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CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, domingo, 29 de março de 2009 • 3

CADERNO C MÚSICA LEILA PINHEIRO CANTA SAMBAS DE EDUARDO GUDIN, ACOMPANHADA PELO COMPOSITOR, EM DISCO LANÇADO POR SELO PRÓPRIO

AMIZADE SELADA Washington Possato/Divulgação

CRÍTICA// ✰✰✰✰ ROSUALDO RODRIGUES DA EQUIPE DO CORREIO

duardo Gudin é nome importante na história de Leila Pinheiro. Foi interpretando Verde, música dele e de José Carlos Costa Netto, no Festival dos Festivais, da TV Globo, em 1985, que a cantora paraense teve voz e rosto revelados para todo o Brasil. Até então, os dois nem se conheciam pessoalmente. Foi César Camargo Mariano, diretor musical do festival, que sugeriu a intérprete aos autores. “César levou uma fita cassete gravada por mim para o Gudin e perguntou se ele me aceitava como intérprete. Fomos apresentados no Maracanãzinho, na hora do ensaio. Daí surgiu uma amizade para toda a vida”, relembra Leila. A história é trazida à tona pelo lançamento de Pra iluminar — Leila Pinheiro e Eduardo Gudin ao vivo, disco que, segundo a cantora, surgiu por acaso, embora tenha sido um projeto que sempre quis fazer. “A ideia inicial era fazermos apenas o show no Teatro da Fecap, em São Paulo. Mas o lugar tem toda estrutura para se gravar um disco e, quando trouxe as fitas gravadas para casa e ouvi, percebi que tinha tudo pronto. Era um show amadurecido, ensaiado”, conta a artista, que viabilizou o projeto por meio do próprio selo, o Tacacá. Os discos anteriores de Leila, Nos horizontes do mundo ao vivo (2006) e Agarradinhos (2007), foram produzidos por meio do Tacacá, mas em parcerias com Biscoito Fino e EMI Music, respectivamente. Pra iluminar é o primeiro que ela faz totalmente por conta própria. Não que tenha problemas com gravadoras. “Chega uma hora em que você tem que ser dona de sua obra. Minhas músicas todas estão com as gravadoras. Muita coisa, se eu quiser usar, preciso de autorização. A ideia de criar o selo foi esta: o que é meu é meu.” Leila admite que não é um trabalho fácil: “Requer uma veia empresarial e, mesmo que eu a tenha, não gostaria de perder

Encontro iluminado

E

É difícil entender por que um compositor com uma obra vasta e de qualidade, como é Eduardo Gudin, repercuta tão pouco. Ou, se repercute, não tanto quando merecia. Afinal, nem se pode classificar de difíceis os belos sambas que saem de seu violão. Portanto, só pela iniciativa de trazer essa obra à tona, o disco novo de Leila Pinheiro já merece atenção. Mais que isso, trata-se do registro de um encontro entre dois artistas em momento de graça. Tudo está em seu lugar. A começar pelo impecável repertório selecionado dos 14 discos que Gudin lançou desde 1979. Dezessete músicas que cabem como uma luva na voz da cantora. Sambas como Mente (parceria com

Paulo Vanzolini), O amor e eu e Velho ateu (com Paulo César Pinheiro), em que Gudin também canta, são comoventes e de uma elegância à moda de Paulinho da Viola, que, por sinal, é parceiro de Eduardo Gudin em Ainda mais — já gravada por Leila em Na ponta da língua (1998) e que volta ainda melhor nesse disco. Admirável também é a qualidade da gravação, que bem poderia passar por uma produção de estúdio, não fossem as discretas palmas aqui e ali. No fim, pode-se dizer que Pra iluminar veio para formar com Isso é bossa nova (1994) e Catavento e girassol (1996) a santíssima trindade da discografia de Leila Pinheiro. (RR)

Warnel Chappell/Divulgação

PRA ILUMINAR — LEILA PINHEIRO E EDUARDO GUDIN AO VIVO Décimo quinto disco da cantora. 17 faixas, produzidas por Eduardo Gudin. Lançamento Tacacá/ Microservice.Preço médio:R$ 30.

“CHEGA UMA HORA EM QUE VOCÊ TEM QUE SER DONA DE SUA OBRA”, ACREDITA LEILA PINHEIRO, AO LADO DO PARCEIRO GUDIN mais tempo com ela do que com minha música”. Por isso, o projeto da artista é retomar parcerias com gravadoras, mas que a permitam manter propriedade sobre a própria obra. “E com toda dignidade que ela merece”, ressalta a cantora, que já está articulando a gravação do DVD do show Pra iluminar durante a temporada que fará no Teatro Rival, no Rio de Janeiro. No palco, Leila estará acompanhada por dois pianos — ela toca um deles —, dois

percussionistas e pelo violão de Eduardo Gudin. Versão reduzida do show que deu origem ao disco, do qual participaram 10 músicos e que só será mostrado integralmente em São Paulo, em abril, devido aos custos de viagem.

Novidade No repertório, 17 composições de Gudin e parceiros, algumas já gravadas pela cantora — como Pra iluminar,Verde, Ainda mais e Paulista —, todas em arranjos

criados pelo compositor especialmente para o show. A única inédita é O amor veio me visitar, mas mesmo assim o disco tem ar de novidade. “Gudin é conhecido em São Paulo e adjacências. No Rio de Janeiro, por exemplo, ele não se apresenta desde 1975. E passa muito bem assim. Para os parceiros cariocas dele, que seguem essa parte sofisticada do samba, ele é mestre reverenciado”, avalia Leila. “Por isso mesmo, fico imensamente feliz que tenha

acontecido esse disco, que as pessoas possam conhecer a música e a cara dele”, conclui. Desde que defendeu Verde no festival da Globo, Leila gravou diversas vezes composições de Eduardo Gudin e em diferentes momentos chegou a pensar no disco que agora se concretiza. Ele fez participações em shows dela e vice-versa, mas a parceria em estúdio sempre ficava para depois. Até mesmo o convite para cantar em uma das faixas de um disco

dele ela não pôde aceitar, porque na ocasião estava migrando da Universal para a EMI Music. Agora, no entanto, tudo pareceu conspirar a favor. E com a bênção do público. “Disco ao vivo tem uma parte que é muito rica, a interação com a plateia. Adoro estúdio, mas é diferente a forma como você se entrega no palco. Ter mil olhos em cima de você, interferindo, comentando, aplaudindo, é uma realidade que não é a de estúdio”, afirma.

LANÇAMENTO Monica Martins/Divulgação

Todo sentimento deVerônica Os lados sensorial e emocional de Verônica Sabino falam mais alto quando ela se envolve em um trabalho artístico. Na criação de Que nega é essa?, CD e DVD que acaba de lançar pelo selo carioca MP,B, ela passeou por diferentes períodos da música popular brasileira, deixandose guiar por sentimentos. “Para mim, a música tem que passar emoção. Não costumo catalogála tendo como referência tempo ou estilo”, explica. A cantora, que depois de aprender violão e piano estreou como compositora no álbum anterior, Agora, quis mostrar também no atual projeto sua face de autora. “Em trabalhos anteriores, me tornei conhecida como cantora. No Agora, de 2002, foi a vez de a compositora revelar-se. Como ainda não tinha registro de imagens, comecei a pensar na gravação de um DVD em abril do ano passado”, conta. Logo depois ela foi convidada por Paulo Mendonça, diretor do Canal Brasil, para participar do Faixa musical, programa que integra a grade da emissora. O especial acabou servindo de base para Que nega é essa?, no qual Verônica tem ao seu lado instrumentistas de

primeiro time, como Sérgio Chiavazzoli (produção e violões), Marcos Suzano (percussão), Pedro Braga (violões) e Marcelo Caldi (piano e acordeom). Na elaboração do roteiro, Verônica poderia ter incluído músicas marcantes em sua carreira, popularizadas por presença em trilhas de novelas, como Demais (Selva de pedra), Tudo que se quer (Tieta), Todo sentimento (Vale tudo) e Às vezes nunca (Por amor). Dessas, porém, aproveitou apenas duas: Todo sentimento e Tudo que se quer. A primeira no CD e no DVD e a outra, só no DVD. “Todo sentimento (Chico Buarque e Cristovão Bastos) é uma das canções mais lindas que já ouvi. Amo essa música e refiz agora só com voz e piano. Acho que Marcelo Caldi, um pianista de grande sensibilidade, se superou no acompanhamento”, elogia a cantora. Para ela, o clássico Saia do caminho (Evaldo Ruy e Custódio Mesquita), que remete à epoca de ouro do rádio, é “belíssima e atemporal”. Peito vazio (Cartola e Elton Medeiros) é outra pérola do cancioneiro brasileiro incluída em Que nega é essa?, samba-rock de Jorge Ben Jor que dá título ao projeto. Não foi intenção de Verônica provocar estranhamento e sugerir

Verônica Sabino tem uma discografia irregular e que sofre pela falta de uma característica marcante. Resquício, talvez, do fato de ela ter surgido nos anos 1980, quando a música dita popular brasileira se debatia com a explosão do rock nacional. Mas que Que nega é essa? tem a capacidade de deixar mais claro qual é a dessa cantora de boa voz e intérprete expressiva. Verônica é, sem dúvida, o que chamam de cantora eclética, sem demérito. Pelo contrário, em um show que transcorre em clima de recital, ela

passa com desenvoltura pela música brasileira mais tradicional, recria sucessos do pop rock de representantes da década de 1980, canta inéditas de compositores do momento (Pedro Luís, Rodrigo Maranhão, Vitor Ramil) e ainda se mostra compositora eficiente. E não se perde em nenhum momento, porque tudo está bem amarrado pelos arranjos acústicos do afinado grupo que a acompanha. Uma ressalva: Verônica canta bonito e solto, por isso mesmo poderia ser menos dura cenicamente. (RR)

VERÔNICA SABINO FIRMA-SE COMO COMPOSITORA NO NOVO CD E DVD questionamentos ao dar o título de Que nega é essa? ao CD e ao DVD. “Essa pergunta, no entanto, tem sido feita principalmente por quem tem acessado meu site recém-lançado e se depara com informações sobre esse trabalho. Tenho respondido que o ouvinte ou o espectador vai encontrar várias facetas da Verônica atual. Em cada uma delas, existe um pouco de mim”, afirma. Talvez, a Verônica de agora

possa ser melhor identificada em músicas que interpreta de compositores da moderna MPB, como Rosa que me encanta (Pedro Luís e Rodrigo Maranhão), Invento ( Vitor Ramil), Tardes (Adriana Calcanhotto), Não se afasta (Celso Fonseca), Beijo salvador (Herbert Vianna) e Blues em braile, que fez com Zeca Baleiro. Há, ainda, composições só dela: Agora, Rewind e Túnel do tempo.

QUE NEGA É ESSA? CD (com 14 faixas) e DVD (com 22 faixas) de Verônica Sabino, produzido por Sérgio Chiavazzoli. Lançamento do selo MP,B e distribuição da Universal Music. Preço médio: R$ 29,90 (CD) e R$ 39,90 (DVD). Sérgio Chiavazzoli/Reproducção

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DA EQUIPE DO CORREIO

De tudo um pouco

CD-3

IRLAM ROCHA LIMA

CRÍTICA// ✰✰✰


Amizade Selada