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18 /improvável

/outubro/novembro 2013

/art

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Philippe Starck

Saint Étienne Festival das Artes Quinta do Vallado Rota das Estrelas Pensão Flor •••


improvável

Provavelmente é pouco provável que seja provável que a probabilidade do provável deixar de ser provável seja mais que provável. Porquê? Somos mutantes. Dizemos improvável!


editorial /diretor João Pedro Rato joaopedrorato@mutante.pt /edição Patrícia Serrado patriciaserrado@mutante.pt Sara Quaresma Capitão saraqcapitao@mutante.pt /direção de arte João Pedro Rato /marketing / advertising Maria Canhoto mariacanhoto@mutante.pt Isabel Cotrim isabelcotrim@mutante.pt /colaboradores nesta edição Andréa Postiga Dulce Alves Helena Ales Pereira Hernâni Duarte Maria Maria Pratas Pedro Emanuel Santos /fotografia Bruno Pires João Pedro Rato Ricardo Junqueira /ilustração Ana Seia de Matos Rosa Feijão Sara Quaresma Capitão /FOTOGRAFIA CAPA Philippe Starck por Rainer Hosch /TIPOGRAFIA Leitura • www.dstype.com /redação rua Manuela Porto 4, 3º esq. 1500-422 Lisboa info@mutante.pt www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt www.facebook/MutanteMag Mutante é uma marca registada.

Mais uns meses, mais um número, mais um tema. É improvável pararmos com esta trilogia de tempo, edição, temática. Está no nosso código genético sermos improváveis mutantes. A nossa missão, nesta nova viagem, levanta voo em Saint-Étienne apanhando, a meio caminho, o assumido mutante Starck porque... we needed a Captain on this ship! Visitámos mundos já visitados dando-lhes novas leituras como em Sintra, no Palácio Nacional, ou na Coimbra da UNESCO, ou até na bela Quinta do Vallado. Desafiámos tripulantes de outras naves a serem improváveis e com eles fomos à Eritreia, ao Le Cordon Bleu de Paris, ao cinema, ao Festival das Artes... até tivémos com uma improvável mousse ilustrada de Viseu e vimos estrelas no Feitoria! Nos intervalos, aterrámos em solos díspares para testar novos sabores e conversar com um chef do paladar. Todo o improvável tem o seu lado provável e a nossa Enterprise não escapa a tal facto, os sabores são inevitáveis. Como diz? Banda sonora? Claro. Uma viagem é sempre melhor quando acompanhada de bons sons e esta nova missão Mutante ficou a cargo de uma Pensão, Flor de nome, e não só, mas seria improvável desvendarmos tudo aqui… já tanto dissemos. A todos, desejamos uma boa viagem pelo espaço Mutante. E já agora, o que é improvável no seu mundo?


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/Saint-Étienne /Raia histórica /O sabão /Palácio N. de Sintra /Le Cordon Bleu

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/La Boulangerie by Stef /Dux Beer

62 art

/Philippe Starck /Ideal&Co /Melissa

/Ana Seia de Matos /Philippe Pasqua /Hernâni Duarte Maria • Cinema /Pedro E. Santos • Rosa Feijão

90 new

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50 trendy

/Pensão Flor /Noiserv /Rodrigo Costa Félix • Marta Pereira da Costa

/Festival das Artes /Coimbra da UNESCO /Chef Vítor Matos

132 experience /Quinta do Vallado /Rota das Estrelas • Feitoria /Eritreia


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Saint-Étienne

A teoria do design na cidade TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato 1 a cité do design / saint-étienne

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Uma hora de viagem de carro depois, sem que se desse tréguas às palavras, chegamos a Saint-Étienne. Berço da indústria das fitas de seda, das armas e das bicicletas. A ilustre vizinha de Firminy, sinónimo de património de tão célebre arquiteto, Le Corbusier. A única “ville” de França, e a segunda da Europa, a tornar-se membro da rede da UNESCO das cidades criativas, com a classificação de Cité du Design, atribuída em novembro de 2010.

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A seda, as biclas e as armas Reza a lenda que uma imperatriz chinesa descobriu a seda quando um casulo de um bicho da seda caiu na sua chávena enquanto tomava chá debaixo de uma amoreira. Reza a história que o fabrico da seda, fechado a sete chaves, foi desvendado pelos romanos, que enviaram dois homens à China, de onde levam dois casulos num pau de bambú para Roma… A metrópole torna-se, assim, a porta de entrada da seda na Europa. Eis o início de um novo percurso da seda refletido no espólio traduzido na primeira coleção mundial de fitas de seda no Museu da Arte e da Indústria que, em 2001, reabre as portas após uma intervenção assinada pelo arquiteto francês Jean-Michel Wilmotte, o qual contempla a evolução do produção de mui nobre acessório. Desde 8

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a criação artesanal, em casa, aos artefatos e mecanismos usados nas fábricas, como o Jacquard, o tecido criado em homenagem a Joseph-Marie Jacquard, inventor do tear mecânico. A visita prossegue, desta vez, sobre duas rodas ou não fosse Saint-Étienne a cidade francesa onde foi fabricada a primeira bicicleta. A exposição, organizada no piso subterrâneo do edifício, centra-se no alinhamento de constante evolução, desde o monociclo ao velocípede e à bicicleta atual, com a “grand bi” e o cavaleiro em destaque, apesar das quedas e dos passeios atribulados que protagonizaram outrora… E termina na sala das armas de caça, ornamentadas ao gosto da nobreza e da realeza, e de guerra, fabricadas na cidade.


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museu da arte e da indústria

4 tear jacquard

5 quadro em tecido jacquard

6 bicicleta em exposição

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A Firminy de Le Corbusier Na vizinha Firminy sobrepõem-se os traços da acrópole de Atenas, composta por casa da cultura (Espaço Le Corbusier), estádio, igreja e piscinas, visíveis do terraço da unidade de habitação da cidade, conceito demarcado pelo traço do arquiteto, urbanista e pintor franco-suíço Le Corbusier. Um visionário na conceção do conceito de habitação social, que implementa as linhas decisivas da arquitetura moderna, retilíneas, depuradas… numa construção feita em betão armado, sustentada em pilares, com uma fachada horizontal, erguida sob orientação este/oeste, onde as varandas ostentam o vermelho, ora na parede, ora no teto. Firminy-Vert foi a última “unité d’habitacion” de Le Corbusier, inaugurada em 1967, isto é, 15 anos após a primeira, esta em Marselha, em 1952. Das três unidades projetadas para Firminy, apenas uma foi erigida e habitada, no presente, por cerca de dez por cento da população da cidade. Assente em três pilares fundamentais do pensamento do arquiteto – sol, espaço e verde –, o monumental edifício de 33 pisos, todos diferentes, ostenta só uma porta de acesso, para que os vizinhos se conhecessem. Os corredores largos e compridos são identificados, asseme10

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lhando-se às ruas das cidades, onde as portas contemplam as cores primárias: vermelho, verde, azul e amarelo. De ambos os lados, estão os apartamentos dúplex decorados com peças de mobiliário desenhadas por Le Corbusier. À entrada, atrás da porta, há uma caixa com uma porta para o exterior onde, há décadas, era colocado o jornal do dia, o pão e o correio, uma ideia que caiu em desuso… Em frente, o open space soalheiro, composto por kitchnet e sala de estar, com uma janela imensa a rasgar a parede, desenhadas com base no seu modulor. A escada de acesso ao andar de cima foi pensada ao mínimo detalhe, com dois corrimões, um para adultos, e outro para crianças, e cujos degraus apresentam um rasgo no meio para que os bebés possam gatinhar até ao piso superior sem dificuldade. Em cima, a mezzanine acolhe o quarto de casal, com entrada para a casa de banho e acesso ao corredor para os quartos das crianças, dividido por uma porta de correr que, de ambos os lados, é decorada por um quadro de ardósia, em jeito de desafio à imaginação dos mais novos.

7 unité d’habitacion de le corbusier / firminy


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No último piso do interior do edifício, o jardim escola, agora entregue ao silêncio, manteve as portas abertas entre 1968 e 1988. Com uma entrada ampla, decorada com uma fonte, reservada ao recreio em dias de mau tempo, o espaço destinado ao ensino dos mais novos mantém as linhas de Le Corbusier, com pequenas janelas que ostentam as cores preferidas do autor, as quais pintam o chão de tonalidade subtis em dias de sol; pequenos recintos de trabalho para os mais novos; e salas de aula equipadas por sistemas de aquecimento sustentados por pedras retangulares e onde os quadros de ardósia se ensontram nas portas de correr, para dividir as divisões destinadas à aprendizagem. No cimo, o terraço, para os dias de bom tempo, a piscina e o anfiteatro, dois núcleos destinados ao lazer e à cultura. Já no centro cívico, a curiosidade volta-se 12

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para a igreja de São Pedro, inaugurada a 25 de novembro de 2006, após um longo período de interregno, e apesar dos esquiços com a assinatura de Corbusier datarem de 1962. O acesso é feito por uma rampa exterior em forma espiral, que converte o local de culto da religião católica numa inusitada pirâmide. Inspirado num anfiteatro com janelas horizontais, de onde sobressaem o verde, o azul e o amarelo, presença constante no trabalho de Le Corbusier. 8 terraço da unité d’habitacion / firminy

9 escada dos dúplex daunité d’habitacion / firminy

10 corredor daunité d’habitacion / firminy

11 igreja de são pedro / firminy


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De fábrica de armas a plataforma de design No coração de Saint-Étienne, outrora um recinto fechado e rodeado por muros altos e três imperiosos portões, a antiga fábrica de armas converte-se, no presente, na “Cité du Design”. A plataforma de investigação, experimentação e criação em ateliers destinados às várias vertentes do design que, hoje, abrange um enorme quarteirão, onde o ofício do design sustenta a criatividade e a inovação apresentadas na Bienal Internacional de Design de Saint-Étienne cuja primeira edição, promovida, em 1998, pela Escola Superior de Arte e Design de Saint-Étienne, impulsionou a conceção da Cidade do Design. Em suma, suprime-se grande parte do mural e dá-se vida ao projeto assinado pelos arquitetos Finn Geipel & Giulia Andi da agência LIN. O resultado confere a

renovação de edifícios, com destaque para o La Platine, nome atribuído em homenagem à platina, matéria prima usada no fabrico de armas, o qual invade um enorme espaço em frente ao portão principal. Dividido em cinco parte, alberga a biblioteca, duas salas de exposições – numa das quais esteva a exposição da Bienal Internacional de Design de 2013, a qual visitámos –, a mediateca, uma oficina de design e o restaurante La Platine, que recomendamos! Mas já lá vamos… Sem esquecer a livraria, nem a Torre de Observação de 32 metros de altura, que promete uma vista única sobre a cidade e as colinas que a rodeiam num olhar atento a 360°; nem as oficinas que ostentam gigantescas janelas de vidro, através do qual se vislumbram os alunos a porem em prática o seu trabalho.

12 portão de acesso à cité du design / saint-étienne

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Arte no museu… Quem procura as tendências da arte encontra-as no Museu de Arte Moderna, detentor de uma coleção considerada uma das mais importantes de França, e onde esteve patente a excelente mostra intitulada “Charlotte Perriand et le Japon”. A designer francesa que privou com Le Corbusier e Pierre Jeannerett, relação de amizade que gera o trio Le Corbusier–Jeannerett–Perriand, da qual resulta a criação da icónica chaise longue basculante, e demais peças de mobiliário. O percurso de Charlotte Perriand, 16

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que integrou o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, presidido pelo arquiteto franco-suíço, travando conhecimento com os pintores espanhóis Juan Miró e Pablo Picasso e com Jean Prouvé, fez-se acompanhar, ao longo da mostra, por documentos escritos, fotografias de arquivo e da exposição de Perriand em Tóquio, bem como pelo mobiliário usado nas reproduções cénicas de interiores, como o jardim zen das casas nipónicas, com especial destaque para os objetos em bambu criados pela


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designer, que visita o Japão por ocasião da II Guerra Mundial. De regresso a Paris, integra a equipa de Corbusier, encarregada de projetar, por exemplo, a arquitetura de interiores e o equipamento das salas comuns, do refeitório e dos quartos da Residência Universitária de Antony ou dos espaços coletivos da Cidade Universitária de Paris, ao lado de Corbusier e do urbanista Lúcio Costa, que reencontra, mais tarde, numa das suas viagens ao Brasil, onde conhece Oscar Niemeyer e Maria Elisa Costa, filha de Lúcio Costa.

13 charlotte perriand (foto de arquivo da designer) / fotografia patente no museu de arte moderna de saint-étienne, no âmbito da exposição “charlotte perriand et le japon”

14 exposição “charlotte perriand et le japon” © Succession Charlotte Perriand © ADAGP, Paris, 2013 Photo Yves Bresson / MAM Saint-Etienne Métropole

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… e à mesa De novo pelas ruas, o roteiro pela cidade contempla a passagem pelo majestoso Zénith, assinado pelo arquiteto britânico Norman Foster; a Ïlot Grüner, de Manuelle Gautrand, um enorme edifício amarelo, cravejado de pequenas janelas desalinhadas entre si, dentro da linguagem interpretada pela arquitetura do edifício; e a estação Châteaucreux. Pelas ruas, as esculturas interagem com o espaço público, não passando mesmo despercebidas. E porque as palavras alimentam a alma, há que dar alento ao palato. Até porque a gastronomia também é arte. Sugestões? O La Platine, na Cité du Design, com uma cozinha criativa e inovadora, em resposta ao desafio apresentado aos jovens designers, sem que o sabor ficasse, de todo, esquecido, servida num ambiente minimal e ecológico. Ou o Mon Jardin Secret, próximo do Museu da Arte e da Indústria, o qual, em 2011, venceu o concurso “Comércio e Design”. Distinção merecida. Afinal, o kitsh e o romantismo cénico espelha a sensibilidade feminina numa sala de jantar à antiga, com um imensa biblioteca clássica ao fundo, e um terraço com um jardim aromático, onde apetece preguiçar… e, claro, degustar um 18

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repasto confecionado com imaginação. Ou, porque não, o L’Absinthe Café, em Saint-Étienne, com arte assinada num repasto tentador, convertido num mimo, para rematar. Só mais uma recomendação: a Weiss. Uma encantadora boutique de chocolates, onde a imaginação ultrapassa o limite da tentação. O fundador é Eugene Weiss, fabricante de chocolate proveniente da Alsácia que, em 1992 abriu a primeira loja; em 1907, inaugura a fábrica de produção de chocolate em Saint-Étienne; e em 1965 expande a marca para Lyon e Paris. Ao fim do dia, o descanso merecido no La Belle Etoille, uma guest-house composta dois quartos recuperados num antigo prédio da cidade, convertida num sonho… e a viagem prossegue no regresso a Saint-Étienne. d

A Mutante agradece ao Turismo de França: R pt.rendezvousenfrance.com R www.facebook.com/turismodefranca R www.twitter.com/turismofrances A Mutante agradece à easyJet. www.easyJet.com


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zénith, de norman foster / saint-étienne

o remate do jantar no l’absinthe café / saint-étienne

16 ïlot grúner, de Manuelle Gautrand / saint-étienne

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na rota da raia histórica TEXTo patrícia serrado fotografia joão pedro rato

Trancoso. Pinhel. Castelo Rodrigo. Almeida. Os quatro destinos compõem o roteiro de dois dias de viagem pela Beira Alta, sob um sol de verão que já deixa saudades… numa viagem à descoberta dos encantos recitados pelos anais. Um encontro entre culturas ancestrais e sabores ímpares de uma gastronomia versada pela tradição. Nas “Aldeias Históricas de Portugal”.

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À saída do comboio, em Vila Franca das Naves, o calor substima quem, há meses atrás, profetizava o verão mais frio dos últimos dois séculos. A viagem prossegue até à tranquila cidade de Trancoso, uma antiga vila medieval abraçada pelas muralhas e encimada pelo seu castelo, na qual nos espera um repasto dos deuses, no restaurante D. Gabriel, rematado com um folhado recheado com mel, papas de milho e castanha, acompanhado por duas bolas de 01 castelo de trancoso

02 estátuas de d. dinis e d. isabel de aragão

gelado de baunilha. Um final feliz para um primeiro almoço em terras beirãs! A tarde começa com um passeio pelas ruas seculares da antiga vila. Defronte de uma das imponentes portas impõem-se as possantes estátuas de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, em memória dos laços do matrimónio de tão célebre reis aqui celebrado. No reverso dos ponteiros do relógio, que ditam o tempo, fica o registo de um passado ligado à presença hebraica na região, hoje convergido no Centro de Interpretação Judaico Isaac Cardoso, no antigo bairro judeu; assim como num presente assente nos traços físicos e reais assinados pelo arquiteto Gonçalo 21


Byrne cujas obras são obrigatórias num roteiro pela cidade. Tempo há, ainda, para experimentar “sangue de judeu”, nome atribuído à aguardente típica, no Retiro do Castiço, assim como as tradicionais sardinhas doces de Trancoso sem escamas nem espinhas, desta vez na Casa da Prisca. Daqui partimos para a aldeia histórica de Marialva, com o seu castelo altaneiro, erigido no alto de um penhasco, envolto em muralhas perdidas algures no tempo. As oliveiras, hoje sob a alçada das tarefas dos habitantes desta pequena aldeia do concelho de Meda, completam a paisagem intramuros, palco da crença religiosa subordinada ao cristianismo, testemunhada pela igreja de Santiago, sem deixar para trás

o pelourinho, marco da história deste lugar arrancado aos muçulmanos já na segunda metado do século XI. Mudemos, porém de rumo, desta feita para o néctar dos deuseus, a.k.a. vinho. Começamos a rota pela Quinta Vale d’Aldeia, o projeto vitivinícola de dois irmãos de Meda, no Douro Superior. Os nomes: José e João Amado. A propósito, Xaino e Forla de Meda dizem-lhe alguma coisa? A reter na memória. E na memória fica a visita às Termas de Longrovia… O dia termina em Pinhel, num refúgio acolhedor da aldeia da Quinta Nova. O turismo rural Encostas do Côa, com experiências gastronómicas que remetem para as reminiscências de sabores genuínos dos produtos regionais.

03 marialva

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De um lado, a ribeira do Massueime delimita a fronteira do concelho, a poente; do outro, o rio Côa traça a linha de separação, a nascente. Estamos em Pinhel, sede de concelho cuja origem remonta à pré-história. Mais tarde, no período medieval, Pinhel ostenta um importante desempenho no contexto histórico, graças à aproximidade com o reino vizinho, sendo o castelo o ponto estratégico de vigia das gentes que povoavam esta re-

04 castelo de pinhel

05 castelo rodrigo

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gião. O mesmo castelo é reedificado no tempo de D. Dinis, o monarca que põe termo nas disputas com os árabes do lado espanhol e manda erguer a muralha na cidadela, e duas torres guarnecidas de ameias – a este e a oeste. A primeira, a mais alta, aufere um caráter relevante, devido à localização e às alterações arquitetónicas do reinado de D. Manuel I. Da história passamos para a arte sacra, exposta ao olhar dos amantes fiéis de tão secular ofício acolhido entre paredes do Museu Municipal de Pinhel. Casa instalada nos antigos paços do concelho, um edifício mandado construir por Vicente Pereira da Cunha, o corregedor da comarca de Pinhel.


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De volta aos pontos cardeais, é precisamente para leste que vamos. Em direção a Castelo Rodrigo. Uma aldeia histórica ímpar da Beira Interior norte, sita a mais de 800 metros de altitude, com uma vista de 360° ornamentada pelo verde das serras que sobressaem em redor. Por lá, calcorreamos as ruas e as ruelas empedradas ornamentadas de ruínas misteriosas, testemunho de uma herança guardada com afinco, de um reinado delimitado, pelos nosso antepassados, no mapa que se diz do mundo; e conhecemos as iguarias de uma tradição que remonta a um

passado repleto de sabedoria no que toca à doce provocação do palato. De aldeia em aldeia, com o sol a acompanhar, chegamos a Vermiosa de Figueira de Castelo Rodrigo, com uma altitude a roçar os 700 metros, entre solos de granito e de xisto, com filões de quartzo, dotada de um património vitivinícola ainda por revelar. Falamos da Beyra, marca de vinhos de Rui Roboredo Madeira, enólogo, nascido em Lisboa e com raízes na Beira Interior, com quem conversamos sobre a arte de desenhar e produzir o néctar dos deuses que representa. A recordar…

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06 almeida

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Uma vez mais, o almoço aguarda-nos, desta vez, na Casa d`Irene, em Malpartida, aldeia do concelho de Almeida. Espaço acolhedor, com certeza, com um repasto digno de reis em terras raianas. E nada faria mais sentido que preguiçar durante a tarde nas Termas de Almeida, uma experiência adiada no tempo…


Dos anais, a visita contempla o Museu Histórico Militar acolhido pelas casamatas, espaço associada a um passado aliado à guerra e à sobrevivência; e o picadeiro d’El Rei que, na sua origem, fora um lugar ligado à artilharia ou não fosse Almeida uma importante vila com um forte cunho militar, rodeada por uma

dupla de muralhas, com uma enigmática forma de estrela de seis pontas, situada a mais de 700 metros de altitude. E mais houve por receber a nossa visita. Até ao nosso próxima regresso…

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made in portugal

texto e fotografia Maria Pratas

O Sabão Transformar azeite num objecto que não é gastronómico é fazer alquimia pura. Encontrar bolas e uns cubos que cheiram a canela e uns paus de gelado num armário de gavetas, não significa que estejamos perante uma montra de iguarias comestíveis, mas estamos perto disso. O Sabão Olívia é um sabão feito com azeite, é artesanal, e tem aromas e texturas mediterrânicos. Saem das mãos de Sara Domingos e voltam para as suas mãos.

Conversei com a artista plástica que gosta de pôr as mãos na massa, que produz estes sabões há dois anos e que gosta de trabalhar texturas e formas. Foi o trabalho enquanto artista plástica que a levou a produzir este sabão. As mãos que tantas vezes tem de lavar precisavam de um produto não agressivo e que fosse também hidratante para a sua pele, feito com ingredientes suaves e naturais. A saboaria tem um lugar importante na história da vida portuguesa. Desde o princípio do século passado, havia uma poderosa indústria que produzia sabões, 28

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algumas fábricas “ensaboavam” o mercado, através de diversas empresas, apresentando um produto que apesar de grosseiro, tinha múltiplas variantes. Um produto funciona quando cumpre a sua função e, um sabão na mão, é um guerreiro contra a sujidade do soalho de madeira, da roupa, da loiça e revela-se o melhor amigo da higiene. Assim era nos anos 50, numa casa portuguesa, com o sabão Clarim ou o sabão Azul e Branco. No atelier de Sara Domingos conversámos sobre a produção artesanal de Sabão Olívia e de como surgem as formas, as tex-


turas e os aromas. É esta a ordem da sua preferência, já que o cheiro não é o que mais define este sabão. Fez experiências, equilibrou os ingredientes e, se no início só ela os usava, quem os experimentou, gostou e começou a usar também. Sara Domingos tem vindo a aumentar a produção e passou a vender o sabão no seu atelier que se encontra numa rua da baixa de Lisboa junto à Sé, numa rua onde se cruza o velho comércio com as novas lojas renovadas. Foi motivo para justificar uma paragem e entrar. Ser turista numa cidade que se conhece pelo

coração é uma aventura que procuro regularmente, andando horas nas ruas e, assim, descobrir pelos meus pés, espaços, casas, lojas, becos, vãos de escadas e pessoas com quem perco e ganho tempo, a conversar. “Olivia vem de oliva, associado ao azeite, e também de uma tentativa de encontrar um nome universal, que funcionasse tanto para Portugal como para o estrangeiro”. Parei algum tempo a olhar para as gavetas que mostram e guardam a última produção, enquanto ouvia a explicação sobre os benefícios de cada um. Aviso, que não 29


é fácil escolher um sabão. Apresentam-se em forma de cubos, de esferas ou com forma de gelado de pau. As cores vão do creme ao castanho, do branco ao cinza escuro. Escolhi em função das formas e trouxe para casa um de cada. Enquanto os sabões eram embrulhados, contava-me quais os ingredientes utilizados no processo de fabrico: azeite, 30

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água, urtigas, ou canela, ou carvão, ou alfazema, ou mangericão, ou flor de laranjeira ou rosas... e esperar um mês para ser usado. “Sou eu que faço tudo, e o processo é todo manual”. Explicou ainda: “É a reacção química entre a base alcalina e a gordura, neste caso o azeite, que tem o nome de saponificação, que produz o sabão. Depois precisa de curar durante


um mês e, a partir desse momento, está pronto a usar”. Parece-me que nada é deixado ao acaso. Cada etapa da sua produção origina sempre um produto único. Tudo parece muito simples. Não é. Durante o tempo de secagem, Sara Domingos também produz as embalagens. O papel grosso e cru que embrulha cada sabão, é serigrafado com uma fo-

lhagem de Oliveira, artesanalmente, a tinta branca. Como os sabões, o papel não tem aditivos, só a água é o elemento comum ao fabrico de ambos. Afinal, água e sabão lavam tudo.

R saradomingos.blogspot.pt R Rua de São Julião 8, 1100 Lisboa 31


Palácio Nacional de Sintra Realeza d’alma e coração muçulmano TEXTO Patrícia serrado ilustração Sara quaresma capitão

Paço Real. Palácio da Vila. Ou Palácio Nacional de Sintra. Monumento de excelência da arte da azulejaria mudéjar, do traçar da reinterpretação sucessiva da arquitetura ao longo de oito séculos de história da residência da realeza portuguesa.

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Da dinastia Afonsina à de Bragança. Desde D. Dinis a Dona Amélia de Orleães, muitos foram os reis e rainhas que passaram pelo Paço Real da poética vila de Sintra. O refúgio da corte portuguesa, de onde se guardam segredos e estórias por detrás da história (re)criadas em frescos. Narrativas lendárias que contam a história de uma princesa que recebera um casal de cisnes como presente de casamento, e de tão graciosas que eram as aves de pescoço longo e plumagem branca, foram pintadas no texto da Sala dos Cisnes, retrato exuberante da Renascença italiana, em representação da jovem com o propósito de nunca ser esquecida; ou a conotada maledicência na Sala das Pegas, que invadem o teto com a divisa de D. João I no bico. “Por bem”. Ou serão as senhoras da corte do tempo do primeiro rei da Dinastia de Aviz a murmurar “por bem”, palavras proferidas pel’ “O de boa me-

mória” num momento muito delicado de sua intimidade com uma dama da corte quando fora descoberto por Dona Filipa de Lencastre, sua mulher… Voltemos à nobreza do al-zuleique ou azulejo, designação para a pequena placa ou pedra polida que, na Idade Média, é dada a conhecer pelos muçulmanos ao reino de Portugal. Arte em permanente exibição pública por todo o palácio numa escala superlativa de monumentalidade. No chão e na parede. Alicatados, corda-seca, esgrafitados… Definições integradas no alinhamento da geometria tão particular no universo árabe. Sem perder de vista o tão singular “tapete” da Capela Palatina, erigida no tempo de D. Dinis em nome do Espírito Santo, legado árabe no Palácio Nacional de Sintra, o qual remete para os alicatados andaluzes, segundo os registos da história, sendo Sevilha a proveniência de tão meticuloso ofício, assim co-

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mo para o exuberante alfarge, o teto de madeira em laçaria. Ou o chão do quarto D. Afonso VI, ornamentado por padrões mouriscos dominados por um castanho avermelhado e pelos amarelos e pelos verdes. Os ladrilhos cerâmicos esgrafitados ornamentados de arabescos, técnica corrente em Marrocos elevam, por sua vez, a insólita decoração da Sala das Sereias, pois levam a crer, uma vez mais, que existiria, na vila de Sintra de outrora, um mestre detentor de tão primorosa arte. Ou a azulejaria do antigo quarto de dormir de D. João I, com a decoração de D. Manuel I, adornada pela geometria e encimada por frisos com maçarocas inseridas em flores-de-lis, e a fonte ao centro, revelam, uma vez mais, a forte carga muçulmana neste Paço de reis e rainhas de um reino em terra mourisca. A imponência superlativa da corte excede na megalomania de dois reinados. Depois de D. Dinis, que manda erguer a

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parte mais alta do edifício da realeza, D. João I providencia a construção de um corpo independente com uma cozinha gigantesca, de onde sobressaem a dupla de chaminés cónicas de 33 metros de altura. O ex-libris da vila de Sintra. A arquitetura de Estado, intenção de ostentação e poder do início de uma nova dinastia. Inigualável, contudo, perante tão magnificente Sala dos Brasões, a mais importante sala heráldica da velha Europa, com as armas portuguesas, encimadas por um dragão alado, a fechar a cúpula oitava. Alegoria sumptuosa ao poder de D. Manuel I cujos oito brasões circundantes representam os seus filhos. Seguidos por fileiras de veados que, nas hastes exibem os apelidos das 72 famílias nobres mais influentes do reino, glórias a conservar pelas gerações vindouras… d

R www.parquesdesintra.pt


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texto e fotografia Andréa Rocha Postiga

O sabor e o saber franceses uma demonstração de arte e tradição Um regalo aos sentidos: Cores, sabores e perfumes mesclam-se em uma demonstração de cultura, tradição e conhecimento no coração de Paris.

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A imersão em uma cozinha profissional nunca esteve tão perto. Apaixonada pela gastronomia e encantada pelo savoir-faire francês, as palavras mágicas “Paris” e “férias” levaram-me a alimentar estas paixões no célebre Le Cordon Bleu. No coração do 15ème arrondissement, a escola de gastronomia, responsável pela formação de grande parte dos chefs que hoje comandam as mais exigentes e renomadas cozinhas do mundo, propõe, além de sua tradicional formação, ateliês com temáticas e durações variadas. As aulas são ministradas por professores chefs do LCB, aproximando os alunos do universo gastronômico. Minha 40

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exígua passagem pela capital permitiu-me não só cursar o ateliê “Marché de Paris”, mas também alimentar o projeto futuro da formação completa. Na cultura francesa, o marché, ou a feira, é muito mais do que um local de compras: Trata-se do encontro com o produtor, representante da tradição e do savoir-faire. É o contato mais próximo com a origem do que se leva à mesa que proporciona a necessária harmonia com a natureza: Os produtos disponíveis são o retrato da sazonalidade, que determinará o resultado final obtido. O ateliê começa com a visita ao marché e segue na degustação dos produtos adquiridos. À tarde, uma demonstração


de alta gastronomia, com o preparo de um menu completo pelo chef. Aurélien Légué, chef e professor do LCB, leva o grupo ao marché Saint-Charles (15ème) e atribui didática da visita. Pequenas explicações e uma palavra do produtor sobre a safra auxiliam o chef a selecionar os produtos que melhor expressam o terroir, a tradição e a estação para degustarmos. A riqueza estival materializa-se na variedade de frutas legumes, viçosos e saborosos. Com razão, Charles de Gaulle, quando se perguntava como governar um país com tantas variedades de queijos. Oscilam entre 350 e 400 os tipos produzidos no país, do Roquefort ao Reblochon, pas41


sando por todas as nuances de chèvre, que se somaram ao tour de sabores. De volta à escola, Côtes du Rhône, branco e tinto, harmonizaram com a variedade de “símbolos nacionais” degustados, coroando-se a degustação com as finas pâtisseries. A riqueza do terroir e do savoir-faire sobre a mesa! Na sala de curso do Le Cordon Bleu, estruturada em forma de auditório, com espelhos que refletem o trabalho na cozinha, os alunos presenciam a transformação da matéria prima em arte na demonstração de alta gastronomia. Uma verdadeira explosão de cores, sabores e texturas.

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Da espuma à confeitaria fina, a maestria na sincronização revela a importância domínio do tempo na combinação de processos. Técnicas de diferentes níveis de dificuldade e pressupostos básicos são expostos de maneira clara. Como resultado, um esplêndido menu. Sopa fria de cenouras com anis e mozzarella, de entrada. O prato principal ganhou vida no filé de cordeiro, com azeitonas Picholine, confit de legumes e polenta cremosa. O toque de açúcar ficou por conta da torta de morangos acompanhada pelo sorbet de morangos e balsâmico. Um afago aos sentidos e uma genuína inspiração.

Destaco: a técnica varia, mas a tradição é transmitida de geração em geração, na valorização do patrimônio nacional. Cada povo em sua individualidade deve primar pela origem e preservar a essência. A visão muda, mas o amor pelo terroir é perene. Na simplicidade de um dia, o ateliê Marché de Paris é mais do que uma aula; afinal, uma das formas mais profundas de se aproximar da cultura de um povo é explorar o sublime prazer daquilo que lhe chama à mesa. O LCB aborda com arte este aspecto. Minha experiência foi o primeiro passo para uma caminhada um pouco maior na próxima vez. d

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La Boulangerie by Stef A padaria de Paris em Lisboa TEXTO patrícia serrado fotografia Ricardo junqueira

Assim que os ponteiros do relógio marcam as 7 horas da manhã, Stéphanie inicia a ordem dos trabalhos na sua boulangerie pondo, literalmente, as mãos na massa, a repousar em câmara fria desde o dia anterior, para fazer pão: Baguette simples, rústica ou de cereais com caril, bola rústica, pão intergral, pão de cereais, pão de azeitonas com especiarias marroquinas… Para levar ou partilhar à mesa de La Boulangerie by Stef. Em família ou com os amigos. A compota, a manteiga e o creme de chocolate para barrar são oferta da casa.

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Mas há mais neste espaço convidativo e muito agradável entre a baixa lisboeta e Alfama, na esquina que marca encontro entre a rua da Madalena e a rua de São Julião, em Lisboa. De janelas a rasgar as paredes, num claro gesto de boas vindas à luz do sol, sonho concretizado por Stéphanie, a padaria parisiense está a escassos meses de completar dois anos de existência, a celebrar em dezembro próximo. Do cenário sobressai a decoração vintage, com peças de mobiliário adquiridas em feiras de velharias e posteriormente restauradas; e uma parede envidraçada, atrás da qual a dona da casa trabalha com afinco nas iguarias de fabrico da casa, até porque, além do pão, Stéphanie faz os deleitosos croissants de massa folhada. No alinhamento das suas criações estão também os salgados, preparados a meio da manhã, bem como as saladas,

as quiches… ou o brunch, com o qual “conseguimos trazer pessoas à rua da Madalena, em Lisboa, num domingo ou num feriado, algumas das quais de Cascais, graças à qualidade do serviço e dos produtos, apesar de estar tudo fechado por aqui. Em média servimos entre 60 a 70 brunchs nesses dias”, assegura. Para durante a semana, fica a sugestão do pequeno almoço, sem hora marcada. E caso surja uma ideia nova, Stéphanie materializa-a durante as horas que forem necessárias. Et voilá! No dia seguinte a ementa é complementada com uma surpresa. O que não dispensa na despensa? “Compotas biológicas de Azeitão (à mesa), Nutela, manteiga dos Açores, chás biológicos, o néctar dos deuses da Quinta dos Termos, da Beira Interior, vinho e queijos franceses, presunto português… a melhor oferta de dois mundos.” A provar. d

R www.laboulangeriebystef.com

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DUX Beer Cerveja Veteranorum! TEXTO e fotografia Sara Quaresma Capitão

DUX. Palavra do latim. Título do exército do Império Romano, designando quem liderava. Para quem de Coimbra é, um nome tão familiar. Inevitável reconhecer. Ligada às tradições académicas, sempre tão fortes na Aeminium: Dux Veteranorum. Expoente máximo da Praxe Académica, chefe máximo de uma Academia. Assim dito, para uma cerveja nascida em Coimbra, cidade de Criptopórticos e Fóruns, de estudantes de praxes ou não praxes, DUX Beer é um nome sábio e perfeito, para quem quer ser chefe veterano na arte da cerveja. DUX Beer é uma cerveja artesanal feita com produtos 100% naturais; uma cerveja que não é filtrada nem pasteurizada, sem corantes e sem conservantes, com gás (CO2) natural produzido a partir da fermentação das leveduras. Resultado de uma amizade entre dois amigos, José Miguel Faria (Mestre Cervejeiro de César) e Pedro Domingos (Provador de César), ambos bons apreciadores de boa cerveja – um produzia-a, outro consumia-a, método exímio

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– que se aperceberam que a cerveja que os unia era mui apreciada pelos militantes da bebida dourada e que tinham, a bem da tranquilidade de César, de lançar uma cerveja de qualidade e variedade. Haverá maior segurança do que uma amizade consumada na ingestão de cerveja? César esteja descansado, pode beber sem temer. Para garantirem o sucesso, a César só o êxito conta, não só criam a DUX Beer, como lhe dão três travos, para três gostos diferentes: Pilsner (cerveja de baixa fermentação e cor clara), Weiss (cerveja de trigo, pouco amarga, espuma cremosa e pronunciada) e Stout (cerveja preta, encorpada, espuma branca e densa). Chamar-lhe-emos as ninfas inspiradoras de César... DUX Beer, chegada ao mercado em outubro, promete muito. A si, caro leitor, só lhe resta combinar um copo com os seus comparsas da boa cerveja e Prost! Nota final: o César, somos todos nós...d

R www.facebook.com/DuxBeer


Ideal&Co A presente reinterpretação de uma herança texto patrícia serrado fotografia ideal&co

Reinterpretar, preservar, partilhar a genuinidade portuguesa de um legado cultural com história que, hoje, entrelaça a tradição com a modernidade.

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A idealização de cada peça é recriada pelo traço de designers. A materialização de cada objeto emerge das mãos hábeis de pequenos artesãos. A matéria prima sustenta na nobreza da sua origem. O processo de transformação é ecológico e sustentável. O resultado assenta na forma dada a artigos exclusivos, concebidos, um a um, nas pequenas oficinas de artesanato das Serras de Aire e Candeeiros. Ofício dominado por critérios bem definidos – qualidade, funcionalidade e durabilidade. Assim é a Ideal&Co. Marca portuguesa que nasceu há um ano do amor e da cumplicidade de Rute Vieira e José Lima, que desejam revitalizar a vetusta indústria de curtumes, e cuja formação na área de design 52

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remete para a fusão da indústria têxtil e não só: José apresenta um passado associado às bicicletas no seu curriculum profissional; Rute detém da sua herança familiar a indústria de curtumes, por parte do avô, António Vieira que, em 1959, funda a Fábrica de Curtumes Ideal, nome que dá origem a Ideal&Co. A Ideal&Co surgiu em setembro de 2012 e já marca a tendência do vintage no universo do design de moda. Ambos acreditam que a genuinidade advém do coração e das ideias sólidas. Concretizam-se na partilha de sonhos e valores e resultados. Qual o balanço dos primeiros 12 meses? O balanço deste primeiro ano de vida da Ideal&Co é bastante positivo.


Tem sido um ano sorridente! Desde o primeiro momento sentimos uma recetividade e entusiasmo, de todos, absolutamente surpreendente. Criamos laços e fizemos amigos, temos conhecido pessoas incríveis que nos têm apoiado e ajudado, com verdadeira paixão, a divulgar a marca dentro e fora de portas. Os contactos tanto de lojas, como de agentes, e mesmo do público em geral, tem sido muito positivo e construtivo. Sentimos que a marca e os produtos conseguem distinguir-se e captar a atenção no meio de tanta concorrência. A excelência do detalhe cruzado com a originalidade e a qualidade dos produtos da marca nacional, nascida entre o

Porto e o Parque Natural das Serras de Aires e Candeeiros, merece reconhecimento. Quais as estratégias utilizadas para o incremento da Ideal&Co dentro e fora de portas? A página do facebook da Ideal&Co foi a plataforma que elegemos para divulgar a marca neste primeiro ano. Uma aposta que se tem revelado acertada, pois permitiu estabelecer as primeiras relações e contactos tanto a nível nacional como internacional. A partir daqui temos conseguido dar-nos a conhecer e chegar exatamente ao público que era nosso objectivo conquistar. Isso reflete-se nas vendas que têm superado as nossas perspetivas iniciais, tanto em Portugal, como um pouco por toda a Europa, em Hong Kong, em Sin53


gapura e na Austrália. A imprensa nacional tem-nos dado muito apoio, com reportagens e artigos sobre a marca e a coleção. A nível internacional saímos na revista inglesa Monocle, em Março, o que foi fundamental para o mercado asiático nos conhecer e estabelecermos alguns contactos comerciais. Estamos a crescer e não pensamos em fronteiras, queremos chegar longe e sentimos, com este primeiro ano, que isso é absolutamente possível. A coleção tem características ecléticas capazes de agradar a mercados e públicos muito distintos, que se deixam conquistar pelo look intemporal e pela qualidade dos materiais e dos acabamentos, o que nos deixa muito felizes. As ideias florescem são passadas para o papel por meio do traço desenfreado, na ânsia de concluir o objeto, em busca da perfeição e da funcionalidade. Quanto tempo demora, em média, uma peça desde o esboço à concepção? O processo pode demorar entre um a três meses, em média, dependendo das peça em questão. No início de cada coleção/produção fazemos nós próprios a encomenda das peles, que são curtidas de propósito para a nossa marca com um acabamento e tom específico, através de um processo ecológico que usa taninos vegetais, em vez de crómio, o 54

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qual se chama curtimenta vegetal. Também o canvas em 100 por cento algodão é por nós acabado, por um processo de termocolagem onde, entre 2 camadas de canvas, é colada uma película muito fina de PU que impermeabiliza a tela e lhe dá resistência. Depois temos todos os acessórios metálicos e per-cintas para alças, que também são definidos por nós e mandados fazer em Portugal. Com todos os ingredientes à nossa disposição, começamos a analisar os nossos esboços e a definir ideias de produto. Após a idealização e conceção da peça no nosso escritório no Porto, fazemos todos os moldes em cartão e passamos para a construção do primeiro protótipo, o qual, normalmente, em diálogo com o artesão, sofre alguns ajustes que permitem uma melhor funcionalidade e qualidade de acabamentos, costuras, colagens, etc.. Quando a peça fica concluída, é inserida na coleção para venda. Procuramos ter sempre as matérias primas em stock, para responder aos pedidos urgentes, demorando, cada artesão, uma média entre um a três dias a cortar, colar e costurar uma peça que, no fim, é datada e assinada. Uma vez que ambos, José e Rute, vivem no Porto, como conseguem estabelecer “a ponte” entre a cidade invicta e a região do Parque Natural das Serras de


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Aires e Candeeiro, onde se encontram as oficinas que concebem as peças da Ideal & Co? A família da Rute, que estava ligada à indústria de curtumes, continua a viver em Vila Moreira, Alcanena. É aqui que compramos as peles e trabalhamos com os artesãos que, no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, têm as oficinas onde produzimos as nossas peças. Dependendo da fase de trabalho em que estamos, podemos ter de passar uma semana inteira ou 15 dias em Vila Moreira, ou apenas ir por dois ou três dias, para acompanhar e dar apoio a alguma encomenda que esteja a ser feita. Procuramos conciliar tudo e gerir o nosso trabalho como designers no Porto, conforme os timmings da Ideal&Co, que é a nossa grande aposta e prioridade. Viver numa cidade como o Porto, mantermos o nosso núcleo de amigos, o contacto com determinados ambientes/projetos e marcas que estão a acontecer à nossa volta, é fundamental para nos mantermos atualizados e ligados com o público que queremos conquistar. Este trabalho pêndular entre norte e centro é o que dá à Ideal&Co o caráter que a distingue: Design urbano, contemporâneo, mas intemporal, aliado a matérias primas de qualidade superior e a uma construção artesanal única, com origem no saber-fazer dos artesãos que, durante anos, trabalha-

ram os artigos em pele para a caça e a equitação produzidos na região do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Para terminar, e porque a ocasião é de festa, vão apresentar uma peça especial pela ocasião do primeiro aniversário da marca? Vamos ter novidades, sem dúvida. Há uma evolução na coleção com upgrades em alguns modelos. Assim como a apresentação dos novos tamanhos da mochila Candeeiros e da Aire Messenger, agora também disponíveis num tamanho mais pequeno a pedido de algumas clientes, que se apaixonaram por estes modelos mais masculinos. A isto acrescentamos novas opções de cor, tanto em canvas, como nas peças de pele, com a introdução da cor preta. Outra novidade é o lançamento de uma peça em edição especial da Ideal&Co para O EDITORIAL, blogue de design e lifestyle do Álvaro Tavares Ramos. E, por último, o lançamento do nosso site, onde todos vão poder ter acesso à história e às pessoas por detrás da Ideal&Co e, claro, conhecer toda a coleção. Porque “some things stay with you forever!” d

R www.idealandco.com 57


Melissa Estilo d’andar texto sara quaresma capitão ESQUISSOS Karl Lagerfeld

Plástico? Fantástico! Dos mais simples aos mais ousados. Dos mais cool ao mais haute couture. Dos mais minimais aos mais barrocos. Dos nude neutros aos arco-íris garridos de brilho... Melissa, de sabor a Brasil, há muito se afirmou no exigente e implacável mundo da moda com o seu calçado bem trendy, ultra-fashion. A sua inusitada matéria – um improvável plástico bem maleável, resistente e 100% reciclável – criou e ditou um novo estilo d’andar, uma moda, um must have para quem tem no estar na moda um modo natural de ser, no be stylish uma afirmação.

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Mais do que ser apenas calçado, Melissa cresceu e rápido passou a modo de vida, a ser um acessório de culto, um universo. É blog, é galeria d’arte, é pinterest, é facebook, é site, é loja virtual, é loja real, é instagram, é youtube, é twitter, é revista, é clube, é um vício que, a cada nova estação, nos faz sonhar com as futuras, deixando os pés a baterem de nervoso e espírito curioso. E cada nova coleção, com pés inquietos, Melissa tem sido um palco constante onde artistas e estilistas têm dado asas largas à criatividade e imaginação sem par, sem fim. Certamente que se lembra dos modelos criados por Jean Paul Gaultier, Zaha Hadid, Thierry Mugler, Patrick

Cox... e os que ainda agora pela Melissa caminham, citemos os Irmãos Campana e seu entrelaçado expressionista, Jason Wu e rendas fictícias, J. Maskey e transparências brilhantes, Viviene Westwood e laços e corações, e a última aliança a sair para os holofotes, na próxima estação, Karl Lagerfeld e doçuras geometrizadas. Resultado? Coleções únicas que são objeto de desejo, de exclusividade, que são objeto de coleção. Melissa é saber de moda. Onde nos leva a Melissa neste outono? Ao cinema. A 7.ª arte é a inspiração e o calçado Melissa é o protagonista desta longa metragem que quer fazer de nós divas, musas, estrelas de um mundo hollywoodesco. Vamos às compras?

R www.melissa.com.br

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Philippe Starck Improbabilidade Provável texto sara quaresma capitão

Loucura infinita. Filosofia peculiar. Imaginário surrealista. É o que se põe e dispõe. O designer arquiteto. O improvável. O texto podia ser calmo, descritivo. Podia dizer que Starck nasceu em 1949, em Paris, que estudou na Notre Dame de Sainte Croix, em Neuilly, e na École Nissim de Camondo de Paris. Que é, sem exageros ou gabarolices, o designer contemporâneo mais aclamado, premiado e desejado, no mundo.

1 philippe starck by lucie loret, baccarat

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2 restaurante / miss ko, paris

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Acrescentar que não chegaria uma dúzia de páginas para escrever o seu curriculum vitae, em lista. Podia expor que já desenhou, projetou e criou de tudo um pouco, até uma aparentemente banal escova de dentes; que na arquitetura de interiores se destaca na hotelaria e restauração tendo só, neste ano de 2013, terminado três mundos unique


para nossa tentação – Mama Shelter Lyon, Mama Shelter Istambul e Miss KO Paris; que no design e no design industrial desenvolve veículos, roupa, louça sanitária, candeeiros, mobiliário, utensílios de mesa, cozinhas, bagagem... e falar sucintamente de cada série, objeto, projeto; e, certamente e porventura, seria um texto sobre um outro criativo

mais constante, menos exótico, mais neutral. Philippe Starck é, em si mesmo, uma marca, um sinónimo de design, um designer de referência estética. É uma marca desejada por outras como Baccarat (reinvenção do lustre com Zénith...), Cassina (sofá bem apetrechado), Flos (domínio da forma da luz...), Kartell (uma família de cadeiras...), Ma65


gis (aquele último chien...), Fossil (tem horas?)... Todas estas com trabalhos, vários, assinados por alguém que diz de si mesmo: “I have this mental sickness called creativity” (abençoada doença). É convidado de luxo, senhor de um império. É criatividade em estado puro. É um filósofo das formas de amanhã, é design de humor refinado. Num texto sobre Starck há que extravasar no sincopado, no gongórico e até se for preciso colocar Duchamp com Dali a disputarem metáforas, não subestimando o Chirico. Quiçá chamar o Warhol misturando-o com Pollock para a ceia e bem traçado mesmo, era propor Eames como mediador da mesa de debate e Corbusier na análise... Vejamos então como poderemos, da mais inebriante

forma, definir o designer arquiteto, avisando que é provável olvidar uma definição. Rigor e simplicidade. Criatividade e qualidade. Genialidade inesgotável. Frágil e forte. Ambiente e (re)evolução. Impertinente e agradável. Elegância e delicadeza. Dinâmica e funcionalidade. Não esquecer: Originalidade. Imaginação, em dose nada espartana. Inusitado e barroco. Delacroix e Mary Poppins, o surrealismo nunca terminou. Consensual? Não. Mestre de excelência? Sim. Provocador? Depende. Autenticidade? Obrigatória. Intensidade premissa. Um veado nas escadas e um candelabro com um guarda-chuva? Feito. Ou não terá um lustre o direito de “I’m singing in the rain!”? Não há dúvidas, Gene Kelly ia gostar de Marie Coquine.

3 sofá / cassina, my world with philippe starck

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4 lustre / marie coquine, baccarat

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Monsieur Starck tem o dom inato de nos cativar, de nos fazer render, sistematicamente, ao seu luxo imbuído de espírito francês em peças orgânicas que são prolongamentos do nosso corpo, apoiando-nos o espírito seja num garfo, numa bicicleta, num banco alto ou num casaco de fecho em viés; de nos dar o exagero do brilho sem nunca nos cegar, pois o mais pode ser mais, quando a loucura é starckiana; tem o hábito tremendo de nos fazer desejar ambientes que nos fazem viajar para universos paralelos, onde o arrojo do desenho, na ousadia de um plano, não perde equilíbrio por mais solto ou inclinado que esteja; não houvesse nos interiores um certo kitsch sofisticado ou um contemporâneo garrido, com elementos inusitados que lhes quebram qualquer tendência minimalista que possa querer sobressair. Em todos

5 candeeiro / libro foto, flos

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os objetos, a excentricidade é espinhal medula do corpo traçado. Em todos os espaços, a arte é artéria nos corpos criados. Que seja permitida a heresia de dizermos que existe, no hoje e desde ontem, um novo toque, o Toque de Starck. Com o designer arquiteto em causa, não é para procurarmos retângulos de ouro ou espirais de Fibonacci, não é para questionarmos a sua criatividade ou formas, não é para entender o porquê daquela bóia na parede ou daquele braço na poltrona. É para se viver o espaço, sentir a forma. É para nos deixarmos levar numa improbabilidade surrealista que é realidade imaginada. Philippe Starck é a concretização do improvável provável, ele ser mutante que diz, sem hesitar, “we are mutants”, não fosse o mundo criativo uma constante mutação e nós, seres Mutante(s)... Savoir-faire, Monsieur! d

R www.starck.com


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texto e ilustração Ana Seia de Matos

Improvável

adj.2g. 1 que tem poucas hipóteses de acontecer 2 que não se pode provar

Alergia - Como, não consegues provar? - Não é tanto não conseguir, é mais não poder. - Nunca ouvi tal coisa. O que dizes não faz sentido. - Faz para mim. Todo o sentido. - No entanto, não parece possível, que algo assim exista. - Pois eu sou a prova que prova o contrário. - (suspiro) Pesados todos os prós e contras, é essa a tua última decisão? - Desculpa-me mas…essa mousse é altamente improvável.

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Philippe Pasqua A improvável monumentalidade do ser humano 76

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É um livro de Francis Bacon que vê na montra de uma livraria durante a adolescência que o leva a pegar em pincéis, trinchas, tinta… e transbordar a imaginação na tela. Alva. Onde os traços, carregados a negro, se apoderam com vivacidade e encarnam a realidade nua e crua dominada pelo vermelho da carne, pela pele nos rostos de retratos pintados numa imensidão vincada pela expressividade do ser humano, composta em quadros concebidos numa escala monumental. texto patrícia serrado fotografia joão pedro rato


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Porque “a monumentalidade faz parte do meu trabalho, simplesmente pelo prazer que me proporciona”. Ato contínuo num percurso artístico desprovido da imposição de uma formação académica em arte, pano de fundo de uma realidade assinada por um autodidata que, há seis anos, troca a cosmopolita Paris pela exuberante Malveira da Serra, em Sintra, “pela natureza e serenidade que emana este lugar maravilhoso”. Palavras de Philippe Pasqua, artista plástico francês, de 48 anos, que aplica o ofício das artes num atelier-caserna cujo tecido camuflado se funde no coração de um jardim adormecido no silêncio infundido pela veemência do mundo exterior ao Homem.

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Um ser humano absorto numa constante reflexão sobre a morte: “A morte é, para mim, uma obsessão desde o meu nascimento.” Ou não-morte representada pelo crânio, objeto de arte sublime apresentada em pintura e em obra escultórica, ornamentada com elementos da natureza viva – folhas, borboletas… Uma obsessão que emerge nos anos 1980’ e que simboliza o trabalho do artista. O retrato da vaidade, “que é efetivamente, uma provocação à vida” e a quem passa o portão da sua casa, na Malveira da Serra, onde uma caveira concebida numa escala megalómana, ornamentada com borboletas, absorve o olhar. De novo o Homem, o ser composto por matéria e espírito. Ou a exposição da vulnerabilidade humana, com a figuração de transexuais, de pessoas com mobilidade reduzida, invisuais… “certamente pelas suas diferentes sensibilidades, juntamente com os seus prazeres de viver o momento.” Sempre envolto na imponência, sinónimo de uma arte da autoria de Philippe Pasqua. A conhecer. d

R www.pasquaphilippe.com

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texto Hernâni Duarte Maria

“Ceci est l’histoire d’un homme marqué par une image d’enfance” Esta frase de subtítulo abre o filme, uma curta-metragem, de Chris Marker. “La Jetée”, de 1962. Cineasta francês, fotógrafo, escritor, artista de multimédia, marcou vincadamente a história da arte cinematográfica. Considerado um dos mais importantes filmes da história do cinema, “La Jettée” conta-nos a história de um sobrevivente da 3.ª guerra mundial, que vive como prisioneiro nos subterrâneos da cidade. Raymond Bellour afirma: “Em 29 minutos, Marker condensa uma história de amor, uma trajectória rumo à infância, um fascínio violento, uma homenagem ao cinema, à fotografia, um sentido agudo do instante.” Na memória deste sobrevivente, surgem as lembranças de sua infância. Chris Marker investiga o desejo ligado à memória, sendo um filme sobre cinema também o é sobre fotografia. Marker argumenta que po84

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demos usar a máquina para revelar o modo como o nosso universo pessoal é construído, desenhado e modelado. Chris Marker constrói um filme desconcertante e, ao mesmo tempo, intemporal. A narrativa assenta em fotografias, fotogramas estáticos com narração em voz off, uma montagem e enquadramentos geniais, um texto crítico e, em certas alturas, violento. A violência verbal é uma violência crítica do narrador para com as imagens, fotografias apresentadas no filme… Diria que se trata de um ensaio cinematográfico de Marker criticando o próprio Marker. O cineasta escondido do cinema experimental contemporâneo, do ensaio. Marker através da sua visão futurista redefine o conceito do cinema documental elevando-o a outro patamar de maior visibilidade. Em “La Jetée”, de 1962 , fotograma por fotograma, Marker constrói um filme visualmente extraor-


la jetée argos film 1962 fonte: culturgest

dinário, uma experiência fotográfica em que a montagem e os enquadramentos meticulosamente feitos são o elo de ligação entre a imagem, a narração e a música. A visão de Marker em “La Jetée” é o futuro, a memória fotográfica, uma experiência apocalíptica, as cobaias humanas, a destruição mas, ao mesmo tempo, a reflexão sobre os humanos, o amor, a terra… o caminhar no limbo entre a realidade e um futuro surreal, mas real… “La Jetée” a obra maior de Marker que influenciou vários cineastas e outros tantos filmes, um dos mais conhecidos: “12 Monkeys”, de Terry Gillian. “La Jetée” uma curta-metragem de ficção científica, que se tornou um clássico do género. Filmado a preto e branco e montado a partir de imagens estáticas individuais, este “romance de fotografia” retrata a busca de um homem não identificado, por uma mulher, ou melhor,

para a imagem de uma mulher que ficou registada na sua memória desde a infância. A narração acompanha o protagonista no seu caminho através de um cenário pós-apocalíptico e forma o fio narrativo da história fragmentada. Além da questão do conteúdo a realidade da memória e da imaginação, “La Jetée” lida com a progressão contínua do tempo. A associação de Chris Marker ao documentário é uma realidade e uma associação mas, na verdade, mesmo os seus filmes, diria, menos estranhos, superam o relato dos factos e enveredam por grandes ensaios poéticos. E termino com uma frase emblemática da curta “La Jetée”: “nothing distinguishes memories from ordinary moments…” d “La jetée”, 1962 Realização: Chris Marker Duração: 29 minutos 85


texto Pedro Emanuel Santos ilustração Rosa Feijão

Improvável[mente] Havia uma homem que tinha uma casa dentro dele. Havia fantasmas que habitavam essa casa; e essa casa estava dentro do homem. Não sabia se era uma casa assombrada ou, se era ele, em si, um homem assombrado. Talvez fossem ambas - uma dentro da outra - reais. Por vezes, os fantasmas pareciam ador-mecidos, deixando-se ficar na casa, quietos, embora o homem soubesse que eles não precisavam de dormir. Ou talvez tentassem dormir, para convencerem a si próprios, que não eram fantasmas, mas sim, reais - pensava o homem. Outras vezes, estavam dias e dias bem despertos, tirando-lhe também o sono, cansando-o, atormentando-o.

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Enquanto isso, o homem estudava-os, tentando perceber o porquê de existirem, dentro dele. Analisou e experimentou várias formas de os expulsar: tomou medicamentos, químicos, procurando matá-los - mas não se mata o que não está vivo. Começou então a beber. Bebeu até não poder mais, na tentativa de os embriagar também, mas não resultou. Tentou ainda correr, correr e correr sem parar, para os tentar cansar. Pensava que assim deixariam de gostar de habitar nele, e o deixariam. Mas o homem cansou-se até quase desmaiar, e a eles nem o suor lhes chegou.


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Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais cansado, desmotivado e triste... Reparou então que quanto mais em baixo ficava, menos fazia, menos saía, e os fantasmas iam ficando também mais calmos. Descobrindo essa relação, deixou de lutar. Deitou-se e deixou-se ficar quieto, sem se mexer na expectativa de conseguir, finalmente, paz dentro dele. E assim foi ficando, dias e dias. Passou muito tempo, tanto tempo que ele não sabe contar. Passou tanto tempo que deixou de pensar nos fantasmas. Nessa altura já não sabia se existiam ou não. Perdeu as forças, perdeu o emprego e foi perdendo pessoas...

Pouco antes de se perder a si mesmo, resolveu aceitar tudo. Não se podia perder a si próprio e, com ele, as pessoas… e com elas o amor. Pensou que talvez a felicidade seja isso: aceitação. Não aceitar com conformidade ou derrotismo mas sim, aceitar o que nos chega, como chega, ou que vive em nós… e continuar. Levantou-se. Talvez os fantasmas se tenham erguido também. Mas não se importou. *Este texto pode não ser apenas ficção e qualquer semelhança com a realidade, não será pura coincidência. d

R www.pedroemanuelsantos.com R www.facebook.com/Feijao.illustrateddreams

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Pensão Flor Um Caso d’Amor

TEXTO Sara Quaresma Capitão com Tiago Curado de Almeida fotografia Henrique Patrício (HP) E Sara Quaresma Capitão (SQC)

Fim de tarde. A noite ainda não caía na Pensão. O Tiago, ainda era só Tiago. Ele, coração da Pensão. Uma mesa. Duas cadeiras. Um café, um cigarro. E os segredos contados.

As portas abriram-se há pouco, este ano. A pauta, inspirada na estética tradicional, respeitando os acordes de um traço tipo, tem nos acabamentos notas de gramática diversa. É composição tradicional que veste a rigor contemporaneidade do mundo. Porquê abrir as portas da Pensão Flor? Que vos é ela para vos ser nome? As portas foram abertas por uma circunstância tão simples, gosto de trabalhar em equipa e há sempre alguém que tem de dar o ímpeto, acabei por ser eu... Há 1 ano, ou dois, comecei a escrever e a compor. “Ganhei-lhe o bicho”, entendes? Com o tempo, formei um conjunto de canções, algumas completas, algumas esboços. Material

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reunido, propus, sem mais nem menos, ao Manuel Portugal “Olha, queres gravar um álbum? – Está bem! “, nem hesitou. Foi assim, que tudo começou. Já tocávamos juntos há muito, ganhamos maturidade, aprendemos fazer síntese do que queríamos. Depois, conforme íamos trabalhando, percebemos que era melhor chamar mais alguém. Tinha de ser o Luís Garção porque... As portas, Tiago... Já estás a entrar na Pensão! Eu paro. Avisa-me que eu paro! (risos). Em suma, abrimos as portas pela vontade de fazermos algo nosso, de fazermos música. O porquê do nome... Porque, muito rapidamente, quando


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eu estava no Porto, trabalhei com uma companhia de teatro e fiz a banda sonora para uma peça, “Déjà Vu”. Fiquei interessado em tudo o que mexe à volta do teatro, a sua dinâmica, e fiquei particularmente motivado para escrever uma história. Quando apareceu esta oportunidade de gravar um álbum, quis construir algo que não fosse só canções, queria algo que contasse uma história, talvez vindo do meu fascínio por melodias simples com histórias trágicas, por ópera e Puccini. Criámos uma história com várias personagens, um grande enredo. Tínhamos tudo, mas não tínhamos um nome, nada encaixava. Eu, aqui confesso, não tenho jeito para nomes! A dado momento, estávamos com

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o Quim Reis, repórter da Antena1, e surgiu o nome. Disse-nos o Quim: “há um nome perfeito para essa história: Pensão Flor!”. Era tudo o que queríamos. Ficou Pensão Flor. E foi assim, o Quim a dar-nos nome. A receber-nos, na Pensão, sete nomes, sete vidas, sete notas. Diferentes idades, diferentes percursos, diferentes mundos. Fado, transversal a quase todos. Vivência musical, a todos. Amigos daqui e dali. Caminhos cruzados. O coração, és tu. Deste o mote. Com que artes conquistaste seis mundos? Bom, com o Manuel eu conquistei-o e ele conquistou-me. Já tínhamos uma longa amizade, somos um do outro. Espera. Afinal, vou res-


ponder-te da seguinte forma: aconteceu tudo de forma muito genuína. Há uma componente forte no nosso grupo que é a amizade. O Luís Garção, de nós o que tem mais experiência de palco e de música, aceitou o convite assim: “Luís, queres vir tocar connosco? – Quero!”, sem sequer ouvir temas. Estes dois primeiros elementos: pura amizade. Todo o resto foi por sugestão do Manuel. O Pedro Lopes apareceu-me em casa sem eu o conhecer de lado nenhum, nunca o tinha visto. Aceitou, se calhar, porque viu aqui o fugir da rotina do fado e “vamos lá arriscar que pode ser que seja desta”. Com o Luís Pedro Madeira foi exactamente a mesma coisa, se bem que ele entrou numa fase posterior, com os temas quase completos, “Luís Pedro gostas disto? – Gosto. Queres produzir? – Quero.”. O Gonçalo foi filho não programado. Íamos gravar e à última ficamos sem o nosso baixo. Tivemos de o chamar em cima do tempo. E digo-te, foi a melhor coisa que fizemos! Adoro tocar com o Gonçalo. É um músico admirável, com uma intuição fora de série. Ele há percalços que vêm por bem... A Vânia foi espectacular, foi lindo! Eu estava a trabalhar com o Luís Pedro, num outro projeto. Estávamos no GEFAC, eles estavam a chegar de um ensaio de teatro e meteram-se a ver um vídeo do ensaio. Eu estava a fazer um intervalo. À por-

ta, a fumar o meu cigarro, a descansar e ouço cantar. Esqueci o cigarro. Olhei. Escutei. Uma voz intensa, que não era de fadista, mas tinha o fado lá dentro, cantava com uma garra... A Vânia! Ela transforma-se, encarna personagens, interpreta os temas. Foi como o nome, amor à primeira escuta. “O Caso da Pensão Flor” é, creio, resolvido no check in. Trata-se de uma sequência de 11 indícios, díspares, que indicam coração perdido, achado, desencontrado; beijos dados, não dados, desejados; mãos vazias, cheias, quase tocadas; noites despidas, vestidas, quase dia... É um toar dos improváveis do amor, de histórias cantadas d’amor. É um caso evidente de amor? Claro que é. É isso mesmo: AMOR. Se há uma coisa sobre a qual vale a pena escrever é sobre o amor. É uma coisa comum a toda a gente, é uma coisa que nos põe tristes, nos põe alegres, nos muda, nos acontece e isso é maravilhoso. Para quê para fugir dele? É como te digo, ainda não encontrei mais nada que valesse a pena escrever, para as minhas letras, além do amor. Esmiuçando as vossas letras e as entreletras. É caso que me faz (re)ouvir, voltar atrás, indagar quem ama quem, quem chora por quem, quem quer os

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braços de quem. Há lágrimas que são marés, há beijos cravados no peito, há alguém que se quer, não se tem e será que vem?! E há, no contraponto, o nada saber sobre o amor. Donde vêm tantos poemas? Vêm, naturalmente, da essência de cada um, o que cada um gostava de contar, de dizer... Histórias passadas, sonhadas ou simplesmente desejos. Se o tema é o amor a expressão é o desejo, a paixão... e ainda esperança, talvez.

pre. Comigo acontece assim, sou eterno apaixonado pela melodia. Com a Vânia talvez o inverso, ou não... Agora que me perguntas (risos), fugiu-me a certeza. A vossa prescrição, continuo crente que são uma espécie de cura, passa, indubitavelmente, pelo fado, por travos de tango, por ritmos vários apontados – a Vânia a deixar-nos a clamar por ar – e sente-se, em momentos, a morna. Posso acusar, em parte, a tua voz disso? Tenho uma tendência, inexplicável, que me leva a África e sou completamente apaixonado por mornas, e como eu gostava de saber dançá-las... Creio que isto tudo explica. A minha voz é o contraponto da Vânia. É muito mais baixa por

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A terapêutica, a existir, para estes casos sintomáticos do amor é escrever e tocar poemas d’amor. Impõe-se a questão de como se inicia a cura: primeiro letra depois acordes ou o inverso? Primeiro os acordes e a melodia. Depois a letra. Sem-

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isso talvez mais próxima. A verdade é que eu não canto, digo coisas ao microfone. Fui convencido a cantar no álbum e acabei por dar um coisa fantástica à Vânia: o renascer. Canta a Vânia, sai a Vânia, entra o Tiago, sai o Tiago, e depois ela regressa. Nos espetáculos isso acontece, tu sentes a mudança e o público reage tão bem. Foi uma coisa bem pensada. Há uma acalmia? Sim, uma redução da intensidade. Não estou a desvalorizar o teu canto. Sim, entendo. Eu não sou particularmente convencido da minha voz. No cantar tenho de me refugiar no facto de eu não saber cantar, de eu não dominar a voz. Não tenho uma voz forte, nem sequer pretendo ter, nem pretendo cantar... Resultou. Nove instrumentos e um décimo. Todos componentes indispensáveis, mas a guitarra portuguesa é encanto máximo. Sobressai. É o pulsar mais forte. É ela, a guitarra, o átrio da Pensão? É, logo pelo simples facto de ser uma guitarra portuguesa que, por si, tem um som que se evidencia... E tudo isto, a Pensão Flor, começou com guitarras portuguesas. Portanto, foi um assumir consciente. O Fado tem uma magia. Percebo que não seja fácil gostar de Fado, mas quem toca guitarra portuguesa sente uma magia especial, não consigo explicar, mas sei que quando

toco e quando acompanho, sinto o que não sinto com mais nenhum instrumento. Voltando atrás, ao mundo da pena, tenho uma cisma. Começam no Profano, acabam na Maria Madalena e a meio contornam o Santo António indo ao ai Jesus do São João, com um Balão. Este caso d’amor, transversal ao álbum, é profano ou divino? E a vossa música? Profano! Se eu tiver de escolher, é profano. Tem mais piada. A nossa música não é tão profana assim. Se nós formos ao tema de Coimbra, que nada teve a ver com o projeto a não ser a nossa relação histórico-musical com a cidade, talvez tenhamos profanado um bocadinho. Tocamos guitarra portuguesa de forma não tradicional, acho que é o único profanar que pode haver na nossa música. Caminhando para o check out, há um pormenor que vos torna distintos: o concerto. Quando ao vivo nos convidam a entrar dão-nos vídeos com estórias carregadas de mistério, contadas por personagem que tudo viu, ouviu e sabe; dão-nos uma dança envolvente; dão-nos ruas decoradas. Há, aqui, a preocupação em dar aos vossos amores uma encenação, uma voz que vos une os poemas... Certo? O nosso recepcionista é o fio condutor, é ele que agar-

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Como não existe amor sem o beijo, há a importância do Beijo, em várias letras. O single de estreia foi “Na Volta de um Beijo”. Andamos nas voltas e contravoltas de um beijo e, porém, não poderia “Basta(r) um Sorriso” para não dizermos adeus... Que é mais forte o acorde de um sorriso ou o ritmo de um beijo? O ritmo de um beijo. É ali que tu vês se funciona ou não. Sorriso não basta? Estou a questionar a Pensão... (Risos) Sim, eu sei. Se um sorriso não basta... Não, temos de ir mais longe do que isso. O sorriso pode ser aquilo que te chama, mas o que te faz ficar é o beijo. Quando se diz “basta um sorriso para não dizer adeus” é porque o beijo está lá atrás, implícito. Tu libertas-te num beijo, não é num sorriso. O beijo é...

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ra e o vídeo é complemento com os tais ambientes que nós traçamos. Não há concerto sem esta carga cénica. E o bailarino... O bailarino? Ah! O Javier é o maior! Nasceu com ritmo no corpo. Para mim é o momento mais bonito do espetáculo, onde entra a morna. Eles dançam parados, mas dançam. A única indicação que lhe demos foi que imaginasse que queria dançar, mas estava preso. Dá sensualidade ao projeto. A sensualidade é cativante... E é onde eu quero chegar como compositor, à sensualidade.

Na esperança de mais vezes entrar na Pensão Flor e como sou crente que, por vezes, pode bastar um sorriso, sorrio, check out e não te digo adeus! Que me diz a Pensão? Espero que tenhas gostado da estadia. Volta sempre! E os segredos, contados, ficam guardados numa “Caixinha de Mão”... d


Pensão Flor Vânia Couto (voz); Tiago Curado de Almeida (voz, guitarra portuguesa, guitarra clássica); Luís Pedro Madeira (piano, acordeão, guitarra de aço, cavaquinho); Manuel Portugal (guitarra portuguesa); Luís Garção Nunes (guitarra clássica, guitarra de aço, viola beiroa); Pedro Lopes (viola fado); Gonçalo Leonardo (contrabaixo).

R www.pensaoflor.pt

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Noiserv A.V.O. improvável...

TEXTO Sara Quaresma Capitão fotografia VERA MARMELO

Novo álbum. Novas melodias. São os sons que nos levam para um universo de equilíbrio sensível entre o sonho e a realidade de Noiserv com novas surpresas no meio de músicas – “I’m not afraid of what I can do” a voz digital que nos desperta curiosidade ao lado da despida de Noiserv; ritmos de embalar – sons simples do berço e não só; músicas tão curtas e tão cheias – “47 seconds are enough if you have one thing to do”. 47 e nem mais meio segundo; letras que são histórias contadas de factos – “It’s easy to be a marathoner even if you are a carpenter”, onde o desistir não cabe, nem nas palavras nem na melodia; novas interpretações e arranjos a serem ouvidos da primeira à última música, sem tropeços. Já vão mais de dez anos nas lides musicais e Noiserv, a.k.a. David Santos, continua a criar um mundo de sonoridades com um estilo e timbre tão seus, no ponto exato para o mundo que constrói com as suas melodias e letras singulares. Sob o improvável título de A.V.O. / Almost Visible Orchestra, figurando dez canções e com os precisos 98

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30 minutos de duração, este segundo trabalho de originais reserva-nos, ainda, uma agradável e inesperada surpresa. Pela primeira vez, Noiserv deixa a solidão para chamar Rita RedShoes, Luísa Sobral, Francisca Cortesão (Minta), Luís Nunes (Walter Benjamim), Afonso Cabral e Salvador Menezes (You can’t win, Charlie Brown) e Esperi, todos, ao mesmo tempo, numa música – “I was trying to sleep when everyone woke up”, vozes que dão embalo especial a esta música, já quase no fim do álbum. Será que estes convidados acordaram, num dia destes, o David? É um bom (re)acordar, garantidamente. A ser editado dia 7 de outubro, A.V.O. junta, na edição física, ao trabalho musical seguro uma ilustração (de Diana Mascarenhas) num puzzle de dois lados, impossível de não desmontar e montar. Sons a descobrir e a ouvir porque o lema deve ser “Don’t say hi if you don’t have time for a nice goodbye”. (E nestes 30 minutos há tempo, do bom!) d

R www.noiserv.net


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Imagine o cenário do fado: uma mulher que canta com um xaile aos ombros, um homem que dedilha a guitarra portuguesa. Agora, ouse pensar ao contrário: uma voz masculina que canta o fado e umas mãos femininas que percorrem a dureza das cordas daquele instrumento. O fadista Rodrigo Costa Félix e a guitarrista Marta Pereira da Costa são o retrato desta improbabilidade. Senhores e senhoras, silêncio, que vamos falar sobre fado.

rodrigo Costa Félix Marta Pereira da Costa Dueto improvável TEXTO Helena Ales Pereira fotografia Ricardo Junqueira

“Fados de Amor”, o mais recente trabalho de Rodrigo Costa Félix, com Marta Pereira da Costa na guitarra portuguesa, é um disco de histórias quase autobiográficas, porque só assim fazia sentido para o fadista. “Na sua génese, eu queria um trabalho dedicado às mulheres e que todos os temas falassem da minha relação e das minhas experiências com elas:

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a mãe, a mulher, a irmã... Porque sempre cresci rodeado de mulheres e não paro de lhes reconhecer o valor”, conta Rodrigo. Destas histórias surgiu um projeto que mais do que uma mistura de diferentes histórias, oferece canções de amor. “Quando ouvimos os temas, todos eles falavam de uma coisa só: o amor. Daí até ao título foi muito simples”, explica.


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O prémio de melhor álbum atribuído pela Fundação Amália Rodrigues, este ano, trouxe-lhe mais força, que já vinha do facto de ser o primeiro disco de fado inteiramente gravado com uma mulher a tocar guitarra portuguesa. Se para Rodrigo não é um estímulo de início de carreira, para Marta pode ser uma espécie de empurrão para descobrir que este é seu novo mundo. “O momento de viragem foi a gravação do disco porque, até aí, encarava a guitarra como um hobbie”, conta Marta que, entretanto, largou o seu emprego na área da engenharia civil. Quando Rodrigo a desafiou para gravar este disco, Marta, confessa, entrou em pânico. Mas aos poucos deixou-se levar por esta nova aventura: a de poder dedicar-se em exclusivo à guitarra. Ouviu outros guitarristas, seguiu os conselhos do produtor Rodrigo Serrão, que lhe explicou como deveria reagir à voz e, assim,

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nasceu uma guitarrista a tempo inteiro. Durante este processo, Marta cresceu e percebeu que era por aqui que queria continuar a viajar. A música já era parceira de vida desde muito cedo - tocava piano e guitarra clássica desde os 4 anos -, mas agora a guitarrista via na música um dos seus principais propósitos.

A cantar vamo-nos entendendo. Tinha 18 anos quando o pai, amante do fado, a incitou a estudar este instrumento. “O pai via ali uma oportunidade de a Marta fazer algo diferente: ser a única mulher a tocar guitarra portuguesa”, conta Rodrigo. Começou a estudar com Carlos Gonçalves, guitarrista de Amália Rodrigues, o que se viria a tornar fulcral nesta nova caminhada, porque “ele foi ótimo nas primeiras aulas a motivar-me”, recorda Marta. Pouco tempo depois, vieram as casas de fado, onde o


professor a levou a conhecer os músicos e o ambiente. “Era tudo uma descoberta, uma novidade...”, conta Marta. “A começar por ti, que eras a maior novidade de todas”, interrompe Rodrigo, com um sorriso. Foi nessa altura que os caminhos de Rodrigo e Marta se cruzaram. Ela com 19 anos, ele, mais velho, com 30. Entretanto, passaram 10 anos e nasceram os gémeos Constança e Vicente, de 4 anos. Hoje, Marta dedica 6 a 8 horas por dia à guitarra e a ponta dos dedos calejados são a prova desta entrega a uma gui-

tarra de seis cordas duplas. “Se for uma semana à praia, os calos desaparecem e custa muito voltar a adaptar-me às cordas, porque são muito finas e estão sob uma tensão muito grande. Parecem agulhas a espetarem-se nos dedos, mas vale a pena”, ri-se Marta. A composição é a nota que se segue e Marta já tem três temas preparados, que incluem referências aos estilos musicais de Coimbra e de Lisboa, a músicos como Armandinho, José Nunes, Fontes Rocha e Mário Pacheco; e outros qua-

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tro temas em preparação. A gravação de um disco em nome próprio, onde a guitarra pode brilhar sozinha, é um dos próximos objetivos. “Quando a guitarra acompanha o fadista está sempre em segundo plano, mesmo quando se fala de guitarristas como Mário Pacheco ou José Manuel Neto. Eu gostava de ter um trabalho que lhe permitisse dar mais destaque”, conta Marta. “Carlos Paredes foi o único guitarrista que lhe conseguiu dar outra projeção”, continua Rodrigo. “Houve outros guitar-

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ristas que conseguiram libertar a guitarra portuguesa do fado, como Pedro Caldeira Cabral, Ricardo Rocha, Mário Pacheco ou António Chaínho... Mas não conseguiram, à dimensão do Carlos Paredes, que a guitarra-solista ganhasse uma popularidade que lhe permitisse ser a protagonista de um espetáculo”, refere Rodrigo. Mas o fado é mais do que a voz, mais do que a guitarra, e prova disso foi a referência ao tema “Amigo Aprendiz”, pela revista norte-americana The Atlantic, como uma das baladas a ouvir em 2012.


O poema, originalmente atribuído a Fernando Pessoa, veio a revelar-se ser da autoria de padre Zezinho, um poeta e músico cristão brasileiro. A canção foi gravada e apresentada como single de “Fados de Amor”, mas só quando surgiu a referência à canção na revista The Atlantic se percebeu o equívoco. “Começámos a receber mensagens a dizer que o poema não era de Fernando Pessoa. Movido pela curiosidade, fui à procura e descobri que esse texto era uma adaptação livre de um poema da autoria do padre Zezinho”, conta Rodrigo. A canção, musicada ao piano por Tiago Bettencourt foi, mais tarde, adaptada para guitarra portuguesa por Marta. Quando começou a cantar, Rodrigo Costa Félix lembra-se das salas frequentadas apenas por pessoas mais velhas. As mais novas viam no fado ou uma coisa de outros tempos, marcada ainda pelo peso do antigo regime, ou para outras idades. Mas graças a vozes como Camané, Rodrigo Costa Félix ou Maria Ana Bobone o mer-

cado abriu-se para revelar nomes como Kátia Guerreiro, Mafalda Arnauth, Ana Moura, Mariza, Marco Rodrigues, Ricardo Ribeiro e Gisela João, entre muitos outros. “Acho que o fado nunca esteve em risco de desaparecer, mas a distinção como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO fez com que os portugueses olhassem para ele de outra forma. Agora, já não é vergonha para ninguém, como era quando comecei, dizer que se é fadista ou se gosta de fado. O próprio Camané referiu numa entrevista que, quando era mais novo, escondia que cantava fado”, explica Rodrigo. Mas os músicos vivem ainda na sombra do fundo do palco, vestidos de preto, talvez numa referência à tristeza, à fatalidade do fado. “Se o fado ganhou muito nos últimos anos, foi também devido à evolução dos instrumentistas. Fala-se muito de novos fadistas. Então e a nova geração de músicos que é brilhante e reconhecida internacionalmente como tal?”, pergunta o fadista.

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Ângelo Freiro, Diogo Clemente, José Manuel Neto e Luís Guerreiro são alguns dos músicos que Marta Pereira da Costa e Rodrigo Costa Félix destacam entre a nova geração de guitarristas e violistas e devem, na perspetiva de ambos, estar lado a lado com o fadista, porque o fado só acontece quando existe uma ligação

plena entre quem canta e quem toca, conforme explica Rodrigo. Essa mesma ligação é uma das maiores vantagens que Rodrigo e Marta apontam enquanto casal, no palco e fora dele. Os dois são o oposto de casais, como Carminho e Diogo Clemente, Luísa Rocha e Guilherme Banza ou

“Um músico é tanto uma viola ou uma guitarra como um fadista é um fado.” Rodrigo Costa Félix

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Célia Leiria e Pedro Amendoeira, uma vez que, aqui, é Rodrigo quem canta e Marta quem toca e assim, nos seus concertos, há sempre dois protagonistas, conforme realça Rodrigo. Marta Pereira da Costa, ao contrário dos outros músicos, não se veste de preto. E nessa exuberância de cor e de origina-

lidade que as mãos femininas trazem à guitarra portuguesa há uma marca difícil de ignorar à qual a voz de Rodrigo Costa Félix traz uma ligação e encantamentos únicos. d

R www.rodrigocostafelix.com

A Mutante agradece ao Chef Vitor Claro a gentileza com que nos recebeu no restaurante Claro!

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José Miguel Júdice “O festival das artes é uma atmosfera de emoções” texto patrícia serrado fotografia joão pedro rato

O compêndio das artes brota da partilha do sonho entre José Miguel Júdice, membro do Concelho Executivo da Fundação Inês de Castro, e a mulher, a arquiteta paisagista Cristina Castel-Branco, presidente da Fundação Inês de Castro, de conceber um evento cultural num espaço ao ar livre, o Anfiteatro Colina de Camões, outrora palco de paixões avassaladoras retratadas na história de uma cidade erudita, centro do amor à arte. Com uma envolvente paisagista que, este ano converteu-se num constante diálogo com a natureza. Eis o tema da 5.ª edição do Festival das Artes, que desponta a plasticidade dos ofícios supremos, desde o clássico ao moderno, com a música, a dança, o teatro, o cinema, a escrita, a gastronomia, a ciência e as conferências, na poética Quinta das Lágrimas, em Coimbra, numa incansável exaltação da arte no seu todo. Ou na essência dos ofícios…

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Porquê um evento associado às artes em Coimbra? Primeiro porque Coimbra é uma cidade – e a sua região – com um grande grau de exigência cultural – as pessoas detêm uma formação intelectual, comparada com outras zonas do país, acima da média. E porque é uma opção da Fundação Inês de Castro, que tem como objetivo renovar o tema, renovar o mito, renovar a história de Inês de Castro – ainda agora foram publicadas as atas de um congresso sobre “Inês de Castro: O passado do futuro” três volumes de trabalhos de cientistas, historiadores, arqueólogos, arquitetos, botânicos, enfim, especialistas das mais variadas ciências que falaram sobre Inês de Castro. É uma fundação de caráter cultural sediada em Coimbra, portanto, era natural que o festival decorresse em Coimbra. Em segundo lugar, porque não é uma grande metrópole como Lisboa ou o Porto. Portanto, há público para todas as artes. Mas achávamos nós que não havia público para um ciclo de artes, pelo que se justificava um festival da música apenas. Porém, a lógica das artes, na sua globalidade, é uma lógica muito renascentista, muito clássica, isto é, as artes têm todas a ver umas com as outras e, portanto, a aposta foi diferenciar esse festival, fazer uma coisa que, creio, ninguém faz em Portugal 110

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e poucos festivais destes há no mundo. O diretor da Gulbenkian para a música disse-nos que na Finlândia há um deste género. Reunir as sete artes clássicas e as artes modernas. A eleição dos temas e a composição de cada ciclo do Festival das Artes têm de superar as expetativas do público. Como é e por quem é feito este processo? Este festival tem várias características. Uma é ser multiartes; outro é ter sempre um tema. A terceira grande característica é não ter um diretor artístico. Foi uma opção. Nós temos uma direção com pessoas com formações variadas que, em conjunto têm decidido tudo. Isso tem sido o segredo do sucesso, porque há os grandes especialistas em música, mas que podem tender para um festival demasiado elitista; outros percebem muito de fotografia, mas são partidários de um certo tipo de fotografia. Há, digamos, um caldear de uma equipa a trabalhar em conjunto. Além disso, todos os anos, em regra, consultamos um conjunto de pessoas especialistas em várias artes para, sobre o tema que escolhemos, nos darem sugestões. E nos ajudarem. Portanto, temos podido mobilizar gente com muita qualidade, que não faz parte da direção, mas que, graciosamente, por entusiasmo, também, nos ajuda a es-


colher o programa. A escolha do tema visão panteísta por detrás do festival… é uma decisão colegial. O primeiro foi a O Professor Gomes Canotilho, Professor Noite, e não podia ser outro, porque é da Faculdade de Direito da Universidade um festival noturno; sendo a Quinta das de Coimbra, dizia que aquele anfiteatro Lágrimas um sítio com água, fazia todo é uma expressão de panteísmo, uma o sentido que o segundo tema fosse a expressão muito curiosa, porque há alÁgua; depois, era o aniversário dos 650 go de xintoísmo nas Lágrimas – eu sou anos da transladação dos restos mormuito xintoísta. Os ecologistas acabam tais de Inês de Castro para o Mosteiro de por o ser sem saber. De facto, o cuidado Alcobaça, o que deu o mote para as Paique temos com aquele espaço, aquele xões; como é um sítio com pessoas que microcosmos ecológico exprime esvêm de todo o mundo e, no ano passase gosto pela natureza. E o xintoísmo do, comemoraram-se os 440 anos dos é, como sabe, a sacralização da natuLusíadas – a epopeia da viagem do povo reza, os deuses são a natureza. Porportuguês na histótanto, há qualquer ria e da viagem para coisa de essencial “O cuidado que temos a Índia –, o tema foi inconscientemente com aquele espaço, aquele Viagens; é um espana ideia mas, evimicrocosmos ecológico ço deslumbrante nos dentemente, não exprime esse gosto pela termos da natureza, lhe posso dizer que natureza.” ecológico, pelo que o havia um progratema escolhido foi a Natureza; e, como ma estratégico à procura da essência uma semana antes do festival deste ano das coisas, embora vendo agora, e a a Universidade de Coimbra foi classifisua pergunta fez-me pensar… Quancada de Património Mundial da Humado temos a exposição, patrocinada pela nidade pela UNESCO, para o ano o tema EDP, das fotografias sobre a arquiteterá a ver com essa distinção atribuída tura tradicional portuguesa – era uma a Coimbra. arquitetura embuida na natureza, uma arquitetura essencial. Hoje em dia, a arA edição de 2013 do Festival das Artes quitetura é demiúrgica, é feita por pessaúda a natureza. Poder-se-á dizer que soas que querem desafiar os deuses, estivemos perante o regresso à essênquerem demonstrar, muitos deles, que cia dos ofícios ou apenas à natureza no o impossível é possível; conseguem faseu todo? Se me perguntar se há uma zer o impossível, o que tem dado obras 111


“Para quem sabe muito de música, às vezes, estes festivais, onde aparecem coisas pouco vulgares, tornam-se mais estimulantes.” de arte geniais, mas também tem destruído muito a natureza, porque não é adequada ao ecossistema. A exposição sobre a arquitetura tradicional portuguesa traduz o contrário – é uma exposição com fotografias que foram tiradas quando estava a ser feito esse levantamento… A ideia de que as construções humanas devem interagir bem com a natureza é uma busca do essencial. Ai está o exemplo de que encontrámos o essencial sem termos consciência disso. O constante diálogo com o exterior deu vida à música clássica, no Anfiteatro Colina de Camões, onde a envolvente paisagísta confere momentos memoráveis. Assim como os bons sons do jazz a ouvir no Mondego. São estes os eternos lugares das sonoridades do Festival das Artes? É um festival ao ar livre, que tira partido do enquadramento paisagístico. São momentos de alegria, de convívio, de partilha, são momentos menos formais. Aquele espaço é mágico, todos o dizem. É o ex-libris do festival. É evidente que poderíamos fazer, e já fizemos – para o ano é provável que façamos –, uma peça de música medieval relacionada com 112

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Coimbra, provavelmente na Sé Velha ou numa igreja… O festival nasce à volta daquele espaço e da Fundação Inês de Castro, que detém o território histórico da Quinta das Lágrimas; é, portanto, um festival da cidade e não apenas da Fundação Inês de Castro. Desde “Os sinos da macieira” e um “Sonho de uma noite de verão” a “Os pássaros” e “As flores”, os sons em palco fizeram-se ouvir por um público muito diversificado. É fácil fazer esta seleção? Não, não é. Uma das coisas mais divertidas é ter seis ou sete pessoas – alguns que sabem tudo sobre música e outros, como eu, que sabem muito pouco – à procura da que melhor se adequa ao tema, porque há muita excelente música que não tem um tema. Por exemplo, “A galinha”, passou a chamar-se assim porque o som, para algum crítico, fez lembrar o de uma galinha. No caso de “As flores” é uma peça magnífica, mas que raríssimas vezes é tocada. Para quem sabe muito de música, às vezes, estes festivais, onde aparecem coisas pouco vulgares, tornam-se mais estimulantes. Porém, temos de fazer um equilíbrio, arranjar peças cimeiras da cultura mundial, que todos conhecem, e outras 1 “sermão de santo antónio aos peixes” por joão reis fotografia: daniel palos


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menos conhecidas, mais ocultas e que interessam aos melómanos. O sucesso do festival tem a ver com as centenas de pessoas que vêm do resto do país e as centenas de pessoas que simplesmente gostam de música. A noite sobre o monte sagrado da Universidade [de Coimbra], envolto naquelas árvores centenárias, fica muito bonita. É um bocadinho disto tudo que faz a força do festival. Da Música passamos para as Artes do Palco, ciclo que integrou “A sagração da primavera”, pela Companhia Nacional de Bailado. O casamento perfeito entre o espaço e a obra. Alguém nos disse que iam comemorar-se os 100 anos de “A sagração da primavera”. Não há tema mais próximo da natureza que este. E quando falámos com a Companhia Nacional de Bailado sobre esse assunto, propuseram o programa que estavam a preparar. Nós achámos muito bem, porque se enquadra perfeitamente numa atmosfera de emoções. O festival das artes é uma atmosfera de emoções, porque o espaço é emocionante, porque é feito por amadores, no bom sentido da palavra, porque mobilizamos as pessoas, as boas vontades, porque conseguimos que os patrocinadores não se limitem a dar dinheiro, estão connosco, dão ideias, vivem intensamente o festival e a cidade de Coimbra. Coimbra aderiu emocionalmente ao festival.

A natureza foi também aclamada na escolha de dois clássicos do cinema – “A águia das estepes”, de Akira Kurosava, e “O urso”, de Jean Jacques Annaud –, de um ciclo de cinema comissariado por António Mega Ferreira. É fácil conseguir bons filmes? Tiveram poucas pessoas, porque são filmes pouco conhecidos, mas é uma ajuda de António Mega Ferreira. Mais um exemplo de apoio, de emoções, de amizade. No ano passado, o António, que é um bom amigo nosso, quando soube que estávamos com algumas dificuldades, telefonou-nos a oferecer ajuda. Fez um pequeno ciclo de cinema, o que voltou a repetir-se este ano, desta vez com dois filmes, que fazem parte da história da humanidade e que têm a ver com a natureza. “A arte não é mais do que a transformação em sublime daquilo que faz parte da essência do ser humano.” Porque a essência de cada um de nós depende sempre de um bom repasto, o Festival das Artes juntou três chefs: Albano Jerónimo, Joachim Koerper e José Cordeiro. A gastronomia é, portanto, outra forma de arte. Outra forma de arte. A arte, em geral é, digamos, a hipostasiação, a criação de uma dimensão metafísica da nossa existência diária. Todos nós 115


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gostamos de tirar fotografias, de sermos fotografados… as fotografias não são necessariamente uma arte, mas há uma arte que é a fotografia. Muitos gostam de pintar; desde os tempos da pré-história que 2 “sonho de uma noite de verão” pela orquestra gulbenkian

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se pinta – a arte nasce ai. Comer, todos comemos – a arte nasce ai. A arte não é mais do que a transformação em sublime daquilo que faz parte da essência do ser humano. Portanto, a gastronomia é uma


das artes com cada vez mais importância na humanidade. Uma das coisas que mais distingue a gastronomia de alta qualidade é a tentativa de trabalhar com produtos naturais, produtos frescos, biológicos. Temos um jardim medieval na Quinta das Lágrimas que é, no fundo, uma reconstituição de um jardim medieval, com plantas medicinais, plantas ornamentais e plantas comestíveis. As refeições no restaurante gastronómico das Lágrimas utilizam imenso esses produtos. Além da música de um ciclo destinado a todas as idades, o alinhamento do programa contou com a peça de teatro ao ar livre “O jardineiro do sol” destinado aos mais novos. Mal anunciámos a venda dos bilhetes na internet, os bilhetes esgotaram nesse mesmo dia! Mas havia pessoas a quererem mais, então optou-se por fazer mais um, mais dois… mais cinco sessões. Na última tivemos cerca de 80 crianças, mais do que deveria ter. Por isso, em princípio, vamos repetir a peça ao longo do ano ou num sábado de cada mês – vamos ver se mais –, para que as crianças de Coimbra possam usufruir da natureza da Quinta da Lágrimas. A natureza acalma, aprende-se, não apenas na escola, mas estando em contacto

com ela. E, na realidade, há sítios lindíssimos. Coimbra é um paraíso ecológico, à volta… Pense na Serra da Lousã, na zona de Penacova, no Buçaco, no Choupal, no Jardim Botânico, nas margens do rio Mondego. O que não faltam são espaços com uma forte carga ecológica e a Quinta das Lágrimas é um deles. O desafio à imaginação foi lançado num workshop dirigido por Mário Cláudio. Foi um sucesso. Esgotou num dia ou dois. Ele adorou! É membro do concelho geral da Fundação Inês de Castro. O Mário Cláudio é um homem deslumbrante, como pessoa, fascinante, encantador, de uma simplicidade muito grande, apesar da sua enorme qualidade; é um dos grandes escritores portugueses dos séculos XX e XI. Quanto ao workshop, este foi o que teve, até hoje, mais sucesso e maior gratificação por parte das pessoas. Vai ser, em colaboração com a Casa da Escrita [em Coimbra], um dos pratos fortes do festival, com um workshop de escrita sobre património cultural ou sobre Coimbra. Temos de pensar… d

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Coimbra da UNESCO Património de capa traçada TEXTO Sara quaresma capitão fotografia bruno pires

Folha branca, séculos de história, estórias e vidas para contar. Síntese, suma, resumo, contenção é tudo negação. Método. Discurso. Começar. Acabar. E não ousar tentar. E o que é afinal Património na minha matriz?

É Universidade, saber que quase se funde, confunde, com a Fundação de Portugal. São as pancadas de um Molière, em 1290, pela pena d’ El Rei D. Dinis. É o documento “Scientiae Thesaurus Mirabilis” assinado pelo autor de Cantigas d’Amor. É o século XIII com as Faculdades de Artes, Leis, Cânones e Medicina. É a Universidade mais antiga da nação e das mais antigas a mover-se além fronteiras. É um complexo vário, denso, cheio do material e imaterial. É a língua

portuguesa, pátria de Pessoa e nossa. É cultura e saber. É a arquitetura que tudo alberga, guarda e separa. São as Escadas Monumentais que nos tiram o fôlego; é El Rei D. Dinis que nos recebe; é um conjunto arquitetónico moderno retilíneo, racional, de eixos definidos, de uma arquitetura de Estado (Novo). É, à direita, mirar o Colégio de São Jerónimo e o das Artes, seguir e ver o Chimico. É no meio de tanta razão e exatidão tentar acreditar no etéreo, diluindo-nos

1 panteão nacional - igreja de santa cruz

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na Sé, que é Nova. É o desejo travado de encontrar o Cardus e o Decumanus que se cruzam no Machado de Castro, de sua loggia amante. É recuar sem andar para trás e retomar o eixo moderno, e seguir. É de frente ver a Férrea que é a Porta de encantos, arrepios e saudades... É passar e método, contenção, suma. É inspirar e sentir o Pátio das Escolas, é na Via Latina subir as escadas que quando em miúdos são monumentais na escala, é descer as escadas que quando em graúdos são monumentais no saber. É desejar ouvir a Cabra tocar na sua altaneira Torre.

É ir aos Capelos e pensar nas Borlas. É a síntese que quer fugir ao ver D. João III e à porta da Capela fica porque a síntese, fiquem a saber, não é crente nem descrente, mas na Capela diz que não entra. É, para quem os livros são alma, vida e desejo, entrar na Biblioteca Joaninha e ficar em suspenso e recordar Almada a falar “Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida... Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outra maneira de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido”.

2 pátio das escolas - universidade de coimbra

3 alta de coimbra

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É acenar à Trindade. É deixar a Universidade na toada e é sentir a Alta. É descer sinuosas vielas, é querer ouvir um tunante e desejar sentir uma guitarra. É o nosso Fado... É chegar à Sé. Senhora Velha de nome, velha de idade e Especiosa de Porta. São mais de mil anos, cem serenatas, dez histórias. É descer pelo Largo da Sé e olhar alto a Torre que não nos abandona. É descer sem quebrar, é descer pelo Quebra Costas. É olhar a Tricana com o Fado de Coimbra traçado na capa. É passar o Arco d’Almedina e a Barbacã. É descer a Alta que é trama entramada de cantos, recantos e encantos. É, na saudade, sentir Aeminium de outrora, Lusa Atenas de sempre, Coimbra de hoje.

É deixar a encosta íngreme e seguir pelo eixo que é Luz e passar Santa Cruz. É parar na cruz. É saber quem ali dorme sono eterno, quem nos fez portugueses e é continuar o caminho. É entrar, devagar, na Sofia dos Colégios: Boaventura e São Domingos, São Pedro ao lado do da Graça seguido do Carmo e do Espírito Santo... E o das Artes, de outrora, que a Inquisição arrecadou; e um Pombal que todos esvaziou. É a cada passo dado um Colégio acabado, uma lição aprendida de saber e ensino. É, numa contenção dissimulada, a Universidade de Coimbra, a Alta e Rua da Sofia da UNESCO, na cidade de Coimbra. A (re)visitar para (re)descobrir... d

4 rua da sofia e a alta

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Chef Vítor Matos “Os meus pratos são os meus quadros” texto patrícia serrado fotografia joão pedro rato

A cozinha é uma arte intrínseca das tendências da gastronomia. O culto de uma criação nobre, ávida de experiências sensoriais à mesa, de partilha entre familiares, amigos e colegas de trabalho, e desconhecidos. Uma paixão despertada nos primeiros anos de vida, concretizada com realismo fora de portas. Na Suíça. O país de uma Europa determinante, exigente, com bases de um ofício em permanente ebulição numa mutação constante de saberes enraizados em tradições, costumes, sabores, cores… memórias indissociáveis à origem do ser humano. Às origens de um Portugal intemporal, tão ligado à terra e ao mar, reinventado pelas mãos de Vítor Matos, o chef executivo do Largo do Paço, o restaurante da Casa da Calçada Relais & Chateaux, em Amarante, que fomos encontrar no Cais da Villa, em Vila Real, onde tivemos o prazer de degustar um harmonioso repasto desenhado com mestria.

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O gosto pela arte de cozinhar está associado à família. À avó. À mãe. A Vila Real, a terra que o viu nascer e crescer ao longo da primeira década, até ao momento em que os pais decidiram calcurrear novos caminhos, juntos, longe do país que levavam na alma e no coração. O meu pai teve de emigrar para a Suíça. Foi o primeiro. Depois fomos nós. A falta que senti do meu país… Para nós, o regressar a Portugal era muito importante. Frequentei a escola, tive boas notas para seguir outro percurso profissional que não este, mas não quis; preferi experimentar a cozinha, uma escolha que fiz com apoio do meu pai e da minha mãe. Chegava da escola e experimentava fazer tudo na cozinha. Experimentei esta “carreira” com o apoio do meu pai e da minha mãe. Hoje posso, portanto, dizer que gosto do que faço. Vivo e respiro cozinha. Não consigo desligar! É tema de conversa em casa, com os amigos… Mas esta cozinha não é de sobrevivência. É uma cozinha com terroir, com uma história por trás. Inicia o curso de cozinha com apenas 16 anos, num país muito diferente do nosso, onde o grau de dificuldade é superado com a vontade superlativa de melhorar o seu desempenho e de ser o melhor. A Suíça é muito exigente, muito contida. Não é fácil para um portu126

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guês, com sangue quente, estar num país que não é o nosso. Além de que o meu chef não gostava de portugueses. Independentemente disso, quis sempre ser o melhor e fazer o melhor possível, porque se não fizermos mais e cada vez melhor, não vale a pena termos objetivos de vida. Com isto ganhei mais estímulo, mais gosto pela cozinha, mais determinação. O mal que me aconteceu foi o melhor que me aconteceu. A minha forma de estar na cozinha é muito diferente da dos miúdos de hoje em dia, que não estão habituados nem preparados para novos desafios. No entanto, veem a cozinha como uma arte, está na moda. Não é bem assim, pois têm de aguentar a exigência do serviço, o que nem sempre acontece. Há pessoas que, ao fim de dois dias, se vão embora, porque não aguentam tanta pressão. Não são apenas as horas, tem de sair tudo perfeito. Se há falhas, não entra. O percurso pela cozinha valeu-lhe a participação em concursos, a fórmula aplicada para se obrigar a aprimorar a arte de bem cozinhar, sendo distinguido com a Medalha de Ouro no concurso Chefe Cozinheiro do Ano de 2003. Há um momento da vida em que acontece uma viragem. Porque, ou fazemos sempre a mesma coisa até morrer – o que acontece com a maioria – ou fazemos como


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eu que, a partir de um momento da minha vida disse “Alto! Quero fazer mais”. Por isso, participei em muito concursos, que trazem mais valia, trazem know-how. É uma oportunidade de ver o que os outros fazem, de aprender com eles. Ao vê-los só pensava que não valia nada ao lado deles. Mas eu quero ser melhor do que eles. No bom sentido, que fique bem claro. Queria sempre mais e 128

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melhor. É um investimento para o futuro, uma forma de abrir a nossa mentalidade perante a cozinha. Agora estou numa fase diferente. O meu concurso é o meu dia a dia. Os sabores numa cozinha são o prefácio de uma viagem ao passado. Um misto de experiências vividas em momentos tão díspares, como uma conversa com


um amigo ou a contemplação de uma paisagem. Quem fala de sabores fala de experiências, de partilhas, dos momentos em que estou com os meus amigos, com os meu colegas, de uma paisagem… Os Alpes, os pastos… tudo isto serve de inspiração para os pratos da minha cozinha. Só para dar um exemplo, na minha carta há os caramelos moles, a sobremesa inspirada nos caramelos que comia quando estava mais nervoso. Gostava tanto! Depois das aulas na escola ainda tinha as aulas do curso de cozinha [em Neuchâtel] e, nos momentos em que estava mais stressado comia caramelos moles. A cavala marinada com granizado de gaspacho [dada a provar num jantar especial, no Cais da Villa], por exemplo, tem muito o sabor de terra e de mar. É um prato de verão. O salmonete com molho de ouriço do mar, canelonne de carabineiro e percebes sabe muito a mar. Na cozinha há que reiventar sabores, não podemos ficarmos presos ao que já sabemos; tenho de vender sabor, produto, vender alma. Portanto, tudo tem de ser bom, tudo tem de estar bem feito, tem de ter muita cor, ser fresco… é uma cozinha de autor, servida ao momento. A liberdade de criar é a interpretação concreta do ofício do chef Vítor Matos, sendo aquela um dos principais ingre-

dientes da sua cozinha, assim como a experiência sensorial provocada pelos sabores, pelas texturas, pelas cores, pelos aromas… Isso é cozinha! E está também muito ligada às novas tecnologias, que permitem que a cozinha seja mais aromática e tenha mais sabor e mais cor. O ponto de cozedura de um legume ou o ponto de textura de uma carne ou de um peixe é que permite conhecer os verdadeiros sabores. Tudo tem de estar no ponto, tudo tem de estar perfeito. A cozinha é uma experiência e as pessoas estão sempre à espera do melhor. A sua cozinha é um autêntico laboratório de experiências cujas cobaias são os comensais do Largo do Paço. As cobaias são os clientes que vão com frequência à Casa Calçada. Ou seja, lançamos os pratos todos muito antes de elaborarmos a nova carta [são duas por ano: primavera/verão e outono/inverno], em relação aos quais recebemos o feedback. Neste momento já sei o que vou ter na minha carta de outono/inverno. Parece simples, mas não é. Ideias temos nós todos os dias. Anoto-as num bloco de notas no momento em que estou a idealizar um prato – tenho um bloco de apontamentos à cabeceira da cama –, as quais passo para o computador. Quando tiver de elaborar a carta nova, risco as que não interessam, as que são 129


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melhores confeciono-as na cozinha, depois faço nova seleção em função dos produtos da época, se contém ou não flores… Uma carta provém de várias ideias, de momentos, de experiências. Tudo isso faz um prato.

vo português tem um culto à mesa muito curioso. Gosta de comer. É como ir à igreja. Quando vai à igreja o que acontece? Tentamos esquecer os maus momentos. Portanto, comer é uma experiência, que suprime os maus momentos.

E um repasto incita cada um a viver uma experiência multisensorial, até porque, para o chef, comer é uma religião. O po-

Considera a cozinha uma das mais belas artes do mundo. A cozinha é uma arte. Quando alguém faz um prato, isso

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é arte. Os meus quadros são os meus pratos. Quando um pintor pinta um quadro é para as pessoas verem. A gastronomia, por sua vez, tem uma vantagem: Primeiro estranha-se, depois entranha-se, como diz Fernando Pessoa. Por exemplo, o pudim de Abade de Priscos da carta da Casa da Calçada é descrito como “Era uma vez o Abade de Priscos”, uma hostia com a história do

senhor Abade de Priscos, impregnada numa calda de açúcar, canela e limão, a qual é comida. Quem a come, come a história, come a sobremesa. Come o pudim de Abade de Priscos do futuro – mais leve, mais moderno, mais arrojado. É uma arte assinada. d

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Quinta do Vallado Um refúgio com história texto patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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A experiência é vivida com intensidade numa quinta. Onde o Douro é sinónimo de tradição, de pessoas, de genuinidade, de gastronomia, de vinho… de tempos idos e da contemporaneidade dos tempos. A norte.

A paisagem ornamentada por socalcos traçados pelos saberes ancestrais da mão humana emerge do vale profundo rasgado por um rio que, segundo as estórias da história contada nas minhas primeiras instruções letivas, atravessou o país, desnorteado e feio, alheio às suas origens, até desaguar na foz de encontro com o grande Atlântico. Em sinal de protesto, refuto com adjetivos sinónimos de beleza, esta sim, imensa, graças à grandiosidade de um Douro dono de um quadro encantador, cujo leito banha

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o terroir de centenários vinhedos verdes entrecortado pelos tons terra, que presenteiam os deuses, e os homens, com um vinho a preceito, feito a partir de castas portuguesas, colhidas à moda antiga. Na encosta do vale tomado, lá no fundo, pelo Corgo, e enaltecido pela fusão do xisto com o amarelo torrado do casario, cenário que compõe a quinta datada de 1716, pertencente a Dona Antónia Adelaide Ferreira, e cujo nome preserva até à data, com a excelência dos tempos: a Quinta do Vallado.


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A manhã vai a meio quando chegamos ao destino assinalado no mapa da era digital num dia em que o calor não dá tréguas. Num lugar onde o passado e o presente se conjugam com sabedoria e uma elegância irrepreensíveis de um legado com uma história contada há seis gerações. E de onde a vista embala a alma com uma paisagem protagonizada pelo vinhedo, que se estende até ao infinito, envolto num silêncio que me 136

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apraz enaltecer, no coração do Douro. A região vinícola demarcada mais antiga do mundo, título decretado pelo Marquês de Pombal, em 1756. De linhas direitas, depuradas, o novo wine hotel Quinta do Vallado remete e excelência do produto português para o exterior, revestido a xisto, a matéria nobre da região, assim como o pinho e o carvalho portugueses, que compõem o


ofício do carpinteiro no edifício assinado pelo arquiteto Francisco Vieira de Campos. O interior da casa está decorado a preceito, com distintas peças de mobiliário vintage nórdico, escolha criteriosa dos proprietários – João Álvares Ribeiro e Francisco Ferreira, descendentes de Dona Antónia Adelaide Ferreira – em consonância com o conceito do arquiteto e coordenadas com as fotografias a preto e branco das paisagens marcantes do

Douro e do Douro Superior, da autoria de Guilherme Álvares Ribeiro, pai de João Álvares Ribeiro. Detalhes que rimam com a arquitetura ímpar e funcional, sem esquecer a lareira da acolhedora sala de estar ou a estante da biblioteca com livros de várias décadas. Um convite irrecusável para pôr a leitura em dia, sobretudo quando o sol insiste em não dar tréguas…

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No quarto, a presença de produtos nacionais é marcante. A começar pelo Quinta do Vallado tinto, à nossa espera, e uma mão cheia de ameixas, colhidas no pomar, junto à piscina, a fruta da época com que mimam os hóspedes da Quinta do Vallado; acabando nos candeeiros

desenhados pelo arquiteto e concebidos por Osvaldo Matos. Da varanda, o quadro paisagistíco vitivinícola reconquista o olhar assim que a portada se abre. Apetece preguiçar, mas os ponteiros do relógio apontam a hora marcada para a visita à adega.

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Recebidas as instruções, caminhamos em direção à adega, concebida dentro no alinhamento arquitetónico do wine hotel pelos traços de Francisco Vieira de Campos. Com o rigor da geometria, o novo edifício alia a tecnologia mais avançada no campo da vitivinicultura à tradição na produção do vinho Quin-

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ta do Vallado, que pode ser adquirido na wine shop, espaço reservado ao encontro, seguido de uma visita descontraída e carregada de boa disposição. Da exposição histórica, ressalta a importância de Dona Antónia, figura emblemática do Alto Douro Vinhateiro, e da criação da marca Quinta do Vallado, em 1993. Ano


a partir do qual se pôs as mãos à obra e se reestruturou o vinhedo, com a replantação das vinhas monovarietais e a plantação de castas para a produção de vinhos de mesa. Para o fim, após a ida à adega rasgada pelos arcos desenhados a compasso pelas mãos do arquiteto, ficam as provas do bom vinho.

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Com o sol a marcar o compasso do tempo, damos com as horas a passar os limites. E que tal fazermos um piquenique junto ao Corgo? Sugestão aceite, com agrado, claro está! Feitos os preparativos para o tão aguardado repasto à beira rio, partimos para o nosso destino, numa viagem curta e aventureira, a bordo de um jipe. Um pequeno passeio pelos socalcos vinhateiros onde abundam as árvores de fruto de tão apetecível refúgio, a norte. Depois de tão deleitosa refeição, acompanhada por um Vallado Touriga Nacional Rosé Douro 2012. Depois, nada melhor que passear calmamente pelo rio numa canoa durante a tarde… A rematar o dia, é servido o jantar no terraço do hotel. Ao ar livre. Com uma ementa recheada de iguarias e sabores 142

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das terras do Douro, elaborada pelas mãos das senhoras da região e, por isso, conhecedoras da arte de bem cozinhar. “Sem a pretensão de recriar a gastronomia”, segundo as palavras de Cláudia Ferreira, a diretora do hotel, mas proporcionar uma experiência sensorial, acompanhada pelo vinho adequado da Quinta do Vallado, sem esquecer o azeite da propriedade. Segundo a diretora do wine hotel, os jantares não constavam no projeto, passando a fazer parte da rotina diária da casa devido à procura intensiva por parte dos hóspedes. “Uma boa surpresa” para complementar um espaço tão acolhedor. Uma decisão bem tomada. E aos que não abdicam de um bom almoço, recomendamos, por sua vez, as iguarias da carta solicitadas sob pedido prévio.


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Porque o pequeno almoço aguarda pela nossa chegada e o raiar do sol já conta com algumas horas, o convite para um passeio de jipe até ao Alto das Devesas – analogia feita a uma casta da Quinta do Vallado – é aceite sem pestanejar. De jipe, porque o passeio pedestre fica para outra altura. Do cume da montanha a vista alcança a serra do Marão e fica rendida à beleza magistral dos vinhedos da encosta banhada pelo rio Douro. E eis a tão aguardada hora de experimentar a piscina. Preguiçar na relva. Ler um livro debaixo das laranjeiras no balcão contíguo ao telheiro… Desfrutar do silêncio alheio ao pensamento. Mas também podemos optar por um passeio de bicicleta… A piscina fica junto à antiga casa de família da Quinta do Vallado, onde morou a tão célebre figura. Recuperada em 2005, com um terraço coberto, assinado pelo arquiteto Souto de Moura, a casa reabre as portas aos hóspedes que elegem o Douro tradicional para as

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umas férias longe do reboliço da cidade, com uma oferta de cinco quartos nas cores verde, azul mar, amarelo, azul e a suite terracota. Todos decorados a preceito, com peças de mobiliário antigo, namoradeiras à janela. E uma capela alva, serena.… A tarde já vai longa. No Peso da Régua, o barco está pronto para um magnífico passeio pelas águas do Douro, que rompe a paisagem delineada por majestosas montanhas rasgadas por infindáveis socalcos, acompanhado por uma boa conversa e, claro, um bom vinho. Salut! O final fica para a despedida com o desejo de voltar. Aguardamos por Dona Antónia, pelo marido, José da Silva Torres, e pelo Barão de Forrester na próxima visita. Quem sabe… d

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rota das estrelas 2013 feitoria a constelação {im}provável... TEXTO patrícia serrado fotografia joão pedro rato

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Numa noite bafejada de sorte, embarcamos numa viagem à descoberta dos sabores numa rota cinco estrelas, com cinco chefs d'aquém e d'além mar. O cais fica no restaurante Feitoria, na Doca do Bom Sucesso, do Altis Belém Hotel & Spa, a alma dos nossos pátrios, com a dupla de chefs João Rodrigues e José Cordeiro ao leme, e Hans Neuner, Leonel Pereira e Miguel Vieira na proa. Falamos da 4.ª edição da Rota das Estrelas, o festival gastronómico internacional que, em setembro, lançou a âncora à beira Tejo e se rendeu aos encantos de Lisboa…

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… uma cidade representada com magnificência na noite de sexta feira 13. Os protagonistas foram os conceituados representantes da haute cuisine nacional presentes no Feitoria, a propósito do evento traduzido num roteiro que abarca os restaurantes do restrito círculo do prestigiado Guia Michelin: a Rota das Estrelas. Ou terão sido os pratos, concebidos com uma superlativa criatividade, numa elementar provocação aos sentidos… Missão desempenhada com elegância e mestria. Nas palavras de José Cordeiro, o chef consultor do Feitoria, que compõe a dupla com João Rodrigues, o chef executivo, “no fundo, a cozinha é o estilo de cada um”, o savoir-faire partilhado com os demais chefs e aprendizes, que estiveram à altura, nas duas noites (13 e 14 de setembro) dedicadas à celebração do verão, depois de quatro longos meses de reuniões, para que repetições de produtos não houvesse na carta final.

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E nada melhor que comemorar a estação mais soalheira do ano, ou o final desta, com a sardinha enrolada em pão e salteada em azeite e alho, a lula e o carabineiro. Tudo metido numa caldeirada! Acompanhada por um champanhe que dispensa apresentações: Möet & Chandon Brut. Eis a saudação do Feitoria (uma estrela Michelin), numa viagem a preceito rumo à descoberta dos sabores de Portugal e do mundo, da terra e do mar. A fusão mais do que provável na criação de Hans Neuner, chef do restaurante Ocean (duas estrelas Michelin), no Vila Vita Parc, em Porches, repetente do Rota das Estrelas do Feitoria. No prato, a aliança entre a acidez e o doce é excelente e, à primeira vista, simples, mas dono de um sabor premium, composto por lagostim, lima kaffir, granny smith e iogurte. Para ajustar os sabores, foi servido o Il Terroir branco 2012, um Alvarinho reserva da região dos vinhos verdes, Melgaço e Douro.


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1 sardinha, lula e carabineiro metidos numa caldeirada / Feitoria champanhe mรถet & chandon brut

2 lagostim, lima kaffir, granny smith, iogurte / chef hans neuner il terroir branco 2012

3 cerejas e foie-gras / feitoria conde de oeiras licoroso

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4 salmonete com laranja queimada em 40 dias de cura de sal fumado. jus de lĂşcia lima / chef leonel pereira reserva do comendador branco 2011

5 robalo salteado com nabiças, shimengi e lingueirão. caldo dashi / feitoria vale das areias branco fernão pires 2012

6 pombo assado com mel e alfazema, cogumelo recheado com trigo, cogolho, granola e figos pretos / feitoria vale das areias tinto syrah 2010

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No itinerário do empratamento, o Feitoria apresenta cerejas e foie-gras. A analogia perfeita ao fruto mais apetecido verão fora. Aqui, o preparado de fígado é regado com um caldo de cereja, acompanhado por foie-gras fresco salteado, e apresentado sob uma falsa terra de pão de especiarias, em harmonização com as notas mais doces de um vinho de Carcavelos, o licoroso Conde de Oeiras. Do sul, o chef Leonel Pereira, do Restaurante São Gabriel (uma estrela Michelin), em Almancil, “admirador incondicional e comensal da comida tradicional portuguesa”, surpreendeu o palato dos mais exigentes com um salmonente combinado com um puré de aipo, e cítricos (laranja e lima) com uma cura de 40 dias em sal fumado, a “lembrar um pouco Marrocos”, e jus leve de lúcia lima, a dar o toque final. Uma verdadeira obra de arte à mesa conciliada com Reserva do Comendador branco 2011, um néctar dos deuses do Alentejo.

A viagem prossegue por mares navegados pelos nossos antepassados, desta vez com um robalo acompanhado por nabiças cozinhadas ao vapor, shimengi e lingueirão, envolvido em caldo dashi, da dupla de chefes do Feitoria lisboeta, em honra dos Descobrimentos. Para unir o prato ao vinho, a escolha recaiu num monocasta da Sociedade Agrícola da Labrugeira, na região de vinhos Lisboa. Um vinho cujo nome merece uma atenção especial: Vale das Areias branco Fernão Pires 2012. Já em terra, e pelas mãos dos chefs João Rodrigues e José Cordeiro, a presença dos deleitosos figos pretos enaltece o sabor do pombo assado com mel e alfazema, e cogumelo recheado com trigo e granola. Uma obra de arte efémera eternamente gravada na memória, finamente casada com Vale das Areias tinto Syrah 2010, considerado o Melhor Vinho do Ano, no Concurso Vinhos de Portugal 2013 da Viniportugal.

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E porque o brilho das estrelas mais além dispensa o uso do astrolábio, um convite irrecusável viajou até Budapeste, de onde veio o chef do Costes Restaurant (uma estrela Michelin), uma cozinha de referência da Hungria: Miguel Vieira. À mesa, chega uma verdadeira surpresa: Pêssegos escalfados, framboesa coalhada e sorvete de verbena limão. A primorosa rima com Oresmus Tokaji Aszú 5 Puttonyos, um licor húngaro que apeteceu degustar noite dentro. O deleitoso sabor do açúcar marcou, de novo, a presença num prato dominado pelos tons chocolate em pleno louvor à avelã, à fava tonka e ao toffee, criado exclusivamente para unir com Quinta da Casa Amarela Vintage Porto 2011.

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Para beber fresco… uma combinação elegante nesta noite de despedida do verão, que terminou no terraço do Feitoria, com petit fours. Uma admirável composição alusiva ao relvado que preguiça à frente do restaurante, encimada por delicadas iguarias da autoria do Feitoria que, uma vez mais, abordou a magnificência dos Descobrimentos num repasto concretizado por “chefs que não são tão habituais nestes circuitos”, pois “a ideia era trazer portugueses que estão espalhados no mundo”, revela João Rodrigues, e “fazer algo que marque a cozinha”, complementa José Cordeiro. A ideia é mostrar a nossa comida haute couture ao mundo. Um desejo tornado realidade.


7 pêssegos escalfados, framboesa coalhada, sorvete de verbena limão / chef miguel vieira oremus tokaji aszú 5 puttonyos licoroso

8 chocolate, avelã, fava tonka e toffe / feitoria quinta da casa amarela vintage porto 2011

9 petit fours / feitoria

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TEXTO e fotografia Dulce Alves

Asmara Jóia de África Com apenas duas décadas de independência e localizada no instável Corno de África, a Eritreia passa despercebida no mapa e nas rotas da maioria.

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Não é um destino provável, tampouco paradisíaco - ainda que banhada pelo Mar Vermelho. Longe da costa e das águas cor de esmeralda, este país que vem recuperando de trinta anos de guerra conta, porém, com uma capital que é um verdadeiro tesouro esquecido em solo africano. A colonização italiana dos finais do séc. XIX e início do séc. XX deixou impressas marcas indeléveis que, ainda hoje, moldam o quotidiano dos seus habitantes e fazem de Asmara uma cidade insinuante, que se entranha nas nossas emoções com a mesma audácia com que os ventos arenosos se colam à nossa pele. A elegância de Asmara começa, desde logo, nos autóctones. Gente de traços finos, olhos meigos, lânguidos, que esboça sorrisos graciosos e distribui cortesia ao passar. Gente que passa,


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devagar, com uma tranquilidade que se propaga no tempo e no espaço. Uns encarnando a elegância ocidental, de fato completo e borsalino, outros ao estilo árabe, envergando compridas vestes; no fundo, todos impedindo que o sol escaldante queime a sua pele (já) trigueira. É precisamente a estrela-maior que parece ditar o ritmo de vida da cidade. Quando os primeiros raios surgem, pela manhã, a cidade agita-se. Porém, ao meio dia, o incómodo calor obriga a que muitos se refugiem. Os que permanecem nas ruas, deixam-se levar por uma certa lassidão. Procuram caminhar pela sombra, pedalam nas suas bicicletas de modo pachorrento ou encostam-se esperando que o sol lhes dê folga. A letargia que se apodera da cidade torna difícil acreditar que estamos numa capital. Quando, por fim, o sol se põe, a passegiatta herdada de outros tempos é ritual sagrado a que ninguém fica indiferente. Saem à rua, aprumados e sequiosos dos espressos e machiattos oferecidos pelas cafetarias que se espraiam ao longo da cidade. Partilham mesas e (in)confidências. Jogam cartas e xadrez. Lêem as últimas no vespertino. Saboreiam café e trincam fina pastelaria, transportando-

-se temporariamente para aquele estado de dolce far niente que os italianos se empenharam em legar. Os mais pequenos não resistem às gelattarias e fazem fila para conseguir um cone com tantas cores quantas as dos néons publicitários que anunciam ora gelados, ora pizzas - e quase nos fazem crer que estamos na Vera Italia! Contudo, não se fica por aqui a influência da cultura europeia. Na verdade, Asmara é apelidada de capital do Modernismo em África por ter sido uma espécie de laboratório para os arquitectos italianos. Não duvidamos disso à medida que percorremos a cidade e admiramos edifícios ao estilo Art Déco, Futurista e Modernista, com fachadas e deliciosos pormenores arquitectónicos que não deixam dúvida nem ao mais leigo dos seres. Ópera, cinemas, cineteatros - como o Odeon, Impero ou Roma. Edifícios de serviço público, como o Posto dos Correios, a Piscina Municipal, Tribunais e Câmara. E também edifícios privados, como encantadoras villas construídas no registo de outros tempos. Uns mais resistentes à passagem do tempo que outros, mas todos impassíveis às escassas alterações que a cidade 157


foi sofrendo. Convivem com a imponente catedral e a sua torre sineira ao estilo Gótico, com a sobranceira mesquita erigida em mármore Carrara (que outro podia ser?) e até com excêntricas construções, como o emblemático Fiat Tagliero, uma estação de serviço construída em 1938, em forma de avião, com duas asas de betão que atingem os 15 metros.

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Toda esta amálgama faz com que Asmara seja uma cidade singular, única no registo africano pela hospitalidade que a caracteriza, pela segurança que garante, pela multiplicidade de etnias e culturas que ali subsistem e tão bem se entrosam. E ainda, naturalmente, pelas experiências distintas que proporciona. Comer injera com as mãos, perscrutar à soca-


pa os corredores dos cinemas quase-abandonados, partilhar mesas de café com os locais, calcorrear o confuso e mirabolante mercado ou apanhar um táxi – por certo um cinquecento – são apenas algumas das que recordo. Recordações tão valiosas quanto jóias. Jóias tão preciosas como o é Asmara. d

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