Issuu on Google+

10 POEMAS…10 POETAS

Escola Artística António Arroio Ano lectivo: 2012/2013 Disciplina: Português Professora: Elisabete Miguel

Trabalho realizado por: Sebastião Rebolo, nº 25, 10º H


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

ÍNDICE

ÍNDICE INTRODUÇÃO POEMAS Alexandre O’Neill, Cão David Mourão Ferreira, Nocturno Eugénio de Andrade, Sem título Gonçalo M. Tavares, Sem título José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa Manuel António Pina, A um jovem Poeta Mário Cesariny, O Navio de Espelhos Miguel Torga, Ariane Pedro Homem de Mello, Solidão Sophia de Mello Breyner Andresen, Paisagem ILUSTRAÇÃO DO POEMA ESCOLHIDO CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA

2


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

INTRODUÇÃO

No âmbito da disciplina de Português, foi-nos solicitado que realizássemos um trabalho na área da poesia. Esse deveria conter no mínimo dez poemas, de dez autores portugueses diferentes e contemporâneos. Poderia existir algum tema que fosse transversal a todos, unindo-os, mas isso não era um requisito obrigatório. Inicialmente, pensei que seria mais lógico existir um tema comum a todos eles e cheguei mesmo a pensar no Mar, algo que me fascina desde muito novo e com o qual tenho uma relação muito chegada. Mas ao iniciar a pesquisa apercebime de que seria muito limitativo apresentar nesta antologia, poemas apenas sobre o Mar. Ao começar a ler alguns de vários autores, percebi que seria melhor escolhê-los sobre temas diferentes mas que eu, de facto apreciasse. No entanto não esqueci o tema do Mar e, sempre que possível e que me satisfizesse, optei por textos relacionados com o mesmo e com tudo aquilo que o envolve. Após ter lido diversos poemas de inúmeros autores, escolhi então os dez poetas que irão estar presentes mais à frente. São então eles: Alexandre O’Neill David Mourão Ferreira, Eugénio de Andrade, Gonçalo M. Tavares, José Gomes Ferreira, Manuel António Pina, Mário Cesariny, Miguel Torga, Pedro Homem de Mello, Sophia de Mello Breyner Andersen. Com a selecção dos poetas já realizada, escolhi o poema de que mais gostava de cada um deles e, em muitos dos casos, aqueles com os quais mais me identifiquei. Em seguida apresento a selecção dos poemas, por ordem alfabética de autor.

3


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

CÃO Cão passageiro, cão estrito, cão rasteiro cor de luva amarela, apara-lápis, fraldiqueiro, cão liquefeito, cão estafado, cão de gravata pendente, cão de orelhas engomadas, de remexido rabo ausente, cão ululante, cão coruscante, cão magro, tétrico, maldito, a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, cão disparado: cão aqui, cão além, e sempre cão. Cão marrado, preso a um fio de cheiro, cão a esburgar o osso essencial do dia a dia, cão estouvado de alegria, cão formal da poesia, cão-soneto de ão-ão bem martelado, cão moído de pancada e condoído do dono, cão: esfera do sono, cão de pura invenção, cão pré-fabricado, cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija, cão de olhos que afligem, cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill

4


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

NOCTURNO Eram, na rua, passos de mulher. Era o meu coração que os soletrava. Era, na jarra, além do malmequer, espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo; além do gelo, a roda de limão... Era a mão de ninguém no meu cabelo. Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio de São Sebastião, de Debussy.... Era, na jarra, de repente, um lírio! Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança. Era, na sombra, um choro de criança...

David Mourão Ferreira

5


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

Mesmo a mais friável das palavras tem raízes no sol – ou a manhã barcos no mar.

Eugénio de Andrade

6


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

Só voltar atrás se atrás for à Frente.

Gonçalo M. Tavares

7


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa. O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinzento, negro, quase-verde... Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam. Não cai neve vermelha, não há flores que voem, a lua não tem olhos e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens. Soluçam, bebem, riem e digerem sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos, discursos de Mussolini, guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

8


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

Pois não era mais humano morrer por um bocadinho, de vez em quando, e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses, morrer em cima dum divã com a cabeça sobre uma almofada, confiante e sereno por saber que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim, havias de dizer com teu sorriso onde arde um coração em melodia: "Matou-se esta manhã. Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela."

E virias depois, suavemente, velar por mim, subtil e cuidadosa, pé ante pé, não fosses acordar a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

9


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

A UM JOVEM POETA

Procura a rosa. Onde ela estiver estás tu fora de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça ainda, sob tanta metáfora; pode ser, e que quando nela te vires te reconheças

como diante de uma infância inicial não embaciada de nenhuma palavra e nenhuma lembrança.

Talvez possas então escrever sem porquê, evidência de novo da Razão e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina

10


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

O NAVIO DE ESPELHOS

O navio de espelhos não navega cavalga

Seu mar é a floresta que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta de deitar-se com ele

Os armadores não amam a sua rota clara

(Vista do movimento dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade nenhum cais o abriga

O seu porão não traz nada nada leva à partida

Vozes e ar pesado é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado uma espécie de porta)

11


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

Seus dez mil capitães têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura o mesmo grau e posto

Quando um se revolta há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca reflectem os objectos)

E quando um deles ala o corpo sobre os mastros e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga (como no espaço os astros)

Do princípio do mundo até ao fim do mundo

Mário Cesariny

12


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

ARIANE

Ariane é um navio, Tem mastros, velas e bandeira à proa, E chegou um dia branco, frio, A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou Dentro da claridade destas grades… Cisne de todos, que se foi, voltou Só para os olhos de quem tem saudades…

Foram duas fragatas ver quem era Um tal milagre assim: era um navio Que se balança ali à minha espera Entre gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos Sair desta prisão em corpo inteiro, E levantar a âncora, e cair nos braços De Ariane, o veleiro.

Miguel Torga

13


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

SOLIDÃO

Ó solidão! À noite, quando, estranho, Vagueio sem destino, pelas ruas, O mar todo é de pedra... E continuas. Todo o vento é poeira... E continuas. A Lua, fria, pesa... E continuas. Uma hora passa e outra... E continuas. Nas minhas mãos vazias continuas, No meu sexo indomável continuas, Na minha branca insónia continuas, Paro como quem foge. E continuas. Chamo por toda a gente. E continuas. Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas. Invento um verso... E rasgo-o. E continuas. Eterna, continuas... Mas sei por fim que sou do teu tamanho!

Pedro Homem de Mello

14


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

PAISAGEM

Passavam pelo ar aves repentinas, O cheiro da terra era fundo e amargo, E ao longe as cavalgadas do mar largo Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura, Era a carne das árvores elástica e dura, Eram as gotas de sangue da resina E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento, Eram as mãos profundas do vento Era o livre e luminoso chamamento Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa, Era o peso e era a cor de cada coisa, A sua quietude, secretamente viva, E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo, Cuja voz, quando se quebra, sobe, Era o regresso sem fim e a claridade Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen

15


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

ILUSRAÇÃO DO POEMA ESCOLHIDO

Escolhi o poema de Sophia de Mello Breyner Andersen intitulado “A Paisagem” para ilustrar. Em seguida apresento essa ilustração.

16


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

Esta ilustração representa a paisagem descrita no poema:”Era o céu azul, o campo verde, a terra escura” (v.5) e “Eram os pinheirais onde o céu poisa” (v.13). Escolhi fazer o desenho inicialmente a caneta gráfica preta devido à forte expressão do seu traço e depois colori-lo com aguarelas visto que estas actuam muito bem sobre caneta gráfica e permitem criar efeitos de cor muito interessantes por serem muito aguadas. A ilustração tem elementos muito concretos e não abstractos porque todos esses elementos são descritos concretamente no texto: “…aves repentinas” (v.1); “…cavalgadas do mar largo” (v.3); “…o céu azul, o campo verde, a terra escura” (v.5); “…praias onde a direito o vento corre” (v.20). Penso que quase todos estes aspectos estão bem representados na ilustração onde as cores muitos vivas a tornam mais alegre tal como, do meu ponto de vista, é a paisagem descrita neste poema: “E as folhas em que a luz se descombina” (v.8).

17


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

CONCLUSÃO Nunca tinha feito um trabalho na área da poesia anteriormente e deu-me bastante prazer a realização deste primeiro nesta área. Gostei muito de pesquisar poemas para a minha antologia, porque isso me obrigou a ler muitos de diversos autores. Isto mudou um pouco a ideia que eu tinha da poesia e, após a realização deste trabalho, passei a apreciar mais a leitura da mesma. O poema de que eu mais gosto é “A Paisagem”, de Sophia de Mello Breyner Andersen e foi também por isso que o escolhi para ilustrar. Apesar disso, aprecio também muito todos os outros e é esse o motivo pelo qual estão presentes na minha selecção. O facto de não haver um tema transversal a todos os poemas foi um factor que me ajudou bastante, devido à liberdade que tive na selecção dos dez de que mais gostava. Do meu ponto de vista, esta liberdade enriqueceu a antologia a nível de diversidade de temáticas e também, a nível de conteúdo. Para concluir, penso ter atingido os objectivos para os quais me propus no início deste trabalho, tendo-me empenhado na concretização do mesmo.

18


Escola Artística António Arroio

Sebastião Rebolo

BIBLIOGRAFIA

Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da poesia Portuguesa, 1999, 4ª edição, Campo das Letras, 2000.

Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra, 1982, Limiar.

Gonçalo M. Tavares, Livro da Dança, 2001, Assírio & Alvim.

Websites Consultados 

http://www.citador.pt/poemas/a-um-jovem-poeta-manuel-antonio-pina

Imagem da capa 

http://poetaspoveiros.blogspot.pt/p/cantinho-dos-poetas-poveiros.html

19


Poesia_H_25