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Prefeitura do Recife adiou mais uma vez o início da remoção de 1,2 mil famílias de palafitas da cidade para habitacionais. Agora, Adélia Moura, de 68 anos, e outras milhares de pessoas em situação igual a dela, terão de esperar pelo menos até agosto por uma nova casa, em terra firme.k 4


4 jornal do commercio

Recife I 24 de maio de 2014 I sábado

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Fotos: Guga Matos/JC Imagem

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LONGA ESPERA Adélia e Ana Carla sonham todos os dias com uma vida digna, em terra firme, longe da lama, dos insetos e do lixo. Renovaram a esperança e aguardam mudança até o final do ano

Palafitas para gringo ver

RIO CAPIBARIBE Construção de habitacionais se arrasta desde 2010, mas a prefeitura promete entregar apartamentos até agosto Wagner Sarmento wsarmento@jc.com.br

E

ntre as tantas jogadas que, às vésperas da Copa do Mundo, Pernambuco não conseguiu concluir, está a retirada das palafitas da área central do Recife. A remoção de 1,2 mil famílias deveria ter sido iniciada no final do ano passado, foi para a prorrogação e hoje, a menos de três semanas do maior torneio de futebol do planeta, que deve trazer ao Estado 200 mil pessoas, ninguém foi convocado para ganhar um novo teto. Os barracos não estão fincados no caminho da Arena, mas no coração do Recife. São retrato de uma paisagem que envergonha quem olha e marginaliza quem nela vive. Um gol contra. A saída das palafitas às margens do Rio Capibaribe, no trecho entre a Ponte Velha, na Boa Vista, e o Viaduto Joana Bezerra, bairro de mesmo nome, integra o projeto de navegabilidade, que também perdeu o jogo contra o tempo. As unhas das mãos e dos pés da aposentada Adélia Moura de Oliveira, 68 anos, já estão prontas. Pintadas de verde e amarelo, aguardam o início da competição entre a certeza da torcida pelo Brasil e a decepção de não poder ver a Copa no prometido conjunto habitacional. “Fui cadastrada três vezes e nunca chamaram. Estou na torcida pela seleção, mas gastaram tanto dinheiro que podiam pelo menos ter tirado a gente daqui”, lamentou ela, que mora há uma década no Beco do Silva, no bairro dos Coelhos. “Quando eu sair, vou dizer amém. Enquanto isso, estou na minha casinha”, acrescentou. De tanto esperar, o risco bate à porta. A dona de casa Ana Carla Araújo, 24, teve que deixar temporariamente a palafita onde morava com as três filhas. Parte do barraco, suspenso na beira do rio, desabou devido à força das águas. Está vivendo de aluguel num casebre próximo enquanto reforma o seu, enquanto não se muda para um apartamento, enquanto a espera não cessa. A parede abriga uma folha de papel da prefeitura com cadastro datado de maio de 2013. “A maré bateu e a madeira foi ficando podre. O jeito foi sair”, contou. De tanto esperar, o povo cansa. Um breve passeio por entre os becos da comunidade revela, em meio à miséria eloquente, vários barracos caindo aos pedaços. Alguns abandonados. “Teve gente que foi embora por causa das condições precárias aqui. Quem tem um lugar para ir, vai, mas a maioria não tem. O jeito é aguentar”, disse a dona de casa Maria do Socorro Araújo, 47, que quase morreu de leptospirose. Ratos, escorpiões e até cobras são comuns. Socorro vive num casebre de dois cômodos, piso de barro, goteiras e um punhado de móveis e eletrodomésticos comprados com suor. Contrastam com a pobreza do cenário duas bicicletas cor de rosa, recém-compradas para as netas.

CENÁRIO QUE ENVERGONHA As palafitas dos Coelhos, de São José e da Ilha Joana Bezerra deverão ser erradicadas, de acordo com a prefeitura

Nova previsão de entrega do 1º habitacional é para agosto

q Mais na web Veja vídeo com as palafitas e as obras no www.jconline.com.br/cidades

LENTIDÃO Os habitacionais dos Coelhos, na Travessa do Gusmão (alto) e Vila Brasil I, na Ilha Joana Bezerra, ficarão prontos até outubro

A previsão inicial de retirada das palafitas e entrega das primeiras unidades habitacionais era dezembro do ano passado, mas o prazo foi prorrogado para março deste ano e, outra vez, atrasos nas obras fizeram a Prefeitura do Recife modificar o calendário. Empossado apenas na última segunda-feira e ainda se inteirando sobre a situação, o secretário municipal de Habitação, Romero Jatobá, informou que o primeiro conjunto concluído será o localizado na Travessa do Gusmão, no bairro de São José, área central. Deve ficar pronto em agosto. O Jornal do Commercio esteve lá na manhã de quarta-feira, entrou no canteiro de obras e atestou que, finalmente, as obras caminham num ritmo satisfatório. O serviço está na fase de acabamento, restando a parte elétrica e a hidráulica. Algumas portas e janelas já foram colocadas. O Conjunto Habitacional dos Coelhos, na Travessa do Gusmão, abrigará 124 famílias. Outros 260 apartamentos, na Praça Sérgio Loreto, que fazem parte do mesmo complexo, serão entregues em outubro. Operários também trabalham no Conjunto Habitacional Vila Brasil, prometido em 2006, ainda na gestão do prefeito João Paulo, e cuja construção teve início somente em 2010, já com o prefeito João da Costa, mas virou símbolo de descaso e abandono. De acordo com a prefeitura, uma primeira parte, com 128 unidades, ficará pronta também até outubro. O Vila Brasil II, destinado a 320 famílias, não tem previsão

q Saiba mais

1.200

famílias serão retiradas das palafitas às margens do Rio Capibaribe para viabilização do projeto de navegabilidade no curso d’água

512

apartamentos em três conjuntos habitacionais diferentes serão entregues este ano para os moradores removidos

de término. Romero Jatobá acompanhou ontem o andamento das obras. “Agendei visita a todos os conjuntos habitacionais que estão sendo construídos, para acompanhar o trabalho de perto”, ressaltou o secretário. A remoção das palafitas integra o projeto de navegabilidade do Rio Capibaribe, lançado em 17 de janeiro de 2013 e orçado em R$ 190 milhões. A expectativa era que o transporte fluvial começasse a operar em junho, antes do início da Copa do Mundo, mas o prazo foi estendido para dezembro. Cerca de 350 mil pernambucanos serão transportados mensalmente por 13 embarcações.


Jc 24052014 foz1