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EDIÇÃO 2

CLEI SOUZA uM POETA QUE AINDA TEM MUITO A DIZER

CARNAVAL, FOLIA PRA VIR E VER CULTURA DE RUA, MANIFESTAÇÕES DE ALEGRIA NA "CIDADE VELHA"

BATALHA DE RAP EM BELÉM uM POUCO SOBRE A IDENTIDADE DE QUEM POR MUITO TEMPO TEVE SUA CULTURA MARGINALIZADA

CULTURA NA RUA AS MANIFESTAÇÕES POPULARES QUE ENCHEM AS RUAS DE bELÉM


U

ma das sensações que me é mais cara em relação à cidade de Belém é a forma como as ruas ficam nos dias das procissões do Círio. A Nazaré apinhada de gente, a José Malcher quase sem carros. Gente na rua, na calçada, pessoas penduradas em muros, tomando conta do que é comunitário. Ocupar a rua é tradição. Nossa cidade é cheia de manifestações culturais nos espaços públicos, movimentos que tomam conta de avenidas inteiras ou de pedaços de calçada. Seja em passeatas como as de junho de 2013, seja no Arraial do Pavulagem subindo a Presidente Vargas, as vidas dos cidadãos se tornam comunhão de experiências nesses lugares onde todos podem habitar sem preconceitos. É daí que vem essa harmonia que podemos sentir no ar quando participamos de uma dessas atividades. Nem todo mundo vê isso com bons olhos. O sentimento de comunidade parece perdido pelo medo da rua, o medo do mundo exterior, por vezes tido como à margem da sociedade (como as batalhas de rap, a grafitagem, o carnaval de rua). A cultura que nasceu e ainda se manifesta na rua - considerada periférica por ser democrática - se reinventa e, nessa edição, a seguimos para ver aonde vai, sem esquecer de onde já esteve.

Juliana Araújo Editora-chefe


FOTO: LUANA COELHO.

Sumário

6 . Poesia Canoeira - Clei Souza 12 . Capa - Cultura de rua

18 . Batuque - Batalha de Rap 22 . Audiovisual - Movimento - Concreto 26. Com Farinha - Food Truck 30. Agenda Cultural 32. Crítica - "O Ciúme"


Editora-Chefe

Rep贸rter

Diretora de Arte Diagramadora

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Arte

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Agenda Cultural Rep贸rter

Social Media

Social Media

Amores de Colaboradores


Poesia Canoeira

Clei de Souza e Alessandra Nunes estão presentes em vários movimentos culturais que reunem música, literatura e uma boa conversa.


Por Madylene Barata

A poesia úmida de Clei Souza Clei Souza, o poeta que revela uma produção literária munida de vivências cotidianas e percepções periféricas.

E

ntre rios, ruas, passagens e pessoas Clei Souza fez-se poeta. Saltou com fulgor para lugares periféricos, bares e esquinas levando suas produções literárias. Saiu de Capanema para crescer nas ruas da Marambaia, onde aprendeu a fazer livros artesanais e vendê-

los por onde passava. Nessa entrevista, o poeta fala dos assuntos recorrentes nas suas obras, da sua produção literária independente, da dificuldade com apoio público e de sua poesia líquida que brota da rua e é capaz de fluir em qualquer espaço. >>


Na Cuia: O que influenciou no teu gosto pela poesia e pela escrita? C.S: Meu pai trabalhava na feira da Marambaia, saca? Ia de madrugada pra CEASA, só que como ele trabalhava na madrugada, meio-dia ele ia pra casa dormir. Aí de meio-dia até 5h eu ficava na feira. Só que bicho, o que o cara faz numa banca de fruta e de legume de meio-dia à 5h da tarde, se todo mundo faz comida de manhã ou começa comprar comida depois das 5h? Assim, o cara não faz nada e eu ficava num tédio horrível. Naquele tempo a gente embrulhava as frutas nos jornais, então a única coisa que tinha pra eu fazer era ler jornal velho. Pegava o jornal velho, aí eu catava o caderno 2, caderno de arte, crônica, poesia, tudo. Então, acabou que ter trabalhado lá me disciplinou a gostar de ler. Então, a minha primeira experiência de leitura foi com jornal velho, depois eu comecei a conhecer alguns amigos na adolescência e a gente começou trocar livros e discos num circuito lá da Marambaia. Aí a gente começou a escrever muito inocentemente, fazer zine. Foi até que eu entrei na Universidade, que foi quando eu trabalhei com a serigrafia. E aí o meu trabalho era um pouco mais apresentável por conta da serigrafia. Eu botava um poema e tal, um colorido e tal, tinha uma frescurinha; era artesanal, mas era apresentável. Também tem umas histórias interessantes, por exemplo, eu devo aos livros ter conhecido ela (esposa) né, a gente se encontrou definitivamente no bar onde eu vendia os meus livros, que era o Bar do Miguel. Na Cuia: Quais os espaços que a tua poesia começou a tomar conta? C.S.: Então, o meu modo de produzir já começa na rua. Eu já começo vender livro onde ninguém vende. Tipo assim, nos bares, cemitérios, universidades, nas salas de aulas e tal. Isso já quebra um pouco

com esse circuito de biblioteca e livraria. Fora isso, tem também a convivência com um tipo de produção artística que não é essa institucional. Eu me criei na Marambaia, em que as exposições artísticas eram feitas na rua. Lá na periferia não tem galeria, não tem nada, então o teatro é na praça, a exposição de arte é na praça. Foi uma feliz coincidência a seguinte: eu saí de Capanema muito pequeno e fui pra Marambaia. Então, eu tive a sorte de crescer num quadrado de dez ruas que tinha um pessoal muito bacana. Tinha um ateliê na rua de casa e ainda vi um grupo de teatro surgindo. A gente produzia pro bairro, fazia eventos na praça que reunia toda a comunidade. Quando eu fiquei adolescente, a gente conseguiu criar um movimento cultural tão grande que teve uma vez que a amostra Estadual de Teatro foi lá no meu bairro. Então, eu fui me desenvolvendo no meio dessa produção e fui escrevendo, né. E a necessidade de me aprofundar mais nesse mundo fez eu entrar no curso de Letras. E aí quando eu entrei em Letras foi quando eu saí da Marambaia e fui circular na noite, nos bares. O livro Úmido é uma antologia ou uma antilogia desse material que circulou durante muito tempo, eu fiz esse processo durante uns cinco anos. Na Cuia: Teus poemas têm uma temática ou são temas aleatórios? C.S.: Bem, dois temas são recorrentes. Um é o erotismo, que eu tanto escrevo sobre, quanto pesquiso na Universidade. O outro é a água, tanto é que o livro Úmido tem esse cunho. Pra mim, o desejo e o líquido estão muito juntos. Quando eu era pequeno, tinha um problema de audição que diziam que eu não podia pegar chuva. Eu ficava pirado porque eu queria tomar banho de chuva e não podia né?!. Aí diziam que eu só podia tomar banho no Natal, então eu tomava banho de chuva uma vez por ano. Ai

depois eu desencanei, mas isso ficou no meu inconsciente. Além disso, onde eu nasci tinha um rio de frente, eu tomava muito banho e tal e a água pra mim virou meio que um brinquedo. A água pra mim é motivo, ainda, de brinquedo, mas vai pra uma dimensão estética, tanto é que todas as fotos sobre a água, são momentos que eu levei minha família pra algum lugar. Eu aproveito esse momento lúdico com a água pra fazer registro e a partir daí criar os poemas e fazer uma reflexão ontológica em cima da água. E o erotismo porque faz parte da existência do homem. É até uma coisa engraçada porque o pessoal pensa “ah ele fala de erotismo, ah é putaria” sabe? Pornografia e tal. Mas como eu pesquiso erotismo, é uma reflexão também ontológica a partir do erotismo, são discussões existenciais a partir dele. Eu tenho várias coisas, mas tudo circula por essa dimensão erótica da vida e do líquido que não se separa também, né?! Na Cuia: Tu encontras teus personagens na rua, nos espaços públicos? C.S.: Cara, a questão toda pra mim é estetizar tua existência. Não tenho sistema de criação e nem tenho uma coisa a priori. Tem um amigo que é Dj, o Igor Alves. Então, o Igo fala assim “Porra moleque, aquele teus poemas do Úmido são muito bacana, mas tem um livro teu que eu não gosto porque são poemas engajados”. E aí existe uma relação esquizofrênica que é do poeta que é engajado e do poeta que não é engajado. Mas eu não gosto de ter poema engajado. Eu também tinha essa relação esquizofrênica, tipo o Úmido não é um livro assim de engajamento político, entendeu? Mas eu tenho “A Asa Esquerda Que (brada)” que foi o que ganhou lá em Castanhal. Mas assim, quem me libertou dessa esquizofrenia foi o Ruy Barata, porque ele escreveu a “Linha imaginária”, escreveu


“Anjos do Abismo” e tal. Ai eu falei “olha bicho é o seguinte, tu podes optar, tu não gosta de um, mas tu tens o outro. Então quem gosta de uma coisa mais engajada lê isso, quem gosta de uma coisa mais introspectiva pega o Úmido.” Mas, por exemplo, os poemas que eu ganhei na Federal, o Prêmio Proex. Um poema que é o “Breves” fala sobre as crianças que pegam roupas dos barcos quando passa o navio. O outro que ganhou foi quando mataram na época, em 2013, a Maria do espírito Santo e o Zé Cláudio, e aí eu fiz um poema pra eles e tal e ganhou. Então, assim, pra mim não tem sistema, não tem processo, o importante é criar, entendeu? Na Cuia: Tu participas de eventos culturais? C.S.: Cara, eu participo de sarau em Marabá, sabe. Porque assim, a minha poesia não é poesia que é preciso ser declamada saca?! Ela é pra ser lida. No sarau o que me incomoda é que, assim, um texto pode ser ruim lido, saca? Mas o cara coloca tanta carga dramática que todo mundo começa a achar que ele é bom. Ai fica parecendo um filho que não pode viver longe de seu pai. É como se no sarau as vezes a dimensão crítica da escrita e da produção poética fosse posta de lado. Então, eu estou participando de um sarau que o nome é “Sarau todos os sentidos”, lá eu mostro o trabalho, mas discuto a produção do processo. É claro que eu não deixo de lado o aspecto crítico, que é o que eu acho que faz com que a literatura cresça. Por exemplo, a gente tem aqui no Pará uma tradição do caralho. Assim, a gente tem o Mário Faustino, Rui Barata, Max Martins. E essa galera não surgiu fazendo sarau, essa galera surgiu assim batendo papo, trocando ideia e tal, então, as vezes o sarau pra mim é pouco produtivo nesse sentido, alguém chega lá e faz uma performance, só bate palma e vem outro e tal

e a dimensão crítica é perdida. Cultural pra literatura é a pior Então não vou muito. de todas porque tu pegas um prêmio, tu ganhas um prêmio, Na Cuia: Como os formatos dos aí eles te dão um monte de livro livros influenciam na grande que ocupa espaço na tua casa lá, receptividade do público? mas eles não fazem ele circular. Eu trago como exemplo o C.S.: O Zine assimilou mais a Sesc, o Sesc fez parceira com modernidade do que o próprio a Record. Quando tu ganha livro industrial. O Zine é um prêmio do Sesc, a Record aquela coisa mais rápida, mais divulga teu trabalho pro Brasil acelerada né. Ao mesmo tempo inteiro, entendeu? eu acho o zine iconoclasta, saca? Então o que me salvou Esse ( livro industrial) tem uma no Úmido em relação a esfera aurática e o zine cabe no outras pessoas é que aqueles bolso, cabe na carteira. O zine é livrinhos em forma de meio xerocado e tal. Ele pega aquela que zine, fizeram com que eu coisa do original, mas ele tivesse um público. Quando quebra, porque ele é a cópia da tu ganhas um prêmio, tu és cópia. Aí eu acho bacana. E eu um autor desconhecido e aí me criei com isso, com o zine as pessoas têm meio receio né. Eu fiz parte do movimento de comprar o livro, adquirir Punk. Eu acho que o meu livro ele e tal. Quando o Úmido Úmido é mais distribuído aqui saiu, muita gente já conhecia no Pará porque ele foi vendido e só queria esse formato. em Altamira, Castanhal, Perguntavam “’quando é que Capanema, Bragança, Marabá, vai sair o industrial e tal?” Ai Belém, Breves. Pra onde eu eu dizia “pô, um dia vai sair”. ia, eu levava. Eu pensava que E saiu. Outra coisa, Belém não nunca ia acabar “cara, essa tem biblioteca, as que têm são porra não acaba”. Hoje em dia muito mal aparelhadas e não há eu sinto falta dele. Esse (Zine) política de visita. As livrarias eu faço manualmente e vendo que têm não querem apostar a três reais. em autores locais. Então, assim, é tudo feito pra que tu Na Cuia: O que tu fazes pra não divulgues o teu trabalho. levar tua poesia até às pessoas Se o Haroldo Maranhão que não conhecem? disse que com os livros dele ele conseguia pagar apenas C.S.: Eu uso as redes, uso o face o condomínio né?! E, pô, o né?! Uso o e-mail. Por exemplo, Haroldo Maranhão tem livros o Úmido quem quiser eu premiados mundialmente, mando “Ah eu quero teu livro” imagina a gente. eu mando anexado. Eu sempre Não tem como a gente viver ando com os livros na bolsa e de arte, a gente vive a arte. Por tal. exemplo, eu falo para os meus alunos “Olha eu não sou professor, Na Cuia: Como tu consegues eu estou aqui porque eu não posso apoio para os livros industriais? viver dos meus livros. O que eu faço aqui é um bico, dar aula de C.S.: Não consegue. Esse livro literatura pra mim é um bico. (Úmido) foi o seguinte, eu fui Meu trampo é escrever, pena que premiado no Prêmio Dalcídio escrever não dá grana, mas eu Jurandir, aí me deram “toma não queria estar aqui com vocês”. todos os livros”. Aí qual foi Não tem chamada, se quiser pode meu trabalho? Foi fazer táticas ir embora, só fica quem quiser de guerrilha, tipo assim, não discutir poesia. E aí o meu bico é teve um lançamento do livro. ser professor da universidade, pra Em Belém teve o lançamento poder bancar o que eu gosto de na Casa da Linguagem, teve o fazer. Meu trampo mesmo é o que lançamento em Ananindeua, não dá grana. O pessoal pede artigo aí teve outro em Castanhal, e tal, o caralho e tal, mas eu só um em Bragança, Altamira. consigo fazer alguma coisa depois Aonde eu ia, lançava. A política que sai um poema. É isso.


Carneo por Cl

''

Clei Souza faz poema de imagem, im


oficina'' lei Souza

magem de poema e do cotidiano poesia.


Capa

Folião nas ruas de Belém


Por Alana Menezes

De outros Carnavais...

O Carnaval é uma das festas mais amplamente discutidas e nessa edição a Na Cuia traz o carnaval e suas particularidades nas ruas de Belém.

M

uitos brasileiros são, por natureza, apaixonados pelo carnaval e isso não é novidade para ninguém, principalmente quando o assunto é o Carnaval de Rua. O povo não conta outra: faça chuva ou faça sol, as pessoas vão aos poucos se reunindo no ponto de concentração do seu bloco para que a folia comece. Aqui em Belém começa bem cedinho. No dia do

nascimento do Menino Jesus, 25 de dezembro, várias pessoas se reúnem na Rua Municipalidade, no Bairro do Telégrafo, para o arrastão carnavalesco do bloco Império Romano, que já é tradição e toma as ruas da cidade em direção à Praça da República há mais de 40 anos. Esse seria o primeiro grito de carnaval do paraense, que dura até a quarta de cinza. >>


No carnaval, a cidade fica mais animada e não é difícil saber o porquê. Quase todas as ruas têm um bloco ou seus moradores se reúnem pelo simples prazer de gozar toda a felicidade que essa época do ano proporciona. O carnaval é a festa dos corações animados que esperam longos meses para dançar pelas ruas ao som das marchinhas e curtir cada segundo a festa que tem fim, mas recomeça todos os anos trazendo mais alegria.

A Cidade Velha e o Carnaval O Carnaval da Cidade Velha reúne em sua história o nome de pessoas que ajudaram a construí-la e que carregam consigo a missão de mantêla para que não venha a ser esquecida. A maioria dos responsáveis pela formação e conservação do carnaval de Rua no bairro são os próprios moradores, que todos os anos fazem questão de manter a tradição viva, fazendo com que a felicidade de brincar o carnaval tome conta das ruas e vielas do bairro mais antigo de Belém. Muito além de memórias sobre a tradição carnavalesca, a Cidade Velha reúne histórias únicas de pessoas que já vinham traçando seu caminho na folia desde cedo, antes mesmo de entender o que tudo aquilo significava e significaria para elas. Histórias que começaram a ser escritas muito antes da própria história do carnaval no bairro e que são contadas com certo saudosismo. Era década de 70 quando o garoto que morava no bairro de Nazaré começou a ter seu primeiro contanto com os tradicionais blocos de rua que saem no mês de fevereiro. Vindo de uma família alegre, ele se via contagiado pela animação de todas aquelas pessoas que brincavam na Avenida Nazaré. Serpentinas, confetes e marchinhas faziam parte do enredo. Ele nem imaginava que a partir dali a paixão só aumentaria e ele se tornaria não só um grande amante do carnaval, mas um

dos seus incentivadores no bairro da Cidade Velha, onde ele mora há mais de 30 anos. Essa é uma história resumida, dentre muitas outras histórias carnavalesca para serem contadas, de Janio Miglio, hoje com 53 anos. Na infância, Janio morava no bairro da Cremação. Foi lá que ele começou a ter seu primeiro contato com o Carnaval pela televisão e via que o de Belém era o terceiro maior do Brasil. Sua mãe que, segundo ele, é uma de suas incentivadoras, levava os filhos para apreciar a festa nas ruas da cidade, e isso incitou o amor carnavalesco de Janio. Ainda na década de 70, sua família mudou-se para o bairro de Nazaré que, na época, era o principal ponto de folia da cidade. Ele lembra com certa saudade do tempo em que os moradores se reuniam para brincar nas ruas da cidade, ao som das marchinhas e as batalhas de confete que aconteciam na época. “Era um carnaval de fato, tu saías para brincar e tranquilamente voltavas pra casa. No carnaval sempre teve algumas alterações, mas isso é normal”, lembra Janio. Aos 23 anos de idade descobriu, através de um amigo, o caminho para desfilar pela escola de samba “Rancho Não Posso Me Amofinar”, sonho que ele já alimentava há algum tempo. Depois de alguns anos como brincante da escola, Janio passou a trilhar algumas responsabilidades e começou a participar da organização da escola de samba e do carnaval de rua na Cidade Velha. Uma sucessão de acontecimentos fez com que Janio deixasse a Escola e passasse a se dedicar à direção de outra escola: o Grêmio Recreativo e Carnavalesco Deixa Falar, que já era tradicional da Cidade Velha. Ele também ajudou a fundar o bloco que desfilava pelas ruas do bairro, o “Afoxé do Guarda Chuva Achado”. Hoje, desfilam em média 15 a 20 blocos do bairro, porém, a falta de apoio financeiro fez com

que alguns blocos tradicionais deixassem de desfilar nos domingos de carnaval, como é o caso do “Deixa Falar” e “Afoxé do Guarda Chuva Achado”. Janio, como expresidente da Associação de Moradores e morador do bairro, diz que os moradores aceitam e gostam do Carnaval no bairro, “A comunidade aprova, a comunidade quer! Quem mora aqui há mais de 30 anos, como eu, e tem outras famílias também históricas, aprovam o Carnaval na Cidade Velha”, afirma.

A periferia e o Carnaval

No carnaval, a periferia nos mostra o quanto o nosso olhar estigmatizado epreconceituoso sobre esse lugar é errado e o quanto podemos aprender com aqueles que lá vivem. Eles nos mostram a felicidade de quem trabalha duro, mas mesmo com todas as dificuldades que superam dia após dia, não perdem o prazer de ser feliz e a esperança de que dias melhores virão. Aqueles que se dispõe a organizar os carnavais que darão alegria para o povo são verdadeiros anjos da boa vontade e não desistem, apesar dos percalços que encontram no caminho. O pouco apoio que recebem de governantes e a força de vontade de continuar a promover a festa popular é o que sustenta a necessidade daqueles que se doam dia a dia, por anos, para que o Carnaval continue pelas ruas dos bairros de Belém. Um grande mentor do carnaval de rua na periferia de Belém é Gilmar Guimarães. Desde muito novo, quando ainda morava em Mocajuba, ele teve contato com a cultura carnavalesca, que foi se consolidando em sua vida no decorrer dos anos. “O carnaval de rua entrou na minha vida em 1985, eu tinha 13 anos. Foi em Mocajuba, foi bem forte, eu iniciei logo no carnaval de rua. [...] Lá em Mocajuba, a gente se fantasiava e ia brincar um carnaval maravilhoso. E


Em clima de animação, pessoas animam o carnaval com os famosos "carro-som".

quando eu vim pra Belém, já com os meus 18 anos, comecei a partir pra pagode e samba, e passei a me organizar em blocos de Carnaval de rua. Hoje eu estou envolvido em uns 9 blocos.”, conta. O olhar do menino de 13 anos, que via tudo aquilo como uma grande diversão, deu lugar ao olhar do homem, hoje com 42 anos, que entende que o Carnaval não é importante apenas como divertimento, mas também no âmbito social e cultural. Muito além de festa, é necessário que os organizadores dos blocos entendam a necessidade de atuarem, ajudando socialmente as comunidades que vivem na periferia da cidade. Tendo seu trabalho reconhecido não só nos blocos carnavalescos, mas também na comunidade em que os blocos desfilam, ele começou a participar de gestões políticas na cidade que dão prioridades às questões culturais. Mesmo sendo evangélico, Gilmar acredita que é necessário que a brincadeira de rua se mantenha viva na cidade, pois é a partir dela que muitas famílias da periferia têm o seu divertimento. Ele também aponta a necessidade de serem

blocos organizados para que todos possam se divertir. “Olha, eles [os moradores da periferia] têm uma necessidade do Carnaval, porque é quando o pai de família pode levar os filhos, aí vem a importância de um bloco de rua organizado, o pai pega sua esposa, se fantasia ou compra um abadá para o filhinho, pra filhinha e vão brincar o carnaval. Se o bloco não tiver organizado, você não vai sair da sua casa e colocar sua família em risco”, diz. Gilmar vê a festa como esperança para que coisas melhores aconteçam não só em Belém, mas em todos os lugares. “O Carnaval pra mim hoje? Eu tiro como esperança em todos os lados. Você pode fazer muita coisa, eu vejo que é possível, o Carnaval te dá um leque muito grande para tudo”, mas para isso, é preciso que os governantes e os organizadores da brincadeira percebam a importância dele na vida das pessoas e o quanto ele pode mudar a visão cultural e social de alguns lugares.

com diferentes manifestações culturais e musicais, que acabam sendo mescladas e, às vezes, até unificadas. É comum que em uma única festa toquem vários estilos musicais que agradam a todos que estão presentes ali. Porém, esse “tudo junto e misturado” parece incomodar àqueles que se doam para que o Carnaval de Rua aconteça. Não são somente as marchinhas de carnaval que embalam os blocos, outros estilos musicais acabam fazendo parte de sua trilha sonora e isso põe em cheque a conservação da tradição e cultura carnavalesca que vem sendo mantida por longos anos. Será que estamos preocupados com a preservação da Cultura? Ou será que a diversão dessa época do ano nos assegura brincar todos os ritmos e mesmo assim estarmos brincando o Carnaval? Parece haver um consenso entre os organizadores: não importa que seja no Centro Histórico ou na Periferia da Cidade, a cultura do carnaval precisa ser preservada para que outras gerações tenham contato O Carnaval e a preservação da com algo que fez parte da vida identidade cultural dos brasileiros por tantos anos. Janio Miglio e Gilmar Diariamente temos Guimarães concordam e contato, direto ou indireto, criticam o que está acontecendo


Folião em clima de "animação" nas ruas.

com o carnaval atualmente. “Falando diretamente do Carnaval nos bairros, eles estão quebrando muito a tradição do velho Carnaval, da marchinha, do bloco de rua, que acontecia e ainda acontece em alguns bairros. Mas só que uma nova geração de organizadores estão trucidando o Carnaval de uma maneira tão brusca que é triste pra gente que trabalhou tantos anos com luta, até as próprias prefeituras ajudando com incentivos fiscais, que muitos blocos não têm, diga-se de passagem”, critica Gilmar. A mistura de ritmos musicais e manifestações culturais na época incomodam e cria um ar de certo receio de que o Carnaval venha a perder sua identidade algum dia. “Carnaval é uma cultura, é um costume que a gente deve preservar. Não preservam os prédios históricos? É muito difícil dizer que um dia não vai ter carnaval, principalmente para o brasileiro”, afirma Janio. Segundo nossos entrevistados, a necessidade

de manter os blocos é grande e, para que eles não venham a ser extintos, os organizadores precisam usar todos os artifícios para continuar desfilando, um deles é agradar os brincantes que gostam, e esperam, que não toque só marchinhas de Carnavais, mas também outros estilos musicais, porém, acredita-se que se existisse incentivos ficais para os blocos, eles não precisariam submeterse a muitas questões pela falta de capital para mantê-los nas ruas. O apoio e incentivos fiscais são de suma importância para que os blocos continuem a desfilar e, mais que isso, é necessário que os governantes restrinjam e fiscalizem o que acontece nos blocos, e mesmo que seja difícil, é necessário que tenha a consciência coletiva de que o carnaval precisa ser mantido, cuidado e preservado. Precisamos pensar na sua importância hoje para que as próximas gerações possam senti-lo e presencia-lo.

A segurança no Carnaval

A questão da segurança preocupa o paraense não só na época do Carnaval. O sentimento de insegurança é presente, porém, para que o povo possa se divertir essa época do ano. Gilmar Guimarães e Janio Miglio reclamam do baixo efetivo policiamento nas áreas onde desfilam os blocos. Segundo informação da Assessoria de Comunicação da Polícia Militar, a segurança durante essa época no bairro da Cidade Velha é feita com o apoio de cerca de 200 guardas municipais, aproximadamente 100 policiais militares, além do efetivo policiamento diário de quase 70 homens, que fazem a segurança no entorno. Já sobre os blocos que desfilam na periferia, a Assessoria da PM nos informou que eles passam para a Prefeitura seus itinerários e estimativas de público, e cabe à Prefeitura entrar em contato com a PM para que o planejamento do policiamento seja feito.


Ruas da Cidade Velha, bairro mais antigo de Belém, repleta de foliões.

Grande movimentação de paraenses e turistas no carnaval de rua.


Batuque

Praça Floriano Peixoto é considerada símbolo da resistência da cultura hip hop em Belém. Foto- Juliana Araujo


Por Vitória Mendes

RAP: Em todo lugar e principalmente na rua

A Na Cuia foi conhecer as Batalhas de MC’s que movimentam a cena do rap independente na capital.

O

s espaços públicos são, historicamente, elemento de consolidação e propagação da cultura hip hop, composta pelo break, o rap e o grafite. Embora o rap tenha se expandido e alcançado visibilidade em diversas esferas, a rua ainda é sua essência. Em Belém a cena é composta, sobretudo, por artistas independentes e se fortalece cada vez mais por meio das Batalhas de

MC’s. Elas são competições entre rappers que duelam com rimas improvisadas, conhecidas como freestyle e os vencedores são escolhidos de acordo com a empolgação do público. Atualmente, há dois eventos fixos que são responsáveis pela efervescência do rap na cidade: a Batalha de São Brás e a Batalha da Dorothy Stang.>>


Resistência e História O Mercado de São Brás, localizado na esquina da Avenida José Bonifácio com a Almirante Barroso, é um local histórico para a cultura de rua paraense. “O Mercado é um símbolo da resistência da cultura hip hop. Foi aqui que começou a história do hip hop na cidade”, aponta o MC Moraes, que participa da Batalha. Há mais de 25 anos os b-boys utilizam a Praça Floriano Peixoto, que fica em frente ao mercado, como espaço para dançar break: “Posteriormente, o rap veio aqui para a frente do Mercado, mas nunca teve algo fixo. Eram só eventos”, explica o MC Everton Oliveira. Foi a partir de 2013 que os duelos começaram a acontecer regularmente, todos os sábados. Organizada originalmente pelos MC’s Rog, Everton, Alex e Israel, a batalha já reúne atualmente cerca de 20 rimadores e um público cada vez mais diverso. Argel Sodré frequenta

o evento há pouco tempo e confessa que foi recentemente que superou o preconceito com o estilo musical, sobretudo ao perceber que o rap tem grande importância social nas periferias. Sobre a ocupação da praça, opina: “Eu acho que faltava uma ocupação nesse espaço, que era quase morto. Vieram os skatistas, os participantes da batalha e agora também a Batucada [evento de carimbó], que acontece todas as sextas-feiras. Hoje o mercado é outro lugar muito importante para a cultura paraense”, avalia. Já André Luís Santos conta que sempre foi fã de rap e prestigia o movimento há mais de um ano: “Gosto muito de vir aqui, porque tem sempre uma galera nova rimando. Às vezes uns molequinhos ficam mandando [rimas]. Acho firme”, diz. Em dezembro de 2014, o movimento foi incluído na programação da Virada Cultural de Belém, que premiou o MC vencedor com 300 reais. No entanto, o que sustenta e consolida a Batalha é a união e colaboração entre os próprios

Duelos de rimas na Batalha da Dorothy Stang. Foto- Madylene Barata

artistas, que emprestam os equipamentos de som e também vendem camisetas com o lema “Tem que ser sagaz!”, que é uma espécie de marca registrada entre o público do evento. Entre os parceiros, estão Cronistas da Rua, Senzala Urbana, Di Roxa Produções, Mana Josy, Pelé do Manifesto e vários outros artistas e coletivos independentes de rap.

Todos os elementos da cultura de rua A Praça Dorothy Stang é um espaço novo, inaugurado em 2010. Localizado na esquina da Avenida Júlio César com a Senador Lemos, no bairro da Sacramenta, o espaço possui uma quadra de esportes, pista de skate e uma ampla área aberta na qual as batalhas e pocket shows ocorrem. A Batalha tem pouco menos de um ano, mas já se mostra muito relevante para o cenário belenense, integrando grafiteiros, skatistas, rappers e um público fiel. Déa Batista é skatista, acompanha o movimento desde o início e conta que, na época, sem


caixas de som amplificadas, os rimadores utilizavam os celulares para tocar as batidas. Para ela, a cultura de rua está totalmente unida no local: “Isso aqui é cultura de rua. É música do gueto, música de periferia. Você pode observar que a maioria daqui é do gueto, mora em baixadas, onde o hip hop é mais frequente. A maioria que vem aqui é pra se divertir”, destaca. É o caso de Teófilo Mateus: “Eu moro em Ananindeua e venho só ver os duelos e escutar rap”, conta. Organizada pelos MC’s Aranha, Jambex e Thalita, os duelos, assim como em São Brás, têm um número crescente de participantes e se sustentam pela colaboração de amigos. Entre os parceiros do evento estão Gabi Pinheiro e Mauro Rocha, amigos dos MC’s e donos do carrinho Larica’s Lanches. São eles que emprestam a caixa de som para os rimadores, enquanto vendem sanduíches e bebidas no evento. O MC Aranha resgata um pouco a história do freestyle em Belém, ressaltando a importância do skate park da Duque de Caxias, demolido em 2006. “Nesse skate park se encontravam não apenas

skatistas, como também MC’s. A gente levava caixas de som, aparelhos de DVD, gravava em CD’s os instrumentais de música e levava para tocar lá enquanto andava de skate, principalmente nos fins de semana. Foi lá que começou a Liga Alternativa, que foi um dos primeiros grupos e o

Tiroteio da Rima. No Tiroteio, tinha um camarada, o Stanley, que era muito bom, rimava na hora com as palavras que a gente dava. Então a gente começou a pegar o gosto por aquelas coisas e começava ali a fazer improvisação.”. Atualmente, a Batalha ocorre todas as sextasfeiras.

Colaboração entre os próprios MC's garante a continuidade do movimento. FotoJuliana Araujo

Ocupar também é uma atitude política Para o futuro, os organizadores dos eventos têm a perspectiva de divulgar seus artistas, formar mais rimadores, estimulando, dessa forma, novos talentos e fazendo com que a cultura de rua seja cada vez mais reconhecida e relevante socialmente. Para o MC Everton, “Por trás do lado cultural, tem também o lado político, que

é ocupar o espaço com arte e cidadania. E é acessível a todo mundo. Todo mundo pode vir para a praça escutar rap e assistir os meninos dançando break.”. Aranha complementa: “É importante o rap estar em todo lugar, mas é essencial que ele esteja na rua, porque ele sempre é criado na rua.”. Os artistas de ambas as batalhas afirmam que estão

unidos a fim de propagar o hip hop. Nas palavras do MC Aranha: “Tédoidé? Entre nós mesmos sempre vai haver união! Se depender de nós, sempre vai haver.” E é assim, de maneira independente, juntando diversos colaboradores, rappers e agregando um público plural e empolgado, que a cena do rap constrói sua história em Belém.


Audiovisual

Luan Rodrigues e Waldo Squash (Foto por Tiago AraĂşjo)


Louise Lessa

Movimento Concreto Quem passa pelas ruas de Belém e atenta para seus edifícios, principalmente os antigos, nota que cada um tem alma, espírito, personalidade. A singularidade, tanto de construções antigas como as novas vem devido a arquitetura e a mistura conflituosa de moderno com clássico, que dá à cidade uma identidade única. A riqueza do bairro da Cidade Velha é ainda mais valorizada com a projeção de imagens em movimento, chamada de Video Mapping.

A

técnica muito utilizada em fachadas de construções gera diversos efeitos, sobretudo ilusões de ótica. Na grande maioria das vezes, as projeções são acompanhadas por músicas e o movimento das imagens está em

sincronia com a batida. É como uma extensão da arquitetura, um acessório que dinamiza e valoriza as formas. Fotos, vídeos, animações em 3d, grafite – você encontra de tudo um pouco quando se trata de mapping. >>


Symbiosis_Paraty-em-foco - foto renato reis

Nos anos 80, após o cenário audiovisual ter se concretizado no Brasil, o Pará começou a ter contato mais intenso com o movimento. Já Video Mapping só começou suas primeiras experiências ao redor do mundo há pouco mais de 10 anos e somente em 2013, com a realização do Festival Amazônia Mapping, o primeiro do gênero na região, a técnica se firmou em Belém. Desde então, vem ganhando espaço no cenário cultural da cidade completando a esfera audiovisual local.

Amazônia e Mapping

Mesmo sendo muito recente na região Norte em geral, as projeções mapeadas rapidamente tornaram-se fortes meios de valorizar a cultura amazônica e paraense. Mesmo que temporária, o produtor gera uma atmosfera de fantasia e traz todo um conjunto de mensagens. Um exemplo é o projeto Symbiosis, da produtora artística Roberta Carvalho, que projeta faces, corpos e diversas fotografias

em copas de árvores. “A ideia do projeto Symbiosis é essa: é fazer essa relação, é fazer a natureza te olhar, é fazer a natureza ter um papel mais observador em relação ao ser humano. É fazer com que o ser humano se sinta observado e não seja apenas aquele que observa, que aponta e que age sobre a natureza” afirma Roberta. Diversos projetores de alta capacidade são usados para criar uma atmosfera encantadora, onde as árvores são as observadoras.Surgido de uma maneira experimental o Symbiosis não possuía uma ideia definida desde o início - a proposta foi se consolidando ao longo do seu desenvolvimento. Esteve em exibição de 2007 até 2009 e já visitou diversas cidades do país e do mundo encantando os espectadores com a exposição da relação arte natureza. Outro exemplo da combinação entre as raízes amazônicas e o que há de mais

contemporâneo é o projeto Uaná System. O Dj da banda Gang do Eletro Waldo Squash e o artista visual e Vj Luan Rodrigues se uniram com a idéia de fazer um cruzamento entre o nosso Carimbó, o eletrônico e o Dubstep. Daí nasceu o que se chama de “Carimbohton”. Para entender melhor o Vj Luan explica: “A experiência com o Uaná System surgiu a partir da necessidade de fazer releituras de músicas tradicionais da cultura paraense e adequá-las à pista de dança. O processo de criação do conteúdo visual e interativo veio com o intuito de dinamizar a apresentação. Usando como base de referência a riquíssima cultura imagética amazônica, tentamos agregar uma certa sensação de sinestesia a partir do uso de tecnologias que possibilitem intervenções visuais e sonoras sincronizadas em tempo real”.


Movimento concreto Existe uma relação muito íntima entre o Vídeo Mapping e as ruas. Nas projeções todo o foco da ilustração, animação, etc. é a arquitetura que tem a construção palco. Cada detalhe é milimetricamente planejado para se adequar às

formas do prédio e gerar o efeito desejado. Há uma reconstrução e uma expansão do lugar que está sendo projetado, de forma que ele não é só mais uma faixada de concreto, mas uma história, uma música ou outra infinidade de possibilidades que o Mapping traz. Árvores têm expressões e construções se movem. Todo o

video mapping breve marajó - foto paula sampaio

projeto é voltado para que relação entre imagem e objeto seja mútua. “O processo de produção é como produzir uma pintura: é utilizar a técnica para preencher, para dar materialidade, para dar forma à uma ideia” afirma a idealizadora do projeto Symbiosis e produtora do Festival Amazônia Mapping Roberta Carvalho. É a reinvenção da ilusão. É uma sinestesia. A rua casa com a arte mais uma vez.


Com Farinha

Muitos vendedores em Belém montam seu Food Truck em ruas com grande circulação para atrair consumidores. FOTO: Juliana Araújo


Juliana Araújo

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É pra comer ou é pra levar?'' A comida de rua é alvo de tendências gastronômicas até interessantes. A que ponto isso é benéfico para quem já exerce esse ofício há anos?

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ndando por Belém é frequente nos depararmos com esquinas e calçadas lotadas no final da tarde. A rua se torna vitrine de sanduíches, salgados e daquele tacacá que, mesmo debaixo de chuva, não deixa de atrair seu público. A mania de comida de rua se transformou em uma tendência internacional, os food trucks. Esses caminhões

que contêm uma cozinha no seu interior chegam na cidade competindo com os tradicionais carrinhos de lanche e a Na Cuia quer saber: será que eles vieram para ficar? Terá a democrática comida de rua se instalado em um campo “gourmetizado” do cenário gastronômico paraense? >>


O Hermanos Food Truck é um empreendimento que tem a intenção de dar um empurrãozinho nos food trucks na cidade. A dupla Roberto Hundertmark e Renan Barata vem apresentando a marca em eventos como a Virada Cultural de Belém - onde eu conheci o trabalho deles - e o Belém Beer & Burguer Fest, fazendo parceria com a lanchonete Black Dog Pub. Conversando com eles, deu pra entender mais qual a intenção do fenômeno e do Hermanos. “O que a gente tá querendo é fazer uma coisa meio arrumadinha, mas que ao mesmo tempo seja descontraído” disse Renan. O caminhão já está pronto, mas não sai por Belém porque o município ainda não tem a lei de regulamentação. “Tem poucos no Norte-Nordeste. Até tem um negócio meio food truck [em Belém] que são aqueles lá no final da Doca, só que não tem motor nem nada e eles estão sempre no mesmo ponto. A ideia é ficar meio itinerário”, explicou.

Seu Mario Gonçalves encostou um carrinho de cachorro-quente quase na esquina da Vileta com a Almirante Barroso e ali ficou. Pontos como esse, famosos e familiares, movimentam o espaço público e são fontes de renda para quem quer investir em comida popular. E não é raro encontrar lanches muito bons na rua. “Meu pai viu um rapaz com um carrinho de cachorroquente e despertou nele um interesse. Ele falou que ia montar, viu o que dava pra colocar e colocou. Ele começou em carro pequeno, esse aqui é o quarto carro” contou Marinaldo. Ele também conta que manda o porco assar em uma padaria, para não sobrar nenhum pedaço cru. “Trabalhar com a carne de porco é meio complicado né, então é um preparo diferenciado principalmente pra garantir a segurança do cliente. Nós preparamos e levamos para assar de manhã e só pegamos a tarde”. Ano que vem, o carrinho

Vendedor mostrando o preparo das comidas. FOTO: Juliana Araújo

fará 40 anos de funcionamento e - hoje supervisionado por ele e administrado pelo filho Marinaldo - o Cachorro Quente do Mario ganhou fama não pelo seu sanduíche-título, mas por um pecaminoso, feito com leitão fatiado, alface, cebola e salada de repolho. Para quem gosta de comida um pouco mais salgada (como eu), a fama de melhor leitão da cidade está confirmada. Quando falo que escrevo para uma revista de estudantes, Marivaldo intera: “Aqui já veio até a Veja, de tão famoso que tá!”. Um caminhão que já roda na cidade, o UATA?!, tem um público bem específico. Os proprietários Lucas Araújo e Paulo Victor Serra visavam ser uma opção para os jovens que saíam de festas e não tinham onde lanchar. “A ideia era eles terem o que comer, porque de madrugada não tem muita coisa. A gente teve ideia de food truck, que é uma tendência internacional, e chegou agora no Brasil”, disse Lucas, que concebeu as receitas do UATA?!.


A famosa "chapa" que auxilia no preparo dos lanches. FOTO: Juliana Araújo

Lucas confessa que existem dificuldades em lidar com o público, que “são pessoas que saem alcoolizadas, temos que ter um trato diferenciado com eles, porque quebra cadeira, quebra mesa”. Ele explica que a situação legal da comida de rua também os preocupa: “A gente tá tentando fazer uma associação pra ficar mais forte e poder fazer uma pressão. São Paulo só conseguiu na pressão dos vendedores de rua. Esse mês o Rio de Janeiro conseguiu aprovar uma lei também. São os únicos estados

que tem essa lei”. Os food trucks estão ajudando a comida de rua a burocratizar sua prática. Os donos dos caminhões se empenham em fazer com que o processo e a venda sejam legalizados, o que, em tese, melhora a qualidade do produto final, que pode ser feito de forma mais higiênica e com maior controle. Contudo, “food truck” me parece se diferir dos carrinhos apenas em dois aspectos. O primeiro é o viés itinerário - o que pode

contribuir para a ocupação de diversos espaços públicos antes desertos. O segundo aspecto é que são chefs e empresários que dominam o conceito, mudando o perfil do empreendedor de comida de rua. Nos resta esperar para ver o que acontecerá com os lanches tradicionais. Sinceramente, espero que eles não percam sua força, nem seu espaço.

Onde achar e o que pedir... UATA!? (UATA Shak, R$12,00) - Sexta-feira: Na frente da boate Lamusique (Rua Municipalidade, 488), a partir das 22:00. - Sábado: Na frente da Element Club (Av. Marechal Hermes, 400) a partir das 22:00. - Domingo: Praça Batista Campos, em frente à Igreja Santo Antônio de Liboa (Rua Tamoios, 1875) a partir das 18:00 Cachorro-quente do Mario (Leitão, R$16,00) - Segunda à sexta, na Vileta entre Almirante Barroso e 1º de Dezembro, a partir das 18:00.


ESTAÇÃO DAS DOCAS – MÊS: FEVEIRO 2015 - Projeto Música no Ar - Palcos Deslizantes Armazém 1 Segunda: 18h30 Led Gil / 21h15 Rafael Monteiro Terça: 18h30 Jr Gonçalves / 21h15 John Macambira Quarta: 18h30 Adriano Cardoso / 21h15 Naldo Jr Quinta: 19h45 Sandro Sandim / 22h Trio Com Clave Sexta: 20h30 Cezar Felipe / 22h45 Banda B3 Sábado: 13h Marquinho Melodia /20h Trilhacústica / 22h15 Play List Domingo: 13h Adriano Cruz / 20h Ronys do Vale Armazém 2 Segunda: 20h Allan Roffé Terça: 20h Jenilson Jhos Quarta: 20h Edgar Castro Quinta: 20h Junior Queiroz / 22h15 VErena Souza Sexta: 20h Beto Galvão / 22h15 Hayna Gomes Sábado: 12h30 Felipe Martins / 20h runo Benitez / 22h Moisés Oliveira Domingo: 12h30 Adriano Cardoso / 20h Alexandre Souza Projeto Pôr-do-Som – Estação das Docas Toda sexta-feira a partir das 18h, com entrada franca, na Orla do Armazém 3. Dia 06/02 – Grupo Trilhas da Amazônia Dia 13/02 – Grupo Regional Iaçá Dia 20/02 – Grupo Muiraquitã Dia 27/02 – Grupo Uirapuru Projeto Pôr-do-Sol – Estação das Docas Em domingos alternados, a partir das 17h30, no Anfiteatro São Pedro Nolasco. A entrada é gratuita. Dia 01/02 – Trupe de Bubuia em “Batalhas e confetes” Dia 15/02 – Programação Carnaval


Por Izadora Nunes

MANGAL DAS GARÇAS – MÊS: FEVEIRO 2015 Projeto Teatrinho do Mangal – Mangal das Garças Quinzenalmente, aos domingos, a partir das 10h30, no entorno do Memorial Amazônico da Navegação. A entrada é gratuita. Dia 08/02 – Mana-Avu em “Amor de Carnaval com Colombina e Pierrot” Dia 22/02 – Ester Sá em “Amor, confete e serpentina”


Por Stéfanie Olivier

O Ciúme – Philippe Garrel

Foto reprodução

Philippe Garrel é o diretor dessa obra em preto e branco e mais uma vez chamou o filhão, Louis Garrel, para protagonizar o seu trabalho. O Ciúme é o típico filme francês sobre relacionamentos e dúvidas sobre a nossa essência no mundo. Se o longa-metragem não retratasse uma relação amorosa tão moderninha, poderíamos pensar que o filme fosse bem mais antigo do que realmente é. Garrel pai tem o costume de colocar pontos autobiográficos em seus filmes e nesse não foi diferente. Percebemos que ele está na obra como a filha de Louis (sim, o nome do personagem é o mesmo nome do ator) que enfrenta a separação dos pais e ao mesmo tempo tem que lidar com os novos relacionamentos dos dois com outras pessoas. A coincidência é que Philippe teve que lidar com essa situação na infância também e talvez seja um filme-desabafo sobre o que ele queria dizer quando era menor e não disse. O filme começa com a filha espiando pelo buraco da fechadura o término do casamento dos pais, provavelmente provocado por uma cena de ciúme. Essa é a sensação inicial: a criança enfrentando um momento ruim causado pelo ciúme. Até que a outra cena é Louis com uma nova mulher, Claudia, e totalmente apaixonado por ela. Nós ficamos nos perguntando se já passou muito tempo desde que ele saiu de casa ou se foi logo depois disso. A sensação de atemporalidade é bastante frequente na película, mas o filme foi feito para termos a noção do tempo apenas em brigas causadas por ciúmes. Tem quem diga que

o filme é arrastado demais, mas talvez seja necessário para entendermos o quão lento pode ser para nos acostumarmos com esse sentimento tão complicado. Vamos ser diretos agora: o filme trata de um rapaz, Louis, que quer ter uma relação pseudo-moderna com a nova mulher, a qual só ele pode ter casos paralelos e quando ela aparece com uma proposta de ter uma relação com um cara que pode oferecer oportunidades profissionais que Louis não pode e ao mesmo tempo continuar com o protagonista, tudo parece não fazer mais sentido. Talvez isso traga muitos debates sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea ou o quanto ela é desvalorizada, se a mulher realmente sempre teve o poder de dizer não para as regalias do marido e só agora elas estão conseguindo abrir a boca para se impor. O tema fica em aberto para diversas opiniões e nos remete ao que citei no início do texto: a independência sentimental que a mulher tem e a atitude de abrir mão do romance para ter também uma independência financeira em relação ao homem nos faz notar que o filme foi produzido numa sociedade mais moderna do que a maravilhosa fotografia cinzenta dele aparenta. Louis é um ator conformado com pequenas peças teatrais e Claudia é uma atriz que está inconformada com a falta de sucesso profissional e com toda a vida ao seu redor. Ela busca novidades e ele quer ficar estável o tempo todo, mesmo que a estabilidade não seja tão boa assim. Ele gosta de ter seus affairs

por todos os lugares que passa e quando volta pra casa quer ver TV, fazer a barba, abraçar a amada e dormir. Ela não aguenta mais ficar no pequeno apartamento deles e nem ter tanto tempo ocioso, apesar de gostar da relação com ele e a relação dela com a filha de Louis. Ele pensa que não consegue sentir ciúme. Ela pensa que não conseguiria lidar com tanto ciúme. Até que ele não aguenta imaginar a sua amada com outro e ela o deixa quando percebe que ele não quer mudar de vida com a proposta dela (relacionamento aberto, ter um caso paralelo com outro homem e em troca ganhar uma casa boa e subir na vida profissional). O final do filme nos remete ao início: Louis brincando com a filha e ela acha um bilhete de Claudia pedindo desculpas por uma discussão, quando ele não a deixa ler o bilhetinho e ela fica insistindo, é quando a primeira vez que o título do filme é citado e faz referência à filha: “Você está com ciúmes de mim?” E a menina ri negando. Será que uma menina que aparentemente não tem um papel importante no filme seja o pilar dele? Ela pode ter sido o primeiro personagem desses 77 minutos de película que o diretor levou 6 meses para escrever e nós nem imaginamos. Afinal, o que era ciúme? O que não era? Filme francês tem dessas perguntas existenciais e fica por nossa conta mesmo descobrir uma ou várias respostas, mas é como o Stanley Kubrick falou uma vez: "O teste de uma obra de arte é, no fim, nossa afeição por ela, não nossa capacidade explicar por que ela é boa".

O Ciúme, de Philippe Garrel, estreou dia 14 de Janeiro no Cine Líbero Luxardo (CENTUR) e ficou em cartaz até dia 25 do mesmo mês.

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Na Cuia #2  

Segunda edição da revista cultural Na Cuia.

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