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Escola Secundária Artística António Arroio Língua Portuguesa - Professora Eli Miguel

Poetas Contemporâneos Portugueses

Memórias mergulhadas em saudade

Matilde de Sousa Outeiro, nº 19, 10º H 1


Indíce Título

Páginas

Introdução

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MEMÓRIAS MERGULHADAS DE SAUDADE –Poemas escolhidos 

Sísifo (Miguel Torga)

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O Poema (Natália Correia)

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Intróito (José Carlos Ary dos Santos)

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Monólogo (Rui Knopfli)

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Receita (José Saramago)

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A Solidão (Sophia de Mello Breyner Andersen)

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Impressão Digital (António Gedeão)

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Coração Recente (Eugénio de Andrade)

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E de Novo, Lisboa… (Alexandre O´Neill)

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Há-de flutuar uma cidade (Al Berto)

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Não ser (Florbela Espanca)

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Poema sobre a recusa (Maria Teresa Horta)

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Segue o teu destino (Ricardo Reis)

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Poema Selecionado

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Ilustração do Poema

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Conclusão

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Bibliografia

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Webgrafia

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Introdução Quando ouvimos falar em poesia portuguesa dois nomes vêm de imediato à nossa mente: Fernando Pessoa e Luís de Camões – a tal ponto, como certa vez escreveu Miguel Sanches Neto, que a poesia portuguesa moderna estava “limitada ao norte por Álvaro de Campos, ao sul por Ricardo Reis, a leste por Alberto Caeiro e a oeste por Fernando Pessoa”. Evidente que a poesia portuguesa não se restringe aos dois grandes poetas acima citados. Claramente há igualmente nomes como os de Cesário Verde, Cruz e Silva, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner, Al Berto, Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Maria Teresa Horta entre outros. Foi meu objectivo neste trabalho realizado a pedido da professora de Português, recolher vários poemas de poetas e poetisas portugueses contemporâneos, de diversos estilos e com diferentes sensibilidades. Ao longo deste trabalho selecionei vários poemas, onde temática é a saudade que as memórias trazem com elas. Os poemas pertencem a vários autores que retratam a saudade de formas variadas, saudade de um lugar, saudade de um amor, saudade do que fomos.

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Sísifo Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

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O POEMA O poema não é o canto que do grilo para a rosa cresce. O poema é o grilo é a rosa e é aquilo que cresce. É o pensamento que exclui uma determinação na fonte donde ele flui e naquilo que descreve. O poema é o que no homem para lá do homem se atreve. Os acontecimentos são pedras e a poesia transcendê-las na já longínqua noção de descrevê-las. E essa própria noção é só uma saudade que se desvanece na poesia. Pura intenção de cantar o que não conhece. Natália Correia, in Poemas

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Intróito

Das tuas mãos de vidro, carregadas De jóias tilitantes e doentes, Das palavras que trazes afogadas, Das coisas que não dizes mas entendes.

Do teu olhar virado às madrugadas De fantásticos e exóticos orientes, Do teu andar de tule, das estocadas Dos gestos que não fazes mas que sentes.

Dos teus dedos sinistros, de tão brancos, Dos teus cabelos lisos, de tão brandos, Dos teus lábios azuis, de tanta cor,

É que me vem a fúria de bater-te, É que me vem a raiva de morder-te, Meu amor! Meu amor! Meu amor! José Carlos Ary dos Santos, Obra Poética

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Monólogo Adivinho teu corpo dentro da noite. Soltos os cabelos cor de areia fina, delidos os contornos no linho do lençol. Dormes tranquilamente. Tudo em em mim é presença tua. E, enquanto dormes, algo de mim habita e persiste em ti. Tu dormes e eu espreito o teu sono. Algo de fluido nos liga e envolve. Vejo-te lucilar na noite, teus longos inteiriçados membros fremindo. Momento breve que perdura. Depois acordas cinzenta, banhando em pranto, oferecendo o perfil suave ao beijo morno de um céu onde a aurora se demora. Rui Knopfli

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Receita Tome-se um poeta não cansado, Uma nuvem de sonho e uma flor, Três gotas de tristeza, um tom dourado, Uma veia sangrando de pavor. Quando a massa já ferve e se retorce Deita-se a luz de um corpo de mulher, Duma pitada de morte se reforce, Que um amor de poeta assim requer José Saramago, Os Poemas Possíveis

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A Solidão A noite abre os seus ângulos de lua E em todas as paredes te procuro A noite ergue as suas esquinas azuis E em todas as esquinas te procuro A noite abre as suas praças solitárias E em todas as solidões eu te procuro Ao longo do rio a noite acende as suas luzes Roxas verdes e azuis Eu te procuro. Sophia de Mello Breyner Andersen, O Cristo Cigano

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Impressão Digital Os meus olhos são uns olhos, e é com esses olhos uns que eu vejo no mundo escolhos, onde outros, com outros olhos, não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores! De tudo o mesmo se diz! Onde uns vêem luto e dores, uns outros descobrem cores do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas onde passa tanta gente, uns vêem pedras pisadas, mas outros gnomos e fadas num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos, querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos! Onde Sancho vê moinhos, D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos! Vê gigantes? São gigantes!, António Gedeão, Movimento Perpétuo

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Coração Recente

Eras tu? Era o dia acabado de nascer?

Que rosa abria? Rosa ou ardor? Não seria

Só desejo de ser um travo de alegria?

Um fulgor? Um fluir? Eras tu? Era o dia? Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

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E de Novo, Lisboa...

E de novo, Lisboa, te remancho, numa deriva de quem tudo olha de viés: esvaído, o boi no gancho, ou o outro vermelho que te molha. Sangue na serradura ou na calçada, que mais se faz é de homem ou de boi? O sangue é sempre uma papoila errada, cerceando do coração que foi. Groselha, na esplanada, bebe a velha, e um cartaz, da parede, nos convida a dar o sangue. Franzo a sobrancelha: dizem que o sangue é vida; mas que vida? Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui, na terra onde nasceste e eu nasci? Alexandre O'Neill , 'De Ombro na Ombreira

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Há-de flutuar uma cidade há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida pensava eu... como seriam felizes as mulheres à beira mar debruçadas para a luz caiada remendando o pano das velas espiando o mar e a longitude do amor embarcado por vezes uma gaivota pousava nas águas outras era o sol que cegava e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite os dias lentíssimos... sem ninguém e nunca me disseram o nome daquele oceano esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar se espantasse com a minha solidão (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.) um dia houve que nunca mais avistei cidades crepusculares e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta inclino-me de novo para o pano deste século 1recomeço a bordar ou a dormir tanto faz sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade Al Berto in O Medo

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Não Ser

Quem me dera voltar à inocência Das coisas brutas, sãs, inanimadas Despir o vão orgulho, a incoerência: - Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! Arrancar às carnes laceradas Seu mísero segredo de consciência! Ah! Poder ser apenas florescência De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer, De ramos graves, plácidos, absortos Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta, Erguer ao sol o coração dos mortos Na urna de oiro de uma flor aberta!...

Florbela Espanca, Charneca em Flor

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Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva. Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te minha alegria profunda

Maria Teresa Horta in Vozes e Olhares no Feminino

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Segue o teu destino

Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias.

A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só. Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além dos deuses.

Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração. Os deuses são deuses Porque não se pensam.

Ricardo Reis, Odes

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Poema Selecionado De entre todos os poemas que recolhi, preferi escolher o poema de Al Berto, “Há-de flutuar uma cidade”. Na minha interpretação todo o poema transparece uma onda nostálgica em todas a acções narradas. O sujeito poético tem a ideia de que as mulheres que das varandas vêem os seus amores zarparem por um oceano, cujo nome desconhece, seriam felizes. Mulheres apaixonadas que vêem do ponto alto, agitando os lenços bordados ao sabor do vento, os homens partirem para um destino que encontra uma bifurcação, onde o mar os separa das suas amadas durante um tempo indeterminado que mais parece um momento infinito em que os segundos se confundem com meses de saudade desesperada, tal como o autor refere “como seriam felizes as mulheres/à beira mar debruçadas para a luz caiada/remendando o pano das velas espiando o mar/e a longitude do amor embarcado”. O Sujeito observava uma gaivota que se aproximava da linha da água e voltar a subir ao longo do horizonte, continuando com o seguimento da sua vida de ser livre (“por vezes/uma gaivota pousava nas águas”), ou então o Sol que banhava o litoral da cidade conferindo-lhe um tom dourado envelhecido pelos séculos de história que correm nas ruas da metrópole (“outras era o sol que cegava”), enquanto os dias e as noites passavam sem distinção e sem a companhia de uma outra alma, a ideia de solidão é lentidão é reforçada no último verso da segunda estrofe quando o autor escreve “os dias lentíssimos... sem ninguém”. E assim envelheceu, esperando alguém que nunca viria, sentado na varanda olhando o mar no fundo da rua indagando-se sobre o nome desse tal oceano por onde todos se aventuravam (“e nunca me disseram o nome daquele oceano/esperei sentada à porta...) enquanto ele permanecia encostado ao seu banco na sua cómoda varanda com vista para o tal mar desconhecido lá no fundo bem perto, sempre solitário, na esperança de alguém encontrar interesse nessa solidão propositada (“assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar/se espantasse com a minha solidão”). E, reconhece agora, ao olhar nostálgico para o passado que permitiu que crescesse uma pérola no lugar do seu coração, uma pedra preciosa, que no 17


entanto ninguém poderia ver, pois permanecia isolado e não tinha a quem se lamentar desse facto, como é referido no dístico do poema, “(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)”. Houve um dia, então, que o sujeito deixou de avistar os barcos a irem e voltarem (“os barcos deixaram de fazer escala à minha porta”), a deixarem as suas namoradas e voltarem para um reencontro choroso que parece que ainda não é real, já não se avistou mais cidades douradas pela luz envelhecida do crepúsculo eminente (“nunca mais avistei cidades crepusculares”), e assim volta às suas acções de quotidiano já há muito perdidas, entre elas o bordado ou até o sono (“volto a bordar ou a dormir/ tanto faz”), apenas porque sempre pensou que a felicidade nunca seria para si, e isso acabou por se tornar verdade, e assim conclui o seu poema, e o seu desabafo, “sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade”.

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Ilustração Ilustrei o poema que escolhi com um desenho a lápis de cor aguarela e também com sépia claro em certas partes do desenho, escolhi estes materiais por conhecer melhor a técnica que outro material como as aguarelas ou os pastéis. Quis ilustrar o sujeito poético por ser a personagem sobre a qual todas as ações giram em redor. Idealizei essa personagem como uma mulher bem parecida, loira e de olhos verdes, seguindo o estereótipo de beleza do normal, os lábios pintados de vermelho vivo. Aparentemente é uma rapariga bem cuidada que tem toda a vida pela sua frente, cheia de oportunidades e sempre propícia à felicidade, no entanto é apenas a aparência, pois tal como o poema diz no último verso “sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade”, quis ilustrar essa conclusão a partir de uma expressão subtil mas patente nas feições da personagem, visto que todo esse sentimento de solidão e infelicidade está escondido. Toda a personagem transparece um sentimento de espera indeterminado. Em segundo plano desenhei a silhueta de uma cidade a flutuar e o seu reflexo no mar, escolhi deixar o título do poema para fundo pois serve apenas para situar todas as ações, e na minha interpretação o poema fala de uma mulher e não especificamente da cidade flutuante. Um fator importante na minha ilustração é a graduação de cor do céu. Uma parte é dia e outra é noite e no meio há o crepúsculo, simbolizando o passar recorrente dos dias e das noites, de todos os crepúsculos, eternamente dando mais enfâse à espera indeterminada que a rapariga faz por alguém que lhe venha fazer companhia e fazê-la sentir-se menos solitária.

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Conclusão Com a realização deste trabalho tive a oportunidade de conhecer muitos poetas de que nunca tinha ouvido falar. Foi também com alguma surpresa que verifiquei que na nossa poesia contemporânea já muitas e boas poetisas. Não só descobri poetas menos cliché da poesia portuguesa, como também aprofundei o meu conhecimento por outros já mais familiares, tal como Miguel Torga e Eugénio de Andrade, entre outros. Apesar de já conhecer os seus nomes, não passavam disso, de nomes, aos quais não conhecia a respectiva obra. Não me limitei a escolher os primeiros poemas que encontrei. Primeiramente, pesquisei os poetas e poetisas da literatura portuguesa, e apenas depois de os seleccionar é que fui pesquisar a sua obra. De entre essa pesquisa, seleccionei os poemas que me cativavam mais. Apesar de ter escolhido o tema da Saudade não restringi a escolha dos meus poemas a partir desse conceito, cada poema é uma nova interpretação da palavra Saudade, não só saudade de um amor, ou até mesmo de um sentimento, mas apenas saudade do que foi, e do que não será. Alarguei todo este conceito ilustrando com os poemas outras palavras como nostalgia e tristeza. Por fim, devo dizer que este trabalho enriqueceu e desenvolveu a minha cultura sobre a literatura portuguesa e deu-me uma nova prespetiva sobre alguns dos poetas e as suas obras. Assim, posso concluir que foi um trabalho que me enriqueceu e que me deu muito gosto em elaborar.

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Bibliografia 

Sísifo, Miguel Torga, Poesia Completa – Dom Quixote

O Poema, Natália Correia, in Poemas – Dom Quixote

Intróito, José Carlos Ary dos Santos, Obra Poética – Edições Avante

Monólogo, Rui Knopfli, Obra Poética – INCM –Imprensa Nacional Casa da Moeda

Receita, José Saramago, Os Poemas Possíveis – Editora Caminho

A Solidão, Sophia de Mello Breyener Andersen, O Cristo Cigano Editora Caminho

Impressão Digital, António Gedeão, Movimento Perpétuo – Coimbra, of.Atlantida

Coração Recente, Eugénio de Andrade, Mar de Setembro – Edições Limiar

Há-de Flutuar uma Cidade , In O medo – Edições Assírio & Alvim

Poema sobre a recusa, Maria Teresa Horta, Vozes e Olhares no Feminino -Edições Afrontamento

Segue o teu destino, Ricardo Reis, In Odes – Editorial Presença

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Webgrafia http://www.citador.pt/ http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/alexandre_oneill/poetas_alexandreoneill_eden ovo01.htm http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v288.txt http://marciaapinheiro.tripod.com/nao_ser.htm http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/195.php http://www.citador.pt/poemas/segue-o-teu-destino-ricardo-reisbrheteronimo-defernando-pessoa

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