - Por que Kara? - perguntou o vampiro, olhando a camisa antiga e agora perfeitamente costurada e perfumada. A calça estava tingida e parecia nova. Seu lenço bordado brilhava de tão limpo. Seus olhos brilharam emocionados nas vívidas lembranças de Kara. Jan Kmam sentia-se confuso, mas envaidecido, pronto para compreender e realizar seu menor desejo. - Era desse modo que estava vestido quando nos vimos pela primeira vez. Eu senti muito medo, mas ao mesmo tempo admiração e desejo. Acho que me apaixonei naquele primeiro momento, mesmo não tendo nenhuma consciência disso. Quando as tocava, podia senti-lo por perto. Era real e era meu. Quero que as vista para meu prazer. - Vestirei com uma condição. Quase sem forças no galpão escuro, Kara ouviu a Valsa do Imperador, de Strauss. Não conseguia mais diferenciar passado e presente, estava a ponto de desmaiar. A música encheu o apartamento de forma grandiosa, Kara e Kmam dançavam e sorriam de seu desprendimento e fantasia. Ele fez Kara girar, enquanto a barra do vestido negro cobria suas botas. Havia voltado ao passado. Jan Kmam conduzia com a leveza de um dançarino perfeito. Quantos salões e leques, joias e candelabros seus olhos famintos haviam visto? Muitos. Quando a valsa chegou ao fim, Kara sentia-se feliz como jamais poderia ser ao lado de outra criatura. E ali, no círculo do seu abraço, ouviu o piano suave de Chopin anunciar o beijo. Puxou-o em direção ao quarto e ele a seguiu docilmente. Despiram-se entre colchetes e laços para saborear a juventude eterna de seus corpos. Kara adorava ver sua excitação de vampiro, o brilho no olhar mudado, o modo apaixonado com que ele a trazia para seu colo. Ela fechava os olhos e se rendia à boca que percorria seus ombros, a nuca e a curva do pescoço, enquanto a mão detinha seus cabelos. Ela precisava tocar sua pele alvacenta, vê-la arrepiada debaixo de seus lábios, esconder o rosto no dourado de seus cabelos e ouvir seus gemidos, totalmente perdida no azul de seu olhar faminto. Gostava de murmurar ao seu ouvido o quanto o desejava. Os velhos anseios humanos aos poucos sucumbiram à fome de sangue. O corpo de Kmam tremia de desejo junto ao seu, exasperado com seu toque suave. Enlaçados, seus corações batiam juntos, no mesmo ritmo. Kara inclinou-se sobre ele e o mordeu. Naquele momento tinha de ser cruel e firme. Ela o sugava com força, satisfazendo seu desejo, enquanto Jan se entregava sem reservas, com os dedos fechando-se sobre o ombro da amante. Kara afastou os lábios da mordida, buscou sua boca num beijo longo e profundo. - Sou e sempre serei sua, meu amor, meu Jan Kmam. Je t'aime. - Eu ainda mais - sussurrou ávido enquanto buscava o melhor ângulo para morder o seio intumescido da vampira. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Kara segurou seus cabelos dourados enquanto ele a sugava, ouvindo seu coração imortal bater fortemente. Ela tinha os lábios entreabertos e gemia baixinho, em pleno gozo. Quando a tempestade de paixão e fome passou, restou a calmaria que invade o leito dos amantes, onde só restam carícias, sussurros e risos. - De acordo com seus desejos, mon amour? Kara segurou a cabeça e gritou de dor. Estava de volta ao galpão abandonado, longe de Jan Kmam, presa dentro de uma realidade cruel. O coração disparou, abriu os olhos e viu Graco parado diante de si com a arma tranquilizante em punho. O rosto estava pálido, ele suava como um mortal, não parecia em melhor condição do que Kara. A visão falhava, mas ela pôde ver a atadura improvisada em sua garganta. Ele a fitou com profundo ressentimento. Ela se colocou de pé com esforço. Segurava a parede com uma das mãos e mantinha a espada erguida em sua direção. Avançou pronta para cortar sua cabeça, em um momento de desespero. O vampiro atirou. Não havia fuga, somente o olhar de seu algoz.

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8. O CATIVEIRO Graco andava pela sala de cirurgia calmamente. Vez ou outra lançava um olhar sobre o corpo de Kara, que era mantida inconsciente. Era um pedido de Sila, um cientista que há décadas se dedicava a um único material de estudos: vampiros. Ele queria observar o corpo se restaurar sem ajuda de sangue. Kara não se alimentava há três dias, o que não impediu seu organismo de se restaurar, expulsando as balas e fechando os cortes, inclusive o causado pela seta envenenada com curare. O curare era um veneno mortal para humanos e um sedativo perfeito para o organismo de um vampiro. Dependendo da dosagem, poderia paralisar ou deixar a vitima inconsciente. Graco contemplava a capacidade regenerativa de Kara com indisfarçável inveja. Mesmo que jamais conseguisse a cura, ansiava pelo paliativo que o sangue dela lhe oferecia. Admira sua beleza suave, o desenho dos lábios. Era encantadora demais para ter eternamente como companhia Jan Kmam ou Ariel Simon. Teria um futuro melhor se permanecesse ao seu lado. Ela parecia um anjo enquanto dormia, mas assim que despertasse continuaria lutando e tentando fugir. Sila retornou para a sala e lançou um olhar para Graco. Não gostava de tê-lo no subsolo, xeretando suas pesquisas e seus pacientes. Desde a chegada de Kara, Graco não fazia outra coisa senão vigiar seu sono. Sila era um homem de meia idade de cabelos grisalhos, rosto maduro e olhos castanhos. Sua beleza havia diminuído com o tempo. Vestia-se de modo antigo, com calças, camisa, colete e jaleco. - Vou suspender o sedativo e leve-la para cela. Já descobrir o que queria – falou, observando a papeleta e fazendo as últimas anotações. - Ainda não. Quero que anule seus poderes. Transforme-a em uma humana que bebe sangue. - É muito perigoso. Ela ficará vulnerável à dor, o cérebro pode ser afetado. Fiz algo semelhante no último espécime que capturamos. - Espécime? Que diabos acha que somos? – perguntou Graco ofendido – O que pensa que é? - Sou um cadáver ambulante com sede de sangue e muitos afazeres. Ajudaria muito se não atrapalhasse – resumiu Sila, cansado e faminto. - Não seja ingrato. Fiz por você o que nenhuma droga ou Deus foi capaz de fazer. - Se chama esse tipo de existência de imortalidade, contemple uma Deusa – referia-se a Kara. – É perfeita em cada músculo, osso e traço. É forte, ágil, inteligente e bonita. Isso é imortalidade, e não essa meia vida que vivemos meu caro Graco. - Não me canse com detalhes. Graças ao meu sangue, seus olhos viram o que nenhum outro cientista do século XVII sonhou existir. Faça o que mandei e reduza os poderes dela. - Teme outra tesourinha de bordado? Quero que saiba que reduzir os sentidos dela correrá o risco de perdê-la. O último vampiro submetido a tal procedimento demonstrou grande agressividade, teve um colapso e seu corpo secou. Ele simplesmente se desintegrou. - Viu o modo como ela me atacou? Ela é forte e ainda por cima sabe artes marciais! Quero-a dependente de minha vontade. Kara precisa entender que me pertence. Reduza suas defesas e a desperte, falarei com ela ainda esta noite – dizendo isso saiu da sala. Sila observou a partida tempestuosa de Graco e fitou Kara de modo relutante, mas decidiu prosseguir. O corpo foi posto de bruços e seus cabelos metidos em uma touca. Tomou o bisturi e ainda por um instante hesitou, conhecia os riscos. Tocou a carne pálida e fez a incisão. O corte foi pequeno, mas sangrou. Usou uma pinça e logo um pequeno dispositivo foi posto sobre a bandeja, seguido de outro menor que o primeiro. Sila introduziu sob sua pele e retirou a pinça para ver o corte de fechar. Pronto, havia terminado. Ele retirou as luvas e foi para o computador diminuir a capacidade de Kara em vários níveis, incluindo a capacidade visual, olfativa e sensorial. - Sinto por você minha querida.

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9. A OUTRA Kara havia despertado há alguns minutos. O quarto luxuoso foi substituído por uma cela de paredes metálicas e brancas. Os móveis caros e clássicos deram lugar a uma mesa e duas cadeiras simples. A janela de vidro não lhe enganou, era certamente usada para observar seus movimentos dentro daquela jaula. Desceu do leito e lançou a cadeira de metal sobre ela. Para seu desgosto, nada aconteceu, o vidro era a prova de balas e cadeiras. Avançou sobre a porta e, para sua surpresa, recebeu uma forte descarga elétrica. Encolhida no chão, sentindo seu corpo doer, viu as mãos queimadas e a cicatrização lenta de sua pele. Não sabia quanto tempo não comia ou quantos dias ficara inconsciente. Sentia angustia, medo e uma tristeza profunda dominá-la. De onde estava vindo tudo aquilo? Cobriu com o lençol da cama para ter privacidade. Não queria ser observada como um animal. O soluço escapou de seus lábios e as lágrimas surgiram. Chorava desconsoladamente. As recomendações de Jam Kmam queimavam em sua mente como fogo. No seu coração pesavam duvidas e culpa. Mais uma vez tinha trazido perigo para ele e para si. Precisava descobrir um modo de sair dali e evitar que Graco tivesse a chance de enfrenta-lo. Nesse momento tentou se comunicar com ele. O grito de dor escapou de seus lábios sem que pudesse se conter. Era como se alguém perfurasse sua cabeça com um objeto pontiagudo. Ela tocou na nuca e sentiu um nódulo. Deitou no chão sobre o lençol e viu tudo rodar a sua volta, estava tonta e nauseada. Tomada pelo desespero, fechou os olhos e ouviu sussurros que pareciam traquiliza-la. Por alguns minutos sentiu uma presença poderosa a envolver e abraçar. Permaneceu assim, temendo que o delírio a deixasse. Chegou a sentir uma mão acariciar suavemente seus cabelos e rosto. Minutos depois a presença a abandonou. Sentia como se houvesse cochilado. Consegui se sentar, mas não teve ânimo de se erguer do chão. Sentia-se abatida. Olhou suas mãos e as viu tremer,sentia muita fome. Aporta abriu-se e uma fragancia adocicada invadiu a cela. Junto com ela surgiram duas vampiras, que se posicionaram para avaliar Kara. A mais simpática era certamente a dona do perfume enjoativo. Abanava um leque negro de modo irrequieto. A descrição de Jan Kmam tinha sido perfeita. Consuelo era de fato bonita e afetada. Estava vestida com um corselete vermelho-amora que ressaltava os seios perfeitos e o corpo esbelto. A saia na altura do joelho deixava o conjunto sofisticado e ousado, tanto quanto o salto agulha que usava. Os cabelos lisos extremamente negros eram um contraste e tanto com sua pele espectral. A única jóia que usava era uma longa corrente de ouro com um pigente de ágata verde rodeado de prata. Ela cruzou os braços sobre o busto, o leque pendeu no pulso preso por uma fita negra. Kara percebeu que ela usava maquiagem de modo a suavizar o ar maligno que possuía, algo que em sua opinião não funcionava. A outra vampira era magnífica. Seus cabelos eram um véu rubro e liso que ocultava a face misteriosa. Eles a envolviam numa aura de poder e sensualidade. A pele leitosa e certamente macia era aveludada como uma fruta tenra. Ela era, sem dúvida, uma criatura fascinante, ruiva natural com sardas que lhe conferiam um ar infantil. Sua presença não era agressiva como a de Consuelo e chamava muito mais atenção. Vestia-se completamente de negro, com calças, blusa, casaco e botas, e trazia na cintura uma adaga embainhada. Ela não estava vestida como uma vampira que tenta camuflar no mundo mortal, e sim como sua natureza desejava. O que mais chamava a atenção eram os óculos escuros que usava, bloqueando o seu olhar. - Ania, o que me diz? – perguntou Consuelo. - Posso senti-la. Acreditava que fosse mais forte – Argumentou um tanto quanto frustada. - Se fosse somente isso, seria aceitável, mas ainda por cima é feia - disse Consuelo, ofensiva e sem remorso algum. - Está enganada. Ela é atraente, tem um corpo perfeito – objetou Ania, indiferente à recriminação. Kara ficou de pé e enfrentou os olhares avaliadores das vampiras. Continuou ouvindo em total silêncio, esperando o momento certo para responder.

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- A imortalidade é para poucos, Ania, e para essa daí eu desaconselharia. Infelizmente, os homens comentem erros mesmo sendo vampiros. Kara é o de Jan Kmam, para nossa sorte um erro proveitoso. Sabe quem sou? - Claro. Consuelo, a megera, Consuelo a víbora mal amada, a professora de Gustave. São tantos apelidos que nem me lembro. Esta ensinado a Graco o mesmo que ensinou a Gustave? Aviso logo que perderá mais um pupilo. A vampira não gostou dos adjetivos, mas se controlou e sorriu altaneira, enquanto Ania sentava na cadeira próxima e ria da cena. - Não os ensinei a odiar Jan Kmam, isso ele consegue granjear sozinho. Gustave falhou porque cometia muitos excessos, mas Graco triunfará. Ele não cometerá os mesmos erros. - Mas cometerá outros. Pelo visto é do tipo que gosta de viver de resto. É algum trauma de infância? A vampira bateu com leque fechado na palma da mão. Ela parecia pronta para agredir Kara. Dentro de seus olhos negros, ardia e ira que controlava andando pela sala, abrindo fechando o leque num tique nervoso. - Você merece saber toda verdade. - Só há mentira onde a palavra verdade é constantemente proferida. Ania acompanhava os movimentos de Kara pela sala, mas não o fazia com o olhar. Parecia somente sentir sua presença, o que foi percebido de imediato. - Quer saber se sou cega? – perguntou Ania. Não lia seus pensamentos, mas sua atitude avaliadora. – A resposta é sim. Fiquei cega aos dez anos de idade – dizendo isso, retirou os óculos. Kara viu com surpresa e pesar o cristalino de seus olhos tomado pela catarata, o que os deixava totalmente brancos. Ania recolocou os óculos e sorriu suavemente, ignorando sua reação. -Não preciso de sua pena. Vejo melhor do que a maioria dos vampiros. Jamais me senti limitada ou amaldiçoada por receber a imortalidade portanto uma deficiência. Na verdade, o beijo vampiro me deu a oportunidade de finalmente ver. - Como pode ser? - Sente-se Kara. Compartilhe conosco de uma nova era, nós precisamos de um novo rei e de novas leis. Sem alternativas, Kara sentou e esperou. Aquela era a segunda vez que ouvia seus raptores. Ver Consuelo entre eles foi uma surpresa que conseguiu esconder debaixo de seu ciúme. Sabia que aquela vampira tinha sido de Jan Kmam por um curto espaço de tempo. Ela era incrivelmente bonita e muito traiçoeira. Pensando bem, sua aparição explicava muita coisa. - Quero que veja de que lado do mundo vampiro vem vivendo. Porventura compreende o lugar privilegiado que ocupa? Apenas escute, afinal, a minha história poderia ter sido a sua. Você é a escolhida do favorito do rei, seu sangue é o de Jan Kmam. Ele tem muito poder, apesar de não o usar plenamente. No entanto, muito em breve ele sentirá toda sua força e isso a colocará na linha de sucessão. Nunca tivemos uma rainha em quase dois mil anos quatrocentos anos de organização vampira. Antes disso, somente o caos, a desordem, as guerras das tribos de vampiros mais antigas por poder. Você e uma promessa. - Ariel Simon é o rei e sempre será – respondeu Kara, tentando entender onde Consuelo queria chegar com a conversa. Ania aproveitou para tomara palavra para si - Desde o momento de sua concepção, você colocou o trono em risco por ser filha do favorito do rei. Ainda não entendo como Ariel permitiu. Jan Kmam por vezes me parece tolo ou muito ambicioso. É provável que ele a entregue ao rei, já que sabemos o quanto ele ama Ariel e Otavio - dito isso, sorriso maliciosamente fazendo questão de deixar claras suas intenções. –Suportara isso, Kara? Ariel Simon é muito cruel. Ele está no poder há dois mil anos,tem dói poderes sob seu controle e os demais se curvam diante dele. Ele sabe como agradá-los e é desse modo que vem mantendo a cabeça sobre os ombros. Controla e manipula. Estamos fartos disso! - Pouco importa, não pretendo usurpar o trono. Sequer conheço o rei. Tudo que anseio é continuar ao lado de Jan Kmam. Sou nova nesse mundo e não pretendo quebrar mais regras do que já quebrei.

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- Os vestígios humanos somem do seu corpo de modo acelerado, mas sua mente ainda quer ser mortal. Livra-se das barreiras e conhecerá todo seu poder. - Sou uma aluna dedicada. - Vou mostrar algo que Jan Kmam ainda não ensinou a você. Kara ouviu um sussurro. Instintivamente fechou os olhos e quando os abriu novamente Ania estava parada à sua frente. Olhou para trás e percebeu seu corpo a poucos passos dali. Havia se projetado! Também pôde ver Consuelo observando-as com certa inveja. Naquele instante ela se perguntou se poderia sair da sala e ir além. - Não, esse poder é limitado e desgastante, como perceberá. Chama-se o Sussurro, pois é como se uma mente sussurrasse para outra fora do corpo. Kara ergueu a mão e viu seus movimentos vagarosos a principio, mas a situação logo se normalizou. Sentia-se extremamente bem e forte. - Pecebe o que digo? Veio sozinha, Kara, sem que eu a ajudasse. Nem mesmo conhecia esse poder e foi capaz de usá-lo. Levei duzentos anos para desenvolve-lo e Consuelo jamais o desenvolverá. Sua força é tão grande quanto a do rei. Junte-se a nós e torne-se rainha. Kara não precisou de palavras para que a vampira soubesse sua resposta. Ania segurou seu ombro e então começou a lutar. Tentou diversas vezes acertar seu rosto. Ela desviava de seus golpes com dificuldade, pois a vampira se mostrava uma adversária à altura. Avançou e recuou, defendendo-se, saltando e golpeando, até que Ania parou e ergueu a mão, estava cansada. Kara voltou sozinha ao seu corpo e tudo o que sentiu foi o pescoço contraído. Ania, no entanto, estava visualmente exausta. - É uma de nós, Kara, o tempo irá fazê-la entender. Jamais será aceita por eles pois você é a futura rainha dos vampiros. - Nunca fui nem líder de turma, não estou disposta a se rainha – falou sem perceber o quanto aquilo era humano e tolo. - Vampira obtusa! É como dizem: por que dão pescoço a um vampiro sem dentes? –reclamou Consuelo cheia de inveja. - É inevitável, Kara. O que se recusa a ver quando contempla sua imagem no espelho todos nós já vimos. Você será a rainha. Está na força que emana de sua mente para a nossa. Pouco importa se será hoje, ao lado de Graco; ou daqui a noventa e cinco anos, nos braços de Ariel! - No nosso mundo não há lugar para perdão e desculpas. Seus crimes serão julgados e será punida. Nem mesmo Jan Kmam poderá evitar o castigo. Nada vai contra aquele maldito Livro. Perderá tudo, está pronta para ver seu amante sofrer por seus erros? - Já disse que assumirei meus crimes diante deles. Vocês querem que eu abandone Jan Kmam e me uma a um personne. Isso não parece uma opção melhor do que o machado. Não estão oferecendo nada que Graco já não tenha tentado me enfiar garganta abaixo. - Estamos oferecendo um mundo para governar, perdão para seus crimes. Como rainha pode inocentar Jan Kmam se assim desejar, mas o que fará diante da Ordem? Já disse que eles não terão piedade nenhuma. Pergunte a Ania e Dimitry, seu amante e mestre. A principio Kara acreditou que Ania ia ocultar uma lagrima, mas tudo que fez foi colocar os óculos buscando algum tipo de apoio, como um tique. - Dimitry pagou um preço muito alto por me tornar imortal. Fomos tratados como criminosos e punidos. Ariel poderia ter nos executado, mas ele queria nos humilhar e nos fazer exemplo. O meu castigo foi tocar o Livro – murmurou baixinho, puxando a luva. Kara constatou que a mão esquerda de Ania era queimada e enegrecida, uma cicatriz que o tempo não pode recuperar, por isso a escondia debaixo da renda do vestido - E o que fizeram a Dimitry? – perguntou com temor. - Pela lei, o defeito físico deve ser passado ao mestre, então eles o cegaram, acabarm com seus olhos violetas. - Ele não se restaurou? - Estúpida! Eles usaram a Seiva. Não há restauração. O tecido vampiro não sobrevivi a ela. Kmam não lhe disse o que é? – Consuelo debochou vitoriosa. - Dimitry foi banido e seu nome retirado do Livro. O meu jamais saíra dele como aviso aos que ousarem cometer o mesmo erro. Jurei em vingar de Ariel e dos Poderes custe o que custar. Pela

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sua história, achei que entenderia. Pense bem na decisão que vai tomar, pois ela pode ferir os que você mais ama. Dizendo isso Ania saiu da sala. Consuelo permaneceu, era sua vez de jogar sal na ferida. O ciciar do seu leque e o de seus sapatos incomodavam kara de forma impressionante. O ciúme que sentia parecia ampliar ainda mais sua raiva. - Nunca vi Graco tão alterado com alguém. No geral ele é doce e gentil, alem de ser muito bonito. - Sabe Consuelo, sempre que seu nome era citado surgiam certos adjetivos, mas cafetina jamais. Custa-me crer que deseja realmente acrescentá-lo à lista – argumentou à altura. - Percebe que consegue despertar o que há de pior nos homens? Deve ser esse olhar inocente que lança sobre eles, ou talvez seja sua falta de coragem de enfrentar a ferocidade de seus corações. - Não sou inocente. - Não é mesmo. Não passa de uma falsa convencida. Resistir a Jan Kmam? Por muito pouco não escreveu uma comédia. Que idéia, fazer um manuscrito. Nunca li nada tão açucarado. - Jan Kmam foi ate bondoso ao descrevê-la. Em cinco anos de convivência poucas vezes ouvi seu nome ser citado e hoje entendo por quê. Você é uma personagem pobre. Não tem nem casca nem conteúdo. As palavras duras fizeram Consuelo se afastar afrontada, com o orgulho ferido. Em poucos segundos, recuperou o riso cínico e falou venenosa: - Estranho, já que dormi com ele durante vinte adoráveis anos. Jan Kmam omitiu os detalhes? Veja só que safadinho! – disse, sentando-se e agitando o leque, exalando sua acidez tão natural. – Foi após a partida de Otavio para a Índia, ou você acreditou que ele ficaria sozinho por oitenta anos? Kara levantou da cadeira mostrando-se entediada. Não agüentava mais aquele perfume enjoativo, não conseguia disfarçar. O desprezo irritou ainda mais Consuelo. - Seu problema é se achar superior. Somos todos iguais e a sua dor está apenas começando. Lembro-me da primeira vez que vi Jan. Era noite de conselho. Estava magnífico. Ainda posso sentir o sabor de seus lábios sugando os meus com força, tirando meu sangue. Ele é um menino voraz. E que corpo ele tem! Aquele pequeno sinal em sua cintura é algo de supremo. - Acreditava que não saia de seu caso com ele? - Dividi com Jan Kmam matanças e noites de prazer. A solidão faz coisas estranha. Costumava oferecer-lhe jovens loiras, como sua Valeria. Ele passava noites inteiras s torturando até deixa-lás completamente loucas. -Tem certeza de que não tem nada melhor pra fazer do que me encher a paciência? Como pode ver, sua conversa mole não está fazendo efeito. -A prova está bem aí em sua mão, minha querida, acorde! Como pode acreditar que Jan Kmam veria você ao invés de Thaís, Valéria ou, quem sabe, eu mesma, afinal, somos bem paraecidas. Ele adora pelos negros e tez alva – disse sussurrante. - Agora você foi longe demais! – grunhiu Kara, com ímpeto de rasgar seu rosto sarcástico. - Tem razão. Comparar-me com você chaga a ser insultante. Foi a gota d’água. Kara a esbofeteou com força e elas se atracaram. As mãos de Kara estavam fechadas sobre seus cabelos. Consuelo gritava tentando morder sua rival e arranhá-la com as unhas enquanto tentava se levantar, mas perdeu o equilíbrio e caiu novamente. Kara segurava sua cabeça e a batia contra o chão furiosamente. Por fim, fechou as mãos sobre sua garganta e puxou o cordão de ouro para sufocá-la. Consuelo debatia-se e tentava empurra - lá em vão. Tentava alcançar o rosto de sua rival desesperadamente, quando seu pescoço estalou. Kara afastou-se do corpo desacordado. Viu a cela ser invadida por seguranças. Tentou avançar sobre eles, mas o aparelho em sua nuca lançou um tipo de descarga e a jogou no chão desacordada. A vampira despertou horas depois com dor nos braços e os olhos vendados. Não conseguia compreender o que a impediu de fugir. Por que teria perdido os sentidos? Tinha os pulsos amarrados sobre a cabeça, sustentando o peso de seu corpo. Seus pés não tocavam o chão, e os tornozelos estavam a marrados firmemente por uma corda. Sabia estar nua e para horror percebeu que não estava sozinha naquele espaço indefinido. Num acesso de raiva, tentou Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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quebrar as correntes, movendo-se para frente e para trás, só conseguindo cortar os pulsos e levar um choque elétrico na altura da cintura. O grito fez uma gargalhada cínica ecoar pela sala. Cansada e raivosa, sentiu o perfume enjoativo de Consuelo. -Graco também está conosco – disse, retirando a venda. O corpo de Kara balançou e a dor nos pulsos aumentou. O sangue escorria por seus braços, enquanto tentava se acostumar à forte luz da sala branca. -Minha paciência tem limite eu tentei agradá-la e fazê-la ver quem Jan Kmam é realmente, mas só recebi violência em retribuição – argumentou Graco. Consuelo estava às costas de meio vampiro e o envolvia como uma serpente. Tocava seus ombros de modo a acalmá-lo e passar-lhe confiança. Obviamente o manipulava. Por fim, beijou sua face e afastou-se, deixando-o à vontade para agir de acordo com seu ímpeto. -Vou corresponder a suas caricias. Espero que goste. Kara podia sentir o desejo em sua voz, sua respiração acelerada, a carícia de seus olhos sobre a pele nua. Ele tentava invadir sua mente. Um tremor involuntário sacudiu seu corpo desprotegido. Quando a mão de Graco deslizou em sua cintura, ela contraiu o maxilar com asco. Graco percebeu, riu baixinho e puxou-a com força de encontro ao seu corpo. Colada às suas formas másculas, virou o rosto temendo o contato de seus lábios. - Vá à merda! – xingou com um prazer indescritível. Graco sorriu e simplesmente lhe deu um tapa nas ancas. Furiosa, Kara continuava tentando quebrar as correntes, sabia que era capaz de fazê-lo. Trincou os dentes e puxou os braços com toda força que possuía. O sangue escorria dos pulsos em carne viva, que doíam tremendamente. Graco afastou-se, procurou uma cadeira e sentou-se para observar a luta. Consuelo recolocou a venda sobre seus olhos com aspereza. -Comece – ordenou Graco. Começar o quê? Kara tentou sondar as mentes ao seu redor e só encontrou seus próprios pensamentos. A expectativa a torturava, um estalo seco e rápido cortou o ar em sua volta. Quando o som repetiu na sala, sentiu o chicote fustigar impiedosamente sua pele. Tentou não gritar, mas não conseguia, mesmo apertando os dentes fortemente. Os cortes ardiam e aumentavam a cada novo golpe. A garganta estava travada por um nó de revolta e dor. Lágrimas rubras escorriam por sua face, enquanto gemia baixinho. -Podemos parar? A escolha é sua. Graco ordenou o fim da tortura após a décima chicotada. Vestia um terno preto completo, estava muito vivo e sadio. Certamente se alimentou há pouco, pois Kara sentia o cheiro de sangue em seu hálito. Ele percebeu sua apatia e palidez. -Está com fome, não é mesmo? Kara sufocou uma resposta malcriada e suspirou cansada da presença daquele vampiro. Reparou que ainda trazia uma atadura no pescoço. Ele era realmente doente, regenerava-se com extrema lentidão. Quem seria, afinal? Ela jamais ouvira seu nome dos lábios de Jan Kmam, Otávio ou Asti. -Não ignore aquele que pode matar sua sede – falou, puxando a manga da camisa e oferecendo seu pulso. -Prefiro morrer de sede. -Morrer não está em seu destino. Jamais desejei usar métodos tão arcaicos, mas tudo depende de você. Consuelo está muito aborrecida com sua recepção malcriada. Na verdade, furiosa, você feriu seu orgulho profundamente. -Solte-me e terei muito prazer em conversar com ela novamente. Garanto que tem muito a aprender comigo. -Cadela! – rugiu Consuelo, tentando atacá-la, mas Graco a conteve. -Eu preciso que vocês duas convivam em paz. Consuelo ensinou-me muitas coisas, tenho por ela grande estima. Tanto quanto tenho por você, minha salvadora. Os olhos de Consuelo tornaram-se misteriosos, o ciúme a invadiu. Não deixaria aquela afirmação passar em branco. -Você não precisa de Consuelo, precisa? Acho que não, é meu sangue que o alimenta. Livrese dessa vagabunda e implore que não o mate quando me soltar deste gancho.

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-Cadela! Eu vou matá-la! – Consuelo avançou e arranhou Kara com as unhas, antes que Graco pudesse evitar. Ele a afastou com esforço, enquanto Kara gargalhava alto. -Deveria se sentir honrada em partilhar a imortalidade comigo. Nós somos uma força poderosa, destrutiva e renovadora. Os sonho megalomaníacos daquele vampiro a irritavam. Ela queria que ele se Calasse e sumisse da sua frente. Percebendo seu silencio e indiferença, Graco continuou a despejar revelações descabidas. Tentava fazer uma lavagem cerebral. Kara não ouvia, só tremia sentindo uma dor forte no estômago. Nunca havia ficado tanto tempo sem alimento. Seu corpo estava reagindo, sua visão estava alterada. Sons e odores pareciam mais fortes, seus sentidos aguçados a incomodavam. -Digamos que acredite em você, que isso seja verdade. O que pretende? –perguntou tentando manter a lucidez. -Assumir o controle do nosso mundo. Receber o que me vem sendo negado há séculos: a coroa – disse, fechando o punho como se pudesse tocar seu objeto de desejo. O riso cínico de Kara virou uma gargalhada, uma explosão garrida de um som quase metálico. Graco manteve-se impávido e ela teve de se conter para não rir novamente de sua expressão aborrecida. Precisava fugir e encontrar a verdade. Sentiu sua cabeça latejar tentando se comunicar com Jan Kmam. A angustia cresceu dentro de seu peito, a fome atordoava seus pensamentos. Graco aproximou-se, abriu a camisa e ofereceu o pulso forte. Podia até ouvir seu coração estavam dilatados, os caninos tocavam seus lábios. Estava faminta e enlouquecida demais para se controlar. Seu grito os atingiu como uma arma. A vampira havia descoberto mais um de seus poderes. Graco desabou no chão, sem entender o que acontecia. Consuelo cobriu os ouvidos e curvou-se sobre o próprio corpo, sentia dor. No Aproximou-se usando toda força que possuía e a atingiu no pescoço com o bastão. O choque elétrico conseguiu silenciar Kara que, tonta, viu com alegria o sangue escorrer dos ouvidos da vampira. O novo dom a sentenciou a uma mordaça e deu a Graco mais um motivo para continuar usando o chicote. Graco nada mais falou, o chicote falava por ele. Só havia o estalo do couro, a respiração encolerizada de Graco e a dor consumindo o corpo de Kara. Ela se refugiou dentro de sua mente e lá ficou num canto, escondida, tentando não tremer de medo, esperando por Kmam. O desespero aumentou, não havia ninguém na escuridão, a venda a aterrorizava. Miranda, o segurança, provavelmente havia sido capturado. Kmam desconhecia seu paradeiro, estava perdida. Não havia como fugir, o melhor seria morrer. Uma estranha impaciência tomava aos poucos a sua lucidez. Sentia frio, fome e dor, muita dor. Tudo o que ela conseguia fazer era balbuciar o nome do amante. Quando o chicote parou, a venda e a mordaça foram retiradas e um balão vermelho surgiu, um cálice de sangue fresco. Era irresistível, mas a ela proibido. -Vamos, Kara. É para seu bem, deve estar faminta. Além disso, quanto tempo acha que suportará a fome? - Sua garganta estava contraída, sentiu o tremor sacudi-la novamente e fechou os olhos. Não queria ver a cor nem sentir o cheiro de seu alimento. Era demais para qualquer vampiro. -Um brinde ao fim de Ariel Simon – disse Consuelo, erguendo o cálice. Levou-o aos lábios e diante de seus olhos febris sorveu-o em um gole longo – Vamos Kara, não será tão ruim assim. Graco é diferente, pode oferecer prazeres mortais. -Faça um bom proveito. Como vai seu pescoço, Consuelo? -Imediatamente seus olhos brilharam ferozes. Retirou um espeto de cabeça de pérola do vestido e o cravou no ombro de Kara. Tratava-a como uma boneca de vodu, enfiando-o repetidas vezes sobre a carne. -Consuelo! – Graco a deteve, ordenando que se retirasse. A vampira foi embora aborrecida e deixou o lugar vazio para Graco continuar com a tortura. Kara sentiu a presença do vampiro rodea-la. Era a mesma que a tinha confortado ao despertar depois da captura. Tentava se aquietar quando ouviu uma voz falar: venha comigo. Havia para onde fugir. Um lugar seguro onde ninguém a tocaria, o jardim. Graco tirou Kara do gancho. Segurava-a em seus braços e por um segundo se preocupou. Podia ver a fome enfraquecer seu corpo e as dores que sentia, estava cadavérica. O rosto e a Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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voz de Jan Kmam invadiram a mente de Kara na forma de lembranças. Ela o trazia para perto de seus sentidos. Seu corpo foi sacudido por uma forte convulsão. O sangue escorreu pelos ouvidos e narinas. A cabeça da vampira despencou para trás e os sentidos sumiram dando-lhe a tão sonhada morte. Mergulhou na escuridão fechando os olhos. Sila invadiu a sala com uma equipe, chamados por Graco para ver seu estado - O que fez com ela? Graco nada falou, simplesmente depositou o corpo de Kara sobre a maca e se afastou envergonhado, como um menino que fez algo errado. Sila rapidamente examinou sua paciente. Tocou a nuca e viu o local do implante inchado. Todo seu trabalho havia virado lixo. Mirou as marcas do chicote e fitou Graco com desagrado e vergonha. -Vampiros não aceitam sofrimento, a melancolia pode ser fatal. Ausento-me por algumas horas e o que faz? Cede às vontades de Consuelo. Levem-na daqui. Quero-a no tanque de recuperação, chega de dor. Kara foi levada da sala. Graco sentou-se e jogou o chicote sobre a mesa, esperando o sermão que certamente viria. -Você procurou por anos a cura. Agora que a encontrou vai mesmo destruí-la por puro capricho? – falou incrédulo. -Não foi por capricho, um trono esta em jogo. Meu trono. Ela vai ceder. -Antes de Consuelo aparecer, tudo o que você queria era se curar. Pergunto-me ate onde irá, Graco. - Só sangue nunca bastou. Vou destruí-los! Todos eles! Você conhece minha dor. Não posso esquecer e perdoar. - A palavra perdão jamais passou por meus pensamentos, Graco. Isso não existe para nenhum de nós. Tento apenas mantê-lo vivo, mas o que vem fazendo ao lado daquela víbora chamada Consuelo põe a sua cabeça a prêmio. -Posso vencê-los e o farei. O sangue de Kara vai me dar forças de que preciso. Além disso, não estou sozinho. Graco confiava plenamente em Consuelo e nos seus aliados, a grande maioria deles renegados. Havia alguns até mesmo dentro dos Poderes, que ela garantia que se juntaria a ele contra o rei. Para Sila, ela só representava perigo. Membro do Conselho, ex-amante de Ótavio e Jan Kmam, manipuladora de Gustave. Aos seus olhos uma vagabunda. -Não duvide da capacidade de Consuelo usá-lo para alcançar seus fins. Seguir seua conselhos não é inteligente. Gustave faez isso e encontrou a morte. Tome – disse, entregando uma ampola e uma seringa. – Alimente-se. Está muito fraco. Sila e Consuelo se detestavam. Mediam forças numa guerra silenciosa, na qual cada um tinha seu valor ao lado de Graco, mas este não estava preocupado com ela. Kara precisava sobreviver e ele faria de tudo para que isso acontecesse. Após anos estudando os vampiros, sabia que eram capazes de se aniquilar para não continuar sofrendo. Aproveitando a ausência de Sila, Consuelo retornou à sala e beijou Graco na testa. Ele a segurou pela cintura e aspirou o perfume de seu colo, beijou sua boca rubra. Os cabelos soltos envolveram Graco como véu, enquanto ele a apertava de encontro ao corpo. Consuelo sentou em seu colo de modo manhoso. O olhar negro e profundo assemelhava-se ao de um animal selvagem. Sugava seus lábios. Graco desceu a alça do vestido e os seios surgiram como rosas brancas desabrochadas. Firmes e fartos, exibiam veias azuladas, bicos empinados que sumiram debaixo dos lábios de Graco, enquanto ela gemia lânguida. Ele a mordeu e sugou o mamilo de modo ávido. A vampira gemeu de prazer e o apertou em seus braços. Graco só se afastou quando ouviu Consuelo reclamar suavemente. -Basta meu pequeno faminto – sussurrou cansada e o empurrou delicadamente antes de se recompor. – Sua e o modo como usou o chicote me lembraram Otávio e Jan Kmam. O corpo de Graco se enrijeceu. Convivia com Consuelo com Consuelo a cento e vinte cinco anos, conhecia suas taras e seus desejos. A vampira adorava sentir prazer e dor, dependia de seu humor. Sabia os motivos de sua vingança contra Otávio e sua prole, compartilhava com ale o mesmo ódio. -Otávio é um vampiro excepcional, sabe lidar com homens e mulheres – calou-se após despertar o ciúme de Graco. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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-Pensei que os odiasse – reclamou quase o fendido. -Sim, os odeio, mas é difícil esquecer o prazer que me ofereceram. Eram tão selvagens. Não se aborreça, Graco – pediu mansa, tocando seu rosto com a ponta dos dedos. Só quero que compreenda que ser vampiro e muito mais do que matar. Você precisa dar para Kara mais do que um quarto bonito, precisa fazer mais do que chicoteá-la. Perverter alguém como Kara não é uma tarefa fácil. -Se conseguiram com você, Consuelo, não deve ser tão difícil. Consuelo caminhou até a poça de sangue de Kara e deslizou o dedo no chão. -Algo tão precioso não deve ser desperdiçado. Vou deixá-lo à vontade para que alimente. Consuelo conhecia as limitações de Graco. Sangue humano não sustentava sua imortalidade. Envelhecia perdia a saúde e a beleza, sequer conseguia se mover com agilidade. De que servia viver eternamente doente? Era frágil como um humano, adoecia com facilidade e quebrava os ossos. Graças às amostras de Vitor, começara a vislumbrar a tão desejada cura. Através dele Graco provou da verdadeira imortalidade, força, beleza, dos poderes e da capacidade de matar. -Sua víbora! – deslocou-se no ar e a agarrou pelo pescoço – Não me servirei de restos quando tenho tudo! -Estou cansada de esperar essa maldita vingança. Pegue o que precisa. Garanto que não notara a diferença. Mate-a de uma vez. -Está com ciúmes, Consuelo? Ou é medo de perder sua cabeça? -Não seja ridículo! Três gerações de vampiros descasam no sangue de Kara. Será tão poderoso que nada nem ninguém poderá enfrentá-lo. -Quero-a viva aos meus pés, pois sua rendição os humilhará. - Kara jamais se renderá, não o fez cento e vinte e cinco anos atrás, por quê faria agora? - Belas palavras. Posso ver aquele rato de laboratório puxando os cordões. Saiba que meus conselhos e dinheiro deram a Gustave a chance de destruir Jan Kmam. Se não fez o trabalho benfeito, paciência. Não lamento sua morte, não depois que me traiu e ficou com a fortuna do pequeno burguês. Após o incêndio, eu o procurei e exigi meus direitos, ele simplesmente pagou com esmolas. A casa de Thais e tudo que tinha dentro eram ninharia diante da riqueza que Jan Kmam possuía. – Ela ainda sentia o ódio e revolta por tudo o que havia perdido por ajudar Gustave. -É o seu destino, Consuelo, ser usada e abandonada. Acostume-se com isso – finalizando a conversa. Graco retirou-se tempestuosamente.

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10. PERSA ZANNE Persa Zanne desceu do carro de modo desajeitado, carregava uma pasta repleta de recortes de jornais e documentos. Ela rastreava novas informações. Na outra mão, trazia uma sacola de compras, já que a geladeira estava vazia. Colocou a bolsa no ombro e ouviu o celular tocar enquanto fechava a porta com o quadril. Falou rapidamente com Léo confirmando o encontro dentro de uma hora. Tinha passado à tarde toda no hospital, os seus ferimentos foram leves, foi liberado sem problemas. Fabrício não teve a mesma sorte, suas queimaduras eram de segundo grau. Ninguém entendia a origem do fogo. Persa caminhava pelo estacionamento vazio rumo ao elevador. O som de seus passos ecoou solitário até que algo mudou. Havia mais alguém ali. Resolveu se apressar. Lançou um olhar para as câmeras, mas não conseguiu se sentir segura. A porta do elevador abriu, mas era tarde demais. Foi agarrada com violência e arrastada para longe. As compras caíram e a garrafa de vinho espatifou-se no chão, cobrindo os papéis com uma onda. Eram dois homens contra uma mulher. Sem alternativas de fuga, encarou seus agressores e os reconheceu de imediato. Há tempos havia denunciado os negócios de prostituição e tráfico de drogas de Ravi e Duda, irmãos e sócios. - Como vai, vagabunda? Puxou-lhe o cabelo e continuou a tortura com seu hálito quente e malcheiroso. - Pensou que nos jogaria na cadeia e ficaria por isso mesmo? Onde está seu namorado? Da última vez ele conseguiu te salvar - lembrou a última fuga. - Corta ela logo, Ravi - Duda atiçava, tocando os seios de Persa sob a blusa. - Fugi do presídio porque queria fazer o serviço pessoalmente. Mostrar para todo mundo o que acontece com quem se mente com Ravi - disse lambendo as lágrimas de Persa, que gemia aflita. - Quero que todos vejam o que acontece com quem me desafia. O corte veio impiedoso, enquanto ela grunhia de dor, o sangue pingava sobre seu colo. Ravi traçou um "R" na face delicada de Persa. O traficante era um homem grande, de olhos escuros e mãos rudes. Saboreou sua vingança com verdadeiro prazer, depois de planejá-la por muito tempo na prisão. Persa gemeu ao ver o reflexo do rosto cortado, destruído. Estava em choque. - Agora vai morrer, vadia! - Duda avisou diabólico. A morte era eminente. Tinha os olhos vagos e sentia-se perdida num imenso silêncio. Nesse estado de extrema distância do mundo real, Persa sentiu a mente de Ariel e pediu ajuda. Nem mesmo um vampiro pode explicar do que a mente humana é capaz sob terror. Depois disso, a jornalista despencou no chão, livre das mãos rudes de Ravi. O vampiro o segurava pela garganta, havia o afastado de Persa com extrema violência. Tinha as unhas enterradas em sua garganta de modo impiedoso, enquanto se debatia. Duda, a poucos metros, era contido por Jan Kmam. A figura de Ariel Simon perturbou e aterrorizou Persa no chão. O rei sentiu-se monstruoso aos seus olhos. A pele muito pálida o deixava espectral, e o olhar vítreo, quase febril. Ele havia se distanciado dos demais vampiros há muitos séculos, tamanho era seu poder. Andava pelo mundo com a ilusão que criava em torno de si mesmo. Aqueles que viam seu sorriso e olhar pereciam em suas mãos, sob a força de seus lábios. Vivia imerso em solidão e sangue. Asti chegou com seus passos elegantes. Se no passado usava saia de tafetá negro, agora preferia calças justas, camisas de seda e botas de saltos altos. Otávio, um passo atrás, preferia ternos completos de veludo. Haviam entrado no hotel pela janela, para se livrar dos trapos e do cheiro de túmulo. Ariel devia ter permanecido no hotel, mas não aceitou os conselhos dos demais. Queria ver pessoalmente a jornalista, o que desagradou visivelmente Otávio. Quando chegaram, Jan Kmam compreendeu o motivo. Ariel fitava a mortal com extremo desejo. Para mostrar seu poder diante de Persa, estraçalhou a garganta de Ravi, sugou-o rapidamente e o jogou com desprezo na lixeira. Parecia um tanto bestial. Jan ofereceu-lhe Duda, mas ele o rejeitou. Prestava atenção somente em Persa, desmaiada no chão. Parecia uma boneca quebrada. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Duda implorava por sua vida, enquanto eles se aproximavam. Asti sorriu e avançou sobre seu pescoço. Otávio e Jan pegaram os punhos. Sucumbiu depressa e foi posto junto com o irmão na lixeira. Asti recolheu os objetos de Persa com curiosidade. O rei tocou o rosto ferido da jovem com pesar. Fora destruído, as cicatrizes eram profundas e irreparáveis. Suas roupas eram trapos que não conseguiam esconder a beleza do corpo. Fitou o pulso e arrancou as algemas, tirou o belo casaco que vestia e a cobriu para em seguida erguê-la nos braços. Não foram notados no elevador tampouco nos corredores vazios por onde caminharam com tranquilidade. O mundo de hoje protege os vampiros sem perceber. As pessoas isolam-se em seu mundo pessoal e sequer veem o vizinho ser sequestrado ou se perguntam por que a casa ao lado fede. Abriram a porta usando as chaves de Persa. Otávio sugeriu que armassem o cenário de sua morte ali mesmo. Ariel não dava a menor atenção às palavras do irmão, entrou no apartamento escuro e encontrou o quarto com a ajuda de Jan Kmam. O rei estava revivido, por algum tempo esquecido de sua doença. Persa foi posta na cama. Otávio o olhou de soslaio e retirou-se, recolhendo-se contemplativo no sofá. Asti bisbilhotou a casa e buscou os braços de Otávio. Ariel arrumou Persa no leito e puxou sua roupa rasgada, despindo-a completamente. Nesse momento, Jan Kmam resolveu se afastar, mas foi detido. _ Fique. Preciso de sua ajuda. Tenha piedade da beleza que foi destruída por mãos tão vis. _ Jamais me negaria a realizar um desejo seu, majestade, mas valerá a pena, sabendo que ela precisa morrer? _ Ela não será morta, agora satisfaça seu rei. Otávio jamais fará alguma coisa por ela, mesmo se eu pedir. Kmam tirou a jaqueta, puxou o punho da camisa e traçou um corte sobre sua pele. O sangue caiu sobre os dedos de Ariel e finalmente na face de Persa Zanne. A primeira coisa que Persa fez ao despertar foi tocar o rosto. Ela o encontrou intacto. Percebeu-se nua na cama sendo observada atentamente por um desconhecido. Cobriu-se com o travesseiro próximo, enquanto ele sorria encantado com o rubor de sua face. Ariel deleitava-se com seu recato. Será que não compreendia que o olhar de esmeralda havia esquadrinhado seu corpo durante longos minutos? Ele conhecia cada sinal, cada um dos traços suaves, a cor de sua tez aveludada. A suavidade de seus cabelos de seda estava gravada em sua memória para sempre. - Quem é você? - perguntou num fio de voz. - Acreditei que soubesse. Os jornais estão apinhados de insinuações nada delicadas sobre nós, mocinha - comentou Ariel em tom jocoso e repreensivo. A proximidade de Ariel deixava-a mais vulnerável. O olhar do vampiro exibia uma febre, um brilho hipnótico. Ela moveu os lábios, mas nenhum som se fez ouvir. Persa tinha imaginado seu rosto várias vezes, mas jamais de modo tão belo e sedutor. Nervosa com seu olhar persistente, desviou o rosto. Ariel Simon compreendia a força de sua presença sobre sua mente, só havia um modo de fazê-la entender. Sentou-se na cama e, num rápido movimento, fechou os dedos frios sobre o punho delicado, o olhar poderoso paralisando a fuga. Segurou a mão de Persa e a encostou em sua face, queria fazê-la crer que ele era real. Ela sentiu a pele fria do vampiro debaixo dos dedos, mas não recuou como Ariel havia imaginado, estava fascinada com a textura e a suavidade. Persa tocou as maçãs do rosto e a testa. Examinou o cabelo vermelho sedoso, os cachos perfumados de absinto. Admirou os finos vasos debaixo da pele translúcida. Nunca havia visto olhos tão verdes, enigmáticos e profundos. Quando sentiu o toque em seus lábios, não resistiu e aproveitou o beijo atrevido. Assustada, tentou recuar, mas Ariel não permitiu. Tomou-lhe a mão novamente e a levou para seu peito. Lá, Persa só encontrou o silêncio. - Você é um vampiro! Ariel Simon gargalhou satisfeito. Mesmo depois de tamanha proximidade, Persa custou muito para deixar as palavras cruzarem seus lábios. Precisava se habituar à verdade. - Sim, um vampiro. Não force sua mente, deixe que ela absorva minha presença aos poucos. Sua presença também me assusta e surpreende. Porventura, esta ilha, São Luís, é encantada? O que mais surgirá de suas ruas e seus casarões, já que o passado foi trazido aos meus pés por uma onda? - Meu rosto estava ferido. Foi você quem o curou? - quis saber. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Quem lhe segredou que possuímos o dom da restauração? - Sei muito pouco, Jan. Ariel Simon soltou um suspiro aborrecido e levantou-se da cama. Persa aproveitou para se enrolar no lençol. - Ah! Basta! Sou vampiro, mas ainda tenho brios. Não sou Jan Kmam. - Mas é vampiro. - Ora essa! Porventura todos os vampiros devem se chamar Jan Kmam? Devo crer que Kara me tirou de suas revelações? - questionou, percebendo que ela tremia. - Mas, então, quem é você? A possibilidade de estar diante de um desconhecido encheu Persa de terror, mas Ariel sabia como contornar a situação. - Sou Ariel Simon - falou numa mesura cavalheiresca. - O rei dos vampiros. Persa segurava o lençol junto ao corpo com força. O olhar de Ariel era como uma carícia mental poderosa que a fazia estremecer involuntariamente. Tentou se conter, mas a pele estava arrepiada, a respiração e o coração alterados. Fugiu de seu toque para esbarrar no guarda-roupa. Aborrecida, ofereceu resistência virando o rosto, mas naquele jogo Ariel era o mestre absoluto. - Não sei o que esperava encontrar em Jan Kmam, mas pelo seu desapontamento faço uma ideia vaga. Garanto que posso superar suas expectativas com a minha docilidade e surpreendê-la com minha fome - disse, abocanhando seu pescoço numa carícia selvagem. - Solte-me - murmurou trêmula. - Não vou aceitar negativa - assegurou, roçando os lábios nos seus. A situação estava fora de controle e agora ela podia ouvir o coração daquela criatura batendo forte junto ao peito. - Acalme-se e tudo terminará bem. Cansado de se conter, ele calou seus protestos. O rei mergulhou em sua boca de modo impetuoso e a ergueu do chão. A língua exigente a fez provar de sensações devastadoras. Só havia o contato do corpo do vampiro, a boca tépida e úmida, a respiração e seu cheiro agradável. Enlaçou-o com seus braços macios, enquanto um desejo antigo a comandava. O sangue fervia nas veias, as mãos estavam cheias com os cachos vermelhos de Ariel e suas reservas caíram como o lençol. As mãos do vampiro vagavam pela cintura, coxas e pernas que erguia trazendo para junto de seu quadril. A mão deslizou para a coxa e prosseguiu até encontrar os pelos castanhos. Persa estremeceu e protestou timidamente. Ariel a trouxe de volta num puxão e a prendeu a ele, mostrando quem estava no comando. A fome consumia Ariel. Ele precisava desesperadamente de sangue, e no seu estado era impossível resistir. Estava alterado demais para ouvir suas suplicas, o desejo precisava ser aplacado. As unhas translúcidas deslizaram suavemente sobre a alvura das ancas. Ariel mostrou-lhe a face vampira. Ela soluçou e se agarrou ao vampiro com força, foi mordida. Só restou prazer e o som de seus corações. Ariel afastou os lábios dos furos num arquejar cansado. A mulher estava semi-inconsciente e o vampiro a colocou sobre a cama. Persa tinha o coração disparado, o seio sangrava livremente, uma lágrima escorreu de seus olhos. Ariel percebeu toda sua confusão e seu terror. - Precisava senti-la em minhas veias. Não tenha medo, borboleta. Persa recuperava-se lentamente nos braços de Ariel e logo que se sentiu forte afastou de si suas mãos e seus braços e tentou alcançar a porta em fuga. Ariel conseguiu imobilizá-la, contudo, foi sacudido por um tremor. Soltou-a e tocou a cabeça, segurou-se na parede próxima e arquejou de dor. Ela estava no corredor quando deu de cara com Asti. A vampira a olhou com curiosidade e por um instante sorriu. Persa recuou e, sem alternativa, voltou para o quarto em tempo de ver o rei vacilar e cair levando consigo um pequeno móvel. O barulho fez Otávio e Jan Kmam entrarem no aposento. Imediatamente, Otávio recolheu o irmão do chão e o depositou sobre o leito, avaliando seu estado. Estava desacordado, mas vivo. Persa continuava sob o olhar da vampira. Sentindo-se acuada, encostou-se na parede e deixou o corpo deslizar até o chão. A aura de imortalidade ao redor era esmagadora. Seus olhos eram muito luminosos. Quando Jan Kmam se abaixou para recolher o móvel caído e limpar o caminho, deparou com uma foto de Kara. Havia documentos como o seu depoimento na polícia, a ficha médica, as folhas datilografadas. Uma cópia do Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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manuscrito. Ele leu as palavras e ouviu a voz vampira em seus ouvidos como uma carícia doce. - Onde conseguiu isso? - Um homem me enviou - Persa estava presa no azul dos olhos de Jan Kmam. - Quem? - insistiu, cego ao fascínio que exercia sobre a mulher. Persa reconheceu o olhar, os traços e até mesmo a voz descrita por Kara. Identificou no pescoço a corrente prateada. Corajosa, tocou o relicário. Ele entendeu o gesto e deteve suas mãos, vagarosamente. Puxou a corrente para fora e a colocou diante de seus olhos ansiosos. - É o relicário. Você é Jan Kmam, você realmente existe - afirmou. - Sim. Sou Jan Kmam. Preciso que me conte o que sabe sobre Kara. Persa segurou o cordão com cuidado e viu a figura pálida de Thais. A emoção a deixou com os olhos úmidos de lágrimas. Sem que Jan Kmam pudesse detê-la, abraçou-o com força. Foi como se houvesse encontrado um velho amigo. - Vocês existem! São reais! Eu estava certa. Todo o resto deve ser verdade também. Então Kara foi realmente raptada. Oh, Deus. Preciso bater uma foto. - Perdeu a razão, mulher? Como sabe do rapto? Quem lhe deu o manuscrito? - Kmam tentava trazê-la de volta para a realidade. - Um homem chamado Miranda. Conversamos somente por telefone. Pare! Está me machucando - reclamou tentando se livrar da pressão da mão do vampiro sobre seu punho. - Eu estou dizendo a verdade. Miranda deu poucos detalhes, mas é certo que participou do roubo da arca. Ele disse que Kara está viva. Ele afirma ter recebido o manuscrito das mãos dela. - Quem a raptou? - O dono do CEPS. Na verdade, ele a comprou - Persa fungou. - Vendida? Minha Kara foi vendida como uma coisa? Furioso, Jan Kmam alvejou o guarda-roupa de punho cerrado e fez um buraco na porta, arrancando um grito nervoso de Persa. Otávio surgiu ao lado dele e fez Persa se encolher ainda mais. O olhar daquele vampiro a inquietava. - Estúpida. Está diante da morte e povoa a mente com perguntas tolas, mas se isso é tão importante para você, vou tirá-la de sua ignorância. Eu sou Otávio, aquela é Asti, e de Jan Kmam você já está íntima - falou, observando seu olhar fascinado. - Ali no leito está ... - Ariel, o rei dos vampiros - revelou, sem se conter. Seu sorriso irritou Otávio. - Veja só, é quase da família. Se não viu Miranda, como recebeu as páginas? Persa nem teve tempo de gritar. Otávio a suspendeu no ar pelos cabelos, fazendo-a enfrentar seus olhos escuros. - Vieram pelo correio. É comum uma jornalista como eu receber histórias e fitas. Tenho uma coluna, as pessoas podem me localizar com facilidade. Dou telefone e endereço para que façam denúncias. Otávio cravou as unhas em sua pele delicada, os olhos brilhando como se fosse matá-la. Persa começou a tremer convulsivamente, mais um pouco e perderia os sentidos. _ Maldita! Por que acha que acreditaríamos em suas palavras? É mortal, e tudo que deseja é nos expor. Persa balançava a cabeça negativamente, aterrorizada. Cansado de seu choramingo, Otávio a largou no chão. Asti e Kmam entreolharam-se surpresos, mas resolveram esperar. Percebendo que Otávio faria uma nova investida, Kmam passou Persa para Asti, que a protegeu. Jan tentava compreender o novo Otávio, que parecia matar com grande doçura. - A senhora vai defendê-la também? - Se ela vale tão pouco, meu querido, por que se dá ao trabalho? - Sua presença se faz desnecessária, saia! - ordenou. Asti não podia crer no que ouvia. Jan Kmam viu o olhar magoado da vampira e preocupou-se com o rumo dos acontecimentos. A tristeza de Asti alegrou aquele estranho Otávio. Não havia ternura em seu olhar, somente frieza e distância. Sua voz sempre tão doce encheu-se de amargor, mas ela continuava a defender a mortal. _ Vai dispor das sobras do rei? E por que tanto ódio de uma completa desconhecida? Quem é esta mulher, Otávio? - Isso não lhe diz respeito. - Diz e muito, quando o vejo agir como um completo desconhecido. - Saia - ordenou bem perto da vampira. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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_ O que pretende fazer, possuí-la enquanto seu irmão dorme e estou na sala? Acredito que Ariel não vai se importar em dividir sua escrava com monsieur Otávio. Furioso, ele revidou com uma bofetada. Asti tocou o rosto incrédula, mas não se deixou intimidar e revidou à altura. Foi rápido e cortante. Num piscar de olhos, seu pontudo broche de cabelo estava sujo de sangue e a mão de Otávio ferida. _ Isso deve lembrá-lo da promessa que fez de jamais me tocar com violência. - Otávio, Asti, acalmem-se. Jan percebeu o arrependimento tardio de Otávio e a mágoa de Asti, o silêncio e a troca de olhares disseram muito. Persa tremia atrás da vampira. - Foi você quem remendou a cara dessa prostituée? - perguntou ofensivo. - Sim, foi. Agora quero que saia, precisa se acalmar - insistiu. Persa ergueu os olhos e fitou Jan Kmam com sincero agradecimento. - Vim aqui matar esta vagabunda e é isso que farei. Jan Kmam sabia que o estado de Ariel provocava a alteração de humor de Otávio, já que a imortalidade não prepara para a doença, mas havia algo mais por trás de seu comportamento. Asti sentia o mesmo, percebia isso em seu olhar. Quando Otávio atacou a mulher novamente, Jan Kmam teve certeza. - Ela vem publicando esse lixo! Deveríamos ter deixado aqueles dois lá embaixo matarem dela. Otávio empurrou Asti, avançou sobre Persa, arrancou o lençol e revelou sua nudez. A jovem baixou o rosto envergonhada. - Agora sabe o que sentimos quando nos expõe com suas palavras. A senhora está certa. Vou mesmo dispor do que pertenceu ao rei. O vampiro enlaçou a jovem e a beijou. A porta bateu anunciando a partida de Asti. Persa era fabulosa. O tom róseo de sua pele era um convite irrecusável. Suas formas generosas enchiam o olhar até mesmo de Jan Kmam. Persa baixou a cabeça e seus cabelos cobriram o colo ocultando parcialmente a nudez. - Saia, Kmam, afinal também tem estômago fraco - debochou Otávio. Ele a detinha com força pelos cabelos e puxou sua cabeça para trás. Estava pronto para mordê-la, mas Kmam o impediu, segurando-lhe o ombro. Aproveitando a mão livre, Persa cravou as unhas na face severa de Otávio, arrancando sangue. - Vadia! Jan Kmam colocou Persa às suas costas. Estava pronto para enfrentar a fúria de seu criador e defender a mortal. Pôs a mão em seu peito e o olhou com autoridade. - Basta! A voz do rei cortou o quarto num aviso que não podia ser ignorado. Otávio semicerrou os olhos em sua direção. A essa altura Persa estava escondida atrás de Jan Kmam, segurava sua jaqueta com força. Ele podia sentir seus dedos se fecharem firmemente, buscando apoio. Escondeu o rosto em seu ombro sem medo de ser repudiada. As palavras no manuscrito fizeram-na confiar nele, acreditar no maravilhoso vampiro que ele conseguia ser quando queria. Kmam a tomou nos braços, enquanto ouvia seus soluços magoados. - Majestade. - Por que toca minha escrava com tanta brutalidade? Conhece sua posição, é um dos meus Lordes. Porventura, devo ensiná-lo a me respeitar? - foi uma ameaça velada. Otávio curvou-se diante dele, humilhado. - Ariel, meu irmão. Apelo para a sua inteligência. Deixe-me matá-la. Ela só nos trará desgraças. Acha que os Poderes irão aceitá-la? Eles não vão se arriscar tanto outra vez. - Já tomei minha decisão, ela fica viva. Não ouse tocá-la! Pareciam prontos a se atracarem. Jan Kman jamais os tinha visto tão alterados um com o outro. Persa, que pouco significava minutos atrás se tornara motivo de discórdia. Algo estava errado, definitivamente. Otávio recuou, não por temer Ariel, mas por saber que não poderia ir contra seu rei e irmão outra vez. - Quer voltar ao maldito passado? - Otávio tentava avivar a razão perdida de Ariel diante do objeto de seu desejo. - Já estamos nele, e certamente não é por minha culpa ou da mortal. Eu não comecei este maldito jogo de morte! Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Sim, sempre lhe trouxe muitos dissabores. Todavia, ainda sou seu irmão mais velho e não vou permitir que perca a lucidez. - Saia! - berrou Ariel inconformado, cansado da teimosia do irmão. - A história se repete. A porta bateu por mais uma vez, anunciando a saída de Otávio. Ariel puxou o lençol sobre o corpo desmaiado de Persa e beijou sua testa. Parecia exausto quando sentou na poltrona e fitou Jan Kmam. Enfrentar o irmão tinha consumido suas forças. - Livre-se dos corpos no estacionamento, devem ser destruídos. Vitor precisa ser encontrado e decapitado. Seus restos devem ser destruídos com a Seiva. Ele tem fome e pode gerar um exército de mortos-vivos e trazer pânico à cidade - balançou a cabeça e assumiu um ar quase risonho. - O que seria extremamente cômico para esses dias. Jan Kmam olhou para seu rei prostrado e curvado como um velho e abaixou-se diante dele em sinal de respeito. Ariel tocou seus cabelos loiros e sorriu tristemente, enquanto o erguia de seus pés. - Não me tente, Jan Kmam. Curvar-se assim diante de um vampiro faminto pode ser perigoso ele ainda tinha forças para ser o moleque de sempre. O coração de Jan Kmam doeu, era insuportável sentir a doença e fragilidade do rei. Ele podia sentir o peso do olhar de Ariel sobre si sondando seus sentimentos. Sua lealdade estava à prova. Sustentou o olhar confiante, seguro em sua tarefa, no dever que tinha para com seu rei. - Como meu favorito, deve saber que suas responsabilidades cresceram consideravelmente. Temos pouco tempo. Estou morrendo. - É tudo minha culpa. - Jan, eu fui àquele cemitério como rei e como tal fui ferido. Quando entrei lá, invejei aqueles felizes cadáveres por terem algo que jamais possuí: paz. Convivo com a morte desde minha mais terna idade. Defrontei-me com ela diversas vezes sem jamais a temer ou me preocupar se ficaria de pé depois. Não me importava. Agora sinto que ela me envolve e devora como a mais faminta das amantes. Estou com medo. Não quero morrer. Não agora - disse irônico, lançando um olhar para Persa. - Vossa majestade não vai morrer. Não posso permitir isso, pois morrere-mos juntos. - Isso soará humano, mas tudo tem seu fim. Estou vivo há muitos séculos e já deparei com o inimaginável, mas jamais esperei que o Deus dos mortais pudesse me perturbar, mas aqui está ela renascida, viva como se nenhum dia houvesse se passado. Ele controla as almas e as faz voltar por ondas de tempo para atormentar os que ousam ser imortais. Eu, você e Otávio. O que somos senão cadáveres? Já elas representam uma gota da taça da vida, a reencarnação do amor usurpado e falecido. Quero-a com todo meu ser. - Ela já lhe pertence, majestade - ele tentou acalmá-lo. - Não posso protegê-la nem eternizá-la como rei. Três dias não são nada. Estou apodrecendo vivo e em pouco tempo a visão de meu corpo será repugnante até mesmo para um vampiro. Não vou condená-la a me ver assim. Esperava a compreensão de Otávio, mas ele só deseja matá-la. Está no meio de uma disputa amorosa, Jan Kmam - fitou-o por alguns segundos, antes de prosseguir. - Preciso de Kara. - Sabe o que me pede, Ariel? - Sim, seu coração. - Há uma alternativa, mas preciso de algumas horas para buscar sua cura. Existem amostras e elas podem salvar sua vida imortal. - É sua amante, não é mesmo? - Ariel completou sagaz. - Nada negarei, majestade. Jan Kmam apelava para o amigo, mas quem lhe respondeu foi o rei dos vampiros. - Tem três horas. É tudo o que posso dispor em seu favor. Depois disso terá de aceitar os fatos. - Tente não me condenar por tentar salvar a vampira que amo. - Sim, eu sei. O que sente é o peso de suas responsabilidades como favorito. Nunca exigi que você ou qualquer outro vampiro enfrentassem os inúmeros usurpadores que surgiram ao longo dos séculos que tenho reinado. Sabe por quê? Sempre defendi meu lugar, fiz questão de manter o que conquistei por mérito de sangue. Nunca precisei pôr diante de minha pessoa o Conselho, a Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Ordem, os Lordes ou quem quer que fosse. Deixei todos livres do peso de me defender. Todavia, estou doente e minha cura dependerá dos que me juraram fidelidade, como você, Jan Kmam. Torna-se óbvio. Causarei dores. As palavras do rei fizeram Jan Kmam enfrentar uma realidade dolorosa. Nos últimos cinco anos vivia uma rotina assustadoramente humana. Conhecia as leis, mas subitamente as considerou abusivas. Não era a primeira vez que percebia isso. Ocupava uma posição invejada. Seu poder e conhecimento naqueles dias eram enormes. Possuía deveres que vinha negligenciando graças a um século sem lutas ou disputas, mas a paz havia sido destruída. Estava diante de decisões importantes e precisava assumir seu lugar na comunidade vampira. - Ela será rainha? - Provavelmente, mas não quero tê-la ao meu lado e sentenciá-lo à morte por traição. - Não desejo traí-lo nem lutar contra Otávio pela mortal - disse Jan, mudando de assunto. Não suportava imaginar Kara ao lado de Ariel. - É tarde demais para isso. Se dentro de três dias não me curar, terá que torná-la vampira por mim. Não estou pedindo, é uma ordem. Muitos me defenderão quando o momento chegar, mas cabe somente a você proteger Persa Zanne. - Quem é esta mulher, Ariel? - A materialização de uma inimiga feroz e adorável que rodeou a alcova real com promessas de prazer e perigo nos lábios. Acredite, Kmam, serei paciente com sua rosa. Não a farei sofrer, prometo. Obviamente, Kara não pode se rebelar. Deve ceder pacificamente seu sangue ou morrerá em meus braços condenando a todos nós. Sei que a fará entender a nova situação. Jan Kmam fechou os olhos para esconder a dor que transpassava seu coração. Havia um nó em sua garganta, algo animal lhe ordenando que matasse seu mais novo inimigo, o rei. Por pouco uma lágrima não rolou de seu olhar profundamente azul. - Tem três horas, eu repito. Togo logo chegará e não virá sozinho. Os Poderes têm pressa e sempre usam as saídas mais lógicas. Agora vá. Quando houver tempo falarei sobre a mortal. - Que seja, majestade. O rei sabia o tamanho da dor que infligia ao seu favorito e amigo, mas era seu dever pensar na proteção dos Poderes e no mundo que governava, mesmo que isso causasse dissabores. O pedido da mulher amada é algo muito perigoso. Ariel sabia o quanto, e Jan Kmam aprendia tardiamente. Eva, Salomé, a rainha Esther, Roxalena e tantas outras conseguiram mudar o mundo com um pedido. Há séculos nenhum vampiro chegava ao décimo poder. Poucos conseguiam beirar cem anos de existência. A maioria era consumida por suas fraquezas. Os mais antigos tentavam se preservar mantendo a linhagem e o sangue, o que os reduzia e extinguia. De modo trágico e oportuno, o favorito estava mais perto do trono do que qualquer um dos vampiros além das janelas. Jan Kmam deixou o aposento dividido entre o dever e o amor. Atormentado, mergulhou na escuridão do corredor com a mão crispada sobre o relicário, os olhos fechados. Buscava a presença da amada ao seu lado. podia sentir ainda o modo felino como se enroscava nele em busca de um beijo. Riu amargo e lembrou-se das promessas que havia feito na escuridão do leito: nenhum outro vampiro a tocará. Está segura ao meu lado, seremos somente eu e você, ma petite. Um pensamento sombrio tomou sua mente. Saberia como agir e evitar o pior. Escondeu uma lágrima na palma da mão e foi para sala, Otávio e Asti trocavam palavras ásperas. Ficou no meio do caminho. Não suportaria vê-los discutindo. O mundo que conhecia ruía. - Deve-me obediência. Ainda sou seu mestre - cobrou Otávio, enfrentando o olhar magoado da amante. - Devo obediência ao rei. Passei dos cem anos há séculos, se acato seus pedidos é só por amor. Não sou mais sua pupila. - Uso do mesmo sentimento para me render as suas vontades. Então, use esse amor para continuar me obedecendo - exigiu. Asti tremeu de raiva ao ver seu desdém. Manteve-se ereta e involuntariamente soltou uma risada venenosa. - Do mesmo modo que demonstrou ainda agora diante daquela mulher? Por que se acha tão Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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superior, Otávio? Acaso em nosso mundo só existem prazeres e delícias? O amor não conhece a fronteira das espécies, e a nossa ama de forma estranha e perversa. O que faz com a doçura que lhe dou em forma de beijos e caricias? - Alimento-me dela, é o que mantém meu coração ainda pulsando. Aquiete a sua alma, afastese dessa fúria que o consome ou vai me perder. A sala silenciou. Otávio sentiu o desejo verdadeiro de falar, contar o que o atormentava, mas considerou que não seria perdoado por Asti. - O que viu naquela sala foi o fantasma de um vampiro que jamais amaria e respeitaria. Uma criatura que não mereceria sequer tocar a barra de sua saia. Otávio aproximou-se de Asti, que não se moveu. Ele a envolvia com seu poder vampiro, o olhar tentando prendê-la no laço de amor que sempre os uniu. Ela tremeu como se ainda fosse mortal e sua vitima. Otávio possuía muito poder sobre a vampira. Asti fechou os olhos e resistiu ao desejo de se jogar em seus braços. Num gesto que desagradou Otávio profundamente, deulhe as costas. Dentro dela vivia uma mágoa enorme, um ciúme quase humano. - Estou acostumada a dividi-lo com Ariel e Jan Kmam, mas não vou tolerar outra entre nós anunciou. - Não é o momento de fazer exigências. Tudo a nossa volta está em processo de mudança. Jamais ousaria pôr outra diante de você, pois você é única. Otávio estava atordoado com a agressividade que nascia entre eles. Por um instante eles se fitaram e ele viu toda a dor e o desgosto que lhe causava. Ainda assim, manteve-se irredutível. A fragilidade de Asti surgiu em forma de lágrimas que não tocaram o coração endurecido do novo Otávio. - Aviso à senhora para não persistir nesta guerra, o preço será alto. - Deixe-me! Sua presença me desagrada. Otávio achou que a vampira correria para seus braços pedindo perdão. Frustrado, foi embora. Asti desmoronou, cobriu a face desamparada com as mãos trêmulas e soluçou ferida, só então percebeu que Jan estava na sala. Pouco importava o que ele tivesse visto da discussão, o importante é que podia correr para seus braços. Ele a segurou e a apertou contra o peito com força e carinho. Asti mordeu o lábio e tentou conter os soluços. - Volte para casa, Asti - ele a aconselhou. - Afaste-se dele por um tempo, Otávio não está bem. Cuidarei dele por você. - Não posso deixá-lo. Ele esconde algo e não pressinto nada de bom nesse segredo argumentou mais calma. - Além disso, quem vai cuidar de você? perguntou sorrindo tristemente. - Que seja - ele aceitou, apertando-a nos braços. - Preciso ir, cuide de ArieI. Dentro de um carro roubado, com os corpos dos assaltantes na mala, Jan Kmam e Otávio rodavam pela cidade. Jan estava arrependido por ter permitido que Otávio dirigisse. Ele corria demais, submerso em seus pensamentos. Sua voz e seu rosto estavam consumidos pela tristeza. - O que ela quer de mim? - Somente você, Otávio, nada mais - respondeu Jan, surpreso com a ignorância daquele vampiro em relação aos desejos da mulher amada. - Durante todos esses anos nunca deixei Asti por mais de uma noite sem a minha presença. Sempre voltei. - Acho que jamais o conheci plenamente, Otávio, vejo isso agora diante de sua mudança. Por isso entendo o que tortura nossa deusa de barro - falou suave. - Não há nada além do que veem. Ela, sim, mudou. Há dois anos começou a fazer perguntas, implicar com Ariel, com você, qualquer um! Ora amável, ora tão fria. Pergunto-me se essa mudança não se deve a Kara e suas ideias. - Kara é voluntariosa e obstinada quando se trata de suas vontades, mas não influenciaria Asti. Trate-a com igualdade, nada mais. - Nunca a proibi de ter outros. Ela sempre soube de minhas aventuras. - Ela jamais se permitiria tanto, e você não suportaria saber que ela está com outro, admita. Aquelas palavras fizeram Otávio emudecer. Ele segurou o volante e pisou no acelerador, dobrando à direita com velocidade. Perguntou-se como falar de segredos guardados por tantos séculos. Crimes cometidos dentro da inocência são crimes? Seu mundo estava em ruínas e em breve nada restaria. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Para nós, você é o mestre, o irmão do rei, um dos Lordes. Sua origem é um mistério que visivelmente perturba você e ArieI. - Cabe somente ao rei revelar esses fatos. Nada em nosso passado alteraria o que sentimos por nossos amantes. Se o rei nada revelou, não sou eu que contarei. Otávio parou o carro para descer. O terreno baldio era perfeito, não havia viva alma a quilômetros. O som dos insetos à volta era alto e o cheiro de lixo muito forte. Os faróis do carro eram a única iluminação disponível, mas Otávio e Jan não precisavam de luz para agir. Moviamse em silêncio arrumando a cena do crime. A gasolina escorria pelos bancos, capô e vidros. Otávio puxou a arma das vestes, disparou contra a lataria e logo depois através dos vidros, acertando Duda na cabeça e Dinho no peito. Limpou a arma de suas digitais e a jogou no mato, onde a polícia poderia encontrá-la com facilidade. Viu Jan abrir a mala e pegar o galão de gasolina. Um fósforo fez o resto. Jan Kmam puxou o casaco, arrumando-o sobre os ombros. Seguia ao lado de Otávio. O silêncio ao redor foi quebrado pelo deslocamento de ar. A explosão sacudiu o carro que se ergueu poucos centímetros do chão e virou uma grande fogueira. O brilho das chamas estava nos olhos de Jan e Otávio, que fitavam os corpos retorcidos. O sentimento era de inquietação e pesar. O que estava por vir quando a próxima noite lhes desse liberdade para caminhar entre os mortais? Jan Kmam não sabia as respostas, mas estava disposto a lutar por sua felicidade. Ele deu as costas ao fogo, Otávio o seguiu, precisavam de um carro. - Os Poderes se renderão à autoridade de um novo rei? - Somente se você for esse novo rei - respondeu muito sério. - O Conselho seguirá qualquer um, mas a Ordem, o Livro e os Lordes, não - asseverou, acompanhando os passos de Jan Kmam. - Eles exigiriam que o favorito assumisse. - Não pretendo cortar a cabeça de ArieI. Agradar ou desagradar aos Poderes. Tudo que desejo é encontrar Kara - revelou, sincero. - Por qual motivo mudaram o nome da Ordem? - O antigo guardião do Livro desapareceu anos antes da coroação de Ariel, mas suas palavras permaneceram. Dizem que sucumbiu ao Livro, já que o tocava constantemente. Outros afirmam que foi traído e assassinado, mas a própria Ordem acredita que ele se recolheu ao Livro. - Compreendo. Então, houve a mudança? - Sim, desde essa época a Ordem resolveu se intitular a Ordem dos Pacificadores. Toga assumiu o cargo e tudo corre perfeitamente desde então, mas o nome do antigo guardião não é segredo e tão pouco seus feitos. Radamés trouxe-nos à luz, metaforicamente falando. Deve ter visto seu nome na primeira página ao tocá-lo. - Sim, eu li. Ele ficou conhecido como Radamés, o Senhor da Ordem de Thoth. - Restam poucos vampiros que viram Radamés vivo. No Conselho somente Crasso, o líder atual. Os Poderes odeiam mudanças, são arcaicos e jamais aceitarão um rei por mérito de espada. É o fim do sangue dos antigos. O que vale é o velho código que Ariel carrega nas veias, sua origem remete aos antigos reis. - São muito rigorosos quando se trata de revelações? - Sim, muito, a espécie deve ser protegida. Graças a alguns escandalosos, o mundo mortal chegou a gerar uma ciência para nos classificar e estudar, Vampirologia. Odeio a palavra! O fato é que vigiamos qualquer um que nos estude e tente nos revelar. Dom Augustin Calmet, o gorducho, escreveu muito a nosso respeito, mas sabíamos tudo o que ele fazia, mesmo distantes de Paris. Sabíamos o que comia, onde dormia, com quem falava. Se chegasse muito perto da verdade seria morto imediatamente. Ele era padre, dava aulas de teologia na Abadia de MoyenMoutier. - Voltaire O ridicularizou nos salões intelectuais de Paris. - Sim, apesar de ter usufruído da sua hospitalidade e biblioteca. Ah!, eles eram realmente temerários e imoderados. Diderot fez o mesmo no salão de 1767. Acredito que sentiam inveja dele, afinal seu livro virou um best-seller. Escritores ... sempre uma praga. Ele via longe, soube como ninguém perceber a onda de vampirismo que varreu boa parte da Europa no século XVIII. Acho que ainda tenho um de seus livros na biblioteca. Tenho a versão francesa. - Tenho a alemã de 1752 e a inglesa, mas isso pouco importa agora. - Vai procurar Vitor ou Kara? - Tenho três horas para encontrar um deles. Minha primeira tentativa será o laboratório de Vitor. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Irei com você. Tenho pouco para fazer diante de Ariel, além de lamentar.

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11. VITOR, MÉDICO E MONSTRO O laboratório era um bloco sólido, uma estrutura moderna. Uma pequena cidade fortificada, isolada por muros altos e cercas elétricas, que contava ainda com guarita informatizada, armas e sistema de vigilância. Toda aquela parafernália só não era à prova de vampiros, pensou Jan Kmam ao saltar por cima da cerca e tocar o chão com a delicadeza de uma folha seca. Os cães foram repelidos por um olhar de Otávio. Os guardas sequer os viram passar. Dentro do laboratório, deram preferência ao teto. O segurança da recepção assistia a uma partida de futebol distraidamente. No meio da torcida fervorosa tocou o pescoço. Era o olhar de Otávio sobre sua garganta. Incorrigível. As paredes limpas, desprovidas de qualquer decoração, davam ao local um ar hospitalar. O corredor os colocou diante do elevador. Desceram do teto para examinar distraidamente a divisão dos andares em uma linda placa metálica. O laboratório de Vitor ficava no subsolo em área restrita. Minutos depois Kmam e Otávio alcançaram uma porta metálica. O painel com letras e números deixou evidente a necessidade de uma senha. - Tente a palavra vampiro - brincou Otávio, enquanto Jan Kmam fitava o painel. Seus dedos correram ágeis sobre as teclas em diversas tentativas. Uma voz metálica feminina respondia com suavidade: Acesso negado. De repente, a resposta veio óbvia. Jan Kmam tocou novamente as teclas luminosas e desta vez teve êxito. A porta deslizou suavemente e os dois entraram. Diante do olhar curioso de Otávio, o vampiro respondeu: - Kara Ramos. O laboratório parecia ter sido arrasado por um vendaval. Os computadores jaziam quebrados, e o chão estava coberto de cacos de vidro. Os arquivos estavam revirados. As fichas tinham sido incineradas no cesto de lixo, juntamente com os CDs. Kmam não via nenhuma cobaia, mas o cheiro ainda estava nas jaulas. Aproximou-se do balcão e analisou o microscópio feito em pedaços. - Estamos perdendo tempo. Nada aqui pode nos ajudar. - Sempre existe algo. - Vitor deve ter vindo aqui e destruído tudo. Faz o gênero daquela maldita coisa! - disse Otávio, fitando os papéis rasgados no chão sob seus pés. Jan tentou pensar como Vitor, no que tinha nas mãos. Sangue imortal imune a tudo, os teste que fez, as reações que colheu. Olhou seu balcão de pesquisa, tocou a pedra e fitou as paredes em volta. Fez anotações que não deixaria em um arquivo ou no seu computador. Ele não agiria diferente de qualquer mortal diante do inexplicável, do milagre científico. Os olhos astutos de Jan fitaram o duto de ventilação, a ponta do iceberg. Saltou sobre os móveis alcançando o duto. Arrancou a grade de proteção e encontrou um saco plástico. No seu interior, um livro de registros. - Do que se trata? - Talvez a cura de Ariel, as respostas que procuramos. Por um motivo desconhecido, nenhum dos dois conseguiu sentir sua presença na sala, mas ele os observava há algum tempo. Foi o cheiro forte que denunciou Vitor para os vampiros. Estava imundo. Kmam já estava de espada em punho, pronto para cortar sua cabeça, quando Otávio se atracou com Vitor em luta aberta pela sala. Nem mesmo sua aparência repugnante foi capaz de deter sua ira. Tinhas as mãos fechadas sobre seu crânio, pretendia esmagá-lo contra o chão. Vitor reagiu, mas não da forma violenta que esperavam. Livrou-se de Otávio como se fosse um trapo velho e se aproximou de Kmam. - Ajude-me. Jan Kmam conteve Otávio e o fez observar os olhos de Vitor. A besta o havia abandonado, restava apenas o vampiro. O soco o pegou de surpresa; e caído sobre as gaiolas das cobaias, cuspiu sangue. - Isso acerta as nossas contas por hora. Agora, o que são estas anotações? - mostrou-lhe o saco plástico. - O resultado de cinco anos de minhas pesquisas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- É uma espécie de soro? - Sim, um soro e muitas dúvidas. Preciso aperfeiçoar a aplicação e a eficácia. Onde está Kara? - quis saber, a mente tomada por fragmentos de lembrança. - Esperava que pudesse me responder isso. Jan Kmam tinha sua paciência esgotada, mas aparentemente Vitor não se lembrava de nada. Otávio andou pela sala impaciente. Desejava ardentemente arrancar sua cabeça. - Não sei. - Precisa se lembrar, Vitor. Nem que seja necessário matá-lo novamente. Alguém o queria morto, sua pesquisa virou lixo. Sua mania de cientista louco comprometeu todos nós. Infectou Kara com essa promessa de cura para o mundo. Tenho vontade de despedaçá-lo. Vitor recuou confuso, refletindo na face toda a culpa que sentia. Seus olhos estavam dilatados há algum tempo. Jan Kmam tocou-o e riu amargo. Sua única alegria era saber que poderia bater nele sem se preocupar com sua mortalidade. - Você agora é um vampiro, Vitor. E sabe o que é pior? Você roubou sua imortalidade de um vampiro morto há séculos. Não poderia ter sido mais poético para quem sempre me julgou e condenou. Isso faz de você um espécime raro e forte. Seja bem-vindo à escuridão, dr. Vitor. - Isso não é verdade! - Negação é uma das fases da transformação - Otávio divertia-se com seu medo. - Você é um amaldiçoado, sua alma mergulhou na escuridão. Veja suas roupas. Andou e comeu no esgoto, dormiu em um túmulo pútrido - Vitor sacudiu as roupas e deixou escapar uma barata. - Seu cheiro poderia me matar, se já não estivesse morto. - Fui roubado. Bateram em minha cabeça. Sou humano - disse desesperado ignorando os próprios caninos. Jan Kmam poderia ter continuado com seus argumentos, mas estava sem paciência e sem tempo. Ele conhecia um modo melhor de conduzir a situação. A estocada foi rápida. Vitor caiu de joelhos pesadamente, fitando o abdômen ferido e a mão banhada em sangue. Jan recuou impaciente e apontou o ventre ferido. Otávio se aproximou. Com uma das mãos tampou o nariz e com a outra puxou os trapos que ele vestia. Atarantado e confuso, tocava a pele observando o sangue sumir, ser praticamente absorvido sob seus dedos. Segurou a cabeça, e as lembranças invadiram sua mente, agora lúcida. - Preciso encontrar Perez. Foi ele quem me matou. Ele sabe onde está Kara - afirmou com segurança, fazendo Kmam olhá-lo com contentamento. - Nós a encontraremos - afirmou sob o olhar de censura de Otávio. Subitamente, Vitor moveu a cabeça e aspirou o ar como um animal. Otávio percebeu o brilho dos seus olhos, o modo como seu corpo reagiu à informação externa. Era o sangue da Fonte o guiando e controlando. Três seguranças surgiram à porta, e um deles pareceu reconhecer o antigo médico. Ele foi o primeiro a morrer. Vitor saltou pouco se importando com os disparos. Estava muito longe de sua humanidade. Para Jan Kmam e Otávio restou atacar os demais. Quando Vitor finalmente soltou o corpo morto, condenou-se de imediato. O arrependimento tardio o tocou profundamente. A alma estava perdida dentro do corpo vampiro. Era um órfão, mas por enquanto Vitor teria a proteção de Kmam. - Precisamos sair daqui. Otávio observava tudo em silêncio absoluto, estava insatisfeito, mas nada comentou. Tiveram que literalmente lançar Vitor sobre a cerca elétrica, pois ele não sabia controlar seus poderes. Seguiram para o centro rumo ao apartamento de Vitor. Banhado e vestindo roupas limpas, fitou sua face vampiresca no espelho. Surgiu na sala, frio e tranquilo, e sentou-se no sofá. - Perez foi colega de faculdade, de residência médica. Trabalhamos juntos na emergência de um hospital local, mas ele odiava o cheiro de morte e abandonou a medicina. Dois anos depois soube que Perez estava na área de pesquisa. Foi na crise que quase matou Kara que o procurei com as amostras. - Você o alertou sobre a existência de Kara, pendurou um alvo em suas costas - Jan Kmam reclamou indignado. - Seu sangue a matava lentamente. O que queria que eu fizesse? No laboratório do hospital era impossível manipular as amostras. Perez fez os testes e me passou o resultado dos exames Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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sem fazer perguntas. Foi como se não houvesse visto o potencial do sangue .... Depois que partiram de São Luís, o procurei e ofereci parte dos lucros, caso obtivesse êxito com a pesquisa. Precisava de um laboratório, tempo e dinheiro. Perez aceitou e me ofereceu um pequeno laboratório no segundo andar de CEPS. Três meses depois consegui compreender parte do mecanismo do sangue das amostras, havia dois tipos. O primeiro que manipulei ..era de Kara, uma amostra tirada após o ataque, quando ela caiu infectada. O segundo era de sangue vampiro que colhi dias depois de Kara se transformar. A concentração de oxigênio no sangue era fantástica. Não é por acaso que são... que somos tão ágeis. Agora posso compreender e sentir. - Onde estão as amostras? - Foram usadas durante a pesquisa. - Mentira. Kara lhe deu mais sangue quando chegou. Sem falar da amostra que você sorveu. - A única que consegui salvar das mãos de Perez foi a que bebi. Kara me preveniu de que era muito antiga, mas na hora não soube o que fazer. - Maldição! O que Perez pretendia raptando Kara? - Não faço ideia. - Precisamos encontrá-la e fabricar o soro. - Desenvolveu realmente um soro? - perguntou Otávio, interessado na cura de seu irmão. Vitor dava mostras de grande competência. - Sim. O primeiro tinha baixa eficácia, uma amostra rala. Não queria gerar uma convulsão na comunidade científica. Queria salvar vidas - calou-se, afinal agora matava para se alimentar. Posso tentar refazê-lo, mas há o risco de mutação, uma vez que o soro sofre alteração de acordo com o tempo de imortalidade do doador, tornando-se mais ou menos eficaz. - O soro torna-se uma cura imprecisa - Otávio soltou frustrado. - Durante os últimos quatro anos só obtive fracassos, até finalmente encontrar a resposta. Isolando as células vampiras as fazia entrar em processo de decomposição. Comecei a acreditar que não conseguiria mantê-las vivas e que as amostras logo chegariam ao fim. Finalmente, ao observar o sangue de Kara ainda humana, compreendi meu erro. Era simples, o sangue vampiro não vive por muito tempo sem a presença do humano. A fome vampira nada mais é do que o sangue morrendo. - Nós não morremos quando estamos com fome ou quando resolvemos nos enterrar vivos replicou Otávio. - É verdade, mas as defesas ficam baixas e há diminuição da força física e da atividade cerebral. As nossas células são virais. Entram, atacam e controlam facilmente as humanas. Isso me levou a compreender o processo de transformação do vampiro. Afinal, vi Kara mudar diante de meus olhos. O corpo é levado à exaustão através da mordida, um colapso antes da morte derradeira. O vampiro, então, doa seu sangue ao escolhido. As células virais entram na corrente sanguínea e substituem o sangue humano, devorando o pouco que restou até dominar totalmente o organismo, através de uma rápida reprodução. O novo vampiro alimenta-se, e a transformação segue seu curso natural. - Fale mais do soro, do que ele é capaz? - Testei em cobaias com vários tipos de câncer, a regeneração foi excelente. Nessa época Perez surgiu na minha porta, foi quando comecei a desconfiar de que era vigiado. Havia câmeras escondidas no laboratório e meu trabalho foi exposto. Eu testei o potencial do soro em um chipanzé, Edgar. Ele havia sido inoculado com células cancerígenas, estava em estágio quase terminal. Apliquei o soro e depois de somente seis horas o câncer havia sumido completamente. Estava curado, saudável, era visível. Entretanto, no terceiro dia surgiram os primeiros sintomas de uma doença desconhecida. Havia sonolência, sede excessiva, sensibilidade à luz, irritabilidade, falta de apetite. No quarto dia Edgar se soltou da jaula e atacou as outras cobaias e o tratador. Ele bebeu seu sangue. Eu o curei do câncer, mas o transformei em vampiro. - Um chipanzé vampiro! Era só o que me faltava - rugiu Otávio, condenando-o vigorosamente. - O que aconteceu ao animal? - perguntou Jan Kmam, preocupado. Vitor havia cometido um crime muito grave. - O animal foi sacrificado. Foi decapitado e o corpo incinerado. Foi a única coisa afazer. - Veja a que ponto chegou, dr. Frankenstein! Você é um monstro. - Não podia testá-lo em um humano - defendeu-se. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Basta, por favor - interveio Kmam. - Perez tem isso em seu poder? - Não. Destruí o laboratório após uma discussão com ele. Ele queria o soro, disse que iríamos usá-lo em uma cobaia humana. Eu me recusei prontamente e o avisei que estava deixando o laboratório. Antes que pudesse me impedir, destruí tudo. Fui até a geladeira e incinerei as amostras com o sangue de Kara, todas elas. Queimei o arquivo e os disquetes, apaguei os computadores. Resolvi destruí-los completamente. Só faltava pegar isso - falou apontando para o saco plástico nas mãos de Kmam. - Foi quando ele entrou com os seguranças e então o interrogatório começou. - Estranho. Se havia câmeras escondidas, Perez deve tê-lo visto guardar as anotações - Jan falou desconfiado. - Não. Eu provoquei um curto-circuito na sala, precisava ter certeza de que não era vigiado. Quando as luzes se apagaram, usei o arquivo como escada e ocultei minhas descobertas, por isso elas ainda estavam lá. Tinha receio de sair com elas do laboratório e ser detido pelos seguranças. A vigilância era muito grande. - Acha que o soro pode regenerar um vampiro? - Kmam resolveu ir direto ao assunto. - Não posso garantir, mas por que um imortal precisaria de cura? - Hipócrita! Você bebeu do sangue do rei. Otávio estava cego de ódio. Jan Kmam o afastou de Vitor e revelou os acontecimentos no mausoléu. Pelo visto, ele realmente não se lembrava de seus atos. - O soro pode ser um paliativo. Em Edgar durou somente três dias, mas há uma chance, veja minha última anotação. As amostras evoluíram para um novo estágio, houve uma alteração. Usei parte das amostras trazidas por Kara, passei dois dias trabalhando nelas. As respostas que procurava estavam naquela amostra. O sangue de Kara mostrou-se mais forte, já o da amostra parecia mais agressivo, multiplicava-se sem controle. - E você o engoliu, seu imbecil! - Otávio xingou. - Não tive escolha. Eu precisava ficar vivo para avisar Jan Kmam de algum modo. - Continue. - Inclui esse sangue nas amostras já existentes. Os resultados foram imediatos. O sangue de Kara sucumbiu ao da amostra por exatos cinco minutos. Pude vê-lo reparecer depois, dominando totalmente as células. Melhor dizendo, o sangue de Kara uniu-se ao da amostra, assimilou-o e tomou-se mais forte. Ataquei-o com luz ultravioleta e houve resistência. O sangue não se decompôs como acontecia na amostra anterior. Também introduzi alguns vírus conhecidos e nada aconteceu. Conclui que havia gerado um aperfeiçoamento, dentro do padrão do sangue imortal que tinha em meu poder. A união das hemácias de Kara com as do vampiro da amostra poderia tomá-la resistente até mesmo ao sol, mas são somente conjecturas. Otávio estava dividido, tudo que mais queria era cortar a cabeça de Vitor, mas havia a possibilidade de ele encontrar a cura. Se isso acontecesse, Ariel sobreviveria e Kara nada sofreria. Ele precisava ficar vivo, mas só por enquanto. - Pode curar o rei ou não? - perguntou Otávio. - Há uma boa chance - argumentou Vitor. - Tem de conseguir. A vida de Kara depende disso. Somente com o rei curado ela terá uma chance diante dos Poderes. - O que ela fez? - Cometeu algumas criancices e haverá punição. Ela pode ser sentenciada à morte - falou Jan, hesitante e tolerante com sua amante. - Eu posso curá-lo. Colherei uma amostra de minhas veias se for preciso. Vou refazer o processo, só preciso de uma amostra do sangue do rei para compreender o que está acontecendo. Quais são os sintomas? - Você não tocará no rei novamente - Otávio avisou, seguro. - A Ordem não permitirá. Todavia, duvido que consiga repetir sua experiência. O sangue de Kara e o da amostra são únicos, não obterá os mesmo resultados com nenhum outro. Quando bebeu aquele sangue, tornou-se filho da mesma vampira que criou Ariel e Otávio. Por isso, sua mordida contaminou o rei. Havia uma oportunidade, e Jan Kmam não a perderia. Ele explicou a Vitor as consequências de seu ato, as diferenças entre eles. A mente do cientista trabalhava rápido, pensava em mil combinações e fórmulas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Sim! Há uma chance. Kara ainda está na cidade? - Vitor buscava uma resposta baseado na ligação que eles possuíam. - Não a sinto mais. Os laços de sangue que nos uniam foram quebrados e é tudo culpa sua. Se eu tivesse alternativa, cortaria sua cabeça agora mesmo. Otávio permaneceu em silêncio, não podia revelar que Ariel estava ligado à mente de Kara e que ela continuava na ilha. - Sempre tive as melhores intenções, Kmam. Desejava compensar o mal que causavam ao matar todas as noites. - Mentira! Queria somente satisfazer seu ego de cientista, encher-se de dinheiro. Guarde bem as minhas palavras, doutor. Se eu descobrir que recebeu um centavo pelo rapto de Kara, irei despedaçá-lo - a ameaça foi verdadeira. - Apesar de não compreender o carinho que sinto por Kara, tente me respeitar. Jamais a trairia. Tudo o que sempre quis foi manter as pessoas vivas, por isso me tornei médico. - Seria engraçado se não fosse trágico. Tornou-se sua própria pesquisa e tem todo sangue de que precisa - falou Kmam, apontando suas veias. Vitor estava mudo e envergonhado, não tinha defesa. Era inexperiente demais para enfrentar os argumentos de Jan Kmam. Sua humanidade o sufocava, os seus poderes de vampiro estavam adormecidos. Apesar da confusão, sabia que era o responsável pelo rapto de Kara e jamais se negaria a salvá-la. - Precisamos voltar. Togo e os demais líderes já devem ter chegado.

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12. NOVOS E VELHOS, MAS TODOS IMORTAIS A situação permanecia inalterada. Refizeram o caminho debaixo de chuva, pulando sobre prédios e telhados. Vitor agia como um pateta, agarrando-se nas bordas dos prédios, escorregando e caindo. Jan Kmam sempre sentiu antipatia pelo médico, mas ela sumiu ao ver sua face banhada em lágrimas rubras. Viu em seu semblante arrependimento e culpa, além do saboroso desejo de vingança. Vitor estava doente. O sangue de Ariel o matava como esperado. Devido ao organismo singular, morreria aos poucos e dolorosamente. Algo imperceptível aos olhos humanos, mas jamais para um vampiro. É fácil perceber a morte na massa mortal, um desfile interminável de faces, pensamentos e dores. Às vezes, o melhor é buscar o isolamento. Com a mochila sobre o ombro, Vitor tentava imitar Jan Kmam o melhor que podia. Quando finalmente estavam diante do prédio de Persa Zanne, Asti surgiu das sombras. Mirava Vitor com suspeita e só não o atacou porque foi detida por Otávio. - A Ordem moveu o rei para um lugar seguro. Um prédio não muito longe daqui. - Quem veio acompanhando Togo? - Frigia e Demétrius, mais alguns membros dos Poderes – Asti evitou seu olhar e afastou-se sem dizer uma palavra que fosse. - Quem eles esperam combater para convocar esses dois? – Otávio comentou irritado. Frigia e Demétrius eram profissionais do extermínio. Matavam vampiros, para ser mais exato. Eram carrascos escolhidos pelo Livro para executar suas ordens. O nome de Frigia era muito temido dentro da comunidade vampira. Apesar de possuir apenas duzentos anos, já havia alcançado o oitavo poder. Quando o livro a seduziu, Frigia abandonou o vampiro que a gerou e abraçou totalmente a nova condição. Sua eficácia como assassina fazia os demais vampiros a evitarem. Temiam ser os próximos a cair aos seus pés. Otávio a descreveu para Kmam como uma Mulher de Gelo. Não teve ânimo para falar de Demétrius. Seu ciúme não permitia. Demétrius era um vampiro vigoroso da cor do ébano, olhos cor de mel e cabeça raspada. Tinha saído dos campos de algodão da Carolina do Sul para a alcova de sua dona, uma vampira rica e poderosa que conseguia dinheiro e posição matando maridos. Demétrius a suportou o quanto pôde. Todavia, o confronto foi inevitável. Não foi punido pelo crime, pois o Livro o escolheu para se juntar à Ordem. O local escolhido como abrigo foi um hotel falido no centro da cidade, um bloco de cimento de dez andares, com garagem no subsolo. Apesar de fechado há vários meses, estava bem conservado. O dono o alugou sem fazer perguntas, o que era essencial. O prédio abrigaria muito bem o rei e os demais membros dos Poderes. Jan Kmam reconheceu Frigia imediatamente no saguão. A vampira possuía longos cabelos brancos, e o nome Mulher de Gelo tornou-se óbvio. Sua pele era quase marmórea e possuía olhos extremamente cinzentos como os de um lobo. Era alta e possuía lindos lábios carnudos, uma beleza realmente rara. Vestia um macacão negro coberto por um casaco longo. Lançou um olhar suave em direção de Asti, que respondeu sem muita satisfação. Jan Kmam trocou com ela um olhar de respeito e cordialidade. Ao sentir que se aproximava esperou pelo beijo. - É um prazer conhecê-la, Frigia – murmurou, afastando os lábios dos seus. - O prazer é todo meu. Há muito espero conhecê-lo. Quando despertou há cinco anos eu estava na Romênia em uma missão, não pude vê-lo. - Sinto-me honrado em despertar a atenção de uma dama tão singular – falou Kmam, enquanto lhe admirava os olhos. - É o favorito do rei. Daqui a trezentos anos será um dos Lordes. Tais aspectos de sua existência são comuns à Ordem e ao Livro. Ele o reconhece, apreciou seu toque. É parte de nós também. Espero lutar ao seu lado em defesa do rei. - Até a morte. - Até a morte. Gostaria de passar algum tempo em sua companhia. Tem somente uma pupila, não é mesmo? - Sim, mas devo declinar do convite, Frigia, e lamentar tal gesto.

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- Haverá tempo para tudo. Quem é o iniciado, Otávio? – perguntou com os olhos presos em Vitor. Otávio recebeu seu beijo e respondeu impiedoso, percebendo o leve erguer de sobrancelha de Jan Kmam. - O responsável pelo estado do rei. O golpe da vampira jogou Vitor no chão do saguão, estatelado. Tentou se defender, mas foi surrado e facilmente contido. A vampira movia-se com delicadeza, mas o toque de suas mãos provocava dor e imobilidade. Um cordão de couro surgiu e laçou os pulsos de Vitor. Foi detido em questão de segundos. Vitor gemeu de dor ao tentar soltar os pulsos. Fitou Kmam e Otávio e resolveu esperar pelos acontecimentos. - Procure não forçar o couro ou perderá as mãos. – avisou Frigia junto ao seu ouvido, enquanto o empurrava para o elevador. Os demais a seguiram até o andar desejado. Frigia empurrou Vitor porta afora sem piedade. Ele caiu no chão e foi arrastado impiedosamente. Cansada de sua teimosia, colocou-o de pé e desferiu um soco no estômago. O corpo de Vitor curvou-se movido pela dor. Tossiu com os olhos cheios de ódio. O salão de convenções era amplo, com carpete vermelho e cadeiras no mesmo tom. Havia lugar para sessenta pessoas naquele auditório. Uma plataforma também acarpetada se elevava do chão. Sobre ela, uma das melhores poltronas do hotel ocupada por Ariel Simom. Ao lado do rei dos vampiros, os representantes dos Poderes. Togo representava a Ordem dos Pacificadores, a segurança do rei. Romano, Valdés e Misha eram da casa dos Lordes. Crasso garantia a presença do Conselho. Não muito distante dele estavam os Zeladores, Nebit e Zoser; Demétrius e Frigia arrastaram Vitor e o jogaram com força aos pés do rei. - Matem-no – Ariel ordenou sem piedade, enquanto acariciava a gata em seu colo. Vitor tentou escapar, mas foi detido por Demétrius que o surrou com força. No chão novamente e cuspindo sangue, esperou pelo fim. Não havia como fugir. Se ao menos soubesse usar seus poderes, tentaria algo, mas ali estava tão indefeso quanto qualquer mortal. Demétrius andava ao redor de Vitor, que fitou suas botas com receio. Pareciam pesadas e teve medo de receber um chute. As calças grossas e negras lembravam um uniforme militar. Sobre a camisa justa, um colete de couro combinando com o terno. O vampiro mantinha a postura de um soldado. Demétrius puxou a espada oculta na capa e o empurrou sobre uma das cadeiras, apoiou seu pescoço sobre o encosto e perguntou: - Deseja fazer as honras Frigia? - Faço questão –respondeu, desembainhando sua espada. Demétrius o segurou pelos cabelos e Frigia se aproximou. Vitor a essa altura buscava Jan Kmam com o olhar agoniado, não podia crer que morreria daquela forma, depois de tudo. Fitou as faces vampiras à sua volta e só encontrou indiferença. A espada brilhou no ar e ele sentiu o a arrepio da morte em seu pescoço. - Majestade, como favorito peço humildemente pela vida deste vampiro. Ariel Simom ergueu a mão contendo Frigia e lançou sobre Jan Kmam um olhar mais do que aborrecido, já soltando a gata no chão para ficar de pé. Otávio, sentado na primeira fileira do auditório, observava tudo com tranqüilidade. Vitor não significava nada para ele. A cura do rei estava no sangue de Kara. Sua expressão somente se alterou ao ver Asti trocar um olhar afetuoso com Demétrius. Por um momento o rosto de ébano do vampiro se suavizou. Jan Kmam teve certeza de que teria que lutar pela vida de Vitor sozinho. Nenhum dos presentes na sala o apoiaria. Pelo contrário, teriam um motivo para duvidar de sua lealdade. - Como ousa pedir piedade para quem condenou o rei a uma morte lenta? – inquiriu Crasso, com sua voz irritante. Muitos do mundo vampiro se perguntavam quem teria tido o mau gosto de eternizar Crasso, um romano astucioso e conspirador. Ele era do tipo baixo, cabelo rente à cabeça e olhos escuros, um vampiro de inteligência excepcional. Costumava fazer longos discursos e foi duramente criticado por tentar trazer para as fileira do Conselho posturas do senado romano do qual fez parte em vida. Ago que desagradava Ariel profundamente, mas que alimentava os membros do Conselho, dando-lhes o que fazer em sua eternidade ociosa.

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- Acredite, Crasso, pedir pela vida deste amaldiçoado só me traz desconforto, mas permitir que ele seja executado é negar à vossa majestade uma chance de cura. - Explique-se – disse Ariel. - Este vampiro elaborou um soro. Há uma chance de cura – falou, passando as anotações para Togo, que parecia o mais interessado. Togo, o líder da Ordem, vestia um traje negro de seda. A cabeleira longa estava presa em uma trança austera que tinha na ponta o brilho de uma jóia. Seus olhos orientais fitaram Jan Kmam com atenção e respeito num cumprimento contido. Vitor esperava a distância, ainda sob o peso da espada de Frigia. O rei buscou a poltrona e esperou pela avaliação de Togo. Asti surgiu ao lado do rei com um cálice de prata e o serviu juntamente com o criado. Ele estava se cansando muito depressa, qualquer esforço o debilitava. - Há uma chance. Sua execução pode ser adiada, majestade – revelou togo, deixando Vitor aliviado. - Traga-o até mim, Frigia. Vitor foi posto de joelhos diante do rei, que o olhava com cinismo. Inclinou-se para frente para examiná-lo melhor. - Tem dois dias para encontrar a cura. Depois disso vou entregá-lo a Frigia, mas provavelmente sua cabeça rolará de qualquer modo. Ninguém pode tocar no rei e provar de seu sangue. Ariel levou o cálice aos lábios e pouco depois o estendeu na direção do criado para que fosse novamente preenchido. - Algo me consola. Também está doente e morrendo. O sangue da vadia o devora vivo. Ah!, vingança! Suponho que não sabia quem é Afrodite. A menção daquele nome fez alguns vampiros no salão se agitarem. - Afrodite é tua mãe e eu teu pai. É dela o sangue que o imortalizou, enquanto meu sangue o matará. Nesse momento uma luta está sendo travada em nossas veias, mas nenhum de nós dois ganhará. Togo fitou Otávio e pronunciou-se, cumprindo seu dever de líder da Ordem. - O guardião da amostra deve falar. Otávio ergueu-se da cadeira e em poucos passos se colocou diante do rei. - Falhei em meu dever de guardião. Perdi a amostra, acredito que a Ordem deseje tomar medidas. - Não – sussurrou Asti, aflita. Ela deu um passo à frente, para espanto de todos. Seus olhos escuros e apreensivos miravam o amante. Otávio estava imóvel, contido diante de sua culpa. Nada disse, nem mesmo olhou para ela. Mantinha-se fechado. Asti seguiu em sua direção, mas foi contida pela mão do rei, que sabia exatamente o que fazer. - Intermezzo. - Sim, é verdade. Durante o Intermezzo as sentenças, punições, execuções e disputas são proibidas. Isso também se aplica aos membros dos Poderes. Podendo ser somente julgados ao fim da trégua ou por vontade direta do rei em qualquer hora e lugar – Togo citava o Livro. - Nesse caso prevalece o Intermezzo – declarou Ariel, antecipando a resposta. Togo nada mais falou, Asti respirou aliviada e o clima tenso pareceu se dissipar no salão, pelo menos por enquanto. - Deve muito a Jan Kmam, dr. Victor – Ariel brincou com seu nome. – Ele o poupou de uma dura realidade, mas eu acredito que ela vai fazê-lo trabalhar com mais afinco – pronunciou a palavra com amargo deboche. - Não descansarei enquanto não conseguir a cura. - É mesmo? Esta é uma palavra estranha, não a conheço, cura. Talves você me faça descobrila, homem da ciência. Neste cálice existem mais mazelas do que em minhas veias. Velhice, câncer, AIDS, sífilis e febres. Provei de todas e nada senti além de prazer. - Majestade. - Fale, dr. Victor. - Preciso de uma amostra de seu sangue. - Insolência! – rugiu Crasso. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Os demais vampiros ficaram bastante ofendidos. Jan Kmam desviou o olhar aborrecido. Pretendia pedir a amostra ao rei em sigilo e Vitor tinha estragado tudo. Parecia um dom nato do médico. Ariel olhou seu favorito quieto e o achou cada vez mais bonito, forte e poderoso. Sabia da luta interior que travava, que iria até as últimas conseqüências para salvar Kara. Por fim mirou Vitor. Conhecia sua alma, sua verdadeira intenção. Cansado dos comentários incitados, silenciou os presentes erguendo a mão. - Sua ignorância o protege, dr. Victor, mas vou fazê-lo compreender o motivo de toda essa agitação. A cada cem anos os Poderes se reúnem para aceitar, julgar e festejar o que for. Nessa noite, ofereço meu sangue aos velhos e aos novos membros como um sinal de acolhimento e união. Um laço que os fará cair sobre um rei moribundo como abutres na carniça. Pediu parte do maior poder em nosso mundo. - É o único modo, majestade – Vitor falou corajoso. - Então que se faça. Eu lhe concedo a amostra. - Majestade. Peço que se acautele – murmurou Togo, em protesto. - Não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Lembre-se de que ele já bebeu do sangue de Afrodite e do meu, o que mais poderia fazer? Ariel murmurou chamando seu criado. Max surgiu com uma adaga e um pequeno frasco. Ariel a tomou nas mãos e cortou o pulso. Logo o frasco estava cheio. O corte não cicatrizou de imediato. Asti percebeu e discretamente passou um lenço Ariel, que lançou um olhar agradecido. A amostra foi passada para as mãos de Vitor. - Dou a Frigia o direito sobre sua vida. Caso falhe ou tente fugir com a amostra, ela o matará. Contudo, se achar a cura, Frigia será sua guia em nosso. Frigia ergueu o queixo, foi difícil para ela não demonstrar asco. Mesmo Vitor em sua inexperiência sentiu a revolta da vampira com a nova missão. Ariel gargalhou como um demônio astuto. - Compreendo seu desagrado. Ele não é atraente. - Deixe que Jan Kmam cuide dele – sugeriu Frigia, sem pensar duas vezes. - De modo algum, já pesa sobre Kmam a responsabilidade pela vida de Persa. Seria injusto delegar a ele mais este fardo. Ariel Simom gerava insatisfação,mas suas decisões não visavam somente à manutenção dos Poderes. No brilho verde de seu olhar imperioso estava uma sentença perigosa. Ele ostentava um toque maquiavélico, comum aos que governam. Vitor tentou se aproximar de Jan Kmam, mas Frigia ordenou que ficasse ao seu lado. Romano entregou nas mãos de Togo um rolo de pergaminho, algumas decisões precisavam ser tomadas. Todos haviam sido postos a par dos acontecimentos e tudo graças a uma vampira incomum chamada Kara, a pupila do favorito, a futura rainha dos vampiros. - Levante-se, Romano, não vou suportar sua pena ou a de qualquer outro vampiro. Vamos ver o que me trouxe – disse em italiano, quebrando o selo dos Lordes. Lorde Romano trazia nos traços a beleza dos homens do Mediterrâneo. Tinha cabelo escuro, a boca desenhada, o nariz reto e o queixo forte. O toque da morte tinha potencializado o brilho sensual nos olhos escuros que a maioria dos italianos possui. Deveria possuir um belo sorriso, a julgar pelos dentes alvos. Ariel Simom examinava o pergaminho da Casa dos Lordes. A maioria dos Poderes possuía um símbolo que os identificava. Os Lordes adotavam uma serpente com duas cabeças. Afigura estava no selo de seus pergaminhos e em seus anéis pessoais. - Provavelmente minha sentença de morte. Afinal, esse clubinho fechado do qual não posso fazer parte não brinca em serviço. - Majestade, seu estado preocupa todos os Poderes, fere nossos corações e enfraquece nossa espécie. Os Lordes o defenderão até o fim, mas Radamés nos deixou há mais séculos do que posso me lembrar. - Dois mil anos – Ariel disse seguro. - Sim, dois mil anos. O Livro não o seguiu porque havia um rei. Vossa majestade o mantém em nosso mundo, mas ele se fechou há um dia – revelou. Houve desordem entre os presentes e coube a Togo restabelecer o silêncio. Não havia tempo para discussões. Todos ali sabiam o que aquilo significava. O Livro voltaria ao seu lugar de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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origem e nenhum deles sabia que lugar era esse. Radamés nunca havia revelado a localização. Como o Conselho, a Ordem e os Lordes nada significam sem a presença do Livro, seu desaparecimento os levaria de volta à escuridão. O poder do rei não seria reconhecido e os vampiros estariam livres para fazer o que bem entendessem. Estavam à beira do desastre. - Ainda consegue sentir o Livro, majestade? – quis saber Romano. - Cada página – assegurou, fitando-o um tanto aborrecido. - Resta-nos algum tempo antes que ele desapareça – afiançou Togo. - O Livro só retornará ao seu lugar de origem após a minha morte. Somente o rei conhecia os mistérios daquele objeto. Fitou os vampiros e os achou tão tolos. O Livro poderia, sim, retornar ao seu lugar de origem, mas jamais permaneceria lá por mais que uma noite. A ignorância realmente reserva poder ao homem sábio. Passou a vista sobre o pergaminho e assinou o primeiro deles para deixar clara sua posição; o segundo era uma notificação dos Zeladores avisando que o poder do Livro desaparecia. - Majestade, os Lordes trouxeram a sugestão de sucessão – Misha e Valdés se pronunciaram. Ariel lançou um olhar atento para o russo, percebendo o frio da Sibéria nos seus olhos verdes. Sempre o achou belo e alegre, mas hoje em sua face só havia preocupação. A mesma que via no olhar de Dom Valdés, um vampiro rebelde que preferia se vestir como um motoqueiro e vagar pelo mundo em sua Harley Davidson fazendo vítimas e amantes. As roupas negras de couro e as botas de fivelas estavam surradas. Ao levar a mão ao cabelo muito liso e escuro, a tatuagem do sol Asteca pareceu ganhar vida. Debaixo de toda aquela aspereza havia um vampiro inteligente, culto e encantador, poderoso ao extremo. O rei reconheceu o selo no pergaminho. Recebeu-o com indiferença das mãos de Togo e o abriu com seu punhal. - A sugestão dever ser observada antes de qualquer tomada de decisão, mas deixamos claro o desejo da permanência do rei Ariel Simom no poder –disse Valdés, curvando-se ligeiramente. Nutria por Ariel grande admiração. Ariel não se deixou surpreender com a escolha de seu sucessor. O pergaminho foi passado às mãos de Togo e lido em alto e bom som para todos os presentes, mas o escolhido declinou com veemência. - A minha resposta é não. Romano e os demais membros do Conselho esperavam por uma resposta semelhante, mas não custava nada tentar. Era uma decisão pensada com base nos laços de sangue. Otávio era seu irmão e certamente conduziria o mundo vampiro como o seu antecessor. Os Poderes eram arcaicos, tentavam se segurar na promessa de que nada mudaria para se sentirem seguros em suas posições. Principalmente porque a segunda sugestão lhes parecia verdadeiramente perigosa e sequer foi sugerida até aquele momento. - Este é um ato de uma classe desesperada – Otávio demonstrou todo seu descontentamento com a indicação. - A decisão dever ser pesada. Como Lorde, você tem responsabilidades Sabe o que está acontecendo – disse Romano, apoiando a decisão dos Poderes. - Não é preciso ser Lorde para sentir o cheiro de medo que varre os Poderes e o Conselho. Vejo que faltam algumas assinaturas. Agradeço-lhes a ausência, sabendo o ressentimento e as futuras perseguições que podem advir deste ato de honra, mas minha resposta ainda é não. Não sucederei meu irmão e rei. Ariel ainda tem duas noites pela frente. Que o Intermezzo prossiga. E quanto àquele Livrório, deve ser trazido e mantido próximo ao rei – aconselhou, um tanto sarcástico. - Otávio, peço que reconsidere. A figura do rei precisa ser respeitada. Sua morte tratada como um ato único. Ariel Simom não merece perecer diante da espada de um qualquer. Seria desonroso para um guerreiro tão valoroso. Togo cumpria seu papel de líder da Ordem. Não era tarefa das mais fáceis tratar da vida imortal de sei líder. Com a gata no colo, Ariel os observava com passividade, evitava desgastes. - Esqueça seus conceitos de samurai e me escute com atenção. Ariel não vai morrer. Jamais! Estão ouvindo? Vou defendê-lo, nem que seja sozinho. Pouco importa este maldito trono e tudo mais o que significa. Há uma chance de cura.

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- Os Poderes não podem se prender a esta cura científica prometida por seu favorito e este amaldiçoado - Crasso entrou na conversa, provocando Jan Kmam. Tinha o costume de só se pronunciar para o desagrado de um terceiro. - Há outro caminho a ser seguido – começou Otávio, olhando nos olhos de Jan Kmam. Tudo que desejava era salvar o irmão, e ele o faria. Otávio revelou a herança sanguínea de Kara e nada mais deteria os Poderes. A sentença foi assinada com sangue e deu novo ânimo a todos. A possibilidade de uma rainha lhes garantiria proteção e a permanência de Ariel Simom no poder. - Otávio tem razão – Romano e os demais assentiram. - A vampira terá condições de salvar o rei? – quis saber Misha. - Sim, seu sangue é poderoso o suficiente. - O sacrifício dela sempre será lembrado – falou Misha em tom conciliador, sentindo a tensão entre os presentes, o peso do olhar do rei sobre seu favorito. - Kara vai sobreviver. O que carrega nas veias a salvará – revelou Ariel, depois de longos minutos de absoluto silêncio durante o qual somente acariciava a gata em seu colo. - O que percebo, senhores, é que o favorito não soube valorizar os direitos que a natureza de vampiro tão facilmente lhe ofereceu e o rei coroou. - E que você, Crasso, jamais possuirá. Como deixou claro, é algo vindo da natureza de vampiro – disse Kmam, pronto para enfrentá-lo. - Não me insulte. Estou aqui defendendo os interesses do Conselho. Ostenta muito poder carregando este anel de favorito – disse, sem perceber que revelava suas verdadeiras intenções. – Muitos nesta sala não atingiram o sétimo poder, mas a máxima é a mesma. Não expor a espécie. Sua amante trouxe a desgraça ao nosso mundo. O que mais virá? Um programa de entrevistas, a publicação do manuscrito? - É pessoal, Crasso? Porque se for, podemos resolver isso agora mesmo – Kmam falou calmamente, fazendo todos olharem em sua direção. Andava lentamente próximo ao trono como um leão. Em reuniões como aquela, seu lugar era à direita do rei. – Escolha as armas – sugeriu Jan. - Não sou seu inimigo, Jan Kmam, pense bem antes de me agredir. Foram necessários quatro vampiros para segurar Jan Kmam e somente um para afastar Crasso e sua covardia. - Basta! O rei os silenciou. Já tinha escutado baboseiras por tempo demais. O manto havia caído de seus ombros. Estava de pé, furioso. Asti estava próxima e o recolheu, atenta. - Contenha-se Crasso, pode estar acusando a sutura rainha. Sim, teremos uma saia ocupando o trono. O que muito vai me agradar. Não as subestime, o poder está nos olhos das vampiras. Ameaçar meu favorito é ameaçar também a mim. Quando o Intermezzo chegar ao fim todos serão punidos de acordo com seus crimes. Acalme-se agora, faltam poucas horas. - O que me diz, Jan Kmam? Onde está Kara? – perguntou Ariel, fitando-o curioso com sua reação. - Há fortes indícios de que ainda esteja na ilha. Majestade, quero que receba de volta meu título de favorito – revelou, retirando o anel de ouro. – Não sou mais digno de tal honraria – dizendo isso, curvou-se diante de Ariel. - Um título se conquista, recebeu-o por mérito de sangue. É meu favorito e sempre será. É do jeito que é. Seus erros e crimes serão pesados na balança da Ordem, mas ainda assim será meu favorito. Ariel colocou Jan Kmam de pé, tomou sua mão e devolveu-lhe o anel ao dedo diante de olhares satisfeitos e outros raivosos. - Não pretendo lhe tomar mais nada. Brevemente saberemos o que destino nos reserva – Ariel encerrou a reunião. Tudo que Jan Kmam desejava era a escuridão acolhedora de seu caixão, o uso abusivo de seus poderes o havia fatigado. Em qualquer outra situação poderia ficar desperto por vários dias, somente se alimentando, pensando e lutando. Todavia, sentia-se esgotado. Em momentos assim dormia agarrado ao corpo de Kara, para que ela não o deixasse nem por um segundo.

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Ariel Simom ficou na cobertura. Os demais se dividiram por andares para facilitar a vigilância e defesa do abrigo. Os Sentinelas permaneceriam no hotel para que o alarme fosse dado com antecedência. Estavam seguros por mais um dia. Crasso, Otávio e Asti ficaram no primeiro andar. Valdés, Frigia e Vitor com o segundo. Misha, Jan Kmam e Persa no terceiro, onde já estava trancada. Romano e Demétrius ficariam no quinto, e Togo vigiaria o sono do rei como de costume. O desejo de Asti de se recolher com Jan Kmam e evitar Otávio pelo menos por aquele dia foi frustrado, já que ele teria que tomar conta da mortal. Otávio não conseguiu esconder o sorriso vitorioso ao ir para o quarto. Finalmente poderia fazer as pazes com sua amante. Levar Persa para o caixão não agradava Kmam, na verdade, apoquentava-o. Encontrou-a sentada no sofá, aflita e vestida. Enquanto trancava a porta, perguntou-se de que fibra aquela mulher seria feita. O que buscava ao investigá-los? A presença do vampiro no quarto no quarto a deixou agitada, os nervos estavam abalados pelo contato com Ariel e a violência de Otávio. Mesmo com o temor, admirava-o a ponto de se entregar sem reservas. Ela poderia ter fugido como Kara tentou tantas vezes anos atrás, mas não o fez. Sua curiosidade acabaria por levá-la à morte. - Obrigada por me defender ��� falou com a voz trêmula. - Não me agradeça. Otávio a tratou como qualquer um de nós faria. O fato é que apenas foi mais explícito. Persa cruzou os braços. Um arrepio de medo percorreu seu corpo. Fitou o caixão, espantada. Kmam já não parecia mais tão inofensivo aos seus olhos. - Não se preocupe. O rei tem muito apreço por sua pessoa e a colocou sob minha proteção. Terei que me atracar com qualquer um que tente matá-la – disse com ironia, jogando-se de modo cansado sobre a poltrona no canto do quarto. - Mas Otávio não é seu mestre? - Kara contou tudo no manuscrito? – perguntou Kmam. - Sim, desde o princípio. - Onde está a cópia que enviaram para você? - O rei a passou para um vampiro chamado Togo antes de falar comigo – ela deixou escapar. - Merde! – xingou e esmurrou o braço da poltrona. Depois da explosão, Kmam calou-se e espiou as cortinas e o pesado cobertor que arrematava os cantos. Aquela visão trouxe lembranças de Kara como sua refém, o modo como a tinha amarrado na cama. Por um segundo sorriu, desabotoou a camisa. Interrompeu o gesto ao notar que Persa o observava. - O que mais Ariel falou? – precisava saber o que ele tramava às suas costas. - Disse que não devo temer nenhum vampiro, que minha pessoa é tão intocável quanto a figura da rainha. Jan Kmam avançou furioso e Persa recuou com medo. - Não me mate, por favor – implorou. - Não posso matá-la, é essa a minha agonia. Se pudesse o faria para garantir que o rei não fique com tudo. Prometo-lhe, entretanto, que farei de sua imortalidade um inferno. Agora continue. O que mais ele disse? – sacudiu a mulher com força. - Ele disse que poderia fazê-lo esquecer Kara. Jan Kmam a esbofeteou impiedoso. Persa foi sacudida por soluços. Os olhos claros estavam dilatados, era o poder de Ariel sobre sua mente. Jan não se deixou penalizar pelo seu terror, ela precisava despertar. Debatia-se com violência tentando escapar de qualquer jeito. - Nada nem ninguém me fará esquecer Kara. Ela é parte de minha carne e do meu sangue como você jamais será – dizendo isso, empurrou-a sobre a cama. Persa secou as lágrimas. Jan Kmam tinha gana de torcer-lhe o pescoço e acabar com os sonhos de Ariel, como ele destruía os seus. - Olhe para mim – vasculhou sua mente e viu uma face conhecida. – Você é a namorada de Léo Milano. Que mundo pequeno! – exclamou, para vê-la perder os sentidos. – Merde! Jan Kmam recolheu Persa e a deitou no caixão. Estava preso num pesadelo, e tudo se movia lentamente quando ele exigia pressa. O controle é uma ilusão, o amor é um presente único, uma verdade para poucos, um motivo para matar ou viver. Havia passado por períodos de extremo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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desânimo em sua vida imortal. Eram os beijos de Kara na escuridão do caixão que o faziam prosseguir. Ouvir sua risada gaiata ou simplesmente seu silêncio. Sua maior agonia era não sentir sua mente, tocar o peito e ter apenas o relicário sobre a pele. Perceber que mais uma vez só aquilo restava de sua presença.

Vitor tocou as próprias roupas para confirmar que estava limpo e não fedia. Não queria enjoar Frigia, já bastava o seu desagrado. Ela saiu do banheiro com o cabelo solto, pareceu-lhe mais atraente do que antes. Havia trocado de roupa e vestia um pijama de seda negra. A vampira percebeu o modo como Vitor olhava seus seios sob a seda, mas nada falou. Ele desviou os olhos, envergonhado. Frigia verificou a cortina e só então se dirigiu a Vitor. - Tire os sapatos. - Sim, claro, desculpe-me. Nunca fiz isso antes – tentou se explicar. Frigia lançou um olhar extremamente reprovador em sua direção. Vitor ficou paralisado esperando seus movimentos. Ela deslizou a mão por seus cabelos, cheirou sua pele e se afastou dando o exame por encerrado. Não havia nenhum tipo de sentimento, só a curiosidade. Sabia têlo deixado atordoado, mas não deu importância, apagou a luz. Para a nova visão noturna de Vitor, nada mudou. Frigia entrou no caixão e se acomodou. A chuva continuava a cair forte. - Posso entrar agora? – perguntou, sentindo faltar a coragem. - Sim, a não ser que deseje passar o dia aí fora. Dentro do caixão, Frigia estava mais calma, menos rígida. - Primeira noite num caixão? - Sim, não me lembro das noites anteriores. Morri há poucos dias – dizer aquilo foi realmente patético, pensou. – O que devo fazer? - Entre e deite-se de lado – explicou, acomodando-se para abrir espaço. Estava agarrada a um urso de pelúcia completamente branco. O brinquedo trazia no pescoço uma medalhinha de ouro coma inscrição Mister Ice. Vitor baixou o olhar para não rir daquele sinal de fragilidade. Frigia fechou o caixão e a escuridão os envolveu. O som da chuva ficou muito longe. - Boa noite, Frigia – disse, bancando o educado. - Apenas durma como um verdadeiro imortal. Vitor conformou-se, não era bem-vindo. Ainda assim, ao lado de Frigia e imerso na escuridão, sentiu-se confortável, parte de um novo mundo. Fitou a tampa fechada para admirar o cetim. O corpo começou a ficar pesado, dormente. Fechou os olhos e dormiu.

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13. INTERMEZZO – SEGUNDA NOITE Otávio despertou e permaneceu deitado ao lado de Asti, ainda adormecida. Apertou-a até sentir o rosto perdido nos cabelos sedosos da amante. Intruso, deslizou a alça do pijama de seda violeta para ver seu ombro macio, os seios pequenos como montes em um vale secreto. Beijou o lóbulo da orelha delicada, sussurrando-lhe seu nome apaixonadamente. A boca do vampiro cobriu a auréola cor de canela. A pele se arrepiou, e a vampira sorriu mansa. Sob as carícias insistentes do amante, Asti mantinha ainda os olhos fechados. O desejo de Otávio crescia, a boca roçava os lábios da vampira exigindo rendição. Estava presa sob o peso de seu corpo quando despertou. Não parecia disposta a transformar-se em algo que ele usava e depois desprezava. A vampira reuniu forças, mas não pôde evitar o beijo. Libertou-se e puxou o pijama. Saiu do caixão o mais rápido que conseguiu. Vestiram-se em silêncio. - Quanto tempo precisarei esperar por seu perdão, senhora? - Só haverá perdão quando houver culpa. - Somos vampiros, não sentimos culpa. Tente me desculpar, minha deusa. Asti desvencilhou-se de seus braços, sentou-se diante do espelho e deslizou a escova pela cabeleira. No olhar só havia tristeza, estava resolvida a encontrar a verdade. Prendeu os cabelos no alto da cabeça e trançou o restante. Estava pronta para sair quando ouviu a voz de Otávio novamente. Deteve-se por um minuto. Esperava que ele a tratasse de igual para igual. - Sempre se sentiu seguro, não é mesmo? Estou sempre a sua espera, perdoando e aceitando sem fazer perguntas. É que não sabia o que me aguardava, então fazia tudo, pois temia perder o que acreditava ser o centro de minha existência. Por saber que nada mais restava de humano em mim a não ser este amor, esta dor que me mantinha viva, mas eu não posso mais amá-lo sozinha. - Tudo que desejo é você ao meu lado – Otávio estava faminto por algo que não era sangue. - Não minta para si mesmo. Ao seu lado está o rei e Jan Kmam, eu estou sempre em segundo plano. - Eu a dividi com Jan Kmam. Tolerei as visitas que ele lhe fazia, tolerei os segredos. Podia ver o ciúme dele quando a tocava. Confiava em seu amor, no amor que ele sentia por mim. - Ele jamais o trairia por minha causa. Ele ama você e é capaz de segui-lo até o inferno. Eu só o desejei para não me sentir tão diferente. Anseio pelo que Kara e Kmam sentem um pelo outro, pelo que ele dá a ela. Desejo a cumplicidade que eles possuem . Eles não têm segredos um para o outro. De você só recebo meias verdades e não posso mais suportá-las, - Por que acha que eles são perfeitos? Kara mentiu, desobedeceu as regras e nos colocou em perigo. Aquela vampira tola e simplória acha que Jan Kmam não tem segredos e mais cedo ou mais tarde eles vão aparecer, mas é fato, não posso julgá-lo. Todos nós temos segredos e ninguém pode exigir a verdade. Quando discutimos em 1900, para onde foi? Onde esteve por dez noites? - Você não quer saber onde eu estive, quer saber com quem. Pois isso não é nenhum segredo, fiquei hospedada na casa de Demétrius. - Revele o que achar necessário, senhora, eu posso suportar. Sou seu como jamais fui de nenhuma outra. - Não é verdade. Sua mente está cheia de lembranças que sempre voltam com a presença de Ariel em nossa vida. Quando me deu seu coração, ele era somente um pedaço de carvão. Eu o transformei em um diamante, uma bela jóia que ostenta para os outros. Se Ariel ordenasse, me deixaria no mesmo instante, me mataria sem hesitar. Sei que sim. - Não me julgue desse modo. Eu não tenho poder sobre sua vida, você é livre – murmurou infeliz. Asti estava com medo de perdê-lo, mas não sabia para quem. Subitamente, Otávio a viu frágil. Ela sempre lhe trazia tanta força e confiança, mas agora estava amargurada com o seu silêncio. Escondia-se detrás do véu de seu amor e a tudo perdoava. Suas palavras o tocaram. Revidava por uma dor que sentia há anos. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Sabe o que mantém um vampiro vivo? O amor ou a ausência total dele. O amor alimenta, o coração bate, existe paz, mas sua ausência traz todas as noites a busca por algo novo, sem culpa e medo. A solidão parece pequena, as horas passam rapidamente, você pensa: estou vivo. Nada mais. As mulheres que possuí eram meras escravas de meus desejos obscuros aos quais jamais ousaria submetê-la, Asti. Não ousaria perverter a vampira que amo. Possuo uma face desconhecida aos seus olhos. - Nunca fomos tão humanos – disse furiosa, dando-lhes as costas. Otávio puxou Asti de encontro ao seu corpo e a subjugou. Cansado de brincar, abocanhou seus lábios para tomar o que queria. Soltou-a e deixou que recuasse assustada, com os lábios sujos de sangue. - Esta é a carícia mais suave deste ser que não ouso libertar na sua frente. - Acha que me assusta? Você vive plenamente sua natureza de vampiro. Sou apenas a sua companhia de caixão – dizendo isso, fugiu do quarto. Asti sumiu e deixou-o transtornado pelas cobranças que ele sabia honestas e verdadeiras. Odiava-se por não conseguir falar do seu passado. Aprendera a calar e refugiar-se nos braços da amante, como se ela fosse uma manta de carinho que anulasse seu remorso. Quando o rei surgia, abandonava-a e fingia que não cometeria os mesmos erros, mesmo sabendo que lhe causava dor.

Vitor despertou e viu-se nu. Sentou-se dentro do caixão assustado. Frigia o observava de longe e lançou algumas roupas sobre ele. - Vista-se, dr Victor. Vamos passear. Estava diante do espelho quando Frigia reapareceu. Olhava-o com um traço bem pequeno de aprovação. A roupa preta tinha lhe servido muito bem. Ressaltava o corpo benfeito, os cabelos escuros e os olhos castanhos. A vampira havia decidido suportar sua presença, mas para isso precisava modificá-lo a seu gosto. A cor o ajudaria a se camuflar com facilidade. Era ideal para um vampiro sem controle de seus poderes. Como estava acostumado ao branco, estranhou a princípio seu novo visual. - Onde conseguiremos o material de que precisa... - Vitor. Apenas Vitor, por favor. Não precisa me tratar de doutor.

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14. A TROCA Jan Kmam despertou com Persa aconchegada em seu corpo. Aconteceu depois que fechou o caixão. Estava paralisado pelo sono quando a ouviu choramingar e chamar por Léo Milano. Ao abraçá-lo, dormiu. O calor da mortal o envolvia. Seu perfume estava em suas roupas. Eram quase seis da tarde, ainda havia muita luz lá fora. Estava agora parado diante do caixão observando Persa. Sua carne pulsava viva e convidativa. Afastou uma mecha do cabelo claro e observou a delicadeza do rosto, a maciez dos lábios que tocou com a ponta do dedo. Estava com fome. Poderia tomá-la, mas não faria. Não daria esse prazer ao rei nem a si mesmo. Melhor teria sido permitir que Otávio a matasse. Persa se espreguiçou, abriu os olhos e encontrou os de Jan Kmam. Aceitou sua ajuda para sair do caixão. - Pode me libertar? – perguntou como se houvesse despertado de um transe. - Não posso. Eu a aconselho a não tentar fugir, seria perigoso. Os demais vampiros podem sentir o cheiro do rei e certamente cairiam sobre você como abelhas. Estaria morta ao cruzar a porta. Está no meio de um jogo, e sua vida agora vale tanto quanto a de Kara. Não vou sofrer sozinho. - Por que Ariel quer tirar Kara de você? - O rei está doente e através dela poderá se curar. Só que há um pequeno detalhe: para tanto terá que possuí-la. – - Eu li o manuscrito. Sei o quanto Kara o ama. Deve haver um modo de evitar isso. - Se tiver alguma informação que possa me ajudar a encontrá-la, fale. Ainda tenho uma chance. Persa enfiou a mão no bolso e entregou a Jan Kmam um pedaço de papel. - Miranda quer um milhão pelo manuscrito original. Ele sabe muito mais do que fala, confio no meu faro investigativo – voltou a sorrir momentaneamente. – Não me olhe com essa cara, o manuscrito é a história do século, vale qualquer preço. - Se quer sobreviver à nossa visita a esta cidade, não faça perguntas. Agora ligue para Miranda, preciso conversar com ele. O encontro foi marcado. Miranda queria o dinheiro o mais rápido possível, estava em fuga declarada. Kmam sabia que aquele encontro o levaria até os raptores de Kara. Persa só conseguia pensar no manuscrito, alheia aos demais detalhes. No saguão do hotel, a primeira pessoa que viu foi Vitor. Ele estava acompanhado de uma linda mulher rumo à saída. - Aquele é o doutor Vitor? Por que está tão estranho? - Vitor agora é um vampiro, nada mais. Agora fique quieta ou vou amordaçá-la. Aqui é peso morto e se vou carregá-la, que esteja em silêncio, compreendeu? – disse vendo-a baixar o olhar. Togo e o criado do rei os esperavam, havia uma refeição para Persa. Havia tudo o que poderia desejar: frutas, sopa, assado e pães. Enquanto comia agradecida, não notou o olhar de Otávio sobre si. Ele a fitava das sombras do corredor onde se ocultava. Estava com o semblante tenso e ainda não havia se alimentado, a julgar pelo olhar. O encontro com Miranda foi aceito e os vampiros trouxeram a quantia exigida. Eles nunca andavam sem dinheiro vivo. Depois de comer, Persa foi conduzida pelo criado até Jan Kmam, a cor havia voltado a sua face. Trocou alguns olhares com Togo em uma avaliação mútua, mas se inibiu. O vampiro vestia um traje negro estilo Mao Tsé . Seu rosto parecia uma máscara de tão alva. - O manuscrito original deve ser trazido diante dos Poderes para ser destruído. Não é necessário dizer que a escrava do rei deve voltar intacta – Togo seguia ordens e não gostava delas. - Assim será – assegurou Jan. A presença de Persa não era bem-vinda, somente tolerada. Puxou-a rumo à saída e entregou a pasta com o dinheiro para Otávio. A noite estava excepcionalmente estrelada. Caminharam por breves minutos até que Otávio saltou e sumiu usando seu poder vampiro. Persa abriu a boca para falar sem perceber que Jan Kmam já a enlaçava pela cintura. Em segundos, escalavam paredes e telhados, trilhando caminhos feitos para vampiros. Persa segurou em seus ombros, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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completamente aterrorizada com a velocidade e altura. O coração estava acelerado, respirava com dificuldade. Ele parou com receio que desmaiasse. Soltou-a no alto de um prédio para que pudesse vomitar. Ela estava curvada segurando-se na parede. Jan Kmam puxou a espada da capa. Persa acreditou que a mataria, até sentir uma lufada de vento sacudir seus cabelos. O grito da mortal confundiu-se com o rugir das espadas. Um vampiro desconhecido os atacava, avançava sobre Kmam, que recuava ganhando espaço. Um segundo vampiro avançou sobre Persa, que fugiu para trás das vigas de um imenso cartaz preso no telhado. Num movimento rápido, Jan decapitou seu adversário e seguiu para ajudá-la. Ela estava na beira do telhado, por pouco não caíra. Voltou-se e viu o vampiro sorrir sádico com os caninos à mostra. A lâmina surgiu rápida, e Persa sentiu o sangue sobre os cabelos. Enojada, recuou bem a tempo de ver outro vampiro se arremessar sobre Kmam. O impacto laçou-os contra Persa e ela despencou. Otávio estava no telhado vizinho e lutava há algum tempo com dois adversário quando viu Persa desabar. - Jan! Persa gritava agarrada à borda do prédio, segurando-se como podia. Otávio ouviu os gritos, precisava salvá-la. Num gesto louco, puxou a adaga da bota e girou entre os dois vampiros com os quais lutava. Sentiu a lâmina de um deles cortar suas costas, mas o desfecho foi favorável como previra. O sangue jorrou da garganta do seu agressor, que tentava conter o fluxo com a mão. A espada de Otávio foi mais rápida e atingiu o segundo no peito. Livre dos adversários, saltou para o telhado e deu de frente com mais um vampiro. - Malditos, de onde estão vindo? Havia sangue no rosto e nas mãos de Jan Kmam. Seu cabelo voava em desalinho, cobrindo sua face vampira. Os golpes zuniam no ar. Seu adversário tantava não recuar, mas o chute certeiro resolveu o impasse. O vampiro caiu no chão e teve a mão decepada. Segurava o braço mutilado aos berros quando a cabeça rolou, silenciando-o. Do outro lado, Persa gritava a plenos pulmões, sua força acabara. Despencou em queda livre. Jan Kmam mergulhou no vazio e a aparou nos braços, pousando suavemente no chão. - Está salva, acalme-se – disse, saltando com ela de volta ao telhado. - Ela está bem? – perguntou Otávio. - O suficiente. Reconheceu algum deles? - Nenhum. Acho que são desgarrados. - Mas que diabos, mulher, aquiete-se! – Jan Kmam berrou, cansado do modo infantil como Persa tentava puxá-lo. – Comporte-se ou a entregarei para Otávio. Ele anda mais rápido do que eu. Otávio abriu os braços em sua direção e sorriu num convite mortal. Persa recuou resignada e esperou que Jan Kmam a segurasse novamente pela cintura. Era hora de seguir. O parque surgiu em meio as luzes coloridas, repleto de vozes humanas. Miranda acreditou que em um parque de diversões estaria a salvo. Tolo. Não poderia haver melhor lugar para um vampiro se camuflar, ficar tão perto quanto uma sombra. Como combinado, Persa o esperaria com o dinheiro próximo à roda gigante. Ela ainda estava nervosa com o incidente no telhado. Coube a Jan Kmam acalmá-la. - Olhe para mim, mulher. Lembre-se de que ainda é uma jornalista e eu estou aqui para defendê-la. Você vai conseguir. Jan sumiu diante de seus olhos para que compreendesse a extensão de seus poderes e se sentisse segura. Dentro do parque, uma multidão de rostos passava pelos olhos atentos. O vampiro vasculhava suas mentes em busca de uma pista. A maioria estava mergulhada na diversão, pensando em amor, balões, maçãs e dinheiro. Havia batedores de carteiras, mães e pais, o som de pipoca estourando. O cheiro do açúcar transformando-se em algodão-doce pairava no ar. Otávio divertia-se na barraca das argolas. Acertou todas as garrafas e recebeu uma boneca de pano, enquanto sorria para o rosto aborrecido do dono da barraquinha. - Para Asti? – perguntou Jan Kmam. - Talvez a boneca consiga trazer a velha Asti de volta. Preciso tentar. - Sempre estarei pronto para ouvi-lo. Jamais condenarei você, todos temos nossos crimes. - Existe muita culpa e não devem partilhar dela. Dei o meu melhor para você e Asti. Sabe quem sou, conhece meus prazeres. Às vezes, acho que não somos feitos para desfrutar ternura. Somo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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o que restou de um humano, pedaços de lembranças de uma vida, beijos e sorrisos esquecidos. Você pode se lembrar do gosto do vinho? Eu lembro. Sinto o cheiro do mar, vejo o brilho do sol na água. Roma. Restou pouco e tudo que somos agora é o que vivemos, as vielas onde matamos, o sangue que bebemos. Asti tem o brilho do sol e o traz para mim todas as noites. Ela é o que de mais admirável criei. Otávio emudeceu. Os argumentos haviam se esgotado, assim como o desejo de continuar a falar. Nesse momento um homem se aproximou de Persa. Era Miranda certamente. Aparentava trinta e cinco anos, escondia o cabelo debaixo de um boné e não era gordo nem magro. Usava jaqueta jeans e calças folgadas. Carregava uma mochila nas costas. Persa chamou Kmam com sua mente. Ele não respondeu ao atrevimento. Se não podia sentir a presença de Kara, não sentiria nenhuma outra. Simplesmente continuou observando a distância. Otávio vasculhou a mente do mortal e só encontrou medo e ansiedade. Havia uma mulher no estacionamento esperando por ele, sua namorada. Pretendiam fugir da cidade. - Trouxe o dinheiro? – perguntou Miranda após se identificar. - Sim, onde está o manuscrito? – Persa olhou a mochila em seu poder. - Quero ver o dinheiro – exigiu ele. Persa abriu a maleta. As notas fizeram-no sorrir nervosamente como se não acreditasse no que via. Foi a vez de Miranda abrir o zíper da mochila e mostrar um amontoado de folhas datilografadas envoltas em plástico. Os olhos da jornalista brilharam diante do original. Um tesouro único, sem preço. Persa seguiu as instruções de Kmam e tentou levar Miranda para um local mais tranqüilo onde pudesse conversar, mas ele não aceitou. - Na maleta tem um milhão e meio, o extra é pelas informações que ainda não me deu. Miranda sentou em um banco próximo e acendeu um cigarro. Persa espiou em volta, decidiu que estava segura e sentou-se ao seu lado. - Não matei Vitor Alcântara, se é isso que quer saber. Para a polícia ele ainda está desaparecido , mas vi Perez matá-lo a sangue frio. - Então,você estava no quarto de pensão. Par onde levaram a arca? - Sim, estava. Nós a transportamos até o laboratório para o qual Perez a vendeu. Depois que fugi da usina ele foram até minha casa, reviraram tudo em busca do manuscrito. Estão me acusando de destruir o laboratório de Vitor. Se a polícia soubesse quem eles são e o que fazem! Não são humanos, bebem sangue – sussurrou como se contasse um grande segredo. - Conheço pessoas que podem ajudá-lo, mas me conte o que viu. - Ninguém vai acreditar e serei tratado como louco. Afaste-se ou vai acabar morta. Só escapei porque um deles me ajudou. - O nome dela é Kara, Miranda. Onde ela está? - Está em Pindaré. Eles mantêm uma usina de arroz como fachada, mas no subsolo tem algo de podre, talvez drogas, falsificação de remédios, eu não sei. Jamais desci por aquele elevador. O certo é que eles temem alguém. Não falavam seu nome, mas estão armados até os dentes. Miranda tocou a gola da jaqueta com num tique nervoso. Tentava encobrir um curativo. - Quero o dinheiro agora, não sei de mais nada – afirmou, ficando de pé. - Miranda, eu posso ajudá-lo, conheço Léo Milano. Pode contar a sua história e denunciar Perez. Você terá proteção. - Não há como fugir. Será que não compreende? Eu vi aquela vampira sangrar, ser crivada de balas e continuar viva. Miranda perdeu a paciência e avançou, tentando por as mãos na maleta. Persa procurou Jan Kmam com o olhar e não o viu. Desesperada, correu pelo parque e entrou na barraca de uma cartomante, que estava vazia. A mulher provavelmente havia saído para um intervalo. Não era grande, mas serviria de abrigo. - Apenas me entregue a maleta. Miranda entrou na barraca antes que ela pudesse se esconder. Otávio e Jan Kmam surgiram logo atrás, e Persa respirou aliviada. Miranda fitou os dois, assustado. Tentou escapar, mas foi em vão. - Kara provou de seu sangue. Onde ela está? – perguntou áspero, vendo o homem emudecer. Kmam reconheceu a mochila. Tirou-a das mãos de Miranda num puxão. Viu o sangue no tecido, aspirou o cheiro e o identificou. Abriu o fecho e despejou os objetos sobre a mesa. O Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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primeiro a cair foi o manuscrito, mas o que realmente o abalou foi uma caixinha de música. A cúpula de vidro estava rachada. Otávio viu sua agonia e seu desgosto. Aproximou-se e tentou lhe passar força, mas kmam deteve seu gesto de compaixão. Tinha os olhos muito escuros, estava num estado limite. Agarrou Miranda pela garganta pronto para matá-lo. - Sou o vampiro que eles esperavam. Meu nome é Jan Kmam e tenho quatrocentos anos. Sabe por que me temiam? Sou amante de Kara Ramos, a vampira que escreveu estas páginas. E lhe asseguro, eles conhecerão o terror de minha ira. Vou tingir o solo desta cidade com o sangue deles. - Eu ordeno que pare. Otávio pediu inutilmente. O contato mental não demorou muito, mas exauriu Kmam como Ariel havia avisado. Os acontecimentos na usina agora estavam em sua mente. Ver Kara ferida através dos olhos de Miranda custou boa parte de suas forças. Afastou-se do mortal e segurou uma mesinha. Persa o tocou, mas foi repudiada. Miranda estava caído no chão, atordoado pelo contato. Ainda tonto, Kmam vasculhou seus bolsos sem constrangimento. - Maldito covarde! – rugiu, fitando o papel com o seu número. – Ela salvou sua pele e você retribuiu vendendo seus pertences. - Acalme-se, Kmam. Ele não vale o esforço. - Eu tentei, mas a polícia bateu na minha porta. Tive medo. Dr. Vitor disse que Jan Kmam mataria todos que tocassem nessa mulher. Fui o único que escapei. Eles estão me caçando. Ajudem-me, por favor. - Está sozinho, do mesmo modo que deixou Kara. Pagaria mil vezes o que pediu por uma informação a respeito dela. Agora, saia antes que o mate! - Saia da cidade, talvez consiga ficar vivo – aconselhou Otávio, vendo o medo na face lívida de Miranda. A confusão foi interrompida pela aproximação de humanos. Léo Millano entrou na tenda acompanhado de dois policiais. O reencontro foi chocante. O tenente o fitou com admiração declarada. Era o mesmo Jam Kmam que havia pulado com Kara Ramos da ponte do rio São Francisco. - Fiquem onde estão e levantem as mãos. Estão todos presos – disse Léo, de arma em punho. – E quanto a você, Persa. Afaste-se dele. Persa não se moveu, resistiu à ordem, tudo que fazia era olhar a face de Jan Kmam esperando suas orientações. Isso aborreceu Léo Millano profundamente. - Do que somo acusados? – questionou Otávio, meio debochado. - Temos um conjunto de acusações, a primeira delas é assassinato. Depois, posso acrescentar vandalismo e roubo. Peço que me acompanhem pacificamente até a delegacia – sugeriu. - Léo, eu posso explicar o que está acontecendo, apenas me escute – interveio Persa, tentando evitar o pior. - Vai dar explicações na delegacia, como todo o resto. Afonso, leve-a para a viatura. Afonso puxou as algemas do jeans e aproxomou-se de Persa. O policial fardado algemou Miranda e tirou a maleta de suas mãos. A maleta foi aberta sobre a mesa e a quantia elevada os admirou. - O que está negociando, Persa? – reclamou, apertando-lhe sem conter a raiva. - A matéria do século – retrucou, puxando o braço com força. Léo desviou o olhar e percebeu os objetos sobre a mesa. Esticou a mão para tocar a caixinha de música e Jan Kmam deu um passo à frente. Persa pegou o objeto e o manuscrito e os guardou na mochila como se lhe pertencessem. A farsa colou sob o olhar desconfiado do policial, que nada fez para impedir. Jan a fitou com admiração. Foi o primeiro a ver pânico cobrir sua face, ouvir o som do aço cortando. Um policial foi jogado para dentro da tenda com o abdômem jorrando sangue. Quando caiu, Fernando Miranda também desabou no chão, havia recebido um golpe certeiro no peito. Otávio e Jan Kmam a essa altura já tinham as espadas em punho apontadas para a mesma direção que as armas de Léo e Afonso. A lona da barraca cedeu ao corte e dois vampiros entraram prontos para a briga. - Millano, saia e leve Persa com você. Saiam agora! – gritou Kmam.

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Léo saiu do transe e puxou Persa para fora ainda com os olhos grudados nos seres dentro da barraca. O espaço era pequeno demais para todos. Lá fora eles viram saltos e a sombra dos corpos se moverem. Um rugido de dor cortou o ar. Um corpo tombou e outro foi lançado no meio do parque, Otávio saltou sobre o vampiro caído e o espetou para que Jan Kmam finalizasse o serviço cortando sua cabeça. A cena gerou gritos e exclamações de horror. Os brinquedos e a música continuavam, mas os curiosos se aproximavam. A correria começou quandoo primeiro tiro foi disparado. Afonso foi atacado por um vampiro e revidou como pôde. Havia um grupo deles dentro do parque, e sua missão era matar Jan Kmam. Eles eram filhos do sangue incomum de Graco. O tiro deu largada para um verdadeiro pandemônio. Jan arrancou o vampiro de cima de Afonso e o atacou. O som de destruição fez o vampiro se voltar em direção a Otávio. Ele e seu agressor caíram sobre uma das barracas de churrasco, destruindo-a. O fogo consumia a barraca com grande velocidade. Otávio saiu intacto, mas o vampiro que o atacava não teve a mesma sorte e se transformou numa tocha inumana. As balas de Millano chegaram ao fim. As garras do vampiro fecharam-se sobre sua garganta. Persa esmurrava seu agressor sem grandes efeitos. Cansado de seus golpes, ele a lançou contra as barracas. Léo foi literalmente erguido no ar, o vampiro pretendia quebrar seu pescoço. Num último movimento, Léo alcançou a arma presa ao tornozelo. A última visão do vampiro foi o cano da trinta e oito. O tiro destruiu sua face demoníaca. Caído no chão, Léo tocou a garganta ferida, recuperando o fôlego. Lutava de modo ágil e vigoroso. Os tiros retornaram quando Afonso precisou defender Persa, que se refazia do empurrão . Foi jogado ao chão por uma vampira. Persa recolheu a arma do policial e atirou. O sangue espirrou e sujou a face do detetive, agora livre. Persa tremia atônita. Quando sentiu um toque em seu ombro, voltou-se com a arma ainda em punho. Léo a desarmou e a abraçou. Sem tempo para momentos românticos, Léo deixou Persa aos cuidados de Afonso e avançou corajosamente, atirando contra os vampiros que cercavam Jan Kmam. Três tiros certeiros deramlhe uma chance de cortar rapidamente a cabeça dos oponenetes. Otávio finalmente se livrou da vampira que o atacava, lançando-a nas chamas. Mortais e imortais lutavam juntos pela vida. Jan Kmam agradeceu com um olhar e viu respeito e admiração na face de Millano. - Socorro! Era a voz de Persa. Afonso estava no chão coberto de sangue, enquanto Persa se debatia no ombro de um vampiro. Estava sendo raptada. As sirenes do corpo de bombeiro e da polícia soavam alto. Millano ajoelhou-se junto ao amigo policial, o golpe tinha sido profundo. Um corpo caiu ao seu lado e se desfez vagarosamente. Mais um ataque detido por Kmam. Millano levantouse e ficou frente a frente com o vampiro. - Nós já nos conhecemos, tenente. Meu conselho é: finja que não me viu. Sou o único que pode salvar Persa Zanne. Sem esperar resposta, Kmam sumiu diante de seus olhos, corria atrás do raptor de Persa. Ela gritava a plenos pulmões. Otávio estava ferido, segurava as costelas. Fez um ruído de descontentamento ao ver dois vampiros alvejados se levantarem refeitos do chão. Matou-os rapidamente, já entendiado. Recolheu a maleta com dinheiro e procurou a mochila com o manuscrito, sem encontrá-la. O portão do parque estava no chão, pisoteado sob a força do pânico. O fogo engolia os brinquedos e as barracas. Otávio seguiu em frente para ajudar Jan Kmam, matando mais um inimigo. Em silêncio, tentaram compreender o motivo de nada estar saindo com planejado. Kmam deixou a raiva passar para não enlouquecer, precisava pensar direito. Romano apareceu das sombras numa óbvia demonstração de vigilância. - Falharam? - O manuscrito continua perdido, a escrava do rei foi raptada e fomos atacados por essas coisas! – disse, mostrando o monte de cinza e ossos no chão. - São parasitas gerados por um amaldiçoado – disse Romano, sem acrescentar nada de novo. – E falando em amaldiçoados, dr. Vitor fugiu da vigilância de Frigia, levando consigo a amostra de sangue do rei.

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Kmam conhecia Vitor o suficiente para saber que ele não faria isso do nada, mas não dividiu suas suspeitas com Romano e tampouco com Otávio. O médico estava planejando alguma coisa. Ele precisava de uma chance e ele a daria. - Frigia já começou a caça. - Para onde vai agora? – perguntou Otávio, ao vê-lo dar as costas para Romano e descer a rua. - Para a usina. - Senhores, o que está acontecendo? – questionou Romano. Com grande esforço, Kmam deteve os passos e esperou a distância, enquanto Otávio colocava Romano a par dos últimos acontecimentos. A reação do Lorde foi dura, como já esperavam. - E pretende resgatá-la sozinho? Jan Kmam aproximou-se mantendo a postura altiva e esperou pela censura do líder da casa dos Lordes. Mantinha-se respeitosamente diante de Romano, mas em seu íntimo havia uma tempestade se formando perigosamente. - Exatamente – admitiu sem medo algum. - A campira Kara Ramos conta com a proteção dos Poderes. Um dos representantes deve estar presente para garantir a segurança da futura rainha – as palavras do Lorde tinham somente um objetivo: testar a lealdade de Jan Kmam. - Acompanharei Jan Kmam para garantir o cumprimento das leis – interveio Otávio, percebendo a frieza entre os dois. - Porventura, duvida da minha lealdade para com o rei, Romano? - Os olhares de muitos vampiros nos observam. Um movimento em falso e nossa cabeça rolará. Não lhe desejo tal sorte Jan Kmam. - Então, o que faremos, caros Lordes? Parados aqui é que não podemos permanecer. - Avisarei aos Poderes que foram seguidos e atacados. A segurança em torno do rei deve aumentar – dizendo isso, Romano pegou seu celular e fez a ligação. Enquanto falava com Togo, deixou claro o que fariam dali em diante. - Os vampiros que nos atacaram seguiram Miranda. É o mais lógico a pensar, mas por que levar Persa Zanne? – perguntou Kmam, sabendo que escondiam algo. Otávio e Romano entreolharam-se, mas nada foi esclarecido diante dele. Havia uma ameaça maior rondando o trono, e o rapto da jornalista deixava isso óbvio para os que conheciam o passado do rei. - Persa Zanne fala demais, eis o preço. - Ariel vai ficar furioso – falou Otávio, tocando o casaco em busca de algo. – Droga! Perdi a boneca de pano.

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15. AS APARÊNCIAS O alarme da concessionária de veículos não deteve Jan Kmam. Ele derrubou a porta do pequeno escritório com um chute e, após uma breve busca, encontrou as chaves. O segurança estava no chão, morto, quando Romano se afastou. Jan subiu na moto e sumiu dentro da cidade seguido por Romano e Otávio. Três horas depois entravam na cidadezinha. A pracinha estava vazia. Apenas um cachorro vagava pela calçada. As casas pequeninas comprimiam-se umas nas outras, as cores das portas e janelas lembravam um quadro primitivista. Jan Kmam percebeu em uma das casas o som das orações. O caixão no centro da sala falou por si mesmo. A igreja não estava distante, bastaria descer uma ladeirinha íngreme para ver sua torre e o sino. Os demais habitantes estavam adormecidos. O cheiro do rio e do arroz em casca estava no ar. Jan reconheceu de imediato as imagens colhidas da mente de Miranda. Foi daquele local que Kara tentou fugir. Seguiram pela margem do rio e ocultaram as motocicletas num velho prédio abandonado próximo ao cemitério. Avançaram sobre os portões em uma escalada ágil. O local era pouco iluminado e havia apenas um vigia armado. O homem percorria os corredores feitos de sacas de arroz empilhadas ouvindo um rádio de pilha. Otávio o matou sem muito esforço. Jan Kmam a essa altura estava nas vigas de madeira do telhado observando seus oponentes. Eram todos vampiros recém-tranformados, somente dois pareciam ter mais de cinco anos de imortalidade. Eles brincavam com um rato dentro de uma gaiola, enquanto vigiavam a porta do elevador a poucos passos de um escritório. Jan Kmam atravessou a janela de vidro do pequeno escritório e os pegou de surpresa. No mesmo instante, Otávio e Romano chutaram a porta para finalizar o ataque. O painel do elevador exibia uma seta de descida, três andares. Dentro dele, sabiam que encontrariam resistência e muita luta, mas estavam preparados. Não houve surpresa quando o alarme soou sobre suas cabeças. No subsolo, três vampiros os esperavam de espada em punho e olhos vítreos atentos. A seta vermelha iluminou-se, e a porta abriu, mas para a surpresa deles o elevador não estava vazio. O corte foi ligeiro e banhou as paredes com sangue. Otávio e Romano deixaram atrás de si os corpos mutilados. Separaram-se para aumentar as chances de encontar o que buscavam. O laboratório sofisticado deixava claro o alto investimento. Jan Kmam correu pelos corredores chutando portas de salas repletas de aparelhos e encontrou algumas celas. Em uma delas vislumbrou cabelos cacheados e negros. A vampira soluçava aflita, encolhida no canto da cela, dobrada sobre os joelhos. - Kara? A mulher gritou e avançou sobre sua garganta. Jan Kmam deparou com uma completa estranha, com a face coberta por cicatrizes. Sem alternativas, precisou matá-la. Ao longo do corredor, encontrou outros vampiros famintos e loucos. O dono daquele lugar precisava ser julgado e morto. Otávio e Romano estavam completamente horrorizados com o que viam. Comentaram de tanques onde partes de corpos de vampiros eram preservadas. - Veja, é Tibério – afirmou Romano, diante da cabeça conservada em um líquido viscoso. – Este lugar precisa ser destruído imediatamente e o responsável levado à presença dos Poderes. Examinaram a geladeira e encontraram mais amostras. Órgãos, sangue, pele e tecidos nos arquivos. Havia pastas com fotos das experiências realizadas com vampiros raptados. A maioria era desconhecida, mas entre eles havia alguns menbros dos Poderes, como Tibério, agora morto, tratado como uma cobaia. Romano recolheu as provas. Otávio ouviu alguém que se aproximava. Pularam sobre o vampiro e o contiveram, arrastando-o para cima de uma das mesas de exames. Usaram as correias fixas na mesa, deram início a um rápido interrogatório. - Quem dirige este lugar? – quis saber Otávio. O vampiro os observou com ferocidade e arreganhou os dentes. Para encurtar o processo, Otávio acertou-lhe um soco. Era jovem, talvez com um ano de imortaldade. - Onde está a vampira que raptaram? - Vá se danar! Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Romano abriu o paletó e pegou um frasco de Seiva. Otávio riu maldoso antecipando os acontecimentos. Kmam puxou a camisa do prisioneiro, deixando seu peito nu. Quando a primeira gota caiu, o vampiro compreendeu o que era dor. A pele sumia debaixo da Seiva. - Agora que já estabelecemos um diálogo, onde está a vampira? – questionou Romano, balançando o frasco. - Jamais saberá. Romano traçou um caminho fino do pescoço ao umbigo do vampiro, que se encheu de fumaça. Ele se debatia na mesa e gritava, sua carne era consumida rapidamente até o osso, agora visível. - Agora, que tal curtir a eternidade sem os olhos? - Quem dirige o local é Sila, e a vampira foi levada há alguns dias. - Para onde? - Não sei. Eu juro. - Mais alguma coisa relevante? O vampiro fitava o conteúdo verde do vidro com os olhos arregalados. Sentia dores terríveis. Vendo que não falaria mais nada, Otávio cortou sua cabeça. O trio passou pelos seguranças quebrando braços e pescoços. Chegaram ao elevador quando tudo tremeu e a instalação ficou às escuras. - O pavio ficou muito curto – comentou Otávio, referindo-se à explosão que haviam provocado no laboratório. - Da próxima vez eu faço o pavio – disse Romano de modo formal, mas os seus olhos sorriam. Subiram pelos cabos do elevador e abriram as portas à ponta de espada. Uma segunda explosão sacudiu o prédio, fazendo tudo tremer novamente. A uma distância segura, obseravaram o fogo consumir os silos e galpões, a fumaça negra tomar o céu. O dia estava nascendo e não havia tempo para voltar para São Luís. O cemitério da cidade era muito simples, sem nehum mausoléu, teriam de dormir sob a terra. Romano olhou a data do falecimento na lápide e deitou. Não queria dormir com os vermes. Fechou os olhos e afundou lentamente na areia , um poder magnífico conseguido ao longo dos séculos que vivera. Otávio e Jan Kmam fizeram o mesmo. Não tardou a se entregarem ao sono.

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16. DORMINDO COM OS DEUSES Seu jogou o bisturi sobre a bandeja de modo aborrecido. Deu-se por vencido, nada mais poderia ser feito. A violência de Graco contra Kara tinha levado a vampira a um estado vegetativo e aparentemente sem volta. Seu corpo repousava vestido num camisolão branco sobre uma cama alta e metálica, a cabeça apoiada por um pequeno suporte. A fronte estava ligada a vários eletrodos que exibiam leituras de um coma profundo. Subitamente, percebeu que monitorava um cadáver. Apos o trauma, havia renunciado a consciência. Poderia mantê-la adormecida e continuar retirando as amostras de sangue tão necessárias para Graco não fosse uma pequena surpresa. Observou os vasos se tornarem cada vez mais transparentes, o sangue estava desaparecendo. Graco tinha posto tudo a perder. Kara não foi a primeira a provar do seu chicote, mas foi a primeira a deixá-lo sozinho. O modo como a chicoteou mostrava o ódio que guardava dentro de si. Antes de Consuelo surgir em suas vidas, só queria voltar a ser humano. Agora tudo que desejava era ser o novo rei dos vampiros. - Por que ela ainda dorme, Seu? - perguntou Graco ao entrar na sala. O cientista controlou o sorriso e preparou-se para dar as boas-novas. - Tentei tudo o que conheço e não recebi resposta. O implante esta queimado. Ela descarregou sua força contra ele. O cérebro esta intacto, mas ela entrou em coma. - Veja sua pele. A regeneração e fantástica. Agora compreendo por que a procuram com tanta insistência. Kara e excepcional. Preciso dela mais do que nunca - falou, tocando seu rosto e beijando os lábios cerrados. - Sinto muito, Graco, mas ela não e A Branca de Neve. Alem disso, é tarde para oferecer carinho. - Seu o provocou abertamente pelo prazer de vê-lo se inflamar. - Se houvesse se controlado, nada disso teria acontecido. Graco retirou o anel da mão de Kara e o guardou consigo, tinha pianos para ele. - Ela me atacou, precisava ser punida. - E um conceito e tanto, mas como enquadrar alguém como Kara? Esperávamos por uma tentativa de fuga, por rebeldia. Havíamos combinado de deixá-la isolada e, num caso extremo, mantê-la inconsciente. Isso teria evitado muitos transtornos e dado tempo para estudar mais profundamente seu organismo singular. Usar de brutalidade de nada serviu. Por que não pergunta a resposta a Consuelo? - sugeriu enfadado. - Já fiz isso. Ela não sabe de nada. - Que novidade. Consuelo deveria saber mais pelo prego que nos custa. Nunca vi alguém tão inútil. - Sobra apenas voce, Seu. Precisa descobrir como trazê-la de volta. - Duvido que possamos vê-la desperta novamente. Os vampiros decididamente não são uma espécie que vive em cativeiro. Quero que veja algo, talvez abra a sua mente. Afaste-se - pediu, como se esperasse uma explosão. Seu virou o pulso de Kara e passou um bisturi com toda força. Imediatamente, uma onda invisível o jogou para trás. Seu levantou meio tonto e viu Graco estreitar os olhos, tocar a cabeça. O cientista continuou a demonstração, só que desta vez usou uma seringa para tentar furar a pele da vampira. Recebeu uma descarga de energia bem mais forte que a primeira. - Queria que visse com os próprios olhos. - Mas o que diabo e isso? - Certamente algum tipo de defesa que nos privara de seu precioso sangue. Ainda temos reservas, mas não vão durar para sempre. Devo culpar alguém? - Pare de me acusar, doutor! Não e para isso que eu te pago. - Não seja estúpido. Voce permitiu que Consuelo chicoteasse Kara sem nenhum motivo. Não se deixe usar tão facilmente, veja aonde ela nos trouxe. Ela tem medo de perder o controle que Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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exerce, o dinheiro que você oferece. Ela prefere ver Kara morto e você dependendo eternamente dela. Se fosse mesmo esperta, não teria perdido a própria fortuna para Gustave. - Chega! Estou cansado de ouvi-lo chamar Consuelo de cobra. Ela foi a única que permitiu minha aproximação. Andei por mais vielas do que posso me lembrar em busca de um imortal sem nunca obter sucesso. A única vez que cheguei perto fui surrado e quase morto. Aquele maldito Romano me chamou de aberração. Só escapei graças a Consuelo. Vou destruí-los, reduzi-los a pó. Tenho fortes aliados e conto com o destino. Kara os jogou aos meus pés, mostrou o quanto são frágeis. Vou tirar-lhes tudo! - Sequer sabemos se e verdade. Podemos estar do lado errado, já pensou nisso? Temo por sua vida, Graco, voce e único. Metade vampiro, metade humano. Se fracassar, acabara sendo morto. - Esta vingança vai colocá-lo diante de vampiros poderosos. Jan Kmam ama esta vampira e vai fazer qualquer coisa para tê-la de volta. - Não tenho medo de enfrentar Jan Kmam. Saberei usar as armas que possuo. Haverá condenação e morte, mas elas cairão sobre a cabeça daquele que me gerou. Meu pai - disse, fazendo graça. Graco feria a única pessoa que verdadeiramente se importava com seu bem-estar. Apesar de seus pecados, só tinham um ao outro. As discussões entre os dois tinham se tornado uma constante desde a chegada de Consuelo. Ela tornara Graco mais selvagem e amoral. Mantinha-o em constante estado de insatisfação para obter o que precisava. - Vi todos envelhecerem e morrerem, enquanto me mantinha vivo com sangue humano. E para que? Preservar sua vida e prosseguir com minha pesquisa, anos de trabalho. Agora pretende jogar tudo fora para satisfazer aquela inútil. Jamais me colocarei aos pés daquela vagabunda interesseira! - Queria conquistar a comunidade cientifica de Paris. Acenei com a possibilidade de novas descobertas e você aceitou. Seguiu-me sem avaliar o que perderia no caminho. Esta a frente de um grande laboratório, vive luxuosamente, o que mais deseja? - Que tal a vida de Monique? Lembra-se dela? Graco não conseguiu falar a principio, simplesmente recuou e deu de ombros. A vergonha o ruborizou. Não conseguia lidar com aquelas lembranças. Cobriu a face num gesto infantil. - Não toque no nome dela! - Por que não? Ela era minha filha. A discussão somente aumentaria a distancia entre eles. Estava cansado de lidar com aquela criatura. As vezes, desejava ver seu antigo laboratório, os instrumentos precários. Entre eles o sorriso de Monique servindo um cálice de licor. - Eu a amava. Sempre a amarei - confessou amargo, indefeso diante de Sila. - Não venha demonstrar humanidade. Voce nunca foi humano, duvido que tenha sido um dia! Monique está morta e nos morremos junto com ela! Graco saiu da sala. Quando chegou em seu escritório, trancou-se e quebrou tudo ao redor. As lembranças eram dolorosas demais e faziam-no prisioneiro. Seu carcereiro era Sila. Cansado, jogou-se no sofá de couro e lá ficou fitando a lâmpada, entregue as lembranças.

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17. O MORTO-VIVO – 1873 Graco vivia em um hospital para idosos quando Sila o encontrou. Naqueles dias ele era uma autoridade em hematologia. O caso de Graco era raro e uma chance única de estudo. Vivia no hospital ha quase seis anos sem apresentar melhora significativa. Foi fácil para Sila perceber sua anemia e o estado de envelhecimento. Alguns médicos afirmaram que o quadro era irreversível, mas ao mesmo tempo o paciente não morria. O cientista acompanhara quadro semelhante em um recém-nascido morto dez dias depois de sua mãe. A doença nunca foi diagnosticada com exatidão, mas deu a Sila material para desenvolver um soro, algo que fascinou Graco com a possibilidade de cura. Os resultados em algumas cobaias foram animadores. Todavia, jamais havia sido testado em humanos. Graco convenceu Sila a assumir o papel de cobaia. Ele possuía riqueza, mas não a usufruía. A sociedade e cruel com alguém com sua aparência. Luxo e riqueza nada significam se o ouro e o veludo fedem sobre a carne pútrida. Graco considerava-se uma aberra Gao, as enfermeiras tinham nojo dele. Vivia preso a uma cadeira de rodas, sem forcas para andar. Graco não demorou a convencê-lo. Assinou um termo isentando Sila de qualquer responsabilidade sobre o que acontecesse apos o tratamento. Patrocinou a pesquisa, montou um laboratório, e um ano depois já era visto circulando nos salões de festas com damas, fazendo seus negócios, usufruindo o que era seu por direito. Durante três anos recebeu o soro sem que houvesse atrasos. Certa manha despertou e não o encontrou. Furioso, ordenou ao cocheiro que se dirigiu para a casa de Sila. A primeira pessoa que viu ao descer da carruagem foi uma jovem loira de olhos azuis e pele alva. Para se proteger, usava um chapéu de palha trancada adornado com pequenas rosas. O vestido ajustado ao corpo exibia formas sedutoras. Estava no meio das roseiras tentando alcançar um passarinho ferido. No meio do gesto, perdeu o equilíbrio. Não fossem as mãos ágeis de Graco, teria se ferido gravemente no portão de ferro. Ofegante, fitou o desconhecido que a segurava. Graco soltou sua saia e a anágua, encantado com o perfume doce que vinha de seu corpo. Libertou-a do abraço poderoso em um local seguro e resgatou o pequeno pássaro, entregando-o em suas mãos. Monique era a mais bela criação de Sila, sua filha. Enquanto ela informava sobre o forte resfriado do qual o pai convalescia, Graco fitava seus lábios rosados. Tomavam chá quando Sila apareceu na saleta. Tinha a aparência cansada e febril e não apreciou a visita de Graco. A sós, passou a encomenda as suas mãos e o convidou a partir com seus remédios. Graco e Monique se apaixonaram. Obviamente, Sila desaprovou com veemência o amor do casal, mas foi impossível evitá-lo. O casamento foi um acontecimento memorável. Apos a cerimônia, o casal embarcou num navio rumo a Inglaterra e se estabeleceu em uma mansão. A casa era fantástica e deu a Monique uma idéia do poder que seu marido possuía. Graco recebia as amostras do soro e durante dois anos foi feliz ao lado da esposa. Infelizmente, o soro perdeu a eficácia. Sila recomendou que retornassem a Paris. Graco chegou a cidade um tanto agitado e febril. Seu organismo havia se tornado resistente, o jeito era potencializar as amostras. Ele sempre desconfiou de que aquilo aconteceria, mas não tão rápido, cinco anos. As primeiras tentativas falharam. Durante três meses, Graco viu a doença retornar aos poucos. Respirava com dificuldade, sentia-se apático e o sol feria sua pele cada vez mais sensível. Quando já perdia as esperanças, o soro voltou a fazer o efeito esperado. Tudo estava perfeito ate Graco começar a ter lapsos de memória. Ele despertou imerso em uma doce sensação, a consciência voltou juntamente com o sabor de sangue na boca. Estava no quarto de um prostíbulo. Viu a cama desfeita e o corpo da prostituta entre suas pernas. Afastou-se com nojo, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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sabia que a mulher estava morta. Deixou dinheiro sobre o cadáver e pulou pela janela. Correu pelas ruas escuras e seus passos o levaram ao laboratório. - Os homens os chamam de vampiros, eles andam a noite, eu ando a luz do sol. Doutor, acho que sou um deles. Sila andou a esmo tentando encontrar uma saída, mas só encontrava arrependimento. Graco sentou-se na cadeira próxima e chorou. O cientista o observava a distancia temendo se contaminar com sua aflição. A camisa fina estava suja de sangue. Monique corria perigo. Não teve coragem de continuar o pensamento. Sila caminhou vagarosamente ate o armário onde condicionava os remédios. O liquido incolor do frasco causava certo estremecimento. Completou a dose com o soro com o qual alimentava Graco e preparou-se para agir. Precisava pensar em Monique e em si mesmo. - Tome, Graco, alimente-se. Sila tremeu e a seringa caiu no chão, a visão foi assustadora. 0 rosto de Graco estava banhado de lagrimas de sangue. Sentou-se confuso e fitou os cacos de vidro. Graco ergueu-se e começou a recolher os cacos com paciência assustadora. Sila o viu aos seus pés e não pode se perdoar por falhar. Monique seria sua única herdeira, ele poderia administrar seus bens. - Cianureto. Posso sentir o cheiro de amêndoas amargas, seu velho miserável. Acha que nunca tentei me matar? Voce só me faria dormir por uma semana. Eu já caminhava sobre a terra quando ainda era uma criança estúpida. Sei o que teme, não se preocupe. Vou deixar Monique. Darei a ela metade de minha fortuna. O laboratório e seu, terei somente parte dos lucres da pesquisa. - Acha que ficando com seu maldito dinheiro ela sofrera menos? - Melhor dar uma de cafajeste do que assumir que sou um monstro assassino. Sila conseguiu acalmá-lo e pouco depois injetava soro em sua veia. Graco estava com fome, pálido. Provar sangue aparentemente trouxera a tona uma nova natureza. A doença havia evoluído, apresentava-se mais forte e cruel. A partir daquele momento Sila assumiu o controle. Graco o obedecia cegamente. Mentiu para Monique e afirmou que precisava viajar a negócios. Ficou um mês longe dela, mas não de Paris. Vivia no laboratório. La podia ser observado, alimentar-se e continuar buscando uma cura. Assim que as aparências melhoraram, voltou para a esposa. Quando Graco cruzou a porta, Monique jogou-se em seus braços. Graco a beijou longamente, sofria com sua distancia, tudo o que queria era voltar ao seu convívio. Trocavam caricias quando Graco sentiu o coração acelerado, a fome apoderava-se de sua consciência. Buscou-lhe o pescoço, beijou a carne alva quase a mordendo, ela gemeu. - Afaste-se de mim! - berrou, empurrando-a sobre a cama. - O que eu fiz? - Nada! Apenas fique longe - pediu, voltando as costas para se controlar. Não houve grandes explicações, Graco simplesmente partiu. No laboratório agora havia uma cela onde ficava isolado. A porta era de ferro com uma pequena janela de comunicação com grades. Não era grande, mas era o lugar ideal para uma criatura de sua índole. Havia uma cama, uma escrivaninha e livros. Junto a cama colocaram uma corrente onde ele mesmo se prendia ao sentir a fome dominá-lo. Sila o tratava como um monstro. Abandonada pelo marido, Monique foi consolada pelo pai. O advogado de Graco surgiu dez dias depois do incidente e a fez assinar alguns papeis, depois entregou uma carta. Nela, com grande frieza, Graco afirmava que o casamento tinha sido um erro. Monique recolheu-se em depressão e não saiu mais de casa. Sila cuidou dela e ocultou seu estado, pois sabia que Graco a procuraria. Um ano depois, ele ainda estava doente. Tinha rompantes de agressividade, dormia durante o dia e ficava alerta ao anoitecer. Alimentava-se somente do soro, deixara para trás toda sua humanidade. Estava pálido como qualquer vampiro. Possuía forca limitada e, por enquanto, conseguia manter sua beleza e juventude. Sila conseguiu potencializar o soro, o que evitava a ingestão de sangue humano. Graco jamais ousou perguntar por Monique, enterrou-a em seu coração. Alem disso, não suportaria sabê-la com outro. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Um dia, Sila recebeu um chamado de urgência. Um velho amigo agonizava e pedia sua presença. Não houve tempo de avisar Monique, que voltara a morar com ele. A jovem aproveitou a ausência do pai e foi explorar o laboratório. Sabia que ele havia proibido sua presença naquele lugar, mas se sentia instigada a entrar lá. Andou pelo local observando os estranhos aparelhos do pai, viu ratos e coelhos nas gaiolas. Graco ouviu de longe seu coração bater. Monique leu o nome dele em vários documentos. Não demorou a encontrá-lo em uma sala de pouca luz. Estava pálido e abatido, de cabelo comprido. Penalizada, aproximou-se dele e percebeu que ardia em febre. Olhou ao redor e viu uma jarra com água. Molhou uma toalha e o ajudou a seguir para o leito. - O que faz aqui? - cobrou indignada. Graco nada falou. Fitou seu rosto bonito e beijou Monique, que correspondeu saudosa, desejando-o com todas as forças. Antes que perdesse o controle, Monique se afastou. Alcançava o meio do quarto quando Graco surgiu a sua frente. Mesmo amedrontada com a intensidade dos beijos do marido, ela retribuiu. Para seu desespero, logo as caricias se tornaram rudes. Monique debatia-se tentando fugir, mas era tarde, estava diante de um vampiro. A fome roubou a lucidez de Graco, a humanidade desapareceu. Quando os lagos do espartilho surgiram, ele avançou sobre os seios alvos. As suplicas e os pedidos de piedade eram calados com beijos selvagens. Sem forças, Monique quase desmaiou, mas ele a sacudiu com brutalidade, queria que estivesse desperta enquanto bebia seu sangue. Havia saciado sua fome obscura com o sangue da esposa. Olhou a Mao suja e a aliança de casamento. Abraçou seu corpo e urrou como um animal ferido. Ficou assim por incontáveis horas, ate Sila retornar. Sila encontrou Graco no chão abraçado ao corpo de Monique. Seus temores tornaram-se reais e não havia o que pensar, ele tomou da arma e a engatilhou. Chorava e tentava mirar, mas a dor era enorme. Graco enfrentou seu ódio e esperou sem nenhum gesto de fuga. Ele descarregou a arma, e Graco tombou no chão agonizando em meio a uma enorme poça de sangue. Sufocava com o peito feito em pedaços. - Obrigado - golfou em agradecimento. - O prazer foi meu - dizendo isso, atirou novamente, desta vez na cabeça. Três horas depois, Graco despertou nu em uma das mesas de autopsia. Tocou a cabeça e o peito totalmente intactos. Sila estava a alguns metros autopsiando o corpo de Monique. Fazia anotações sem nenhuma emoção, apenas trabalhava em mais uma cobaia. Suturou e encerrou a autopsia cobrindo o cadáver. Tal visão jamais o abandonou. - Vista-se, precisamos conversar - disse Sila, ao ver que tinha acordado. Para os amigos e parentes, Monique havia caído da escada e quebrado o pescoço. Graco guardou consigo uma mecha de seu cabelo loiro e sua aliança de casamento, as únicas coisas que o faziam acreditar que um dia foi mortal. Os anos se passaram enquanto Graco estudava tudo sobre sua espécie e Sila envelhecia, logo não poderia mais trabalhar. Num rompante, transformou-o em vampiro. O cientista alimentava-se somente de sangue, jamais precisou do soro. Estava preservado, longe da velhice e da morte.

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18. CONSUELO E GRACO Consuelo entrou na sala sem medo da destruição promovida por Graco e sentou-se elegantemente a certa distancia. Ele a achava magnífica e por vezes precisava tocá-la para acreditar que era real. Sabia que ela era uma criatura exigente quanto a beleza e que apreciava satisfazê-los um a um. No seu guarda-roupa havia uma fortuna em peles e vestidos assinados por costureiros famosos. Foi cliente do inglês Charles F. Worth em 1858, visitava com freqüência seu ateliê na Rue de La Pax, 7. No inicio do século XVIII aderiu a Paul Poiret, o homem que livrou as mulheres do espartilho. Pouco depois, comprava no ateliê de Chanel. Graco era escravo de seu poder feminino, estava preso em sua teia. Consuelo tinha oferecido prazeres, poderes e reconhecimento diante dos Poderes. Ate aquele momento, só tinha levado alegria para a sua semivida. Graco foi ate ela e ajoelhou-se, ficou entre suas pernas de marfim. A primeira vampira que conheceu, sua amante e mestra. - Kara despertou? -Não. - A pequena covarde fugiu do seu chicote - dizendo isso, lambeu seus lábios, sinuosa como uma serpente. Graco a apertou, trazendo-a para mais perto muito excitado. - Precisamos agir. Romano e os outros já estão na cidade. O implante e maravilhoso. Cheguei muito perto e eles pareciam cegos a minha presença. - Agradeça a Sila por isso. Ele o desenvolveu logo depois que fui atacado em Roma. A ausência de poderes elementares em sua condição de vampiro o colocava diante de perigos invisíveis, deixando-o vulnerável aos demais seres de sua espécie. O implante impedia que os vampiros o sentissem se aproximar, protegia sua mente de ataques, mas jamais encobriria sua natureza de meio vampiro. - Tenho vontade de rir. Romano e um dos Lordes mais poderosos. E auto-suficiente, anda sozinho, participa de todos os Conselhos e é contido em seus atos como vampiro. Gramas a isso, chamam-no as escondidas de o Padre – riu debochada, recostando-se no sofá de couro. - O que eles farão agora, Consuelo? - Romano defendera Ariel ate a morte. E um inimigo valoroso, espero que esteja pronto para enfrentá-lo. Esqueça-o por hora - pediu, abrindo a camisa para tocar o peito de Graco. - Amanha, as doze badaladas do relógio, estará aberta a temporada de caga ao rei, mas o que realmente me alegra e ter Savedra como aliado - disse confiante. - Ele faz muitas exigências. Atenderei as que me convier. Não ficarei nas mãos de quem quer que seja. - Não o irrite. Ele pode ser o próximo líder dos Lordes. Com um pouco de sorte ele pode se encontrar primeiro com Romano. - Farei algumas mudanças, a primeira delas será dentro dos Poderes. Não aceitarei que controlem minhas decisões. Serei rei, não um marionete – falava de coisas que pouco conhecia, alimentado pelas idéias de Consuelo. - Ser rei em nosso mundo significa poder absoluto e é isso que voce terá. - E voce continuara ao meu lado para me ajudar a governar. Será minha rainha. - E quanto a Kara? - Eu a matarei diante de Jan Kmam - foi enfático. - Quero assistir a isso. Serei a única ao seu lado, majestade. Foi maravilhoso ver Ariel doente, apodrecendo. O grande rei esta decrépito! Brevemente seus fieis servos terão de cortar sua cabeça. O destino nos favorece. E o melhor momenta para exigir justiça. Quero a cabeça do rei, depois a de Otavio. - Agora tenho uma surpresa para voce - anunciou, tentando evitar Graco. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- A surpresa pode esperar, minha querida, tudo o que desejo nesse momenta e voce. Dizendo isso, despiu-se diante da vampira que teve de ceder aos seus desejos de homem e vampiro.

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19. A NEGOCIAÇÃO Vitor esperava sentado no sofá de couro. Lançou um olhar alem do vidro fume e viu a noite correr ligeira. Os poderes adquiridos davam-lhe uma visão diferente da maioria dos vampiros. Percebia calor e emanações de energias. Isso o exauria aos poucos, mas era bastante util. Tinha descoberto seus dons uma hora atrás, antes de fugir de Frigia e procurar Graco com a amostra do sangue do rei. Não precisou se voltar para captar o movimento. Desde o elevador já ouvia os sussurros da vampira, sentia as emanações suaves de seu corpo. Consuelo entrou na sala seguida de Graco. Vitor os encarou com a segurança do poder que agora dominava. Encarou um vampiro fraco. Seu coração batia apesar de não estar se alimentando. Havia imortalidade, mas os vestígios de sua humanidade ainda o perseguiam. - Dr. Vitor, lamentei saber de sua morte. Sila sempre elogiou sua inteligência. Meu interesse em sua pesquisa sempre foi a cura para uma deficiência sanguínea singular, mas voce destruiu o laboratório e me deixou de mãos vazias. Investi muito dinheiro e perdi tudo. - A ciência alimenta-se dos erros para gerar acertos. - Sábio. Veio negociar o sangue de Kara? - Perez não me deixou alternativa. Afinal, quem quer morrer? Despertei num mundo novo e nele minhas habilidades são muito maiores. Quero voltar para minha pesquisa. Vou finalizá-la com ou sem seu laboratório, mas acredito que tenho algo a oferecer. - Não seja presunçoso. Todos já sabem da doença do rei - arriscou Consuelo. - Sim, verdade, mas sabem quem a causou? Um amaldiçoado: eu. Graco semicerrou os olhos, sentiu o corpo de Consuelo se enrijecer ao seu lado. - Então, foi seu beijo que condenou Ariel! - Consuelo estava encantada. - Invadiram meu local de repouso e me atacaram. Apenas defendi minha vida imortal. - Divaguei a respeito das causas da súbita doença do rei, mas jamais o imaginei tocado por um amaldiçoado. E tão simplório e tão eficiente. Consuelo e Graco avaliavam Vitor atentamente, sem conseguir enxergar os poderes exacerbados que ele possuía. O vampiro os cegava. Ele agora sabia se ocultar, esconder sua superioridade. Consuelo já o desejava ardentemente, Vitor havia mudado aos seus olhos, se tornado uma espécie de troféu. O vampiro que feriu o rei. Isso a enchia de desejo. - Então existe uma cura para o rei? - comentou Graco, como se não soubesse. - Eles acreditam que o sangue de Kara pode salva-lo, mas estão enganados. O sangue de Kara vai matá-lo. Eles pretendem evitar o risco. Deram-me três dias para refazer o soro e salvar Ariel - disse, fingindo ressentimento. – Colocaram minha vida nas mãos de Frigia, mas consegui fugir. - Ninguém foge dela. Frigia e parte daquele maldito Livro. Como conseguiu? - perguntou Consuelo cheia de desconfiança. - Beijei-a profundamente. - Isso abalaria a qualquer uma - murmurou, comendo Vitor com os olhos. - E o que veio fazer aqui? Fale sem rodeios. - Conheço sua deficiência sanguínea, Graco. Aqui cabe um rei – balançou o frasco diante do casal. Os olhos de Graco brilhavam famintos por mais informações. - Sangue real? Como conseguiu isso? - Deixe-me corrigi-la. Sangue real contaminado. Eles estão desesperados. Quero uma amostra de seu sangue para elaborar o soro. Ele vai curá-lo de uma vez. Não pode aparecer diante deles assim. Mesmo que tenha Kara ao seu lado, será repudiado pelos vampiros e jamais suportara o poder do Livro. - Como ousa me julgar? Um amaldiçoado! Não tocarei aquele maldito objeto! Os Poderes serão dissolvidos, só haverá um Poder e ele será o meu. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Pouco importa o que pretende fazer. Sei que vem se alimentado do sangue de Kara. Todavia, o sangue torna-se escasso, quanto tempo vai durar? Graco sentia-se vulnerável. Como ele sabia tanto? Consuelo o avaliava atentamente. - Eu posso desperta-la - prosseguiu, fazendo os olhos de Consuelo faiscarem. - Voce pode demais, meu caro doutor. - Sila pensa como um mortal. Aplica choques e adrenalina. E ridículo. Somos vampiros, a nossa volta o que existe são poderes antigos, dignos dos deuses - falou sentindo a estranha animalidade vir a tona. Kara me reconhecera, permitira minha aproximação. Dai em diante basta fabricar o soro, nada demais. - E qual e o seu preço? - O direito de matar Jan Kmam. - Acreditei por um momento que pretendia ficar com Kara. - Contento-me com a vingança. Leve-me ate ela, precisamos desperta-la. Obviamente, preciso de um laboratório onde possa trabalhar - a desconfiança de Graco e Consuelo era visível. - Não preciso dizer que será observado de perto, doutor. Minutos depois Sila chegou a sala e se inteirou da situação com cara de poucos amigos. Fitou Vitor com os olhos semicerrados numa promessa clara de vingança. Em silencio, obedeceu as ordens de Graco e guiou o visitante pelo corredor.

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20. INTERMEZZO – O DESPERTAR DO TERCEIRO DIA O Sol tocou as ruas, as casas e as lápides no chão do cemitério. O cortejo fúnebre, a ladainha das mulheres, o padre rezando, o som da pá, a areia caindo sobre o caixão; nada havia passado despercebido pelas mentes semiadormecidas enterradas naquele solo. Bastou a penunbra da noite se anunciar para que saltassem das covas. Romano sacudia o paletó agoniado, uma grande lacraia corria por seu ombro. Jan Kmam também sacudiu as roupas. Matava os insetos e observava a repulsa de Otávio. Baratas corriam sobre a seda da camisa, a terra úmida estava colada à pele. Por fim, jogou o terno ao chão e esmagou as baratas com o pé furiosamente. Fitou a camisa xingando os insetos, sentiu-se imundo! - Sempre odiei dormir fora! – queixou-se. O esconderijo do raptor de Kara era um grande amontoado de tijolos e ferros retorcidos pelo fogo. Vitor trabalhou durante todo o dia, não coneguia dormir. Ao deitar-se ao lado de Frigia, teve diversos pesadelos e percebeu que não havia se transformado em vampiro por acaso. Tinha uma missão e precisava finalizá-la, isso ficou claro ao ver a quantidade de amostra de sangue retirada de Kara. Graco se preparara para toda a uma eternidade de sede. Sem receios, Sila mostrou a fórmula do soro que havia desenvolvido anos atrás. Havia erros e acertos, mas o cientista precisava continuar na ignorância. Era brilhante, todavia um açougueiro. Finalmente, ao anoitecer, Vitor foi levado até o local onde Kara era vigiada por câmeras de segurança. Ele a viu através do vidro, não podia passar do laboratório. Sila digitou a senha e foi para perto do corpo de Kara, parecia passar informações ao celular. Sem nenhum esforço, Vitou ouviu toda a conversa. O nome Jan Kmam foi citado e Graco queria vê-li imediatamente. Ele partiu deixando Vitor trancado longe do corpo de Kara. Durante três horas, misturou as amostras e esperou por reações que logo vieram. Realmente estava no caminho certo. Faltava muito pouco e quando conseguiu a resposta que buscava, resolveu agir. Ele viu a senha que Sila digitou e esntrou sem problemas na sala. Vitou estendeu a mão e sentiu na ponta dos dedos a estranha força que rodeava o corpo de Kara. Deu um passo à frente e a pele ardeu. Em resposta ao primeiro ataque, fechou os olhos e a chamou. O escudo sumiu, permitindo que examinasse o processo avançado de morte. O corpo tinha enrijecido, as pálpebras estavam quase coladas, os lábios unidos, seus cabelos estavam completamente brancos. Kara se desgastara com a força que emanava para se defender. Beiju sua mão frígida e deixou que seus novos dons surgissem. A mão endureceu como se houvesse sido mergulhada em água gelada. Em desespero, percebeu os dedos congelados. Era engolido pela frieza de Kara. O processo tomou seu corpo rapidamente. Apavorado, tentou puxar a mão. Tarde demais, encontrava-se petrificado. Vitor continuava de pé ao lado da mesa, mas sua mente vagava muito longe. Sentia-se despencar no chão. Ergeu a cabeça e fitou o teto abobadado da câmara onde estava. A grandiosidade do salão circular o assustou. Onde estava? Caminhou até o centro e admirou as fileiras de acentos escavados na rocha. Seguiu em frente numa linha reta e subiu degraus cobertos por um tapete vermelho que levavam a um trono. Atrás dele, quase emoldurando, uma cortina vermelha gigantesca cobria toda a parede. O som de um riso infantil chamou sua atenção. Vinha detrás do trono. - Quem esta aí? – perguntou, observando parte de suas roupas. Da garotinha, viu primeiro os cachos escuros, o olhar muito negro, a pele alva e a boca de botão. Ela se afastou do trono, mas sem deixar de se apoiar nos braços luxuosos do assento. Era curiosa, mas cautelosa. Estava vestida inteiramente de vermelho, como se fosse uma pequena dama. Havia até mesmo uma tiara segurando as mechas negras. Devia ter oito anos. - Quem é você? – a voz infantil soou límpida. - Sou Vitor e você, quem é? - A destruição. A menina o rodeou e examinou suas roupas. Quando Vitor estendeu a mão em direção aos seus cachos, ela recuou. Sua face tomou uma expressão aborrecida. - Não devia ter vindo. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Estou procurando uma amiga, talvez possa me ajudar a encontrá-la. O nome dela é Kara. - Vá embora! Ela não quer ver ninguém. – A criança foi tomada de súbita revolta, olhou-o com antipatia. - Não, eu vim ajudar minha amiga. - Você é surdo? Ela não qer ver ninguém, quer dormir em paz. Eles a machucaram, a fizeram chorar – explicou, tocando o rosto de Vitor com carinho. Subitamente, sorriu muito amável exibindo os pequenos caninos. Não havia dúvidas: era ela. Vitor retribuiu o sorriso sem saber o que fazer. Como iria trazê-la de volta à realidade? Sentiu um forte desânimo. Iria ser mais difícil do que tinha imaginado, mas precisava insistir. Estava diante de uma ilusão e só havia um modo de vencê-la. - Não há tempo para brincadeiras, Kara, sei que é você, acorde. - Não diga esse nome! Eu não sou Kara. Eu não sou Kara. Kara morreu! - Você está viva. A menina sentou no chão sobre os joelhos e levou as mãos pequeninas à face. Soltou um grito rouco e deixou a verdadeira Kara surgir. O corpo parecia feito de elástico, pois se contorceu com grande rapidez. A face movia-se velozmente, ganhando novos contornos, os traços de uma adulta. A vampira levantou do chão assustadoramente bela e majestosa, envolta em véus vermelhos e jóias. Emanava uma força devastadora, como se realmente fosse a destruição. Nada mais havia da mulher ou da vampira que conhecia. À frente de Vitor estava uma criatura imersa em mistério e poder que havia escolhido transmutar a dor fugindo para um modo desconhecido. - Vá embora, aqui não é seu lugar. - Kara, me escute. Precisa despertar, seu corpo está morrendo. - É o melhor para todos. Vá embora, não queremos companhia – dizenso isso, ficou ao lado do majestoso trono como se houvesse alguém sentado nele. - Nós quem? Estamos sós aqui, o trono está vazio. Venha comigo. Por que está se punindo desse modo? Kara soltou um grito agudo. Vitor segurou a cabeça sentindo dor e gosto de sangue na boca. Ele a enfrentou sabendo que poderia ser destruído com um só olhar. Ela falava com alguém invisível. O diálogo transcorria ligeiro e em língua desconhecida. - Vim aqui buscá-la e vou fazê-lo – disse corajosamente, segurando-a pelo punho. – O trono está vazio, não há ninguém aí. - O trono está vazio e a culpa é minha. Kara desceu os degraus como se houvesse despertado para realidade. Balbuciava na mesma língua incompreensível, mas era óbvio que pedia perdão por algo. Vitor tentou se aproximar, mas foi prontamente repelido por suas unhas. Num acesso de raiva, Kara puxou as cortinas, que deslizaram numa onda tinta, como se caíssem em câmera lenta. A vampira recuou e observou a parede com medo, sentindo-se acuada. Vitor viu cinco símbolos entalhados na rocha branca, dentro de um círculo maior. Formando uma cadeia de poderes, havia brasões rodeados por ramos repletos de espinhos e rosas. O maior deles ficava no centro e trazia uma coroa envolta em rosas ao lado de uma espada. O segundo símbolo ficava do lado esquerdo. Trazia um pergaminho transpassado por uma pena e uma balança, simbolizando julgamento e ordem. O terceiro emblema, posicionado do lado direito, tinha duas espadas cruzadas. O quarto símbolo mostrava uma serpente de duas cabeças, que segurava uma pedra em suas presas. Vitor podia sentir a força contida em cada um deles. Fechou os olhos, estendeu as mãos e viu-se elevado do chão. O contato fez seu corpo estremecer. Tinha o maxilar comprimido e os olhos fechados. Suas pálpebras tremiam com velocidade. Via e ouvia o futuro de todos através dos Cinco Poderes. Num rugido de dor, foi lançado longe. Despencou no chão sentindo-se exausto. Olhou a parede e viu os símbolos sangrarem . Kara ajudou-o a ficar de pé. - Eles vão entar em guerra. Precisa avisá-los. - Vou protegê-la. Seu corpo está morrendo, como pode se entregar desse modo? Fugir não vai ajudar em nada. - Já estou morta. Aqui é meu lugar. - Seu lugar é ao lado de Jan Kmam. Ele está procurando você como um louco!

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- Mentira! Ele me traiu, mentiu e me abandonou, estava sozinha no escuro – balbuciou confusa. -Jan Kmam jamais faria isso. Ele a ama. - Deixe-a em paz – recomendou uma voz firme, porém pacífica. – Não deveria estar aqui. Não é o guia da rainha. Vitor deparou com um vampiro valoroso, um guerreiro negro e belo. Sobre o peito nu e forte pendia uma joia de prata. Ele se vestia como um egípcio e carregava na mão uma lança. Com frustração, Vitor viu que a meninha retornara ao trono. Kara tinha desaparecido novamente. - Seu corpo está em perigo, acorde! – dizendo isso, cravou a lança no estômago de Vitor e o ergueu no ar. Vitor despencou no chão sem forças. Havia despertado do transe em que entrou ao tocar o corpo de Kara. O braço enrijecido pesava. Estava de volta ao laboratório. Com grande esforço, ficou de pé. Tinha as veias enegrecidas. Não conseguia mover os dedos. - Deixe-me ajudá-lo – disse a mesma voz. Recuou apavorado chocando-se contra uma das mesas e esperou por mais um golpe do vampiro. Em vez disso, ele apenas segurou seu pulso e fechou os olhos. Livre da mão de ferro do vampiro, viu o braço voltar ao normal. - Estou acordado? Quem é você? - Meu nome é Mercúrio, e, sim você está acordado. Termine o que veio fazer, resta pouco tempo. Precisamos sair daqui. Vitor fitou os corpos junto à porta e nada mais perguntou. Recolheu o soro que havia fabricado e as anotações. Estava pronto para destruir o laboratório, mais o vampiro o deteve. - Este é o meu trabalho. Você deve levar Kara e entregá-la a Jan Kmam.

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21. A ALIANÇA O rosto de Savedra refletido no vidro da janela o deixava ainda mais austero e ameaçador. O vampiro possuía cabelos acizentados, olhos marcados por rugas, traços de uma face de pedra. No olhar escuro havia o toque febril dos que vivem com fome de sangue e vingança. Vestia ternos italianos caríssimos e usava os cabelos curtos penteados para trás. Odiava esperar. Sentou e cruzou as pernas impaciente, contudo, eram tempos de mudança, podia abrir uma ressalva em seu rígido código de normas. Por Consuelo, valia a pena esperar, era uma fêmea inconfundível. Savedra sentiu seu perfume com a ponta da língua entre os lábios. Vinha acompanhada por Graco, que arrastava uma mortal pelo braço. O empurrão jogou Persa Zanne sobre o tapete. Savedra pareceu estar diante de um fantasma. Deslocou-se no ar e agarrou a mulher pelo pescoço, fez com que enfrentasse seu olhar sobrenatural, cheirou sua pele. Cansado de suposições, puxou sua blusa para ver a marca sobre o seio. Satisfeito, jogou-a no chão bruscamente. Persa Zanne encolheu-se junto ao sofá e cobriu sua nudez. Persa tentava se manter lúcida e alerta ao que acontecia a sua volta, mas a pressão havia aumentado sensivelmente. Pelo menos tinha aprendido a lição e ficava o mais quieta possível. Precisava ficar viva para revelar o paradeiro de Kara e salvar a própria pele. Entretanto, sentia muito medo e perguntava-se se conseguiria sair viva das mãos daquelas criaturas. - Seja bem-vindo ao CEPS – disse Graco, de modo amável. - Quanto quer pela mortal? – perguntou Savedra, disposto a pagar qualquer quantia. - Ela não está à venda. Trata-se da reencarnação da amante do nosso querido rei. - Deve haver algo que deseje. Fale, quanto? - A cabeça do rei. Pode me dar isso? Pois é o que ela vale, um rei. Não sabia que conviver com vocês era tão divertido. Estão sempre em convulsão e, devo dizer, essas surpresas do destino são realmente cômicas. Consuelo me garantiu que essa mortal é Norine. A julgar por sua reação e oferta, ela estava certa. - Os fantasmas do passado sempre voltam. Se Ariel Simom a acolheu, é sinal de que aceitou a amante de volta. Norine foi a mortal que mais amou, que mais dor lhe causou. E aqui estamos nós frente a frente. Quanto à cabeça de Ariel, isso é questão de horas. Pelo que sei, seu mal não tem cura. Morrerá de modo desonroso, quase humano. E a herdeira do sangue do favorito? Soube que está morrendo. - Kara só está adormecida. - Não seja tola, mais um dia e ela só servirá para enfeite. Está se matando diante de seus olhos. Savedra lançou sobre Consuelo um olhar indefinido, que não passou despercebido a Graco. Ele estreitou os olhos, os lábios se comprimiram numa linha fina. Persa, atenta à conversa, via a face de Graco mudar sensivelmente. As entrelinhas valiam mais do que as palavras ditas. - Os Poderes acreditam que ela será rainha e quem estiver ao seu lado será o novo rei – prosseguiu Savedra, testando reações. - Sim, e este alguém sou eu. Temos laços de sangue, nossa união será perfeita. Os Poderes terão de se dobrar diante de nós. - Verdade, tem o sangue deles nas veias. Daria os parabéns se não repudiasse essa combinação. Existe muita insatisfação no Conselho, queremos mudanças. Vamos apoiá-lo para que realize tais mudanças. Nunca aceitamos Ariel, de fato. O Conselho sempre foi contrariado para satisfazer à Ordem. Nós queremos bem mais do que votar, majestade – disse massageando o ego de Graco. - Pelo que sei, almeja a coroa. Seu nome é proferido com reservas dentro do mundo vampiro. O que eu poderei oferecer? - O poder é uma cortesã que se entrega a quem paga mais. Hoje, sirvo aos mais fortes. Entretanto, houve dias em que a coroa ficou a um gesto de minha mão – seus olhos brilhavam fascinados. Perdi tudo por causa dessa vagabunda traidora! – os caninos surgiram ameaçadores. – Quero a cabeça de Ariel Simom e de seu irmãozinho. De brinde quero o sangue desta mulher. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Precisamos sair das sombras – Consuelo se pronunciou. - Faça isso e terá meu apoio e o dos que me seguem. Você me permitiria? - Fique à vontade, não tenho planos para ela – dizendo isso, fez Consuelo arrastá-la até Savedra. – É inegável, o rei tem bom gosto. - Não sou amante de Ariel – Persa rugiu tentando se defender. - Calada! Mortais não falam diante dos deuses. No máximo pedem piedade. Consuelo ria agitando o leque. Observava Persa com Savedra. Ele nutria ódio e ao mesmo tempo um desejo antigo não satisfeito pela mortal. Agoniada, ela soluçou e fez o vampiro sorrir vitorioso. Ele a tocou, as mão frias acariciavam seu cabelo numa adoração doentia e que prometia crueldade. Dentro dele só havia a fome. Puxou a cabeleira e lambeu a carne do pescoço, fazendo Persa esmurrá-lo furiosamente. A mordida veio grandiosa e a fez gemer alto. Ele sugou com vontade até deixá-la insconsciente, ela lhe pertencia agora e poderia prolongar sua agonia. Savedra deixou Persa aos cuidados de Concuelo e partiu aborrecido. - Por que não a entregou para ele? Teria sido um gesto de confiança. Sabe há quantos séculos ele odeia essa criatura? - Ela vai levar um recado meu para Jan Kmam. Graco foi interrompido pelo alarme e ficou de pé. Consuelo puxou o punhal que ocultava na coxa e preparou-se para agir. - Fique aqui, Graco. Não deve se arriscar desnecessariamente. Consuelo estancou na porta do laboratório. Voltou para o corredor, amedrontada. Não estava disposta a enfrentar aquele vampiro. Olhou o punhal nas mãos, sabia que seria ridículo diante do oponente. O laboratório tinha se transformado em um campo de batalha. Savedra e mais cinco vampiros tentavam dominar uma aparição de quase dois metros de altura, um colosso de ébano chamado Mercúrio. Ele empunhava dois longos punhais e ltava agilmente. Aproximava-se de seus inimigos sem medo, ferindo e matando. Correu pela parede evitando disparos da arma de Savedra. Quando tocou o solo, arrancou a pistola de cano cerrado das mãos do oponente com um movimento de seu casaco. Trocaram golpes agéis de artes marciais. Savedra lutava com grande habilidade, mas Mercúrio ganhava em rapidez e força. Mercúrio recuou e deu espaço para Savedra puxar do terno uma pequena zarabatana de dardos envenenados. As setas atingiram a capa de couro do vampiro sem lhe tocar o corpo. Savedra sorriu e puxou a espada, desejava acertar as contas. Na última luta, o combate fora interrompido pelo nascer do sol. As botas pesadas de Mercúrio rangiam no assoalho, ele percebeu a expectativa do oponente, também ansiava por aquele combate. A túnica branca estava aberta e havia sangue sobre o peito de Savedra. Nada falaram, apenas trocaram um olhar cheio de animosidade. Mercúrio pôs a mão no quadril largo e, num movimento impetuoso, trouxe sua espada à luz. Era uma lâmina reta de cabo curto, que pareceu zumbir diante do adversário. Fitavam-se olho no olho e por alguns segundos só havia troca de forças. O empurrão mais forte venceu, e Savedra estatelou-se no chão. Enfurecido, rugiu e saltou sobre Mercúrio. As espadas encontraram-se em luta contínua e Mercúrio foi atingido no ombro. Consuelo sorriu, mas seu sorriso morreu ao perceber que a sala once Kara repousava estava completamente vazia. Numa sucessão de golpes, Mercúrio derrubou Savedra e o chutou sobre os arquivos mais próximos, onde bateu a cabeça e perdeu a consciência. Mercúrio estava pronto para decepar a cabeça de Savedra quando foi atingido por um punhal. A lâmina cravada em sua mão o fez recuar. Seus olhos claros caíram sobre Consuelo de modo agressivo. O revide foi feroz e imediato. O vampiro fechou a mão sangrenta sobre a garganta delicada e a ergueu do chão. Consuelo gemeu manhosa, tentava ganhar piedade. Percebendo a firmeza de sua expressão, acreditou ser o fim. Mercúrio apertou os dedos de ferro contra sua traqueia. Assistia com prazer indisfarçável à luta débil da vampira. - Está me devendo algo, Suelo – afirmou carinhosamente, arrastando-a até um dos balcões de tampo de mármore. - Solte-me! Não se atreva, Mercúrio! Não! – berrava, esperneando sobre a mesa. - Deve pagar suas dívidas, minha querida – murmurou, pressionando a face delicada contra o tampo da mesa sem cuidado algum. - Não! Savedra! Ajude-me – chamou desesperada.

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Mercúrio segurou a vampira pela cabeleira negra, deixando o pescoço livre. O grito de Consuelo cruzou a sala. Mercúrio a mordeu e sugou com desejo. Ela esmurrava seus ombros, mas era inútil. Contra ele, nada podia. Saciado, o vampiro afastou-se e sorriu para exibir os caninos sangrentos, os lábios tingindos de sangue. A vampira tocou a garganta ferida e gritou furiosa, enlouquecida, quase se atracando com ele. - Maldito! Vai pagar muito caro por isso! Mercúrio pôs a mão espalmada em sua face e a empurrou como a um boneco. Percebendo que Savedra se refazia, sumiu através da porta. Savedra estava no meio do caminho quando foi lançado no fundo da sala. A explosão varreu os móveis com uma língua de fogo e fez o CEPS tremer. A fumaça cobriu tudo, enquanto as luzes piscavam. O corredor havia sumido e dado lugar a um enorme buraco, repleto de escombros. Consuelo observou Savedra imóvel diante da porta de saída e deu o primeiro passo. O vampiro a deteve, mostrou o que enfrentaria se resolvesse seguir adiante. O caminho era uma armadilha mortal para qualquer vampiro. Na escuridão eles viram a Seiva brilhar fluorescente. Somente quando os sprinklers foram acionados e a água lavou as paredes, puderam atravessar para o outro lado, mas já era tarde.

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22. A ASSEMBLÉIA Dividiram-se ao chegar às portas do hotel. Romano buscou seu lugar junto aos Lordes, e Otávio o seguiu. A cidade havia sido literalmente invadida pelos membros dos Poderes. Chegavam discretamente, precisavam ser cuidadosos. A trégua de sangue foi decretada pelos Poderes. O sangue mortal não poderia mais ser derramado. O Intermezzo estava no fim e haveria combates. Muitos lutariam por diferenças antigas, outros simplesmente pelo trono. Decisões precisavam ser tomadas, era a última noite de Ariel Simom no poder. Demétrius e Valdés montavam guarda no saguão. Misha ainda não havia retornado com o fruto de suas investigações. Havia uma melancolia profunda dominando Jan Kmam, deixando-o consciente da dor e da morte a cada segundo. Escolheu uma das camisas preferidas de Kara, a azul-turquesa, e vestiu-se lentamente. Ela gostava de colocar um pouco de cor em seu guarda roupa, como também gostava de prender o laço do seu cabelo e se esconder dentro da jaqueta como se fosse uma gata. Sorriu tristemente. A Ordem foi a primeira a prestar esclarecimento aos demais poderes. Os Lordes seriam os próximos. O salão estava cheio, o clima tenso com o mar de revelações feitas por Togo. Certamente, ele enfrentaria problemas, a maioria dos olhares que pairavam sobre ele não eram nada amigáveis. Romano dirigiu-se ao auditório e em poucos minutos os acontecimentos no laboratório vieram à tona, o que somente piorou os ânimos. Para Kmam existiam dores bem maiores para se levar em conta, como a ausência de Kara em sua vida e a morte do amigo e rei. Ele o olhou no trono e se lembrou da primeira vez que o viu. Tão belo e sedutor com os olhos verdes e a face jovem. Ariel Simom envelhecia e mesmo se alimentando continuava fraco. A gata não saia de seu colo, oferecia-lhe calor e carinho. Aquele animal não parecia ser deste mundo, pois andava em meio à morte com a tranqüilidade de um vampiro. Subitamente, Jan sentiu dor e percebeu o olhar de Ariel sobre si. Em sua fisionomia, somente uma espera silenciosa. Crasso, o líder do Conselho, pedia punição imediata. Romano os silenciou. Houve murmúrios indignados e reflexões pesarosas a respeito dos vampiros capturados e usados como cobaias no laboratório. - Por que a Ordem manteve tais fatos em segredo? – Crasso questionava indignado. - Não cabe ao Conselho lidar com assuntos da Ordem, mas se, porventura, pretende tomar a espada e enfrentar os nossos inimigos, sinta-se à vontade – Ariel ainda mantinha sua mente afiada. – Prossiga, Togo. - A Ordem e o rei resolveram tratar do assunto sem alardes. - E tal decisão protegeu quem? Os Conselheiros, os Lordes e os Pacificadores? Somos caçados, e isso nos diz respeito. Crasso estava de pé, pronto para tomar a tribuna e o tempo alheio. Houve desordem nas fileiras. O gesto era típico do Conselho, que sempre apostava no barulho para vencer. - O momento não permite divagações, aqui todos sabem se defender – disse Togo, cansado de Crasso e suas interrupções. O Conselheiro sabia que teria alguma chance condenando Jan Kmam ou Otávio. Ele buscava motivos, que existiam e favoreciam seus sonhos de poder. - O que vivemos nesta noite é fruto do erro de membros da comunidade. O olhar humano está sobre nossa espécie. Busca poder e conhecimento através de nosso sangue e imortalidade. - Crasso, os arquivos com as informações e provas sobre a existência de nossa espécie foram destruídos. Muito em breve conseguiremos trazer os culpados diante dos Poderes para fazer cumprir as leis. Sejam mortais ou imortais – garantiu Romano, tentando trazer ordem à assembléia. - Nossos segredos foram expostos ao escárnio humano graças às faltas do favorito do rei. Como líder do Conselho, eu exijo a punição imediata. Jan Kmam encarava Crasso e percebia o quanto aquele vampiro o desejava morto. Não se moveu, manteve-se inalterável. Viu os demais vampiros batendo nas cadeiras, fazendo a madeira soar. Exigiam a sua cabeça. - Não haverá punições dentro do Intermezzo – Togo lembrou os presentes.

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- Majestade, como todos nesta sala, gostaria que os culpados enfrentassem a punição por seus crimes. O amaldiçoado, poupado a pedido do favorito, fugiu dos cuidados de Frigia. O clima ficou extremamente tenso, e as vozes se elevaram. O rei silenciou a assembléia incontida com uma ordem. Ele parecia mais frágil e doente. Asti estava a poucos passos e temia que ele não ageuntasse e fraquejasse diante de todos. - Logo, cabeças rolarão e o sangue imortal será derramado para alimentar os interesses dos Poderes – o rei garantiu, ácido e feroz. – Agora basta. Várias decisões precisavam ser julgadas e pesadas. Os Conselheiros e Lordes aproximaram-se da pessoa do rei e confabularam diante de sua mesa, buscando o melhor caminho para a espécie. Jan Kmam seguiu para o fundo do salão. Antes de sair, lançou um último pensamento para Ariel, que retribui de imediato, sem que ninguém notasse. Estava na rua quando sentiu Otávio às suas costas. - Acabou. Escute-me, Otávio. Minha condenação é segura e nesse momento precisamos ser mais frios do que de costume. Minha desgraça vai torná-lo rei. Ariel morre lentamente, será que não vê? - O meu crime não tem perdão, fique – Otávio experimentava uma dor jamais conhecida. - Eles não terão escolha. Irão perdoá-lo e você será o novo rei. Agora volte, antes que sintam sua falta, ainda é um Lorde – avisou, temendo envolvê-lo em mais um crime. Otávio calou-se, as palavras morreram em sua garganta ao ver Jan Kmam retirar o anel de favorito e estendê-lo em sua direção. - Falhei. Dentro de meu coração o que arde é o amor que sinto por Kara. Jamais conseguiria entregá-la nas mãos do rei. - Como acha que terei forças para ver meu irmão morrer, subir ao trono e logo depois condenálo à morte, Kmam? Você é meu filho. Não vou receber este anel. Pense. Não haverá volta – a voz tremeu, fechou os olhos para esconder as lágrimas. - Serei condenado, mas pelos motivos certos. Morrerei defendendo Kara, lutando por sua vida e seu amor. - Se entregar esse anel estará assinando sua sentença de morte. Vai deixar o mundo vampiro civilizado. Vai se tornar um desgarrado. A Ordem irá caçá-lo, não terá piedade. Se for capturado, será executado imediatamente – Otávio sofria. - Saberei evitá-los. Adeus Otávio – afastou-se antes que fosse detido pela força. - Pare, seu burguês maldito! Parou no meio da rua e abraçou Otávio fortemente. Era o adeus. - Sempre soube que aquela mulher o roubaria de mim, mais jamais imaginei que eu a ajudaria. Encontre Kara e dê-lhe umas boas palmadas. - Farei isso, não se preocupe. - Saiba que jamais o verei como traidor. Na verdade, não conheço vampiro mais corajoso que você. Salve sua amada e saia desta cidade o quanto antes. Saia daqui antes que eu tenha de matá-lo – ameaçou tocando o cabo da espada. Tinha os olhos cheios de consternação. Jan Kmam subiu no telhado mais próximo e por alguns minutos se deixou vencer pelo peso da decisão que havia tomado. Nada poderia detê-lo. Usar magia significava dar e receber. Não era leigo e contava com a força de sua alma e de seu sangue. Puxou o punhal da bota e estava prestes a cortar o pulso quando ouviu Vitor chamá-lo mentalmente. Seu voto de confiança não tinha sido em vão, Vitor jamais os trairia de modo tão vil. Saltou do prédio e correu pelas ruas mais antigas da cidade. As nuvens vez ou outra eram iluminadas por relâmpagos, um temporal se anunciava. Um pesado pranto cairia em breve, o vento agitava seu casaco e seus cabelos. Kmam observou a fachada imponente do casarão, as portas cuja tinta descascava. Os primeiros pingos de chuva molharam a rua do Sol. Galgou a parede, andou pelo telhado e pousou suavemente no átrio. Viu com tristeza as rosas e plantas sufocadas por ervas daninhas. Elas resistiam, atrevidas, de chuva em chuva, ainda ousavam lanças botões em meio àquela desolação. As pedras largas do piso estavam sujas e sem vida, rodeadas de mato. Por um instante, Jan quase pôde ver Kara dançar. Reviveu a música, as luzes, as juras de amor e o beijo. Uma janela bateu no segundo andar. O vento fazia da chuva um chicote. O vampiro entrou pela janela escancarada e seguiu pela escuridão.

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Jan Kmam encontrou Vitor no corredor do terceiro andar. Por um momento quase não o reconheceu, ele parecia mais forte e alto. A face e a voz estavam transformadas. O mortal havia sumido e dado lugar ao vampiro. Estava estampado em seus olhos e nos movimentos pelo corredor, enquanto explicava o motivo de sua fuga e como conseguira tirar Kara das mãos de seus raptores. Vitor colocou Jan Kmam diante de uma dura verdade. Possuía mais inimigos do que poderia supor. Ele pensava rapidamente, precisava prepara Kara para a partida. - Kara está bem. Trouxe-a para cá assim que consegui fugir – avisou, percebendo o olhar de Jan sobre si. - Bem-vindo, Vitor Jan estendeu-lhe a mão em sinal de respeito aos seus atos de coragem e felicidade a ambos. Diante dele, tinha um igual, não mais a caricatura de um imortal. - Obrigado – falou, aceitando sua mão estendida. - O que fez com o sangue do rei? - Desenvolvi o soro, mas não é seguro, falta algo. O que ainda condena Kara a entregar-se ao rei. - Não mais. A situação mudou, tomei algumas decisões. Vitor percebeu que algo estava muito errado. Bastava observá-lo. - O que vai dizer a ela, que traiu seu rei? Jan Kmam percebeu que ele tinha conhecimento de suas decisões e da ausência do anel de favorito em sua mão. - Não diremos nada, então. Nem eu nem você. Para todos os efeitos, vamos voltar para casa em Paris. A verdade a faria procurar a Ordem. - É o que ela faria, certamente. Kara estava adormecida quando a encontrei, mas deve estar despertando. Está no sótão. Jan Kmam subiu as escadas e encontrou a pequena porta repleta de rosas entalhadas. Com o coração aos pulos, empurrou-a delicadamente e entrou. O lugar estava desocupado e os velhos objetos haviam desaparecido. A iluminação vinha de velas. Kara Ramos estava adormecida em uma cama no centro do sótão. Ele fechou a porta, sentia-se estranhamente seguro. Um relâmpago iluminou o corpo delicado e quando o trovão rugiu no céu, Kara despertou aflita. O abraço tinha o perfume e a proteção de Jan Kmam. Ela mantinha os olhos fechados, tinha medo de abri-los e descobrir que estava sonhando. Sua face roçou na firmeza do peito, as mãos reconheceram a forma dos ombros e passearam saudosas por seu corpo. Não ia despertar desse sonho. A vampira ergueu o queixo, e o encontro dos lábios não pôde mais ser adiado. Aquele primeiro beijo depois da separação foi arrebatador. Longo como a espera que os separou, profundo como a saudade que os consumia. O tempo precisava descobrir um novo modo de passar, pois só havia o limite do abraço e o bater dos corações agoniado. - Mon amour .... Je t’aime – arquejou Jan Kmam, trazendo-os de volta à realidade. Kara abriu os olhos e encontrou o azul de seu olhar. Foi como mergulhar no mais doce dos lagos. A pupila estava dilatada e dentro dela só havia amor. Era real! Desfaleceu, estava muito fraca. Ele a segurou e beijou sua testa, cheirou seus cabelos. Apertava-a com força junto ao seu corpo tentando abrandar a saudade. - Pensei que nunca mais o veria – soluçou, enquanto o abraçava com força. Kara aspirava o cheiro doce e amadeirado do perfume de seu amante. Enquanto o envolvia, tentava acalmar o medo, pois temia ser afastada dele novamente. Estavam sentados na cama com os corpos colados. Jan esfregava sua face na dela numa carícia conhecida. Quando escondeu o rosto em seus cachos, ela gemeu apaixonada. - O que sou sem você, ma petite? Minha vida não existe sem sua presença. Conheci o inferno longe desse olhar. - Perdoe-me. Não quis trazer problemas. Jan Kmam cobriu sua boca num beijo morno e quando finalmente a libertou, susurrou com o olhar apaixonado: - Está perdoada. Ela sorriu emocionada e correspondeu, deixando sua boca provar da dele lentamente. Quando a pressão de suas mãos aumentou, Kara estava em seu colo. A distância entre eles não existia. Impetuoso, Kmam retribuiu com paixão, deitando-a no leito e colocando-se entre suas pernas Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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macias. A mão deslizava suavemente por sua coxa. O contato de sua boca tinha o poder de despertar prazer e medo. Ele era um vampiro cheio de apetite, mas também sedutor e apaixonado. O beijo prolongado por muito pouco não a levou ao desmaio. Kara tocou seu peito e ouviu seu coração bater louco de amor. Sob seus dedos podia sentir o sangue transformado em fogo líquido dentro das veias. Suas mãos tinham vontade própria. Empurraram seu casaco, abriram a camisa. Tudo que queria era sentir sua pele. - Diga-me que é real, que estou em seus braços, meu Kmam – suspirou sentindo a ternura envolver seus corpos. - Estamos juntos novamente, ma petite. É noite lá fora e não poderia ser diferente. Sinto o sabor de sua pele em minha boca. Chove forte e mesmo assim escuto seu coração clamando pelo meu. A escuridão começou a se fechar, as velas morriam. Kmam afastou-se para iluminar o sótão e quando a encontrou encolhida sobre o leito. Segurou-a com força, enquanto ela chorava entre o alívio e o medo. - Estou aqui, Kara, nada mais vai nos separar. Eu prometo, dou-lhe minha palavra de vampiro. Não posso viver sem você. Foi um tormento não mais sentir sua presença. Ele falava com uma doçura única. A mesma que fez Kara amá-lo de imediato e ceder a cada carícia sua. Kara perguntava como poderia ser tão sua, parte de sua própria carne. Subitamente, as palavras de Graco invadiram sua mente. Ela precisava esclarecer muitas questões. - O que houve, ma petite? - Nós precisamos conversar. Jan Kmam a deteve junto de si. Ela tentou se afastar, mas a necessidade de estar junto com o amante era maior. Não seria fácil fugir. - Matou Graco? - Infelizmente não fui o herói desta vez, mas contei com um muito bom: Vitor – disse desgostoso, sondando suas expressões. - Vitor? Ele está bem? - Sim. Acalme-se, por favor. - Onde estamos? - Na rua do Sol, em nosso casarão. Vitor queria trazer até nós as noites já vividas. - Preciso confessar uma coisa. Eu cometi um crime. Escrevi um manuscrito, ele está nas mãos de Graco. Preciso recuperá-lo – disse corajosa. - Tive o manuscrito em minhas mãos, mas o perdi. De qualquer modo, esqueça-o não há nada que possamos fazer. Tudo isso é passado – Jan tentava não revelar mais do que o necessário. - Não deveria ter escrito o relato, sinto tanta culpa. - Se existe um culpado, sou eu. Deixei que você fosse longe demais. Quando chegarmos a Paris, negociarei sua pena com Togo. - Eu não enfrentarei os Poderes – disse Kara confusa, lembrando-se das revelações de Ania e de todo terror que ela lhe impôs. - Quem lhe revelou tais coisas? Kara relatou seu encontro com Consuelo e Ania e só então ele teve uma noção da extensão dos inimigos que Ariel enfrentaria. A essa altura, Demétrius e Frigia já deveriam ter recebido a ordem para procurá-lo e levá-lo diante do rei. Ele estava pronto para receber sua sentença, mas antes que isso acontecesse, teria de colocar Kara em um lugar seguro. Conhecia o vampiro certo para adotá-la: Bruce. Como Lorde, ele poderia usar sua autoridade e salvar sua vida. - Desta vez vai me obedecer, só para variar. Eles nada têm contra nós. Precisamos voltar para Paris. O tempo acabou – mentiu tentando protegê-la. - Jan, eu vou consertar meus erros. Não posso permitir que seja punido em meu lugar – disse conciliadora. - Merde! Pare de bancar a humana comigo. Na escala hierárquica, está sob meu comando. Mentiu, escreveu um manuscrito, deu amostras de seu sangue. Olhe para mim, Kara. Sou um vampiro e você é minha pupila, minha amante. Eu lhe dei a vida eterna, e isso é um contrato assinado com sangue. Nas linhas miúdas que você sempre se recusou a ler está escrito Kara pertence a Jan Kmam. Ele é seu mestre e tem poder sobre sua vida!

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Ele perdeu a paciência. Estava atormentado com a possibilidade de vê-la sofrer nas mãos dos Poderes, ou pior: ser possuída por Ariel. Lá fora não era mais seguro, quanto tempo levaria até serem encontrados? Essas questões lhe tiravam a paciência, mas ao fitar o rosto magoado e infeliz de Kara acreditou ter exagerado. - Por que estamos discutindo? Acabamos de nos reencontrar, ma petite. Apenas me deixe resolver a situação. - Consuelo certamente lhe deu menos dissabores – disse magoada. - Recuso-me a falar de Consuelo com você – resumiu, dando o assunto por encerrado. A situação era desconfortável. – Quando lhe revelei que ela foi minha amante, era para evitar que tais perguntas surgissem entre nós. Sou muito velho, Kara, e durante quatrocentos anos tive muitas mulheres. Se cada uma delas nos causar tantos problemas, nosso relacionamento não sobreviverá. O que aconteceu entre mim e ela é passado. Você, Kara, é o meu presente e meu único futuro. - Pensei que não houvesse mais segredos entre nós. Por que mentiu? – quis saber irritada. Jan Kmam soltou uma exclamação abafada e dominou Kara facilmente, já que nada restava dos seus poderes. Ele notou seus empurrões fracos, achou estranho, mas nada falou. O aparelho drenava suas forças sem que ela soubesse. - O que aquela megera disse? - Ela contou com detalhes e extremo prazer os anos maravilhosos que viveram juntos, em meio a sangue e gozo. Falou de um vampiro que não conheço. Vinte anos. É isso que chama de intenso? - Sim! Foi deveras intenso, e se não lhe falei de minha doença foi de vergonha dos atos que pratiquei. Eles me transformaram no mais baixo dos seres. Vinte anos de sede de sangue e de crimes, durante os quais vivi meus piores momentos como vampiro. Eu imploro, deixe-me longe disso. Ele percebeu sua fragilidade, o modo como se apoiava na parede onde havia se refugiado. Jan andava à sua volta, fitava-a com aborrecimento. Era óbvio seu esforço para manter o controle. - Eu não sei o que houve, mas está muito alterada. Não é o lugar nem o momento para tratarmos do assunto. Além disso, está muito pálida e precisa comer. Olhe para mim. O que lhe disseram? - A verdade que vem escondendo de mim há cinco anos. Por que continua mentindo, a quem quer proteger com isso? Graco? Jan Kmam saiu da presença de Kara e buscou a pequena janela do sótão para se refugiar. Por um momento, fechou os olhos, tentava se acalmar. - Tome cuidado com o que diz, pois me fere. Exijo que pare. Está indo longe demais. Nunca lhe neguei a verdade e se não revelei certos fatos foi para protegê-la. - Chega de proteção. Quero a verdade, mesmo que ela nos separe. Por que nunca me disse que Graco era seu filho? - Porque isso é mentira. Será que não percebe? - Mesmo? E quanto à aliança que me deu? Só então Kara notou que havia sumido de seu dedo. – O que diz a inscrição? – perguntou, sentindo a voz falhar. - Minha rosa eterna. Você, Kara – disse, aproximando-se imponente. - Repetiu a inscrição para todas as mulheres de sua vida? Ele a encarava incrédulo. Kara recostou-se na parede nauseada. Fechou os olhos para que não notasse seu estado. Ela não desejava sua pena, só a verdade. - O texto estava em relevo e eu não sou cega. - É a aliança que dei a Thais – confessou Jan. – Você é Thais renascida. Sua alma é a dela. Nada mais justo que devolvesse sua aliança – revelou sem medo, pois era nisso que acreditava. Cansado da distância imposta entre eles, Kmam avançou como um leão e a prendeu debaixo de suas patas. - Por que acha que teme tanto o escuro? A inscrição sempre fará sentido. Pensei que se sentiria mais segura, sabendo que estaria próximo de você. Mandei apenas limpar a pedra e o ouro. Ninguém além de você merece a aliança, mas isso pouco importa agora que você se desfez dela – murmurou carrancudo. - Eu não me desfiz dela... Não sei onde está. Chega, não me toque. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Não me trate desse modo, eu não fiz nada. Deixe-me ajudá-la. Jan Kmam percebeu o tremor sacudir seu corpo e tentou se aproximar. A pressão e os nervos venceram suas forças, a nuca doía. Kara despencou no chão como uma boneca sem vida. Ele aproveitou para tomar o controle da situação. Sobre a cama, Kara sentia a fraqueza dominá-la, precisava se alimentar ou seu organismo entraria em colapso, sucumbiria à inconsciência. Quando ele terminou de abrir a camisa e ferir a carne na altura do pescoço, colocou a amante diante do desejo. O cheiro do sangue quase a levou à loucura. Fechou os olhos, gemeu e o esmurrou com o resto de força que lhe restava. - Olhe para mim – Jan ordenou impaciente, fitando suas veias quase se partirem de fome. Pare de lutar e não ouse me recusar. Faminta, avançou sobre a carne e mordeu impiedosamente. Jan Kmam a envolveu em seus braços e fechou os olhos em êxtase. Ela afastou os caninos e sugou com força. Tinha os olhos semicerrados e as mãos em seus ombros nus. O sangue quente invadiu seu coração cheio do amor de Kmam. Ele se entregava sem reservas. Quando julgou suficiente, afastou-a de si e fitou a face da vampira que amava. Os caninos estavam à mostra, sujos com seu sangue. Podia ouvir sua respiração alterada, o coração batendo apressado. Ele cobriu sua boca num beijo possessivo para mostrar quem mandava. Vingava-se. Libertou seus lábios, mas em nenhum momento a soltou de seus braços. Os dedos sensíveis encontraram as cicatrizes deixadas pelo chicote. Tentou afastar a alça da camisola, mas ela deteve sua mão. Não teve jeito. Era como um pássaro preso nas mãos do caçador. Impaciente, ele rasgou o tecido exasperado. - Pare, Kmam! O que está fazendo? Jan! Não! – ela suplicou, quase nua diante dele. O olhar estava pesado e impenetrável, não dizia uma palavra. Quando conseguiu despi-la do trapo em que se transformou sua camisola, ele parou. Imobilizado pela cruel realidade, fitava os cortes marcando a pele pálida. Estendeu a mão, empurrou seus cabelos que parcialmente escondiam as cicatrizes. A violência de Graco havia marcado sua alma, ferido seu orgulho. Os soluços agoniados despertaram Jan do transe. Acolheu-a em seus braços para que chorasse. Seus erros haviam caído sobre sua cabeça, condenando-a impiedosamente. - Sempre me culpei por não ter conseguido defender Thais de Gustave, e agora vejo sua alma aterrorizada. Está em meus braços e não consigo sentir sua mente. Há algo em seu corpo que detém seus poderes. O que fizeram com você, meu amor? - Eu não me lembro. Kara tentou puxar da memória, mas só via vultos de branco a rodeando. Sentiu as agulhas em sua pele, a droga paralisando seu corpo. Subitamente, foi sacudida por um forte espasmo, uma espécie de convulsão. Jan Kmam a segurava a cama, olhava aflito. - Kara, o que houve, diga-me o que sente. Vitor! – berrou angustiado. Do mesmo modo que veio, a dor sumiu. Todavia, após o estranho desmaio, ela se sentia exaurida. Kara jazia deitada na cama, deixando Vitor examinar sua nuca. Após o desmaio, Jan notou que ela tocava a nuca com dores. Foi com espanto que perceberam o local roxo e dolorido. Havia algo sob sua pele. - Como isso é possível? - Infelizmente, é possível – interveio Vitor. – Estive com Sila e apesar de não ter citado o aparelho, acredito que seja capaz de criar algo desse tipo. Seu conhecimento é vasto, e ele dissecando vampiros há bastante tempo. - Eles pagarão com a vida por todo mal que causaram. - Tire isso de meu corpo. - É muito perigoso, pode haver ramificações. Tudo que tenho é um bisturi. Preciso saber o local exato para fazer uma incisão. Pode ser uma espécie de coleira, um localizador. Kara tocou o rosto de Vitor e o surpreendeu, só naquele momento ela o viu como vampiro. Ela sorriu tristemente e chorou infeliz. - Estou sendo egoísta pensando só em mim. Veja o que fiz com você. - Fiz minha escolha, você não tem culpa de nada. Erramos, mas teremos a chance de corrigir algumas coisas – disse tocando seu rosto abatido. Kara o abraçou enrolada no lençol e beijou seus lábios pouco ligando para o olhar de censura de Jan Kmam. Cumprimentava-o como um vampiro.

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Depois de Vitor sair do sótão, Kara vestiu-se em silêncio absoluto. Kmam não fez nenhum comentário, apenas lhe deu algum tempo. Podia ver sua fragilidade, o corpo sem defesas, a distância que impuseram aos seus sentidos. Continha as lágrimas de tristeza. Seus poderes pareciam não existir, a noite novamente era um emaranhado de sons, a escuridão a única imagem que captava além da janela. Jan a observava esperando seus movimentos, temendo por sua segurança. Ele a vigiava da janela sem que ela percebesse, atento aos movimentos na rua. - Aonde pensa que vai? – Jan quis saber assim que cruzou a porta do sótão. - Sinto fome. Vou sair para me alimentar. - Otávio estava certo, estou sendo muito condescendente. Não ensinei você a me respeitar, por isso se comporta com uma criança mimada e desobediente. - Para Otávio todas as vampiras deveriam ser submissas, escravas de suas vontades e seus desejos. Não sou sua escrava e jamais serei. Após seu discurso feminista exaltado, Kara sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo. O olhar de Jan estava sombrio. - Venha, Kara, precisa se alimentar. Vou lhe ensinar as regras. A palavra-chave é obedecer. - Não seja ridículo. Por que está fazendo isso? Não vou jogar esse jogo. Prefiro morrer de fome – avisou revoltada. - Beba! – Jan Kmam falava muito sério. Quando sua mão se fechou com força sobre seu punho delicado, a vampira tremeu instintivamente. Relutante, Kara preparou-se para mordê-lo no pescoço. - Você voltou a ser pupila e se quiser se alimentar será de meu pulso, não estou com paciência para lidar com sua teimosia. Pela primeira vez em vários anos Kara receou ir contra ele. Estava cansada e faminta. Segurou seu braço e o levou aos lábios. As lágrimas escorriam por sua face, enquanto o sugava. Ao decidir que ela já estava alimentada, Kmam puxou o braço e fechou o punho da camisa sem nenhum constrangimento. A vampira enfrentou seu olhar poderoso e nenhum dos dois cedeu. - Venha, hora de dormir. - Quero outro caixão. Havia uma certeza oculta em sua confissão: a que lutaria até o fim para fazer valer sua vontade. Era uma queda de braço e Jan Kmam estava disposto a ganhar. Kara cruzou os braços e deu as costas para sua face arrogante. - O sol não tardará a nascer. - Vitor deve ter outro caixão. Vendo que ela ainda lutava, agarrou-a com força e a arrastou para seu caixão. A tampa fechou-se na escuridão. No espaço resumido foi difícil ignorar Jan Kmam. O peito largo e forte esmagava os seios, a face imperiosa bem perto da sua. Ela virou de costas e a situação ficou pior, pois ele colou o corpo no seu. Impunha sua presença. - Estou com saudade e nada nem ninguém vai me impedir de dormir abraçado ao seu corpo, nem mesmo você, ma petite. - Deixe-me em paz. - Voltei a ser seu monstro favorito, ma chérie? - Sim. - Ótimo, então estamos em casa. As mãos de Jan Kmam pesavam sobre o corpo da vampira que desejava ardentemente retribuir e esquecer tudo, mas, ao invés disso, empurrou-o com o cotovelo. Sem muitas alternativas, fechou os olhos e esperou o sono dominar seus sentidos.

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23. INTERMEZZO – O FIM O primeiro rosto que viu ao despertar foi o de Vitor. Estava parado junto à janela observando a noite, certamente responsável pela segurança. Vitor notou a busca silenciosa do olhar da vampira e avisou que Jan Kmam havia saído há uma hora e prometido retornar o mais breve possível. As ordens eram para que permanecessem no casarão à sua espera. - O que está acontecendo, Vitor? Quem é Graco? - Um meio-vampiro perigoso e com muito poder. Ao revelar a destruição do laboratório e o fim de todas as amostras de sangue lá condicionadas, Vitor tirou um grande peso da consciência de Kara. No entanto, criou novas interrogações ao falar dos símbolos e do salão onde ambos estiveram, sem contar a presença de Mercúrio. Aparentemente, ela não se lembrava de nada. - Obrigada por me tirar daquele lugar. Não sei quanto tempo mais teria suportado – disse, estendendo a mão que Vitor segurou e beijou reverente. - É, mas não fiz tudo sozinho, Mercúrio nos ajudou, sem ele não teria conseguido sair do CEPS. E, por favor, não tente usar seus poderes – pediu, percebendo a vampira exausta mesmo depois de um dia de sono. - Estou bem, só perdi meus poderes, a liberdade e a credibilidade que depositava em Jan Kmam. Existe laços de sangue entre mim e Graco. Ele pode tocar minha mente, talvez seja filho de sangue de Kmam. - Parou para pensar que isso pode estar acontecendo devido ao aparelho? A vampira não tinha pensado nessa possibilidade, e isso a deixou ainda mais confusa. Assim que Jan Kmam chegou, dirigiram-se para um hotel. Kara não fez nenhum comentário sobre a simplicidade do lugar ou sua localização próxima ao aeroporto, mas a escolha trazia algumas certezas. Agiam às escondidas. As três passagens com destino a Paris só confirmaram a suposição. Havia compras sobre a cama, roupas e duas mochilas. Kara separou as roupas, enquanto o observava fechar as cortinas. Naquele momento, mais calma e lúcida, sentiu a falta de algo. - Quando vai me dizer o que está acontecendo e onde está o seu anel? Jan Kmam a mirou demoradamente e simplesmente apertou seus dedos delicados com carinho. Puxou-a para que sentassem juntos na cama. - Abdiquei do meu lugar de favorito. - Esse foi o preço dos meus erros? - Não. Foi minha escolha e de mais ninguém. - Deixe-me ir até eles. Posso mudar isso – pediu. – Por que está me tratando desse modo? Não é justo. Deixe-me assumir minha culpa. Prefiro enfrentar os Poderes a ter de lidar com sua raiva. - Nesses últimos cinco anos venho tentando ensinar-lhe as leis de nosso mundo. Hoje vejo que não aprendeu nada, pois me cobra ações descabidas diante de tais leis. Em nosso mundo a justiça é feita através do Livro. Você errou, você sofre as conseqüências. Meu erro foi dar a você direitos que não tinha maturidade para desfrutar. Paguei por meu erro, agora é a sua vez. O novo Jan Kmam a surpreendia a cada minuto. Afastou-se, não queria que visse suas lágrimas, agora uma constante. Talvez aquela fosse sua face real. O vampiro que jamais ousou imaginar existir dentro de sua natureza. O amor que sempre teve como rosas agora a feria com espinhos. - Nosso vôo sai às três da manhã, temos oito horas de espera. - Será que o feri tanto assim, Jan? - Conhece todas as respostas, então não me aborreça com mais uma discussão que não nos levará a nada. - Em todos estes anos de convivência, jamais havia me tratado de forma tão humilhante. - Estou protegendo você. - Isso não é proteção, é posse.

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- Por que está surpresa? Isso é o amor vampiro: posse e fome. Um mestre e um servo. Um dia entenderá meus motivos e quem sabe pare de me odiar. Vamos, não será de outro modo – avisou, oferecendo-lhe o pulso. – Obedeça. O sangue tinha um sabor amargo e não alimentou a fome ou silenciou o coração ferido da vampira. Ela se refugiou na cama e lá chorou até adormecer, sob o olhar meditativo do amante. O que é um vampiro? Um ser irracional que somente pensa em sangue? Não, eles são criaturas destemidas e inteligentes. Força e poderes que ultrapassam os limites conhecidos. Dentro deles vive uma capacidade única de sobrevivência, e para eles o espaço e o tempo não existem. Ariel Simom usou todos os meios que conhecia, mesmo a distância. Quebrava regras e leis, ia contra a vontade do amante e mestre Jan Kmam para, por um breve momento, tocar Kara Ramos. Kara estava muito distante da consciência. O estranho sono que a dominava a arrastou para muito além do quarto de hotel onde seu corpo repousava. Atravessou uma fronteira mental que poucos sabiam existir. No sonho, Jan estava sempre à sua frente sorrindo, mas quanto mais tentava alcançá-lo, mais distante ele parecia ficar. Quando finalmente tocou seu corpo, uma luz a cegou momentaneamente. Agora podia sentir o chão sob os pés descalços. Percebeu-se sozinha. À noite a rodeou de forma protetora. A lua brilhava grandiosa, iluminado o jardim. Havia uma profusão de flores e rosas, pequenos coretos, cobertos por hera. No ar, acima de sua cabeça, vampiros flutuavam. Sentia-se dentro de um sonho. Tocou o copo e percebeu ser vem real, vestia uma túnica leve e branca. Ocupou um dos bancos de pedra, e por um segundo não sabia onde estava. Uma nota suave quebrou o silêncio que a rodeava. A melodia era convidativa e delicada, um chamado muito forte. Kara levantou do banco e seguiu buscando a fonte daquele som. Caminhou por entre os arbustos, enquanto afastava os galhos, ficando cada vez mais distante do ponto inicial. As plantas fechavam-se detrás de seus passos. Nada importava além da música. Rosas orvalhadas roçaram sua face suavemente. A melodia parecia estar cada vez mais perto. Kara afastou um galho mais baixo e finalmente viu o vampiro. Tinha a cabeça inclinada sobre o violino, os cabelos vermelhos. De olhos fechados, viajava na melodia do violino. O arco foi afastado das cordas, a composição chegou ao fim. A íris verde tinha um brilho encantador. - Estava a sua espera. Kara fitou a mão estendida e viu um anel de rubi. Tinha unhas longas e translúcidas, era fascinante. O convite não lhe pareceu ameaçador, mas resolveu manter-se distante. - Bastou um chamado meu para que encontrasse o caminho. Isso prova o quanto é especial. Pergunto-me quantas vezes mais nos veremos furtivamente. Quisera ter sido o primeiro, mas não posso viver a eternidade lamentando. Sabe onde está, Kara? - Não – ela respondeu, sem perceber a enorme sedução usada sobre si. - No jardim. Para cá vêm somente os herdeiros do sangue antigo. A essa altura o vampiro a rodeava. Alcançou um cacho de seus cabelos e o levou aos lábios para beijá-los. - Quem é você? – disse recuando, temendo seus modos atrevidos. - O rei dos vampiros. Kara recuou sobressaltada. Não sabia se deveria se curvar ou simplesmente esperar. O certo é que a descrição de Jan Kmam era fiel ao vampiro que estava diante de seus olhos. Os cabelos ruivos, os olhos verdes, os modos, o sorriso um tanto travesso. Era jovem, gracioso e sedutor. Jan havia dito para não confiar no rei. Ela lhe devia reverência, se dúvida, mas ao tentar se curvar, ele a deteve. - Queria apenas estar na sua presença antes do fim. Admirar o que de mais belo foi criado nos braços da morte, minha querida. Estou morrendo, tenho direito a um último desejo. - Você não pode morrer. É o rei dos vampiros – afirmou, fazendo-o sorrir. - Fui envenenado. Tocaram minha carne imortal com um beijo roubado. Ainda sinto a dor e a angústia como se fosse um mortal. Preciso de seu sangue para me curar. Num gesto espontâneo e solidário, Kara estendeu o pulso em sua direção. Ariel o tomou entre os dedos e beijou com reverência a carne delicada. - Beba, sei que não me fará mal.

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- Como pode ser tão doce e ao mesmo tempo tão letal? Seu coração é uma jóia rara e preciosa, menina. É nele que pretendo viver. - Não tenho medo, beba – ofereceu, sentindo os dedos frios acariciavam sua pele, sem perceber o que fazia. - Conheço sua coragem. Sua força vai além do que seu amado pode supor ou conter. Aquele tolo! Acreditou que poderia minimizar seus poderes alimentando-a do próprio punho. Procure-me, Kara. Venha salvar a mim e a Jan Kmam. A vida dele está em suas mãos. - O que há com ele? - Ele traiu os Poderes e tudo que sempre jurou defender. Fez isso por seu amor. Ele tenta inutilmente afastá-la de seu destino. A Ordem está caçando Jan Kmam e tem ordens para matá-lo caso não se entregue, mas você pode impedi-los. Busque-me, deixe minha alma conduzir a sua. Deterei a Ordem, basta aceitar. Os pedidos de Ariel eram uma armadilha sem volta. Suas afirmações desesperaram Kara. A vampira deu passos incertos, buscou apoio em algo ou alguém. A cabeça doía novamente, respirava com dificuldade. - Eu não compreendo o porquê de tudo isso. Eu não sou nada. - Aqui está sua resposta. Contemple sua verdadeira alma, Kara Ramos. Ariel Simom ergueu a mão e fez surgir diante deles um círculo líquido e reflexivo. O estranho espelho fez Kara se afastar apreensiva. - Feche os olhos – Ariel pediu sussurrante junto ao seu ouvido, seu lábio tocou o lóbulo de sua orelha. Seus olhares se encontraram no espelho. Kara sentiu a mão do rei sobre seu braço, viu o brilho do rubi e fechou os olhos, confusa.Ariel Simom tentava seduzi-la. - Já pode abrir, minha rainha – a voz era um convite que exigia rendição imediata. Diante do espelho, Kara viu-se transformada. A túnica branca havia dado lugar a uma veste vermelha feita de véus delicados, quase transparente e bordada com fios de ouro. Seu corpo surgia magnífico em formas e contornos. Calçava sandálias leves de couro e prata. Sobre os seios, deslizando na transparência da túnica, usava joias rebuscadas. Dos cabelos pendia uma teia de prata que emoldurava os cachos negros. Kara recuou e viu nas mãos anéis e braceletes. - Não é esse o meu destino. Afaste-se de mim! A vampira reagiu como sabia fazer muito bem e tentou recuar, mas foi contida diante do espelho. Mesmo com medo e repudio a tal ideia, foi obrigada a encarar sua imagem junto à de Ariel. - Sim, você será minha rainha. O jardim havia dado lugar a um mundo feito de escuridão e névoa. Ariel conhecia seus medos e queria forçá-la a vir até seus braços. - Despeça-se de seu amante e siga comigo. Pouparei a vida de Jan Kmam se aceitar minha proposta – a oferta estava ali, clara e detestável. - Jamais, está ouvindo? Você mente. - Ele me traiu, entregou o anel de favorito para lutar por você. Acredita poder fugir de meu poder. Tolo! Pouco importa para onde a leve, Kara, eu sempre estarei em seus sonhos. Kara puxou as joias do pescoço diante do olhar aborrecido de Ariel e as jogou no chão. Amedrontada, fugiu dele para dentro da névoa. - Jan! Jan! - Eu estou aqui. Acorde – Jan a segurava fortemente sobre a cama, evitando que se debatesse, era cedo para entrarem-no caixão. Aflita, fitou o rosto conhecido do amante e jogou-se em seus braços. Apertava-o com força e escondia a face na curva de seu pescoço. - Não conseguia achar o caminho. Estava sozinha. - Está tudo bem agora, ma petite, acalme-se. - Precisamos ir embora. - Logo estaremos em Paris. Jan Kmam a deteve junto ao seu corpo, beijou seus cabelos. Ela fitou sua mão e a falta do anel de favorito a atormentou mais e mais. As palavras do rei eram verdadeiras. Jan percebeu sua agonia. - Onde esteve? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Num jardim. O olhar de Jan Kmam tornou-se escuro, o corpo enrijeceu involuntariamente. A face tornava-se cada vez mais dura. - O que viu lá? Havia um vampiro de olhos verdes? - Só estava escuro e havia uma música. Foi só um sonho ruim – disse tentando encerrar o assunto. - Há muitos anos não tinha pesadelos. - Só lhe trago problemas, não é mesmo? Fiz você perder seu lugar de direito ao lado do rei. Eu não quero que nada de mal aconteça. - Nada de ruim vai nos acontecer, prometo. O amor que me oferece é mais precioso que um cargo e um anel de ouro, até mesmo do que um rei. - Gostaria de poder voltar no tempo e apagar meus erros. - Somos vampiros, Kara, não deuses, mas logo estaremos em Paris. De lá vamos para Veneza. Vai dar tudo certo. Os dois se beijaram. Jan Kmam brincava com seus lábios, provando-a, excitando-a com a ponta da língua, acendendo o desejo, transformando-o em uma chama perigosa. Kara desejava ser possuída por ele, sentir seu corpo junto ao dela numa união pela e esquecer pelo menos por um instante seu destino. - Melhor não, está fraca. Tenho medo que não suporte a mordida. - Morrerei feliz em seus braços. Eu te amo tanto – sussurrou, enlaçando-o pelo pescoço apaixonada. Jan Kmam tentava conter-se, mas as mãos tinham vida própria e percorriam o corpo da vampira sensualmente. Kara tomou posse de sua boca num beijo ardente e o ouviu gemer e buscar a curva de seu pescoço, enquanto as mãos seguravam seus cabelos. Ela esqueceu seus modos grosseiros e as palavras duras, pois tudo o que desejava era ficar nos seus braços, redescobri-lo, reinventar cada beijo e carícia, relembrar o amor que dividiam quando resolviam ceder seus corpos um ao outro. Seu sangue corria depressa nas veias, era o toque de Jan Kmam, o modo como a despia depositando um beijo em cada peça que caía ao chão. Ele admirou o corpo nu da vampira entre os lençóis para só então libertar o peito largo da camisa. Como um colosso, mergulhou no leito. Quando seus lábios alcançaram a penugem do sexo, ela ofegou. Kara apertava seus ombros enquanto gemia. Sentia que ia perder o controle tamanho o prazer que a consumia. Sua carícia felina sobre a pele do amante somente aumentou seu desejo. De olhos fechados, gemia baixinho com os dedos emaranhados em seus cabelos. O corpo forte deslizou entre as pernas macias da vampira. Em resposta, ela o enlaçou. Jan Kmam a mordeu de forma aguda, o prazer foi ainda maior. Kara o abraçou com força incentivando-o a prosseguir. Jan afastou os lábios de sua carne e fitou o rosto languido da amante. Só nesse instante ele percebeu que ela desfalecia. Se perdesse os sentidos, poderia não mais despertar. - Força, meu amor, beba. Beba! Foi por muito pouco. Kara tentava se matar. Queria morrer nos braços de Jan Kmam e fugir do futuro, mas seu plano falhou e só o deixou mais possessivo e protetor. Dormiu prendendo-a nos braços. A vampira precisou manobrar cuidadosamente para sair da cama sem acordá-lo e tentar sua última cartada. Deixou o hotel transtornada demais para pedir um táxi. Caminhou pelas ruas desertas do centro sem se importar com os riscos, tudo que desejava era fugir. Os prédios escuros pareciam observá-la à medida que passava por eles. Via sombras nas grades dos porões, ouvia sons estranhos. Sentia medo da noite que, depois de tantos anos, tinha se tornado uma estranha aos seus olhos. A despedida custou um pedaço de seu coração e de sua alma, mas ela se fazia urgente, Cansada, recostou-se onde a luz do poste não a alcançava. Tocou seu peito, o coração batia agitado. O sangue de Jan Kmam sorvido no ato de amor parecia acusá-la da fuga. Era o peso de sua escolha. Cobriu o rosto e chorou ao se lembrar do corpo do amante adormecido no leito, o modo que partiu sem dizer nada. Respirou fundo e deixou sua mente tocar a do rei. Lembrou-se da face do vampiro no estranho sonho, lançou seus pensamentos e, com aborrecimento, percebeu que não havia dor. Não tardou para que entrassem em acordo. Eles viriam busca-la. Kara havia se oferecido ao rei em troca do perdão total para Jan Kmam. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Vitor surgiu da escuridão e a tomou nos braços, tentando consolá-la. - Fiz o melhor para todos, salvei Jan Kmam. É melhor que vá embora. Diga-lhe que o amo. - Não sabe do que fala, Kara. - A ordem está nos procurando e caçando Jan Kmam. A culpa é minha por causa do maldito diário. Kara fitou a expressão inócua de Vitor e constatou o óbvio. - Sim, eu já sabia. - Por que não me disse? - Kara, você vai voltar comigo agora. Está confusa e nervosa demais para agir com clareza. O que fez a Kmam? Como conseguiu fugir dele? Você não percebe, mas está em grande perigo. Entregar-se ao rei pode significar sua morte. Está pronta para isso? Vitor a dominou com facilidade e a colocou sobre o ombro pouco ligando para seus murros e berros. - Vou leva-la para o hotel. Ele saberá o que fazer. Usando seus novos dons, Vitor começou a perfazer o caminho. Galgava os prédios alcançando seus telhados com a vampira sobre o ombro. Já estavam no meio do trajeto quando um casal de vampiros apareceu. Vitor depositou Kara sobre o telhado do prédio e preparou-se para o ataque. Demétrius e Frigia tinham vindo a pedido do rei assegurar que Kara chegasse à sua presença, estavam armados com espadas. A borda do telhado do prédio vizinho não estava longe, mas sem seus poderes Kara não conseguiria saltar. Mesmo assim, foi o que fez. A altura deu-lhe vertigem, o olhar dos vampiros acompanhou sua insanidade. - O rei a espera, majestade. Não cometa nenhuma loucura, afaste-se da borda – pediu Demétrius, reverente, estendendo-lhe a mão. Kara parou e afastou-se da beirada pronta para segui-los. - Ela não vai a lugar nenhum. - Renda-se e morra com alguma dignidade – ordenou Frigia. - Afastem-se ou os matarei. Esquecem o que sou? – Vitor mostrou os caninos, a face alterada pela força da besta. - Já lidei com criaturas piores do que você! – Frigia estava pronta para usar a espada. - Chega. Eu vou com eles, Vitor. Demétrius estendeu a mão em sua direção, pronto para conduzi-la. Frigia esperava somente que se afastasse de Vitor para dar início ao combate. Vitor deslocou-se rapidamente e agarrou Kara com as unhas em sua garganta e os caninos próximos de sua face delicada. Ameaçava contaminá-la e eliminar a chance de salvação do rei. Surpresos, Demétrius e Frigia avançaram apontando as espadas em sua direção. A ideia era preservar a vida da vampira. - Solte-a! – ordenou Demétrius. Kara podia vera lâmina bem perto de seu corpo e sentia a pressão das mãos de Vitor sobre sua jugular. - Afastem-se ou a morderei – ameaçou com a voz carregada de selvageria. Eles precisavam pensar com clareza e proteger a vida da vampira, havia muito em jogo. Milagrosamente, guardaram as espadas. Quando Vitor acreditou que poderia afastar-se sem perigo, eles pularam sobre os dois. No choque, Kara sentiu a costela estalar. Foi puxada com toda força para longe de Vitor, enquanto Frigia o apunhalava repetidas vezes. Caída no chão, gemia segurando o peito dolorido. Demétrius tocou seu tórax e notou o osso fora do lugar. A vampira virou o rosto sentindo sangue na boca quando o viu. Jan Kmam surgiu das sombras em passo felino. Demétrius ainda tentou alcançar a espada, mas antes que a tocasse recebeu um golpe poderoso na espinha. Caiu de joelhos próximo ao corpo de Kara, estava completamente imobilizado. Com alguma sorte, Vitor conseguiu tirar o punhal das mãos de Frigia. Em um ato reflexo, lançou a vampira sobre a borda do prédio. Ela despencou pesadamente sobre as latas de lixo na rua e não se moveu, havia perdido os sentidos. Jan Kmam guardou o punhal bifurcado com o qual atingira Demétrius e aproximou-se de Kara. Ele a tocou e empurrou com um único golpe, levando-a a gritar de dor. Depois disso, ergueu-a do chão com cuidado e deixou-a nos braços de Vitor, com um olhar ressentido. - Leve-a daqui.

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- Me solta, eu vou com eles. Não vou permitir que morra para me defender, Jan. Deixe-me ir, não tem direito de me impedir. Chega de luta – Kara viu o desapontamento e a raiva em sua face, mas não desistiu e continuou lutando. -Tem razão, Kara, chega de luta. Jan tocou o centro de sua testa com o dedo. Foi como receber uma forte pancada na cabeça. Pernas e braços amoleceram. A visão estava borrada, mas ela ainda pode vê-lo se afastar com a espada em punho. O último som que ouviu foi o das lâminas colidindo. Ele lutava com os exterminadores.

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24. OS PODERES DE SANGUE Kara acordou sobre uma pilha de tijolos cobertos por uma lona. O cheiro forte de argamassa e cimento estava no ar. O som do vento sacudindo sacos plásticos chamou sua atenção, eles cobriam as janelas inacabadas. Viu ferramentas espalhadas e baldes de tinta. Estava em um prédio em construção, com o braço algemado a uma coluna de ferro. –Jan? Vitor? Alguém ai? – Estou aqui fora Kara você está bem? Vitor aproximou–se e fiou os olhos dilatados da vampira. Havia sangue escorrendo por seu nariz. Ofereceu um lenço e tentou compreender seu estado de fraqueza. – Estou ótima, onde está Jan Kmam? Ele está bem? – Sim, está ótimo. Foi lá embaixo averiguar um barulho. A superioridade do favorito do rei ficou obvia para Demétrius e Frigia. Nunca os tinha visto lutar daquele modo, mesmo quando enfrentou Gustave. Parecia dominado por uma força superior. – Ele os matou? – Não, mas levaram uma surra. Pode estar certa que estão muito mais perigosos agora. –Quem são eles? – São chamados exterminadores. Trabalham para manter as leis do tal Livro. São como James Bond. Têm licença para matar. Fugir foi uma grande tolice. Jan Kmam está furioso. – Estou mesmo – a voz de Jan Kmam ecoava seu desânimo. – Vitor, fique de guarda. Se ouvir gritos, não se preocupe em vir ate aqui. Está me entendendo? – dizendo isso, lançou um olhar que não podia ser contrariado. Vitor saiu e sumiu pelo corredor sem nada dizer. – Exijo que me solte imediatamente. O tapa a pegou de surpresa. Foi leve, mas atingiu seu orgulho. Tocou o rosto sentindo a insubmissão crescer, avolumar–se em seu peito. – Há quanto tempo vem me traindo com o rei? – Eu não fiz nada. – Você fez. Sua mente tocou a dele e ele mandou aqueles dois para buscá–la. Quer mesmo ir para os braços de Ariel ? – Vou evitar que cometa o maior erro da sua vida. – Está tudo consumado, e não é sua entrega que trará perdão. – Ele me prometeu que nada aconteceria a você. Tudo voltará a ser como antes – a confissão fez a incredulidade surgir no olhar de Jan Kmam. – Não sabe o que fez. Agora ele vai seguir seus pensamentos onde quer que esteja. – Acabou, será que não percebe? Não há como fugir. Já tomei minha decisão. – Não pode decidir. Você é minha pupila. – Desde quando me tornei sua pupila? Que eu saiba sempre fui sua amante. Desde a primeira mordida fui sua mulher. Dentro de meu coração eu sei que sim. – Deixei que tomasse conta de meu coração como uma roseira selvagem e veja só onde chegamos. O perfume e a maciez desapareceram e tudo que sinto é a caricia cortante de seus espinhos – dizendo isso a beijou com rudeza. – Não vou viver eternamente fugindo da Ordem, de Graco e daqueles dois. – Voce é minha amante e não vou permitir que o rei a possua. – Eles vão mata–lo! – ela falava aflita, tentava trazer a sanidade de volta. – Não há vida longe de seu olhar. Recuso–me a viver eternamente com sua ausência, vê–la no braço de outro. Prefiro a morte. – Então me mate também. Se esse é nosso destino, que possamos escolher quando, como e com quem. A face de Jan Kmam jazia mergulhada nun profundo abismo. Puxou a espada. Involuntariamente ela recuou, mas ao invés de tentar fugir, afastou os cabelos e deixou o pescoço à mostra pronta para receber o golpe. Ele sentiu uma presença no ambiente, voltou–se para porta e esperou que o vulto se revelasse. A pele de Kara se arrepiou. Uma energia poderosa se Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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apresentava. O vulto tinha a mesma altura de Kmam, o rosto estava oculto pelo capuz. Ele tirou a espada das mãos de Kmam. A lâmina tiniu ao cair no chão. Kmam foi o próximo a ser repelido. Um gesto de mão do estranho o jogou contra a parede. – O que quer de nós? Fique longe. – Acalme–se, eu nada farei a ele. Não vim provocar dor. A missão dele apenas começou, assim como a sua. As palavras daquele estranho encheram Kara de medo. Recuava de braço estendido, presa pela algema. O estranho estendeu o braço e exibiu o punho largo adornado por um bracelete de ouro. Na mão repousava um anel de escaravelho. A algema derreteu ao seu toque como se fosse feita de cera. Antes que Kara esboçasse o menor movimento de revelia, um surro varreu seus sentidos. – Durma. O estranho tinha nos braços. Recuou para as sombras e lá desapareceu tão magicamente quanto surgiu. Imediatamente Kmam se viu livre e despencou no chão. – Por que não o atacamos agora? – Valdés questionou Romano, enquanto observaram Jan Kmam e Vitor de longe. Na verdade, estavam a três prédios de distância. Ao tomar conhecimento da traição do favorito do rei, Romano teve a certeza de que algo ocorreria. Passou a segui–lo sem o conhecimento de Demétrius e Frigia. Fazia isso como o líder dos Lordes. –Chegamos tarde. Ele a perdeu novamente e desta vez para alguém bem mais forte do que nós ou os exterminadores. Eles viram a estranha aparição surgir e desaparecer levando Kara consigo diante de seus próprios olhos surpresos. A criatura, comprovadamente de natureza vampira, possuía poderes a eles desconhecidos. Otavio, reconheceu–o, mas nada falou. Mantive seu silencio contemplativo e desejou um final melhor para seu ex–pupilo. – A busca torna–se inútil – comentou Vadés, sentindo–se frustrado. – Voce já se aproximou e foi ate as ultimas consequências, Valdés? – Uma vez. – Jan Kmam fará o mesmo. Os vampiros ali oculto sabiam–se protegidos. Frágil como estava, Jan Kmam não os perceberia. Estava exausto. Havia perdido sangue durante a luta. Romano teve o prazer de assistir ao combate e lamentou tê–lo como inimigo. Jan Kmam sempre seria o favorito do rei, seu melhor representante. Os poderes e o modo lutava deixavam claro a nobreza de seu sangue. Foi o primeiro a enfrentar os servos do Livro e sobreviver, algo que aumentaria consideravelmente o prazer da caçada. Para escapar, Kmam teve de dominar as mentes de Frigia e Demétrius. A essa altura precisava de sangue e repouso. – Jan Kmam encontrará sua amante e então a tiraremos dele. A Ordem já decretou o fim do intermezzo, agora começa o desígnio. Precisamos estar ao lado do rei. Ele conta com a nossa proteção, senhores. Romano fitou o silencio de Otavio sem nenhuma emoção. No fundo, o líder dos Loredes sabia o quanto custava para aquele vampiro caçar o fruto de seu sangue. – Devemos procurar abrigo– sugeriu Otavio, sentindo o peso das horas Romano saltou e sumiu na noite seguido por Valdés e Otavio. No outro prédio, Vitor e Kmam tentavam entender o ocorrido. – Quem era ele? – perguntou o médico, fitando o cansaço na face contrariada do vampiro. Não estava diferente dele, afinal também tinha sofrido a pressão dos estranhos poderes da aparição. – Não faço a menor idéia, mas sei que ele vem da parte do Livro. Pude sentir o maldito me sufocando. Preciso descobrir o que deseja dela. Num movimento ágil, Kmam e Vitor colaram o corpo contra a parede. Leo Millano entrou de arma em punho, tentando enxergar dentro da escuridão. Vitor o agarrou e levou para Kmam. Millano o achou mais sobrenatural do que nunca. Tinha os olhos brilhando e os caninos a mostra. Sua pele parecia feita de mármore. Os cabelos soltos deixavam um ar selvagem. – Está longe de sua jurisdição, tenente, o que procura? – Persa, onde ela está? – Não faço ideia. Pode soltá–lo, Vitor. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Léo Millano tocou a garganta e observou Vitor com admiração e certo nojo. – Como me encontrou? – Localizei seu registro no hotel. Tenho minhas fontes, deixei–as em alerta. Vi Kara afastando– se do hotel e tenteio alcança–la, mas o dr. Vitor chegou primeiro. Um pouco à frente o vi lutando com aquelas duas coisas. Daí em diante foi fácil segui–los. Voce deixou um rastro de sangue– falou como o bom investigador que era. – Kara e Persa estão fora de meu alcance, mas existe um modo de descobrir onde elas estão. – Não acho seguro. Isso pode leve–lo a exaustão – ponderou Vitor, depois de ouvir as explicações de Kmam, que traçava estranhos símbolos no chão. Léo Millano ergueu os punhos da camisa de modo decidido e encarou Vitor com aborrecimento. Jan Kmam ficou de pé e começou a falar: – Quando estivermos dentro do circulo, não tente nos tocar, Vitor, seria destruído – Isso é suicídio – queixou–se, percebendo as olheiras de Kmam – Ele é sempre assim?– perguntou Léo Millano de modo tranquilo – O tempo todo. Sorte sua não ter de aturá–lo – disse de bom humor – Vitor, quando o ritual chegar ao fim, acha que consegue me levar ao hotel ante do sol nascer? Teremos só mais duas horas de escuridão. – Conte com isso. Jan Kmam tirou o relicário do pescoço e o segurou na palma da mão, enrolando a corrente de ouro no punho. Léo Millano deixou seus olhos pousarem na foto de Persa Zanne e esperou os movimentos do vampiro. – Agora. Os dois entram no circulo. Uma estranha brisa soprou dentro da sala. Vitor recuou e ouviu os sussurros invadirem o ambiente. Sombras negras tomaram de fora do círculo. Kmam puxou o punhal e viu Léo Millano estender o punho sem medo. O sangue brotou do corte e molhou a foto em sua mão do mesmo modo que o sangue imortal de Kmam cobriu a prata do relicário. Vitor via seus corpos envolvidos por um véu aeriforme e rubro do qual surgiram faces vampiras ameaçadoras. Lá dentro, Kmam e Léo tratavam uma luta maior. Suas mentes eram tomadas por vozes que os convidavam e seduziam. Estavam no meio da escuridão repleta de formas fantasmagóricas, faces medonhas famintas por sangue e almas para dilacerar. Léo se manteve firme e estendeu o punho como lhe foi ensinado. Seu corpo forte foi sacudido violentamente, as visões o assaltavam. Jan Kmam acompanhava tudo de olhos abertos, sua imortalidade lhe dava esse poder. A única luz a protegê–los vinha de seus pulsos, onde parte do objeto do amor os escutavas. Individualmente, suas mentes viam o que procuravam. Léo caiu de joelhos. Mais um pouco e sucumbiria. O vampiro ergueu o punhal e murmurou: – Eu pagarei o preço. O punhal desceu como se estivesse em câmara lenta e no caminho cortou a escuridão que os envolvia, sugando tudo para baixo num torvelinho. Ao tocar o solo, o centro do circulo o partiu ao meio. O choque fragmentou a escuridão à volta deles como se fosse um pedaço de vidro negro espatifado em mil pedaços. O estouro balançou levemente o prédio, jogando Vitor sobre as sacas de cimento. A poeira baixou aos poucos. Vitor correu em direção a Léo e Jan kmam, atirados no chão. Millano estava consciente, mas não conseguia ficar pé, sofria os efeitos do estranho ritual. Jan Kmam parecia bem pior estava inconsciente. – Vitor, o sol – avisou Léo, observando o amanhecer além da janela. Vitor apoiou o braço de Kmam sobre o ombro e desapareceu num movimento ágil. A manhã vinha ligeira, as nuvens estavam cada vez mais clara. Quando alcançou o hotel, sentia a luz sobre sua jaqueta, seus corpos já esfumaçavam. Vitor soltou Kmam no chão de qualquer jeito, bateu a janela e passou a cortina. Para seu desespero era fina demais. Correu para o banheiro, um pequeno quadrado de cimento com apenas uma entrada de luz. Cobriu–a com sua jaqueta, ajudou Kmam a entrar no caixão, trancou a porta e sem alternativas o seguiu batendo a tampa.

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25. RADAMÉS E KARA, A VAMPIRA A vampira despertou numa câmara redonda. A porta de entrada perdia–se ao longo de uma extenso corredor. A iluminação era precária e vinha de pequenas aberturas feitas na rocha, onde velas tremulas pareciam morrer afogadas nas poças de cera líquida. Kara sentou–se na plataforma onde seu corpo repousava e abraçou os joelhos. Estava com o frio devido a uma brisa úmida, de odor arenoso. Tocou o vestido branco que vestia e ansiou por suas roupas. Estaria sonhando novamente? Os lados da plataforma estavam cobertos de rosas, folhas, símbolos e inscrições antigas. Era sem duvida câmara de repouso de um vampiro. O silencio seria total, não fossem os pingos de água distantes e o sussurro triste do vento. A câmara escureceu ainda mais. Duas velas haviam se apagado. Kara desceu da plataforma e pisou no chão úmido mas extremamente limpo. Viu uma mesa grosseira de madeira a poucos passos de onde estava. Sobre seu tempo escurecido repousavam vários objetos. Tentando se sentir melhor, acendeu varias das velas e logo a câmara parecia um salão de festas de tão iluminado. Assim, pôde analisar os demais objetos. Havia uma adaga muito antiga, rica em pedras e detalhes, e um velho candeeiro. O que mais chamou sua atenção foi um pergaminho, talvez por reconhecer a folha feita de papiro. Encantada com sua textura, cor e seu acabamento, começou a desenrolar seu corpo, mas sentiu um vulto se aproximar e esqueceu o pergaminho por completo. O vulto fechou a porta arredondada em frente à vampira. Manteve–se imóvel. Kara estava diante do mais belo, fascinante e exótico vampiro que já havia visto. Vestia–se como um egípcio. Envergava um kalasíris de linho puro. A vestimenta era negra e não escondia os músculos do peito valoroso, o quadril estreito, as pernas e coxas torneadas e lisas como todo corpo. Aquele vampiro beirava extremos consideráveis. Seria sacerdote ou guerreiro? A beleza dos músculos e ossos da face era ressaltada pela cabeça raspada. Notou que trazia um embrulho de seda vermelha em suas mãos. Quando o depositou sobre a plataforma, Kara percebeu os braceletes de ouro nos punhos largos. Andava suavemente pela câmara. O brilho da corrente de ouro chamou a atenção para o amuleto em forma de escaravelho. Por um momento ele pareceu se mover. O corpo em ônix, os olhos de lápis – lazúli e a riqueza dos detalhes davam vida a joia. A vampira o fitava hipnotizada. Levantou o olhar e encontrou os olhos castanhos do vampiro. Estavam muito próximos, podia ver a textura de seus lábios carnudos. Por um instante, teve a impressão de ser tocada na face, mas sua mão nada encontrou. Ele se movia rápido demais para ela. tentando se defender Kara empunhou a adaga. Um sorriso misterioso brincou nos lábios do vampiro, que sumiu diante dos seus olhos. Assustada, sentiu a pressão leve de seus dedos no seu punho tomar–lhe a arma. Sua voz soou de modo aveludado. Podia sentir o timbre acariciar sua pele, fazer seu corpo tremer. – Não está na minha presença para que lutemos. Gostaria de vestir algo mais apropriado? – pergunto, apontando para o embrulho que trouxera. – Só então Kara lembrou que a túnica que vestia era transparente. Ela cruzou os braços sobre o peito, ruborizada. – Parece sentir frio vou esperar lá fora. Sem alternativa, vestiu o traje e sentiu uma estranha sensação de poder. Calçou as sandálias e colocou as joias. A sensação aumentava à medida que terminava de se aprontar. Empurrou os cachos para trás e colocou sobre eles uma espécie de teia feita de fios de ouro. Desejou ardentemente um espelho, não havia nenhum. O vampiro parece escutar seus pensamentos, pois surgiu novamente na câmara e colocou um diante de sua face. Kara se fitou seu reflexo e se surpreendeu. Provavelmente era uma ilusão, fruto dos ornamentos que usava. Sua beleza parecia maior. Trocou os ornamento sobre o colo, analisou a vestimenta. Novamente a sensação de prazer e poder dominou seus sentidos, como se fosse acariciada. – Já vesti esta roupa, ela me foi dada pelo rei. E em nome dele que está aqui? – Ariel se precipitou e pagará muito caro por seu erro. – Quem é você, afinal? –Meu nome é Radamés. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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– Radamés. Você quer dizer o Radamés? – perguntou atônita. – Que eu saiba não há outro, ou há – quis saber, risonho e bem humorado. – Disseram que estava morto. – Todos nós estamos, minha rainha. Venha, vamos para minha câmara. Radamés acendeu uma tocha e estendeu a mão em direção de Kara. Ela fitou a palma alva, os dedos longos e as unhas grandes e finas. Decidiu acompanhá–lo, já que as opções não eram muitas. tocá–lo fez um leve formigamento percorrer o corpo de Kara, algo quase elétrico. Ele puxava com suavidade através das galerias pareciam não ter fim. Perdiam–se em corredores escuros, onde a luz da tocha não iluminava. Não havia marcas, setas nem indicações a seguir. A câmara estava iluminada e perfumada de mirra, e o piso coberto por tapete de palha trançada. Havia cadeiras sem encosto e, mais adiante, uma pesada mesa de madeira repleta de pergaminhos, além de um candelabro e objetos que não identificou de imediato. Notou uma plataforma semelhante aquele em que tinha despertado. Era o local de repouso do vampiro. Radamés ofereceu acento e não demorou muito a falar. – Gostou do traje, minha rainha? – Estou farta de receber vestidos e depois uma cantada. Este já é o terceiro. – A seda coma qual seu traja foi confeccionado veio de Sido – esclareceu Radamés, se dar atenção a sua irritação. – Conversei este traje comigo para este momento. Bonito, verdade, mas pequeno diante de sua grandeza. De gato o traje era maravilhoso e o toque da seda sobre a pele era algo de divino. Kara sentiu– se transportada para um passado muito distante, mas não lhe diria isso. – O que significa tudo isso? Não aguento mais essa confusão. E pare de me chamar de rainha. – Acalme–se. O que deseja saber? – sua proximidade fez a pele dela formigar. – Por que todos enlouqueceram? – Sua presença trará o caos, a mudança e a morte. É o seu destino, é seu dever. Foi esperada com grande ansiedade e temor. Você faria os Poderes mudarem. Vi nas estrelas seu nascimento há mais de dois mil anos. Claro, essa foi sua primeira vida neste mundo. Todavia, não menos importante que qualquer outras de suas reencarnações. Acompanhei seu crescimento e tentei trazê–la para nosso mundo, mas cheguei muito tarde. Você morreu em meus braços vitima de uma misteriosa febre. Queria coroá–los juntos, mas falhei. Hoje sei que alguém com quatro mil anos ainda pode amadurecer. – Você fala como se eu fosse um tornado. Pare de me olhar desse modo. Não sou rainha. Sou apenas Kara Ramos. Não há nada de diferente em mim. – Por favor, deixe que expresse minha sincera devoção. – Posso impedi–lo? – Receio que não. É reconhecida porque traz consigo muito poder. Aviso que perde seu tempo ao se aborrecer com as comparações que fazem. É somente o tempo lhe mostrando que é eterna. O mundo hoje é tão medíocre para tê–la sobre sua face. Vece foi talhada para grandes palacetes. Em outros dias estaria oferecendo um banquete em sua homenagem. Todavia, tê–la em minha presença é motivo de alegria. De certo, carrega muito de suas antigas vidas. Ainda reconheço o olhar escuro e misterioso, por vezes impaciente, e as mãos pequenas que tantas vezes beijei reverente. E sim, a mais bela boca que já vi. Uma rosa de pétalas macias na proporção certa para acariciar o objeto de seu desejo e de fragrância única que hoje só oferece ao seu amado Jan Kmam. O comentário fez um tremor percorrer o corpo de Kara, algo como uma lembrança antiga de sensualidade, a mesma que sentiu a tocar Radamés e ouvir o timbre suave de sua voz. Se acaso fechasse os olhos, poderia sentir sua respiração sobre a alvura dos ombros estreitos, as mãos dele envolvendo sua cintura. – Por favor, o que deseja de mim? Veio, porventura , me matar? – Felizmente, não caberá a mim julga–la. Confesso que preferiria a morte a tal decisão, já que sou sabedor de seus crimes. Os Poderes e o rei farão isso no momento apropriado. Seu gesto a condenou, mas esta era sua missão: leva-nos a beirada do abismo, diante de nossas fraquezas e de nossa fragilidade. Ao assumir o trono, Ariel trouxe medo ao mundo vampiro, seu poder era enorme, mas através de grandes feitos ele conquistou o respeito dos súditos. Claro, muito sangue foi derramado no processo. Dois mil anos no poder graças a sua capacidade de governo, sua Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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espada e inteligência sagaz. Ele é a verdadeira força vampira que nos manteve protegidos por tantos séculos. E você, meu pequeno falcão, veio revelar isso com seu erro. Deixe–me mostrar algo. Foi com fascinação que Kara viu os mais belos e raros rolos de pergaminhos e papiros. Radamés notou sua admiração ao tocar os pequenos potes com pigmentos em diversas cores. Usava-os na confecção dos pergaminhos. A quantidade de objetos era grande. Um almofariz, pedaços de carvão, pós de cores escuras e odores fortes, pedras, âmbar, cera de abelha, pequenas ferramentas de corte, velas, pavios, óleo num pequeno cântaro. Radamés desenrolou um dos pergaminhos na parte livre da mesa e um mundo de cores e símbolos surgiu. - Aqui está você – começou Radamés, tomando um punhal egípcio feito em rocha esverdeada, quase como a ponta de uma lança. – Seu nascimento – explicava, mostrando-lhe os planetas em conjunção no momento. – As linhas que conduziram toda sua vida. Alegrias, tristezas e, por fim, sua morte. Começo e fim. - É meu mapa astral? - É algo melhor que isso. É tão somente a passagem de sua alma pela Terra como mortal. Nenhum outro mapa astral conseguiria traduzir corretamente sua morte e seu renascimento como vampira. Cada criatura que caminha pela Terra, seja imortal ou mortal, possui um mapa semelhante a este. Ele começa a ser confeccionado no exato momento de seu nascimento, vai até sua morte e prossegue caso se torne imortal. Os deuses os têm guardados em uma grande biblioteca. Estão escritos nas estrelas que olhamos todas as noites. Em nosso mundo, eu cuido dos mapas dos vampiros. Radamés afastou-se da mesa e ergueu a mão, Kara recuou diante de uma parede de pergaminhos. Ele a segurou pelo ombro e sorriu passando-lhe confiança. A ilusão estendia-se por vários metros de altura e comprimento. Os pergaminhos repousavam devidamente organizados e enrolados. Radamés os fitava com orgulho. A grandiosidade da ilusão a deixou boquiaberta. - O que vê são almas imortais. Elas estão sob meu domínio, assim como a sua. O que devo fazer com seu pergaminho, minha rainha? Devo queimá-lo ou simplesmente deixar que siga seu curso inevitável? Talvez devesse colocá-lo ao lado do mais longo deles – ele pensava alto. – Este é o pergaminho do rei – disse, mostrando-lhe um rolo diferente de todos os demais. Ela notou o quanto era antigo pela fibra mais forte e pelos beatos feitos de fios de ouro. Sua cor era incrivelmente amarelada. Havia planetas, conjunções, linhas, muitas luas e nenhum sol, como se sua vida fosse feita de noites inacabáveis. Novamente Radamés guiou seu olhar sobre o mapa apontando um pequeno símbolo que ela identificou como sendo uma rosa. - A partir deste século você entra na vida do rei. Como vê, trouxe somente dor – disse, mostrando os galhos da roseira sufocando a coroa. – Ele precisa da doce fragrância de sua alma. Algo além da cura. Sua solidão é eterna e nenhuma outra vampira havia se igualado a ele nestes dois mil anos. Pagará o preço por desequilibrar a balança, colocou segredos milenares em perigo. O mínimo que pode fazer é restaurar o nosso mundo – cobrou. A vampira sentia que devia algo àquele vampiro. Radamés estava certo, desequilibrara a balança. - O Livro profetizou que o equilíbrio chegaria ao fim e que estaríamos expostos diante dos olhos dos mortais. O mensageiro de nossas desgraças seria filha da casa real. Tal criatura traria nas suas veias parte da única vampira que do sangue do Livro provou e não morreu. Seria bela, pois assim o foi em todas as suas vidas. Imediatamente reconhecida por aqueles que a amaram e odiaram. Seu coração seria o de uma doce amante. Nos lábios a cor e doçura de uma rosa vermelha. Filha dos dois mundos. A alma que muitos tempos viu, mas que somente o amor de um vampiro conheceu. Esta é você, se não fosse jamais sobreviveria à minha presença, pois eu não mais existo no plano físico. O que tem diante de seus olhos é uma alma imortal, meu corpo foi destruído há muitos séculos. As revelações daquele vampiro paralisaram Kara. Não conseguia falar nem se defender de suas palavras. Seu poder era real e podia senti-lo ao seu redor. Estava perdida dentro de seus olhos. - Amo Jan Kmam. - Sim. E ele a você, mas de que adiantará amá-lo morto? - Eu me entreguei ao rei, fiz uma troca, não basta? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Fez a escolha errada. Não é desse modo que trará a paz. O maior engano da raça humana é acreditar que satisfazendo o corpo e celebrando o sexo se perpetua o amor. O amor verdadeiro existe além do corpo, das distâncias e do espaço. Ele nutre os solitários, os bebês no ventre da mãe, as viúvas em sua solidão, os filhos sem pai, o lobo que uiva para a lua e até mesmo o vampiro, que se contenta em ver sua outra metade viva. Terá de lutar para reconstruir o que destruiu. - Diga o que devo fazer. - Você nos deixa famintos, mas ao mesmo tempo mantém o equilíbrio da equação. O amor sempre será um mistério, mas aquele que o decifrou em seu coração através dos olhos do ser amado jamais estará sozinho – sentenciou por fim. - Então é esse meu castigo, a solidão? – perguntou amarga. - Isso somente o tempo dirá, mas não a julgarei. Esse é o preço que as almas iluminadas pelo fogo dos deuses pagam por se mostrar parte deles. Seu sangue e o de Ariel são muito poderosos. Ele a trouxe até nossa presença. O tempo é o senhor de todos os mistérios e de todas as respostas. Ele determinará a duração de sua vida imortal e do amor que arde em seu coração. Tome, é seu – disse, passando às mãos de Kara um rolo de pergaminho. – Usá-lo ou não caberá a você, pois até mesmo os filhos dos deuses precisam ser submetidos a exames para provarem aos demais o seu valor. - Obrigada. - É bem mais do que pode supor. Entretanto, a resposta para as diferenças não será encontrada diante do espelho. Cuidado com eles. Agora basta, minha rainha. Falei em demasia. Minha presença já provocou mudanças. Preciso levá-la para diante dos Anciões. Além disso, preciso ma afastar ou a matarei. Percebo agora a dimensão de sua fome. Dê-me a honra de alimentá-la – sussurrou, olhando-a nos olhos, sua voz a envolvendo. Ela realmente se sentia faminta e sem hesitar aceitou o convite. Radamés deixou o manto cair ao chão. Seu corpo másculo encheu seus olhos trazendo a sensação de desejo tão conhecida. Ela o tocou cuidadosamente e mergulhou as presas em seu pescoço. Sorvia sangue ou energia? Absorvia parte de sua força e poderes. Afastou os lábios ao saciar a fome. Radamés a beijou sem reservas, algo que a encheu de força e coragem e nenhuma culpa. Minutos depois, seguia Radamés pelas galerias. Quando chegaram ao destino, viu o salão. Conforme Radamés acendia as tochas, novos detalhes se revelaram. Na luz trêmula, analisou o teto abobadado e amplo. Haviam fileiras de acentos escavados na rocha. Certamente, era um local de assembléias. Logo à frente, identificou uma pequena plataforma elevada. Ela se lembrou do estranho sonho em que mergulhara naquele salão para se proteger. O lugar aparentemente vazio não a iludiu. Podia sentir a presença deles e ver a energia circular. Pareciam dispostos a ficar invisíveis. Kara se afastou de Radamés e os aguardou no centro do salão. Ela não iria decepcioná-los. Mal organizou os pensamentos, dez deles se materializaram. Pareciam deuses, cinco de cada sexo. Trajavam vestes sacerdotais extremamente ricas. - O que pretende trazendo-a diante de nós, Radamés? – Derek questionou o líder, de forma arrogante. - A profecia se cumpriu, nada mais justo que trouxesse a rainha diante daqueles que ela vai governar – Radamés falou cheio de orgulho. Derek olhou-a com interesse, mas não deu mostras de concordar com a decisão de Radamés. Sua presença encheu a vampira de medo, como se ainda pudesse ser vítima de sua fome de vampiro. Ele possuía cabelos longos e brancos trançados na fronte e enfeitados com pequenos artefatos marinhos. Seu rosto parecia de pedra, como se toda a dor que viveu estivesse marcada na face imortal. Sem dúvida nenhuma, ainda era atraente e forte. Usava sandálias de couro amarradas nas pernas definidas. A túnica curta estava coberta por um peitoral de couro. Ela observou o cajado em sua mão com interesse. Tinha inscrições e um grande cristal verde preso por ramos grossos, junto com tiras de couro e peças em ouro enroscadas na superfície escura. - Por que rodeia o rei? – murmurou Ordália, enquanto tomavam seus acentos de direito na primeira fileira próximos ao trono. Ordália era a líder das vampiras e amante de Derek. Ela vestia uma túnica de linho negro e transparente como suas companheiras de tribuna. Longa, a túnica arrastava-se no chão e Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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possuía fendas laterais, deixando à mostra uma pequena adaga presa na coxa. As sandálias eram amarradas ao longo do tornozelo e das pernas. Num primeiro instante parecia que todas eram guerreiras. Usavam jóias místicas, anéis com esmeraldas e cristais negros e roxos. A túnica que compartilhavam deixava o peito quase nu. Três delas usavam um colete de couro sem alças, sob o qual os seios pareciam convidar ao toque. As duas outras usavam somente uma túnica fina e sobre ela um peitoral de jóias. Provavelmente dividiam o poder. Ordália era magnífica, possuía uma beleza avassaladora. O cabelo loiro estava trançado e preso por presilhas de prata. Exótico, caía sobre seu dorso ereto. - Eu não almejo ser amante do rei – explicou um tanto ofendida. - Não ousaria sequer imaginar tal condição. O rei tem o melhor do livro, por que desejaria trocar sangue por vinho? – Ordália debochou cheia de ciúme. - Não se preocupe, Ordália, isso só acontecerá se ela tiver coragem de se entregar ao rei. E se ele sobreviver, obviamente – murmurou Tavalus, malicioso. Tavalus trajava uma túnica semelhante à de Derek, mas que cobria o peito e o quadril. O manto era pesado, assim como a longa espada que jazia presa à cintura. O cabelo negro espalhava-se sobre os ombros largos em ondas sedosas. - Ele vai sobreviver – afirmou Zoraia. – Pouco importa o mal que enfrente, Ariel permanecerá diante dela. - O que deseja, Kara? Tem sobrevivido a quase tudo. Passou pelo sono, pela loucura e por nosso querido Radamés – disse Aspásia, luxuriante, observando-o esperar ao longe pelas decisões dos Anciões. Aspásia ainda trazia no corpo os vestígios da bela mulher do mediterrâneo que fora um dia. Tinha cabelos negros, sobrancelhas desenhadas, seios fartos e ombros roliços. - É encantadora, mas somos difíceis de seduzir. Sangue? Bebemos de inúmeras fontes fartamente durante nossa existência no plano físico. Prazeres? Tivemos muitos. Hoje tudo que nos interessa é o equilíbrio. Absorvemos energia dos simpatizantes, mantemos as mentes humanas relaxadas e precisamos de um rei no poder para garantir que as almas vampiras ainda no plano físico se comportem. - Controle, essa é a palavra que nos seduz. Controle que você não teve para manter nossos segredos ocultos – disse Marcus, de modo firme. Marcus brincava com uma adaga. Tinha os pés metidos em botas pesadas repletas de cordões. Estava à vontade. A túnica vermelha estava coberta pelo peitoral de couro e metal preso com fivelas antigas. Diferente dos demais, usava uma calça de couro fino. - Quero restaurar os Poderes e trazer de volta o equilíbrio. Isentar meu amante de meus crimes. - Pede demais para quem está sob o olhar dos Anciões. Sabe quem somos, há quanto tempo existimos? – perguntou Nídia, sentindo o olhar de Derek tocá-la quase repreensivo como se não devesse se pronunciar. Nídia possuía a aparência frágil de um anjo. Fora eternizada por volta dos quinze anos. Possuía lábios pequenos e a cabeleira era fina e castanha. As vestes negras davam-lhe mais autoridade, mas sua face era muito doce até para uma vampira. - Sei quem são, conheço o peso de sua presença para o mundo dos vampiros. Isso os faz poderosos o suficiente para absorverem parte de minha energia em troca de um favor – insistiu, sentindo o receio de Radamés ao oferecimento. Podia partilhar de sua mente. - Não tem poder para negociar conosco – interveio Thessália. – Poderosa e bela. Resistente a nossa presença, sim, mas não pode exigir favores. Ariel encontrará o caminho da cura com ou sem sua ajuda, não se acredite tão necessária. Diante de nós é como um mortal indefeso. Subitamente, Kara sentiu-se em perigo. Thessália lançou um olhar cúmplice para Ordália. Havia laços fortes entre elas, admiravam-se. - Sua essência deve ser absorvida – disse Marcus, olhando-a cheio de desejo e obtendo apoio de alguns. - Sua energia pode nos matar – avisou Quirino, preocupado. Parecia frágil diante deles, mas não a isento de culpa. Sua alma havia provado dos poderes negros, das grandes orgias de sangue.

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- A alma dela é pura. Seu corpo físico foi tocado pelo aço, veneno, corda, fogo e pelo beijo cálido do sol. Mesmo assim, não se deixou envolver pelos níveis inferiores. A energia dela é extremamente pura. Entregou sua vida por amor. Em retribuição ele a protegeu e nutriu. Quirino falava com os olhos fechados, via além do tempo e do espaço. Ele era negro, usava enfeites quase bárbaros, parte do crânio era mantida raspada e parte tinha o cabelo trançado com contas e conchas. Sua face exibia ossos protuberantes. Trajava uma calça de couro, os pés cobertos por uma bota muito leve feita de pele animal. Sobre o peito um colete aberto, de onde pendiam cordões. - Não haverá julgamento. Entretanto, ela pagará o preço – afirmou Ítalo, observando Quirino abrir seus olhos negros e vazios. - Kara quer a manutenção dos Poderes, o amor que traz no peito. Sua sinceridade nos toca, mas ainda não é suficiente para que os Poderes a perdoem. Haverá punição, mas Ariel terá a última palavra – Quirino insistia. - Não perca seu tempo implorando por piedade, Kara. Não somos piedosos, o tempo deixou pouco dentro de nós – Ítalo prosseguiu. Ítalo a olhou com admiração. Teria sorrido, não fosse o olhar de censura de Derek. Kara pôde perceber que enquanto falava Nídia o olhava com muita atenção, quase nervosa, como se tivesse receio de que dissesse algo que desagradasse aos demais, mas Ítalo certamente era o mais amistoso entre eles. Sentava ao lado de Quirino e parecia quase guiá-lo, conter a força de suas visões. O cabelo era dourado e cacheado. Vestia uma túnica curta e as sandálias em estilo grego. - Então por que me trouxeram aqui? - Sua energia. Éramos doze, hoje restam somente dez de nós. Nosso poder se exaure rapidamente. Mesmo no unindo a algumas mentes mortais, não há energia suficiente para todos. Agora com o rei doente estamos famintos. - Nídia e Thessália, peguem-na. - Derek, não ouse! – a voz de Radamés soou na sala num protesto feroz. Radamés havia se mantido em silêncio até aquele momento, mas estava decidido a lutar por Kara. Via os Anciões a rodearem, suas mãos davam-lhe arrepios. Nídia hesitou e buscou a opinião de Ítalo, mas Thessália a puxou com força, fazendo com que a seguisse. - Sabia que um preço seria cobrado, Radamés – disse Zoraia, concordando com Derek e os demais. Ítalo e Quirino não estavam satisfeitos, mas se aproximaram. Marcus sorria juntamente com Tavalus. Sem saber ao certo o que fazer, Kara recuava. - Radamés, o que eles querem? – questionou aflita. - Ela provou sua natureza especial, o que mais pretendem? – argumentou, enquanto era cercada e contida. - Deixe-a provar seu poder, Radamés. Poderá ser como nós, mas terá de resistir ao nosso beijo – murmurou Marcus, provocante, aplicando uma lambida asquerosa. - Não! Afastem-se de mim, me larguem! – pediu experimentando a energia deles a sua volta. – Radamés, ajude-me. - O que não puder destruí-la, irá fortalecê-la – avisou Zoraia, tocando seu rosto. Imobilizada, Kara viu Radamés segurar o cabo de sua adaga egípcia pronto para defendê-la. Imediatamente, calou-se e parou de espernear. Não podia prejudicá-lo, sua vida subitamente tinha se tornado mais importante do que a dela, que só prejudicava o seu mundo. - Sim, Derek. Kara é a filha dos deuses. Vai beber da escolhida? – quis saber realmente surpreso. - Uma profecia de Zeladores – argumentou, menosprezando o fato. - Uma profecia do Livro! – Radamés o corrigiu em tempo. – A presença dela é esperada a mais tempo do que possa lembrar. Seu lugar de direito é ao lado do rei. Se ela for absorvida, enfrentará as conseqüências. Sua pessoa é intocável. Não provoque os poderes que ela protege. - Não somos parte dele mais do que ela! - Mas é graças a ele que tem sobrevivido à morte física. Ele os mantém intactos, o Livro anseia por seu sangue, derramá-lo provocará sua destruição. Liberte-a. - Ela será absorvida. O Livro aceitará o sacrifício. - O Livro matará todos vocês. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Então, o sofrimento chegará ao fim. - Você busca uma paz que jamais possuirá, Derek, mas e eles? Será que querem acompanhálo? Você é o líder, poupe-os da condenação. - Não haverá condenação. Somos os Anciões. Ela não é ninguém para se opor ao nosso poder. Uma mistura de sangue mais forte a mantém entre nós. A profecia não se cumpriu ainda. Não vou tolerar sua interferência. - Nós já lutamos uma vez, não queira me enfrentar novamente. - Radamés, por favor, não. Está tudo bem – afirmou Kara, detendo-o. Radamés viu que as vampiras a tocavam com curiosidade. Uma delas remexeu seus cabelos, enquanto Marcus deslizava os dedos por seu colo. Nídia somente admirava sua beleza. Os demais a seguravam quietos. Sentia-se ultrajada e humilhada. Cansado de vê-la sofrer, Radamés avançou. - Afaste-se, Radamés. Ela aceitou seu destino – disse Derek, sorrindo de modo malicioso. Radamés estava de mãos atadas. Kara havia provocado tal reação e deveria dar algo em troca. As faces extraordinárias e as mãos que a cercavam também a detinham. Entoavam uma espécie de cântico, um som baixo e misterioso. Com espanto ela se viu levitar. Pés e mãos estirados, não conseguia se mover. Derek ergueu o cajado e fez o cristal esverdeado se iluminar como uma tocha. A luz envolveu seu corpo e o salão provocando calor. Ela podia sentir a preocupação de Radamés. Seria absorvida por aqueles vampiros. Seu sentimento de pesar encheu Kara de revolta. Não seria vencida. Sentiu os olhos ficarem brancos e o corpo se petrificar. Finalmente despencou. O baque no chão os fez recuar atordoados. Havia no chão pedaços de mármore por todos os cantos, dedos e mãos espalhados. Uma estátua partida em mil pedaços, uma vítima perdida. Derek olhou mais do que surpreso, tocou com o pé um dos pedaços. Radamés foi o primeiro a ver a ilusão tomar forma. Seu olhar guiou o dos demais. A parede detrás do trono tremeu varrida por uma onda de energia. Os símbolos dos poderes nela esculpidos se moveram em volta da coroa até desaparecerem, deixando a parede limpa. Eles flutuavam livres pelo teto abobadado. Fragmentados, separados. O pergaminho separou-se da pena e foi para o centro do círculo.As espadas do rei e da Ordem cruzaram-se sobre o pergaminho, em cima delas a coroa, abaixo a pena. A serpente de duas cabeças moveuse sinuosa, rodeou os símbolos agrupados e mordeu o próprio rabo, aproximando o rubi do escaravelho. - O que está acontecendo, Radamés? – perguntou Ordália, apreensiva. - Onde ela está? Ninguém entra ou sai de nosso mundo sem um guia! – Derek estava enfurecido com a demonstração de poder de Kara. - Eu não deixei o salão dos cinco poderes, Derek. Estou presente em todos eles. É hora de unilos, torná-los um só – era a voz de Kara. - Não ouse alterar as leis do Livro! – ordenou Derek, sentindo seu poder se esvair. Radamés esperava. Os Poderes haviam se apresentado pela segunda vez em dois milênios. - Quando ousou me tocar, quebrou suas próprias leis. Sou livre e peço que sejam julgados pelas leis do Livro – a voz de Kara vinha de todos os lados do salão. Derek e os outros sentiram seu erro pesar, o símbolo único pulsava vivo. A serpente respirava, o escaravelho movia as asas. O pergaminho era tão real quanto as espadas, a coroa ou a pena. Kara agora os controlava, ela era a Fonte de onde tiravam sua força para se manterem vivos. - Morte aos Anciões por descumprirem as leis do Livro que protegem – uma voz de trovão poderosa e desconhecida reverberou pela sala. Os Anciões recuaram aflitos e sacaram as armas. Estavam prontos para lutar por suas almas, prestes a ser dilaceradas. As espadas descruzaram-se ruidosamente no ar, a serpente apresentou-se diante deles e fitou-os com seus olhos de rubi, a língua partida tremia entre os lábios. Nídia viu com espanto o escaravelho balançar as asas fazendo um ruído ensurdecedor aos seus ouvidos sensíveis. - Espere, Kara – pediu Radamés. - Fale, senhor da justiça. Nós o ouviremos – a voz de Kara ecoou misturada à voz de trovão. - Peço que os perdoe – Radamés se curvou. - Perdão? Eles desejavam absorver a vampira! – desta vez, a voz de Kara não se fez ouvir. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Eles esqueceram o que significa perdão, mas sei que o conhece, senhora. - Quer que eu tenha compaixão? - Ouso dizer que sim – falou Radamés, ainda com o olhar baixo. - Os Anciões teriam piedade, me poupariam? Não, possuem uma fome tremenda – argumentou, sentindo-os. A voz de Kara silenciou por um momento e quando voltou já se misturava ao poderoso trovejar. – Transcendi a eles, à sua fome. - Seu coração não conhece o ódio, nele só existe amor. - Rainha dos Poderes, peço perdão – pediu Derek, curvando-se ao chão. Seus iguais seguiram o exemplo. Os pedaços de mármore tornaram-se um líquido luminoso e branco, até finalmente se unirem no centro do salão para formar o corpo físico de Kara. Refeita, a vampira exibiu os olhos brancos. Estava plena com a força oferecida pelos Poderes. Ergueu as mãos num gesto gracioso e projetou cada um dos símbolos ao seu local de origem. A parede pareceu nunca ter se movido. Uma chuva de pétalas de rosas vermelhas caiu no salão, transformando-se em sangue. Kara aproximou-se de Derek. Entre os dedos, uma esfera que estendeu até seus lábios. Derek a olhava fascinado, hipnotizado por sua beleza. - Jamais me negaria a alimentá-los. É uma honra dar-lhes parte de meu sangue e de minha energia. Os Anciões conheciam aquela expressão de poder, mas não a vislumbravam há vários séculos. As esferas eram como uvas tenras. Radamés percebeu que a cada pétala provada os Anciões ficavam mais humanos. Seus olhos! Sim, eles agora possuíam vida e cor como há milênios, haviam se renovado através do seu sangue. Kara sorriu para Radamés, orgulhosa. Os Anciões a rodearam, ela flutuava plácida. Do seu corpo emanavam luzes que tocavam cada um dos vampiros, alimentando-os de energia. O som de um trovão cortou o ar. - Descanse, minha rainha, pois mais uma vez provou ser filha dos deuses vampiros. Não foi um despertar tranqüilo. Havia dor em seu peito e fraqueza no corpo. O coração acelerado dizia que precisava desesperadamente de sangue, a fome crescia a cada segundo. Uma presença poderosíssima a rodeava de forma invisível. Sentiu seu toque nos cabelos, ouviu sussurros e encolheu-se sobre a plataforma. Uma brisa forte correu dentro da câmara onde jazia e sumiu pela porta. O vento apagou as velas trêmulas que mantinham a claridade. Kara desceu da plataforma e seus pés descalços tocaram o chão grosseiro. Tinha destino certo, uma velha mesa encostada à parede. Sobre o tampo escuro, objetos antigos, velas, um punhal, uma folha de pergaminho! Percebeu que revivia aqueles fatos. Déjà vu. - Kara? A voz de Jan Kmam bem perto a fez correr ao seu encontro e se jogar em seus braços. - Tire-me daqui. Pressinto o mal. Não é seguro. - Ma petite, temos de parar de nos encontrar assim. Acalme-se, logo sairemos – murmurou brincalhão, erguendo-a nos braços. - Como vim parar nas galerias? Entrou pela fonte do Ribeirão? - Sim, por onde mais? Não se lembra do vulto encapuzado? Ele levou você na noite passada. Achei que pudesse me explicar o que aconteceu. - Eu não sei. Acabei de despertar – murmurou. Não se lembrava do estranho mundo onde tinha exibido seus poderes. E nosso vôo? - Temos que remarcar. Venha, precisamos encontrar alguém. - Quem? Jan Kmam a ajudava a descer da plataforma quando os exterminadores surgiram. O golpe caiu pesadamente sobre sua cabeça. A dor o jogou no chão. Vítor recuou com o abdômen ferido, a lâmina de Frigia tinha transpassado seu corpo. Demétrius aproximou-se de Jan e o surrou violentamente, descontando sua raiva. Os chutes feriram sua face e seu peito. Kara pegou a espada de Kmam. Precisou reunir o resto de suas forças para empunhá-la. Demétrius recuou do golpe em tempo e faíscas voaram da parede. Estava mais do que assustado, por muito pouco não ferira o corpo de Kara. - Vim para levá-la até Ariel Simon, e desta vez não vou voltar de mãos vazias. - Mudei de idéia. Diga isso ao anjo vermelho – disse Kara.

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No chão, Jan Kmam tossia sangue e Vítor não estava muito longe. Frigia tinha sua garganta na mira de sua espada. Kara olhou a câmara a sua volta e só viu uma porta de saída, estavam cercados. Havia se colocado a frente do amante e o defenderia com a vida. - É herdeira do sangue real. Deve se unir a ele e curá-lo. - O sangue é meu, dou a quem quiser! – disse de modo infantil, ajudando Kmam a se levantar. - Majestade, Jan Kmam não é mais seu mestre. Você pertence ao rei – Frigia tentou argumentar. Voltou-se para o vampiro. – Não a leve junto com você. Sabe o que acontecerá a Kara caso recuse o rei. Jan Kmam os olhava mudo. O que sabiam de decisões tomadas nos momentos de desespero? - O Intermezzo termina hoje. Não volte às costas para o rei. Ariel precisa de você – Demétrius exigia lealdade. - Baixe a espada, Kara – pediu Jan. - Não vou baixar droga nenhuma. Kara pôde perceber que falavam mentalmente entre si. Demétrius recuou, mas não muito. - Falem em alto e bom som para que eu possa ouvi-los, seus covardes. - Kara, obedeça. Deve ir com eles. Jan ficou de pé com dificuldade. Na primeira chance, tirou a espada das mãos da amante, bruscamente. O sangue escorria de seus dedos. Kara moveu os lábios sem produzir som, não conseguia pensar. Vítor estava tão surpreso quanto ela, mas não pôde reagir. Um movimento e Frigia lhe cortaria a cabeça. - Prometi levá-la até o rei. Temos que seguir o plano e salvar a vida de Ariel – revelou surpreendendo-a. - Está fazendo isso para me fazer ir com eles. - Traí o rei num momento de fraqueza, mas ele me deu uma opção. Se houver punição, é sobre minha cabeça que cairá. Há um limite para tudo, chegamos ao nosso. Eu também posso negociar Kara – revelou sem nenhuma emoção. – Você segue com eles deste ponto em diante. Não há mais saída. - O que fez? – ela o esmurrou com força. Jan Kmam fechou os olhos contrariado e envergonhado. Num gesto emocionado, Kara abraçou o vampiro. Desejava ardentemente que tudo fosse como antes, que nada houvesse mudado. Ele ainda era “seu Kmam”. Por que estava fazendo isso? Tentou beijá-lo, mas sentiu seus lábios cerrados, o olhar indiferente às suas lágrimas. Por um segundo ela pensou que perderia os sentidos, levou a mão trêmula à cabeça num gesto débil. Com muito esforço conseguiu pensar, mesmo debaixo de tamanha mortificação e indignação. Então, era este o motivo da pressa: a traição. Uma promessa. - A culpa é minha, falarei com eles. Ariel já me espera. Ela tentou ver um traço de arrependimento que fosse na face de Jan Kmam, que se mantinha impassível. Sentia-se uma espécie de fardo. Sua desobediência e teimosia tinham piorado ainda mais a situação. - Não perca tempo pedindo por minha vida. O rei não achará adequado, majestade. Ariel vai protegê-la, terá tudo que desejar. Ele saberá conquistá-la. O som da bofetada ecoou pela câmara. Ele aceitou, observando as lágrimas cor de tinto escorrerem pela face de Kara com certa admiração. Nada fez quando Demétrius e Frigia a cercaram. - Não ouse falar de amor, quando me passa para as mãos de outro. Era preferível ter morrido anos atrás para não ouvir isso. Soltem-me! Se me chamam de majestade, tratem-me como tal. Não quero ser tocada por vocês – gritava esperneando um bocado. A pressão das mãos de Frigia e Demétrius aumentou. - Kmam, o que está fazendo? Eles vão levá-la para o rei. Isso não é justo depois de tudo que passou – reclamou Vítor, interferindo na discussão. Jan Kmam tinha os olhos escuros, mergulhado em dor e frieza. Quando viu Demétrius e Frigia a colocarem na sua frente, sabia o que precisava ter feito. Num gesto rápido segurou o punho delicado e o cortou com a unha, assim como o seu. Deixou que se unissem. Kara sentiu sua força rodeá-la plena de amor e tristeza. Um tremor percorreu seu corpo num gesto de abandono. O coração disparou, não conseguia parar de fitar seu olhar azul. Por um instante sentiu sua mente Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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novamente e a palavra adeus. Foi muito rápido, virou seu pulso e o dele fazendo o sangue cair no chão. A mente de Kara transportou-se para o primeiro beijo, a mordida, a noite do baile, a morte cinco anos atrás. Algo se fechou sobre seu coração. O sangue corria mais rápido em suas veias. - O que está fazendo? - Abdico do privilégio e honra de tê-la como minha pupila e amante. O grito de dor de Kara alertou a todos. Caída no chão, sem que Demétrius ou Frigia compreendessem o que acontecia, ela tremia. O aparelho em sua nuca soltou uma descarga de energia muito forte. Viu vultos chegarem. Demétrius sequer teve tempo de erguê-la do chão, precisou se defender. Os filhos de Graco surgiram nas galerias. Jan Kmam matou o primeiro que tentou tocá-la. Vítor lutava como um animal selvagem, de mãos limpas. Ele estraçalhava a garganta de seus agressores em questão de segundos. Protegia Kmam para que fugisse com ela pelas galerias, parecia conhecê-las muito bem. O som de luta ficou para trás, mas ainda não estavam em segurança. A pequena câmara estava prestes a ser invadida. Vítor foi agarrado por dois vampiros. Desperta, Kara ficou de pé, liberando Kmam para ajudá-lo. Demétrius e Frigia foram empurrados para dentro da câmara pelos seguidores de Graco. A vampira segurava as costelas, onde um corte profundo sangrava. Estavam cercados e o cheiro de sangue dominava o ar. No ombro de Demétrius, uma seta metálica. Graco estava perto, Kara podia sentir sua mente. A agonia em sua face era visível. Os vampiros abriram caminho junto à porta e ele finalmente apareceu. Estava todo de negro e trazia nas mãos a pequena besta. Havia um sorriso de satisfação em sua face. - Kara, que bom vê-la desperta. Pena que esteja em má companhia. - Quem é você, criatura? – quis saber Jan Kmam, imediatamente. - Não me reconhece, pai? - Não seja ridículo. Você não faz parte de meu sangue, mas asseguro que o ajudarei a encontrar a paz. Foi você quem ousou chicotear Kara? - O que posso dizer? Sim, e a visão de seu corpo nu ainda enche minha mente. Seus gemidos e o som do chicote me excitam profundamente – falou cínico, provocando Kmam ao limite. Viu com terror Graco preparar a seta metálica, a ponta negra embebida com veneno. - Não atire – disse Kara, passando à frente de Jan Kmam. - Ótimo. Quero que veja algo. Juno! – Graco dirigia-se a uma de suas criações. Um pequeno machado voou pela sala e atingiu a mão de Demétrius. Seu rugido de dor ecoou pela câmara. Estava mutilado para sempre. Frigia aproximou-se e o amparou, o veneno na seta corria em suas veias e agia depressa. Com a mão decepada, se tornara um alvo fácil. Graco ergueu a besta e atirou. O grito de Frigia fez Vítor avançar sobre Graco, mas logo foi contido com choques elétricos e transpassado por um punhal. Segurou o ventre ferido e encarou seus inimigos de caninos expostos. - Agora o que devo fazer? - Deixe-os ir. Não é deles que precisa. Precisa do meu sangue. Antes que Kmam pudesse detê-la em seus braços, afastou-se aceitando o convite de Graco, que lançou sobre ele a sua aliança. Kara viu com pesar ele aparar o objeto no ar. Evitou seus olhos, mas o viu escorregar a aliança em seu dedo mínimo. Escondeu o rosto envergonhado no ombro de Graco e segurou o soluço aflito. Foi preciso. Tinha de seguir com Graco para mantê-lo vivo. - Amo Jan Kmam. - Sim. E ele a você, mas de que adiantará amá-lo morto? As lembranças invadiram sua mente atormentada como uma onda gigantesca. De repente, lembrou-se de Radamés e dos Anciões. Era o momento de salvar Jan Kmam ou ele morreria defendendo sua vida. Agarrada a Graco, entrou em sua mente. Ele fechou os olhos com enorme prazer e deslizou as mãos por suas costas num abraço de amantes, concordando com seu pedido. - Sempre terá tudo que desejar. Basta pedir, minha querida – dizendo isso Graco a puxou para junto de si e veio o pior. O contato da boca, o beijo faminto, a língua intrusa. Sua entrega enlouqueceu Jan Kmam, que urrou de ódio e foi imediatamente cercado.

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Ela sentiu a pressão dos lábios de Graco se afastar e tentou não demonstrar a náusea e o desejo de vingança. Seu coração sangrava ao ver o olhar desvairado, o modo que os vampiros continham seu verdadeiro amor. - Basta, Graco, vamos embora. - Quero que lhe renuncie como seu mestre. Jan Kmam debatia-se como um touro, o ódio dava-lhe forças. Aplicaram choques elétricos e o espancaram violentamente. - Chega desse circo. Eu o farei – ela aceitou. Imediatamente, o espancamento teve fim. Jan Kmam estava de joelhos, ferido, o rosto sujo de sangue. Eles o mantinham preso pelos braços, mãos o forçavam a ficar abaixado. Kara tentou se aproximar, mas foi contida por Graco. Ele envolveu seu corpo de modo sensual e deixou a cabeça ficar sobre seu ombro, o rosto próximo ao dela. Juno, o comandado de Graco, empunhava a espada de Kmam com deboche e colocou-a sobre sua garganta vitorioso. - Kara? Olhe para mim, não faça isso! - Eu renuncio a você. Como meu mestre e amante – disse bem baixinho. Kara fitava seu rosto implorando para que fugisse e a perdoasse, mas de nada adiantou já que não podia mais tocar sua mente. Sentia algo se quebrando dentro de seu ser. Tudo estava diferente e estranhamente igual. A pressão em sua mente era enorme. Acabou perdendo a consciência. Graco a segurou nos braços. Tinha o corpo tomado por espasmos. Jan Kmam a fitava com preocupação. - Está vendo? Ela sequer pode pensar em você – riu com tal desprezo. – Cortem a cabeça deles e tragam a de Jan Kmam. É um presente para Consuelo. Os vampiros preparavam-se para começar as execuções quando o primeiro deles gritou e caiu no chão. Os vampiros debatiam-se e rolavam pelo chão, tentando apagar as chamas que somente eles enxergavam. A poderosa ilusão criada por Jan Kmam permitiu que Frigia pudesse reaver sua espada e reagir, matando os soldados de Graco. Criar ilusões exauria a mente de um vampiro, contudo Jan Kmam continuava a lutar. Vítor dava mostras de cansaço, mas ao ver Frigia cair no chão correu em seu auxílio. Ergueu-a nos braços e sumiu pelo corredor sendo seguido por Kmam e Demétrius. Corriam no escuro sem rumo quando Vítor reconheceu a sombra de Mercúrio. - Sigam-me – ordenou, conduzindo-os pelas galerias. Não houve tempo para explicações. Mercúrio passou a tocha para Kmam e guiou o grupo pelo túnel. Metros à frente, Demétrius deixou claro que a mutilação não o havia impossibilitado de lutar, mas o avanço dos inimigos se mostrava superior. Preferiu recuar e dividir os ataques com Kmam. Graco havia despejado sobre eles suas criações. Frigia reconheceu dois deles como desgarrados, proscritos do mundo vampiro civilizado. Cada vez ficava mais óbvio que o interesse do meio-vampiro pela pupila do favorito do rei visava à sucessão. Seguiam em silêncio pelas galerias. Jan Kmam conhecia parte do percurso, havia se escondido nos túneis anos atrás. O sol estava prestes a alcançá-lo nas ruas do Ribeirão e uma fonte surgiu como refúgio. Forçou as grades e ficou durante todo o dia escondido nas galerias subterrâneas. Só agora via o quanto eram extensas. A água escorria das paredes dos túneis e tomava todo o piso. Mercúrio apontou a direção a seguirem e ficou no corredor esperando seus perseguidores. Tirou das vestes uma esfera transparente e a lançou pelo corredor. A inocente bola rolou e tocou o pé dos vampiros que seguiam na frente do grupo. Ele a recolheu sem tempo de entender o que acontecia. A esfera explodiu e cobriu com a Seiva os filhotes de Graco que avançavam pelo túnel. Cabelos e roupas caíram sobre a carne de seus corpos. A Seiva os devorou até não restar nada além de cinzas. Mercúrio dava cobertura a Vítor, que carregava Frigia, a essa altura completamente paralisada pelo veneno. Ele foi o primeiro a ver os quatro vultos negros se moverem no corredor. Certamente Graco queria se certificar de que todos estavam mortos. Na fuga, mergulharam mais fundo nas galerias. A água que antes formava poças agora batia na cintura. Jan Kmam ficou para trás para lhes dar tempo de escapar com os feridos. Quando matou o último, sentia-se exausto e estava sozinho. Na virada seguinte, encontrou Demétrius, que havia se separado dos outros voluntariamente para esperá-lo com uma tocha. A amputação e a seta envenenada roubavam

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suas forças. Jan puxou a seta de seu ombro e cuspiu no ferimento. Aquilo faria o veneno se dissipar. - Jamais desejei me bater com você, Kmam. Estava defendendo a Ordem e seus interesses. - Compreendo sua posição e não a invejo. Enfrentarei meus crimes quando conseguirmos sair deste estranho mundo subterrâneo. Nesse momento, Kmam viu a tocha nas mãos de Demétrius tremer, o fogo era incitado pelo vento. Aparentemente, bastava seguir em frente, o que não fazia o menor sentido, já que a inclinação os levava cada vez mais para o fundo. Demétrius parecia pronto para adormecer ali mesmo. - Vamos, precisa se mover. Dormir agora significaria a morte, não estamos em segurança – falou, empurrando-o para mantê-lo desperto. Seguiram em frente guiados pelo vento que vinha da superfície. Sem que pudessem se segurar, despencaram num declive. Demétrius e Jan Kmam afundaram e se viram numa espécie de bacia. Submergiram e perceberam uma luz tênue e esverdeada que iluminava o ambiente. Nadaram por cinco minutos até que seus pés pudessem novamente tocar o piso. O túnel mostrava-se mais largo e alto. Não havia sinal de corte de nenhum instrumento. As paredes eram lisas e leitosas como se algo as houvesse feito com um só movimento. O murmúrio da água tornava-se mais forte à medida que avançavam. Aberturas largas nas paredes jorravam água de várias outras galerias em grande profusão. Tornava-se difícil caminhar. Kmam provou a água e sentiu o gosto salubre, certamente vinha do mar. Quanto havia caminhado por baixo da cidade? Com cautela, dependurou-se em uma beirada escarpada, lançando o corpo para fora da borda. A água passava por suas pernas e despencava metros abaixo num abismo. Olhou para cima e viu a rocha se transformar em blocos agrupados, preenchidos com pedras e cimento. Havia grades de ferro no fim da abertura e finalmente a lua apareceu entre as nuvens. Precisavam se apressar, pois tinham poucas horas para encontrar abrigo antes do nascer do sol. Demétrius foi o primeiro a se agarrar à parede de pedra e começar a escalada. Subia com dificuldade, a mão decepada fazia falta, tentava compensar a perda com as pernas. Se estivessem mais fortes, bastaria alguns saltos para cobrir metade do trajeto. - Há um buraco dividindo o caminho. Parece prestes a despencar – disse Demétrius, observando as pedras soltas. - Tente alcançar o lado oposto da parede – sugeriu Kmam, constatando o estado precário da construção. Demétrius conseguiu se agarrar à parede. Fazia um grande esforço para prosseguir. De pé na borda estreita, puxou o punhal das vestes e o fincou na rocha como ponto de equilíbrio. - Poderíamos ter seguido por uma das galerias atrás de nós. Não sabemos o que a superfície nos reserva. - Melhor enfrentá-la do que ter de vagar eternamente aqui embaixo com os filhotes de Graco na nossa cola. Demétrius passou pela abertura vendo-se cada vez mais frágil. Assim que cravou o punhal para continuar a escalada, a parede cedeu. Num movimento ágil, Kmam o segurou pelas vestes e o lançou novamente na parede. Se não fosse por ele, teria caído no fundo do abismo, talvez vinte metros abaixo da galeria onde o poço tinha sido escavado. Demétrius ainda tentava se recuperar quando um estrondo forte varreu o túnel estreito fazendo-o tremer. A torrente de água desfez o resto da parede, jogando pedras sobre os dois. Demétrius agitavase dentro da água tentando se agarrar a uma rocha. Firmou o punhal na parede e conseguiu estabilidade o suficiente para ficar de pé na borda. Kmam flutuava desacordado na galeria, o sangue vertendo de um corte profundo. Faltava pouco para alcançá-lo, mas não houve tempo. A água começou a baixar arrastando-o para o fundo do abismo, como se fosse sugado por um ralo. O corpo de Jan Kmam submergia na imensidão esverdeada do silencioso mundo que o rodeava. Poderia ter ficado inconsciente naquele misterioso túmulo aquático onde nenhum peixe parecia habitar, mas havia algo dentro de sua mente forçando-o a despertar. Imagens e fragmentos embalados pela gargalhada gaiata de Kara fizeram-no estremecer. Para seu desespero, reviveu o recente beijo entre Kara e Graco. O corpo tentava reagir sem sucesso. Por sorte, havia outra mente vampira tentando despertá-lo e sua voz não pôde ser ignorada. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Desperte, o rei precisa de sua força e de sua espada! Tais palavras se repetiram à exaustão, tentando vencer a forte letargia. O sangue imortal estava gelado dentro de suas veias. - Amo você. Jan Kmam sentiu o calor tépido dos lábio de Kara e despertou. Tentou se lembrar de como havia chegado a tal lugar enquanto impulsionava o corpo para cima. Num momento de lucidez, percebeu-se sem a sua espada e decidiu vasculhar o abismo com seu olhar aguçado. Viu o brilho fraco da lâmina quase encoberta pelo lodo que a cercava. Deu a volta e nadou para baixo, vendo aumentar a estranha luminosidade esverdeada que dava cor à água límpida. Sentiu os ouvidos e o peito doerem com a forte pressão, não tinha idéia de quantos metros havia descido. Estava dentro de uma enorme caverna submarina e à sua volta não havia sinal de vida. Finalmente, avistou o cabo da espada, as jóias cintilando. Estava rodeada por uma planta marinha, a mesma que agora se grudava a seu corpo, face e cabelos. Enfiou a mão no emaranhado da alga e alcançou sua espada, mas antes que a puxasse, ele o viu. O vulto descomunal ganhou contornos nítidos, forma e cor. A cabeça reptiliana alongada e o corpo esguio iam além da visão de Kmam em um túnel negro aparentemente sem fim. Não havia como dar medidas de largura e comprimento daquele ser mitológico. Boca e olhos jaziam fechados, mas certamente estava vivo, havia sinais claros de respiração, perceptíveis através das narinas e do corpo. Suas escamas refletiam na água, lançando sua luminosidade além do abismo. Kmam deu-se conta de que bastaria um movimento mais alterado das enormes narinas para seu corpo ser sugado para dentro do réptil. Como um animal daquele tamanho ainda podia existir? Era um verdadeiro demônio marinho. Algo aconteceu, foi como se houvesse cochilado. A alga espalhou-se sobre o corpo de Jan Kmam, cobrindo-o por inteiro, fazendo-o afundar. Impulsionou-se com o máximo de força para não cair inconsciente. Puxou a espada cravada sobre parte do corpo do réptil, ciente de que se arriscava. A água tremeu, era tarde demais. A serpente abriu um dos olhos quase por reflexo. Ele se viu diante de uma enorme pedra de jade. Ficou imóvel entre as algas até que fechasse novamente o olho gigantesco. Sem perder mais um minuto sequer, nadou o mais rápido que pode para cima. Ao longo do trajeto, analisou a câmara submersa, o teto cheio de aberturas, túneis que recebiam e lançavam água para dentro daquele abismo. A fonte de luminosidade era o belo corpo da serpente, suas escamas. Teria de escolher uma delas como caminho para sair dali. Seguindo seus instintos de sobrevivência, tomou a decisão acertada. Submergir e respirar depois de tantas horas causou-lhe um pouco de dor. Tossia expelindo a alga dos pulmões. Estava num lugar com paredes de tijolos empilhados. Um poço, largo e antigo, mas que ainda se mantinha de pé. A água repleta daquela estranha alga brilhava. Subiu até a beirada e arrancou a grade da borda. Saltou para fora molhando o chão, estava no pátio do Convento das Mercês. Aquela bela construção de 1654 já havia sido palco de muitos acontecimentos. Tinha sido sede da Ordem dos Mercedários, quartel de polícia e agora sede da Fundação da Memória Republicana, ainda centro de Convenções, mas certamente aquele lugar jamais havia recebido um vampiro saído de seu poço. Jan Kmam sentiu um odor pútrido rodeá-lo. A alga desfazia-se levando junto suas roupas, queimando sua pele. Jogou a camisa no chão e correu através do pátio, pelas arcadas. Precisava se despir imediatamente, conseguir roupas limpas. Invadiu a cozinha vazia e logo adiante os banheiros. Puxou as botas e a soltou de qualquer modo. Sentia como se estivesse próximo de incendiar. Ligou o chuveiro rugindo de dor e só se aquietou com a força da ducha. Calmo e limpo, com a cintura enrolada numa toalha estreita, despejou a água do interior de suas botas e as lavou com tranqüilidade. Fitou da pequena janela a madrugada chegando lenta. Saiu pelo corredor vazio e encontrou um quartinho com produtos de limpeza, baldes e vassouras. Numa prateleira, toalhas, aventais, macacões, calças e camisas brancas certamente usadas pelos garçons em eventos. Jan Kmam vestiu-se e logo estava de saída. Galgou a parede e o telhado e avistou a rua da Palma. O sol ia nascer.

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26. KARA E GRACO - Fico feliz que tenha decidido permanecer ao meu lado. Na voz de Graco havia uma alegria insuportável, mas certamente isso não incomodava Kara tanto quanto a situação de Jan Kmam. Desejava arrancar com as unhas o ar de vitória de sua face. A vampira despertou no CEPS, nos aposentos de seu inimigo. Manteve a calma e decidiu a melhor solução. Graco tinha assegurado que Jan Kmam e os outros estavam bem. Não viu Consuelo e não fez perguntas sobre seu paradeiro, quanto mais distante da víbora melhor. O meio-vampiro aproximou-se e tocou seu rosto, dando-lhe chance de analisar os olhos da serpente em seu anel. - É lindo. Foi de seu mestre? - Não quero falar do passado, isso só vai nos machucar. Precisamos nos unir. Hoje termina o Intermezzo. Ariel terá que tomar uma decisão e nós dois também. Amanhã estaremos juntos diante dele como rei e rainha? - Sim, Graco. Eu irei me unir a você. O vampiro a olhava tentando acreditar. Sabendo que precisava de provas da sua entrega, Kara preparou-se para o engodo. Tocou sua face e o beijou, usando toda sua frieza para suportar a proximidade. Quando o libertou, o viu envolvido e faminto. Desabotoou a camisa de seda deixando o pulso livre para que bebesse. Atrevido, buscou seus botões, enquanto fitava o pescoço e os seios. Precisava ser forte para suportar seu toque asqueroso. - Eu me entregarei completamente a você na presença dos Poderes. Quero fazer isso para que vejam sua superioridade e cura, para que possam apreciar o nascimento de um novo rei. Vou me divertir com o sofrimento de Jan Kmam ao saber que estou ao seu lado. - Dê-me um pouco de si como prova de nossa união. Deixe-me possuí-la com meu olhar, dispa-se. Graco andava pela sala reduzindo as luzes, arrumando o cenário de sua fantasia obscura. Sentou na poltrona de couro negro e esperou os movimentos da vampira, reclinado como um rei. Ela conteve um gesto de revolta ao ouvir um sussurro agora conhecido. - Vim por você, Kara. Renda-se para vencer. Seja forte e eu lhe prometo a vitória. Faça isso por Jan Kmam – murmurou junto ao seu ouvido. A vampira engoliu o nojo e raiva e despiu-se para Jan Kmam, foi diante dele que ficou nua, mesmo que sobre seu corpo estivesse o olhar lascivo e cobiçoso de Graco. O lunático ergueu-se do sofá e veio em sua direção. Kara manteve-se imóvel ao toque dos seus dedos. Ele tocou as cicatrizes deixadas pelo chicote. A boca ávida tomou a curva do pescoço num beijo repugnante, até que por fim se ajoelhou aos seus pés. Ela estendeu o punho e deixou que ele beijasse sua carne. Os caninos perfuraram a pele dolorosamente. Eram pequenos e ineficientes, ele quase a mastigou. Lágrimas molhavam sua face quando ele finalmente se afastou e deixou o aposento.

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27. O PRIMEIRO PODER Jan Kmam não tinha para onde ir além do casarão. Sentia-se exausto. Apesar de não poder sentir a mente de Kara, quebrar os laços de sangue que os uniam tinha dilacerado sua alma. Não acreditava no que tinham feito por amor. Estava no átrio observando o céu se tornar cada vez mais claro. Deslizou as mãos pelas roseiras e deixou que os espinhos o ferissem na busca por uma rosa. Quando a encontrou, aspirou seu perfume e percebeu os dedos sujos de sangue. O casarão o acolheria àquela manhã. Dirigiu-se para o sótão e fitou o leito desfeito, levou a rosa aos lábios e a beijou de modo reverente. Estava protegido nas sombras, entregue aos seus próprios tormentos e demônios. Durante todo o dia ele permaneceu no aposento, parado junto à parede como se fosse uma estátua e o tempo não existisse. A noite chegou cedo tomando os domínios de um sol fraco demais para resistir. Jan Kmam despertou do estranho transe com a rosa ainda entre seus dedos. Tinha perdido a vivacidade, estava murcha, sua pétalas escuras caíram no chão. Sentiu na rua o aroma das calçadas molhadas pela chuva, o vento frio parecia ferir seu rosto. Os guarda-chuvas passavam por ele rapidamente. Deteve um transeunte, puxou-o para onde a luz não os denunciaria e matou sua sede. Pegou seu casaco para ocultar a espada e seguiu pela calçada como mais um rosto na rua fria e misteriosa. Parou diante do hotel e sentiu seus iguais ali reunidos. Sem motivo para fugir, resolveu enfrentar a sentença por seu crime. Traíra seu rei, a vampira que amava e os Poderes. Tinha o coração em pedaços, talvez o machado lhe desse paz. O primeiro rosto que viu foi o de Demétrius. Na sua face havia alegria e admiração sincera. Abraçou Kmam fortemente e, de modo orgulhoso, mostrou o braço cuja mão havia sido decepada. No lugar repousava uma mão de dedos metálicos e garras afiadas. Não seria a mutilação que iria vencê-lo. Era um guerreiro, sempre seria. - Eles os esperam – avisou sério e pesaroso. - Todos têm um destino, talvez este seja o meu. Dizendo isso, Jan Kmam afastou-se e andou de cabeça erguida entre os vampiros. Foi até seus aposentos e vestiu-se da melhor forma possível. Seria a última vez que se apresentaria diante do rei e queria fazê-lo de modo respeitável e não em trapos. Encontrou seus objetos no mesmo lugar e quarto onde dormira ao lado de Persa Zanne. A camisa de seda negra deu ao jeans um toque de sofisticação. O casaco de veludo acrescentou ares clássicos. Prendeu os cabelos com uma fita de veludo em homenagem à Kara, passou seu perfume de zimbro. Antes de entrar no salão, fitou a aliança no dedo mínimo e a beijou de olhos fechados para trazer Kara para perto do seu coração. O Desígnio havia começado e ninguém tinha sido escolhido para ocupar o lugar de Ariel, gerando desconfiança e pequenas demonstrações de revolta. Três lutas por disputa de poder já haviam sido conduzidas e cinco vampiros haviam morrido. A Ordem e os Pacificadores estavam em alerta, os gestos de insurreição eram contidos a fio de espada. O salão havia sido preparado para um grande evento, com portas e paredes cobertas por cortinas vermelho-sangue, isolando-os do mundo lá fora. Os representantes dos Poderes dividiam-se pelas fileiras de cadeiras. Todos estavam vestidos para receber o rei. Havia o brilho de jóias, seda e veludo, transparências e muita renda. Asti correu e abraçou Kmam carinhosamente, aliviada por vê-lo vivo. Certamente Demétrius tinha relatado o incidente nas galerias. Não havia sinal de Frigia nem de Vítor. Provavelmente haviam sido mortos ou continuavam perdidos nos túneis. Havia tentado contatar sua mente, mas nada encontrara além de silêncio. Romano o viu se aproximar e largar a arma, seu gesto provocou surpresa em muitos no salão. Valdés recebeu a espada e ficou ao seu lado sem tocá-lo, pois o gesto comunicava a rendição. Ariel surgiu no salão apoiado por Togo e Otávio. Todos ficaram de pé. Ele estava ricamente vestido, mas era difícil reconhecê-lo. Seus olhos estavam quase brancos, a pele estirada, os cabelos ralos deixando ver seu crânio. A única prova de que aquele moribundo era Ariel Simon jazia em sua mão ossuda: o anel de rubi. Jan Kmam tocou o peito involuntariamente, a sensação Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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voltara. Dor, agonia, tristeza e todas elas vindo de Ariel, que ansiava pelo fim do sofrimento físico e mental. Conteve o pranto apertando o maxilar. Notou o olhar de Otávio sobre si e logo depois o chamado de Togo. Mais uma vez se viu ao lado do rei. Ariel Simon acomodou-se no trono, manteve-se altivo, segurou o braço da cadeira e observou a todos como de costume, num silêncio avaliativo. Asti segurava a gata nos braços próxima ao rei. Era uma noite para ser lembrada por toda a eternidade. Uma era chegava ao fim. O rei Ariel Simon, reunindo o resto de suas forças e lucidez, decidiu passar seus direitos e o trono a um sucessor. - Meu tempo chegou ao fim – começou rouco, sua bela voz tinha desaparecido. – Posso sentir meus inimigos além das portas e neste salão. Esperam a queda de um rei. Absorvi a vida de meu antecessor e me estabeleci como quarto rei dos vampiros. Reinei preservando leis e segredos por um oceano de tempo. O laço de sangue deve prevalecer, devemos continuar a manter nossa espécie em segredo. Obedecer às leis significa manter resguardados um sistema e os seres que dele usufruem. O quinto rei vampiro deverá mantê-las, pois os que estão além destas portas desejam a anarquia, o caos e a destruição de valores milenares. Somos uma raça em extinção, é sabido por todos. Mas do que valem os números se nosso sangue não for capaz de produzir vampiros poderosos, resistentes ao tempo e às transformações do mundo? Se for assim, então certamente merecemos a morte. A imortalidade é um presente para poucos – suspirou. - Esta cidade onde morrerei é um exemplo de imortalidade. As pedras e as velhas casas são conservadas para que a memória não morra dentro do abismo do novo. Poderia sorvê-la inteira e ainda assim desejar mais desta mistura de sangue negro, índio e europeu. Há em cada um deles o sangue dos continentes, da selvageria dos silvícolas, do conquistador. Sangue que foi derramado nas margens da ilha, no tronco, nas senzalas. Eles estão todos à volta da cidade, são fantasmas, vultos e personagens de um mundo imortal. O vazio acompanha as criações sem alma e sangue. O tempo, nosso aliado e destruidor, mostra a mortais e imortais que nada muda de verdade, somente assume outra forma. É tempo do rei dos vampiros assumir outra forma, outra face, ter um novo nome. Mas, para tanto, que seja como os poderes exigem. Que venha da mesma linhagem de sangue e estabeleça o legado. O tempo é agora, Jan Kmam – falou Ariel, estendendo a mão em sua direção. Com surpresa, Kmam viu todos ficarem de pé e se curvarem em respeito a escolha do rei. - Jamais poderia assumir seu lugar, majestade. Eu o traí friamente. Fugi e o abandonei aos seus inimigos – confessou, enfrentando seu olhar distante e esperando que a Ordem o detivesse. - Somos vampiros, e, aos olhos de alguns clãs menos contidos, somos cautelosos demais. Todavia, os dias de insanidade passaram. A evolução é um risco que todos devemos correr, mas algo deve ser mantido dentro de nosso coração caçador: o instinto de sobrevivência, o desejo. - Então fui testado e falhei. - Não há cura. Entregar sua amante não seria prova de lealdade, mas de uma submissão excessiva. Existe um limite para tudo, meu querido – falou, fitando Otávio misteriosamente. - Não condeno a submissão, afinal sou um rei. Não, de modo algum, mas se irá viver eternamente que tenha pelo menos quem ama ao seu lado. Sua natureza predadora se sobressaiu, e isso o coloca no alto da pirâmide evolutiva. O que seria do mundo vampiro se fosse governado por um cordeiro? O amor é um luxo e a moeda que o compra por vezes assume a face da traição. Como pode imaginar que colocaria alguém que não fosse você em meu lugar, Jan Kmam? Aproxime-se. - Então, por que a pressionou? – cobrou amargo assim que ficou diante do rei. - Tenho protegido Kara, seu sangue. Tornei-a forte para renunciar ao seu amor no momento certo. A coragem e o amor de Kara o trouxeram até aqui, mas agora ela está além de nós. A assembléia ergueu-se e esperou silenciosamente. Não pareciam dispostos a contestar a decisão do rei. Ariel abraçou Jan Kmam e ele pode sentir o corpo moribundo e frágil de um guerreiro vencido diante da sentença invariável da morte. - Perde-me o impossível. - Peço o que pode me oferecer: paz – respondeu segurando seu antebraço com firmeza e coragem. – Nossos laços de sangue fazem-no compartilhar da minha dor como nenhum outro imortal nesta sala. Sua força me fez viver um pouco mais. - Otávio seria um rei mais prudente.

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- Este não é o lugar para Otávio, mas lhe asseguro que ele sempre estará ao seu lado, como permaneceu ao meu desde minha primeira noite como rei. Otávio só deseja viver eternamente ao lado de Asti. Deve uni-los, meu bom Kmam – segredou. Uma pequena mesa foi organizada pelos Zeladores do Livro. Romano depositou sobre ela um baú, abriu a tampa e retirou um cálice e um punhal. Kmam sabia o que aqueles objetos significavam. Observou o rei se despedir de alguns membros do Conselho, da Ordem, de Romano, de Togo e finalmente de Otávio. Abraçaram-se fortemente, ficaram assim por longos minutos. Quando finalmente se separaram, Otávio pediu perdão. Ariel o abraçou novamente e lhe segredou algo ao ouvido, trocando um olhar cheio de significado. Aproximou-se de Asti, beijou sua face triste e chorosa e acariciou a gata em seu colo, aproveitando para pedir que a protegesse enquanto vivesse. Por fim, chamou Otávio e uniu sua mão a de Asti. - Não ousem se afastar após minha morte – ordenou. O divã foi trazido para que Ariel ficasse o mais confortável possível, contudo, ele preferiu permanecer ao lado de seu favorito. - Deve saber que agora terá a difícil missão de punir a vampira que ama e talvez condená-la à morte. - Sim – murmurou Jan com a voz presa na garganta. - Em outra situação poderia mantê-la como amante por algum tempo. Afinal, este é um lugar solitário, um abismo os dividirá. Poderá ter um harém se quiser, mas não dará a nenhuma delas o direito de chamá-lo de seu. Kara pode se tornar sua favorita e desfrutar de alguns prazeres, mas, para tanto, ela terá que alcançar o décimo poder. Não sei que vampiro irá protegê-la agora que se tornou uma órfã. Decisões pesadas para uma primeira noite como rei, mas nunca é fácil, acrediteme, nunca será – suspirou cansado. - Está tudo pronto, majestade – avisou Togo. Não havia escolha e tampouco fuga. Os inimigos estavam além das portas esperando para se lançar sobre os presentes. A coroa roubaria seu coração e liberdade. Era necessário pensar como rei doravante. Diante da mesa, Jan Kmam segurou o punhal com força e cortou o pulso fitando a assembléia. Dentro do olhar azul, uma conformação dolorosa. Havia começado a Cerimônia de Doação. Tinha sido alterada para garantir a integridade do novo rei, que do sangue de Ariel não provaria, abrindo margem para dúvida e contestação. Afinal, o novo rei teria poderes suficientes para assumir as responsabilidades do mundo vampiro? Conseguiria se aproximar do Livro? Perguntas que brevemente seriam respondidas. Ele fechou o punho e viu seu sangue encher o cálice vagarosamente. Os Zeladores trouxeram o carrinho onde o Livro repousava fechado. A capa escura, costurada de forma rudimentar, exibia o escaravelho de asas azuladas, corpo em ouro e prata, o rubi cintilando sob a luz. Kmam sentiu o corpo reagir ao objeto. Ariel o olhou e entendeu suas exigências. Os Zeladores murmuravam uma espécie de prece, enquanto o Livro parecia tremer. - Tome, coloque-o no dedo indicador, temos pouco tempo. O cálice estava cheio, Jan Kmam afastou-se e viu o corte fechar. Ariel tirou a corrente de ouro do pescoço, olhou o amuleto pela última vez e o passou ao favorito. - Recebi este amuleto das mãos de Radamés. Ele o protegerá de Afrodite e de seus filhos. Não se preocupe, suas perguntas serão respondidas. Dei a Otávio permissão para falar de meu passado, não mais me envergonharei. Se ele desejar, revelará o dele também. Ariel jogou o manto de veludo sobre o divã, sentou e por um momento sorriu. Ele se despedia da vida, da imortalidade, passava seus poderes para seu favorito, que foi tomado por estranhas sensações. Vozes enchiam sua mente e o coração. Teria de suportá-las e compreendê-las ou não seria digno de reinar. Piscou, via rostos, o sol e noites, milhares delas. Estranhamente o que faltara naquela primeira noite de união com Ariel diante do Conselho, séculos atrás, se completava nesse momento. Jan Kmam respirava com dificuldade, mas ninguém deveria se aproximar. Recebia a essência vampira de Ariel, era o momento delicado da verdade. Um ritual antigo que só estava em processo porque no ambiente só havia vampiros. A presença humana o tolheria. Ele sentia o corpo se recuperar, as mudanças haviam começado. Nesse ponto, o Livro foi envolvido por uma redoma de energia esverdeada e quase elétrica que afastou os Zeladores. As luzes do salão piscaram, a transferência de poderes estava sendo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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realizada. O Livro parecia pronto para aceitar o novo rei. Ele segurou novamente o punhal e se aproximou do divã. Ariel estendeu os pulsos e esperou, olhavam-se nos olhos. O sangue de Ariel era dado em sacrifício aos Poderes, corria livremente. Ariel recebeu o pesado cálice das mãos de seu favorito e sorveu um primeiro gole. A princípio nada mudou. Sua carne não mais se regenerava, os cortes sangravam tirando suas forças. A sala encheu-se de sussurros e os vampiros mais antigos podiam ver os vultos desfilarem no salão. Eles haviam sido libertados pelo Livro. As cortinas vermelhas não permitiam que cruzassem do mundo espiritual para o material. Aquelas almas vampiras ainda tinham sede de sangue e energia. O primeiro que se movesse seria absorvido. Todos os presentes sabiam dos riscos de ver aquele ritual. Espectros de olhos negros, presas longas e corpos transparentes observavam sem ousar se aproximar de Jan Kmam ou Ariel. O cálice pendeu ao lado de seu corpo. Seus olhos pareciam enormes, quase brancos, os lábios tremiam ainda sujos. Jan Kmam sentou ao seu lado, podia ver seu sangue destruir cada vaso do corpo de Ariel, retesando seus músculos. Os ossos da face pareciam mais protuberantes. Um gemido rouco escapou de sua garganta, um som agoniado e sofrido que se misturou aos sussurros dos vultos, agora sobre as páginas do Livro. O objeto tremia e a capa começou a se abrir. A mão do rei, que era só pele e osso, segurava a de Kmam pedindo forças. Seus corações batiam juntos como se ele o sugasse, estava prestes a explodir. A gata saltou dos braços de Asti e passou a rodear o divã, por pressentir a morte do amigo. Os estranhos espíritos não ousaram tocá-la, era um animal sagrado no mundo espiritual. - Mate-me agora, mate os filhos de Afrodite! – disse Ariel, num último esforço. Jan Kmam reuniu toda sua coragem e frieza vampira para cravar o punhal ao coração de Ariel. O Livro abriu-se e sugou para dentro de si a horda de espíritos, enquanto os estranhos raios verdes explodiam sobre suas páginas tempestuosamente. Quando finalmente repousou sobre o carro de madeira, a Seiva brotou de sua primeira página. Escorreu para ser aparada pelo veio de prata que rodeava todo o carro e cair em cântaro abaixo dele. Agora era permitido se movimentar. Os Zeladores aproximaram-se do Livro ainda observando pequenos fragmentos de energia sobre suas páginas, era preciso confirmação. - O Livro aceita Jan Kmam como o novo rei dos vampiros – um dos Zeladores falou de modo solene. - Vida longa ao rei! O novo rei ainda segurava o corpo de Ariel junto ao seu. Sua agonia havia chegado ao fim. Soltou-o suavemente sobre o divã, puxou o punhal e fechou seus olhos. A lágrima finalmente rolou na face extremamente pálida. O silêncio era total, pesava como a ausência do rei. Todavia, a presença de Ariel ainda permaneceria nos sentidos de Jan Kmam por muito tempo. Os demais vampiros sentiram sua presença substituir a do rei. Tudo estava mudado. Ele fitou o anel em seu dedo e sentiu a pressão que exercia sobre sua carne. A mão estava dormente, tentou puxá-lo discretamente para que saísse e não conseguiu movê-lo. Sentiu-se prisioneiro, contido e castrado de sua liberdade. Max, o criado do rei, apareceu ladeado pelos Zeladores que vinham cuidar do corpo. Eles colocaram as mãos de Ariel sobre o peito, puseram em sua face um pedaço de gaze de linho e finalmente o cobriram com o manto real. Seu caixão surgiu trazido por Misha, Valdés, Togo e Romano. Nele, seu corpo foi depositado e depois foi fechado e retirado do salão sob as batidas na madeira. A assembléia o saudava pela última vez. Seria cremado, não podia ser tocado por nenhuma lâmina. O transporte até o crematório seria feito de carro pessoalmente por Togo. Depois de vinte e um séculos, o quarto rei dos vampiros, Ariel Simon, deixava a imortalidade. Otávio aproximou-se do pupilo e se curvou. Imediatamente, o rei Jan Kmam o deteve. - Ariel não gostava disso e eu muito menos. De agora em diante, somente meus inimigos se curvarão à minha presença. Otávio sentiu a força vampira rodear Jan Kmam, a energia fazia a ponta dos seus dedos formigarem. Havia mudado novamente, o fogo da vingança queimava em sua face endurecida e poderosa. - Que assim seja majestade. Sente-se.

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Quieto, ele parecia em choque, mas atendeu Romano quando lhe pediu o punhal. Asti surgiu com uma toalha úmida e limpou sua mão. Estava confuso, tentava lidar com seus novos dons. Tocou a cabeça e assim permaneceu por algum tempo. A assembléia esperava em silêncio. Queria ficar sozinho, mas esta não poderia ser sua primeira ordem como rei. Fechou os olhos e sentiu a presença de Ariel rodeá-lo, passear por seus sentidos. - Majestade? – chamou Togo. Por um momento Jan Kmam esperou que Ariel respondesse, procurou seu rosto pela sala. Fitou Togo a sua frente e respondeu: - Aproxime-se. O que deseja? Todos no salão pareceram respirar aliviados ao constatar sua lucidez. - Providências devem ser tomadas – começou, passando às mãos do rei uma pequena caixa de laca contendo os cinco selos dos Poderes. – Os demais membros dos Poderes devem ser avisados sobre sua presença para que aceitem a decisão de Ariel Simon e sua coroação como um fato consumado. - Preparem as notificações, estou pronto para assiná-las. Também desejo saber quem são os que ansiavam pelo trono. Eles têm vinte e quatro horas para se apresentarem e jurar lealdade. Os desgarrados terão uma chance de redenção. Faz-se necessário avaliar seus crimes. Pretendo limpar a casa. Romano e Togo concordaram, era o mais sensato a se fazer. Desde o primeiro momento de fraqueza de Ariel, muitos vampiros passaram a promover incidentes, em dois dias foram encontrados corpos com marcas e vampiros foram vistos por mortais não só em São Luís, mas em todo o mundo, o que causou falatório humano. Os culpados seriam punidos e a ordem restaurada. - Majestade, em sua mão deve repousar somente o anel de rubi – dizendo isso, fitou a aliança e o anel de safira. – É um cuidado fútil, mas necessário para que sua posição seja reconhecida por todos. - Sempre haverá oposição. - Sim, todos sentiram a morte de Ariel Simon e agora sua presença os assalta. Seus opositores tem o direito de questionar sua posição, o que implicará luta e algumas cabeças. Deverá matar todos os que se opuserem ao seu direito à coroa. O rei tirou o anel de safira e a face de seu pai encheu sua mente. Reviveu os dias de sol, a alegria em Paris, Valéria. Tudo pareceu irreal como se sempre houvesse sido vampiro, como se toda a vida girasse em torno da morte das pessoas que amava. Fitou a aliança de Kara e percebeu que Togo esperava que a tirasse também, mas ele não o fez. - Esta você não terá Togo, estará sempre comigo – revelou suavemente. Togo aceitou a decisão e passou a jóia para as mãos de Pietro. Ele seria criado do rei Jan Kmam. O vampiro olhava-o completamente fascinado. - Majestade. - Espere, Togo. Sinto um humano lá fora, quero que o tragam à minha presença. Pouco depois, Demétrius voltou trazendo consigo Léo. Ele olhou a sua volta e compreendeu que estava na presença de vários vampiros. Demétrius curvou-se diante do trono, reconhecendo Jan Kmam como seu novo rei. Léo Millano também compreendia sua nova posição, mas não se curvou. - A que devo a honra, tenente Millano? - Trouxe algo que acredito lhe pertencer. Jan Kmam reconheceu de imediato a mochila de Kara, a caixinha de música e o manuscrito. Togo aproximou-se ao comando do rei e fitou Léo Millano com interesse, o mortal não recuou. - Guarde-o com você, Togo. Kara deverá destruí-lo pessoalmente diante dos Poderes. Asti, por favor, leve os demais objetos – estava incomodado a observação constante que sofria. Sua vida parecia desnuda aos olhos de seus súditos. - Assim será feito, majestade – falou Asti, retirando-se com a mochila. - É o rei deles agora? - Sou. Acredito que leu o manuscrito. Então deve saber o quanto perigo se expõe.

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- Eu sei. Entretanto Kara me garantiu que nenhum vampiro ousaria me tocar. Ela surgiu dentro de minha mente e me ensinou o caminho para que eu pudesse avisá-lo do perigo que corre permanecendo neste hotel. - O recado foi dado, agora saia. Seja lá o que estiver por acontecer, qualquer um aqui tem mais chance de sobreviver do que você. - Espere. É o rei, tem o poder de me conceder um pedido. O rei gargalhou e a assembléia o acompanhou, afinal as palavras de Léo Millano não eram descabidas. - Está diante de um vampiro. O preço é alto. Está disposto a pagá-lo? Lembre-se, mademoiselle Kara não poderá defendê-lo. Posso matá-lo, é isso que anseia, pedindo-me favores? - Se esse é o preço pela vida de Persa Zanne, estou disposto a pagá-lo. Não posso tirá-la das mãos de Graco sozinho. Ajude-me. Kara Ramos também está com ele – afirmou, cobrando uma atitude. - Ela foi para os braços de Graco por livre e espontânea vontade. - Se vai deixar barato, é problema seu. Eu sei onde estão e vou invadir aquele lugar com ou sem mandato. Só sairei de lá com Persa! Kara o descreveu como alguém decidido, forte, livre e agressivo. Não pode ser o vampiro que ela falou. As palavras morreram debaixo da pressão dos dedos de Jan Kmam sobre sua garganta. Debatia-se tentando puxar as mãos do vampiro, mas ele era forte demais. Enfrentou seu olhar, os caninos ameaçadores próximos de sua face. Jan assistiu com espanto o rosto de Léo mudar e tomar os contornos da face de Kara. Era uma visão. Compreendendo a proteção que oferecia ao mortal, ele o soltou com repugnância, afinal tinha gana de matá-lo. Caído no chão recuperando o fôlego, Léo viu sangue nos dedos, as unhas do vampiro o feriram. O rei voltou calmamente ao trono e viu a si mesmo naquele mortal. Tinha o desejo de vingança e a busca por seu amor perdido. - Está pronto para matar e morrer por ela, isso é bom. Terá sua chance, pois Graco se aproxima – avisou, fazendo todos olharem a porta de entrada. – Fique ao meu lado tenente, e só fale quando eu permitir, entendeu? Léo Millano assentiu e esperou como os demais para ver Graco entrar com sua comitiva ao lado de Kara. Estava lindíssima num vestido de veludo vermelho. Ele a exibia como se fosse uma jóia rara. Cruzaram o salão, mas foi impossível para ela não se surpreender diante de Jan Kmam. Sussurros indignados varriam a assembléia, a natureza única de Graco foi notada de imediato. O rei inclinou-se em um gesto involuntário e talvez condenável em sua atual posição, mas se corrigiu de imediato. Estava diante de seus súditos, não podia exibir fraquezas. Consuelo ostentava um sorriso largo e vitorioso e fitava o novo rei com desprezo. Eles haviam conseguido causar o choque desejado. Otávio aproximou-se do trono para proteger Jan Kmam, já que a presença da amante trouxera a sua face contornos tenebrosos e ameaçadores. Ela desviou o olhar, não podia mais enfrentá-lo. Graco tinha aliados poderosos ao seu lado para contestar a coroação do novo rei. Antes que saíssem do CEPS, Kara foi apresentada a Nicolas, Mendel e Dimitry. Graco fez questão de exibila. Queria provocar Jan Kmam e fragilizá-la com uma só tacada. Eles eram sofisticados, exóticos e se vestiam de modo extravagante. Nicolas e Mendel continuavam os mesmos de que Otávio se lembrava. Sempre com ternos pretos idênticos, camisas brancas impecáveis, gravatas finas de seda negra e sapatos engraxados. Dimitry permanecia inalterável, quieto e observador. Usava sobre os olhos mutilados óculos transparentes como sua amante. Ela tinha o cabelo preso no alto da cabeça, mantinha o semblante severo. Consuelo deu preferência a uma calça negra e um colete justo sintético que cobria os seios alvos prestes a escapar pela borda. Graco ousou e vestiu um terno de veludo negro bem ao estilo de Ariel. - Cortou pessoalmente a cabeça de Ariel? – perguntou Consuelo. - As decisões dos Poderes não são para seu entendimento, Consuelo. - Ousa falar comigo como se fosse o rei? – desdenhou diante do trono, brincando com o leque. – não reconheço sua autoridade. Ariel o elegeu tardiamente. - É o que veremos – dizendo isso, Jan moveu os dedos em sua direção.

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Consuelo tocou a garganta, tentou falar, mas só havia silêncio. A assembléia gargalhou e Graco tentou esconder a admiração por tal poder. Consuelo quis atacar Jan Kmam, mas foi afastada pelos Pacificadores. Quando os risos finalmente cessaram, ela o olhava furiosamente. - Seu sangue respeita minha autoridade de rei, siga o exemplo. - Ariel tinha duas escolhas. Ficar e lutar por seus direitos numa disputa ou simplesmente escolher o Legado e colocar diante de nós um novo rei, vindo de sua linhagem de sangue – explicou Romano, com a permissão do rei. - O Intermezzo já havia acabado – argumentou Dimitry. - E como manda a lei, após o Intermezzo o rei decide. Ele escolheu o Desígnio e hoje um novo rei assumiu seu lugar. Como ex-Lorde, deve saber que ir contra tal decisão implica luta e morte para qualquer vampiro. - São leis que matam e mutilam injustamente. - As mesmas que jurou proteger e fazer cumprir. Injustas e cruéis? Sim, talvez, mas na imortalidade não há espaço para piedade, somente para igualdade. Fez sua escolha- dizendo isso, fitou Ania segurando a mão de Dimitry. - Sim, como faço agora por um novo rei e por novas leis. Onde um Poder não seja mais importante do que a vida de um vampiro. A mão dos Poderes não pesa mais sobre mim, Romano, sou livre. Livre como todo vampiro deve ser diante da noite. Dimitry apertou a bengala e sentiu a mão de Ania sobre a sua, acalmando-o. Além dos Poderes só restavam núcleos vampiros desconhecidos e primitivos com seus próprios líderes. Seres que tinham somente a si mesmos dentro da imortalidade. Consuelo sorriu afrontando Romano. Aquela vampira parecia uma fonte de onde só transbordava o mal. O líder dos Lordes lançou-lhe um olhar glacial. Graco deu um passo à frente, estava pronto para começar seu show. - Não busque mais inimigos do que possui, criatura – o aviso de Romano foi dado em tom controlado, mas combativo. – Da última vez que nos encontramos Consuelo o defendeu, mas hoje ela não poderá ajudá-lo. Consuelo semicerrou os olhos tocando a garganta. Se pudesse falar, certamente estaria cuspindo injúrias sobre ele. - Desculpe-me, padre, porque eu pequei – disse Graco, insultuoso. Romano puxou seu punhal e o colocou debaixo da garganta de Graco. Todos os olhares estavam sobre eles agora. Por via das dúvidas, Consuelo afastou-se cautelosa. Gostava do seu protegido, mas gostava muito mais dela mesma. - Romano, estamos sob trégua. Nosso jovem convidado deve ter algo a dizer antes de ser executado – o rei se pronunciou. - Todos nós temos. Não o conheço, Jan Kmam, mas se veio do sangue de Ariel, então é meu inimigo – falou Mendel. - É uma questão de sangue, sem dúvida. Nesse caso o seu, isso se torna óbvio – o conhecimento adquirido por Kmam surpreendeu Otávio. Nicolas e Mendel surgiram no mundo vampiro um século depois de Jan Kmam se entregar ao sono, em São Luís. Viviam em Chicago e promoviam verdadeiros banhos de sangue entre gangues locais, não respeitavam a autoridade de ninguém, mas já haviam provado da espada de Ariel em luta por duas vezes. Escaparam graças a intervenção da polícia, que alheia à verdade tentava prendê-los sob acusação de jogo, venda de bebida e armas durante a Lei Seca. Por um século permaneceram mortos, mas voltaram e se aliaram, dominaram as gangues e a máfia. Mendel havia criado Nicolas, sua outra metade, como se o mal pudesse ter duas faces. - Sem mestre o único poder que conhece vem dos seus caninos. Vocês não fazem parte do nosso mundo, por que nos importunam? - Seu rei destruiu meus negócios, esvaziou minhas contas, destruiu minhas casas de jogo, deixou-me nu diante do mundo mortal. - Você é um vampiro, não deve se misturar ao mundo mortal. Não percebe que eles podem se matar sozinhos, sem a sua grata ajuda? Se não segue as regras, morre por elas. Vivemos no mundo mortal, mas não fazemos parte dele. Devemos nos preservar do seu olhar investigativo. A imortalidade não é algo para se ganhar ou perder numa mesa de jogo. Não olhe o meu mundo com ambição, pois o poder que cada vampiro carrega dentro de si é parte de uma herança sangüínea, algo que você não recebeu. Não vai sorvê-la junto a essa corja nem sonhando com Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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minha cabeça. Você e seu capanga são piores que este meio-vampiro que seguem, pois pensam como mortais e inutilmente tentam viver com eles usufruindo e negociando a margem da sociedade. O que você é, Mendel? Em que nível de evolução está? - Sou o que me fizeram – tentou se justificar. - A velha ladainha. Não busque a escuridão se tem medo do escuro. Sabe quantos mortais além destas portas anseiam por nosso beijo vampiro? Jan Kmam movia-se elegantemente pelo salão enquanto falava verdades conhecidas pelos vampiros inscritos no Livro, que seguiam as leis para protegerem dois mundos bem diferentes mas estranhamente ligados, necessários em ao outro. - Milhares – retomou Kmam. – Eles buscam manter o que foi feito para perecer sob a ação do tempo. Eles querem viver eternamente, obter poder sobre tudo e todos. Estranho como os mortais conseguem perverter toda evolução que adquirem. Tanto conhecimento e ainda vemos pessoas morrerem de fome e de doenças facilmente curáveis. Obviamente tudo isso nos alimenta, já que precisamos deles. Mesmo que se matem e se destruam, precisamos de seu sangue, então que continuem se reproduzindo. Não nos é dado o direito de interferir, eles devem seguir sozinhos. Ambiciona todo esse poder para quê, Mendel? Montar um cassino gigante? – perguntou para fazer a assembléia rir junto com ele. – Deve ser isso. Acreditam realmente que mesmo na imortalidade não haveria leis para controlar tal poder? - Somos livres. - Sim, porque foram gerados por desgarrados. Mas não se preocupe, esse é um mal que pretendemos erradicar ainda neste século. Essa frase soou tão mortal – disse Kmam cinicamente, fazendo a assembléia se divertir. - Jan Kmam – chamou Graco, fazendo o rei arquear as sobrancelhas. - Para você, é majestade, criatura. - Compreendo, mas temos tanto em comum. Graco puxou Kara para junto dele, segurava-a pela cintura. A vampira baixou o olhar para que ninguém percebesse o medo e a vergonha que sentia. - Deve explicar por que me culpa por sua criação. O fato é que não o conheço e isso pouco fará diferença diante do machado. Sentindo-se repreendido, Graco resolveu começar o ataque. Estava cansado de ver seus aliados se curvarem diante de Kmam. - Kara está pronta para se entregar a mim diante dos Poderes e me tornar um rei bem mais poderoso que você – revelou cheio de um prazer amargo diante da assembléia indignada. - Acredita que conseguirá isso ameaçando-a e enchendo-a de dúvidas com mentiras sórdidas? - Kara cedeu aos meus desejos. Não a obriguei a me alimentar nem a oferecer a beleza de seu corpo. Ela o fez porque assim o desejou. Graco a usava como arma, provocava o rei abertamente sem imaginar o que enfrentaria adiante. A vampira deu um passo à frente fazendo Graco sorrir vitorioso. Ela virou o rosto tentando evitar a cena, ganhando tempo para pensar. Descontrolado, Graco a agarrou e a beijou de modo agressivo. O rei ergueu o queixo afrontado, enquanto o ódio crescia. Dono e senhor de suas emoções, voltou ao trono, alisando a aliança no dedo mindinho. Kara e Kmam haviam estabelecido contato, seus olhares se encontraram, como se tudo houvesse parado à sua volta. O coração da vampira disparou e ela sorriu. Mesmo sem os laços de sangue, bastava um olhar dele para fazer seu sangue correr depressa nas veias. Ele era o rei dos vampiros e podia tocar sua mente como a de qualquer outro vampiro na sala. Graco nada percebeu. A espada voou das mãos de um Pacificador para a vampira. Kara apontou a lâmina para a garganta de Graco. - Chega desse teatro, Graco. Hora da justiça – ela disse. – Membros dos Poderes, Majestade peço sua atenção. Fui raptada por Graco e graças a ele perdi meus poderes, minha liberdade e meu mestre. Fui submetida às suas experiências científicas, trago no meu corpo uma espécie de aparelho que controla meus poderes, assim como minha vida – disse, para gritar de dor e cair ao chão. Graco, furioso com seu levante, usou o controle que exercia sobre Kara. Os Pacificadores a cercaram tirando-a do alcance do vampiro, mas a dor prosseguia. A vampira sangrava pelo nariz, ele pretendia matá-la. Um punhal cruzou o ar e acertou a mão do meio-vampiro. Kmam estava Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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com a pontaria perfeita. Imediatamente, Kara deu sinais de melhoras e as convulsões pararam, o controle caiu ao chão banhado em sangue. Consuelo aproximou-se com um lenço e envolveu a mão ferida de seu protegido. - Tragam a vampira à minha presença – ordenou o rei. Os Pacificadores praticamente a carregaram até o rei. Com o rosto sujo de sangue, Kara esperou ainda tonta. Os líderes dos Poderes aproximaram-se aguardando ordens. As acusações feitas pela vampira precisavam ser pesadas e julgadas. O rei ergueu-se do trono e resolveu dar prosseguimento ao plano combinado com Kara. Ficou às suas costas e desceu o zíper do vestido. As alças escorregaram, e o vestido desceu, deixando-a nua. As marcas do chicote ainda visíveis em sua pele pálida eram a prova da tortura que lhe fora imposta pelo meio-vampiro. Num gesto lento ela ergueu os cabelos e deixou a nuca exposta para que vissem o local onde o implante estava. - A vampira de agora em diante está sob custódia da Ordem dos Pacificadores – Togo falou, observando-a recolher a roupa para se cobrir. – Pesam sobre o meio-vampiro, além de sua natureza, o ataque à jovem vampira e seus crimes contra nossa espécie. Kara foi conduzida pelos Pacificadores para um canto do salão e lá mantida sob vigilância. O plano havia sido um sucesso, mas ainda não havia chegado ao fim. Consuelo olhava a cena furiosa, o tiro saíra pela culatra. Kmam vencia mais uma vez e agora Kara estava novamente em suas mãos. - O que fez a Persa Zanne? – a voz de Léo chamou a atenção de todos. Tinha a arma apontada para o vampiro. - Mas o que temos aqui? Esqueceram de dedetizar o hotel? – debochou Graco, ele havia conseguido controlar o sangramento na mão e estava pronto para continuar o ataque. - Abaixe a arma – ordenou o rei, suavemente. - Um mortal no salão real, isso é típico de Jan Kmam, o piedoso – foi a vez de Consuelo alfinetar. Sua voz tinha voltado agora que o rei ocupava a mente com questões mais importantes. - Consuelo, Ariel foi muito complacente com você, mas eu não serei. Chegou a hora de pagar por seus crimes. - Eu só dei a Persa Zanne a entrevista que ela tanto desejava. Mas logo a verá. Tanto Jan como Léo estavam prontos a se lançarem sobre Graco. O ódio parecia uma onda de calor que envolvia a sala. - Nós viemos exigir a Arena – revelou Graco. Um murmúrio indignado varreu a assembléia e fez os representantes dos Poderes ficarem de pé. Kara olhou ao redor assustada, pois em cinco anos de imortalidade nunca estivera na presença de tantos vampiros. Sentia-se acuada e percebeu sobre si o olhar do rei. Ele foi doce e rápido, mas lhe deu a coragem e a força de que precisava. Mesmo com a assembléia em revolta, ele permaneceu tranquilamente sentado em seu lugar de direito. Léo os olhava com curiosidade e até receio, seus rostos e caninos expostos demonstravam grande exaltação. Era uma oportunidade única, algo que lembraria por toda sua vida. - Vai lutar, mestiço? – o rei perguntou de pé, silenciando a assembléia ainda assanhada com a petulância do vampiro. - O novo rei deve ser escolhido por seu valor, e não por seu sangue. - Você acredita que tem moral para fazer julgamentos, quando se alimentou de minha criação? Conheço parasitas menos hipócritas. Eles estavam frente a frente, travando um combate feroz de olhares. Os demais vampiros começaram a se afastar, pressentindo o perigo. O rei sentiu a força de sua herança de sangue em Graco. Jan parecia uma estátua de gelo, o olhar assassínio sobre Graco beirava a prata líquida. A gama de seus poderes aumentara e contê-los diante do inimigo não era tarefa fácil. - Minha maior desgraça é não poder lhe dar tal direito. A Arena é um torneio muito antigo e necessita que oito dos mais velhos vampiros entre nós a exijam, e você nem é homem nem vampiro. Surge um impasse, como pode perceber. - Não há motivos para lamentações, majestade – falou Savedra ao entrar no salão. Otávio estreitou os olhos e pôs a mão sobre a espada, os ânimos esquentaram ainda mais. Todos conheciam Savedra. Era um dos mais antigos e temidos desgarrados do mundo vampiro, possuía séculos de existência. Foi como se uma serpente houvesse entrado em um ninho de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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águias. Sua presença causou a inquietação desejada por Graco. O levante promovido por Savedra séculos atrás tinha entrado para a história. Comentava-se que vivia nas sombras e havia gerado um grupo de seguidores vampiros. Ele era ameaçador até mesmo para seus iguais. Sua presença imperiosa e combativa incitava as espadas, tinha um dom nato de gerar hostilidades. - Como disse, não há do que se lamentar. Tenho certeza de que não faltará número para se opor a sua coroação, Jan Kmam. - Esta noite ficará marcada na história de nosso mundo – Togo quebrou o silêncio diante do velho inimigo. – Pena Ariel não estar vivo para cortar pessoalmente sua cabeça. A figura imponente de Togo pareceu ganhar dimensão, a roupa negra lhe dava ares imperiais. Saiu de seu lugar de costume e acercou-se do trono. Tinha o queixo erguido, olhos fixos no oponente, mão sobre o cabo da kataná. A lâmina da espada exigia o sangue de Savedra. Togo sorriu ameaçador, mas manteve o controle para que seus caninos continuassem ocultos debaixo da face oriental. - Sabem contar, não é mesmo? – falou fitando Savedra, caçava-o há séculos. – Faltam dois questionadores para que seja convocada a Arena. - Não seja por isso, Togo. De meu posto de líder do Conselho, questiono a coroação de Jan Kmam como rei dos vampiros – disse Crasso, para a surpresa de todos. A assembléia levantou em protesto. Parte dos membros do Conselho fez questão de mostrar indignação, mas alguns se colocaram imediatamente ao lado dele, engrossando a fileira dos desgostosos. O desequilíbrio pairava sobre o mundo vampiro, a instabilidade rondava a cabeça de todos. Com a autoridade de Jan Kmam questionada, haveria combates entre os imortais. A animosidade corria no salão, velhos inimigos pareciam prontos a se digladiarem ali mesmo, descumprindo a trégua estabelecia. O brilho das lâminas surgiu sob os casacos e capas. O caos estava prestes a se estabelecer. Nesse momento, Léo os viu como verdadeiros guerreiros, em sua observação estranhou uma face calma, alheia ao mar de ódio ali estabelecido pela divisão. Os olhos azuis pareciam um lago profundo, a postura real era elegante como sempre, os passos marcados de modo silencioso e altivo. Uma presença poderosa o rodeava. Estava além do alcance de qualquer ser naquele salão, e apenas os olhos de Kara conseguiam ver Radamés conduzir o rei, sussurrando ao seu ouvido, enquanto Kmam o aceitava amigavelmente. A segurança do rei diante do desequilíbrio imposto por Crasso acalmou os membros dos Poderes presentes e também a assembléia. Eles se contiveram e esperaram por suas decisões. - Como líder do Conselho deveria saber que sua opinião não pesa diante de minha coroação – ele citava o Livro. – Quais dentre vocês, membros do conselho, pretendem me desafiar? – perguntou Jan, chamando-os para a briga. Não houve movimento na assembléia e Crasso ficou sozinho. O Conselho mostrava do que era realmente capaz: a desistência. - Bem, pelo seu silêncio vejo que o seu voto pela Arena permanece, o que o obriga a abdicar de seu cargo dentro do conselho. Pagará pela escolha que fez, é esse o preço. Acredita que os Poderes o tolerarão após sua escolha? Seu desejo o exclui de nosso sistema. Havia um brilho de satisfação em muitos olhares naquele salão. Crasso saltara num abismo sem pára-quedas. Sua traição e ambição fizeram-no perder o que havia conquistado, jogando-o no limbo do mundo vampiro. - Há tempos o conselho merecia um representante à altura, mas jamais imaginei que você, Crasso, fosse abdicar de sua posição. Peço que entregue o selo do Conselho a um dos Pacificadores. Não se oponha ou mandarei que o arranquem de seu pescoço juntamente com a cabeça. Crasso tocou a pena de ouro na corrente em volta de seu pescoço e semicerrou os olhos. Sentiu-se diminuído, a manobra pareceu não surtir o efeito esperado, e pior, acabara com seus privilégios. Ao contemplar a face dos presentes, percebeu o prazer que havia proporcionado aos seus inimigos. Fitou Jan Kmam com ódio mortal ao entregar o selo ao Pacificador que passou às mãos do rei. - Para que os conselheiros aqui presentes se mantenham dignos de sua posição e capazes de votar, proponho Virna para líder deste Poder.

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Virna havia passado dos quinhentos anos. Era uma vampira poderosa, bela e inteligente, isenta de delitos e sem companheiro. Os Conselheiros a aceitaram de imediato, principalmente a parcela feminina dentro dos Poderes. Ela se aproximou do rei para que ele admirasse seus cabelos loiros, o rosto suave e os lábios cheios. Ela se curvava para receber o colar com a pena sobre os ombros e seu beijo suave nos lábios. Feito isso, juntou-se aos demais representantes dos Poderes assumindo seu lugar de direito. - O prazer de cortar sua cabeça valerá qualquer sacrifício, Jan Kmam – ameaçou Crasso, tentando se animar. – Desafio você dentro das leis da Arena. - Contam com mais alguém oriundo das sombras para totalizar os oito votos? – quis saber Togo. Apenas esperava a ordem do rei para cair sobre Savedra. Graco controlou um sorriso debochado diante da pergunta de Togo e preparou-se para destilar mais veneno. - Surgi das sombras e estou aqui como meus iguais para pedir justiça. - Não existe criatura semelhante a você na sala, então tente não nos insultar. Diante de nossas leis não tem sequer direito a viver – o rei esclareceu. - Se não possuo direitos, posso certamente fazer acusações, afinal meu criador merece a morte. Anos atrás enviei ao Conselho meu pedido de adesão, mas ele foi recusado. - Se isso tivesse acontecido, teria sido caçado e morto. Meios-vampiros não são aceitos, tem que ser exterminados. Quem lhe fez acreditar em tal mentira? – perguntou Otávio, olhando-o com atenção redobrada, apesar de já saber a resposta. Graco não conseguiu esconder a consternação ao compreender que tinha sido enganado por Consuelo. Nada fez contra ela, simplesmente a olhou ressentido e continuou com seus planos. Não era o momento de pisar na víbora, precisava de todos os seus supostos aliados. - Se permanece vivo é graças à trégua estabelecida pelo rei. Mas aviso que ao denunciar o vampiro que o gerou o condenará à morte juntamente com você. Esta é a lei do Livro – esclareceu Togo. - A morte não existe para um meio-vampiro, já que nunca vivemos plenamente. Tome, majestade, julgue por si mesmo – dizendo isso lançou um objeto em direção ao rei. Jan Kmam aparou no ar o anel e examinou a peça. Era o símbolo dos Lordes! Mas este era maior, mais pesado, uma jóia certamente muito antiga. Talvez uma das primeiras esculpidas com o selo daquele Poder. - Esta jóia foi deixada para minha pessoa como herança, após a morte de minha mãe mortal. Carreguei-a comigo durante toda a minha vida. Graças a ela, fui reconhecido por meu pai seis anos depois de meu nascimento. Jamais imaginei poder vê-lo novamente, pai. É estranho contemplar sua face após tantos séculos. A assembléia, os Lordes, o rei e até mesmo Léo o olharam mudos, a expectativa crescia à medida que o anel passava pelas mãos dos Lordes, que tentavam identificá-lo. Romano fitou a jóia e baixou o olhar pesarosamente. Togo repetiu seu gesto. Quando o pesado anel chegou às mãos de Otávio, Asti estava intranqüila, pois já há algum tempo tentara sem sucesso tocar a mente do amante para saber sua opinião. - Hoje posso me sentir pleno, mas será que por algum momento pensou nas minhas dores e dúvidas, no medo que sentia ao despertar a fome? Pode imaginar acreditar-se humano e ansiar por sangue todos os dias de sua vida? Eu acuso Otávio Maximiliano Augusto Graco como meu criador – disse ele, revelando a todos o nome mortal de Otávio. A assembléia levantou-se em protesto e pediu imediatamente pela cabeça de Otávio. Seu crime era considerado um dos piores dentro do mundo vampiro. Ele havia tocado uma mortal grávida e permitido que vivesse e gerasse uma forma nova de vampiro a partir de seu próprio sangue. Seu ato não poderia ser tolerado nem perdoado. Otávio, para o total desespero de Asti, havia posto o anel no dedo indicador. - É uma acusação muito séria – Kmam se pronunciou. - E verdadeira, majestade. Graco é meu filho, infelizmente. Declaro-me culpado de seu nascimento como meio-vampiro e estou pronto para receber a punição. - Isso é mentira! Negue meu amor. Negue! – Asti estava desolada. - Prendam os dois. Pelas leis do Livro, eles devem ser executados imediatamente – falou Togo, fazendo sinal para os Pacificadores. – Majestade? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Prossiga. A lei deve ser cumprida. A trégua havia acabado. Os Pacificadores cercaram os invasores mostrando armas e faces ameaçadoras. - Majestade, os desgarrados e a jovem órfã também serão julgados imediatamente. A trégua termina aqui. Sobre a órfã pesam crimes sem perdão perante a lei. Eles foram cercados e agrilhoados de imediato. Kara, que até aquele momento era mantida a distância, foi posta ao lado dos acusados e se tornou uma pequena mancha vermelha nos olhos do rei. Precisava pensar rápido e encontrar um modo de salvá-la e a Otávio. Estavam presos numa mesma corrente, o som do metal e o peso dos grilhões nos punhos e tornozelos era aterrador. Arrastados para o canto esquerdo do salão, ficaram diante da Ordem, a poucos metros do trono. Togo preparava-se para ler as acusações. Como Ania e Dimitry já haviam sido duramente punidos pelo Livro, foram considerados livres. Kara não conseguia acreditar no que acontecia. Olhou os grilhões, tudo parecia muito lento e não havia outro som além do de seu coração. Os Pacificadores separaram duplas para a leitura das acusações. Graco e Savedra, Consuelo e Crasso, Otávio e Kara, o carrasco teria muito o que fazer àquela noite. Nesse momento, Asti puxou seu punhal e tentou defender o amante. O rei olhava a cena com visível desagrado. Ela se viu dominada pelas mãos cuidadosas de Otávio, que lhe desarmou. - Não os desafie em luta aberta – pediu Otávio, preocupado com seu fim. Os Pacificadores a rodearam para conter sua luta inútil. Demétrius, depois de muita insistência, conseguiu controlar a situação. Segurou-a delicadamente e a afastou dali sob o olhar agradecido de Otávio. Asti fitou Demétrius com a face banhada de lágrimas rubras. Jan Kmam viu com verdadeira impotência a Ordem se preparar para a execução coletiva. - Otávio Maximiliano Augusto Graco, inscrito no Livro em 167 d.C., feito Lorde sete séculos depois, é acusado de falhar como guardião da amostra que foi confiada no mesmo ano pela Ordem dos Pacificadores. Também é réu confesso da criação de um meio-vampiro no ano de 59 d.C., tendo como sentença a decapitação. Togo leu a sentença e um dos Pacificadores trouxe o machado. O brilho da lâmina cor de prata os encheu de terror. Kara fechou os olhos e tentou conter o coração aflito. - Graco, sobre sua cabeça pesa sua própria natureza indefinida. Como também seus atos de violência e pesquisas sobre a espécie vampira que foram comprovados pelos membros dos Poderes. Sua sentença é a decapitação imediata – Togo finalizou. - Sobre a vampira órfã conhecida como Kara... – Togo a sentenciava olhando-a nos olhos com indiferença, fazendo-a tremer. - ...pesam os crimes de revelar os segredos do mundo vampiro através de um manuscrito, fornecer amostras de sangue para pesquisa humana, contribuir com a morte de Marques Bryantt, seu Sentinela, e de passar às mãos de um mortal a amostra do sangue da Inimiga dos Poderes, gerando com tal ato um amaldiçoado que atentou contra a vida do rei e colocou em desequilíbrio o mundo vampiro – a assembléia murmurou indignada. – Sua sentença é a morte pelo machado. Sentado no trono, Kmam sofria silenciosamente enquanto tentava encontrar uma saída lógica. Sua mente estava dentro do Livro buscando uma brecha que fosse para salvar a vida dos dois. Os Pacificadores aguardavam somente um sinal de Togo. Asti já havia se desvencilhado de Demétrius e se agarrado ao amante novamente. Otávio a beijou longamente e pediu que se afastasse. Graco planejou tudo cuidadosamente e conseguiu seu intuito. Ele os enfraqueceria vagarosamente, mesmo que isso custasse sua vida. - Majestade, passo todos os meus bens para minha ex-pupila e amante Asti. Despeço-me da imortalidade consciente de meus crimes contra a comunidade vampira e contra o antigo rei e meu irmão – Otávio se pronunciou. Asti soltou-se de Demétrius e jogou-se aos pés de Jan Kmam. - Majestade, não permita que o matem. Como um imortal, um Lorde, pode ser acusado, julgado e condenado pela simples palavra de uma criatura tão inferior? - Ele é meu pai! – Graco rugiu exibindo os caninos para Asti. A vampira aproximou-se do meio-vampiro e cuspiu em seu rosto para demonstrar toda sua cólera. Graco gargalhou como que possuído por uma espécie de demônio satírico.

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- Não posso quebrar as leis do Livro. Está além de meu controle. Otávio cometeu crimes e eles foram pesados e a sentença estabelecida. Tente compreender, esta decisão dói tanto em mim quanto em você. - Devo crer que vossa majestade dará a mesma sentença que aplica em seu ex-mestre à sua ex-amante? O medo de perder Otávio a tornava amarga, cega para tudo e para todos. - Asti, cale-se! – Otávio ordenou. – Proíbo-a de continuar. - Deixe-a falar, ela tem esse direito – disse Jan Kmam, condescendente. - Vai permitir que matem sua amante e seu mestre? – quis saber chorosa, olhando Kara a distância. – Você é o rei. - Sim, e isso vai ferir minha carne de um modo especial, mas não em menor dimensão, pois, mesmo sendo vampiro, rei e detentor de poderes, não posso salvar meu amigo e mestre, conter a fúria de seu coração ou evitar a condenação da vampira que criei. - Majestade, as execuções precisam ser feitas imediatamente. É a lei – Togo não queria perder tempo. - Conheço as leis. Prossiga – controlando a voz tensa. Jan Kmam falava, mas seu olhar acompanhava os dois Pacificadores que detinham Kara. Ela não lutou diante do cepo, pois se lutasse atormentaria seu amado e o faria cometer uma loucura. - Tente me perdoar, Asti, pois eu jamais conseguirei – revelou o rei, observando a vampira soluçar. Demétrius a recolheu em seus braços, enquanto a Ordem se preparava para dar início às execuções. Kara mantinha seus olhos pregados na face segura de Jan Kmam numa espera angustiante. - Meu consolo é saber que vai morrer junto com Otávio – Asti rugiu quase se soltando das mãos poderosas de Demétrius para alvejar Graco. O machado brilhou nas mãos do Pacificador, a cabeça de Kara encontrou o cepo. A vampira fechou os olhos e esperou resignada, deixou a mente se lembrar dos momentos de amor e paixão ao lado de Jan Kmam. A expectativa era enorme e a lâmina foi erguida. - Espere – Jan Kmam ordenou calmamente. – Não estou pronto para lidar com uma execução quando minha autoridade como rei é posta em questionamento – argumento cheio de confiança. – Darei aos descontentes a chance de provar meu poder na Arena. O oitavo voto é dado pelo rei. - Que assim seja feito, majestade – assentiu Togo, afastando o Pacificador que empunhava o machado. – Graco e os demais desgarrados devem ser libertados para que enfrentem o rei. Otávio e Kara permanecem sob custódia da Ordem. Após a Arena, seus destinos serão decididos pelo vencedor. Asti abraçou Otávio aliviada. Ele não se moveu, afinal, a execução fora somente adiada. A seu ver, ela precisava se acostumar à idéia de vê-lo morto. Kara fitou Jan Kmam e desejou poder correr para seus braços, mas ainda não tinha esse direito. Simplesmente foram conduzidos para fora do salão sob o olhar atento do rei e de Graco. - Prometo proporcionar-lhes um combate à altura – falou Jan, deliciando-se com a oportunidade. – E como mandam as leis do Livro, aqui está – dono da situação, o rei exibiu-se fazendo as páginas do Livro passarem ao seu comando mental. Falava como se estivesse diante dele, lendo-o. – A Arena se estabelece uma noite depois de convocada. Quando iniciada, nada deterá o combate dentro do círculo, e aquele que nela entrar enfrentará o rei até a morte. As demais regras, todos aqui presentes conhecem. A trégua é mantida até que a Arena seja estabelecida. Savedra observou Jan Kmam com admiração e o considerou um oponente à altura, pois seu maior desejo era cortar a cabeça de Ariel, sua morte tinha sido frustrante. Teria que se contentar em usurpar o trono de seu preferido, o que não era nada mal. - Onde acontecerá o combate? – quis saber. - Serão avisados, não se preocupem. Savedra fez uma mesura cavalheiresca e se retirou, enquanto a assembléia se desfazia. Jan Kmam e Léo observaram Graco partir e o viram mover os lábios em um deboche inusitado, “BUMM”. - Deve partir, não é seguro permanecer em nossa companhia. Devo lembrá-lo de manter segredo? – perguntou de maneira amigável. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Tem minha palavra, majestade. Peço que me deixe ficar. Não desistirei de Persa. Jan Kmam sorriu e os caninos surgiram chamando a atenção de Léo. Não havia motivos para se ocultar, depois de tudo que ele leu, viu e ouviu. Togo foi avisado pelo rei de que o policial poderia permanecer no hotel. Otávio e Kara esperavam numa pequena saleta dos muitos corredores do hotel. - Sinto muito, Kara. Não era para terminar assim – disse Otávio, sob o olhar do Pacificador que os vigiava. - Esqueça as desculpas, nada disso teria acontecido se tivesse permanecido em Paris. Togo deu algumas ordens ao Pacificador e se retirou, sem lançar um olhar que fosse. Apreensiva, Kara foi separada de Otávio e levada para outro aposento no último andar do hotel. Pietro, o criado do rei, abriu a porta e deu passagem com indiferença. Os Pacificadores examinaram os aposentos e a acorrentaram nas grades. A corrente longa possibilitou que a vampira permanecesse dentro do quarto, mas quando a porta se fechou o criado mandou que saísse. Kara foi para sacada, e o criado fechou a porta de vidro e a cortina num gesto brusco. Poucos segundos depois, o líder da Ordem dos Pacificadores veio vê-la. Ele surgiu na sacada e a fez recuar de imediato. O vampiro a olhava altivo, mas o enfrentaria de queixo erguido, pouco importava quantos séculos tinha ou o modo gelado que a encarava. A conversa não seria amistosa. Podia sentir que a avaliava abertamente com descaso e antipatia. - Faz alguma idéia do desastre que provocou? - Estou disposta a assumir meus crimes. O tapa rápido atingiu seus lábios e a fez sentir gosto de sangue na boca. - Não é permitido que você fale. Você matou um rei de dois mil anos. Ariel Simon capitulou vergonhosamente, apodreceu vivo. Para mantê-la viva, o rei permitiu que seis perigosos desgarrados continuassem vivos e livres! Graças ao amor que nutre por sua pessoa, a Arena foi proclamada. Novamente o mundo vampiro está em perigo por sua causa. - Eu não o matei – disse se arriscando a apanhar novamente. - Criatura desobediente. Jan Kmam agora é o rei dos vampiros, não é mais seu amante. Curvese diante dele, principalmente se não estiverem a sós. Como rei ele terá escravas de sangue, amantes à altura. Foi julgada e sentenciada e é somente por desejo dele que está aqui, pois não é qualificada para servi-lo. Despeça-se dele, aproveite os minutos que lhe restam e não seja tola a ponto de pedir que ele a salve. Não há salvação para você diante do Livro. Renda-se para vencer. Foi como ouvir novamente Radamés. O criado fechou a porta rapidamente, de certo temendo que entrasse nos aposentos do rei. Kara recostou-se na parede e deixou seu olhar se perder nas luzes amarelas da cidade. Tornou-se uma criatura indesejável, um animal que precisava ser acorrentado, posto para o lado de fora. Inimiga dos Poderes? Recostou a face nas grades e assim ficou imóvel até ouvir a voz alterada do rei. A porta da sacada abriu-se de modo brusco. Jan Kmam lançou um olhar incrédulo em sua direção quando ela se curvou. Arrastava o criado pelas roupas pensando no que fazer. - Desculpe-me, senhora. Não tive a intenção de ofendê-la – gaguejava com o olhar baixo. – Sinto muito, mas o líder dos Pacificadores... - Basta, saia! – o rei ordenou impaciente. - Não precisa fazer isso – tentou evitar um incidente. - Kara, nem os meus cães eu trataria desse modo! – ele se queixou tirando os grilhões de seus punhos. Kara jogou-se nos braços de Jan Kmam que a acolheu caloroso, apertando-a contra o peito para depois levá-la até a cama e lá permanecer em seu colo. Beijava seus pulsos vermelhos com carinho. - Eles apenas tentam protegê-lo, majestade. - Não me chame assim, é ridículo. E por que se curvou? Você é minha amante. Sou Jan Kmam para você e nada mais – falou acariciando seu rosto. - Tive tanto medo, Jan. Não quero deixar você – admitiu. - Jamais deixarei que a machuquem, jamais, ma petite – murmurou, enquanto a segurava junto a ele. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Graco está jogando com todos nós e é tudo minha culpa. - Non, ma chérie. Deveria ter percebido as intenções de Graco e sua corja. Está segura agora. Está nos braços do rei, anime-se – brincou tentando acalmá-la. Apertava-o com força de olhos fechados, tentando eternizar o momento. Havia resolvido aproveitar as horas que restavam. - Então agora é o senhor de meu mundo? - Sempre fui senhor de seu mundo, mon amour. Mas agora tenho mais poder – sussurrou convencido entre em beijo e outro. – Deve me obedecer ou a punirei – gemeu rouco de desejo, com o semblante mais tranqüilo. - O que posso oferecer para vossa majestade? - Mais amor, mais amor, ma chérie. É tudo de que preciso. Dizendo isso, deitou-a no leito e, apoiado no braço, continuou tocando seu corpo. Kara retribuía com a mesma intensidade, tentando aplacar a dor da separação. Ela sentiu o corpo reagir ao toque de modo diferente e faminto. A mão ágil de Kmam buscava desabotoar sua camisa. Ao sentir os lábios sugarem a carne e os caninos afiados pressionando a pele, ela enrijeceu o corpo e se afastou suavemente. - Melhor não começarmos o que não podemos terminar – disse hesitante, fugindo de seu toque, a amargura a dominava. Jan Kmam acariciou seus cabelos e suspirou pesaroso sabendo que não eram mais livres. Ela escondeu o rosto em seu peito. - Quero meu Jan Kmam de volta. Não vou suportar dividir você com outras. - Não haverá outras. Só existe você, ma chérie – tentou acalmar seu ciúme. - Isso tudo é futuro e não estarei nele. Quando a Arena chegar ao fim, terá de me condenar novamente. - Vou encontrar um modo de inocentá-la das acusações. - Não pode me proteger de meus crimes. Os Poderes não vão permitir que se coloque em perigo para me defender, está entendendo? - Não repita isso! Eu não vou governar sem você ao meu lado. Encontrarei uma forma de inocentá-la, isso eu prometo. Ficaram juntos, abraçados no leito em silêncio aproveitando a proximidade um do outro, temendo a separação. Kmam mantinha as mãos sobre sua cintura, as pernas tocando as dela. Kara estava decidida a aproveitar sua presença enquanto era permitido. Sentiu suas mãos a despirem. Uma hora depois o casal despertou com as batidas na porta, era Togo. Jan Kmam deixou o leito, vestiu o roupão e foi atendê-lo. - Majestade, sinto interrompê-lo, mas sua presença é necessária. Kmam precisava governar. Vestiu-se sob o olhar conformado e triste da amante, sentou-se na beirada da cama e falou meigo, já acariciando seus cabelos em desalinho. - Está na cama do rei, então durma tranqüila. Um Pacificador vai ficar na porta e cuidar para que não fuja – murmurou brincalhão sem querer partir e citou. – Triste é deixar o leito onde a mulher amada repousa nua e plena de beleza. Kara ficou de joelhos e o beijou longamente, enquanto ele envolvia seu corpo nu. Vestiu-se assim que o rei deixou o quarto. A qualquer momento poderia ser arrancada de seus braços pelos Pacificadores. No entanto, continuou entre os lençóis e adormeceu de imediato, sua mente estava exausta. Léo, os líderes dos Poderes e alguns Pacificadores estavam no saguão em alerta. Havia movimento algumas quadras abaixo. Os demais vampiros já haviam se recolhido, o saguão estava silencioso e havia uma espera tensa no ar. - Você não dorme? – o rei perguntou ao policial atento. - Habituei-me à noite e há muito movimento na rua. O rei parou no meio do saguão e esperou. Ao seu lado, Léo mantinha-se de arma em punho. Dois passos atrás deles estavam Romano, Valdés, Togo, Misha e Demétrius. Subitamente a imagem de Persa Zanne invadiu sua mente, foi em uma fração de segundo. Ele puxou sua espada e a deixou estirada ao lado do corpo, enquanto fitava as portas de vidro. O estilhaçar dos vidros misturou-se à pancada surda do carro contra as portas de metal. O carro descontrolado abriu um rombo na entrada do prédio. Havia poeira no ar e pedaços de vidro Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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e tijolos por todos os cantos. Jan Kmam avançou para o carro com Léo logo atrás. Havia alguém dentro do carro. Persa, ela estava caída sobre o volante pressionando a buzina, que tocava insistentemente. Léo tentou abrir a porta e nada conseguiu. Jan o afastou e a puxou de uma só vez, diante de seus olhos arregalados. Seu espanto durou pouco. Ele recostou Persa no banco e tocou sua garganta, ainda estava viva. Tinha um corte profundo na testa, fruto da batida. Léo percebeu a roupa rasgada, a mordida no pulso e no ombro. Sobre seu peito havia um pedaço de papel onde estava escrito “BUMM”. Léo arrancou Persa do banco e sentiu as mãos de Jan Kmam se fecharem sobre ele, puxando-o para longe do carro. - Afastem-se, é uma bomba. O prédio tremeu e as luzes piscaram e por fim explodiram. Uma lufada de fogo lambeu o saguão e seguiu varrendo, abrasando tudo que encontrava pelo caminho. Léo sentiu o sopro quente aquecer suas costas, enquanto ele e Persa eram arrastados por Jan Kmam até um abrigo no fim do corredor. Lá fora o fogo persistia, consumia o carro retorcido. O ar estava pesado com o cheiro da fumaça. Pedaços de concretos pelo chão bloqueavam o caminho, as janelas do primeiro andar foram cuspidas para fora. O sistema sprinkler foi acionado molhando a todos. Kara tentou chegar à porta, mas ela foi derrubada com um chute. Era Savedra. O Pacificador estava morto aos seus pés. Tentou fugir e nesse momento viu Graco surgir pela janela. - Saudades? – Graco perguntou com um novo controle nas mãos. Kara despencou no chão e começou a gritar segurando a cabeça. - Vai pagar muito caro por não ter se rendido a mim diante de Jan Kmam – ele babava de raiva. - Seu fim está próximo, sua coisa – disse Kara, sentindo o sangue escorrer do nariz. – Jamais provarei de seu sangue imundo. - Pegue-a de uma vez. Logo estaremos cercados – ordenou Savedra. Graco aproximava-se de Kara quando algo o deteve. Seu corpo voou pelo quarto e se chocou contra a parede. A vampira flutuava longe do chão, envolta em energia. O meio-vampiro percebeu seus olhos completamente brancos. - Afaste-se, ela está protegida pelos Anciões – Savedra avisou, puxando Graco. Desprendiam-se dela calor e energia. Savedra e Graco recuaram com receio de se queimar. Viram Kara tocar a nuca, arrancar o implante e mostrá-lo coberto de sangue. Ela o jogou no chão e gritou, o som espatifou as janelas lançando sobre Graco e Savedra uma chuva de cacos. - E tua carne perecerá para que o equilíbrio seja restabelecido. Persa despertou encolhida nos braços de Léo. Jan Kmam buscou a mente de Kara, temia por sua segurança, mas encontrou o mesmo vazio de antes. Os vampiros criados por Graco os atacaram. A trégua não seria mantida por ele nem pelo rei, que rapidamente decepou a cabeça do vampiro que saltava pela janela. Léo não estava totalmente indefeso, pois mantinha a arma em punho, enquanto segurava Persa nos braços. Jan Kmam chamou por Romano e tomou sua decisão. - Romano, escolte-os para fora daqui. Romano olhou o policial e seguiu na frente limpando o caminho para que seguissem em segurança. Enquanto o rei fez a direção oposta, voltava para seus aposentos onde esperava encontrar a amante. Sabia que aquele espetáculo fora criado por Graco para tirá-la de seu poder. Demétrius estraçalhou a garganta de um dos intrusos com a mão mecânica, ouvindo os gritos de dor com grande prazer. Valdés e Misha lutavam um de costas para o outro e pareciam se divertir imensamente. Togo voltou para o salão, o Livro precisava ser removido. Os Zeladores traçavam os últimos símbolos quando o primeiro invasor entrou no salão. De repente os Zeladores e o Livro desapareceram diante de seus olhos. Togo precisava proteger os restos mortais de Ariel Simon. Não demorou muito para chegar à antecâmara. Nela, dois dos seus melhores Pacificadores guardavam o caixão. O carro os aguardava na saída de motor ligado, no volante uma Sentinela. O carro seguia em velocidade pelas ruas quando sentiram um baque sobre o capô. Quando a face vampira surgiu à frente do para-brisa, os pneus cantaram. Togo desceu sem se importar com o trânsito atrás de si ou com o olhar curioso dos mortais. A espada brilhou sob as luzes amareladas, enquanto fitava incrédulo o vampiro sobre o teto do carro, Mercúrio! A essa altura, ouviam-se gritos, insultos e buzinas. O

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homem sobre o teto do carro sumiu diante dos olhos de todos. Togo entrou no carro e seguiu cantando pneu, comunicavam-se mentalmente. - Venha comigo, Togo, Radamés o aguarda. No hotel Jan ainda lutava em meio ao fogo e aos escombros. As criaturas lhe retardavam. Quando conseguiu chegar às escadas, ouviu a mente de Otávio pedindo sua ajuda. O Pacificador que o vigiava lutava com um grupo de vampiros. Ele tentava partir as correntes sem sucesso. Otávio viu o Pacificador ser cercado e sua cabeça cortada. A vampira parecia ser a líder, pois dispensou seus comparsas de luta e ficou para brincar com Otávio antes de matá-lo. Jan Kmam a cortou ao meio e partiu a corrente que prendia o Lorde. Asti lutava acuada pelo fogo e quando o vampiro caiu ao chão morto, Otávio chutou a porta. Ela mantinha a gata envolta num cobertor, o animal estava aterrorizado com o fogo. Jan Kmam fitou o teto e cravou sua espada nos sprinklers, fazendo a água jorrar. - Asti, o que estava fazendo arriscando sua vida por causa deste animal? - Prometi a Ariel que cuidaria de Ange. - E Kara? – Otávio perguntou. - Não está mais no prédio – Jan Kmam afirmou, insatisfeito. – Precisamos encontrar outro abrigo, vamos. Quando chegaram ao primeiro andar, encontraram Valdés, Misha e Romano. - Togo desapareceu durante a explosão. Os mortais foram conduzidos em segurança majestade – informou Romano, antecipando a pergunta do rei. - Estou satisfeito, onde estão os outros? - Se foram com os Pacificadores. Devem estar espalhados buscando abrigo. Os Sentinelas removeram nossos caixões e pertences, os indícios de nossa presença neste lugar não mais existem. Precisamos partir – falou ouvindo as sirenes dos bombeiros. - Para onde devemos seguir, majestade? – perguntou Valdés. - Para as galerias. Pularam pelo fosso do elevador e foram para o estacionamento. Chegaram a cruzar com o carro do corpo de bombeiros sem que eles os vissem. Um deles viu um vulto se mover pelos escombros, mas ele sumiu tão depressa que lhe pareceu um fantasma. Léo, que fora deixado por Romano algumas ruas acima, havia chamado a ambulância que o conduzia ao hospital junto a Persa. Estava muito fraca com a vida por um fio.

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28. O COMEÇO A câmara jazia perdida dentro de mares de tempo. O que a mantinha desse modo era a presença de Radamés, o senhor da Ordem de Thoth. Diante dele muitos desejariam esclarecimentos, milênios de dúvidas poderiam ser elucidados, mas Radamés não tinha vindo de tão longe para satisfazer a curiosidade humana. Os rituais que seriam realizados cabiam somente aos olhares imortais. Seu corpo era receptáculo de poderosas energias, que se fossem absorvidas se mostrariam fatais. Mesmo Togo e Vítor sofreriam com tal proximidade, mas nenhum deles parecia disposto a abdicar da aproximação. Aquele contato era especial, vemvindo e necessário. - Mercúrio, o que fez com a guardiã do Livro? - Está viva numa câmara próxima à superfície, como ordenou. - Ela vai sobreviver? – Vítor se atreveu a perguntar. - Tranquilize seu coração, Vítor. Você a verá novamente – respondeu Radamés. – Agora vá, Mercúrio, vigie as galerias, não podemos ser interrompidos. O vampiro assentiu e afastou-se ciente da responsabilidade que tinha nas mãos. De certo ninguém alcançaria aquelas galerias. Radamés preparou-se cuidadosamente para cumprir sua missão junto ao rei Ariel Simon. Havia retirado a capa de linho e lavado as mãos, um ato de respeito ao corpo que tocaria. Suas mãos grandes, adornadas por anéis, cheiravam a ervas antigas, fragrâncias adocicadas e perturbadoras aos sentidos. Abolira as tochas, a iluminação vinha de velas grossas, feitas de cera de abelha e de uma grande pira de metal onde ardiam chamas mantidas com carvão. Untou o corpo com óleo de mirra e pôs um magnífico peitoral adornado com ametistas e lápis-lazúli. Nos braços e punhos, braceletes de ouro. Começou a trabalhar em absoluto silêncio entre seus instrumentos. O corpo de Ariel jazia sobre a plataforma de pedra, semelhante àquela em que Kara havia despertado horas atrás. Um suporte de madeira apoiava a cabeça alquebrada do corpo esquelético. Seus restos eram mantidos ritualisticamente em direção ao oeste. Não era uma visão das mais belas. Livre das roupas de veludo e seda, o esqueleto parecia frágil e quebradiço. Radamés posicionara seus instrumentos sobre a plataforma rodeando o corpo de Ariel. Havia tiras de linho, olibano, mirra, cera de abelha, um bloco escuro de resinas aromatizadas e frascos de alabastro contendo óleos. Togo viu o ritual de mumificação sem surpresas, já que Ariel não era um simples vampiro. Aquele perigoso e secreto ritual não estava sequer descrito no Livro, certamente por influência de Radamés. Togo notou uma alteração nos tradicionais rituais de mumificação. Não haveria necessidade de pinças, faca de pedra etíope, funil, natrão e vasos canupos, onde suas vísceras seriam guardadas. Radamés umedeceu as mãos em três tipos de óleos e banhou o corpo esquelético da cabeça aos pés. Convidou Togo a se aproximar, estava na hora de ceder parte de si mesmo. Aceitar o convite era também aceitar as conseqüências. Untou as mãos e as estendeu sobre o corpo de Ariel. Radamés entoava palavras antigas, cheias de uma força assustadora. Togo pôde ver a energia luminosa fluir de seus dedos e banhar a pele de Ariel, que se regenerava. Sentia as mãos tremerem, a energia era sugada. O corpo parecia inflar vagarosamente. Quando Togo arquejou cansado, Radamés o afastou e continuou a entoar o cântico. Togo não foi ao chão graças a Vítor, que o apoiou. Através de seus olhos ele compreendeu que havia perdido parte da sua juventude e beleza. O cabelo negro ganhou uma mecha branca e a face imortal envelheceu sutilmente. Um preço alto, mas que Togo pagou com prazer. Vítor viu Radamés abrir a mandíbula do corpo e depositar em seu interior uma pérola vermelha. O corpo foi coberto por pedaços de um pergaminho grosso e amarelado repleto de inscrições que sumiam absorvidas pelo corpo. Enquanto Radamés entoava a estranha e desconhecida linguagem, o corpo se regenerava lentamente. Músculos e formas ressurgiram, mostrando o belo vampiro que havia sido. Era uma forma vazia, a alma não repousava naquele invólucro. Radamés fitou com satisfação o resultado de seus esforços, mas ainda não havia terminado. A magia continuaria a manter o corpo de Ariel Simon intocado. Novamente o corpo foi banhado com óleos e sua pele ficou lustrosa. Feito isso, distribuiu sobre os centros de poder do corpo amuletos e cristais e o Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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enfaixou entoando um cântico intraduzível. A múmia de Ariel foi coberta por um fino cobertor de linho e, quando Vítor julgou ter acabado, Radamés agachou-se no chão com um pedaço de cal e traçou inscrições à volta da plataforma. Elas formavam um círculo de proteção complexa. Sobre eles, Radamés derramou a cera de abelha e as resinas aromáticas que havia derretido. O ritual estava encerrado, Radamés dava sinais de cansaço na face. - Nosso trabalho ainda não chegou ao fim. O tempo de que dispomos é muito curto.

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29. RADAMÉS E A ORDEM DE THOTH O rei surgiu pelo corredor iluminado por tochas e chegou à câmara onde Otávio era mantido em isolamento. Quando se instalaram nas galerias, ficou óbvio que aquele lugar havia sido preparado para recebê-los, mas o rei não tinha cabeça para se perder em mistérios tão profundos. O Pacificador abriu caminho. Otávio estava sentado sobre a pedra, encostado à parede de olhos vazios e pernas flexionadas. Ao vê-lo, fez menção de curvar-se, mas foi detido por Jan Kmam que buscou acento ao seu lado. - sabe o que desejo, Otávio? Perdemos muito e perderemos ainda mais se continuarmos nos escondendo detrás de mentiras. Vasculhei o Livro em busca de uma saída para você e Kara, mas nada encontrei – revelou, inconformado. - Afaste-se do Livro, não há saída para nossos crimes. Precisa descansar para entrar na Arena. Parece-me cansado, há quanto tempo não se alimenta ou dorme? - Estou bem. Mas e quanto a você? - Tentando não sofrer com a perda da vampira que amo. Dominando a saudade que sinto de Ariel. Depois de tantos séculos juntos não faz sentido prosseguir sem ele. Eu o amava mais que a mim mesmo e o levei à morte. - Não foi sua culpa. - Meus erros o mataram. A todo o momento espero vê-lo surgir pela porta. Ouvir sua voz, suas ordens. Isso é doloroso, mas não veio aqui ouvir minhas aflições, majestade – brincou tentando forçar um sorriso. Um pesado silêncio os envolveu, a tristeza os dominava aos poucos. Era a ausência do companheiro de farras e aventuras. Otávio fitava a face de Jan Kmam com admiração e orgulho. Num gesto de amor e carinho, deslizou as costas da mão sobre a face de Jan Kmam e o tomou nos braços para o adeus. - Sempre soube que seria rei. Quando o eternizei em Paris, na Noite de são Bartolomeu, pude sentir seu poder. Trouxe você para meu mundo e quando o mordi, senti a energia de sua alma varrer meu coração. Escrevi imediatamente para Ariel e o avisei. Ele usou somente três palavras: que assim seja. Ariel nunca temeu a morte, certamente por tê-la como amante durante tantos séculos. Para falar de Ariel, falaremos de dois mil anos atrás. Vou falar de Radamés, afinal, ele nos trouxe até aqui. O que contarei, ouvi de Ariel, que por sua vez ouviu dos lábios de Radamés. Não podemos ter absoluta certeza ou precisar o tempo certo.

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UNIDADE II CRIME E CASTIGO

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30. RADAMÉS, O SENHOR DA ORDEM DE THOTH - Radamés viveu sob o reinado de Quéfren, o quarto faraó da IV Dinastia do Egito, que morreu em 2578 a.C. Sua pirâmide e esfinge são conhecidas mundialmente. Quéfren foi sucedido por seu filho Miquerinos. Foi durante seu reinado que Radamés entrou para nosso mundo, ele possuía trinta e dois anos. Não tive o prazer de vê-lo, mas Ariel poderia descrevê-lo com perfeição. Era um homem alto, forte, atlético, como um soldado seria. Tinha a cabeça raspada como todos os egípcios, afinal, consideravam o cabelo imundo. Ele pertencia à classe sacerdotal do Egito assim como o pai. O templo de sua ordem ficava sob a Esfinge de Gizé, onde somente os iniciados tinham acesso. Sob suas pedras estavam guardados todos os conhecimentos ligados ao deus Thoth. A esfinge fora construída num contraforte rochoso de pedra calcária, algo magnífico. Radamés desejava, como todo iniciado, alcançar O Livro Sagrado de Thoth. Os egípcios acreditavam que Thoth havia ensinado o homem a estabelecer o passar do tempo, até mesmo contar as estrelas e uma imensa quantidade de outros conhecimentos. Sua imagem era retratada como metade homem, metade pássaro. Tinha a face da Íbis, um pássaro de bico longo e curvado que a muitos lembrava a lua. A história mostra que tal criatura deixou mais de dois mil livros escritos. E, acredite-me, seu nome e conhecimento saíram do Egito e se espalharam através da Grécia, do Mediterrâneo. - Espere, eu sei de quem fala: Hermes Trismegistus. - Sim, ele mesmo. De tão poderoso assumiu a forma de dois arquimagos, um chamado Thoth e outro Hermes Trismegistus. No templo havia cem mil papiros, além da Tábua de Esmeralda. Um desses pergaminhos era o Livro Sagrado de Thoth. - Do que tratava o Livro especificamente? – o rei quis saber de imediato. - Regeneração humana, como chegar à presença de seres imortais. Ele estava guardado numa caixa dourada no santuário interno da esfinge. A chave da caixa estava na posse do Mestre dos Mistérios e era única. Tais segredos não devem cruzar seus lábios, é mais um dos muitos que arrastará consigo. - Quantos além de nós o conhecem? - Somente Ariel conhecia os segredos de Radamés, antes de mim, que os obtive por acidente. Brevemente somente você os guardará, o que me enche de paz. - Ainda é cedo para se considerar morto. Prossiga, estou curioso. - O jovem Radamés queria o poder que lhe era negado. A ordem o proibiu de buscar tais conhecimentos, chegou mesmo a ser ameaçado por seus superiores. Temiam-no, pois era muito poderoso. A magia parecia se curvar aos seus desejos, mas não o satisfazia mais. O Livro havia se tornado uma obsessão, tinha sonhos perturbadores, e num desses sonhos, viu parte do caminho. Os deuses o queriam diante de si. Sozinho, confiando nos conhecimentos adquiridos em anos de estudo dentro da ordem. Radamés se lançou ao desconhecido corajosamente. Ele sabia que as tábuas estavam além das câmaras que freqüentava na esfinge. Deveria haver uma passagem secreta, um guardião. Ele entrou em transe, assim sua mente poderia ver melhor, pois os sonhos são constantemente toldados pela matéria. Quando finalmente deu o último passo, encontrou-se numa câmara pequena. Só havia areia sob seus pés, e as paredes eram nuas, exceto pela imagem de Thoth. Radamés aproximou-se do altar e iluminou a imagem com a luz. O fogo balançou, havia uma passagem. Certamente as câmaras secretas, o Templo da Esfinge. Toda a câmara era uma grande ilusão de espaço. De repente, o enigma de Thoth veio a sua mente. - O que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está em cima – completou Kmam. - Exato. Radamés ficou diante da imagem de Thoth e a tocou com reverência. As palmas sobre o alabastro fizeram a imagem girar, ainda fixa na parede, com dificuldade. Algum tipo de mecanismo foi ativado, pois a imagem se moveu sozinha para ficar de ponta-cabeça e abrir uma porta, não muito distante. Radamés recolheu seus objetos e penetrou pela abertura. Às suas costas, a figura de Thoth se moveu, retornando à posição original e lacrando novamente a passagem. Não teve medo, contudo sabia que agora seguia por conta própria. O corredor o Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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conduziu sempre em frente, até que deparou com uma divisão. Olhou para o alto da abertura e viu inscrições no que parecia um portal. Nelas um aviso claro de perigo. Radamés não o ignorou, no entanto, não se deteve. Ao longo desse corredor, várias tochas apagadas. Próximo à entrada, um cântaro com óleo para que fossem acesas. Ele as acendeu uma a uma e só então pôde perceber a grandiosidade do Templo, com uma longa escadaria talhada em pedras negras. Uma construção de quase dez metros surgia imponente. Nela estavam esculpidas as imagens de Thoth e de sua esposa Ma’at. Inscrições preenchiam a pedra com seus ensinamentos e história. Havia doze aberturas e corredores. Radamés olhou o chão e teve a nítida impressão de vê-lo se mover. Desceu os degraus cautelosamente, sequer tomou o último, recuou de imediato ao ver o abismo. Qual seria a profundidade? Olhou para cima buscando o teto e encontrou as estrelas. Mas como podia ser? Estava dentro da esfinge. Um enigma certamente, subitamente, sentiu-se estúpido, afinal não trouxera consigo uma corda. Bateu furiosamente o pé e viu uma pedra pequena rolar. Imediatamente recolheu um pouco de areia junto aos degraus e lançou para a frente. Lá estava a areia, nada sumia dentro do abismo. Era uma ilusão. O chão era feito de uma lâmina que refletia a pintura do teto da câmara criando a ilusão. Pisou sobre a lâmina com receio e começou a travessia. Vinte passos? Talvez. Estava no oitavo quando ouviu algo se rachar. Começou a correr enquanto olhava para os lados buscando onde se agarrar. Saltou pois sentiu o chão faltar sob suas sandálias. Agarrado a borda de pedra, ouviu a lâmina de esmeralda chocar-se contra a parede rochosa e sumir dentro do abismo. A escuridão era total e, até aquele instante, os pedaços do cristal ainda não haviam atingido o fundo. Impulsionou o corpo e só parou de caminhar quando se viu diante dos corredores. Sabia estar diante dos conhecimentos das Tábuas de Esmeralda. Olhou os corredores restantes e entrou no primeiro. À medida que lia os símbolos nas paredes andava em direção ao fim do corredor, e lá encontrou a primeira tábua. Carregou-a consigo para fora e só então viu a plataforma de pedra. A pedra lisa exibia espaços vazios. Sem receio, Radamés depositou a primeira tábua e a viu encaixar com perfeição. Agora faltavam as demais. Através das inscrições esculpidas, Radamés pôde conhecer os mistérios de Thoth. Reviu tudo que aprendeu em anos de estudos, em graus diferentes de iniciação. Mas em dado momento as inscrições tomaram outro rumo. No sétimo corredor, sentiu que desvendava os verdadeiros mistérios. Havia revelações diversas, o futuro estava sob seus dedos, dentro de sua mente. Novos reis e rainhas, estranhas alterações climáticas, fome, batalhas, o Egito entregue nas mãos de invasores por mais de um século. Acontecimentos que se perdiam em incontáveis dias e noites. Orações secretas, hinos mortuários, fórmulas, respostas para uma gama inesgotável de problemas. Encantamentos que asseguravam a vida por diversos séculos, a cura para algumas doenças. Radamés seguiu pelos corredores tocando as inscrições, lendo o conhecimento proibido para um mortal. Sentia-o preenchendo sua mente, alterando sua percepção de tudo que conhecia. Estranhamente não conseguia parar e continuou absorvendo mais e mais. - A verdade surgiu diante de sua face, ela é o reflexo da dor. Foste avisado, mas não tema, pois é na dor que todas as verdades são reveladas. Radamés movia-se lentamente. Guiado por uma força desconhecida, chegou a uma câmara grandiosa onde uma luz levemente azulada banhou sua face. Ficou claro que o poder teria um preço. Se pudesse fitar sua face, teria compreendido o que as palavras na tábua em sua mão revelavam. Sua pele estava extremamente pálida devido à energia absorvida. Os olhos tornaramse brancos. Havia abandoado a tocha, não precisava mais de luz para ver. Do teto da câmara, uma coluna branca como a luz os banhava ininterruptamente sob a forma piramidal. Radamés viu a caixa dourada no centro de uma estranha formação. Olhou as paredes e viu que havia mais para aprender. Correu para elas ávido como um errante no meio do deserto, mas dessa vez não foi necessário tocá-las. O conhecimento foi sussurrado em sua mente por uma voz feminina, que lhe deu permissão para se aproximar da caixa dourada. Dentro dela repousaria o Livro, a única coisa que restava a ser descoberto por sua mente faminta. Tocou a caixa pouco se importando com os sarcófagos que o cercavam. Sob a coluna de luz, não notou as últimas mudanças operarem em seu corpo, em sua alma. Tentou abrir a caixa e encontrou resistência. A pedra banhada em ouro não exibia aberturas, somente um pequeno espaço retangular e estreito em sua tampa onde a figura de Thoth estava pintada. Nesse momento se lembrou da chave que estaria com o Mestre dos Mistérios. Buscou com os olhos Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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uma estátua ou alguém. Parou, buscou sua sacola. Segurou a pequena tábua que retirou das mãos da estátua e a encaixou sobre a tampa. Recuou ao vê-la se destravar ruidosa. Tocou a tampa cuidadosamente e a abriu. Primeiro gargalhou, e o som de seu riso histérico encheu a câmara de modo metálico. Depois berrou enfurecido, sentindo-se enganado. - Onde está o conhecimento prometido ao iniciado? – rugiu a plenos pulmões. A resposta chegou suavemente, vinda do espaço à frente de Radamés onde a criatura havia se materializado. Tinha a pele escura e o rosto pintado, e era bela como somente uma deusa seria. No cabelo adornado por jóias, uma pena de avestruz. Radamés estava paralisado, contido por seu olhar. Quando finalmente se acreditou capaz de falar, foi detido por um gesto brusco. A estranha aparição penetrou o peito nu de Radamés com o punho. Rompeu sua carne e seus ossos para lhe trazer o coração na mão, enquanto ele, ferido, mas estranhamente consciente e de pé, fitava a cena com horror e mutismo. Assim que a balança surgiu, Radamés compreendeu estar diante de Ma’at. A deusa estava ali para julgá-lo. Seu coração ainda pulsava no prato de ouro quando ela retirou a pena dos cabelos e a colocou no outro prato da balança. Os dois pratos estavam em igual posição. Cuidadosamente Ma’at devolveu a pena aos cabelos e devolveu o coração de Radamés ao peito. Quando ela se afastou, ele sentiu a carne se regenerar. Ma’at havia sumido. Foi nesse momento que os viu a sua volta. Girou em torno de si e contemplou a face de seus iguais. Faces tão pálidas quanto a sua, olhos translúcidos, o poder de falar sem palavras. Finalmente observou os sarcófagos, agora abertos, todos eles! Homens e mulheres, seis de cada, todos imortais. Caiu de joelhos e na sua sacola de linho buscou pequenos objetos. Eles o fitavam curiosamente, enquanto Radamés prestava homenagens. Pequenas cuias de metal foram postas no chão, e ele as preencheu com incenso, barro do Nilo, fogo que acendeu com óleo e finalmente água de um pequeno vaso. Curvado humildemente esperou. - Nós agradecemos as oferendas, Radamés, mas não deve ficar de joelho diante de seus iguais. Somos os mais velhos de nossa espécie. Meu nome é Derek. - Você nos despertou. Vagávamos por seus sonhos, convidando-o a ser um de nós, finalmente chegou – disse Ordália, beijando sua face confusa, enquanto sua longa cabeleira loira roçava a face de Radamés numa carícia. Eram figuras únicas e sedutoras, repletas de poder, beleza e mistério. Ordália e as demais fêmeas vampiras usavam túnicas negras. Elas exalavam perfumes exóticos de aromas adocicados como jasmim, mirra e âmbar. - Profanei os segredos de Thoth buscando seu livro sagrado, mas não o encontrei – pensou aflito. - Tolo. Não percebe que foi conduzido por nossa mente? Há muito a ser feito, e você foi o escolhido para realizar um grande trabalho. Ordália ficou ao lado de Derek. Radamés percebeu que formavam casais e um a um se comunicavam com ele. - Foi destinado a contemplar os maiores segredos deste mundo. Seus olhos serão os nossos e a nossa força será a sua. Nasceu para este dia – Tavalus revelou. - Parte do conhecimento deve ser levado aos demais imortais. A Ordem deve ser estabelecida para além destas paredes. Estamos famintos. Laços precisam se atados. O Livro de Thoth protegido – Thessália falou tocando seu rosto. - O Livro entregou-se a você desde o primeiro momento. Ele o aceitou como seu guia e está dentro de sua alma agora, mas precisa ganhar lugar no mundo real. Esta é sua missão, Radamés. Você precisa escrevê-lo. Ele será parte de todos nós. Terá corpo, alma e sangue. Guiará os imortais através de suas leis. Será parte de nosso rei – falou Quirino com a voz carregada de um estranho poder. - O Livro de Thoth não caberia nem mesmo em todas as páginas do mundo – disse Radamés, duvidando de suas palavras. - Vê como tem o conhecimento necessário? O Livro que escreverá tratará de nossa espécie, da conduta de seres como nós e como você – disse Zoraia. - Imortal? Eu? - Contemple a sua face, irmão Radamés. Este é o seu rosto e nele nada mais de mortal existe. Ma’at pesou o seu coração e ele é livre de pecados. Compreenda, nós o escolhemos para Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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governar a Ordem de Thoth como o senhor do mundo dos imortais. Nossos irmãos imortais, os que ainda possuem corpos materiais e vivem se alimentando de sangue, precisam ser conduzidos ou serão revelados à morte. - Verá noites sem fim, e mais reis do que possa contar. Todavia, somente quatro reis vampiros existirão. Terá poderes e privilégios, viverá pelas leis escreverá e delas não escapará, pois somos todos iguais perante o Livro e os Poderes que virão para comandar o mundo imortal. Os mortais devem ser absorvidos, e os que ousarem nossos segredos decifrar a morte deverão encontrar. - Agora faz parte de cada um de nós, somos um só – disse Évora, segurando sua mão para lhe passar um anel em ouro. - É portador de uma alma única, Radamés. A única forte o suficiente para nos encontrar. Mas saiba que já existiram outros como você. Eles Têm parte de nosso poder, foram um dia imortais e agora habitam corpos mortais. Entretanto sempre estaremos em suas mentes. - O que são? O que me tornei? – Radamés quis saber. - Um vampiro. Deve se unir a nós, nos dê um pouco de sua energia. - Os Anciões falavam de denominações que surgiriam num futuro distante. Radamés viu as presas, a fome, foi absorvido por todos eles. Mas ao mesmo tempo em que lhe tiravam sangue, davam-lhe energia. Trilhou um caminho sem volta e entrou para a imortalidade guiado por deuses. Radamés permaneceu no Templo da Esfinge e passou a viver num mundo diferente, feito somente de noites e mistérios. Os Anciões ofereciam tudo de que precisava. Foi instalado numa câmara onde podia trabalhar e dormir. Havia vestes, jóias e pergaminhos. Objetos postos ali para que usassem na vida após a morte. Radamés isolou-se dos demais, pois sabia que o trabalho exigia dedicação total. Com os conhecimentos adquiridos, desenvolveu a tinta, o pergaminho especial, escolheu o couro da capa, a linha com o qual seria costurado. Suas medidas exigiam um suporte à altura e, por isso, desenhou e construiu o carro de madeira. - Não duvido. Aquele objeto beira o irreal, como se tivesse escapado de uma dimensão sombria – comentou pensativo. - O som da madeira sendo cortada e montada chamou a atenção dos Anciões. Foi difícil manter Ordália longe de si. Apesar de se ligar claramente a Derek como amante, os dois eram livres. Radamés tinha desejado Ordália desde o primeiro momento, de uma forma estranhamente predatória. O encontro foi profundo, duradouro e não passou despercebido. Os demais vampiros sentiam a energia sexual do casal como uma onda elétrica no ar do Templo, e em resposta se recolheram, trocando beijos e carícias. Radamés percebeu que ao possuir Ordália ainda podia haver a faísca sexual que consome os mortais. Quando o êxtase surgiu, Radamés a mordeu vigorosamente. Ordália cedeu sua energia, pois nela não mais havia sangue, e atingiu o clímax. Radamés a tomou nos braços e lhe ofereceu a carne, que ela aceitou prontamente. Ao mordê-lo, sorveu seu sangue poderoso e único. Só foi embora quando Derek a ergueu nos braços e sumiu pelos corredores. - Alimentavam-se do sangue e da energia de Radamés para sobreviverem – comentou Jan Kmam, ainda absorvendo as novidades. - Sim, vampiros alimentando-se de vampiros. Os Anciões queriam desfrutar dos prazeres que a carne tem para oferecer. Seus corpos eram uma ilusão poderosa que precisava ser sustentada primeiro através de Radamés e depois do Livro. Sem ele, suas almas morreriam, o que custaria muito caro ao mundo vampiro. É a eles que alimentará quando recorrer ao Livro. Aceitaram o seu toque, compreende? - Sim, eu as escuto sussurrando. Vozes femininas e encantadoras. - Elas sempre estão famintas. Podem exauri-lo rapidamente, mesmo lhe oferecendo grande poder. Um dia entenderá o que digo – disse Otávio, fugindo dos detalhes. - Então, os vampiros se alimentam através dele? - Sim. Ao menor sinal de perigo o Livro se recolhe. Resta-lhes se protegerem da morte mergulhando em seus sarcófagos no Templo da Esfinge. É claro que na época estavam todos despertos e atentos a Radamés. Ele passou a receber todas as vampiras em sua oficina, e não só Ordália. Para não exauri-lo, fizeram com que mortais se perdessem pelo templo. Não demorou muito e o suporte ficou pronto. A capa e o Livro começaram a ser confeccionados, e as folhas foram postas uma a uma. À medida que cada página era escrita, os Anciões nutriam-se, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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tornando-se cada vez mais fortes e despertos. Viviam num mundo à parte do nosso, o tempo não existia. Seus velhos hábitos vinham à tona em conversas intermináveis com Radamés sobre batalhas antigas. No Templo, viviam em uma tribo onde os líderes eram Ordália e Derek. Costumavam lutar entre si, gostavam de cantar e dançar. Quando o Livro ficou pronto, Radamés sabia que precisava voltar a caminhar ao lado dos mortais e escolher o primeiro rei do mundo vampiro. Assim ele fez. Radamés finalmente recebeu a permissão dos Anciões para agrupar os imortais além do Templo da Esfinge, havia chegado o momento de deixá-los. Ele voltou à câmara onde encontrou o livro de Thoth, ficou sob o cone de luz e sumiu, reaparecendo do lado de fora da esfinge, no meio do deserto. Vestido ricamente e envolto em seu manto, Radamés sentiu um enorme prazer, sentia-se vivo. Gargalhou, correu sentindo a força dos seus músculos, usando seus novos dons. O brilho da lua iluminou a pirâmide, e Radamés entendeu que Miquerinos havia falecido há muitos anos. Caminhou pela necrópole notando as mudanças que só o tempo e os homens estabelecem. Misturou-se a uma caravana e ouviu as novidades. Estava sob o reinado de Amósis, o fundador da XVIII dinastia. Andou pela capital sentindo a presença de um grande número de imortais. Encontrou alguns corpos exauridos, percebeu o medo da população. Os humanos estavam em alerta. Nas casas mais ricas e mais pobres eles temiam os demônios sugadores de sangue. A maioria falava de um mal supostamente vindo da África que começara após a passagem de uma caravana. Nos santuários os sacerdotes faziam oferendas aos deuses com medo de que seus filhos fossem atacados. A ordem precisava ser estabelecida. Radamés descobriu que um vampiro chamado Hichelat traçava planos para se aproximar do rei mortal e assumir o poder, era ele o mal de que todos falavam. Percebeu que a maioria dos imortais ali residentes não dominava seus poderes, escondiam-se em velhas tumbas como proscritos. Eles o observavam às escondidas temendo se aproximarem, mas um deles tomou coragem. - Quem é você e o que deseja em minha cidade? – o líder deles o questionou. - Como imortal, deveria saber que nada lhe pertence além da própria vida. - Sim, mas, por estas ruas, eu sou a lei. Radamés fitou o vampiro a sua frente com cuidado. Ele era alto, Tinha a cabeça raspada, pele alva, olhos escuros, talvez cento e dez anos de imortalidade, nada mais. Entretanto, havia uma grande força que o rodeava. Além disso, parecia bastante civilizado. - Se é a lei, por que permite que Hichelat domine suas ruas? - Estamos em guerra. O vampiro puxou sua faca e lançou-se sobre Radamés. Lutaram por algum tempo sem que nenhum dos dois entrasse em desvantagem. Os demais vampiros nada fizeram, apenas assistiram ao líder defender seu território. - É o bastante. Sou Radamés, o Senhor da Ordem de Thoth, e você, Elkabar, será o rei dos vampiros. Elkabar conduziu Radamés ao seu reduto, uma construção esquecida fora da cidade, próxima ao local de sepultamento das classes mais baixas. Com Elkabar havia mais trinta vampiros, dois deles feitos por ele, os demais apenas rivais de Hichelat, filhos das trevas. - Somos poucos, é verdade, mas somos fortes. Hichelat chegou aqui há dois anos e colocou muitos de nós em perigo, Tivemos de deixar nossos antigos locais de descanso, os mortais expuseram alguns dos nossos ao sol. - Tal perturbação foi sentida nas esferas mais altas de nossa espécie. Sabem o que são? Que poderes possuem? - Meu mestre me falou de você, mas jamais acreditei que existisse, afinal ele somente sonhava com você. Disse que viria dar forma ao nosso mundo. - Mohar – Radamés conhecia todo e qualquer vampiro sobre a face da terra. - Sim, Hichelat cortou a cabeça dele assim que aqui chegou. - Hichelat quer dominá-los e ser faraó. Traça seus planos com os generais do próprio faraó – Radamés gargalhou. – Não faz parte de nosso destino governar o mundo mortal. Eles são livres, possuem seus próprios deuses. - Fomos mortais, porque não governá-los já que evoluímos? - Elkabar insistiu curioso. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Evoluímos, é verdade. Por isso não somos mais humanos. Nossa espécie está em perigo, somos muitos, mas não há organização. Existem poderes que nem imaginam. Como também existem leis a serem cumpridas para que não sejamos expostos, caçados como animais. Venho trazê-las até vocês e aqueles que as aceitarem terão lugar no mundo vampiro. Os que se recusarem serão exterminados. Hichelat pretende dominar os mortais. Senti seus seguidores no deserto, eles se preparam para atacar. - Radamés os ensinou a usar seus poderes para se defenderem de Hichelat e seus seguidores. Levou Elkabar em transe para o Templo da Esfinge e o colocou diante do Livro para que provasse seu poder. O Livro o recebeu com grande deferência e rendeu-se a sua mente. Ele o suportou e alimentou pela primeira vez os Anciões com sua energia. Elkabar mudou, sua beleza vampira foi potencializada pelo contato, tornou-se mais poderoso. Ao receber o anel de rubi, curvou-se diante dos Anciões que agora conseguia enxergar. Foi diante deles que ditou os Poderes. Convocou dois Zeladores para se unirem ao Livro e organizou a Ordem, criando os primeiros Pacificadores, Vigilantes e Sentinelas. O Conselho também foi formado, mas a convocação dos Lordes coube a Radamés, por ter sido o primeiro a usar o anel com a serpente de duas cabeças dado a ele por Évora. Os Lordes vieram dez noites após Elkabar ser aceito pelo Livro. Eram seres realmente especiais. Naquelas primeiras noites só havia três deles, cabendo a Radamés ser o líder nos primeiros anos. Os demais surgiram com o passar dos séculos. - Sinto-me diante de um livro de história vampira – disse Jan, pensando em como seria viver em uma era tão desorganizada. – Acredito que os primeiros anos não tenham sido fáceis para Elkabar. - Nem um pouco, meu amigo. Como descrito no Livro, Hichelat e Elkabar deram início ao Período Sangrento, que levou muitos vampiros embora. Hechelat foi capturado e entregue ao Livro num ritual perturbador em que o objeto verteu a Seiva pela primeira vez. Ela foi preservada no cântaro abaixo do carro. Cada vez mais poderosos, os Anciões agora possuíam corpos físicos e libertaram Radamés, que pôde ficar no mundo mortal como desejava há muito tempo. Elkabar foi um grande rei, governou sabiamente, conteve os tumultos de grupos vampiros isolados, equilibrou os poderes ainda frágeis. Seus olhos ainda viram a construção dos Colossos de Memnon, duas estátuas gigantescas de vinte e um metros de altura que faziam parte do templo funerário de Amenofis III. Chegou mesmo a ser apresentado a Akenaton, que entrou para a história como o faraó herege. Séculos depois apareceram outros reis, mas eles só trouxeram dias de perturbação. O mérito de sangue foi questionado, talvez não fosse o melhor modo para a escolha de um monarca. A maioria dos reis tentou dominar os Poderes. Nesses dias turbulentos o Livro sumiu do mundo mortal, retornando ao Templo da Esfinge e a balança ficou desequilibrada. Havia necessidade de um rei civilizado e Detrich foi a resposta. Ele possuía um núcleo de vampiros contidos com argúcia e habilidade. Foi aceito pelo Livro e ofereceu a cabeça do antecessor aos Anciões com grande prazer. A paz voltou a reinar no mundo vampiro, enquanto o mundo dos mortais seguia o caminho natural de evolução, destruição e morte. Detrich mudou o centro do poder dos vampiros para Alexandria. Afinal, naqueles dias ela era uma das cidades mais importantes do mundo civilizado. A cultura helenística floresceu graças ao desenvolvimento do comércio. Quinhentos mil habitantes andavam por suas ruas. No porto chegava especiarias da Arábia, tapetes da Ásia Menor, seda da China, ouro da Abissínia. As ruas eram pavimentadas e os edifícios eram extremamente belos. O santuário das Musas, ou Museu, recebia escritores, matemáticos, sábios que consagraram seu tempo com seus estudos e pesquisas. Além dele, é claro, havia a biblioteca da Alexandria, uma das maiores da Antiguidade, com aproximadamente setecentos mil rolos de pergaminho até 48 a.C. Nesses dias Radamés ocupava um cargo sigiloso na biblioteca da Alexandria. Ele ajudava os guardiões da biblioteca em suas pesquisas e traduções. Ficava oculto em uma ala especial onde o sol jamais chegava. Trabalhava ao lado de Abnara, um tradutor Grego, um homem idoso e doente que tinha em Radamés um amigo. Algo que o vampiro mantinha como um presente, mas se mantinha distante temendo que percebesse sua natureza singular. Todavia, quando Abnara caiu doente, ele foi até o amigo e lá conheceu uma jovem de grande beleza, ela era filha do Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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tradutor. Uma jóia rara, que certamente ele escondia, afinal jamais comentou ter uma filha. Seus cabelos castanhos como seus olhos tinham um toque dourado. Abnara não se restabeleceu e, temendo deixar Afrodite órfã, ele a entregou aos cuidados do amigo. Após a morte do pai, a vida simples que a jovem conhecia mudou, passou a viver na casa de Radamés e a usufruir de sua fortuna. Ele não faria menos pela filha de um grande amigo. A menina cresceu e sua curiosidade com relação a Radamés também. Ela percebia o quanto ele era extraordinário e inteligente; acreditava que ele podia ver o futuro, o que Radamés jamais admitiu, mas que ela percebeu ser verdade. Radamés passou a evitar sua companhia. Tinha medo de perder o controle diante de tamanha beleza e doçura, pois a amava profundamente. Durante o incêndio que quase destruiu toda a biblioteca, o fogo estranhamente os uniu e afastou, e o amor que ela sentia por seu tutor ficou óbvio. Radamés quase morreu tentando salvar alguns pergaminhos, e quando chegou em casa sujo e ferido Afrodite abraçou-o e, sem se conter, beijouo longamente. Radamés a amava, mas não podia tocá-la, ele era servo dos Anciões. Temendo o desastre, a evitava determinado. Ocupou-se com o Conselho, que tinha constantes reclamações a respeito do rei. Passado um ano, ele a encontrou em sua câmara de estudos. Trajava um vestido simples de algodão bordado à moda egípcia, mas mesmo assim conseguia provocar Radamés de modo singular. Ele andava distraidamente pela câmara e a viu segurar sua capa, aspirar seu perfume e sorrir suavemente. Oculto nas sombras, Radamés a observou andar por seu aposento. Seu perfume doce estava na câmara. Ah!, então era aquela flor exótica que há algum tempo deixava seus objetos perfumados. Descobriu o enigma. Finalmente a viu ler seus pergaminhos. - Abnara lhe deu instrução para compreender o que segura nas mãos? Afrodite derrubou o pergaminho no chão, assustada. Imediatamente o recolheu e esperou pelo próximo passo de Radamés. - Sim. Meu pai me deu instrução – emudeceu sentindo o olhar de Radamés sobre si. – Devo me retirar? – quis saber já de pé. - Se assim desejar. - Por que não gosta de minha pessoa? Porventura sou um peso em sua vida? – perguntou, cansada de ser ignorada pelo homem que amava desde os quinze anos de idade. Sabia-se bonita e desejável, então por que era repudiada? O beijo que roubou custou um ano de isolamento. Era preferível sair de sua casa a continuar sem sua companhia. - Jamais. Sempre me trouxe alegria. - Você mente, vem me evitando desde que – ela se calou. – Sei que não aprecia minha presença. Acredito que o melhor seria me entregar em casamento, mas não me obrigue a viver sem sua presença – disse amarga, mas verdadeira. - Não posso fazer isso. Eu a amo como jamais amei outro ser. Entretanto, é a mim proibido tocá-la como amante. Sempre respeitei seu pai, ele foi um grande amigo, o único que conheci em muito tempo – ficou em silêncio, pois a viu se aproximar. - Não me veja como sua filha, jamais fui. Sou Afrodite, a filha de Abnara, seu amigo, e o amo desde a primeira vez que o vi. Afrodite o abraçou e beijou decidida. Radamés não recuou, simplesmente retribuiu com intensidade. Todo seu ser desejava aquela criatura. Seus lábios eram macios e cheios como uma fruta suculenta. Sempre admirou sua boca perfeita, seu corpo pequeno que agora tremia. Afastou-se e dentro de seu olhar só encontrou alegria. Ela o amava de verdade. Movido por esse sentimento, Radamés tomou sua decisão. Puxou-a pela mão rumo a sua câmara. Afrodite o seguia sem medo ou recusas. Ela retribuía agitada e não fugiu quando ele a despiu sobre o leito. Esperava que ele a possuísse com toda a sua fome. O coração que batia agitado era um convite irrecusável para Radamés. Apertou-a junto a si, sentindo a frágil compleição. Estava no auge da excitação quando buscou a garganta e mordeu o mais suavemente que pôde. Ouviu seu soluço agoniado enquanto lhe sorvia o sangue, deliciando-se. O coração lutou valente e não se rendeu, não podia. Seria uma vampira poderosa. Quando afastou os lábios de sua carne, percebeu que chamava por Isis em agonia. Sorriu vitorioso, feriu o pescoço e a trouxe para junto de seu peito num abraço amoroso, fazendo-a provar de seu sangue imortal. Os lábios dela se comprimiram contra sua carne firme, sugando com força, no que para Radamés era uma carícia penosa. Farta e cansada, deixou-se ficar em Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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seus braços perdida numa lassidão prazerosa. Radamés ficou ao seu lado para ampará-la na dor que viria. A transformação foi muito forte, seu corpo mudou rapidamente e ela quase perdeu a razão tamanha a dor que sentiu. Foi o primeiro vampiro que ele havia criado a partir de seu sangue. Ele a tirou do leito sujo, a banhou e a deixou descansar. Foi nesse momento que Ordália apareceu para que pagasse por seu crime. Afrodite não a via, mas viu Radamés curvar-se e falar com o invisível. - O amor é um inimigo perigoso para um vampiro solitário como você, Radamés. Não vou lembrá-lo das leis que escreveu ou acusá-lo diante dos Poderes que defende. Mas vou destituí-lo do cargo de líder dos Lordes. Será somente o senhor da Ordem de Thoth a partir de agora. Tiroulhe a mortalidade sem que ela pudesse decidir. Bem, ela é sua pupila. Faça dela algo melhor, espero vê-la inscrita no Livro daqui a cem anos. Cumpra seu dever de mestre. Radamés aceitou sem protestos a decisão dos Anciões. Voltou-se para sua amada no leito e explicou o que era agora. Sem acreditar, ela reagiu de forma inesperada, tentou fugir, ele a deteve e chamou o criado. Precisava enfrentar a realidade. Ele chamou um de seus escravos acostumado com seus hábitos singulares e colocou Afrodite diante da tentação do sangue. O cheiro a atraiu de imediato. Ele mostrou o que deveria fazer e em questão de minutos ela bebia avidamente. Calma e lúcida, viu o túmulo oculto debaixo do leito, aprendeu como afastar a pesada pedra e puxá-la sobre a abertura ao amanhecer. Radamés estava pronto para deixá-la quando ela se jogou em seus braços e chorou, confessando que agora o odiava. Era muito tarde para voltar atrás. Algum tempo passou sem que eles se tocassem. A culpa de Radamés o impedia de procurá-la, mas como seu mestre tinha responsabilidades. Deixou em sua câmara um pergaminho com tudo que precisava saber sobre sua nova natureza. Afrodite leu as informações e só se recolheu quando o sol banhava o farol de Alexandria. Despertou na noite seguinte e encontrou em seu leito um ramo de jasmim. Colocou as flores num vaso com água e foi se alimentar. Depois de retornar, foi até os aposentos de Radamés com o pergaminho nas mãos. A partir daquela noite ele ensinou Afrodite a usar seus poderes, inclusive práticas de magia. Cansado da distância imposta por ela, usou a música para trazer sua amada de volta. - Ele tocou seu Ûd, sabe o que é, Jan? – Otávio quis saber. - Um instrumento de madeira, de cabo curto e forma abaloada. Lembro-me de ter estudado sobre ele ainda em Paris, quando ainda não tinha decidido entre instrumentos de corda e o piano. O Ûd é realmente exótico. Ele sabia mesmo tocar? - Sim e muito bem. Foi para o jardim e tocou para Afrodite, debaixo da sacada. Afrodite foi para o jardim com um véu. Dançava com graça fazendo movimentos insinuantes que enfeitiçariam até o mais frio dos vampiros. A veste fina parecia uma segunda pele. O cabelo negro e longo misturava-se à transparência do véu. Estava descalça e trazia nos tornozelos pulseiras com pequeninos guizos iguais aos dos braços. O véu ocultava parte da face, deixando somente os olhos pintados à mostra. Quando a melodia chegou ao fim, Afrodite estava nos braços de Radamés. Ele a beijou longamente e a carregou para sua câmara. Radamés a trouxe para seu colo e entre beijos quase mordidos a ouvia gemer. Compreendeu que ela não fazia idéia de como aquilo terminaria. - Quero lhe dar prazer, mas haverá dor. Nós mudamos, minha querida. - Não me importo, quero você – sussurrou colando o corpo ao dele. Ao ouvir suas palavras, afastou seu cabelo negro e cobriu o pescoço com beijos que se transformaram numa profunda mordida. Afrodite gemeu de dor e tentou se libertar, mas foi contida suavemente. Cedeu aos poucos, conforme o prazer a envolvia, e quando Radamés a beijou com os lábios sujos de sangue, Afrodite sugou sua boca buscando o alimento precioso. Olhou em seus olhos e por um instante perguntou o que fazer, comunicando-se pela primeira vez em pensamento. Ele ofereceu sua carne e seu sangue para que Afrodite bebesse. Ajoelhada sobre ele, mordeu seu ombro com vontade. O sangue inundou seus lábios carnudos, dando-lhe um prazer único. O sangue a fez evoluir muito depressa, adquirir uma gama de poderes muito grande. Ele não era um vampiro igual aos demais. Entretanto, ali no ardor da paixão, não pensou nas conseqüências. Nenhum de nós consegue. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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A partir desse ponto pode imaginar as mudanças que ocorreram. Ele se dedicou totalmente a Afrodite, que se tornou uma febre a dominá-lo. Bastava o leve sussurro de sua voz junto ao seu ouvido, e ele entrega o mundo aos seus pés. Onze anos depois de eternizada, ela era uma vampira poderosa e consciente de seus dons. - Ela amava realmente Radamés? – Jan perguntou fitando Otávio com interesse. - Acredito que sim. Não havia motivos para ser diferente. Mas naqueles dias Afrodite era ainda a pupila de Radamés, nada mais. Mas me deixe contar como Ariel entrou na vida desses dois seres.

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31. ARIEL, O VAMPIRO - Ectorio, meu pai, foi designado para manter a ordem na Gália, colônia de Roma desde os tempos de Júlio César. Ele era conhecido por sua violência no campo de batalha e fora dele. A mãe de Ariel teve a má sorte de ser vista pelo general. Os longos cabelos vermelhos e sua beleza atraíram Ectorio e não demorou muito para que ele a raptasse. Ele pretendia usá-la e matá-la, mas o modo como Willa o enfrentou, acabou o enfeitiçando. Ele a manteve como amante, sob ameaça de executar toda sua família. Ela tentou fugir várias vezes, mas tudo que conseguiu foi aumentar o desejo doentio de meu pai. Assim que se descobriu grávida, tentou o suicídio, despertando a ira de seu captor. Dois anos antes, Ectorio foi avisado de meu nascimento em Roma, mandou algumas peças de ouro para minha mãe e nada por escrito. No entanto, cobriu Willa de cuidados, atenção e vigilância. O nascimento de Amaro trouxe-lhe muita alegria. Era um menino sadio, forte e ruivo como a mãe. Ele o amou de imediato. Willa tinha verdadeira aversão pela criança. Não conseguiu amamentá-lo e acabou morrendo um tempo depois. Aos cinco anos, Amaro despertou com o grito de sua ama de leite. Ectorio estava morto no leito com um corte profundo na garganta, os olhos voltados para cima. Drusa silenciou o choro da criança com leite e afagos. O destino de Amaro estava agora nas mãos de Julia, a esposa de Ectorio, minha mãe. Meu pai havia tomado o cuidado de incluir Amaro em seu testamento. Éramos seus únicos herdeiros. O fato chocou Julia. Ela não podia aceitar um bastardo filho de uma selvagem da Gália! O nome de sua família cairia em desgraça. Chorou nos braços de Cícero, amigo íntimo de Ectorio, o portador do testamento. Como não havia testemunhas em Roma, já que todas haviam ficado na Gália, Julia usou seu poder de sedução para comprar o silêncio de Cícero. Amaro era muito pequeno para reclamar sua herança e seu lugar de direito. Para ficar em paz com sua consciência, Julia concedeu a Drusa e ao menino o direito de permanecer em sua casa, com a condição de que Amaro jamais conhecesse sua origem. Assim, Amaro tornou-se escravo na casa de seu pai. O tempo passou e, enquanto crescíamos, Amaro me viu rodeado de professores, luxo e paz. Ele vivia trabalhando do amanhecer ao anoitecer. Sua única alegria era o amor fraternal de Drusa. Sempre os via juntos como jamais estive com minha mãe. Naqueles dias não podia compreender a raiva gratuita que Julia dirigia àqueles dois seres. Certa manhã, nos estábulos, enquanto Amaro limpava a sujeira dos animais, surgi vestido como um príncipe, acompanhado de meu criado, ia cavalgar. Meu manto caiu ao chão e o vi correr para recolher. Entre nós só havia dois anos de diferença. Ele voltou vagarosamente, desconfiado, e a observação foi mútua. Estendi a mão e entreguei-lhe uma moeda de prata. - É por ter segurado meu manto. Obrigado. Guarde-a ou dê a sua mãe Drusa. - Não posso aceitar, Drusa me bateria. - Não precisa dizer a ela. Sei que Drusa não gosta de mim. - A sua também não gosta de mim. Mas eu sou um escravo – disse, sentando-se nas sacas de cereal. - Minha mãe é muito nervosa, tem pesadelos horríveis com meu pai – revelei sem receio, encontrando nele um amigo. – Ela nega, mas sei que apanhava dele – calei-me envergonhado. - Ele está morto, não pode mais lhe fazer nenhum mal. - Verdade. Seus olhos são iguais aos dele, talvez por isso ela não goste de você. Cícero me disse que é bárbaro, é verdade? - Sim. Vim da Gália com Drusa. Matei muitos romanos – ele se calou, mas não importei, estava mais interessado em seus cabelos. - Por que seu cabelo é vermelho? – quis saber tocando um de seus cachos. - Herdei de meu pai – falou feliz por ter algo que me interessava. - Parece um Ággelos. Significa mensageiro em grego, um ser mágico e belo que não é deste mundo. Ele riu e me ofereceu um pedaço do pêssego que tinha ganhado no mercado por ajudar um comerciante. Agradeci e logo conversávamos sobre cavalos e brigas de rua. Mostrou-me cicatrizes que olhei com admiração e inveja. Daquele dia em diante nos tornamos amigos às Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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escondidas. Ele estava com dez anos quando Drusa caiu doente. No seu leito de morte, ela revelou toda a verdade. Ele recebeu de suas mãos os restos queimados do testamento de nosso pai e resolveu enfrentar Julia. No momento errado, tentou exigir seus direitos. Enfrentou Julia e Cícero mostrando o testamento queimado e o selo de Ectorio. Amaro gritava enquanto era contido pelos servos. Todos ali conheciam a verdade. Cícero amparou Julia, que estava quase desmaiando de medo. Amaro levou um pesado golpe na cabeça e tudo se apagou. Quando acordou, estava dentro de uma gaiola com outros meninos no mercado de escravos. Isso foi no ano vinte a.C. O administrador de Radamés precisava de um criado para varrer os galpões, matar os ratos, ajudar na cozinha. Regateou o quanto pôde e por fim o comprou. Mostrou qual era o serviço, ofereceu comida e indicou as sacas de cereais onde podia dormir. A vida de sempre. Certa noite, após averiguar lucros e perdas, Radamés preparou-se para sair, pegou o manto, mas ao passar pelo galpão, sentiu sua presença de imediato. Deteve seus passos e entrou, o capataz o seguia curioso. Ao perceber Amaro adormecido sobre as sacas de grãos, ergueu o chicote. Radamés tirou o instrumento de tortura de suas mãos sem que ele sequer notasse e se aproximou suavemente de Amaro como se pretendesse tomá-lo como sua vítima. - Como ele se chama? – quis saber Radamés, sem conseguir desviar os olhos. - Amaro. - Chega de amargor. Daqui para frente somente doçura – falou, tomando-o nos braços ainda adormecido. – Anjos merecem nomes suaves como sua presença, e esse anjo se chamará Ariel. - Anjos? A que se refere, meu senhor? - Esqueça. Nada que você precise saber. - Radamés estava encantado com seus cachos vermelhos, a pele sardenta, o aroma puro que vinha de sua respiração. Ao vê-lo abrir os olhos de esmeralda, teve certeza do que precisava fazer. Ele o levou consigo para casa e lá mandou que o banhassem e vestissem apropriadamente. Novamente o trouxeram à sua presença. - Sabe o que significa seu nome? - Não, mestre – respondeu obediente. - Sabor amargo. Acredita-se amargo? Foi uma pergunta fácil de responder. Amaro tocou os pulsos marcados pelas correntes, lembrou-se das surras e humilhações, da morte de Drusa e de seus direitos roubados. - Sim, eu sou amargo. - Não, não é. É um ser único em doçura e vai fazer muitos se ajoelharem aos seus pés, meu pequeno guerreiro vermelho. Está aqui para estudar e me ajudar, gostaria disso? - Sim – respondeu esperto, ligeiro, secando a face. - Então Amaro está no passado. De hoje em diante você é Ariel, o anjo vermelho. Venha, precisa conhecer minha amada. Ela é uma deusa, sabia? Chama-se Afrodite. - Mestre. Ela poderia me conceder um pedido? - Talvez, o que mais deseja? – quis saber curioso, conduzindo-o pela casa. - Matar meu irmão. - Não pode matar a si mesmo, criança. O sangue é uma força poderosa, algo que jamais se abandona ou esquece. É o sangue que nos faz ser o que somos. Havia receio nos olhos de Radamés, temia não tocar o coração ferido de Ariel com suas palavras, afinal era pouco mais que uma criança, estava magoado e cheio de ódio. Mas ainda era cedo para qualquer que fosse a decisão tomada por seu coração, até aquele ponto ele era inocente. - Que tal pedir a Afrodite que o ame e aceite nesta casa? Parece uma idéia bem melhor. Ariel guardou por toda a imortalidade a emoção que o tomou na primeira vez que viu Afrodite. Antes que fosse tocado, o aroma doce e exótico o rodeou. A pintura, os cabelos, as jóias e as roupas finas. Radamés o observava orgulhoso. Tinha conseguido agradar Afrodite de algum modo. Os olhos sobrenaturais o enfeitiçaram, assim como as formas de seu corpo. Por um instante, Ariel deixou a cabeça pender sobre seu ombro, enquanto Afrodite o abraçava carinhosamente. O menino fechou os olhos e se sentiu amado, aceito finalmente, parte de algo

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novo e duradouro. Todavia, podia sentir o ciúme daquela estranha mulher pesar sobre si. Nesses momentos, afastava-se, sabendo que ela queria ficar a sós com Radamés. Habituou-se rapidamente à estranha rotina da casa. Agora era o filho adotivo do Mestre Radamés. Todas as manhãs ele despertava com a voz de Cirilo no quarto e logo estava banhado, vestido, pronto para fazer a refeição matinal no jardim, enquanto ele organizava as tarefas dos demais escravos e criados. Naqueles dias, Ariel não sabia o que significava o anel de Sentinela em seu dedo, o cargo que ocupava. Comandava a casa, enquanto Radamés e Afrodite dormiam. Era bastante instruído, falava quatro idiomas, nada lhe passava despercebido. Aos primeiros sinais do entardecer, Cirilo vestia uma túnica de linho negro bordado e seguia para a câmara de seu mestre. Lá, ele ligava as candeias, acendia o fogo, queimava incenso e preparava o banho, o roupão de linho, os chinelos bordados. Deixava sobre o leito a túnica que Radamés vestiria, suas jóias e seus óleos aromáticos. Ariel teve direito de participar do despertar de Radamés e assistia a tudo com grande fascinação e nenhum receio. Compreendia que esse modo de vida pertencia somente aos vampiros com os quais tinha o privilégio de conviver. Um túmulo alto de granito negro se erguia no centro da pequena câmara, coberto por uma pesada tampa. Fitava a tampa com ansiedade esperando ver Radamés sair das sombras. O vampiro sorria de sua curiosidade e fascinação e começava a fazer as perguntas costumeiras. - Como foi seu dia, Ariel? Comportou-se bem? Enquanto falava, deixava-se despir por Cirilo. Dentro da tina de banho, tomava a lição e também respondia às perguntas do menino. - Posso acompanhá-lo, mestre? - Ainda não, anjo vermelho, mas em breve poderemos sair juntos para caçar. Onde está nossa deusa, Cirilo? - Banhando-se. - Voltarei logo, Cirilo. A Ordem se reúne hoje, avise Afrodite para que permaneça em seus aposentos. Faça o mesmo, Ariel – ordenou sabendo que tinha grande curiosidade sobre aquelas reuniões. Dizendo isso, saiu levando consigo a capa. A câmara onde geralmente se reuniam estava iluminada, perfumada com incenso de mirra. Perguntava-se por que não era servido vinho aos convidados. Na manhã seguinte a essas reuniões, sempre havia um grande número de coelhos para as refeições dos escravos. Sobre a mesa somente taças e um cântaro vazio. A casa estava silenciosa, os escravos haviam se recolhido. Ariel costumava observá-los ��s escondidas, conhecia quase todos. Conversavam quando Radamés chegou cumprimentando a todos. O assunto pareceu o mesmo da reunião anterior: o rei. Havia reclamações que Radamés deveria averiguar e trazer diante dos Poderes ali reunidos. A insatisfação era geral. Os Zeladores revelaram que havia algum tempo o Livro vinha se recusando a obedecer aos comandos mais simples do rei e oferecendo resistência aos Zeladores. Radamés comprometeu-se a falar com o rei, descobrir sua real intenção. Quando a reunião chegou ao fim, Radamés olhou na direção da arca onde Ariel estava escondido e o retirou de lá. - Sua curiosidade é digna de sua inteligência, meu pequeno espião, mas como de costume me desobedeceu. Os vampiros que aqui estavam sentiram sua presença. Se não o denunciaram é porque sabem que lhe darei o castigo adequado. Há regras e elas devem ser cumpridas. Afrodite ficou em seus aposentos, deveria ter seguido seu exemplo. Providenciarei uma punição à altura de sua desobediência. - Quem eram eles, mestre? - Vampiros como eu e Afrodite. Lideres de Poderes que um dia conhecerá. Já falamos sobre isso Ariel. Está mantendo nosso segredo? - Sim, até a morte. Radamés serviu-se de um cálice diante dos seus olhos curiosos. - Você não vai morrer. Foi concebido para a imortalidade. - O que bebe, mestre Radamés? - Veja você mesmo. É sangue de coelho. - Por isso é imortal? Radamés gargalhou bem-humorado. Ariel fitou os dentes que sempre traziam admiração. O brilho poderoso de seu olhar extraordinário. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Não, os coelhos são férteis, é verdade, mas não trazem imortalidade. Brevemente, conhecerá minha história e a de Afrodite, que a essa altura está furiosa comigo. Mas por enquanto, Ariel, silêncio absoluto. Os mortais não nos aceitam. Todavia, o que somos ou vivemos não diz respeito a eles. - Sou imortal? - Em breve será. Entretanto, não se apresse. Precisa provar do mundo antes de conhecer a imortalidade. Agora vá dormir e lembre-se de aproveitar o sol de Alexandria por nós dois. Ariel recolheu-se e adormeceu de imediato. Só despertou ao ouvir a voz irritada de Afrodite vindo da câmara de Radamés. - De que adiantam tantas roupas, jóias, se não posso me apresentar a eles? Sinto-me excluída e começo a achar que tem vergonha de mim – falou com a voz carregada de tristeza, jogando habilmente. - Ainda é cedo para participar das reuniões do Conselho. Radamés estava sempre reafirmando seu amor por acreditar que Afrodite sempre se sentia diminuída. - Existem leis que devem ser seguidas. Seria perigoso permanecer diante de seres tão evoluídos sem o controle total de seus poderes. Eles poderiam ameaçá-la, tentar destruí-la e não suportaria tal afronta. Além disso, preciso dar o exemplo. Não percebe o quanto é encantadora? - Atualmente venho sempre depois da Ordem, Ariel e seus pergaminhos – estava contrariada. - A Ordem tem tomado grande parte de meu tempo, mas meu coração e alma lhe pertencem, minha amada. - Se o coração e a alma me pertencem, que parte tem dedicado a Ariel? Por que o preserva tanto? O que ele tem de especial? - A vida dele me pertence assim como a sua. Posso fazer o que desejar com ambas. Cuidado com o excesso de confiança. Afrodite possuía grande beleza, mas em seu coração nada restou da doçura humana. Radamés nunca cobrou tal aspecto, mas esperava mais de Afrodite. Sempre desejou que ela fosse amável, que se entregasse com mais amor do que fome. Confiava no tempo, mas havia momentos de grande decepção. Era extremamente decorativa, tentadora, algo irrecusável, todavia fria, cruel e mercenária. Imperiosa, acreditava que por ter alcançado a imortalidade deveria exercer poder sobre os mortais. Um abuso que ele certamente não aceitaria. - A evolução de um imortal até sua entrada no Conselho é longa e árdua. Vejo-a muito distante. Agora saia, sua irritação contaminou meu humor. Não estou com disposição para suportá-la mais. - Não respondeu minha pergunta – cobrou, atrevida. - Sim, ele me pertence, não tem permissão para tocá-lo. Na noite seguinte Afrodite fez diversas perguntas que o menino não respondeu, irritando-a profundamente. Cansada do silêncio o surrou e tentou morder seu pulso. Não fosse Cirilo, teria assassinado Ariel. A violência foi tão grande que o deixou com uma febre nervosa. Enfurecido, Radamés resolveu puni-la. Vestiu-a como escrava e a arrastou pelo braço até o porão onde eram guardados os suprimentos da casa. A pesada porta de pedra fechou-se, abafou seus gritos furiosos e os pedidos de perdão. Radamés a deixou lá por cinco noites e só a libertou depois de fazê-la lembrar das regras da casa. Afrodite saiu do castigo da escuridão chorosa e submissa. Durante algum tempo voltou a ser doce, mas o destino marca caminhos e altera direções, e numa noite mudou o dela para sempre. Estavam no jardim. Afrodite dançava e sorria, brincando. Radamés havia saído já há algum tempo quando uma visita inesperada chegou. Ariel foi o primeiro a vê-lo surgir na galeria. Observava-os imerso nas sombras. Afrodite percebeu e parou de dançar, Cirilo curvou-se e colocou o menino atrás de si, protegendo-o de ninguém menos que Detrich, o rei dos vampiros. - Onde está Radamés? - O mestre saiu para caminhar – respondeu Ariel antes que Cirilo pudesse detê-lo. - Cirilo, leve esta criatura de minha presença e sirva-me, tenho sede. - Sim, majestade. Dizendo isso, Cirilo conduziu Ariel rapidamente para longe do rei. Afrodite o seguiu, mas foi impedida de sair de sua presença. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Fique, Dança muito bem, estou encantado. Afrodite hesitou, mas sabia estar diante de um rei, e sem alternativas o obedeceu. Detrich tocou o véu e o puxou suavemente descobrindo a cabeleira negra, presa por uma fina tiara de ouro. O busto estava coberto pela seda vermelha, os quadris envoltos pelo mesmo tecido, adornados por um cinto. Tinha as pernas torneadas expostas pela transparência. Detrich deixou os olhos vagarem por seus punhos cobertos por braceletes, os tornozelos enfeitados por pulseiras e guizos. - Acalme-se. O que Radamés lhe disse a meu respeito para que ficasse tão assustada? – murmurou quase roçando os lábios no lóbulo da orelha. Afrodite tentava se manter indiferente, mas foi impossível, seu corpo respondia ao dele. Ao sentir seus dedos tocarem seu ombro, arquejou. A carícia prolongou-se enquanto ele deslizava os dedos por seu quadril. Novamente ela recuou e foi contida. - Uma pomba assustada. Bela demais – seus lábios roçavam sua face aveludada. Num gesto rápido lhe tirou um dos brincos e o ocultou em sua mão. Radamés entrou no jardim ao mesmo tempo que Cirilo. Ele voltava com uma bandeja para servir o rei. Afrodite viu aborrecimento na face de Radamés, sabia que permanecer diante do rei era proibido. Pôde sentir o olhar repreensivo feri-la. - Radamés, você possui a mais bela jóia de Alexandria – disse, enquanto recebia o cálice oferecido por Cirilo. Ele se aproximou de Afrodite para resguardá-la dos olhos famintos de Detrich e notou a ausência de um dos brincos de rubi. - Retire-se, Afrodite. O rei deseja conversar a sós – a ordem foi obedecida imediatamente. – Deve me avisar de suas visitas, majestade, para que possa me preparar. Sinto-me constrangido, afinal merece algo melhor que sangue de coelho. - Não gosto de arautos e certamente esta noite nada mais poderá saciar meu desejo. Mesmo sendo o rei há coisas fora do meu alcance. Acredite, fui bem recebido. Ela dança divinamente. - Em que a Ordem de Thoth pode servi-lo? – Radamés foi ríspido. - Até onde o meu poder pode controlar os Poderes? - É servo deles, como eles são de vossa majestade. Não pode controlá-los, Detrich. Deve conviver com eles pacificamente, sabe disso. O que o deixa insatisfeito? - Estou cansado do controle do Livro. Por que preciso consultá-lo? - Ele é um dos Poderes. Deve ser um aliado, não um inimigo. Não resista a ele, pode ser perigoso. Noto-o cansado. Alimente-os. - E se excluir o Livro de minhas decisões? - Haverá conseqüências. Perderá o controle. Ele o enfrentará diante de todos. Deseja ser desmoralizado diante dos Poderes? - Não há um modo de controlá-lo? Você o conhece, Radamés. Deve haver um modo – ele tentava suborná-lo. - O Livro precisa ser eventualmente alimentado por sua energia, nada mais. Assim se mantém obediente. Deve silenciar sua mente, o Livro o observa. Faça as pazes com seu maior aliado dentro dos Poderes. Lembre-se de que ele tem o poder de tirá-lo do trono. Mais alguma coisa, majestade? – falou friamente. - De que lado está, Radamés? - Como rei, assumiu compromissos, é necessário que os cumpra. Adquiriu força para reinar, não para entrar em atrito com eles. Tentarei acalmar o Livro para que descanse – disse vendo sua face envelhecida. - Obrigado por seu apoio – disse sarcástico e se retirou. Dez anos se passaram rapidamente. Quando Ariel se olhou no espelho encontrou a face de um homem adulto. Cirilo, apesar de mortal, parecia ter bebido da mesma fonte de juventude que Radamés e Afrodite, pois se conservava intocado pelo tempo. Detrich ainda era o rei, e contava agora com o desagrado de Radamés. Afrodite não ficou atrás e trouxe-lhe alguns dissabores. Pareciam ter se distanciado para sempre. Ela o evitava, recolhia-se em sua câmara e sumia em seu túmulo. Quando Ariel fez seu décimo oitavo aniversário, Radamés o levou a um prostíbulo de luxo. Havia mulheres dançando e servindo bebidas. Cirilo os acompanhou, parecia ambientado ao local e foi o primeiro a conseguir companhia. Radamés e Ariel foram conduzidos a uma Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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câmara reservado. Havia uma fonte, flores, incenso e músicos tocando detrás de um véu denso por onde somente a música escapava. Logo, surgiram cinco belas mulheres, quase nuas. Confuso e nervoso, o jovem Ariel tentou sair do salão, mas Radamés o segurou pelo braço. - A inocência chega ao fim, Ariel. É tempo de descobertas. Hoje deve se tornar um homem e para tanto precisa desfrutar da juventude de seu corpo. Permita que ele o guie por novas sensações. Tem alimentado a mente com conhecimento, é hora de dar prazer ao corpo. Escolha a face que ele terá. - O que devo fazer? - Aqui quase nada. Elas gostarão de saber que é inocente. Tranquilize seu coração, ainda é humano. Agora dancem, Ariel gosta que dancem para ele. Entre gritinhos e sorrisos, elas dançaram. Moviam-se sensualmente, fazendo os véus flutuarem num convite, enquanto ele permanecia recostado nas almofadas de damasco. Quando a dança chegou ao fim, ele se sentiu confiante para escolher Diana. Sentou-se com ela entre as almofadas e deixou que ela o envolvesse. Radamés, a pouca distância, retirou-se satisfeito com o que via. Diana conduziu Ariel para sua câmara e o convidou a despi-la. Nos seus braços, ele se descobriu homem provando das delícias do sexo e do desejo. Amanheceu em seu leito, emaranhado ao seu corpo de mulher, sentindo-se pleno e satisfeito. Descobriu muito a respeito de seu corpo, dos seus desejos de homem. O corpo feminino era um pergaminho que precisava ser estudado, no qual poderia se debruçar em devaneios, buscando novas formas de interpretação. Quando acreditou tudo conhecer, foi apresentado ao mundo das fantasias. Descobriu muitas formas de prazer entre homens e mulheres. Radamés queria que provasse de todos os prazeres mortais, até mesmo dos vícios. Fumou ópio e mascou ervas que o fizeram sentir poder, medo e agonia, mas estranhamente não ficou dependente de nenhuma delas. Quando a inocência foi substituída por um olhar suave e provocante, Radamés provou de seu sangue. Naquele anoitecer, entrou na câmara e como de costume preparou seu banho, o roupão de linho e a túnica. Foi para diante de seu túmulo e esperou. A tampa abriu-se e Radamés saiu do túmulo. Estavam bem próximos agora. Sua beleza, que nunca passou despercebida a Ariel, pareceu-lhe maior naquele momento. - É o momento de conhecer a imortalidade, Ariel. O beijo veio suave e tornou-se exigente. Ele não fugiu, esperou consciente do que viria. Os caninos do vampiro perfuraram o seu pescoço. Ariel o abraçou enquanto ele bebia. Quando fraquejou, foi sustentado por Radamés, que lhe ofereceu algumas gotas de seu sangue e nada mais. - Aqui começa um longo caminho que irá percorrer sabiamente. Na noite seguinte, Ariel ouviu um comentário sarcástico de Afrodite: - Finalmente foi feito escravo de sangue. Não se iluda, sempre estarei em primeiro lugar no coração de Radamés. As reuniões dos Poderes eram uma constante. O diálogo se extinguira há anos entre o rei e Radamés. Detrich fez dos membros do Conselho seus aliados e com eles tomava decisões que desagradavam e puniam inocentes. Os Poderes estavam indefesos, pois o Livro concordava com as ordens do rei dando-lhe mais poder. Os Zeladores procuraram Radamés. O Livro foi visitado secretamente por uma vampira com a permissão do rei. A revelação causou alvoroço, e a reunião tornou-se sigilosa. A pena para quem ousasse revelar tais fatos seria a morte. Radamés precisava ver os Anciões, há muito não os visitava. Conhecedor de sua história, Ariel o acompanhou na viagem e permaneceu acampado do lado de fora da Esfinge. Lá, Radamés deparou com mudanças. Encontrou Évora e Otomar entregues ao sono na câmara principal do Templo da Esfinge. O salão dos Cinco Poderes estava abandonado, seguiu pelos corredores e encontrou as câmaras vazias. Seguiu para o pátio onde geralmente os Anciões desfrutavam da piscina já ouvindo risos e vozes, o som da água. Estavam entregues ao prazer que apreciavam: o do sangue e do sexo. Radamés desconfiava, mas precisou ver os cadáveres jogados pelo salão para acreditar. Alguém os alimentava com mortais. Eles pareciam estar num banquete, onde todos os sentidos eram alimentados. Num cântaro de cristal a Seiva se fazia presente, luminosa. Conseguiam o melhor dos dois mundos.

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Derek estava dentro da piscina feita de mármore, entre Ordália e Thessália, nuas e marcadas pelo beijo vampiro. Usufruíam os corpos como crianças. Não muito longe, Nídia e Ítalo estavam nus sobre almofadões. Ela sobre seu colo, a cabeleira ocultando os seios. Amavam-se abertamente e sequer o viram ou se importaram com sua presença, imersos em carícias. Tavalus e Quirino dividiam Zoraia sem constrangimento. Por um momento Radamés sentiu a força de seus desejos o tocarem, as emanações, os sussurros, o corpo reagiu. Aspásia envolvia o corpo de Marcus recostada em almofadas, sugava seu ombro, enquanto as mãos acariciavam as costas largas por onde o sangue escorria. - Venha, Radamés, junte-se a nós. Sinto saudade de sua companhia. - Deixe-o, Ordália, Radamés veio ao Templo para nos repreender. Não é mesmo, Radamés? – perguntou Derek. - Fico feliz que se acredite mergulhado em transgressão. Aguardo todos vocês no salão dos Cinco Poderes – dito isso, retirou-se do ambiente. Ali estava vulnerável. Radamés ocupou seu lugar de direito e os esperou. Eles surgiram aos poucos, vestidos ricamente, mas visivelmente contrariados. - Fale, Radamés, nosso tempo é precioso. - Como ousam profanar o Livro e sorver a Seiva por luxúria? Um pesado silêncio caiu sobre os Anciões. - Quero o nome do impuro que penetrou no Templo. Que vampiro se atreveu a tanto? – Radamés estava colérico. Os Anciões permaneceram imutáveis fitando Radamés, ouvindo suas interrogações. - Falem! Assumam seus crimes – ordenou, possuidor de força para tanto. - Não cometemos nenhum crime, foi o rei. Ele, sim, cometeu o primeiro e último quando tentou nos privar de nossa liberdade. Vem tentando nos controlar, oferecendo migalhas, fazendo chantagem. O Livro tornou-se nosso carcereiro – argumentou Tavalus. - Como podem culpar um instrumento criado por sua força e seu desejo? Ele foi concebido para que dele tirassem força e alimento. Vocês o controlam. Como ousam depois de tantos séculos renegá-lo? - Não compreende, Radamés? O Livro há muito se tornou independente. Sequer podíamos tocá-lo para tirar nosso sustento. Voltou-se contra nós – confessou por fim. - O que fizeram a ele? – quis saber Radamés, silenciando-os. - Detrich parou de alimentá-lo, e consequentemente ficamos com fome. Nós o atacamos em busca da Seiva, o Livro fechou-se em represália. - Por que não me chamaram? Como pode ter acontecido sem que eu sentisse? - Não sabemos – falou Derek, honestamente. – Achamos que estávamos mortos por várias noites. Somente voltamos a sentir sua presença quando nos alimentamos. - Ficamos isolados, sua mente afastou-se das nossas, até que Ela apareceu – Nídia murmurou, temendo ser repreendida. – Abriu o Livro e fez verter a Seiva. Estávamos quase mortos quando ela penetrou no Templo e nos alimentou. - Corromperam-se em troca de sangue. Como permitem que essa mulher tenha tanto poder sobre vocês? – cobrou Radamés. – O poder do Livro foi corrompido. O caos voltará ao mundo imortal e trará a destruição. Detrich já começou a perseguir seus iguais, mudando as leis do Livro. Se ele sumir, vocês morrerão. - O Livro não sumirá. Encontrou um igual entre os imortais. Aprecia o toque dela e pareceu-me um líder bem melhor do que você. Talvez até mesmo uma rainha. Derek estava deslumbrado com o poder da vampira. Ela ofereceu tudo o que desejavam. Seria difícil persuadi-los do contrário, trazê-los à razão quando estavam tão satisfeitos. - Ainda vivo. Portanto, ordeno que abandonem o comando desta vampira e me revelem seu nome. Novamente a câmara foi sacudida por gargalhadas. - O que poderia oferecer que Ela já não tenha nos dado? – Derek afirmou. - O caminho de volta às leis, à ordem, aos pés de Thoth para que peçam perdão e tentem não ser destruídos – resumiu, olhando-os acusador. – Estão em grande perigo e não se dão conta. Agora basta! Falem, ou fecharei o Templo da Esfinge e nem mesmo Ela conseguirá entrar – disse seco. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Perdeu o poder para tanto, Radamés. Está dividido. O sangue humano que o alimentou o afastou de nós e da força da esfinge. Seu coração não diminuiu, mas o amor o mantém vivo e longe de nossa mente. O rei torna-se cada vez mais forte, graças ao nosso poder. Radamés o afastou de sua mente. Estava em perigo, mas não poderia demonstrar fraqueza diante deles ou seria absorvido. Viu em suas faces uma espécie de encantamento. Tinham sido enfeitiçados. Os Anciões deram as costas e sumiram um a um entre gargalhadas estridentes. Radamés tinha visto e ouvido o suficiente. Foi a câmara dos sarcófagos e fitou Évora e Otomar protegidos pelo sono vampiro. Ali seriam alimentados parcialmente, mantidos em suspensão. Foram sábios, pois haveria uma guerra e muitos pereceriam. Saiu da esfinge e encontrou Ariel a sua espera como combinado. Viu por sua barba ruiva que quase quatro meses haviam se passado. Os Anciões haviam movido o cone de luz. Precisavam voltar a Alexandria imediatamente. Podia sentir a mudança operar lentamente, mas nada revelou. Radamés encontrou a casa vazia, escura e abandonada. Era como se o mundo como conhecia houvesse desaparecido. - Mestre, o senhor voltou – disse, tomando Radamés nos braços. - Sim, estou de volta, mas o que houve com minha casa? – cobrou aborrecido. - Afrodite abandonou a casa. Tornou-se a protegida do rei. Foi logo depois que os Lordes vieram acusá-la. Acharam que o senhor tinha sido morto. Elana tentou matá-la, mas ela escapou. Uma noite depois e o rei a levou consigo. Os Poderes estão divididos, houve quem falasse em um novo rei, mas foram mortos, todos eles. Radamés estendeu o braço forte, fitou os punhos cobertos pelos braceletes de prata e viu o pulso tremer, as veias escuras. Algo pairava no ar, que respirou dentro da Esfinge. - Todos pensaram que estava morto – falou Cirilo, tocando a face de Ariel com carinho. - Estou morto e o mal tem um nome doce. Fui envenenado na esfinge, o ar – dizendo isso, perdeu os sentidos. Cirilo e Ariel o carregaram para seu aposento para avaliar seu estado real. A pele estava envelhecida, marcada por vincos ao redor dos olhos. Tremia, balbuciava palavras confusas em diversas línguas. A possibilidade de perder Radamés desesperou Ariel. Ele o deixou aos cuidados de Cirilo e foi até sua biblioteca. Precisava consultar os livros sagrados que Radamés mantinha. Pegou a chave na túnica e abriu a porta atrás das prateleiras. Através deles descobriu que seu mestre morreria dolorosamente. Não havia erva para produzir o antídoto, somente o sangue de Afrodite o salvaria, mas procurá-la sem a proteção de Radamés seria buscar a morte. Ariel sentou-se próximo ao leito e lamentou por seu fim. Perdia seu guia e mestre, o amante. Tinha parte de seu sangue em suas veias, mas bastaria? Não havia tempo para pensar. Ariel chamou Cirilo e explicou o que faria. Pouco depois, o sangue pingava farto e animava Radamés aos poucos. Finalmente ele abriu os olhos, segurou o pulso de Ariel e sugou faminto, imerso no delírio da febre que o consumia. Ele fraquejou e viu Cirilo aguardar o momento certo para separá-los. O empurrão jogou Ariel desacordado ao chão. Despertou na noite seguinte e o primeiro rosto que viu foi o de Radamés. Tinha um cálice nas mãos e o fez sorver a mistura estranha e agridoce. Estava recuperado, mas em seus olhos ainda havia traços do veneno. - Salvou minha vida, Ariel – murmurou agradecido. - Como salvou a minha ao me retirar da escravidão. - Era seu destino cruzar o meu caminho. E o meu abrir os seus, meu pequeno anjo. - O que pretende fazer, mestre? - Visitar nossa deusa – disse, rindo maliciosamente. Radamés comprou um belo cavalo, vestiu-se ricamente, seguiu para a casa do rei e lá entrou sem que fosse impedido. No pequeno palácio de Detrich havia luxo, música, homens e mulheres iludidos pelo poder vampiro exercido. Vampiros de todas as idades, muitos deles membros do Conselho, desfilavam em total liberdade. Usando seus poderes para não ser reconhecido, Radamés misturou-se aos convidados. Viu um escravo se aproximar e oferecer o que beber. Estavam servindo vinho e sangue humano, as leis estavam sendo descumpridas abertamente. Assim como os Anciões, Detrich obtinha sangue e sexo facilmente, arriscando toda uma espécie em troca de prazer e matança. O salão principal era reservado e ficava oculto por cortinas Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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vermelhas, vigiado por dois vampiros da Nova Ordem. Somente vampiros e escravos de sangue tinham acesso. Bastou um olhar para que suas mentes fracas abrissem caminho para Radamés. Detrich jazia rodeado por vampiras e mortais. Alguns Conselheiros sentados sobre almofadas se serviam de meninos, mulheres e rapazes. Quando a música voltou a ser ouvida no salão, a dançarina era Afrodite. Tinha uma espada nas mãos e o traje que usava cobria muito pouco de seu corpo. Detrich inclinou-se para a frente, olhava-a com total veneração. Logo jogavam flores, rosas e moedas de ouro, enquanto ela fazia a lâmina da espada reluzir em meio ao som das cordas do Alaúde, da batida do Derbacke e da melodia sinuosa do Nay. Quando ela começou a girar, a dança teve seu grande momento. Parou apontando a espada para o rei e os aplausos vieram, outros gritavam seu nome. Ela se movia pelo salão em jubilo sob o olhar cobiçoso de Detrich. Minutos depois, só um homem permanecia batendo palmas. Radamés caminhou até o centro do salão ainda aplaudindo. Afrodite soltou a espada no chão, tamanho o choque, mas conseguiu agir, jogando-se em seus braços. Radamés baixou o capuz para que os demais o reconhecessem. Não havia alegria na face da vampira, somente surpresa. - Majestade – disse Radamés, curvando-se levemente. Estavam frente a frente. Detrich exibia na orelha o brinco de rubi de Afrodite. - Radamés, acreditei que estivesse morto. A Ordem chegou a acusar sua pupila de assassinato. Onde esteve? - Cuidando para que seu reinado seja repleto de justiça. Preservando os Poderes e mantendoos unidos em torno das leis. O silêncio era pesado. A música morreu juntamente com a tranqüilidade dos vampiros ali presentes. Todos se sabiam culpados, as orgias eram proibidas. Um vampiro perde o controle em meio a tanto poder e sangue. Radamés afastou delicadamente Afrodite e andou pelo salão fitando seus iguais com bastante atenção. Havia culpa, medo, raiva e ímpetos de luta e matança. Mas nenhum daqueles sentimentos o tocou. Viu Detrich sorver com tranqüilidade o líquido do cálice que trazia nas mãos. Com o Livro ao seu lado, tinha poder total e não poderia ser enfrentado abertamente. - Agradeço por ter protegido minha pupila. Em breve espero recebê-los em minha casa. Estou em dívida com a Ordem e os demais Poderes – comentou distraidamente, e então beijou Afrodite. O descontentamento do rei era visível, mas diante das leis do Livro nada podia fazer. Afrodite pertencia a Radamés, ele possuía direitos sobre sua vida. Não poderia tirá-la dele sem combate, mesmo que fosse surpreendida aos seus pés. Em todas as circunstâncias haveria luta e Detrich não estava disposto a enfrentá-lo. - Sim, estarei presente – o rei falou com os olhos fixos sobre Afrodite. - Boa noite, majestade, membros do Conselho. Dizendo isso, retirou-se do salão vagarosamente conduzindo Afrodite. Radamés subiu no cavalo e, num movimento ágil, colocou-a a sua frente na cela. Cavalgaram em total silêncio até chegar em casa. Radamés viu seu olhar surpreendido ao perceber a casa iluminada e limpa. Seguiram para o salão e lá Radamés se sentou quieto observando sua roupa transparente. Intranquila, aproximou-se vagarosamente e ajoelhou aos seus pés, usando todo seu poder de sedução. Tentou penetrar em seus pensamentos, mas não conseguiu. Nos olhos do vampiro havia um brilho de hostilidade e amargura, o mais puro espírito de vingança. - Só quero que me responda uma coisa, Afrodite: o que lhe faltou? – quis saber, ferido mas ainda contido. - Fiquei sozinha e tive medo de ser morta. A Ordem e os Lordes cobraram-me explicações, acusaram-me de sua morte. Elana tentou me matar. Procurei o rei, relatei seu desaparecimento. Ele sugerir que ficasse sob sua proteção até que retornasse. Não conseguíamos sentir sua presença – disse, interpretando sua grande farsa. Radamés avançou, fatigado pela falsa inquietação. Segurou-a pelo punho, fazendo-a enfrentar o olhar mudado, os caninos com que iria rasgar sua garganta. Radamés sofria, afinal estava diante da dona de seus desejos e caprichos, o coração sangrava traído. - Não se faça de desentendida diante de mim! Sabe que é comum minha presença abandonála quando estou no Templo. Por Thoth! Sinto-me um maldito mortal traído. Que segredos revelou a ele? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Nenhum. Por favor, solte-me, está me machucando. Radamés, por favor. - Que espécie de idiota acredita que sou, Afrodite? Posso sentir o cheiro de Detrich em seu corpo. Ele a tocou por mais de uma vez. Deve ter sido torturante, não é mesmo? Imagino como foi doloroso dançar para ele. - Não me julgue pelo que viu. Tente compreender, estava sozinha sem ninguém para me defender. Fiquei à mercê deles. Perdoe-me – gemia. - Acha que acredito em suas lágrimas, em seu falso e ambicioso amor? - Por favor, não me mate – implorou. - É isso o que teme, a morte? Pois a morte seria a sua salvação. Tema viver ao meu lado, Afrodite, pois doravante sou a sua sombra e parte de sua própria carne. Vai viver para ver muitas cabeças rolarem, inclusive a de Detrich. Vi seu brinco na orelha do rei e senti o ciúme dele queimar minha pele quando a toquei. - Não me trate como mulher de harém. Porventura tenho culpa de ser bonita e cobiçada? Um sorriso cruel e incrédulo pairou nos lábios de Radamés. Ele a tomou entre as mãos. Teve ímpetos de esmagá-la, mas afrouxou os dedos. - Sua beleza pode desaparecer se assim eu desejar. Detrich não a desejaria velha e feia. Posso a esmagar, num estalo de dedos. Sei muito bem que Detrich só a possuiu para me atingir. - Perdoe-me, meu amor – suplicou escondendo o rosto em seu peito. Radamés havia evitado tê-la nos braços, pois temia o contato de sua pele, de suas mãos. As lágrimas caíam sujando sua túnica, os soluços cortavam-lhe o coração. Na realidade, não tinha ânimo para lutar contra a paixão que o dominava. Quando ela enlaçou seus ombros com os braços macios, Radamés tremeu. O contato de sua boca carnuda junto ao seu pescoço o enfraqueceu. Beijou sua boca traidora esfomeado. Ele a arrastou até sua câmara e lá puxou a veste que trajava. Despiu-se impaciente e exibiu a nudez viril, a excitação. Puxou-a pela cabeleira, enquanto devorava seu pescoço. As mãos percorriam os seios quase os machucando. Empurrou-a sobre o leito ouvindo seu gemido ansioso. Radamés ajeitou-a sobre as almofadas de seda e ficou à sua frente de joelhos. Tinha os olhos dentro dos dela, o desejo tornando-o estranho. A mão livre de Radamés buscou o quadril, o rubi brilhou, a serpente de ouro pareceu viva sobre a pele alvacenta da vampira que nada viu. Radamés sorriu enigmático e a penetrou. Afrodite gemeu alto, sentindo uma onda de energia atravessá-la. A união de seus corpos foi absoluta e acalmou parcialmente Radamés. Afrodite, vendo-se livre, tocou o peito de Radamés. Seus dedos enrolaram-se na corrente de ouro da qual o escaravelho pendia. A vampira ouvia sussurros, vozes cheias de prazer e gozo. Envolveu o corpo do vampiro, acompanhando os movimentos. Estavam rodeados por uma esfera invisível de energia. Os sussurros pareciam condensar cada vez mais prazer. Os movimentos tornaram-se mais e mais acelerados até explodirem em um gozo duradouro que Radamés fez questão de oferecer ao Livro. Quando a vampira tentou deixar o leito, foi detida. Ele só a libertou de seus desejos ao amanhecer. Exauriu-a por completo antes de levá-la para o túmulo e dormir. Na noite seguinte, os membros dos Poderes e alguns da comunidade vampira surgiram à porta de Radamés, mas ausências foram sentidas. Os Zeladores, Zoser e Nebit, apareceram. Estavam apreensivos por ver o Livro se mover naquela manhã, deixando óbvia a insatisfação com o rei, chegando mesmo a repeli-lo. Radamés riu secretamente, desfrutando a novidade. O cerco se fechava. - O Livro criou uma nova linha abaixo do nome de Detrich. Ele quer mudanças – revelou Zoser, satisfazendo a todos. – Ele o envergonhou diante dos Poderes, o que nos coloca em desvantagem. Zoser era do tipo conciliador e jamais mudara seu modo de ser. Aquela face dura e observadora tinha visto muitos reis. Nebit não ficava atrás, até se vestiam iguais, com os cabelos sempre longos e trançados. - Não devem se preocupar com sua segurança. O Livro os protegerá caso ele ouse manifestar violência contra vocês – explicou Radamés. - Mas e quanto à invasora? – perguntou Nebit. - O Livro readquiriu sua capacidade de pensamento. Vou visitar o Livro esta noite e tomar medidas para detê-la.

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- Se o Livro está pronto para um novo rei, por que não o sentimos? Afinal, permanecemos puros diante das leis – falou Isadora, suavemente. - Ele já existe? – quis saber Togo, como todos os presentes. - Sim, está entre nós. - Deve ser trazido diante dos Poderes imediatamente. Precisamos deter Detrich. O Conselho está partido em pedaços – falou Togo, pronto para agir. - Estamos todos em perigo – Misha manifestou-se pela primeira vez. Ele era naqueles dias um dos mais novos Lordes, mas um vampiro de grande poder vindo da Sibéria. Estava vestido totalmente de negro, o casaco de gola de urso dava-lhe ares bárbaros. Todos riram do comentário arguto do Russo e o clima tenso se suavizou por alguns minutos. No entanto, podiam sentir o cheiro de morte e mudança pairar sobre suas cabeças. - Ele conseguirá vencer Detrich em uma luta aberta? – era a pergunta de muitos, mas quem ousou fazê-la foi Togo. - É habilidoso com a espada, mas certamente seria exaustivo para um mortal lutar com um vampiro. Para sua segurança, nada mais revelarei a seu respeito. - Como espera que um mortal assuma o cargo de um rei vampiro? – cobrou Thiago. - É possível – revelou Isadora. – Há no Livro uma página destinada à morte dos corpos vampiros. Para onde irá nossa alma quando nada mais restar além de cinzas? Depois de vagar pelo mundo material como fantasmas, sugando energia dos vivos, é possível reencarnar ou continuar vagando. O vampiro que aceita perder as lembranças, mas sempre será identificado por seus iguais. O que nos leva ao novo rei. Se a alma for realmente vampira, ele é bem mais velho e poderoso que Detrich e o destruiria ao ser submetido ao teste. E então Radamés? É este o destino desse mortal? - Sua sabedoria só perde para sua beleza, Isa – brincou, nada revelando de concreto, afinal temia traições. - Será um governo de disputas. Ele teria de assegurar seus direitos a cada noite de sua existência vampira. Precisamos de paz, Radamés. Será sábio aceitar tal criatura? – Togo temia mais desordem. - Detrich vai nos atacar, não temos escolha. Todavia, há uma saída. Ele pode ser fortalecido com o sangue dos Lordes para assegurar seus direitos à coroa, se o aceitarem – explicou sem imposição. - Os Lordes farão a doação. Mas ele pode suportar nosso sangue? - Sim, Togo, ele é capaz de suportar o sangue dos Lordes e até mesmo o meu. O Livro anseia por um rei e ele governará por muitos séculos, trazendo paz e proteção para nossa cabeça. - O que fez a sua pupila? – Isadora perguntou. - Ela enfrenta o castigo da fome – disse sem nenhuma emoção definida na voz. Na noite seguinte, temendo um ataque, Radamés mudou Ariel e Cirilo para uma casa do outro lado da cidade. A idéia não agradou, mas, sem alternativas, eles o obedeceram. Dois meses se passaram, e tudo que restou foi uma espera tediosa e inquietante. Afrodite passava a maior parte do tempo sozinha, olhando a escuridão além da janela. Era permitido sair para se alimentar, mas sabia que era vigiada. Ela conheceu o poder de Radamés, sua paixão, o amor e agora provava de seu ódio e desprezo. Enquanto isso, os Poderes tentavam se defender de Detrich, mas as lutas se tornaram uma constante, e não podiam mais ser detidas. O poder do Livro havia abandonado o rei, obrigando-o a defender sua posição. Cirilo e Ariel continuavam exilados do outro lado da cidade, mas não passava uma noite sem que Radamés os visitasse. Muitas vezes, Ariel o viu extenuado. Radamés certamente havia se arrependido de suas escolhas passadas. A sucessão era a saída para o caos que havia se instalado num mundo feito de poder e sangue. Precisavam coroar um novo rei e isso aconteceria no terceiro dia de lua negra, na casa de Radamés, diante dos Poderes. - Ariel, anjo vermelho. É um momento de escolhas e novos caminhos. Está com vinte e dois anos, é um homem, já provou das delícias da humanidade em toda sua plenitude. Existe algo que ainda deseje provar como mortal? O tom da voz, apesar de tranqüilo, trazia em cada sílaba um significado único. Havia chegado o momento tão esperado, e Ariel, contrariando as próprias expectativas, sentiu o sangue gelar nas veias. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Não pretendo deixá-lo sozinho na imortalidade, terá companhia à sua altura. Não posso revelar muito, mas quero que saiba que terá uma companheira. – Radamés tinha planos secretos e eles surpreenderiam até mesmos seus aliados. – Pois bem, despeça-se de sua mortalidade. Logo o chamarei a minha presença e espero que esteja seguro de sua decisão. Ariel passou dois dias nos braços de prostitutas provando de prazeres, comendo, bebendo, fumando ópio. Quando retornou, Cirilo banhou Ariel, cortou seus cabelos, fez sua barba e massageou seu corpo com óleos. Quando Ariel se fitou no espelho, viu uma face que jamais mudaria. Recebeu uma túnica vermelha, bordada com fios dourados, acompanhados de um manto. Um arrepio de medo percorreu seu corpo, era a expectativa. Com melancolia, fitou a noite e percebeu o quanto estava distante da humanidade. Cirilo trouxe um cálice com um líquido tinto e denso. Cheirava a vinho e ervas, e o primeiro gole foi o mais difícil. O sabor era forte, adocicado, travou sua garganta como o alcaçuz fazia. Seu coração disparou e houve uma leve tontura que passou rapidamente. Levantou o olhar e viu uma pomba cinzenta cruzar o átrio, a mensagem de Radamés. Era a hora de voltarem para casa. Quarenta minutos depois estavam no pátio. As luzes estavam ligadas, as plantas do jardim transpiravam, tudo aquilo era extremamente familiar, mas o silêncio trazia um alerta que não podia ser ignorado. Cirilo puxou a espada e colocou Ariel às suas costas. Não demorou para que um vampiro os atacasse. Ariel puxou sua espada e atacou com fúria. Ouviu os protestos de Cirilo pedindo que baixasse a espada, mas não obedeceu, queria lutar e o faria. O vampiro socou Ariel na face, sequer viu sua mão o tocar, caiu ao chão sentindo gosto de sangue, a boca ferida, a cabeça rodando. Seus últimos minutos de consciência trouxeram a triste visão da morte de Cirilo. O vampiro o perfurou várias vezes, Cirilo agonizava. A espada caiu de sua mão e sua cabeça rolou. Ariel jamais esqueceu a face de seu assassino. A escuridão tomou sua consciência e, quando abriu os olhos, deparou com a face de Cirilo. Uma máscara horrenda de dor e morte. Recuou entre o nojo e a tristeza e ouviu os gritos de Afrodite. Correu pelo pátio e entrou na casa. Estava no salão, ajoelhada junto ao corpo de Radamés. Radamés jazia caído no chão como um boneco sem vida. Ariel tocou seu peito em busca de ferimentos. Foi então que viu seus lábios roxos, a secreção amarelada. Segurou sua cabeça e viu os olhos brancos como os de um morto. Sua pele estava coberta por pequenos vasos enegrecidos, o sangue não circulava mais em seu corpo. Havia sido novamente envenenado e, desta vez, com mais intensidade. Bateu em seu peito e esbofeteou sua face buscando uma resposta. Afrodite segurava seu ombro, enquanto ele abraçava o corpo de Radamés. Chorou por uma eternidade. Havia perdido o centro de sua vida, o que faria agora, quem era afinal? Voltou-se para Afrodite sem medo. - O que fez a ele? Fale! - Não fiz nada. Encontrei seu corpo no chão, com um vampiro desconhecido ao seu lado. Ele tentou falar, mas não pôde. Ariel o recolheu num abraço doloroso, com uma força a ele mesmo desconhecida, e o carregou para sua câmara. Depositou-o sobre o leito e arrumou suas vestes. Uma eternidade de minutos se passou enquanto Ariel se lembrava das noites vividas ao seu lado, dos conhecimentos, das alegrias e de seu beijo imortal. Estavam sozinhos. Afrodite buscou seus braços. - Vão nos acusar da morte de Radamés. O que faremos? Precisamos fugir, estamos em perigo. Agora que Radamés se foi só temos um ao outro. Tenho muito medo. Ariel a abraçou tentando pensar com clareza, mas não conseguia. Tentou recuar, mas ela fechou as mãos sobre seus ombros, ergueu a face. Seus lábios roçaram os dele numa carícia provocante. O beijo veio sôfrego, envolvente, foi impossível não atender às súplicas de Afrodite. Seu coração batia acelerado, havia algo que gritava dentro de suas veias, uma fome animal. - Os Poderes vão cortar sua cabeça e depois a minha. Precisamos agir depressa, o sol não vai demorar a nascer. O que farei sem Radamés para me proteger deles? Você pode sumir no mundo, ainda é humano, e quanto a mim? Não voltarei para os pés do rei para ser sua escrava. Onde está Cirilo? Ele pode nos defender, é uma Sentinela. - Está morto. Agora, cale-se! Não matamos Radamés. Ele tinha muitos inimigos.

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Ariel ouviu vozes ecoarem em sua cabeça. Todas pediam que ocultasse e protegesse o corpo de Radamés. Aproximou-se e viu que tinha ficado mais rígido e branco. Radamés não estava morto. Queriam fazer parecer isso para se livrar dele e de seu controle sobre os Poderes. Precisava protegê-lo de seus inimigos, eles certamente o decapitariam, evitando que despertasse. Afrodite andava de um lado a outro e quarto sem rumo. - Precisamos proteger seu corpo. Eu conheço um lugar seguro. Faltavam somente cinco horas para o amanhecer. Ariel recolheu seus pertences e pergaminhos perguntando-se onde estariam os membros dos Poderes. A carroça estava pronta para partir, sobre ela um caixão de madeira e quatro grandes baús. Afrodite viajaria junto com Radamés, na carroça não cabiam dois caixões. O sol nascia no horizonte quando ele cobriu as caixas com a lona. Subiu na carroça e lançou um olhar saudoso para a casa, o jardim onde cresceu. Conduziu a carroça durante todo o dia oculto por uma capa, tinha medo de ser reconhecido. Quando a escuridão se fez, ouviu o chamado de Afrodite. Estava toda descabelada e agressiva. Dormir ao lado de Radamés não tinha feito muito bem. Ariel conduziu os cavalos por uma hora, no entanto, ainda podia ver o corpo da esfinge. Parou diante da velha construção de pedra calcárea encravada na areia. A descida com os baús não seria fácil, mas a força vampira de Afrodite ajudou. Os degraus os conduziram para o fundo, e a escada coberta de areia chegou ao fim. Ariel acendeu tochas para iluminar o restante do caminho. Depositaram o caixão de Radamés sobre um carrinho de madeira e o puxaram até uma pequena antessala. Por meio de uma engrenagem oculta, fizeram um pesado bloco de pedra se mover ruidosamente. O cheiro forte da poeira por pouco não o sufocou. Afrodite empurrou o carrinho sem dificuldade até a tumba. Pelas paredes, mesmo no túmulo que se erguia do chão esculpido em rocha pura, estavam pragas e sentenças. Elas condenavam aquele que ousasse despertar o ser que ali repousaria: Radamés. Não havia móveis ou cadeiras, somente o túmulo sobre um círculo perfeito. Ariel olhou o teto e viu os chacais ali esculpidos, certamente cuspiriam setas envenenadas. - Quem construiu este lugar? - Radamés. Trouxe-me aqui alguns anos atrás. Disse-me que se algo nos acontecesse, aqui ficaríamos protegidos. Afrodite esperou impaciente que Ariel preparasse Radamés para seu descanso eterno, com o respeito que merecia. Limpou seu corpo com toalhas úmidas, depois o banhou com óleos aromáticos e o envolveu em faixas de linho protegendo sua pele, escurecida pelo veneno. Enquanto o fazia, percebeu a ausência do cordão de ouro no qual o escaravelho repousava, assim como o anel de rubi com a serpente de duas cabeças. Mirou-o pela última vez e fechou a pesada tampa de pedra. Pelo menos ali Radamés e seus pergaminhos estariam seguros. Ariel abriu uma caixa e jogou no chão um pequeno frasco que se partiu ao bater no piso. De longe, viu uma poção se avolumar, crescer e cobrir todo o piso ao redor do túmulo de Radamés. Era a Seiva. Ele continuou armando as armadilhas, puxou cordas prendendo-as em pontos estratégicos, empurrou pequenos blocos de pedra e, por fim, fechou a porta que levava ao salão. Na pequena antessala empurrou duas alavancas. - Vamos, as serpentes estão chegando – falou, apontando para a abertura no canto da parede. Serpentes, milhares delas surgiam. Elas seriam as primeiras a receber os ladrões de tumbas. Ariel e Afrodite subiram as escadarias correndo, enquanto o jovem lançava um pó fino sobre os degraus. Do lado de fora, moveu um dos blocos e recuou, enquanto a passagem ruía selando a entrada da tumba. Quando a poeira baixou, Ariel fitou o amontoado de pedra e sentiu um estranho aperto no peito. Radamés, o Senhor da Ordem de Thoth, sumira para sempre naquela tumba simplória perdida em um mar de areia e pedra. - Preciso me deitar, o sol está para nascer, venha comigo – ela o puxava pela mão. Ariel estava apático e cansado com o rumo dos acontecimentos, mas a seguia pela areia rumo à esfinge. Estavam na parte de trás de seu enorme corpo. Conduziu a carroça por caminhos já trilhados ao lado de Radamés. Afrodite conhecia o caminho e o conduziu pelos corredores até uma câmara ampla e mobiliada. Ariel jogou-se sobre a cadeira, cobriu o rosto com as mãos e assim ficou ouvindo os passos de Afrodite. Ela parecia bastante à vontade, como se aquele lugar fosse por ela freqüentado. Havia um leito, um baú com roupas, toalhas de linho, até mesmo uma piscina para o banho. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 2 – O Império dos Vampiros

- Deve tirar esses pensamentos horríveis e melancólicos de sua mente, Ariel. Venha, precisamos de um banho. Entre comigo. - Ainda é a senhora de meu mestre. - Sou Afrodite e você Ariel, e ambos somos livres. O mundo está a nossa espera, vamos viver juntos e sorvê-lo por nossos lábios como uma fruta madura – convidou morna, tentando envolvêlo em seus braços macios. - Não sou imortal. Mesmo que a desejasse, não poderia concretizar meus desejos. Não poderia traí-lo, eu o amava. Afrodite estava feliz com a liberdade. Seria aquele o modo certo de agir, após enterrar o vampiro que lhe deu a vida eterna? Mas o que era Afrodite além de uma vampira de coração frio, sedenta por companhia e sangue? - Posso torná-lo imortal – ela começou suave. – O que vai fazer além da noite onde sempre viveu ao nosso lado? Afrodite tinha razão, não havia para onde ir. Nada existia além daquela casa, daquele jardim, dos ensinamentos de Radamés. - É um de nós, Ariel, um vampiro. Sua alma precisa ser imortalizada. Existe muita fome em seu coração, ele clama por meu toque. A dolorosa verdade não podia ser negada. O modo como fitava o mundo havia mudado, a estranha bebida no cálice parecia ter modificado seu interior. Desde que a sorveu, tudo o que sentia era uma sede que água não saciava. Radamés havia iniciado a preparação, seus primeiros passos dentro da imortalidade já haviam sido dados. Ariel fitou Afrodite e seu corpo estremeceu. Sentia gana de morder sua carne. Atenta, a vampira rasgou sua túnica vermelha e sua nudez a encantou. Logo trocavam carícias dentro da piscina de água morna graças ao calor da areia do deserto. Antes que pudesse mudar de idéia, ela o mordeu. A dor era imensa e pareceu crescer quando Ariel tentou lutar contra aquela criatura aparentemente frágil. Um rugido saltou de sua garganta ferida, cruzou seus lábios. Afrodite tinha os seios pressionados contra seu peito, amenizando as sensações do corpo em convulsão. Arrepios de prazer e dor percorriam sua pele. O sangue corria ligeiro por suas veias e perdia-se nos lábios de Afrodite. A essa altura, apoiado na borda da piscina, Ariel via os olhos de Afrodite conduzindo-o a um caminho sem retorno. O sangue quente inundou sua boca e logo ele o sugava faminto. A vampira gritou com a mordida selvagem, apreciava um tratamento mais delicado. Seus corações batiam juntos enquanto a mente se unia num enlace eterno. Ariel afastou-se dela ao terminar. Caiu no piso sob o olhar frio de Afrodite, que simplesmente o deixou só com sua dor e seu medo. Encolhido no chão, tremia, suava ofegante. Havia sussurros e gritos, risos e prazer rodeando seus pensamentos. Viu dez vampiros o rodearem. Sentiu a barra das vestes de uma das vampiras tocar seu rosto. O coração parou de bater, os olhos estavam hirtos, mais ainda havia consciência. Sentia-se leve, flutuava. Seu coração bateu pela primeira vez como imortal. Viu os vultos girarem, dançarem ao seu redor num balé selvagem, guiado por tambores. Faces brancas, presas expostas, gritos, rugidos animais. Uma força desconhecida o obrigou a ficar de joelhos e por fim de pé, de punhos cerrados e peito arfante. Rugiu um grito animal que lhe trouxe de volta a consciência e a vontade de viver. Podia sentir cada músculo e fibra se tornar mais forte. Seus cabelos desciam sobre os ombros numa carícia tinta e macia. Os olhos agora eram penetrantes, verdes como a mais bela das esmeraldas. Entre os lábios, os caninos eram a expressão máxima de seu legado de sangue e morte. Tornara-se vampiro. Afrodite o beijou e foi para o leito onde adormeceu quase que de imediato. A Ariel restou vagar pelos corredores do Templo. Tinha destino certo, a câmara de Ordália. - Seu poder é muito grande – disse Ordália, assim que o viu à porta. - O sabor de seu sangue paira nessa câmara numa tentação quase irresistível. - Onde está Derek? – quis saber. Conhecia-os das lições de Radamés. - Derek está entretido com Afrodite, ele a visita em sonhos. Além disso, quero que seja nosso rei, todas nós queremos. Queremos provar dos seus prazeres. Radamés o criou para ser rei, ele o ensinou bem, Ariel. Será um rei poderoso, irresistível e invencível, pois conhece prazeres e desgostos.

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Ordália soltou um gemido de jubilo e inclinou-se na cadeira. Sua mente rondava a de Ariel numa carícia provocante. Ela se manteve a distância com muito esforço, já que Ariel parecia cada vez mais irresistível. - Afaste-se Ordália! Eram as outras nove exigindo que mantivesse distância. Não poderia tocá-lo sem que elas fizessem o mesmo. Ordália riu e abandonou a mente de Ariel, que em nenhum momento enfraqueceu diante das imagens que lhe ofertou. - Afrodite pode ser a rainha? - Nós não aceitaríamos! – disseram em coro. As vampiras apareceram na câmara, revelando por um minuto suas roupas e seus corpos, a beleza de suas faces. Ariel ficou tonto com a energia e elas recuaram, deixando somente Ordália na sua presença. Era forte, mas não o suficiente para suportá-las todas de uma só vez. Podia sentir o desejo delas de possuí-lo. Precisava se lembrar de que eram perigosas. - Compreenda: poder é equilíbrio. Um rei alimenta o Livro, e ele a nós. A energia é compartilhada e assim nos mantemos. - Então a força depende das fêmeas. - Sim, e nós desejamos um rei, não uma rainha – a voz mesclou-se novamente a das demais vampiras. – Se uma vampira subir ao trono, dependeríamos deles. Derek é um matador de homens cruel. Ele limitaria nosso poder. É claro que uma rainha surgirá, mas... - Cale-se! O futuro ainda não nasceu! As vozes de suas companheiras invadiram a câmara. Ordália semicerrou os olhos e ficou quieta, sabia que estava errada. - O sangue que provou enquanto humano era somente de Radamés. Ele preparava você para receber o sangue dos Lordes, sabia que você seria o próximo rei dos vampiros. Nós sentimos sua concepção mortal, seu nascimento. O destino fez questão de colocá-lo diante de Radamés. Entretanto, a traição de Afrodite e de alguns dos Anciões recaiu sobre sua cabeça. Foi imortalizado por Afrodite e não tem força suficiente para enfrentar Detrich e sobreviver. Agora estamos mergulhados no caos, governados por um rei insano. O Livro o obedece totalmente, seu poder foi restaurado. Sinto por ser fruto do sangue de uma ninguém. Quero que viva e se fortaleça, depois venha ao meu encontro. Precisamos lhe mostrar algo, mas para isso prometa engolir seu ódio e revolta e não enfrentar Detrich ou Afrodite. - Prometo – afirmou seguro. - Temos pouco tempo. Afrodite logo despertará e Derek poderá nos ver. Ele não aprovaria nosso contato. Ele quer Afrodite como rainha. O transe durou pouco tempo, mas foi o suficiente para chocar o jovem vampiro e deixá-lo muito mais amargo. - O que acontece agora? – perguntou Ariel, infeliz com tudo que viu através da mente de Ordália. – Vocês estão seguras? - Sua preocupação sincera prova que você será um rei maravilhoso, Ariel. Acalme seu coração vampiro. Estamos protegidas. Detrich ainda é o rei, e ao alimentar o Livro alimenta a nós, as fêmeas. Derek anseia por Afrodite, mas o destino dela pesa na balança de Ma’at. Os Poderes a perseguirão e, infelizmente, a você também. Proteja-se, oculte seus poderes, sua força e inteligência debaixo da capa da ignorância. Afrodite tem olhos habilidosos e a ambição de ser rainha, mas possuir a carne e o sangue de seu inimigo o fará mais forte. Devo ir agora. - Espere, Ordália. Ele se aproximou, a tomou nos braços e a beijou profundamente. Sentiu suas forças se exaurirem, mas o prazer era uma doce recompensa. Ela se afastou e sorriu do gesto impetuoso. Ordália sumiu deixando-o com a revolta de aceitar a traição de Afrodite. Voltou à câmara e a encontrou desperta entre os lençóis a sua espera. Naquele instante, soube exatamente o que desejava dela. Paralisada, não resistiu quando ele envolveu sua cintura delicada. - Meu desejo de possuí-la por inteiro é maior do que a minha vontade de matá-la. Sou filho de seu sangue, é verdade, mas antes dele provei do sangue de Radamés. Contenha-se diante de meu poder e herança. - De que está falando, Ariel? – disse incrédula. - Só estava pensando se seria justo agir como você e matar o meu mestre. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Afrodite tremeu ligeiramente em seus braços, o corpo se arrepiou. Eram iguais agora, e sua beleza extraordinária não mais possuía o mesmo efeito devastador de outrora. Tentou fugir, mas Ariel a capturou e encarou sua face humilhada. - Confiou demais nos Anciões, não é mesmo? E para que? Você me queria como brinquedo já que não pode mais controlar Detrich? Ele o usou e condenou a este destino espúrio, ao isolamento! A força de Ariel como vampiro recém-criado espantou Afrodite. Esperava bem menos dele. Ele a viu frágil diante de seu poder. Conteve o ímpeto de esganá-la, pois o convívio com Afrodite precisava ser pacífico, tinha planos. Resguardou sua mente. Acalmou seu medo e a seduziu, mantendo-a sob seu controle invisível, quando o maior desejo era destroçá-la com as próprias mãos. Afrodite o abraçou e soluçou ao ganhar apoio. Ele beijou a boca traidora numa promessa concreta de paraíso e inferno eternos. Afrodite conseguiu tudo o que precisava em seus braços: proteção, sangue, carinho e sexo. As noites passaram ligeiras, mas dentro delas habitava uma solidão imensa onde só havia a morte. Ariel sentia falta das conversas que mantinha com Radamés, algo impossível de fazer com Afrodite. Passaram a viver escondidos como bandidos. Detrich fixou sua corte no mundo feito de mármore que Augusto havia criado. Pisar em solo romano significaria para ambos a morte imediata pelo machado. Elana perseguia Afrodite como uma sombra, certa de que era culpada pela morte de Radamés. Afrodite sentia-se segura em meio ao caos dos povos oprimidos, que podia matar facilmente sem que houvesse investigação. Foi na Judéia, em Jerusalém, que resolveu viver. Vestia-se como romana agora, deixando os ares egípcios enterrados no passado. Nada a amedrontava mais do que o machado.

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32. OTÁVIO, IRMÃO DE ARIEL Otávio parou de falar e andou pela câmara de modo impaciente. Ao perceber que algo o incomodava, Jan Kmam decidiu intervir. - Acalme-se, Otávio, compreendo sua apreensão, mas lhe garanto que não farei julgamentos. Está acima de tudo, diante de seu eterno pupilo, o que me revelar ficará somente entre nós. - Não sei se conseguirei falar desse ponto em diante – revelou sincero. – Tudo isso está enterrado muito fundo e há muito tempo dentro de minha mente. Como falar dela ... - Permita, então, que partilhe de suas lembranças, deixe-me vê-las através de seus olhos – Jan sugeriu suavemente tocando sua mão. Percebia o quanto aquilo era doloroso. Otávio concordou sem problemas. Sentou ao lado do rei e relaxou o corpo, sabendo que Jan Kmam veria o que não conseguiria revelar sozinho.

Ariel apreciou a rotina da cidade feita de palácios que se misturavam a construções perdidas em vales de terra escura. De sua janela podia ver jardins repletos de palmeiras e ciprestes. Ele despertava ouvindo as trombetas do templo com teto de ouro que chamavam para as orações, enquanto o sol morria no horizonte. A cidade de Davi era rodeada por muralhas maciças que mais pareciam braços longos de um gigante adormecido. As torres lançavam sombras fantasmagóricas no ambiente que as rodeava. Ariel via com admiração as caravanas chegarem para honrar Javé. Afrodite costumava frequentar festas nas quais circulavam o melhor e pior da sociedade romana, conquistava favores e proteção com sua beleza. Ariel não abdicou de seus desejos de vampiro uma noite que fosse. Aprazia-lhe matar os romanos sem distinção de classe. Na maioria, os que estavam ali se sentiam exilados, fugiam de alguém ou enfrentavam um castigo. Grande parte queria agradar o ditador Tibério, então governante de Roma. Afrodite gostava de saber das mudanças de poder a distância. Não tencionava pisar em Roma. Nos salões de festas que frequentava em sua companhia, Ariel ouvia falar da cidade bela, feita de mármore, com ruas calçadas e banhos públicos. Sentia-se preso e cansado da conversa monótona que Afrodite mantinha com seus admiradores. Preferia a conversa dos velhos, os prazeres nas câmaras além do salão ou o conforto das almofadas de damasco dourado nas quais se recostava. Otávio passou ao lado do vampiro e seu manto de veludo tocou seu braço. Ariel o observou com admiração e rancor, mas o mortal não percebeu que corria grande perigo. Seus olhos negros voltavam-se para uma mulher romana de muita beleza. Uma rosa perdida naquele jardim de leões. Ele sorveu o vinho suavemente como se saboreasse a mulher que fitava insistente e se jogou sobre as almofadas. A mulher era Lívia, esposa de Varro, um tribuno militar. Ele estava em Jerusalém buscando conter os levantes judeus, provavelmente descobrir seus líderes. Todavia, havia algo a mais em sua vinda para a Judeia. Era tão óbvio, Lívia era vigiada por um homem de Varro. Otávio a rondava como uma ave de rapina. - O noto entediado – falou Otávio, buscando aproximação com Ariel. -Uma vida feita de noites, festas e luxo pode se tornar insuportável – revelou com certa amabilidade. - Verdade. Acredito que meus escravos sejam mais felizes. Gosta de caçar? - Sim. Mas esta terra é parca em caça. Aqui tudo que se caça são homens e mulheres – revelou sem receio. - Como se chama? – quis saber, melhorando seu ânimo. - Ares. - O deus da guerra. Nada mais justo, já que o carrega em seus cabelos tão vermelhos. De onde vem, jovem Ares? - De Alexandria. - Caçar homens não deixa de ser um esporte interessante – Otávio respondeu fitando Varro com ímpetos de morte. Ele bebia muito. – Brindemos a isso, por Dionísio – falou sorvendo o líquido de um só gole. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- O que prefere caçar: homens ou mulheres? – perguntou Ariel, observando seu olhar sequioso sobre Lívia. - Pássaros de prata – brincou. - Pássaros de prata são bem vigiados. Veja o de Varro – falou lançando um olhar para o guardião a poucos passos de Lívia. – Ele é extremamente violento, frequenta um bordel que conheço. Nem mesmo as prostitutas o toleram. Claro, o aceitam com a quantia de ouro justa. Quer que eu apresente vocês dois? Fizemos negócios recentemente. - Não. Já o conheço. Mas o que negociou com ele? - Uma escrava culta para Lívia. - É mercador de escravos, jovem Ares? – quis saber enojado. - Não costumo vender almas. Minhas escravas sabem mais que me banhar e dar prazer. Varro ofereceu uma grande quantia. Foi Lívia que me pediu, pois se sentia solitária. Vendi a escrava – os olhos de Otávio brilharam. - Parece um Ággelos. Desculpe-me, sou desastrado com as palavras. Talvez, por esse motivo, tenha poucos amigos. Tive um amigo quando criança, ele se parecia muito com você. Tinha olhos de esmeraldas como os seus e os cabelos ruivos, era um pequeno bárbaro. - O que houve com ele? – a frieza de vampiro mantinha Ariel afastado da dor. - Não vai gostar de saber – preocupado com a opinião do novo amigo. - Estou avisado, não se preocupe. - Era escravo em minha casa e após a morte de sua mãe enlouqueceu. Foi vendido, nunca mais o vi. Vivi grandes aventuras ao lado de Amaro. O vinho me deixa melancólico, deve compreender. Ariel experimentou certa melancolia ao perceber que o irmão se lembrava dele não somente como escravo, mas também como o amigo. Ele sorriu e segurou seu ombro sem aborrecimento. Estava diante do meio-irmão que desejou matar durante toda sua infância, rindo junto com ele. Conversaram sobre muitos assuntos sem que as lembranças do passado ganhassem mais do que contornos. Seu rancor sumiu ao ver sua índole bondosa. Estavam de volta ao salão principal quando Afrodite se aproximou. Ariel ficou alerta e pronta a defender Otávio. - Vamos Ares, não seja egoísta, divida seu novo amigo comigo. - Otávio, está é Afrodite – disse frio, mas amável. - Otávio Maximiliano Augustus Graco – disse, cumprimentando Afrodite. - Encantada. O que o traz à Judeia? - A caça – disse, olhando Ariel jocosamente. – Comprei uma propriedade e estou cuidando de minha saúde longe das extravagâncias de Roma. Esperta e sorrateira, Afrodite descobriu sua linguagem e em questão de minutos estavam prontos para recebê-lo como convidado em casa. - Sinto-me diante de dois deuses – Otávio estava enlevado pelo vinho, no entanto podia ver além da aparência humana que transpiravam. - Então lhe concedamos um pedido. O que deseja, patrício? – Afrodite murmurou descobrindo os desejos secretos de sua alma. -Nem mesmo os deuses podem me dar o que desejo – dizendo isso, fitou Lívia. Em sua mão não faltava um cálice de vinho. Ariel temeu um escândalo. Lívia se mantinha quieta, sequer olhava para os lados, com se temesse fitar algo proibido. Afrodite percebeu o óbvio. Aquilo o colocaria em suas mãos, algo que Ariel não permitiria. Habilidoso, ele o conduziu para o jardim, precisava de ar. Andou pela grama, o manto arrastando no chão. Otávio agarrou-se a Ariel e chorou, insistiu que o acompanhasse até sua casa. Seu guarda-costas, sempre a poucos passos, levou-os na carruagem luxuosa. Seguiram para o bairro nobre, cercado de cedros e ruas pavimentadas. A casa não ficava distante da morada de Afrodite e Ariel. Ali, só havia pequenos palacetes, mansões feitas de mármores e lindos jardins. Dentro da mansão, sentados num dos bancos, Ariel convenceu Otávio a beber um suco de frutas, o que o deixou mais lúcido. - Amo Lívia desde o primeiro instante em que a vi. Tentei desposá-la, mas uma questão política entre nossas famílias nos separou, além disso, sou divorciado. Por fim, casaram-na com Varro. Lívia ronda meus dias e noites há três anos. Varro a maltrata abertamente. - Não pode continuar vivendo essa ilusão. Procure consolo nos braços de outra ou perderá a razão, Otávio. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Afastei-me dela, mas bastou ouvir sua voz para que sucumbisse. Há dois meses Lívia cedeu aos meus apelos. Varro estava ausente em Roma, e por três dias encontrei a paz do amor realizado nos braços de meu pássaro de prata. Não pode imaginar minha dor ao saber que ela seria dele novamente. Desejei mil vezes que nossa noite fosse eterna. - Acalme-se – pediu Ariel, vendo-o alterado. - O amor é uma taça de alegria e dor. Tenho-a em minhas mãos, em meu corpo, preciso dela – falou rouco de desejo. - Varro pressente a traição. Lívia corre perigo. - Se sabe de algo, diga-me, por favor. Otávio agarrou Ariel pela túnica, sua mão mostrou-se férrea sobre seus ombros. - Ele nos descobriu? – estava aflito não por si, mas por Lívia. Ariel o acalmou com seus poderes de vampiro e tirou a fome que o consumia. Ela o conduziu ao quarto e o fez dormir. Precisava encontrar a paz de uma noite de sono sem que seu corpo ardesse de desejo por Lívia. A lembrança da noite de amor que viveu era como uma febre, que o fazia se expor ao perigo. Por aquela noite Otávio teve paz. Afrodite esperava Ariel ansiosa em seu quarto. Ele se desfez do manto de veludo e se jogou sobre o leito. - Matou-o? Fale. - Fique longe dele. Ariel avisou imperioso para olhar Afrodite demoradamente. Estava alimentada, saudável e corada. Notou o pingo de sangue na altura do ombro sobre a veste de seda amarela. - O que sorveu não foi suficiente? - Sangue nunca é o suficiente. Está apaixonado por ele? Afrodite tirou as sandálias e a roupa destruída com aborrecimento. Ficou nua e, sem nenhum constrangimento, vestiu o roupão de Ariel. - Eu o desejo e o terei – ela assegurou. - Escolha outro romano para seduzir e matar. Certamente encontrará muitos dispostos a se jogar aos seus pés. - Então eu o dividirei com você. - Ele me pertence – esclareceu, enquanto Afrodite se acomodava nas almofadas. - Que tal uma aposta? Quem seduzi-lo primeiro, ganha. Ele é tão belo. - Estou falando grego, Afrodite? Ele não está à venda. A vida dele me pertence, afaste-se – avisou firme e aborrecido. - Por quê? É só um mortal infeliz que deseja a mulher de um tribuno. Mesmo sendo um patrício não poderia alimentar esse amor condenado. Mais cedo ou mais os amantes serão descobertos. Ele morrerá de forma mais digna em meus braços. - Teve uma vida mortal, Afrodite? Teve irmãos ou irmãs? – Ariel tentava tocar seu coração de pedra. - Sim. Tive, mas estão todos mortos. - Eu também tive uma vida mortal além dos jardins da cada de Radamés. Otávio é meu irmão – revelou, pois somente aquilo a deteria. Afrodite sentou no divã e tocou a face inalterada de Ariel. Ele podia sentir o toque frio do ouro de seus anéis. Inclinou-se e beijou sua testa, acariciou seus cabelos, Tentava encontrar semelhanças. Afrodite manteve distância de Otávio. Ariel passou a visitá-lo, saíam juntos todas as noites, iam a festas e bordéis. Ariel não queria dividir Otávio com mais ninguém, fosse Afrodite ou Lívia, tinha ciúmes. Os meses se passaram, e Pôncio Pilatos assumiu o poder na Judeia. Varro e a sociedade local compareceram ao banquete oferecido ao novo governador, e isso incluía os irmãos. Otávio fitou Lívia com espanto, como se saísse de um sonho. O encanto de Ariel se desfez, e lá estava o romano novamente aos pés de Lívia. Por fim, procurou Ariel em busca de ajuda, queria ver a amante a qualquer preço e se não fosse em sua casa, seria em outro lugar onde provavelmente estariam expostos. Sem alternativa, ele convidava Varro para jogar, enquanto Lívia se encontrava com Otávio em sua casa. Afrodite não desconfiou de nada durante algum tempo, pois gostava de fazer pequenas viagens a Cesareia acompanhada de romanos

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influentes que lhe ofereciam toda diversão de que precisava. Assim, dois anos se passaram rapidamente e o casal decidiu fugir para a Grécia. Encontraram-se na casa de Ariel, algo realmente perigoso, e assim que Lívia chegou, Ariel retirou-se, nutria por ela grande aversão. Sua presença na vida de Otávio só trazia problemas e dores, e para completar ia tirá-lo do seu convívio. Às escondidas, viu o amor que os unia, o carinho com o qual seu irmão acariciava a amante. Olhando-os, sentiu-se estranho, intruso, maligno. Quem era, quem havia amado em sua existência? Jamais havia amado. A face e os olhos misteriosos de Radamés vieram em sua mente. O mestre, amigo, e por fim amante, seu salvador. O coração de Ariel jamais foi tocado pelo amor humano de uma mulher. Que brilho desconhecido era aquele nos olhos de Otávio e Lívia? Seu coração vampiro doeu e uma lágrima rubra despencou. Sentia-se feliz por ele ser mortal, havia uma chance de libertação. Eles precisavam ficar juntos, pensou, dissolvendo o ciúme e começou a arquitetar a fuga deles para Grécia. Otávio o deixou encarregado de cuidar da casa, dos escravos e de afirmar que havia voltado para Roma. Lívia ia esperar Otávio no jardim. Varro milagrosamente havia viajado, a fuga era iminente. Otávio encontrou o jardim às escuras como previsto e esperou. Cansado e aflito, chamou Lívia. Algo estava errado. Passou pelo salão, pelas escadas e sem medo penetrou na câmara, onde avistou sua amada deitada no leito. Chamou por duas vezes e, não obtendo resposta, afastou as cortinas em desespero. - Lívia? Otávio tocou seu peito e não ouviu nada. O coração havia parado de bater, estava morta. No pescoço havia marcas roxas, tinha sido sufocada. Seu horror foi enorme, abraçou-a e não conseguiu falar ou chorar, estava chocado demais para isso. - Este é o fim merecido para uma adúltera! – falou Varro, surgindo das trevas. - Maldito! - Como ousa me insultar, depois de matar minha esposa? - Eu não a matei! - Sim, você a matou. Prendam-no! Das sombras eles surgiram. Soldados romanos, homens de Varro. Era uma armadilha. Otávio lutou, feriu dois deles, mas foi contido. Varro quebrou sua mão à força do cabo da espada, chutou suas costelas e só se afastou quando não tinha mais ânimo para bater. A essa altura Otávio estava inconsciente. Despertou no dia seguinte dentro de uma cela imunda, caído no chão. Ergueu-se com dificuldade e bebeu água de um cântaro de barro, para pouco depois vomitar sangue. Via por uma brecha, as pálpebras estavam inchadas. Lembrou-se de Lívia e chorou a morte da mulher amada. Desejava morrer junto com ela. Afrodite estava segura de seus planos para salvar a vida de Otávio. O primeiro pensamento de Ariel foi invadir a fortaleza, mas não queria condená-lo à mesma vida que levava. Queria que o irmão vivesse seus dias como mortal, por isso aceitou a ajuda de Afrodite. A carruagem moveu-se com agilidade por ruas mais vazias rumo ao Forte de Antônia. Envolta em sua pesada capa de veludo negro, Afrodite desceu da carruagem aceitando a ajuda de Ariel. As tochas acesas iluminavam os portões pesados. No alto dos muros os guardas observaram sua chegada com certo interesse. Havia ali três mil legionários romanos. O vampiro fitou com admiração as enormes paredes da fortaleza, que era totalmente autossuficiente. Afrodite era figura conhecida por aqueles arcos e conduziu Ariel sem receio de ser detida. O vento sacudiu o véu e fez Afrodite soltar uma exclamação de raiva. Não queria despentear os cachos, sujar a barra do lindo vestido negro tampouco os pés metidos nas delicadas sandálias de couro adornadas com prata e contas. Assim que a porta se abriu, apressou o passo. - Seja bem-vinda. O procurador a aguarda – disse o centurião, fitando Afrodite admirado e analisando Ariel com curiosidade. Ela cobriu a face com o véu e os dois seguiram o centurião por um corredor úmido e de iluminação precária. O cheiro do óleo queimado ardeu na garganta de Ariel. Quando as escadas surgiram, o centurião ofereceu sua mão rude para Afrodite, temia que caísse. Ela aceitou, lançando para o homem um olhar morno que ele arrastaria na lembrança por toda vida. Lindas estátuas de mármore em tamanho natural surgiram, pareciam vivas graças à iluminação precária.

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Pelo corredor, um tanto abafado, havia bandeiras coloridas, escudos de madeira. Uma única porta de madeira trabalhada anunciou o fim do trajeto. Depois de duas batidas fortes na porta, receberam permissão para entrar na câmara de Pôncio Pilatos. Ele ficou de pé, afastou-se da mesa rústica repleta de papéis e cumprimentou Afrodite, que estendeu as mãos macias, perfumadas e repletas de anéis. Ele tinha altura mediana e não usava barba desenhada à volta do queixo e dos lábios, tão comum aos romanos. Os cabelos, sim estes trazia rente ao crânio, o que o deixava com as orelhas proeminentes. Tinha fios brancos em abundância, marcas na face madura e o olhar insolente. O uniforme parecia deixá-lo ainda mais intratável aos olhos. Usava um peitoral polido, cinturão com tiras de couro e tachas de prata e sandálias de couro curtido. Tudo a agradava de forma selvagem. O centurião retirou-se com um gesto de Pilatos, que parecia não ver Ariel. Afrodite pediu que Ariel a deixasse a sós com o anfitrião. Com um cumprimento respeitoso, ele os deixou de imediato. - Não teme se machucar, senhora? - De modo algum – murmurou, quase o beijando. Pilatos puxou o véu e desvendou a face alva e encantadora. Mergulhou em seus olhos e cobriu sua boca num beijo saudoso, cingindo-lhe o corpo delicado. Ele diminuiu a pressão, percebendo que a machucava, mas sabendo provocar grande prazer. - Onde está Cláudia? – quis saber, afinal estava na câmara íntima de Pilatos. - Em Roma. Acusa-me de ter matado o Filho de Deus. - Fala do profeta crucificado há alguns meses? - Sim. Mas esse assunto me desagrada. Afrodite percebeu Pilatos tenso e distante. Tocou seu ombro e o prendeu em seus encantos de vampira. - Por isso Cláudia o deixou? Por cumprir seus deveres de procurador da Judeia? – ela riu sarcástica. – Tola. - Deixemos Cláudia para lá. O que posso fazer para agradá-la, minha bela deusa? – Tinha o rosto em seu pescoço esguio. - Quero um favor – disse sem delongas. - Não deveria estar aqui se envolvendo em assuntos menores. Roma merece sua presença, lá seria tratada com uma rainha – sussurrou elevado. - Você também merece mais do que a Judeia. Ele a puxou para seus sofás macios, repletos de almofadas. Afrodite conhecia seus desejos mais íntimos e os realizava um a um. Mantinha aquele pequeno caso há quase dois anos. Ela gostava de estar onde o poder habita e Pilatos foi um alvo fácil de seus encantos. Desatou-lhe a fivela do peitoral e do cinto e deixou e deixou somente sua túnica leve, enquanto o beijava. Cansado da distância de seus corpos, ele a puxou para seu colo de olho na porta. Não estava trancada, mas ninguém se atreveria a entrar sem bater. Era livre para usufruir daquela mulher fascinante e misteriosa que vinha a ele com doçura sempre lhe trazendo prazer. Afrodite deixouse possuir como mulher e conteve-se para não morder a garganta de Pilatos no momento do êxtase. Deslizava o indicador sobre o anel na mão de Pilatos, em ouro puro. A sorte de Pilatos era agradar cegamente àquela vampira. - Está muito pensativa. O que veio me pedir? - Um prisioneiro de sua fortaleza – foi direta. - Tenho muitos prisioneiros. Qual deles é tão precioso? - Otávio Maximiliano Augusto Graco – disse sem medo. - O assassino da esposa de Varro? Bradou indignado. - Acredita em tudo que Varro diz? Pilatos sorriu ao ouvir as revelações de Afrodite sobre o romance secreto da esposa de Varro. Sentia-se preso numa disputa pessoal. Estranho com tudo de ruim sempre vinha aos seus portões. Aquele era o preço do poder: o envolvimento. Mas nada disse, simplesmente deixou que a mulher em seus lençóis continuasse a falar, agradando-o com carícias suaves. - Lívia ia cobri-lo de vergonha. E logo agora que aspirava ser um pouco mais que um tribuno. Sabe o que ele veio fazer na Judeia? – prosseguiu. - Ele nunca deixou claro. Tive de aceitá-lo – disse cheio de desconfiança.

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- Não me surpreenderia se ele fosse um espião. A morte de Otávio trará desgraça sobre sua cabeça. Pilatos saiu do leito e buscou seu roupão de seda. - Vim assim que soube dos planos de Varro. Ele anseia por seu poder. - Otávio foi muito surrado, ainda viverá? – Pilatos pretendia chamar seu centurião, mas se deteve a pedido de Afrodite. - Acalme-se. Há um modo, mas gostaria que o examinasse com sua mente aguçada. Não pode libertá-lo. Se fizer isso, dará motivos para Varro acusá-lo de fazer sua lei na Judeia. Todavia, se condená-lo, cairia nos desagrado dos patrícios e senadores. - Então, o que me resta? - Vai matar Otávio e culpar Varro e seus homens. Afrodite pousou seus olhos vampiros sobre a face do romano e viu seu sorriso maravilhado. Ele a ajeitou sobre o leito num gesto firme e a cobriu com seu corpo forte. A entrevista com Pilatos durou três horas. Ariel a encontrou no corredor, muito viva e corada. Havia tirado bem mais do que o necessário de Pilatos. O centurião os fez esperar e pouco depois entregaram o corpo de Otávio. - Leve-o para a carruagem, Ares – ordenou e sorriu para o centurião. A carruagem ficou banhada de sangue, assim como o leito, onde o colocaram assim que chegaram em casa. Ele tossia, balbuciava muito baixo o nome de Lívia. Ariel rodeava o leito aflito e confuso. - O que fizeram com ele? - Varro tentou matá-lo. Foi com grande esforço que consegui tirá-lo de suas mãos. - Ele não pode morrer. Otávio, por favor, acorde! – Ariel fitou as marcas roxas e enlouqueceu ao identificar perfurações de espada. Afrodite tentava limpar sua face ferida com uma toalha de linho umedecida. Rasgou o resto da túnica e o despiu. Ele agonizava lentamente, seu corpo não ia suportar. Tocou seu peito, buscando a respiração. - Ele está morrendo, Ariel. - Não o deixe morrer. - Tem certeza do que me pede? Ele nada sabe sobre nós. Pode enlouquecer. Sabe o que significa? Ele ficará dependente de meu sangue. - Faça agora! – ordenou, aflito com a possibilidade de perdê-lo novamente. Estava fora de si, o rosto marcado pelos cortes. Afrodite debruçou-se sobre Otávio e sorveu o suficiente para a transformação. Debilitado, ele não sentiu a mordida e logo o sangue caiu sobre seus lábios feridos animando-o a bebê-lo. Após recuperar as forças, ele se segurou em Afrodite e a sugou com avidez, enquanto seu olhar se perdia no abismo negro dos olhos da vampira. Subitamente, ela o empurrou sobre a cama. Otávio enfrentava a morte. Seus olhos estavam enormes, respirava com dificuldade. Ariel segurou sua mão e o guiou em sua agonia. Os cortes sumiram sob a força do sangue de Afrodite, os músculos adquiriram a força e a vitalidade tão necessárias a um vampiro. O turbilhão passou e tudo que restou foi uma tranquilidade quase apática. Otávio estendeu a mão para o irmão. Seus olhos podiam captar cada traço, compreender o que era. Afrodite o envolveu com o manto para que o conduzissem ao quarto de banho. Pouco depois, lúcido e vestindo uma rica túnica negra, ele apareceu na sala. Afrodite ficou encantada com sua obra. Tentou beijá-lo, mas foi contida suavemente. - Meus olhos, eu vejo coisas. Escuto seu coração. A conversa na rua – falava muito baixo, de modo confuso. - Isso faz parte de você agora – Ariel chegou mais perto. – É um novo sentido que recebeu, Otávio. Em breve, saberá usá-lo a seu favor. - Onde está Lívia? - Ela morreu – Afrodite disse sem cuidado algum. - Mas nós vamos fugir juntos – garantiu em seu delírio. Otávio havia bloqueado as memórias de agressão. Sequer se deu conta das mudanças sofridas em sua natureza. Teria de enfrentar sua perda, mas não com a dureza que Afrodite as revelava. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Eu quero falar a sós com Otávio. Saia, por favor. - Por que deveria? Ele me pertence. - O que está havendo, o que querem de mim? – recuou com medo. - Sua companhia Otávio. Foi para isso que o transformei em vampiro. - Acalme-se, Otávio. Não lhe faremos mal. Há algumas coisas que precisa saber. - É preciso saber que Ares e eu somos vampiros – Afrodite ria divertindo-se. - Maldita! Já não basta o que fez, o que conspirou às minhas costas com Pilatos? - Se não fosse por mim ele estaria morto naquela cela imunda. Vamos, Amaro, fale a verdade, diga de uma vez que é irmão dele. Conte-lhe, vamos, agora, são mais irmãos do que nunca. Otávio estava surpreso. Ficou em frente do irmão e o segurou pelos ombros, parecia febril. O processo seria lento, ainda mudava. Deixou que deslizasse a mão por sua face e o abraçou fortemente. Ouviu um soluço escapar de sua garganta e o apertou de encontro ao peito. - Pequeno Ággelos. Por onde andou todos estes anos? - Sozinho, sem a sua companhia, meu irmão. - Sempre me lembrava dos seus olhos verdes e do seu cabelo vermelho, pequeno bárbaro matador de romanos! Ele riu e os caninos surgiram diante de nossos olhos. Não os havia notado, assim como esquecerá momentaneamente a morte de Lívia. - Veja – Ariel mostrou a moeda de prata furada. – A moeda que me deu quando éramos meninos. Guardei-a por todos estes anos. - Mas o que fez para que os deuses da beleza o conservassem assim? Entre nós só havia dois anos de diferença. Sou um homem de quarenta anos e você continua com trinta. - Eu o presenteei com meu sangue vampiro e fiz o mesmo por você, Otávio. Sua beleza e vitalidade foram imortalizadas por meu beijo – sussurrou, tentando tocar sua face, mas ele recuou. – Dei a você muito mais do que Lívia poderia, e você ainda me rejeita? - Otávio, tente se lembrar da noite passada. - Lívia está morta. Quantas vezes quer que eu repita? Otávio acertou em cheio o rosto de Afrodite, e depois caiu ao chão em dores. - Pare, Afrodite. Liberte-o, ele não vai suportar, não é forte o suficiente, sequer se alimentou. Afrodite não se deteria, descarregava seu desapontamento e frustração sobre Otávio. Sem alternativa, Ariel usou sua força para desconcentrá-la. Afrodite tremeu e por muito pouco não tombou. No chão, Otávio sangrava pelo nariz e ouvidos. - Ensine-o a obedecer. Não vou suportar sua insolência. Sou mestra de ambos! - Está alterada, Afrodite, parece que esqueceu quem sou. A vampira engoliu em seco e andou furiosamente pela câmara, sentia-se frustrada. Não queria enfrentar Ariel, temia ser subjugada facilmente. - Otávio é um de nós e, portanto, livre. - Sou sua mestra. O sangue dele respondeu ao meu. - Sim, é verdade, mas por que trazê-lo aos seus braços pela força quando pode conquistá-lo, fazê-lo se apaixonar? Vamos ensiná-lo a ser um de nós. Ele precisa de ajuda. Torne-se sua amiga, ajude-o a esquecer sua perda – ele pediu, indo além de suas forças com a primeira discussão familiar. - Ele precisa se alimentar ou morrerá. Realmente, Otávio estava cada vez mais sonolento e pálido. Era um momento difícil, pois a primeira vez que um vampiro prova sangue determina que tipo de criatura ele será por toda a eternidade. Ariel chamou uma das escravas, fez um corte em seu braço e a colocou diante do leito. Ele precisaria de privacidade. O sangue caiu sobre os lábios de Otávio e ele pareceu despertar guiado pelo sabor, queria se satisfazer. Otávio segurou o braço da escrava prendendo-a com rudeza. A princípio somente sugou, mas sentindo o fluxo contido, Otávio a mordeu. O grito veio forte. Ariel podia ouvir a respiração agoniada da mulher. Estava prestes a sair das sombras e impedir que a exaurisse quando Otávio soltou a criada e deixou que fosse embora. Ariel ficou atordoado com sua lucidez. Pensou que teria de arrancar a escrava de suas mãos. Não, este jamais seria Otávio. - Por que não sai das sombras e me diz o que me tornei? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Ariel contou o necessário para aquelas primeiras horas. Ele precisava saber quem era Afrodite em seu mundo. Debaixo da aparente calma e lucidez de Otávio, escondia-se uma criatura perigosa que clamava pelo sangue de seus inimigos. Às escondidas, Ariel o seguiu até o forte Antônia. Otávio invadiu a fortaleza, matou guardas e estraçalhou o cadeado da porta que o separava de seu inimigo. Otávio lançou um gládio aos pés de Varro, que aceitou a luta de imediato. Otávio derrubou Varro no chão sem dificuldades. Cortou seu peito e, quando finalmente o desarmou, deu a estocada final. Varro caiu de joelhos golfando sangue. Otávio desferiu um golpe certeiro sobre seu pescoço. A cabeça caiu, mas não foi o suficiente para aplacar o ódio. Outros golpes vieram até que Varro estivesse em pedaços. Saiu da cela lentamente. Havia lágrimas em sua face vampira. Soltou o gládio ao chão com repulsa. Ariel esperava do lado de fora da cela. - Estou condenado a lembrar eternamente de Lívia. Vou carregá-la dentro de minha solidão eterna. Você não me deu escolha, Ariel – dizendo isso, sumiu dentro da noite. A morte de Varro não trouxe mais consequências, o comentário geral era de que alguém havia vingado a morte dos amantes. Otávio passou a viver nas sombras, não tinha para onde ir. Ser vampiro o sentenciou a permanecer ao lado de Afrodite e muito pouco na companhia do irmão. Ignorava sua presença. Com Afrodite, alimentava sua sede de sangue e vingança contra soldados, tribunos e qualquer romano que ousasse enfrentar seu olhar demoníaco. Afrodite estava plena, ele cedeu, eram amantes. Aprendia com ela a arte de matar, seduzir, conquistar e destruir. Ariel ficou só, Otávio o culpava por sua desgraça. Deixou que Otávio aproveitasse sua imortalidade como lhe aprouvesse. Sabia como destruir a alegria de Afrodite. Uma carta vinda do mundo vampiro foi trazida por um Sentinela. Afrodite quebrou o selo real e leu a mensagem com muita alegria. Na verdade gargalhou com os olhos brilhando, já passando o papel às mãos de Ariel, enquanto estendia suas mãos para Otávio. Beijou-o longamente e ficou em seus braços. - Estamos livres! Roma nos espera! Afrodite estava certa, estavam livres. Era 36 d.c., e eles deixaram a Judeia rumo a Roma e seus prazeres. Detrich, o rei dos vampiros, havia conseguido controlar os Poderes. Foi um período de disputas e mortes internas. Os Lordes atacaram o rei diretamente e falharam, foram excluídos do mundo vampiro. Muitos foram caçados e mortos jurando vingança ao suposto assassinato de Radamés. Roma era uma cidade feita de mármore, como Augusto a fez. Nas via públicas o que se viam eram homens de togas seguidos por escravos, liteiras e jovens tribunos em seus cavalos. Em dias de festa e jogos as praças ao redor dos anfiteatros ficavam repletas de rostos festivos. Uma população faminta por pão e circo crescia. O governante era Calígula, um desequilibrado, e os tempos eram de grande devassidão copiada por Detrich e sua inseparável companheira, Afrodite. A vampira tinha virado favorita do rei e gozava de grandes privilégios. O lado positivo foi que ela esqueceu Otávio, já que não precisava mais de sua companhia. Tinha tudo que precisava na corte. Lia e controlava o Livro abertamente. Quem ousava detê-la era executado e oferecido ao Livro. Otávio e Ariel viviam na mesma casa, mas não se falavam. Ele aprendera a odiar o irmão com Afrodite.

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33. ROMA, MÁRMORE E SANGUE Otávio cometeu muitos erros, e o pior deles foi se aliar a Afrodite. Naqueles dias possuía poderes, beleza, força, mas não sabia usá-los. Era ignorante. Ariel, no entanto, estava sempre rodeado de pergaminhos, em línguas estranhas e misteriosas. Ele era solitário e silencioso, via as noites de sua janela sempre esperando por algo ou alguém que nunca chegava. Era um ser extremamente elevado. Possuía duas escravas que tratava com grande distinção e humanidade. Elas ficavam seduzidas e fascinadas com seu ar de menino. Aquela era uma casa sem chicote ou feitor. Ele as educava, protegia e as levava para passear vestidas como senhoras. Não demorava muito para que elas surgissem à porta do mestre para lhe oferecer sangue e prazer. Mitra cuidava dele de modo especial, era a sua favorita. Naqueles dias, compreendia suas necessidades. Ao cruzar sua porta, Otávio presenciou algo que o marcou para sempre. Ariel estava recostado no divã, vestia somente um roupão de seda negra, parecia muito pensativo fitando a luz da lua. Mitra depositou sobre a cama a túnica, o manto e as joias que ele usaria. No semblante da criada havia o brilho faceiro da alegria e do amor. Isso chocava Otávio, que só sabia matar. Mitra foi até Ariel como se cumprisse um ritual. Soltou os cabelos, desatou a túnica e a deixou cair aos pés. Sentou-se no divã e esperou por sua atenção. O contraste era fascinante. A pele era rosada como pétalas, iluminando o veludo negro do divã. As mãos do vampiro moveram-se suavemente como uma serpente sobre o caule da rosa. Mitra recebeu Ariel como o orvalho inevitável da manhã, profanador e gelado. O roupão caiu no piso limpo. Ele pôde ver sua virilidade, a excitação de seu corpo vivo como o seu não conseguiria mais ser. A escrava entregava-se aos seus movimentos, estava prestes a sucumbir ao gozo, quando ele ergueu seus cabelos sedosos. Seus olhos estavam dilatados, o prazer chegava a um limite insuportável. A língua passeou sobre a sua pele preparando o caminho do beijo. A veia pulsava, Otávio podia ouvir assim como Ariel o coração de Mitra agoniado, temeroso. Os caninos perfuraram a pele. O sangue inundou a boca de Ariel, Mitra havia atingido o gozo e estremecia em seus braços. Ariel afastou os lábios da mordida e viu Otávio, que, completamente envergonhado, deixou o corredor. Noites mais tarde o encontrou em sua câmara, esperando-o, faltavam poucas horas para o amanhecer. - Pode me ouvir por alguns minutos? - Meu comportamento não tem explicação – Otávio começou, encabulado. - Não há necessidade de se desculpar. - Por que não sou capaz de fazer o mesmo que você? - Eu não posso mudar o que fiz, Otávio, e não vou me culpar eternamente por ter lhe devolvido à vida. Somos apenas vampiros. Vamos viver para sempre até que uma lâmina ou o sol resolva acabar conosco – disse cansado de seu olhar acusador, do silêncio repreensivo. – Somos diferentes apesar de imortais. - Afrodite pouco me disse e aceitei sem fazer perguntas. Um modo estúpido de viver na imortalidade – ele confessou. - O sangue que me transformou em vampiro não foi o de Afrodite. Isso nos diferencia. Mas um vampiro é como um diamante, precisa ser lapidado. Lapidar, ou não, é uma escolha pessoal. Otávio viu a noite declinar vagarosamente. Percebeu que precisava entender o mundo onde vivia e que vinha punindo Ariel, lançando sobre ele suas culpas e seu ódio. Tinha desenvolvido uma sede de sangue absurda, que só era saciada quando matava com brutalidade. Despertava e ansiava verdadeiramente por companhia, atenção e amor. Ariel era seu irmão, a única coisa que sobrou do mundo onde foi feliz. Otávio desarmou seu coração. - Carrego uma herança que não pode ser declinada. Portanto, não me culpe de sua morte, é mais peso do que posso carregar. Eu daria tudo para ser livre como você. - Tenho vivido noites que só anseio esquecer. - Não pode mudar o que já foi vivido, Otávio, mas pode viver de outro modo. A escolha é sua. Deixe-me lhe dar um presente.

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Mitra entrou na câmara e ficou parada ao lado de Ariel como se tivesse ouvido seus pensamentos. Ela retirou as sandálias macias, o broche de ouro que prendia seus cabelos e desatou a túnica. A confusão de Otávio era evidente. - Quero que conheça sua natureza, deixe-me ajuda-lo a ser um vampiro. Está fugindo de sua própria sombra. Do que tem medo afinal, de Júpiter, Marte? Osíris? – brincou, abraçando Mitra pelas costas, apoiando a cabeça em seu ombro. – Mitra irá ensiná-lo como eu a ensinei. Lembrese, ela me pertence, não ouse tratá-la com violência – disse antes de sair. Mitra o ensinou a tocar seu corpo e a controlar o desejo de mordê-la, a conseguir o que queria no jogo do prazer. Dormiram juntos aquele dia, Ariel certamente entenderia. Otávio pousou os braços sobre seus ombros, deixou a coxa entre as suas. Mitra o fez renascer. Sua docilidade o civilizou e devolveu a paz perdida. Mas ela pertencia a Ariel, gostava dele. E ele foi maduro o suficiente para não mais procura-la.

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34. OTÁVIO E FABÍOLA Ariel tornou-se o mestre de Otávio, revelou sobre os Poderes, o Conselho e as leis. Mesmo sem estarem inscritos no Livro, precisavam se manter livres de crimes. Ariel esperava pelo dia de sua coroação, quando devolveria ao mundo vampiro a ordem e o equilíbrio. Roma estava em crise. Depois de muitos assassinatos e mudanças de governo, Nero tornouse o imperador louco e perverso descrito nos livros de historia. Quando decidiu queimar Roma, dois terços da cidade desapareceram. Aos poucos a cidade foi reconstruída. O imperador passou a perseguir ferozmente os cristãos. Nesses dias Otávio e Ariel freqüentavam o palacete de Riva, um lugar luxuoso onde se podia provar de tudo. Riva recebia senadores, tribunos, generais e patrícios. Vivia uma noite de cada vez sem esperar muito delas. Aprendera a lidar com meus fantasmas. Um dia, Fabíola, uma das serviçais do palacete, esbarrou no vampiro e deu-lhe um banho de vinho. O salão explodiu em risos e ele também. Mas Riva não. Completamente furiosa, ela mandou que a criada se retirasse. Desde então, os olhos claros da jovem não saíram da mente de Otávio. Ele a buscou no palacete assim que as atenções se dispersaram, pretendia matá-la, mas ao encontrá-la encolhida e chorando hesitou. - Quem bateu em você? - perguntou Otávio ao ver os cortes sobre seus braços e costas. Ela puxou das vestes uma adaga e tentou se ferir. Otávio a conteve e na luta ela caiu desmaiada. Ele a tomou nos braços e deixou o palacete, tinha rumo certo:sua casa. Não era raro que as criadas fossem atacadas numa casa como aquela. Muitas, para evitar a violência, cediam de imediato, mas a jovem parecia preferir a morte a se prostituir. Era encantadora. Pequena, alva, com olhos e cabelos castanhos-claros. Seu cheiro era doce, a respiração suave. Por algum tempo ela permaneceu quase imóvel, mas o sono se tornou inquieto, cheio de pesadelos. Despertou em um salto, estava em pânico com o ambiente desconhecido. Correu ate a porta, mas o vampiro apareceu na sua frente antes que pudesse sair. O grito de terror arrepiou todos os pelos de seu corpo. - Chega, Fabiola. - Preciso voltar ao palacete, Riva vai... - levantou-se, mas uma tontura a fez se sentar novamente. Os nervos a venciam. - Ela deve estar me procurando. Certamente serei punida disse, ficando de pé. - Garanto que esta em segurança - falou da boca para fora. Sabia que não conseguiria se deter por muito tempo diante de tanta beleza e inocência. Ela vinha de Perusa, tinha sido comprada por um feitor e levada para o palacete, mas como era muito jovem e considerada feia por Riva tornouse sua criada pessoal. Fabíola não se queixava de sua posição. Quem a fazia desejar a morte era Adriano, um dos amantes de sua senhora. Desde que a viu, o homem desenvolveu uma obsessão. Ele era oficial de alta patente da guarda pretoriana, tinha poder e o usava para seu próprio prazer. Ele a havia comprado, mas ate o momento não tinha usufruído de seus favores. Otávio chamou Mitra para que cuidasse de Fabíola, ela conhecia as ervas certas para acalmála. Depois de alguns goles de vinho morno, Fabíola adormeceu e foi instalada em seu leito. O vampiro ficou a espera do irmão, precisava de seus conselhos. - Riva e conhecida por seu poder junto ao Imperador. Sabe como andam os ânimos? Todos querem a cabeça de Nero. Adriano e influente, e se a comprou realmente vai querer possuí-la ou conseguir seu dinheiro de volta. Riva não vai se arriscar por tão pouco. Não se envolva. - Já estou envolvido - revelou, olhando estirado sobre seu diva. - Notei. Vamos procurar uma escrava a seu gosto. Uma pelo menos com mais quadril comentou malicioso. - Diabos! Não quero outra, quero Fabíola. - Ela e fraca, parece um fantasma. Sabe que não podemos trazê-la para a imortalidade. Acha que Afrodite vai gerar uma rival? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Afrodite me esqueceu. Quero possuí-la e tirar a tristeza de seus olhos. - Amar é um habito perigoso para um vampiro, Otávio. Você está agitado, não se alimentou. Mate e vai conseguir pensar com mais clareza. Vera que aquela pequena ave e um grande problema - dizendo isso o deixou. Otávio ignorou os avisos. Quando o dia estava para nascer, deixou Fabíola coberta por flores do jardim. Na noite seguinte foi ate Riva. A cortesã negociou com um homem frio e convincente. A proposta de Adriano foi derrubada facilmente. Otávio comprou a liberdade de Fabíola e perdeu a própria segurança. Com isso, desagradou Ariel. *** Otávio parou, fitou Jan Kmam a sua frente com um ar pensativo e misterioso. - Deve estar se lembrando de minha rejeição a sua união com Thais. - Sim, passou por minha cabeça. - Queria evitar que sofresse como eu sofri - confessou. - Bem, não conseguiu - respondeu Jan Kmam risonho, voltando a mergulhar nos pensamentos de seu criador.

- Otávio, você é um vampiro! - E isso me isenta de amar? De certo que não. Não sou mais um sujeito inofensivo, saberei lidar com meus inimigos. Ariel temia uma vingança de Adriano. - Terá de fazê-la compreender sua natureza, manter sigilo, sabe disso, não? - Sim, saberei falar com ela. Acalme seu coração, meu querido irmão. O tempo passou e trouxe amor e paixão em noites repletas de felicidade. Mas tudo isso se perdeu com rapidez. Afrodite cruzou a porta ladeada por dois Pacificadores que faziam sua guarda. Foi anunciada rapidamente pelo criado, que saiu do meio do corredor para não ser pisoteado. Desceu o capuz e fitou Fabíola, que bordava ate sua entrada. A vampira aproximou-se dela e sem nenhum constrangimento a cheirou como um animal predador. Fabíola a fitou aterrorizada e fugiu do salão. No corredor esbarrou com Ariel, que ja previa algum incidente. Afrodite abraçou Ariel e o beijou longamente, matando as saudades. - A que devo a honra? - Saudades. Não nos vemos ha quanto tempo? - Vinte e quatro anos - respondeu sem nenhuma magoa e com certo alivio. - Vamos, Afrodite, fale logo. Saudade e uma palavra que voce desconhece. - Não me julgue. Sinto saudade do sol do Egito sobre minha pele. Do sabor das uvas. A vida era mais simples e doce. Sinto saudade ate mesmo de... - calou-se sem conseguir pronunciar o nome de Radamés. - Desculpe, mas isso não me parece uma visita social. Esta ansiosa, aceita um cálice de sangue? - Não, obrigada. Vou direito ao ponto. O Livro tem se pronunciado em intervalos cada vez menores. Ele se comunicou com você? - Não, ele nunca se comunica comigo - Ariel mentiu com tranqüilidade, ocultou que Ordália o visitava em sonho. - Estou muito preocupada. Afrodite fez um movimento rápido e as jóias que ostentava brilharam sob a luz do fogo. No meio delas, um rubi chamou a atenção de Ariel. Era o selo da casa dos Lordes, o anel de Radamés. Seu coração doeu, fechou-se para a vampira. Tinha gana de matá-la.

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- Durante estes anos venho contendo seu poder. Fiz o Livro apagar a linha que criou abaixo do nome de Detrich, exigindo um novo rei. Mas ele a recolocou e não pretende retira-la. Isso enfureceu Detrich. Ele não compreende os Poderes, a forca do Livro em nosso mundo. Perguntou-me como alcançou a coroa. Culpa-me por tudo. Preciso que me ajude. - Você é a favorita do rei, controla o Livro. O que sou diante de voce? - Ariel, isso e um jogo de poder, o menor deslize pode custar muito caro. - A queda e proporcional a altura que se sobe, minha querida. - Sua segurança e a minha dependem do maldito Livro. - O que quer que eu faça? - Comunique-se com o Livro, peca mais tempo. Ordália o adora, fale com ela, peca paz - ela sugeriu. - Já disse que não me comunico com Ordália. Ela só me tocou naquela noite apos a morte de Radamés. Alem disso, se eu tentasse, Detrich poderia sentir minha presença. Quer que ele saiba de minha existência? - Isso não vai acontecer. Ainda e cedo - esclareceu, assustada só de pensar. - Ha quanto tempo não vê Derek? - Mais do que deveria. Derek e muito exigente. O tempo não existe para eles, alem disso, sintome envelhecida. - Precisa fazer uma escolha. Sabe do que eles se alimentam. - Venho pensando no assunto. Agora falemos de voce, sentiu minha falta ou se esqueceu do quanto nos completamos? Faz tempo que não danço para voce. - Estou interrompendo? - Otávio, meu querido! - falou abrindo os braços em sua direção. Afrodite o enlaçou pelos ombros e o beijo foi inevitável. Ele retribuiu com carinho, mas ela sentiu seu desinteresse. Ele havia mudado, evoluíra, deixara de ser o animal que ela apreciava controlar e atiçar. Ela insistiu para que saíssem juntos. Ariel estava pronto a acompanhá-la, mas Otávio hesitou pensando em Fabíola. - Ela é linda e Mitra também, mas nenhuma das duas tem o direito de se aborrecer, estou com saudade de ambos. Vê-los junto e tentador, duas faces, um mesmo sangue. E lamentável que tenha de viver a distancia para protegê-los. Pelo menos vocês têm um ao outro. E quanto a mim, o que possuo? Nada alem de solidão. Por isso hoje não aceitarei recusas. Foi um convite direto e não poderia ser recusado. Ariel jazia como uma estatua enigmática e inabalável. Com os dedos perdidos na têmpora e o corpo reclinado, o brilho no olhar parecia ser o único indicio de vida. Otávio o desconheceu. Às vezes Ariel parecia envolto em uma capa intransponível de poder. Apesar de tudo, o convite foi aceito. Sua segurança dependia do silencio dela, de quanto podia satisfazer seus caprichos. Ela precisava se sentir segura. Otávio fez menção de se retirar, mas os dedos delicados da vampira o detiveram. A luz suave das lanternas a óleo deixava os corpos dos vampiros luminosos, tamanha a brancura da pele. Nos seus últimos instantes de lucidez, Ariel percebeu Afrodite lançar ao fogo uma erva aromática e ficar de pé no centro da câmara. Ele empurrou a alça da túnica e puxou o broche de prata de seus cabelos para que caíssem sobre os ombros numa cascata ondulante. Os seios cheios e perolados foram cobertos pelos cachos. Ariel curvou-se e os percorreu com os lábios, enquanto Otávio vagava sobre seu dorso com caricias úmidas. Afrodite sorriu vitoriosa e buscou a boca de Ariel. Era perigoso se entregar a tal jogo, mas ela não temia nada. Dona da situação, retirou as sandálias no leito e os esperou. No olhar castanho havia um apelo sensual apaixonante. Em meio as caricias e aos sussurros, eles ofereciam a vampira todo prazer que buscava. Otávio sentia a mão delicada da vampira percorrer seu corpo buscando sua virilidade já desperta, exigindo-o junto a ela. Tinha os olhos dilatados, os caninos suavemente surgindo entre Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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os lábios. Seu corpo reagiu e ele a penetrou sem saber como o fazia. Ela sorriu e sussurrou o nome de Derek. Ele via tudo de muito longe. O quarto girou e as paredes da esfinge materializaram-se em uma ilusão poderosa. Otávio ouviu os Anciões exigirem alimento. A mordida veio grandiosa, o sangue invadiu sua boca. Estavam exilados naquele leito para se satisfazer vampiros ancestrais. Enquanto ele bebia, uma estranha visão descortinou-se diante de seus olhos. Afrodite andava sobre o deserto, o sol a iluminava. Otávio estava em frente a esfinge, de mãos erguidas, sentia o vento sobre a face. Estava ao seu lado diante do Livro e, assim como Afrodite, não temia o dia. Sob seu comando imperioso, a lua cobriu o sol. Um eclipse mergulhou o mundo em trevas para permitir que eles saíssem da esfinge antes do anoitecer. Os Anciões retornaram e instauraram o terror sobre a Terra. Otávio afastou-se em pânico repudiando seus atos, a visão se desfez. Despertou a tempo de ver Ariel puxá-la de encontro ao peito, dando continuidade ao rito sexual. De repente, tudo parou, e a estranha febre que os atingia cedeu. Otávio despertou com Afrodite nos braços. Via a cabeleira vermelha de Ariel junto ao ombro delicado da vampira, seu corpo nu colado atrás do dela, a mão pousada sobre a cintura. No ar, o cheiro do incenso se extinguia. Viu a cortina balançar e a face de Fabíola tremulou como um fantasma. Sentou de um salto no leito e olhou a câmara vazia. A porta estava entreaberta. A mão de Afrodite tocou seu peito. Depois dos excessos cometidos, parecia ainda mais bela. Sorria maliciosa como se o fogo de seu desejo nunca pudesse ser aplacado. Otávio reagiu com repulsa. - Vivenciei uma estranha ilusão enquanto nos alimentávamos. - Foi nossa ligação se fortalecendo, nada demais. - Os Anciões estão satisfeitos? - perguntou Ariel ao despertar. - Sim, muito. - Mas eu ainda não. E hora de pagar pelo favor. Estou faminto. Voce alimentou os Anciões, agora alimentara o futuro rei dos vampiros. Otávio fez menção de sair, mas Ariel o segurou pelo braço. Falaram mentalmente, ele ponderou as palavras do irmão e resolveu desfrutar do que era oferecido. Os olhos de Afrodite brilharam atentos. Com um sorriso malicioso, deixou que prosseguissem. Ariel a conduziu como bem desejou. Era um amante inigualável. Antes que percebesse, Otávio mergulhava novamente naquele estranho mundo. Desta vez participou consciente do prazer oferecido por Afrodite. Quando chegou ao gozo, sentiu-se homem e viril, mas envergonhado diante de Ariel. Faltava uma hora para o amanhecer, quando a carruagem de Afrodite partiu. Otávio fitou a alvorada e recolheu-se sem nada falar. Teve muitos pesadelos, foi um sono intranqüilo e, ao despertar, encontrou Ariel a sua espera. - Por que não me isentou de suas intrigas políticas? - Afrodite desejava a nos dois. Não conseguiria negar um pedido dela, não se iluda. Eu faço isso com muito esforço. Detrich sequer tenta! - Sei que não sou tão poderoso quanto voce, Ariel - disse com resignação ferina. - Quando revelei minha origem não foi para diminuí-lo. Esperava seu apoio e compreensão Ariel falou desgostoso, magoado. - Recuso-me a fazer parte destes Poderes. - Asseguro que não ha como fugir deles. Tinha de possuir Afrodite e manter nossos lagos de sangue vivos, tente compreender. Por que tantos escrúpulos, Otávio? Nos já matamos juntos. Sabe o que somos. Faz parte de nossa natureza sermos violentos e lascivos. - Eu a possui. - Sim, por mais de uma vez e com grande ímpeto. Sempre pode, mas ela jamais lhe deu esse direito, não e mesmo? Afrodite é uma serpente do deserto. - Não quero tocar Fabíola desse modo. - Só terá prazer assim com Afrodite, quando ela permitir. O que houve, não foi prazeroso? - Fale mais baixo, por favor. Não quero que Fabíola nos escute. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Mitra sabe o que sou e respeita minha natureza. Não se envergonhe de ser vampiro, isso é ridículo. Preferia ter morrido na Judéia? Afrodite o trouxe da morte e o colocou sobre o tabuleiro. Resta capitular ou continuar jogando. - Se e desse modo, prefiro me afastar. Ariel não demonstrou grande surpresa, na verdade já esperava por uma reação semelhante. Afrodite conseguiu desuni-los novamente. O que Otávio não sabia e que o pior ainda estava por vir. - Faça o mesmo, Ariel. Não percebe que vive numa prisão sem muros? Não precisa ser rei argumentou segurando seus ombros. - Acaso acha que gosto de ceder aos caprichos dela? Meu maior anseio e vê-la pagar por seus crimes diante do Livro que suborna. Tudo que posso fazer e esperar nesta noite sem fim, protegendo indefinidamente o sono de Radamés e escondendo minha existência de Detrich e dos demais vampiros. Não tenho escolha alem da espera e da submissão! O que seus olhos não percebem os dos meus inimigos detectariam num piscar. Não posso fugir de meu destino, e isso só me fortalece. O que me preocupa agora e o que viu. O que Afrodite lhe fez? Otávio relatou a estranha visão, se ia realmente partir não o deixaria cego aos pianos de Afrodite. Ficou claro que ela planejava libertar os Anciões e obter poder total sobre o mundo imortal. - Afrodite não tem poder para tanto. Escute com atenção o que vou dizer. Nós ganhamos e perdemos esta noite para garantir sua segurança e seu lugar junto a ela. Afrodite o apresentou aos Anciões. Agora sabem quem somos. Todavia, se for julgada diante do Livro, nos também seremos. - Como ela poderia andar a luz do dia? - perguntou Otávio. - Nenhum de nos pode. O ritual que descreveu e a mim desconhecido. Mas há seis anos Afrodite tentou voltar a tumba de Radamés e não conseguiu. - O que ela desejava? - Destruir o corpo físico de Radamés, encontrar um pergaminho? O Livro ainda não se rendeu completamente porque o corpo de Radamés ainda existe. Lembre-se de que ele foi o primeiro a nutri-lo, e isso os ligou eternamente. Se ela destruir o corpo terá controle total, não precisara mais de Detrich e tampouco de mim. Assumira o trono, controlara os Poderes e o mundo vampiro sozinha. - Então se tornou o guardião do sono de Radamés. - Ele não tem ninguém alem de mim. Ela desconfia, mas ainda não tem coragem para perguntar. - Podemos matá-la? - quis saber Otávio. - Ainda não, e nem ela a nos. Ao alimentar os Anciões, conseguiu mais tempo para prosseguir com seus pianos. Voltou aos braços de Detrich com mais poder do que antes. Se tivermos sorte, só a veremos daqui a quarenta e sete anos. E desse modo aconteceu. A vampira sumiu como se jamais houvesse estado com os irmãos. Infelizmente, Fabíola também sumiu um dia depois da visita de Afrodite. Fugiu sem levar nada consigo. Ariel vasculhou a cidade durante uma semana ate encontrá-la. Otávio entrou no palacete e foi ter com Riva em sua câmara intima. - Ela veio com seus próprios pés para minha casa. Este e o lugar de Fabíola, jamais deveria ter saído daqui. Acreditou poder mudar seu caráter e torná-la uma dama? - Riva brincava com a morte e sequer percebia. - Saiba que seu primeiro cliente foi Adriano. Ele tem vindo aqui nos últimos dias. - Acalme-se, Otávio - disse Ariel suave, contendo o irmão. - Posso mantê-la exclusivamente para voce, Otávio. Para vê-la, e preciso pagar. Ariel entendeu as intenções do irmão e consentiu. Ele atacou Riva e silenciou seus gritos. - Traga-a ate mim. Não se preocupe com a porta, esta trancada.

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Riva esperneou furiosamente, mas ele a arrastou ate Ariel e esperou que agisse. Colocou a mão sobre sua cabeça e olhou em seus olhos. O contato durou muito pouco, mas foi o suficiente para que Riva desmaiasse aos seus pés. A essa altura ele já sabia de tudo que precisava. Fabíola foi ao palacete e ofereceu-se para trabalhar. A cortesã aceitou e Adriano foi o primeiro a tocá-la. Como agiu brutalmente, pagou com a vida. Ela o matou e a cortesã viu em seu ato de desespero uma chance de obter lucros. Livrou-se do corpo e esperou pela chegada de Otávio. Fabíola voltou ao prostíbulo porque os viu no leito com Afrodite. A revelação mortificou Otávio, e Ariel lhe propôs uma saída. Ele pensou por alguns minutos e concordou. Ariel fez Riva esquecer a conversa e o crime, enquanto tomava sem relutância um cálice de vinho. Desceu feliz e risonha ao lado de Ariel, que se despediu e deixou sua casa sem levantar suspeitas. Pela manha ela foi encontrada morta. O veneno tinha hora certa para agir. A mente de Fabíola também foi apagada. Acreditou ter caído da escada e perdido os sentidos por vários dias. Um mês depois Otávio recebeu das mãos do irmão uma chave. Era de uma casa em Cápua. Segundo ele, estaria seguro longe de Afrodite. Ele não aceitou negativas e lhe cedeu Dario, um de seus memores criados. Ele cuidaria de Fabíola durante o dia. O afastamento foi benéfico. Fabíola gostou de ter uma casa onde era a senhora absoluta. Otávio despertava ouvindo-a cantar, era recebido com beijos e sorrisos. Três meses depois da mudança o casal vivia em uma espécie de paraíso onde só o amor e a paz reinavam. Estavam na banheira trocando caricias, Fabíola recostada em Otávio, as mãos dele vagando por seu corpo. Sorriu maravilhado com suas formas generosas. Ela segurou suas mãos sobre o ventre e fez com que o tocasse numa descoberta. Os dedos passearam pelo abdômen crescido. Foi nesse instante que ouviu o coração da criança bater, sua respiração no mundo liquido onde crescia. O choque foi enorme. Saiu da banheira bruscamente sem conseguir dar explicações. Fabíola estava grávida. Andava pelo quarto agitado enquanto ouvia suas explicações. Como dizer que aquela criança não lhe pertencia? Que havia sido violentada por Adriano! Diante de sua distancia e frieza, chorou aflita. Quanto tempo suportaria carregar a criança em seu ventre? Três meses? Otávio andou por toda a cidade tentando pensar em uma saída lógica, mas não havia nenhuma. Quando voltou, a encontrou no leito, havia adormecido. Beijou sua face e saiu da câmara. Quando chegou ao jardim encontrou Afrodite. Estava sentada no banco debaixo da pérgula. Ele sentou ao seu lado e ficou em silencio, estava indefeso diante do estado de Fabíola. A criança não importava, só pensava na ausência de Fabíola em sua vida. Enlouqueceria. - Como me encontrou? - O Livro sentiu algo. Não pude acreditar a principio, mas quando Ariel me contou da mudança achei melhor investigar. O que aconteceu? Ele contou a verdade e recebeu um apoio que jamais havia imaginado, juntamente com uma revelação amarga. - A criança vai matá-la aos poucos. Dentro em breve, a criança sentira fome e ira chorar, mesmo estando no ventre da mãe, o que alertara os vampiros nas redondezas. - Qual a punição? - perguntou desamparado. - O machado. A sentença é a mesma para a mãe. Será castigado por tê-la tocado nesse estado. O Livro os denunciara ao sentir o nascimento da criança. Ela o ameaça. - Como não notei o corpo mudando? Deve haver um modo de deter a gravidez. - É impossível. Se ameaçarmos sua vida, matara a mãe para se defender. Lembre-se de que ele é um vampiro assim como nós. Tudo que posso fazer é mantê-la viva, não posso impedir que a criança nasça. Posso enganar o Livro por algum tempo, mas o esforço será enorme. - Pagarei o prego que for preciso, Afrodite, mas salve Fabíola. - Terei de viver na casa para cuidar dela. Não poderá mais tocá-la, Otávio. Sabe o quanto o amo, e por isso que estou me arriscando tanto. Tudo que peço é um pouco de carinho e atenção, seria capaz? - Sim. Apos o parto tornarei Fabíola uma de nos. Só não sei o que fazer com a criança. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Melhor será que nasça morta. Sobreviver significa ser um meio-vampiro, sofrer eternamente. Otávio desculpou-se com Fabíola revelando a misteriosa doença que matava seus filhos ainda no ventre da mãe. Ela recebeu a noticia com pesar, mas aceitou as novas regras, dentre elas a presença de Afrodite para garantir sua saúde e a da criança. Fabíola ficou intimidada com aquela presença, como não poderia deixar de ser. A vampira desenvolveu uma poção vermelha e ferruginosa que manteve Fabíola disposta e corada nos primeiros meses da gravidez, quando a sorvia a cada cinco dias. Com o passar dos meses, a poção teve de ser sorvida todos os dias. No oitavo mês já era servida três vezes ao dia. Era difícil caminhar, todo o esforço a cansava. Não conseguia comer, vomitava e dormia o dia todo e ao anoitecer estava completamente desperta. Seu cabelo cresceu, os olhos tornaram-se brilhantes, tinha pesadelos horríveis. O sol a incomodava e trazia dores, feria sua pele. Por duas vezes se tornou agressiva, quase louca. Com uma força sobrenatural quebrou o quarto inteiro. Fabíola tornou-se um espectro enquanto a culpa consumia Otávio. Desenvolveu ódio por Afrodite, não queria que a tocasse, tinha ciúmes justificados, já que era obrigado a agradá-la para que permanecesse na casa, produzindo a poção. Sem perceber, tinha se tornado seu escravo. Otávio nada revelou a Ariel, temia que seu crime desse a Afrodite poderes sobre o irmão. Ariel tinha uma missão, ele seria o novo rei dos vampiros, não tinha o direito de lhe tirar isso. Já havia roubado sua infância e herança, sua liberdade. Afrodite não podia guiar o mundo vampiro. Se alcançasse o trono, só traria destruição. Precisava ser detida ou realmente se tornaria uma deusa. - Sonhei com nosso menino. Ele se parecera com voce. Tinha olhos claros e cabelos escuros. - Assim que nosso filho nascer, voce se sentira melhor, eu prometo. Otávio tocou seu ventre e sentiu a criança se mover debaixo de seus dedos. - Sempre que se aproxima ele mexe e chuta. Vai cuidar dele, não vai? Sinto que não é um bebe comum. Temo que não possamos protegê-lo. - Nada vai acontecer. Voce será a melhor mãe do mundo. Seremos diferentes, sim, mas o amor nos fará fortes. Tudo vai ficar bem - murmurou percebendo que as lagrimas de Fabíola desciam rubras. Naquela noite, apos se libertar do desejo de sangue, o vampiro começou a pensar como seria o menino, quais seriam as limitações se sobrevivesse ao parte. Provavelmente Ariel saberia responder a suas duvidas. Sentia saudades da companhia apaziguadora do irmão, mas não suportaria seu olhar de condenação. Há meses não lhe escrevia nem recebia cartas suas. Otávio caminhava pela cidade quando começou a ouvir o choro de uma criança. Correu em desespero, voou pelos telhados e ao pisar no pátio da casa percebeu o imperioso silencio. Ele empurrou a porta e entrou. O leito estava revirado. Havia lençóis sujos de sangue, uma bacia de prata com água e uma adaga. Fabíola estava recostada junto ao espelho da cama, os olhos perdidos em algum ponto alem da porta. Haviam coberto suas pernas ate a altura dos quadris. A barriga crescida havia desaparecido. Otávio lançou um olhar sobre o embrulho diminuto e o ignorou, não conseguia ver nada alem de Fabíola. Segurou sua mão gelada, notou o silencio do coração, a ausência de calor, o tom da pele que continuava a se decompor diante dos olhos de um vampiro. Naquele momento, considerou ser sua maldição. Tinha subvertido a ordem natural da vida e a transformado em tristeza e dor. - Fiz tudo que pude, mas ela nao resistiu. O menino ainda chorou, mas acabou morrendo. Sei que sofre, mas foi melhor assim - disse Afrodite com uma frieza cortante. - Para que eu possa continuar em seus braços? - ele murmurou amargo. - O menino seria uma criatura estranha, Fabíola um fantasma. Não merece isso! Eu mantive sua amada viva, mas ela era tola e frágil, nunca seria uma de nós. Eles precisam ser cremados para nossa segurança. Eu providenciarei tudo. - Basta! Deixe-me! Agarrado a Fabíola, ele chorou sua dor. Vencendo seu medo, segurou o embrulho de pano onde o menino jazia morto. Tinha os olhos fechados, os lábios cerrados. Um inocente que sequer Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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viu o mundo ou sentiu o calor dos braços de sua mãe. Havia profanado sua espécie e a humana quando tentou mantê-los vivos. Mesmo ali, ainda pode perceber de modo egoísta que havia perdido a ultima chance de ser pai. As providencias para o sepultamento foram tomadas, os corpos foram queimados em meio a oferendas e flores. Otávio deixou Cápua, precisava ver o rosto de Ariel e sentir que fazia parte de algo. O retorno não foi fácil. Afrodite ocupou-se em mentir, ele não teve forças. Passou um mês adormecido, esquecido do mundo. Só despertou porque Ariel o buscou no seu tumulo. Aos poucos recuperou a voz, trocava duas ou três palavras com um irmão curioso e paciente que jamais acreditou que Fabíola houvesse morrido doente. Otávio afastou-se do convívio humano nos anos seguintes, passou a vê-los somente como alimento, uma realidade da qual nenhum vampiro pode fugir. Estava em sua câmara imerso em lembranças quando ouviu Ariel alterado. Discutia com Afrodite, ele havia sentido sua presença na casa, mas não queria vê-la. - Quem pensa que e para que ceda aos seus caprichos? Radamés? - Não seja ridículo, jamais será como ele. Dentro de seus olhos havia menosprezo profundo por Ariel. Acreditava-se a única herdeira do sangue precioso de Radamés. - Precisamos um do outro. E o meu sangue que lhe da tanto poder, não se iluda. Sendo assim, nada mais justo que fale com elas. - Teme o poder de Ordália sobre Derek? - Temo nossa destruição, estamos em perigo. O Livro escreveu uma pagina inteira. Daqui a alguns meses os Poderes se reunirão, será noite de Conselho. - E o que ela revela? - Exige um novo rei. Afirma que nossa espécie esta em grande perigo. Detrich está incontrolável. Aqueles malditos Zeladores me olham com repudio. Se pudesse já os teria matado! - falou, esmurrando a mesa. Ariel não cederia novamente. Ordália e as demais vampiras o avisaram de que não seria mais permitido tocá-las ate que fosse rei. Elas estavam certas, não as importunaria. Conter-se e esconder a gama de seus poderes se tornava cada vez mais difícil e humilhante. Ele beirava a majestade agora. O olhar tinha uma força poderosa. Invadia a mente de mortais e vampiros em questão de segundos. Ao ver Mitra doente, não pensou duas vezes e a transformou em vampira, mesmo sem atingir os cem anos. A experiência trouxe novas descobertas. - Algo de muito serio foi feito. Ha séculos não criava uma pagina. Mesmo quando Radamés morreu ele não produziu uma. Afrodite tentava inutilmente invadir a mente de Ariel. Ele manteria sua aliança com os Poderes, Radamés e parte dos Anciões ate o fim. Ordália e as demais vampiras ainda sentiam em sua carne a caricia maldita de Afrodite, feita no exato momento em que ela atacou o Livro indefeso e arrancou uma pagina. Seu ato a sentenciaria a morte. - A medida que o tempo passa, fica mais difícil manter seu nome longe dos ouvidos de Detrich. - Esta me ameaçando por tão pouco, Afrodite? - Quero manter o poder que conquistei. Enquanto voce bancava o escravo fiel, eu me arriscava visitando o Livro, mantendo-me livre do jugo de um mestre cruel e dominador. Estavam prestes a revelar bem mais do que poderiam. Temendo por Ariel, Otávio entrou na sala e envolveu Afrodite com seu carinho. Ela reagiu de imediato, parecia faminta. Certamente o rei a mantinha longe de seu leito, temia a fúria de Ordália. Ficou obvio que Afrodite estava perdendo o controle por não alimentar Derek e os demais Anciões, pois só poderia consumar o ato com Ariel e Detrich. - O que deseja, minha deusa? - Ajude-me a convencê-lo, Otávio. Todos nos temos segredos e pecados, nada mais justo que trabalhemos juntos. - Busque consolo na cama de seu amante - Ariel cuspiu cortante. - Acha que eu sou uma prostituta que pode rejeitar? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Só falta o registro. Finalmente encontra seu lugar em nosso mundo – ele agrediu cansado de suas ameaças. - Vocês dois me devem tudo que possuem, seus ingratos. - Sabe o que percebi, Afrodite? Que sua vida corre perigo. Passou-me pela cabeça tudo que vem roubando dos Poderes, o seu lugar ao lado de Detrich, seu controle sobre o Livro e sabe-se lá mais o que - Ariel falava com conhecimento. - O poder é uma força maravilhosa, mas extremamente corruptível. Acredita que vai conseguir sair de sua posição delicada sem sofrer as conseqüências? - quis saber risonho e cruel. - Cabeças irão rolar e não será somente a minha. Existem crimes bem piores que os meus. Afrodite partiu sem se deixar abater. Suas palavras levantaram duvidas em Ariel. Na noite seguinte, ele avisou que faria uma pequena viagem e que sua presença sumiria, mas que o irmão ficasse tranqüilo. Otávio tentou acompanhá-lo temendo um confronto direto entre ele e Afrodite, mas o motivo da viagem era um antigo pergaminho. Sessenta dias depois da partida de Ariel, sua presença voltou a ser sentida. Otávio o encontrou na sala principal com mais alguém. Seu acompanhante dormia profundamente em um dos divãs de veludo, coberto por sua capa. Estava extenuado pela longa viagem. Ariel não fez perguntas. Deixou que se ajoelhasse diante do menino de rosto corado e macio. As mãos repousavam sobre a túnica diminuta que trajava. As sandálias pareciam um tanto grandes para seus pés. O coração do vampiro disparou, ele conhecia a batida daquele coração persistente. Tomou seu filho nos braços e por muito tempo o manteve junto do peito. O pequenino despertou e o olhou com interesse. Pareceu mais tranqüilo ao encontrar Ariel a poucos passos. - Graco, este e seu pai. O menino fez muitas perguntas movido por sua curiosidade infantil, todas respondidas com muito cuidado. Observou seu cordão de ouro com o anel da casa dos Lordes pendurado. Afrodite tinha presenteado o menino com o anel de Radamés para protegê-lo. Mitra fez a criada trazer leite para que o pequenino se alimentasse. Tinha grande apetite. Ariel agia como tio e sorria encantado. Não demorou muito para que procurasse os braços do pai e adormecesse antes de Mitra levá-lo para o quarto. - Por que não me disse, Otávio? - Tive medo de comprometê-lo. Fiquei apavorado quando descobri Fabíola grávida. Só sabia que ela morreria com a criança. Eu tinha certeza de que me ajudaria, mesmo que isso viesse a prejudicá-lo. Foi por isso que ocultei os fatos. - Teria sofrido bem menos se tivesse revelado a verdade. Nosso sangue sempre nos unira, Otávio, mas os mistérios poderão nos destruir. - Onde o encontrou? - Em Cápua, de onde jamais saiu. Estava aos cuidados de uma mulher, provavelmente sua ama de leite. Segui Afrodite. Ela se sentia tão segura de sua vitoria que sequer percebeu minha presença. O menino a chamava de mãe, acredita nisso? - O que ela pretende com meu filho? - Afrodite esta sonhando muito alto, Otávio. Na noite que nos unimos a ela e aos Anciões, ela compreendeu que não poderia nos controlar por muito tempo. A resistência do Livro aumenta apesar da corrupção que o cerca. Ele anseia por tempos de paz e justiça, e logo conseguira. Afrodite traçou um piano secundário. Influenciou Fabíola, levou-a para o palacete de Riva e a engravidou através de Adriano. Dai foi so esperar que a sua natureza fizesse o resto. Ela sabia que jamais mataria Fabíola. Otávio só conseguia odiar cada vez mais a vampira. Seu único desejo era destruí-la para todo o sempre. - Ela planejava realizar um ritual dentro do Templo para libertar os Anciões. Graco e a chave, pois sempre estará entre os dois mundos. Vai crescer com o dom da imortalidade e a sede de sangue. Ele poderia libertá-los em um dia de eclipse total do sol.

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A fuga tornou-se necessária. Eles pegaram o que podiam e abandonaram a mansão. Ariel pareceu aliviado ao deixar sua prisão dourada, dava mais um passo em direção ao seu destino. Uma casa em Roma serviu de abrigo temporário. Ordália o visitou em sonho, as noticias eram alarmantes. Detrich tinha quebrado a aliança com ela em troca do nome e da localização do novo rei. Afrodite entregou Ariel e sua herança sangüínea. A Ordem estava no encalço de Ariel e sua prole. A última barreira havia caído. O Livro tinha renegado Ordália e estava sob controle de Afrodite. O Templo estava dividido. As vampiras tiveram que se submeter ao poder de Derek. Havia poucas saídas, e Ordália, por amor, revelou o caminho a ser seguido. O menino precisava ser levado ao Templo. O plano era perigoso, e realizar o ritual seria complicado. A luta envolveria a força de espadas e da mente. Deixaram Roma por uma rota marítima que os levou ate Puteoli e de lá ate Alexandria. Ele sabia que pelo Mediterrâneo, em uma rota comercial, teriam uma chance maior de vencer Afrodite e os Pacificadores. Mitra e Otávio fingiam ser os pais do menino, enquanto Ariel viajava sozinho. Assim que chegaram à Alexandria, buscaram um lugar seguro. Foram tempos difíceis, mas Graco não ligava, contanto que estivesse com o pai. A casa era pequena, mas segura. Não podiam chamar atenção e assim viveram por dois anos ate a chegada do eclipse. Ariel desenvolveu grande afeição pelo menino. Tornou-se seu professor, algo que o distraia. Graco aprendia com grande facilidade e rapidez, não era uma criança comum. Podia andar livremente pelo sol, sentia-se apenas sonolento. Ariel testou todas as suas habilidades e encontrou algo realmente espantoso. Graco era um mortal extremamente evoluído. Seus sentidos eram tão aguçados quanto o de qualquer vampiro. Todavia, seu poder de regeneração era o de um mortal. No dia em que ao brincar caiu e cortou a perna, sangrou consideravelmente, chorou muito e foi necessária a intervenção de um medico. Ficou claro que ele envelheceria e morreria. Isso entristecia e alegrava o coração de Otávio, que não o veria enfrentar uma eternidade de preconceito e repudio das duas espécies. No fim do segundo ano, Ordália pronunciou-se outra vez, de forma tardia. Eles precisavam deixar Alexandria. Graco sempre despertava duas horas mais cedo e geralmente ficava sozinho entregue aos seus brinquedos. Ninguém poderia imaginar que sua mente estava ligada a de Afrodite. Seus aliados levaram o menino e atearam fogo na casa. Os irmãos despertaram em meio as chamas e por pouco não perderam a vida. Precisavam chegar a Gizé. Para isso, seguiram a rota das caravanas e misturaram-se aos nômades, adotando vestes escuras e um véu negro que ocultava a face vampira. Cavalgaram durante a noite parando ao amanhecer para dormir imersos na areia ou em velhas construções. O menino certamente estava a caminho do Templo. Quando finalmente puderam ver a esfinge, faltava somente uma noite para o eclipse. Dormiram sob as areias e, assim que a noite caiu, entraram para enfrentar Afrodite. Ariel sabia que dentro do Templo eles não poderiam sentir a presença um do outro, o que dava certa liberdade de ação. Se Radamés estivesse vivo, ficaria mortificado ao ver simples vampiros dentro do Templo em veneração aberta aos Anciões. Eles queimavam incensos e os olhavam a distancia entoando cânticos. Nunca houve tamanha profanação! O poder de Afrodite crescia com os seguidores. Graco foi vestido com uma túnica semelhante a dos Anciões e posto próximo aos sarcófagos, enquanto Afrodite lhe passava instruções. Ordália olhou a sua volta, fitava os rostos vampiros a procura de Ariel. O ritual precisava seguir seu curso. Graco foi posto no centra do cone de luz. Era dia alem das paredes do Templo. O menino parecia apreensivo, mas, sob as ordens de sua suposta mãe, esperou. O eclipse cobriu o sol. A vampira recitava o texto do pergaminho quebrando o pacto, era guiada por Derek. O salão cobriu-se de trevas, o ritual havia começado. Os Anciões, protegidos pela escuridão, entraram em seus sarcófagos. Uma luz tênue azulada envolveu Graco, que fechou os olhos e entrou em transe profundo. Seu corpo flutuava sem peso dentro do cone de luz, as mãos e os pés estendidos. Estava muito longe. Negociava com as guardiãs das urnas e as

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conquistou. Elas surgiram a cabeceira de cada sarcófago, exceto os de Évora e Otomar, que haviam escolhido permanecer adormecidos. As urnas inclinaram-se inundando os sarcófagos de sangue. A luz azul que envolvia Graco estendeu-se por todo o espaço. O sangue foi absorvido pelo corpo das múmias. Havia dedos se movendo, respiração e coração pulsando. Seus corpos surgiram tal como eram quando vivos. Derek e Ordália foram os primeiros a abrir os olhos cheios de vida. Os deuses da noite estavam de volta. Levantaram repletos de força e beleza, renascidos. Moviam-se apreciando seus corpos e músculos depois de séculos. Derek aproximou-se de Ordália e estendeu a mão. Podiam enfim se tocar, não porque o Livro os havia alimentado, mas porque possuíam corpos físicos. - Vivos, estamos vivos! - rugiu satisfeito. A alegria era compartilhada por todos os Anciões. Agiam como crianças felizes. Ao sinal de Derek, foram até Afrodite cobrar a segunda parte do ritual. Ela havia colocado o menino ao seu lado e não parecia disposta a entregá-lo sem obter todo poder que pudesse. - O que fazem de pé? - questionou Derek, apontando o cajado para os presentes. - Ajoelhemse diante dos deuses. Afrodite, obviamente, não se curvou. Permaneceu imóvel segurando Graco nos braços. Ele estava desperto e atento aos seres à sua volta. - Ajoelhe-se, Afrodite - ordenou Ordália com firmeza. - Sou fruto do sangue do iniciado, daquele que os libertou do sono eterno. Diante de vocês posso permanecer de pé. - Caso Radamés estivesse vivo, se ajoelharia diante de nós em respeito ao nosso sangue. Você é corrupta e insolente. Se ainda permanece viva é porque foi do agrado dos deuses. Lembre-se de que sua vida não vale nada agora que estamos livres - avisou Ordália. - Entregue o menino e complete o ritual, a lua não tardará a abandonar o sol. - Não antes que aumentem o meu poder. - O que prometeu à meretriz, Derek? - O pergaminho promete dons aos que nos libertarem. - Então, pague a meretriz, talvez assim ela deixe de rastejar junto ao trono. - Não caminharei ao seu lado como mera escrava - Afrodite avisou. - Mas é o que sempre será, Afrodite - falou Ariel, surgindo no salão. Graco gritou e tentou alcançar Otávio, mas foi detido. - Diante deles sempre será a escrava. Eles são deuses, o que esperava? Derek a usou para que os libertasse e agora vai se livrar de você. Veja quem está ao lado dele - disse, apontando Ordália, poderosa e magnífica. - Devolva-me o menino, Afrodite, ainda há tempo - disse Ariel. - O futuro rei dos vampiros, belo, forte e poderoso, chegou tarde. Não mais nos submeteremos ao Livro. Nós agora somos os reis e todo vampiro que desejar se manter vivo deverá cair de joelho diante de nossa presença. Dizendo isso, avançou sobre Ariel, que se desviou do golpe agilmente, saltando no ar. Num movimento ágil, o futuro rei arrancou a lança de suas mãos e a pressionou contra a garganta. - Os Poderes permaneceram, pouco importa se tenha um corpo ou não, Derek. - Radamés está morto, estamos livres. Junte-se a Afrodite, fique ao nosso lado - sugeriu Marcus. - Radamés está vivo para todo e qualquer vampiro que segue as leis do Livro. Leis que mantiveram seres como vocês sob controle. Posso matá-lo agora, Derek, pouco importa quanto tempo a sua alma possui. É a desvantagem de ter um pescoço para ser cortado. Dizendo isso Ariel o cortou e o deixou sangrar, enfurecido. - Se quer poderes, Afrodite, terá que matá-lo. Ariel estava a poucos passos de Afrodite, pretendia tirar Graco de suas mãos. Ela segurava o braço do menino e empunhava uma adaga contra Ariel. Enfurecido com seus puxões, Graco mordeu o pulso da vampira. Ariel aproveitou a chance e puxou a espada, estava pronto para lutar ao lado de Otávio. Mitra correu para defender Graco e foi seguida pelos vampiros. Os seguidores Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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de Afrodite avançaram sob a luz da lua que suavemente deslizava sobre o sol. Ariel e Otávio se lançaram sobre os inimigos tentando proteger Graco e Mitra às suas costas. O futuro rei dos vampiros feriu os Anciões, que recuaram com receio de perder os corpos recém-conquistados. Nenhum deles entraria em combate direto. Mitra gritou por Ariel. Caiu ao chão com a veste coberta de sangue e Derek sobre ela. Os Anciões a furavam com lanças e punhais, enquanto Graco gritava histérico. Foi jogada degraus abaixo e o menino se viu acuado, com os olhos arregalados de medo. Nesse momento, Graco estendeu as mãozinhas na direção dos Anciões e foi imbuído do poder do eclipse, que usou sabiamente. A luz tênue azulada agora estava em suas mãos, saía de seus olhos em fachos de luz muito fortes. Eles atingiram os vampiros à sua frente, derrubando-os no chão. Seguravam a cabeça e gritavam de dor, envolvidos pela luz. Quando finalmente os imobilizou, Graco caiu ao chão apagando-se como uma lâmpada. Otávio correu até o filho e o recolheu do chão. Chamava seu nome com insistência quando foi atravessado pela espada de Afrodite. A vampira entregou o menino nas mãos de Derek, já refeito do choque recebido. O tempo estava se esgotando. Eles precisavam beber do menino antes que o eclipse acabasse ou seus corpos morreriam. Se isso acontecesse, ficariam novamente dependentes do Livro e do rei. Ariel havia sumido no corredor, empurrava os vampiros para fora do Templo. Eles precisavam morrer para o segredo da esfinge ser mantido, por isso os encurralou numa câmara estreita e moveu uma chave de pedra. Imediatamente, o chão sumiu e eles despencaram sobre a areia do deserto à mercê do sol que logo apareceria. Os Anciões rodeavam Graco completando o ritual, Ariel voltou à câmara e ouvia os gritos de Otávio. Caído no chão, tentava se libertar de Afrodite, que o mantinha preso ao solo. Mitra usou suas últimas forças e atracou-se com a vampira, esfaqueou-a várias vezes. Os Anciões rodeavam o menino para absorvê-lo. Sem alternativas, Ariel usou um poder até aquele ponto desconhecido. Estendeu as mãos e fez Graco flutuar fora do alcance dos Anciões, nem mesmo Derek conseguiu conter a criança. O esforço fez Ariel cair ao chão e sangrar pelo nariz, mas não tirou sua visão do fim dos planos dos inimigos. A lua afastou-se e o sol voltou grandioso, tocando-os pelo cone de luz. Fora da Esfinge alguns vampiros ainda tentavam cavar na areia um abrigo, mas não conseguiram. Ordália não se queixou, fechou os olhos e agüentou tudo com resignação. Seu belo corpo desfazia-se, virava cinza. Tudo que a animava era o olhar derrotado de Afrodite, seus planos frustrados. Enfraquecidos, eles se reunirem niram numa massa sem forma definida. Não passavam de sombras pálidas com olhos brilhantes e esgarçados. Por um momento a massa flutuou sobre Ariel e depois se desfez no ar. Haviam voltado para as câmaras mais escuras do Templo. Otávio correu para o filho e o segurou nos braços. Graco estava imóvel. - Malditos! - Afrodite rugiu furiosa. - O que foi, Afrodite? Perdeu alguma coisa? - perguntou Ariel, recuperando-se ao lado de Mitra. - Não tanto quanto vocês. Ele invadiu a mente de Derek! Jamais despertara. Otávio avançou sobre a vampira, que sumiu debaixo dos golpes de sua espada. Não havia ninguém que pudesse ajudá-los. Ele passou o resto daquele dia com o filho nos braços e percebeu seu corpo cada vez mais pálido e frio, o coração sequer batia. Ariel tentou trazê-lo de volta sem êxito. Quando a noite caiu, não havia mais como negar que ele estava morrendo. Envolveram seu corpo pequenino e o carregaram para fora do templo, onde foram detidos pelos Pacificadores. Não houve luta. Ariel estava fatigado e Otávio só desejava ficar diante de Afrodite. Foram postos em caixas de metal. Mitra ficou com Ariel e Otávio foi separado do corpo do menino, posto em uma caixa menor. Ariel despertou durante a viagem e sentiu o cheiro do mar, as ondas batendo no casco do navio, os gritos insistentes das gaivotas. A luz das tochas quase os cegou quando os Pacificadores abriram as caixas. Foram arrastados por um corredor de pedra sujo e lançados numa cela. Para saciar a fome, caçaram as ratazanas que por ali viviam. - Otávio, é noite de Conselho, seremos julgados muito em breve. - Tenho um propósito. Vou matar Afrodite mesmo que isso me custe a vida. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Quero matá-la tanto quanto você, mas não precisa perder a vida tentando. Apenas confie em mim - ele pediu. A distância, podiam ouvir os sons de luta, decisões, risos, música e festa. Apesar de ter evitado o aparecimento dos Anciões no mundo mortal, Ariel sentia-se profundamente derrotado. De pés e mãos acorrentados, o grupo foi colocado diante dos Poderes. Estavam em Roma e as Assembléias eram meros circos. Os Pacificadores precisaram intervir para Otávio não matar Afrodite. Ela estava sentada tranqüilamente ao lado de Detrich. Comportava-se como a rainha. Todos riam da luta do vampiro, que por fim foi contido e jogado ao chão.

Detrich observava Ariel com profundo interesse, percebia sua superioridade e beleza, mesmo de vestes sujas e o cabelo em desalinho. A assembléia estava silenciosa. - Então foram estes os vampiros responsáveis por toda a perturbação nos Poderes? - Sim, majestade, são eles - assentiu Afrodite. - Ele foi escravo de Radamés, majestade - disse Savedra, próximo ao trono. - E você, o assassino de Cirilo, Sentinela da Ordem de Thoth - disse Ariel, perdendo o controle ao reconhecer o assassino do amigo. Savedra recuou em silêncio temendo perder a cabeça no cepo. - Quero ouvir as acusações - falou Detrich. - Quem trouxe vocês para a imortalidade? - perguntou Togo. - O vampiro deve ser trazido diante dos Poderes. - Origem desconhecida - Ariel falou seguro. A resposta não surpreendeu Otávio ou Mitra, eles haviam combinado o que falar diante do Conselho. - A vampira é criação de Ariel - disse Afrodite. A pedido de Togo, dois Pacificadores aproximaram-se com um punhal, cortaram seus pulsos e passaram um fio de prata para que não se fechasse. O sangue caiu no chão em três manchas. O de Otávio permaneceu imóvel, enquanto o de Mitra parecia vivo e se uniu ao de Ariel provando a acusação de Afrodite. - Ariel, este Conselho e os demais Poderes o acusam de matar Radamés, o Senhor da Ordem de Thoth, atacar a favorita do rei e ameaçar o Livro. Ariel e Afrodite encaravam-se sem ao menos piscar. - Otávio Maximiliano Augusto Graco, este Conselho o acusa de cumplicidade em todos esses crimes e de manter sob custódia uma criança mortal. - Mitra, este Conselho a acusa de cumplicidade nos crimes e de fazer o papel materno para a criança mortal já citada. Pesa sobre sua cabeça ainda ser fruto do sangue de um vampiro de origem desconhecida. O que a condena à morte pelo machado. Os Pacificadores esperavam a despedida permitida por Togo, direito de qualquer prisioneiro. - Mitra, minha pérola - murmurou. - Sempre amei você, Ariel - beijaram-se longamente. Mitra abraçou Otávio e pediu que ele enterrasse o menino. Os Pacificadores a levaram, Mitra sorriu para Ariel e curvou-se diante do cepo fechando os olhos. O machado desceu pesadamente e logo tudo estava acabado sob aplausos e gritos da assembléia. Uma lágrima rubra escorregou pela face de Ariel. - Ariel, os Poderes o sentenciam ao sono e à sede. Que sua face seja mergulhada dentro da escuridão e do esquecimento por cem anos. - Não. Eles merecem a morte pelo machado - Afrodite protestou indignada. - Afrodite, o terceiro poder ainda se pronuncia - Bailas censurou Afrodite em favor da Ordem. - Otávio, os Poderes o sentenciam à mesma pena. Que os dois vampiros sejam imediatamente mergulhados na escuridão. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Tenho um pedido para a Ordem - Otávio falou. - Fale - permitiu Togo. - Peço que meu filho receba um funeral digno de sua inocência. - A Ordem de Thoth não jogaria seus restos ao relento. A criança mortal receberá sepultamento - assegurou Togo, observando a preocupação de Afrodite virar alívio. - Um último pedido antes do sepultamento, Ariel? - Detrich perguntou debochado. - Sim, obviamente, majestade. Aproveitem as noites que virão sobre suas cabeças, oferecidas por este César. Divirtam-se com ele e sua concubina no que se tornou o mundo vampiro. Tempos de justiça e ordem não tardarão a chegar. Despeço-me agora, rogando que os Poderes possam sobreviver até o meu retorno. Ariel curvou-se elegantemente e deixou-se conduzir ao caixão de metal que acabava de chegar ao salão. Estendeu o braço ao irmão num cumprimento antigo. - Sinto por condená-lo ao meu destino, Otávio. - É uma honra partilhar de sua imortalidade. Abraçaram-se fortemente e isso os acalmou, trouxe segurança. - Até breve, ave de rapina. - Durma bem, pequeno Ággelos. Ariel arrumou a capa, entrou no caixão de metal desconfortável e cruzou as mãos sobre o peito, enquanto a caixa era posta na posição horizontal. Otávio seguiu seu exemplo e assim que fechou os olhos pôde ouvir sua voz em sua mente. - O tempo é uma serpente dourada que desliza sobre a areia do deserto. A Ordem sepultou os caixões em local secreto para evitar violação e, até mesmo, um atentado contra a vida. Apesar de conhecer todos os crimes da vampira, eles se resignaram, pois se acusassem Afrodite teriam de revelar o local de sepultamento de Radamés. Afrodite sempre planejou destruir seus restos, só não o fez graças a Ariel. O rei fez o mesmo ao não acusar Ariel de querer o trono. Se o fizesse, admitiria que sua autoridade fora questionada pelo Livro. Os Poderes exigiriam o teste, mas Ariel só poderia fazê-lo depois dos cem anos. Eles o manteriam sob custodia até a maioridade para então enfrentar o rei atual. Nem Detrich nem Afrodite queriam correr esse risco. Os Anciões e Radamés estavam, seguros por mais cem anos.

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35. OS CINCO PODERES A luz chegava aos poucos, os sons invadiam a consciência de Otávio. Respirar foi difícil. Ele tossiu e sentiu os cheiros na câmara: palha, umidade, o óleo sendo queimado na tocha. Seus olhos estavam extremamente sensíveis, uma grande secura dominava a boca, os lábios pareciam feitos de pedra. Deveria estar com um aspecto terrível. Quando a mão de Ariel tocou seu ombro, moveu-se assustado. Tudo parecia letárgico. - Mova-se, Otávio, ou não conseguirá despertar. Apoiado em seu ombro, saiu da caixa de metal e andou com dificuldade. Ariel parecia não sofrer os efeitos do sono prolongado. Cansado de ver a luta do irmão, cortou o pulso e deu-lhe de beber. Estavam dentro da mesma cela. - Vamos Otávio, fale. - Eu quero a cabeça de Afrodite - afirmou sério e depois enojado. - Há mais uma coisa. Sinto baratas dentro de minhas roupas. Ariel gargalhou chamando a atenção do Pacificador. Despiu-se e entrou na tina de banho. Haviam trazido água, roupas limpas e comida. Uma gaiola cheia de ratazanas. Alguns luxos antes do fim. Afrodite mandava avisar que seriam executados. Limpo e vestido, Otávio percebeu que Ariel estava muito sério dentro da tina. Ainda não era noite além das paredes de pedra. - Otávio, teremos momentos difíceis diante dos Poderes. Pode não haver amanhã. Cem anos se passaram, nossos inimigos se fortaleceram. - É verdade. Mas a minha espada ainda tem corte e a cabeça da cadela encontrará seu fio ele assegurou. - Caso nada aconteça como espero, quero que me acuse e se alie a Afrodite. Ela não se negará a perdoá-lo. - Depois de tanto tempo não esperava ser insultado. Vou matar Afrodite e pouco importa se este será meu último ato. Tenho sede de seu sangue. - Escute-me. Nunca mais poderemos beber do sangue de Afrodite, compreende? Fazê-lo seria suicídio. Mate-a com o machado, não use suas presas. Ariel estava preocupado aos olhos do irmão. Ele se recolheu no fundo da cela e fechou os olhos, mergulhou num profundo transe. Enquanto o dia escorregava pela cela ele sussurrou em egípcio com o vazio em sua frente. Otávio manteve-se ciente de sua missão naquele lugar: matar Afrodite. E ao fitar a parede além da cela viu vários caixões de metal, certamente outros condenados. - Pacificador? - chamou, saindo do mutismo. Havia reunido ânimo e força. - Em que ano e país estamos? - Estamos em Roma, o ano é 167. O imperador mortal chama-se, Marco Aurélio. - E você, como se chama? Ariel observava a face de pedra do vampiro de olhar escuro, filho de alguma província romana. Certamente via nele dons especiais. - Romano - revelou calmamente. - Obrigado, Romano. Agora acalme seu coração, não precisará cortar minha cabeça. O Pacificador deteve seus passos e fitou Ariel com curiosidade. Foi a última pauta da noite. Romano colocou as correntes nos punhos de Ariel evitando seu olhar, temendo que desvendasse sua alma, mas era tarde. Seguiram para o salão, e a cena pareceu se repetir. Afrodite vestia uma túnica vermelha que cobria muito pouco de seu belo corpo. Parecia disposta a imitar o estilo de Ordália e das demais vampiras. Detrich ao seu lado, vestido de negro, parecia enfadado, mas chegou a sorrir ao vê-los. Afrodite segredou-lhe algo aos ouvidos enquanto Ariel e Otávio eram trazidos sob vaias. - Que as acusações sejam lidas - falou Detrich, num gesto de mão patético. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Togo aproximou-se da tribuna, as acusações foram novamente lidas e a sentença decidida. Morte pelo machado. Os Pacificadores os cercaram e Ariel seria o primeiro a enfrentar a sentença. Foi colocado de joelhos diante do cepo. Otávio tentou reagir, mas Ariel o conteve com um olhar. Com a face colada no cepo, ele esperou sem medo o Pacificador erguer o machado e, quando estava prestes a descê-lo, o Livro fechou-se ruidosamente no salão. O rei, os Poderes e Afrodite se ergueram assustados com a reação. - Espere! - Togo deteve o machado. - O que está acontecendo? - Detrich enfureceu-se com a brusca interrupção. O Pacificador afastou-se baixando o machado, afinal, obedecia primeiramente à Ordem e depois ao rei. Havia pelo menos uns duzentos vampiros naquele salão e todos pareciam perplexos. Afrodite fitava Ariel buscando explicações, por certo acreditava que ele havia exercido algum poder sobre o Livro, mas estava enganada. O Livro estava ciente de seus atos e escolhas. Os Zeladores recuaram esperando o próximo movimento. - Exijo explicações! Que os Zeladores e a Guardiã dos Segredos do Livro falem - bradou Detrich a plenos pulmões. - O Livro fechou-se em protesto a essa execução - avisou Zoser. - Em protesto? Como ele pode discordar das leis que dita? - Afrodite retrucou. - Ele põe em dúvida as acusações, majestade - Zoser disse sem medo. - Ele não pode permanecer fechado - disse Afrodite, apreensiva com o objeto, que começava a emanar partículas de luz diminutas. - Voltará para o lugar de origem. Nesse momento todos os olhares estavam sobre o Livro. Diante do risco de perdê-lo, Zoser enfrentou o rei. Jamais permitiria que o objeto saísse do seu controle. - Majestade, não pode permitir que o Livro continue fechado. Peço que retire a sentença. - Suspendam a execução! Detrich ordenou sem alternativas. Pronto para defender seu lugar, avançou sobre Ariel de adaga em punho. - O que pretende? - a lâmina brilhou sobre a garganta de Ariel, que não se moveu nem demonstrou receio. O rei sequer sabia o risco que corria ficando sob o olhar de Ariel. Detrich recuou, muito pesava na balança da justiça. Ele pouco ligava para o Livro, mas os vampiros ali presentes o temiam, não conheciam sua criação e seus mistérios. Para eles, o mundo vampiro sem o Livro era o caos. Concordando com o fim da sentença, ele se abriu diante dos olhares surpresos. Detrich viu seu mundo abalado e Afrodite confusa. O Livro, indiferente, moveu as páginas e mostrou o que desejava. Zoser aproximou-se obedecendo ao seu chamado e leu suas determinações. - O Livro inocenta Ariel de seus crimes. Está escrito e proclamado – falou Zoser, abrindo caminho para o rei. - Impossível! Detrich queria ver com os próprios olhos o que a arrogância jamais aceitaria: a sucessão. Estava a dois passos do Livro quando este o repudiou diante de todos, levantando exclamações de surpresa e aborrecimento. - Eu sou o rei! Acaso querem contestar meu direito de sangue? O Livro parecia travar uma batalha pessoal com Detrich, pois assim que o rei se calou ele se moveu novamente, dessa vez indo até a primeira página. A ameaça havia sido bem maior agora. Detrich pressentiu as intenções do segundo Poder e resolver agir por si só. Afrodite tinha perdido o controle sobre o Livro. - O Livro pronuncia-se novamente. Ele proclamou um novo rei vampiro. A assembléia veio abaixo dividida e confusa. Togo pediu ordem assim como Ballas, mas somente a voz de Detrich os silenciou por fim. Ainda lhe restava algum poder. - Ariel Simon. - Detrich leu o nome a distância, por não conseguir se aproximar sem sentir dor. - Como o Livro pode indicar um ninguém para me suceder?

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- O Livro é um instrumento de controle e conhecimento. Suas escolhas não devem ser questionadas, e sim acatadas. O prisioneiro deve ser libertado – afirmou Togo. - Libertar o assassino de Radamés? Admira-me aceitar essas indicações. - Sugere que ignoremos o Livro, Afrodite? Sem sua proteção, como nossa espécie continuará existindo? Seremos capazes de nos defender sem seu conhecimento e suas leis? - Togo lançava medo no coração dos vampiros. - Nosso rei é sábio e poderoso, nós não precisamos do Livro – Afrodite continuou. A assembléia não aceitou a sentença. A pouca confiança no rei ficou óbvia com a confusão na assembléia. - Os Lordes caíram e junto com eles nossa força. Se o Livro for desacreditado, o que restará além do rei? - os vampiros se questionavam. Togo pedia ordem e a assembléia manifestava-se por meio de comentários e gritos de insatisfação, enquanto Otávio e Ariel esperavam lado a lado. - O Livro nos guiou e continuará a fazê-lo. Como Guardiã dos Segredos do Livro, eu sugiro que acatemos suas ordens. Detrich compreendeu que por trás da afirmação de Afrodite havia um modo de eliminar aquela nova ameaça, por isso acatou suas palavras. - Acato sua vontade - falou o rei. - Zoser, o que deve ser feito? - Afrodite perguntou para se isentar de culpa, já sabia qual o caminho a ser seguido. - O prisioneiro é libertado, mas deve ter um guardião. Caso não consiga nenhum, deverá ser imediatamente executado. Se há nesta assembléia algum vampiro capaz de fazê-lo, que se apresente diante do Conselho. Afrodite conhecia as leis tão bem quanto os líderes dos Poderes. Ela sabia que nenhum vampiro da assembléia se levantaria em sua defesa contra o rei. Era proibido a um líder de Poder assumir tal responsabilidade. O silêncio no salão era total, Togo e Zoser fitavam as fileiras com incredulidade. Ariel esperava com tranqüilidade. - Eu os aceito como herdeiros de meu sangue - uma voz se elevou. Romano apareceu entre os Pacificadores. Afrodite o esfaqueou com o olhar furioso e começou a articular seu próximo. - Ainda pesam acusações sobre Otávio, o Livro não o isentou de culpa. - Deve saber que perderá o posto de Pacificador. Será responsável por sua vida em nosso mundo - Togo esclarecia quais seriam suas novas obrigações. - Estou ciente disso - falou sem arrependimento. - A Ordem aceita seu pedido. Deve falar seu nome e linhagem. - Sou Lúcio Romano. Fruto do sangue de Tasso Severiano. Eu aceito Ariel Simon como herdeiro de meu sangue - disse, cortando o punho e oferecendo-o a Ariel, que provou sem receios. Ariel Simon foi batizado pelo Livro com um novo nome, ele estava protegido. - Para que honre seu novo mestre e possa escrever seu nome no Livro, é necessário que mostre seus dons. Ariel falou em línguas antigas, reconhecidas pelos Zeladores e pelos vampiros mais velhos, que não puderam conter sua admiração. Lutou com espada, lança e de mãos nuas para vencer os três combates exigidos. Mostrou seus poderes mentais, falando com vários vampiros ao mesmo tempo sem que partilhassem de seu sangue. Fez um deles vir até sua presença e entregar a bolsa de ouro. A assembléia riu de seus pequenos truques, quase desfazendo o clima tenso que pairava sobre o salão. Quando ele atingiu o décimo primeiro poder, a assembléia exigiu o teste. Detrich não podia se negar ao teste, seria o mesmo que passar a coroa a um herdeiro. Afrodite tirou seu manto e desejou boa sorte. - Estarei ao seu lado, vou destruir a mente de Ariel. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- É melhor que o faça, Afrodite, pois vou sobreviver e acredito que não me deseja como inimigo. Ariel estava livre para o duelo. Detrich sorriu e resolveu falar antes de atacar a mente de Ariel. - Sabe quem sou, Ariel? - perguntou, rodeando-o ameaçador. - Sim. O rei da desordem. Reina desde os tempos de Diocleciano, pelo que me lembro. Mas o mundo vampiro não é Roma e não deve ser governado da mesma maneira. Hoje isso ficará provado. Detrich emudeceu, sua mente já estava sob o poder de Ariel. A assembléia, os Poderes e Afrodite viram paralisados o rei obedecer e estender os braços. Ariel os segurou e continuou a destruir sua vontade. - Sou imortal. O poder é meu, o tempo é agora. Os sentidos foram empurrados para além da consciência. O ataque foi esmagador, não sobreviveria à aniquilação. A beleza e a vida desapareciam de seu corpo, o frescor da pele imortal era devorado pelo poder de Ariel. Uma terrível demonstração de força era presenciada pela assembléia, que jazia muda. Sob as mãos de Ariel, uma pilha de ossos coberta de seda e veludo tremia, transformando-se em cinzas. No meio dela, o brilho do rubi. Ariel pegou o anel e o colocou no dedo, consumando o ato. - Viva o rei Ariel Simon! A assembléia repetiu a exclamação. Ariel era o novo rei dos vampiros. Foi para o trono e sentou-se, vendo a assembléia se curvar em sua homenagem. O novo rei sorriu e estendeu a mão para Afrodite, que o observava com admiração. - Reinaremos juntos estabelecendo novas leis e regras. - Detrich morreu e com ele a desordem. Ainda existe um lugar para você em nosso mundo. O golpe a conteve. O braço foi torcido para trás de modo impiedoso. Afrodite lutou e recebeu o que merecia. Ariel a fez cair de joelhos e fitar a assembléia. O Livro moveu-se ao simples olhar de Ariel. As páginas passaram suavemente e por fim pararam. Havia admiração no salão. Zoser olhou o local e o reconheceu de imediato. - Membros do Conselho e demais Poderes, diante de vocês está a única vampira capaz de sorver a Seiva. A Senhora dos Segredos do Livro, a vampira que os corrompeu, a assassina de Radamés e das Zeladoras Mira e Celina, a maldita que me criou - ele a empurrou, e a vampira espatifou-se no chão antes de ser recolhida pelos Pacificadores. - Mentira! - Verdades incontestáveis. A voz suave e profunda de Radamés fez-se ouvir no salão. Afrodite o reconheceu de imediato e rastejou implorando por piedade. A assembléia olhava o vulto protegido por um manto negro com interesse e somente se ergueu quando ele baixou o capuz. - É o mais belo e poderoso de todos os reis que já fiz coroar. Governará o nosso mundo por um oceano de tempo, meu amado. Não posso permanecer neste plano por muito tempo, mas vim acusar Afrodite de seus crimes contra o mundo vampiro - dizendo isso, passou às mãos de Zoser uma folha de pergaminho. - Tal página foi arrancada do Livro no dia de meu assassinato. A segunda surgirá no tempo devido - falou enquanto desaparecia diante do olhar assombrado de todos. Zoser devolveu a folha ao Livro. O papel antigo e amarelado agrupou-se como se nunca houvesse sido rasgado. Os crimes foram citados e Otávio libertado. Afrodite ouvia sua sentença quase enlouquecida. Os Poderes pronunciaram-se, os Lordes entraram no salão. À frente deles, Misha e Isadora; um passo atrás, Thiago e Dimitry, ainda membro da casa. - O quinto Poder pede permissão para se juntar aos demais, majestade - falou Misha. - Sejam bem-vindos. Eu conto com o apoio de todos os Poderes para governar com sabedoria e justiça o mundo vampiro civilizado. - Para que isso aconteça, majestade, sua mestra deve ser executada. Sei que é um representante da justiça, mas cabe aos Poderes se defenderem dos reis. Fomos caçados e Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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mortos quando somente desejávamos ordem. Tempos como estes não podem se repetir. Afrodite influenciou o Livro e o rei. Sua linhagem é poderosa. - E o que desejam os Lordes? Digam-me e será realizado. - Os Poderes precisam se sentir seguros e para tanto o sangue da inimiga dos Poderes deve ser mantido após sua morte. - Assim será feito. - Afrodite, diante das acusações, este Conselho e os demais Poderes decidiram que deve ter o sangue drenado. Parte dele será conservada em amostra e parte oferecida ao Livro. Depois disso será executada. Morte pelo machado. - Sou uma deusa, não podem matar-me! Afrodite foi silenciada e arrastada para fora do salão. Otávio, inocentado de todos os crimes, precisava ser inscrito no Livro. Foi então que Ariel o aceitou como seu herdeiro de sangue. Ele atingiu o oitavo poder e se tornou membro do mundo vampiro civilizado. Pouco depois foi chamado por Misha e convidado a segui-lo. Na câmara havia um representante de cada Poder e cinco Pacificadores. Haviam retirado as jóias e as finas vestes de Afrodite. Ela agora usava uma túnica simples de linho negro. Tinha o rosto banhado em lágrimas, os longos cabelos soltos sobre os ombros. Nem todo seu poder foi capaz de influenciar os vampiros que a cercavam. Ao ver Otávio entrar na câmara, jogou-se em seus braços e foi duramente contida. - Pode deixar comigo - disse ao Pacificador. - Sabia que viria em minha defesa, meu amado Otávio - ela nunca estivera tão enganada. Otávio permaneceu em silêncio, nada havia para ser dito. Tudo que a vampira fez contra ele parecia extremamente distante naquele momento. Entretanto, não sentia pena de suas lágrimas. Misha passou o punhal para suas mãos e os Pacificadores contiveram os gritos da vampira. Seus pulsos foram estendidos sobre uma bacia de prata. Otávio cortou a carne e depositou o fio de prata que impediria a cicatrização. Fraca e lívida, Afrodite não representava mais ameaça para ninguém. Um pequeno frasco foi preenchido com seu sangue e devidamente lacrado. Thiago o conduziu com segurança e silêncio absoluto. O Pacificador colocou Afrodite diante do cepo e lá ela permaneceu sem forças, suplicava por piedade. O machado cortou o ar e atingiu o pescoço num golpe certeiro. A cabeça rolou dentro do cesto, estava acabado. Thiago retirou o machado das mãos de Otávio, ainda atônito. O rei foi chamado antes da destruição total do corpo. Com a firmeza e frieza que esperavam de um rei, liberou o cadáver para ser queimado. As cinzas seriam lançadas aos quatro ventos, não podiam permanecer juntas. Diante dos Poderes e do rei, Otávio jurou manter a amostra em segurança. Caso decidisse morrer, deveria passá-la a outro guardião escolhido pelos Poderes, mas se a morte o assaltasse, poderia passá-la ao ser mais próximo. Quando a noite extenuante chegou ao fim, a amostra pendia sobre seu peito presa a uma corrente. Ariel continuou desperto revendo sentenças do antigo governo e provavelmente anulando muitas delas. Durante várias noites, ele deliberou sem descanso. Os Poderes olhavam-no como uma promessa de segurança e paz no mundo vampiro. Os primeiros anos foram difíceis, mas cheios da força renovadora de Ariel que conquistou aliados sinceros. Para ele todos eram importantes, mesmo os Sentinelas humanos, que recebia pessoalmente para que compreendessem com quem lidavam e em que mundo estavam entrando. Era diante dele que juravam lealdade ao mundo vampiro. Envolvia-se em todos os setores e não tinha outra vida. Nos primeiros anos de seu reinado, quase cem vampiros foram executados e muitos outros se inscreveram no Livro. Cem anos depois de Graco dar corpos aos Anciões, Ordália pode finalmente provar da companhia de Ariel. O rei dedicou-se exclusivamente a Ordália e às demais vampiras do Templo. Ela era fiel, apaixonada e jamais o trairia. Derek e os outros o aceitaram sem protestos. Em retribuição, davam-lhe poder e proteção. Ariel pressentia ataques e revoltas, guerras até mesmo do mundo mortal. Cansado de assistir Ariel reinar, Otávio foi ver o mundo com seus próprios olhos. Ficava muito tempo sozinho, e a melancolia não lhe fazia bem. Afrodite o perseguia em sonhos, e a presença Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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da amostra prejudicava o rei. Ele vagou pelo mundo como mais um emissário da morte. Não se fixava em lugar algum, apenas andava pelo mundo testando seus limites, dormia em qualquer lugar, despertava sem grande expectativa, acompanhado apenas da sede de sangue. A cada cem anos ele voltava para a companhia de Ariel e participava dos Conselhos. O novo rei, com sua sabedoria, reuniu riquezas e o mundo vampiro agora possuía fundos para se proteger. Os Poderes e seus representantes contavam com parte desse tesouro. Constantinopla foi o porto escolhido por ele e lá o rei ficou por muitos séculos, enquanto a face do mundo mortal se modificava ao gosto das conquistas bárbaras.

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36. ALMAS GÊMEAS Os olhos de Jan Kmam estavam vidrados. Se não fosse sua nova essência de rei, provavelmente estaria exausto. Viajar pelas memórias de Otávio custava um grande esforço, mas era um sacrifício necessário para entender os inimigos que em breve enfrentaria. Depois de fazer uma breve pausa e tirar algumas dúvidas com Otávio, tocou mais uma vez as suas têmporas e preparou-se para um novo mergulho. Talvez o mais revelador até agora.

- Peguem as bruxas! Otávio fitava a turba gritar enfurecida do alto do telhado de uma casa velha. Estava sob a chuva, acabara de se alimentar quando viu passar um grupo de vinte pessoas com tochas e pedaços de pau. Do outro lado, dois vultos corriam na escuridão. Não conseguiam vê-lo camuflado junto à parede coberta de lodo. Tentavam se ocultar na capa da noite, mas estavam muito nervosas para conseguirem. Ele percebeu o quanto eram jovens. - Norine, fuja, eu me entregarei a eles, acabou. - Não, Collet, nós vamos ficar juntas. Ninguém vai queimar você, está me ouvindo? - Estou cansada de fugir. Ele vai nos encontrar. - Ele nunca mais vai nos tocar - garantiu Norine. Os homens não estavam muito longe. Collet estava realmente pronta para se entregar, e se continuassem falando seriam capturadas. Abraçada à irmã, beijou-a e correu na direção dos prosseguidores. Norine correu logo atrás, mas Otávio a pegou na escuridão do beco. - Esconda-se, vou trazê-la de volta. Collet corria na rua escura. Sua saia arrastava na água que descia forte pela sarjeta. Afastou os cabelos úmidos da face e buscou seus perseguidores. O grupo de linchamento estava na ponta da esquina e correu para apanhá-la. Foi nesse momento que o vampiro a envolveu e num salto ligeiro sumiu diante dos olhos da turba. Collet debatia-se e gritava. Seus olhares se encontraram, as mãos frias dela se fecharam sobre seus ombros. Ela invadiu a mente do vampiro. Os olhos cor de mel se arregalaram. Mortal algum havia conseguido tal feito. Ele a recebeu com surpresa, mas não foi agressivo, ela podia sentir sua imortalidade. O prazer acabou quando foi tomada por visões do passado do vampiro. Gritou de dor e desmaiou em seus braços. Seu coração batia devagar e agonizante. Ele mordeu o dedo e deixou que gotas de seu sangue colorissem os lábios da bruxa para que voltasse à vida. Havia uma ligação muito forte entre as duas mulheres. Eram irmãs e não poderiam viver sem a presença da outra. Otávio voltou ao beco com Collet desmaiada nos braços e encontrou Norine. - Ela desmaiou. Venha, precisamos sair daqui depressa. Norine colou-se às costas do vampiro, a rua jazia silenciosa. Cinco minutos depois, cansado do passo lento da mortal, roubou um cavalo. Subiu agilmente tendo Collet nos braços; e antes que Norine protestasse, puxou-a para a sela em galope. Ele ouviu a turba linchadora voltar e sumiu pelas ruas rumo a sua mansão na parte nobre da cidade. Por alguns minutos, teve a mortal agarrada a sua cintura, ouvindo seus batimentos numa tortura sem fim. Já na mansão, um criado apareceu trazendo um candeeiro. Otávio passou Collet aos braços da cavalariça e desceu de um salto para tomar Norine pela cintura e colocá-la no chão. Pequena, leve como uma boneca de porcelana, ela só tinha olhos para a irmã desacordada. - Monsieur, melhor que fiquemos nos estábulos. Temo trazer problemas - ela olhava o criado com desconfiança. - São minhas hóspedes e duvido que alguém ouse cruzar meus portões.

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Norine hesitava. O luxo da casa a atemorizava, mas precisava ficar ao lado de sua irmã e desse modo seguiu o vampiro. Ele subiu as escadas dando ordens aos criados, enquanto molhava os corredores. Parou diante de um dos quartos vazios da casa. O criado abriu a porta e imediatamente acendeu as velas e o fogo. Depositou Collet no leito e viu Norine esfregar suas mãos, tentava despertá-la. Margot, a governanta, deu ordens para melhor contornar a situação. - Margot, ajude-as com tudo de que precisarem. - Monsieur? Muito obrigado, que São Miguel o proteja. Ele parou no meio do corredor e se viu abraçado. Manteve os braços abertos, mas o carinho o venceu e ele a tocou. Tonto com sua súbita explosão de sentimentos, esperou que retornasse ao quarto, apreciando cada movimento. Ouvia Margot perguntar seu nome, sugerir que tirasse as roupas molhadas para tomar um banho quente. Ele foi para seus aposentos e fez o mesmo, ficou algum tempo na banheira ouvindo o coração de suas hóspedes. Vestiu-se e foi falar com a governanta. Elas estavam bem, só fracas e amedrontadas com sua bondade. O quarto estava morno quando Otávio entrou. Elas estavam adormecidas no leito fofo, uma de frente para outra. Faziam um jogo de ilusão possível somente para gêmeos. Eram idênticas em traços, face e beleza. O olhar era cor de mel e até o desenho dos lábios se espelhava. Contevese ao máximo para não roçar os lábios em suas faces aveludadas. Afastou-se sentindo a fome despertar, o controle por um fio. - Podemos partir amanhã - Norine falou corajosamente. Estavam na sala de leitura e divertiam Otávio, que as olhava encantado. Ele acreditava estar diante de duas bonecas vivas. Margot providenciou vestidos idênticos de veludo, mas tomou o cuidado de diferenciá-las pela cor. Norine vestia negro e Collet azul, com camisas de algodão bordado e tocas. Collet trazia a força de seu sangue nas veias. Adquirira um brilho fascinante nos olhos, a face mostrava a fome contida pela força mortal que ainda guiava seus passos. Estavam agradecidas, mas prontas para partir. Temiam algo e não queriam trazer problemas. - Sim, podem, mas antes quero propor um negócio para as duas. Tenho uma propriedade ao norte de Paris, em Chantilly, um pequeno château. Ele está sob a supervisão do caseiro e seu filho, que mantém a casa fechada. Paris não oferece segurança para nenhuma das duas - sugeria com sutileza temendo assustá-las. Trocaram olhares, apertos de dedos e conversaram baixinho antes de aceitar a proposta. Norine e Collet partiram na mesma semana rumo a Chantilly acompanhadas de um criado de confiança que as apresentaria ao caseiro como administradoras da propriedade. Ambas sabiam ler, escrever e calcular. Saíram-se bem administrando a propriedade. O pequeno pedaço de terra a dois quilômetros de Coucher du Soleil era propriedade de Ariel, e era utilizado por Otávio quando queria se isolar sem ter que abandonar Chantilly. Com o passar do tempo ele começou a receber cartas de ambas falando das melhorias na propriedade, como viviam, os lucros obtidos com a venda do leite e dos legumes que produziam. Sem que soubessem, Otávio passou o château para o nome das duas.

- Eram realmente bruxas? - Jan Kmam perguntou curioso. - Sim. Norine jamais teve o dom da visão, mas era boa com ervas e poções, fazia coisas se moverem se estivesse com raiva ou nervosa, e havia bem mais poder oculto nelas. Collet lia a mente dos que se aproximavam, podia influenciar os mais fracos. Antes de sua partida Norine me contou sua história. Ainda bebês foram deixadas à porta de um orfanato onde ficaram até os dez anos de idade. Collet sempre soube de seus dons e os ocultava de todos. Foram tiradas do orfanato por uma senhora chamada Flaubert. A vida de uma criada não é fácil, mas era melhor do que viver no orfanato ou na rua. Os dons de Collet não tardaram a despertar, mas Flaubert não as denunciou, simplesmente colocou as duas para fora de sua casa temendo ser chamada de bruxa também. Serem gêmeas idênticas parecia fortalecer a crença de que eram realmente obras Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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de satã. Passaram fome, frio, viviam na rua se escondendo, e quando Collet adoeceu, Norine procurou a casa de madame Suzanne, um prostíbulo. Elas foram vendidas, obrigadas a se prostituírem e fugiram na acusação seguinte de bruxaria. Foi aí que eu surgi como um salvador disse, vendo Jan sorrir.

Otávio sempre encontrava o jardim repleto de rosas e flores, a casa limpa cheirando a pão e ervas. Estavam saudáveis, felizes e seguras, coradas como amoras. Ficava encantado observando os lábios de ambas. Norine administrava gastos e lucros. Collet havia virado sua amiga, afinal conhecia sua natureza, e revelou estar enamorada de Antoine, filho do caseiro. Norine o olhava com timidez, era muito reservada. Otávio visitou-as quatro vezes durante um intervalo de dois anos e em uma dessas ocasiões viu Collet se casar. Norine sempre rondava seus sonhos, o vampiro guardava aquele abraço tão espontâneo como uma jóia rara. Chegou ao anoitecer. Vinha do château Du Soleil onde se hospedava para desfrutar da companhia das bruxas e encontrou Norine próxima ao portão, olhando a noite, ouvindo os insetos. Tinha um xale sobre os ombros e estava encantadora como de costume. Ao vê-lo chegar, abriu o portão convidando-o a entrar. Ele recusou com a desculpa de uma caminhada pelo jardim. Conversaram sobre coisas de sua rotina, a vida feliz que levava ao lado da irmã e seu cunhado. Agradeceu pelos livros que recebeu, afinal tinha pouco o que fazer nas horas livres além de bordar e cozinhar. - E está feliz, Norine? - Sim, e tudo isso é graças à generosidade do seu coração nobre e puro. Otávio afastou-se um tanto abruptamente. O coração pulou no peito aflito e confuso. - Disse algo errado, Monsieur? - Nada fiz sem interesse. Todos ganharam com a vinda de vocês para cá. - Salvou-nos naquele beco. - Queimar pessoas é fácil, entendê-las é que é difícil. - E um homem especial. Saiba que ver Collet feliz enche meus dias de paz. Em muitos momentos imaginei perdê-la para a loucura. Sou muito grata – ela fitou sua face por um momento, fascinada. Otávio admirou seus lábios entreabertos, o rosto coberto de sardas, o nariz empinado, o perfume de alfazema que emanava do corpo sob a seda do vestido. O beijo foi sôfrego e úmido, ela o esperava. Não havia repúdio ou fuga. Libertou seus lábios e a puxou para que sentassem no banco de madeira debaixo do caramanchão, ali estariam protegidos de olhares. Beijavam-se apaixonados, e Norine gemeu como se precisasse falar algo. O pescoço estava à mercê dos lábios do vampiro. Ele afastou a renda com os dedos ágeis desfazendo o pequeno laço que mantinha o recato. Encontrou uma cicatriz sobre o colo, um ferimento antigo. Norine o empurrava levemente, recuava trêmula. Seu coração parecia um pássaro a se debater nas mãos de um caçador. O vampiro sugava a carne saboreando a pele e quando o soluço chegou aos seus ouvidos ela tentou correr para a casa, mas foi contida pelo pulso. Norine tinha o olhar baixo, os olhos úmidos pelas lágrimas. - Acalme-se, não a machucarei, prometo. Por que foge quando sabe que seu sentimento é correspondido? Eu sou uma criatura perigosa diante do desejo, da visão de sua beleza - dizendo isso, mostrou-se como vampiro. Viu o terror em sua face e prosseguiu. - Esqueça esta noite, esqueça meus beijos. Não merece meu amor como destino. Mas deixe que me despeça, minha querida. Norine desmaiou em seus braços. Ele a levou para casa e assim que a colocou sobre o leito fez um pedido a Collet. - Conte a ela, minha amiga, não a deixe na ignorância.

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Otávio deixou Chantilly com a certeza de que Collet contaria a verdade. Norine certamente agora o considerava um monstro, mas era o melhor a ser feito. Durante seis meses não houve as costumeiras cartas, somente o silêncio. Ele resolveu se manter distante, evitava sofrer e se decepcionar. Certa noite entrou em casa e ouviu seu coração, pensou em fugir. O criado a anunciou na sala de visitas. Estava pálida demais para a vida que levava no campo. Assim que ela falou, ele percebeu sua frágil saúde. - Monsieur. - Algo errado no château? - Não, monsieur, tudo está na mais perfeita ordem. - Então o que faz em Paris? Acredita que dois anos são suficientes para que seus antigos inimigos e ex-amantes a tenham esquecido? Ele foi cortante, queria magoá-la e conseguiu. Uma onda de rubor cobriu sua face delicada, os olhos claros se encheram de lágrimas. Por fim, falou como se não houvesse ouvido sua descortesia. Trouxe-lhe os lucros da propriedade. Achamos mais seguro que guarde em seu poder. *** Sem perceber, ela fez os objetos sobre a mesinha próxima a Otávio tremerem. Estava nervosa, era comum acontecer nesse estado. Fechou os olhos por um segundo e tudo parou. Otávio nada comentou, sabia o quanto aquilo a afligia. - Recentemente escrevi a Collet e informei que os lucros deveriam ser revertidos para a propriedade. Algo que evitaria prestação de contas e contato. Teria tratado com mademoiselle pessoalmente, mas como deixou de me escrever, devo crer que passou a administração da terra para Collet. - Continuo a administrar a propriedade, mas estive adoentada, e também era o momento de fazermos um balanço dos lucros. Afinal, deve ganhar com a produção. - Acredite, minha fortuna não sofrerá alteração alguma. Leve de volta. Compre sementes e animais, faça o que achar melhor. Guarde, gaste, pouco me importa. O que não me agrada é constatar que se arriscou a um assalto somente para me trazer míseras cinqüenta coroas! Sua vida vale mais que isso, mademoiselle. Por que veio de fato? Não me ofenda com mentiras infantis. Eu suponho que após ouvir as revelações de Collet tenha pouco ou nenhum respeito por minha pessoa. - Nada mudou. Durante todos estes meses lutei com Collet pela verdade e a descobri somente há poucos dias. Ela hesitou bastante. O que ela disse em nada alterou minha opinião a seu respeito. Suas revelações não me fizeram desacreditar de sua bondade. É para mim como um anjo. - Afaste-se, pois não possuo nada de angelical em minha natureza. Não se engane. - Mesmo sem conhecer a verdade, podia sentir a força em seu olhar, um brilho magnífico que nem toda a escuridão da noite poderia apagar. Otávio sabia que precisava mostrar-lhe a verdade. Apertou-a entre os braços e buscou sua garganta. Ela emitiu um grito fraco e se debateu. As presas arranharam a pele macia. Antes que pudesse se conter, Otávio sentiu o gosto de seu sangue invadir miseravelmente sua boca. - É dessa forma que possuo os que amo. É desse modo que a terei, Norine. Ele a soltou num gesto brusco, procurando controlar o vampiro. Arrependida da fuga, Norine estendeu a mão para tocar seu ombro. Temia, mas o desejava ardentemente. Tinha o rosto banhado pelas lágrimas e o abraçou com força. - Saia! Vá embora agora! Permanecer aqui é sentença. Terá de aceitar meu desejo e tudo que ele pode causar. - Será que não compreende... Já fui tocada desse modo. Pertencíamos a um vampiro.

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O verdadeiro motivo da fuga da casa de madame Suzanne era um vampiro. Na noite em que foram vendidas como uma grande atração, havia muitos homens ricos e todos deram lances, mas ninguém conseguiu cobrir a fortuna oferecida por um estranho no fundo do salão. Ele comprou o direito à exclusividade. Madame Suzanne mantinha as irmãs sempre vigiadas. Elas recebiam alimento e roupas caras, mas eram prisioneiras. O vampiro as visitou várias vezes antes de tocá-las. Vinha sempre ao anoitecer, sozinho, e as observava por horas. Norine tentava chamar sua atenção, mas ele só tinha olhos para Collet e seu estranho dom. Gostava de lhe fazer perguntas, chegou mesmo a dar a ela um jogo de taro, mas sempre que tentava tocá-la Collet desmaiava. Cansado e faminto, atacou Norine. Sempre deixava grandes somas de dinheiro nas mãos de Suzanne para que protegesse suas gêmeas. Como a cada dia o ódio de Norine aumentava, elas resolveram fugir. - Como pode me desejar se farei o mesmo? - Porque o amo, Otávio. Sei que é diferente dele. Não me rejeite. Eu tenho medo de que ele nos encontre. - Acalme seu coração. Ele não vai mais encontrá-la, vou lhe dar um presente. Otávio furou o dedo e o estendeu aos lábios de Norine. Ela provou de seu sangue e selou o pacto de amor com um beijo. Não havia vestígios do vampiro que as tocou, o que as libertava de qualquer laço com ele. Sendo assim, Norine ficou em Paris, escreveu a Collet e contou as novidades. Collet não deixou sua opinião definida, mas desejou felicidades, e durante dois anos Otávio foi feliz. Ariel retornou de Portugal após uma longa estada, mas antes que Otávio pudesse revê-lo, Togo o procurou para ter uma conversa séria. - Não o chamei aqui para falar de Graco, e sim do rei. Por convivermos diretamente com ele, eu e os Zeladores notamos os sintomas. Zoser acredita que o contato prolongado com os Anciões de algum modo torne o rei mais violento. Otávio ouviu o relato dos episódios causados pelas alterações de humor do rei e concordou que Ariel estava com problemas. Todo vampiro passa por períodos de extrema violência ou melancolia. Claro que isso pode ser controlado ou até evitado, mas no caso de Ariel, tudo se tornava mais perigoso devido à gama de seu poderes. - Como líder dos Pacificadores, pedi que se afastasse, mas ele é o rei. Eu consegui a companhia de mulheres que outrora o agradariam, mas foi um gesto inútil desta vez. Ele as matou rapidamente e voltou para os braços de Ordália. Isso o afeta demais. Temo pela febre do sangue. Se com qualquer vampiro já seria complicado, com Ariel Simon torna-se uma questão de prioridade. Como o controlaríamos? O mundo vampiro não pode perdê-lo. É nossa obrigação trazê-lo de volta e sua também. Afinal, não acredito que deseje usar a amostra de sangue de Afrodite. - Jamais. Eu farei o que for preciso. Pode contar comigo. O que tem em mente? - É irmão dele, deve conhecer algo que o civilize novamente. Precisa afastá-lo de Ordália. Descubra do que ele sente falta, do que precisa. Seja o que for, nós encontraremos. - Compreendo. Vou pensar em algo e avisá-los. - Contamos com sua ajuda. Togo foi embora cuidar de seus afazeres. Otávio ficou à espera de Ariel. Duas horas depois ele entrou na sala sem ver o irmão de imediato, seus sentidos pareciam entorpecidos. Tirou a capa e a jogou sobre a cadeira próxima, foi para diante do fogo. Tinha os cabelos soltos, a camisa suja de sangue, na face o ardor da agressividade. Até mesmo as lágrimas ele secou enfurecido. - Ággelos? O que andou fazendo, meu pequeno? - Caçando. - Precisa de um banho, está cheirando à morte. Otávio mandou chamar o criado para que cuidasse dele. Dentro da tina de banho, contou as novidades de Portugal onde esteve organizando os Poderes. Logo teriam uma noite de Conselho e tudo precisava estar sob suas rédeas. O criado pareceu feliz em atendê-lo, há dias não mudava Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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a roupa. Calmo e limpo, Ariel pareceu pensar novamente, decidiu convocar Togo e adiantar alguns despachos. Riam e conversavam sobre os velhos tempos. Enquanto o criado ia e vinha servindo os vampiros, ficou claro que Ariel estava sedento. Togo lançou um olhar de alerta a Otávio, realmente havia sinais da febre. Em dado momento revelou ter visto Consuelo em Lisboa, mas que preferiu evitá-la. Eles riram da piada interna perdendo o fôlego. A maioria dos vampiros fugia de Consuelo, principalmente Otávio, que num momento de fraqueza a conheceu mais do que deveria. Foi então que ele voltou suas perguntas para a vida do irmão. - Estou amando novamente. - De certo, uma mulher casada ou uma vampira comprometida. Bem ao seu gosto. Vamos, Otávio, de quem a roubou? - perguntou glacial. - De ninguém, ela não é comprometida. - Vamos, conte-me como ela é - pediu interessado e suave. - Linda, atraente, sedutora, charmosa, doce como o mel que traz nos olhar que me lança apaixonada. Uma borboleta rara. - Leve-a ao Conselho, deixe-nos pelo menos admirar sua beleza – sugeriu Ariel, com olhos cobiçosos. - Uma boa ocasião - falou Togo, feliz por ver seu rei lúcido. - Senhores, ela ainda é mortal. - Uma escrava de sangue. Ela é muito tímida? Há tempos não dividimos nada. - Ela só tem olhos para mim, Ariel - revelou calmamente sem se magoar com suas intenções, pois já haviam dividido amantes e escravas. - É uma pena, adoraria conhecê-la. Será que ela sabe que caiu nas mãos de uma ave de rapina? - Desconfio que sim. Mas logo a trarei ao nosso convívio. Norine será minha companheira de imortalidade. Falando nisso, preciso ir. Ela está só há bastante tempo, amanhã voltarei. Comporte-se, Ariel. No caminho de volta para casa, Otávio pensou em um modo de manter Ariel lúcido, suas palavras o preocupavam. O carinho que sentiu ao ver Norine deitada, fez com que decidisse torná-la vampira após o Conselho, assegurando em definitivo seus direitos de mestre. Aproveitaria a ocasião para descobrir o nome daquele que a torturara. Na noite seguinte, foi ter com Ariel, precisava cuidar dele. Durante a conversa, acabaram discutindo. Os fatos eram óbvios, mas se recusava a acreditar. Saiu para colher mais algumas informações, e nesse meio-tempo Ariel resolveu fazer uma visita a sua antiga amante. Aproximou-se somente quando ela finalizou o banho e foi sentar diante do toucador, penteava-se diante do espelho. - Eu voltei, minha borboleta. Norine, aterrorizada, tentou gritar, mas foi contida. A escova caiu de sua mão, enquanto se debatia. O grito de terror foi silenciado pela mão do vampiro. Collet muito longe sentiu a dor da mordida. Tocou a garganta e sentiu-se tonta, a respiração ofegante. Aflita e esperançosa esperou por notícias da irmã. Atarefado com a noite do Conselho, já que agora era um Lorde, Otávio não percebeu que a tristeza e indisposição de Norine tinham como causa seu passado. Durante o Conselho notou-se a ausência de Savedra e de alguns vampiros descontentes com o governo de Ariel, mas a casa estava em ordem, os Poderes equilibrados e satisfeitos. Tiveram novos inscritos no Livro e somente uma execução. Ao fim do Conselho, Ariel fez questão de ficar, dançou com algumas vampiras e parecia em melhor ânimo. Estavam na carruagem, quando pediu um favor a Otávio como seu irmão e rei. Havia boatos de uma conspiração e os vampiros ausentes estavam envolvidos. A maioria estava em Dijon, organizando um ataque. Savedra era o líder e o usurpador. As ordens eram claras, encontrar e executar todos os traidores. A única dificuldade é que não sabiam a localização exata deles, o que pedia certo tempo de observação. Precisaria ficar em Dijon o suficiente para localizá-los. Teriam a ajuda de Pacificadores, Ariel não podia Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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acompanhá-los. De imediato ele pensou em Norine, não poderia levá-la e tão pouco se negar à tarefa. Mas havia uma saída e ela foi sugerida pelo rei. Norine surgiu na sala num rico vestido de veludo. Otávio queria impressionar o rei. Ela se curvou diante dele, deixou que segurasse a mão delicada e a conduzisse até as cadeiras. Ela ficaria sob a proteção de Ariel em Chantilly, mas vivendo na casa de Collet. A rotina de Soleil não era para seus olhos mortais. Ariel foi gentil e educado, mas Norine ficou intimidada e parecia temê-lo. Quando Otávio partiu, ela chorou aflita. Otávio continuava a afastar a verdade de seus olhos e ouvidos. Tinha certeza de que encontraria Norine bem cuidada em seu retorno. Vasculharam a cidade, acharam alguns dos traidores e os mataram. Somente dois fugiram. Savedra parecia não estar ligado a nenhum deles. Quando a cidade ficou limpa, Otávio partiu, ficara dois meses fora. Deixou uma carta para Togo. Nela, pedia que ele passasse o resultado da empreitada diretamente ao rei no Chateur Soleil, pois ia encontrar sua amada. Comprou um cavalo e chegou à casa de Collet antes das dez horas. Estava cansado e sujo por dormir enterrado no campo. Collet o recebeu metida em sua camisola. Abraçou-o feliz, quase chorosa e muito surpresa. - Tivemos uns contratempos, mas estou de volta. Onde está Norine? - Em Soleil. Seu irmão veio buscá-la há algumas noites. Convenceu-nos de que estaria mais segura com ele. Parece que um dos inimigos escapou - sabia o suficiente para estar preocupada. - Está tudo bem, Collet. Ariel a protegeria com a própria vida. Preciso ir agora, volte a dormir murmurou amável. Otávio foi recebido pelo criado, que pegou a capa e o chapéu e indicou a sala de música. Enquanto caminhava pelo corredor, ouvia o violino de Ariel, o instrumento havia se tornado sua nova paixão. Comprou-o das mãos de um artesão alemão residente na Franca, Gaspar Tieffebbrucker. A primeira visão de Norine depois de dois meses de afastamento foi única. Ela vestia um traje negro de veludo, bordado em ouro, de decote quadrado. Tinha os dedos delicados ornados com anéis de pedras, e um cristal verde facetado pendia na corrente em seu pescoço. A luz dos candelabros a rodeavam, o bordado estava esquecido sobre o vestido, tinha os olhos fechados, absorvia a música. Otávio entrou silenciosamente sabendo que somente Ariel sentiria sua presença. Ele se colocou aos pés de Norine. Um tremor suave percorreu seu corpo, preso pelo espartilho. Sorriu e abriu os olhos já segurando seu rosto. Ele viu a surpresa dentro de seus olhos, o modo tímido com que retribuiu seu beijo. Estava enrubescida, provavelmente envergonhada com a presença de Ariel. - Desculpe-me o arroubo, minha querida. É a saudade - disse ele, beijando-a novamente sem lhe dar chance de falar. - Contenha-se, Otávio. Não percebe que a envergonha? - Ariel o censurou, fazendo-o se afastar de Norine com as próprias mãos. Otávio riu timidamente dos modos de Ariel e de sua vergonha diante da mortal, que os olhava com certa repreensão. Estava feliz demais para se aborrecer, mesmo quando Ariel pediu que Norine saísse deixando-os a sós. Otávio recolheu o bordado que Norine deixara cair e cheirou o tecido sentindo o perfume que impregnava a peça. Parecia mais forte, puxado ao alecrim. Ela costumava usar mais lavanda. Diante da impaciência de Ariel, começou a relatar as novidades. Ele fez poucas perguntas, estava feliz como o resultado da campanha, mais certo de que o trabalho ainda não havia chegado ao fim. - Savedra não vai desistir facilmente. Conseguirá outro esconderijo para continuar seus planos. - Sim, mas por enquanto está sem aliados, foram todos executados. - Espero que não tenha ficado surpreso com minha decisão de trazer Norine para Soleil - disse Ariel, mudando o rumo da conversa subitamente, - Agradeço a preocupação. - Na verdade, não sei por que deixou tão preciosa criatura naquela casinha, e não em Soleil sob minha proteção. Foi ciúme, Otávio? - Não queria passar mais uma responsabilidade para alguém tão ocupado. - A presença dela me tem feito muito bem. Duvido que existam duas criatura iguais. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Na verdade, ela se chama Collet. Infelizmente se entregou ao matrimônio. - Eu a conheci, são idênticas. Você deu seu sangue a ambas. - Foi um acidente. - Não me importam as causas, fez o que achou necessário. Um dos Pacificadores alertou-me sobre um vulto rondando a propriedade. Acreditei ser o antigo amante - o comentário trouxe receio ao coração apaixonado de Otávio. - Diga-me, Norine jamais revelou o nome dele? - Jamais. O assunto a deixa muito constrangida. Todas as vezes que tentei descobrir, ela mergulhou em extrema tristeza. As lembranças são dolorosas. Provavelmente o vampiro a mataria quando se cansasse de possuí-la. Pode sentir a presença de alguém? - Não, ele não deixou nenhum vestígio. - Pouco importa. Eu o matarei caso tente exigir direitos sobre ela. Mas acredito que não ousará tocá-la, já que agora me pertence. Deram-se bem? – quis saber fitando Ariel guardar o violino. - Sim, mademoiselle é muito educada e amável. Tornou-se uma companhia agradabilíssima. Canta divinamente e dança melhor ainda. Obviamente, teve o melhor dos mestres - disse sorrindo para o irmão orgulhoso. - Fico feliz. Se me permite, vou me recolher. - Boa noite, Otávio. Otávio seguiu pelos corredores e encontrou Norine na câmara que geralmente ocupava em Soleil, esperava-o vestida somente no camisolão de dormir. Tomou-a nos braços e a ouviu gargalhar feliz, bem diferente da timidez de minutos atrás. Ela tinha sobre ele um poder desconhecido, acalmava-o com sua voz doce como se fosse um feitiço. Quando finalmente saciaram parte da saúda de, ficaram abraçados no leito. Ele a ouviu choramingar e uma lágrima rolou pela face alva, enquanto revelava ter tido um pesadelo. A convite de Ariel, ficaram em Soleil, ele não aceitou negativa. A presença da mortal parecia civilizá-lo e até mesmo Togo pediu que ficassem. Norine odiou a idéia, queria voltar para Paris, mas se deixou convencer. Em contrapartida, tornou-se esquiva e nervosa como jamais tinha sido. Chegou mesmo a evitar Otávio. A princípio ele aceitou, mas a situação se prolongou por quase dois meses, algo que o deixou extremamente aborrecido. Ariel aconselhou-lhe paciência, afinal era muito jovem. Talvez a presença de vampiros em número maior a intimidasse. Certa noite, Otávio foi despertado por Ariel, estava em alerta, Norine havia sumido. Pegou o cavalo e foi à casa de Collet. Encontrou-as no quarto chorando. - Norine? Collet sorriu ainda com o rosto úmido e saiu do quarto. Norine jogou-se nos braços de Otávio e o beijou longamente. - Collet achou que estivesse grávida, mas estava enganada. Sinto sua falta. - Não é o que demonstra. Sempre que a toco me repudia. Gostaria de ter um filho, era por isso que chorava também? - quis saber, amargo. - Não. Ter você já me basta - murmurou e emendou com um beijo. - Pare, pois não conseguirei me conter caso mude de idéia. Norine afastou-se, deixando Otávio frustrado mais uma vez. No entanto, ele a viu trancar a porta e novamente buscar seus braços. Apertou seu corpo e puxou os laços do vestido com força. A mão avançou sob a saia tocando a roupa íntima, nada reveladora. Norine gemeu e deixou a cabeça pousar sobre seu ombro, rendendo-se, enfim, às suas carícias. Otávio deixou o corpo cobrir o da amante e a mordeu no pescoço. Quando seus olhares se encontraram, ela jurou amor eterno, para logo depois mudar de atitude, tremer nervosa e sair do leito arrumando o vestido com uma expressão grave na face, como se o ato a houvesse envergonhado. Saiu do quarto afirmando que precisava falar com Collet. Na saída, Otávio a notou distante e fria outra vez. Ariel os esperava em Soleil e a repreendeu duramente. - Espero que tal comportamento não se repita. Não temos tempo para suas fugas infantis. Não se arrisque demais, mademoiselle.

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Otávio não pôde defendê-la, havia se comportado de modo irresponsável. Norine subiu as escadas correndo e soluçando. Recolheu-se no quarto e não permitiu a entrada do amante. Furioso, Otávio afastou-se acreditando ser o melhor para os dois. Nos dias que se seguiram, encontrou-a chorando copiosamente. Parecia não dormir nem se alimentar de modo adequado. - Mademoiselle está fraca - assegurou Ariel, após ouvir seu coração. Estava ao seu lado no leito, examinando-a. Temia que ela estivesse grávida como Fabíola. Otávio aborreceu-se com suas dúvidas quanto à fidelidade de Norine. Ouviu seu coração, a respiração. Tocou sua testa e pouco depois a garganta. O amante andava preocupado de um lado a outro, ela evitava enfrentar seu olhar de raiva. Distante, brincava com a corrente sobre o vestido, apertando o cristal verde entre os dedos. Quando Ariel fez menção de desatar os cordões do espartilho, ela recuou sobre os travesseiros. - Está muito apertado. Deve usá-lo mais livremente ou pode desmaiar outra vez. - Norine, o que disse sobre esse maldito espartilho? Ele a deixa roxa – Otávio reclamou, puxando os cordões com raiva. - Ela precisa tomar sol e se alimentar melhor, dormir mais - Ariel aconselhou, puxando Otávio para um canto reservado. - Pretende adoecê-la? Afaste-se dela. Norine passou a ser acompanhada por uma criada. Recobrou a cor e a vitalidade e parecia menos ansiosa. Ficar desperta durante toda a noite não lhe fazia bem. Antes das onze era levada para o leito para que dormisse. Otávio evitou tocá-la como sugerido por Ariel. Assim que melhorasse poderia lhe dar a imortalidade. Os Lordes estavam reunidos e Otávio precisava comparecer, seguiu viagem e em três dias estava de volta. Faltava somente duas horas para o amanhecer quando ele entrou em Soleil. Os criados haviam se recolhido e os Sentinelas assumiram a vigilância. Tinha em mãos diversos envelopes endereçados a Ariel, eram de suma importância. Estava com saudade de Norine, mas ela certamente dormia, não iria perturbá-la, não agora que havia se restabelecido completamente. Ele passou pelo Pacificador que ficava dentro da primeira câmara. Dali em diante, mais dois protegiam o corredor e a câmara real. A única luz vinha de um candelabro no canto da sala, as velas estavam prestes a se extinguir. Otávio estancou junto com as batidas de seu coração. Oculto pela densa cortina de veludo, ele os viu. A princípio acreditou que Ariel havia finalmente conseguido companhia. A mulher estava vestida somente em sua camisola de dormir, os cabelos longos estavam soltos, estava descalça sobre o tapete rico. Ele ainda permanecia sentado observando-a. Soltou o cálice sobre a mesa egípcia e a rodeou como um tigre faz com sua presa. Desatou as fitas da camisola e a empurrou. Sua nudez surgiu como uma vela na escuridão da câmara. O cabelo cobriu os ombros e parte dos seios. O silêncio era tanto que se podia ouvir o crepitar da madeira na lareira. Ariel trajava somente seu roupão oriental negro. Tinha nas mãos uma rosa de talo longo. As pétalas macias acariciavam o pescoço, o colo e os seios. Norine moveu-se e Otávio finalmente contemplou a face apaixonada da mortal. Ariel a trouxe para si, livrou-se do roupão e seus corpos nus se encontraram. Ela murmurou seu nome arquejante ao ser possuída sobre o tapete. Perdidos no mundo que envolve os amantes, não viram a brisa sacudir as cortinas. O Pacificador o olhou com espanto, afinal o dia vinha ligeiro. Sentindo as lágrimas deslizarem por sua face, Otávio recostou-se na parede e só então percebeu que sentia dor no peito, o coração batia aflito. As nuvens tinham a cor de ouro. O sol nasceria detrás das nuvens e silenciaria seu pranto. Togo o puxou para debaixo de sua capa e o levou para dentro dos corredores até sua câmara. Suas roupas esfumaçavam, em pouco tempo teria virado uma tocha. Em um silêncio quase religioso, Togo trancou a porta e guardou a chave consigo, temia mais um gesto suicida. A dor transbordava em soluços. Cobriu a face envergonhada e chorou. Togo segurou seu ombro tentando passar um pouco de paz e compreensão. Estava sentando em uma das cadeiras sem força para se manter de pé. Ele não sabia o porquê de tanta dor, já que os irmãos costumavam dividir amantes e vítimas. Na verdade, o que pesava era não poder possuí-la completamente como Ariel. Em seus braços, Norine poderia ter o melhor dos dois mundos. Togo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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certamente conhecia as aventuras de seu rei, mas o que poderia fazer além de manter sigilo? O fato é que Ariel o traía ao possuí-la sem seu consentimento. - Minha borboleta - a palavra escapou. - Por que a chamam assim? O rei também a chama do mesmo modo – esclareceu Togo, abrindo o casaco para ir dormir. - Uma prostituta sempre escolhe um nome para que seus amantes a chamem nas horas onde somente os sentidos imperam. - Não deixe que a dor o cegue para a verdade. Norine nunca foi prostituta, tampouco Collet. Conheço a história que Norine lhe contou. Eu mesmo mandei despachar altas quantias para madame Suzanne. O vampiro que as comprou foi seu irmão, o rei. Ele as mantinha a distância. Ele não tem vivido dias tranqüilos, as ameaças a sua vida são constantes, Ariel sofreu muitos ataques, não queria arriscar suas escravas. - Por que ela não me contou nada? Meu próprio irmão, meu rei, meu rival!

- Lembre-se, Otávio. Acima de tudo ele é seu irmão. Algo raro ente nós, um relicário precioso de sua vida mortal. O rei poderia ter sentenciado você abaixa se assim desejasse. - Por que o faria quando me rouba a amante e pupila? - Você deu o seu sangue. Tocou e possuiu uma concubina do rei. Conhece a pena por isso. Elas lhe pertencem desde os quinze anos. - Norine me pertence. Há quanto tempo ele as possui? Fale! - Desde que retornou de viagem. Togo afastou-se, apagou as velas e preparou-se para um merecido descanso. Acompanhar Ariel, cuidar de sua proteção e ainda liderar a Ordem tomava todo seu tempo. Sua lealdade ao rei não tinha limites. Ao seu lado no leito, trazia a espada embainhada como a amante que jamais teve. Otávio não poderia sair até o anoitecer. Passou o tempo revendo os fatos em sua mente: a súbita calma de Ariel, o estado de apatia e resignação de Norine, a distância que impôs à sua pessoa, a insistência para que permanecesse no châteu. Despertou de um salto com a mão de Togo sobre seu ombro. Fitou a noite além da porta e sentiu que precisava tomar uma decisão muito difícil. - O que pretende fazer, Otávio? - Acalme seu coração, Togo. Vou partir enquanto ainda me resta algum orgulho, consciência e civilidade. - Conte comigo para o que precisar - disse ele, sincero. Encontrou Norine em seus aposentos, bordando sentada diante do fogo. Na face plácida, a vigília da agulha, a linha acompanhando o desenho, as flores surgindo num risco perfeito. Tinha perdido a inocência nos braços de Ariel e para todo o sempre diante de seus olhos. - Otávio? Quando voltou? - perguntou beijando seus lábios duros e frios. - Algo errado, meu querido? O vampiro ficou completamente sem ação, perplexo diante da calma, da falsa consideração, dos sentimentos que oferecia quando há poucas horas estivera no leito de seu irmão. Sua desatenção aos sinais que o amante exibia certamente a matariam. Sua vida pertencia-lhe desde o mísero momento que cruzara seu caminho. A sentença para todos é a morte. Estendeu a mão e tocou sua face. Interrogativa, ela suspirou e o abraçou. Quando Otávio tentou erguer sua saia, ela deteve sua mão e se afastou. - Procurei você ontem de madrugada - fez uma pausa proposital, queria ver até onde ela agüentaria. - Não a encontrei em seus aposentos. Onde estava? - Na biblioteca.

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Ele gargalhou sem se controlar. Norine sentou e tentou olhar o bordado, mas seus olhos estavam perdidos no vazio, a agulha indecisa. Acabou espetando o dedo, que levou à boca instintivamente. - Aconteceu algo em minha ausência, madame? Ele perguntou levando o dedo sangrento da amante à boca para sugá-lo. Dava-lhe a chance de confessar. - Nada que eu tenha visto. - Chame a criada para que a ajude a arrumar as malas. Vamos partir. Norine empalideceu, foi visível. Logo surgiu a preocupação, o pesar. Afastar-se de Ariel custaria mais do que estava disposta a pagar. Notar tais sentimentos enfureceu Otávio mais do que ela pôde perceber. Trêmula, ficou de costas e escondeu uma lágrima. - Na verdade gostaria de ficar mais alguns meses. Collet não anda muito bem de saúde. Além disso, a vida no campo nos traz tantas alegrias e prazeres. - Imagino quanto prazer tem obtido nestes últimos meses em companhia de Ariel. - O rei tem sido muito atencioso conosco. É um homem de grande inteligência e sensibilidade. Aprecio sua companhia, é realmente muito amável. Foi a gota d'água, a bofetada a pegou duramente. Seu grito de dor trouxe arrependimento, mas era tarde para conter a fúria. Perguntava-se como conseguia fingir que nada estava acontecendo. Ela soluçou confusa, tocou o lábio sujo de sangue com a mão trêmula. Ainda assimilava tamanha brutalidade. A doçura dos olhos desaparecera, estavam escurecidos pela revolta e vergonha. - Como ousa elogiar seu amante na minha presença? - ele berrou. – Acredita que não tenho sentimentos por estar morto? De que fibra acha que fui feito? Norine não ousou enfrentar sua ira. Num gesto de desespero, buscou a saída para procurar a proteção do amante. Otávio a segurou e a fez gritar de aflição. - Como ousa trair um imortal, acha que terei piedade? Vagabunda dissimulada! O amor que lhe ofereci era parte de algo que há muito havia morrido dentro de mim. Era o meu melhor e não bastou! Eu a tirei da sarjeta e a protegi como se fosse a mais pura das donzelas, e para quê? Para que sucumbisse aos desejos do rei! - berrava ofendido. Ele a jogou no chão com um empurrão feroz. Norine tocava a garganta ferida, tossia e murmurava inocência, mas em nenhum momento se defendeu. Simplesmente suplicava perdão e piedade. Os objetos do quarto tremiam, Otávio olhou à volta e sabia que era ela que provocava tal reação. O medo a fazia liberar seus poderes. Por fim alguns se partiram lançando cacos pelo chão. - Bruxa maldita! O que faltou para que me fosse fiel? Meu amor, meu sangue, a promessa de imortalidade não lhe bastaram. - Eu não fiz nada, por favor, me deixe explicar. Só tive medo. - Ele a obrigou ou ameaçou? - Ele é o rei. O seu rei. - Sim, de certo, mas eu sou seu amante. Vou refrescar sua memória – dizendo isso, puxou seu vestido fazendo-o em tiras, ouvindo-a gritar. Cego de ódio, só desejava calar seus pedidos de socorro. Ao ouvi-la chamar Ariel, soube que a mataria. Havia despertado uma fera antiga, e seria com grande custo que a acalmaria. Encurralada junto à porta, tentou se defender com o chicote de montaria. Otávio o tomou de suas mãos e a surrou. Norine escorregou ao chão com o camisolão avermelhado de sangue. A pele delicada estava ferida. Ariel chutou a porta e entrou no quarto, sendo interceptado por Otávio. - Não ouse tocar novamente no que me pertence. Por que invade meus aposentos, majestade? Estou ocupado, como pode ver - disse Otávio, cheio de ironia. A essa altura, Norine havia desmaiado. Togo aproximou-se e levou Norine para o leito. Examinou-a com cuidado debaixo do olhar de censura de Otávio. - Como ela está, Togo? - quis saber Ariel, enfrentando o olhar assassino do irmão. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Desacordada, nada mais. - Deve nos deixar agora, esta conversa será particular. - Como membro da casa dos Lordes, peço que fique. O que será discutido exige testemunhas replicou Otávio. - Protocolo a essa altura torna-se perigoso, Otávio. Mas se assim deseja, assim será. Togo permaneceu na sala. Sabia que logo teria de agir segundo seu cargo para intervir na disputa. - Explique seu comportamento - o rei exigiu. - Puni minha amante. Indisciplinada, mentirosa e traidora. Sinto se ela gritou e eu o perturbei. Ela ousou chamá-lo em sua defesa. É uma insolente! Da próxima vez usarei uma mordaça. - Não aprovo tal comportamento de nenhum vampiro inscrito no Livro. Já puni vários por isso e o puniria também, sem hesitar. - Eu a peguei me traindo. Acho que é motivo suficiente. - Do mesmo modo que traiu Cortez, deitando-se com Consuelo sem o seu consentimento? Pior! Fazendo dela sua confidente expondo a mim e nosso passado? O passado voltava e condenava os atos de Otávio. Nunca fugiria de sua união proibida com Consuelo, do fato de ter revelado segredos e ter agido de forma violenta, indo parar nas garras dos Poderes para ser punido. Ariel jogava pesado, ciente de que nenhum deles estava isento de crimes. O maior erro de Otávio foi revelar a Consuelo num momento de fraqueza a existência de Graco e sua natureza de meio-vampiro. Ariel jamais o perdoou. - Consuelo era vampira e passava dos cem anos de existência. Eu paguei por meus deslizes diante dos Poderes. O crime não mais pesa sobre minha cabeça, majestade. - Então, conhece seu rival? - E vossa majestade, não? - Quer uma confissão, Otávio? Afinal, sabe que ela me pertence. - Como vossa majestade explica tal comportamento se ela possui meu sangue? - Se é assim, tocou minha concubina. Terei de puni-lo por sua ousadia. - Quero provas. Norine havia despertado e estava sentada no leito, amedrontada. Togo a trouxe para perto dos irmãos. De tão trêmula, precisou se apoiar no vampiro. - Norine, onde está o presente que lhe dei? - perguntou Ariel. Norine puxou a corrente da qual pendia o cristal verde. - Qual destes dois vampiros primeiro provou de seu sangue e a tomou como amante? - Togo foi direto à pergunta que interessava. - O rei - dizendo isso, olhou Otávio e viu seu desprezo por ela. - Há quanto tempo foi isso? - Três anos. Ele nos comprou na casa de madame Suzanne. - Por que nunca me disse a verdade, Norine? - Jamais imaginei que ele fosse voltar. Nós fugimos, você nos salvou. Achei que Ariel era parte do passado - ela se calou. Ariel Simon demonstrava extremo aborrecimento e surpresa. Suas lágrimas o humilhavam, estava ofendido com sua demonstração de amor. - Otávio, eu não amo o rei. Jamais amei! - Chega! - o rei rugiu furioso. Togo a segurou impedindo um desastre. A pedido de Togo, Ariel e Otávio voltaram a sentar, adiando o confronto. - Nós dois a possuímos, mas ela me pertence, Otávio. Norine baixou a cabeça envergonhada. A mortal não tinha fibra para suportar as leis do mundo vampiro. - Achou divertido me trair? - quis saber magoado.

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- Nem um pouco. Custou-me muito dividir a mulher que amo com meu irmão. Ponha-se no meu lugar. Tive que ficar em silêncio, suportar que a beijasse e que a tirasse de minha presença para possuí-la! - Agora compreendo a estranha fadiga de Norine. Por isso se negava a meus desejos. - Quantas vítimas dividimos sem que isso gerasse conflito entre nós? - Muitas, é verdade. O fato é que das vezes anteriores houve permissão e o desejo de todos, até mesmo do mortal envolvido. Você queria tudo para si, ou teria me revelado a verdade quando teve chance. - Tudo isso é porque não pedi sua permissão? Como e por que faria, quando ela sempre me pertenceu? Ah! Imagino, acreditou que a salvava de um monstro! Como fez com todas as outras mulheres casadas que roubou de seus maridos. - Sempre fui sincero, e o que me dá em troca? Mentiras! - Sua racionalidade é impressionante, principalmente depois de surrar a mulher que ama. Aprendeu bem com Consuelo. - Ainda somos vampiros. Por que não agimos como tal e resolvemos isso? Estarei a sua espera no salão de armas. - Adorarei ficar em sua companhia - Ariel assegurou. - Não façam isso - suplicou Norine. - Acalme-se. Certamente um de nós ficara vivo. Nesse jogo, minha borboleta, você não sairá perdendo. No salão de armas de Coucher du Soleil, Otávio escolheu uma boa espada. Ariel entrou pouco depois livre do casaco, pronto para defender seus direitos de primeiro amante. Em sua face nenhum traço de hesitação, somente ressentimento, o olhar gelado e cortante. Togo vinha logo atrás puxando Norine pelo braço. Ela continuava com o camisolão, descalça, atordoada com tudo que acontecia. O círculo foi traçado por dois Pacificadores que serviriam de testemunha. Norine questionou Togo, mas sua resposta não trouxe paz, somente mais desespero. - Ariel, Otávio. Peço que reconsiderem seus atos e não lutem. Isso é uma grande tolice, são irmãos - pediu Togo com sinceridade. - Coloque-a no círculo - ordenou Ariel. Norine protestou, mas foi ameaçada e arrastada por Togo. Aflita, esperou pelos acontecimentos dentro do limite rabiscado no chão. - Majestade, Lorde Otávio, ainda desejam manter o combate? Diante da Ordem nada será registrado, mas se este combate tiver início, só terá fim com a morte de um dos oponentes. O combate será encerrado em caso de pedidos de clemência ou caso a espada de um dos dois caia ao chão. Se isso acontecer, a vitória é dada ao que permanecer de espada em punho. Senhores? - A luta permanece. Otávio e Ariel responderam juntos, seus olhares se enfrentavam. - Que assim seja. Em guarda - falou Togo, afastando-se. Houve silêncio e o primeiro golpe veio da parte do rei. A luta teve início com bastante violência. Norine gritou nervosa. Nada falavam, apenas combatiam. Ariel não lutava com a espada real e isso enfureceu Otávio. Lutava como membro do Conselho e não como rei. Moviam-se com grande agilidade e leveza. Num recuo estabanado, Otávio caiu e teve o ombro ferido, o sangue manchou sua camisa branca. Ariel recuou puxando a espada. Enfurecido, Otávio avançou e feriu o braço do rei. A tensão aumentou na face de Togo, as poucas testemunhas da luta os observavam atônitas, pois conheciam os laços que os uniam. Por séculos viram somente união e companheirismo, e agora, graças a uma mortal, a guerra. Os golpes tornavam-se mais e mais violentos. Para provocar o irmão, Otávio sorriu e o empurrou sobre a mesa próxima, como quem derruba uma saca de cereais. Ele levantou dos escombros completamente raivoso e o esmurrou. Trocamos socos e empurrões até as lâminas se tocarem novamente. Usavam pouco de seus poderes na luta. O que valia era a força e não a agilidade e leveza dos espadachins. Otávio queria desarmá-lo e encerrar o combate de modo honroso. Num giro ousado e de precisão Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Nazarethe Fonseca – Alma e Sangue 2 – O Império dos Vampiros

errada, viu-se acuado na parede. O corte veio ligeiro. Ele tocou o ventre ferido e ouviu Norine gritar aflita. Sequer a viu empurrar o Pacificador para tentar fugir. Em seus olhos só havia a cor do sangue. Ela se jogou aos pés de Ariel, que se aproximava do irmão ferido, temia que cortasse sua cabeça. Norine escolheu seu novo amante, mas o que ela não sabia é que teria de pagar um preço pelo gesto de entrega. Ariel a ergueu do chão com brutalidade e cravou os caninos em seu pescoço. Foi rápido, fez isso para assegurar seus direitos. Norine gemeu e o empurrou desamparada, com o colo sujo de sangue. Tinha algo entre as mãos, o objeto brilhava em meio ao sangue que descia. Desesperado, Ariel viu as mãos de Norine fechadas sobre o cabo de um punhal provavelmente roubado do Pacificador. Ela morria lentamente, seus olhos claros buscaram Otávio, a mão trêmula tentando segurar a sua. Ariel sofria, pois percebia o fim da ilusão de amor que vivia. O ato suicida de Norine era um grito de liberdade e rejeição. Otávio a segurou nos braços e a fez sorrir. Os olhos de Ariel escureceram de desgosto. Afastou-se e andou pelo salão fitando as mãos sujas com o sangue da mortal. - Eu te amo. Sempre amarei, sinto tanto. Collet, ela... - Norine agonizava. - Salve Norine. Sabe que é o único que pode fazê-lo, ela tem seu sangue nas veias. Salve-a, é uma ordem! Otávio fitou a face da mulher que amava e enfrentou seu próprio egoísmo. - Salve-a ou eu o matarei - disse Ariel, apontando a espada. Norine tremia, entregando-se à morte. O vampiro a beijou e a trouxe para a imortalidade. Fazia isso por amor e não para obedecer Ariel em sua loucura. O sangue inundou os lábios sem cor de Norine como se tingissem uma rosa branca. O processo de transformação seguiu seu caminho inevitável. Norine voltava à vida agarrada a Otávio, os olhos dentro dos seus. Tornava-se tão bela quanto um dia ele imaginou que seria como vampira. As íris pareciam dois topázios brilhantes, a tez tomava os contornos imortais. A boca vermelha deixou entrever os caninos que a protegeriam e alimentariam. Os cabelos escorregaram maiores, brilhantes e sedosos. A ferida no ventre e as marcas do chicote desapareceram. Consciente e lúcida, jogou-se em seus braços. - Fique comigo, por favor. Otávio viu sobre o ombro delicado a expressão de Ariel que condenava duramente aquela demonstração de amor. Ele a apertou de encontrou ao peito e tentou prepará-la para o inevitável. - Termine o que começou. Não a quero dependente de sua mente. - Perdoe-me, meu amor - suplicou Otávio, entrando pela primeira e última vez em sua mente para lhe falar sem palavras. Tomou seu pulso e o cortou para unir ao seu. Só então, fitando seu olhar translúcido, abdicou de seus direitos de mestre e amante. Os laços recentes que os uniam foram desfeitos. Norine tocou o peito. Sentia em seu coração que Otávio se afastava dela para sempre. - Otávio, aonde vai? Não me deixe. - Quem imaginaria que um dia eu perderia um irmão e ganharia um rei. Majestade - falou Otávio, curvando-se numa mesura pronto para sair. Ele podia ouvir Norine gritar seu nome. Do canto da porta onde tentou se manter firme na partida, viu que ela lutava até sucumbir à inconsciência nos braços de Ariel. Otávio deixou Soleil, em Paris. Escreveu três cartas. Uma delas dando permissão a Togo para vender sua casa, pagar os criados e o restante entregar nas mãos de Norine e Collet em partes iguais. Mergulhou em meu caixão para somente despertar em Portugal.

Kmam voltou ao presente ainda confuso. As imagens reais livraram-se dos resquícios da memória de Otávio. Nunca imaginara uma relação tão conturbada entre os dois irmãos. - Se outro vampiro houvesse me contado, eu não acreditaria.

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- Todos nós cometemos erros. Como vê, os meus e os de Ariel não foram diferentes dos seus ou de qualquer outro vampiro que já passou dos cem anos – o desprendimento de Otávio era impressionante. - Sei que está cansado, Kmam, mas é importante que conheça o final desse duelo. Há informações preciosas para o seu futuro. Está pronto para mais um mergulho em minha mente? - Fala como se eu tivesse opção - respondeu, tocando novamente as têmporas do mestre e criador.

Em 1538, Otávio foi visitado por um Pacificador e uma Sentinela. Tinha deixado de se corresponder com Ariel e imediatamente pensou no pior. Ao receber a carta, reconheceu o selo da Ordem dos Pacificadores e a assinatura de Togo. Mesmo passando longe de seus temores, as notícias não eram boas. Dias depois Otávio desembarcou em Paris e se hospedou com Romano. Ouviu os Lordes e amigos próximos, e andou pela cidade oculto até se sentir pronto para visitar Ariel. Notou de imediato algumas mudanças. Havia vampiros na saleta. Dentre eles reconheceu Urmania e Aragão, amigos de Consuelo, criaturas perigosas e de gostos sanguinários. Norine estava com eles, jogava xadrez. Sequer notaram sua presença, conversavam animadamente. Ele parou diante da porta de Ariel, bateu e foi convidado a entrar. O sorriso de Togo chamou a atenção do rei, pois era algo muito raro de se ver. Otávio o abraçou, ciente do olhar de Ariel sobre sua pessoa. Reservado, ele esperou os movimentos do irmão. - Vamos, pequeno Ággelos, abrace-me. Estou com saudades. Seu rosto iluminou-se cheio de alegria ao abraçar o irmão. Toda a raiva e o rancor haviam desaparecido. Tudo que desejavam era paz. Romano também apareceu seguido de Thiago, Valdés e Isadora. Logo havia uma reunião feliz e barulhenta. Riam de uma das aventuras de Thiago. Ele a narrava de espada em punho e capa aberta. Quando a porta se abriu, Norine entrou quebrando algumas regras. Otávio não se levantou como os demais. Afinal, quem era para ser reverenciada? - Ariel, quando sairemos? O vampiro notou que ela não tinha cumprimentado os presentes em sua passagem. Seu aborrecimento era verdadeiro, assim como a empáfia que a privou de ver Otávio a certa distância, detrás de Romano. - O Livro ainda tem força no mundo vampiro? - Otávio questionou os presentes, chamando a atenção para si. Norine estancou sem saber o que fazer. Ariel os observou, paciente e mudo. De algum modo a cena o divertia. Romano e os demais sentiram o clima tenso. - O que fazem de pé? Ariel permanece sentado. Imediatamente, os vampiros sentaram um tanto envergonhados. Até mesmo Thiago, que não ocupava cadeira nenhuma com seu modo impaciente, arrumou um lugar para sentar. Norine o olhou com surpresa, mas a disfarçou num sorriso sarcástico e brincou com o cristal que ainda pendia sobre seu decote. Estava lidíssima na seda verde oliva, de cabelos presos acima da nuca. Cheirava a pó e perfume, movia-se suavemente, os dedos repletos de anéis. - Viver juntos aos portugueses não diminuiu seus bons modos, Otávio – replicou Norine, enfrentando seu olhar. - Em nosso mundo prestamos homenagem ao poder. Pelo que me concerne, é apenas a concubina do rei. Radamés deixou claro no Livro as regras que devemos seguir, e a sua presença nesta sala quebra muitas delas. Não tem idade sequer para fitar os vampiros aqui presentes. Ariel ouviu em silêncio. Sorvia o sangue em seu rico cálice e olhava Otávio com admiração. Não o censurou em suas observações. Norine o olhou indignada e permaneceu na sala.

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- Retire-se, Norine, Lorde Otávio tem razão. Radamés não aprovaria tal comportamento - falou o rei, surpreendendo a todos na sala, que se contiveram em gozo disfarçado. - Ariel, eu estou ao seu lado. A vampira lutaria até o fim para prendê-lo novamente na teia de seus desejos como uma aranha. O rei a olhou com aborrecimento, ela o envergonhava ao chamá-lo pelo nome, sem demonstrar nenhum respeito. - Saia - ensaiou um ar de enfado para disfarçar a raiva que sentia. Norine não ousou enfrentar a autoridade do rei. Ergueu a barra da saia e descontou sua raiva na porta que bateu com força. Ariel não se preocupou e voltou a falar como se nada tivesse acontecido, cobrando o fim da narrativa de Thiago. O vampiro saltou da cadeira e prosseguiu com a história, arrancando novas risadas da platéia. Quando todos saíram e os irmãos ficaram a sós, Otávio resolveu se desculpar pela vergonha. Não devia ensinar ao rei as regras que conhecia tão bem. - Não há por que se desculpar. Agiu como um Lorde. Eu é que não estou agindo como rei nos últimos tempos - brincou Ariel, um tanto preocupado agora. - Sinto que me tornei um conservador. Ser o guardião da amostra aumenta minha carga de responsabilidade. Os Lordes ajudaram-me muito, sinto-me integrado a algo maior que o tempo. - Não deveríamos ter lutado, aquilo foi uma grande burrice - disse sincero, abatido com seus modos. - Acabou, Ariel, é melhor enterrar o que já passou. - Ver Mitra morrer custou-me muito. Somos tão poderosos e não podemos deter a morte de quem amamos. Aquelas duas foram destinadas a mim, tenho certeza. Eram lindas, desejei Collet de imediato, eu a teria possuído, mas a mataria com meu toque. Norine a defendeu, veio aos meus braços, invadiu meu coração, mas certamente não me amava nem poderia. Sequer sabia quem eu era. Espero que não se ofenda com as revelações. - De jeito nenhum. Como eu disse, está tudo acabado. Sou seu irmão mais velho, estou aqui para ouvi-lo - sorriu compreensivo e brincalhão. - Não queria perdê-la e só nos magoei. Depois que partiu, Norine fugiu várias vezes e só me odiou um pouco mais. Deixou de ser a mortal assustada para se transformar na vampira fujona que possuía em meio a uma luta na qual os dois ganhavam e perdiam. Cheguei ao extremo de mantê-la ao meu lado acorrentada. Não percebi que meu desejo de satisfazê-la deu-lhe poderes. Hoje ela desfila sem cabrestos por meu mundo e eu passei a ser dominado por prazer. Duvido que saiba que a amo de verdade. - Os Poderes não aprovam que o rei revele amor a quem quer que seja. Não se arrisque aconselhou sem nenhuma censura na voz. - Esta é minha maldição, não poder expressar amor. Mas pelo menos tenho sua amizade e seu amor fraternal. Senti falta de sua face romana, agora me sinto completo. - Também senti sua falta, mas agora estamos juntos outra vez. Otávio passou a viver sob o teto do rei. A situação não o agradava, mas precisava libertar Ariel do poder de Norine. Ela usava o amor que ele sentia para conseguir tudo que desejava para si e para os aproveitadores que a rodeavam. O exemplo mais gritante era Urmania, uma vampira empobrecida, uma víbora que vivia da bondade de benfeitores como Norine. Ela dificultava a segurança do rei, algo que Otávio resolveu em três dias. Urmania despertou e encontrou suas malas prontas e uma carruagem a sua espera. Não demorou muito e a casa estava limpa e Norine contrariada. - Voltou para fazer Ariel me odiar, é um bom modo de se vingar. - Não precisa de ajuda para afastar o rei do seu leito - ele disse seco. - Eu sempre o amei, Otávio. Você sabe disso. Otávio ergueu a vista do livro e pensou em sair, afinal sua presença o incomodava, mas ela não valia o esforço. - Estranho o modo como resolveu demonstrar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Sempre temi Ariel, eu o odiava. E o que você fez? Entregou-me a ele e partiu. Otávio achou por bem se retirar. A partir daquela noite Norine passou a se negar a Ariel, fazendo-o ceder a qualquer pedido seu. Para enfraquecê-la, Otávio e Romano organizaram uma pequena festa e Ariel não demorou a encontrar os prazeres perdidos na cama de Norine. Ariel reagia, voltava a ser o rei. Fazia longas caminhadas com o irmão, freqüentava teatros públicos. Forte e consciente de seus deveres, alimentou o Livro. Ordália apareceu em pessoa diante dos olhos dos Zeladores em sinal de satisfação com a melhora. Os inimigos agiam nas sombras, mas não foram esquecidos. Durante três meses buscaram informações dentro dos núcleos vampiros sobre os passos de Savedra. Muitos não ousavam pronunciar seu nome com receio de represálias. Sua força vinha crescendo, os mais jovens o temiam e admiravam, tornavam-se vítimas de sua influência. Os mais antigos o aturavam certamente pensando em alianças. Ariel não as temia, em sua face jamais viram medo de lutar e morrer. A única coisa que o preocupava era a dama negra, um veneno feito da mistura de quase cem ervas. Conhecia sua origem, sabia que a fórmula era proibida e tinha sido roubada dos pergaminhos de Radamés. Havia boatos sobre um suposto ataque à casa do rei. O que chamou a atenção de Togo foi a participação direta de Savedra, que sempre se mantinha nos bastidores. Era uma oportunidade única de detê-lo. Como as coisas nunca são tão fáceis, ficou claro que era uma armadilha. Contudo, o grupo de Ariel sabia como agir. O ataque se daria durante a lua nova, a escuridão seria total e favoreceria sua entrada no mundo vampiro como novo rei. A lua faria Savedra ganhar os favores do Livro. Ele o alimentaria e iniciaria seu ciclo de sedução. O Livro seria movido para as catacumbas, na parte mais antiga da cidade. Pelo menos era isso que o inimigo esperava. Então Ariel sugeriu as câmaras do subsolo de Soleil. O château era perfeito, tinha ares de castelo, ponte levadiça, câmaras e passagens secretas. Togo e parte dos Pacificadores ficaram esperando os traidores na casa do rei. enquanto o resto seguiu para Chantilly em pequenos grupos para não chamar atenção. O grupo era conhecido e forte: Romano, Thiago e Valdés. Passavam o tempo jogando, lutando e fazendo apostas. Quando Isadora chegou, finalmente puderam dançar e tocar. Na última noite havia grande tensão no ar. Ariel tocou seu violino, Isadora cantou e Romano jogou com os demais. Foi quando Otávio resolveu ir até seus aposentos buscar um livro para emprestar a Isadora. Norine estava em sua câmara, ela não podia mais ficar na presença dos Lordes. Ele a sentiu assim que tocou o trinco da porta e entrou no quarto furioso pronto para expulsá-la. - Saia! - Por que não vem até aqui e faz o que seu coração deseja? - ela estava nua em seu leito. - Não sou a cura para sua doença. Fora! Ele jogou seu roupão sobre ela, já que não havia sinal de suas roupas. Abriu a porta e a convidou a sair. Norine empurrou o roupão e abraçou os travesseiros de modo sensual, a pele branca em contraste com o veludo das almofadas e cobertas. A história não iria se repetir! Foi até o leito e a puxou com rudeza da cama. - Não perca seu tempo. Conforme-se e tente não desagradar o rei ou pode não chegar aos cem anos. Ele tentava colocá-la pra fora do quarto, mas ela se grudou ao seu corpo e o beijou faminta. Tentava se libertar de seus abraços, quando Ariel e Romano entraram no quarto. Sua ausência fora notada, afinal o château estava em alerta. Otávio desvencilhou-se dela, que se fez de envergonhada correndo para o roupão. Ariel estava ferido e indignado. - Foi para isso que voltou? - Não seria capaz de tal baixeza, Ariel. - A história repete-se com os papéis trocados. Tudo graças a essa borboleta? - ele puxou o roupão para que Otávio encarasse o sinal sobre o ombro esquerdo de Norine. - Eu não o traí! Diga a verdade, Norine - ordenou ultrajado.

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Algo estava errado. Ele tentou se aproximar, mas foi detido por Romano. Ariel saiu do quarto arrastando Norine consigo. - Acredito em suas palavras, mas algo me preocupa. O que a trouxe ao seu leito? O que ela pretende? Romano tinha razão, algo estava acontecendo. Otávio comunicou sua saída e deixou a casa rumo ao château, precisava falar com Collet. Desceu do cavalo e, assim que parou diante do jardim, sentiu a presença dos inimigos. Como se isso não bastasse, havia o choro de uma criança. Olhou pela janela e viu Savedra sobre o corpo sem vida de Antoine. Derrubou a porta e de espada em punho enfrentou o vampiro. - Otávio, eu tenho pensado muito em você. Afrodite ainda anda com você, não é mesmo? perguntou com os olhos grudados em sua corrente de ouro. - Sim, sempre, e imagino a falta que ela deve-lhe fazer. Qual o plano desta vez? - Matar seu irmãozinho. Se Norine seguiu minhas instruções à risca, a segunda parte do plano está em andamento. Pena que não pude cumprir minha parte no acordo - falou sarcástico, referindo-se à morte de Antoine, marido de Collet. - Veja! A tola deu o sinal - falou, apontando a janela. Ao longe, Otávio viu um brilho na janela, um sinal vindo de dentro de Soleil. Ariel devia estar desprotegido, pronto para ser atacado. Ao ouvir a voz de Otávio, Collet pediu ajuda. O choro insistente do bebê vinha do segundo andar. Otávio jogou-se sobre Savedra. Os dois destruíam a sala num combate furioso. A casa estava em chamas graças a Aragão, que saiu sorridente da cozinha. Mais um vampiro traidor. A criança ainda chorava, provavelmente assustada com o fogo. Savedra por muito pouco não perdeu o braço. Estava desatento, queria seguir para Chantilly e dar andamento ao ataque. Aragão jogou sua espada em direção a Otávio, que se esquivou. Savedra saltou pela porta e sumiu dentro da noite. Sem muito esforço, Otávio matou Aragão e subiu para o segundo andar ouvindo som de luta. Parte do teto desabou sobre a escada impedindo o retorno. No quarto, Togo lutava com Lívio em meio às chamas, enquanto Collet agonizava no chão. Ela só tinha forças para pedir que salvasse a criança. Morreu de asfixia segurando a mão do bebê, imóvel no berço. A fumaça também sufocava a menina. Aflito, Otávio sacudiu seu corpinho e ouviu a pequenina tossir e voltar à vida. Sem esperar mais um minuto, escondeu a menina no casaco e saltou pela janela. Togo o seguiu após cortar Lívio em dois. A casa era uma fogueira gigante e abrasadora. Os cavalos amarrados junto à entrada relinchavam aflitos. Otávio montou e seguiu rumo a Soleil com Togo em seus calcanhares. Mal chegaram à porta, ouviram os sons dos disparos, havia luta. A ponte levadiça fora erguida. Precisaram atravessar o fosso num salto. Otávio e Togo entraram no chateou e fitaram os Pacificadores e Sentinelas mortos. Seguiam pelo corredor enquanto Otávio procurava um lugar seguro para esconder a menina. Foi então que se lembrou do caixão em seus aposentos. Ela parou de chorar agarrada ao travesseiro de seda, confortável como o de seu berço. Otávio fechou a tampa deixando somente uma pequena fresta para entrada de ar e saiu como um louco pelo corredor. Havia disparos e gritos, cheiro de fumaça vindo do salão de baile que havia se transformado em um campo de guerra. À frente deles, depois da porta principal, havia vinte vampiros revoltosos sob o comando de Adriano, membro do Conselho. Os móveis haviam se tornado uma barreira protetora. Abaixado como os demais, ele viu Isadora segurando um escudo dos tempos de Roma sobre a barricada, dando espaço para Valdés atirar lanças. Tinham se armado com o que encontraram pelo corredor. Togo conseguiu um arco e devolvia a flechas na mesma intensidade dos ataques. - Onde está Ariel? - ele perguntou os olhando. - Foi cercado nas câmaras subterrâneas. Tinha se isolado após a briga com Norine. - E os Pacificadores? - perguntou Togo, pensando em que estratégia adotar. - Mortos ou espalhados pelo château. Eles usaram a Seiva - disse Thiago, mostrando o braço queimado. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Eles nos detêm para que Savedra ataque o rei - a informação pegou a todos de surpresa. Otávio juntou os fatos e foi nesse momento que viu as cortinas pegarem fogo, o candelabro cheio de velas ainda acesas. Recostou-se na mesa de madeira e tocou a amostra sob a camisa. Tirou-a das vestes e todos o olharam com receio. Puxou a fina cobertura de prata que recobria o frasco onde repousava a amostra. Ele estava cheio de Seiva, mantendo o sangue de Afrodite longe de sua pele, evitando que adoecesse. - Togo, ainda tem alguma Seiva contigo? - Usei tudo no último ataque. Eles nos cercaram nas catacumbas, buscavam o Livro como imaginamos. É claro que foram todos mortos - avisou com alegria. Otávio pediu o escudo de Isadora e derramou a Seiva em seu interior. Exposto ao ar o líquido se desdobrou. Algo comum, mas que poucos conheciam, assim como o fato de ser inflamável. - Valdés. Gostaria de fazer as honras? - Com prazer - ele respondeu mais do que satisfeito ao adivinhar seus planos. Otávio pegou o candelabro e esperou. O escudo voou pela sala e chocou-se contra o peito de Adriano dando-lhe um banho esverdeado e causticante. Seus comandados se sujaram e começaram a gritar em coro, enlouquecidos. Quando o candelabro atravessou a sala e caiu no meio deles, o fogo os transformou em tochas vivas. Ou mortas-vivas, no caso. - Agora! - gritou Togo de espada em punho. Como bárbaros, avançaram aos berros cortando cabeças e corpos em meio ao fogo. Quando restavam poucos, deixaram Isadora e Thiago cuidando do problema e seguiram para as câmaras subterrâneas. No caminho encontraram Romano e dois Pacificadores. O corredor estava bloqueado por Urmania e Wlamir. Usavam a Seiva e conseguiram cinco baixas. - Se Ariel estiver encurralado em sua câmara sairá pela sala de armas, lá existe uma passagem - Otávio avisou. Chegaram à porta e foram recebidos por dois revoltosos. O ataque foi muito rápido. Romano rugiu e avançou sem esperar os demais, produzindo uma cortina de sangue que banhou o corredor. Ariel apareceu na passagem empurrando as cortinas. Puxava Norine consigo quando Savedra entrou pela janela. Romano tentou ficar entre os dois, mas foi ferido no peito, precisando da ajuda de Valdés e sua espada larga. - Ariel! - berrou Otávio, vendo uma seta cruzar o ar em sua direção. Ágil, Otávio deteve a primeira com sua espada, mas a seguinte atingiu o alvo. Urmania e Wlamir chegaram acompanhados de mais dois vampiros desconhecidos. A luta tomou corpo e Savedra viu-se acuado por Romano, sem conseguir alcançar Ariel. Sem alternativas, saltou pela janela com o Pacificador em seu encalço. Caíram juntos no fosso sob o olhar abismado dos outros vampiros. Savedra projetou-se da água num salto, alcançou a borda e correu pelos jardins em fuga. Os traidores viram-se sozinhos, agora lutavam por suas vidas. Isadora e Thiago entraram no local com os quatro Pacificadores sobreviventes. Os traidores foram contidos e se renderam, certamente esperavam serem julgados pelas leis do Livro. Otávio aproximou-se de Ariel e viu Norine agonizar em seus braços. Sem pensar em si mesma, ela se jogou na frente da seta envenenada. Sentia dores horríveis, era vencida pela dama negra. - Norine, meu amor. - Não queria traí-lo. Fui obrigada. Savedra ameaçou matar Collet e a pequena Marie. Talvez Antoine... Lamento tanto... - tentou tocar Ariel, mas não conseguia. Ariel tomou sua mão e beijou a palma. Otávio percebeu as veias escurecerem e morrerem no corpo de Norine. Bastou um gesto e uma troca de olhares para confirmar a chantagem feita por Savedra. Ariel a abraçou forte e soluçou baixinho. - Perdoe-me. Sempre amei Otávio, mas depois você me conquistou – ela sorriu tristemente, sem força para continuar segurando sua mão. - Beije-me, meu querido rei. Ariel a beijou e sentiu a vida abandonar seu corpo. Sua beleza esvaía-se deixando no lugar um aspecto sinistro. Naquele momento, um arrepio percorreu o corpo de Otávio. Collet e Norine nasceram e morreram no mesmo dia. Ariel chorava agarrado ao corpo da amante sem que Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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pudesse controlar sua dor. Soltou-a no piso delicadamente, fechou seus olhos e pegou sua espada. Como um garoto, secou as lágrimas com as costas das mãos e deixou seu olhar verde, frio e impiedoso cair sobre seus inimigos. Otávio percebeu o medo tomar os revoltosos. - De joelhos - ordenou com a voz límpida e profunda. Os Pacificadores pegaram Urmania, que se debatia pedindo julgamento. O levante seria julgado pelo rei. Urmania pediu clemência, mas Ariel a silenciou rapidamente, seguindo para o próximo até terminar a fila. Afastou-se da pequena pilha de corpos com seu rosto salpicado de sangue. Recolheu o corpo de Norine do chão e seguiu pelo corredor sem nada dizer. O château permaneceria com a ponte levadiça erguida e teria portas e janelas abertas nas salas onde o combate havia sido travado. O sol limparia a casa sob o olhar atento dos Vigilantes que restavam. Os vampiros se recolheram. Ariel depositou o corpo de Norine sobre o leito e ficou ao seu lado, precisava se despedir. Otávio o vigiou durante todo aquele dia em silêncio absoluto. Quando a noite caiu, um criado preparou o corpo de Norine a pedido do rei. Isadora dava de comer à pequena Marie. Otávio sentou ao seu lado e sorriu admirado com a beleza da filha de Collet. Tinha os olhos verdes, o cabelo loiro e liso. - O que vai fazer com ela? - Não sei. Marie agora é uma órfã. - Ela gosta de você, Otávio. Temos de conseguir um berço para ela. Ela precisa de fraldas, o lençol que rasguei já está molhado - Isadora a embalava depois da refeição. Junto com a manta de Marie, havia um pequeno caderno que Otávio descobriu ser o diário de Collet. Ele continha verdades tardias, inúteis e dolorosas. Falava de alegrias e tristezas e do plano que protegeu Norine e o amor que sentia por Otávio. Um plano audacioso que permitiu a Collet se aproximar de seu verdadeiro amor, o rei. Elas trocavam de lugar, aproveitando-se do fato de serem idênticas e de ambas terem sido tocadas por seu sangue. Foi desse modo que Ariel possuiu Collet pensando estar com Norine. Em sua ausência, o plano corria às mil maravilhas, mas quando retornou, Collet viu-se em apuros, temia que ao possuí-la descobrisse a farsa. Na noite que surpreendeu Ariel, ele tinha Collet nos braços. Em sua agonia não percebeu o sinal no ombro direito e não no esquerdo. Todo o tempo Norine se manteve fiel. Em Paris a situação foi controlada e o plano de Savedra frustrado, mas a casa de Ariel estava destruída, assim como o pequeno château. Romano retornou imundo. Havia seguido Savedra em luta até o amanhecer quando teve que buscar abrigo num cemitério. Pelo menos agora havia provas de que era um conspirador. Seu nome foi retirado do Livro e jogado na lista de criminosos. Sua casa foi queimada e seus bens passados aos Poderes. Mas Savedra não era o maior problema. Ariel havia se trancado em sua câmara com o corpo de Norine e não permitia a entrada de ninguém. Três dias com o cadáver da mulher amada. Ariel estava irredutível, não queria permitir a cremação nem o enterro, já que para isso teriam de cortar a cabeça do corpo. Otávio começou um diálogo solitário com a porta e o ouviu tocar seu violino. Isadora estava com Marie nos braços e foi o suficiente para dar uma idéia. Otávio entrou pela passagem secreta com a menina em seus braços. - Quem é a criança? A voz estava pesada, amarga pela dor que alimentava naquela câmara. Ainda vestia a roupa manchada com o sangue de seus inimigos. Magro e pálido, era um vampiro realmente assustador. - Chama-se Marie. É filha de Collet, a mulher que verdadeiramente o amou - revelou, fitando seu olhar ameaçador. Ariel aproximou-se arrastando a espada no chão e tocou o rosto calmo da menina. Marie era simpática, não se assustava com nada. Ela estendeu a mão gorducha e segurou o dedo de Ariel, enquanto ele fitava seus cachos loiros. Ela cheirava à lavanda. Ariel sentiu-se sujo e monstruoso. - Tire-a daqui, estou fedendo a morte e sangue. Otávio passou a menina aos braços de Isadora e continuou na câmara. Norine descansava vestida como uma rainha. O corpo estava coberto por rosas brancas, que agora jaziam murchas Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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sobre a seda do vestido e exalavam um odor adocicado. Ela se decompunha rapidamente graças ao veneno. A face tão bela de Norine sumira debaixo da máscara impiedosa da morte. Um espetáculo grotesco para um vampiro apaixonado acompanhar. - Ariel, você precisa reagir. Norine morreu, mas você está vivo. Aqui só resta podridão e morte. - Quero ficar só! Estou morto. Por que não tolerar a podridão? Eu deveria estar morto junto com ela. O rei confessou rouco e frágil como Otávio jamais ouvira antes. Nem mesmo por Mitra tinha ficado dessa maneira. Não, Ariel chorava por ambas, pois havia escondido a dor dentro de sua alma por longos anos. - Como acha que ficaríamos sem um rei ou nas mãos de Savedra? - Acha que é fácil viver cheio de cobranças, trevas e inimigos? Ela era minha luz, minha borboleta. Sabe quantas amei pela eternidade? Duas. Todo o resto é um amontoado de rostos dos quais não sou capaz de me lembrar nem do nome. Eu a matei quando a tirei de seus braços protetores. - Fomos enganados, Ariel. Sei que está frágil, mas precisa saber o que descobri. Era Collet quem o visitava. Ela o amava, não Norine. Tudo acabou quando a tornei uma de nós. No final, você conseguiu o amor das duas. Desgostoso, Ariel voltou ao caixão e abraçou o corpo de Norine pedindo perdão. - Pare de sentir pena de si mesmo e perdoe-se. Ela fez isso antes de morrer. Permita que Norine seja cremada e encontre um fim digno. Deixe-a ir em paz. - Nós não temos alma. - Por que não teríamos? Somos imortais. É tudo que nos resta quando nos tornamos vampiros, alma e sangue, nada mais. Não há nada que possamos fazer para mudar nossos atos egoístas. Cale sua dor, engula suas lágrimas como eu mesmo fiz quando parti. Lembre-se de que muitos vampiros lutaram e morreram para que permanecesse no trono. Vai se entregar ao sol ou vai se enterrar com a vagabunda? - Não ouse insultá-la! - Que ir atrás da vagabunda? Pois bem, vá com ela. Otávio tirou a amostra das vestes e a lançou para Ariel. O rei segurava o frasco, enquanto a força de Afrodite o rodeava. Caiu de joelhos sentindo dor, incapaz de soltá-lo. Otávio aproximouse dele e tirou a amostra de suas mãos, sabendo que Radamés o havia curado de sua dor. Depois disso, tomou-o em um longo abraço. - Adeus, Ariel, vou deixar Paris. Faça o mesmo, meu querido irmão. A pesada porta da câmara abriu-se do lado de fora. No corredor, Togo, Romano, Isadora, Thiago e Valdés esperavam atentos e preocupados. Foi quando a voz do rei soou equilibrada e segura como jamais deveria deixar de ser. - Entre, Togo, temos muito que resolver. *** - Havia acabado - disse Otávio. - O que fizeram com a menina? - perguntou Jan Kmam, recostado na parede. Ainda reorganizava os pensamentos. O processo de reviver memórias o deixava tonto. - Isadora e eu decidimos entregar a pequena Marie aos cuidados de Dalila, uma bruxa imortal. Ela veio pessoalmente pegar a menina. Isadora e ela eram amigas há muitos séculos, o que a tornava a pessoa mais indicada para criá-la. Ela não podia ser largada num convento. Seria terrível sufocar sua verdadeira natureza, os dons que herdara da mãe. - Você ficou muito tempo afastado da cidade? - O suficiente. Voltei a Paris depois de alguns anos no dia de São Bartolomeu e encontrei seus olhos em meio à multidão, Jan Kmam. O resto da história você já conhece.

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- Quando estivemos em Chantilly não vi nenhum salão de armas. Na verdade vi uma ala inteira trancada. - Melhor desse modo, não acha? Sabe do que um vampiro tem medo realmente? De suas lembranças. O ataque em Chantilly e o fogo são inesquecíveis, como você pôde perceber. Tudo ter vindo abaixo foi o melhor que podia acontecer, apagou muitas lembranças. Quando Ariel o reconstruiu em 1900, foi de maneira renovada. - Verdade, está muito mais bonito - disse Kmam, lembrando-se da visita que fez com Kara um ano antes. - Hoje em dia ninguém o habita além do caseiro. Tinha esperanças de que Marie voltasse para ele, afinal era a única herdeira. Mas são apenas sonhos tolos que não verei realizados. Eu já escapei do machado por duas vezes, não acredito em milagres. A lei é clara e justa. Além disso, sou culpado. - Afrodite é a única responsável pelos crimes - Kmam suspirou cansado. - E temos Consuelo, claro, a pedra no sapato imortal. - Consuelo busca vingança, jamais aceitou que eu a largasse. - Um dia me contará essa história, não deixou claro o que viveu em seus braços. - Tudo que precisa saber é que uma vampira rejeitada se torna uma inimiga poderosa. Ela encontrou Graco e o nutriu com seu ódio. Ele nem faz idéia do seu verdadeiro papel dentro da conspiração. Agora vá descansar, Jan Kmam. Descobriu tudo que precisava saber. Minha força e meu coração estarão ao seu lado quando lutar na Arena. - Tudo correrá bem, não se preocupe. Antes de ir, quero presenteá-lo com uma surpresa. - Certamente, Majestade. Asti apareceu na porta da câmara. Jan Kmam abriu caminho para a vampira. Ela só parou de correr quando chegou aos braços de Otávio. O beijo foi longo e as palavras sussurradas, como cabe aos amantes que nutrem o amor verdadeiro.

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UNIDADE III O ACERTO DE CONTAS

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37. A ARENA A tarde abafadiça antecipava uma noite morna e chuvosa. Aos poucos a claridade sumiu e as nuvens tornaram-se parte da escuridão, sem nenhuma estrela no céu. A cidade fervilhava em uma noite feita de chumbo, inocente aos acontecimentos que muito em breve se desenrolariam debaixo de seus pés. Eles surgiram de vários lugares e sumiram dentro de pontos estratégicos da cidade, chegando às galerias subterrâneas iluminadas por tochas. O Conselho, junto com os demais Poderes, havia decretado a Trégua de Sangue, nenhum vampiro tinha permissão para se alimentar àquela noite. Tratava-se de um Conselho extraordinário, sem falar da Arena estabelecida. O rei despertou, banhou-se e esperou o criado organizar seu traje. Jan Kmam preferia se banhar e vestir sozinho. Desaprovou a roupa escolhida e foi até sua mochila pegar o traje que achava ideal para a ocasião. Vestiu-se diante do espelho e observou a camisa que Valéria havia costurado séculos atrás, um pedaço de linho que fora tecido num tear manual por suas mãos. Uma relíquia de mangas largas, gola simples e leve com cordões nos punhos. A camisa que seduziu Kara. A calça era um jeans escuro que combinava perfeitamente com suas velhas botas. Encontrou Togo no corredor e pensou em cobrar algumas explicações sobre seu sumiço após a explosão no hotel, mas a julgar por sua tranquilidade tudo corria como esperado. Eram sete horas da noite. O salão tinha os acentos quase totalmente ocupados. O acesso às galerias seria fechado às oito em ponto. O rei esperava na antessala onde receberia um cálice de sangue. Estava silencioso e concentrado, mas ouvia com atenção as regras da Arena citadas por Togo. De fato apenas as recordava, pois era obrigatório estudá-las antes de ser inscrito no Livro. A Arena foi montada diante do trono. O salão dos Cinco Poderes estava ali representado fielmente como em Paris. As galerias eram conhecidas dos mortais devido à história de São Luís, mas nenhum mortal iria tão longe dentro delas. Os Zeladores haviam trabalhado durante todo o dia traçando no chão um grande círculo e dentro dele mais quatro. Eles representavam os Cinco Poderes estabelecidos em ordem decrescente. É dado ao rei o direito de percorrer todos os círculos livremente, pois todos eles se submetem à sua vontade. Os desafiantes podiam escolher em que círculo lutar de acordo com sua posição no mundo vampiro. O mesmo direito não era oferecido aos desgarrados, eles precisavam lutar nos cinco círculos e sobreviver a cada um deles para se manter na disputa. O primeiro círculo, ou linha de Poder como era comumente chamado, tinha a cor predominante da casa dos Lordes, o vermelho. Era o maior deles, o que mais tempo de luta permitia aos desafiantes - uma hora. Até dez vampiros podiam lutar contra o rei dentro dele, mas a Ordem geralmente separava os desafiantes em grupos de cinco para dividir melhor o tempo de luta. Quando o último desafiante fosse morto, o segundo grupo entrava na Arena. A luta só era dada como encerrada quando a Tábua de Tempo se movesse finalizando o combate. Se houver sobrevivente, ele passa ao segundo círculo e assim sucessivamente. A palavra chave na Arena é o tempo. A Tábua do Tempo foi construída por Radamés para orientar o capítulo de disputas. Era um instrumento repleto de engrenagens de metal e madeira, montado sobre uma estrutura esférica onde a tábua circular se movia livremente, baixando e erguendo ampulhetas antigas de tamanhos e formas diferentes. A intrigante máquina foi trazida pelos Zeladores e colocada a poucos metros da Arena. Do lado oposto ficava o Barril, um tanque de madeira cheio de Seiva. Um triste fim para os restos dos que ousavam enfrentar o rei dos vampiros. Oito horas da noite. Como determinado, a. Arena tem início na terceira hora após anoitecer. Nas galerias, só silêncio. O acesso tinha sido fechado e as tochas apagadas. Todos os interessados naquela disputa já estavam presentes no salão dos Cinco Poderes. Kara chegou cedo e se juntou aos demais vampiros. Nenhum deles pareceu se importar com seu capuz, pois a maioria dos presentes era estranha e exótica. Kara reconheceu o salão assim que entrou, a mesma visão de seus pesadelos. Circundou as fileiras de acentos escavados na Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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rocha, analisou a plataforma elevada onde repousava o trono e a Arena montada. Ao fundo, as cortinas ocultavam os entalhes dos Cinco Poderes. Sentou-se próxima do corredor e manteve-se quase invisível, esperando ansiosa por sua aparição. Dois Pacificadores surgiram por trás das cortinas e puxaram os cordões dourados. Os entalhes apareceram juntamente com o rei Jan Kmam. Kara, nervosa, acompanhou o olhar de seu amado sobre as fileiras, examinava cada face vampira. Os representantes dos Poderes ocuparam seus lugares e a assembleia sentou-se após o rei se acomodar no trono. Togo estava vestido ricamente. Era dele o lugar de destaque naquela noite. A Ordem dos Pacificadores controlava a Arena juntamente com os Zeladores do Livro. Mediaria a luta, faria cada detalhe ser cumprido. Subiu à tribuna e dirigiu-se aos seus iguais. - Majestade, irmãos de imortalidade. Hoje, depois de quase quinhentos anos que a última Arena foi estabelecida, faremos a Tábua do Tempo girar novamente. Não há juiz, somente as regras e o tempo. Ele que é nosso maior aliado e inimigo. O rei Jan Kmam lutará para defender o direito recebido por seu antecessor, Ariel Simon. Seu direito ao trono foi contestado por criminosos e traidores, mas diante do Livro até mesmo estes têm direito a voto. Oito votos, sendo um do próprio rei, estabelecem hoje a Arena. O melhor dos vampiros vencerá. A rendição pode ser aceita, mas aqueles que a escolher enfrentarão o julgamento por seus atos. Sair do círculo por descuido significa morte imediata nas mãos dos Pacificadores. Agora se aproximem e reafirmem seus votos. Os Zeladores trouxeram o Livro e os votos foram ditos novamente um a um. Os vampiros assinaram a página em que a Arena ficaria registrada para todo o sempre. Assim que se afastaram, trinta vampiros desgarrados aproximaram-se para assinar seus nomes. Seriam os primeiros a enfrentar o rei. Cada um deles parecia querer se destacar mais do que qualquer outro. Tinha cabelos tingidos, curtos, longos, tatuagens, piercings e roupas extravagantes. Um Pacificador os dividiu em grupos para garantir uma luta justa. As pistolas foram recolhidas debaixo de risos, dentro da Arena só eram permitidas armas brancas. Havia chegado a hora. Jan Kmam recebeu a espada real das mãos de Togo, que havia lhe instruído a usá-la, uma exigência dentro da Arena. Ele a exibiu confiante e seguiu para o centro do círculo. Movia a lâmina com muita tranquilidade. Posicionado, o rei curvou-se cumprimentando a assembleia, depois flexionou uma das pernas e, diante da espada real, fechou os olhos e encostou a testa no cabo. Em cinco anos de convivência, Kara jamais ousou perguntar o que o ritual significava. Assim que terminou, Kmam ficou de pé e deu o sinal a Togo, que fez os primeiros desafiantes entrarem no círculo. Os olhos de Kara estavam grudados nele, acompanhavam cada gesto e movimento. Zoser e Nebit soltaram as correntes libertando a Tábua do Tempo, finalmente o duelo iria começar. - O tempo é agora - disse Jan Kmam. O tampo de madeira moveu-se no sentido horário. Na sua face, cinco círculos desenhados. Havia som de catracas e engrenagens despertando, utilizando uma força invisível para começar a girar. A estrutura escura moveu-se novamente e parte do tampo pareceu se partir, deslizando sobre si mesmo até erguer um objeto. Cinco ampulhetas subiam e desciam, enquanto uma permanecia no alto. A areia que caía marcava o tempo na Arena, enquanto no final das galerias, perdido no emaranhado de túneis, Radamés dava início a outro ritual. Na câmara silenciosa estavam somente Radamés, Vitor e o corpo inerte de Ariel Simon. Vitor estendeu o braço sobre o cálice feito de pedra e cortou o pulso. Seu sangue o preencheu até a metade. Radamés tinha nos dedos uma pérola de sangue igual a que tinha alimentado os Anciões, e com ela completou o estranho coquetel. O cálice foi posto a poucos centímetros da cabeça de Ariel. Com uma fina lâmina, Radamés cortou a gaze que cobria seu rosto cadavérico. A voz de Radamés veio num murmúrio pesado em egípcio. Uma reação imediata se fez visível na frente da plataforma de pedra, onde um ponto de luz azul surgiu e cresceu. A bola azul incandescente abria-se ruidosa. Sobre sua superfície cruzavam raios. Era possível sentir uma corrente de vento penetrar na câmara em sua direção. Os olhos de Ariel estavam abertos, e aos Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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poucos o vazio deu lugar ao verde brilhante. A bola de energia havia crescido iluminando a câmara com sua força. Vozes e sussurros eram ouvidos em línguas que Vitor não soube identificar. Faces vampiras fantasmagóricas surgiam e sumiam dentro da esfera assustadora. Quando a boca da múmia se abriu, Radamés gritou o nome de Ariel e ergueu o cálice diante da luz. Dela se desprendeu um corpo diáfano e espectral. Radamés continuou a falar naquela língua estranha, evocando forças e energias que remetiam aos deuses. O espectro moveu-se no ar assumindo uma forma espiralada que entrou pela boca de Ariel. Estava feito. Ariel sentou-se, e um gemido rouco escapou dos lábios. - Agora, Vitor - ordenou Radamés. Vitor cravou a seringa no peito de Ariel e injetou o soro de uma só vez. O corpo caiu sobre a plataforma, em convulsões. Radamés lançou sobre as inscrições no chão uma pedra de incenso. A cera de abelha incendiou de imediato. O fogo esverdeado envolveu a plataforma e o corpo de Ariel ainda envolto nas tiras de linho. Ele se debatia, mas não era o fogo que consumia sua carne, afinal queimava frio e espectral. Subitamente parou de se debater, o fogo mágico continuava ardendo sem produzir nenhum calor ou fumaça. Ele ficou de pé e andou em direção a Radamés. Os movimentos felinos e seguros o tiraram do círculo de inscrições, e o fogo desapareceu deixando o chão intacto. Radamés curvou-se e ofereceu-lhe o cálice. Ariel sorveu o conteúdo num gole longo. Ele estava vivo novamente, pleno como se a morte nunca o houvesse tocado. Radamés ofereceu um roupão de linho puro para cobrir sua nudez. Os cabelos vermelhos caíam sobre seus ombros sedosos e cacheados. - Sim, Ariel, a Arena já começou - disse Radamés, antecipando seus pensamentos. Ariel analisou a câmara como se esperasse algo, Vitor vacilou. O rei o segurou nos braços e o colocou sobre a plataforma onde descansava há pouco. - Seus atos o redimiram e seu crime foi perdoado. Sacrificou seus últimos momentos de vida para me ajudar. Agora há uma dívida. Vitor sentia dores horríveis, sabia que estava morrend