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4 jornal do commercio

Recife I 10 de janeiro de 2014 I sexta-feira

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www.jconline.com.br Fotos: Diego Nigro/JC Imagem

Áreas pobres da capital terão perfil traçado URBANISMO Até junho, PCR conclui levantamento dos locais mais carentes da cidade, mas não há prazo para ações e melhorias Wagner Sarmento wsarmento@jc.com.br

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ássio da Silva Oliveira tem 11 anos e nunca viu o poder público dar as caras na Ilha Santa Terezinha, em Santo Amaro, área central do Recife. Mora com os pais e sete irmãos numa casa sem saneamento básico situada numa rua sem calçamento fincada numa comunidade que sofre com violência, iluminação deficiente, falta d’água e lixo acumulado. Ele vive numa das 2.573 microáreas mais carentes da cidade, que serão mapeadas pela prefeitura até junho. O projeto foi lançado na manhã de ontem pelo prefeito Geraldo Julio. O levantamento das zonas mais críticas da capital vai servir para nortear investimentos. O mapeamento inicial deve ser concluído em junho, mas ainda não há prazo para que estudo resulte em obras e melhorias. O programa é dividido em quatro etapas. A primeira consiste em mapear as áreas de maior pobreza no Recife, trabalho que será feito por uma equipe multidisciplinar de 40 pessoas, entre arquitetos, urbanistas, engenheiros e técnicos sociais. A partir de julho, começa a segunda fase do processo: o cadastramento censitário das áreas críticas de interesse social. Dos 470 mil domicílios existentes na cidade, a prefeitura promete visitar, um a um, os 50 mil mais carentes. A expectativa é que o censo seja finalizado em junho de 2015. A partir daí, entraria a terceira etapa, que são os estu-

No total, serão mapeadas 2.573 microáreas mais carentes. Prefeitura vai visitar os 50 mil domicílios mais pobres desses locais dos de concepção urbanística, sem prazo para serem realizados. Somente depois é que se inicia a quarta fase, a execução do Projeto Saneamento Integrado (PSI), envolvendo obras de esgotamento sanitário, abastecimento d’água, vias de pedestres, escadarias, sistemas viários, recuperação de áreas degradadas, praças e equipamentos comunitários e conjuntos habitacionais. Geraldo Julio ressaltou que se trata de um projeto de longo prazo. “Não sabemos se este planejamento vai demorar cinco, 10, 20 anos para ser realizado. Não tem chutômetro. Este ato vai construir um legado da nossa gestão pelas próximas décadas no combate à desigualdade”, frisou o prefeito. Uma pré-triagem começou ainda em novembro, mas ontem teve início o mapeamento dos pontos mais vulneráveis do Recife. A Ilha Santa Terezinha foi um dos locais escolhidos. Recebeu, pela manhã, 16 profissionais da PCR,

que caminharam pelas vias apertadas, esburacadas, sem calçamento e cheias de poças d’água. Eles viram de perto a carência de quase tudo. Os dados são enviados via tablet para o escritório-base. “Neste primeiro momento, fazemos uma varredura de toda a área, para fins de caracterização. Levantamos vários aspectos e cadastramos os problemas”, explicou o gerente do projeto, Francisco Lopes. Cássio viu o povo de colete azul passar e pediu: “Tenho vontade de crescer num lugar melhor. O prefeito tem que calçar as ruas, ajeitar os buracos, melhorar as casas e botar esgoto aqui”. Josefa Gomes da Conceição, 78, há meio século vivendo no lugar, é mais resignação do que esperança. “O povo diz que vai olhar por nós, que a coisa vai melhorar e nunca sai do canto. Nem digo que vou esperar, porque esperar cansa. Já ouvi conversa bonita muitas vezes. Vamos ver se agora vai”, disse. Mãe de 10 filhos, um deles na cadeia, a dona de casa Maria do Carmo de Melo, 39, aguarda por mudanças. Reside num casebre de menos de 20 metros quadrados onde todas as crianças dormem num beliche. Na sala sequer cabe um sofá. O teto ameaça cair a cada chuvarada. Quando o canal transborda, a lama vai bater na cozinha. “A gente não vive não. Sobrevive. Falta água, iluminação pública, asfaltamento, esgoto, tudo. Se alguém fica doente, não tem remédio no posto de saúde. É muita coisa para melhorar”, contou.

SEM ESTRUTURA Crianças da Ilha Santa Terezinha aguardam melhorias na comunidade

Último mapa foi realizado há 15 anos Este será o quarto mapeamento de áreas críticas da história do Recife. Os outros levantamentos foram realizados em 1978, 1988 e 1998. O último, feito 15 anos atrás, servirá como norte para o novo trabalho, embora a prefeitura já saiba que houve mudanças no período. De acordo com o secretário municipal de Planejamento e Gestão, Alexandre Rebêlo, os pontos de pobreza cresceram cerca de 30%. Segundo o cadastro de 1998, elaborado pela Empresa de Urbanização do Recife (URB), o Recife tinha na época 3.425,47 hectares de áreas pobres, muito pobres ou críticas. Hoje, tem 4.460,22 hectares, o que corresponde a 32,75% do território ocupado da capital pernambucana. “Se você não mede, não administra. Ninguém tem uma clareza atual do tamanho deste desafio. Vamos primeiro mapear, depois conhecer e então intervir”, afirmou Rebêlo, que acrescentou que o novo estudo trará novidades em relação aos anteriores (78, 88 e 98), feitos respectivamente pela A Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe/Fidem), Secretaria de Habitação e Desenvolvimento de Pernambuco e URB. “Antes, o trabalho parava no mapeamento. Agora, vamos fazer um cadastramento censitário, indo de casa em casa. Assim, você chega ao nível mais detalhado possível para promover soluções”, salientou. Alexandre Rebêlo acrescentou que os dados levantados pela PCR estarão disponíveis na internet. O estudo é coordenado pelos pesquisadores Ângela Souza e Jan Bitoun, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Lívia Miranda, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). MAPEAMENTO Técnicos visitam a Ilha Santa Terezinha, onde Maria do Carmo mora e não há saneamento. Acima a comunidade 21 de Abril, na Várzea, é uma das áreas mapeadas

q Mais na web Vídeo da Ilha Santa Terezinha no www.jconline.com.br/cidades


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