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TRALHA ADENTRO

primeiro e último


tem muita coisa no pátio churrasqueiras quebradas, o tripé do telescópio jogado tem muita coisa na garagem extintor vencido, enfeite de páscoa passada, geladeira roubada, tem muita coisa na dispensa, colher entortada, fralda de criança não nascida, herança da primeira família da itália, tem muita coisa da sala, o pátio na sala, a dispensa no tapete, várias garagens entupindo a porta de entrada e no quarto nem me conte mesmo assim não vou saber durmo onde dá ponto meu corpo torto entre caixas posições nunca antes coreografadas


eu disse a casa é a morada da tralha e eu mesma respondia a tralha acoberta o pó mas a tralha pode ser nossa casa dentro da tralha é uma casa com o tempo não especificado uma tralha é uma casa molvente dissemos fica quieta boca aberta não entra mato boca fechada é pano de louça, pano de chão é trapo

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isso tá morto dá pra jogar fora como se sabe se tá morto o objeto pode sempre ser consertado e voltar a vida como um belo abajur uma flauta pífia quem é que joga um morto fora pois é, agora entendes pirulita a incógnita a casa aos poucos atola

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veja bem, q loko guria a tralha fala

ela diz, aquele dia na marina, todos casais, de quatro viraram oito, o sol era remado porque,

pia e pia a tralha de dentro de um baú cinzento com fotos e cartas sapicegas

no leste o sol não morre ainda

veja bem, q loko guria a tralha ri à beça o amor de esquina de cotovelo virou amor de tijolo oco, o sofá afunda, e a pose fica velha a tralha é malvada a tralha é imortal a sua risada desgraçada parcelo na água derramada 5


a tralha sofre de confusão de gênero, de etnia, de idade, de nacionalidade não lembra a quem pertence nem eu não a jogo fora mais pra frente a pego no pulo ela a mim fofoca de quebra ela ajuda a recolher os cacos

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os vizinhos andam incomdados sugiro se mudem o telefone só atendo quando acho comida vem mas tele-entrega meus pais não me visitam estão ficando surdos não me encontram pelos gritos de orientação entre as caixas de papelão mas eu falo assim eu falo ó o amor vocês não dizem é uma das coisas das tão tão imaterias

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vai que o mundo acaba acaba a máquina de tirar foto acaba as pilhas no supermercado vai que acabam todas mangueiras vai que as mangueiras viram outra coisa como uma corda para erguer ruínas retrocedidas novas casas o nome você inclusive vira outra coisa vai que sem os objetos a gente desvira coisa aclive ou alívio

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o segredo ĂŠ jogar fora somente o que se precisa o segredo ĂŠ precisar de pouco muito pouquinhosinho

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além das tralhas que não botei no lixo tem todas aquelas tralhas que joguei no lixo inflam a casa como gás hélio tudo vai às alturas não dou um passo a fila de meu próprio banheiro lotam não o espaço mas fazer perder um pedaço do tempo

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não é por mim guardo a tralha é pelos outros não preciso de nada conheço os outros pela tralha as costas curvadas inflamadas de peso tesouro de esquecimento faça aqui a sua saga

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parece que algo está fedendo é a tralha não é a palavra sim uma palavra cheia de tralha poder ser uma palavra é uma tralha transmissível desssossada uma palavra um lixão aberto trancando a janela fendendo a peixe a mar estragado fendendo a pesca vencida

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é tanta tralha já não sei quem é eu quem é a tralha o que diferencia imagina um dia acordo no lixão um dia você volta pra buscar o que faltou sem perceber me escondo no cobertor do piu-piu que você sente falta é tanta falta nem sabe o motivo sendo ela a vida própria

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um dia eu me esqueço ela me lembra talvez ela fique viva e me expulse talvez aconteça eu perco retorno e fico dirigindo à toa durmo no volante acaba a gasolina e engato na carona alguém com o carro tão velho, uma verdadeira tralha que ainda usea a gíria aí véi, tá indo pra onde também não tou

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quero jogar fora esse nariz nunca quis essa vontade de gritar com estranhos o desejo emperrado na caimbra do nado do teu adeus anfibio quero jogar fora no ano de 2001 a péssima aposta a graduação em humanas o orgulho mofogenesiado em apito quero jogar fora o gesso já jogado fora em 1997 onde quebrei o pulso para não quebrar o coração quero jogar fora esse coração mas sei que dá pra devolver tem que dar dá sim

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quando alguém não morre vira medo quando alguém morre vira objeto escuta o fim é de porcelana plástico e gesso uma mesma palavra enche todos os potes não somos os objetos dos objetos pondera e se sua matéria-prima

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uma ponte é uma promessa quebrada cada um fica com um pouco vai arrumas as coisas, passar as camisas, mas vai tocar o vesúvio vai sentir o cheiro siri no alho a bagunça não é o problema a paixão é uma bagunça que não dura o rancor é uma bagunça que dura a realidade é uma bagunça do sonho o problema é que a bagunça não é sua exclusiva

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um menino disse no ônibus o lixo é uma criação capitalista tudo dá pro gasto também acredito na expressão tudo se dá um jeito um jeito: bagunça promovida a promessa eu amo o português é por isso pela sua bagunça

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um menino do ônibus disse isso citando oswald de adrade pergunto onde estão as coisas de oswald oswald morreu porque perdeu suas posses morreu muito antes sem posse alguma pergunto uma própria pessoa é a medida de sua própria tralha? o que era aqulo que matou miss cyclone seu filho interrompido ou para ele tralha andradiana matando os dois

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no índico há uma ilha feita de tralha os objetos são ficções criadas pela técnica humana durante anos e anos a técnica humana não foi capaz de criar a morte daquilo não vivo * um objeto é um texto um objeto é uma carta de amor ou o texto de socorro modo reboot talvez uma instrução preciso anotar direitinho como voltar pelo mesmo caminho

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o molde primordial da tralha é o arrependimento é a guerreira sem sua coragem mas ganhando a batalha ao esquecer não ser de aço o molde primordial da tralha é um tecido preso nunca demais seco entre dois pontos quero mas não posso a velocidade em circulos a substituicao de um pensamento pelo outro agora foragido o desejo um rosto completo unindo os dois fuga furada

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este livro foi feito em 15 de abril de 2018, na primeira hora da tarde deste dia, este é o relato do que se passava pela cabeça neste momento ontem fui no show entrei na grossura sai com a roça queimada deixando a calha pingando vai que ajuda lia de fininho o livro da simone brantes (pausa) o mesmo livro onde mergulhei num esconderijo e não retornei para me informar onde pirada, gritada, sacudida, por duas semanas procurei nem louca a indivídua até um dia tomei banho e a memória migrou ao mapa (volta) um livro quem diria tão triste como


o nariz quebrado da estátua do faraó os pais mortos, os tios mortos, os amigos, mortos, a mulher a mulher e o homem e a filha indo para quando? eu virei eu mesma um corão entre dois mundos o gel e a lágrima depois chutei uma mulher na rua depois quase dei na cara de um pivete depois quase xinguei uma bêbada depois quase me joguei no trem mas não tem trem não tem trem é porto alegre agora morrer em porto alegre afogado no guaíba, de hepatite no guaíba, os viadutos são baixos os carros lentos as armas taurus funcionam de vez em quando pois são fabricadas no defeito em porto alegre


depois peguei uma lotação um microônibus voltei para casa encontrei uma pessoa para brigar e briguei lembrei das águas vivas penduradas no show é bonito mas não toca que arde depois queima é só o xixi eu sonhei que fazia xixi por dez minutos e não passava era tanto xixi que acordei minhas namoradas eram duas no sonho uma hora parou e eu disse pela graça da galinha! que não grita de manhã porque acha que o sol não quer ser acordado minhas namoradas não entenderam nada eu queria elas ali mas não queria nada com elas eu dizia vão em frente se amem eu vou ficar no quantinho se quiserem não me chamem


posso participar com palavras uma era loira outra tinha cabelo preto elas obedeçeram por hora seios mordiscados pelos içados até uma delas vir em minha direção eu a mijada disse não sem parar eu dormi mas antes de dormir virei um monstro uma baleia zumbi uma devoradora dos mundos passados onde costumamos deitar a cabeça onde o amor aprofunda sua seda não é mais tão cedo eu xingo até pegadas eu mijo queimo longe da estrada porto alegre londe na morte medonha de verdade eu tento trocar de lugar


com o furo do barco sou grossa porque não quero você indo ao fundo junto e ir ao fundo aqui é um pacto sagrado sacrifício pessoal de covencimento a ficar indo embora aos poucos


na primeira hora da noite deste dia este é o relato do que se passava pela cabeça no momento do fechamento deste livo faz mais de uma semana não saio de casa faz mais de um ano faz mais de um milênio faz muito mais não almocei só tomei café preto não tomei banho o cabelo pesa não carreguei o celular mas chequei o e-mail pedi desculpas pela milésima vez mandei o capítulo 3 para a revisora mas algo me diz não está pronto não pensei no golpe mas também não pensei em nada apenas queria mandar uma mensagem telepática para matilde dizendo ter usado um trecho seu como epígrafe não alimentei o gato


nem alimentei o cachorro não me olhei no espelho onde o que viria era a blusa aquela com o hitchcook apontando o relógio

olhei o relógio arrumei a cama de meus pais não a minha não tive vontade de quebrar nada mas também não tive vontade alguma escrevi na dissertação a falha ser uma poética que permite a vida que a linguagem é viva que os eucariontes escrevem que há linguagem dentro da linguagem e o desvio nos salvará mas nem acredito não estou sozinha há três dias só o jornal internacional apita acredito no relógio, na cama, na blusa queria dizer acreditar na linguagem mas isto implicaria em outra coisa

tralha adentro  

livro feito no dia 15 de abril de 2018. [_primeiro_e_último_]

tralha adentro  

livro feito no dia 15 de abril de 2018. [_primeiro_e_último_]

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