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Edição 12

Outra educação A cultura popular e a arte diversificando experiências de crianças e adolescentes


Editorial

A

liberdade é perigosa Na preparação para produzir essa edição, sentei para assistir o documentário Tarja Branca - A Revolução Que Faltava, sobre educação popular. Ainda sem muito contato com o tema, o que me prendeu foi a frase-título deste texto. O que são o conhecimento e a educação que a escola promete: são elementos emancipadores ou disciplinas que servem para militarizar a forma com que aprendemos? A educação passa a ser libertadora quando ela libertar mais do que a arte? Nas reportagens a cultura popular são ferramentas que podem subverter a escola moderna - seja internamente ou externamente. Que a arte nos eduque, nos conecte e nos liberte. Juliana Araujo - Editora Chefe

expediente NA CUIA REVISTA CULTURAL Para contatar qualquer departamento da revista: nacuiarevistacultural@gmail.com @revistanacuia /nacuia nacuia.com.br REDAÇÃO Ana Paula Castro, Madylene Barata, Matheus Botelho, Juliana Araujo, Vitória Mendes, Jade Luiza. CHEFE DE REDAÇÃO Matheus Botelho DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO Mídias Sociais: Ana Luiza Rocha

Planejamento: Mariana Guimarães Audiovisual: Lucas Ribeiro DEPARTAMENTO DE ARTE & DESIGN Luana Lisboa e Lívia Fialho. Diagramação: Catarina Nefertari e Lorena Emanuele DEPARTAMENTO DE FOTOGRAFIA Madylene Barata e Ana Paula Castro. REVISÃO E FINALIZAÇÃO Vitória Mendes e Madylene Barata. EDITORA-CHEFE Juliana Araujo


edição 12 Pág 4 - O cárcere escolar e a sistematização do ensino: ou como a escola se tornou um ambiente prejudicial na minha vida - Por Jade Luiza Pág 8 - lúdico e aprendizagem. Por que não brincar? - Por Juliana Araújo Pág 14 - ABC. Movimento transformador - Por Ana Paula Castro Pág 20 - educomunicação. O que aprendi trabalhando em um projeto de rádios escolares - Por Vitória Mendes Pág 23 - Ainda sem poesia - Por Daniel Chagas


O Cárcere Escolar e a Sistematização do Ensino: ou Como a Escola se Tornou um Ambiente Prejudicial na Minha Vida POR Jade Luiza


A

primeira lembrança que tenho da minha infância é de brincar com meus primos. Corríamos pela casa durante horas e inventávamos todo tipo de brincadeira, subíamos nas árvores do meu quintal, jogávamos bola e pulávamos corda. Lembro de querer ir para a escola só para brincar. Tive a sorte de estudar em uma instituição onde a estratégia de ensino priorizava a aprendizagem por meio da arte. Tínhamos feiras culturais, gincanas, e todo dia depois das aulas não nos era privada a chance de ser criança, brincávamos até a hora de ir para casa. Lembro de como era difícil deixar aquele ambiente cheio de felicidade. Com o passar dos anos eu e meus primos trocamos o brincar por outras linguagens artísticas sem perceber. Ficávamos horas ouvindo e discutindo músicas, filmes e livros. Foram várias as tardes e madrugadas dedicadas ao exercício da arte sem mesmo saber que o estávamos fazendo. Sem querer me apaixonei pelas artes, fiz aula de teclado, violão e guitarra, assistia o máximo de filmes que conseguia, e lia até não aguentar mais Eventualmente, o tempo dedicado às

brincadeiras e leituras foi substituído pelas horas de estudos direcionados aos processos seletivos. As aulas de guitarra foram trocadas pelo cursinho e Capitães da Areia se tornou só mais uma leitura obrigatória do vestibular. História da Arte se tornou uma matéria tediosa e repetitiva, Matemática virou meu pior pesadelo e meu único tempo de descanso era a madrugada. A pressão aumentou até eu não suportar mais, tive meu primeiro ataque de pânico pensando no vestibular. Estava deitada em minha cama quando a angústia, o medo e a ansiedade ocuparam minha mente, os pensamentos surgiram em um turbilhão e o desespero de não conseguir me acalmar só me aterrorizou mais. Na educação infantil, o ensino através de brincadeiras ainda se faz presente, canções e jogos didáticos ainda fazem parte do cotidiano escolar até o primeiro ano do ensino fundamental. A partir desse ponto, e principalmente durante o ensino médio, o método de ensino se torna monótono e sistematizado, visando essencialmente a aprovação no vestibular e deixando o bem


estar do aluno em segundo plano. Matérias como Artes e Redação perdem a chance de proporcionar um ensino diferenciado e acabam inibindo o desenvolvimento da criatividade de alunos ao ensinar de maneira acomodada apenas a matéria referente ao vestibular. Segundo Foucault, autor do livro Vigiar e Punir, a educação nas escolas é destinada à disciplina de corpos e submissão de conhecimentos à disciplina institucional, ou seja, o atual papel da escola é massificar o conhecimento e censurar tudo o que não pertence a esse tipo de estrutura. Os atos e matérias considerados “fora do padrão” ou desnecessários, como algum aspecto artístico, por exemplo, são desaprovados e os alunos que o praticam, reprimidos. Os adolescentes têm sua criatividade delimitada e, se não ensinados do contrário, tal fato se prolonga por tempo indefinido. Uma vez, ainda no ensino fundamental, perguntei aos meus pais porquê eu tinha que ir para a escola. Prontamente eles me responderam o que todos já ouviram ao menos uma vez na vida, você tem que estudar para passar no vestibular e conseguir um bom emprego. Ainda esse ano, já sofrendo com a

pressão dos processos seletivos, perguntei à eles porquê tinha que ser tão difícil. A resposta dessa vez me surpreendeu, “Faz parte, todo mundo passa por isso”, eles disseram. Tenho a consciência de que meus pais sempre quiseram meu bem mas, naquele momento, me senti desprotegida. O fato de que pessoas já sofreram pelo mesmo motivo antes de mim justifica o meu sofrimento? Em 2015, segundo o site de notícias G1, mais de oito milhões de pessoas se inscreveram no Enem. Quantas dessas pessoas passaram o ano com medo, ansiosas ou atormentadas por apenas dois dias de provas que, segundo uma visão deturpada da realidade, podem decidir o resto de suas vidas? A todo tempo, novas tecnologias e métodos de ensino alternativos são criados. A cultura e a arte são cada vez mais valorizadas, assim como a infância e adolescência. Eventualmente, os métodos atuais se tornarão ultrapassados e possivelmente outros mais saudáveis e condizentes com a realidade vigente sejam utilizados. Talvez um dia meus filhos não escutem as mesmas respostas que eu.


LĂşdico e aprendizagem Por Juliana AraĂşjo


Por que não brincar? A brincadeira e a cultura popular fazem parte de um conjunto de novas ferramentas que transformam uma educação dentro e fora da sala.

Um jogo de faz de conta “Sala de aula não é lugar pra brincadeira”, é o que se ouve no espaço que se torna cada vez mais restrito, mais sério, no decorrer da vida escolar. Em um país onde a cultura popular carrega forte ligação com a brincadeira, acaba sendo contraditória a visão do lúdico como algo pejorativo, do palhaço como louco. A professora da Escola de Teatro e Dança da UFPa, Simei Santos Andrade, que estuda o lúdico na formação das crianças, diz que isso contradiz uma espécie de ordem natural: “Não podemos penalizar a alegria”.

Era sábado, estava sol. Sentei debaixo de uma árvore na Praça Brasil e conversei um pouco com Gilberto Guimarães, palhaço da Trupe da Pro.Cura, grupo que também é um projeto de extensão da Faculdade de Medicina da UFPa, vinculado ao Nú cleo de Artes como Instrumento de Saúde (NARIS). Trabalhando com conceitos muito próprios de arte, educação e saúde, a Trupe se move dos hospitais aos espaços públicos com o intuito de levar a brincadeira e a humanização através da palhaçaria para a população.


“O modo como o conhecimento é feito e é ensinado tem uma relação. O conhecimento é produzido isolado, em laboratório, distanciado da praça, do mundo”, Gilberto explica. Ou seja, a educação é entendida como um objeto sólido, que tem um lugar específico e uma linguagem própria, não como um processo diário de troca. Estudando as brincadeiras infantis, a professora Simei assegura que a crença de educação dividida em disciplinas não entende quanto pode ser apreendido em atividades mais dinâmicas. A brincadeira (tão abominada) estimula a sociabilidade e o desenvolvimento da linguagem e também deixa mais fácil a digestão de alguns assuntos que são difíceis de compreender. A integrante da Trupe Júlia Castro acredita que o lúdico é uma das formas de traduzir o conhecimento, o tornando mais democrático: “Existe o medicês, que é a aquela linguagem formal, mas como é que eu vou falar isso pra uma pessoa que nem é alfabetizada? Isso é importante, falar sem deixar a pessoa sem entender”.

Enquanto conversamos, a La Ludibriosa vem vindo. Uma das ferramentas de interatividade que a Trupe utiliza, a bikesom, chama a atenção de alguns curiosos e o grupo começa a tomar forma conforme os outros participantes chegam à praça. Lá eles se caracterizam e modificam, também, o espaço, com panos coloridos e instrumentos musicais. Apesar de ser uma iniciativa do curso de Medicina, os participantes são estudantes e profissionais de diversas áreas e, através da transdisciplinaridade, outros temas são ressaltados pelo coletivo, além da saúde, mas não desligados dela. Quando pergunto sobre o viés educacional do grupo, quem me responde primeiro é Vitor Nina: “Eu, particularmente, acredito nessa educação que a gente tá fazendo aqui. Na praça, que é o princípio freireano da educação popular: A cabeça pensa onde os pés pisam”.


Tanto no trabalho da Trupe quanto nas pesquisas da professora Simei, é possível ver que a aprendizagem através da brincadeira se reafirma como algo corporal, muito relacionado ao espaço em que os brincantes vivem e se divertem. Simei demarca as diferenças entre as brincadeiras das crianças das Ilhas de Belém com as brincadeiras urbanas: “Em Mosqueiro tem muita brincadeira no rio, que envolve a água. Nos centros urbanos, a brincadeira é outra, apesar de existirem semelhanças”. Jogo de perguntas e respostas Júlia, que começou no grupo como caloura de medicina ano passado, consegue fazer um paralelo entre a experiência da Trupe e o conhecimento formal, que, em sua reflexão, claramente não é sinônimo de liberdade. “Grades curriculares lembram muito uma prisão”, ela começa, com o nariz de palhaço a postos, “a voz das pessoas que estão na rua, - que, normalmente, são vistas como pessoas que não têm educação – diz coisas tão sábias, que eu não escutaria de um estudante, porque eles não tem a vivência que quem tá na rua tem”.

“A arte tem essa capacidade de subverter, de desconstruir os ambientes opressores” continua Gilberto. O projeto de extensão da Escola de Teatro e Dança que Simei coordena, “Metodologia de Ensino: o lúdico na prática dos professores da educação infantil”, procura justamente essa saída para a escola moderna: as expressões artísticas como forma de facilitadora do aprendizado formal, criando jogos e formas de contação de histórias. O professor de história e palhaço Wanderson Carvalho acredita que existe uma forma de mudar o sistema educacional atual: “A primeira coisa que tem que mudar é que a criança é obrigada a estar na escola. A obrigação tem que acabar. O ser humano tem que estar ali disposto e livre, com isso ele consegue aprender”. Gilberto completa que a prisão também é das perguntas: “no colégio, as respostas são dadas. Aqui as perguntas aparecem”.


ABC Texto e fotos: Ana Paula Castro


MOVIMENTO TRANSFORMADOR Com 10 anos de histรณria, o Projeto ABC utiliza a arte da danรงa como motivadora de reflexรฃo e com isso jรก mudou a vida de dezenas de jovens.


A arte, em quaisquer das suas manifestações, em nosso sistema educacional, em geral é vista como algo de fora, que não deve ser misturada com o ensino formal. Visando romper essa barreira, o projeto social Aluno Bailarino Cidadão (ABC) trabalha com adolescentes e jovens de 12 a 18 anos, estudantes de colégios públicos de Belém e região metropolitana, os inserindo neste mundo apartado de sua vida escolar: o mundo da arte, mais especificamente da dança. O Projeto ABC é desenvolvido pela Companhia Moderno de Dança desde 2006. Os participantes têm aulas de dança contemporânea juntamente com um acompanhamento pedagógico, em encontros que acontecem uma vez por semana. A iniciativa partiu do diretor geral da companhia, Gláucio Sapucahy, e da diretora artística, Ana Flávia Mendes. A ideia é não apenas de dar a oportunidade de experimentar um contato com a dança para jovens de baixa renda, mas também de proporcionar uma maior integração desses

jovens com a sociedade em que vivem, por meio de discussões sobre temas relevantes para o cotidiano destes, estímulo à pesquisa e à leitura, socialização e trabalho em equipe e incentivo à criatividade. Como se pode ver, o Projeto ABC vai muito além de meras aulas de dança. Estas aulas já são, por si só, bastante diferenciadas do cenário atual. A diferença se dá pela aplicação da filosofia da “dança imanente”, criada por Ana Flávia em sua tese de doutorado. Segundo o dicionário, a palavra “imanente” significa “algo que está inseparavelmente contido na natureza de um ser ou de um objeto”. Neste caso, é o conceito de que a dança já faz parte do ser humano, pois ele a constrói baseado em experiências próprias, vivências corporais e emocionais, que refletem em como ele dança, da mesma forma que esta acrescenta em sua vida. É com essa ideia que a Companhia Moderno de Dança segue em todos os seus projetos, e com este não poderia ser diferente. No entanto, a filosofia não é repassada


para os alunos como um conteúdo de sala de aula, mas através do estímulo à criação. A partir de suas próprias experiências, discussões e questionamentos, os jovens criam suas sequências coreográficas, sob a orientação das professoras do projeto (Karina Castro, Larissa Chaves e Paola Pinheiro), tornando-se, assim, tanto intérpretes quanto criadores do próprio trabalho. “As coreografias não são dadas prontas aos alunos, nós (professoras) trabalhamos com o que eles nos oferecem e apenas adaptamos para caber na coreografia”, explicou Larissa Chaves, que cursa Licenciatura em Dança na Universidade Federal do Pará (UFPA) e trabalha no projeto há três anos, dois destes como professora. Outro diferencial do Projeto ABC é o acompanhamento pedagógico, chamado de “Núcleo Aluno Cidadão” ou a “aula do psi”, como os alunos apelidaram à época em que este era feito por psicólogos. Hoje ele é conduzido pelo concluinte de pedagogia Juanielson Silva, que também é bailarino da Cia Moderno. O momento consiste

em debates e discussões teóricas, além de dinâmicas e atividades lúdicas acerca de questões da arte na sociedade e de temas de cunho político-social. O intuito é instigar o potencial crítico e promover a socialização dos alunos. Segundo Juanielson, o encontro é extremamente importante para a construção da ideologia do projeto, pois “ele se relaciona sempre com a dança, para que, na hora dos ensaios, eles não apenas dancem, mas criem arte, assim como para que eles desenvolvam a criticidade e possam exercê-la fora da sala de aula”. Para os alunos, o projeto é uma forma de educar. Mas não pela via da educação formal que conhecemos apesar de alguns declararem que o projeto os ajudou também nesse sentido -, eles se referem ao desenvolvimento da autonomia, do autoconhecimento e da postura em sociedade. Segundo eles, os trabalhos desenvolvidos os atentam para o compromisso, para a responsabilidade e, principalmente, para aprender a lidar com as diferenças. Sara Lamam, de 17 anos,


“Fazer com que eles desejem ser pessoas melhores, seres humanos melhores”

ele sai daqui já sabendo o que quer da vida”, afirma. Não é só quem está atualmente no ABC que tem o que contar sobre como ele lhe influenciou. Uma aluna, em especial, é considerada por muitos o grande destaque do projeto: Suzana Luz. Ela entrou na primeira turma, em 2006, e aos poucos foi galgando passos cada vez maiores na sua vida acadêmica e de bailarina. Hoje, Suzana é formada em licenciatura em dança pela UFPA, tem especialização em arte educação e é mestranda em arte desde 2015. Segundo ela, foram as vivências no Projeto ABC que a incentivaram a seguir esses caminhos, mas afirma que “não é a intenção do projeto que todos os alunos se tornem bailarinos ou professores de dança. Na verdade, é fazer com que eles desejem ser pessoas melhores, seres humanos melhores, e que possam, a partir disso, descobrir por si só suas carreiras e escolher o que de fato querem”, explica. Assim como Suzana, boa parte dos

está no projeto há apenas oito meses, mas já consegue trazer o que aprendeu para a sua própria realidade. “Numa aula de dança, às vezes queremos fazer uma movimentação, mas os corpos são diferentes. Como é que eu trabalho com corpos diferentes? E levando isso pra minha vida, como é que eu trabalho com pessoas diferentes, de jeitos diferentes?”, conta ela. Alguns deles começam muito novos no projeto e relatam que estar nele os ajudou a decidir que rumo querem seguir profissionalmente. Will Martinez, de 17 anos, confessa que nunca pensou em fazer faculdade de dança, algo que está decidido a realizar agora. Lucas Monteiro, de 17 anos, está no ABC desde 2009 e fez a mesma escolha de Will, entrar para um curso superior e ser professor de dança. Outros alunos escolheram cursos diferentes, como engenharia civil, medicina, administração, medicina veterinária... E para Lucas, “o projeto influencia o aluno a ter mais determinação no que vai fazer e acho que


ex-alunos não abandonam as atividades do projeto social após completar 18 anos, passando a contribuir para a execução dele, ajudando na parte logística (limpeza, alimentação, uniformes etc). Isso porque nos dias dos encontros, os alunos têm suas despesas de transporte e alimentação custeados pelo projeto. O coordenador Gláucio Sapucahy afirmou que no início da implantação, dar sustentação financeira ao ABC foi uma das dificuldades. A solução que melhor se encaixou foi o modelo de “padrinho solidário”, que são pessoas que conhecem o trabalho e cooperam com ele, colaborando mensalmente com recursos financeiros que alimentam essa iniciativa durante o ano todo. Hoje, há cerca de 18 padrinhos envolvidos. O projeto já enfrentou diversas dificuldades ao longo dos anos , mas continua firme no seu intuito de transformar através do processo artístico. Pois uma coisa é consenso para todos os que estão envolvidos de alguma forma no ABC: a arte sensibiliza o ser humano!

Para Gláucio, este é o principal propósito motivador da arte, “Quando eu trabalho processos esportivos e artísticos com os meus alunos, o meu objetivo é transformá-los. É fazer com que uma criança de Belém do Pará, com suas realidades e características próprias, entenda e goste de ir ao teatro, de ir a uma audição, de assistir arte popular. Porque se ele gosta, ele começa a entender que esses processos - dos mais intelectualizados, como a ópera, até os mais populares, como o carnaval - fazem parte do cotidiano e da formação do ser humano. Então se ele consegue entender tudo isso através da minha aula, eu consigo cumprir um papel de suma importância na nossa sociedade”. Gláucio acredita que os alunos mudam um pouquinho a cada ano, não muito. Mas essas transformações, que parecem pouca coisa quando analisamos pessoa a pessoa, coletiva e gradativamente significam muito para a sociedade.


Educomunicação O que aprendi trabalhando em um projeto de rádios escolares Por: Vitória Mendes Uma das certezas que tinha há algum tempo atrás era de que jamais trabalharia com rádio. Mas nossas certezas são muito frágeis e às vezes a vida ironicamente vira todas elas de cabeça para baixo, então, no início de 2015 comecei a trabalhar em um projeto de educomunicação, com ênfase justamente em rádio. O “Rádio Escola” é desenvolvido pelas Secretarias de Estado de Comunicação e de Educação. A ideia é que alunos de escolas públicas possam, através das oficinas oferecidas pelo projeto, manter rádios em seus colégios, produzindo roteiros, gravando programas, fazendo entrevistas e editando áudio, com autonomia, e se apropriando de tecnologias digitais livres. Eu convivi com alunos e professores de escolas estaduais na Marambaia, Tapanã, Icoaraci, Mosqueiro, Souza e Telégrafo. Vi de perto uma realidade bastante diferente da minha, que sempre estudei em escolas particulares antes de ingressar na

universidade pública. Insegurança, sucateamento, falta de infraestrutura, luta de professores pela garantia de seus direitos e desmotivação generalizada fazem parte da rotina da rede estadual de educação. No entanto, é inegável que esses lugares ainda resistem e ainda há vida, graças à garra e ao amor de alguns diretores, professores e alunos. O sistema educacional que compartimenta o conhecimento em caixinhas, prepara alunos apenas para os processos seletivos e é extremamente verticalizado ainda existe. No entanto, a educomunicação é uma forma incrível de subverter e fazer com que o ambiente escolar se torne mais interessante e frutífero para os estudantes. No projeto, os estudantes exercitam a produção de texto, a oratória e também a capacidade de pesquisar e pensar coletivamente na construção de programas. As rádios geralmente funcionam durante os intervalos das aulas, então, além de informar, as músicas tocadas também divertem e relaxam.


Em um dos encontros numa escola na Marambaia, conversei com um garoto do ensino fundamental que tem dislexia. Ele passou alguns anos afastados dos estudos, muito provavelmente devido às dificuldades de aprendizado em um ambiente pouco inclusivo e quando voltou a estudar, começou a participar da rádio. Mesmo com muitas dificuldades para ler, ele era um excelente editor de áudio e via aquele espaço como um lugar de socialização, de troca, de afeto. Foi na rádio que fez amigos e passou a se interessar pelos assuntos da escola. Outra história que também me faz crer no quanto a educomunicação pode ser revolucionária foi o relato de uma diretora de Mosqueiro. Ela contou que havia um menino em situação de vulnerabilidade social que estava vendendo drogas na escola. A solução encontrada foi dar ocupação ao aluno, então aos poucos ele foi sendo inserido na rádio escolar. Depois de um tempo, tomou gosto pelo trabalho e ali

viu uma alternativa para a sua realidade. Lembro que ele era um dos participantes mais dedicados e que a diretora usou a palavra “salvação” para descrever o que aconteceu. O mais interessante é que a experiência do rádio também estimula os estudantes a desenvolver outras linguagens dentro da comunicação. Fotografia, audiovisual, grafite e blogs também passaram a ser explorados pontualmente por iniciativa dos próprios estudantes. A educomunicação ainda é um campo muito novo dentro da comunicação; os estudos são bastante recentes. Não discutimos muito o assunto na faculdade e ainda são poucos os projetos existentes na área. Fico feliz por ter conseguido estagiar em um deles por um tempo. Foi no dia-a-dia das escolas que pude perceber que a aliança entre a produção criativa e a educação podem revolucionar um sistema de ensino ultrapassado e alheio às vivências de quem estuda. Comunicação na escola é empoderamento, partilha, pertencimento e subversão.


Ainda Sem Poesia O MAPA Por: Daniel Chagas Numa tarde chuvosa de março encontrei no baú de casa mil mapas de mil vozes perdidas e rasgadas. Eles contavam um território fantástico, mundos ordenados e verdadeiros, obras legitimamente humanas de empenho civilizatório. Trouxe alguns para mais perto da luz e por cima do véu de poeira reparei suas detalhadas revelações que explicavam a Terra. Seus contornos precisos fascinavam e desafiavam a minha percepção, a tarde não demorou a virar noite e imerso naquele mundo fiquei comparando os mapas tentando juntá-los em um imenso, único e inalienável mapa, com o propósito de ao mundo ordenar e construir a representação perfeita. Mas suas escalas e descrições, alguns lugares estranhamente familiares eram contraditórios nas informações, a angústia me dominava e eu não queria mais acreditar em nada. Ilustrações de idênticos animais e flores, mares e terra, sol e lua, significavam vida e morte, tudo e nada, suas inconstâncias propositais desafiavam o que há de real, todos os mapas com os seus próprios tamanhos, línguas, objetivos. Naquela indefinição infinita, a aurora surgiu distante e iluminou o quarto de aura azul convidando a contemplar o púrpuro céu. A suave brisa da manhã levou a frustração e o sono, e me sussurrou o segredo dos mil mapas de mil vozes. Levantei-me confiante e sereno e guardei todos no mesmo baú, verdadeiramente alegre, não há porquê se esforçar para juntá-los eles são exatamente belos em sua distinção.


Foto: Rafael AraĂşjo

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