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texto Pedro Emanuel Santos ilustração Rosa Feijão

Improvável[mente] Havia uma homem que tinha uma casa dentro dele. Havia fantasmas que habitavam essa casa; e essa casa estava dentro do homem. Não sabia se era uma casa assombrada ou, se era ele, em si, um homem assombrado. Talvez fossem ambas - uma dentro da outra - reais. Por vezes, os fantasmas pareciam ador-mecidos, deixando-se ficar na casa, quietos, embora o homem soubesse que eles não precisavam de dormir. Ou talvez tentassem dormir, para convencerem a si próprios, que não eram fantasmas, mas sim, reais - pensava o homem. Outras vezes, estavam dias e dias bem despertos, tirando-lhe também o sono, cansando-o, atormentando-o.

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Enquanto isso, o homem estudava-os, tentando perceber o porquê de existirem, dentro dele. Analisou e experimentou várias formas de os expulsar: tomou medicamentos, químicos, procurando matá-los - mas não se mata o que não está vivo. Começou então a beber. Bebeu até não poder mais, na tentativa de os embriagar também, mas não resultou. Tentou ainda correr, correr e correr sem parar, para os tentar cansar. Pensava que assim deixariam de gostar de habitar nele, e o deixariam. Mas o homem cansou-se até quase desmaiar, e a eles nem o suor lhes chegou.

Mutante 18  

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