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O sufoco silencioso e cruel

Naiara Silveira

Tem dias que não dá pra aguentar. Tem dias em que eu acordo, como milhões de outros no mundo, querendo que o dia acabe ali mesmo, na cama da qual nem levantei ainda. Sabe aquela sensação de confiança, quando você tem certeza que tudo dará certo? Eu não. Nunca senti isso. Os meus dias são preenchidos pela agonia e pela insegurança. ‘Eu não sou boa o suficiente’, diz a voz na minha cabeça. E eu acredito. Acredito todos os dias, quando ela me diz que nada dará certo no trabalho, que aquela prova vai ser horrível e que eu vou, com certeza, pegar recuperação na disciplina toda. Que aquela pessoa no ônibus está me olhando e me julgando, que deve ter algo no meu rosto, ora bolas. Acredito quando me dizem que não sou boa por causa dela, que me ensinou desde pequena a aceitar a minha inferioridade. Ela fez eu tomar pra mim responsabilidades que não eram minhas para agradar os outros. Fez eu me esconder em piadas, brincadeiras e joguinhos que me machucaram, mas fariam os outros sorrirem e gostarem de mim. Mas não por muito tempo. Quem gostaria de uma aberração como eu? Ela me fez acreditar que, é claro, era minha amiga. Me poupava de sofrer na frente dos outros e me fazia me fingir de forte. Até porque, isso que importa, não é mesmo? Não deixar que os outros saibam que, por dentro, estava quebrada em incontáveis pedaços pontudos, que me machucaram a cada respiro. Todos os dias são cheios de dor. Todos os dias ela se agarra, invisível, às minhas maiores inseguranças e medos - e se alimenta deles. Cada um ampliado até que a minha existência seja um tormento. E quando tudo parece bem, quando ela parece ter me dado uma trégua, tudo volta ao começo em um ciclo interminável de agonia. Eu me sinto inferior e me autosaboto em uma vã tentativa de confirmar tudo o que ela me ensina. Afinal, eu não sou digna de ser feliz. Todos os dias, ela me ganha um pouco mais. Leva um pouco mais da alegria, da inocência, da coragem, da segurança que já me eram tão raras. Todos os dias ela me destrói mais um pouco, quebrando em pedaços ainda menores a minha dignidade. Pedaços que não podem ser unidos nunca mais.


Assim, a vida se torna esse borrão de desejos não realizados, de sonhos esquecidos e de vagas memórias de felicidade. Assim, ela carrega consigo minha alma para a escuridão. Assim, ela me destrói, pouco a pouco, cada dia mais. Assim, a ansiedade faz de meus dias simples sopros de dor em um mundo de um sufoco invisível e cruel.

Crônica: O sufoco silencioso e cruel  

Crônica desenvolvida para a disciplina de Produção em Mídia Impressa, do Curso de Comunicação Social - Jornalismo, da Universidade de Santa...

Crônica: O sufoco silencioso e cruel  

Crônica desenvolvida para a disciplina de Produção em Mídia Impressa, do Curso de Comunicação Social - Jornalismo, da Universidade de Santa...

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