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Introdução a Literatura Argentina Contemporânea. Três autores fundamentais: Julio Cortázar, Alejandra Pizarnik e Copi. Resumo A presente palestra tenta abrir a discussão sobre três autores argentinos contemporâneos, segundo o nosso critério, imprescindíveis. Julio Cortázar (1914-1984), Alejandra Pizarnik (1936-1972) e Copi (1939-1987) foram contemporâneos entre eles, mas os seus escritos põem no relieve cosmovisões e universos literários muito diferentes, e polêmicos na relação com a atualidade. A palestra começa com uma introdução sobre a justificação na eleição dos autores, e logo estrutura-se em três grandes momentos cujo título faz referência a cada autor em particular. Cada momento inclui uma pequena resenha sócio-histórica do contexto, uma reflexão crítica do autor, onde ensaiamos dicas de leitura para um melhor acercamento, baseadas em estudos prèvios argentinos e brasileiros, e finaliza com a leitura de um fragmento escolhido, feita por um convidado especial. Finalmente há um momento destinado ao intercâmbio com o público assistente. Objetivos O objetivo principal desta palestra é compartilhar os olhares sobre o mundo destes autores. A eleição responde a critérios pessoais, cujo aspecto mais importante é que cada um deles fazem no seus escritos um convite para escrever, portanto são autores que significaram uma porta de entrada na Literatura Argentina para mim como leitora, e também como escritora; e essa experiência é a que tento compartilhar com as pessoas que gostam e têm interesse no mundo literário. O fato dos autores serem argentinos, esconde uma intenção de aproximação cultural entre os nossos países vizinhos, que na atualidade é crescente pela quantidade e qualidade das traduções e edições, desafiando as barreiras idiomáticas, futebolísticas e de difusão massiva. Por último esta palestra tenta quebrar com a tradição da leitura como atividade solitária e individual e pelo contrário, propicia uma instância de reflexão e escuta coletiva, onde é incentivado o intercâmbio, e o espaço é aberto para que outras vozes façam uso dele. Conteúdo 1) Introdução: Autores que convidam para escrever. 2) Julio Cortázar: ● Pequena biografia e contexto. ● Dicas de leitura: Romances e contos, Jazz, Mundos Fantásticos e Situação política Latino Americana. ● Por qué ler a Cortázar hoje ● Leitura: “O perseguidor” (Fragmento) 3) Alejandra Pizarnik: ● Pequena biografia e contexto.


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Dicas de leitura: Poesía, Surrealismo, Absurdo e Depressão. Por qué ler a Alejandra Pizarnik hoje Leitura: Excertos do “Árbol de Diana”

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Copi: Pequena biografia e contexto. Dicas de leitura: Teatro, Pós-modernidade, Contracultura e Estética bizarra. Por qué ler a Copi hoje Leitura: Eva Peron (fragmento)

Materiais: ● 2 microfones ● um projetor ou televisão (com cabo VGA para ligar ao computador)

Mini-Biografía Nadia Ethel Basanta Bracco

Nadia Ethel Basanta Bracco​ (San Juan - Argentina, 1986) é Licenciada em Teatro pela Faculdade de Artes e graduada do Programa de Treinamento em Gestão Cultural da Faculdade de ​Ciências ​ ​Econômicas​, os dois títulos concedidos pela Universidade Nacional de Córdova- Argentina. Morou nessa cidade 10 anos onde formou-se como dramaturga e produtora. Escreveu a dramaturgia de “LOS DESEOS’ (2017) “SUCIO” (2017) “Proyecto QUIJOTE - Mashup” (2016), “Proyecto GEMELO- Mashup” (2014), “Inmaculados” ( 2012) e “Broken. Teatro para el amor roto” (2011). Colaborou com a dramaturgia de “Lila e Coturno” (2012) e “Para Ema com Amor y Sordidez” (2009). Participou da performance dirigida pelo Sergio Blanco “10 dramaturgos na Pra​ç​a Pública” ​lançada​ no Festival Internacional de Teatro do Mercosur (2011). Esteve encarregada da ​produção geral das peças de dança teatro “MACHO” e “HEMBRA” (2013). Formou parte da equipe de produção de “CORTÓPOLIS. Festival Latinoamericano de curta metragem” (2012/14) e da equipe de produção da companhia “BABEL Recursos Artísticos” (2009/14), onde também foi programadora da sua sala “BABEL Teatro” (2011/12). Morou um tempo em Buenos Aires onde escreveu a dramaturgia de “Ciudades” (2016), colaborou na​ Área de Cultura da Casa de San Juan en Buenos Aires (2015), participou do seminário internacional de dramaturgia “Panorama Sur” (2015)​ e participou do festival “Plataforma LODO” com “Proyecto GEMELO - Mashup” que resultou sendo premiada para a residência​ “MARTE- Matienzo” (2015). Publicou seu primeiro livro de poesias “Primera vez con Cualquiera” em Córdova (Edições A.t.e.o - 2015) e em San Juan (Edições Pájaro Cartonero - 2016)


Atualmente mora em ​São Luis, Maranhão - Brasil, onde se desenvolve como Professora de Inglês e Espanhol.

Julio Cortázar: Filho de argentinos, nasceu na embaixada da Argentina em Ixelles, distrito de Bruxelas, na Bélgica, e voltou a sua terra natal aos três anos de idade​. ​Passou a maior parte de sua infância em Banfield, no sul da província de Buenos Aires. "Creio que, desde muito pequeno, minha infelicidade, e ao mesmo tempo minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Não me bastava que explicassem ou afirmassem algo. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objeto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a me estilhaçar" "Em suma, desde pequeno, minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia de minha relação com o mundo no geral. Eu pareço ter nacido para não aceitar as coisas tal como me são dadas." Formou-se Professor em Letras em 1935. Em 1938, com uma tiragem de 250 exemplares, editou ​Presencia​, livro de poemas, sob o pseudônimo "Julio Denis". Lecionou em algumas cidades do interior do país, foi professor de literatura na "Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Cuyo". Em 1951, aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na Argentina, partiu para Paris (França). Trabalhou durante muitos anos como tradutor da Unesco e viveria em Paris até a sua morte. Em 1962, lança ​Historias de Cronopios y Famas​, e o ano de 1963 marcou o lançamento de Rayuela​, que foi seu grande sucesso e teve cinco mil cópias vendidas no mesmo ano. Em 1959 saiu o volume ​Final del Juego.​ Depois desses anos, Cortázar se comprometeu politicamente na libertação da América Latina sob regimes ditatoriais. Em 1973, recebeu o Prêmio Médicis por seu ​Libro de Manuel​ e destinou seus direitos à ajuda dos presos políticos na Argentina. Em 1983, volta a democracia na Argentina, e Cortázar fez uma última viagem à sua pátria, onde foi recebido calorosamente por seus admiradores, regressou a Paris e pouco depois lhe foi outorgada a nacionalidade francesa. Morreu de leucemia em 1984, após ter sofrido uma grande depressão pela morte da sua última esposa Carol Dunlop, sendo enterrado no Cemitério do Montparnasse, na mesma tumba de Carol.

Dicas de leitura: Romances e contos, Jazz, Mundos Fantásticos e Situação política Latino Americana. Cortázar escreveu maiormente contos e romances, mas o êxito definitivo chegou com “Rayuela” em português O jogo da Amarelinha (editado pela primeira vez em 1994 por Civilização Brasileira) que catapultou ele ao boom da literatura latino americana (junto a Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, entre outros). O livro são basicamente dois momentos na vida do Horacio Oliveira, um momento em Paris, junto a Maga; e outro momento dele retornando na Argentina, convivendo com um casal de amigos: Talita e Traveler. Os capítulos do livro podem ser lidos em forma linear, ou também podem ser lidos alternadamente, começando pelo 73 e daí vai pulando alternativamente os capítulos, como o autor explica nas instruções.


As conversas existenciais bebendo vinho barato num quarto cheio de gente que acabou de fazer amor e agora fuma cigarros na obscuridade e fala de filosofia escutando jazz. As falas andando pelas ruas de uma Paris em ruínas, sempre sem dinheiro, passeando pelos cemitérios. A impossibilidade de Oliveira de amar ou seu jeito torto de amar e sua mesquindade, fazem contraste com um amor, incondicional, mágico e além do mundo que a Maga corporiza. E a poesía consigue emerger de todo, a atmosfera que respiramos quando lemos o livro é poética, e ela é o que permanece nossas cabeças como se de um sonho se tratasse. Só uma sensação que fica com nós para sempre. Certo é que os seus contos têm uma espécie de fórmula literária que se repete: ​1) um personagem, sempre homem, topa-se com um ​lá-fora​, um estrangeiro, um desconhecido: o réptil no zoológico em “Axolotl”, o acidente de moto em “La noche boca arriba”, a queda do avião em “La isla al mediodía”, a artista de cinema em “Queremos tanto a Brenda”, a Revolução Sandinista da Nicarágua em “Apocalipsis en Solentiname” etc. 2) O choque produz no sujeito um desassossego que o desloca, e instala uma esfera “fantástica” diferente da que estava presente anteriormente: o visitante do zoológico começa a transformar-se em réptil em “Axolotl”, o acidentado de “La noche boca arriba” começa a ter alucinações de que é um prisioneiro azteca, o passageiro do avião em “La isla al mediodía” passa a ter a visão perfeita da ilha, o fã começa a se fundir com a atriz em “Queremos tanto a Brenda”, as fotografias tiradas na Nicarágua começam a revelar uma realidade terrível que o protagonista não havia visto etc. 3) O conto conclui com a esfera “fantástica” coexistindo com ou substituindo a realidade anterior, enquanto o leitor sente que, catarticamente, passou por uma purgação, uma aventura através da qual a ficção lhe deu o vislumbre de uma outra dimensão. Mas essa fórmula faz emergir a poesia em contextos inesperados​, e essa esfera fantástica que se instala, é um universo poético da linguagem, um outro uso que as palavras podem ter.

Cortázar escreveu também poesia, ele tem uma única publicação póstuma, que junta os seus poemas e outros escritos engavetados por 40 anos. Uma sorte de jornal íntimo que nos permite ficar mais perto do artista, pois podemos ver o percorrido interno durante esse tempo todo num só livro.

Por qué ler a Cortázar hoje - ​A polémica do escritor menor Não é novidade que Julio Cortazar é reconhecido no mundo todo, mas tem já muita gente, críticos e escritores, que acreditam que ele não é o grande renovador das letras latino americanas, como se pensava num começo e durante a década dos anos 60 quando ele virou famoso. ​César Aira, o mais prolífico romancista contemporâneo argentino, escreve que Cortázar é um “escritor para adolescentes”. Na avaliação de Ricardo Piglia, “depois de ​Todos los fuegos el fuego​ [Cortázar] já não escreveu mais, dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público”. Sobre ​O jogo de amarelinha,​ Beatriz Sarlo, a mais reconhecida crítica argentina de hoje, escreve que é um romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo”. E tudo isso com certeza é verdade, mas mesmo assim de esse jeito, seria bom demais se os adolescentes conseguissem um livro de contos de Cortázar e começaram a ficar imersos nesses mundos poeticamente marginais, onde a poesia mistura-se com a fantasia e com a política e com a filosofia e com o jazz. Verdade é também que outra grande crítica que se faz de Cortázar aponta que os seus escritos tem as vezes uma interpretação ancorada na utopia de coincidência entre vanguarda estética e vanguarda política. Como se ele tivesse dito “escreverei literatura de vanguarda, radical, mas


estarei ao lado do povo”. Más escrever da revolução não é fazer-a, nem ler sobre ela vai tornarmos revolucionários. E o certo é que Cortázar só escreveu e se pronunciou com palavras a favor das lutas da esquerda de Latino america, mas não lutou nem se alinhou com nenhum exército, nem quando viajou na Nicarágua para se encontrar como exército sandinista.

Alejandra Pizarnik Nascida em Buenos Aires em 1936, Alejandra Pizarnik era filha de imigrantes judeus russos. A expulsão da terra natal que a família sofreu, mesmo sendo uma situação de muita dor, é aqui providencial, pois toda a família que não fugiu da Rússia, padeceu o holocausto, o que para a pequena Alejandra com certeza significou um contato muito cedo com os efeitos da morte. A fascinação pela infância perdida, se converte nos seus escritos, numa obscura fascinação pela morte, as duas cheias de vértigo e igualmente deslumbrantes. Publicou seu primeiro livro de poesia, ​La Tierra Más Ajena,​ em 1955, um ano depois de entrar na Universidade de Buenos Aires, na área de filosofia e letras, curso que não concluiu. Depois, também estudou pintura com o artista surrealista Batle Planas. Mas nem a pintura nem a poesia são terapia suficiente e experimenta então a breve e perigosa psicodelia das anfetaminas, e cura a dor com analgesicos e tenta fugir das noites sem sono tomando pílulas para dormir. Ela tinha um desprezo pela política, que se justifica no fato de que a sua família na Europa tivesse sido aniquilada igualmente pelo fascismo e pelo estalinismo, então a sua literatura tinha para ela um único compromisso com a qualidade. Suas obras seguintes foram dois volumes de poemas, ​La Última Inocencia ​(1956) e ​Las Aventuras Perdidas​ (1958). Este último marca o amadurecimento poético da autora. Além disso, contém os traços de estilo e temas que vão definir a poesia de Alejandra Pizarnik até o fim, para ela os poemas são aproximações, não são obras nem textos, senão tentativas, ensaios de prova e erro. Entre 1960 e 1964 ela viveu em Paris. Escreveu para revistas, fez cursos na Sorbonne e participou da vida literária. Nessa época, conheceu Octavio Paz e Julio Cortázar, dos quais se tornou amiga. Mas nem essa estranheza de ficar num país desconhecido consegue relaxar a sua tensão íntima “No fundo, eu odeio a poesía. É para mim uma condena abstrata e vive lembrando-me disso. Lembra-me também que não consigo morder o concreto. Se eu pudesse ordenar meus papéis alguma coisa poderia se salvar. E das minhas leituras e dos meus miseráveis escritos” (escreve no seu diário em 1965). Mesmo em quase todos os temas volta a aparecer a morte, que tenta decifrar no período no qual escreve “El árbol de Diana” (1965) e “Los trabajos y las Noches” (1965) ela escreve no seu diário “Eu li meu livro. A morte é ali demasiado real, não o problema da morte senão a morte como presciência. Cada poèma tem sido escrito desta a total desaparição do mundo e seus rios, e suas ruas e suas gentes”. Nesse estado de melancolía escreve ensaios literários como ​ ​Nombres y figuras ​(1969), ​La condesa sangrienta (​ 1971) e ​El infierno musical (​ 1971)​ ​Suicidou-se no dia 25 de Setembro de 1972 com 50 pílulas de um potente sonífero, durante um fim-de-semana que passou fora da clínica psiquiátrica onde estava internada. ​Textos de Sombra y Últimos Poemas​ foi publicado em 1982. Em Portugal, a editora Correio dos navios, publicou ​Antologia Poética,​ edição bilingue em 2002​.

Dicas de leitura: Poesía, Surrealismo, Absurdo e Depressão.


Conforme a crítica, a poesia de Alejandra Pizarnik tem timbres surrealistas. Mas não se trata de um surrealismo programático, ou uma poética: é a autora mesma, em sua forma de ser e de se expressar. O que se destaca na obra de Alejandra é um lirismo noturno e profundamente angustiado — traço que se refina literariamente em seu terceiro livro, ​Las Aventuras Perdidas,​ de 1958, mas que já está presente em sua obra desde o início. Não é preciso ser especialista para observar a alta incidência de palavras como noite, morte, cinza, jaulas e gaiolas nos poemas de Alejandra Pizarnik. Pode-se perceber isso apenas percorrendo a pequena antologia ao lado. O poema "O Despertar", de 1958, é um dos exemplos mais asfixiantes dos mergulhos feitos pela poeta Alejandra Pizarnik no poço sem fundo da miséria humana. Ele expressa a perplexidade de alguém que percebe a transformação da gaiola em pássaro. O símbolo da opressão converte-se de repente num ícone da liberdade. Mas isso não traz prazer: "meu coração está louco / porque uiva para a morte / e sorri detrás do vento / para meus delírios". Não pode haver nenhum sentimento de alívio, porque o momento é assombrado pelo medo: "É o desastre / É a hora do vazio não vazio / É o instante de pôr ferrolho nos lábios". E vem o soturno refrão: "Que farei com o medo / Que farei com o medo". Adiante, surge a terrível e pungente indagação: "Por que não extraio minhas veias / e faço com elas uma escada / para fugir ao outro lado da noite?" Alejandra Pizarnik se agarrou à poesia como um náufrago se abraça com todas as forças a uma tábua do navio soçobrado. Para ela, somente a poesia fazia sentido e lhe conferia alguma razão. Vejam o que ela escreve no poema "El Deseo de la Palavra", que está em seu último livro, ​El Infierno Musical,​ de 1971: "Oxalá eu pudesse viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando cada frase com meus dias e com minhas semanas, infundindo meu sopro no poema, à medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimônias do viver".

Metafísico equivale aqui a poético, desvinculado de qualquer realismo ingênuo; também fantástico, enquanto corrompe o concreto e a materialidade da realidade. Más ela também tem um humor que evapora, e corrompe o pensamento útil, a linguagem corrente, o bom senso, o bom gosto. Como Cortazar, Pizarnik compartilha a finalidade última desse procedimento. O humor para Pizarnik é um humor poético, absurdo, que acontece em e pela linguagem. Tanto quanto a poesia, o humor metafísico de seus textos trabalha com a palavra, com “os problemas e os mistérios da linguagem” (ibid, p. 279), chamando a atenção para sua própria materialidade. Assim, devolve à linguagem sua potencia afastando-a da funcionalidade da comunicação, ao passo que produz um estranhamento em relação a nós mesmos e ao real. É por isto que alguns textos de Alejandra Pizarnik nos fazem rir: são as palavras as que se tornaram insólitas e temos a sensação de olhar a linguagem pela primeira vez. Na sua materialidade, elas se afastam do sentido do dicionário e estabelecem um jogo interminável de alusões disparatadas, incongruentes, ilógicas, fantásticas e musicais. Portanto, este humor metafísico, propriamente contemporâneo é “quase sempre indiscernível da poesia” Por que ler Alejandra Pizarnik hoje


COPI Raúl Natalio Roque Damonte Botana nasceu em Buenos Aires, em 22 de novembro de 1939. A origem do apelido Copi – que se tornaria identidade literária – é contraditória. Era neto do uruguaio Natalio Botana, fundador-proprietário do jornal Crítica (1913-1962), que revolucionou a imprensa argentina ao misturar sensacionalismo e intervenção política à qualidade do texto (em suas páginas colaboraram Jorge Luis Borges e Roberto Arlt). A avó, Salvadora Medina Onrubia, era poeta e dramaturga de ideais anarquistas que, além de lhe fornecer o pseudônimo, exerceu importante influência na formação do escritor. Completam o lado familiar – que Copi retrataria sem pena no livro La Vida es un Tango, um dos poucos que escreveu em espanhol, como um bando de drogados, racistas e pedófilos – o pai jornalista e político Raul Damonte Taborda, que primeiro foi homem de confiança do general Perón para depois se tornar ferrenho adversário dele e cair em desgraça, e a mãe Georgina, tratada pela alcunha de “China”. Fugindo do peronismo, os Damonte Botana se exilaram primeiro no Uruguai. Com a queda de Perón, retornaram a Buenos Aires, e o pai abriu o jornal Tribuna Popular (1955-1958), no qual Copi publicou os primeiros textos e ilustrações satíricas antes de se mudar definitivamente para Paris, em 1962. Só voltaria à Argentina duas rápidas vezes, em 1968 e 1987, tornando-se um “argentino de Paris”. O exílio, assim como para muitos autores conterrâneos (de Julio Cortázar a Manuel Puig, de Juan Gelman a Juan José Saer, de Sergio Chejfec a Rodrigo Fresán), foi condição determinante para a realização de sua obra. Recém-chegado à capital francesa, ganhou a vida vendendo desenhos nas ruas. Logo se ligou ao grupo Teatro Pânico, fundado pelo espanhol Fernando Arrabal, pelo chileno Alejandro Jodorowsky e pelo francês Roland Topor. Ao longo de sua trajetória como dramaturgo, escreveu mais de uma dezena de peças, entre as quais se destacam Un Angel para la Señora Lisa, La Journée d’une rêveuse (levada aos palcos parisienses em 1968 pelo argentino Jorge Lavelli, amante de Copi), além dos monólogos Loretta Strong e Le Frigo (que ele próprio representou com êxito). Duas delas, Cachafaz e La Sombra de Wenceslao, foram editadas postumamente, em 1993. A encenação de Eva Perón, fantasia sobre os últimos dias da primeira-dama argentina, interpretada por um ator travestido, sofreu um atentado da direita peronista no Théâtre de l’Épée de Bois, em 1970.


A obra dele é uma mensagem na garrafa, jogada no mundo para ser lida no futuro. No texto “O homossexual...”, escrito em 1967, ele já faz referência a um tal “vírus das estepes”, e numa montagem atual é impossível não fazer referência imediata à Aids. As próprias questões do gênero e da transexualidade já eram profundamente debatidas em seus textos muito antes do movimento drag queen. Copi trabalha pervertendo o discurso histórico, mítico e literário, produzindo uma leitura que quebra mitos sociais que vão desde a sexualidade até a nacionalidade e o cânone da literatura nacional. Em Eva Peron A obra transcende as duas versões do mito (a lenda oficial e a lenda negra antiperonista) e propõe um tratamento lúdico (não desprovido de cinismo), mas que aponta para uma crítica que abrange todas as posições políticas. O tratamento lúdico da imagem de Eva impõe uma leitura em que é preciso levar em conta a ironia com a qual é construída a peça. O traço irônico impede a adoção de identificações extremas que levariam a escolhas do tipo: a favor ou contra. Não há seriedade possível por trás da ridicularização e, portanto, é impossível identificar a peça como uma crítica unidirecionada; pelo contrário, é uma sátira que atinge a totalidade da sociedade. Com isto não esquecemos a história pessoal de Copi e de sua família, marcada pelo exílio no peronismo. Eva Perón pode servir como um símbolo fortíssimo para dar conta de muitos aspectos da cultura argentina, assim também como das condições pós-modernas da cultura, fundamentalmente, no que diz respeito à mistura do baixo e do alto, da cultura oficial e da cultura de massa, do estético e do político que se encontram na própria história e mito de Eva A literatura pós-moderna é, neste sentido, uma literatura que trabalha com a tradição (com a literatura moderna) de maneira suplementar e, ao fazê-lo, desnaturaliza os pressupostos do texto moderno, os expõe em sua historicidade. Ao mesmo tempo, procura aqueles espaços nos quais o texto moderno deixou vazios, os interstícios por onde se pode reler e repensar a tradição

Bibliografía: Cortazar https://www.revistaforum.com.br/2012/02/24/a-sobrevaloracao-de-julio-cortazar-no-brasil-um -capitulo-de-nossa-ignorancia-sobre-os-vizinhos/ https://books.google.com.br/books?id=2WXTqt1hDiUC&pg=PA4&lpg=PA4&dq=primeras+tra duzione+Julio+cortazar+portugues&source=bl&ots=ulL1lOgswG&sig=zxGTLxJtWqY60W8yx


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Alejandra Pizarnik http://www.ip.usp.br/laboratorios/lapa/versaoportugues/2c64a.pdf

Copi http://wwws.fclar.unesp.br/agenda-pos/estudos_literarios/2383.pdf

Profile for Nadia Ethel Basanta Bracco

Introdução a literatura argentina contemporânea: Trés autores fundamentais  

Introdução a literatura argentina contemporânea: Trés autores fundamentais  

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