Page 1

Edição 3

FUNDAÇÃO CULTURAL DO PARÁ cONHEÇA OS ESPAÇOS E ENTENDA O QUE ACONTECEU COM OS ANTIGOS iap, cURRO vELHO E TANCREDO NEVES


Juliana Editora-Chefe

Mateus Rep贸rter

Lorena Diretora de arte Diagramdora

Stefanie Rep贸rter

Vitoria Rep贸rter

Alana Rep贸rter


Luana Arte

Madylene R茅porter

Luciana Rep贸rter

Ana Luisa Social - Media

Mariana Social - Media

Amores de Colaboradores

Louise Lessa Rep贸rter

Izadora Rep贸rter


A

Na Cuia é uma revista de jornalismo cultural. Fazer uma matéria sobre órgãos públicos não estava nos nossos planos, mas o compromisso com o cenário cultural de Belém e com o jornalismo como serviço público, sempre esteve. Por isso resolvemos fazer essa edição. Não existe uma forma de isolar o artista de quem falamos ou a arte que debatemos da política, como se ela pudesse ser abstraída da realidade. Falamos do que é material porque ele pode nos causar a abstração através da arte que produz. Falamos das dificuldades do artista de encontrar um campo de formação e aperfeiçoamento, um mercado, porque se não trouxermos o debate para a mesa, a visibilidade dos problemas da comunidade artística se dissipa. Sem visibilidade, as chances de resolver as coisas ficam menores. Não temos nenhuma aspiração a ser banca para pronunciamentos de politicagem. O que a Na Cuia quer é entender a procedência das políticas culturais e divulgá-las para que não nos sobre a desinformação, como aconteceu em dezembro do ano passado, com a falta de diálogo e comunicados oficiais sobre a extinção dos dois maiores órgãos de fomento artístico do Pará. Depois de visitar alguns dos lugares onde eram as fundações e o instituto, conversar com quem tá por dentro do assunto, mexer em alguns sites de transparência, chegamos às informações que vocês podem ler nessa edição. Ela tá suada, levou mais portas na cara do que as anteriores, mas tá aqui, intacta. Espero que vocês gostem.

Juliana Araújo Editora-chefe


Dossie iLUSTRAÇÃO DA CAPA POR JEFFERSON LOPES

6 . ATO 1 10 . ATO 2 14 . ATO3 18 . ATO 4 20. ATO 5 24. ATO 6 26. ATO 7


Ato 1

Reconfiguração dos espaços da Casa. Planta baixa do prédio. Foto: Juliana Araújo


Por Juliana Araújo

Perigo de ~ extinçao? A Na Cuia investiga as mudanças no quadro político das instituições de fomento cultural. O choque da fusão foi maior do que os danos mas esses, ainda assim, preocupam os artistas paraenses.

N

o dia 17 de dezembro de 2014, a Na Cuia teve uma das últimas reuniões de pauta para lançar a primeira edição. Saindo da sala, a Stéfanie - que escreve as resenhas cinematográficas do Beco – soltou na roda que o Instituto de Artes do Pará (IAP) ia fechar. “Fechar? Como a gente vai deixar o IAP fe-

char?”. Extinção era a palavra usada no projeto de lei, documento digitalizado pelo deputado estadual Edmilson Rodrigues. Logo mais ela nos avisa que não é só o IAP: o Curro Velho também aparece no texto, acompanhado daquela expressão tão desagradável e definitiva. Era impossível pensar em extinção.


N

os organizamos pra cobrir a votação, mas a votação era dali a duas horas. Ninguém conseguiu comparecer. Sem entender bem, desinformados, continuamos tentando achar alternativas para algo que parecia apocalíptico. Vamos ocupar. Vamos fazer um abaixo-assinado, pedir para o governador vetar. “Ju, era um projeto de lei do governo e só valeria se fosse aprovada pela Assembleia Legislativa. Como a base do governo é maioria por lá, a proposta passou”, uma amiga jornalista me explicou por mensagem. Desistir? Não é bem por aí. Toda a equipe da revista queria saber o que tinha acontecido e o que aconteceria depois da aprovação. Ao ser questionado sobre a movimentação popular, o deputado Edmilson Rodrigues respondeu: “Vários segmentos sociais nos procuram para reivindicar mudanças na proposta de reforma, autoritariamente, apresentada pelo governador. Infelizmente, os movimentos da área artística, que, em geral, comandam os chamados movimentos culturais, com exceção de algumas

manifestações críticas nas redes sociais, demonstraram apatia. Desse modo, sem pressão popular, a base governistas votou tranquilamente.” Redescobrindo a estrutura das políticas culturais O que tinha acontecido era uma fusão, com a finalidade de cortar despesas. Os espaços continuariam funcionando, mas com um gerenciamento diferente, unificado. A Casa das Artes (antigo IAP) e as Oficinas Curro Velho fazem agora parte da Fundação Cultural do Pará (FCP), que está sediada no prédio da antiga Fundação Tancredo Neves. As decisões são feitas por um sistema de diretorias que é temporário, de acordo com Dina Oliveira, presidente da FCP. Atualmente, as cinco diretorias consistem em: Diretoria de Artes, Diretoria de Leitura e Informação (que envolve as bibliotecas), Diretoria de Interação Cultural (que trata das atividades, em especial as do interior), Diretoria de Finanças e a Diretoria de Artes e Ofícios. Integradas, elas coordenam

um sistema de formação de artistas e fomento cultural que, desde os anos 90, vigoram no estado.“O Curro Velho e ao IAP, são instituições de fomento, tanto na base quanto na produção de artistas numa maneira geral, e isso não é uma característica especialmente deste governo. Essas políticas remontam lá na década de 90, quando o governador Almir Gabriel monta o IAP com o Paes Loureiro e a [Regina] Maneschy como presidente e eles pensaram esses processos como um encadeamento muito mais forte em relação à política cultural do estado”, explicou o fotógrafo Michel Pinho. Os artistas que o Curro Velho formava, o IAP aperfeiçoava e a Fundação Tancredo Neves abrigava, em espaços como os teatros Waldemar Henrique e Margarida Schivasappa, suas obras e espetáculos. Ainda hoje é assim e, de acordo com a presidência da Fundação, continuará assim, com o mesmo procedimento burocrático. E o que tinha que ser publicado “por direito de edital”, como diz a diretora de artes Célia Jacob, o será.


Músicos utilizando espaço da Casa das Artes. Foto- Madylene Barata.

Ao visitar o antigo IAP – agora Casa das Artes -, Célia nos mostrou os espaços que perderiam a função administrativa e passariam a ser lojas de publicações internas, salas e biblioteca de artes. Isso trouxe uma reflexão sobre como todo aquele trabalho seria administrado por menos pessoas. Quando perguntamos a ela de que forma, com a ideia de enxugar o quadro de cada um desses espaços, vai se garantir que a quantidade e a

qualidade das ações continuem as mesmas, a diretora responde com otimismo: “É este que é o grande desafio nosso. Vamos trabalhar com estagiários dentro das aulas específicas, então vai ser um espaço de aprendizagem também pra esses alunos”. A sede da FCP tem a mesma cara de sempre. Quando chego no prédio do antigo Centur, tenho a impressão de que aquele espaço continua sendo a Fundação Tancredo

Neves - contudo, não é uma realidade, como veremos mais a frente. Quando pergunto se a maior delineação das ações não poderia acontecer sem a fusão, a presidente Dina responde: “É muito difícil. Eu acho que isso é histórico, esse sombreamento”. Ela continua, sobre os coordenadores das linguagens: “Na verdade, você extinguiu os órgãos, mas você não extinguiu as ações. O coordenador de linguagem visual, de linguagem plástica, esses tem que ter. As ações da área fim, elas tem que ser cobertas. A gerência é que realmente foi reduzida.” O acúmulo de funções administrativas para a realização da mesma quantidade de projetos soa exaustiva. O susto passou, mas a pulga não abandonou o seu lugar atrás da orelha. É bom ela estar lá. É nosso trabalho fiscalizar o que esse órgão vai fazer, as ações que vai manter. Precisamos cobrar que os nossos artistas e nossos espaços de formação e aperfeiçoamento sejam preservados. A seguir, a Na Cuia apresenta matérias e entrevistas sobre a história e o futuro dos espaços que serão para sempre, em nossos corações, o IAP, Curro Velho e Tancredo Neves.

Gastos nos três órgãos em 2014 O projeto de lei pretendia enxugar gastos. Saiba quanto os órgãos arrecadaram no ano passado, para todas as despesas - manutenção e realização de atividades, além de salários e serviços terceirizados. Fundação Tancredo Neves

28.780.102,76

IAP

14.131.976,39

Curro Velho

8.766.118,47


Ato 2

PolĂ­tica com a parti segmento

Corredor da Casa das Artes. Foto: Madylene Barata.


~ icipaçao de todos os

os da arte

O deputado estadual Edmilson Rodrigues fala sobre a política cultural paraense e a polêmica da fusão.


Pintura na parede ilustrando o mercado do ver-o-peso.

O decreto foi mais polêmico justamente por ter tido uma votação próxima de sua proposta. Qual o motivo da rapidez da votação? Foi um projeto de lei de iniciativa do Poder Executivo. Em tese, as mudanças feitas poderiam culminar em resultados positivos para a política cultural do estado. Contudo, um governo, verdadeiramente intencionado na cultura popular, não precisa agir com autoritarismo e golpes institucionais. O fato de o projeto ter sido feito por alguns poucos burocratas de plantão e, infelizmente, legitimado pela maioria dos deputados estaduais que compõe a base de apoio do governador, inclusive, deixando surpresos até mesmo gestores da área da cultura com status de secretário como, por exemplo, dirigentes do Instituto de Artes do Pará, da Fundação Tancredo Neves e do Curro Velho, é demonstração da total falta de transparência do governador. É um desrespeito e uma humilhação aos seus próprios assessores, mas, principalmente, um desrespeito à sociedade, particularmente, aos artistas, que viram uma lei aprovada a toque de caixa para inviabilizar qualquer participação democrática nos rumos das políticas culturais. Representei a Assembleia Legislativa na Conferência


Entrada do prédio do Instituto de Artes do Pará (IAP).

Estadual de Cultura e, em nenhum momento, os representantes do governo pautaram o tema da reforma administrativa que seria meses depois implementada. Qual o maior problema que essa unificação infere? O maior problema é que um número bastante significativo de profissionais gabaritados está nos corredores dos órgãos extintos ou incorporados sem clareza de função. E o ponto positivo mais expressivo? O lado bom é que a pressão dos funcionários de carreira, que hoje vivem o constrangimento de não poderem desenvolver suas funções profissionais, somada à pressão dos movimentos socioculturais,

podem influenciar na produção de uma política cultural transparente e democrática. Sinto-me obrigado a reconhecer que a nomeação da professora e renomada artista plástica Dina César Oliveira para dirigir a fundação, pode significar um indicativo dessa possibilidade de se galgar avanços na qualidade da política cultural. Digo isso, porque como gestora do Curro Velho por longo período, demonstrou grande capacidade de empreender e de dialogar. O problema está se o governador dará a prioridade necessária às políticas culturais, mormente às de caráter popular do estado. Até este momento, ao que se sabe, os recursos destinados à cultura são parcos, o que inviabiliza qualquer boa intenção, principalmente, se a maior parte servir para financiar eventos caríssimos

para o lazer de uma elite inculta. Quais as medidas que consideras indispensáveis para as políticas culturais? Recursos públicos, qualificação dos profissionais, editais para o acesso democrático aos recursos em todas as linguagens da arte e democratização da Lei Semear. Deve-se dar um basta à concorrência de autoridades do estado em relação aos artistas e estabelecer uma gestão democrática a partir de uma política desenvolvida com a participação de todos os segmentos da arte numa conferência democrática e na eleição de um conselho representativo das diversas categorias artísticas, que passe pelo teatro, cinema, música e dança.


Ato 3

MĂşsicos ensaiando na Casa das Artes. Foto: Madylene Barata.


Por Brenda Rachit

O Curro que recebe, cuida e ensina. Uma breve história da atual Oficinas Curro Velho - uma entidade da cidade que tem coração de mãe - e suas famosas Crias.

Q

uem desce a rua Prof. N e l s o n Ribeiro já consegue avistar um charmoso casarão acomodado ao fundo. Parece até ter vida própria, já que recebe, cuida e ensina a quem pode. Todos o conhecem

carinhosamente como Curro Velho, mas antigamente, nos tempos da Província do Grão Pará, ele era o Curro Público de Belém, um lugar que fornecia carne para a população da capital paraense.


F

oi inaugurado em 1861, pelo então governante Francisco Carlos Brusque. Mas o Curro foi desativado e acabou sendo usado como depósito de gás e de outros produtos. Com o tempo, a construção foi ficando cada vez mais abandonada até que, em 1988, sob governo de Hélio Gueiros, foi restaurada. A determinação veio após cinco anos de tombamento do prédio como bem do Patrimônio Histórico Cultural do Pará. Agora, ao invés de carne, fornecia outro tipo de alimento: arte. Em 1990 ganhou nome e sobrenome ao ser institucionalizado como a Fundação Curro Velho (FCV). Enraízado na períferia de Belém, o grande casarão oferece um mundo de possibilidades a adolescentes, jovens e adultos. O Curro Velho tem um poder transformador, principalmente para a população de seu entorno, que encontra nesta casa, alternativas para suas impossibilidades. Muitos entram ainda crianças e desenvolvem ali formas de serem autores de seu presente e futuro. As chamadas Oficinas de Iniciação Artística, abertas para crianças de 7 a 12 anos, incentivam seus pequeninos a dialogar com a cultura e se expressar através da arte. A partir de 12 anos já é possível se inscrever nas Oficinas Regulares. São tantas que nem usando os dedos dos pés daria para contar a variedade delas. No geral, tratase de oficinas de linguagem cênica, verbal, musical, visual e de design, que atendem em média 1500 alunos por módulo. Essas vagas são reservadas em 70% para estudantes da rede pública de ensino, um modo de garantir o acesso e integração desse público. Além das oficinas, o Curro Velho também tem espaço para exercício de tudo que é aprendido pelos alunos. Com um Núcleo de Prática de Ofício e Produção, todo

FOTO: BRENDA RACHIT saber adquirido nas oficinas se torna uma possibilidade desse aluno desenvolver seu trabalho de forma livre e criativa. A partir daí ele pode, de certo modo, obter um retorno de seu investimento. Um retorno financeiro e, principalmente, de realização. Apesar de nem tudo ser uma maravilha, os alunos, assim como os funcionários, se mostram dispostos a enxergar o melhor do Curro e a doarse para que essa troca flua. Jonilson Lima de Souza já foi aluno do Curro Velho, começou lá quando tinha trinta e cinco anos. Hoje, com quarenta, conta que se matriculou no curso de desenho inicial, fez o módulo aprofundado e também o avançado. Após ter concluído os três módulos, começou a desenvolver algumas animações e foi chamado para ser instrutor. Embora hoje esteja instruindo no Laboratório de

Animação, Jonilson diz que entrou no curso sabendo apenas o básico. “O Curro Velho me ajudou muito a construir a técnica. Isso facilitou muito no meu trabalho”, afirma. Para melhor desenvolvimento das habilidades do aluno, Jonilson diz que é essencial haver um acompanhamento. “Acompanhei o avanço de um aluno daqui das proximidades. Ele não tinha tanta técnica quando iniciou, mas em um mês houve um avanço enorme em seu desenho. Eu sempre procurava mostrar o que era possível como profissão para ele lá na frente”, conta Jonilson. Ele explicou também que, ao final de cada oficina, os trabalhos resultantes daquele módulo são utilizados de forma que os alunos se sintam valorizados. Ao lado do Laboratório de Animação pode-se ouvir, mesmo que de fora, as músicas que dão mais vida às aulas do


curso de dança. Os ritmos são variados, mas a empolgação é sempre a mesma. Deusa Fonseca Garcia é aluna do curso e conta que está há seis anos no Curro. Matriculou-se inicialmente no curso de teatro, passou pelo de desenho e está há dois anos na dança. Além da formação profissional, Deusa enfatiza a contribuição das atividades para seu desenvolvimento pessoal. “Aprendi muitas coisas na prática: ser solidária com meus amigos quando eles precisam, reciclar coisas que eu não sabia que poderiam ser reutilizadas, conversar melhor com as pessoas e, também, respeitar os funcionários”, declara. Como aluna, Deusa expressa que os professores estão sempre ensinando coisas novas e que o próprio Curro Velho tem se desenvolvido junto com seus alunos. Diante das incertezas sobre o futuro do Curro, os alunos organizaram o movimento Ocupe o Curro Velho, protesto marcado para o dia 22 de Dezembro de 2014. No dia combinado, alunos e ex-alunos se encontraram na frente do prédio e tiveram um bate-papo bastante direto com a coordenação do Curro. Foi um momento desafiador para ambos os lados. Foram feitos muitos questionamentos e a promessa de que o movimento não terminaria ali. Será que as atividades iriam mesmo continuar como antes? Os investimentos iriam diminuir? Como será agora, com uma só administração para órgãos tão múltiplos? Muitas perguntas foram feitas. As respostas? Pareceram ser dadas e recebidas com a esperança de que se algo mudasse, que fosse para melhor.

Ilustração de Lorena Emanuele


Ato 4

Tem dinheiro pra cultura? Tem. Mas onde ele está alocado?

O fotógrafo Michel Pinho chamou a atenção da equipe da Na Cuia pelo posicionamento crítico nas redes sociais acerca da Fundação Cultural do Pará. Entramos em contato com ele, que falou sobre a história e a distribuição de renda nos órgãos de cultura.


“Ao longo dos 20 anos a arte contemporânea paraense e a arte-educação paraense se consolidou como uma das principais no Brasil inteiro. Só que, no governo da Ana Júlia para o segundo governo do Simão Jatene houve um processo de desmantelamento da arte no estado. Desde processos como a Galeria Theodoro Braga, que pouco se fala. Você não tinha política de pauta pública, agora que passou a ter. E mesmo com o dinheiro do IAP, começou a ficar muito pequeno em relação às ações que eles faziam. Eu participei da primeira reunião do NPD, que é o Núcleo de Produção Digital. Da primeira reunião ao desenvolvimento do Núcleo, se passaram mais de dez anos. Aí o núcleo se consolida, começa a produção e a divulgação e, quando tem a consolidação, vem o decreto e corta tudo. Como vão ser as bolsas? Como vão ser as políticas de interiorização? As bolsas davam oportunidade para as pessoas virem para a capital

para mostrar o seu trabalho e desenvolver o seu trabalho. Quer dizer, pela primeira vez no estado a gente tem uma grande política pública que vai ajudar no fomento e, de uma hora para outra, isso some. Como cidadão eu não tenho essa resposta. E eu gostaria que essas políticas públicas melhorassem. Não é o que eu estou vendo. A pressão é uma pressão política dos agentes envolvidos, porque se deixar para o gabinete isso não vai se resolver. Com os cortes dos governos de Ana Júlia e do Simão Jatene, como o IAP continuava o trabalho? Porque tinha um organograma inteiro, estabelecido por força de lei que criava ali uma autarquia. E aí você tinha uma gerência de artes plásticas e visuais, uma gerência de dança, de literatura. Cada uma dessas gerências tinha autonomia pra desenvolver seus próprios projetos e captar recursos para isso. Com a diminuição de cargos tu consegues entender que esse projeto de lei atinge frontalmente a autonomia. Porque o organograma

que foi montado, é SeCult [entrevistado coloca a mão acima da cabeça] e Fundação Cultural do Pará [ele coloca a outra mão na altura dos olhos]. Você não tem as autarquias depois, você tem só - não sei nem se são diretorias ou secretarias que estão intimamente ligadas à presidência.”

A Na Cuia foi atrás dos dados acerca da distribuição da verba da SeCult em 2014, através do Portal da Transparência do Estado* e descobriu alguns dados interessantes na categoria “Contribuições”. A contribuição direta e o “serviço de terceiros” (item que contabiliza os gastos totais com serviços terceirizados) distribuídos para ações do Pará 2000 – projeto

que administra o Hangar Centro de Convenções, a Estação das Docas e o Mangal das Garças - são de 575 mil reais. Também receberam suporte da SeCult o carnaval o Grêmio Recreativo (o “Deixa Falar”), a Liga Independente dos Blocos de Enredo de Belém e duas ligas de carnaval das Ilhas (Outeiro e Cotijuba), com gastos beirando os 250 mil.

A contribuição com a Academia Paraense de Música excede 5 milhões de reais, um pouco mais da metade de todas as despesas que o Curro Velho teve durante o mesmo ano, o que acerta o tom de disparidade mencionado por Michel. Nenhuma outra linguagem aparece claramente no documento. Fonte: * http://www.transparencia. pa.gov.br/

Como é que enxergas essa fusão e redução de verba?

A impressão que temos é que a cultura é a primeira a ter os recursos reduzidos. Parece que não tem verba para a cultura. “Você tem que avaliar verba para quê? Historicamente, o que você tem nos últimos anos? Uma verba muito forte para música e eventos. Vocês podem pegar os números no Diário Oficial, são números estratosféricos. O governo Ana Júlia fez, também, duas publicações de livros de fotografia, envolvendo seis fotógrafos. Quantos deles saíram? Nenhum. Isso virou para o governo do Simão Jatene. Também não saiu. E não vai sair agora. Então se tu me perguntas “tem dinheiro pra cultura?”, tem. Mas onde ele está alocado? Você tem uma concentração, entendeu?.”


Ato 5

PAINEL DE PINTURAS NO CURRO VELHO. FOTO: BRENDA RACHIT


Por Luciana Vasconcelos

Grande. Na vida e na morte. Em Belém, um prédio se destaca. É um gigante de muitos nomes, muitas histórias e muitos espaços. Exala uma imponência própria dos anos 1980 e acolhe a quem bem lhe quer.

V

ocê deve conhecer simplesmente como Centur, um lugar muito jeitosinho localizado em um dos bairros históricos mais importantes de Belém. Mas a verdade é que este jovem senhor, prestes a completar 29 anos, carrega um nome bem grandão: Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves (FCPTN). O prédio com cerca de 23.000m², projetado pelos arquitetos Euler Arruda,

Edson Arruda e Rafael Gonçalves, teve as obras iniciadas em 1978, mas só oito anos depois foi fundado. O professor e poeta João de Jesus Paes Loureiro assumiu o posto de primeiro diretor-presidente da instituição. A proposta desse órgão público estadual, desde lá em agosto de 1986, sempre foi acolher e defender o Patrimônio Histórico-Cultural Paraense.


N

aquela época, o Pará enfrentava muitos hiatos (e quase ninguém gosta de hiatos, não é? Viciados em séries compreendem) na programação cultural do Estado. Era um problema com décadas de idade. Para se ter uma ideia, em Belém havia um único teatro, apenas duas galerias de arte e uma biblioteca pública sem recursos. Esse cenário motivou a elaboração do Centur para promover interatividade direta entre artistas com a missão de conservar e expandir informações nas mais diversas plataformas. Essa é uma das razões pela qual hoje temos maior acessibilidade à crescente efervescência do setor cultural da região e ao mesmo tempo garantimos a atemporalidade da nossa memória e honramos inúmeras gerações. Segundo a própria instituição, neste momento o Centur se configura como o maior centro de debates e manifestações culturais do Norte do Brasil, o que certamente contribui para projetar as produções paraenses no cenário nacional. O Centur é um gigante de muitos espaços: abriga o Centro de Eventos Ismael Nery com salas de apoio para cursos, o Teatro Experimental Waldemar Henrique e o Teatro Margarida Schivasappa, o Cine Líbero Luxardo, a Fonoteca Pública Satyro de Melo, a Galeria de Arte Theodoro Braga, além do Hall Ernesto Cruz e das Praças do Povo e do Artista, uma área coberta de 4.530m² onde são promovidos shows, festivais, feiras e exposições. Parece muita coisa, não é? Ainda bem, porque são várias oportunidades de difusão e defesa da cultura regional. É ainda no Centur que podemos ter acesso a uma das maiores bibliotecas públicas do país, a Biblioteca Pública Arthur Vianna (BPAV), que completa 144 anos este mês. Mas a conta não bate. Como 144 anos, se o Centro tem apenas 28? Acontece que a

FOTO: BRENDA RACHIT BPAV foi fundada em 1871 (isso mesmo, lá na época do império!) por Joaquim Pires Machado Portella, presidente da província. A biblioteca ficava localizada no edifício do Lyceu paraense e, por volta de 1895, ela foi deslocada para o Arquivo Público do Pará. Apenas em 1986, por carência de espaço, a BPAV foi acolhida pelo Centur, expandindo o acervo que ainda é ampliado até hoje. Só que, além de tudo isso, o Centur também possui estacionamento, restaurante, posto bancário, serviços telefônicos e de reprografia, onde é possível tirar “xerox” de documentos. E, ainda segundo a instituição, o Centur “é o único órgão de cultura do Estado que trabalha com todas as linguagens artísticas: teatro, dança, música, artes plásticas, livro e leitura”. Ou seja, tem cultura em abundância para todas as preferências! Na época da inauguração do órgão, Paes Loureiro chegou a dizer que “o sonho sonhado pelo poeta tem a chance de ser

vivido através do presidente da Fundação [...]. Que das brenhas desse nosso Estado inteiro venha a cultura popular como uma bandeira nas mãos… assim… livres… da expressão de um povo que é grande e cuja grandeza se expressa através de sua manifestação cultural”. É. “Grande” parece ser o adjetivo que mais identifica tudo que envolve o Centur, desde as idealizações para o futuro incerto durante a década de 1980 até os atuais debates acerca de um futuro completamente diverso, mas tão incerto quanto. E o poeta continua, em tom de reza: “Que todo o nosso Estado seja a casa de sua cultura e a cultura, por fim, através da arte, através da poesia, seja uma forma de felicidade espontânea que todos nós queremos, que todos nós pedimos, que todos nós temos o direito de ter”. Eu só posso dizer “amém”. O Centur não existe “O Centur não existe”. Foi a primeira coisa que ouvi de um funcionário da BPAV assim


que cheguei ao local e solicitei uma obra com informações sobre a história do lugar. Devo ter feito uma cara de completo descrédito. Como se eu tivesse gritado, em meio àquele silêncio sepulcral, mais ou menos desse jeito: “Oi?! Como assim? Acordei na dimensão errada hoje?”, porque ele explicou: “O que existe é a Fundação Tancredo Neves. Na verdade, nem tem mais esse nome. Agora é Fundação Cultural do Pará, que inclui o IAP e o Curro Velho. Tá sabendo?” Fiz que sim. Ele continuou: “Quando foi fundado, esse prédio era utilizado como Centro de Turismo. Hoje não tem mais o turismo, mas o nome acabou pegando”. Trocando em miúdos: muitas pessoa conhecem como Centur, mas esse nome não é o correto há anos. Alguns chamam de Fundação Tancredo Neves, porém ela também não existe mais. O que ocupa o prédio da Av. Gentil Bitencourt atualmente é a Fundação Cultural do Pará. Meio confuso, não é? É quase como se a instituição fosse algo

etéreo, amorfo, transcedental. Nomenclaturas à parte, é inegável a destacada relevância do Centur para diversas áreas do setor cultural do Pará. Acontece que, há alguns meses, as três instituições públicas estaduais mencionadas pelo funcionário da Biblioteca sofreram alterações administrativas. E o problema é que nem toda a população paraense, inclusive os artistas, faz ideia de se devemos considerar o fato como um ponto positivo ou negativo para o Estado. É preciso entender melhor essa história. Tudo começa com política. Em dezembro de 2014, deputados reunidos na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) marcaram um processo importante para a cultura paraense. Foi aprovado o pacote da Reforma Administrativa do governo do Pará. O documento, que passa a valer este ano, tem por objetivo reduzir as despesas do governo em cerca de R$ 15,6 milhões anuais, diminuindo o número de secretarias estaduais de 75 para 55 e extinguindo por volta de 600 cargos comissionados ao associar, extinguir e criar órgãos. No caso da nossa cultura, o que primeiramente se criou foi polêmica. O motivo: como compactar de forma satisfatória entidades tão distintas em objetivos e segmentos quanto o Instituto de Artes do Pará (IAP), a Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves (FCPTN Centur) e a Fundação Curro Velho (FCV) em um único órgão gerido pela mesma administração, a recém-criada Fundação Cultural do Estado do Pará (que já tem até sigla, FCP, mas carece de missão)? O fato é que satisfatoriamente ou não, a partir da fusão, foi instituído um vínculo entre a nova FCP e a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (SECULT). Na época, o governador Simão Jatene chegou a afirmar que as atividades promovidas pelas entidades seriam mantidas. Mas como?

Há menos colaboradores envolvidos com a elaboração e a oferta dos projetos das instituições e todas elas estão sob uma administração nova. Na visão de Michel Pinho, “vai começar tudo de novo [...]. Então, questões que estavam bem definidas voltaram à estaca zero. .As bolsas davam oportunidade para as pessoas virem para a capital mostrar e desenvolver o seu trabalho Quer dizer, pela primeira vez no estado a gente tem uma grande política pública que vai ajudar no fomento [cultural] e de uma hora para outra isso some”, lamenta. Dina Oliveira, garante: “A proposta é que continue realmente cada uma [das instituições] fazendo aquilo que é da sua expertise, e eliminando esses sombreamentos”. Os sombreamentos, segundo Dina, são as áreas de intersecção dos órgãos, ou seja, as atividades em comum que se tangenciavam e talvez se adequem melhor agora compartilhadas. Folheando aqueles velhos recortes de jornais, amarelados pelo tempo e repletos de grafias que já não usamos mais na língua portuguesa, percebia o quão positivas e romantizadas eram as expectativas sociais em relação ao Centro na época da inauguração. “A sociedade, a quem entregamos hoje o Centur, é quem vai controlar a fundação”, uma matéria citava o então governador Jader Barbalho. Paes Loureiro chegou a falar na atuação do órgão enquanto “vitrine permanente da cultura paraense” e “força legitimadora da importância cultural das manifestações de cada município”. O fato é que, no final, tudo também termina com política: a grega “ta politika”, a latina “res publica”, somente manifestada na prática e em essência quando os negócios públicos são dirigidos pelos próprios cidadãos. Acontece que, no meio desse redemoinho de siglas e nomenclaturas, quem fica tonta é a cultura.


Ato 6

“Apesar de serem ~ três instituiçoes, cada uma com um prato forte”

A ex-dirigente da Fundação Curro Velho, atual presidente da Fundação Cultural do Pará, Dina Oliveira, foi procurada pela redação da Na Cuia para explicar os motivos e esclarecer qual a estrutura atual da FCP.


CURRO VELHO. FOTO: BRENDA RACHIT O que aconteceu exatamente que é uma biblioteca muito com o Curro Velho, o IAP e a grande, e de interação Fundação Tancredo Neves? cultural, de difusão cultural. Por exemplo, no Curro, nós [As] três entidades tinham tínhamos o projeto Choro missões diferentes em do Pará, que já é em um nível algumas partes e similares em mais profissional, que já outras. A Fundação Curro podia ser algo da Fundação Velho tem o histórico de um Tancredo Neves. Temos trabalho com cursos, oficinas, uma lutheria, que já é num técnicas de arte do ofício, nível mais profissional. Já do atendimento à escola no IAP, até com a questão pública, do atendimento a do Pró-Paz, você tinha um comunidades quilombolas, apelo forte de fazer oficinas indígenas, ao interior do para adolescentes, que seria estado, com uma linha forte melhor estar, talvez, no da questão da reciclagem, Curro. Aí, aqui na Tancredo do reaproveitamento. 70% Neves tem ainda um projeto das vagas dela são dirigidas que ia para as escolas fazer ao público da escola pública. oficinas, eminentemente Hoje, por exemplo, estava da Fundação Curro Velho. até trabalhando também Apesar de serem três com mulheres, mas o foco instituições, como eu digo da missão dela é criança, ás vezes, cada uma com um adolescente, até adultos, mas prato forte, nas sobremesas em um trabalho de inserção, havia uma tangência muito de iniciação, de primeiro grande. Então o que está acesso às linguagens acontecendo? O Curro está artísticas. Já o antigo IAP abrindo agora umas cem veio com uma missão de oficinas, como ele sempre dar o segundo passo, o do fez, porque esse é o grande artista e o da pesquisa. E trabalho do Curro. Foi para aqui a Tancredo Neves é a avenida com as Crias do uma política da biblioteca, Curro, mantém as oficinas

com as mulheres, com o teatro, com serigrafia, com jovem e o Núcleo de Prática de Ofício, que é a primeira inserção de um trabalho de iniciação a geração de renda do jovem. Depois você vai pro IAP e você vai ter outro tipo de iniciação ao mercado de trabalho. Então, na verdade, a proposta é que continue realmente cada uma fazendo aquilo que é da sua expertise e eliminando esses sombreamentos, até para que o recurso possa não pulverizar tanto. Os processos burocráticos continuam da mesma forma? Claro! Essa gestão, pelo menos, está se propondo a fazer o máximo de concursos, editais, bolsas, tentando chegar a um processo mais transparente. E outra coisa é a questão deste espaço físico aqui, que ele está realmente carente de uma parte de investimento, de uma reforma arquitetônica e de melhoria dos espaços físicos.


Ato 7

Orquestra de Choro ensaiando na Casa das Artes. Foto: Madylene Barata.


Por Vitória Mendes

Os novos desafios da Casa das Artes De que forma a recém-criada Casa das Artes pretende manter as ações de pesquisa e experimentação artística, que consolidaram o Instituto de Artes do Pará como instituição relevante para o Estado?

É

tempo de arrumar

coordenação, uma grande

a

Quem

planta do prédio exposta

visita o Centro de

em uma mesa simboliza

Experimentação Artístico

que se vive uma fase de

e Cultural do Pará, o

planejamentos, adequações

antigo IAP, nota que o

e reutilizações dos espaços

órgão é o que mais tem

do Centro. A readequação

mudado com a criação da

do

Fundação Cultural do Pará

acompanha a reformulação

e a fusão das instituições

administrativa.

culturais.

casa.

Na

sala

da

espaço

físico


GRUPO DE MÚSICOS NO IAP. FOTO: MADYLENE BARATA

Célia Jacob assumiu o cargo de diretora de artes da Fundação e coordena a Casa das Artes há menos de dois meses. Pergunto sobre as principais alterações durante esse período e ela esclarece: “Aqui no Instituto de Artes do Pará mudou tudo. Não é mais Instituto, não existe mais uma presidência. Até o nome ficou por um longo tempo sendo pensado. Então, primeiro ficou Atelier Nazaré, vocês lembram, não é? Depois ficou Casa das Artes- Centro de Experimentação Artísitico e Cultural do Pará. Foi uma mudança tão de repente que nós precisávamos ouvir um pouco as pessoas para saber o que é que poderíamos chamar pra cá sem perder aquele link com a própria missão que esse Instituto de Artes teve durante tanto tempo.”. A Casa das Artes está submetida às Diretorias da Fundação Cultural. Na prática, isso significa uma integração de ações com os outros órgãos culturais. Como explica Célia: “Se eu vou fazer uma oficina aqui, eu converso com o Diretor de Interação Cultural, converso com a Diretora de Práticas de Ofício, converso com a própria presidência, com a Diretoria Financeira e com a Diretoria de Leitura e Informação. Então, não existem mais ações isoladas, todas as ações são integradas. Acho que o maior objetivo do governador era esse, que as ações fossem integradas, que os orçamentos fossem integrados, e tudo fosse discutido.”. No entanto, uma das principais críticas à Reforma Administrativa diz respeito

à falta de esclarecimento ao público sobre o que iria ser feito com o Instituto de Artes e todas as ações promovidas. Danielle Franco, jornalista e produtora cultural, era assessora de comunicação do IAP. Ela aponta que a notícia da extinção do órgão foi uma surpresa para os servidores: “A gente recebeu [a notícia] da mesma forma que todo mundo. Ninguém foi chamado pra conversar, nem avisado de que tudo ia acontecer. A gente, simplesmente, soube da notícia junto com todas as outras pessoas. Então, no primeiro momento houve um impacto muito grande porque a gente não sabia de fato o que ia acontecer. A gente soube que o IAP ia ser extinto. Mas hoje eu percebo que há realmente não só um interesse, mas há um projeto do governo pra que o IAP continue mantendo o que ele sempre se propôs em manter, mas de uma forma mais enxuta administrativamente. A questão é que isso não foi explicado pra ninguém. As coisas foram acontecendo, sendo feitas e a gente vai descobrindo pelo meio do caminho”, critica. O quadro de funcionários foi bastante reduzido, pois nunca houve concursos públicos para o IAP, então, alguns funcionários eram temporários e os servidores foram exonerados.

E já que houve concursos nos anos anteriores para os outros órgãos que integram a Fundação Cultural, como o Curro Velho, alguns servidores foram remanejados para a nova Casa das Artes. Questionada sobre a possibilidade de continuar exercendo as ações com qualidade, mesmo com um quadro enxuto e o risco de acúmulo de funções, Célia Jacob diz que “este é o nosso grande desafio. Então, nós vamos trabalhar com estagiários dentro das áreas específicas: alunos de Cinema, Comunicação, Artes Visuais e Tecnologia da Imagem, Letras, Música e vai ser também um espaço de aprendizagem para esses alunos”. O QUE ESTÁ SENDO DESENVOLVIDO HOJE As transformações na Casa das Artes são graduais, mas até então algumas atividades vem sido mantidas. Em fevereiro, a Casa lançou o Edital de Pesquisa e Experimentação Artística, que contempla 30 artistas da capital e dos interiores, de todas as áreas com uma bolsa no valor de 18 mil reais, durante 7 meses. Além disso, foi ofertado o curso de HQ’s e História do Cinema, a oficina Poesia - a voz selvagem, e os ensaios da Orquestra de Choro do Pará continuam acontecendo.


A Na Cuia perguntou o que a nova gestão planeja para os seguintes projetos: - Núcleo de Produção Digital: Embora o site esteja desatualizado, algumas atividades continuam acontecendo. Felipe Pamplona é o novo coordenador do Núcleo. Pretende-se contratar estagiários para atuar no projeto. Os equipamentos continuam sendo emprestados aos estudantes de Cinema da UFPA. Alguns equipamentos defasados serão trocados e a parceria com o Ministério da Cultura será renovada. Uma mostra de vídeos experimentais ocorre todas as segundas. Também se planeja um curso aberto ao público na área de audiovisual. - Pará Criativo: Parceria entre o governo do Pará e o Ministério da Cultura, a iniciativa visava colocar em evidência a economia criativa de alguns estados brasileiros. Segundo a gestão, a renovação da parceria depende do MinC, pois as pessoas que trabalhavam no projeto assinaram contrato (encerrados em dezembro) com o Ministério. Mas há interesse em continuar com o projeto. - Prêmio de Artes Literárias: irá continuar, mas com o nome Prêmio de Literatura da Fundação Cultural do Pará. Os autores vencedores da edição anterior terão os livros publicados e estão em fase de produção. Esses livros sairão com o selo antigo do IAP, mas para as próximas edições, pretende-se lançar as obras vencedoras com o selo da Fundação. - Bolsas residências no exterior: O convênio Brasil-Canadá, voltado para o intercâmbio de artistas visuais paraenses, estava parado desde 2011. Há uma reativação prevista para 2015, incluindo uma ampliação para outros países da Europa, como Portugal. A ideia ainda está em fase de avaliação pela administração da Fundação Cultural.

Além disso, pretende-se desenvolver ações específicas nas áreas de Gastronomia, Moda e Design. Outra novidade é que será criada uma loja em uma das salas do prédio, a fim de ampliar o alcance dos livros e outros produtos lançados. Ao lado, será aberta uma Biblioteca com títulos específicos nas áreas de arte e cultura. Também se planeja utilizar uma das salas como Galeria de artes para exposições menores. Foi criado um Núcleo de Edição, que será responsável pelos projetos gráficos dos livros lançados pela Casa, o que antes era feito de forma terceirizada.

FOTO: MADYLENE BARATA


História da missão do IAP

Idealizado pelo poeta e pesquisador João de Jesus Paes Loureiro, o Instituto de Artes do Pará surgiu em 1999, durante o governo de Almir Gabriel. Sua missão era servir como um espaço de fomento a pesquisa e experimentação para os artistas paraenses e isso era feito por meio de editais, bolsas, oficinas, intercâmbios e projetos de Núcleos específicos.

importantes para ajudar a agregar conhecimento a minha vida, não só profissionalmente. As discussões, os debates e as pessoas que pude conhecer e trocar ideias nos cursos ajudaram nesse processo.”

E é pela sua relevância para a comunidade artística, que a extinção do IAP como órgão autônomo e sua integração à Fundação Cultural, aliada a falta O estudante universitário Allan de maiores esclarecimentos, gerou Fernandez já participou de tantas preocupações. algumas oficinas e cursos ofertados pela instituição e reconhece sua Com menos de dois meses de nova importância: “O IAP sempre teve gestão, ainda não é possível chegar uma relevância muito grande para a conclusões definitivas sobre as o fomento da cultura no Pará, consequências a longo prazo da seja através de oficinas, bolsas extinção do Instituto. Por um lado, de pesquisa ou mesmo mostras a perda de autonomia da gestão da artísticas que aconteciam em nova Casa das Artes pode tornar suas dependências.”. Para ele, as os processos mais burocráticos e atividades proporcionadas geraram com a extinção da já consolidada vivências positivas: “Elas foram marca IAP, “a gente perde um

FOTO: MADYLENE BARATA

patrimônio que foi construído, um patrimônio imaterial. O que vai ser feito? Será que realmente vai haver uma sensibilidade para manter a autonomia dos órgãos? Eu acho que não. Isso eu lamento. Eu, enquanto produtora de arte, vejo que foram dados que dificilmente vão ser mantidos ou recuperados.”, é o que lamenta Danielle Franco. Por outro lado, a permanência de editais, prêmios e criação de novos Núcleos é um indicativo positivo para quem estava preocupado com os rumos da Casa. O que não se pode é deixar de acompanhar de perto as ações e projetos desse importante espaço para o desenvolvimento da arte no Estado, fazendo cobranças consistentes, garantindo que a Reforma Administrativa seja, no fim das contas, uma mudança benéfica para o Pará.


Profile for Na Cuia

Na Cuia #3  

Terceira edição da revista cultural Na Cuia

Na Cuia #3  

Terceira edição da revista cultural Na Cuia

Profile for nacuia
Advertisement