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/fevereiro/março 2014

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joão rodrigues

MNMC Blind Zero Luxemburgo Joana Astolfi Rio do Prado •••


editorial /diretor João Pedro Rato joaopedrorato@mutante.pt /edição Patrícia Serrado patriciaserrado@mutante.pt Sara Quaresma Capitão saraqcapitao@mutante.pt /direção de arte João Pedro Rato /colaboradores nesta edição Andréa Postiga Dulce Alves Helena Ales Pereira Hernâni Duarte Maria Maria Pratas Susana Carvalho /fotografia Bruno Pires David Fonseca Inês Prazeres João Pedro Rato /ilustração Andréa Ebert Marta Nunes /FOTOGRAFIA CAPA João Rodrigues por João Pedro Rato /TIPOGRAFIA Leitura • www.dstype.com /redação rua Manuela Porto 4, 3º esq. 1500-422 Lisboa info@mutante.pt www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt www.facebook/MutanteMag Mutante é uma marca registada.

Normal: um editorial. Mesmo para nós, Mutante(s). Assim, trazemos até vós a nossa normalidade que, normalmente, vos cativa. Ouvimos música com gente vetusta, com jovem banda, com duo já bem conhecido. Fizemos colagens Made In Portugal e sempre na moda. Analisámos o design nacional em madeira e fomos onde o português é tão falado, sem ser em Portugal. Daqui ao lado, numa visita a certa capital, escreveram-nos um relato que só apetece ir e fazer igual, e como se não fosse suficiente, alguém nos traz memórias de uma pérola de encantar, também daqui do lado. Depois, mergulhámos na arte exquisite de um mundo original e... invertemos, de seguida, o mundo de duas pessoas e novas imagens, trocadas, se criam. Arrumamos a casa após a troca e decoramos com toda a personalidade pois, temos de receber desenhos de Nenhum Sítio que são do coração e câmara, luzes, ação... Pausa para um clássico cinematográfico, no Bairro. Acabado o cinema, vamos de carro novo a caminho para fotografar, sem parar, com máquina a preceito e sem defeito. E há que repor as energias, há que sentar e deliciar as palavras de chefs, três, que é a conta que Deus fez, para no fim, bem no fim, termos o descanso merecido, no meio da natureza. Ah! O normal seria dizermos nomes, mas... ser Mutante é ser normal?


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/normal /fevereiro/marรงo 2014

04 move /Blind Zero /Birds are Indie /Mler Ife Dada

26 unique /Made in Portugal /Urze /Wewood

38 travel /MNMC /Luxemburgo /Madrid /San Sebastian

68 art

/Joana Astolfi /Rita Carmo & David Fonseca /Anna Westerlund /Marta Nunes /Sala Escura /Susana Carvalho

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/joรฃo rodrigues /Mercearia Gadanha /Atitude: Carlos Kristensen

94 now /BMW i3

126 experience /Rio do Prado


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Blind Zero XX 20 Vinte... Descartes ensina no “Discurso do Método”: começar do mais simples para atingir o mais complexo. Comecemos do zero, do ano zero e surge o receio. Não se trata de abordar uma nova banda ou álbum nacional. No horizonte, a descer umas escadas de Serralves, veteranos com 20 anos de música, palcos, banda. 20 anos que se tornam num verdadeiro master mind onde se clama por memória. E tudo se apazigua quando um, dois, três, quatro, cinco, se sentam para uma conversa acústica: estávamos sentados, com percussão ligeira de pratos que batiam no bar. Das horas de (boa) conversa, recorro às idas aulas de filosofia: o método (cronológico) será a estrutura. Sete álbuns de originais ditaram o percurso até hoje, dia em que me sento, em mesa redonda, com a corte Blind Zero. TEXTO Sara Quaresma Capitão Fotografia Carlos Gomes Blind Zero Miguel Guedes, Vasco Espinheira, Pedro Guedes, Nuxo Espinheira, Bruno Macedo Espaço Fundação de Serralves, Porto

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1994. Nasce uma banda, a norte: Blind Zero. Não foi ontem, mas quase. Ainda se lembram do dia em que decidem “este é o nosso nome”? Foi no dia 29 de Janeiro, de 1994, e eram quase umas 11h00! Sabemos ao pormenor. Tínhamos uma lista de nomes, mas foi o Miguel que o criou. Foi uma escolha fonética e nunca houve nenhum sentimento de arrependimento em relação ao nome. É um nome aberto, que foi feito propositadamente assim. Se disseres Blind Zero não pensas, necessariamente, numa banda rock, metal, pop... é Blind Zero. 1995. Ano me que puxaram do “Trigger” e deram o disparo certeiro, com bala de ouro. Memória(s) viva(s) do momento em que editam o primeiro LP? Memória de há 20 anos, volta! (risos). Há 3 memórias. Uma, que são os concertos que levaram a gravar o disco numa sala para, aproximadamente, 200 pessoas. Para uma banda com poucos meses foi uma sensação de doidos e de ‘isto está a fazer sentido!’. Foi incrível. Segundo, o termos conseguido trazer um produtor de renome internacional. Ainda nos lembramos de estar no aeroporto, à espera, e vermos o Ronnie Champagne a chegar. Para uma banda de miúdos: uma emoção tremenda. Foi 6

marcante e a paciência que o senhor tinha connosco! Terceiro, o momento em que passa pela primeira vez na rádio. Fomos chamar os nossos pais e… ‘está a passar nada, é a vossa K7’. Tivemos de abrir e mostrar-lhes que não tínhamos lá K7 nenhuma. E, no fim, aquele elogio quando acabou de passar a música. Afinal têm memória, mentirosos. Estamos velhotes, tens de nos puxar pela memória e há outro momento! Quando nós decidimos parar o trânsito


em Santa Catarina! Isso é 1997... (alerta o senhor da voz). Ah pois é! Vês, a memória. No nosso tempo... (risos). 1997. “Redcoast” Repetem o sucesso e depois de Ronnie S. Champagne - produtor, aliam-se Michael Vail Blum – produtor, e Mark Wilder - masterização. Como consegue, uma banda nacional, chegar a estes senhores nos idos 1990? Na altura, a indústria tinha dinheiro e era possível convencê-los, não só pagando pouco, mas também porque para

eles era a experiência ultramarina. Nunca tinham vindo a Portugal e ouviam o som de uma banda portuguesa que gostavam. Eram todos grandes nomes da indústria da música americana. Para eles era uma curiosidade e para nós uma dádiva, e na altura achámos que devia ser um produtor americano. Convencia-se como? Dizendo ‘venham cá passar uma temporada e conhecer uma banda que vocês gostam’. Claro que passou, também, pela nossa atitude. Apesar de muito jovens, sabíamos o que queríamos MOVE

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fazer, podia ser o caminho certo ou errado, mas era aquele que queríamos. Não tínhamos medo de arriscar e ligar... Sim, não esquecer que tinha de ser por telefone, não tínhamos internet. 2000. É “One Silent Accident”, one loud LP. Nome firmado. Mudança de século e em 20 anos na cena musical, quem convidariam para tocar, convosco, uma música deste disco? Os ídolos nunca mudam, podemos desiludir-nos com eles, mas… temos a discografia completa de vários artistas e há discos que são discutíveis, outros que são brilhantes. Os músicos que gostávamos na altura continuam a ser os mesmos. Se chamássemos alguém, para uma música, que teria de ser bem escolhida, teria de ser o Bruce Springsteen ou o Tom Waits, para a “Hell Around”. Alguma vez tentaram? Não. (risos). O Tom Waits nunca vem a Portugal, quanto mais vir tocar connosco. Bom, na verdade tivemos várias colaborações no primeiro disco. 2003. Ano de “Way To Bleed Your Lover”. Ano MTV/ EMA para Best Portuguese Act (primeira banda a ganhar o prémio). Ano de grande proximidade com o público na “Tour de Force”. E no 8

fim do ano, álbum considerado disco do ano por parte da imprensa especializada e eleitos melhor Banda, ao vivo, 2003. Ano pleno. Até que ponto teve, a MTV, um papel importante na história dos Blind Zero? O prémio trouxe algum reconhecimento e algum afago ao ego. A MTV, na altura, estava a abrir em Portugal e todo o conjunto teve essa significância que nos marcou bastante. O que sobra disso, além de alguns concertos, foi o termos conhecido pessoas para mostrar a nossa música lá fora, o disco editado em 12 ou 15 países… foi muito interessante. Entretanto a MTV transformou-se e nós idem, sem que houvesse uma relação direta entre MTV e Blind Zero. Foi mesmo um ano muito bom, com MTV e a “Tour de Force” que foi a nossa última coisa verdadeiramente infanto-juvenil, uma tournée por todas as capitais de distrito, em todo o tipo de condições. Foram 21 concertos em 30 dias! Depois, a MTV especializou-se em algumas coisas e nós continuamos especializados só em música, (risos). Outra nota importante, foi o primeiro ano que trabalhamos com um produtor português, o Mário Barreiros, e convidamos para o disco o Jorge Palma e o Dana Colley (ex-Morphine).


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2004. Mês de Março: “Concerto Especial 10 anos”. Irrepetível, muitos convidados, temas únicos. A pergunta, no fim. 2005. Considerado um dos vossos melhores álbuns “The Night Before a New Day”, tendo “Shine On” sido a primeira música de uma banda portuguesa a ser raptada pela Playstation para publicitar um novo jogo – “Tekken 5”. Playstation & Blind Zero? Nós levávamos a Playstation para os nossos concertos e gostávamos do jogo. Espera, não foi o 3? Não. Foi o 5... A memória... A ligação ao produto, o estarmos associados a um produto, não nos faz mossa pois a música não foi criada de propósito para o jogo e quando assim é, não nos faz impressão, nenhuma. Quando as coisas são nossas e depois são apropriadas por marcas, não faz confusão desde que haja, claro, o nosso consentimento. E, se não falha, de novo, a memória, recebemos os jogos e uma PS. Nós crescemos a jogar jogos! (risos). “Shine On” marcou-nos muito, foi uma música muito bem recebida, com um videoclipe único.

2010. Com o single “Slow Time Love” houve uma pausa até lançarem “Luna Park”. Um álbum que foi tocado na Musicbox, Casa da Música, reabertura do HardClub, em suspenso a 10m do chão, num autocarro pelas ruas do Porto, sem esquecer o acústico. Vocês já pisaram diversos tipos de palco. Qual foi o inesquecível? Primeiro, nós mentimos. Dizemos às pessoas que é acústico, mas o que queremos dizer é sentados, (risos). Tem de ser o suspensos do chão. Foi um super concerto, que não se voltou a repetir, nem sabemos se algum dia alguém irá repetir. Nunca imaginamos que conseguíssemos tocar a 10m do chão, e que se conseguisse cantar, literalmente, virado ao contrário. Nós só tínhamos duas informações: quando é que íamos subir, no inicio do concerto, e quando íamos descer, no fim do concerto. Sobre o durante, não sabíamos nada, mas fizemos alguma coreografia e ah!, o caricato. Nós tínhamos nos pedais a dinâmica da distorção e as mudanças de tom no refrão, onde deveríamos tocar nos pedais e os pedais estavam a 7m de nós, lá em baixo, logo... o som ficou sem pedais.

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Não esquecendo o Miguel que se balançava, de um lado para o outro, na “Hanging Wall”. No dia a seguir, o engenheiro perguntava ‘mas o que é que tu fizeste, Miguel?’. Ele tinha faltado a essa parte dos ensaios e o balançar mexia com estrutura. O Miguel podia fazer muita coisa, mas não aquilo. A coisa podia ter corrido mal. Porém, não correu. 2013. “Kill Drama”, último trabalho editado. Sem caírem na escrita panfleto não deixam de se expressarem sobre a vossa envolvente atual, basta ver a dupla leitura em “Down To The Wolves”: relação entre duas pessoas ou entre o homem e o seu pais. Num flashback, como veem, neste percurso de 20 anos, a música hoje, na sua globalidade? É música delete. Deixas de ouvir uma música e fazes delete. Estamos a viver uma geração de colecionismo, de arquivadores de música. Todos têm tudo sobre tudo, nem sabem direito o que têm, não dão valor. A web tornou a música descarregável e descartável, perdeu uma certa nobreza. Ainda te lembras do primeiro disco que compraste, mas não te lembras da primeira coisa que ouviste no Spotify. Não ouves direito um disco, estás a ouvir aquilo e a pensar no que vais ouvir a seguir, não repetes. O ritual de comprar um vinil, de o ouvir sem parar durante a pri-

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meira semana… perdeu-se. Somos felizes por não termos nascido nesta época e sim numa época em que a música era objeto de culto, de quase peregrinação. Era a religião que nós não tínhamos. A religião do vinil, de gravar em fita, das rádios piratas, das tribos… e isso definia tanto a música. Essa definição era tão mais interessante do que agora. Lá está, começámos noutro tempo e isso torna-nos felizes. Neste momento, tu


vês sonoridades interessantes em muitos sítios, tudo ótimo. Só que houve uma banalização tão grande, muitos projetos poucas bandas, e começa a ser tão confuso que o que aparece nem tem tempo de maturar, é exposta e pronto já está. Demasiada oferta, demasiado acessível, perdeu um certo valor e interesse. A arte globalizou-se e ponto final. Mas ainda há muito boa música, claro.

2014. “Concerto Especial 20 anos”. Onde e quando? É este ano (risada geral), mas não há agenda definida. Há um projeto. Fazemos anos dia 29 de janeiro, mas não festejamos tudo no dia, talvez tomemos um café. Vamos fazer festa e vamos obrigar-nos a comemorar os 20 anos, com música e com bolo! d

R www.blindzero.pt MOVE

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Birds are Indie Amor e algo mais... Sexta-feira. Final de uma tarde, de inverno. Noite, portanto. Aqui Base Tango aberto especialmente para um chá Mutante, com pássaros. Um deles vinha com lata de bolachas, caseiras – umas com nozes. E o que foi um jogo de perguntas e respostas, para vos dar a conhecer uns Birds de Coimbra, tem de ser aqui uma prosa. Com Birds, um novo álbum e chá(s) com cookies with nuts, não dá para entregar uma comum entrevista. TEXTO Sara Quaresma Capitão Fotografia carlos gomes Espaço Aqui Base Tango, Coimbra Birds are Indie Ricardo Jerónimo, Joana Corker, Henrique Toscano

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Tudo começou, nesta banda (ou bando, válidos os dois substantivos), com o duo amoroso Joana + Jerónimo, sabem como é, when a boy meets a girl. Depois, em ponta dos pés, disfarçadamente, vão passando a trio. O que gosto de chamar uma adoção legal do Henrique. Isto porque “foi uma coisa natural, não houve propriamente um momento em que disséssemos: a partir de hoje somos um trio. O Henrique já era nosso produtor e começou a tocar mais regularmente connosco no, e após, o primeiro álbum, em 2012. Com a gravação começou a criar-se uma habituação a estarmos os três juntos, ele a tocar uma música ou outra nos discos 16

e... surgiu o inevitável, ao vivo, num ido concerto em Coimbra. Tocou umas músicas. Agora, o estranho é ele não estar”. O álbum, de 2012, surge depois de uns EP’s, e com ele aprendemos que a música encaixa, na muche, no silêncio de um pássaro. Era editado “How Music Fits Our Silence”. O duo, agora trio - família perfeita, acreditem; a adoção segue afinada – foi batizado de Birds are Indie. Indagação inevitável. Sempre considerei os lémures mais indies que os pássaros, e embora o Henrique me tenha dito que “há lémures que cantam como pássaros”, só fiquei esclarecida quando o Jeróni-


mo disse que o rótulo indie “começou a ser usado como um adjetivo não só para música, mas para quase tudo – a tua camisola é muito indie, o teu gancho é muito indie...”, não que eles tenham algo contra a palavra. Eles têm uma ideia, muito própria, do conceito e, constataram também que “uma série de coisas que as pessoas diziam ser indie – posters, fotografias... – muitas tinham pássaros, então decidiram decretar que a única coisa que era indie, eram os pássaros. Uma espécie de provocação”. A Joana, para eu não me sentir só disse que me entendia, “as caudas dos lémures, são muito indie”, mas realmente nunca os vi em posters.

Posto as apresentações e denominações justificadas, um gole de chá(s), em chávena lilás e… a guitarra do Henrique é rosa, brilha, “veio do Brasil, oferecida pelo meu irmão”, e… há que falar dos instrumentos Birds. Para entendidos em ornitologia indie sabem que eles têm instrumentos que são aves raras, outros mais comuns periquitos. Na base, a guitarra acústica e o xilofone, e depois “são coisas que me vão aparecendo à frente, como o acordeão pequenino de criança. Comprei-o no Mercado da Figueira da Foz”. O Jerónimo confessa que o garimpar instrumental está muito entregue à Joana que continua, entre bolachas, a dizer-me que compra MOVE

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“instrumentos em mercados de velharias, em mercados e sites de venda de instrumentos em segunda mão... E quanto mais fora do comum, melhor”. Concluo, a guitarra faz todo o sentido, estético e sonoro – “uma guitarra rosa tem personalidade”. Estes Birds estão minados de uma curiosa diversidade instrumental, onde hoje encontramos uma comum bateria “talvez a tomada mais consciente, porque queríamos dar mais corpo às músicas”. No todo, têm sonoridade simples, sem gongorismos – “uma abordagem aos instrumentos, muito direta, muito simples, e o resultado é, inevitavelmente, simples” – e ao vivo, os instrumentos têm papel tão importante como no disco, conseguirá não reparar na Joana quando ela toca o pequeno acordeão? Sala quente do piano, luz difusa, chá(s) e tudo começou com um duo, “needless to say”. Construídas as melodias, urge preencher a pauta com lírica. O que à primeira leitura parece, apenas, amor, não é. É amor e algo mais. O fio condutor do novo álbum “é a relação entre as pessoas que pode ser de amor, de amizade, de indiferença, de saudade, de desapontamento...”. É um exercício musical 18

sobre o ser humano e as suas (inter)relações com outros e o seu mundo. Porém, o amor existe e dura há muito, por isso “algumas canções são sobre amor – amor entre duas pessoas, mas o tema geral seria a relação entre as pessoas”. E o amor, porque o chá adoça-me o discurso e o geral é o amor e algo mais... Todavia, continuam a desafiar-me o ego freudiano dizendo-me que o amor não basta, na capa. Como não basta? Porquê a Intriga Internacional? Eles que dentro prometem “One Thousand Kisses in Cardiff” e sussurram que estão “High On Love Songs”. Seria do chá? “Love Is Not Enough” é o nome do novo álbum que, nas entrelinhas, tem sido falado desde o título, nesta prosa. Dizem-me que são duas ideias. Primeiro, a provocação: “estávamos muito conotados com ‘tão amorosos, letras sobre o amor’, foi mesmo a provocação de ‘esqueçam lá isso do amor que isso não chega, somos (todos) mais do que isso’”. Segundo, a lógica: “depois de gravarmos, ouvimos o álbum e percebemos que, provavelmente, o grande tema é mudança. A nossa mudança (evolução) enquanto banda e como lidar com a mesma, as mudanças que correm bem ou mal, os


limbos entre situações. Aquela incerteza de já somos uma banda, já tínhamos um disco, é suposto o segundo e outros, e como se faz isto… A ideia era refletir um pouco essa incerteza. Ou seja, o ‘amor’ é uma metáfora para o que falta”. É sempre algo mais. Explanado o que se esconde atrás do título, continuará a inquietude que o mesmo origina, é provocação. “Love Is Not Enough” é álbum a ter, ouvir e reter. Com a bitola elevada do anterior álbum, não desilude. Birds que cresceram “pela maneira como foi gravado e produzido e nota-se uma grande evolução, graças ao trabalho do Henrique. Foi um trabalho

mais estruturado, mais pensado. Antes fomos mais descontraídos, agora é mais a sério”. Forte nas melodias de acústico temperado com percussão gentil, mais uns travos eletrónicos, tudo bem encaixado para dilatar emoções com lírica a preceito... no alinhamento de palavras e acordes perguntam, com timbre agridoce, a certo momento: Do you think you can see/ The sunset through me?... e a resposta é dada quando o álbum termina. Vemos o pôr-do-sol através e com a música dos Birds are Indie. É um som indie, de uns tais birds. d

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Mler Ife Dada Mercado de Fusão Vendiam sonhos em forma de música. Cinema, pintura, jazz, canto lírico, pop, fotografia, arquitetura, fado e design misturados em palco nas composições de Nuno Rebelo e na voz de Anabela Duarte. Agora, uma das bandas mais marcantes da música portuguesa da década de 80 está de regresso. À venda neste mercado, estão os 30 anos após a formação dos Mler Ife Dada e novas surpresas. TEXTO helena ales pereira Fotografia Luisa Ferreira

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Porquê os 30 anos dos Mler Ife Dada? Nuno Rebelo – Acho que é daquelas coisas que partem mais dos produtores do que dos músicos. Talvez não nos lembrássemos de celebrar esta data, mas coincidiu passarmos férias com o Tiago Faden, o produtor deste espetáculo, há uns anos, e ele lançou, na altura, a ideia de celebrarmos os 30 anos em concerto. Em 2012, ele ligou-me para pôr em prática essa ideia. Mandei um mail à Anabela e aqui estamos.

De onde surgiu a ideia de fazer um projeto tão distinto de todos os outros que havia na altura, que eram mais ligados ao pós-punk, ao pop?... Onde iam buscar as vossas influências? NR – Isso tem a ver com um período muito particular da minha vida, quando conheci o Jorge Lima Barreto. Eu vinha de um grupo pós-punk, os Street Kids, e estava desiludido com o universo restrito do pop e com a arquitetura, que estava a estudar na altura. O Jorge disse-me:

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“esqueça isso da arquitetura, vais ser um grande músico, mas vais ter de te cultivar!” Pôs-me a ouvir música clássica, músicas do mundo, numa altura em que pouca gente ouvia músicas do mundo... Anabela Duarte – Eu já ouvia, tinha uma coleção imensa de musique du monde... NR – É verdade. E os Mler Ife Dada formam-se nesse momento em que estou a descobrir que a música não era apenas universo mais restrito que eu conhecia, mas que havia muito mais do que isso. Mas havia a intenção de quererem desconstruir a pop? NR - Mais do que descontruir era incluir na pop todas as influências que estavam fora do seu âmbito normal. E isto na perspetiva de que o nosso projeto podia incluir desde o mais significativo em termos culturais, mais sofisticado, mais elitista, mas também incluir o mais popular. Não queríamos excluir nada do panorama musical. AD – Não éramos politicamente corretos. Mas não havia uma atitude premeditada. Nós não chegámos e achámos que éramos os melhores. O nosso estado era o ter muita curiosidade artística. A alavanca foi sempre uma curiosidade artística extrema. Mas nessa curiosidade cruzavam também outras áreas: o cinema, a fotografia... NR – Saía-se à noite ao Frágil e as pes22

soas com que nos relacionávamos era o Pedro Cabrita Reis [pintor], Pedro Casqueiro [pintor], José Nascimento [cineasta]. Havia uma trocas de influências, uma série de estímulos. Havia a Rita Filipe, que fazia as nossas roupas; o meu irmão, Sérgio Rebelo, que fazia as capas; a Luísa Ferreira, na fotografia... AD – Havia um conjunto de pessoas que estavam em Belas Artes e que também contribuíam para este aspeto diferente que nós queríamos, para a música, para os vídeos que fazíamos. Se juntarmos tudo isto, há uma arte total. Por exemplo, nós tínhamos telas em palco, coisa que mais ninguém tinha, na altura. E aquilo criava uma cenografia espantosa. Nessa parte fomos pioneiros e marcámos alguma diferença. Levámos essa telas para o Porto, para um concerto no Rivoli, e ainda tentámos levá-las para outros espetáculos, mas era impraticável. A tua voz era uma miscelânea de vários ambientes musicais, como o pop, o fado, o jazz, o canto lírico. Mas não tinhas formação de canto. AD – Eu tinha passado vários anos no Conservatório, onde fiz ginástica rítmica, dança clássica e moderna, piano... Já tinha uma formação muito diversificada, mas não tinha de voz. Só a fiz mais tarde, depois dos Mler Ife Dada ou já na fase final dos Mler Ife.


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Porque é que tendo esta diversidade e esta fusão de estilos, duraram tão pouco tempo? Gravaram apenas dois discos de originais: “Coisas que Fascinam”, de 1987; e “Espírito Invisível”, de 1989. NR – Zangámo-nos. Eu andava a dizer mal da Anabela nos jornais e ela a dizer mal de mim, nos mesmos jornais. AD – Não só nos jornais... [risos]. E não havia muitas condições para um grupo como o nosso existir naquela altura. E isso acabou também por gerar alguns conflitos a nível interno. O problema veio também do facto de a estrutura que existia em termos musicais, na altura, estar longe de ser a ideal e especialmente para um grupo idiossincrático como éramos. O meio estava cheio de músicos que exploravam vertentes mais ligadas à rock, mais ligadas à cultura anglo-saxónica. Os Pop Dell’Arte seria aquele grupo mais perto de nós, em termos ideológi24

cos e estéticos, de certa maneira, mais arty. E nós estávamos muitos fora disso. NR – Era muito difícil em termos de management encontrar alguém que apostasse muito em nós. Os managers funcionavam de uma maneira que era: ao pegarem num grupo tentavam moldar o grupo àquilo que eles consideravam vendável, em vez de tentarem perceber qual o espírito do grupo e e que forma isso seria vendável.

“O nosso estado era o ter muita curiosidade artística” Anabela Duarte


Para o espetáculo de 14 de fevereiro, no CCB, em Lisboa, foram criados novos arranjos para as músicas. NR – Mantém-se grande parte dos arranjos originais, porque gosto muito deles tal como eram, o que não existiam eram os sopros e as cordas que entram agora no espetáculo. É nesse novo ‘casaquinho’ que a diferença se manifesta mais. Mas vamos ver o concerto e reconhecer os temas antigos? NR – Absolutamente. E espero que fiquem bem agradados: “Uau! Isto é o que que era, mas ainda melhor [risos]!” Não quero que as pessoas sintam que dantes é que era bom. Fiéis à sua essência, mas melhores. Vão ter também esse lado mais cenográfico? AD – O Sérgio Rebelo fez imagens, o

Nuno também fez vídeos para certas músicas. Vamos ter alguma cenografia em projeção-vídeo. Vamos ter alguma coisa nova, neste concerto? NR – Novas músicas, não. Vai haver a mais velha de todas, que é o “Nu Ar”, que foi escrita pelo Pedro D’Rey. Foi o primeiro tema a ser cantado por nós – é daí que vem o nome da banda – e só foi cantado nos 2 primeiros concertos. Nunca mais o tocámos. Consideram fazer um novo trabalho? AD – Temos falado sobre isso, mas precisamos de acertar agulhas e, neste momento, estamos concentrados em fazer este espetáculo. Mas também depende da receção a este projeto e da viabilidade ou não do projeto. Não nos interessa fazer coisas só por fazer. d MOVE

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Margarida Gir達o a exploradora de imagens made in portugal Ilustradora portuguesa que adora o mundo. TEXTO maria pratas fotografia Margarida Gir達o

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Hoje é mesmo a new day? É. Confia em mim. Ontem também foi. Amanhã também será. : ) E tu  Margarida Girão quem és? Olá Freud, não sabia que estavas cá. Sou uma miúda gira e complexa, esta última tu já deves saber. O que te sai das mãos faz-nos sorrir, tem poderes. E tu, como vais mudar o mundo? Na minha opinião, o tema ‘mudar o mundo’ vem carregado de muitas demagogias e blá-blás para adormecer. Mas respondendo... Se faço a Senhora Entrevistadora sorrir com os meus trabalhos já é uma semente. Pelo menos nesse momento não se irritou. E isso deixa-me contente, e já temos duas pessoas satisfeitas. É o efeito do fio condutor. No ano passado, pelo meu aniversário, usei a plataforma da organização charity:water (www.charitywater.org) para levar água limpa a 20 pessoas numa aldeia da Etiópia. Juntamente com os meus amigos, colegas e desconhecidos do Facebook, contribuímos com dinheiro e somamos 200 dólares. Foi a melhor prenda de anos que tive, e todos ficamos felizes por ajudar. O processo leva 12 a 18 meses, e a charity:water envia-nos re28

latórios com os desenvolvimentos do projecto. Sou (super) fã do trabalho deles. E quero continuar a ajudar outros através deles. Pessoalmente, a minha paixão são os animais e é aí que tento actuar com mais veemência. Acho que cada um tem de apostar no que acredita. Há espaço e matéria para todos e para todas as causas. Há tanto para ser feito em várias escalas, que é provável que tenha sempre a sensação que não faço o suficiente. Em relação à A NEW DAY, mais do que roupa ilustrada queremos alimentar a auto-estima, a consciência e as emoções de quem usa as peças. E isso é feito, ou tentado, com as frases inspiradoras que cada peça tem, e as ilustrações estão cheias de alegria e têm um certo ar ‘estranho-esquisito’ que, no caso delas, se torna divertido. Paralelamente, a nossa comunicação tem fundações muito positivas. Não é preciso dizer muito para deixar alguém com um leve sorriso. E da mesma forma, não precisamos de ser heróis para fazer alguma mudança no mundo. Coisas simples e práticas como não deitar lixo na chão ajuda a nossa rua, os nossos vizinhos e o urso polar que está no outro lado do mundo. É preciso pensar global e no futuro, vivemos todos no mesmo ‘pacote’. E todos somos importantes e responsáveis.


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O que te move? O ‘fazer acontecer’ tudo o que está na minha cabeça. O futuro. E muitas dúvidas que só se calam se tentar. Tudo acompanhado de música. Senão não há emoção e motivação suficientes. E eu ouço boa e má. Sou uma desavergonhada musicalmente falando. As imagens são um vício que não tratas? O meu médico diz que estou bem. Por isso, vou continuar a abusar das imagens. Mas confesso que acho que ainda não estou a tirar o melhor do melhor deste vício. Tenho de continuar até arrebentar ou cansar-me. Não?

Gostas de revistas. O papel é o teu melhor amigo? Perdi parte do encanto que tinha com as revistas. Há uns anos descobri a Internet, e há uns tempos o Pinterest. É um mar de inspiração. Mas continuo a ir à TEMA, livraria em Lisboa, comprar algumas publicações. E ainda tenho revistas dos anos 80 e 90 guardadas e super estimadas. O papel já não é o meu melhor amigo. Agora é o computador, mas é verdade que sem as revistas não consigo criar nada. As revistas são a horta, e o computador o fogão onde se cozinham os ingredientes. Preciso dos dois. As tuas collages contam histórias, mas que história está por trás delas? Freud és mesmo tu que estás a conduzir a entrevista? Nem sempre há história atrás, há sempre imensas emoções e uma necessidade, cansativa por vezes, de me apaixonar pelo trabalho. Sentir borboletas por ele. E nem sempre isso acontece. Sou muito auto-crítica, e quero sempre fazer melhor e mais do que ontem. E a ideia de ser óbvia e a de não trazer nada de novo aterroriza-me. Eu acredito nisto: o teu trabalho cresce à medida que tu cresces enquanto pessoa. Notei isso nos meus dois últimos anos, e acho que não é óbvio para quem acompanha o meu trabalho; mas para

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mim é e isso diverte-me. Tenho confiança na aprendizagem e nesta insaciável e constante procura pela mudança. Para além de seres ilustradora, o que gostas de ser? Freud, essa pergunta… Eu gosto de ser muita coisa. Eu gosto de ser tudo o que seja relacionado com comunicação visual, mas as minhas especialidades são: fazer sites bonitos, papel de parede bo-

nito, publicidade bonita, trabalhar a comunicação de um projecto ou marca, e outras modalidades relacionadas. Em 2012 descobri que também quero trabalhar com fotografia, mas documentária (seja lá o que isso for, porque a fotografia, independentemente do objecto, está sempre a documentar algo). Mas eu não sou uma profissão. Quero que o meu trabalho não seja trabalho, mas sim emoções. A música tem esse poder,

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o de provocar emoções nas pessoas. E é este propósito que me dá borboletas no estômago. E é um belo de um desafio. Oferecem-te uma parede enorme, onde gostavas que fosse e o que farias nela? Eu vou fazer anos em janeiro, podem entregar-me a parede na Ericeira. Ok? Vou pintá-la de branco, fazer uma janela no meio. Para terminar, um gato (adoptado ou recolhido da rua) no parapeito da janela a apanhar a brisa do mar. Onde te podemos encontrar? Na Ericeira, à janela numa parede enorme. Devo estar a fazer festas ao gato.

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Neste momento encontro-me algures na Beira Baixa. Moro aqui há mais de um ano. Em 2011 deixei Lisboa e fui para São Paulo fazer uma coisa, mas acabei a fazer outra completamente inesperada. Eu, uma medricas assumida, viajei sozinha pela América do Sul. Foi espectacular. Posso escrever duas vezes que foi espectacular? É que foi mesmo! Só agora é que estou a solidificar tudo o que aprendi e a tomar consciência dos resultados. Quero ir embora da Beira Baixa, mas ainda não sei para onde. A única certeza é que quero ficar no planeta Terra. Freud, o que achas? d


R www.margaridagirao.com

made in portugal

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Urze (O)use estar na moda! TEXTO patrícia serrado fotografia Rita Castelo Branco e SDusana Atalaya

A Portuguese Mountain Lifestyle. Eis a definição do conjunto de peças de vestuário da Urze, uma parceira de cunho nacional com espaço reservado na Embaixada, o Palacete Ribeiro da Cunha, na praça do Príncipe Real, em Lisboa, que se encontra de portas abertas desde o passado mês de setembro. Os moldes da narrativa ganha contornos em maio de 2013, quando Rita Castelo Branco e Susana Atalaya, apaixonadas por decoração, procuram tecidos em pura lã para a coleção de inverno da Encosta-te a Mim, indo parar a Manteigas, onde a secular Ecolã, uma pequena empresa artesanal e familiar de João Clara e António Costa, o sócio, preserva os métodos tradicionais no tratamento e manuseamento da matéria prima. Em conversa, ambos revelam a vontade dar um novo rumo ao burel: ir para Lisboa. Rita e Susana sabem que está prestes a nascer uma residência para marcas portuguesas. A empatia sobe de tom. A parceria alinhavada em sintonia é, por fim, rematada. O desejo concretiza-se. 34

A Encosta-te a Mim une-se à Ecolã e, por sua vez, à Sennes, da designer de moda belga Nele De Block. Da soma sucede a Urze, que se traduz em “modernizar a linha” da Ecolã, nas palavras de Rita que, com Susana Atalaya, assegura a parte criativa da marca 100 por cento nacional, conferindo-lhe um toque mais cosmopolita. No alinhamento do processo, constam peças de vestuário que se adequam ao mercado local – casacos, malas, bonés e sacos em burel e linho, cachecóis e mantas de lã, almofadas, pufes… e demais acessórios de decoração. Peças trendy em ambiente cosy, com um toque de requinte. Um verdadeiro “desafio para nós”, reforça Susana, numa súmula que se coaduna em “mostrar as potencialidades do que é português”, continua Rita. Do que é genuíno em Portugal. Ousa estar na moda? d

R facebook


UNIQUE

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WEWOOD Know-how da madeira TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia WEWOOD

Design contemporâneo irrepreensível, estética depurada, elegante, valorizando a alta marcenaria e know-how de mestres artesãos no trabalhar da madeira maciça: WEWOOD – Portuguese Joinery.

Com vários produtos lançados, a marca WEWOOD é referência obrigatória, made in Portugal, no design de mobiliário. Falar da WEWOOD é, tentar, escolher três produtos como representantes de uma marca singular: uma secretária, um aparador, uma multibanqueta. “Bolsa”, desenho Gud Conspiracy, tem estrutura de desenho elementar e funcional, unindo a estética da produção industrial à técnica artesanal. O desenho simples tem como aliado a adaptação de um alforge em pele, antigamente usado em bicicletas ou cavalos, que lhe dá a arrumação que precisamos e a originalidade. Estrela na Maison & Object (Paris) e na 100% Design London, em 2013. “Manuel”, desenho WEWOOD Design Center, é peça inspirada no trabalho

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exquisite da azulejaria portuguesa. Uma peça com duas portas de correr, uma das quais com um painel de azulejos pintados à mão. Marcenaria e azulejaria juntas numa peça ímpar. O nome é, como deve ter percebido, uma clara  homenagem a D. Manuel I.  “Multibanqueta”, desenho Suricata Design Studio, é o desenvolvimento das potencialidades de um banco que se (re) transforma em banco corrido, em mesa de apoio... que convida à experimentação apelando, através do seu material e forma, a diferentes funcionalidades, a uma maior interação entre os utilizadores. Irresistíveis peças, no espaço. d

R www.wewood.eu


UNIQUE

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travel museu

Museu Nacional Machado de Castro Identidade da Arte Melhor Museu do Ano 2013: Museu Nacional Machado de Castro (MNMC), Coimbra. Com a Dr.ª Ana Alcoforado, Diretora do Museu, a Mutante visitou o MNMC para vos comprovar, numa breve suma, a obrigatoriedade de se conhecer este espaço ímpar, da museologia nacional. TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia Inês Prazeres

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A história do espaço que se vê, percorre e vive tem cerca de 2000 anos. O Museu, enquanto museu, estamos a falar de 100 anos, celebrados em 2013. Fazer um retrato do espaço, mesmo que longo, é sempre ato inglório, aquém do que se gostaria de contar, e escrever sobre o espólio, que hoje existe, era ter de visitar, também, a “Fundação Oriente (Lisboa) onde 40% da coleção é pertença do MNMC ou ir até ao Paço dos Duques de Bragança onde 60 a 70% da coleção pertence ao museu…”, a que se junta o espólio, no espaço onde nos encontramos que nos arrebata, onde

teríamos de falar dos 15% expostos e muito, muito mais em reserva. Assim, façamos um breve exercício de convite peremptório à vossa visita. O MNMC tem hoje a merecida casa que há muito lhe era de direito, deixando para trás um edifício sem as condições necessárias a um museu contemporâneo, capaz de mostrar a sua vasta coleção, tendo sido “um dos maiores investimentos feito pelo Instituto dos Museus nos últimos anos e em boa altura”. É um museu com características muito próprias “tendo sido classificado TRavel

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como a segunda maior coleção de arte a nível nacional e o segundo maior museu”, museu este que vê a sua área triplicada e que ainda tem, no horizonte, um alongar do seu espaço e um auditório quase terminado. À chegada, tomamos desde logo contacto com a história no modo como o projeto devolveu o espaço à cidade, pela mão de uma vasta equipa multidisciplinar liderada pela sábia e segura mão do arquiteto Gonçalo Byrne, criando “uma praça pública aberta à cidade que está na génese do museu”. Na loggia nos perdemos de encantos... e caminhamos para um espaço assente em dois pilares determinantes que conduziram e definiram as linhas 40

orientadoras de Byrne: o reconhecido Criptopórtico Romano – arquitetura civil romana mais importante e mais bem conservada de toda a Península Ibérica; e a coleção de escultura em pedra que está ligada à origem do museu que é identitário de uma região – Coimbra tem um património forte na escultura dada a existência de jazigos de pedra de Ançã que foram um mote para o desenvolvimento artístico da região na arquitectura e escultura, e não fosse o patrono escolhido Machado de Castro, grande escultor e divulgador da escultura portuguesa. Como dois pontos (pilares) definem uma reta, eis os dois pontos base para vos acicatar, por (quase) extenso:


Criptopórtico Romano A memória que resta do Fórum de uma ida Aeminium. Em estudos sabe-se que a autoria é de Caius Sevius Lupus, designado como architectus aeminiensis e reconhecido pelo desenho do Criptopórtico, construção imponente na altura. Com dois pisos visitáveis eis que hoje se tem conhecimento, seguro, que antes deste Criptopórtico do período de Cláudio houve, ali, um outro do período de Augusto... pois neste museu, viajamos na história de forma real sempre acompanhados de quiosques que nos constroem imagens desaparecidas e “vemos escavações musificadas que nos permitem ler

os patamares da história, patamares que nunca param de ser explorados”. É uma estrutura que, com este renovado museu, ganha uma projeção que há muito lhe era justa podendo ser visitado separadamente do museu e sendo um dos espaços mais desejados e emblemáticos. Aqui temos o confronto direto com um palimpsesto único de histórias de arquiteturas feitas e com o desafio de enquadrar pré-existências, reforçando a parte romana do edifício, “pedido expresso ao arquiteto era que todo o projeto tivesse sempre esta identidade com a época romana, que é o vestígio da cidade de Aeminium”. TRavel

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Coleções do MNMC A memória que nos leva do século I ao século XX e “por força desta o âmbito cronológico do museu é muito alargado portanto, é um museu essencialmente de arte, de arte antiga, de arte religiosa, mas que abarca coleções muito dispersas”. Como referido “é o grande museu nacional da escultura”, é ela que, indubitavelmente, nos arrebata no início com capitéis românicos, com a subtileza de um claustro reerguido e nos tira o ar com a Capela do Tesoureiro no modo como uma Capela foi remontada num museu e se tornou ela numa escultura, numa peça de arte ladeada por uma coleção ímpar de retábulos em pedra, apogeu da nossa renascença, é um “elemento museográfico de leitura clara e perceptível”. E não esquecer a Sala Hodart, aquela coleção de escultura de terracota de valor imensurável, datada de 1530/34, a expressão singular de corpos na Última Ceia, exemplo de intervenção e restauro para o futuro. Mas o museu é também uma coleção de pintura que nos prende na leitura - embora mais pequena que outras, é outra de cerâmica, é a coleção de ourivesaria medieval de grande relevo, é um tesouro da Rainha que foi Santa, padroeira da

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cidade e é tanto mais, que o olhar pede no mínimo três horas se quase tudo se quiser ver. É museu e museografia numa arquitetura contemporânea de excelência e história obrigatória. O Museu Nacional Machado de Castro sabe viver dos seu pontos mais fortes em equilíbrio perfeito com as coleções que, embora ricas, são de dimensão menor; é um espaço que é aberto, que tem luz natural a vingar sempre que possível, com percursos e transparências e cotas várias, é um espaço permeável que deixa a cidade entrar. Pensou-se “no museu enquanto espaço único, diferente” no conceito e visita. E, à medida que o percurso se faz, sentimos a ligeireza com que o fazemos, sem barreiras, sem percalços em calços, com informação que nos ensina. Um museu cujas acessibilidades foram pensadas no físico e no intelectual... porque por vezes só queremos admirar a arte e outras vezes queremos também estudar a arte. É a identidade de uma cidade romana, de um museu preenchido e é, no fim de cada visita, um descanso do artista no Loggia Restaurante... Pedimos um café?

R www.museumachadocastro.pt


TRavel

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travel viajem!

Moien Lëtzebuerg TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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TRavel

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O sol há muito se tinha despedido quando a viagem termina num destino improvável, pensarão vocês, mas surpreendente, dizemos nós. Muito surpreendente! Falamos de um país cuja capital atravessa velhas ruas preenchidas por edifícios antigos e mergulha nos braços de muralhas em ruínas. Um património mundial convertido numa ode perfeita à arquitetura e à arte harmonizada com o contemporâneo. Assim é a cidade de Luxemburgo, no Grãoducado homónimo.

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Queremos aprender como se diz “olá” em luxemburguês, a língua oficial do Grão-Ducado. Porém, o português anda de boca em boca pelo Luxemburgo, facto que em nada surpreende, como se sabe. Logo, a comunicação não é uma entrave. Que o diga Marco, o guia desta pequena viagem pela sua nação, dotado de uma enorme boa disposição e que aprendeu a língua de Camões junto da nossa comunidade radicada na cidade. Comecemos pelas ruas do coração do Luxemburgo que, este ano de 2014, celebram os 20 anos de Património Mundial da UNESCO, a par com as estruturas poderosas da fortaleza, que mergulha em vales profundos, envolve, intermitente, a capital, cravejada por socalcos traçados pela erosão, e a reparte entre Ville Haute e Grund. Na alta, a linha estética dos edifícios e monumentos históricos prolonga-se pelas ruas, com o

Palácio do Grão-duque, de estilo renascentista, o cartão de visita da cidade, de portas abertas no verão (julho e agosto de 2014), à beira de uma via pedonal que acolhe, do lado oposto, uma casa de chocolates… Já lá vamos. Não deixem de passar pela Catedral de Notre-Dame, outrora uma igreja jesuíta e um modelo distinto da arquitetura gótica na capital a apreciar, nem pela emblemática Place Guillaume II, cuja estátua equestre converte-se numa homenagem ao Grão-duque do Luxemburgo, e onde o mercado mais colorido da cidade compõe o cenário, graças à paleta dos produtos hortícolas que cobrem o chão; e a belíssima Place d’Armes, que convida a fazer uma pausa na esplanada de um dos muitos cafés que a rodeiam ou eleger uma mesa para o repasto.

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A mais bela varanda da Europa O roteiro percorre as ruelas que passam por baixo de prédios seculares. Adiante um miradouro envolto num nevoeiro que teima em não arredar pé. Lá em baixo, o rio Pétrusse passeia com uma calma moderada ao longo do leito encimado por um casario típico, de pequena estatura, rematado por telhados de ar48

dósia. Lá em baixo, a paisagem pontilhada de verde desvenda pequenos jardins e uma horta cuja manutenção está nas mãos do Museu Nacional de História Natural, assim como as pontes e os viadutos que unem os promontórios. Estamos na Corniche do Luxemburgo, “a mais bela varanda da Europa” do escritor lu-


xemburguês Batty Weber, o qual segue caminho numa via sinuosa entremuros e paredes rochosas de onde sobressaem casas estreitas, de traço gracioso. Chegamos à beira do rio, a pé, claro, até porque vale bem a pena o esforço. Aqui, o antigo bairro de artesãos dá lugar a pubs e cafés, espaços confinados à boémia dos

luxemburgueses e não só, pois os turistas e os viajantes são bem-vindos. Subimos. Desta vez pelo elevador que nos transporta “à superfície”, ao campus de justiça, que desfruta de uma vista privilegiada sobre a cidade, envolta num nevoeiro que lhe confere um cenário idílico, misterioso… TRavel

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Um património a defender A pequena capital do Luxemburgo prima pela história, pela arte e pela arquitetura numa permanente encruzilhada entre o passado e o presente, entre o antigo e o contemporâneo. Iniciemos este percurso no Museu de História da Cidade de Luxemburgo, no coração da parte mais antiga da cidade. Composto por quatro edifícios históricos datados dos séculos XVII , XVIII e XIX, num casamento perfeito entre a adaptação da arquitetura secular com o perfil da modernidade, assinada pelo arquiteto Conny Lentz. No interior, o elevador panorâmico, que percorre o museu, de alto a baixo, dando honras de sala de estar, percorre os cerca de mil anos da história deste país em escassos minutos. No piso 0, com entrada na rue Saint-Esprit, encontra a exposição Shop, Shop, o convite a uma viagem através da história do comércio Luxemburgo, mas só até 31 de março de 2014. Nas "profundezas", com as paredes rochosas, resultado das escavações na encosta do vale Grund, a servir de pano de fundo, dá-se início ao passado deste Grão-ducado, onde se conta a lenda da paixão de um aristocrata por uma ninfa e a história do conde Siegfried que, em 963, mandou erguer a fortaleza no promontório de Bock, onde nasce este pequeno burgo tão cobiçado ao longo dos séculos. 50


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Passado e presente com os olhos no futuro Passemos ao bairro europeu de Kirchberg, que apresenta um cenário futurista, de avenidas largas, habitado por grandes edifícios de aço e vidro e onde existe o primeiro centro comercial do Luxemburgo, cujo acesso é feito de carro ou transportes públicos; e acolhe várias instituições da União Europeia – não nos esqueçamos que, juntamente com Bruxelas e Estrasburgo, o Luxemburgo é uma das três principais cidades fundadoras da UE. Do lado oposto ao Teatro Nacional está a escultura erguida em homenagem a Robert Shüman, o fundador da Comunidade Europeia. Testemunhos de uma contemporaneidade que se estende às fortalezas existentes nesta parte da cidade, como o Museu de Arte Moderna Grão-duque Jean, o

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MUDAM, concebido pelo arquiteto norte-americado Ieoh Ming Pei cuja planta respeita o traço do antigo forte Thüngen, apresentado na forma de um diamante. Uma verdadeira jóia da arte contemporânea, de linhas depuradas e irradiado de entradas de luz, atenta às tendências artísticas, com ateliers reservados para artistas convidados para expor e/ou criar peças. De momento estão patentes várias exposições que merecem ser visitadas. Do lado oposto, está o Musée Dräi Eechelen com uma mostra permanente da história da fortaleza e da identidade dos luxemburgueses. Pelo meio, um parque verde de generosas árvores conferem os tons dourados do inverno, convidando a um passeio a pé. Vale a pena.


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Na hora do repasto Após um longo passeio versado no tempo, chega a vez do roteiro gastronómico. Para divertir o palato, iniciamos esta viagem nas Caves Gourmandes, uma antiga reserva de sal convertida num restaurante de renome no Ilot Gastronomique, sita na rue de l'Eau, um prédio datado de 1792 e transformado numa espécie de centro gastronómico, onde o tradicional e o moderno se reencontram à mesa. No registo fica o Crémant, o espumante do Luxemburgo proveniente da região vinícola de Moselle, no sul, e uma cozinha generosa, para quem aprecia a grandeza no prato. Aos gourmets, a recomendação recai no restaurante Le Place d'Armes, de portas abertas para a praça com o mesmo nome. O ambiente é requintado e a cozinha de autor merece distinção, sem esquecer as sobremesas, que em nada escapam ao olhar atrevido dos mais cépticos. Estamos no Hotel Le Place d'Armes, um Relais & Châteaux versado na elegância, revelando-se um pequeno labirinto que percorre um conjunto de edifícios antigos da velha cidade.

E que tal uma experiência sensorial tão conhecida entre nós? Afinal, estamos no Luxemburgo, onde a comunidade portuguesa sobressai nas estatísticas. Portanto, nada melhor que matar as saudades da cozinha portuguesa no restaurante Lisboa II, no n.º 90 da Dernier Sol, com o leitão à Bairrada a demarcar a especialidade e houve quem considerasse a francesinha da casa a melhor do mundo. Surpreendidos? De volta à rua, com o Palácio Grão-ducal nas nossas costas, entramos na Chocolate House, uma das mais antigas do Luxemburgo. Um verdadeiro paraíso para os viciados em chocolate, pois variedade não falta neste espaço cosy e, por isso, bastante convidativo para passar uma tarde com conversas soltas acompanhadas de um chocolate quente que tão bem sabe nos dias de inverno… e não só. Para quem prefere o trendy, aconselhamos o Konrad, na rue do Nord, um café com uma decoração eclética e mestre na comida orgânica. Aos apreciadores de um bom vinho, falamos do Chiggeri, um pouco mais à frente, célebre por ter a maior carta de vinhos do mundo!

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Pelas páginas dos contos de fadas Porque a história do Luxemburgo é feita de castelos, rumamos a norte, composto por paisagens bucólicas que remetem para os contos de fadas habitados por casas de telhados bicudos rodeadas de árvores abraçadas pelo ar de um inverno que suplica ao mistério. A primeira visita é feita ao Castelo de Vianden, erguido entre os séculos XI e XIV, a escassos quilómetros da Alemanha. Localizado no Vale do rio Our, esta obra da arquitetura romanesca com traços do estilo gótico, é considerada uma das mais belas residências feudais da Europa. A próxima paragem é o Castelo de Clerveaux que, além das exposições tem56

porárias, apresenta a famosa mostra de fotografia dos anos 1950’ intitulada “The family of man”, de Edward Steichen, de descendência luxemburguesa, que convidou fotógrafos amadores e profissionais a partilhar os seus trabalhos, com o objetivo de nos consciencializar de nós próprios através de uma linguagem tão universal: a fotografia. Ao todo são 503 fotos de 273 fotógrafos de 68 países, entre os quais estão Henri Cartier-Bresson, August Sander, Dorothea Lange e Robert Capa. Eis o final feliz de uma viagem surpreendente num país com um património arquitetónico e histórico que vale a pena conhecer! Até breve Luxemburgo. d


A Mutante viajou a convite da easyJet (inauguração do voo para o Luxemburgo)

R www.easyjet.com R www.lcto.lu

e do Turismo do Luxemburgo.

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Madrid, Viver a cidade travel

Tem a doçura de uma menina inquieta, a frescura de uma adolescente e a experiência de uma velha senhora. O clássico embala-nos pelo conhecimento e o contemporâneo desperta-nos, provoca-nos. Madrid continua a confundir-nos nas suas muitas cores e a convidar-nos para este caldeirão. Nós entrámos... TEXTO e fotografia helena ales pereira

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1 Parque do Retiro

Chegar a Madrid – mesmo aqui ao lado – é ‘chegar’ à Europa. Os transportes funcionam, as ruas estão limpas, os museus, dos mais clássicos aos mais contemporâneos, enchem-se de pessoas, sem atropelos, sem ser necessário colocar lá dentro a tentação de algum artista plástico que faz furor. Em cada esquina, há uma loja que nos convida a entrar, um restaurante que parece único no seu estilo, há calles estreitas que desaguam em avenidas desafogadas, com marés de pessoas que vão e vêm. Madrid é quente, confusa, cheia e viva. E quem aqui chega arrasta-se neste tumulto de vida que pa-

rece fazer tudo para nos lembrar que há muito tempo para não se perder. Por isso, vamos andando: pela dominante Gran Vía, onde estão as maiores lojas e as marcas mais conhecidas. Numa ponta a Plaza de España, na outra, Alcalá, a maior avenida da cidade. Pelo meio, uma série de ruas que nos levam Madrid mais típica adentro. Pelos museus, onde bebemos cores, influências, histórias destes e de outros tempos. Pelo espírito madrileno, que nos convida a viver e a conviver. Por isso, colocamos o pé na rua e andamos, olhamos e experimentamos o que a cidade nos oferece. TRavel

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Seguindo os passos Aventuramo-nos por Malaseña, um dos bairros que sai da Gran Vía. Recebem-nos lojas, restaurantes e bares mais alternativos. Sente-se uma boa onda, por isso, deambulamos e vamos descobrindo cantos, muitos recantos, que queremos ver; portas que queremos abrir. Entramos na Nest-Boutique (Plaza San Ildefonso, 3, tel. 915 231 061), uma loja que vende artesanato e onde nos perdemos nos pormenores. Porque o dia está frio, chuvoso, vamos até à Creperie La Rue (Espíritu Santo, 18, tel. 911 897 087) onde um gato preto nos acena a cauda. Bebemos um chocolate quente e ficamos por ali, naquele pequeno espaço, mas cheio de coisas para ver, porque este é também um ponto onde se vende algum artesanato. Do outro lado da calle Fuencarral, está Chueca, um dos melhores bairros para passear e comprar, e onde fica o Mercado San Antón (tel. 913 300 299) um espaço de perdição para quem gosta de comer e de cozinhar. Distribuído por três andares, acaba em grande com o restaurante-terraço La Cocina de San Antón (tel. 913 300 294). Aqui o conceito é simples: “escolha os produtos do mercado e 60

nós cozinhamo-los ao seu gosto”. E há, de facto, muito por onde escolher: carne, peixe, marisco, enchidos, vegetais e legumes e até uma secção de especiarias de A a Z, capaz de nos levar para todos os continentes, pelos cheiros, cores e sabores. Difícil de encontrar lugar no La Cocina – convém reservar –, não há que desesperar. No segundo piso, pode saltar-se da cozinha grega para a italiana, das iguarias das Ilhas Canárias para a comida vegetariana. E, claro, para as inúmeras tapas espanholas. O ideal é encontrar um mesa e depois ir saltando pelos vários puestos. E, se em Roma sê romano, é preciso recordar que, em Espanha, se come muito tarde. Não se deve cair na tentação de ir mais tarde para encontrar tudo mais tranquilo. Ou se almoça cedo, até às 13h30, ou só se consegue sentar por volta das 16h30. Mas vale a pena: aqui, sente-se o verdadeiro espírito madrileño: comer, beber e falar muito. E se na Chueca ganha o lado mais desinibido, no Barrio de las Letras ganha o trendy. Aqui, estão alguns dos mais novos e interessantes restaurantes, como o recém-aberto Saporem (Ventura de la Vega, 5, tel. 914 204 474), onde saboreámos uma Ensalada de Quejo, a típica sopa de Córdoba, a Sal-


2 Malaseña (Creperie La Rue)

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3 Barrio de las Letras

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Chueca (Mercado San Antón)

Barrio de las Letras

morejo, Contres a la Brasa con Tallarines e uma Ropa Vieja com Huevo Frito. Para beber, uma Sangría de Cava con Fresas. Vale a pena optar por ficar no pátio iluminado, localizado nas traseiras, e perder-se na ementa. Aqui perto, fica o curioso El Aparta-

mento (Calle Ventura de la Vega, 9, tel. 917 554 402), um espaço com cerca de 6 meses que, como o nome indica, recebe os seus clientes como se estivessem numa casa. Por isso, nos dizem: “Aqui, estamos em casa, por isso, será difícil sair para voltar para a nossa...” TRavel

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6 Caixa Forum

Elevando os olhos Madrid, cidade de comidas, bebidas, saídas e... arte. Muita arte. Esta pode surgir-nos na fachada de um hotel, como o lagarto feito de CDs, nas paredes do Vincci Soho Hotel, no Barrio de las Letras, ou num dos mais prestigiados museus de arte clássica do mundo, o Museu do Prado (Cale Ruiz de Alarcón, 23); na contemporaneidade do Reina Sofia (Calle Santa Isabel, 52); ou na modernidade da Caixa Forum (Paseo del Prado, 36); não esquecendo o Thyssen-Bornemisza (Paseo del Prado, 8). Desde janeiro, que o Museu do Prado apresenta “Las Furias. De Tiziano a Ribera”, uma mostra sobre quatro personagens da mitologia clássica: 62

Ticio, Sísifo, Ixión e Tántalo. A partir de março, há mais duas boas razões para se perder neste imenso museu: “Rubens. El Triunfo de la Eucaristía”, que se debruça sobre a série de seis desenhos que representam o triunfo da Eucaristia, la Biblioteca de El Greco, inscrita na celebração da Fundação El Greco, pretende reconstruir as raízes teóricas e literárias da arte de Greco, a partir de 130 livros que estiveram em seu poder. Quem correr ao antigo hospital civil, transformado em museu, o Reina Sofia, terá a oportunidade de ver, até maio, “Amos Gitai”, uma exposição que revela lugares e personagens presentes na cinematografia


7 Museo Reina Sofia

e vida deste cineasta. E, claro, ter a oportunidade de conhecer melhor o trabalho de Dalí e (re)ver Guernica, a conhecida obra-prima de Picasso, que se encontra no segundo piso. E sem sair do mesmo circuito, muito perto, temos o centro cultural Caixa Forum, onde é possível ver exposições, mas também subir ao último andar e ver a vista sobre o jardim vertical, mesmo aqui ao lado. Este espaço é ainda um dos melhores centros de arte para levar crianças, uma vez que são muitas as atividades, e até as mostras, dirigidas ao público mais jovem. Assim, por exemplo, a partir de 21 de março, há bonecos e desenhos para ver na mostra “Pixar. 25

Años de Animación”, que vem diretamente do MoMA para Madrid. Mas há ainda “Le Corbusier. Un Atlas de Paisajes Modernos”, até 11 de maio, que inclui desenhos, maquetas e outros do arquiteto suíço; “Sebastião Salgado. Génesis”, até 4 de maio, um olhar do fotógrafo brasileiro sobre a origem do planeta que habitamos. Depois de sair, há que dar um salto, ali mesmo ao lado, ao Café Vertival, bem de frente para o jardim vertical. Outro local a levar crianças, e bem perto do Reina Sofia é La Casa Encendida (Ronda de Valencia, 2), um espaço de solidariedade, cultura, e que revela preocupações educacionais e ambientais. TRavel

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Podemos não parar? Sim, podemos, porque não queremos e porque não há tempo. Atravessamos a estrada e entramos no Parque do Retiro. Chove, o lugar está vazio, mas parece ficar ainda mais bonito com as suas cores desmaiadas de fim de outono e o céu carregado de cinzento escuro. De um lado para o outro, optamos por andar a pé, de metro ou de autocarro, e estes últimos, nos dias mais frios e chuvosos, podem revelar-se uma excelente forma de ver a cidade sem apanhar frio ou chuva. Outros dos lugares a descobrir, que sai ligeiramente do circuito turístico, mas vale a pena, fica junto ao rio Manzanares. O Matadero é um local que acumula espaços de exposições, cinemateca, centro de design e um restaurante atípico, mas muito convidativo. Na La Cantina, pode-se optar por comer só entradas ou misturar entradas e um prato, porque é assim que os preços são combinados. Optamos por um Creme de Calabaza, uma

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dose de Cuscus e um Pollo com Salsa Yakitori. O ambiente é muito descontraído e a decoração combina materiais reciclados num espaço que nos remete para um cenário industrial. Num dos centros turísticos por excelência, que combina a Gran Vía com a Plaza de Callao, descobrem-se muitos restaurantes – mais procurados para turistas –, e muitas lojas. Mas há uma que vale a pena visitar. É preciso impor algum controle ou corremos o risco de perdermos lá a cabeça. La Central (Calle Postigo de San Martín, 8) é uma livraria que fica numa casa apalaçada de 1200 metros2 e alberga mais de 70 mil títulos, distribuídos por três andares. Há ainda um café-restaurante – El Bistró –, e um bar, além das muitas atividades culturais que esta livraria vai organizando ao longo do ano. À entrada: uma curiosidade: um top de leituras que é sugerido pelos clientes e que dá pelo nome de “los lectores recomiendan”.


8 Parque do Retiro

10 Plaza de Callao

9 Matadero, Puente del Invernadero

11 La Central

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Huerta Alcalรก

hotel Praktik Metropol

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Juana La Loca

hotel Praktik Metropol


Como os madrilenos... ...Saboreamos tardios desayunos, como aquele que experimentamos na Huerta Alcalá (Calle Alcalá, 21). Experimentamos, sem pressas, Pinchos de Queso de Cabra, de Tortilla e Salmon Ahumado, uma Degustacion de Croquetas e um cesto de pães, acompanhada de tomate, molho de tomate e manteiga. Para acompanhar, boosters de vegetais e fruta. Perfecto! ...E jantamos pela noite dentro, em restaurantes que enchem rapidamente, como o pintxo-bar Juana La Loca (Plaza Puerta de Moros, 4, tel. 913 640 525), na La Latina. Conselho a seguir? Perder a cabeça. Afinal, não é todos os dias que jantamos em

Madrid. Crepe de Espinacas, Jamon de Pato, Sashimi de Pez Mantequilla, Carpaccio de Bonito, Croquetas de Seta y Trufas, Crujiente de Sardines e Mozzarella en Pan de Olivas. ...Mais tarde, recolhemos ao hotel Praktik Metropol (Montera, 47 (esquina da Gran Vía), tel. 915 212 935) e ficamos a amolecer na sala comum, junto à lareira, onde também se servem os pequenos-almoço. Depois, esgotados por aquele cansaço bom de termos gasto todas as horas do dia e da noite, subimos ao 9º andar, onde fica o nosso quarto, com vista sobre a Gran Vía. Lá fora, a cidade adormece aos poucos. d

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San Sebastian Pérola do País Basco 360 º

Embarcar numa viagem é escapar à normalidade dos dias. Fugir ao ritmo do quotidiano, inalar outros ares, mergulhar noutros mundos. Porém, para ressuscitarmos dessa monotonia não é imperativo alinhar num retiro espiritual ou cair no cliché de rumar a um qualquer resort num destino sem alma. Há lugares aqui tão perto que nos fazem sentir tão longe. TEXTO e fotografia dulce alves

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Donostia, mais commumente designada San Sebastian, é precisamente um desses lugares. Uma cidade que conjuga o que de melhor há no país basco e que não deixa ninguém indiferente à sua aura aburguesada que nos envolve e remete para outros tempos, aqueles em que era refúgio da aristocracia e de figuras notáveis, nos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX. Volvidos tantos anos mantém-se esse charme de outrora, sendo que, por estes dias, a pertença à nobreza ou à elite intelectual não é requisito para desfrutar desta cidade beijada pelo mar Cantábrico. É urbe, é praia e é destino de gourmandes e gentes da cultura. Alberga, com orgulho, alguns de melhores restaurantes de Espanha (poder-se-á dizer do Mundo?) contabilizando um total de 16 estrelas Michellin, 16 motivos pelo qual é ponto de peregrinação dos apreciadores da alta gastronomia. Na realidade, come-se bem em qualquer estabelecimento onde se peça uma variedade de pintxos (designação para tapas no Norte de Espanha); um excelente pretexto para conviver e degustar a cozinha basca entre os locais.

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TRavel

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convivem harmoniosamente com modernas edificações, das quais se destaca o Kursaal, um magnífico complexo que oferece um ecléctico programa cultural. O ambiente é citadino, mas é impossível ignorar que San Sebastian é também um destino balnear ímpar. Na mesma cidade pode optar pela Playa de La Concha, de ambiente familiar e uma envolvente mais clássica, emoldurada pela encantadora escadaria em ferro ou pela Playa de Zurriola, ponto de encontro de jovens e aventureiros do surf. E não é por acaso que em 2016 a cidade será Capital Europeia da Cultura. Habituada a acolher eventos culturais de envergadura, entre os quais o consagrado festival internacional de cinema e o não menos conceituado Jazzaldia, em San Sebastian respira-se arte a cada esquina. Calcorreando a cidade sem bússola, atravessando elegantes pontes e passeando em redor da baía, cruzamo-nos com um sem fim de artistas de rua, obras de arte emblemáticas como a emblemática escultura Peine del Viento, imponentes edifícios de arquitectura de inspiração francesa e inglesa que

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Continuando a desbravar a cidade, é obrigatório passar pela sede do município, que foi em tempos um Casino, o imponente Teatro Maria Eugenia, o museu San Telmo que ocupa um antigo convento do séc. XVI e a imensa Catedral do Bom Pastor. Outro plano pode passar por perder-se deliberadamente pelas inúmeras ruas pedonais, num passeio cheio de recantos e encantos para descobrir. De dia ou de noite, o charme desta cidade envolve-nos como a brisa do mar e catapulta-nos para outras épocas, outros mundos e outras vidas. E que bom é fugir à nossa, de quando em vez. d


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reabilitada

O mundo de Joana [Astolfi] O fascínio ganha forma na infância, com os objetos, as fotografias, as miniaturas, para catalogar, colecionar, organizar… Memórias que transporta na bagagem que a acompanha para todo o lado, que a inspira todos os dia. Sem deixar de olhar em frente, para o futuro. Eis o mundo de Joana Astolfi, arquiteta, artista, designer. TEXTO patrícia serrado

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Tudo tem uma estória “A vida de alguém, uma narrativa, uma memória afetiva.” Reminiscências muito presentes no objeto em segunda mão, esquecido no tempo, o qual é convertido num outro que conta a estória de Joana, por meio de um processo de transformação carregado, por sua vez, de memórias de uma infância que a acompanha todos os dias e que, hoje, se encarrega de o encher de humor pelo inesperado, por vezes, através da manipulação da escala desse mundo, sempre com uma lupa, em grande. “A minha [vida], hoje, é um caminho que vem da infância.” Um caminho de permanente convívio com o mundo das artes, habitado por artistas, arquitetos, designers, de onde Joana absorveu a vontade de recriar e criar, de colecionar miniaturas, fotografias antigas cujos retratados protagonizavam estórias inventadas, de catalogar e organizar objetos, de ter pequenas gavetas para tudo.

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“Adoro os anos 1950’, 1960’, 1970’. Se me dessem a escolher a geração que gostaria de viver, ia para Ipanema, anos 1950’.” Da infância advém a curiosidade, a procura constante de objetos doentes, sem vida, num roteiro que, hoje, é uma viagem pelo passado convertido num hábito envolto numa perseverança singular por Lisboa. Sem rotinas. “Preciso de poder viajar no meu espaço.” A mesma cidade que acolhe o seu atelier, o Studio Astolfi que, calorosamente, nos abre as portas numa tarde de inverno.

the universe is incredibly big and we are incredibly small / 2013


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Peças com cenários dentro “Ando muito a pé por Lisboa – Chiado, Cais do Sodré, Baixa, Alfama. Ando muito pela Baixa, nas lojas de carimbos, adoro drogarias, adoro ir a fábricas comprar o mobiliário antigo – mesas de luz, móveis de tipografias, estiradores antigos…” Lugares comuns mergulhados num património carregado de memórias que sustentam cada estória, que nasce ora de uma ideia, ora de um objeto. Depende do projeto que a arquiteta, que é artista, que é designer, tem em mãos no momento, para o qual precisa de “xis” candeeiros, “xis” sofás, “xis” peças de decoração.

“Vou a sítios específicos ou ligo a perguntar se tem este ou aquele objeto ou peça de mobiliário. Faço muito ‘reperar’.” E depende do click que resulta da empatia entre Joana e uma peça interessante que vê naquele momento, porque há espaço para os objetos que querem protagonizar uma estória sua, plena de humor, com twist. A compra é, por vezes, garantida, e casos há em que a peça precisa de esperar um ou dois anos… “Até ver o dia!” Até ver o dia em que serve de cenário de uma estória retratada numa fotografia, habitada por bonecos e objetos em miniatura, pequenos detalhes que dão vida ao que é velho, como uma casa de bonecas, de uma infância inseparável.

don’t look back unless it’s a good view / 2013

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Reabilitar. Revitalizar. Ressuscitar Lá dentro, no atelier, o antigo, no tempo e nas estórias, é reabilitado, é revitalizado, é ressuscitado. Recebe uma segunda oportunidade de vida para dar vida aos espaços criados por Joana Astolfi – ambientes quentes, harmonizados pelo betão e pelas madeiras nobres, traçados pela linha dos anos 1960’, 1970’, que convidam a ficar, a desfrutar cada objeto.

por um fio / 2013

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“Bastam três ou quatro toques para que o cenário nasça.” Não mais. “Os objetos têm de respirar dentro desses ambientes.” E a iluminação? “É fundamental. Tem de celebrar o espaço!”


park terrace bar / lisboa 2013

Sobre 2013 e o que ai vem Em 2013, os ponteiros do tempo andaram entre a revitalização da rua Direita, em Viseu, com “Esta rua não acaba aqui”; o Park, o spot lisboeta inaugurado no verão passado, a integração na galeria Bloco 103, em Lisboa, e as exposições “Six impossible things before breakfast”, no Chiado Underscore_, e “How insomnia can be beautiful”, na Irlanda. Em mãos, para 2014, Joana Astolfi tem a conceção do design de interiores e da imagem de um café/pastelaria, em Londres, o qual irá homenagear o pastel de nata; um restaurante/bar num terraço, em Lanzarote; a exposição com Ana Tecedeiro, para abril, na Bloco 103; um projeto “louco” coordenado por Mariana Duarte Silva, no Museu da Carris, em Lisboa, chamado Village Underground Lis-

boa – mais de 20 contentores marítimos transformados em estúdios e escritórios para artistas, músicos –, cujo desafio consiste em transformar dois autocarros desativados em um café e um meeting room. E mais: Joana Astolfi foi convidada a fazer uma montra da loja da Hermès, no Chiado, no âmbito da Shop window designer Portugal. No momento, participa numa exposição coletiva institulada “Small things to collect”, na Bloco 103. “Brincar é trabalhar! O meu pai dizia-me: ‘Joana, o melhor que você pode fazer é brincar, fazer aquilo que você gosta’. Não há nada melhor do que isso!” d

R www.joanaastolfi.com ART

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ensaio

Rita Carmo & David Fonseca Música da fotografia Quando a música faz zoom e a fotografia toca compassada, é um exercício supranormal. Se não, vejamos… TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia David Fonseca

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O normal dentro de uma aparente normalidade: a Rita fotografa o David. Porém, o David também tira fotografias, sem deixar de ser músico. Ora, quem pensa que o normal é a Rita fotografar o David, em ambientes vários, é porque nunca arriscou fazer o David fotografar a Rita à beira do Tejo. É normal, com toda a regularidade que assiste ao adjetivo ou substantivo “normal”, falar sobre a Rita acompanhada da fotografia do David. Passaremos então a atestar essa dita normalidade, de seguida e em paralelo. Rita Carmo é o rosto que não vemos nas musicais fotografias que miramos, é a

mão que controla a lente, é o desenhar no nosso olhar, de outros olhares. Nas lides da fotografia, há mais de duas décadas, começa a prender notas, a captar músicos e a retratar concertos em 1992, para o semanário Blitz, onde se mantém como fotógrafa residente desde então. Mas a sua lente, a livre, corre a imprensa nacional e internacional com um sem fim de fotografias editadas, interpreta capas de álbuns e imagens de divulgação, de número infinito. A mesma lente, retrata 15 Criadores de Moda para o livro “15 Histórias de Hábitos” de Cristina L. Duarte, em 2003 e, no mesmo ano, edita

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“Altas-Luzes”, livro com cerca de 200 fotografias de concertos em Portugal e de sessões fotográficas, pela Assírio & Alvim. Para trás, pelo meio, tanta musicalidade imortalizada onde podemos ouvir e sentir, cada acorde, em cada fotografia tirada. No ano 2013, Rita Carmo lança “Bandas Sonoras – Fotografias de Rita Carmo”, da Chiado Editora, um compêndio fotográfico que reúne 100 retratos de música nacional, todos tirados entre 2003 e 2013, com prefácio de um escritor amante assumido da cena musical, José Luís Peixoto. A Rita é, sem desafinar, a música da fotografia. E o que é a música que a Rita retrata? Música é substantivo feminino. Organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, bem variáveis. É a arte e técnica de combinar os sons de forma melodiosa. Composição de obra musical. Depois, é o conjunto de músicos que é uma banda ou uma orquestra e o papel, que contém notações musi-

cais, é uma partitura. Para terminar, é ainda uma sequência de sons cuja cadência ou ritmo lembram uma melodia. Todavia, se formos ao informal, música é manha, é lábia. E é com alguma manha e temperada lábia que invertemos papéis, que trazemos para a frente o rosto que, regularmente, não vemos e escondemos o rosto musical que, normalmente, olhamos. Mais do que um falar da Rita este artigo é o mais inocente dos desafios de colocar um músico “fotógrafo a fotografar uma fotógrafa” (David) e apresentar-vos a genuidade desse desafio. David Fonseca, que não necessita de apresentações pois rasgados são os justos elogios ao seu trabalho sonoro é, também ele, muitas vezes o rosto por detrás das fotografias que ouvimos. Nem mais, nem menos. Rita Carmo por David Fonseca, Quando a música fica a controlar a lente e a fotógrafa a ser captada. d

R www.ritacarmo.blogspot.pt R www.davidfonseca.com

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cerêmica

Anna Westerlund Ceramics Peças com personalidade O convite para um chá é o mais feliz pretexto para contemplar as criações de Anna Westerlund. Na mesa, a delicada composição de peças de cerâmica rematadas por padrões originais e tecidos, que oferecem as cores e o encanto do detalhe a cada objeto, testemunham a feminilidade de um gesto por detrás de uma obra prima exquisite. TEXTO patrícia serrado fotografia sanda pagaimo

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A história começa na meninice, com os desenhos, os recortes, as colagens. O fascínio pelos trabalhos manuais. Uma paixão escondida por muitos anos, aquando dos desfiles de moda e do curso de Economia, tempos em que preenchia o pequeno roteiro das viagens pelas capitais da moda com idas a exposições e a lugares fiéis ao artesanato local. Até ao dia em que põe os pés na Ar.Co, em Lisboa, decidida a abraçar a arte numa performance mais criativa, mais escultórica, versatilidade demarcada pela cerâmica. Foi amor à primeira vista. A dedicação perdura no espaço temporal com a criação de peças ímpares, feitas à mão. O mesmo trabalho e dedicação é repartido com os moldes. “Nada aqui é mecânico”, garante Anna Westerlund, criadora de peças com personalidade, em que cada detalhe demarca a diferença entre os objetos da sua autoria. Imperfeições, diriam muitos. “Não são defeitos, são a personalidade da própria peça”, reforça. Com razão, dizemos nós. Porque são as mãos que atribuem a forma ao barro, de onde nasce uma chávena, um açucareiro, rematado pela cor suave que o envolve; um prato, uma taça preenchidos por

um padrão nascido de um desenho seu de cores aos pares; um bule ou um jarro cuja pega é envolvida, com a delicadeza de um conto de fadas, pelo tecido de cor garrida. Detalhes que definem o gosto “de poder aumentar as possibilidades das paletas de cores e de materiais”. Assim, “sinto que posso brincar todos os dias, no bom sentido”. Agora é tempo para os preparativos da nova coleção primavera-verão 2014 com a ajuda, uma vez mais, de Ana Oliveira que, apesar da não-formação em cerâmica, mas sim em relações públicas e publicidade, põe também as mãos na massa, “porque sempre quis fazer algo criativo”, confessa Ana o braço direito de Anna Westerlund no atelier, onde fomos muito bem recebidos. Porém, o tempo corre pelo ponteiro dos relógios. Por isso, tanto faz estarmos a quatro ou cinco, ou a seis de um qualquer mês do ano. O certo é que todos os dias o chá é servido à hora, bem quente. Há lugar para mais um? Claro que sim! Dentro de casa ou… à sombra da árvore do jardim. Sejam bem-vindos àquela que poderia ser a história de “Alice no país das maravilhas”. d

R annawesterlund.com

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ilustração

NENHUM SÍTIO “Ontem chegamos aqui e temos o coração cheio. As mãos percorrem as folhas que crescem das memórias, são ainda pequenas e finas mas as raízes profundas. Há sorrisos que bebem do que se tem no peito, ninhos onde se protege o amor, a coragem. A vontade salta em frente mesmo que não se sinta chão, o vento solta os pássaros que se prendem nos cabelos. Dás-me a mão e nada voltará a ser normal.” TEXTO e ilustração Marta Nunes

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sala escura

Bergman , O Sétimo Selo, a normalidade do Cinema e a sua Visão TEXTO Hernâni duarte maria

“E havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu…” Apocalipse 8:1 Para muitos da dita comunidade cinematográfica de filmes independentes, embora os demais da comunidade mainstream, digam o mesmo, este filme de Ingmar Bergman é considerado um dos melhores filmes de sempre, uma obra prima da sétima arte. De facto o é, e o título 7, e 7.ª a arte, é algo que me deixa curioso. Será o selo a 7.ª arte ou é o filme de Bergman a arte da 7.ª arte. Isto são somente suposições… Enquanto espectador, e sobretudo realizador, estas ideias explodem na minha cabeça. “O sétimo selo” ou no seu título original “Det sjunde inseglet”, de 1956, é baseado numa peça de teatro que o próprio Bergman escreveu. O filme cujo ambiente de nuances apocalípticas situa-se na idade média, período caracterizado pelo apocalíptico, pela destruição e pelo caos, é conotado pela a epopeia das Cruzadas e da peste negra. 96

Como anteriormente escrevi a frase de Apocalipse, além de apocalíptico poderemos observar, na visão de Bergman, a revelação da morte, da vida, da religião, do ser humano, do questionar… mas o que importa ressalvar é o termo revelação. “O sétimo selo” revela uma alegoria, a preto e branco, sobre a busca infinita pelo sentido da vida e da morte num mundo caótico: O mundo do século XIII, devastado pela peste negra. Antonius Block (Max Von Sydow) regressa das Cruzadas e encontra a sua vila destruída pela doença. A Morte aparece para levá-lo, mas Block recusa-se a morrer sem ter entendido o sentido da vida. Propõe então um jogo de xadrez, numa tentativa de burlar a única certeza que o habita. Apesar de perder o jogo de xadrez, a Morte continua a perseguí-lo enquanto viaja pela Suécia medieval. Block descobre os aspectos mais repugnantes


“O sétimo selo” , 1956 Ingmar Bergman (MPTVIMAGES)

do fervor religioso: a tortura, a caça às bruxas, o espectro da Morte alimentando-se da fraqueza humana. O fundamentalismo assassino de hoje é a celebração nefasta do mundo evocado em “O sétimo selo”. Nas palavras do próprio Bergman sobre o filme, “a ideia de um Deus Cristão tem algo de destrutivo e terrivelmente perigoso. Ele faz emergir um sentimento de risco eminente, e por consequência, traz à luz forças obscuras e destrutivas”. Um pequeno trecho memorável do filme : Block: Quem és? Morte: Sou a Morte. Block: Vieste buscar-me? Morte: Ando contigo há muito tempo. Block: Eu sei. Morte: Estás preparado? Este diálogo, no meu ponto de vista, revela todo o filme e todo o cinema de Bergman, o questionar a vida através da morte, o de um cinema nada fácil mas,

ao mesmo tempo, humanamente compreensível pois, de facto, o cinema, a 7.ª arte, os cineastas têm o dever de questionar a vida e a morte, e de o mostrar nos seus filmes. Bergman faz isso e muito mais. Os filmes de Bergman levantam imensas questões, mas no cinema o dito cinema normal tem muito de anormal como de nefasto. O mainstream e filmes de fábrica tendem sempre a contar o óbvio, o entretenimento fácil. Para o comum dos espectadores claro que é mais fácil compreender um filme com uma história insípida do que compreender o sentido da vida e questionar a morte. E Bergman fá-lo abertamente sem receios, mostrando todas as fragilidades do ser humano e as suas fragilidades. Bergman, o cineasta frio, metódico e, em contrapartida, sem receio de mostrar e evidenciar a sua visão e questionar-se a si próprio. Bergman, o selo do cinema normal ou o selo do cinema vérité, do cinema da arte da 7.ª Arte. d sala escura

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O bairro TEXTO Susana carvalho ilustração Andrea Ebert

- Mas normal, como? - Homem, já lhe disse, um bairro normal, com casas juntas, todas iguais, e pessoas dentro. Não todas iguais. Chega-lhe assim? Um bairro de retornados como tantos outros, na periferia da cidade. Habitações precárias que ficaram esquecidas até hoje, gatos de pêlo magro a espreguiçarem-se no capot dos carros, fogareiros indígenas nos quintais, anunciando, por sinais de fumo, a hora do almoço. Um picotado fácil de telhados e chaminés, em que toda a gente se conhece. - E toda a gente... quem é? - Irra! Sempre me atira com cada uma! Bem se vê que não é daqui. Toda a gente! Como aquela comadre acolá, cristalizada na soleira da porta, mas muito capaz de lhe saltar ao caminho como um diabo de mola. Bom dia boa tarde, a vida que vai andando, um dia de cada vez que mais não se pode pedir e nesse treco-lareco já o tem desarmado, sabe de que ângulo exato vai arriscar a per98

gunta que lhe há-de pôr a vida a nu. Nos dias soalheiros de Inverno, quando os lulus se atrevem a passear as donas pela trela, toda a gente é o casal de reformados que sai de casa de manhã para se instalar no habitáculo do carro. Ali ficam a ver as horas passar, num enfado conjugal. O senhor com o seu jornal, a senhora com o seu crochet. Chocam de frente, na calçada, com um poste de eletricidade elevado a obituário e onde, por entre notícias de mortos que exibem, descaradamente, retratos de há vinte anos, se suspendem também prospetos de convívios e sardinhadas. O senhor enterra a cabeça nas folhas, procura consolo nos cabeçalhos sanguinolentos. Apraz-lhe pensar que há vidas, apesar de tudo, piores que a sua. A senhora anseia por ver cumprido um sonho antigo: levantar a cabeça do naperon e dar com a notícia da morte do marido no dito jornal. Não, no dito poste. Olhe, tanto faz.


- Não é fácil sair daqui, ãh? - O traçado do bairro é como o de uma aguarela barata. Ruas estreitas, quase sempre de sentido único, caminhos de terra batida e cascalho, largos que mais parecem becos, muros cobertos de trepadeiras, vasitos com salsa onde os gatos fazem xixi sem pressa. Em todo o lado se respira ar de coisa quieta, cada som, familiar. Veja... a comadre desinteressou-se e largou a presa, um olho espreita pelo canto do jornal, outro suspendeu-se da mira da agulha. Chiiuuuu, não sente? - Que diabo é isto?! É a carrinha do peixeiro, varrendo o bairro de uma ponta à outra. E um mar de gente há-de sair à pressa, descomposta, a chinelar, a chocalhar os porta-moedas, a tentar lembrar-se do que comeu ontem e do que hoje vinha mesmo a calhar. - Pelo amor de Deus! Mais alguma coisa extraordinária que eu deva conhecer? - Só o Ti Lopes, esta tasca perdida onde

tantos dão à costa. No toldo velho, comido pela humidade, percebe-se que houve coisas escritas, mas Ti Lopes é que ficou. Quem aqui passa, conhece o som de copo batido com força no tampo da mesa. Um silêncio grave primeiro, um borbulhar de sorvedouro, a seguir. Depois, nada. Desgostos que já lá vão, arrastados pela correnteza de uma aguardente. - Por mim chega. Acho que vou andando... - Ouça só isto que é importante, ó amigo. Não sei se é pela sirene do peixeiro, pelo folhear do jornal do reformado, pelos silvos da roupa que se agita nos estendais, aos caprichos do vento, ou se é nisto tudo misturado, que se percebe que há uma respiração própria, um pulsar de nexos invisível, um passado longínquo de camadas fundas mas que, de quando em vez, se revolve e se acende: num encolher de ombros, no brilho de um olhar, numa sobrancelha que descai, assentindo, em palavras que escusam ser voz. Percebe o que lhe quero dizer? d atitude

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tecnologia

bmw i3 Uma experiência eletrizante Na primeira oportunidade de conduzir um carro 100% elétrico a grande questão que pensamos é a autonomia e onde carregar as baterias. É algo que ainda não faz parte do quotidiano da esmagadora maioria dos condutores. TEXTO e fotografia João pedro rato

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O nosso destino, o eco hotel Rio do Prado, em Óbidos, fica a cerca de 100 km e o nosso carro, um BMW i3 diz-nos que em modo Eco pro+ (velocidade máxima de 90 km/h) temos uma autonomia de 130 km. O facto de optarmos por fazer grande parte do trajeto em auto-estrada não será a melhor para uma condução mais económica. Mas nós gostamos de desafiar a lógica e metemo-nos à estrada. Mas com alguma segurança! Sabíamos que em Óbidos há um posto de carregamento industrial e tínhamos um cabo para carregar em qualquer tomada doméstica. A adaptação ao carro foi muito fácil. Um conforto excecional! O silêncio é inacreditável! Mal damos por ele e estamos a chegar ao destino… com 40 km de autonomia. Condução exemplar! No dia seguinte fomos ao posto de carregamento. Infelizmente estava com um problema técnico. Ligámos para o número gratuito da mobi®e (Mobilidade elétrica) que foi prontamente atendido e onde tentaram, por vários meios, resolver a situação. No entanto, o facto de ser sábado não permitiu que fosse resolvido. Um aspecto, sem dúvida, a melhorar. Felizmente, tínhamos um cabo normal e conseguimos deixar o carro a carregar durante a noite no hotel. No regresso a Lisboa, optamos por seguir as indicações do ConnectedDrive

do BMW i interligadas em rede, o sistema de navegação do BMW i3, e seguir uma Eco Route. Saímos da auto-estrada e fomos por estradas secundárias sentindo ao máximo o prazer de conduzir aquele que parece um carro de brincar em tamanho real, mas que mostra toda a sua potência. Nos semáforo é curioso ver a reação das pessoas a olhar para um carro que arranca em absoluto silêncio, mas que deixa todos os outros para trás. Ainda tivemos tempo para experimentar todas as suas valências em ambiente urbano, circulando pelo centro da cidade de Lisboa e perceber que é aqui que o i3 se sente como peixe na água. O constante pára-arranca acaba por recarregar as baterias levando, por vezes, a autonomia a subir. O painel de navegação vai-nos mostrando todos os postos de carregamento espalhados pela cidade com a indicação de livres (cor verde) ou ocupados/sem funcionamento (vermelhos). Agora que conhece a nossa experiência convida-mo-lo a conhecer todos os detalhes técnicos aqui ou a fazer um test-drive e sentir o futuro da mobilidade. d

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Chef João Rodrigues “Tudo está em constante mudança”

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table chef

Embora o sonho traçasse a rota dos mares, manifesta paixão dos tempos em que se entregava ao surf, a realidade conduzi-o para terra, rumo à cozinha. Porque gosta de comer. Porque gosta de cozinhar. Assim começa a trajetória imparável pelo universo da gastronomia traduzida nos sabores autênticos desmistificados pela técnica e pelo saber fazer – e muito bem, diga-se – de um tão aclamado chef, num ofício em constante mutação. Falamos de João Rodrigues, chef executivo do Feitoria – do mui lisboeta Altis Belém Hotel & Spa, e cuja a estrela Michelin foi, uma vez mais, renovada –, onde atracou há cinco anos e vai, com certeza, dar que falar. Sobre o sonho, agora outro, esse não caiu no esquecimento… TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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“Optei pela Bica do Sapato, onde (…) estive com o chefe Fausto Aroldi, o meu segundo mentor.”

Queria ser biólogo marinho, mas os ventos intervieram na rota e alteraram a direção da bússola para terra. Sempre estive muito ligado ao mar, não por ter nascido numa zona privilegiada de mar – sou lisboeta –, mas já em miúdo fazia surf e gostava muito do mar um pouco por influência do meu pai e, por isso, queria estudar biologia marinha. Comecei a cozinha, porque gosto muito de comer. Hoje começa a notar-se, antes não se notava tanto! Gosto muito de tudo o que esteja relacionado com a mesa, o vinho, a comida, os amigos, a família… Costumava cozinhar, muitas vezes, de uma forma descontraída – a minha irmã cozinha muito bem, o meu pai também. Como o meu pai pesca e caça, sempre tive uma proximidade muito grande com os produtos da terra e do mar, até que chegou uma altura em que conciliei as duas coisas: o gosto pela natureza e o de fazer o que me dava prazer. Mesmo assim, só tive consciência de que a cozinha poderia vir a ser uma profissão no meu terceiro ou quarto dia de curso. 104

Ao viajar pelo percurso profissional do chefe João Rodrigues, somos conduzidos a uma trajetória imparável. Tirei o curso tarde – tinha 21 anos. Inscrevi-me no último dia. Como já estava habituado a trabalhar, tive sempre a tendência para, durante o curso, continuar a fazê-lo – no primeiro ano estive numa quinta em Sintra, através de uma pessoa que conheci no primeiro estágio do curso, o qual fiz no Sheraton; no segundo ano do curso arranjei um part time para depois das aulas, no Lisboa Plaza, e fiz o estágio no Ritz; no terceiro a mesma coisa até me candidatar à Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, onde entrei. Entretanto, quando terminei o curso, fui trabalhar para a Bica do Sapato e, ao mesmo tempo, tentei fazer o curso no Estoril – uma licenciatura em Produção Alimentar. Ao fim do primeiro ano tive de escolher entre ou continuar a estudar ou seguir cozinha. Optei pela Bica do Sapato, onde permaneci por três anos e onde estive com o chef Fausto Aroldi, o meu segundo mentor – o primeiro acaba sempre por ser o nosso professor na escola, que


brioche recheado com maionese de chouriço e copita / batata recheada com maionese de alho, pele de bacalhau crocante, bacalhau fresco e sumo de salsa / tubo de massa brick com queijo amanteigado, concassé de tomate e gel de azeitona

foi o chef António Lourenço, uma pessoa com muita visão e me dizia para viajar, emprestava-me revistas e livros para eu ler. Ao fim desses três anos fui para o restaurante Varanda, do Ritz. Foi então que acabei por conhecer o mundo da hotelaria, completamente diferente da Bica do Sapato – muito trendy, com um ambiente descontraído, muito ligado à moda e à discoteca Lux. A cozinha do Hotel Ritz era completamente diferente – com chefs franceses, uma brigada enorme, mais austera, tínhamos de estar muito concentrados no nosso trabalho… No entanto, foi onde aprendi grande parte da técnica, especialmente com o chef Sebastien Grospellier. Gostei muito de trabalhar no Ritz.

Sai do Ritz rumo ao Casino Lisboa, recebe a distinção de Chef Cozinheiro do Ano de 2007 e acaba no Feitoria. Saio para o Casino Lisboa para fazer a abertura dos três espaços com o chef Fausto, acabando por ficar mais no Pragma; segue-se a abertura do Feitoria. Aconteceu depois do concurso Chef Cozinheiro do Ano de 2007, no qual participei e ganhei, e onde um dos júris da regional, que também esteve na final, era o chef Cordeiro. Assim que acabei o concurso, perguntou-me se estava interessado em abrir um projeto que, em 2008, veio a revelar-se que se tratava do Altis Belém. Foi nesse ano que integrei na equipa do Feitoria como sub-chef. Table

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“O que queremos é preservar esses sabores e o produto, acima de tudo, e tentar criar uma nova cozinha portuguesa.”

massa de won ton recheado com requeijão e compota de abóbora

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A essência do Feitoria é a gastronomia tradicional portuguesa reinventada, conceito transposto pela genuinidade do sabor e do produto. Quando vim para o hotel, que ia celebrar os Descobrimentos Portugueses, ficou estipulado o conceito “os portugueses no mundo”. O Feitoria iria ser o ponto alto dessa celebração – um restaurante de raiz portuguesa com influências dos sítios por onde os portugueses tenham passado. Desde então emprestámos – eu, no Feitoria, e o outro sub-chef, no Mensagem – o cunho do chef Cordeiro, o chef executivo da cadeia [Altis], que estava muito ligado às origens e ao sabor tradicional. Há cerca de um ano decidimos mudar o funcionamento do restaurante, assim como a estrutura da cozinha, cujo espaço foi aumentado; tentámos aprimorar as confeções e o próprio serviço. No fundo, libertámo-nos de algumas amarras e demos uma nova roupagem, o que tem corrido muito bem. O mesmo fizemos com o conceito – queremos preservar a quota de 90 por cento de produto português, embora tenhamos de ter oferta internacional, com o foie gras, o caviar, as trufas… Não quer dizer que estejamos a recriar pratos tradicionais embora, às vezes, também o façamos; o que queremos é preservar o sabor e o produto, acima de tudo, e tentar criar uma nova cozinha portuguesa.

Já lá vão cinco anos, ao longo dos quais, a aprendizagem reflete a permanente vontade de inovar. Começou tudo do zero. A cozinha foi pensada num certo pressuposto que, ao fim de um ano ou dois, teve de ser mudado. Tudo está em constante mudança – as tendências, o que os clientes querem, a dinâmica do hotel, as linhas que guiam a gastronomia… Em relação ao hotel foi, sem dúvida, uma aprendizagem enorme, porque não tinha experiência em estar à frente de um restaurante e ter uma brigada de 30 pessoas, além da copa e da pastelaria, apesar de partilhar esta responsabilidade com outro sub-chef e de estar sob supervisão do chef Cordeiro; temos de escolher fornecedores, procurar outros que garantam produtos com mais qualidade; temos de estar cientes de que só vamos ter aqueles produtos naquela estação… Ao fim destes cinco anos, dá-nos um gozo enorme quando olhamos para a carta e vemos que há uma grande diferença em relação à primeira, resultado da evolução de todos – da minha, da equipa, do chefe de sala, do cliente, de todos os que estão envolvidos no Feitoria.

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“Há, aqui, também um trabalho de equipa.”

lombo de veado com endívias gratinadas, beterraba e framboesa

Criar um prato incita à imaginação e, acima de tudo, a uma composição consensual de cores e sabores sazonais. Como se processa este exercício? Temos de ler, temos de viajar. Não digo que tenhamos de ir a restaurantes com estrelas Michelin, mas sim de comer na rua, ver os mercados, analisar as cores, os produtos. Comer comida “de rua” é, por vezes, extremamente surpreendente. Quanto à criatividade, ando sempre com um caderno e vou apontando as ideias mais loucas que tenho, mesmo que não façam sentido; desenho e depois tento achar possibilidades 108

para os pratos que façam sentido. Há, aqui, também um trabalho de equipa. São debatidas as ideias de pessoas que trabalham comigo e tentamos encaixá-las a pensar num resultado que faça sentido e não apenas porque fica bem ou porque outro usou; é preciso pensar na louça, fazer com que o cliente seja muito bem servido e acompanhado na sala… Antes de trocarmos a carta, todas os empregados de mesa e os da cozinha provam os pratos e dão a opinião, que é válida; fazemos correções antes de formalizarmos a carta… Há muitos detalhes em jogo.


A combinação entre os néctares de Baco e um bom prato é uma tendência. Os pratos são feitos para o vinho ou este é eleito em função do prato? Quando faço a carta falo com o nosso escanção, o André Figuinha, que parte logo para a descoberta, no sentido de casar os sabores com o vinho. Por exemplo, temos uma prato que se traduz numa homenagem à Arrábida e queríamos fazer com os melhores produtos daquela zona, portanto, temos o salmonete, as ostras do Sado, as camarinhas, a salicórnia… Depois casámo-lo com um vinho daquela região e que se encaixasse na-

quele prato. Mas pode acontecer o contrário, ou seja, o André Figuinha sugerir um vinho, do qual tira notas, que me são transmitidas e eu faço o prato. No Feitoria, a cozinha é de mar e de terra. Tem preferência por qual? Peixe e marisco. São mais sensíveis, mais subtis e é preciso ter muito cuidado quando se faz a conjugação com o peixe, para depois a guarnição não se sobrepor ao sabor do peixe, para que este brilhe. Todos têm sabores distintos e não os podemos cozinhar demais nem os manipular demais. Table

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“Prefiro estar ligado às nossas raízes, para não perder a ideia do que é nosso”

Lisboa é, desde sempre, a cidade eleita para o roteiro gastronómico do chefe, que lidera a equipa de um restaurante com uma estrela Michelin, sem nunca ter deixado a sua matriz de malas e bagagens. Seria impossível fazer o que faço hoje sem uma aprendizagem em contínuo dos vários sítios que trabalhei. Os últimos cinco anos têm sido muito vantajosos, porque acabamos por ter experiências com outros chefs. Vamos ao Vila Joya onde partilhamos ideias; vamos à Fortaleza do Guincho… Temos de aproveitar esses momentos para ver como podemos melhorar e eu sou o primeiro a querer aprender com quem sabe muito e que há muito está neste patamar. Faço os meus estágios, vou lá fora… Sinto mais vontade de viajar, ver e provar, do que ficar seis meses ou um ano fora. Prefiro estar ligado às nossas raízes, para não perder a ideia do que é nosso, embora transporte a técnica e o melhor que os de fora têm.

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Em tempos revelou o sonho de ter um restaurante onde usaria os produtos da própria quinta. O sonho mantém-se? Mantém-se, mas é difícil. Em Portugal há poucas oportunidades, há poucas pessoas a fazer investimento em sítios deste género; e é preciso investir na nova geração. A cozinha seria invariavelmente deste género, com produtos frescos, logo pela manhã, e que as pessoas se sujeitassem ao menu que eu fizesse, o que nem sempre é aceite. Com vista para o mar. Com vista para o mar, preferencialmente. Já são muitas coisas difíceis de conseguir. Não um restaurante de praia, mas com vista de mar seguramente.

R www.restaurantefeitoria.com


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gastronomia

Mercearia Gadanha Alentejo gourmet à mesa, com certeza! TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

Pouco faltava para a manhã passar a tarde quando encontramos a pequena mercearia à moda antiga no coração de Estremoz. No balcão, mesmo em frente à porta de entrada, a variedade de bombons conquistam logo à primeira vista, para voluptuosidade dos mais gulosos cujo olhar prolonga mui deleitosa mensagem agora aliada ao colorido dos gelados tão apreciados nesta altura do ano. Na parede contígua ao balcão apresenta-se um armário de outros tempos carregado de pequenas gavetas que, delicadas, guardam os chás para as maleitas ou, simplesmente, para acalentar a alma nos dias frios. Nas prateleiras o doce das compotas, das Table

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bolachas e demais iguarias feitas com açúcar desafiam a rima com os presuntos e os paios, entre outros víveres típicos do Alentejo. Sobre o espaço, a decoração, a preceito, combina as barricas, a fazer de mesa, com os pequenos bancos que ressaltam a memória das tascas de outrora ora aqui retratadas com requinte. De um lado, o rosto de Chico Buarque retratado num quadro sugere as cores de terras de Vera Cruz casadas com os tons das paredes que revestem a mercearia, de portas abertas desde outubro de 2009, batizada com o nome da estátua que ornamenta o lago da nascente da cidade, súmula de Mercearia Gadanha. Sorridente, Michele Marques, chef de profissão e dona de tão acolhedor espaço e da cozinha do restaurante, recebe-nos com um sorriso harmonizado com boa disposição e simpatia. Empatia rápida acompanhada por palavras que traduzem a velha paixão pela cozinha. Reminiscências de uma infância voltada para tachos, panelas e um fogão de brincar. Imaginário transformado em realidade mais tarde, depois de cursar jornalismo, conseguir que a cidade do Rio de Janeiro a visse partir e “deixar tudo para trás”. Destino traçado no caminho: Estremoz. Aqui arrumou malas e bagagens há oito anos e conheceu o marido, Rui, o braço direito neste desa114

fio de savoir faire de uma jovem mulher de 29 anos, carioca de alma e coração, que frequentou o curso de Gestão e Produção de Cozinha, na Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre, entre 2010 e 2012, e passou pelas cozinhas do Mensagem e do Feitoria, ambos no Altis Belém Hotel & Spa, em Lisboa, e no Il 4 Amici, em Florença, Itália. O gosto pela gastronomia alentejana dita, porém, o presente à mesa de um espaço que, depois da mercearia propriamente dita – também esta uma casa de vinho de castas nobres, sobretudo do concelho, e da região, mas também do Douro e do Porto, que convidam à prova, à degustação e à partilha com os amigos, logo ali, numa mesa gentilmente disposta num recanto acolhedor criado à imagem de uma adega – prolonga a arquitetura singular e uma decoração tão amável num restaurante de dois pisos, com (quase) um ano de vida. Os tetos de madeira e os quadros oferecidos pelos amigos da casa demarcam o estilo cosy numa maridagem perfeita com o trendy, onde a predominância do branco estilizam os apontamentos em tons suave e o jogo de cores das cadeiras que aguardam pelos apreciadores da gastronomia alentejana com um toque criativo muito feliz! Recomendação: Estejam atentos à receita do bolo de chocolate…


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Passemos, então, ao repasto brindado com as sugestões da chef Michele, que nos encheu de mimos. Primeiro com os pastéis de bacalhau em pequenas bolas fritos em azeite – os melhores! – a juntar ao presunto de porco preto e à manteiga de pimento assado para o pão, guardado num saco de pano personalizado. O vinho: Margarida branco 2010, de Margarida Cabaço que, em 2001, decide criar o Monte dos Cabaços; e água servida ao acompanhante mais novo que tão bem sabe apreciar uma refeição a preceito. À entrada, o foie gras e a bravo esmolfe (foie gras fesco e maçã bravo esmolfe caramelizada) ditam uma combinação agridoce q.b. bem apetecível, taco a taco com os Ovos mexidos do Gadanha, com farinheira, tomate e paio. A prova de ambos dificulta a escolha do melhor… portanto, estão re-

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comendados! Para aconchegar os mais delicados, aconselhamos o Aveludado de ervilhas com crocante de presunto, e a Açorda de perdiz, com pão de poejo e ovo escalfado, duas excelentes apostas para o iniciar, ou o continuar, de um repasto bem alentejano. Do fogão, chega-nos o irresistível Mil folhas de alentejano com bacalhau e presunto e seus acompanhantes, composto por fatias finas de pão alentejano, lascas de lombo de bacalhau, presunto de porco preto, rúcula e ovo estrelado, um prato aprovado também por exigentes comensais de palmo e meio; assim como as suculentas Bochechas de porco preto estufadas em vinho tinto e esmagada de batata com ervas aromáticas, e as deleitosas Presas de porco preto acompanhadas por batata, batata doce e batata vitelotte.


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Porque o remate é harmonizado pelo açúcar, o melhor fim ficou no 1000 Folhas de chocolate branco, uma doce composição de massa folhada com mousse de chocolate branco e mousse de chocolate de frutos vermelhos, uma receita especial que conquista o palato, mesmo o dos mais cépticos. Aos adeptos do chocolate negro, a recomendação recai num Chocolate e avelã, ou seja, a combinação perfeita de bolo, gelado e fondant de chocolate 70%, creme e crocante de avelã e na Mousse de 70% com crocante e gelado de baunilha saboreada em pequenas colheradas. Doces combinações traduzidas pelas mãos

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das chefs Michele Marques e Helena Almeida. Na companhia da sobremesa dos graúdos, eis a sugestão da casa: Mouchão. Um vinho abafado, apropriado para os dias frios do ano, apesar de saber bem quando bebido com gelo. Eis a primeira sugestão de 2014 – e do amigo François – ou não fosse este o ano em que o Alentejo é considerado um destino obrigatório pela icónica National Geographic Traveler. Agora a morada: Largo Dragões de Olivença 84, Estremoz. d

R www.merceariagadanha.pt


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atitude

Carlos Kristensen Da paixão nasce a arte Carlos Kristensen, numa trajetória inspirada pelo amor às raízes, encanta há oito anos com sutileza e arrojo os comensais do Hashi Art Cuisine, do alto de suas experiências multiculturais TEXTO e fotografia Andréa Rocha Postiga

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Estágio e trabalho na área da administração em uma das maiores empresas brasileiras da indústria do aço seria o começo de uma trajetória diametralmente oposta para Carlos Kristensen. Instigado pelo pai, punha em prática seus instintos na cozinha de casa e nas viagens com amigos quando surfava. Ensaios que viriam a reconduzir a vida de um dos mais renomados chefs de Porto Alegre: da administração de empresas, para a administração de entusiasmo e de experiências únicas, no Hashi.

Em cinco anos de viagens, oscilando entre Ásia e Oceania, em busca de inspiração para alimentar suas paixões, explorou Malásia, Nepal, Índia, Singapura, Tailândia e foi iniciado como profissional, que viria a se tornar o brilhante chef. De volta ao Brasil, marcou o nascimento de uma nova concepção gastronômica na movimentada e tipicamente urbana – porém ainda provinciana – Porto Alegre. Quebrando conceitos a partir da fabulosa experiência adquirida, Kristensen instalou o Hashi Art Cuisine, em atitude

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2005, carregando desde então um vasto elenco de premiações. O foco não mudou: a matéria prima – “o melhor produto é o que temos aqui; agrego valor ao seu entorno”. Traçou a rota dos queijos da Serra Gaúcha em busca do seu melhor produtor; rasgou o Rio Grande de norte a sul em busca dos melhores enchidos, dos melhores vinhos, das melhores flores – “O contato com o produtor é primordial; é preciso conhecer o material para com ele saber trabalhar.” O DNA do Hashi é simples: é a busca da excelência no prato, no atendimento e no ambiente – “O diferencial deve estar em todos e em cada um destes elementos.” A harmonia entre o campo e a mesa norteia os projetos conduzidos por Kristensen: “uma mudança de mentalidade é necessária para maior valorização do nosso terroir e das nossas tradições”. O olhar para o pequeno produtor aportar experiências únicas para o restaurante. O comensal desenvolve um novo olhar sobre sua origem, surpreendendo-se ao ver os produtos que conhece sob diferenciada e inusitada releitura. A delicadeza das flores e brotos orgânicos ornamentam as obras de arte egressas da imaculada cozinha do Hashi. O menu confiança é o resultado de uma verdadeira fusão multicultural: equilí-

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brio e harmonia no uso de avançadas técnicas sobre os melhores exemplares de produtos regionais garimpados pelo chef. No acervo, destaco três momentos de especial afinidade com o terroir do Rio Grande do Sul: • O marcante Tartar de linguiça artesanal defumada com vinagrete de mel, encanta ao lado do da aveludada sutileza do queijo de cabra – encimado pela intensa flor do alho poró – e chip de batata doce. • O festival de texturas e paladares que se misturam no Ganso defumado curado no sal, molho de Jurupiga, confit de maçã sous vide, cascas de bergamota cristalizada e flor do alho – delicadeza na cor; profundidade no sabor. • Contemplo por fim o delicado Hambúrguer de búfalo, pirão de queijo serrano, geleia de pimenta biquinho e cebola assada na brasa – elegante alquimia entre picante e doce, cremoso e intenso. Harmonizando savoir-faire e requinte, aplicando conhecimentos multiculturais à rusticidade dos produtos regionais, Kristensen elevou a gastronomia regional a outro nível. O quebra-cabeça da construção desta elegante simplicidade é arte. E a arte dominada com maestria dá nome ao Hashi Art Cuisine. d

R www.hashi.com.br


experience eco design

Rio do Prado Um hotel no meio da natureza TEXTO patrĂ­cia serrado fotografia joĂŁo pedro rato

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A receção deixa antever a boa disposição dos anfitriões. Mesmo nos dias pincelados de cinza claro surpreendidos por um sol decidido a dar um ar de sua graça numa paisagem agraciada pela natureza, que desponta à viva força pelo silêncio do campo. Um regresso às origens na costa oeste, tão perto da Lagoa de Óbidos, onde a pegada ecológica conta, e muito. Eis o Rio do Prado.

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Telmo (Faria) e Marta (Garcia) tiveram uma ideia. Muitas ideias. E todas os acompanham no presente. Resultado: Um hotel ecológico, integrado na paisagem. Confirma-se! Nós diríamos mais: “enterrado”. Os quartos cujos terraços cobertos de terra e de um imensidão de verde que permite preservar o calor, perecem ter sido escavados em pequenos montes abertos pela fachada principal envidraçada de uma ponta à outra. Lá dentro, nos aposentos espaçosos sustentados pelo betão, o cenário acolhedor prima pela iluminação ténue e pelo conforto, sem esquecer a lareira que compõe o cenário romântico.

A decoração responde ao bom gosto versado pela atenção ao detalhe, numa linguagem cruzada entre a subtileza do design e a reutilização de materiais que ganharam uma nova vida nas paredes e no mobiliário desenhado pelos mentores deste eco resort a escassos quilómetros de Óbidos. Na parede do fundo, os espelhos emoldurados em sarrafos de madeira toscos conferem um toque divertido; e nem mesmo a instalação que se assemelha às portadas de uma janela, iludindo o olhar, passa despercebida. Atrás do leito da cama, separada por uma parede de vidro escura, a banheira ergonómica convida a um banho de imersão logo no primeiro dia. EXPERIENCE

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A subtileza do traço na paisagem A arquitetura, assinada pelo arquiteto Jorge Sousa Santos, protagoniza o espaço carregado de verde, sem interferências na paisagem campestre. O olhar desvia constantemente para o edifício “espetado” na terra. Uma espécie de jardim suspenso simetricamente alinhado pela piscina maior. No interior aguarda um espaço mutante, reservado ora para conferências, ora uma sala de lazer, ora uma suite nupcial decorada a preceito pelas mãos de Marta e de Telmo. E um Spa, o Black Spa, dentro de paredes negras, onde a sauna, o banho turco e o flutuário proporcionam momentos de relaxamento num refúgio ornamentado por detalhes ligados à terra, bem longe da cidade. Aos apreciadores das massagens, e porque os dias frios

assim obrigam, recomenda-se que se mantenham nos quartos, onde o ritual do corpo que acalenta a alma acontece. Só um aviso: a marcação deve ser feita aquando da reserva. Lá fora, a composição de edifícios é composta ainda por uma estufa. Uma estrutura de ferro e vidro que deixa antever o verde dos vegetais dispostos em vasos alinhados em prateleiras de madeira penduradas nas paredes transparentes deste espaço, palco de apresentações e de copos de água que celebram os laços do matrimónio ou de sessões de ioga. As mesmas, mas auxiliadas com pranchas de paddle, que acontecem na piscina quando o calor convida a um mergulho.

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Senhoras e senhores, o Maria Batata O lusco fusco entra em cena sem pedir licença, num final de tarde que obriga ao acender da lareira, um ritual muito comum nas noites frias do Rio do Prado. Mesmo no jardim, onde as lareiras desenhadas pelo casal testemunham o ar acolhedor do hotel e a hospitalidade dos anfitriões, que convidam os hóspedes a beber um vinho, tinto de preferência nesta altura do ano, acompanhado de conversas soltas e divertidas em redor de uma fogueira. Voltemos para perto da lareira suspensa da biblioteca que é, em simultâneo, sala de estar. Um objeto de design assinado por Dominique Imbert, rodeado por cadeiras feitas a partir de madeira utilizada na cofragem, que convidam à leitura de livros e revistas dispostas nas prateleiras retangulares “escavadas” na parede pintada de amarelo torrado, harmonizado com o tom do betão do edifício convexo que acolhe o Maria

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Batata. O restaurante que homenageia, assim, a mulher do campo da região oeste. A viúva que se entrega de corpo e alma à agricultura, o principal sustento da família. A mulher que põe a mão na massa. Tal como na cozinha do restaurante, de portas abertas para quem está de passagem, onde a ementa despretensiosa é dominada pelas tapas. É aqui que Aida põe a mão na massa para fazer o pão que acompanha as lascas de bacalhau com azeite e alho, a morcela com maçã e cebola caramelizada, as amêijoas à Bulhão Pato, os rojões fritos em marinada ou as tapas de cavalinha com pimentos assados. Um excelente pretexto para entrar no universo dos pratos servidos a perceito, desta feita, da autoria de Rosa, que caprichou com um pudim de leite condensado, para rematar o repasto da noite harmonizado por um néctar de Baco de Óbidos brindado por uma conversa animada.


Siga esta pegada “Há muita simplicidade nas formas hign tech”, diz Telmo quando descreve o interior do edifício que alberga a receção, o restaurante e a biblioteca que é sala de estar com um bar de gin. Uma coleção considerável de garrafas apreciadas pelos gin lovers, tão em voga nos últimos tempos. Assim como o cruzamento de peças de design, como os candeeiros do designer alemão Christian Dell, com as madeiras de cofragem transformadas em mesas, cadeiras, candeeiros. A decoração criativa é promovida numa linha de produção feita para hóspedes, a Rio do Prado Design cujos mentores são, claro está, Telmo e Marta. É dentro deste contexto que está pensado o EcoLab, a caixa envidraçada

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junto ao estacionamento. A decoração criativa com os paus de eucalipto que compõem as portadas dos quartos e revestem a parede defronte às portas do terraço do Maria Batata testemunha essa linguagem simples, com uma relação forte com a natureza. Assim é o hotel Rio do Prado, “um lugar que foge à ideia de verticalidade, um apelo à terra, uma reinterpretação do conceito hoteleiro”, de um turismo sustentável. “Temos uma estação de tratamento de águas cinzentas” que, depois é reaproveitada, no sentido de minimizar a pegada carbónica dos hóspedes, cujos respetivos dados dos gastos de eletricidade e água “ficam alojados no servidor através de medidores e sensores”.


Vamos à horta Os mimos são uma constante. A juntar ao copo de vinho partilhado com conversas soltas, Telmo e Marta gostam de surpreender os casais de hóspedes que têm o hotel por sua conta com a primeira refeição do dia servida no quarto. Um gesto que merece uma atenção especial, sobretudo nos dias mais cinzentos que obrigam a preguiçar por mais umas horas. A juntar a croissants, pães, fruta, queijo, fiambre, doce, bolo, sumo de laranja natural, café e leite estão os pastéis de nata quentinhos! A variedade amplia na diversidade quando o pequeno almoço é servido no Maria Batata, onde a disposição dita a sua graça e criatividade sem limites de Cátia, que nos deu os bons dias na manhã de um domingo com casa cheia. Os pastéis de nata quentes aguardam-nos. Pedimos chá de chocolate e hortelã pimenta – biológico –, o qual pode ser adquirido pelos hóspedes, assim como os cabazes da mercea-

ria biológica do Rio do Prado compostos pelos produtos hortícolas da horta e da estufa, onde os hóspedes podem colher o que pretendem para uma salada, em particular no verão, altura do ano em que a natureza é mais generosa. Sobre a horta mais dizemos que há workshops de sementeiras para quem cultiva o gosto pela agricultura, além de que as crianças podem também pôr a mão da massa do pão. Mas há mais. Quando o clima o permite, a Lagoa de Óbidos é ideal para paddle e canoagem, enquanto as margens ficam reservadas aos passeios de bicicleta seguidos de um piquenique. Os trilhos ficam para o BTT, o surf é “levado” para a praia e a escalada para onde a Associação de Espeleologia de Óbidos achar mais adequado. Boas férias! d

R www.riodoprado.pt Agradecemos o apoio da BMW (i3) e da Canon (PowerShot G16). EXPERIENCE

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