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Viscerais. Iconoclastas. Doces. Inquietos. Profícuos. Yago Barbosa e Yuri Marrocos são Forças da Natureza transmutadas em talento criativo, jovens companheiros peripatéticos que afrontam a norma, fogem das obviedades, pesquisam e propoem uma dramaturgia insurgente, desafiadora, tão essencial nesse tempo-espaço impregnado de escuridão em que vivemos. Nas páginas deste livro, a dupla de performers escribas nos chacoalha com quatro belos e relevantes textos acerca da violência na dramaturgia. Lindo de se ler! Cupertino Freitas Coletivo Peripécias


antologia PEDAÇOS


Capa & Ilustrações Tanilo Projeto gráfico & Diagramação Bianca Ziegler Revisão Suellen Salgado de Queiroz Sousa Produção Executiva Raisa Christina

B238 M361

BARBOSA, Yago, MARROCOS, Yuri. Antologia Pedaços / Yago Barbosa, Yuri Marrocos. Fortaleza: Nadifúndio, 2021. 94 p.

ISBN: 978-65-5556-157-9 B869.2 792

1ª edição Fortaleza Janeiro de 2021 Editora nadifúndio nadifundio.com


Yago Barbosa & Yuri Marrocos

antologia PEDAÇOS



DRAMATURGIAS QUE RESISTEM Em certo momento de sua vasta e complexa produção sobre a imaginação literária, Bachelard¹ diz que o poeta é o mais original e o menos passivo dos pensadores, pois seu trabalho vai muito além do agenciamento de temas, posicionamentos ideológicos, memórias. Sem negligenciar essas dimensões do pensamento, a imaginação poética age sobre a linguagem como um catalisador, que promove desvios, ramificações, deformações nos sentidos primeiros das palavras, nas imagens fornecidas pela percepção, para criar imagens novas, perturbadoras, que lançam o espírito em várias direções². Nessa perspectiva, o fazer poético, para Bachelard, é uma forma de audácia³. Nesse sentido, pode-se dizer que Yago Barbosa e Yuri Marrocos, jovens dramaturgos que assinam os quatro textos desta antologia, são audaciosos. Machados e Pain & Joy, de Yago Barbosa, Muros agudos iguais à fome e Pense nas estrelas como se fossem o cu dos anjos, de Yuri Marrocos, são dramaturgias que resistem. ¹ BACHELARD, Gaston. O direito de sonhar. Tradução de José Américo Motta Pessanha, Jacqueline Raas, Maria Isabel Raposo, Maria Lúcia de Carvalho Monteiro. São Paulo: DIFEL, 1986.

² ___________________. A terra e os devaneios da vontade: ensaios sobre a imaginação das

forças. Tradução de Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2013. ³____________________. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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Primeiramente, ao encaixe em referentes conceituais ou tendências poéticas. Qualquer tentativa nesse sentido seria não apenas precipitada, visto que se tratam ainda das primeiras inserções dos autores na escrita dramática, como uma espécie de traição ao impulso inaugural, irrequieto, irreverente, exploratório de suas escritas. Mesmo estabelecendo a violência como operador para uma “reflexão poética sobre a sociedade contemporânea”⁴, as peças resistem a qualquer univocidade na relação entre o mundo artificial da ficção e o mundo sociopolítico. Assim, importa menos se o espaço é uma quitinete, um quarto, um banheiro, um hospital ou simplesmente indefinido, e mais a dialética interior / exterior, que nunca é exposta em termos dicotômicos, simplistas. O interior pode ser, ao mesmo tempo, espaço de clausura esconderijo, devaneio, brincadeira, trabalho, tortura. Da televisão, por exemplo, elemento dramático acionado em Machados e Pain & Joy e que pode ser tomado como referência ao mundo exterior, curiosamente o autor sugere que o espectador não veja as imagens, apenas luzes que se projetam sobre a cena e os sons, e estes podem ser de cenas violentas, palavras doces ou risadas gravadas do tipo usado em programas humorísticos. ⁴ Projeto Antologia Pedaços fomentado com recursos da Lei 14.017/2020 – Aldir Blanc – Por meio

da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) através do Inciso III – Fomento a artistas, agentes culturais e profissionais da cadeia produtiva da cultura – Chamada Pública nº 009/2020, Fortaleza

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Nessa dialética de movimentos paradoxais, os autores conseguem, cada um à sua maneira, superar oposições fáceis do tipo vítima x opressor, indivíduo x instituições sociais, bons x maus, no trato da questão da violência e o modo como ela atravessa a vida contemporânea. Em Machados, a título de exemplo, enquanto assiste na televisão a uma cena romântica repleta de clichês, o casal se devora – literalmente – em seu próprio enredo clichê de traição matrimonial. A porta do quarto fechada é, simultaneamente, medo e desejo, ameaça e saída, flecha e alvo que estimulam os jogos de dor e prazer entre Pain e Joy, emblemáticos nomes dos “personagens” que dão nome à peça. A linearidade do tempo do mundo sociopolítico, por sua vez, é perturbada no universo ficcional pela instauração de uma temporalidade em suspensão. Não há um antes, uma origem, um ponto de equilíbrio rompido pela emergência de um conflito que, por sua vez, gerará desdobramentos. Em Machados, Júlia já aparece em cena sem pernas, “se arrastando vagarosamente pelo chão deixando um rastro vermelho atrás de si”. Ou seja, o casal se devora em contínuo. Não se trata de uma situação dramática a se desenrolar e se resolver, mas de uma imagem desviante, desfiguradora de certa percepção estabelecida na cultura sobre viver junto, acasalar, amar. Em Muros agudos iguais à fome, ora o muro está na altura da cintura dos personagens, ora bem alto a ponto de sequer poderem ser vistos pela plateia, para em seguida ser destruído, depois reconstruído, mais adiante nem existe mais, porém, 9


persiste nos personagens o gesto de construí-lo, numa inquietante imagem da gestão do tempo pessoal imposta pelo mundo do trabalho, uma temporalidade perturbadoramente cíclica na qual, no entanto, não se retorna nunca ao mesmo ponto. Em Pense nas estrelas como se fossem o cu dos anjos, há um ontem no qual a ida ao teatro dispara o desejo de escrever peças, mas a ele não segue uma sequência de ações para realizar o desejo. Há, sim, um mosaico de ironias em torno das instituições sociais envolvidas na criação literária. Além do espaço e do tempo, outro elemento basilar da construção dramática que é radicalmente esfacelado é o personagem. Pain e Joy, descritos como dois jovens de não mais que vinte anos, assim como Júlia e Paulo, um casal qualquer, gente como a gente, como sugerem os nomes banais, na verdade são figuras-forças de pulsões psicossociais. Neles, latejam com igual intensidade vida e morte, prazer e dor. Não têm um objetivo a ser alcançado, apenas se entregam a jogos ora lúdicos, ora violentos, que os mantêm presos uns aos outros. Em Muros agudos iguais à fome Yuri Marrocos recusa literalmente qualquer humanidade. Mesmo o Homem e a Mulher não passam de autômatos executores de tarefas a eles determinadas. A eles se juntam o Boi, a Vaca e alguns Peixes num espaço que, aos poucos, se revela um estábulo, o que à frente é desconstruído. Em Pensem nas estrelas como se fossem o cu dos anjos, junto com o dramaturgo, o velho e o médico, só dois atuantes têm nome, Jerônimo e Margô e, mesmo esses, são apenas figuras poéticas.

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Finalmente, vale ressaltar a resistência dessas dramaturgias ao enquadramento de gênero. De fato, o investimento quase inflacionário no desvio, na dessemelhança, nas imagens de dissenso, no nonsense, produz zonas de trânsito tênue ou mesmo de atrito entre drama e humor. Ambos são dramaturgos habilidosos, capazes de jogar com os próprios códigos de seus universos ficcionais para propor inflexões na dinâmica entre sua imaginação de escritores e a imaginação de seus possíveis leitores. Todas as quatro peças terminam com uma nota de ironia ao próprio jogo dramático proposto como se, num último lance de provocação, eles quisessem nos dizer da recusa de qualquer “mensagem”, de qualquer possibilidade de colar os pedaços, de qualquer pretensão de relação direta entre o que eles enunciam e o que efetivamente se processa na cena da leitura ou do palco. Não espere desses jovens dramaturgos um convite à reflexão emancipadora, à mobilização coletiva para fazer frente ao status quo, o que não significa que estão abolidas essas possibilidades. O convite final é para permanecer na estranheza, esse lugar tão incômodo quanto produtivo. Edilberto Mendes

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MACHADOS Yago Barbosa



PERSONAGENS Júlia Paulo Voz

CENA ÚNICA Interior de uma quitinete. No centro do palco um sofá, à sua frente uma mesa com gaveta. Uma televisão ligada repousa no proscênio, a luz da tela do aparelho tingindo a sala de cores em constante transição. Não há janelas. Paulo está sentado no sofá assistindo à televisão. Júlia, sem pernas, entra se arrastando vagarosamente pelo chão deixando um rastro vermelho atrás de si. Silêncio. Ela finalmente chega ao sofá, onde se acomoda próxima a Paulo e assiste à televisão. Suas pernas amputadas não param de sangrar. Nenhum dos dois tira os olhos do aparelho durante toda a ação. As falas se desenvolvem em um ritmo lento, quase dormente. JÚLIA: A geladeira está vazia. Pausa. JÚLIA: A geladeira está vazia. PAULO: Não jantamos peixe ontem? JÚLIA: Não. PAULO: Ah... Então ontem foi o dia do bife… JÚLIA: Também não. PAULO: Da verdura… JÚLIA: Não. 15


PAULO: Você fez aquela sopa, agora eu lembro. Tinha pedaços de batata misturados com farinha. A batata estava muito dura... JÚLIA (interrompendo): Está vazia há muito tempo. Paulo dá um tapa em Júlia. Silêncio. Júlia tira uma carteira de cigarros e um isqueiro do bolso. Começa a fumar. PAULO: Achei que tinha parado. JÚLIA: Achei que tínhamos concordado que você sairia de casa. PAULO: Não te fazem bem. JÚLIA (se aproximando um pouco mais de Paulo): Você não me faz bem. PAULO: Eu não acabo com teus pulmões. JÚLIA: Não, você acaba comigo. (Pausa. Fumando.) A geladeira está vazia. PAULO: Não jantamos peixe ontem? JÚLIA (queimando o rosto de Paulo com o cigarro): Não. PAULO (dolorido): Eles estavam falando do que acontece quando você contrai o vírus. JÚLIA (voltando a fumar): Qual vírus? PAULO: O chinês. JÚLIA: E o que isso tem a ver? PAULO: Ele ferra com teus pulmões. JÚLIA: É mesmo? E o que os outros fazem? PAULO: O quê? JÚLIA: Os outros vírus. Devem existir outros vírus… Sei lá. O vírus grego por exemplo… PAULO: Por que existiria um vírus grego? JÚLIA: Ou espanhol, ou polonês, ou americano, ou brasileiro… PAULO: Por quê? JÚLIA: Porque eu não entendo. Por que haveria um vírus chinês e 16


não um brasileiro? PAULO: Por que está falando assim? JÚLIA: Ele não tem outro nome? Um menos...racista. PAULO: É só uma forma de falar... JÚLIA: Racista. PAULO: Isso importa agora? JÚLIA: Mais do que eu fumar, menos do que a geladeira vazia. PAULO: Eu só me preocupo com você. JÚLIA: Não deveria ir trabalhar? Silêncio. Paulo se inclina e abre a gaveta da mesinha de centro. Retira um machado. Entrega o instrumento para Júlia. PAULO: Eu poderia fazer daqui de casa. É só trabalho de oficina. Eles querem que a gente escreva relatórios mesmo não tendo nada para relatar. JÚLIA: Eu tenho algo. Tenho uma coisa a relatar. PAULO: Não queria trazer o trabalho para casa. JÚLIA: Está me ouvindo? PAULO (estendendo o braço sobre a mesinha): Não queria que isso acontecesse. JÚLIA: A geladeira está vazia. PAULO: Mas você e eles insistem… JÚLIA: Escreve isso. PAULO: Todos insistem. JÚLIA (levantando o machado): A geladeira está vazia. PAULO: Todos... JÚLIA (impaciente): Escreve! PAULO: Sempre... JÚLIA: A geladeira está vazia. PAULO: Eu... JÚLIA (explodindo): A porra da geladeira está vazia! 17


Júlia corta a mão de Paulo. Continua a cortar com o machado mesmo a mão já tendo sido separada do braço. JÚLIA: Vazia! Vazia! Vazia! Vazia! Vazia! Vazia! Vazia! Vazia! Vazia! Júlia deixa o machado sobre a mesa e cobre o rosto ofegante. Paulo não reage, apenas continua a assistir à televisão. PAULO: Eles disseram que assim era melhor. Júlia acende outro cigarro e continua a fumar. JÚLIA: Melhor para quem? PAULO: Para a economia. JÚLIA (bufando): Foda-se a economia. PAULO: É. Foda-se. (Pausa) Já faz um tempo. JÚLIA: Do quê? PAULO: Que a gente não fode. JÚLIA: E vai continuar assim. PAULO: Por quê? JÚLIA: A cama dela parece ser melhor não acha? PAULO: Eu errei. JÚLIA: Lembrei. Não tínhamos concordado em você sair de casa? PAULO: Sabe que agora não posso. JÚLIA: Mentiroso. PAULO: É verdade. JÚLIA: Você sempre pode sair, correr pra onde quiser... PAULO: Mas eu não quero fazer isso. JÚLIA: E o que você quer? PAULO: Foder. JÚLIA (com desdém): Não vai ser comigo. PAULO: Você sabe como me machucar… 18


JÚLIA (apontando à televisão): Gostei do vestido mas prefiro o outro. PAULO: Tudo é contexto. JÚLIA: E no contexto atual eu não vou deixar você encostar em mim. PAULO: Você jogou a cadeira em minha direção. JÚLIA: Você merecia. PAULO: Quebrou meu braço… JÚLIA: Justo. PAULO: Tive que dizer a todos que tinha sido um acidente. JÚLIA: Ser homem é aceitar as consequências… PAULO: Ela era uma cliente Júlia. JÚLIA: Não importa. PAULO: Importa. JÚLIA: Claro que não. PAULO: Eu poderia ter contado a alguém... JÚLIA: E quem acreditaria? PAULO: Eu quero foder. JÚLIA: Não estou me sentindo bem... PAULO: Eu disse que quero foder. JÚLIA: Minha cabeça está doendo. PAULO: Júlia… JÚLIA: Cala a boca! Silêncio. PAULO: Eu poderia te forçar se quisesse. JÚLIA: Você não tem nervo. PAULO: Duvida? JÚLIA: Não consegue manter a porra de uma geladeira cheia. PAULO: Isso não quer dizer nada. JÚLIA: Bem mais do que você acha. PAULO: Sabe que não dormi com ninguém. 19


JÚLIA (murmurando): Filho da puta… PAULO: Eu só fui jantar com ela porque a empresa pediu. JÚLIA: E por que não me disse? PAULO: Você teria surtado. JÚLIA: Claro, era melhor deixar eu encontrar o recibo do motel. PAULO: Nós só conversamos. JÚLIA: Paga um motel, mas não enche a geladeira. PAULO: A empresa pagou. JÚLIA: Era teu nome que constava no recibo. PAULO: Eu te amo. JÚLIA: Cala a boca… PAULO: Já faz tempo desde a última vez… JÚLIA: Não encosta em mim. PAULO: Mas eu quero. JÚLIA: E não vai. PAULO: Eu sei te dar prazer. JÚLIA: Prefiro o cigarro. PAULO: Um vício. JÚLIA: Melhor que teus oito segundos. Pausa. PAULO: Eu vou foder. JÚLIA (apontando à televisão): Eles são lindos juntos... PAULO: EU VOU FODER! JÚLIA (sorrindo assistindo à televisão): A casa deles é linda. Paulo se joga contra Júlia. Ela se resiste com um braço enquanto sorri assistindo televisão. Estende o outro braço, com o qual segura o cigarro, em cima da mesinha de centro. Ele fica em cima dela e abre o zíper da calça. JÚLIA (enquanto Paulo tenta despi-la): Se eu tivesse um jardim 20


desse tamanho, encheria de lírios brancos. Minha vó tinha um assim. A gente ficava brincando de esconde-esconde atrás dos vasos das flores. Acho que foi lá que dei meu primeiro beijo. (Paulo apalpa Júlia) Minha prima até tentou colocar a língua! Mas foi só isso. Depois a gente voltou a brincar como se nada tivesse acontecido. (Ri) A sala deles também é linda, tem até lareira. Um espaço para os convidados… (Paulo pega Júlia pelo pescoço e a encara ofegante) Lembra quando as pessoas podiam se encontrar? Só pra conversar, dançar e brincar? (Ri) Sempre fui péssima dançarina! Eles são tão lindos… Que crianças fofas! Essas bochechas avermelhadas! (Paulo a solta, pega o machado e o levanta) Também queria provar esse champanhe… Se bem que com as escadas dessa casa… Paulo corta os dedos de Júlia que seguram o cigarro. É um golpe limpo e seco. Ela deixa de sorrir. Silêncio. Paulo sai de cima dela e se acomoda novamente no sofá. JÚLIA: Você é um filho da puta sabia? PAULO (aponta à televisão): Eles não fumam. JÚLIA: Eles têm comida na geladeira. PAULO: Estão presos como nós. Uma hora a comida deles também vai acabar. JÚLIA: E nós não veremos acontecer… PAULO: Você queria ver? JÚLIA: Talvez… (Pausa.) Minha cabeça parece prestes a explodir. PAULO: Sádica. JÚLIA: Acho que estou ficando com sono… PAULO: Eles são pessoas como nós. JÚLIA (bufando): Como nós… PAULO: Eles só querem ser felizes. Amar… JÚLIA (à televisão): Tudo bem, olha pra eles. O que eles têm que 21


nós não temos? PAULO: Amor? JÚLIA (ri cinicamente): Sério? PAULO: Então… Você não vai me amar por causa de comida? JÚLIA: Não é isso. Olha melhor. PAULO (incorporando-se, perscrutando a televisão): O quê? JÚLIA: Tenta mais perto. (Paulo se inclina) Mais...(Paulo se inclina ainda mais, alongando o pescoço) Mais… (Júlia pega o machado) Viu? PAULO: Eu só vejo ela conversando com… Júlia corta a orelha de Paulo. JÚLIA (joga o machado no chão): Esquece. PAULO: O que disse? JÚLIA (puxando Paulo de volta): ES-QUE-CE. PAULO: Mas foi você quem começou. JÚLIA: Não é verdade… (Mede a temperatura dele no pescoço) Não está com frio? PAULO: Hã? JÚLIA (gesticulando): FRI-O? PAULO: Só meio tonto. Entumecido… JÚLIA: Seria melhor ir pro quarto. PAULO: Não. Eu não vou embora até você dizer o que não temos. JÚLIA: Eu já disse. PAULO: Quero ouvir de novo. JÚLIA: Eu te conto no quarto. PAULO: Não, precisa ser aqui na frente deles. JÚLIA: Eles já fizeram o suficiente. PAULO: Eles são como nós. JÚLIA (irritada, sem forças): Para de dizer isso… PAULO: O problema não é a geladeira. Não é ela não ter comida. JÚLIA: Me leva pro quarto. 22


PAULO: Você morreria de fome comigo, não morreria? JÚLIA: Eu não quero morrer. PAULO: Então deixa eu ver. JÚLIA: O quê? PAULO: Você sabe. JÚLIA: Não, não sei. Paulo pega o machado. PAULO: Você sempre foi assim… JÚLIA: Sincera? PAULO: Sádica. Não se importa com a dor dos outros. JÚLIA: Eu ainda não tentei estrangular ninguém. PAULO: Já disse que errei. JÚLIA: Me leva pro quarto... PAULO: Você também errou. JÚLIA: Ainda tenho as marcas dos dedos. Quer ver? PAULO: Não deveria falar assim comigo. JÚLIA: Sabe que a culpa não é minha. Paulo, eu to cansada... PAULO: E por que não foi embora ainda? JÚLIA: Eu te odeio. PAULO: Por quê você sabe que não vai poder ter isso em outro lugar. JÚLIA: Claro, quem não gostaria de ser estrangulada? PAULO: Então deixa eu ver. JÚLIA (cansada): Para… PAULO: Deixa eu ver a cor da sinceridade. Paulo afunda o machado no abdômen de Júlia. Ele abre o torso dela. Ele olha. PAULO: Eu sabia. JÚLIA: Eu te odeio. 23


PAULO: Não, você me ama. Júlia toma o machado de Paulo e abre o torso dele. Olha. Chora. Paulo se inclina e morde o pescoço de Júlia. Arranca um pedaço. Aos poucos ele começa a mordê-la, a comê-la. Júlia faz o mesmo com ele. Eles se devoram. Blackout. Uma voz provinda da televisão preenche a escuridão. VOZ (rindo alegremente): O segredo de nosso relacionamento? Acho que nos completamos, um ao outro... (Risos)

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MUROS AGUDOS IGUAIS À FOME Yuri Marrocos


*Atualização de peça escrita pelo autor durante o Ateliê de Escrita Dramática, no Porto Iracema das Artes.


PERSONAGENS Mulher Homem Boi Vaca Peixe I Peixe II

PRÓLOGO Ilumina-se o monte. Deslumbra-se por essa imagem durante quarenta e cinco segundos. Os dois personagens entram em cena, ficam na penumbra da luz. Ilumina-se todo o palco. A Mulher, ao microfone, fala para a plateia. O Homem está de costas, como quem não ouve, parece cego de tanto não ouvir.

ZERO Os personagens indicados por nome de animais usam máscaras felpudas do bicho correspondente. BOI: Pode me dizer onde estou, senhor? Não há resposta. BOI: Não sei por que perguntei onde estou. É claro que eu sei onde estou. E o que eu vim fazer. 29


Não há resposta. BOI: Mas eu precisava perguntar. Para ter certeza mais uma vez. Não há resposta. Dois homens seguram Boi pelas mãos enquanto um terceiro aquece o ferrete até ficar vermelho. Empurra o ferro quente nas costas de Boi até deixar uma marca com o nome PIGS. Boi chora sozinho no palco enquanto um feixe de luz vai apagando na sua ferida.

I Silêncio. A Mulher está lendo um jornal. MULHER: Por que tanto pasto? HOMEM: Que horas são? MULHER: São 20:02. Não te interessa o que acontece com a gente? HOMEM: Ninguém gosta de notícias ruins. O que está dizendo aí? MULHER: Eles estão vomitando o pasto deles sobre a gente. HOMEM: Quem são eles? MULHER: Os sádicos. Querem a gente como querem lixo. HOMEM: Se está tão incomodada, escreva uma carta. Que horas são agora? MULHER (olha para o relógio): Ainda são 20:02. HOMEM: Você também não pode sentir raiva de tudo que se move. Esses jornais publicam o que bem querem. MULHER: Eu acho que você pensa como alguém que não passa o dia empilhando tijolos um em cima do outro com uma vara de porcos roncando no seu ouvido. HOMEM: Está nisso aí que você está lendo? Que horas são? MULHER (olhando para o relógio): 20:03. Não sei, ainda não 30


encontrei nada aqui. (procura no jornal) HOMEM: Está todo mundo sem esperança. MULHER: Olhe para você: está fedendo, com mau-hálito. Sua cueca deve estar toda mijada e cagada. Que horas são? HOMEM (olha para o relógio): Poderia ser pior: pelo menos não morro de fome. 20:04. MULHER: É isso que está te fodendo. Só não tiram sua vida porque precisam dela para te explorar. HOMEM: Existe muito mais na vida do que só ficar revoltada. MULHER: Isso é a coisa mais covarde que eu poderia ouvir. HOMEM: Você pelo menos está viva, não está? MULHER: 20:05. HOMEM: Eu não perguntei que horas são. MULHER: Eu queria saber que horas eram. HOMEM: Por quê? MULHER: Porque eu não ficarei pra sempre embrenhada alimentando esses animais. Mulher joga ração no estábulo. MULHER: Você vai. Porque você é uma cabra. HOMEM: Uma cabra? Você me dá dor nas costas. MULHER: Isso é exatamente o que uma cabra diria. Você é uma cabra. HOMEM: Se eu sou uma cabra, você é o quê? Que horas são? MULHER: 20 e alguma coisa. HOMEM: Você é uma vaca. MULHER: E você vale menos que sua cueca pura mijo.

II O muro está na altura da cintura do Homem. 31


HOMEM: Já é hora de comer? MULHER: Sim. Vamos? HOMEM: Preciso trabalhar. MULHER: Precisa comer. Está pálido. (pega um saco de pão meio velho, tira um pão dele, divide em dois e oferece ao Homem) HOMEM: Já disse que não quero comer. (recusa o pão) MULHER: Coisa mais irritante. Come logo. (pega o pão e eles comem) (pausa longa) HOMEM: Você está vendada, sabe? Tirando o fato de que temos mãos para levantar muros não somos muito diferentes deles. MULHER: As mãos são para derrubá-los também... Silêncio. MULHER: Você tem alguma memória? HOMEM: Nem minha memória tem mais memória. MULHER: Desde que cheguei aqui não piso em casa direito. Você não sente falta da sua família? Silêncio. HOMEM: Eu não tive tempo de ter uma: muito trabalho. MULHER: Nem pais? Nem um tio distante no interior? HOMEM: Nada. Que horas são? MULHER: 20:19. Silêncio. MULHER: Você sabe quem foi demitido ontem? HOMEM: Quem? MULHER: O que cuidava dos cavalos. HOMEM: Foi demitido por quê? MULHER: Não sei. Quem me disse foi a moça que cuida das 32


galinhas. Silêncio. HOMEM: Ei, você lembra o que fizemos ontem? MULHER: O quê? HOMEM: A mesma coisa que fizemos hoje. A sirene toca. Eles se levantam. A Mulher sai de cena.

III VACA: Boa noite, senhor. Você não devia estar aqui. O senhor está bem? Precisa de algo? Pausa longa. Debruça-se sobre o som rítmico da faca cortando um pedaço de fígado. Vaca espirra e limpa o nariz. VACA: Não, senhor. Sinto muito. Aqui é apenas onde fazemos a carne. Não poderei lhe ajudar. Enfia a faca no fígado e a deixa em pé. Enxuga o nariz da máscara com as costas da mão. VACA: Não sei nada sobre isso. Estou aqui apenas preparando vosso alimento, senhor. Aponta para o fígado. VACA: Esse aqui também não teve tanta sorte.

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IV Algumas horas depois. O muro já está bem alto. A Mulher coloca água dentro do estábulo. MULHER: Eu fui lá. (despejando a água) HOMEM: Onde? MULHER: Falar com eles. HOMEM: Como eles são? Nunca os vi. MULHER: Porcos imundos. HOMEM: Por quê? MULHER: Acho que você precisa ir lá comigo. HOMEM: Negativo. MULHER: Por quê? HOMEM: Não vai funcionar. MULHER: Um de nós precisa ir. HOMEM: Vai você. MULHER: Eu já fui. HOMEM: Vai de novo. Silêncio. MULHER: Esses crápulas têm que pagar pelo que disseram! HOMEM: Mas o que eles falaram? MULHER: Eles grunhiram para mim! HOMEM: Mas como era o grunhido? Era mais para um ronco, amigável e compreensivo, ou um grunhido de muita raiva? MULHER: De muita raiva. HOMEM: Não falei! Silêncio. HOMEM: Vai fazer o quê? 34


MULHER: Eu já fiz. (silêncio) Eu roubei um cigarro deles... HOMEM: É isso que você fez? MULHER: Claro que não. (silêncio) Eu também roubei o fogo. (pega uma caixa de fósforos) HOMEM: Como que eles tinham fósforos se porcos não fumam? MULHER: Porcos fumam o tempo inteiro. HOMEM: Então você está me dizendo que agora animais fumam. MULHER: Não é isso que eu estou dizendo. (pausa) Eles sempre fumaram. HOMEM: Saiu nos jornais os animais fumando? MULHER: Galinhas fumam, escorpiões fumam, cavalos fumam, aqueles peixinhos bem pequenininhos que ficam nas pedras quando a maré seca, eles também fumam. Cavalos-marinhos eu já não sei, mas devem fumar, né? Se cavalos e peixes fumam. (acende o cigarro e oferece ao Homem) HOMEM: Nunca vi um cavalo-marinho fumando… (recusa o cigarro) MULHER: Você já vai passar o resto da vida trabalhando. Fume um pouco. HOMEM: Eu não fumo. Faz mal. MULHER: Tinha esquecido que você é uma cabra. HOMEM: O que você quer dizer com isso? MULHER: Já viu uma cabra fumando? Silêncio. MULHER: Mas é só um cigarro. HOMEM: Eu não fumo. MULHER: Por quê? HOMEM: Meu pai. Uma vez fui comprar cigarro com ele e me perdi no caminho de volta. MULHER: Mas você estava fugindo de quê? (Eles sentam um ao lado do outro. Ela puxa a fumaça e traga). É assim, você suga como se estivesse sugando o ar. Depois segura a fumaça no pulmão. E 35


solta. (oferece o cigarro ao Homem) HOMEM: Como se estivesse sugando o ar? MULHER: Sim. Homem fuma e tosse muito. MULHER: Precisa fumar com jeitinho. Silêncio. HOMEM: Que horas são?

V Dia seguinte. A Mulher desconstrói o muro que o Homem construiu. O Homem reconstrói. MULHER: Por que tanto pasto? HOMEM: Que horas são? MULHER: Estou sem memória. HOMEM: Esses jornais publicam o que bem querem. MULHER: Você também não pode acreditar em tudo que lê nos cigarros. Silêncio. MULHER: Eles escrevem qualquer coisa no rótulo! Que horas são? HOMEM: Pelo menos você está viva, não está? 20:31. MULHER: Poderia ser bem pior, sabia? HOMEM: Pior? Silêncio. 36


MULHER: Como vai a dor nas costas? HOMEM: Cada dia dói mais. O muro já está na metade e centralizado, quase proibindo a vista do outro lado. Eles não se enxergam. A sirene toca. Eles não falam mais um para o outro. MULHER: Já é hora de comer? HOMEM: Preciso comer. Estou pálido. MULHER: Come logo. (pega o saco de pão meio velho, tira um pão e o entrega por cima do muro) O Homem aceita o pão. HOMEM: Você é vendada. MULHER: Você não sente falta do teu lar? HOMEM: Não tive um: trabalho. MULHER: Nada? Nem um distante? HOMEM: Nada. Silêncio. MULHER: Você sabe quem foi demitida hoje? HOMEM: Quem? MULHER: A moça que cuida das galinhas. HOMEM: Foi demitida por quê? MULHER: Não sei. Ninguém me contou ainda. Silêncio. MULHER: Você lembra o que fizemos ontem? A sirene toca. 37


VI PEIXE I: Pega você. Pensa. PEIXE II: Não. Você. Pensa. PEIXE I: Não tenho coragem. Pensa. PEIXE II: Você nunca fez isso antes? Pensa. PEIXE I: Não quero que minha mão fique com cheiro de peixe. Pensa. PEIXE II: Você precisa me ajudar. Pensa. PEIXE I: Por quê? Pensa. PEIXE II: Você também matou eles. Peixe I e Peixe II jogam a água do aquário na privada com vários 38


peixinhos mortos dentro. Eles se olham. Dão descarga. Esperam cessar o fluxo hídrico da descarga. Choram.

VII O muro está tão alto que as personagens não se enxergam, nem o público. MULHER: Eu vou roubar outro cigarro. HOMEM: É isso que você vai fazer? MULHER: É. (tira o cigarro do bolso) HOMEM: Roubou o fogo também? MULHER: Claro. (tira uma caixa de fósforos do bolso) Silêncio. MULHER: Você já viu um cavalo-marinho? (acendendo um cigarro) HOMEM: Só ouvi falar. MULHER: Será que é mais cavalo ou é mais peixe? HOMEM: Não sei. Será que tem quatro patas? MULHER: Acho que não. Como é que eles iam nadar? HOMEM: Nadando. Ouvi dizer que as baleias eram cachorros que aprenderam a nadar. MULHER: Que merda. Silêncio. MULHER: Acho que eles têm cauda. E escamas. HOMEM: Não, assim eles não seriam cavalos. MULHER: Mas se tivessem quatro patas não seriam peixes. Silêncio. 39


HOMEM: Como será que eles compram cigarros? MULHER: Ah, com certeza devem vender lá no fundo do mar. HOMEM: Estou perguntando como eles compram se eles não têm pata para segurar o dinheiro. MULHER: Acho que eles pedem para alguém comprar. Silêncio. MULHER: Não quer? (oferecendo o cigarro) HOMEM: Como se estivesse sugando o ar? MULHER: Isso. Homem fuma. Consegue. Fumam até o cigarro acabar. MULHER: Que horas são? A sirene toca. A luz se apaga deixando ver apenas sombras.

VIII O cenário desconstruído. Tijolos e flores estão espalhados indistintamente pelo palco. O Homem constrói um muro invisível e a Mulher está no microfone estralando a língua no ritmo de um relógio. HOMEM: Que horas são? MULHER: (estrala a língua) 20:41. HOMEM: Estão vomitando pasto sobre a gente. MULHER: (estrala a língua) 20:41. HOMEM (fala ao mesmo tempo): Escreva uma carta. MULHER: (estrala a língua) 20:42. HOMEM: Quem são eles? 40


MULHER: (estrala a língua) 20:42. HOMEM: Que horas são? MULHER: (estrala a língua) 20:42. HOMEM: Eu não perguntei que horas são. MULHER: (estrala a língua) São 20:43. HOMEM: Está vendo? Isso é exatamente o que uma cabra diria. MULHER: (estrala a língua) Dois-zero-dois pontos-quatro-três. HOMEM: (rasga o saco de pão, não tem mais nada) Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. MULHER: (estrala a língua) Ponteiro dos minutos indo para o nove e ponteiro das horas indo para o nove também. HOMEM: Isso é a coisa mais covarde que eu poderia ouvir. Apaga a luz.

IX Um foco de luz na Mulher e outro no Homem. A Mulher fala ao microfone enquanto come dois sanduíches com batata frita e está com uma sacola parda na cabeça, dois furos apenas para os olhos. Homem está com uma máscara de cabra. MULHER: Você viu? — perguntaram para mim — aquele velho feio, que chora e abandona uma sacola meio parda, eu acho que com sanduíches e batatas, e que vai pegar um navio não sei para onde, e que chora não sei por quem, mas que está ali com esse casaco carmim que o deixa cada vez mais velho e esse é o teu mistério. Mas esse é só teu. Poderíamos certamente manter algum tipo de correspondência entre a gente, sabe? Mas eu acho que não faz mais sentido falar de quem sou eu. Muito menos do seu cavalo-marinho que me desperta um tipo estranho de saudade. Eu gostaria de quebrar os muros que interpõem meus caminhos. Eu gostaria de te 41


escrever uma carta que nunca farei questão de te enviar, se é que você me entende: eu perguntaria sobre você. Sobre a sua história que ninguém contou. De qual história que estamos falando? Você está sobrevivendo direito? Alguma novidade? Eu sim: comecei a fumar, se é que você me entende. Luz apaga. Cabra berra. Luz acende. MULHER: Eu roubei um cigarro. HOMEM: Faz mal. Luz apaga. Acende. MULHER: Você não sente falta do seu ar? Homem tosse. A luz se apaga. Acende. Os dois personagens estão em pé. HOMEM: Que ar? A Mulher ri histericamente. Apaga. Acende. A Mulher está fumando o cigarro e o Homem está construindo um muro em torno de si mesmo. HOMEM: Que ar? Que ar? Que ar? Que ar? A Mulher está acendendo vários fósforos e jogando na terra. Apaga. Acende. A mulher solta a fumaça. O Homem tenta sugar a fumaça dela. MULHER: Fumar com jeitinho... Apaga. Acende. O Homem e a Mulher estão jogando pasto dentro 42


do estábulo. Apaga. Acende. MULHER: Você foge de quê? Apaga. Acende. O Homem e a Mulher estão comendo o pasto. HOMEM: Não. Apaga. Acende. Homem e Mulher derrubam o muro. Apaga. Acende. HOMEM: Não. Homem e Mulher derrubam as cercas que delimitam o estábulo. Apaga. Acende. MULHER: Que horas são? As luzes vão se apagando lentamente. Mulher acendendo vários fósforos e segurando até o fogo queimar seus dedos. Apaga-se totalmente. O público não está mais em um estábulo. Acende.

FIM

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PAIN & JOY Yago Barbosa



PERSONAGENS Pain Joy

Cena I Sala cinza. Paredes lisas. No proscênio, uma televisão. A luz do aparelho ilumina o quarto. Brinquedos, livros e lençóis estão espalhados pelo chão. No fundo à direita um beliche, à esquerda uma porta semiaberta. A escuridão espreita do outro lado da porta por uma fresta. Dois pratos vazios repousam próximos a ela. Pain e Joy estão sentados no chão assistindo à televisão. São jovens, não mais de 20 anos. Vestem somente macacão. Pain usa luvas. Joy diversos band-aids grudados e ataduras envoltas nos braços nus. Estão descalços. Pain estremece. Joy assiste à televisão impassível. Ouvem-se miados. JOY: Eu também seria capaz de estrangular um gato. Silêncio. JOY: Se eu tivesse a oportunidade estrangularia. Ouviu, Pain? PAIN: Por que você faria isso? Joy dá de ombros. Pausa.

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PAIN: Eu não acredito. JOY: O quê? PAIN: Em você. JOY: Por quê? PAIN:Você não é esse tipo de pessoa. JOY: Seria se eles pedissem. Uma vez chutei um cachorro. PAIN: Para. JOY: É verdade. Eles tinham atado a coleira dele na perna de uma mesa e deixado uma nota na parede. Tava escrito “chute”. PAIN (cobrindo as orelhas): Não quero saber. JOY: Chutei. PUF! Pain cobre as orelhas com força. JOY: Até que foi divertido. PAIN: Não diz isso. Nunca é divertido. JOY: Mas eu me divirto. PAIN: Isso não quer dizer que seja divertido. JOY: Nem que seja chato. PAIN: Não é chato, é horrível. Com eles sempre é horrível. JOY: Então não vai se importar se eles não voltarem. Pausa. PAIN: Tô com medo, Joy. JOY: De eles não voltarem? PAIN: Daqueles pratos vazios. JOY: Talvez a gente só morra. PAIN: É, talvez... JOY: Ou a gente poderia sair. Pain olha para Joy incrédulo. 48


JOY: É verdade…Tem medo de mais alguma coisa? PAIN: De eles voltarem. Blackout.

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1ª Etapa Uma mesa e uma cadeira. Sobre a mesa uma bandeja com guloseimas. Entra Joy. Senta-se e devora os doces sujando o rosto no processo. Sorri. Fim da 1ª Etapa. É importante que o ator não se limpe.

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Cena II Mesmo quarto. Sons violentos saem da televisão. Pain está encolhido na cama debaixo do beliche envolto em lençóis. Joy abre um saco de batatas fritas do outro lado do quarto. JOY (oferecendo): Você quer? PAIN (tentando se levantar): De onde tirou isso? JOY: Lembrei que me deram da última vez pelo bom comportamento. PAIN (desiste, permanecendo sentado): Não quero. JOY: Só tenho essa bolsa, se terminar… PAIN: Pode comer. JOY: Mas aí você… PAIN: Pode comer. JOY: Então você quer morrer logo… PAIN: Batatas fritas não separam ninguém da morte. É só questão de tempo. JOY: Eu quero ter mais tempo. PAIN: Claro que quer. JOY: Pega a bolsa. PAIN: Não. JOY: Se você não comer eu...eu...eu não como! PAIN: Come. JOY: Não como. PAIN: Come! JOY: Não como! PAIN: Mentiroso. Joy joga a bolsa no chão próximo da porta. 51


JOY: Eu vou chutar fora se você não comer. PAIN: Não faz isso. JOY: Duvida? PAIN: Joy, me escuta... JOY: Dez… PAIN: Escuta! JOY: Nove… PAIN: Nada vai mudar. JOY: Oito… PAIN: Ela vai continuar voltando... JOY: Sete… PAIN: ...uma e outra vez. JOY: Seis… PAIN: Você não sabe... JOY: Cinco… PAIN: ...como é ter ela dentro. JOY: Quatro… PAIN: Por isso você come... JOY: TRÊS… PAIN: …você vive! JOY: DOIS… PAIN: Para! JOY: UM… PAIN: Eu não quero! JOY (levantando a perna para chutar): PUF! PAIN (soluçando): Eu não quero morrer! Silêncio. Joy não chuta o saco. Em lugar disso, pega as batatas e se aproxima de Pain. JOY: Abre a boca. 52


Pain, chorando, abre a boca. Joy coloca a batata na boca do outro. Pain come. JOY: Como estão? PAIN: Péssimas.

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2ª Etapa Uma mesa e uma cadeira. Sobre a mesa um pote transparente cheio de agulhas. Entra Pain. Senta-se à mesa e retira uma luva. Cuidadosamente enfia uma mão dentro do pote. Uma agulha espeta seu dedo. Retira rapidamente a mão suja de sangue. Geme. O ator nem se limpa nem coloca a luva de volta.

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Cena III Mesmo quarto. Sons violentos saem da televisão. Pain está encolhido no beliche. Joy assiste à televisão. JOY: Ainda está triste? Silêncio. JOY: Só por ter mais tempo? PAIN: Me deixa em paz. JOY: Sabe o que eu faço quando fico triste? PAIN: Você nunca fica triste. Mesmo se quisesse não poderia. JOY: Fico aborrecido, isso não é um tipo de tristeza? PAIN: Não, Joy. Isso não é um tipo de tristeza. JOY: De todas formas não quero que você continue assim. PAIN: E o que você quer? JOY: Deixa eu te animar. PAIN: Como? JOY: Se levanta. PAIN: Não deveria gastar energia assim. JOY: Vai logo! Pain fica em pé. Joy se aproxima dele. JOY: Fecha os olhos e segura minha mão. PAIN: O que é isso? JOY: Eu vi em um filme. É dançar. PAIN: Dançar? JOY: Tenta. Pain fecha os olhos e dá as mãos para Joy. Dançam. 55


O som da televisão aumenta. Ambos os corpos giram pelo quarto. Ruídos cada vez mais violentos e altos saem do aparelho. Pain e Joy dançam seguindo o ritmo. Primeiro calmamente, depois tomados pelo caos.

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3ª Etapa Uma mesa e uma cadeira. Na mesa um pote repleto de penas. Entra Joy. Se senta e enfia uma mão no pote. Começa a brincar com as penas: faz cócegas a si mesmo, as joga para o ar, sopra… Ri. Não retirar nenhuma pena caso prenda à roupa.

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Cena IV Mesmo quarto. Uma luz azul sai da televisão. Sons de pássaros enchem o espaço. Joy acorda no beliche de cima, bocejando. Pain está sentado embaixo, acordado, olhando para a porta entreaberta. PAIN: Joy… Por que você quis sair? JOY: Mudou de ideia? PAIN: Não, mas agora quero te ouvir. JOY (murmurando): Chato. PAIN: Por que você quis sair? JOY: Eu não quis sair. PAIN: Quis sim. JOY: Não mesmo. PAIN: Mas você disse antes que… JOY: Nós dois poderíamos sair. Juntos. Nunca sairia sozinho. PAIN: Por quê? JOY: Porque você tem medo. PAIN: E então por que insiste em sair? JOY: Porque você tem medo. Pausa. PAIN: Eles podem estar do outro lado da porta. JOY (dando de ombros): Talvez. PAIN: Eu não quero que levem a gente de novo. Pra…você sabe. Toda vez que essa porta abre aparecem as luvas brancas, uma em cima da outra, em cima da outra, em cima de mim… JOY: Você não se comporta... PAIN: Sabe o que eles fazem. Talvez estejam parados aí, do outro lado. Ouvindo. Esperando. Deveríamos mesmo sair? JOY: Você lembra quando a mamãe levou a gente pra fora? 58


PAIN: Lembro. JOY: Eu quero ver o céu de novo. PAIN: Pra quê? JOY: Ele é grande, brilhante e bonito. PAIN: Isso não é motivo. JOY: Claro que é. Você reparou nas nuvens? Em como são suaves e flutuam? Se pudesse voar, construiria uma casa em uma delas. Deve dar pra ver tudo lá de cima. PAIN: Não dá pra morar nas nuvens. Nos livros diz que aquilo tudo é vapor de água. Você ia despencar. JOY: De todas formas seria divertido. PAIN: Você acha tudo divertido. JOY: Mas o céu é divertido. E lindo. Além do mais, tem os pássaros e… PAIN (interrompendo): Sabe o que eu vejo quando olho pro céu? Azul, azul, azul… Tanto que sinto que a qualquer momento vou me afogar. JOY: Eu já me afoguei. Não é tão ruim assim. Você fica um pouco roxo no começo mas depois você só dorme. Então o papai ou a mamãe te acordam e você está de volta no quarto. PAIN: Eu lembro esse dia. JOY: Você chorava muito. PAIN: Eles não deviam ter feito nada disso. JOY: E ainda assim quer ficar? PAIN: Se eles estiverem do outro lado da porta… JOY: Eu brigo com eles. PAIN: Você? JOY: Eu nunca desobedeci antes. Eles não vão saber o que fazer. PAIN: E por que faria isso agora? JOY: Eu não quero te ver mais assim. PAIN: “Assim” como? JOY: Calado. PAIN: Sempre fui assim. 59


JOY: Mas dessa vez é diferente. Não sei explicar… PAIN (interrompe): Não vai fazer a menor diferença para você. JOY: Claro que sim. PAIN: Então vamos ficar. Vamos ficar e dormir até não acordar mais. JOY: Eu disse que te protejo. PAIN (irritado): Mas não pode. JOY: Posso! Claro que posso! PAIN: Não consegue proteger a si mesmo. JOY: Pain... PAIN (interrompendo): Vou dormir. JOY: Mas… PAIN: Vou dormir! Pain se encolhe novamente no beliche, cobrindo-se com os lençóis. Silêncio. Joy olha para a televisão. Sorri. JOY: Se eu pudesse, estrangularia um pássaro.

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10ª Etapa Sala vazia. Entra Pain. Vozes sussurram na escuridão. Jatos de água projetam-se contra Pain. Braços líquidos o empurram, mas ele aguenta. Os jatos param. Pain fica em pé tremendo no centro da sala. O ator não deve se secar.

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Cena V Risadas enlatadas e aplausos de aclamação inundam o quarto saindo da televisão enquanto a cena começa, morrendo pouco depois. Joy ri assistindo à televisão enquanto Pain observa a porta entreaberta da cama. Pain olha para Joy que não lhe presta muita atenção. Está preso à tela do aparelho. Devagar, Pain se levanta e se aproxima da porta. Com cuidado, inclina a cabeça para o interior da escuridão. Gargalhadas saem da televisão assustando Pain. JOY (rindo): Você viu isso, Pain? Ele… Joy percebe que o irmão não está no beliche. JOY (para Pain na porta): O que está fazendo? Risadas enlatadas projetam-se da televisão. Pausa. PAIN: Nada. Mais risadas. JOY: Achava que não queria desperdiçar energia… PAIN: E não quero. JOY: Então por que está em pé? PAIN: Porque… Cansei de ficar deitado. Gargalhadas. Mais demoradas que as anteriores. JOY: O quê? 62


PAIN: Você não se cansa? De fazer sempre a mesma coisa? JOY (após pensar): Não. E você? Risadas. PAIN: Esquece. Pain volta para o beliche. Joy volta a assistir à televisão. Ri. Pain não consegue deixar de olhar para a porta. JOY (apontando a tela para o irmão): Isso não vai dar certo… Espera… (Levantando de um pulo) Você quer sair? PAIN: Quê? Não! JOY: E porque estava de pé? PAIN: Eu já disse… JOY: Disse que dormiria até não acordar mais. PAIN: Eu… JOY: Está mentindo... PAIN: Não! JOY: Está mentindo pra mim! Um sobressalto de surpresa ecoa pelo quarto. PAIN: Joy, eu realmente não quero… JOY: Então me leva! PAIN: Não está me ouvindo? JOY: Vamos juntos sair daqui. PAIN: Me escuta! JOY: A gente vai poder ver o céu… PAIN: Joy… JOY: Talvez até algum animal…. PAIN: Não vamos sair… 63


JOY: Ah! Brincar nas nuvens! PAIN: Não-vamos-sair! JOY: Mas, por quê? PAIN: Porque não podemos! JOY: Por quê!? PAIN: Porque EU vou sair! Vaias reverberam pelo espaço. Silêncio. JOY: Mas você disse… PAIN: Mudei de ideia. JOY: Quer que eu morra sozinho aqui? PAIN: Claro que não. JOY: Ah! Então é uma piada? PAIN: Sabe que detesto piadas. JOY: Mas eu adoro! Gargalhadas. PAIN: Piadas são só mentiras disfarçadas. JOY: Engraçadas! PAIN: É pura manipulação. JOY: Não é verdade. PAIN: Então por que precisa delas? Pode sorrir quando quiser. JOY: Eu sorrio. PAIN: Então!? JOY: Mas você não. Risadas são acompanhadas por aplausos. PAIN: Eu não faço piadas… JOY: Vai mesmo sair sem mim, Pain? 64


Pain confirma com a cabeça. JOY: Por quê? Pain se levanta e se aproxima do irmão. Em um movimento rápido arranca um band-aid do braço de Joy deixando exposto um corte ainda aberto. Joy não reage. Sangue escorre da ferida. PAIN: Porque você é a piada. Aplausos de aclamação ecoam pelo espaço enquanto as luzes se apagam.

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25ª Etapa Sala. Uma mesa e uma cadeira. Sobre a mesa um pote de pílulas. Entra Joy e se senta. Pega uma pílula e a coloca na língua. Espera. Começa a tremer. Então ri. Uma gargalhada implode em seu peito. Suas risadas são longas, eufóricas. Olha para as próprias mãos rindo a estardalhaços. Chupa os dedos. Afunda a mão no pote de pílulas. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Põe outra pílula na boca. Engole. Joy sente a náusea sacudir seu corpo. Treme. Vomita. Colapsa. Ri.

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Cena VI Mesmo quarto. Gemidos saem da televisão. Pain procura algo no chão do quarto. Joy dá voltas ao seu redor. JOY: E você acha que vai adiantar? PAIN: Não sei. JOY: Talvez não tenha mesmo ninguém. PAIN: Isso você não pode saber. JOY: Então me leva. PAIN: Não vou discutir isso de novo. JOY: Mas você não tem medo? PAIN: Claro que tenho. Não quero sair, mas preciso. JOY: E eu preciso ir com você. Pain não responde. JOY: Talvez tenha mesmo alguém… Pain continua calado. JOY: Acho que vi uma luva branca antes… PAIN: Para. JOY: Não quero ficar sozinho. PAIN: Não vai fazer a menor diferença para você. JOY: E pra você, sim? PAIN (pegando um brinquedo do chão e ficando em pé): Vou embora. JOY: Não! PAIN: Preciso que me prometa que não vai sair do quarto... JOY: Não prometo! PAIN: Joy! JOY: Pain! 67


PAIN: Vou sair, você goste ou não, tendo eu medo ou não… JOY: Eu vou correr pra fora se você sair… PAIN: Não complica as coisas. JOY: Você está complicando! Se tem medo de sair não saia e se tem medo de ficar saia, mas não me deixe sozinho! PAIN: O que importa? JOY: Que eu também tenho medo! PAIN: Sabe que não é verdade. JOY: É sim. PAIN: Você não tem medo, só acha que não vai poder se divertir sozinho. JOY: Eu me divirto sozinho! PAIN: É, eu sei. JOY: Mamãe e papai também me ensinaram coisas boas. PAIN: Boas? Nunca nada faz a menor diferença pra você. JOY: Não é verdade. Você faz. PAIN: Vou embora. JOY: Posso ajudar… PAIN: Vai ajudar ficando aqui. JOY: Eu ajudei antes, não ajudei? Você sentiu? PAIN: Sim. Senti que tenho que te tirar daqui. JOY: Fica comigo. PAIN: Vou indo… JOY: Se é por mim, não precisa! PAIN: Claro que preciso! Se você saísse daqui terminaria embaixo de um desses...carros. Machucado ou machucando alguém. JOY: E por que isso é ruim? PAIN: Precisamente por isso. Você não entende o quão ruim pode ser pra você. Você só quer rir e gritar. Eles fizeram isso com você! JOY: Sou mais do que eles… PAIN: Nem você nem eu somos… JOY: Mas disse que sentiu! Não deveria sentir… Você diz que eu só rio, então você só chora. Está chorando agora? 68


PAIN: Eu… JOY: Eu posso mudar isso! Pelo menos um pouco, posso tentar chorar pra você não me deixar sozinho ou...posso te fazer sorrir. PAIN: Já tentou isso antes… JOY: Mas nunca assim. Por favor… Pain olha para o irmão pensativo. PAIN: A gente não vai conseguir. Não se pode mudar quem somos. JOY: Se eu conseguir que você sorria, vai mudar de ideia? Ou se eu chorar? PAIN: E do que isso vai adiantar? JOY: Poderemos sair. Juntos. Vou mostrar que não precisa ter medo, nem por mim, nem por você… Silêncio. PAIN (suspirando): Tudo bem. JOY: Eu primeiro, eu primeiro! PAIN: Mas se não der certo… Eu vou. JOY: Vai dar certo. Joy se aproxima de Pain e tira seu macacão. O corpo de Pain está repleto de feridas. Joy puxa Pain para o chão e o senta em cima de alguns lençóis. JOY: É estranho no começo, mas é bom. Confia em mim. Mamãe que me ensinou... PAIN: Vai… Joy masturba Pain. Primeiro devagar. Depois com maior velocidade. A respiração de Pain acelera. Pain goza, mas não reage. 69


JOY (soltando o outro): Viu? É bom, não é? Gostou? Pain fica em silêncio olhando para o vazio JOY: Pain? Pain começa a chorar.

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42ª Etapa Sala vazia. Pain está preso a uma cadeira repleta de ataduras no centro do palco. Ouvem-se golpes fora de cena. Pain vê alguma coisa. Luta para se livrar das ataduras. Não consegue. Se retorce violentamente. Parece que sua pele vai escorrer de seu corpo. Primeiro chora. Depois grita. E finalmente desmaia.

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Cena VII Quarto. Música infantil sai da televisão. Pain está deitado no chão entre as pernas do irmão. Joy faz cócegas em Pain. Suas mãos movem-se com cada vez mais força pelo corpo do outro. Ele se diverte, porém, Pain o observa sério. Joy começa a gargalhar. PAIN: Não vai dar certo… Joy não para. PAIN: Joy… Pain se cobre, incomodado. Tenta segurar as mãos do outro. PAIN: Para… Joy insiste. PAIN: Não… As unhas do outro afundam na pele de Pain. PAIN: Para! Joy ri. PAIN: Está me machucando! O outro insiste. PAIN (empurrando Joy): SAI! 72


Joy cai no chão. JOY: Ainda não terminei… PAIN (se levantando): Mas eu sim. JOY: Não tentei… PAIN: Chega! Pausa. JOY: Sua vez, então… PAIN: Sabe que não vai funcionar... JOY (ficando em pé): Mas você prometeu! PAIN: Não vou te machucar. JOY: Você prometeu! PAIN: Vou buscar ajuda, Joy… JOY: Não! PAIN: Você só tem que esperar… JOY: Mentiroso! PAIN: Vou voltar... JOY: Então eu mesmo faço! Joy se aproxima do beliche. De repente golpeia a cabeça contra a barra que sustenta a cama de cima. Repete a ação. PAIN (estremecendo): Para! Joy continua. Golpeia a cabeça uma e outra vez. Pain cobre os ouvidos. PAIN: Por favor! Para! Os golpes continuam. 73


São fortes e ritmados. CLANK! CLANK! CLANK! CL-! PAIN (segurando o irmão): Para com isso! JOY: Você é um mentiroso! PAIN: Por favor! JOY: Mentiroso! Mentiroso! Mentiroso! PAIN: Mas eu não quero… JOY: Você prometeu! PAIN: Não! JOY: Mentiroso! MEN – TI – RO – SO ! Pain grita. Ele está chorando. Dá um soco no rosto do irmão. Joy cai de bruços no chão. Pain cobre a mão com força. PAIN: Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa… Devagar, Joy se levanta. Sangue escorre de sua boca. Sorri. JOY: Acho que perdi um dente.

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68ª Etapa Sala vazia. Pain e Joy dão as costas um para o outro, em pé. Uma longa corda une ambos pelo pescoço. Soa um sino. Pain não se move. Joy corre. Pain suspira. Joy corre. A corda estica. Pain arfa. Joy corre. A corda estala. Pain tosse. Joy corre. A corda geme. Pain segura. Joy corre. A corda estrangula. Pain soluça. Joy corre. A corda arrasta. Pain grita. Joy corre. A corda puxa. Pain retorce. Joy corre. A corda treme. Pain luta. Joy corre. A corda espreme. Pain engasga. Joy corre. A corda corta. Pain sangra Joy corre. A corda mancha. Pain geme. Joy corre. A corda esquenta. Pain arranha. Joy corre. A corda mata. Pain cai. Blackout. 75


Cena VIII Mesmo quarto. Queen toca na televisão. As luzes somente acendem quando a voz de Freddie preenche o espaço. JOY (segurando Pain): Não me deixa! PAIN: Eu disse que vou voltar! JOY: Não vai, não! Vai desaparecer que nem eles… PAIN: Você não sabe disso. JOY: A gente pode continuar… PAIN: Me solta! JOY: Eu não entendo muitas coisas, mas sei que preciso de você. PAIN: Eu também. JOY: Então não me deixa… PAIN: Não estou deixando. JOY: Para de mentir! PAIN: Eu não quero que você se machuque. JOY: Eu vou chorar! Eu vou chorar muito e aí você vai entender… PAIN: Isso não é um castigo, Joy. Eu quero te ajudar… JOY: Também quero! PAIN: Me solta! Joy grita. Joga Pain no chão. Joy corre para a porta. Pain se levanta e se lança sobre o irmão. Ambos caem. Joy puxa os cabelos de Pain, porém, mesmo gemendo ele não o solta. PAIN: Para! JOY: Chato! Chato! Chato! Chato! Chato! 76


Pain morde o braço do irmão. Morde até sangrar, mas não adianta. Joy não sente nada. PAIN: Te odeio! JOY: Eu sei! PAIN: Eu sou tua culpa! JOY: Eu sei! PAIN: Se eu pudesse ser você… JOY: Eu sei! PAIN: Se eu pudesse fazer a metade do que você pode… JOY: Eu sei! PAIN: Não ia ser tão idiota! JOY: Eu sei! PAIN: Teria fugido faz tempo, teria ME ajudado… JOY: Eu sei! PAIN: Teria ME salvado! JOY: Eu sei! Joy geme. Porém em lugar de chorar, ri. Pain golpeia Joy com um brinquedo pesado do chão. Ofegante, fica em cima do irmão. Se incorpora imobilizando Joy abaixo de si. Grita. Levanta o brinquedo. Entretanto interrompe a ação. Joy está rindo histericamente. Sacode suas pernas divertido. Ele gargalha sem parar. Ele ri, ri, ri, ri e ri. Suas costelas estão prestes a sair de seu peito. Pain deixa o brinquedo de lado. Lágrimas escorrem pelo seu rosto. PAIN: Desculpa… JOY (sem conseguir respirar enquanto ri): Não...me deixa… Não… 77


Pain deita a cabeça sobre o peito do irmão. Tenta respirar calmamente. O peito de Joy sobe e afunda. Aos poucos as gargalhadas de Joy cessam. Pain se deita próximo ao irmão e o abraça. PAIN: Não vou pra lugar algum… JOY: Eu acho que também não… Pausa. PAIN: E se eles voltarem? JOY: Eu te protejo. PAIN: Ainda tenho medo. JOY: Então vamos dormir. Dormir até não acordar mais. PAIN: Não quero morrer, Joy. JOY: Então ainda quer sair? PAIN: Não. JOY: Por quê? PAIN: Porque tenho medo. JOY: Por quê? PAIN: Porque eu não quero ver o céu. JOY: Por quê? PAIN: Porque tenho medo que você vá morar em uma nuvem. Joy ri. JOY: Achava que não gostava de piadas. PAIN: É. Eu também.

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99ª Etapa Pain e Joy dormem abraçados no chão do quarto. Uma luva branca pousa os dedos na lateral da porta. Silêncio. Ela desliza para o pano da porta e puxa. CLICK! Blackout.

FIM

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PENSE NAS ESTRELAS COMO SE FOSSEM O CU DOS ANJOS Yuri Marrocos



PERSONAGENS Dramaturgo Jerônimo Margô Velho Médico

Roberto me levou para uma peça de teatro ontem, foi tão bonito. Teve um momento que a Atriz disse para a gente pensar nas estrelas como se fossem o cu dos anjos. Quando chegamos na casa do Roberto falei que queria começar a escrever peças. (Roberto é poeta). Então comecei a escrever, quero escrever como o autor da peça de ontem, o nome dele é Dramaturgo. Voltando a falar da peça que vimos ontem, nunca tinha ido ao teatro. Foi mesmo a primeira vez. Quando ouvi a Atriz falar “cu” eu achei estranhíssimo. Mas todo mundo gostou. E foi muito natural. Roberto disse que é uma peça de muito sucesso. Tudo que eu mais quero nessa vida é fazer sucesso e ter muito dinheiro. Escrever não dá dinheiro, diz o Roberto, mas ele é bem rico, então. PS: Roberto me disse que dramaturgo é quem escreve a peça, e não o nome do autor. Mas vamos aos textos que é o que importa nesse momento:

I. DO AUTOR Dramaturgo está jogado ao chão. Ouve-se um gemido (pode ser 83


de dor, pode ser prazer). Ele está magro, com uma camisa branca e uma cueca branca. Dramaturgo levanta e mija numa pia. Sente uma dor. JERÔNIMO (fora de cena): Você é decadente. Insensível. Mentiroso. Você uma hora diz sim, depois empurra um não goela abaixo, você tá sofrendo, tá deprimido. Todos te desprezam. Por isso que te venero. Eu te amo. Seu merda.

II. DA FAMÍLIA Margô com uma máquina de cortar cabelo na mão direita. Velho está sentado num banco com uma toalha ao redor de seu pescoço. MARGÔ: Lembra quando eu disse que preciso ouvir que sou amada a cada vinte e cinco segundos? Um silêncio de vinte e cinco segundos. MARGÔ: E que eu sempre fico sensível em dias de números pares? Um silêncio de vinte e cinco segundos. MARGÔ: Era verdade. VELHO: Se eu te dissesse que te amo agora. Você aceitaria? MARGÔ: Sim. VELHO: E se soubesse que era só porque é o que você quer ouvir? MARGÔ: Sim. VELHO: E acha que isso é amor? MARGÔ: Porque eu amo. E seria capaz de acreditar em tudo que eu quisesse acreditar para manter isso vivo dentro de mim. 84


VELHO: Ama mesmo? MARGÔ: Eu te amo. Por exemplo. VELHO: Você me ama agora? MARGÔ: Sim. VELHO: Se eu, por exemplo, te ligasse de madrugada, depois de anos sem falar com você, depois de estragar a sua vida, falar mal de você para todo mundo, e depois de beber todas, trepar com o primeiro estranho que eu visse na rua, engravidasse alguém e pedisse para você me abrigar porque eu não teria dinheiro algum nem qualquer tipo de dignidade, você ainda iria querer casar comigo? MARGÔ: Sim. Um silêncio de vinte e cinco segundos. VELHO: E você acha que isso é amor? Velho está completamente careca.

III. DA LITERATURA No quarto de hotel. No banheiro, sentado na privada, porta aberta. Um foco de luz sobre Dramaturgo, que está sentado na privada. Dramaturgo está falando sozinho, palavras sem sentido, frases desconexas, até que. DRAMATURGO (grita): Terminei! Dramaturgo vira-se de costas e agacha-se. Jerônimo limpa a bunda de Dramaturgo com aspecto de normalidade, sem esboçar estranheza. DRAMATURGO: Veja. (ambos olham para dentro da privada) É ou 85


não é a coisa mais linda que você já viu? JERÔNIMO: É, sim, bem. DRAMATURGO: Quantos você acha que é capaz de tanto? JERÔNIMO: Ninguém que eu conheça. DRAMATURGO: Sente esse cheiro. Ambos respiram forte a merda de Dramaturgo. JERÔNIMO: Muita saúde. DRAMATURGO: Só um homem com muita sensibilidade faria uma obra dessa! JERÔNIMO: Você é muito lúcido. DRAMATURGO: Lúcido! Grande! Majestoso! Artístico! Denso! JERÔNIMO: Tem muita potência. DRAMATURGO: Tudo que eu faço é potente... JERÔNIMO: Sim. Silêncio. DRAMATURGO: Vou tomar um banho, vem comigo? JERÔNIMO: Vou já. Dramaturgo liga a chuveiro. Jerônimo está encarando a merda. JERÔNIMO: Amor, como você quer que eu dê descarga? Existem duas vazões nesse sanitário… O chuveiro desliga de uma vez. Dramaturgo volta nu e todo molhado. DRAMATURGO: Enlouqueceu? JERÔNIMO: Não... DRAMATURGO: Uma obra dessa não vai para o esgoto. 86


Silêncio. JERÔNIMO: Então o que a gente faz? Silêncio. DRAMATURGO: Temos que deixá-lo aí. JERÔNIMO: E quando a gente for embora? DRAMATURGO: Deixa aí. Silêncio. JERÔNIMO: E quando eu precisar usar o banheiro? DRAMATURGO: Usa a pia. JERÔNIMO: E quando a gente precisar cagar? Dramaturgo pensa. DRAMATURGO: Não cagamos mais. JERÔNIMO: Eu não sei se posso fazer isso... (Recuando) DRAMATURGO: Você não confia no meu trabalho? JERÔNIMO: Não, amor, não é isso... DRAMATURGO: Então o que é? JERÔNIMO: Err...Err…

IV. DOS ROMANCES Abre-se a cortina. Na beira da estrada. Mercadinho. Velho está sendo chupado por Jerônimo enquanto usa seu smartphone. Goza sem emitir som, sem expressão. Silêncio. VELHO: Já gozei. 87


JERÔNIMO: Você pode me dar o que prometeu agora? Velho entrega. VELHO: Mas na próxima chupa melhor. Silêncio.

V. DA MEDICINA Um hospital. Uma multidão de estudantes sem rosto anota tudo o que veem pela frente. MÉDICO: A boa notícia é que você fez muito bem em ter vindo ao hospital. Silêncio. MÉDICO: A má notícia é que você vai morrer. Silêncio. MÉDICO: Mas, calma. Você não precisa se preocupar. VELHO: Com o quê? MÉDICO: Com a ida. Você não vai pro inferno por ser boiola ou coisa do tipo. O inferno é bem mais rigoroso que isso. Estudantes anotam: “boiolas não vão para o inferno (só por serem boiolas)” VELHO: Mas eu não sou bicha. MÉDICO: Você já pediu perdão? VELHO: Não sou bicha. Palavra. 88


MÉDICO: Então não precisa se preocupar. Silêncio. MÉDICO: Mas, você está morrendo. Lembra. Não tenha medo. Você pode parecer feliz, se quiser. Eu consigo te deixar parecendo feliz. Quer dizer, você precisa parecer feliz. Eu poderia ter algum tipo de piedade, mas minha profissão não me permite. Quer dizer. Minha ética. VELHO: Não conto para ninguém. Sou dos que não contam. MÉDICO: Você até que vai ficar legal careca. Preciso que você, profissionalmente, acredite em mim. VELHO: Você acha? MÉDICO: Acho. Silêncio. VELHO: Eu nunca lembrei de morrer. MÉDICO: Sério? VELHO: Sim. MÉDICO: Pensei que os viados já se preparavam para isso. Estudantes anotam: “viados se preparam para a morte” Velho tenta falar. Médico interrompe. MÉDICO: Acredite em mim. Lembra. No seu caso, você pode imaginar uma macieira se precisar acreditar. Uma grande com muitas maçãs. Agora a macieira foge. Da sua compreensão. Você e sua cabeça. Você ouve as vozes. Você gosta delas. Oferece maçãs. Elas aceitam. Vocês comem. Silêncio. 89


MÉDICO: Uma grande festa. Na sua cabeça. Você dança. Ou você só para. Passa. Respira. A caixa torácica funcionando com uma mola sustentando o pulmão de bigorna. A bigorna sobe. Desce. A porta abre. Definitivamente um rádio. Uma experiência radiofônica. Respira. Silêncio. MÉDICO: Você está respirando? Velho murmura. MÉDICO: Você parece feliz. À sua maneira. Não conta para ninguém. Nem para você mesmo. Tudo tá indo embora com a mesma facilidade com que chegou. Percebe. À essa altura você é incapaz de se arrepender. Longo silêncio. MÉDICO: Você está morrendo. Lembra. Médico começa a tirar toda a roupa do Velho. As luzes vão se apagando lentamente na imagem do cu de Velho, onde está desenhado uma estrela. Virou anjo.

FIM

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AGRADECIMENTOS Sangue e vísceras não são suficientes para escrever um livro se não vierem acompanhados de afeto. Muitos encontros fortuitos repletos de carinho propiciaram nosso caminhar ao longo do processo. Processo iniciado na verdade muito antes de que começássemos sequer a pensar em um livro. Às nossas famílias agradecemos o existir, o amor e a força. Aos nossos amigos agradecemos os cigarros, as cervejas e o apoio. À Editora Nadifúndio agradecemos a confiança, a paciência e a assistência. Ao Coletivo Peripécias agradecemos todo o aprendizado e carinho. Sem os peripatéticos nenhuma linha seria a mesma. Ao Porto Iracema das Artes e ao professor Edilberto Mendes agradecemos por introduzir-nos na maravilhosa arte da escrita dramática. À Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) pelo apoio e estímulo. Agradecemos ao nosso ilustrador por enxergar o livro antes mesmo que nós.


Agradecemos a todos aqueles que leram os primeiros esboços e contribuíram com seus comentários à melhora dos textos. Agradecemos a todos aqueles que em algum momento do nosso caminho pegaram nossos pedaços e lhes deram forma. A todos aqueles que em nosso caos viram rostos, vozes. Agradecemos: Ângela Soares, Bianca Ziegler, Camila Maria, Cupertino Freitas, Danielle Nogueira Barbosa, Edilberto Mendes, Edvaldo Batista, Gesner Farias de Paula, Haroldo Aragão, Jéssica Alves Barbosa, Jordi Botargues Montserrat, Katiely Passos, Maria Estela Nogueira Barbosa, Milena Fernandes, Nádia Camuça, Priscila Queiroz, Raisa Christina, Suellen Salgado, Tanilo Miranda Ramos, aos atores do espetáculo Cavalos Marinhos (2019) e ao Grupo Código (RJ) entre outros. A todos, e a muitos outros não nomeados, gratidão. Aqui a palavra gratidão tem apenas oito letras mas inúmeros nomes. Yago Barbosa Yuri Marrocos



Este livro foi composto em Kohinoor Devanagari, impresso em papel pólen 80g/m² na cidade de Fortaleza em janeiro de dois mil e vinte e um.


YAGO BARBOSA Ator em teatro, performer, dramaturgo e pesquisador cearense. Licenciando em teatro no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará sua formação passa pelos cursos Teatre Per A Joves (Aula Municipal de Teatre de Lleida) e pelo Ateliê de Escrita Dramática (Escola Porto Iracema das Artes). Participou como ator nos espetáculos O jardim das cerejeiras (2015), A mãe (2018), Rainha do Inferno (2019) e Santas Almas da Barragem (2019) onde também foi dramaturgista. YURI MARROCOS Dramaturgo, poeta e artista da cena. Graduando em psicologia pela Universidade Federal do Ceará e pesquisador no PARALAXE: Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções em Psicologia Social Crítica. Tem textos publicados no livro Fissura (Ed. Nadifúndio) e na Revista Maldita de Dramaturgia. Em processo com a Manada Teatro (CE) do texto Um Artista da Luz Vermelha (Ed. Substânsia) e com o Grupo Código (RJ) do texto Muros Agudos Iguais à Fome.


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