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APReABRIL


APReABRIL Alguns Olhares

“APRe!” Edição comemorativa dos “40 anos do 25 de Abril”
 “Abril, sempre!”: Iniciativa do “Grupo de Associados da APRe!” no Facebook (sob coordenação de Manuela Vilarinho) A Direção da “APRe!” agradece a quantos colaboraram.


índice De Abril em Abril - Aida Santos

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Um olhar (poético) sobre o 25 de Abril - A. Betâmio de Almeida

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Nunca mais esquecerei... - Albertina Costa

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Abril - Alexandra Cordeiro

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25 de Abril, este doce conflito!... - Ana Maria Brito Jorge

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O Rádio Bush - Edgar Ferreira

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As casas de Colmo - Edgar Ferreira

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O 25 de Abril de 1974 e o “Bom dia doutores” - Fernando Cardoso Rodrigues

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Chave Mestra - Francisco Zuzarte

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A propósito de um tempo que julguei ter esquecido - Francisco Pelejão Camejo

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Heróis de Abril em noite de trevas - José Monteiro

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Saudades do 25 de Abril de 74 - J. Vieira Lourenço

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25 Abril de 1974 - José Correia

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Misão 25 de Abril 74 - João Andrade Silva

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25 Abril - 40 anos de democracia - José Correia

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Clandestinidades em ditadura - José Dias

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Naquele dia inteiro e limpo - Joana Lopes

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Conto - Leonor Abecasis

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Não é Fácil - Lídia Menezes

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25 Abril, sempre - Luís Manuel Leite Cartano

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O meu 25 de Abril - Luiz Armando Faria Costa

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Somos a armadura da bestialidade e o bastião da brualidade - Luís Maria Gottschalk

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A Flora - Miguel Vital Andrade de Sousa

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Memórias de Abril - Manuel Estêvão

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A conspiração na Guiné - Manuel Duran Clemente

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O meu 25 de Abril - Manuel Torres da Silva

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O meu 25 de Abril - Margarida Vilarinho

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25 de Abril - Margarida Vilarinho

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Abril - Maria da Graça Arnaud Pereira

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O meu 25 deAbril (e as origens) - Maria Júlia Monteiro Jaleco

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Considerando - Maria José Dias Leite

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Uma linha no Horizonte e Nós - Maria Luísa Cabral

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Com um brilhozinho nos olhos... - Neri Monteiro

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Abril - 40 anos - Henrique Rodrigues

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O meu 25 de Abril - Manuela Vilarinho

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Pelo sonho é que vamos - Teresa Saavedra

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O meu 25 de Abril - Teresa Rio Carvalho

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“de abril em Abril” No coração de Abril ainda bate liberdade Lembro de Abril o antes – e não esqueço o agora. 1. Lembro a minha meninice. As conversas sobre o país que éramos – e o que eram outros, lá fora. Lembro-me de reuniões de noite, em casa – de homens que vinham, pela calada, e depois se iriam, enquanto dormíamos. De se rasgarem papéis que depois se queimavam. E do medo da minha mãe, em certas noites, quando meu pai saía – ou se demorava. Lembro-me do fim do liceu – de ter juntado enfim as peças e lido muito, do quanto me faltava. E da Faculdade – dos cafés e das RGAs, de grupos febris, de “meetings” e concentrações, do boicote a aulas, de ilusões. De como tudo fervia, nesses anos. De distribuir panfletos e comunicados noutras faculdades, já na vontade do risco. Dos primeiros “1º de Maio” – e daquela vez em que fugimos, de mão dada, Clérigos abaixo, da polícia montada… E não me esqueço do que sonhávamos, pelo meio, nem do que líamos – devorando tudo. Lembro-me da guerra e dos nossos terrores – dos processos disciplinares e da expulsão, na Universidade, de amigos; dos que fugiam, antes ou depois de receberem armas; dos que emigravam ou passavam a clandestinos; dos de que só se sabia no acaso de uma noite e que saíam pela madrugada; dos parentes e conhecidos que iam para aquele inferno – e nunca voltavam inteiros, nas marcas que mal se viam. Sabíamos – e nunca o esquecemos. 2. Lembro de Abril aquela súbita alegria. A madrugada abrupta e luminosa – contra a noite sem estrelas de agora. Do que desses dias mais lembro, comovida, vem logo a voz e o riso dos que connosco os viveram. Antes de mais, daqueles cuja esperança herdámos, juntando-a à que era a nossa. E não – não deixaremos que tenha morrido com eles. E sim – já a passámos a outros, por nosso turno, para a deixarmos de herança. Lembramos bem o que então nos diziam: que outros, antes de nós, tinham lutado e sofrido, anos e anos, esperando por esse dia; que alguns

tinham por ele morrido, sem nunca o verem; e que nada disso podia ser em vão. Lembro a voz contida do meu pai, a acordar-me ainda de madrugada, pelo telefone: escuta bem, golpe militar, tropas na rua; queres que te vá buscar?; então, não saias de casa – liga rádio e televisão mais logo… e aguarda. Lembro-me de me sentir presa, ali sozinha, à espera do sol que logo nasceria – e de saltar para a rua. Dos risos, pelo caminho: - “Srª Drª, não há aulas, vamos embora…” - “Embora, hoje? Para onde? Em boa hora veio ele, o dia…Não é dia de aulas, não – é dia de rirmos e de rua”. Lembro-me, no dia seguinte, da saída dos presos, da sede da PIDE, no Heroísmo. Da alegria incontida do meu pai, à porta de casa comigo, e de o ver atravessar a multidão, de um e outro lado da avenida, para abraçar um ou outro dos que passavam entre essas alas de gente – e dos olhos que pela primeira vez via líquidos, de comovidos. 3. Lembro-me do entusiasmo desse tempo – desmedido. E das discussões que vieram depois – dos caminhos divididos. Da festa da Constituição, enfim – e de todos pensarmos que seria para valer. 4. Lembro de Abril o antes – e não o esqueço agora. Lembro de Abril toda a alegria – e sei da raiva que em nós mora. Quarenta anos passados, que este Abril não seja só rememorar o passado, na sua imensa alegria. Porque Abril não vive de nostalgia daquele Abril que se foi. Temos cravos vermelhos e ruas, temos praças e canções – Abril é fazer a madrugada, fazer a hora. “Al son de los vientos que van murmurando”. Abril é aqui e agora. Das letras de Abril se escreve LIBeRdAde! Aida Santos (Associada nº 42)

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um olhar (poético) sobre o 25 de abril Um “25 de Abril” teria, um dia, de acontecer? Muito possivelmente, sim! Esse dia seria o fim de um ciclo da nossa História que há muito se arrastava fora do tempo. Um tempo em que uma “caixa de aço” encerrava a Nação. Num ou noutro dia ele teria acontecido! Mas o “25 de Abril”, em abstracto, já acontecia na mente de muitos, antes do dia certo. Esse dia não só era ambicionado como era percepcionado, vivido como um desejo proibido. Difícil de atingir, mas possível de ser realizado. Muitos labutaram para o concretizar, nas sombras, na solidão, no exílio dentro de si ou lá fora, em terra alheia. A guerra, lá longe, desunia e unia. Ferida aberta na Família. Eis que a oportunidade construída surge em 25 de Abril de 74! Um grupo de portugueses, os militares de Abril, agarra em suas mãos essa oportunidade. E consegue, com denodo e engenho, escancarar a “caixa de aço” opressora. Com um grão de loucura, também! E eis que a alegria irrompe nas ruas. O povo exulta! Os cravos deixam de ser os mesmos, passam a símbolos da paz. As palavras Liberdade e Fraternidade saltam do dicionário para bocas insaciáveis. E o Império cai! Vem então o tempo de passar da alegria para a Felicidade. A Felicidade nunca é unânime, mas a Democracia em construção assim o admitia. Outras lutas iriam, então, começar, com exageros, com certeza. Ilusões e desejos iriam esvoaçar, muitos sonhos iriam afastar-se para nunca voltarem. Quarenta anos volvidos, o que resta do “nosso” “25 de Abril”? Uma nostalgia de alegria para muitos, uma referência de valores a defender, a indiferença ou uma polémica maldosa, para alguns. Uma geração adulta já não o viveu, já não o desejou, mas conhece-o. Uma geração adulta aprendeu o 25 de Abril, pode esquecer o 25 de Abril. A história em construção, o tempo a correr, a correr, sempre. E surgiu outra “caixa de aço”! Mas o “25 de Abril” rima com resistir, todos os

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nunca mais esquecerei...

dias! Resistir para não nos levarem a justiça e a decência. Outros “25 de Abril” começam a ser desejados e acontecerão, de outra forma, noutro dia. Para que a Esperança nos possa trazer o Futuro, aos nossos filhos.

A. Betâmio de Almeida (Associado nº 244) Lisboa, na Bénard (3 de Abril de 2014)

O dia 25 de Abril de 1974, para o cidadão comum, nasceria como qualquer dia de primavera. Cumpriam-se os rituais matinais de uma família, casal jovem com dois filhos muito pequenos. Fomos trabalhar após a entrega das crianças no infantário. Fiquei no Hospital de S. João no Porto, onde trabalhava. Tudo parecia dentro da normalidade. Não tardou muito a receber um telefonema do meu marido, que ao passar na Praça da República, junto ao Quartel General, se apercebeu de que algo se estava a passar. A recomendação: “tem cuidado, quando saíres vai para casa com os filhos e não saias de casa”. As notícias foram-se sucedendo durante o dia, umas mais optimistas outras contraditórias. A ansiedade era enorme. Em casa, através da TV lá íamos recebendo as informações, mas a insegurança mantinha-se. Para quem tinha vivido a sua juventude marcada por tantas vicissitudes, sem liberdade, com tanta pobreza, discriminação e com a permanente ameaça da guerra colonial, a expectativa era enorme. O meu primeiro pensamento vai para o meu filho mais velho (3 anos): “com certeza já não terá que ir para a guerra”. A passagem do meu irmão na Guiné, do meu marido em Angola, e do meu cunhado em Moçambique, deixara-nos tantas marcas que vivíamos apavoradas com o futuro dos nossos filhos. Os dias iam passando e o sentimento de que algo de extraordinário tinha acontecido, no nosso país, era um facto. Até parecia que o país estava mais alegre… No dia 28 tivemos que vir a Coimbra. Estava marcado o casamento do meu primo Carlos. Estava, mas não sabíamos se tal iria acontecer! O rapaz estava a cumprir o serviço militar na Força Aérea e não o queriam dispensar. Depois de várias diligências, lá o deixaram vir casar-se,

com a condição de no dia seguinte regressar ao quartel! Peripécias! Mas nesse dia ocorreu uma cena deliciosa, muito emocionante – quase todos os convidados traziam um cravo vermelho ao peito! Aproximava-se o 1º de Maio e a nossa vontade de desfrutar cada momento era tanta que deixámos as crianças com os avós e regressámos ao Porto. Não podíamos perder pitada do que se iria passar. Um dia memorável nas nossas vidas. Não havia nenhum estabelecimento comercial aberto na baixa do Porto e o povo invadia todas as ruas, cantando com uma alegria contagiante. Sucederam-se tempos conturbados, As mudanças foram muitas, aos vários níveis. Foise preparando uma nova fase, as eleições para a Assembleia Constituinte. Para quem nunca tinha votado na vida, porque tal direito lhe era vedado enquanto mulher, foi um marco deveras importante. No dia das eleições não tinha a quem deixar as crianças. O meu marido estava numa mesa de voto e lá fui eu, toda orgulhosa, com um filho em cada mão e com o terceiro, já bem visível, na barriga. Albertina Costa (Associada nº 1659)

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abril

25 de abril, este doce conflito!...

Foi um dia às cinco e tal Tu não acreditavas, amor, mas era verdade: Quando te dei a bela novidade Que de novo vinha aí a liberdade!

Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura...

Vinha lenta a madrugada Tu não acreditavas, amor, mas era verdade: Quando, entre soluços, eu ria Ao dizer-te que vinha aí um novo dia! Quando a manhã despontou Tu não acreditavas amor, mas era verdade: Eu, entre palavras nervosas, Te dizia que em Portugal floriam rosas! Já a meio da manhã Ainda não acreditavas, amor, nessa verdade: Que Portugal ia ter nacionalidade, Dando a outros povos a sua liberdade! Era meio-dia já E não acreditavas, amor, mas era verdade: As trompetes tocavam hinos de alegria Pois em Portugal nascia um novo dia! Eram então cinco da tarde E começavas a acreditar, amor, nessa verdade: Tínhamos agora um país imortal Que se chamava finalmente Portugal! Era já noite cerrada E acreditavas, amor, nessa doce verdade. E, entre sorrisos mil, vivemos juntos Abril.

Alexandra Cordeiro, 26 de Abril de 1974 (Associada nº 4503)

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Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, Poema VII

40 anos!... É uma serena e profunda alegria, é uma espécie de orgulho, por tanto ter vivido e por tanto ter realizado. No entanto, é também essa vaga e permanente insatisfação por tão pouco que aquele “tanto” me parece agora. É difícil não usar lugares-comuns quando se fala de Abril, é difícil ser original nas palavras, mas a forma como cada um e cada uma de nós viveu e vive este país, essa é única, pessoal e intransmissível. Ter a vida adulta marcada pela “Revolução dos Cravos” será sempre, para mim, um privilégio... É como ter conhecido o mundo a preto e branco (cinzentos pelo meio) e, de repente, ver o céu começar a limpar-se de nuvens, colorido por um belo arco-íris! Claro que nem tudo manteve a cor, claro que algum colorido foi ilusão... Não podíamos ter sonhado agarrar o futuro e formatá-lo, para todo o sempre, a nosso gosto... Mas conquistámos o direito a sonhar e, principalmente, conseguimos alargar horizontes e romper fronteiras! Foi isso. A mim, o 25 de Abril de 1974 permitiu-me ver mais longe, fez-me ganhar “altura”, deixoume crescer na minha ambição, na minha capacidade de intervenção cívica, no meu espírito solidário, na confiança, na vontade de “mudar o mundo”, a começar pelo “mundo” mais perto de mim. É um privilégio, sim, mas é tão sentido quanto a frustração pelos combates perdidos, a revolta contra tudo e todos os que não quiseram partilhar e não quiseram para os outros aquilo que perversamente prepararam e guardaram para si... Não dá para esquecer! Abril, no entanto, fez-me nunca desistir de olhar para mais longe e, assim, deu-me esta

quase incrível resistência para, ainda hoje, e sempre!, conseguir ver que não estou sozinha, que há mãos que se dão, laços que se tecem, na busca de uma justiça e uma equidade que não podem ser palavras despidas de sentido. Nunca serão! O legado do 25 de Abril enriquece-se-nos, tanto quanto nos compromete. E nada poderia fazer reviver Abril, em cada dia e sempre, senão a espantosa certeza de que a liberdade foi semeada e as mulheres e os homens que ele fez livres prosseguirão, contra ventos e marés, o seu combate solidário por um mundo muito melhor. Sim, 40 anos é uma vida! Do tamanho da vida do meu filho!...

Ana Maria Brito Jorge (Associada n.º 129)

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o rádio bush

Este rádio tem muita história – e toda ela ligada à situação do País antes do 25 de Abril, nomeadamente à censura da informação e à sistemática desinformação da população portuguesa nessa época, a era de Salazar. O meu Pai foi nomeado pelo Governo Português para prestar serviço como médico nos serviços de saúde de Macau, então colónia portuguesa. A 2ª Grande Guerra Mundial tinha-se iniciado – e Hong-Kong, ao lado de Macau, era frequentemente bombardeada pelos japoneses. O meu Pai precisava de saber a verdade e mandou vir um rádio de Hong-Kong para ouvir a BBC ou a Rádio Austrália em onda curta. Constatou que acontecimentos importantes da vida local ou internacional eram relatados pela imprensa ou pela rádio de maneira distorcida ou falsa e frequentemente nem eram noticiados – eram os media sob controlo da censura do Governo. O meu Pai, pelo seu trabalho, ia sabendo o que se ia passando pois tinha contacto direto com a população chinesa e com os seus terríveis problemas (a fome, as epidemias, as doenças, os crimes, resultado de rixas, vinganças, retaliações contra militares japoneses, etc.) que o clima de guerra propiciava. Uma das suas tarefas era recolher das ruas os mortos que diariamente nelas se encontravam e tentar recuperar as pessoas com vida. O meu Pai contou-me isto, muitos anos mais tarde, porque nessa altura eu era um bebé. Foi assim que ele aprendeu a desconfiar da informação oficial de Salazar. Numa outra comissão de serviço, em Goa, na “Índia Portuguesa”, em que a ameaça constante de bloqueio económico, em que ocorria a invasão do território pelos pacifistas (resistência sem luta física, segundo Gandi), os “satyagrahis ” – que pediam a libertação da colónia portuguesa –, constatou, ouvindo o nosso rádio Bush, que as notícias dos jornais e das rádios de Goa procediam de “fontes” como as de Macau: as notícias ou eram nulas acerca desses acontecimentos ou eram distorcidas, apesar de se estar numa situação aguda de

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as casas de colmo

pré-guerra que, alguns anos depois, se veio a concretizar. Em Portugal continental, como era de esperar, o rádio Bush permitiu descobrir a fome, a iliteracia, o subdesenvolvimento que Portugal sofria, pela voz dos noticiários e dos comentadores da BBC. Audição sempre na calada da noite, num quarto fechado, longe dos possíveis ouvidos dos vizinhos não fosse a PIDE saber. Também o rádio Bush foi libertado no 25 de Abril. Foi aposentado e passou a residir numa arrecadação até ser redescoberto – e todo renovado para ser oferecido como relíquia e ex-combatente pela liberdade.

Porto, 10 de Março de 2014 Edgar Ferreira (Associado nº 4324)

Um dos períodos felizes da minha infância ocorreu quando, por necessidade dos meus Pais, fui viver para a aldeia com o meu Avô e a minha Tia. Fui então matriculado na escola primária da Vila. Após a escola e depois de fazer os deveres de casa, jogava a bola e corria em cavalgadas infantis por aqui e por ali à volta de casa, mais ou menos livremente, conforme os impulsos do grupo a que pertencia. Nesse grupo, estavam os filhos de dois casais que viviam em duas casas de colmo, ao lado da casa do meu Avô, e alinhavam comigo nas brincadeiras, quando não tinham que fazer recados e trabalhos. As casas deles, como disse, eram cobertas com colmo; construídas em madeira, estavam entaladas entre a estrada e um ribeiro que corria por detrás delas, sobrando pouco espaço para uma horta. O interior era escuro, do fumo que nelas se acumulava, produzido pela cozinha e simultaneamente lareira. Poucas vezes conseguia entrar no interior das casas destes meus amigos, tal o confrangimento que sentia. Apesar dos meus poucos anos de idade, sabia que naquela época (após a guerra, em 1946) havia muita fome e que aquelas famílias eram das mais atingidas. O meu Avô continuava a seguir a tradição da minha Avó, após ela falecer: continuava a dar uma “sopa” e algum dinheiro, duas vezes por semana, a quem viesse a sua casa. Assim passei dois anos na aldeia, até regressar ao “mundo” com os meus Pais. Mais tarde, com mais idade, mais esclarecimento, apercebi-me da dureza da vida dos portugueses naquele tempo: vida de sobrevivência, ausência de empregos, ausência de “contratos de trabalho”, habitação sem condições, famílias numerosas, com muitas bocas para serem sustentadas e pouca comida disponível. As carências, a iliteracia, a ausência de informação do que se passava e a permanente propaganda do governo de Salazar, juntamente com a repressão aos que se manifestavam, sempre apodados de “comunistas”, possibilitava um ambiente de paz podre no país. A paz era

baseada na ignorância da realidade. Não era possível uma vida melhor para os portugueses porque Portugal era um país pobre – assim nos diziam. A minha família, considerada rica nessa época, teve de se desmembrar, por razões económicas. Os meus Avós enviaram dois dos seus seis filhos para o Brasil, onde já tinham um Tio que se encarregaria deles. Mais tarde, seguiu um outro filho. Não tinham capacidade para pôr todos os filhos a estudar e dar-lhes um curso. Assim era Portugal até ao 25 de Abril de 1974.

Porto, 10 de Março de 2014 Edgar Ferreira (Associado nº 4324)

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o 25 de abril de 1974 e o “bom dia doutores” Manhã de 25 de Abril de 1974 e cidade de Tete, no norte de Moçambique. Juntamente com três ou quatro colegas, todos jovens médicos com um “traço dourado” nos ombros, correspondente ao posto de alferes (miliciano, acrescento como necessário), tomávamos café na pequena esplanada da messe de oficiais. Os colegas, do hospital militar local, e eu, “desenfiado” através duma consulta que arranjei para justificar a vinda à cidade de chão de terra e nuvem de pó constante. Esta a cena inicial. A seguinte vem com o aproximar do comandante da ZOT (Zona Operacional de Tete) que, ao levantar apressado de todos nós, já com as mãos direitas a caminho da testa para a continência regulamentar, somos surpreendidos por um sonoro: bom dia doutores, deixem-se estar sentados! Ficámos “varados”!... Alto lá, “aqui há gato” – diziam os nossos olhos, antes mesmo de as palavras aflorarem aos lábios. Tanta “democracia” e “igualdade de trato” davam para desconfiar! A instituição castrense era fortemente hierarquizada – às vezes, diga-se, duma forma algo “despótica”, mormente para o nosso entendimento de universitários. Tudo isto num tempo político opaco e sem liberdade. Mas… Havia mesmo novidade: era o 25 de ABRIL da liberdade! Ou melhor, pensávamos nós que era. Isto porque a descolonização não foi imediata e o tempo que se seguiu, até Setembro, foi talvez o mais difícil que vivi em todo o de cumprimento de serviço militar obrigatório. No continente (Portugal, com mais propriedade), o ambiente era tumultuoso e confuso. Eu assinava o EXPRESSO e, já antes do “25”, tinha lá chegado o suplemento (escapou à censura) com excertos do Portugal e o Futuro de A. Spínola (que me faria rico se o alugasse para ser lido…). Ouvi, durante uma noite, os rebentamentos que destruíram a linha férrea (guardada por dois batalhões…) num espaço de seis quilómetros – e todos nos perguntávamos: que estamos a fazer aqui? Ainda me deu tempo de vir a Portugal conhecer o filho que entretanto tinha nascido (e cujas irmãs, gémeas, não

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chave mestra

consegui distinguir e… fugiram de mim no aeroporto…maldito regime salazarista!) e ainda regressei para mais uns meses em Nampula até, finalmente, regressar à minha vida e aos meus. E interagir com o meu rapaz que… chorou quando me viu (f… da p… dos Salazar e Caetano!). Regressei a um Portugal em mudança, inicialmente difícil e posteriormente estabilizada social e politicamente. E o desenvolvimento, e a democratização social, e a carreira médica, e o SNS e a “pérola” em que se tornou e mais e mais… E veio a Europa e nós nela (pensávamos…)… e menos e menos… E veio então este país em que estamos, aparentemente com as mesmas liberdades formais, num continente que se chama de “União” mas que dela tem muito pouco. E vieram as desigualdades cada vez mais acentuadas, e o esbulho dos pensionistas e dos trabalhadores, e veio a emigração dos jovens e veio a baixa de natalidade e as crianças filhas únicas. E veio a reforma. E está para vir pior, se deixarmos os “senhoritos” chegarem ao escopo que os norteia. É o que precisamos de impedir. E vamos impedi-lo. Na APRE! e na acção ou na palavra ou seja lá como for, individualmente e então… Bom dia, doutores! Bom dia, concidadãos!

a caminho estátuas que parecemos mas de engano; pele de medo, submissão, roupa de desalento, resignação; engano de lava por dentro revolta de fúrias em ebulição a caminho que filhos que não crescem no ventre não nascem; que condição de escravo deporta e é tempo à vida roubado; que a humilhação contida, explorada, é a voragem da revolta calada a caminho um pé adiante do outro, depois o outro, sempre em frente comigo (acompanho-te), vou contigo. Anda! Apressa-te!, que há pressa no tempo que falta no caminho

(Março 2014) Francisco Zuzarte (Associado nº 517)

Porto, 12/3/2014 Fernando Cardoso Rodrigues (Associado nº 172)

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a propósito de um tempo que julguei ter esquecido Surgiu então, um espaço-tempo na Indochina, na Jugoslávia, em Timor, no Afeganistão, na Líbia … e “ali”, há dias… Surgiu hoje o escrito adiado. Adiado porque o “pó” das recordações ainda hoje incomoda e, quando o sinto ou me toca, continua doloroso e interior. Chegam aqui e agora, esvoaçando, os fantasmas que só teimam aparecer em tempo de Natal, de aniversário ou de angústia. Aconteceu hoje porque quis lembrar algo que fez extravasar a taça da recordação contida. Foram tempos de saudade em que a dor da partida se confundia com o abraço da chegada. O momento em que o medo se dissolve no júbilo do seu “terminus”. Recordo hoje, longínquo, o espaço, o tempo e sobretudo a saudade dos outros. Lembro os dias que lentamente passavam e que se subtraíam aos que ainda haviam de vir, temperados pelo sal da angústia, num “mato” de frustrações. Recordo ainda a altura em que construía catedrais de sonhos com o cimento da esperança e da Fé. Lembro os que riam para disfarçar o medo, ou os que sorriam por se sentirem intocáveis. CHORO aqueles que, hoje, já não podem testemunhar que nasceu ali, em “Cantina Oliveira”, local perdido na imensidão Moçambicana, a certeza de que, de tudo o que viesse acontecer, nada seria pior! Agora e aqui, gozo o deslizar do aparo, embalado pelos cânticos do prazer mórbido da recordação, tecendo, em fiapos de dor contida, a lembrança de um tempo nulo de realizações pessoais, prenhe de incontáveis momentos. Recordo o barulho do silêncio que só se ouve na mata, a alegria da chegada do correio, os aerogramas que não vinham, o familiar que se finou… a mulher que entretanto deixou de ter paciência de me esperar. Já não ouço os sons de guerra que interromperam, por segundos, o piar das aves ou a “música” da savana tocada pelo vento. Entretanto, ainda na guerra, Abril floriu e, com ele, os ventos de mudança e de liberdade beberam-se. Foi o momento de maior felicidade que até hoje senti!

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heróis de abril em noite de trevas Hoje, o esquecimento ou a ignorância, a injustiça e a falta de consideração dos que nos governam, encaminha-nos perigosamente para um “ontem”, que julguei não mais ser possível. Lamento o tempo que perdi, gozo hoje e agora, com todos VÓS, o tempo de PAZ que ajudei a construir.

Francisco Pelejão Camejo (Associado nº 2186)

Na segunda Primavera da Liberdade, o Regimento da Pontinha instalara-se na cidade bicentenária cujos termos beijam a pequena cordilheira, muralha protectora que, a norte, marca a fronteira com outros domínios. Vinha com uma centena de militares, com as máquinas pesadas de engenharia e as cartas de meia dúzia de estradas rurais para reconstruir. Naquele Maio de 1975 já manobravam na reparação da estrada municipal 550, a oito quilómetros do aquartelamento. Era sábado e ao meio-dia terminavam os trabalhos, para se seguir o almoço, preparado na velha cozinha da casa da fonte, mandada construir muitos anos antes pelo Sr. Antoninho. Os jovens militares regressariam ao quartel improvisado na Trincheira da velha cidade, preparando-se para um curto fim-de-semana junto das famílias. Três deles, solteiros, decidiram ficar. Nesse dia havia baile na aldeia atravessada pela estrada em obras. A noite prometia diversão. Haveria pagamento do vinho, tradição antiga que obrigava o noivo com casamento marcado a oferecer as bebidas – e que Abril não revogara. Noite dentro, rapazes e raparigas foram dançando e bebendo no amplo salão da Casa do Povo, sempre ao som do acordeão do Lameirinhas. Alguns da aldeia, quais sentinelas desconfiadas e prenhes de preconceitos, observavam os movimentos dos forasteiros. O vinho e a cerveja iam galgando os limites. Uns e outros abraçavam as moças, forçando apertos mais atrevidos. As antigas regras e a ideologia mais rasteira iam alimentando a fervura de algumas cabeças. Os três militares não se aperceberam de que estavam rodeados de inimigos. Dançavam, bebiam e iam sendo correspondidos pelas suas convidadas. Gestos insuspeitos noutras ocasiões, ali tornavam-se ameaças. Trocavam-se sinais entre alguns que já não atendiam à chamada do acordeonista. António, neto do Sr. Antoninho, estava atento. Abeirou-se discretamente de um dos militares, avisando-o do perigo e sugerindo saída imediata. O soldado, incapaz de perceber que havia ali vontades de ajustar contas com Abril, dirigiu-se ao banco das raparigas e logo

uma, cruzando-se com o seu olhar, se levantou para o abraçar. Ia alta a noite e a diversão. Os corpos uniam-se cada vez mais, conduzidos pela música e pelo desejo. Os dois, seduzidos, já não se largavam. Cá fora preparava-se a sentença. O jovem que avisara o soldado tinha regressado a casa, insatisfeito e preocupado. Acorda já de madrugada com alguém a bater à porta. - Vem comigo, rapidamente, diz-lhe o Zé Diogo, acompanhado de dois dos soldados que tinham conseguido fugir e vinham pedir apoio para o seu companheiro. - Onde está o terceiro? – perguntou António? - Na emboscada que lhe fizeram à saída para o Tavano – respondeu Zé Diogo. - Os soldados ficam aqui dentro de casa bem quietos. Vamos só os dois. Ao chegarem, viram o pobre soldado envolvido em sangue, estendido na estrada junto a um carro de bois que servira de barricada com os estadulhos, de pontas bem afiadas, estendidos por cima do corpo da vítima. Nenhuma dessas pontas tinha perfurado o corpo. Era o sinal de que não tinham querido matá-lo. Pegaram nele, encaixaram-no nos seus ombros e trouxeramno para junto dos companheiros, fazendolhe os primeiros curativos. Ainda de noite, protectores e vítimas entraram no automóvel de António para conduzirem o ferido ao Hospital. Não se sabe o que foi relatado aos companheiros de armas mas sabemos que nem Abril se manchou com qualquer acto de vingança, que poderia atingir inocentes, nem os facínoras reacionários da aldeia exerceram qualquer represália sobre António e Zé Diogo.

José Monteiro, Coimbra (Associado nº 5)

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saudades do 25 de abril de 74!

25 de abril de 1974

Passaram 40 anos, Zé! E onde estavas tu no 25 de Abril?– a tal pergunta requentada e requintada do Baptista Bastos! Tinhas 21 anos, estavas a caminho dos 22. E recordas aquele dia tal como se fosse hoje! Na Coimbra estudantil, mandava a tradição fazer noitadas de estudo! E tu assim fizeste porque no dia 24 havia frequência, aquele ritual de prestar contas aos professores para lhes mostrar que a matéria tinha sido marrada e empinada. Acordaste tarde! Pudera! Mas achaste estranho, quando ligaste a relíquia do rádio de pilhas, que a Emissora Nacional estivesse a transmitir um tipo de música pouco habitual. E o mesmo pensaram os teus amigos e colegas! Havia qualquer coisa! Algo andava no ar e as opiniões dividiam-se! Os que se julgavam mais informados diziam não ter dúvidas! Juravam e apostavam que tinha havido um golpe de estado e que este seria provavelmente a vingança da falhada revolta das Caldas da Rainha, que ocorrera a 16 de Março. Outros, mais desconfiados, juravam a pés juntos que infelizmente a coisa podia ser outra e que provavelmente era golpe de estado, mas comandado pela direita, por um tal Kaúlza de Arriaga que não gostava nada dessas modernices da rapaziada do MFA que queria a democracia! Na tal frequência ninguém mais pensou! A malta não quis mais saber de aulas para nada! Aos poucos, palpite daqui, palpite dali, a coisa começava a ser mais clara! E cedo a estudantada concluiu que o golpe militar queria o fim do regime fascista e da longa noite de 48 anos! Timidamente começaram os vivas e os abraços! E também a alegria resultante do possível fim de Guerra Colonial onde tantos dos nossos amigos estavam ou já tinha estado e até morrido! E será que teríamos também o fim dessa tenebrosa PIDE que a todos nos vigiava e catalogava? Politicamente suspeito! Frequenta os meios operários! Participa em reuniões ligadas a sectores católicos progressistas! No dia seguinte, seguros de que o golpe era da esquerda, já a Junta de Salvação Nacional tinha falado ao País, muitos de nós fomos até à

A madrugada em que se abriram as janelas da democracia e da liberdade para Portugal, pondo termo a 48 anos de ditadura e rasgando horizontes novos para o seu povo.

militares e tão pouco as figuras gradas do regime e a sua polícia política (DGS), com apertada cooperação com as forças armadas, tanto nas frentes de combate, como na retaguarda.

Um conjunto de oficiais do quadro permanente das Forças Armadas, maioritariamente constituído por tenentes e capitães, contando com a solidariedade e apoio da numerosa tropa miliciana e de alguns altos quadros militares, decidiu colocar um ponto final na guerra colonial, tornada inglória pelos ventos da história, pela perda sistemática e injusta de inúmeras vidas na flor da juventude, pelo esbanjar de recursos diversos que ao desenvolvimento do país tanta falta faziam, pela vontade indómita dos povos colonizados em se libertarem dos seus amos seculares e pela pressão política internacional ditada à época através a luta hegemónica de influências no continente Africano, protagonizada pelos três grandes blocos: EUA e Europa – as designadas democracias ocidentais; a União Soviética – bloco comunista e a China – paradigma das ‘virtudes’ maoistas ‘libertadoras’ dos povos oprimidos. Todos eles ajudaram à criação e/ou apoiaram em termos logísticos e financeiros os diversos movimentos de libertação.

Teve o claro apoio da comunidade internacional e não terá sido por acaso que parte da 6ª esquadra Americana estava, nesse dia, fundeada no rio Tejo.. Não interveio, como sabemos e, isso, por si só, terá significado muito. (Ao largo da costa estavam, também, forças navais da Espanha e da URSS).

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Rua Antero de Quental. Era lá, como a maioria sabia, a sede da PIDE. E era preciso atacá-los no covil! Gritar-lhes que acabara o fascismo e que Portugal era livre! E perante aquele carrito da corporação… ali mesmo à nossa frente… a turba não resistiu! Queime-se! Fascistas! Fascistas! A Pide salta! A Pide grita! Ora vai-te embora ó Pide maldita! Veio depois Maio. “Maduro Maio”, como cantava Zeca. Coimbra inteira saiu à rua e em uníssono gritou: o povo unido jamais será vencido. E o povo foi capaz, de viva voz, de dizer que estava com o MFA, gritando, da Praça Da República ao Estádio Universitário, a esperança num país novo, mais justo, solidário, fraterno, democrático e livre. Desejos gritados! Que são ainda actuais neste Portugal presente, onde uma geração, hoje grisalha, que fez a revolução dos cravos, se sente cada vez mais castigada, espoliada dos seus direitos e com grandes saudades desse tempo libertador! Mas novo tempo virá porque temos saudades do futuro!

J. Vieira Lourenço (Associado nº 6), Coimbra, 2014

O Movimento dos Capitães percebeu que somente derrubando o regime político vigente conseguiria alcançar esse objectivo, dadas a inflexibilidade e a intransigência por demais evidenciadas por este último, perante alternativas pragmáticas avançadas como tentativas de preservação do regime político e apaziguamento da sua contestação, nomeadamente as teses de autodeterminação defendidas (e passadas a livro) pelo general Spínola. O 25 de Abril surpreendeu a maioria do povo Português, mas não surpreendeu aqueles que seguiam com a devida atenção os acontecimentos que o precederam, como não surpreendeu os que engrossavam as fileiras

Também não por acaso, na noite de 25 de Abril, quem se dirigiu ao povo Português foi uma junta militar, constituída, exclusivamente, por oficiais generais das forças armadas (alguns deles proeminentes figuras defensoras do regime deposto), liderados pelo general Spínola. Chegados aqui, importa realçar que o 25 de Abril não foi o corolário duma revolução do povo. Foi uma dádiva ao povo, independentemente das díspares motivações daqueles que, em boa hora, decidiram acabar com a ditadura de inspiração fascista. O PREC que se lhe seguiu veio evidenciar as inúmeras diferenças ideológicas, traduzidas nas lutas pela captura do poder, e essa clivagem ganhou expressão mais definitiva e visível aquando da constituição e legalização dos partidos políticos e das duas centrais sindicais. Ao longo destes 40 anos de vivência democrática, houve um só momento de união: o 1º de Maio de 1974.

28 de Fevereiro de 2014 José Correia (Associado nº 2613)

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missão 25 de abril 74: dar um novo portugal a portugal e restituir ao mundo os novos mundos de antanho - cumprida! Ainda vivo todo aquele tempo de um modo tão à flor da pele, da alma e do coração, como se nunca aqueles dias tivessem acabado, e outros tivessem começado, porém, a realidade de hoje traz-nos despertos para a tragédia em que o glorioso e único 25 de Abril 74, por erros nossos, mas , sobretudo, pela esquizofrenia e maldade profunda de seres menores que nos têm espoliado a nível interno e externo, nos trouxe.

exército que preferiríamos tombar, morrer no campo da honra, do que acompanhar o governo nas suas aventuras execráveis, no que dizia respeito à criação de um exército anormal com a promoção inadequada de oficiais milicianos, pondo em causa o Exército, aqueles oficiais, e criando um conflito desagregador das Forças Armadas, com esta mera manobra suicidaria, para continuar uma guerra perdida.

Em 25 de Abril 74, sou um tenente do exército, com 25 anos de idade e 4 anos de oficial que já tinha ido à guerra, onde, descobri que Angola não fazia parte da nossa Mátria: línguas diferentes, não nos entendíamos; miséria semelhante à da Idade Média, logo nenhuma coesão social e uma injustiça racial inaceitável, pura e simplesmente; além do completo desprezo pela vida e bem -estar dos filhos do povo português; ao que se somam e multiplicam os erros militares, muitos. Vivi/ vivemos, em tempo real, uma tragédia.

De facto foi a natureza da guerra: imoral e intolerável, que provocou o Movimento dos Capitães e não qualquer desvalorização do heroísmo e da nobreza dos nossos camaradas milicianos. Recusamos e, bem, em nome de Portugal, aquela manobra politica por ser no concreto antipatriota, atentar contra os jovens portugueses e africanos e os seus pais, numa palavra ameaçar a Mátria, como tão bem, Natália Correia, definiu a Pátria.

Esta tragédia irrompeu em muitos e, em mim, com igual força, o grito da revolta. É, assim, que em Novembro 72, da Damba/Angola, escrevo um aerograma (as cartas militares) a um meu camarada, o Custódio Pereira, a dizerlhe que no regresso à metrópole, ao, então, chamado pute, devíamos erguer a nossa voz contra toda a miserável situação em que vivíamos. No mesmo sentido registo no meu diário de guerra ( tenho-o)a notícia da morte de um meu camarada, considerando todos estes sacrifícios absolutamente inúteis numa guerra injusta, e, já, inexoravelmente, perdida. Com esta determinação inquebrantável regresso, em 1973, que é quando se inicia o movimento dos capitães, ponho-me ao lado dos que estão na primeira linha. Fico deslumbrado com as lições de coragem dos capitães na Escola Prática de Artilharia, Vendas Novas, eles são lideres muito respeitados, tinham duas ou três comissões em África. De entre todos destaco o capitão Domingos que, numa sala cheia de oficiais, declara ao secretário de estado do

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Depois deste grito soaram os clarins da Revolta e da Revolução, e naquele recanto Alentejano, na Escola Prática de Artilharia, EPA, aconteceram tantos feitos ignorados, de encanto, coragem e valor inexcedíveis, e, sempre, esquecidos- sina de quem é honrado, digno e nobre - mas, aqui, na EPA, pensouse em 4 de Dezembro 1973, no dia de santa Barbara e da unidade, prender os dignitários do Exército que nos visitavam naquela data, e um deles era o ministro do Exército que numa tentativa de nos comprar anunciou pseudoregalias; também se pensou fazer a comuna de Vendas Novas, segundo o Capitão Cardoso; ou bombardeamentos de objectivos estratégicos, como a siderurgia nacional, segundo um outro meu camarada. Tudo ali era um fervilhar revolucionário inacreditável, inimaginável, estávamos ao nível dos exércitos convencionais no domínio do fantástico, exactamente fantástico, sublinho. Mas tudo vai tomando forma e com a reunião no Monte do Sobral/Alcaçovas, em 9 de Setembro 73, com discurso de Vasco Lourenço, os presentes dão um grande passo

em frente, pessoalmente, quero ser dos primeiros a assinar os termos da declaração de guerra, assino-a em 9ª ou 10ª lugar- é a minha afirmação irreversível e até às ultimas consequências, ou seja, a perda da vida ou da liberdade, como claramente sabíamos, com aquele compromisso. Nada nos foi dado, ou foi fácil: tudo foi luta, coragem, patriotismo. Depois desta reunião é assumido claramente que o sistema politico fascista, como o era pela sua natureza intrínseca e extrínseca tinha de ser derrubado militarmente, para dar lugar a um regime democrático, pensado pela maioria de nós, como social-democrata (para mim o modelo era o sueco que conhecia por ser madeirense, sendo que a Madeira era um destino turístico das jovens livres da Suécia), e, para este efeito, o derrube militar do governo, as unidades mais fortes passaram a reunir-se na casa do Salgueiro Maia. Tudo vai avançando: em Janeiro 1974, Fabião (um grande militar de Portugal e da Revolução) denuncia a tentativa de golpe estado de Kaúlza de Arriaga com a PIDE; em Fevereiro sai o livro de Spínola- Portugal e o Futuro, com um pensamento e uma directiva muito importantes; depois vem o 16 de Março 1974, que não é ensaio nenhum, é mesmo a tentativa de fazer as coisas sem o povo, à moda dos golpes de estado tradicionais, Otelo com outros está metido nesta aventura golpista, e ia arrastando a Escola Pratica de Artilharia para este beco. Esta aventura trágica, no entanto, e depois, permitiu acelerar a marcha das coisas, o que, foi o seu lado bom. Estivemos sobre rodas, mas não saímos, como outros, e, deste modo, salvamos Abril. Finalmente vem a madrugada do dia inteiro. que começa na noite de 24 de Abril 74. Nesta noite, se traça a linha da coragem, do patriotismo e da glória entre os que cumpriram e os outros, mas também entre os que não hesitaram um segundo e os outros, e desta 2º linha, calculista, não se fala, mas existiu.

Sem nenhuma hesitação sob o meu comando, à hora exacta, às 22h e 55’ da noite de 24 de Abril e com a senha para iniciar a acção, ou seja, a canção de Paulo de Carvalho -”E Depois do Adeus”, nós, como o video histórico - a hora da liberdade, (SIC https://www.youtube.com/ watch?v=3VYBgrjSA1k ) revela, como que impulsionados por uma mola, assaltamos o gabinete do comandante, entretanto, atraído para uma reunião e o detivemos, e, assim, a Escola Prática de Artilharia é a primeira unidade da Revolução: uma unidade poderosa, superiormente armada e motivada. Éramos de facto uma grande bandeira da revolução e de Força militar. Esta acção foi tremenda e difícil até porque, em cima da hora, tive de substituir um camarada que se ausentou, por um outro com um perfil militar completamente diferente, decisão que é sempre de um risco maior. Tomei-a, e tudo correu bem, mas o risco existiu, Pelas 3h 00’ 00’’, saímos de Vendas Novas rumo ao Pragal, parecia que íamos a caminho de Marte, numa noite escura, gelada, silenciosa. Pensávamos em tudo: na derrota e na vitória, nas vidas dos nossos soldados e nas nossas famílias. O frio apertava e o silêncio também: estávamos entregues à nossa sorte, nada sabíamos de ninguém: o que tinham feito os outros? Este desconhecimento era angustiante, bem como a dúvida sobre qual seria a resposta do governo, o que, alguns temiam, e, por isso, foram afastados do comando de tropas, muito embora, agora, delirantemente, reescrevam a história de acordo com a sua falta de nobreza, como acontece na obra que evoca os 150 anos da Escola Prática de Artilharia. Nesta um capitão de então, medroso, conta uma história em que se coloca a si como protagonista destes acontecimentos, contudo, só secundariamente participou. A noite e o avançar da coluna militar, uns 250 homens com 6 obuses (canhões) e uma companhia de infantaria, 150 soldados,

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para o Cristo-Rei, correm vagarosamente, muito vagarosamente, mas entre as 4 e as 5 da manhã com o 1º Comunicado do MFA a noite torna-se mais clara, a alma e o coração iluminam-se, e, por volta, das 8 chegamos ao Pragal, estranhamente ninguém nos liga nenhuma, nem policias; nem jornalistas, estes, até parece que, então, não existiam e nem sequer a população, facto surpreendente naquele contexto. Durante bastantes horas, no dia 25 de Abril, estivemos sós, sozinhos.

fomos ameaçados por camaradas de cavalaria 7. Pessoalmente fui por um camarada do meu curso e, aí, fiz algum bluf, alegando termos atrás de nós forças que estavam em posição, sim, mas no Cristo-rei. Houve erros tácticos graves, mas... tudo correu bem.

Depois raia o Sol, e traz um risco enorme e temido, o de sermos metralhados por aviões, apesar da garantida neutralidade, mas... Não somos e seguem-se as missões: deter a todo o custo os fuzileiros navais, que, entretanto, aderem ao MFA, ainda bem - não há tiros; bombardear a fragata Gago Coutinho e por ela ser bombardeada, se fizessem tiro contra as Forças do Salgueiro Maia, em manobras no Terreiro do Paço ( depois rebaptizado pelo do Povo), porém, os nossos camaradas do MFA da Marinha , o comandante Caldeira Santos, entre outros, resolvem a questão a bordo do navio, não há tiros, nem sangue.... vitória, ainda bem!..

Tudo isto revela quanto esforço, quantos riscos, quanta determinação e coragem houve espalhados por todo este Abril e, desgraçadamente, por preguiça de jornalistas, historiadores, políticos vaidosos e dos militares que fizeram o 25 de Novembro 75 todas estas gloriosas páginas da história estão no index, porquê?

Todavia, estes riscos e perigos existiram e, nomeadamente, os fuzileiros tentaram, através de negociações, afastarem-nos da posição do Cristo-Rei, perante a nossa firmeza desistiram. Outra missão foi libertarmos na Trafaria os nossos camaradas presos do 16 de Março, foi uma missão de risco que cumprimos, colocando em liberdade os então: tenentecoronel Almeida Bruno, Majores Monge e Casanova Ferreira e o capitão Varela, entre outros, contudo, parece que nunca souberam quem os libertou, ou sequer se interessaram em saber... coisas... Na Trafaria também detivemos todos os elementos da Guarda Nacional Republicana. Ainda nos deslocamos à calçada da Ajuda para exigir a rendição da Polícia do Exército, missão que cumprimos sem uso da força, mas aqui

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Queríamos ir à António Maria Cardoso, à sede da PIDE, a ionização da atmosfera, o inimigo nº1 dos rádios militares - racal, não permitiu obtermos as autorizações, e, por ali, ficamos.

Resta referir que nesta jornada poucos de nós fomos tocados pelo sentir e alma do povo, mas alguns foram, para estes não foi indiferente que o povo plebeu tenha vindo para as ruas. Não foi indiferente que o povo do Pragal nos tenha alimentado nos dias 25, 26 e 27 de Abril. Não foi indiferente que nos tenham vitoriado do Pragal a Vendas Novas. E a diferença entre os que sentiram o pulsar do povo e os outros está no facto de que muitos foram só até ao golpe de estado, e outros, poucos, com o povo iniciaram a revolução pejada de actos tremendos, de valor imenso, e que vai ser morta no 25 de Novembro 75, depois das tentativas falhadas da maioria silenciosa, do 7 de Março 75 em Setúbal e do 11 de Março 75.

MISSÃO 25 ABRIL 74: DAR UM NOVO PORTUGAL A PORTUGAL E RESTITUIR AO MUNDO OS NOVOS MUNDOS DE ANTANHO. Honramos Portugal e os portugueses, muitos nos esqueceram, porque se esquecem de Portugal e da dignidade humana, mas alguns têm memória, como o Luís que me desafiou para mais esta aventurosa aventura, e, são os que vivem Portugal, a Humanidade e o Cosmos que contam: BEM-HAJAM! O resto é vitupério, triste lodo. VIVAM OS PORTUGUESES! VIVA A DEMOCRACIA DEMOCRÁTICA! VIVA PORTUGAL SOBERANO E INDEPENDENTE!

João Andrade da Silva (Associado nº 620)

Finalmente e, tragicamente, venceram a Revolução do 25 de Abril os terroristas do ELP, com o apoio do 25 de Novembro 75, mas isto, é a tragédia que se seguiu a esta gloriosa missão do 25 de Abril 74 que nos honra e enche de orgulho. Por Portugal, os portugueses, os africanos, a Humanidade cumprimos a grandiosa missão:

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25 de abril - 40 anos de democracia

Apesar de os primeiros anos da democracia Portuguesa terem sido marcados por grandes tensões, instabilidade política e extremismos ideológicos, a normalidade surgiu com as primeiras eleições verdadeiramente democráticas e livres. Ao longo dos 40 anos do regime democrático, o país foi-se transfigurando, tendo deixado de ser uma sociedade pouco instruída e informada, maioritariamente pobre, de emigrantes não qualificados e assente no paradigma dos três ‘F’ (Fátima, futebol e fado), para se ir transformando numa sociedade mais moderna, próspera, culta e solidária; em suma, mais desenvolvida. O povo Português soube corresponder ao aliciante desafio de reconstruir um país, em paz e liberdade, integrando-o no conjunto das democracias europeias mais desenvolvidas.

governantes não ponderaram devidamente, nem ousaram submeter à discussão pública e a escrutínio: - a adesão à moeda única, o défice orçamental zero, a destruição do sector primário da economia (agricultura e pescas) e a debilitação do sector secundário (indústria), a troco de fundos canalizados pela EU, de modo a defender as economias mais poderosas no seu seio (Alemanha e França).

Porém, do ponto de vista político, a intervenção da generalidade dos cidadãos tem-se circunscrito ao mero exercício do direito de voto, delegando nos agentes políticos eleitos (governantes, deputados, autarcas), todo o poder e responsabilidades de decisão, de modo acrítico e nada interventivo, com consequências nefastas para o país, cujos efeitos todos estamos sentindo. Também os dois partidos políticos que têm alternado a governação (PS e PSD), fundados por respeitáveis cidadãos, políticos impolutos e intelectuais de elevada craveira, foramse progressivamente transformando em incubadoras de jovens carreiristas da política, impreparados, enquanto acolhiam, sem qualquer triagem visível de qualidade, carisma ou ética, gente medíocre – e, não raro, mais interessada em usar as carreiras políticas como trampolins para mais altos voos e negócios do que no exercício do serviço público, em consonância com os interesses da comunidade e sem dolo para o erário público.

Assim, sub-repticiamente, Portugal foi transformado num país sem economia sustentável, subsídio-dependente e escorado na prestação de serviços. Paralelamente, processou-se a delapidação continuada do erário público, através de contratações ruinosas praticadas pelos poderes central e local (PPPs, adjudicações directas sem concursos públicos, credit default swaps, aquisições de equipamentos e materiais cuja utilidade ou utilização ainda estão por justificar), cedência de mais-valias ao sector privado – alterações aos PDM, injecções de capital no sistema financeiro para salvar bancos geridos por criminosos (BPN e BPP), ou para lhes mudar a estrutura accionista, através de financiamentos a descoberto (Joe Berardo e João Rendeiro), e desse modo viabilizar a entrada de amigos e de comissários políticos nas respectivas administrações (caso do BCP). Promoveu-se, também, a redução sistemática de receitas públicas via privatizações das empresas públicas não compensadas por política fiscal adequada sobre as mais-valias geradas pelos capitais privados. A conjugação destes processos, praticados ao longo de mais de uma década, foi fragilizando progressivamente, ano após ano, a capacidade do OGE para suportar as despesas indispensáveis, gerando sistematicamente défices anuais, cada vez mais acentuados e a obrigarem ao recurso a crédito externo para se manter a sustentabilidade das contas públicas.

Aceitaram-se por boas e sem discussão pública, decisões políticas e assinaturas de tratados internacionais cujas implicações os

Deste modo, Portugal arruinou as suas contas públicas, colocando-se à mercê dos desígnios dos credores estrangeiros a que teve

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de recorrer, os quais, em tempo, souberam promover condições para colocarem no terreno agentes políticos (neoliberais) da sua confiança, visando a imposição de arrasadoras medidas de austeridade como forma de garantirem o retorno, com assinaláveis mais-valias (juros) dos capitais entretanto emprestados, ainda que com o argumento do imperativo de saneamento das contas públicas (redução do défice e da dívida) e da dívida externa. Consequência: em pouco mais de 2 anos, a economia do país foi arrasada. A pesadíssima e ilegal carga de impostos (directos e indirectos) lançados sobre a população e, com particular incidência sobre os reformados e funcionários públicos, gerou uma brutal contracção do nível de rendimento disponível e, consequentemente, na procura interna de bens e serviços, com repercussões em cadeia na actividade económica do país (perda de volume de negócio, redução de actividade laboral, encerramento de empresas, falências, despedimentos). O sector financeiro também não escapou à hecatombe: o imperativo de aquisição da dívida pública nacional, acrescido do aumento brutal do crédito mal parado (incapacidade para cumprir os pagamentos das dívidas de crédito contraído) relativo às famílias e empresas, regras mais exigentes para a concessão de crédito, rácios de solvabilidade mais exigentes, nível de exposição a activos tóxicos e abrandamento da actividade económica, conduziram a défices avultados, pondo em risco todo o sistema bancário do país.

O esbulho de que está a ser vítima a maioria da população, o número assustador de desempregados sem perspectiva de vida digna, o regresso a condições de miséria e à emigração maciça da população (agora mais jovem e qualificada), bem como a ausência de perspectiva de futuro sustentável, configuram o perigo real da desagregação dum país quase milenário, dos mais antigos da Europa. 40 anos volvidos, estamos a regressar a….1973. Mas agora não haverá quem nos ofereça, de novo, a dignidade e o caminho para a felicidade. Desta vez, teremos que ser nós, cidadãos, a fazer novo 25 DE ABRIL, mudando de políticos e exigindo mudança de políticas (no país e na UE), única forma de tentarmos salvar o nosso país e de o recolocarmos no mapa das democracias desenvolvidas onde já figurou. Não sendo doutro modo, que seja pelo voto; não sendo em Abril, então que comece a ser em Maio próximo, nas eleições para o Parlamento Europeu.

Março 2014 José Correia (Associado nº 2613)

O PIB decresceu, como corolário da recessão provocada; o défice público tem-se mantido sempre acima dos objectivos estabelecidos para cada ano e a dívida pública disparou, tornando o seu serviço (pagamento da dívida acrescida dos juros contratados) incomportável para os níveis de desempenho da economia Portuguesa.

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clandestinidade em ditadura

naquele dia inteiro e limpo

Comemoram-se este ano 45 anos da crise académica de Coimbra. Na ditadura, foi um dos mais intensos tempos de contestação envolvendo a juventude universitária numa pequena cidade.

Colonial. Publicámos 9 Boletins Anti-Colonial. Eram distribuídos por muitos Párocos pelo País. Em 25 de Novembro de 73, os meus amigos começaram a ser presos e torturados. Falaram em mim. Tive de passar à clandestinidade.

Alguns católicos implicaram-se profundamente nos sucessivos actos cívicos, para surpresa dos colegas.

Mudava de casa regularmente. Vivia em casas habitadas apenas por um homem, da classe média alta. Era apresentado como um amigo que tinha um cansaço cerebral e precisava de descansar. Recebi a visita regular da minha namorada, com quem casei há muitos anos. Meu pai e o meu irmão mais novo visitaramme uma vez. Numa igreja do Porto, despedime de minha mãe. Conspirava com militares milicianos e estava a formar o MES.

Noite cerrada, o telefone a tocar pouco depois das quatro da manhã, alguém que me diz que a tropa está na rua, uns minutos de espera, de ouvido colado a um velho aparelho de rádio, a voz inconfundível de Joaquim Furtado: «Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de se recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma.»

Militante e dirigente da Acção Católica e da Associação Académica, passei a distribuir os cadernos GEDOC que me chegavam de Lisboa, vindos do padre Felicidade Alves e outros, e que guardava na casa do CADC onde vivia. Fui o primeiro subscritor de um abaixo-assinado de solidariedade com ele, quando o cardeal Cerejeira o suspendeu da paróquia de Belém. Chamado à DGS, fui interrogado em Lisboa pelo sinistro inspector Tinoco. Escapei de danos iminentes. A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos tinha claros objectivos humanistas. Alguns católicos a integravam. Fui seu apoiante e distribuidor dos seus comunicados. A partir de 71, passei a viajar para fora com o nome de Paulo Silva. Pelo centro e norte da Europa contactei numerosas igrejas de diversas confissões religiosas e objectivos, como o Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra. Em Estocolmo, fui roubado no hotel e tive de pedir um passaporte apenas válido para regressar. No aeroporto de Lisboa, a DGS interrogou-me. Mas eu era tarefeiro do Ministério da Educação e transportava livros dos ministérios dos países que visitara. Escapei. Aluno do Técnico, pedi pela Agência Abreu um novo passaporte. Fui chamado à DGS para ser interrogado pelo Tinoco. Queria saber o que me levava a querer viajar. Bolas para canto. Mas negaram-mo. O agravamento da guerra colonial levou-me ao grupo do Nuno Teotónio Pereira e do Luís Moita. Editámos os 7 Cadernos Contra a Guerra

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O poder ser preso seria muito mau para mim e para muitas e muitos. Há 40 anos, eu era um clandestino. Fui a salto pelo Soajo, Espanha e pedi asilo político em Genebra. Regressei em Maio de 74. [Relatos avulsos retirados do meu livro Memórias do Cidadão José Dias, edições Afrontamento, Porto, Maio 2008 – Associado da APRE! em Coimbra]

Cidadão José Dias (Associado nº 5462)

No primeiro acto de desobediência a novas autoridades, que ainda nem o eram, saí imediatamente e só regressei a casa na madrugada do dia seguinte. Fui ter com amigos, reunimos máquinas fotográficas, deambulámos de carro e a pé pela cidade – horas e horas primeiro pelas ruas da baixa, depois no Carmo até à rendição de Marcelo. Pelas 11 da manhã, quando absolutamente nada estava ainda decidido, alguém me tirou esta fotografia, no Largo do Corpo Santo, em Lisboa – guardo-a como a mais preciosa de toda uma vida. Tinha acabado de perguntar àquele soldado, empoleirado no tanque, o que se passaria a seguir. Que não sabia, mas que estava com Salgueiro Maia e que tudo ia correr bem. E eu também não duvidei, nem por um minuto, que sim, que ia acabar o pesadelo em que vivera desde que tinha nascido. Sem me passar pela cabeça temer o que quer que fosse.

de José Cardoso Pires; um carro estacionado mesmo em frente, com as quatro portas abertas para o que desse e viesse. Regresso ao Carmo, o desenrolar de tudo o que se sabe, o poder que Marcelo Caetano não quis deixar cair na rua antes de sair de chaimite, os gritos sem fim de vitória, que se cravaram na memória e ainda hoje fazem arrepiar. A liberdade, enfim, que nunca se imaginara poder ser tão grande. ****** Passaram 40 anos. Portugal é hoje, sem qualquer espécie de dúvida, um país melhor do que era naquela quinta-feira de Abril. Negá-lo não tem sentido. Mas não é aquilo que sonhámos, não foi por isto que tantos lutaram durante décadas de ditadura, que alguns morreram, não é o que podia e o que devia ser hoje. Falhámos uma oportunidade única, nós que tivemos na mão uma das mais belas revoluções dos tempos modernos. Os humanos não são deuses omniscientes, e ainda bem, porque teria sido absolutamente insuportável, naquela primeira semana luminosa, naquele 1º de Maio triunfante, uma espécie de «regresso ao futuro» em que pudéssemos ver o Portugal de 2014. Resta-nos agora lutar pela democracia de hoje e de amanhã, com a mesma força com que festejámos a sua chegada há quatro décadas. Não vai ser fácil. Mas é para isso que ainda estamos vivos.

Joana Lopes (Associada nº 1932)

Já no Largo do Carmo, a espera, as dúvidas, os boatos, o megafone de Francisco Sousa Tavares – e também os cravos, a Grândola. Pelo meio algumas corridas, evacuação obrigatória do local quando se pensou que o quartel não se renderia a bem, almoço tardio com últimos feijões do fundo de uma panela numa tasca do Largo da Misericórdia, pelo mais total dos acasos na companhia

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conto

(Àqueles para quem este conto é verdadeiro, como se o seu sofrimento pudesse ser aliviado pela partilha) Quaisquer semelhanças com a realidade, ou realidades, não são coincidência

Hoje, por um bocado, estou cá. A experiência ensina-me que, dentro de algumas horas, uma cortina negra vai voltar e já não serei. A pouco e pouco, esta cortina vai invadir toda a minha vida e espero que, no final, alguém tenha a compaixão de lhe pôr fim. Mas hoje estou cá; olhei para o calendário e reconheci o dia: 25 de Abril. Tantas coisas se me acotovelam na memória! Clico no ecrã do computador do meu amigo e companheiro de tantos anos (ele faz parte da APRe!, uma associação de velhos como nós, e acompanha a página no FB) e vejo esta frase que traduz o meu sentimento a respeito desses tempos: “Sampaio da Nóvoa recordou o jovem que era então, a viver essa “situação única, irrepetível”, que fazia crer que “o futuro de todos estava no mais pequeno gesto de cada um”. Nesse dia, fiquei em casa com as crianças, o meu filho e os dois dos vizinhos. O resto dos adultos foi para o trabalho e para a rua. Não me esqueci de pedir que me trouxessem um salvo-conduto, pois estava de vela no hospital no dia seguinte. Não foi necessário, mas ainda o tenho, liga-me ao meu passado e à realidade. Na rádio, o comunicado das Forças Armadas, música que costumava ser vedada e a frase de um poema de Éluard: “Au bout de cette page, j’écris ton nom, Liberté”. Quando os amigos e conhecidos saíram da prisão, a alegria foi perfeita. Acho que a Sophia diz algo sobre este dia inicial. Trabalhámos como se tudo dependesse de nós, muito longe de qualquer ambição de poder: reuniões (todos sabíamos o nosso Roque Laia), ocupação da creche (nas instalações da Escola

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da PIDE) para o hospital com permanências nocturnas, limpeza das ruas, segundo o apelo do Vasco Gonçalves, comunicados de uns e de outros (não havia Internet…). Lembro-me de, no 11 de Março, ter ido com uma amiga pedir armas ao tenente-coronel do MFA que estava a fazer a gestão do hospital, “para defender o nosso local de trabalho”; obviamente, foram recusadas (com grande alívio meu, que nada tenho de heróico). Confundíamos a luta política com a exigência de honestidade na vida privada. Lembro-me de um comunicado intitulado “Manifesto pela liberdade e a vida” que redigi e assinei com mais três colegas enfermeiras; tenho-o aqui, vou copiar uns bocadinhos, para me lembrar de quem fui: “Aderimos a todas as formas de vida, de alegria, de luta por uma sociedade livre (… ) Sabemos quem são os pais dos nossos filhos, sabemos porque não estamos à venda, fazemos amor por amor, temos filhos porque queremos e não por acaso ou fatalidade (…) Aqueles que afirmam que só por loucura ou motivos inconfessáveis se defende o SNS (…) talvez tenham dinheiro e honras, que lhes não invejamos. Queremos o sol e o mar, a terra, o pão e o vinho, a gargalhada livre, o sorriso cúmplice e irmão, a liberdade no amor e a alegria de viver – PARA TODOS”. E festejávamos, é claro! O inesquecível e único primeiro 1º de Maio, mas também almoços ou jantares à base de açorda ou feijoada, que os tempos eram difíceis. Entretanto, e após o 25 de Novembro, as lutas foram endurecendo, as posições clarificavamse. A do nosso grupo (de várias profissões) nunca se clarificou muito; juntávamo-nos até às tantas da noite antes das grandes assembleias para chegar (ou não) a uma posição comum; creio que alguns eram dos vários partidos trotzquistas que havia na altura, e alguns aderiram à UDP ou gravitaram em torno do MES – nunca nos perguntávamos o que éramos. Às vezes, e porque sabíamos que havia gente preocupada, aparecíamos todos de boinas pretas e as pessoas diziam “Ah, afinal são da LUAR”.

É melhor acabar, sei que não me resta muito tempo; e tenho que aproveitar este tempinho para dizer ao meu companheiro quanto o amo (sei lá o que lhe digo quando “não estou”); e vou-lhe entregar o “manifesto”; não sei se alguma vez lho mostrei, devo ter achado que tinha todo o tempo do mundo, hoje sei que o meu tempo são estes “bocadinhos” de lucidez. Foi bom reviver, em menos de uma hora, esta época que, na minha cabeça, está sempre cheia de sol. Se tiver outra oportunidade, contarei a nossa participação na construção do SNS (é verdade, não foi apenas um trabalho de cúpulas; muitas equipas do terreno se empenharam, cada uma de acordo com as suas comunidades). Será difícil, mas… … foi uma vida que valeu a pena.

Leonor Abecasis (Associada nº 2126 )

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não é fácil

Antes, depois e agora debatem-se na minha incompreensão. Porquê e para quê? Perguntas que eu nunca imaginei fazer… Antes do 25 de Abril, o meu despertar social e político começou na escola primária, onde ainda tenho nos ouvidos o choro das crianças, sujeitas à pancadaria e, nos olhos, as orelhas de burro, feitas de jornais, nas cabeças pequeninas, expostas na varanda que dava para a rua. A régua… a célebre régua, os pontapés e os estalos… Recordo-me dum cheiro nauseabundo de uma retrete velha que nós usávamoo – um mundo tão negro e tão agreste para quem está a começar uma vida! A revolta nasceu em mim. Foi aí que tudo começou, nessa casa velha e tão degradada… Depois foi o saltar o muro do liceu para ir ler coisas do Che Guevara num cafezinho próximo e a primeira greve na festa dos finalistas – a primeira e a última! Na faculdade, esperavam por nós – vêm aí umas caloiras “porreiras”! Não havia trajes académicos nem queima das fitas nem copos (a academia estava de luto), mas havia um calor enorme e muita cultura política. Os olhos virados todos para a mesma luta – o medo desaparecia e tornávamo-nos gigantes, sabia-se do que se falava e o silêncio nunca teve lugar. Pancadaria, monstros vestidos de aço com cassetetes prontos a baterem-nos… e nós corríamos, quando o confronto era impossível. Telefones vigiados, passos vigiados, processos na PIDE, prisões cheias, mas seguíamos em frente. Era inconsciência? A imaginação era imensa no fazer sem ser apanhado – porque desistir, NUNCA! As avaliações académicas eram secundárias - valores mais altos viviam nas nossas mentes. Apesar de tudo cerrado, de tudo proibido, da impotência, do enorme sofrimento, existia o abraço solidário de quem quer a liberdade, o sorriso e, como Sophia de Mello Andresen disse, “a poesia na rua”! Por isso, não quisemos ser jovens, mas seres firmes que abdicaram do fácil, do já e agora. Procuro hoje nas multidões, mas ouço “folclore” nos discursos – e queria muito ver os rostos, agora já enrugados que, unidos ao meu, trazem

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25 de abril, sempre

ainda a força e a coragem de dizer NÃO! Fui perseguida, sofri, mas fui a pessoa mais feliz quando, na manhã do 25 de Abril, ouvi na rádio “Grândola, Vila Morena”… e o medo desapareceu! Nunca esquecerei esse dia. O poder foi-nos dado, ninguém o assumiu como seu e no primeiro 1º de Maio, a felicidade encheu a Av. dos Aliados com irmãos, verdadeiros irmãos. Comovo-me muito, ainda, quando vejo e ouço o Otelo Saraiva de Carvalho, já velho, dizer que faria outro 25 de Abril e… sem hesitações! Que nunca morra este dia tão cheio de vida verdadeira e autêntica liberdade, sem “mas” nem “ses”. A minha eterna gratidão! 25 de Abril, SEMPRE e fascismo NUNCA MAIS!

Lídia Menezes (Associada nº 5806)

Foi há 40 anos! Um sonho foi criado naquele dia! Já não vou para a guerra! Estava a acabar o meu curso, pago com sacrifício por meus Pais, e o meu pensamento era só o meu futuro. Guerra! O 25 de ABRIL devolveu a esperança! Felizmente, essa conquista conseguiu. Muitas outras foram conquistadas! Foram repostas a LIBERDADE e o sentido de sermos nós — UM POVO! Um POVO humilhado, um POVO perseguido, um POVO sem cultura, um POVO amordaçado! Bravos Capitães de ABRIL! O tempo voou, com sobressaltos diversos, na afirmação de um POVO LIVRE! Participei, acreditei e jurei defender ABRIL! Foram longos os caminhos e largas foram as amizades conquistadas, na procura de JUSTIÇA. Um dia pensei que as conquistas conseguidas estavam mais ou menos consolidadas, que iria ver os meus netos, felizes, num PAÍS realizado e próspero. Olhei de repente para trás, e deparei que já se tinham passado trina e cinco anos! Olhei para o espelho e comecei a olhar para os meus cabelos grisalhos! Começaram os problemas inerentes a quase todos nós. Começar a pagar o que a idade não perdoa — Saúde. E olhei para diante, preocupado, exactamente como há 40 anos! Mas a “Guerra” agora é outra! O meu POVO andou distraído, deixando crescer sementes daninhas, que originaram “flores feias” e por sua vez “frutos” venenosos! Não são estas “flores” que eu quero deixar para os meus netos! Eu quero, porque sei que a minha geração merece, deixar as FLORES, sim, os CRAVOS de ABRIL! Não quero ser violentado por hoje ser considerado “peste grisalha”! Eu quero que aqueles que hoje nos escorraçam, nos violentam, nos agridem, nos roubam, que pelo menos nos respeitem. Vislumbro um novo amanhã! A “GUERRA” de hoje será também vencida! A minha geração não vai DESISTIR.

A minha geração ainda sabe dizer NÃO. A minha geração sabe SOFRER. A minha geração ama a LIBERDADE. A minha geração é COMPETENTE. A minha geração ama o nosso PAÍS. Por isso, nós dizemos: “25 de ABRIL, SEMPRE!”. Eu quero sorrir e ser verdadeiro para os meus netos. E um dia queria morrer a sorrir para o meu PAÍS: OBRIGADO, PORTUGAL!

Luís Manuel Leite Caetano (associado nº 961)

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o meu 25 de abril

Quando aconteceu o 25 de Abril de 1974, encontrava-me no Leste de Angola (Luso, hoje Luena), na qualidade de militar da Força Aérea, iniciando a minha segunda comissão nas então chamadas “Províncias Ultramarinas”. Tinha, ao tempo, 25 anos. Transportava a anterior experiência de uma primeira missão em Tete, Norte de Moçambique, numa Esquadra de Helicópteros, entre 1971 e 1972. Tinha sido uma comissão complicada e arriscada, pois a FRELIMO tinha uma organização operacional muito ativa, causando grandes dificuldades às nossas tropas. Eram frequentes as emboscadas, minas e ataques de vários tipos, que habitualmente causavam feridos e mortos, na maioria dos casos evacuados de helicóptero. Foi com esta parte negra da guerra, entre feridos e mortos, que durante vários meses vivi quase diariamente. Assisti ainda à partida de camaradas de vivência muito próxima, que tombaram no cumprimento do dever. Quando tomei conhecimento da revolução na então chamada “Metrópole”, pensei de imediato que esta segunda comissão não seria tão dura, pois as forças dos movimentos de libertação em Angola estavam quase aniquiladas e seguramente um novo regime em Portugal iria privilegiar o diálogo e a consequente paz com os chamados movimentos de libertação. Poucos dias após a revolução dos cravos, participei, nas matas do leste de Angola, zona do Munhango, no cessar-fogo entre as nossas forças e a UNITA, tendo tido nesse dia o primeiro dos vários contactos com o Dr. Jonas Savimbi, facto que me comoveu, pois até então estávamos em lados diferentes da barricada, cada um zelando pela sua própria sobrevivência. Não imaginava, ao tempo, que teríamos que enfrentar uma outra guerra. A guerra que os próprios movimentos de libertação iriam travar entre si. Em Lisboa, a situação política caminhava para o descontrolo – pintava-se nas paredes «Nem mais um soldado para a África»; em Angola, os militares portugueses com mais tempo de comissão

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começaram a abandonar as guarnições, seguindo para Lisboa, e os movimentos de libertação chegavam às cidades fortemente armados, pois com a nova situação política em Portugal muito armamento tinha entretanto lá chegado. Começaram combates ferozes nas próprias cidades, entre MPLA, FNLA e UNITA, não havendo já capacidade militar portuguesa para garantir a segurança da população civil, entre a qual se encontravam milhares de portugueses mais tarde designados «RETORNADOS», que começaram o êxodo para Luanda, deixando para trás toda uma vida. Assisti a cenas de desespero inenarráveis, em várias cidades, e participei na segurança aérea de algumas colunas que os próprios civis formavam rumo a Luanda. Nós próprios, Força Aérea, com os helicópteros de que dispúnhamos, tivemos de nos deslocar para Luanda, pois as condições de falta de segurança no terreno assim aconselhavam. Assisti, no Aeroporto de Luanda, à grande tragédia humana da nossa história contemporânea – à que foi chamada a maior ponte aérea do mundo. Os portugueses que trabalhavam e viviam em Angola queriam desesperadamente partir para Lisboa, deixando as suas casas, os seus haveres, o espólio de uma vida, tudo o que durante anos tinham construído. Em volta do aeroporto, milhares de pessoas sentadas nas malas, toda a sua riqueza, esperavam, dias e dias, avião para poderem sair. Um drama ainda não completamente contado. Também eu consegui sair em data muito próxima ao dia da independência de Angola, 11 de Novembro de 1975, não sem que antes tenha vivido algumas situações que não vem ao caso narrar agora. Cerca de 20 anos depois, voltei a Angola, a Lobito, no âmbito da Cooperação TécnicoMilitar, visando ações de formação destinadas à Força Aérea Angolana, tendo constatado as marcas bem visíveis da guerra civil em que aquele País irmão se viu mergulhado. Completados os 36 anos ao serviço da Força Aérea, decidi passar à situação de reserva e posterior reforma, em que me encontro

presentemente. Foram cumpridos os pressupostos entre as duas partes, foi-me atribuído um valor de pensão correspondente aos anos de serviço e descontos efetuados e tudo aconteceu com a maior das normalidades. Contra tudo o que foi contratualizado, começaram os cortes, tal como a milhares de outros reformados e pensionistas – e não exagerarei se afirmar que já estou espoliado em mais de um terço da pensão inicial. Começo a ter dificuldades em honrar compromissos que assumi em função do valor da pensão de que usufruía e que, como atrás referi , me vem sendo cortada quase mensalmente. Considerome um militar-cidadão que cumpriu com zelo, dedicação e patriotismo as missões que o Estado decidiu atribuir-me, arriscando várias vezes a própria vida, estando o mesmo Estado a não cumprir a mais elementar das suas obrigações, que se consubstancia na simples tarefa de dar legalidade a um compromisso assumido com um seu servidor. Já velho e com pouca saúde, não me resta outra saída senão juntar-me a tantos outros “Apristas”, no sentido de contestar as medidas ilegais e inconstitucionais que este governo vem aplicando – e que já levou uma personalidade como Joseph Stiglitz, Nobel da Economia, a escrever um livro a que chamou “O preço da desigualdade”, designação que bem se nos aplica, pois sabemos que nem todos os portugueses estão a contribuir de igual modo para a crise que eles, os políticos, criaram. Também eu considero que agravar a pobreza constitui uma indignidade – por isso, por causa disso, faço parte da comissão dinamizadora do núcleo de Évora da APRe!, tentando juntar a minha voz a tantas outras, para fazer sentir a quem nos desgoverna que está na hora de parar e, sobretudo, está na hora de materializar os ideais do 25 de Abril que, passados 40 anos, nada têm que ver com esta política cega e indigna de saque descarado a pensionistas e reformados.

Luíz Armando Faria Costa, Ten-Cor, Refº (Associado 2700)

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“somos a armadura da bestialidade e o bastião da brutalidade.” Ten.-Cor. Luis Atayde Banazol

Em 24 de Novembro de 1973, na Casa da Cerca, em S. Pedro do Estoril, reuniu o Movimento dos Capitães. Foi um momento de viragem na história do Movimento. Até então, as posições reivindicativas e corporativas tinham tido um grande peso. Semanas depois, nas reuniões de Óbidos e da Caparica, ainda se mencionavam as alternativas de não se ir além das reivindicações corporativas e de “dar oportunidade ao governo de se legitimar perante a Nação através de eleições livres, devidamente fiscalizadas pelo Exército, precedidas de um referendo sobre a política ultramarina”. Mas já era claro para todos (ou quase) que não residia aí a solução. Na reunião do Estoril, o ten.-cor. Luis Athayde Banazol (já falecido) tinha apontado a única solução verdadeiramente patriótica: «Meus caros camaradas, eu creio que vocês estão a perder o que têm de bom: energia e tempo, organização e vontade. Estão a esgotar-se com um assunto que não vale a pena. Decididamente, não vale a pena. O problema que vocês julgam que está no âmago disto tudo não vale um pataco e vai contra os nossos camaradas milicianos. Eles também têm as suas razões, e não será pelo facto de vocês conseguirem levar a melhor que tudo ficará resolvido. Pelo contrário, cada dia que passa, tudo se agrava. E isso não é por uma questão de galões. O que vocês estão e todos nós, é agonizantes; simplesmente agonizantes. Estrangulados por um regime que nos conduz directamente para o abismo, para a derrocada, aliás como o têm feito todos os regimes fascistas, nomeadamente os de Hitler e de Mussolini. Todo o mundo olha para nós, oficiais do quadro permanente, como verdadeiros agentes do nazismo. Agentes das S.S. E não podemos de forma alguma evitar essa execranda imagem, se não tomarmos a iniciativa de uma reabilitação, uma redenção aos olhos do nosso povo e dos outros povos do mundo, utilizando a nossa força para derrubar o governo. Tenho ouvido falar, insistentemente, no abalado prestígio dos oficiais. Pois que esperam vocês daqueles cujos filhos, irmãos e

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noivos são enquadrados por nós, para as guerras de África, donde poderão regressar mutilados, loucos ou mortos? Que crimes estamos todos a cometer em nome da Voz do Dono? É preciso que acordemos do pesadelo; é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial, que nos consome tudo, incluindo a própria dignidade de militares profissionais de um país civilizado. Todas as nossas angústias, ansiedades e neuroses, se situam na tragédia para que fomos e estamos a ser lançados, por um tenebroso conluio, que tem a hipocrisia por fachada e o assassínio por norma. E nós, que representamos a força das armas, por que esperamos? E nós, que vemos todos os dias esses exemplos de coragem dos moços universitários? Desarmados, enfrentam a polícia de choque, e não deixam amortecer um só dia a luta pela Liberdade. E nós, homens de armas? É uma vergonha. Devemo-nos sentir envergonhados. É bem feito que nos humilhem e nos olhem com rancor. Somos a armadura da bestialidade e o bastião da brutalidade. Não tenhamos ilusões: o governo só sai a tiro e os únicos capazes de o fazer sair somos nós; mais ninguém. Se não o fizermos, a História nos julgará, como julgou os abencerragens de Hitler e com inteira razão. Não devemos consentir que isso aconteça e que os vossos filhos e os meus netos se tenham de envergonhar de nós. Impõe-se a Revolução Armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências.» Quase não é necessário acrescentar nada. Os militares, “armadura da bestialidade e bastião da brutalidade”, transfiguraram-se em libertadores e traçaram o programa da libertação. Na madrugada do 25 de Abril, cadete da Escola Prática de Administração Militar, fui um dos militares que ocuparam os estúdios da RTP no Lumiar e aí montaram um dispositivo de segurança até bem depois do 1º de Maio. Assisti ao vivo à chegada aos estúdios da Junta de Salvação Nacional e, nos bastidores, ao discurso que o então General Spínola dirigiu à Nação. Desde logo me apercebi das diferenças entre esse discurso e o que tinha ouvido do

Capitão Teófilo Bento, o nosso comandante. Mas não entrevi o que essas diferenças anunciavam. Só mais tarde, já integrado na 5ª Divisão do EMGFA, me apercebi do alcance das mesmas. Vieram, sucessivamente, a “crise Palma Carlos”, o “28 de Setembro” da “Maioria Silenciosa”, o 11 de Março de 1975. Expurgado do “spinolismo”, o Movimento parecia capaz de recuperar a sua coesão e, removidos os obstáculos, de avançar para as reformas indispensáveis. Mas, poucos meses depois, organizada a partir do exterior e contando com cumplicidades no interior, a contra-revolução incendiou o país. Durante os meses de verão, perspectivas diversas quanto ao modo de enfrentar a reacção conduziram a uma trágica cisão no Movimento, entre “moderados” e “radicais”. Cisão que culminou no 25 de Novembro, na sequência do qual fui preso, tal como duas ou três centenas de outros militares. A minha participação neste processo terminou onde começara – na RTP –, uma vez que, após o encerramento compulsivo da 5ª Divisão, em Agosto, por ordem de Costa Gomes, eu o Manuel Duran Clemente nos tínhamos apresentado na nossa unidade, a EPAM, à qual estava atribuída a missão de montar o dispositivo de segurança aos estúdios do Lumiar. Da RTP para a RTP, como se houvesse percorrido um círculo perfeito. De facto, afinal, foi apenas o início de uma trágica espiral em que as forças derrotadas no 25 de Abril recuperaram, sempre mais, o seu domínio. No décimo aniversário da Revolução, o Ten.-Cor. Melo Antunes, o líder político dos “moderados”, afirmou: «O 25 de Abril era a grande oportunidade histórica de transformarmos a realidade portuguesa no sentido de uma

sociedade mais justa e mais livre. Acho que perdemos essa oportunidade histórica.» Os ideais do 25 de Abril oferecem hoje o mesmo aspecto da arruinada Casa da Cerca, onde, tão clara e emocionadamente, os proclamou o Ten.-Cor. Banazol. Devemos àqueles homens, a nós próprios e ao nosso país, a obrigação de continuar a lutar, com todas as nossas forças, contra a bestialidade e a brutalidade que eles se recusaram a servir e que, agora, parecem regressar para nos esmagar.

Luís Maria Gottschalk (ex-Alferes Miliciano), Associado nº 968

Casa da Cerca, S. Pedro do Estoril

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a flora

Um dos momentos mais tocantes que vivi ao longo da minha vida está indissociavelmente ligado à “Revolução dos Cravos” de 25 de Abril de 1974. Em 1980, o Sindicato dos Trabalhadores da Função Pública do Norte (STFPN), do qual fui dirigente, organizou vários cursos de alfabetização para adultos, para que muitos trabalhadores, então contínuos e serventes das escolas primárias, completassem a escolaridade obrigatória (4.ª classe, na altura) e assim reunissem as condições para poderem ser integrados na sua carreira profissional, entretanto criada, como resultado das propostas sindicais e da luta que se teve de travar para melhorar as condições profissionais e de vida destes trabalhadores. Convém referir que na época o analfabetismo era enorme, fruto do obscurantismo que durante 48 anos predominou no nosso país. Estes cursos, com o apoio da Direcção-Geral para a Educação de Adultos, foram realizados nos mais diversos locais e frequentados maioritariamente por mulheres, já com alguma idade e, obviamente, com muitos afazeres para além do seu trabalho profissional. O final de cada um dos cursos era autêntica festa, onde o entusiasmo e a assunção da dignidade de quem passou a saber ler e escrever faziam esquecer, por completo, as inibições e os medos iniciais. Justo é dizer, não por uma questão de “bom-tom”, mas por ser uma verdade elementar, que as mulheres, apesar das suas dificuldades por os cursos serem à noite, foram mais entusiastas e persistentes nestas acções do que os homens. Pois bem, no final de um destes cursos, uma das trabalhadoras que tinha sido aprovada no exame pegou-me num braço, puxou-me um pouco para o lado e com a voz embargada pela emoção, e um sorriso azul-cinza, a cor dos seus olhos, agradeceu-me pelo facto de já não ter de pedir às vizinhas para lhe lerem as cartas dos filhos que estavam em França. Depois, em voz alta, bem audível, acrescentou: “Sabe, eu era muito burra. Então, no início, quando a senhora professora escreveu no quadro e perguntou o

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memórias de abril

que era “A FLORA”, não é que eu disse que era a margarina do anúncio da televisão?! Mas, agora, já sei de verdade o que é a flora e muito mais…”. A risada foi geral. Fevereiro de 2014

Miguel Vital Andrade de Sousa (Associado n.º 1671)

Encontrávamo-nos no Porto, a participar num seminário, promovido pela Comissão de Planeamento da Região Norte. A notícia chegou, logo de manhã: havia movimentação de tropas em Lisboa. As opiniões dividiam-se, chegando alguns a temer que por trás delas estivesse Kaúlza de Arriaga. Não eram fáceis, nesse dia, as comunicações pelo telefone; as emissões de rádio e televisão ou estavam interrompidas ou captavam-se com dificuldade. Os trabalhos do seminário continuaram até ao fim do dia, para o que terá contribuído a incerteza e o receio de deitar foguetes antes de tempo. A pouco e pouco, a ansiedade das primeiras horas foi dando lugar à esperança e esta ao regozijo, naquele grupo de técnicos do Ministério da Educação de que eu fazia parte. Ao cruzarmos, no meu carocha amarelo, a Avenida dos Aliados, de regresso ao hotel, o modo como a multidão aí se manifestava confirmava-nos que as tropas estavam do lado, para nós, certo. Depois de um dia de espera, fizemo-nos à estrada, de regresso a Lisboa, com um desvio por Peniche, para deixar a Isabel, que ficava aí a aguardar a libertação do namorado, que, por uma das coincidências em que vida é fértil, tinha sido meu aluno, no Colégio Moderno. Estava um sol radioso. As giestas floridas de amarelo escoltaram-nos até Lisboa e, das Unimogs em que seguiam, os soldados correspondiam aos nossos acenos e buzinadelas, fazendo, com os dedos, o V da vitória. Percorri, ao longo do caminho, a minha memória. Nascido na escola duma aldeia, com os bons ofícios de uma “parteira curiosa”, só conheci a iluminação elétrica aos nove anos, quando fui para a vila. À minha escola presidiu a trilogia “Deus, Pátria, Família”. Desses tempos, recordei a imagem do grupo de trabalhadores rurais, vestidos de negro, com ar grave e digno, que, num dia de Primavera, percorreram as ruas da vila, pedindo esmola, por terem fome e não terem trabalho; lembrei-me dos homens, na praça, à espera que os feitores os viessem escolher para irem trabalhar; recordei

os meninos descalços da minha infância, as greves e manifestações dos rurais de Pias e Vale de Vargo e a sua impiedosa repressão. Passaram por mim as memórias da chegada a Lisboa, em 1961, e do que foi a minha consciencialização social e política nesse primeiro ano letivo, de “ crise académica”; vieram-me à memória os três anos e meio de tropa e o pensamento de que, se as coisas não mudassem, me esperaria, ainda, outro tanto tempo, a combater em África, como capitão miliciano. Que idade teria a minha filha quando (e se) de lá voltasse? Dei por mim a pensar. Encontrei, por estes dias, na manifestação da APRe!, frente ao Parlamento, a Isabel. Com as convicções e a determinação de sempre. Não a via desde há quarenta anos.

Manuel Estêvão (Associado nº 2409)

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a conspiração na guiné

A ideia lançada de que a “revolta dos capitães” começou na Guiné não merece discussão. Têm tanta razão os que a defendem como os outros. A revolta começou em cada um de nós, o espaço não foi temporal nem fisicamente circunscrito a uma qualquer latitude, mas de facto a Guiné marcou muito os militares e era ressonante o seu efeito como um vulcão de conflitos e desafios. Efectivamente, na Guiné viviam-se tempos favoráveis à reflexão e ao debate. De forma mais aberta ou mais reservada, a contestação convivia com a humidade e o calor tropicais. Seria injusto não reconhecer a quota-parte que se deve à personalidade do General Spínola na criação desse ambiente. As circunstâncias fizeram o resto; tornaram a colónia da Guiné um laboratório de experiências e de vivências particulares. Muito pelo seu clima, muito pelo seu tamanho, muito pelo abandono do colonizador e bastante pela forma de actuação do PAIGC e do seu líder Amílcar Cabral. Talvez se deva considerar, como primeira pedrada no charco, na Guiné- Bissau, a reacção e repúdio dos Oficiais do Quadro Permanente ao “Congresso dos Combatentes do Ultramar”. Almeida Bruno, Dias de Lima, Monge, Otelo e outros, puseram o general Spínola ao corrente do descontentamento que se apoderara dos Oficiais em geral. Tratava-se dum Congresso, que mais não era do que uma encenação do governo. Esse descontentamento chegou a Lisboa pela via hierárquica mas não só. Chegou também a Ramalho Eanes, Hugo dos Santos e Vasco Lourenço, que encabeçavam, na Metrópole, um vasto movimento de protesto. Quatrocentos Oficiais do Q.P. assinaram, em Bissau, protesto idêntico ao subscrito no Continente. Um telegrama de Bissau foi enviado para o Porto, onde se realizaria o dito evento (de 1 a 3 de Junho de 1973), assinado por Marcelino da Mata e Rebordão de Brito (Oficiais naturais da Guiné, ambos com a “Torre e Espada”) e com o seguinte texto: “Os oficiais do Q. P. em serviço no teatro de operações da Guiné: 1.Não aceitam outros valores nem defendem

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outros interesses que não sejam os da Nação; 2.Não reconhecem aos organizadores do I Congresso dos Combatentes do Ultramar, e portanto ao próprio Congresso, a necessária representatividade; 3.Não participando nos trabalhos do Congresso, não admitem que pela sua não participação sejam definidas posições ou atitudes que possam ser imputadas à generalidade dos combatentes; 4.Por todas as razões formuladas se consideram e declaram totalmente alheios às conclusões do Congresso, independentemente do seu conteúdo ou da sua expressão.” Estava pois criado o ambiente e lavrado o terreno para o que viria a seguir. Fui enviado para Bissau a 28 de Julho de 1973 por “castigo” em reacção ao requerimento/ manifesto em 40 folhas de papel selado que fizera em Abril e entregara à hierarquia militar, e que divulguei em Aveiro, no Congresso da Oposição Democrática em que participei. Logo no dia seguinte ao da minha chegada, esse documento foi lido e discutido numa reunião em que participaram os Capitães do quadro Jorge Golias, Duran Clemente, Matos Gomes, Jorge Alves e o Capitão Miliciano José Manuel Barroso (sobrinho de Mário Soares). Estávamos muito preocupados com a situação nacional e com o uso dos oficiais do Q.P. (Quadro Permanente).Tínhamos a noção de que estes estariam a tomar consciência, missão após missão, do logro. Mas era lento e doloroso o processo. Combinámos criar um “núcleo dinamizador” (A . Spínola, uns anos mais tarde, apelidou-o de “célula soviética” no seu Portugal sem Rumo). Graças à publicação do celebérrimo DecretoLei nº. 353/73, que facultava a “entrada de oficiais do Quadro Especial de Operações no Quadro Permanente através de curso intensivo na Academia Militar”, os acontecimentos precipitam-se. A questão era saber aproveitar o facto. Assim nos propusemos como núcleo dinamizador e agora fortemente animados. Não podíamos perder a oportunidade. No espaço de oito dias, efectuaram-se quatro

reuniões. Resultou dessas reuniões a decisão de endereçar uma “carta-protesto” ao Presidente da República, Presidente do Conselho, Ministro da Defesa e Exército, Ministro da Educação e Secretário de Estado do Exército. Com a data de 28 de Agosto, a referida carta teve as assinaturas de quarenta e sete Capitães, recolhidas em Bissau e nas guarnições próximas (em 66 possíveis em todo o CTIG), às quais se juntaram ainda as de quatro subalternos (em estágio). As reuniões de Capitães começaram a realizarse periodicamente, tendo sido eleita a primeira Comissão Coordenadora do Movimento de Capitães na Guiné, constituída pelos Maj. Almeida Coimbra, Cap. Duran Clemente, Cap. Matos Gomes e Cap. António Caetano (que mais tarde seria substituído pelo Cap. Sousa Pinto). Entretanto, soubemos da reunião de Évora/ Alcáçovas (9 de Setembro), em que se encontraram mais de 130 oficiais do Q.P. Ficámos mais confortados. Foi deliberado que se desse conhecimento ao Comandante Militar da existência das reuniões. Achou-se que era melhor que soubesse, por nós próprios, que nos reuníamos. Na primeira reunião, e única, que tivemos com o então Comandante Militar Brigadeiro Alberto Banazol (irmão do Ten. Cor. Luís Ataíde Banazol), este saudou a atitude e deu-nos a devida autorização para reunirmos. Mas foi peremptório ao reprovar expressamente a nossa manifestação colectiva, censurando o envio da nossa carta às mais altas hierarquias do Estado. O trabalho de sensibilização e de informação foi sendo feito com resultados muito gratificantes, na medida em que se foi conquistando para o nosso lado a maioria de Oficiais colocados em posições de comando, consideradas estratégicas e essenciais para o que “desse e viesse”. A Marinha aderiu em força. Com a sua tradicional organização (meticulosa e serena), dispôs as suas pedras com todo o cuidado e aceitou o repto. Destacaram Oficiais que

passaram periodicamente a reunir-se connosco, para troca de informações e análise da situação. Inicialmente os 1ºs Tenentes Marques Pinto e Pessoa Brandão e, mais tarde, Manuel Serrano e Rosado Pinto. A Força Aérea destacou desde sempre os capitães Jorge Alves e Faria Paulino e depois Sobral Bastos e Albano Pinela (Paraquedista). No Exército, contávamos com mais aderentes à medida que íamos, progressivamente, com maior segurança, alargando a malha de contactos e de informações e consolidando as estruturas organizativas por cada unidade operacional. Paralelamente, um movimento de Oficiais milicianos foi-nos acompanhando e ia-se consolidando, tendo como principais mentores os Alferes Milicianos Barros Moura, Celso Cruzeiro e o já referido capitão Miliciano José M. Barroso (que reflectiam três tendências diferentes). A partir de Dezembro, começa-se a ver mais claro qual o sentido do Movimento, após as reuniões que na Metrópole apontavam para a mais que provável decisão de “pegar em armas” para derrubar a situação. A “profecia” que Jorge Golias lançara como repto em Agosto, numa das primeiras reuniões (“quem sabe se isto só se resolve pela via armada!??”), estava mais perto de se concretizar. Também na Guiné foram conhecidas as três hipóteses, colocadas para reflexão (decisão) aos Capitães na reunião de Óbidos (1 de Dezembro ) e Caparica (5 de Dezembro), que eu próprio trouxera após a minha deslocação a Portugal em Novembro: a. -Conquista do poder para, com uma Junta Militar, criar no país as condições que possibilitassem uma verdadeira expressão nacional; b. -Dar oportunidade ao governo de se legitimar perante a Nação, através de eleições livres, devidamente fiscalizadas pelo Exército, precedidas de um referendo sobre a política ultramarina; c.-Utilizar reivindicações exclusivamente militares como forma de alcançar o prestígio do

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Exército e de pressão sobre o Governo. A decisão de que na Guiné também optaríamos pela tomada de poder pelas armas já estava tomada há muito; daríamos, no entanto, a possibilidade à hierarquia militar no Comando Territorial Independente da Guiné /CTIG para se pronunciar. Quem não estivesse connosco, seria devolvido a Lisboa. No caso de insucesso das operações do Movimento em Portugal, a nossa estratégia era a tomada de poder na mesma. Teríamos esse trunfo para jogar na defesa das nossas convicções. Por outras palavras, constituir-nos-íamos numa grande pedra no sapato e dor de cabeça para o Governo Português, com uma Colónia sublevada. Para isso, tínhamos de ter o completo domínio do comando em todos os Sectores e Ramos das nossas Forças Armadas instaladas no teatro de operações da Guiné. No final do ano de 1973, só nos faltava o Regimento de Paraquedistas, que virá a aderir em Fevereiro de 74. Após o conhecimento do conteúdo do livro “Portugal e o Futuro” do General Spínola, o Comandante do Batalhão de Paraquedistas, Major Mensurado, manda formar o Regimento e faz uma palestra. Em que adverte os seus homens da eventual necessidade de terem de cometer uma acção de indisciplina a “Bem da Nação”. Quem não estivesse de acordo, deveria dar um passo em frente. Ninguém deu. Todos concordavam. Era a vontade dos Povos a mandar! Nos primeiros meses do ano, estreitaramse os contactos com Lisboa. Em Fevereiro estive pessoalmente com o Vasco Lourenço na Trafaria, para receber informações mais actualizadas. Tive oportunidade de referir que o pessoal na Guiné estava com acentuado nervosismo. O Vasco Lourenço apelou à serenidade e afiançou que a “acção” se daria antes do 10 de Junho. Foi esse o recado que levei para a Guiné. Em 4 de Março, avisámos Lisboa (Hugo dos Santos) de que os Majores Casanova Ferreira e Manuel Monje regressavam à Metrópole no dia seguinte e estavam cheios de entusiasmo. Denotavam extrema vontade de intervir.

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Haveria que dar o melhor enquadramento à sua dinâmica. Otelo distraiu-se do meu aviso e ocorreu o 16 de Março… No princípio de Abril, uma Delegação de Bissau esteve com o Movimento em Lisboa e recebeu as últimas informações. Antes, porém, tivemos de “travar” a ansiedade do Ten. Coronel Luís Ataíde Banazol (a que sempre prestarei homenagem pela sua atitude na reunião de Cascais em 24 de Novembro de 73 e na de Óbidos, em Dezembro) que, ao chegar à Guiné com o seu Batalhão, queria tornar o poder, ocupando o Palácio do Governo da Colónia. Após aturadas reuniões connosco, lá conseguimos dissuadi-lo. Na noite de 24 para 25 de Abril, aguardámos, no Centro de Comunicações do Quartel General de Bissau, o contacto telefónico programado. Não chegou. Uma das poucas acções de retaliação da dita “Legião Portuguesa” foi o corte do cabo telefónico na Rua de S. Marçal, que servia a Guiné. No meio da nossa ansiedade, lá fomos sabendo do que se passava através das agências noticiosas. Pouco a pouco, as teleimpressoras foram ditando os acontecimentos e noticiando a Alvorada de Abril. Exultámos. Pelas oito horas da manhã, foram restabelecidos os contactos telefónicos. Pelas nove horas, o meu subalterno comandante de Destacamento de Intendência, Alferes Mota, foi dos primeiros a quem dei a notícia, para a retransmitir ao Ten. Cor. Luís Banazol : HOUVE REVOLUÇÃO: ganhámos. No dia 25 de Abril, em Bissau, nem o Comando Chefe nem o Comando Militar tomaram posição de adesão ao Movimento. Com as unidades em alerta, prontas a avançar (tais como: Batalhão de Comandos, Batalhão de Paraquedistas, Batalhão de Intendência, Grupo de Artilharia e o Agrupamento de Transmissões e de Engenharia e outras), avançou a Companhia de Polícia Militar, que tomou pacificamente as instalações do Comando Chefe. Uma delegação do MFA interpelou o Comando Chefe General Betencourt Rodrigues, que entretanto reunira todos os seus oficiais e aos quais se dirigira “ vencido mas não convencido “. Ficou à nossa disposição e

seguiu, uns dias depois, por avião, para Lisboa, juntamente com outros oficiais que não aderiram ao Movimento, e foi substituído a 7 de Maio pelo Tenente-Coronel Carlos Fabião, graduado em Brigadeiro, que passou a ocupar o topo da hierarquia militar e governativa da ainda Colónia. Tinha acabado a conspiração: outros desafios nos foram lançados. Sobretudo a luta travada contra o General Spínola que, desde o 25 de Abril e até 28 de Setembro, quis abafar o MFA e impor-se como novo “ditador”. Foram as movimentações e pressão do MFA [de Bissau] que contribuíram para um processo pacífico de reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau e de transferência de poderes em dois meses.

Manuel Duran Clemente, Coronel reformado (Associado nº 989)

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o meu 25 de abril

Com 25 anos e a seis meses de ser Pai, cheguei, há 40 anos, ao dia 25 de Abril de 1974, após um dia e meio de tropa, mal dormido, dentro de uma caserna colectiva, húmida, mal cheirosa e superlotada, onde, durante quase toda a noite, se jogara à “lerpa”. Na antevéspera, a 23, cerca de 150 médicos, advogados, engenheiros, economistas, etc., haviam sido incorporados como cadetes, na segunda recruta dada na Escola Prática de Infantaria (Mafra), após a qual ficariam a saber dar tiros com a G3, mais robustos fisicamente, identificando postos da hierarquia militar dos três ramos das Forças Armadas, para já não falar de balística e “agitprop”. Tudo concebido para a primeira parte do Curso de Oficiais Milicianos de seis meses, que, à época, até habilitava para a docência da disciplina de Educação Física. Naquele dia, nem sequer sabíamos dar um tiro, quanto mais defendermos o quartel contra o “in”. Era esta a designação abreviada de “inimigo”, no jargão da tropa, depressa apreendido naquele tropel de coisas esquisitas a que acabáramos de chegar. Nos exercícios físicos, quando nos era dada a tarefa de nos infiltrarmos no campo dos “terroristas”, íamos de G3 aperrada e de olhos postos na direcção para onde apontava o cano, mas bem sabíamos que podíamos acabar depressa com o exercício, se, carinhosamente perguntássemos, quando ouvíamos barulho nos ramos: “ó in, estás por aí?”. E não é que estava mesmo? Com isso, poupávamos tempo e algumas munições, porque logo, logo, confraternizávamos. Por aqueles primeiros dias, aprendemos a saudar com a continência de antebraço dobrado e tacão do calcanhar direito a bater estrondosamente no tacão do esquerdo; e ensinaram-nos também que todos eram “nossos”, quando inferiores na hierarquia, como os soldados, os cabos, os furriéis e os sargentos; já não o comandante, o capitão e o alferes, que deviam ser saudados como “meu”, como se nos apropriássemos deles. Mas isso era a verdade ao contrário: nós é que éramos aprisionados nos tiques, nas maneiras e nas “ordens unidas”, inventadas para a tropa mostrar quem manda, sendo determinante

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que alcançássemos, de um relance, quer pelas divisas (classe de sargentos), quer pelos galões (classe de oficiais), o posto de quem se cruzava connosco. Em princípio, não eram admissíveis erros grosseiros. Risadas e piadinhas havia sempre, se nos enganávamos no posto, mas éramos perdoados com a indulgência que os primeiros dias consentiam e por causa do nervosismo que intuíamos em todos quantos ocupavam postos de responsabilidade no quartel. Entre outros haveres e amuletos, levara comigo um pequeno transistor a pilhas, que escondia num dos bolsos interiores da farda “de trabalho” (tecido folha de zinco...), porque era, já então, “viciado em notícias”. Farda que tinha vestido pela primeira vez na vida, já desprovido do cabelo comprido que tinha usado antes, na vida civil, e que me causou um arrepio, quando resolvi olhar de soslaio para o espelho partido que havia à porta dos lavabos colectivos: o raio do espelho tinha para aí um quarto do tamanho original, mas permitia uma visão vertical do corpo todo, como que a dizer-nos que, por enquanto, estávamos “inteiros”. Sabia-me feio, mas a farda agravou a situação e tive vergonha de mim mesmo, assim desconsiderado e humilhado, repetindo outras humilhações do dia da chegada. Estivéramos completamente nus, para aí uns 30, em fila indiana, numa sala onde nos revistaram, um a um, e nos tiraram sangue para análises, bem como para despiste de doenças venéreas, para cuja “descoberta”, a olho também nu, o médico de serviço utilizava, além do olhar, que já incomodava, também a apalpação e o esticanço do prepúcio, dizendo ao que vinha. Nem a todos conseguiu completar o “trabalho”, por razões óbvias. Simplesmente degradante. A primeira formatura do dia 25 era na parada mais pequena do rés-do-chão e estava marcada para as 7 da manhã, antes do pequeno almoço, após o compor de lençóis e de mantas, a que se chamava “fazer a cama”, e depois da higiene dos dentes, da cara e da barba feita, bem como dos sovacos, quando não havia tempo ou chuveiros disponíveis para o banho (só havia

três). Afinal, íamos direitos para o exercício físico e tanto fazia, o que promovia imenso o sentido “humilhante” daquela vida a que me tinha de habituar, desse lá por onde desse, quem sabe se a caminho de ficar estropiado para a vida que me restava ou de morrer até, por que não, antes de completar 30 anos, e deixar por cá a minha prole e ser chorado como morto “em combate.” Como dizia o regime fascista de então, “pelo menos morreu pela Pátria e devemos ter muito orgulho nele.” Ao saber, no noticiário das 7 da manhã, que o 25 de Abril estava, em todas as cidades do País, com a tropa na rua e nós no quartel, passei palavra a todos – e os nossos olhares faiscavam de alegria. Fiquei excitado, porque talvez me viesse a libertar da morte mais certa do que incerta, nos anos seguintes, mas também de imediato fiquei preocupado, porque a minha gente pairava em Lisboa e eu de nada podia saber e de nada podia informar. Soube, dois dias depois, que a minha mulher e sogra souberam do sucedido por um taxista, à tarde. “Bebi” tudo o que se ouvia do Posto de Comando da Pontinha, excitadíssimo, mas não me embebedei, como outros. Jamais esquecerei esse dia – que terminou, para mim, às duas da manhã do dia 26. Uma nova parada nos esperava, cinco horas depois, como se não tivesse havido... nada. E esse nada era muito – quase tudo.

Manuel Torres da Silva (Associado nº 1057)

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25 de abril

Uma manhã surgia, como tantas outras. O maldito despertador soava, cumprindo a ordem que lhe fora dada. Pouco lhe interessava se estaria ou não a aturdir os ouvidos e a deixar em sobressalto aquele corpo jovem a quem o sono e o sonho, por paradoxal que o pareça, noite fora, não deixaram repousar. O som estridente continuava. A ideia foi embrulhálo numa toalha de rosto e enfiá-lo, com raiva, dentro da mesinha de cabeceira. Mas não é fácil parar um pensamento que corre mais veloz que o próprio alarido do maldito. Ah! Se fosse hoje, ao seu sofisticado substituto, um Smartphone de última geração, saído da iluminada inteligência de Steve Jobs, seria fácil, com um leve toque táctil, silenciá-lo. Mas o Pensamento não pára. Como o vento, não pergunta se pode entrar. E as intensas e fortes emoções, por ele provocadas, transformavamse num outro mundo, dentro da própria consciência, misturando-se, numa espécie de novelo, sem ordem ou um qualquer plano. E o pulsar da Alma, embrulhada em desejos, saltava de um para outro, sem que pudesse fixar-se, por um pequeno instante que fosse, num desses desejos, avassaladores, dos últimos tempo. Mas eis que, com o soar repetitivo, do dito maldito, acontece o inaudito: o sonho, acontecido numa já longínqua infância, já é real. De repente, esse desejo, forte, lembrou-lhe que adolescentes, naquela manhã, a esperavam para uma aula diversa, caminhantes que seriam, até ao Parque próximo da escola. E a viagem, ainda que curta, daria lugar à escrita de um poema, onde cada um se poderia espraiar e brincar com as palavras, fazendo ou compondo, num jogo que jamais poderiam esquecer. Saltou, abruptamente, da cama, agradeceu e pediu desculpa ao que havia embrulhado, sem cuidado, na toalha ali deixada. Como de costume, atrasada, arranjou-se e correu, apressadamente, pela rua onde morava, virou à direita, rua Álvares Cabral, onde Cristina a esperava para apanharem uma boleia duma colega mais velha.

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Lembro-me bem. Não houve os carinhosos bons-dias, querendo dizer boas-vindas, para mais uma jornada, onde todos, mestres e alunos, todos aprendentes, conviveriam, na alegria, por vezes, alvoroçada, na tarefa contínua da descoberta do que é a vida. Ao contrário, a Cristina, com um ar de bem acordada, exprimindo-se atónita e receosa: de que soubera, num telefonema rápido, de instantes, do seu capitão, estagiário, em Mafra, que estalara uma revolução. Sem palavras, remetidas ao silêncio, apenas sentindo o ruído do marchar do carro que as levava, aguardando com ânsia, curiosidade e temor o que então se viria a revelar: na vetusta Ponte D. Luís, que atravessa o Douro, avistámonos, frente a frente, com soldados de fardas verdes, empunhando as suas espingardas e detendo-nos, de uma forma delicada, nada consentânea com o que era esperável, naquela época, para uma pequena inspeção ao veículo. Dali, seguimos, como de costume, com o mesmo destino: a escola. Já nas suas proximidades, todo o ambiente se tinha transformado. O Sol cada vez se espraiava mais e iluminava as ruas circundantes. Através da rádio, a população era convidada a manter-se em casa. Uma revolução havia estalado em Lisboa. Os rostos dos pais dos alunos que, depressa, vieram buscar os filhos, exprimiam grande comoção, espanto, receio, medo do desconhecido, dum certo nevoeiro que pairava sobre nós, portuguesas e portugueses. A Direçao decidiu encerrar a escola, como foi, aliás, a medida geral, tomada pelas instituições públicas. Nós, colegas, na sala dos professores, freneticamente, ouvíamos as notícias. Explosões de alegria, gritos de liberdade, apenas por um pequeno grupo, com maior consciência política – uma consciência muito ténue, entre os jovens, já que o exercício da Cidadania não era compatível com a visão política da Ditadura que amordaçou Portugal, durante o Estado Novo. O grupo de amigos em que me integrava decidiu descer a Avenida da República, em Vila Nova de Gaia. E atravessar a Ponte, em sinal de

irreverência, declamando poesia, da que até essa data memorável se dizia em surdina ou em ambientes seguros da entrada da PIDE. E com o avançar do dia, as notícias iam confirmando um Golpe de Estado que pretendia derrubar o regime vigente, de partido único, de desigualdade social, de ignorância, de opressão e de ausência do bem mais nobre - A Liberdade. No dia seguinte, pela manhã, o MFA, Movimento das Forças Armadas, anunciou ao País o Advento da Democracia. Uma semana depois, foi o 1.o de Maio, Dia do Trabalhador, em todo o Pais, que se transformou numa Festa ímpar. Eu, com lágrimas profundas, incontidas, junteime aos milhares e milhares de portuenses que saíram à rua, transformando a Cidade num mar de gente, que gritava: O Povo Unido jamais será vencido. Uma frase identitária que marca a Revolução de Abril. Muitas trovas se fizeram e cantaram. Escusado será dizer que os alunos que preparavam o seu encontro com as palavras escreveram, dias depois, o poema de suas vidas: “A Liberdade que Abril nos deu.” Hoje, na crise que vivemos, com alguns milhões de desempregados, com o regresso da emigração, com o aumento da pobreza e das desigualdades, todas e todos, temos de declamar e de cantar, bem alto, as novas Trovas de Abril.

17 de março de 2014 Margarida Vilarinho (Associada nº 1065)

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abril

Um dia disseram-me que a liberdade estava na rua e eu acreditei. Vesti-me à pressa (era de manhã) e fui respirar a excitação das praças e ruas. Tudo o que tinha lido e ouvido sobre o homem novo e emancipado estava a acontecer. A vida era a confirmação dos textos e recomendações que me ocuparam na juventude. Portugal era um laboratório social. Esse Portugal, que ainda era um império, solicitava toda a nossa entrega. As manifestações festivas, ao ritmo de palavras de ordem, banhavam-nos de uma energia contagiosa. Sentimo-nos o centro de um universo construído pelas nossas próprias mãos. Não queríamos saber o que pensavam os contras, os reactivos, os neo- adaptados, os “velhos do restelo”. Discutíamos alto valores e princípios, com uma lógica implacável, toda traçada a regra e esquadro. Dei por mim em cruzadas inflamadas contra um exército de infiéis, escudados por inúmeras bandeiras. Deitava-me extenuada. Havia tanta coisa a fazer e a mudar! Começava a compreender o que teria sido o despotismo iluminado. Só as vanguardas são esclarecidas e fazem a história. Passados uns anos, olhei pela primeira vez para trás. E ri-me do meu entusiasmo e paixão. Continuava a sentir o peso da nossa história recente nos meus projectos de vida. Mas fui criando um certo distanciamento crítico. Às vezes demasiado crítico e selectivo. Os meus modelos, menos endeusados. Alguns procurei esquecer e até desprezar. Eu estava a mudar a minha pele e a ficar sozinha. A procurar, por mim, o certo e o errado. O bem e o mal. E isto foi uma tarefa gigantesca. Como fui tão cega, ingénua e manipulada. Como era burra… – disse-me um dia um iluminado. A família e a profissão empurraram-me para dentro de mim. Foram tão absorventes como a ideologia socializante da revolução de Abril. Por elas cresci e amadureci até aos dias de hoje. A revolução coincidiu com o meu despertar para o mundo. Juventude e Abril navegaram no mesmo barco. Foram indissociáveis. Como podia não ter sido apaixonada? O que teria

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o meu 25 de abril (e as origens) sido Abril para mim, se não o apanhasse no momento exacto de muitas transformações cruciais? As experiências vividas, boas e más, ensinaram-me a ler o mundo. A aprender o sentido das coisas. Essa foi a maior lição de vida. Como diz a Herta Müller, tudo o que eu tenho trago comigo. Mas há sempre mais e mais desafios. Não estão centrados em Abril mas no «país das últimas coisas» – que Abril tanto transformou, para o melhor e o pior. E sobretudo nos desafios do nosso planeta. Acho que chegou a hora de pensarmos seriamente no que nós, enquanto humanidade, estamos a fazer ao nosso planeta. É a revolução que falta fazer.

Maria da Graça Arnaud Pereira (Associada nº 5395)

Nasci em Angola, no velho continente onde teve origem a Humanidade. Angola era Portugal, diziam – e assim me ensinaram na escola primária do Estado Novo, onde havia poucos meninos negros, mais alguns mulatos e a maioria eram brancos, “cabritos” (mestiços de mulato e branco) ou sem cor de “raça”. O livro da História de Angola que lá aprendíamos era delgadinho e começava com o Diogo Cão. “Diogo Cão”, Liceu Nacional, era o nome do liceu onde estudei do 1º ao 7º ano, depois de fazer o exame da 4ª classe e o exame de admissão ao liceu, com 10 anos. Também podia ter feito o exame de admissão à escola comercial e industrial mas, como era boa aluna, reservaram-me (não fui eu que escolhi…) um “destino melhor”. Tive muitos colegas brancos, alguns mulatos, e um único negro, no 7º ano. Devia haver muitos como eu, mestiça de branco e “cabrita”, mas não se reconheciam pela cor da pele. Sei que me matriculei como “branca de 2ª”. Como em Angola não havia Universidades, vim para o “Puto” (nome que os portugueses em Angola davam a Portugal) com uma bolsa de estudo, aos 17 anos, e acabei a licenciatura, em Ciências Biológicas, quatro anos depois. Durante esses quatro anos, vi de fora a nossa vida em Angola e concluí que, lá, vira pouco e ouvira mal. Convivi com muitos “ultramarinos” na Casa dos Estudantes do Império, que a PIDE fechou. Estudei muito, li muito, procurei perceber... Vi partir amigos que não queriam ir para uma guerra que lhes cortava a vida e achavam sem sentido – os que puderam e quiseram fazer essa escolha. Voltei para Angola e, durante quatro anos, fui professora no mesmo liceu onde andei, sem ter tido qualquer formação para isso. Fartei-me de estudar. Durante esse tempo fiz as “Pedagógicas” (julgo que foi esse o primeiro embrião do que viria a ser o Ensino Superior naquela cidade). Fiquei amiga de colegas e de muitos alunos com os quais ainda mantenho contactos. Vim para o Puto em 1967 e aqui se formou o meu núcleo familiar. Dei aulas num colégio que já não existe há muito, depois fui professora em Viseu,

na Escola Técnica, onde os professores não tinham dr., ao contrário dos do liceu, fossem embora licenciados (ou não), numa e noutro. E nunca mais voltei a ser “professora de liceu”. Fiz o estágio pedagógico, fui professora e formadora de professores… e foi nestas funções que o 25 de Abril me apanhou. Familiares meus vieram de Angola em 1975 e sei que para eles isso foi bem difícil e doloroso – também eles foram “retornados” (que raio de nome…), a maior parte sem o serem. O meu 25 de Abril de 1974 foi o 25 de Abril de milhares de cidadãos: uma alegria imensa, uma exaltação, uma vitória, uma comunhão – e até pareceu que foi assim para todos, mas não… Os GEPDES depressa deram origem aos sindicatos de professores – e a luta continuou, agora sem medos, pela melhoria das condições de trabalho e de vida, pela melhoria de uma educação para todos. Relembro a descoberta de tanta coisa nova, de como estudei, ainda mais entusiasmada do que antes, os avanços da Biologia, as novas Pedagogias, as Ciências da Educação (a que agora os cínicos chamam “eduquês”, não é? metendo no mesmo saco, para deitar fora, tudo o que não sejam exames e uns supostos rigor, exigência, excelência), procurando separar o trigo do joio, de como partilhei experiências, de como continuei, finalmente em liberdade, a tentar que os meus alunos fossem capazes de voar. Sim, a liberdade já passou por aqui… E agora? Agora tanto voltou para trás, tanto se perdeu… «Vivemos o fim do futuro?» (Zygmunt Bauman; ouvi em “O amor é…”, de Júlio Machado Vaz, com Inês Meneses: «… quem seremos depois disto»? 6 de Março). Não, não pode ser, a liberdade não pode ser a dos «silêncios consentidos» – a luta tem de recuperar as esperanças do 25 de Abril. Sempre!

Maria Júlia Monteiro Jaleco (Associada nº 1340)

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considerando

No dia 25 de Abril de 74, eu já estava a trabalhar. Era professora do Ensino Técnico e Profissional – e desde a faculdade que esperava e lutava por uma mudança na política e na sociedade. As desigualdades sociais eram uma teoria até ser confrontada com a realidade do tecido social que se sentava nas carteiras da Escola Técnica onde trabalhava. Quando as notícias chegaram, confundiram-se com um sonho e uma esperança. As dúvidas misturavam-se com as certezas. Por isso, quando o Salgueiro Maia surgiu tranquilo, trazendo nas mãos a democracia em flor… as lágrimas correram e as palavras soltaram-se… e foram estas:

Considerando que todas as flores têm direito ao sol. Considerando que as estrelas se acendem todas as noites sem autorização. Considerado que as cigarras fazem poemas sem censura. Considerando que o mar beija a terra sem proibição. Considerando que a orquestração da tarde é feita, sem programa, por todos os animais em canto livre. Considerando ainda que a vida é dada a todos os seres gratuitamente, sem consulta prévia. Considerando finalmente que o espaço e o tempo devem pertencer a quem dá as mãos gratuitamente, sem limitações: Eu exijo ao espaço em que nasci, Ao tempo que me leva, Ao patrão que programa a ternura: Direito a ter nas minhas mãos O beijo necessário, 46

uma linha no horizonte e nós A carícia quente A ternura que falta a toda a gente; O direito a prenunciar a palavra amigo E a comungar na Natureza todas as formas de certeza que nos garantam força no caminho… Direito a dar, sem a limitação que nos impõem preconceitos falsos. Direito aos teus olhos e aos meus, sem formas deturpadas de ambição. Direito a ser pessoa, deixando acontecer passos e encontros, nos caminhos traçados pelo devir. Direito a ser igual, a ser normal e condizente Com todo o Universo.

Maria José Dias Leite (Associada nº 1333)

Naquele dia 24 de Abril de 1974, nada de assinalável a registar. Um dia morno, de lufalufa, as preocupações habituais, os receios permanentes para quem tinha um irmão no Niassa, uns amigos em França, outros amigos e conhecidos entre os compatriotas presos em Caxias. Tempos difíceis que só não eram insípidos porque a tristeza de tudo tomava conta. De madrugada o telefone tocou insistentemente, não se calava. Acordámos sobressaltados. O meu pensamento foi para o meu irmão. Àquela hora, temi alguma má notícia relacionada com a situação de guerra no Niassa. Sentei-me na cama, pés para fora e tremia. Chegava-me a voz do J., lacónica, em sussurro – e tanto tempo que ele demorou para pousar o telefone! Voltou para o quarto – “parece que há militares na rua”– e ficou ali especado. Lembro-me distintamente de ter dito “só pode ser contra o regime”– e de ele me ter sustido o entusiasmo. E fui directa para a sala, rádio ligado, e ali a tremer de nervoso e de frio, à espera de qualquer coisa. Um ou outro estremecimento. Enquanto da rádio nada saía, telefonei para a minha Mãe e para duas amigas muito grávidas. Havia tropas, militares, movimentação na rua, tivessem algum cuidado. Dói-me não me lembrar com precisão da reacção da minha Mãe mas, pelo menos, sei que fui eu que lhe dei essa enorme alegria. Vieram os comunicados do MFA e, para mim, tudo era claro e transparente. Talvez naqueles minutos sem fundamento, o instinto a massacrar, uma vontade tamanha que no meu espírito não cabia mais nada. A equação era aquela, nunca houve espaço para nenhuma outra. O que se passava era contra o regime, como podia não ser?! Quis ir para a rua, ver e participar, mas o J. não concordou. Preferiu ir até casa do O.& E., dois prédios mais acima e aí encontrar o conforto de mais notícias, mais informação. Acabei por sair, à deriva, nem fiz nem vi muito. De repente, a alegria dissolvia-se na solidão. Mas sempre fui até ao Mercado do Matadouro e vi muita azáfama e muita correria e muita interrogação.

A meio da tarde, no Rossio, na companhia da minha Mãe, dentro do carro dela, à espera de notícias, até ouvir que o Carmo caíra. Tenho inveja de quem esteve no Carmo porque respiraram aquele ar e aquela emoção e aqueles primeiros instantes da liberdade prometida. A minha emoção e alegria nesse dia foram muito partilhadas com a minha Mãe e era sempre a imagem do meu irmão que estava connosco. Nunca tive dúvidas de que a queda do regime significaria o fim da guerra colonial – logo, o regresso do meu irmão, mais cedo ou mais tarde, o fim de um pesadelo. Ao fim do dia, em Entrecampos, a agarrar as últimas edições dos jornais. Olhar para aquelas páginas, o tumulto das notícias, o espanto das fotografias, as interrogações que nunca tínhamos colocado antes, as chaimites na Avenida dos Estados Unidos. E depois o jantar de confraternização em casa dos tios, a família vibrante, o silêncio a olhar para a televisão à espera de mais notícias que pareciam sempre poucas, o espumante chocho, guardado há muito tempo na certeza deste dia inicial inteiro e limpo. E a convicção firme de que a guerra acabaria, que os presos políticos seriam libertados. A antecipação de um futuro de que desesperávamos. Agora sei que podia ter gozado aquele dia com maior intensidade e emoção. Que podia tê-lo partilhado de forma diferente – mas a solidão já espreitava. Só não me derrotou porque a esperança, a gana de participar no futuro, não a deixou instalar-se. Vieram depois os dias mais memoráveis que guardo em mim, entre conquistas colectivas e individuais, num banho de liberdade e alegrias indizíveis, incontidas pelas portas que Abril abriu.

Maria Luísa Cabral (Associada nº 1364)

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com um brilhozinho nos olhos… Parece mentira que há uns meros quarenta anos eu era ainda um rapaz de apenas dezoito, cheio de vida, cheio de sonhos… Os sonhos egoístas de um caloiro do curso de Engenharia: sonhos de sucesso académico, de carreira profissional brilhante e motivadora, de viagens fascinantes e, claro, de paixões ardentes. Mas também de sonhos solidários: o sonho do fim da ditadura, do fim da guerra em África, do fim da pobreza endémica, do fim do analfabetismo, de uma distribuição mais equitativa da riqueza, enfim de uma vida melhor e mais digna para todos… Quando o telefone tocou, estava ainda a gozar de inesperado mas bem-vindo bónus de relaxamento matinal, pois apenas após o almoço teria a única aula do dia, uma aula de Química, curiosamente na então Faculdade de Letras, que o incêndio de há cinco dias na Faculdade de Ciências, a par de um inusitado mas natural ajuntamento de estudantes e simples curiosos à volta dos “Leões” ainda antes das 8:00 da manhã do dia 20 de Abril de 1974, provocara um tal grau de destruição que impossibilitara a maioria das aulas que lá se realizavam. Relutante, dirigi-me ao telefone de onde saiu a voz, bem baixa, da minha mãe: “Não saias de casa hoje, Toni” “Não saio de casa, mãe? Mas por que raio…? “ A minha mãe olhou cautelosamente em redor (ou foi essa a imagem que criei e gravei na minha memória) e sussurrou ainda mais baixo: “Houve um golpe de estado” “Um golpe de estado? OK, mãe, está descansada” Desligando o telefone de imediato, dirigi-me para a janela da varanda que dava para a praça Velasquez. Nada de anormal, na avenida carros para cima e para baixo, como sempre… Vesti-me rapidamente e fui até ao café, sentando-me com os amigos que já lá estavam e os que iam chegando, nas mesas mais

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alinhadas com a rua do Monte Aventino, de onde costumavam sair os carros de água e outras maquinetas que a GNR e a PSP habitualmente utilizavam para dispersar as manifestações. Mas, nessa manhã, népias de movimento… Vai daí, resolvi almoçar rapidamente e ir para a faculdade, a ver se havia ou não a tal aula de química. Não me lembro se fui no 78, se no 106, 6 ou D (há sempre puristas da precisão, mesmo quando esta nada acrescenta); só que, chegado à Faculdade de Letras, era óbvio que não haveria aula nenhuma, pelo que fui até ao “Piolho” e daí para a “praça” e Avenida dos Aliados, pois era lá que se tinha que estar. Já não me recordo de todos os pormenores desse dia mágico, das sucessivas edições de jornais que saíam como fornadas de pão quente e eram “roubadas” pela multidão ávida de novas, pois afinal era em Lisboa que tudo se passava, da incipiente manifestação que se formou aos gritos de “Marcelo, fascista, assassino”, da carga da polícia de choque (de certo mal informada), da correria e da protecção no café do costume, em Sampaio Bruno, onde se passava o tempo a jogar “snooker”, até lá fora estar seguro outra vez. O serão em casa, a ver pela TV as notícias do dia e os seus desenvolvimentos, a leitura do comunicado do Movimento das Forças Armadas, as horas passadas a discutir e comentar com os amigos que, tal como eu, não respeitaram as instruções de “recolher obrigatório”, debitadas sem convicção pelos megafones de um ou outro jipe… Depois o cerco à PIDE na rua do Heroísmo, no dia 26, e os dias de euforia e ingénua esperança até à imensa manifestação do 1º de Maio, que marcou como que um fim de festa, ao observar depois tantos, anteriormente (pelo menos para mim) notórios fascistas ou meros fascistóides, adornados com as cores e símbolos do MDP ou do PCP… Sobrou-me, como resumo desse dia, a

ingenuidade do “Biba o general Imberto Coelho”, gritado à exaustão por um rapazito pendurado numa das árvores, que só veio a ser superado pelo “Renato vadio” quando, uns dias depois, regressado de Custóias (onde fora parar por andar a gamar uns auto-rádios para os “meninos queques” das Antas), não se cansava de dar vivas ao ”general Spírula que lhes deu a anestesia”…

isso importante defender o que ficou, para que não se perca outra vez, é por isso importante dizer como era, para que nunca mais torne a ser.

Neri Moreira

Tantas histórias, com mais ou menos graça ou sem graça nenhuma, nos anos seguintes na Faculdade de Ciências e, depois, na de Engenharia, as RGAs, as tardes de discussão acesa no “Piolho”, as sucessivas manifs e anti-manifs, os namoricos, o fim do curso, a procura de emprego, os anos de trabalho aqui e ali, com maiores ou menores sucessos e fracassos, anos que se foram somando uns aos outros e que foram passando até terem por fim acabado – a história igual a tantas e no entanto única, por ser a minha… Passados então quarenta anos, os dezoito de então parecem tão longe mas parecem ser de ontem. Olho com atenção para a imagem cansada que o espelho agora reflecte e, fixando bem, consigo ainda encontrar lá no fundo, bem escondido, o rapazinho de 18 anos e um mundo de sonhos. Estes foram-se esfumando, soprados por uma realidade mais dura, mais triste. No entanto a guerra acabou, os povos das colónias puderam (puderam?) escolher os seus destinos e os nossos jovens puderam voltar a planear o seu futuro, a liberdade ficou, pelo menos até ver. Mas a pobreza voltou, essa em força, bem como a iniquidade na distribuição da riqueza, que nunca foi mais gritante, e a esperança de dias melhores, essa coitada, já quase morta. A revolta cresce, cresce, mas não resolve. No entanto, ficou também, bem forte, o mais importante, e deu fruto – e, nos seus olhos, vejo vibrante o brilho dos sonhos. E é por isso fundamental a lembrança, é por

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abril – 40 anos

o meu 25 de abril

São incertos os ventos; vai oscilando o mastro; As ondas em revolta abrem o abismo e o breu. Rodopia sem rumo – a barca perdeu o lastro; Não há flat no mar; nem há luzes no céu.

Embora garota, ainda, não me poderei esquecer, por mais que viva, do dia 25 de Abril de 1974 tinha 17 anos. Fui acordada, em alvoroço, pela minha mãe que me dizia tocar na rádio, sem parar, uma marcha militar. Os telefones não funcionavam e fui liminarmente proibida de sair de casa. Como boa rebelde que sempre fui, fugi, indo ter com uns amigos para tentar perceber o que se passava. Na cidade do Porto, aparentemente, tudo calmo. Aqui e ali comentava-se um golpe de estado que estaria a acontecer em Lisboa, levado a cabo pelos militares. Voltei para casa antes que dessem pela minha falta. Ainda sem perceber que militares estariam a derrubar o regime (depois da tentativa do golpe das Caldas, falava-se no Kaúlza de Arriaga), só me lembrava do meu irmão, a cumprir o serviço militar obrigatório, em Bigene – Guiné. Será que ele sabia alguma coisa? Estaria a acompanhar os acontecimentos? E nada lhe podíamos dizer… que pena… Quando se começou a entender o que se passava, colamos os olhos na televisão, e os ouvidos na rádio, até doerem. Finalmente, já noite, a televisão emitiu a declaração da Junta de Salvação Nacional, pela voz do General Spínola. Estávamos salvos!

Já vai longa a viagem, aos acasos da sorte; E é escasso o talento dos capitães ao leme. Voga a barca sem tino, sem destino nem norte; Quando estremece o casco, até a alma teme. Quando a barca partiu, partiu dum cais em festa; Tinha o vento a favor, tinha o sol de feição. Mas veio a tempestade, as febres do suão; E o mesmo Adamastor, a mesma antiga besta, Refulgindo no escuro de uma luz febril, A cabeça grotesca, o corpo enorme e torto, Volta a querer engolir, apesar de estar morto, Marinheiros e barca, fechá-los no redil. Mas também desta vez chegaremos a um porto. Nem mil águas nem medos nos levarão Abril.

Henrique Rodrigues (Associado nº 574)

Hoje, olhando para trás, custa-me a entender o presente. Como foi possível desbaratar tanta boa conquista, como foi possível tal regresso?!

Manuela Vilarinho (Associada nº 11)

Para a minha (nossa) alegria ser completa, faltava o meu irmão. Aquele bocadinho de nós, que amamos incondicionalmente, estava ausente desta festa. E veio o 1º de Maio, sem incertezas de que o antigo regime tinha sido derrubado. Era hora de almoço e tocaram à campainha. Espreitei e só consegui ver umas pernas, com farda militar, e um enorme, mas enorme ramo de cravos vermelhos que tapava a figura da cinta para cima – era o meu irmão! Estava completa a minha (nossa) alegria: liberdade conquistada e família junta. Que mais podia eu querer, de cima dos meus 17 anos?

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o meu 25 de abril

Sempre vivi em meio militar; por isso uns tempos antes do 25 de Abril eu sabia que ia acontecer qualquer coisa. Havia problemas que se discutiam com mais ardor; a ideia de que as Forças Armadas cumpriam as suas missões com sacrifícios incalculáveis pela sociedade e que os políticos não aproveitavam as situações mais controladas, iniciando uma solução para a situação das ex províncias ultramarinas vinha quase do princípio da guerra, mas começava a ser insuportável para todos os que viviam o vaivém para o ultramar. O ambiente era de conspiração; lembro-me de certo dia ter ido a casa de um camarada e amigo do meu marido visitar a mulher dele, uma vez que ele se encontrava preso depois do golpe fracassado de 16 de Março, e ter subido no elevador com um sujeito mal encarado que se mantinha à porta da rua e subia com ar intimidatório quando percebia que as visitas se destinavam à casa desse militar; era da PIDE. Mas eu não tinha medo, antes pelo contrário, a adrenalina subia, sentia um prazer estimulante porque tinha a certeza de que eram sinais de que algo ia acontecer e isso criava em mim uma expectativa positiva que me dava prazer. Eu precisava daquela adrenalina porque depois de 16 de Março tive medo que tivesse acontecido apenas mais uma tentativa frustrada. Mas, no dia 24 de Abril, o meu marido disse-me que no dia seguinte ninguém sairia de casa e que ele não sabia quando voltava. Pronto, é amanhã, pensei e fiquei à espera, enervadíssima… E foi!! Foi um dia glorioso, o dia 25 de Abril de 1974! Parecia que o mundo se tinha aberto para todas as possibilidades! Na semana que se seguiu, sobretudo até ao dia 1 de Maio, o ambiente nas ruas era de festa, de alegria, de cumplicidade. As pessoas olhavamse, cumprimentavam-se e sorriam umas para as outras. No ar, a esperança pairava sobre nós e salpicava-nos com doçura. Nunca mais voltei a sentir essa ”atmosfera” maravilhosa que se viveu na semana que se seguiu ao 25 de Abril e que culminou no primeiro de Maio, outro dia

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pelo sonho é que vamos

inesquecível, em que povo saiu à rua e a paz e a alegria reinavam por todo o lado. Depois começou a revolução a desenvolver em simultâneo com o aparecimento dos partidos. O PS e o PCP já estavam praticamente no terreno, mas muitos outros foram aparecendo começando pelo PSD, que tendo então um programa nitidamente de centro esquerda era considerado fascista, porque até ao aparecimento do CDS albergava as pessoas mais à direita, o que lhe veio a causar muitas perturbações. Foi uma época de construção, de discussão de ideias, de afrontamentos, de militância genuína, de luta. Nas famílias, chegava a haver pessoas de todos os partidos; as reuniões eram infindáveis, sobretudo em Lisboa. Logo a seguir aos partidos, foi a vez de se desenvolverem as forças sindicais. Também o sindicalismo tem ideologias diferentes, de forma que lá começaram outra vez as infindáveis discussões e cisões, que acabaram por dar origem ao actual espectro sindical. Os militares cumpriram o que tinham prometido e hoje temos uma democracia instalada, não muito velha mas já com idade para ter juízo, que não tem tido. Muitos portugueses mais jovens não sabem o que comemoramos no 25 de Abril e noutras datas, pilares da história do seu país, o que é lamentável. A Escola Portuguesa tem obrigação de não deixar passar estas datas como dias em que se faz ponte ou se vai para a praia… pois por trás de cada um destes dias, geralmente feriados, houve heróis, mortes, sacrifícios, que portugueses convictos da sua razão arriscaram para que a civilização avançasse e nós pudéssemos fruir de melhores condições e mais dignidade nas nossas vidas. Tenho muitas saudades desse tempo, um tempo de bom companheirismo, um tempo em que estávamos convictos da nossa utilidade na sociedade. Se eu não tivesse vivido tão intensamente esse tempo, era hoje com certeza muito mais pobre. Teresa Rio Carvalho (associada nº 1437)

(…) Por entre a confusão e a insegurança passou então um vendaval fortíssimo de mudança porque os professores tinham descoberto dentro de si forças até ali desconhecidas ao mesmo tempo que se davam conta da necessidade imperiosa de exorcizar as escolas do seu tenebroso passado. Por isso arregaçaram as mangas e deitaram mãos à obra. Apearam das oficinas velhas fotografias cinzentas, das paredes tapeçarias empoeiradas que eram autênticos monumentos aos anteriores princípios da educação feminina e organizaram alegremente verdadeiros autos-de-fé nos recreios, ateando fogueiras nas quais empilhavam velhos mostruários foscos, entupidos de toupeiras, milhafres e raposas de olhos de vidro que conheciam desde a sua própria infância. A seguir subiram a escadotes vestidos de roupas velhas e cantando as músicas do Zeca transformaram escolas inteiras em montanhas de brancura sem a mínima mácula do passado. A seguir às escolas, a necessidade de mergulhar nos problemas dos bairros fê-los atirarem-se com o mesmo furor sagrado à recuperação de velhas instalações que vinham mesmo a calhar para associações de moradores, para creches ou cantinas e aí os moradores dos bairros, entusiasmados, juntaram-se, aos fins-de-semana, de balde e pincel na mão, o que aumentava a balbúrdia mas trazia a grande vantagem de assegurar a qualidade da obra. Substituíram cacos de vidro nas janelas por vidros intactos, colaram os tacos do chão, refizeram paredes esburacadas, e chegaram ao ponto de construir mobílias rudimentares porque o lema “pé na tábua e fé em Deus” passara a estar presente em todos os corações embora naquela época parecesse que Deus tinha sido substituído por uma confiança inabalável neles próprios e na vida. Quando o restauro estava concluído havia inaugurações triunfantes com festa rija que incluía banda de música, discursos eufóricos muito aplaudidos e sessões políticas nas quais um convidado de honra (…) era ovacionado aos gritos, todos se entusiasmavam e comoviam com o mais pequeno nada e a festa acabava

invariavelmente ao som da Grândola que se tinha transformado numa variante temporária do hino nacional. Quando se lembraram que podiam aproveitar as novas instalações ainda a cheirar a tinta fresca, para à noite organizarem sessões de alfabetização para os operários e mães de família que não conseguiam juntar duas letras, deitaram de novo mãos à obra. Reuniam-se quatro professoras do mesmo grupo para preparar as aulas, seguindo entusiasticamente à risca os ensinamentos do recém descoberto guru brasileiro da alfabetização revolucionária. Deparavam-se com dificuldades sem conta porque não havia professoras primárias no grupo, todas tinham pouca prática de ensino e a boa vontade comovedoramente correspondida pelos operários cansados nem sempre era suficiente para alcançarem bons resultados. Aos poucos começou a ser evidente que se por um lado não tinham preparação para ensinar as primeiras letras, por outro não havia Paulo Freire que acudisse àqueles alunos e às suas professoras igualmente precisados de dormir depois de um dia extenuante de trabalho e emoções. Uma das professoras tinha um bébé de meses e carregava a criança para a “escola” juntamente com a saca das fraldas e o biberão cujo leite aqueciam num bico de gás trazido pela aluna mais aplicada, uma rija avó de muitos netos. E era um regalo ver aquele estranho presépio cheio de embevecidos pastores em festa, curvados à volta do Menino Jesus sorridente, esperneando e palrando em cima de uma mesa esbotenada, aconchegado num ninho de cobertores cinzentos trazidos pelas mães de família do bairro e rodeado dos velhos brinquedos recolhidos entre todos e que agora durante o dia entretinham as crianças da freguesia.(…)

(Excerto de Inventário Frente ao Espelho) Teresa Saavedra (Associada nº 5058)

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Design: Francisco Soeiro

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