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19 /paradoxo

/dezembro 2013 /janeiro 2014

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jorge molder

Diogo Infante Scott Matthew Chef Miguel Vieira Malhadinha Nova Banjo & Guitarra •••


editorial /diretor João Pedro Rato joaopedrorato@mutante.pt /edição Patrícia Serrado patriciaserrado@mutante.pt Sara Quaresma Capitão saraqcapitao@mutante.pt /direção de arte João Pedro Rato /colaboradores nesta edição Andréa Postiga Dulce Alves Helena Ales Pereira Hernâni Duarte Maria Maria Pratas Pedro Emanuel Santos Susana Carvalho /fotografia Henrique Patrício IF Imagem Fixa Inês Prazeres João Pedro Rato José Melo Pedro Cláudio Ricardo Junqueira /ilustração Rosa Feijão Sara Quaresma Capitão /FOTOGRAFIA CAPA Jorge Molder por João Pedro Rato /TIPOGRAFIA Leitura • www.dstype.com /redação rua Manuela Porto 4, 3º esq. 1500-422 Lisboa info@mutante.pt www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt www.facebook/MutanteMag Mutante é uma marca registada.

Saímos, de novo, para a rua. Na algibeira levámos o caderno para notas tomar e novos testemunhos, vivências e imagens vos dar. Somos assim, que havemos de fazer? É vício bom, sair, então no Pimenta Rosa, no Fangas, sem esquecer o Moules & Beer, é tão viciante que só pensamos: quando voltamos? Havemos de voltar a cada um e ao Martinhal porque quando nos dão mar, dão-nos força, quando nos dão design e mar, dão-nos vida. E não só ao Martinhal. Alfama e Malhadinha Nova são também de regresso obrigatório. Imprescindível é, igualmente, a música que nos acompanha. Nesta saída paradoxal levámos connosco Scott Matthew, Ricardo Dias Ensemble, Júlio Resende e trocamos as voltas a dois músicos. E que seríamos de nós se, a cada passeio, bem vestidos não fossemos? Terrível. Assim, fomos conversar com o Felipe Oliveira Baptista, com a Alçado D(i)Frente e com a Maria que nos fez uma camisola, à maneira! Tínhamos de ir bem apresentados ao Teatro de Marionetas, ao Teatro da Comuna (o infante Diogo esperava por nós) e... visitar e conversar com Jorge Molder. Tantas estórias tem este nosso laboratório que entre teatro, escapadinhas, street art, sabores, musicalidades e viagens distantes, fomos cair num Laboratório d’Estórias e… e mais não dizemos, é ler para saber!


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/paradoxo /dezembro 2013 /janeiro 2014

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/Martinhal /Palácio de Queluz /360º

24 unique /Fangas /Pimenta Rosa /Moules & Beer

40 art

/Jorge molder /Alçado D(i)frente /Laboratório d’Estórias /Made in Portugal

/Frederico Draw /Paradoxo do Amor /Diogo Infante /Júlio Resende /Sala Escura

66 new

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30 trendy

/Ricardo Dias Ensemble /Scott Matthew /D. Roberto • Marionetas /memmo Alfama /O insólito

/Felipe Oliveira Baptista /Banjo & Guitarra de Coimbra /Chef Miguel Vieira

113 experience /Herdade da Malhadinha Nova /Atitude


move trip

Martinhal Arte e design a sul Artistas e designers criam o diálogo entre as suas peças e um espaço despido de preconceitos. A simbiose perfeita (quase) à beira mar celebrada durante uma semana para apreciar ao longo de um ano. No Martinhal Beach Resort & Hotel. TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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A pintura, as artes plásticas e o design unem-se no paradisíaco Martinhal Beach Resort & Hotel, na pacata vila de Sagres, sob a batuta de criadores de dentro e fora de portas numa Semana de Luxo, Arte & Design, onde as criações, patentes durante um ano, obedecem a um enquadramento em lugares comuns, à vista de quem se rende aos encantos de um hotel virado para o mar. Portanto, nada melhor que pegar num par de chinelos de dedo de uma tão conhecida marca brasileira e passear pelo areal que separa o resort 1 rodrigo oliveira, artista plástico

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do Atlântico, como fez o artista plástico Rodrigo Oliveira (Sintra, 1978) com a obra "Havaianas em mármore", que casa as cores vibrantes do plástico com o luxo associado à pedra, numa aliança paradoxal em jeito de boas vindas aos hóspedes do Martinhal Beach Resort & Hotel. Ato contínuo com o enorme círculo composto por centenas de fósforos numa tradução ilusória de um toro. Ou a tridimensional "Espinha dorsal" com uma conceção pictórica demarcada pelo colorido harmonizado com as faianças Bordalo Pinheiro.


Como uma viagem no tempo Numa das paredes, quatro desenhos da série "Folhas de viagem" (2010), da pintora Inez Teixeira (Lisboa, 1965), reproduzem paisagens traçadas a negro, emergidas das sombras de uma natureza serena convertidas num diário de um percurso virtual. Reminiscências representativas de um passado retratado, desta vez, numa tela pertencente a uma série de exposições de 2011 intitu-

ladas "Time is on my side", a qual abre uma janela para um cenário preenchido pelas sombras negras projetadas num fundo de um azul ténue. O mesmo tom subtil que acompanhava a autora nas suas viagens de final de tarde pelo Alentejo. Traços reflexivos num trabalho que se fecha com as flores vermelhas de "Fragmentos".

1 inez teixeira, pintora

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A versatilidade do design Das artes plásticas saltamos para o design industrial. Primeiro com Toni Grilo (França, 1979), designer de formação e diretor da Haymann Paris, cuja abordagem contemplativa da essência do material e do trabalho com o artesão remetem para o crucial na produção de uma peça. Avesso a tendências, o designer apresenta uma coleção de peças decorativas em prata, que sustentam a versatilidade de uma matéria prima nobre convertida em objetos contemporâneos num circuito associado ao luxo.

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Por sua vez, Dan Yeffet (Jerusalém, 1971), designer de produto com várias coleções espalhadas pelo mundo, como o conceituado Victoria & Albert Museum de Londres, opta por peças de mobiliário de linhas depuradas e objetos inovadores regidos pela simplicidade que rima com a contemporaneidade do hotel. 3 toni grilo, designer

4 dan yeffet, designer


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Requinte à beira mar Agora sobre o hotel. Sobre a paisagem que o circunda e o amarra à natureza agraciada pelo mar que toca, suave, no areal que preguiça defronte dos amplos quartos do hotel. Nas varandas contíguas aos aposentos, viradas para o horizonte traçado pelo Atlântico, fica rendida a vontade ao dolce far niente tão apetecido por estas terras agarradas ao silêncio quebrado pelo barulho calmo das ondas… N’O Terraço e n’As Dunas, a vista é acalentada pela mesma serenidade enquanto os comensais se entregam aos prazeres da gastronomia algarvia ditada em pratos da terra e (sobretudo)

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do mar, com a assinatura do chef Micael, numa carta que reserva espaço para a comida destinada a bebés e crianças. Afinal, falamos de um hotel familiar, onde instalações e espaços de entretenimento destinados aos mais novos não faltam. Aos apreciadores do descanso, o Finisterra Spa é um dos lugares de eleição, pelos momentos dedicados ao relaxamento do corpo e da alma e pela luz natural, ou o M Bar, o surf bar para famílias. Sem esquecer a praia do Martinhal, ótima para quem faz jogging logo pela manhã… Boa estadia.

R www.martinhal.com


Nas varandas dos quartos apetece preguiçar ao som do silêncio quebrado pelo som calmo das ondas do mar…

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move culture

Palácio Nacional de Queluz A Versalhes da corte portuguesa De palácio de veraneio a Casa Real. Cenário de festas sumptuosas imersas numa profusão decorativa absorta no efémero, de serões rasgados por serenatas e óperas cantadas a preceito, de jogos equestres e combate de touros. Palco de conspirações, momentos de tragédia e da ocupação francesa. Peça elementar da história de Portugal dos séculos XVIII e XIX. TEXTO Patrícia serrado ilustração Sara quaresma capitão

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A geometria do traço dos jardins do Palácio Nacional de Queluz contemplam o rigor do detalhe das avenidas de outrora calcorreadas por nobres, reis e rainhas da dinastia de Bragança. Figura de estilo da Versalhes de Luís XIV que casa em harmonia absoluta com a Sala do Trono, a sala dos majestosos espelhos, ornamentada pela talha dourada, assinada pelo escultor-entalhador Silvestre de Faria Lobo, num ambiente de inspiração rococó, bem ao estilo francês. Sala de festas e receções da corte, de audiências oficiais e de teatro. Espaço contíguo à sumptuosa Sala da Música, preenchida por serenatas e serões de ópera protagonizados pelos castrati, em especial Francisco Farinelli que, anos depois, preenche os requisitos da notoriedade como soprano.

Tudo em prol de Deus A regência da arte da ilusão primorosa do rocóco da capela privada quase se sobrepõe à forte carga religiosa imergida num encanto austero rematado pelos quatro quadros ovais do altar mor da autoria das quatro filhas de D. José I: D. Maria Francisca, D. Maria Ana Francisca, D. Maria Francisca Doroteia e D. Maria Francisca Benedita. Paradoxo sublimado pela divisão de estatuto da sociedade, já que a própria nobreza assistia, defronte do altar mor, às celebrações religiosas, enquanto a realeza presenciava numa pequena sala lateral.

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D. Quixote de Queluz

Jardins de traço francês

Mundos à parte testemunhou a então sala escura, agora Sala da Lanternina, onde embaixadores de outras nações, como a de França, aguardavam a realeza para o beija-mão. Ato solene mui distinto na época, mas interrompido aquando da ocupação das tropas do General Junot. Página da história de Portugal cobiçada pelos franceses, que obrigaram ao exílio da família real no Brasil e tomaram de assalto o Palácio Nacional de Queluz. Termina a invasão, regressa a realeza a terras lusas e sucedem-se as conspirações, rematadas pelo fim da guerra fraticida protagonizada por D. Miguel e D. Pedro, que morre no Quarto D. Quixote, uma ilusão ao olhar centrado nas belas passagens da magnífica obra de Miguel de Cervantes.

De volta à arquitetura e ao ornato, há que referir a Sala do Café, destinada às senhoras, e a Sala do Fumo, criada para os senhores, ao lado da Sala de Jantar, espaço reservado para o repasto. E mais à frente, a Sala de Merendas, decorada a preceito para um piquenique que se abre aos jardins do Palácio Nacional de Queluz, de traço francês, decorados com esculturas de origem inglesa e italiana, lagos e fontes, elementos singulares que preservam o encanto das páginas da história demarcada pela arquitetura palaciana demarcada por uma época de fausto em Portugal. d

R www.parquesdesintra.pt


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Dubai Um mundo num deserto TEXTO e fotografia dulce alves

360º

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Dubai, o Emirado Árabe que muitos crêem ser um país é, na verdade, um lugar surreal, difícil de explicar e, mais ainda, de compreender. Um projecto megalómano? Um capricho dos sheyks? O paraíso na terra? Ou um espaço artificial, paradoxal, sem alma ou identidade? O Dubai pode ser um pouco de tudo isto. É, certamente, o destino mais nonsense que visitei.


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O investimento feito em pouco mais de quatro décadas conduziu à transformação de uma banal vila de pescadores num destino turístico (e de negócios) luxuoso, dirigido a uma elite mundial que ali se refugia numa bolha de ar imune às realidades distantes.

Praticamente sem história, sem raízes, sem grande identidade, mas repleto de recordes Guiness e outras medalhas de trazer ao peito, o Dubai conta com os maiores centros comerciais, os mais altos edifícios, as mais prestigiadas marcas e empresas. Tudo de topo. E é do topo do Burj Khalifa, o mais altaneiro dos arranha-céus, com 830 metros e quase 170 pisos, que podemos constatar o quão paradoxal é tudo aquilo. Areia, areia e mais areia… Auto-estradas que serpenteiam pelo meio das construções... Construções aqui e ali, todas elas imponentes, assustadoramente imponentes… Gruas, bichos de metal a ameaçar mais betão, mais recordes - a média é de um edifício concluído a cada dia -, mais blocos verticais. De volta a chão firme, apercebemo-nos de que quem nos rodeia é, na sua maioria, estrangeiro. Dizem os números que

apenas 17% dos habitantes deste Emirado são autóctones. Mal damos por eles, a menos que visitemos o único bairro da cidade que se pode dizer tradicional, Al Bastakyia. Nas casas antigas destacam-se as torres de vento, construções pensadas para captar os ventos de quaisquer direcções e refrigerar o interior das habitações. Porém, hoje estas estão destinadas a pequenas galerias, cafés e casas de hóspedes, com pátios e deliciosos pormenores de arquitectura islâmica. Não muito longe, no interior do Forte Al Fahidi, encontramos o Museu do Dubai, que nos proporciona uma pequena viagem aos tempos em que ali se vivia apenas da pesca e do negócio das pérolas. Uma amostra de um Dubai já quase inexistente, perdido no deserto e esquecido, até que um punhado de sheyks se lembrou de convertê-lo num pólo de atracção turística. 360º

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Passeando ao fim da tarde junto ao canal, na zona de Deira, podemos continuar a vivenciar um outro Dubai, mais árabe, mais genuíno e típico. As barcas carregadas que, de margem a margem, levam de tudo e a todos. Dali partem também os dhows, embarcações que 22

levam mercadoria para outros países do Médio Oriente e também destinos africanos. Não por acaso, ali perto fervilham os mercados, dispersos por ruelas destinadas a comércio de especiarias, essências, tecidos, prata… Um cheirinho a Oriente, por fim.


Fora dali, daquele epicentro, o Dubai é ocidental. O Dubai dos arranha-céus, das marcas francesas, das cadeias de comida norte americanas e dos automóveis de luxo fabricados em qualquer outro país é um Dubai que não se contenta com o seu imenso espaço físico

- que muitos diriam estéril não fosse o “ouro negro” - e que se quer projectar no Mundo lá fora. Um emirado que se converte numa Meca do consumo, num aglomerado de hotéis ultra-exclusivos, num destino de duas sílabas que anda nas bocas do Mundo. 360º

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unique flavours

Fangas Mercearia & Bar Sabor da Medida... Chegar. Inspirar. Ficar. A alma alimentar... e a saída adiar. Bem-vindos ao Fangas! TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia Inês Prazeres

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Rua das Fangas, hoje rua Fernandes Tomás. Rua outrora de comércio onde fangas eram unidade de medida. Memória que Luísa Lucas reaviva dando, ao seu espaço, o nome Fangas Mercearia & Bar. Há muito envolvida com a restauração lembrou-se, certo dia: “Porque não criar um espaço só com entradas?!”. Da pergunta à resposta, Luísa escolheu a cidade: Coimbra. Depois de caminhos percorridos, o desejo era voltar. Uma vez na cidade, o espaço em plena Alta Coimbrã. Ali, naquela viela, ligeiramente afastado do corrupio do Quebra Costas, sossego é requisito. A dimensão do espaço é uma aposta prudente: “É pequeno. Por vezes, dá vontade que fosse elástico, mas é esta a essência do Fangas, ser aconchegante, como um prolongamento da nossa casa”. À mesa, uma carta extensa, nos petiscos e vinhos, apresentando sabores nossos e “sempre com os produtos frescos na base e refeições feitas na hora”, após o pedido. Enchidos, conservas, legumes, fruta, especiarias... Sabores da medida antiga em pequenos pratos onde “apenas se misturam, por pedido, quatro a cinco elementos pois o segredo está na simplicidade da comida, no prazer de saborear a essên-

cia de cada alimento e distinguir cada sabor”. No Fangas somos comensais que decifram sabores: nos cogumelos a segurelha, na beterraba o iogurte, no tomate o requeijão e mel, no pastel a hortelã... e sem esquecer os doces no fim dos salgados, da estadia e da adiada saída. Tudo tão simples e tão rico em sabores que nós medimos sem cansar. O segredo é não pedir tudo, é regressar! Fangas espaço desejado por Coimbra e por quem por ela passa, no coração da UNESCO e só serve entradas! d

R Fangas Mercearia Bar (facebook) UNIQUE

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unique flavours

Pimenta Rosa A cozinha à antiga TEXTO Patrícia serrado fotografia joão pedro rato

As boas novas da gastronomia devolvem, uma vez mais, o tradicional e lisboeta Campo de Ourique ao roteiro de gourmands exigentes, com Pimenta Rosa. O aromático nome de um espaço novo, dominado pela decoração vintage num ambiente cosy de ambas as salas, e pela cozinha tradicional portuguesa. “Sabores da nossa infância”, que remetem para genuinidade, “com receitas do antigamente e que, nos últimos tempos, desapareceram dos cardápios dos restaurantes Lisboetas”. As palavras são de Marco Puga que, ao lado de Luís Martins, recebem-nos com cortesia para um repasto dos deuses. Mas porquê Pimenta Rosa? O nome prossegue o alinhamento da mercearia gourmet de ambos, de portas abertas há cinco anos no mesmo bairro. Marco Puga fala sobre pimenteiras, as “árvores decorativas em jardins” e

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recorda que a pimenta rosa embarcou em Portugal na época dos Descobrimentos. A pimenta rosa que aromatiza o polvo servido num molho tinto, e que tão bem se desfaz na boca, conquistando o palato… À mesa, o fígado junta-se às batatas fritas, estaladiças, lado a lado com generosos folhados de caça, acompanhados por feijão verde, sabores que despertam as reminiscências de uma infância longínqua. Do mar, o tamboril e o camarão marcam encontro num prato temperado com a sabedoria de quem tão bem sabe cozinhar, assim como o ensopado de borrego e as moelas à moda antiga, designação que faz jus a tão deleitosa refeição. E mais não dizemos, porque para conhecer há que reservar mesa no n.º 9B da rua Tomás da Anunciação, em Lisboa. Bom apetite! d

R Pimenta Rosa (facebook)


O genuíno e o tradicional sentam-se, de novo, à mesa, acicatam o palato com um toque de… Pimenta Rosa.

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Moules & Beer A estória do mexilhão e da cerveja TEXTO Patrícia serrado

A estória rende-se à tradição belga, onde o mexilhão é rei na companhia de estaladiças batatas fritas e maionese. Porém, o segredo está no molho. Desta feita, o molusco bivalve faz-se acompanhar por sabores vários, como o célebre molho à Meunier e os molhos Thai, com gengibre e lemon grass, o Fraîche, à base de crème fraîche e lima, o Mediterrânico, de tomate e ervas aromáticas, ou o tão português molho à Bulhão Pato. As moules à moda belga, com pesto, com caril, com cogumelos ou com chili são outras cinco opções de eleição. Aos menos corajosos recomendamos o mexilhão ao natural. Aos que não o apreciam de todo, sugerimos um naco de carne suculento. E não resista às entradas. É apenas um conselho…

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Agora o desafio: Encontrar a bebida de cevada perfeita numa carta certeira de cerveja artesanal. Duas dezenas, ao todo! Desde as clássicas belgas, às alemãs e holandesas, assim como as portuguesas, que não querem, de modo algum, perder tão deleitoso encontro e que, de forma airosa, começam a conquistar aos apreciadores de tão refrescante bebida que casa para sempre com o mexilhão ou… talvez não, pois parece que o gin tem também algo a dizer num espaço amplo, acolhedor e descontraído, eleito pela dupla Vasco Simões de Almeida e João Garcia que, depois do sucesso do Moules & Gin, em Cascais, apostam na mui lisboeta Campo de Ourique. No n.º 29D da rua 4 de Infantaria. Ao fundo. d

R Moules & Gin (facebook)


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Um lápis. Uma mão livre. Um arquiteto. Arquiteturas. Paisagens. Desenhos vestidos. TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia if imagem fixa

ALÇADO D(i)FRENTE Vestir Arquitetura(s)

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Património arquitetónico. Património paisagístico. Num caso ou noutro caso, património nosso ao qual é devido estima, que deve ser trabalhado para transmitir memória histórica, para se preservarem identidades, para não esquecer. O leque de mecanismos é vasto. Não se prenda ao pensamento imediato dos projetos de estirador, régua e esquadro. Imagine se, porventura, para a preservação dos nossos legados garantíssemos a sua salvaguarda em t-shirts com desenhos de património(s), esquissados pela mão de 32

uma das profissões que mais apaixonada por ele é, por uma disciplina que tem no património fundações para projetos futuros, um pilar da sua existência, a eterna arquitetura. Seria uma forma de “vestir a camisola” da perpetuação da história, com arte. Este ano de 2013 passamos da imaginação ao concreto: vestimos arquitetura(s) de patrimónios arquitetónicos e paisagísticos. Hugo Tocha de Carvalho, arquiteto quedado pelo mundo do património construído, cria a ALÇADO D(i)FRENTE uma mar-


ca de camisolas/t-shirts que, com nome bem projetado, nos faz deixar a ideia de apenas habitar patrimónios e nos concede a honra de vestir arquiteturas passadas e paisagens classificadas, patrimónios, dando forma a um significado tão simples da arquitetura: uma pele que nos veste. A apostar, claramente, no turista, Hugo cria t-shirts que quer os turistas quer nós mesmos, “donos” do(s) património(s) retratado(s), vamos querer comprar, mostrar, oferecer, usar. Tendo arrancado esta odisseia com

Coimbra, cidade a que está bem fixado e enlaçado, rumou de seguida ao Douro e ao Porto, e promete para breve mais patrimónios noutros locais, de beleza ímpar, no nosso país. Quando existe boa imaginação, em boas e talentosas mãos, ela ganha asas e promete ir longe. Com modelos femininos e masculinos, de manga curta e manga comprida... Que tal vestir arquitetura(s)? Que tal vestirmos ALÇADO D(i)FRENTE? d

R Alçado Difrente (facebook) TRENDY

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Era uma vez… um Laboratório d’Estórias TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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Espaço com uma abordagem experimental e de união entre a cultura popular nacional e as técnicas ancestrais da faiança das Caldas da Rainha. Ou “sou eu e o Sérgio”, palavras que determinam a definição simples de um projeto real fundado por Rute Rosa e Sérgio Vieira, numa cumplicidade entre as áreas da cerâmica e do design industrial. A fusão de saberes que criam disciplinaridades várias, porque, a bem dizer, aqui a criatividade é inclusiva, ou não fosse este laboratório assoberbado de experiências de autor, um núcleo aberto a ilustradores, escritores e, até mesmo, filósofos, que partilham, debatem e arrumam as ideias em conjunto para cada objeto, pensado e desenhado pelos mentores. É preciso “ir mais além do que criar as peças”, reforça Rute Rosa. E em cada objeto é desenvolvida a mestria de pequenos produtores e artesãos caldenses, que veem a sua atividade secular revivificada em pequenas estórias contadas, peças recriadas por factos da história associados à escrita criativa e guardados numa embalagem com uma identidade própria. Assim nasce o conceito de “aplicar as técnicas da faiança das Caldas e criar novas pe-

ças alusivas à cultura e à tradição portuguesas”, para que a história iniciada por Maria dos Cacos perdure no tempo com o cunho Caldas de Portugal. E sobre a arte de contar estórias desde março de 2013, Rute Rosa e Sérgio Vieira não têm tido mãos a medir. À primeira obra decorativa é dado o nome de “A medusa e o manjerico”, a “erva dos namorados” oferecida por Perseu a Medusa numa Roma muito antiga, ato muito presente nas festas sanjoaninas. Segue-se “A alfacinha dos caracóis”, que apraz explicar o epíteto dos lisboetas e por que razão são os caracóis tão apreciados em Lisboa, cidade onde os taberneiros de outrora ensinavam malandrices aos corvos, como picar as pernas das senhoras, em “O corvo malandro”. Até que chega são Martinho, com “Martinho e as estrelas”, peça em forma de ouriço usado para servir as castanhas assadas em dia de são Martinho. E no Natal? “No céu mil estrelas, na terra pilhas de luz”, para iluminar a noite da consoada. Por cá ficamos à espera de tão especial quadra festiva. d

R www.laboratoriodestorias.com TRENDY

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made in portugal

camisola poveira No Natal usamos camisolas tricotadas TEXTO e fotografia maria pratas

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Eu gostava de ter uma camisola de malha feita em lã poveira. Vivo muito perto do mar, onde há vento e frio, muito frio no inverno. Uma peça de roupa confortável, bonita e que dure muitos anos é ter um valor garantido no roupeiro. A Camisola Poveira é isso tudo. Não é fácil encontrar lã poveira, aquela que é de fio grosso, com cheiro a ovelha, de branco leite, a verdadeira. Procurar por ela nas lojas onde habitualmente compro lãs foi uma autêntica caça ao tesouro, mas acabei por encontrar umas meadas, numa lojinha de vila, que não é retrosaria, mas que vende rendas, panos da louça para costumizar, meias feitas por medida, tecidos, lãs e outras coisas que os fornecedores de passamanarias vão deixando. Comprei o suficiente para fazer uma camisola de tamanho médio, já que é para vestir por cima de mais uma camada de roupa. Conhecer a Camisola Poveira é com-

preender o processo de transformação, a origem dos materiais e a relação que existe com as pessoas. Fui à Póvoa do Varzim. Foi meio caminho para meter as mãos na massa, ou no caso, pôr mãos nas agulhas e tricotar, o resto do caminho foi feito a admirar a história, com momentos felizes e outros menos felizes, uma história de homens. Ao longo dos anos registam-se momentos, os menos felizes, com uma tragédia no mar, em 1892. Os poveiros decretaram luto e o preto impôs-se durante muitos anos. Arrumaram-se as camisolas brancas no fundo da gaveta, até à década de 40, quando houve vontade de a “trazer de volta”. A Camisola Poveira era feita em Azurara (Vila do Conde) na primeira metade do século XIX. Mais tarde é que passou a ser produzida na Póvoa do Varzim, pela comunidade piscatória. Hoje poucas pessoas se dedicam a produmade in portugal

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zir, a não ser que tenham encomendas e essas normalmente destinam-se em grande parte ao turismo. Os pescadores vestiam um tipo caraterístico de camisola de malha branca, com desenhos, com a função de proteção térmica e de identificação. A caraterização formal é simples: um retângulo de malha que assenta no tronco sem ser justo, com mangas e com decote próximo do pescoço. Afinal, o conforto também tem de dar espaço aos movimentos próprios da faina. A lã é tricotada e depois decorada com bordados a ponto de cruz. Os desenhos são bordados a fio vermelho ou preto e são dispostos simetricamente a um desenho central, no tronco. A temática serve a vida no mar, simplificando os bordados a ícones, a representações

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simbólicas, nunca esquecendo a obrigação de ter as siglas poveiras – fórmula gráfica mais ou menos figurativa que regista a propriedade, o brazão de família, o parentesco – em cada camisola. As siglas são traços, linhas, é um sistema de comunicação visual simples usado pela comunidade piscatória e que fazem parte das suas vidas, sejam eles barcos, barracas de praia ou outros pertences. A propósito destas siglas, terão os novos logos hipster sacado daqui a onda das flechas e dos traços paralelos? A minha camisola ficou pronta. Ainda não é Natal, mas com a camisola vestida já parece: os dias ficam maiores, melhoram e um novo ano volta. Até para o ano. d

made in portugal

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objetiva

Numa manhã soalheira de outono, Jorge Molder abre a porta do seu estúdio para uma entrevista traduzida numa conversa descomprometida sobre a sua relação com a fotografia. TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

Jorge Molder “Eu sou um construtor, um criador de imagens” 40


Desde cedo que a fotografia suscita interesse a Jorge Molder, o conceituado fotógrafo português que já passou pela função de diretor do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste de Gulbenkian, em Lisboa, entre 1993 e 2009. Entretanto, em 1994, foi o representante de Portugal na Bienal de S. Paulo e da Bienal de Veneza, em 1999. Oito anos depois, a Fundação Telefónica de Espanha apresenta uma retrospetiva do seu trabalho distinguido, em 2007, pela Associação Internacional de Críticos de Arte / Ministério da Cultura. No início de 2013, uma fotografia da sua autoria é incluída na Coleção de Arte da UNESCO sendo, assim, traduzida na primeira peça portuguesa a fazer parte do conjunto de obras de arte da organização.

“Eu não tenho uma grande paixão pela fotografia. Nem nunca tive.”

O trabalho de Jorge Molder traduz-se numa paixão pela fotografia, pela imagem. Eu não tenho uma grande paixão pela fotografia. Nem nunca tive. Tive uma paixão, e continuo a ter, pela imagem. Não sei fazer fotografia. Mas desde muito novo via quase todas as exposições que havia em Lisboa, que não eram assim tantas quanto isso… não tinha uma especial preferência pela fotografia. É óbvio que havia muito poucas exposições de fotografia, porque esta era menos reconhecida. Apesar de todas as limitações do Estado Novo, as coisas absolutamente extraordinárias e altamente avançadas aconteceram em diversas manifestações, com intervenções importantes, como as que estiveram ligadas à fotografia. Não tenho uma base de origem de confrontação no sentido de ser o horizonte com o qual nos deparamos como exclusivamente fotográfico. Comecei aos 15, 16 anos… e foi a única coisa que fiz.

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A relação da fotografia com o real e a realidade está subjacente no seu trabalho? A fotografia tem uma relação diferente, porque está inevitavelmente ligada à realidade mas, ao mesmo tempo, foi encontrando outras características curiosas. Surge quando os artistas começaram a interessar-se pela fotografia ou talvez quando os fotógrafos se interessaram pela arte. Nos anos 60. A partir dessa altura começa-se a servir-se da fotografia como documentação de uma certa arte que não tem como existir como documentação. Depois há pessoas que começam a trabalhar a fotografia com um estatuto diferente, em que a mesma já não é um documento, é deliberadamente uma obra que se pretende incluída no universo artístico, mas que, de algum modo, pretende renunciar a um conjunto de sinais mais ou menos académicos dalguma fotografia tradicional. Não se pode meter tudo no mesmo saco, porque pode ser perigoso.

“Não é possível fazer uma auto-representação que não é um auto-retrato e também não é possível fazer um auto-retrato que não é uma auto-representação.“ 42

A imagem retratada é uma auto-representação que se confunde com o auto-retrato cénico de uma personagem. São universos diferentes… Um auto-retrato é uma fotografia de si próprio, a qual pretende, de algum modo, evidenciar algumas das qualidade íntimas de quem é retratado. Uma auto-representação é uma pessoa que se fotografa a si própria e funciona um bocado como um vulto. Achei que estava mais próximo da auto-representação e penso que, hoje em dia, estes dois universos são impossíveis de estar contaminados. Não é possível fazer uma auto-representação que não é um auto-retrato e também não é possível fazer um auto-retrato que não é uma auto-representação. Se me fizesse esta pergunta há dez anos, eu era muito mais perentório ‘não senhora, isto é assim; aquilo é assado’. Hoje em dia tenho as minhas dúvidas, porque acho que forma uma espécie de associação inseparável.


“O meu trabalho (…) está ligado a questões metafóricas.” No decurso do seu trabalho, a representação baseia-se na obra de um escritor, é inspirada numa obra cinematográfica, numa ideia… Foi tão útil para mim ler e ver coisas muito importantes como ouvir pequenas conversas de sala de espera… uma frase, um som, uma palavra… não significa que dê origem a alguma coisa, mas pode ser o princípio de qualquer coisa. O fundamental é encontrar o tema central para o subverter, porque se os temas centrais permanecem sem serem subvertidos são sempre temas muito afetados por uma ideia de aprofundamento da realidade. Eu explico: Uma pessoa que faz um trabalho de sociologia, de filosofia, tem de respeitar os parâmetros em que trabalha e tem de os aprofundar. A arte funciona de outra maneira. Acho que funciona sempre por deslocações. Por isso, costumo dizer que o meu trabalho não está ligado a questões simbólicas; está ligado a questões metafóricas, porque uma metáfora é uma mudança de sentido. Faz parte do meu trabalho essas permanentes alterações de sentido. E… só há um autor

que tem a ver com os meus trabalhos, [Samuel] Becket, no sentido de que tem um universo visual, na minha opinião, pelo qual me sinto mais atraído.

“A cor começou a interessar-me, porque posso controlá-la.” As potencialidades do a preto e branco apelam ao dramatismo sequencial na fotografia tão associado ao seu trabalho, até surgir a Polaroid e o digital. Vou estabelecer aqui uma diferença que é fundamental para mim: Eu sou um construtor, um criador de imagens. Quando tenho de preparar alguma coisa, preciso de controlar o que faço. A fotografia a cor nunca me interessou porque nunca tive paciência para encontrar formas de a controlar. A partir do momento em que a fotografia mudou para o digital, descobri que podia criar estratégias de controlo. Já tinha, entretanto, feito polaroids, pelas quais me senti muito atraído; corresponderam a um mundo cromático com o qual encontrava uma proximidade estreita e ART

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também havia possibilidade de alterar a cor, subindo ou baixando a temperatura. A passagem para o digital que, para mim, era uma passagem, porque a partir do momento em que existe uma coisa, o que está para trás continua a existir, mas já não existe da mesma maneira. Particularmente na minha vida, a mudança surgiu na altura ideal, embora os primeiros processos fossem toscos, problema que já não se põe hoje em dia. Nessa altura, a cor começou a interessar-me, porque pude começar a controlá-la e, portanto, posso fazer aquilo que quero. Dentro de cada sessão existe um percurso definido entre as imagens? Não há uma delimitação exata, mas há contornos e há alguma familiaridade que se vão estabelecendo entre si provocando, por vezes, desvios, mas que se percebe. De vez em quando aparece uma imagem que não pertence à série, sendo afastada e posta no seu lugar. Pode ser que um dia venha a ter utilidade… Estes contornos vão acontecendo e existe, de facto, cumplicidade, aproximação, atração com os elementos que constituem o todo mas, ao mesmo tempo, mantêm a sua identidade. Em “Rei, capitão, soldado, ladrão”, exposição a visitar no Museu do Chiado,

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há uma narrativa a contar ao som de uma canção… Eu tive muitos sonhos e sonhei com o título, um bom título para a exposição. Um poema infantil que me lembro: “Rei, capitão, soldado, ladrão / Menina bonita do meu coração”. Mas há um outro equivalente em inglês que sãos as “nursery rhymes”, um conjunto de poemas tradicionais e há um que é muito próximo do nosso, cujo título é “Tinker, tailor, soldier, sailor”, do qual pego no segundo verso que é “Rich man, poor man, beggar man, thief” que deu origem a uma série baseada na história de John Le Carré. Não tive a preocupação de fazer uma antológica sistemática nem uma exposição retrospetiva.

“O instagram é muito interessante.” A evolução da fotografia regista um enorme potencial no presente, sobretudo com o instagram, que é olhado com desdém pelos mais puristas… Respondo com o título do filme de um realizador que não é, de certeza, um dos meus preferidos, antes pelo contrário, que é Woody Allen: “Whatever works”. Hoje, estas questões são de uma mobilidade extrema, portanto a resposta é de facto essa: Desde que funcione… O instagram é muito interessante. d


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street

A urbanidade transforma-se. As ruas trazem novas leituras. A arquitetura esquece o devoluto. Novas peles a cobrem. Telas imaginadas. Rostos dramatizados. Urbanidade renascida em rostos desenhados. Frederico DRAW, o street artist: rosto d’arquitetura. TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia Frederico Draw

Frederico DRAW Rosto d’Arquitectura

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À medida que percorro urbanidades, por arquitetos traçadas, vejo vãos transformados em telas de rua e questiono a dualidade. Com toma, um arquiteto, paredes alheias para telas d’arte? Onde nasce o street artist? O primeiro contacto com a street art foi prematuro, não recordo se algum dia estabeleci o objetivo: ser street artist. Certo que essa “vontade” se foi tornando mais intensa à medida que me envolvi com a prática e o tema. Anterior à intenção de vir a ser arquiteto, a street art desempenhou um papel fundamental no percurso enquanto estudante e artista visual, mas foi posteriormente a estar envolvido com a arquitetura que despertou a “vontade” de investir num novo projeto desenvolvido desde então e que aqui apresento. Embora matérias distintas, a relação entre street art e arquitetura tem pontos de concordância que, no seu complemento, me ajudam a ter uma diferente e mais crítica leitura do espaço que terá influência no resultado final das minhas obras. No que toca à apropriação das “paredes alheias” o meu trabalho é um registo de intervenção no devoluto, descaracterizado. Interessa-me que a obra aja como agente de transformação da cidade, na reabilitação imagética, atribuindo ao espaço público urbano novos valores e dinâmicas artísticas que poderão ser geradores de novas vivências espaciais e ocupacionais. 48

Mais passos, nova interrogação. A efemeridade da tua arte, sua revelia e leituras escondidas. Street art ainda é ser contra-corrente? Como defines esta arte? Faz parte do movimento street art ser contra-corrente, mais não seja por ainda ser uma arte não institucionalizada. Contudo, apercebemo-nos de um crescente interesse por parte de críticos, curadores ou galeristas em relação à street art, o que leva a crer que, cada vez mais, se reconhece a potencialidade e valor como movimento artístico. Acredito que o seu universo é diversificado e polivalente, passando pelo legal e ilegal, pelo público e pelo privado, mas apoiado na mensagem, na vontade enraizada de intervir de forma criativa e democrática sobre uma tela acessível a todos, a cidade. Passo lento. Andar sem movimento. Pergunto, ao olhar para a tua arte: como escolhes aquela parede, aquele muro? Como decides onde deixar a tua marca? Esta questão é um dos principais problemas que condicionam não só o meu trabalho, mas da maioria dos artistas urbanos. Hoje, a possibilidade de ocupar e intervir legalmente sobre uma parede ou um muro nas cidades é extremamente difícil e limitada e, quando possível, burocrática. No Porto, e.g., cidade onde me encontro mais activo, vive-se uma forte politica anti-graffi-


ti, uma exagerada falta de abertura e compreensão pelos valores e potencialidades da street art. As inexistentes áreas destinadas ou legalizadas fazem com que a maioria das obras dos artistas portuenses se encontrem em devolutos periféricos ou cidades próximas de politicas mais flexíveis. É certo que dentro de todas estas condicionantes, me preocupo em seleccionar as paredes ou suportes que parecem mais interessantes à integração do meu trabalho, pela dimensão ou pelo enquadramento espacial e ambiente envolvente.

Ainda sem movimento, há um facto que muitos não entendem: na tua arte tens profundo respeito urbanidade construída que raptas para ti, certo? É princípio transversal ao meu trabalho. O respeito que nutro pelo espaço da cidade é uma condição do arquiteto. Na minha prova de mestrado – “As imagens do espaço público urbano”, debrucei-me na forma como indivíduos, transeuntes, percepcionam imagens que proliferam no espaço urbano e constroem uma representação mental que lhes é fundamental na forma como vivenciam, ART

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“O respeito que nutro pelo espaço da cidade é uma condição do arquiteto.”

se apropriam e se identificam com a cidade. Nesta lógica, quando me é dada a possibilidade de intervir sobre o espaço público, preocupa-me esse encadeamento entre a cidade, obra e observador, e a forma como o meu trabalho poderá ter impacto nessa equação. Parada, a ver a cidade, acrescento. Dás olhares expressivos, carregados de história. Quando um rosto não terminas, o olhar não fica por desenhar. É ele que fala na tua arte? Sim, é comum dizer-se “o olhar é a janela da alma” e nele dedico grande parte do meu trabalho. É através do detalhe do olhar que crio um diálogo com o observador, suscitando uma relação que transmita uma mensagem que estimule a dúvida, a interpretação, a inquietação, mas sobretudo a tentativa de descodificação da mesma. O olhar é elemento central das minhas peças e tudo à volta se vai começando a esbater. Passo, não conheço aquela cara, mas conheço aquela. Desconhecidos, conhecidos. Quem são os rostos com que dás expressão à cidade? A representação da figura humana, a queda pelas expressões faciais, foi sempre campo de interesse que tem vindo a fazer par50

te primordial da minha obra. Desde que comecei a trabalhar a expressão facial e corporal, em papel ou tela, a transposição para a grande escala adivinhava-se inevitável, levando ao que hoje é o enfoque que distingue toda a minha criação. Cativa-me o forte poder expressivo, daí que para mim tenha mais interesse debruçar-me na representação do rosto do desconhecido. Desviando, à partida, imediatas atenções sobre quem é representado para que, ao invés, sobressaia a mensagem, o sentimento enraizado na expressão. Por fim, caminhando por paredes que esperam desenhos, pergunto onde és mais Frederico. Arquiteto, fotógrafo, street artist. Que diz o teu olhar se na parede o desenhares? Uma resposta difícil. É impossível dividir-me e tomar partido de qualquer um dos meus campos de interesse. Penso que serei todo um resultado dessas partes que me caracterizam, tanto a nível pessoal como profissional e artístico.

E sigo, com o olhar na cidade desenhada.

R fredericodraw.tumblr.com


paradoxo do amor texto Pedro Emanuel Santos ilustração Rosa Feijão

Ainda se lembra do hálito podre; dos olhos selvagens que a olhavam sem a ver; dos maus cheiros, dos cheiros estranhos, do cheiro a sexo; do cheiro animal. Não era por dinheiro - era pelo dinheiro. Era pelo ter que ser, e por não conseguir que fosse de outra maneira. Por que a obrigaram - não sabe se um deus, diabo ou pessoa - ou porque o destino existe e caprichosamente assim quis. Tem-no nas mãos, nos braços, no regaço. A noite está fria, gelada como nunca esteve. Mas ele continua quente, imensamente quente, que lhe contraste e fere o corpo. Ela fria, ele quente, encaixam-se como só o amor permite. Ela sofre, como sempre sofreu e nunca ninguém entendeu. Deixou de querer explicar. Deixou de tentar explicar ou perceber. Ou então já não sofre, pois para ter consciência disso, precisava de o comparar com algo bom que já não sente. Só o tem a ele. O amor deles que é um só e inseparável. Era ainda muito jovem quando ele nasceu. Ainda é, mas sente-se velha e cansada. Poucos anos de vida, foram centenas de anos de sofrimento, milhares 52

de rostos e corpos. Milhões de feridas que incidem noutras já abertas, que nunca sararam e deixaram de o ser. Enquanto crescia foi morrendo a cada dia que passava. Crescia por fora, morria por dentro. Mataram-lhe os sonhos, os aniversários. Mataram-lhe o natal. Nunca soube muito de nada, era melhor não pensar. Mas havia nela uma certeza: não queria passar por tudo aquilo novamente. E se o seu filho passasse, seria ainda pior. Não deixaria que alguém ou algo lhe fizessem mal. Que o magoassem. Apenas com dois anos, sentia que ele já sofria com ela... e porque o amor é capaz de tudo, mesmo tudo, ela iria salvá-lo custasse o que custasse. Salvá-lo do mundo, essa noite. A noite estava gelada, mesmo muito fria, mas já não fazia mal. Ficaria tudo bem. *na madrugada de sábado, dia 2 de novembro de 2013, uma jovem mãe caiu do sexto andar de um prédio na cidade de Braga, com o filho de dois anos ao colo. Dizem que se suicidou.


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stage

Infante de reinado dedicado à representação. Ator de corte que o aplaude. Diogo de Shakespeare, Brecht, Sófocles... e quem sabe, um dia, de Rostand. TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia Ricardo junqueira

Diogo Infante Representar, ponto! 54


Fugindo de Corinto tentou evitar terrível profecia. Quis contornar destino traçado, mas por homem de Laio, Édipo viu que em vão tinha sido sua tentativa. Sente que lhe foi lançada profecia, de ser ator? Gostaria de crer que sim, que há uma pré-disposição que determina caminhos, mas eles mudam. Acredito que escrevemos o nosso caminho, eu quis este. Seja por indicação divina ou de outra natureza, cedo percebi que queria fazer isto. Representar, a chorar ou a rir, em que registo fosse, queria representar. É uma forma de me exercer, expressar e comunicar. Em miúdo era tímido e, embora bastante articulado, tinha algumas dificuldades na comunicação com os outros e só quando subi a um palco é que percebi que tinha visibilidade e fui conquistando esse espaço. Mack the Knife casou com Lucy Brown e com Polly Peachum e não vivia sem Jenny. Teatro, cinema, televisão. Numa “Ópera de Três Vinténs” quem seria, o primeiro laço, o ilegal segundo e a amante? Difícil? Não, não é difícil. Lembrei-me que fiz de Inspetor Brown e te-

nho pena de não ter feito Mack, papel maravilhoso, mas na altura era muito novo. Não consigo fazer uma opção. Gosto de representar! Em cada área, em cada mulher da minha vida, tenho um prazer distinto e é tão fantástico. Na diversidade nós podemos completar-nos. Se me obrigarem a escolher uma para o resto da vida, creio que seria, necessariamente, o teatro. É o espaço de reencontro e uma espécie de casa. Seja aqui (Comuna) ou em que palco for. “Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe, / E depois as praias próximas, os cais vistos de perto.” Olhando para trás e mais perto, qual foi o cais que mais gostou? Os cais que mais gostei são os que estão para vir. Não sou de ficar agarrado ao passado. Encaro-o como percurso, transição necessária, crescimento; prezo muito isto, mas não fico agarrado a nenhum porto. Estou sempre a olhar para a frente. Às vezes, olho demais, para aquilo que não se vê. Esse projeto da “Ode Marítima”, de onde tiraste esse texto fantástico, posso dizer-te como curiosidade que ele vai

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“Representar, a chorar ou a rir, em que registo fosse, queria representar.”

voltar a acontecer! Foi tão feliz, deixou-me uma impressão tão intrínseca que, naquela noite em Coimbra, decidimos fazer um espectáculo, com os mesmos intervenientes, mas com dimensão teatral, a estrear em Março no Teatro São Luiz e depois no Teatro São João. “E quando o navio larga do cais/ E se repara de repente que se abriu um espaço/ Entre o cais e o navio,/ Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,/ Uma névoa de sentimentos de tristeza.” A cada trabalho acabado, quando um espaço se abre, há tristeza? Suponho que sim, mas não a sinto, como não gosto de despedidas, evito-as. Nunca digo adeus. Digo até já e quando estou a tirar um pé daqui, já tenho o outro num outro sítio qualquer. Lá estou eu a olhar para a frente. Não há tempo para saudade? Há, mas não gosto da ideia da nostalgia. Tenho medo de ficar amarrado e que esse sentimento me retenha, me impeça de progredir. Sou muito emocional, se calhar por isso, compenso com uma certa racionalidade e uma vontade de ir.

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Tudo começa com Egeu que tudo acerta com o duque de Éfeso. Depois, vem Adriana que baralha tudo com o Drômio de Siracusa na entrada. Todas as peças, quando em cena, têm uma “Comédia de Erros”? A vida é feita de erros. Isso é tão delicioso. Não podemos perder a capacidade de rirmos de nós próprios e de não levar isto demasiado a sério porque senão perde algum sentido e leveza. O olhar da vida pelas crianças é tão fantástico por isso, porque eles têm essa capacidade de desconstrução e tento aplicar isso naquilo que faço. Esforço-me. Sou tendencialmente sério e tento que outros me digam “Diogo, isto era uma brincadeira! Relaxa!”. Hoje, estou muito mais sereno desse ponto de vista, abraço com mais espontaneidade a falha. Abraçamos a “Comédia de Erros”? Absolutamente! A vida é uma comédia de erros, é com eles que aprendemos. E quando nada falha, quando Olívia fica com Sebastian e Viola com Orsino... É uma “Noite de Reis” ou é só uma noi-


te de infantes? Infante é pouco. Quando tudo corre bem é sublime e, às vezes, passamos uma vida inteira em que isso não chega. Eu tive muitas noites de infantes, fantásticas, de príncipes, donzelas e cortes, mas continuo a perseguir esse momento último em que tudo faz sentido, apoteótico, libertador e se calhar ele nunca chegará. Ou se calhar já o tive... Estou sempre à procura dele porque creio que é sempre mais.

“Vós sois o sal da terra”. Preservar o bem, para evitar males como a soberba, a presunção ou a traição. No “Sermão de Santo António aos Peixes”, Pe. António Vieira é educação. Representar estas obras é o nosso sal? Foi essa a razão que me levou a desenvolver este projeto, ver que havia espaço para ele, que uma grande parte dos miúdos ficam atentos e que a ouvi-lo descobrem um texto que lido teriam mais dificuldade em entrar. Tento fazê-lo

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“A vida é uma comédia de erros, é com eles que aprendemos.”

de uma forma contemporânea, acessível e desse ponto de vista, é educativo, a vários níveis. Por um lado desconfiar da ideia pré-feita de que as coisas são eruditas e inacessíveis. Às vezes o que isso pressupõe é um pequeno esforço que pode ser muito recompensador porque nos devolve uma dimensão de nós próprios que desconhecíamos. Temos que arriscar, sair da nossa zona de conforto e fazer esse esforço que para mim tem sido sempre muito recompensador e mesmo quando não é, continua a ser educativo, porque aprendo com os erros. Cá está, “Comédia de Erros”! “Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”, doce “Tempestade”. De que são feitos os sonhos do Diogo? Creio que somos feitos da matéria dos sonhos. Se não tivéssemos capacidade de sonhar, não tínhamos capacidade de evoluir como povos, seres individuais e pensantes. É o sonho que nos leva mais longe e os meus sonhos, são sempre de alcançar algo que seja palpável, realizável. Não perco muito tempo com sonhos irrealistas, gosto de

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sonhar com aquilo que sei que consigo alcançar, de me desafiar a ir mais longe, nem sempre consigo, mas não concebo a vida sem sonho. “Bem pago está quem por satisfeito se dá”, uma vez satisfeitas as curiosidades e como “Bem está o que em Bem acaba” por fim, “o louco, o amoroso e o poeta estão recheados de imaginação”. O Diogo está recheado de? Estou recheado de amor. Tenho a felicidade de ter vivido sempre acompanhado de um sentimento que me fortaleceu e permitiu acreditar em mim e no Homem. Acredito, convictamente, na capacidade do Homem de se exercer, reinventar e tento somar tudo isso nas parcelas que me couberem, tirar o maior partido disto porque cada vez mais tenho a consciência que a vida é curta e há que aproveitá-la, cada momento. É isso que estou a procurar fazer, a saborear tudo o que a vida tem para me dar, tentando resistir, às contrariedades da vida porque preciso de sorrir, de mover todos os músculos na cara que me levam a sorrir. É uma óptima terapia. d


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art

music

“Foi Deus” que “(n)Uma Casa Portuguesa”, certo dia, decidiu tomar iniciativa rara Nele e disse pianinho, pianinho... “Vou dar de beber à dor”. E passou para “A casa da Mariquinhas” sem, no entanto, deixar aquela “Estranha forma de vida”. Dizem-me que foi num “Barco negro” e que na proa levava uma “Gaivota” cheia “Medo” que não houvesse, no mar, “Amêndoa amarga” para depois cantar: “Ai Mouraria”... TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia Pedro Cláudio

Júlio Resende Do piano faz um grito ART

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“O grande objetivo desde disco é tocar o português em mim”

Jovem, mas veterano, Júlio Resende é, indubitavelmente e já, um dos grandes pianistas da nossa contemporaneidade. Músico de formação clássica, tinha um vazio, não podia ser só intérprete de peças que não se davam ao improviso. Virou o barco e partiu à descoberta do jazz onde o seu talento nato, e de certeza inato, o colocou lado a lado com geniais mestres do piano jazz: Bernardo Sassetti, Mário Laginha e João Paulo. Como pianista brilhante que é, quer sempre novos e maiores desafios e, paradoxalmente aos seus amigos, o fado era-lhe, e é-lhe, tão querido. Consequência natural, do amor de um estilo fez um novo estilo. Reinventa o Patri62

mónio Imaterial da Humanidade. Faz dele, do fado que o cativa, case study. Aplica-se no estudo, esmiúça os meandros e encantos, aprende-lhe a história de fio a pavio, em jeito de tabuada diz o repertório e os fadistas, e apresenta-se a prova final prática. À prova, deu-lhe o nome de “Amália por Júlio Resende”. O fim a que se propunha era simples, mas de complexidade elevada, “o grande objetivo desde disco é tocar o português em mim”. Na memória justificativa confidencia-nos: “Entre as minhas memórias musicais mais antigas está a voz da Amália a cantar ‘A Casa Portuguesa’ ou o avassalador ‘Estranha forma de vida’. Quis dizer isto com o piano.


E agora que sentia vontade de fazer um disco a solo queria fazer um disco a solo muito, muito pessoal”. Pois, que se toque Amália pelas mãos de Júlio Resende, numa escolha irrepreensível de 11 fados tão nossos; 11 interpretações excecionais que pedem para ser, somente, ouvidas, sentidas; 11 momentos que Gonçalo M. Tavares ilustrou, com palavras, na edição física do disco. Na performance de “Barco Negro” parecem os deuses a bater à porta d”A casa da Marquinhas” e o “Medo”? O “Medo” é o trazer de volta, numa “Gaivota”, a voz de Amália... Com estes 11 fados transformados tor-namo-nos,seguramente,crentes.Crentes na genialidade musical de Júlio Re-

sende que faz, tira e dá, do e ao piano, a sua expressão máxima, que cada nota tocada traz a voz de Amália e o improviso consigo, e de forma tão etérea que lembramos que “Foi Deus” que “pôs as estrelas no céu, e fez o espaço sem fim deu luto às andorinhas (…)”. A prova é passada com distinção máxima e louvor, por Júlio Resende. Ele que é genuinamente português e se “numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa (…) fica bem esta franqueza, fica bem, que o povo nunca desmente”: Álbum obrigatório. Música portuguesa, com certeza! d

R www.julioresende.com ART

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”sunrise”, 1927 (20th century fox)

sala escura

Murnau, Aurora eo Expressionismo do Cinema Alemão TEXTO Hernâni duarte maria

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O expressionismo alemão no cinema é conhecido como uma vanguarda. No entanto, ao contrário de outras escolas que submeteram os filmes numa base de experimentação de uma narrativa anticomercial e contra os padrões clássicos estabelecidos por D.W.Griffith, o expressionismo absorve e reconfigura a estética, sendo esta absorvida por um público ávido e sedento consumidor do produto industrial. E aqui reside o cinema expressionista alemão, que era calcado pela predominância do fantasmagórico e focava este universo do absurdo e surreal, das lendas, através de uma elaborada estética visual, que olhando para esse resultado nos tempos de hoje, é genial! Os personagens são criados através de crises, crises essas que, em muitos casos, chegam a tocar no catastrófico, o personagem sombrio, soturno, actuando na arquitectura da cena, ressaltando sempre o tom mórbido dos personagens, através de uma estilizada e exuberante luz cénica, de uma direcção de arte de régua e esquadro, e sobretudo a negra expressão facial dos actores. Medo no bom sentido… Toda a mise-en-scène é fabulosa e esquematizada. Os objectos inseridos nas cenas introduzem sempre um contexto simbólico. Em destaque temos, assim, a sombra, a olheira, o espelho, a escada,

a casa. Esta sequência são tramites essenciais ao filme, criando uma atmosfera dramática, em total harmonia com a fotografia do filme, trabalhando esta no contraste entre o claro-escuro. Poderia referir vários cineastas alemães que foram os impulsionadores do cinema expressionista alemão, mas focarei para mim, um dos mais visionários e importante cineasta alemão, F.W. Murnau. Murnau será mais conhecido ao comum dos espectadores, talvez , pelo seu filme “Nosferatu”. Porém, além deste, muito conhecido, Murnau realizou um dos mais belos filmes da década de 1920’, como “Aurora” ou, no seu título original, “Sunrise: A song of two humans” de 1927. O filme centra-se num pobre agricultor que elabora um esquema para matar a sua mulher após ter conhecido uma bela mulher da cidade, com quem se envolve num romance vertiginoso. É um melodrama extraordinário com todos os elementos do expressionismo alemão, embora tenha sido o primeiro filme de Murnau realizado nos EUA. Este filme mudo também tem outro aliciante: é dos raros filmes mudos que não têm as letras intercaladas com as imagens. Uma beleza desconcertante, este filme é uma viagem, é a “aurora” do cinema mundial e, como alguém disse, e esse alguém foi outro grande cineasta, François Truffaut, “o filme mais belo do mundo”. d sala escura

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new music

RICARDO DIAS ENSEMBLE Os Cinco na Coimbra Contempor창nea

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(HP)

Desafio. Convite. Jantar. Muito conversar. São Fado de Coimbra e improviso. São tradição e originalidade. São novo Fado embalado. Na cidade de Coimbra, nasce uma nova aventura na música que tem, no seu Fado, suas raízes – Ricardo Dias Ensemble. Querem levar o Fado de Coimbra, tão ligado à academia, mais além, dando-lhe leveza única sem perder aquele travo de capas negras que, para quem aprendeu a dizer saudade, é mais especial. Do jantar nasce esta introdução à primeira aventura que Os Cinco na Coimbra Contemporânea vão editar. Passa-se tudo em torno de uma mesa; à cabeceira ficou o mestre, diretor artístico. É ele que comanda esta trupe, sem algazarras. Traçou um plano, convocou as hostes e... TEXTO Quaresma Capitão fotografia henrique patrício (HP) e josé melo (JM)

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“Um projeto sólido de música que versa sobre Coimbra, mas que é, antes de mais, música portuguesa.” ...Dão novo arranjo ao Fado de Coimbra partindo das suas bases, experimentam novos sons que deem destaque à sua poesia e música tão características. Porquê reinventar o Fado de Coimbra? Ricardo J. Dias (RJD): Há dois anos o Ricardo Dias disse que gostava de fazer um disco com o nome: Ricardo Dias Ensemble. A ideia vem de termos em comum o nome, vivências e de tocarmos juntos no À Capella. Ficou a sementinha. Eu não tocava Fado de Coimbra, comecei a tocar na Capella e logo inclui instrumentos que não são comuns a este Fado: acordeão, piano. Fui adaptando a linguagem ao Fado e percebi que ia resultar. Depois, como também já trabalhava com o Bernardo Moreira, era só juntar dois mais dois. O Bernardo tem alguma afinidade com Coimbra e já tinha feito um disco sobre Carlos Paredes; não esquecer o Ni Ferreirinha que me massacrava a dizer ‘temos de fazer um disco’. Resolvemos fazer um disco com arranjos diferentes, com abordagem diferente. Um projeto sólido de música que versa sobre Coimbra, mas que é, antes de mais, música portuguesa.

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Cinco elementos na base. Cinco a Coimbra ligados. Dois com o mesmo nome. Três com nome diferente. A soma é sempre cinco. Como se juntam? RJD: Eu, o Ricardo e o Ni somos o trio inicial, tocávamos juntos na Capella (da qual somos sócios); o Bernardo arrastei-o eu, já conheço e toco com ele há muito tempo. O Zé foi sugerido e nem foi preciso avaliar. Foi consensual. Era a pessoa indicada para o cargo, pela presença de palco e expressão. Normalmente, a forma de cantar o Fado de Coimbra é um bocadinho operática e o Zé é tudo menos isso, é natural, tem uma expressão fantástica. O disco tem uma série de convidados, mas tem esta estrutura base definitiva que somos nós os cinco. Ni Ferreirinha (NF): Zé, porque aceitaste o convite? Zé Vilhena (ZV): (risos) Era impossível recusar. Para quem canta, começar a fazê-lo com gente da vossa envergadura torna tudo mais elegante e sensível. Posso dizer que subir a um palco convosco torna-se fácil, são um apoio único.


(JM)

Para a aventura deste ensemble estão alinhados os seguintes protagonistas: Ricardo J. Dias (acordeão e piano / diretor artístico), Ricardo Dias (guitarra de Coimbra), Bernardo Moreira (contrabaixo), Ni Ferreirinha (guitarra clássica) e José Vilhena (voz). Que mais valia traz cada um de vós? RJD: Do ponto de vista musical é um projeto sólido, ouves e é coeso, sem falhas. É muito bem tocado e foi arquitetado para isso. O Ricardo tem um som fantástico, está em forma. O Zé está com a voz no ponto perfeito. O Ni é fulcral, é ouvires uma viola inteligente e harmónica, na respiração e nos tempos. O Bernardo tem uma capacidade de improvisação fora de série.

NF: O Ricardo J. não falou dele próprio, mas eu falo. Para se fazer diferente de tudo o que foi feito até agora, no Fado de Coimbra, quer musicalmente quer na produção, tinha de ser com o Ricardo. A estética musical dele é maravilhosa e perfeita para renovar o nosso Fado. É musicalmente consolidado e reconhecido. É o diretor artístico pelo seu know-how, carreira, pelas pessoas que trouxe para o grupo. Outro ponto forte é o outro Ricardo, genial na guitarra. Eles são os dois pilares. ZV: Tu não imaginas o conforto que é para quem canta. O que tenho agora é uma coisa que não consigo explicar. Tenho um apoio completo musicalmente, o cantor está muito exposto e aqui, isso é atenuado.

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(JM)

Músicos consolidados no seu instrumento, com segurança suficiente para visitar novos arranjos. RJD: Sim, não estamos presos a um estilo, podemos ir mais além. É esta a grande diferença. O alinhamento passa por José Afonso, Edmundo Bettencourt, Carlos Paredes... Há alguma teoria na escolha do vosso alinhamento ou foi apenas por serem as músicas que mais vos encantam? Ricardo Dias (RD): Nas instrumentais foi por alguma rotina. Já tocávamos há muito e em conjunto gostávamos de tocar temas de Carlos Paredes e um do avô, Gonçalo Paredes. Depois também foi em função dos cantores, Zé e convidados, que tiveram uma palavra a dizer. NF: Quem nós fomos buscar, além do 70

Zé, são também sócios da Capella, o que nos faz identificá-los com músicas. Estão habituados a interpretá-las, dá segurança. Este é o nosso primeiro trabalho, com o claro objetivo de passar fronteiras. Não queríamos temas complexos. Muito do nosso potencial público, lá fora, vai ter o primeiro contacto com este reportório connosco, se oferecemos logo o erudito... Vamos levar o que mais se associa a Coimbra. Temas emblemáticos, que nos permitirão dar o salto em frente... RD: ...para algo novo. Na sua história, Fado de Coimbra está embrenhado no mundo de capas negras, nos tunantes. Vão trazer essa estética ou há um desligar das capas? (ZV): A capa fará parte obrigatória do


“Coimbra” é o nome escolhido para o vosso álbum de estreia. Porquê escolha tão simples? RJD: Temos de começar por algum lado: critério da simplicidade, com muito trabalho dentro. Este tipo de música não é conhecido lá fora. Quando dizes Fado remetem para Lisboa. Assim, queremos ser divulgação e música. RD: É o ponto comum a todo o nosso contexto. NF: De repente, aparece um ensemble que pode ser tudo o que tu quiseres, de onde quiseres. Tinha de haver uma leitura rápida à música de Coimbra e o nome diz tudo. Somos de Coimbra, projeto de Coimbra, guitarra de Coimbra e música base de Coimbra. Daqui a uns anos criamos outros nomes! Bons sons! d

(HP)

espetáculo, em dois ou três temas. Ela faz parte da cultura, simbologia e matriz da cidade, é incontornável. Todavia, vai ser usada de forma leve e não clássica. (NF): Durante os concertos teremos a parte lúdica a explicar a capa. Há esse propósito. Nos temas mais clássicos, em que entra a capa, será explicado ao público a sua ligação à cidade, à Academia. Não vamos tocar música a seco. Queremos chegar ao fim dos concertos e deixar luzes de Coimbra.

Álbum editado: 12/2013. Convidados: António Ataíde e Nuno Silva (voz), João Moreira (trompete), Bruno Costa (guitarra de Coimbra). Produção: José Melo Productions.

R Ricardo Dias Ensemble (Facebook)

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new music

Chama-se “Unlearned”, porque Scott Matthew quis que as pessoas esquecessem as canções originais para melhor compreenderem estas novas versões. Ainda que se reconheçam as palavras, a forma de cantar do músico australiano faz-nos perceber que este é um mundo onde vamos ter de escutar para aprender. TEXTO Helena Ales Pereira fotografia Michael Mann

Scott Matthew [Des]Aprender

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O seu mais recente trabalho chama-se “Unlearned”. Disse que era como se retirasse o apreendido da cabeça; é preciso esquecer a habitual forma de fazer as coisas, para se poder reaprender uma nova maneira. Teve de desaprender alguma coisa para fazer este trabalho? O processo de reinterpretar as canções e a forma de as fazer implicou algum desaprender da minha parte. Depois das canções ‘despidas’ dos seus arranjos originais e encontrados novos arranjos, gravá-las foi quase como fazer o meu álbum anterior. Mas este processo de desaprender é também para o ouvinte. É por isso que estas canções soam como novas? Até diferentes das habituais covers? Algumas ficaram muito diferentes, outras são quase como que uma homenagem a algumas destas grandes canções. Mas o ouvinte tem sempre de abandonar a ideia preconcebida relativamente a um destes artistas e a estas canções. É habitual incluir covers no alinhamento dos seus concertos. Isso foi uma das razões que o levou a fazer este trabalho? Sempre quis fazer um álbum só de covers, mas sentia que precisava de esperar pelo momento certo. Ou seja, depois de provar que seria capaz de fazer o meu próprio trabalho de originais. E, sim, alguma destas canções foram

já tocadas em concertos, porque estas músicas são, de alguma forma, uma espécie de registo no tempo das minhas influências, porque eram tocadas pelos meus pais e agora pelos mais jovens. Foi difícil escolher apenas estas 14 – mais 4 disponíveis no álbum digital? Comecei com uma lista bem grande mas, obviamente, não era possível gravá-los a todos. Com o tempo e ao longo dos ensaios, fomos percebendo que algumas destas canções eram mais sólidas: mais bem-formuldas e reais. Começamos por trabalhar essas canções antes de entrar em estúdio, mas os arranjos posteriores acabaram por alterar a forma de as tocar e cantar. Novas ideias foram sendo acrescentadas e outras retiradas. Qual foi a mais difícil de trabalhar? Houve alguma altura em que pensou: “Gostava de cantar esta como no original”? Não, porque nunca tive a intenção de imitar o original. As mais difíceis, para mim, foram as canções mais minimalistas, porque precisavam de ter uma vocalização muito forte, quase perfeita, porque havia muito pouco que pudesse ‘disfarçar’ as falhas. Eu só queria fazer a melhor vocalização e interpretação, atendendo às circunstâncias, e não considerando o original.

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Referiu numa entrevista que as três canções da sua vida eram: “Well In Wonder”, de The Smiths; “In This Hole”, de Cat Power; e “Like Someone in Love”, a versão de Chet Baker. No entanto, nenhuma delas faz parte deste álbum. Escolhi uma canção do Morrisey – “There’s a Place in Hell For Me and My Friends” - porque é uma canção muito especial para um amigo meu. Cat Power já tinha feito uma cover da sua própria canção e a Björk cantou Chet Baker... Mas gostava muito de cantar jazz no futuro. 76

Apesar dos diferentes backgrounds destes artistas e da diversidade das canções, conseguiu fazer um álbum que soa a Scott Matthew, como se fosse a primeira vez que elas fossem tocadas. Foi difícil criar novos arranjos para transmitir esta originalidade? Não, o processo foi muito orgânico. Ajudou muito o facto de os meus amigos serem músicos o que facilitou, e muito, todo estes processo. Por isso, acabou por não precisarmos de muito tempo para o fazer.


Descreve-se a si próprio como um “fazedor de ruído calmo”. Mas ruído parece uma coisa negativa... Percebo o que está a dizer. Quando se descreve algo como ruidosa, não é de uma forma prazerosa. Mas acho que a palavra ‘calma’ faz toda a diferença. Ao afirmar isto, queria dissipar algum tipo de superioridade que poderiam colar naquilo que faço. Fazer música para mim é algo que vem de dentro e não acho que me torne melhor do que os outros ou que seja assim tão profundo. No fundo é um ruído calmo. d

R www.scottmatthewmusic.com new

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tradition

A boca de cena aparenta tamanho reduzido. Os atores estão ali, nos bastidores, inanimados, adormecidos nos sonhos de histórias que querem reviver. Há um silêncio estranho atrás cortina. Há um passado quase esquecido. Há estórias adormecidas. Há olhares sem cor e… o silêncio esbate-se. TEXTO sara quaresma Capitão fotografia Marionetas da Feira

marionetas da feira d.roberto, regresso do herói 78


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Um burburinho corre baixinho. Os atores despertam do que parecia um feitiço. Alinham-se por entre panos e fios, ajeitam as vestes que são sua pele, passam a última cor, lançam olhares periféricos. Esperam, com curiosa cautela, entrar em cena; afinal, o mais admirado herói popular, do mais antigo teatro de fantoches de raiz popular, em Portugal, está em palco: D. Roberto. A história que carrega em si vem de há longe dos tempos em que uma Commedia dell’Arte passava fronteiras e comediantes e bonecreiros itinerantes contagiavam uma Europa Medieval em representações litúrgicas, mas com o

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tempo os risos soltos que provocava, a irreverência, espírito crítico, tão típico deste teatro, levou-o ao silêncio no representar liturgias no idos séculos XVI e XVII... Por cá, e por lá, do silêncio fez-se uma mudança e companhias nasciam, autos religiosos de cariz popular subiam aquele pequeno palco e nas estradas, por aí a fora, foram novos caminhos encontrados. A história é mui longa e rica, e no meio de mudanças e visitas, aparece, no século XVIII o herói popular D. Roberto. De nome sonoro, mais tarde firmado, foi ele que nos levou a falar de tão bela arte. Apresentamos, com Rui Sousa, Teatro Dom Roberto!


Renascer Rui, também andaste em bastidores de sonhos e um dia acordaste para projeto tão rico? Eu vivia num mundo de ilusão (pensando sempre poder irromper pelas trevas com o meu dom da arte). Passava o dia a dia num pesadelo, de atrofio criativo, onde tudo eram cargos e falta de inspiração. De repente, sem contar passo, de um pesadelo a um sonho no dia em que fui ‘atropelado’ por uma marioneta criada por mim, numa formação ao acaso. Como uma gota que transborda um copo no limiar do cheio, esta marioneta olhou para mim e transmitiu-me um subjetivo legado que eu um dia penso poder concluir. O permitir usar e abusar de técnicas e o misturar de artes faz desta arte, para mim, a mais bela, criativa e tradicional de todas (onde o marionetista pode ser também escultor, cenógrafo, ator, manipulador…). Histórias Há duas histórias que são os pilares que sustentam a tua boca de cena quando na teia te moves: “O Barbeiro” (conta apresentada a D. Roberto acaba em bela e animada pancadaria de humor e justiça) e “Tourada à Portuguesa” (pura comédia, cenas ligadas à tauromaquia onde o nobre touro leva sempre a

melhor). Mas há ainda “A Rosa e os Três Namorados” (comédia de cordel), “O Castelo dos Fantasmas” (adaptação do “João Sem Medo”) e uma comédia ao gosto do nosso génio popular, “O Marquês de Pombal e os Jesuítas” (Inquisidores são lançados ao mar pejado de tubarões e D. Roberto, a cada um lançado, diz: “Mais um padreca!”). Os pilares mantêm-se? Quando eu, o Alberto Castelo e a Telma Pedroso resolvemos abraçar este desafio de colocar em cena o Teatro Dom Roberto, sabíamos do legado, passado pelos mestres, que existiam quatro peças mais recorrentes e duas menos. Optamos por ”O Barbeiro” e “Tourada à Portuguesa”, pois são bastante conhecidas e ainda moram na memória popular. Em relação à “Rosa e os Três Namorados” e ao “Castelo dos Fantasmas” são histórias que temos como objetivo colocar um dia em cena. Para já estamos a produzir duas novas estreias do Teatro Dom Roberto: o clássico que se diz ter existido - ‘Zé do Telhado’, e outra de raiz, seguindo todas as matrizes desta arte popular. Diz-se de boca a boca que existiam mais de cinquenta histórias, para além das mais conhecidas.

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Personagem(ns) Quem é o D. Roberto para ti? Descreve a alma do herói que nos faz chorar de tanto rir e caracteriza cativante boneco. Quais são os seus traços para, caso por mim ele passe, o reconhecer sem hesitar e lhe dar um belo saludo! Europa fora existem outros heróis como o Dom Roberto. Todos eles seguem as mesmas linhas e tendem a ser muito semelhantes. Em Portugal, o nosso herói tem apenas de seguir duas coordenadas: sorriso de ‘tacha arreganhada’ e ter de cor de pele um rosa bem forte. O nosso herói é, para todos os bonecreiros, quase como um alter ego que extravasa todo um sentimento de revolta, estando ao lado dos injustiçados (algo intemporal). Cenário O vosso espaço cénico é singelo, único, com diretrizes que não devem falhar: a chita, que me salta à vista, quando me sento à espera do herói. Que nos ensinas sobre o palco? A guarita ou a barraca é coisa de simples transporte e montagem, pois há muitos anos atrás o Teatro Dom Roberto era ganha-pão de gente simples e humilde, carregada de pobreza e com a guarda sempre à perna. Os antigos mestres tinham de montar e desmontar a barraca rapidamente para exercer a sua função de maneira ágil a fim de, mal terminasse, juntar as moedinhas e fugir 82

para outro sítio. Fugia-se pois os conteúdos dos espectáculos eram corrosivos e bem populares, tendo como alvos de abate a guarda e o clero. Assim, o cenário passava por ser o melhor pano que houvesse à mão e a árvore mais bonita que se pudesse ter como fundo. Palcos Queremos ver e rever arte tão preciosa, onde a podemos encontrar? Por que estradas anda e pára o palco? Esta arte pode ser vista em três modalidades: o Teatro Dom Roberto, o Teatro das Marionetas de fios, como era feito nos antigos pavilhões das feiras, e o teatro mais experimental com marionetas, mas com baixa dimensão na nossa estrutura. Nós andamos sempre por aí, como dizemos habitualmente. De praça em praça, de palco em palco, sempre com a tradição no coração e prontos a divulgá-la. Se quiserem podem visitar o nosso próprio palco, que fica na nossa sede em Santa Maria da Feira e desfrutar, sozinho ou em grupo, de espectáculos, workshops e todo o ambiente de uma companhia de teatro de marionetas. Temos, em vista, várias datas para o Natal e já para 2014, e para as saberem basta visitar o nosso Facebook e o nosso Blog. Lá terão todas as novidades e agenda para poderem ser felizes.d


Vamos ao Teatro Dom Roberto! Ali hรก algo de paradoxo...

R Marionetas da Feira (facebook) R www.ruisousa.pt new

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new hotel

Entre os telhados vermelhos do casario de Alfama e o rio Tejo, descobre-se um espaço inusitado. Um hotel que se integra na paisagem típica da zona velha e que a consegue fazer sobressair. Um espaço onde se percebe que o tempo passa de outra forma. Sejam bem-vindos ao memmo Alfama. TEXTO Helena Ales Pereira fotografia ricardo junqueira

Memmo Alfama Espaço de descoberta

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No memmo Alfama, vive-se os sinais do tempo, do mais antigo ao mais contemporâneo, desde a fachada antiga aos interiores modernos. À entrada, uma mesa com 166 pés de metal cria uma atmosfera moderna, quase festiva, contrastando com o próprio edifício e com as peças de madeira maciça que vamos encontrando pelo hotel. Quem chega pode aproveitar o conceito do late check in: ir primeiro até ao quarto, descansar, e voltar mais tarde para as habituais formalidades. Bem no coração de Alfama, o memmo Alfama é o primeiro boutique hotel nesta histórica zona, mas parece fazer já parte da tradição envolvente, graças à recuperação da fachada e do interior, da responsabilidade do arquiteto Samuel Torres de Carvalho. Aqui dentro, sentimo-nos em casa e esta sensação é-nos dada pela dimensão aconchegante do espaço e pelo uso de objetos quentes e confortáveis na decoração, como as cadeiras e os sofás da sala onde se pode saborear os pequenos-almoços, até à mesa comprida de madeira que parece saída da casa de província dos nossos avós. A piscina vermelha, localizada no terraço, virado a sul, cria um elo de ligação com os telhados de telha vermelha, mas consegue também levar-nos a mergulhar o nosso olhar no rio Tejo, a linha de

horizonte deste hotel. Um espaço que pretendeu, desde a sua génese recriar o ambiente da autentic Lisbon, como nos explicou João Corrêa Nunes, um dos mentores do projeto. “Este é um hotel que se descobre e que reflete a ideia de uma Lisboa autêntica”, conta-nos. E esta autenticidade está nos pormenores da recuperação do edifício, que aproveitou, por exemplo, o chão original de pedra dos dois quartos do torreão; nas abóbodas de tijolo dos dois fornos, localizadas no piso térreo; na muralha Fernandina que percorre parte do terraço; nos cabides velhos e nas capas de discos de fados antigos que enfeitam as paredes dos quartos, ou não estivéssemos em um dos bairros típicos do fado. O lado contemporâneo é representado pelo novo edifício que alberga o wine bar e por detalhes como as janelas de grandes dimensões das zonas comuns que permitem usufruir da vista sobre o bairro e o rio. No interior, a tranquilidade do branco nas paredes dos quartos contrasta com os apainelados de madeira ondulados, presentes nos corredores, e que parecem uma continuidade das cortinas que, naqueles espaços, ocultam as casas-de-banho que usufruem da luz natural. new

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“Conseguir ter o hotel a funcionar, em Alfama, de forma que este pareça integrado na dinâmica do bairro foi algo que nos motivou” samuel torres de carvalho, arquiteto

O estilo depurado e simples dos quartos permite que seja a paisagem urbana e natural a brilhar. É como se as janelas com portadas de madeira fossem uma moldura da cidade no interior dos quartos, criando um equilíbrio entre a vista e a privacidade de quem aqui dorme. Em cada um dos 42 quartos há pormenores distintos, como os poufs de lã e algodão artesanais às mesas de cabeceira de madeira maciça, a lembrar que numa casa nem tudo é uniforme e cada peça tem um valor único e simbólico.

No wine bar, destaca-se a fotografia da autoria do fotógrafo alemão Alexander Kock, um dos anteriores inquilinos do edifício original. Depois, há ainda o serviço personalizado; o pequeno-almoço que pode ser tomado às horas que se quiser e no espaço que os hóspedes escolherem; tudo o mais deve ser descoberto por quem aqui fica ou vai ficando, porque, quando aqui se chega, tem-se vontade de convidar os amigos para vir cá ter, saborear umas tapas e beber um bom vinho pela noite dentro. d

R www.memmoalfama.com 88


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O insólito é um lugar-comum TEXTO Susana carvalho

Dois minutos apenas e já os primeiros curiosos chegavam ao local, sedentos de aparato e histórias cabeludas. A chapa de matrícula, onde letras e números se desentendiam, compunha uma legenda difícil num quadro que, por si só, desafiava a compreensão. Para desilusão geral, a sinistrada, única ocupante, saiu de gatas mas por seu próprio pé. E parecia determinada a procurar no chão algo mais que pudesse ter perdido, além do controlo do carro. Palpando os lábios com os dedos, como para ajudar a desencarcerar o discurso, tentou chamar a atenção daqueles que, esquecidos do socorro, se concentravam noutras questões vitais: “Derrapou? Adormeceu? Enfrascou-se?”. As primeiras palavras vieram reanimar a assistência, dando consistência à última hipótese: - Acho que fui atingida por um meteorito! Perante uma fila de carros desgovernada, Mário encostou à berma. Saíra de casa desconcertado, incapaz de gerir surpre-

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sa, raiva, incompreensão. A força com que o inesperado nos atinge. Com fúria marcial, fechara o computador como se desfizesse uma pilha de tijolos, gerando uma onda de vibração intensa. Contemplou depois os estragos, a cratera aberta na secretária, o vento que entrava sem cerimónia pelo buraco da janela. Com medo de si próprio, agarrou nas chaves e fez-se à estrada. Não queria pensar em nada, Vimos pelo presente e-mail, em absolutamente nada o plano de reajustamento da empresa, mas as palavras teimavam em colar-se-lhe à memória a redução do número de efetivos, como se projetadas no ecrã do para-brisas. Precisava de se sentir em movimento, longe dali, mas achou-se subitamente preso naquele para-arranca sem sentido. À passagem do reboque, compreendeu tratar-se de acidente. Porque tempo era coisa que não lhe haveria de faltar, resolveu-se. Saiu do carro e um forte arrepio, lembrando o casaco deixado no cabide,


voltou a trazer-lhe à ideia a precipitação com que saíra de casa. Por favor não responda a este email. Puxou a porta com força e fechou os olhos. O outro mundo, que não o seu, ficou onde estava. No perímetro do acidente, tudo difuso. Apercebeu-se de movimentações fluorescentes, de uma vibração de autoridade a ressoar numa voz, de uma atmosfera de fim de emissão, pontuada pelos intercomunicadores. Não pôde conter o pasmo: no centro de uma estranha depressão no pavimento, um carro capotado, num chão de jardim. Um escaravelho feio, inofensivo, de entranhas metálicas viradas ao céu. – Hum… hum… aselhice ou bebedeira! sentenciou alguém atrás de si, com um hálito incendiário. Num relance, fixou uma mulher sentada na traseira da ambulância. Embrulhada numa manta, rejeitava as diligências médicas, reiterando a sua saúde perfeita e era aconselhada por um polícia, nervoso o suficiente, a soprar num aparelhinho. Na mão, exibia um fragmento escuro, repelido com veemência, pela autoridade. Mário tentou, sem sucesso, perceber de que se tratava. Talvez um amuleto. Em que acreditaria agora? Desiludido com os valores, o polícia aco-

modava o bloco dos autos à prega da barriga e principiava a escrever. Mas escrever o quê? Definitivamente, estava mergulhado no caos. Nada funcionava. Nem balão, nem semáforos; até a Central reportava dificuldades de comunicação por baixa de energia. E aquela mulher a insistir na conspiração dos astros, com um estilhaço de plástico rígido na mão. Se porventura fora este polícia uma alma mais sensível, assomar-lhe-iam decerto ao pensamento algumas reflexões sobre a fragilidade da condição humana, perante os caprichos do universo. Também ele, afinal, se sentia atingido pelo imponderável. Prestes a acabar o turno, pimba… saíra-lhe aquela ao caminho. Ao seu lado, um colega intervinha para reconduzir à Terra um guedelhudo com pinta de artista que garantia ao condutor do reboque estar na presença de uma instalação de superior arte urbana, “ao nível do melhor que se faz lá fora”. Deu o polícia umas pancadas no alcoolímetro e encostou-o ao ouvido, na esperança de lhe sentir alguma espécie de pulsar mecânico. Respirou fundo e voltou-se para a vítima: - Vamos lá tentar novamente. Sopre aí com convicção, a ver se tudo isto começa a fazer sentido… d

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today fashion

Felipe Oliveira Baptista Dez anos em mise-en-scène

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A geometria dos espelhos cria um jogo angular interpretativo de cada silhueta traduzida por uma imersão estética de uma linguagem tridimensional em permanente diálogo com o processo criativo de um percurso com assinatura: Felipe Oliveira Baptista. A exposição de uma marca. O arquivo pessoal traduzido num cérebro tecnológico absorto em encontros registados pelo designer de moda português [e diretor criativo da Lacoste]. 12 instalações que refletem cinco temáticas presentes no decurso de uma década. Para ver no MUDE, em Lisboa. Até 16 de fevereiro de 2014. TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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A instalação desenhada e concebida pelo Bureau Betak, em particular o “Espelho da Mente”, consiste na tradução do arquivo pessoal de Felipe Oliveira Baptista. Pode-se considerar o arquivo da marca Felipe Oliveira Baptista. A parte com o lado mais pessoal é a que contém o vídeo, os compostos de pesquisa que, normalmente, o público não vê. Também foi interessante quando falámos com o Alex [Betak] e comecei a mostrar todos os artigos do meu sketchbook e de vídeo, todo o trabalho de investigação. O mostrar este lado criativo.

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Falamos de um pensamento reflexivo sobre uma sociedade transversal à moda? A ideia é ter um ecrã para o centro, é entrar no meu cérebro, de certa maneira, de as pessoas verem o que me interessa, para o que olho, as minhas referências culturais, sociais, estéticas, a arte… Isto é interessante, porque dá um outro contexto às roupas. O posicionamento dos espelhos em diferentes ângulos e direções apontam para um trajeto real de Felipe Oliveira Baptista. Considera-se um criador multifacetado? Gosto muito de tudo o que toca nas outras disciplinas de design.

Gosto de fotografia, do lado da mise-en-scène sobre o qual trabalhei bastante com o Alex na instalação e na ideia de como queríamos o espaço e também do que não queríamos que o espaço fosse. Foram estes os primeiros pontos que decidimos também com a Bárbara Coutinho [diretora do MUDE], porque não queria fazer uma retrospetiva clássica. A ideia destes espelhos dá-lhe um ar mais lúdico e mais aberto e menos ‘museal’. Acho interessante ver-se um modelo com outra atenção sem perder de vista os objetos de design. A mise-en-scène ajuda muito neste jogo.

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O cérebro tecnológico é a peça que desencadeia esta viagem por entre as múltiplas imagens. Até onde e por que mundos nos leva? É o outro lado, porque tem bastante importância e dá um outro contexto às fotos. Leva a uma interpretação do processo criativo, das referências, a ideia dos ecrãs, que ‘falam’ de uma coleção e têm imagens que estavam na minha parede, cadernos de colagens, imagens de desfiles, editoriais de moda… São imagens que andam à volta de uma maneira aleatória. E há ecrãs a filmarem as pessoas e ecrãs táteis em que se pode fazer zooms e ver mais textos descritivos. Há uma presença forte da tecnologia nesta exposição.

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Há uma clara rendição às artes e aos encontros inesperados registados pelo seu olhar face ao mundo que o rodeia. São sobretudo maneiras intuitivas, do que gosto e do que me interessa, do que me provoca reações, algum trabalho que me inspirou ou me fez pensar… e fazer dialogar coisas que são completamente opostas ou não fariam sentido umas à frente das outras. Acho que isto, às vezes, cria tensões e estes resultados e geometrias são engraçados. É, de uma certa maneira, também um estado de espírito de estar sempre a querer conhecer e aprender, porque quando alguma coisa me interessa e pretendo integrar no meu trabalho, levo um bocado de tempo a pesquisar sobre esse


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assunto. Tem um lado cultural, um lado de mise-en-scène, de narração, atitude, cor, imagem… Sobre as cinco temáticas em “debate” na exposição – Proteção, Novos uniformes e roupa de trabalho, Revisitando os clássicos, Geometrias variáveis e Tecnologia vs natureza –, tudo isto faz parte do modus operandi de Felipe Oliveira Baptista. São pontos comuns no decurso do seu trabalho? Sim, são pontos comuns. As temáticas estão organizadas ou podemos unir entre as variáveis. Há três coleções que ‘falam’ nisso. Sobre a dos [Novos] uniformes [e roupa de trabalho] há duas. Temos outros temas, como o Revisitando os clássicos, que foram feitos em todas as coleções. Portanto, temos temas que são ilustrados por coleções específicas ou temas que foram retratados em quase todas as coleções. As duas abordagens existem para que as pessoas escolham o seu próprio percurso dentro da exposição. A interpretação da moda por Felipe Oliveira Baptista, com a procura de uma nova feminilidade, uma vez que a própria moda obriga-se a ser-se única, exclusiva, converge num desafio incessante. Acho que ai que é interessante o trabalho de pesquisa e pessoal. Há uma certa liberdade de autor, há uma individuali98

dade. Essa busca de nova feminialidade é sempre um desafio que nunca morre. A moda está muito ligada às nossas vidas e do que nos rodeia. O nosso trabalho é apresentar às pessoas o que elas precisam amanhã – se calhar não precisam, mas fazêmo-las acreditar de que precisam desta ideia de combinar um conceito, de coabitar com um peça que seja desejável e que seja imediata. Uma peça que deve ter um valor estético que não precise de contextos e, já que estamos num museu, vamos ver de onde vem a moda e porquê. Há uma peça ou cor que interpreta a intemporalidade na moda? Na verdade adoro ver uma peça de uma coleção antiga vestida hoje em dia e achar que ela podia ser de há seis meses. Para mim é o maior elogio, olhar para trás e ver que há coisas que envelhecem e outras que não e isso não se pode dizer de avanço; e a busca dessa intemporalidade pode parecer pretensiosa como démarche, mas quando funciona é o mais difícil a fazer e uma certa modernidade que não está tão ligada ao antes. d

R www.felipeoliveirabaptista.com


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new music

Paradoxo. Ocorre-me, subitamente: desconchavo. Depois, por extensão: facto incrível. No fim: opinião contrária à comum. No encalço do significado final, coloco phones e carrego play, às cegas. “Drunken Sailors & Happy Pirates”, a Jigsaw. Pura ordem alfabética? O diabo faz das suas. TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia Henrique Patrício convidados João Rui, a Jigsaw & Tiago Curado Almeida, Pensão Flor espaço Galeria Santa Clara, Coimbra

Banjo & Guitarra de Coimbra Parodoxo Musical 100


Música. O som ia ser a minha efeméride paradoxal. Com imaginação sem peias, sigo para dimensão paralela e troco sons, baralho a visão, ou não. Crio um universo visual de sons selados e sons trocados. Na ficção tudo pode ser verdade, mas só o empirismo atesta paradigmas e “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!”, dizia Cervantes. No sossego da divagação relembro Flor, de musical Pensão. Feito. Tenho uma ideia, duas vítimas, despeço-me do dia abraçando a noite, esperanto de ambas. Com o diabo no rasto, viajo entre dimensão paralela e realidade: músico folk com guitarra de Coimbra, músico da guitarra de Coimbra com banjo, e o inverso. João Rui (JR). Entoa inglês com rouquidão demarcada, ad hoc digo que é D.O.C., é Jigsaw e o banjo. Tiago Almeida (TA), tem a solo a melodia da cidade transformada, na Pensão o travo de Lisboa, é guitarra. Juntas as vítimas, que se tente a inversão!

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Falando de cordas alheias. JR: Sendo de Coimbra é natural que, a dado momento, ouças o som da guitarra algures. Som muito bonito. Nunca me tinha debruçado sobre ele até descobrir Carlos Paredes, o instrumento levado a um virtuosismo incrível, ao ouvi-lo fiquei boquiaberto, rendido. Nas mãos de Paredes vejo como um instrumento sublime, aumentou-lhe a capacidade de forma ímpar. TA: Adoro o som! A referência que tenho é de um período da pop-rock em que se foi buscar muito o banjo, é a única. Não tenho rigorosamente nada a acrescentar. Fora isto, não acompanhei nada, zero de banjo.

Penso: vai findar em desconchavo. Especificidade do som trocado. Emoção ou técnica. Divagar. JR: Gosto muito do som e, lá está, a forma como Paredes gravou permite-lhe outra compreensão. Quando usado no Fado de Coimbra, tem o seu quê, mas não chega àquele grau virtuoso. Está a servir a canção, com mais a acontecer, o som acaba por ser diferente, mas ai também teríamos de dividir a questão entre guitarra de Coimbra e guitarra de Coimbra de Paredes. O som é extremamente melódico, facto de estar afinada um tom abaixo torna-o mais quente. TODAY

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TA: Som do banjo. Ele está em vantagem! Se quiseres o João toca. JR: Sim, toco e vais falando. TA: Boa ideia, toca! Tenho aquele imaginário John Wayne. Falas em banjo e imagino John Wayne em “A Velha Raposa”, uma banda de saloon, guitarras e harmónica. O banjo remete-me para esse imaginário. JR: É natural, muitos filmes western têm o banjo. Peço rum? Henrique fotografa. Bem-vindo, Paradoxo. Posturas. Tiago, curvas-te e enamoras as cordas. João, um estar Nureyev a dançar com cordas. Dedilhando. TA: Quando toco envolvo-me, completamente, com a guitarra. Há muita emoção onde as melodias te levam e, inconscientemente, acabas por dar intensidade ao teu corpo, acompanhando o que tocas. Se te envolveres mais, melhor. Há uma relação íntima com a guitarra e a sua forma permite-o. JR: O banjo não consegue abordagem tão clássica. Tem origens tão antigas, passaram por tanto e vários tipos de banjo. Até este banjo bluegrass, há com o braço mais comprido, outras formas em baixo… na guitarra de Coimbra não há isto. Na postura é complicado ir para cima do banjo, não permite que te debruces. Não há distanciamento, mas técnicas que 104


impedem, independentemente de, ao tocares, sentires o instrumento. E eu noto, na fotografia que vos troco sons, a postura que têm com as cordas, não muda. E esta hein? Será do instrumento ou de vós? Um dia falamos. Cenários no breu da noite. Pequenas salas. Anfiteatros. Silêncio para o som. JR: Tanto o som do banjo como da guitarra, inserindo na música que fazemos, é natural que, além do espaço, instrumentos e como os usamos, a noite, a solidão e acima de tudo o silêncio, ajudam. São veículo para o que queremos transmitir. Assim compomos músicas. Logo, quando tocamos num anfiteatro ou pequenas salas, onde há o silêncio, são espaços perfeitos, os instrumentos vivem melhor. Estamos a falar de instrumentos acústicos que, além do som que ouves, tem o próprio som do instrumento. No banjo, e guitarra de Coimbra de certeza, ouves o próprio instrumento e em salas silenciosas consegues ouvir esse som. Fazer esse tipo de concertos, sem microfones, ouvindo o som puro do instrumento, é do melhor. São raras as ocasiões, mas bonitas. Eis porque gosto desses cenários e, creio, que o Tiago também, são propícios a este tipo de música. TA: Sim! E a noite faz parte de nós. A solidão e o silêncio, como disse o João, fazem parte do método de composi-

ção. Eu não componho de dia, não sei compor à luz do dia, é demasiada luz e depois tenho queda para melodrama, abatimento, desejo, paixão, sensualidade… A noite torna-se inerente. Earl Scruggs. Carlos Paredes. Referências que são o próprio instrumento. Uma palavra. JR: Scruggs é único! Nada mais posso acrescentar além disso, toca que nem um diabo. O que o caracteriza é ser, apenas e só, único. TA: Menino! Ele arranjou uma nova linguagem para a guitarra de Coimbra e, quando descobriu que podia ser tudo diferente, imagino-o fascinado, como um miúdo quando recebe Legos novos, a fazer mil construções com as mesma peças. Ambos folk, sentido literal. Cordas nunca cruzadas. Porquê? TA: Porque não calhou. O que não quer dizer que no futuro… JR: Sim, não calhou. Há anos, na descoberta de instrumentos, com o Jorri, raptámos uma guitarra de Coimbra, mas havia problema na afinação. Não pude mexer muito. Talvez, se tivesse sido diferente, teríamos usado a guitarra. Nos Jigsaw, quando temos um instrumento novo gostamos de lhe encontrar a nossa linguagem. Um pouco como o Tiago, que não toca no sentido tradicioTODAY

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nal, aproveitando a riqueza harmónica. Não tive tempo suficiente para encontrar uma canção na guitarra. Não voltamos a tentar, para já. O fim. Uma música Jigsaw para levar travo de guitarra de Coimbra. Uma música Pensão Flor para balançar com som do banjo. JR: Hoje, nenhuma. Até podia encaixar, mas para nós, no momento em que criamos, a canção tem de pedir o instrumento e nenhuma pediu guitarra de Coimbra. Não descarto a hipótese, mas tem que ser pensada para tal. Quando componho a parte de guitarras, banjos… vou decidindo o instrumento que entra, tem de haver aquele espaço, ali na composição, definido na raiz. Se tiver a compor de propósito é diferente, se tiver a pensar só no arsenal que temos, torna-se complicado. TA: Há músicas novas onde talvez, ainda há o espaço da indefinição. Das editadas porventura em “Não Sei Nada Sobre o Amor” fizesse sentido. Tem um ritmo onde poderia entrar o som do banjo. O folk falou de guitarra, mas com banjo na alma. A guitarra foi ao banjo, mas 12 eram as cordas na voz. E o significado de paradoxo? É opinião contrária à comum, dizer que este facto incrível, da guitarra ser indie e o banjo português, é um desconchavo! 106


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chef’s table

O cargo de chef executivo do restaurante Costes, em Budapeste, enfatiza a diplomacia de um português na cozinha húngara, reconhecimento traduzido numa estrela Michelin mantida desde março de 2010. Falamos de Miguel Vieira, o chef, que depois de passar por uma mão cheia de constelações pela Europa, arrumou as malas na cidade de Budapeste. Proeza interpretada pela grande paixão pela gastronomia sem esquecer, porém, a palavra saudade… TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

Miguel Vieira um chef em Budapeste 108


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“Temos de fazer todos os dias os pratos com a mesma qualidade e sempre ao mesmo nível.”

pêssegos escalfados, framboesa coalhada, sorvete de verbena limão. vinho: oremus tokaji aszú 5 puttonyos licoroso rota das estrelas 2013 no restaurante feitoria, do altis belém hotel, em lisboa

Há uma dezena e meia de anos saiu de Portugal rumo a Londres, para estudar gestão hoteleira, mas bastou uma aula de cozinha para descobrir a sua verdadeira vocação. Tive sorte de ter descoberto aquela que acho que é a minha vocação. Acabei o 12.º ano em Cascais e não sabia o que havia de fazer, como a 110

maioria dos jovens, mas achei que gestão hoteleira seria uma aposta segura. Fui para Londres. No segundo ano desse curso tive aulas de cozinha e, logo na primeira aula, cheguei à conclusão de que não queria um trabalho das nove às cinco, sentado à frente do computador. Já em casa, comecei à procura


de escolas de cozinha e, passado um mês, estava inscrito na Cordon Bleu [de Londres], onde tirei o curso de cozinha e pastelaria. Estamos a falar dos anos 1998, 1999. Era uma mundo novo… A rota dos sabores prosseguiu por França, Espanha… Lugares de aprendizagem que lhe valeram o conhecimento. Técnicas, maneiras de trabalhar… como gerir uma cozinha, como lidar com pessoas, porque o nosso trabalho também envolve recursos humanos – numa cozinha, temos entre dez a 15 pessoas a cargo. Tive sempre muito cuidado na escolha dos sítios onde estive. Era, obviamente, a comida que mais me chamava a atenção, ou seja, trabalhei com pessoas que me suscitavam interesse pelo que e como cozinhavam; e tentei sempre apanhar o que achava que valia a pena. De repente, vai de malas e bagagens para a Hungria, como chef executivo no novíssimo restaurante Costes – de portas abertas desde junho de 2008 –, em Budapeste, e “constrói” uma cozinha de raiz. Foi muito difícil. Ainda hoje não é fácil. Ou seja, a Hungria é um país ‘relativamente recente’, está ainda numa

fase de transição. Depois de cinco anos a trabalhar no país, ainda não consigo dominar o idioma. Acho que é impossível! Estou sozinho, o clima é diferente do de cá, não tenho ninguém com quem falar e, acima de tudo, a pressão de ‘abrir’ algo do nada… é um desafio imenso! Mas, começámos muito bem. Tenho de saber transmitir o que pretendo às pessoas que trabalham comigo, temos de fazer todos os dias os pratos com a mesma qualidade e sempre ao mesmo nível. No início foi um processo de aprendizagem, porque estava a adaptar-me e, ao mesmo tempo, a tentar ‘educar’ as pessoas que trabalhavam comigo. O restaurante Costes é o único restaurante da Hungria com uma estrela Michelin, atribuída pela primeira vez em março de 2010, distinção que redobra o desejo de criar, ensinar… É o reconhecimento, principalmente pelas dificuldades que senti nos primeiros dois anos na Hungria, mas com muita vontade de fazer e meter a paixão que eu meto na cozinha. É o reconhecimento do trabalho de todos que passaram pelo Costes. Em contrapartida, há mais pressão, porque agora tens uma coisa que podes perder.

“É o reconhecimento do trabalho de todos que passaram pelo Costes.” TODAY

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“Assim que surgir uma oportunidade de voltar não a vou perder!”

A carta, associada aos produtos da época, denota uma dose extra de criatividade e uma vontade inesgotável de criar novos pratos. Agora reduzimos bastante a carta. Só tem 14 pratos e praticamente todas as semanas entra um prato novo, mas tudo depende dos produtos da época. Vou ao mercado de manhã, vejo o que há e usamos. A partir do momento em que o produto deixa de existir, mudo. É um desafio. Faz parte. É disso que eu gosto. Sou cozinheiro, por isso… Das 24 horas do dia, penso em comida dez ou 15. É a minha paixão! É o que gosto de fazer. E tudo surge naturalmente… A apresentação é um dos pratos fortes do restaurante Costes que, acima de tudo, prima pelo sabor. Quando penso em alguma coisa sei se vai saber bem ou não, se faz sentido no paladar. A questão da apresentação é, por sua vez, uma questão de fazer prova. Podemos fazer a apresentação do mesmo prato de cinco maneiras diferentes até que haja uma que cative o olhar. Mas há pratos que nunca entraram no menu e outros que, ‘em cinco minutos’, estão perfeitos! Ou seja, a apresentação é muito importante, porque é a primeira coisa que vemos. 112

Mas se te perguntar qual foi o prato que mais gostaste ou que te marcou, a resposta que me dás tem a ver com o sabor. O fundamental é como sabe. Tem de ser delicioso. Tem de saber bem. A principal preocupação é sempre o sabor. A qualidade dos produtos é outro dos valores intrínsecos na cozinha do chef Miguel Vieira, porém depende de uma logística bem formatada. Agora é, mas diria que 60 por cento do que tenho no menu é importado, como o peixe, porque a Hungria não tem mar, e a carne, tirando o foie-gras que é óptimo, provavelmente, o melhor do mundo, e uma raça de porco que existe no país [o mangalitsa], as verduras e os legumes do dia, que compro no mercado local, algum peixe de rio… Portugal está traçado na rota do chef? É uma questão da oportunidade aparecer. Desde 1999 que estou lá fora. Acho que o tinha a fazer e a aprender – não digo que que sei tudo, de maneira alguma –, mas a experiência que queria ganhar lá fora já ganhei e, por isso, assim que surgir uma oportunidade de voltar não a vou perder! d


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experience

Herdade da Malhadinha Nova A vida ĂŠ uma experiĂŞncia sem limite 114


Num Alentejo outrora despido de desafios, os vinhedos determinam um vinho que, ao longo de uma década, reúne consensos à mesa. Assim, como o azeite, fruto da azeitona de oliveiras do passado e do presente. Assim como o silêncio recatado pela serenidade da natureza e por uma paisagem imponente que circunda a adega, o restaurante e o hotel, uma casa de traça antiga que une o contemporâneo ao tradicional numa partilha finamente equilibrada. Bem perto de Albernôa. O nome: Herdade da Malhadinha Nova Country House & Spa. TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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Após uma viagem longa bafejada pelo sol e em boa companhia, eis o momento da chegada.

Ao fundo, a casa de família, que guarda o precioso traço alentejano, dá as boas-vindas. De fora, os sons do campo invadem a planície a perder de vista enquanto prosseguimos de carro até ao hotel, pois a casa dos hóspedes da Herdade da Malhadinha Nova fica mais à frente, rodeada de vinhedos, imersa numa tranquilidade profunda. Na Country House, a receção dá início a uma espécies de second life apetecível num ambiente confortável e, ao mesmo tempo, tão trendy protagonizado por peças antigas que coabitam em serenidade absoluta com a decoração contemporânea rematada pelo tom cru em contraste com o mobiliário de madeira de um castanho escuro que nos remete para a uma infância ditada pelos anos passados em

casa das nossas avós. Sem que a lareira, grande, da sala, passe despercebida, sobretudo nos dias frios que estão de volta; nem a mesa enorme, no espaço contíguo à cozinha concebida como open space, a qual recebe os hóspedes logo pela manhã, com generosos pequenos almoços firmados pela variedade e pelas cores vibrantes da fruta da herdade; nem o sumptuoso candeeiro de teto, com a assinatura do designer francês Philippe Starck, colocado sob o meio da mesa da sala, chame a atenção dos nossos olhos. Dos amplos aposentos sobressai a fusão do design minimalista da decoração com a arquitetura típica do Alentejo, perfil de conforto e bom gosto rematados por tons suaves que casam bem com a candura das paredes interiores.

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À mesa do Adega, o restaurante da herdade, estão Rita e João Soares, dois dos mentores da Herdade da Malhadinha, Luís Duarte, enólogo consultor, e Nuno Gonzalez, enólogo residente, ambos responsáveis pelos Malhadinha e pelos Monte da Peceguina. Afinal, os néctares dos deuses são a matéria prima preciosa da família Soares, bem como o desenho das vinhas e das castas para este terroir, os quais se convertem no mérito de Luís Duarte. E porque a experiência é versada na gastronomia, começa a apresentação da carta de outono assinada por Joachim Koerper, o chef consultor cuja “sensibilidade” e a “experiência” são enaltecidas por Rita Soares, a administradora desta propriedade alentejana, que nos dirigiu o convite para um almoço cinco estrelas iniciado por um Creme de castanhas com cogumelos de Paris cujo sabor persiste na contemplação do palato numa combinação perfeita com um Malhadinha branco 2005. O vinho existe apenas no espaço em questão, à semelhança de todos os que antecedem a última colheita. A conversa prossegue pela gastronomia, que mui surpreende com a Bochecha de porco acompanhada por um duo de abóbora. “A cozinha alentejana com um toque contemporâneo”, reforça

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Rita Soares. No momento do brinde, o protagonismo é desempenhado por um Monte da Peceguina tinto 2004, perfeito na combinação com um prato desenhado para a estação. A finalizar, uma Tarte de pêra “da nossa herdade” com gelado de baunilha criada em sintonia com os tons do outono, sob a batuta do chef executivo Bruno Antunes. “Nas estadias longas sugerimos uma refeição regional”, declara Rita Soares. Desafio aceite. O almoço do dia seguinte converteu-se num roteiro pelos sabores do Alentejo, com uma seleção de enchidos e um queijo de cabra gratinado harmonizado com orégãos e azeite Herdade da Malhadinha Nova, extraído da azeitona dos 70 hectares de olival da herdade. Seguiu-se um prato típico de carne de novilho com grão, batata doce, abóbora, enchidos… Um repasto “de comer e chorar por mais”, da autoria da cozinheira Vitalina, que tão bem conhece a gastronomia da região. A rematar, um duo composto por um bolo de chocolate húmido com gelado de baunilha. O repasto ideal para quem se aventura a andar de bicicleta durante duas horas e meia. A propósito dos passeios de bicla, recomendamos que marque a Herdade da Malhadinha Nova no GPS do telemóvel para qualquer eventualidade…


O contemporâneo numa cozinha de tradição

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Gastronomia aromatizada com dois dedos de conversa

O sol repousa suavemente para lá dos montes quando ainda percorremos a herdade de Moto 4 – sim, uma aventura em pleno Alentejo – rematado por um curto passeio de bicicleta, pois o compasso de espera é inatingível e o workshop Cooking Experience tem hora marcada. Em cima da bancada da cozinha em open space da Country House estão os ingredientes indispensáveis para um prato típico da região: Migas de espargos com porco preto. Beirão de alma e coração, Bruno Antunes imbuiu o espírito da cozinha do Alentejo já lá vão três anos, revelações feitas numa conversa animada sobre o vinho, a gastronomia e a importância da qualidade dos alimentos, durante a qual Joachim Koerper elogia as migas alentejanas do chef residente. E porque o workshop

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é para isso mesmo, não resistimos! “Metemos a mão na massa” sob a supervisão de ambos e aprendemos, passo a passo, a receita genuína da conceção de um deleitoso repasto além Tejo. Já no final, Joachim Koerper encarregou-se do empratamento, processo criativo dotado de sabedoria, mas desfeito em garfadas acompanhadas de louvores. A experiência prolonga-se à mesa do Adega, com mais dois pratos da carta da estação: Puré de grão de bico com ovo escalfado, presunto de pata negra e cogumelos de outono e Bacalhau acompanhado por trouxa de couve em emulsão de tinto. Um repasto divinal harmonizado com Monte da Peceguina branco 2012 e uma boa conversa, finalizado pela subtileza de Macarrons e gelado de natas, para terminar em bem.


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Três dias harmonizados com bom vinho O mesmo não seria se nos despedíssemos sem dizermos uma palavra sobre o vinhedo – 33 hectares ao todo –, as uvas colhidas pelas mãos de quem sabe, as castas – sete brancas e sete tintas –, o vinho aprimorado ao longo de uma década na adega construída de raiz com um layout traduzido por gravida-

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de. Uma retrospetiva ascendente no culto da qualidade suprema identificada por rótulos que primam pela diferença e pela exclusividade, criados pelas mãos dos filhos de João e Rita Soares e de João Soares – o terceiro sócio –, verdadeiros mestres da arte do desenho. Traços delineadores do princípio de uma história iniciada pela nova geração da


família Soares, vinculada a um presente demarcado por 450 hectares e de olhos postos no futuro. E o mesmo não seria se nos despedíssemos sem falarmos do refúgio dos deuses em pleno Alentejo, um lugar concebido para relaxamento total do corpo e a entrega da alma por uma soma de minutos traduzidos numa eternidade tão apaziguadora; e sem di-

zermos para se render às experiências made by Herdade da Malhadinha Nova, onde a gastronomia, a aventura e o desporto, o romantismo, a enofilia, a natureza, as artes, e a tradição regional não conhece limites, porque há que “fazer da vida uma festa”. d

R www.malhadinhanova.pt EXPERIENCE

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Luiz Argenta Rio Grande do Vinho História e evolução, tradição e inovação, antigo e moderno fazem da Luiz Argenta uma vinícola singular no Rio Grande do Sul e uma das dez mais belas do mundo. TEXTO e fotografia Andréa Rocha Postiga

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O vinho brasileiro, infante na história vitivinícola, engrenou verdadeiramente neste apaixonante e exigente mercado há menos de duas décadas. Se é verdade que temos ainda um longo caminho, é também certo que as bússolas parecem andar bem reguladas, norteando sua trilha. Na Serra Gaúcha, mais precisamente na região de Altos Montes, que empresta o nome à recém conquistada indicação de procedência, a Luiz Argenta emerge dos planaltos que reúnem a combina-

ção ideal dos elementos necessários à produção do néctar de Dionísio. Ou de Baco – as raízes italianas, a majestosa paisagem e as semelhanças climáticas justificam o grande potencial deste terroir, um dos mais privilegiados do sul do Brasil. Aliando o saber-fazer deste povo alegre, hospitaleiro e trabalhador, às condições idealmente favoráveis à produção vinícola, a Luiz Argenta viria a se tornar uma justa referência na região.

atitude

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Marcante sintonia: Precisão e paixão, beleza e técnica surpreendem no premiado ou acervo vínico da Luiz Argenta.

As terras foram adquiridas pelos irmãos Deunir e Itacir Neco Argenta em 1999, à ocasião da falência dos antigos produtores. Sua destinação originária foi mantida, mas o replantio das vinhas seria necessário à recondução da trajetória. Após duas safras excepcionais, 2005 e 2009, ano em que a vinícola é fundada como homenagem ao pai, nomeando os vinhos. Nascia novo referencial da vitivinicultura gaúcha. Contrasta com as belas paisagens da região a arquitetura arrojada de Vanja Hertcert, inspirada nas vinícolas da região de Rioja, harmonizando com maestria beleza e técnica. Estratégias capazes de contornar as adversidades climáticas do expressivo verão serrano são responsáveis pelo arrefecimento nos locais de produção: teto duplo e ondulado e parede em pedras conservadas na escavação do terreno.

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O sistema de vinificação por gravidade aproveita-se da profundidade na construção, utilizando-se da lei natural para pressionar, fermentar e levar o vinho às barricas para o envelhecimento. Garrafas de design trazidas da Itália assumem exóticas formas, sendo manualmente rotuladas. Mas é à profundidade de 12 metros que a obra atinge o clímax: a adega incrustada na rocha é outro charmoso exemplar arquitetônico, abrigando as elegantes barricas de carvalho francês vindas da Espanha, onde os vinhos repousam ao som de suaves notas musicais que ecoam pela múltiplas abóbadas do espaço. Vinhos alegres e frutados, entre tintos e brancos, compõem a “L.A. Jovem”: notas de maracujá e pêssego marcam o Sauvignon blanc, cujo frescor é ideal para os pratos estivais e da gastronomia asiática.


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Vinhos mais sérios reservam-se ao acervo Luiz Argenta, linha de safras excepcionais, com passagens mais longas por madeira. Sublinho o notável Luiz Argenta Cuvée, 50% Cabernet sauvignon e 50% Merlot, espelhando com distinção o terroir gaúcho que tão bem recebeu a casta Merlot com suas condições geoclimáticas. Os 14 meses em barrica são responsáveis pela atribuição de estrutura e complexidade a este 2005 de marcante persistência. A alquimia resultante é um belo acervo vínico. No simbolismo dos rótulos, com sinais gráficos, o conceito da persona-

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lidade de seus vinhos e espumantes: permitem diferentes interpretações, com significado perene no tempo e arrojados no design. A bela tarde de imersão encerra-se com o pôr-do-sol de primavera na vinícola-boutique; hora de os vinhos repousarem ao som da suave música que ecoa pela cave; hora de as vinhas prepararem-se para serem banhadas pela lua; hora de a Luiz Argenta orgulhar-se da colheita dos frutos semeados. Uma experiência a não perder. d

R www.luizargenta.com.br


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www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt www.facebook.com/MutanteMag

Mutante 19  

Martinhal / Palácio de Queluz / 360º / Fangas / Pimenta Rosa / Moules & Beer / Alçado D(i)frente / Laboratório d’Estórias / Made in Portugal...

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