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17 /CONTRADANÇA

/JULHO/SETEMBRO 2013

/ART

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LUÍSA SOBRAL

Lyon Lloyd Cole Miguel Vieira Chef Cordeiro Altis Belém •••


/CONTRADANÇA 1, 2, 3, 4: dança, balança que não cansa. 5, 6, 7, 8: escrita, dita que não desdita. Tempos de dança. Compasso de contradança. Dança bonita. Contradança Mutante. 1, 2, 3, 4...


EDITORIAL /DIRETOR João Pedro Rato joaopedrorato@mutante.pt /EDIÇÃO Patrícia Serrado patriciaserrado@mutante.pt Sara Quaresma Capitão saraqcapitao@mutante.pt /DIREÇÃO DE ARTE João Pedro Rato /DIREÇÃO COMERCIAL comercial@mutante.pt /COLABORADORES NESTA EDIÇÃO Helena Ales Pereira Hernâni Duarte Maria Liliana Bernardo Maria Pratas /FOTOGRAFIA João Pedro Rato Ricardo Junqueira /ILUSTRAÇÃO Sara Quaresma Capitão Liliana Bernardo /FOTO CAPA Luísa Sobral por Gonçalo F. Santos /TIPOGRAFIA Leitura • www.dstype.com /REDAÇÃO rua Manuela Porto 4, 3º esq. 1500-422 Lisboa info@mutante.pt www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt www.facebook/MutanteMag Mutante é uma marca registada.

Parados? Nunca. A andar? Por vezes. A dançar? Quiçá. Na contradança? Sempre! Ser Mutante é ser dança, com ritmo diferente, mas compasso régio. Estilos? Vários. Palcos? Do mundo. Cenários? Sem fim. Coreografias? De autor. Dançámos e pediram-nos para dançar connosco. Aceitámos, claro. Na verdade, contradançámos com nomes, espaços, sabores, músicas... Viajámos na contradança. Os estilos andam entre Luísa Sobral e Lloyd Cole. Os palcos... bom, de Lyon a Lisboa com paragens em Odemira e... Ai dos cenários sem OitoEmPonto e Gonçalo Ribeiro Telles, com apontamentos Mambo para um “pas de deux”. Esperem! Quase que nos esquecíamos do guarda-roupa. Miguel Vieira dos pés à cabeça, óculos Paulino Spectacles e outros para outros atos. Coreografias ilustradas pelas Damas de Cor, escritas em Short Stories, saboreadas com o chef Cordeiro e pensadas para o cinema onde a dança era rainha, sem jamais abandonar o palco que Gira Dança contra a dança do preconceito. Se lhe estamos a contar o bailado todo? Não. A cortina não se abre toda aqui. Os restantes estilos, palcos, cenários, coreografias estão para lá deste editorial que contradaçámos para si... Alinha nesta contradança?


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/CONTRADANÇA /JULHO/SETEMBRO 2013

06 MOVE

/Lyon /Üva de mesa /Convento dos Capuchos

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/Charcutaria Lisboa /Paulino Spectacles /Short Stories

56 ART 36 TRENDY

/Luísa Sobral

74 NEW

90 TODAY

/OITOEMPONTO /Mambo & ETTERO /Blue Journey

/Hotel Mama Shelter Lyon /Inevitável /Lloyd Cole

/Hernâni Duarte Maria - cinema /Gonçalo Ribeiro Telles /Liliana Bernardo

/Miguel Vieira /Gira Dança /Paulo Laureano

110 EXPERIENCE /Hotel Altis Belém /Chef Cordeiro / Feitoria /Herdade do Amarelo


LYON NO CORAÇÃO DE RHÔNE-ALPES

TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA JOÃO PEDRO RATO

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Entre o Mediterrâneo e os Alpes franceses há uma cidade a que os romanos chamaram de capital das Três Gálias. Uma cidade de bairros com história e estórias sobre o fabrico da seda, de revoluções e tradições gastronómicas, encaixada entre as colinas Fourvière e Croix Rousse e atravessada por dois rios, dominada por um conceito urbanístico sólido, pela cultura e pela arquitetura, com passagens secretas… Para guardar na memória e para voltar as vezes que apetecer, Lyon.

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Depois das boas vindas num fim de tarde salpicado por um céu cinzento, os bons dias da manhã seguinte são acompanhados por um azul celeste envergonhado, mas com o mercúrio do termómetro pronto para uma subida extática. A começar pela parte mais antiga da cidade, classificada de Património da Humanidade pela UNESCO, em 1998. Da igreja de Saint Jean à basílica de Lyon, no alto da colina Fourvière, é feita uma viagem ao passado mais longínquo da urbe, a bordo do funicular. Ao longo da subida há tempo para contemplar objetos de arte pertencentes aos romanos, numa espécie de galeria subterrânea aberta ao público mais atento. Na colina de Fouvière, no coração da velha cidade romana, a vista do miradouro alcança a cidade de Lyon, com os dois traços verdes, que acompanham o leito dos rios Rhône e Saône, a Pra-

ça Bellecour, a Ópera de Lyon, os Alpes no horizonte… No alto da colina está a imponente Basílica de Notre Dame de Fourvière projetada, no século XIX, pelo arquiteto neo-gótico Piérre Bossan, cuja decoração é digna de nota, assim como as quatro torres que ladeiam o edifício, numa alusão a uma fortaleza, erigida em homenagem a Virgem Maria, que teria afastado o exército da Prússia que invadiu Lyon, em 1870. No centro do topo do edifício está representada a oferenda de uma moeda de ouro, numa almofada, a Nossa Senhora, ato simbólico de agradecimento pela supressão da peste, que em 1643, assolou a cidade. No interior, os mosaicos revestem a Basílica de Lyon e ornamentam as sumptuosas paredes com murais alusivos a passagens bíblicas, ao lado de episódios da história da cidade. Um quadro decorativo composto por magníficos vitrais e mármore trabalhado com mestria.

1 Vista do miradouro da colina de fourvière

2 catedral de saint jean

3 funicular (da praça de saint jean à colina de fourvière)

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basílica de notre dame de fourvière


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5 restaurante tĂ­pico da cidade de lyon


O grande teatro da música A descida pela colina de Fourvière, em direção ao rio Saône é feita a pé, para melhor conhecer a história da cidade. A viagem no tempo, iniciada no funicular, continua pelo grande teatro e pelo odeon, vestígios que demarcam a presença dos romanos em Lyon, complementados pelo anfiteatro da Gália, datado de 19 d.C., na encosta da colina de Croix Rousse. Hoje, o grande teatro é palco da Festa da Música, um evento eclético no universo dos bons sons com data marcada para muitas noites, entre 4 de junho e 31 de julho de 2013. No declive das ruas estreitas, o casario de pedras cravadas de conchas convidam a um percurso pelo período medieval, com o cimo do mosteiro de Saint Georges a descoberto por entre as folhagens das árvores frondosas. A passagem pelo Théatre la Maison de Guignol, persona-

gem rude e irreverente criada, no século XIX, por Laurent Mourget, é obrigatória. Mais à frente, depois da catedral de Saint Jean, de estilo gótico, está o Musée de Miniatures et Décors de Cinéma. Antes de chegar ao bairro de Saint Paul,não deixe de visitar o Hôtel de Gadagne. Para o repasto, reserve mesa num dos muitos restaurantes dos bairros antigos da cidade: os bouchon. Criados pelas mères (mães), as cozinheiras das casas das famílias burguesas, das quais foram dispensadas em meados do século XIX, os bouchons são verdadeiros lugares de culto da gastronomia lionesa para os gourmands de Lyon e os eleitos pelos viajantes e turistas. A lista é extensa, pelo que a escolha se torna difícil… A título de exemplo, recomenda-se o Cafe Comptoir Chez Abel, em Perrache, perto da Confluence. A sul.


Entre o passado e o futuro Nas ruas de Vieux Lyon, num dos mais antigos bairros da cidade, as traboules mostram recantos que cruzam ruas. Ocultam pátios de casas habitadas, datados do século XV, com galerias repletas de janelas que remontam ao gótico, e poços ancestrais, assim como a gigantesca escada em espiral de La Tour Rose, famosa pelo serpentear quando vista de baixo para cima. Um mundo de beleza enigmática, imerso no segredo pela Resistência Francesa, pela altura da II Guerra Mundial. Do registo da história, consta-se que as primeiras traboules datam do século IV. No século XVI, o bairro de Saint Georges assiste ao início dos tecelões que, 200 anos depois, rumam para a colina de Croix Rousse, onde as passagens entre pátios exibem a história de cinco séculos de produção de seda a cargo dos tecelões, os canuts. Uma narrativa das páginas dos manuais franceses continuada pelo rei Francisco I que, no século XVI, criou a fábrica de mui nobre tecido em Lyon; e que é contada enquanto são percorridos um número infinito de degraus de uma traboule ao som de música turca. Com a chegada da revolução industrial, a arquitetura das casas obriga a que as mesmas passem a ter um pé direito altíssimo, por causa 12

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dos gigantescos teares usados no fabrico da seda, colocados junto às janelas para captar a luz natural ao longo do dia. À noite, o trabalho faz-se à luz dos candeeiros a óleo ou a azeite. Hoje, na Soierie Saint Georges, o atelier-boutique, do século XIX, pequenos teares rodeados de mostras de tecido em seda e de dezenas de fios, finamente enrolados em carretos antigos, podem ser apreciados com a serenidade merecida, a convite de Ludovic de la Calle, que dá seguimento a tão ilustre legado, como a arte de tecer a seda. O percurso termina na passagem Thiaffait, um pátio que alberga a Village des Créateurs, composta por lojas de jovens criadores. Espaços arrendados a artistas e designers que, depois de apresentarem o seu projeto à câmara local e do mesmo ser analisado e aprovado, abrem pequenos ateliers, nos quais têm cerca de 18 meses para mostrarem o que valem. Ou melhor, continua num passeio de Vaporetto (ponto de partida: a Pont de lá Feuillée) até à Confluence, a sul, onde está a nascer a cidade do futuro. Um modelo de urbanismo contemporâneo, repleto de obras de arte urbana como Musée des Confluences ou a futura sede da Euronews. A adicionar ao roteiro.


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6 la tour rose

7 atelier-boutique soierie saint georges

8 village des crĂŠatures

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9 rbc lyon / confluence

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Uma obra de arte para a arte A Place de Terreux é o ponto de partida para a visita à deslumbrante obra de arte de Jean Nouvel: a Ópera de Lyon. O arquiteto francês cumpre, com efeito, a missão de renovar o antigo Théâtre Chenavard et Pollet, transformando-o numa enorme sala de espetáculos, dedicada à música, ao bailado, à dança, à ópera… que ocupa um quarteirão de 18 pisos, onde o neoclássico e o moderno convergem na sua plenitude. Cinco dos pisos estão a 20 metros abaixo do solo, convertidos numa caixa gigante de cimento e aço rodeada pelas águas do rio, nos quais um elevador de grandes dimensões transporta, ora para cima ora para baixo, os cenários, os instrumentos entre mil e um artefatos necessários para uma peça de teatro, um concerto, um espetáculo de dança… até à sala onde os atores treinam a voz, a qual apresenta um pé direito titanesco. O anfiteatro, no piso abaixo do acesso para o exterior, de paredes e chão negros, é o palco eleito para, por exemplo, os concertos de música, como o jazz. O acesso ao bar permanece ocultado por detrás das portas dissimuladas até ao intervalo. Já no piso 0, o olhar contempla a rua através das arcadas que ornamentam a frente do edifício,

uma vista que, à noite é, certamente, mais bela. Mais um andar, o do vestiário, atrás do qual está o elevador que (e)leva a orquestra para o auditório, encimado por colunas em betão, uma estrutura semelhante a uma mão que suporta o palco. A passagem seguinte é feita pela sala anterior ao auditório, um convite faustoso ao romantismo do século XIX num espaço com um pé direito imenso, que casa as cores brilhantes com o dourado dos frescos na parede e no teto, combinados com os castiçais e os apliques. O contraste perfeito do negro mate, opção estilizada de Jean Nouvel que, uma vez mais surpreende com a antecâmara do auditório forrada, desta vez, a vermelho – até mesmo as portas. Por fim, o terraço, no topo da cúpula de vidro, com uma vista deslumbrante sobre a zona antiga da cidade e privilegiada para os jardins da câmara municipal, mesmo em frente à Ópera de Lyon. E uma vez que o tempo está de feição, há que aproveitar para visitar o Museu das Belas Artes de Lyon e descobrir o Bairro Auguste Comte, com lojas de design, por trás da Place Bellecour ou preguiçar nos jardins contíguos a esta praça quando o sol parece não dar tréguas…

10 sala da ópera de lyon

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Les Halles de Paul Bocuse: O mercado de gourmets e gourmands Porque os apreciadores da gastronomia de excelência exigem a distinta arte de cozinhar, a recomendação recai no Les Halles de Paul Bocuse, perto das galerias Lafayette, numa merecida homenagem ao lendário chef francês, com presença assídua no prestigiado Guia Michelin desde há 40 anos. Reaberto em 2006, o espaço comercializa produtos de elevada qualidade provenientes da região de Rhône-Alpes e das circundantes, pelo que se encontra na lista de favoritos de gourmets e gourmands, que diligenciam a compra dos melhores queijos, vinhos e enchidos, das tão cobiçadas trufas, das ostras, dos chocolates, da doçaria refinada e do pão mais conceituado da cidade. Uma viagem plena de aromas e sabores, a começar pela Quenelle, especialidade do século XVIII, semelhante a um souflé com peixe ou lagostim, ou trufas, ou para adoçar a boca… E sobre a doçaria da cozinha lionesa há que falar dos coussins da centenária Voisin, feitos com maçapão verde a envolver chocolate negro perfumado com licor de laranja. Ou a tarte aux pralines vermelha ou rosa, a qual serviu de inspiração para a criação dos cake aux pralines, uma especialidade da Maison Jocteur, a

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padaria eleita por Paul Bocuse. A tentação sobe de tom com os célebres macarrons e chocolates de Sève, o mestre chocolateiro e pasteleiro de Lyon, cujos bolos e bombons são verdadeiras obras de arte efémera; e com o cocoon, uma deliciosa interpretação dos casulos dos bichos da seda, em maçapão amarelo a abraçar uma pasta de chocolate perfumada com licor de laranja. Do mar, a diversidade salta à vista, apenas com uma ressalva para os apreciadores de ostras, que têm de aguardar pelo inverno para as adquirir e degustar na companhia de um copo de vinho branco. Sobre o néctar dos deuses, há os vinhos do vale do Rhônes do Louis, que também casam bem com os produtos de charcutaria do Les Halles. A saber: a rosette, o salsichão feito a partir de uma parte do intestino grosso; o jesus, numa alusão a Jesus enquanto bebé, que aparece sempre enfaixado; o sabodet, feito com cabeça de porco e temperado com brandy; e as cervelas, com trufas e/ou pistácios, muito apreciadas no Natal e na Páscoa. E, uma vez que os queijos fazem parte da tradição francesa, há que conhecer os Saint Marcellin de La Mère Richard, entre muitos outros sabores.


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bolos de sève – maître chocolatier pâtissier

tarte aux pralines e cake aux pralines

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queijos tomme de savoie

salsichões com trufas e pistácios


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O tempo passa a correr e, quando se dá conta, já lá vão onze anos desde a última vez que o deixei no aeroporto de Lisboa para rumar a Lyon. Onze anos passaram e, desta vez, vamos os dois encontrar uma cidade diferente, apaixonada pela história e pela arquitetura. Mais trendy. d 15 “flower tree”, de choi jeonghwa (junto à pont antonin poncet)

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A Mutante agradece a viagem ao Turismo de França. R pt.rendezvousenfrance.com R www.facebook.com/turismodefranca R www.twitter.com/turismofrances A Mutante agradece o voo à easyJet. www.easyJet.com

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MADE IN PORTUGAL

TEXTO MARIA PRATAS FOTOGRAFIA UVA | HOMEWEAR

ÜVA DE MESA Durante as viagens, registo o que vejo em fotografia, não ando sempre com os olhos atrás da máquina. A imagem fica registada na retina, ganha vida para sempre na minha memória e na memória do cartão digital. Na mala de viagem, trago também um objecto físico que me liga ao lugar visitado e quando é comprado directamente

a quem o produz, a ligação ainda fica mais estreita. Não quero ter objectos coleccionados em casa nem apontar quantas milhas já voaram por mim. Gosto de conhecer as mãos por onde andam esses objectos e saber como nascem as coisas - “Das coisas nascem coisas” escreveu Bruno Munari, e das conversas também, digo eu.

Nas ruas, nos mercados, os vendedores que percebem quem não é “local”, argumentam e insistem em vender o que têm nas bancas, e eu ouço-os enquanto penso na capacidade de armazenamento da minha mala de viagem. Decido e trago o que vale um lugar em casa.

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Último dia de férias, final da tarde, estou numa esplanada muito rústica, muito confortável, muito pouco colorida. É o branco que predomina em toda a estrutura de madeira. As mesas, os bancos e as almofadas que acomodam quem ali está a beber e a comer, são neutras. Tudo está organicamente desbotado. O único colorido pertence ao céu, à água que se chega muito perto dos meus pés e à roupa do rapaz que sai do balcão com um tabuleiro nas mãos para trazer os pedidos das mesas. Roupa que é um pano, “uma capulana com uma grande história” - como ele me disse, e reparo que é semelhante às que já estão arrumadas e prontas a seguir na minha mala de viagem. Tenho curiosidade sobre as histórias dos tecidos e, enquanto ali estou, penso nas voltas que as capulanas deram há uns séculos, e ainda vão dar, e leio, numa rápida pesquisa que faço, que os portugueses foram responsáveis por uma parte da história destes panos tão icónicos. Uns com estampados a lembrar os tecidos de chita, outros tão geométricos que me remetem para as fachadas forradas a azulejo tradicional, e fico a saber que há uma relação estreita entre tudo isto. Regresso com a mala cheia de capulanas. Em conversa com uma amiga sobre trapos e sobre a possibilidade que eles

nos dão de viajar até às mãos de quem os fazem, vem à conversa um projecto que reúne isso mesmo e que agora conheço: Üva | homewear. É uma marca made in Portugal de “roupa que veste a casa” inspirada pelos padrões dos tecidos de origem africana e portuguesa. Conheço a colecção. Todas as peças são produzidas em tecidos de algodão, com padrões criados a partir de capulanas e de tecidos de chita portuguesa. Há “toalhas de mesa, individuais, almofadas, pousa-quentes, que complementam a decoração e definem a função de um espaço”. Caracteriza-se por combinar a simplicidade das formas com os padrões recriados a partir de uma fusão de inspiração portuguesa. Em cada peça percebe-se bem a forma como as suas criadoras entendem a vida – inspirada na natureza e contemporânea. São peças simples e orgânicas, criam “vida exclusiva para o sítio que se quer singular: a sua casa”, registam. Fico com uma toalha que ponho na mesa do jardim, sirvo um vinho fresco, que vem a propósito, e a conversa sobre trapos continua… agora com Üva à mesa. d

R www.facebook.com/UvaHomewear 23


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Conta a lenda que andava D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia, a caçar por tão frondosa colina de Sintra quando, perdido e exausto, adormeceu debaixo de uma penha, onde terá sonhado com anjos que se ajoelharam perante a Santa Cruz de Cristo. Da visão nasce o anseio de edificar, ali mesmo, no coração da serra, outrora adormecido na densa mata selvagem, tomada de assalto pela bruma da noite, uma casa de acolhimento para uma comunidade religiosa. Desejo concretizado pelo filho, D. Álvaro de Castro, conselheiro de D. Sebastião e vedor da Fazenda. Em 1560 é erguido o Convento de Santa Cruz da Serra de Sintra, mais conhecido por Convento dos Capuchos. Nele habitaram monges pietistas votados à pobreza, à castidade e à obediência. Voltados para a natureza e para a fé divina.

O MISTERIOSO CONVENTO DOS CAPUCHOS

TEXTO PATRÍCIA SERRADO ILUSTRAÇÃO SARA QUARESMA CAPITÃO

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Iniciamos a jornada protagonizada, em tempos, pelos homens que enveredavam por este caminho da submissão perante Deus. Começamos pelo terreiro das três cruzes, que representa o calvário, onde Cristo foi crucificado no meio de dois outros homens. Para aceder subimos por uma das duas escadas, numa alusão ao livre arbítrio assumido pela igreja católica de então. E oito degraus são novamente percorridos depois do portão de acesso ao convento, colocado no meio das fragas graníticas sobrepostas, no meio dos quais uma estrutura de pedra sustenta uma cruz. Em frente fica o alpendre. Estrutura em pedra, quase rupestre, sem que prejuízos houvesse para a natureza, para um convento destinado a monges que envergavam hábitos com capuz. E um capuz se vislumbra na cabeça caída, de

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traços apagados pelo tempo, na cruz de madeira adornada, na parte superior, por pequenas conchas. Será Francisco de Assis? Que na cintura, por cima do hábito, usava um cíngulo com três nós, numa alusão à pobreza, à castidade e à obediência, os votos dos monges que habitavam o Convento de Santa Cruz da Serra de Sintra. Em baixo, Maria Madalena está rodeada por pedaços de cerâmica partidos, num ato simbólico de negação ao luxo. De repente, o silêncio murmura por entre o breu. Estamos na igreja conventual, onde a abóbada é formada na própria fraga e revestida a cortiça. Um altar em mármore trabalhado com mestria convoca o culto cristão, em tempos celebrado para os monges que assistiam à missa no coro alto, longe da vista de todos. Baixemos a cabeça para passar


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ao corredor, gesto de submissão dos monges pietistas, repetido à entrada de cada um dos oito quartos sombrios, onde o descanso, nas esteiras, subsistia por oito horas. Ao fundo do corredor, o refeitório, para o qual o Cardeal rei D. Henrique mandou cortar uma penha para ali ser colocada a servir de mesa, destinada a apenas uma refeição diária. No teto, uma cruz. E duas janelas – uma na parede contígua à cozinha e outra com vista para a natureza mais nobre, de onde provinha o alimento. Depois, a sala do capítulo onde a comunidade que materializava o ideal de fraternidade e irmandade universal se reunia perante Nossa Senhora das Dores. Fora do circuito das celas comuns perdura a do noviço, bem perto da porta para o exterior pois, ao longo do primeiro ano os homens que aspi-

ravam a monges tinham a liberdade de sair sem serem impedido de o fazer. Apesar da pobreza extrema, a existência da casa das águas, com um reservatório de água proveniente da serra, usada para o ritual de purificação testemunha, já naquele tempo, a preocupação com a higiene e a salubridade. Assim como a enfermaria, os quartos dos visitantes, a cela de penitência, sem janela, para os que julgavam ter cometido o pecado – interpretação à alegoria da caverna, de Platão –, e o quarto reservado para os ilustres visitantes. No ponto mais alto e soalheiro do Convento dos Capuchos esteve, em tempos, a biblioteca, assim como um escritório. Sobre o paradeiro dos livros, o mistério persiste… d

R www.parquesdesintra.pt

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CHARCUTARIA LISBOA COM ALMA ALENTEJANA TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA CHARCUTARIA LISBOA

O nome tem origem numa mercearia fina de Campo de Ourique, em Lisboa, outrora bem conhecida na cidade das sete colinas. Um espaço aberto apenas aos melhores produtos regionais e onde nasceu e cresceu Manuel Martins, a quem o pai transmitiu o gosto pela boa comida e que transformou, mais tarde, a Charcutaria num pequeno restaurante dedicado à gastronomia portuguesa, em particular às iguarias alentejanas, uma paixão que advém dos tempos em que viveu em Évora a juntar ao gosto de recriar a nossa cozinha com alma. Anos volvidos e a Charcutaria renasce no n.º 47 da rua do Alecrim, em Lisboa, batizada de Charcutaria Lisboa, de portas reabertas no passado mês de março, quatro anos após Manuel Martins as ter fechado. E quis a contradança da vida com que ficasse, uma vez mais, à frente da cozinha para, com a sabedoria de um mestre, elaborar as mais deleitosas iguarias nacionais, reinterpretadas com requinte. Senão vejamos: Pastéis de massa tenra, Pézinhos de coentrada, Bacalhau Charcutaria… Sem esque30

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cer a tradição alentejana. A rematar o repasto, a preferência recai nos doces conventuais, cuja confeção dá um “enorme prazer” ao mentor da Charcutaria Lisboa, onde os vinhos, guardados numa garrafeira ao fundo da escada, sob a supervisão de João Paulo Ventura, constam na carta a eles dedicada para, a posteriori, acompanharem um almoço ou um jantar com os amigos, em família ou a dois. Mas vamos às sugestões do chef. Para divertir o palato: Empadinhas de galinha, Foie gras e Carpaccio de bacalhau com romã e azeitonas. Para petiscar: Salada de polvo, Iscas de porco preto de coentrada, Tomatada, Salada de pimentos e Migas de batata e ovo com flor de sal. A degustar: Filetes de peixe galo com açorda de ovas. Para adoçar a boca: Bolacha de noz com sopa de frutos vermelhos. Um repasto em boa companhia, num terraço que respira conforto, com vista para a rua das Flores, numa tarde soalheira. Recomendado! d

R www.restaurantecharcutaria.com


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PAULINO SPECTACLES OFÍCIO DE FAMÍLIA TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA PAULO MIGUEL MARTINS

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O desenho em papel inicia a processo. Depois, o molde. Ajustam-se as hastes e os tamanhos oculares. Fazem-se os cálculos às distâncias. Analisa-se o assentamento nasal e adapta-se ao rosto. A cada rosto. Porque um trabalho criterioso requer o engenho da mão humana numa desenfreada, mas precisa, utilização de múltiplos instrumentos. Até ao processo de polimento e rigoroso controlo de qualidade, e ao produto final. Assim se criam os óculos Paulino Spectacles, uma elegante referência para um olhar trendy made in Portugal. O must

have para elas e para eles de uma marca portuguesa que dá continuidade a um ofício de família, iniciado por Bernardo Paulino Pereira, em Santarém, e traduzido na criação de uma linha de óculos manufaturados e concebidos com matérias primas ímpares no cumprimento da área da ótica. Um sonho continuado pelo filho, Ramiro Paulino Pereira, e uma paixão para o neto, Ramiro Paulino Pereira que, desde cedo, aprendeu o ofício e, hoje, leva a Paulino Spectacles em viagem pelo mundo. d

R www.paulinospectacles.com 33


SHORT STORIES BY SANDRA NOBRE AS PALAVRAS GUARDADAS EM LIVROS TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA JOÃO PEDRO RATO

No começo eram as histórias de amor. O desejo de escrever livros, reacender uma paixão adormecida, reavivar a memória de um passado conjugado com o presente marcado por um beijo outrora roubado ou uma declaração de amor há muito aguardada. Palavras ditadas em confidência numa conversa informal e anotadas num bloco por quem as ouve. A inspiração e o bom senso, dotados de experiência, asseguram o alinhamento das frases que compõem a história no concreto, complementada por fotografias. É esta vontade imensa de construir o enredo em torno de um sentimento tão distinto que leva Sandra Nobre, jornalista com alma de viajante, a entrelaçar palavras a preceito, compiladas em livros, um dos projetos da Silly Name que nasceu nas primeiras páginas de 2013. Cada exemplar é único. Além da história, a capa, dura, requer o trabalho de excelência da arte da encader34

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nar, mestria consagrada pelas mãos de um artesão cujo o nome está guardado no segredo dos deuses. O processo é rematado pela entrega do livro lacrado para surpreender quem oferece e quem recebe o presente. O processo repete-se com o livro que assinala uma ocasião especial, um presente de casamento ou uma recordação dos noivos, uma página solta de um livro que formula um convite, uma biografia… um livro infantil, sob o título “My Short Story before I grow up”, onde os vocábulos se entregam ao imaginário do universo infantil, ou um livro de viagens, com “My Short Story somewhere…”, no qual as palavras são conduzidas a parte incerta e guardadas numa caixa muito especial. Já imaginou o quanto pode surpreender? d

R www.somewhere.com.pt


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OITOEMPONTO ESPAÇOS IMPROVÁVEIS TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA OITOEMPONTO

O exercício criativo demarca o trabalho da OITOEMPONTO. A marca de luxo de cunho português, distinguida pela assinatura total concept. Desde a idealização do interior à harmonia do exterior de cada casa. Na criação de espaços com alma, onde o improvável e o inesperado encontram o equilíbrio perfeito. Histórias retratadas num livro apresentado, em Paris e em Lisboa, sob o título “OITOEMPONTO – Architecture & intérieurs”, as quais atravessam duas décadas de tendências revisitadas por Artur Miranda e Jacques Bec, dois apaixonados pela arquitetura, pelo design de interiores e pelo Porto. casa corso, porto

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E é pelo Porto que embarcamos nesta viagem repleta de histórias contadas a duas vozes. A cidade que acolhe Artur Miranda e Jacques Bec após mais uma das muitas incursões fora de portas. Até porque, “um globe trotter gosta sempre de chegar ao seu cocoon.” Mesmo ao fim de duas décadas de carreira, a continuar por muitos anos, de uma marca que casa luxo com pragmatismo. Mas qual é a razão para a escolha do nome OITOEMPONTO? “Oito” é o número associado à sorte; “em ponto” traduz a filosofia de ambos, a qual assenta na precisão, no profissio-

nalismo. “O nosso trabalho é o motor de criatividade”, que assenta num “entendimento pessoal” intensificado pela boa disposição. Desde o dia em que se conheceram em Paris. E embora manifestem vontades distintas dentro do mesmo trabalho, a estética é, em muito, semelhante: “Temos uma capacidade incrível de mudarmos uma peça de sítios diferentes para o mesmo lugar. É essa promiscuidade de movimentos de ideias que faz com que a OITOEMPONTO seja muito rica visualmente.”

Casa Ócean, Porto

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dega da Quinta do Pessegeiro, Douro

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“Trabalhar a história para chegarmos ao melhor produto.” No início de cada história, criada após o primeiro contacto com o cliente, a vasta equipa com que trabalham participa no brainstorming, porque o valor é atribuído ao conhecimento do representante de cada ofício. “Temos ideias muito vincadas, mas estamos sempre muito abertos ao que o fornecedor ou o artesão nos tem para dizer, devido à sua experiência.” O objetivo consiste em “trabalhar a história para chegarmos ao melhor produto” através de um “métier técnico, meticuloso que muito pouco tem a ver com gosto”, pois o gosto é tratado com pragmatismo. Uma contraposição que confere importância à qualidade e à funcionalidade em detrimento da ostentação. “Tentamos que as casas não sejam fúteis, mas sim super úteis”, daí que se assumam como “gestores de futilidades”. “Tudo o que existe dentro das casas é fruto do nosso trabalho.” Sem o glamour associado à figura criada pela cinematografia das décadas de 1950’ e 1960’, Artur Miranda e Jacques Bec definem-se como arquitetos de interiores. “Tudo o que existe

dentro das casas é fruto do nosso trabalho.” Desde a criação de um espaço concebido de raiz até ao apartamento que se quer ver “arrumado”. E “todas as cores são válidas”, desde que utilizadas na dose certa, para que haja harmonia no interior de um espaço concebido com a assinatura da OITOEMPONTO, quer seja em Angola ou no Brasil, no Reino Unido, em França ou em Itália. Ou quase todas, porque as menos apreciadas pelos clientes são suprimidas da paleta da decoração. “As pessoas querem uma casa para viver.” Por isso, os livros, os objetos pessoais, as lembranças trazidas de lugares improváveis fazem parte de toda uma composição complementada por peças de mobiliário e objetos pertencentes a outras épocas, porque “os olhos têm de viajar”. Mas fica sempre um lugar reservado para outro móvel, outra peça… Cerca de três semanas antes da casa estar pronta, a entrada do cliente é interdita com cortesia, pois“o backstage não se pode ver”. Chegado o dia: “Sentamos as pessoas numa cadeira e abrimos a cortina. O encanto está no resultado final.” d

R www.oitoemponto.com Casa Corso, Porto

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MAMBO & ETTERO IDENTIDADE PORTUGUESA TEXTO SARA QUARESMA CAPITÃO FOTOGRAFIA MAMBO UNLIMITED IDEAS

Metas simples caracterizam Mambo Unlimited Ideas, empresa nacional com mais de 20 anos no mercado, que aposta, com mão segura, na estreita colaboração com jovens designers nacionais, procurando sempre a inovação a cada peça criada, a cada ambiente sugerido. Empresa que, consciente das danças e contradanças do design internacional, reinventa-se, no ano de 2008, aumentando a família com a marca ETTERO, sob o traço sapiente de Cláudia Melo. Começaram por baixo, pelos nosso pés com tapetes exclusivos, contemporâneos, onde a cor dança sem tempo marcado e deram, ao mercado, a ideia de “tapete feito à medida”.

mesa caldas

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O design a respeitar a sua raiz, a ser feito à medida do cliente. Com o tempo, os pés elevaram-se e a Mambo ganhou asas. Voou para mercados com o europeu, o australiano, o angolano... e até o tailandês. Com o tempo, os tapetes e têxteis Mambo ganharam iluminação e mobiliário, com o já referido aumento da família. E o conceito não se perdeu, ganhou apenas uma lufada de ar fresco com um toque dos anos 1960 trazido para a contemporaneidade, mergulhado em detalhes de requinte e imaginação sem limites.

Sempre identidade portuguesa, criam hoje peças como as coloridas, modernas e inovadoras mesas Caldas, com os nossos mui estimados azulejos, onde casam materiais tradicionais com design contemporâneo e onde, reconhecendo a variável inconstante dos nossos espaços, nos deixam participar do processo criativo da peça, podendo nós escolher o tamanho, o formato, a cor, os azulejos... O design de individualidade, de peça única, desenhada para si.

mesa caldas e candeeiro star

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A Mambo e sua ETTERO continuam na missiva de enriquecer o mundo do design de interiores, com coleções que são o reflexo do melhor do design nacional pelos materiais usados, pela qualidade na produção, pela irreverência com a vontade de continuarem a quebrar re-

gras pré-definidas, por ousarem ser diferentes, por desenvolverem design de excelência para criarem peças únicas em interiores distintos, preenchendo os espaços vividos com arte de carimbo nacional. Um nome, uma marca, um sinónimo de design made in Portugal. d

R www.mambo-unlimitedideas.com

jazz bar air

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BLUE JOURNEY FOTOGRAFIA CARLOSFS.COM PRODUÇÃO E STYLING DULCE CORREIA E JOANA MARÇAL BRIZIDA HAIRSTYLING E MAKE UP EDUARDO BREITES E CLÁUDIA RODRIGUES MODELO LIDIYA @ CENTRAL MODELS

Num tributo ao azulejo Português, a celebração faz-se em azul e branco numa viagem onde as tendências se fundem com a história.

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Blazer e camisa - Zara Cuecas de Bikini - Calzedonia Lenรงo - Parfois Cinto - Mango Colar e Pulseira - Pedra Dura

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Vestido - Sfera Colete - Zara LenĂ o - Parfois Cinto - Mango Colar - Pedra Dura Pulseiras - Pedra Dura

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Bomber - Pull & Bear

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Calções - Zara Camisa - Zara Camisa - Blanco Lenço - Parfois Colares - Pedra Dura Anéis - Pedra Lua

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Vestido - Zara Biker - Pull & Bear Bomber - Pull & Bear Lenço - Parfois Anéis - Pedra Lua Pulseiras - Pedra Dura Biker - Pull & Bear Lenço - Zara Anel - Pedra Lua Colar - Pedra Dura Pulseiras - Pedra Dura

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LUÍSA SOBRAL DE CEREJA A FLOR... TEXTO SARA QUARESMA CAPITÃO FOTOGRAFIA GONÇALO F. SANTOS

Hello Luísa! “Hello stranger” Não vou começar no dó e acabar no si, não tenho sustenidos, não vou ao tradicional solfejo de perguntas que “Mr & Mrs Brown” já sabem as respostas. “Why should I?” Disse ao “Xico” que não me interrompesse. “After all”, “I would love to” have a nice talk! Algum recado ou saudades para o “Xico” antes de avançarmos? Um obrigada por tudo. Ele levou-me a conhecer os músicos que tenho, levou-me a tocar em sítios onde queria tocar, levou-me a este disco, levou-me a tudo o que tenho agora, por isso, obrigada! “As the night comes along”, em jeito de contradança das palavras, soltemos a conversa com amores cantados e acordes na memória porque “I remember you”, quando havia um bolo com uma cereja... Porque de um bolo com cereja saltamos para uma flor no quarto? Evolução ou só emoção? É só emoção, não penso neste disco como uma evolução do disco anterior. Bom... sim, é uma 56

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evolução no sentido em que sou eu dois anos depois, mas não no sentido musical, são histórias diferentes, são dois discos diferentes. A flor é porque sinto que o disco é um pouco melancólico, mas também tem um lado feliz e a flor mostra que há esperança, que há um lado bonito das histórias. Queria uma flor por isto mesmo. O quarto é porque foi o primeiro disco que eu escrevi de volta a casa, escolhi-o naturalmente. A flor é uma “Japanese rose”, a bebida é do “Sr. Vinho”, a cidade é Paris porque nos dizes “I was in Paris today” e eu questiono “Cuantas veces” hesitaste em cantar em castelhano? Chegaste a pensar em jeito de metáfora “The letter I won’t send”? É uma canção que foi escrita, há mais de um ano, para a nossa primeira tournée em Espanha. Era para ser tocada só nessa tournée, mas no dia a seguir a voltarmos de Espanha, tocámos “Cuantas veces” no Casino Lisboa. Quando foi para gravar não tinha a cer-


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teza se a queria porque não era uma das que eu mais gostava e não queria ter muitas línguas no disco, mas os meus músicos e o meu manager adoram essa canção e as pessoas divertem-se muito com ela. Passou a ser parte do nosso percurso destes dois anos, a fazer parte do nosso reportório. É como se fosse o nosso diário de bordo. E agora um pouco de solfejo. Com a música, Luísa, foi algo como: “Quando te vi”, música, foi amor à primeira vista! Acertei? “Don’t let me down”. Não me lembro bem como surgiu a música... Toda a gente ouve música e ninguém se lembra da primeira vez que ouviu música, a primeira vez que teve contacto com a música. Para mim foi exatamente igual, porém a minha família sempre foi muito musical e o contacto com a música foi sempre muito genuíno. Sei que tocar instrumento foi aos 12 anos, por querer tocar as músicas da rádio e a partir dai comecei a sentir que queria explorar mais, a perceber que não só queria tocar as músicas da rádio, mas tinha necessidade de compor coisas minhas. Confesso que houve um conflito entre representação e música, sempre gostei das duas e não sabia qual escolher, mas quando escolhi a música não pensei mais nisso.

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E, hoje e desde ontem, escrever, compor, ir para estúdio há a sensação de quando se vê “Rainbows” no imenso céu? Há borboletas? Para estúdio não há borboletas, porque há a possibilidade de errar e fazer outra vez, e só vou com pessoas com quem me sinto muito confortável, então nunca fico nervosa. Também já gravei muitas vezes, até quando andava na Universidade onde havia estúdio e fazia parte de quem estava a estudar Engenharia de Som convidar cantores para gravar, comecei aí a ter um grande à vontade em estúdio. O compor também não me deixa ansiosa, é quase como uma necessidade de por as coisas cá para fora, há uma necessidade de o fazer e, no fim, é um alivio. É algo completamente natural para mim. Há algo que indago sempre no universo das musicalidades: a capacidade de não se perder o talento para criar novos projetos e não se ser “Déjá vu”. Já alguma vez disseste: criatividade, “Will you find me?” Eu penso que o segredo é continuarmos sempre a buscar coisas diferentes naquilo que tocamos. Eu vou sempre criar e tocar músicas diferentes se eu for sempre ouvindo sons diferentes. Nós temos de, em qualquer área criativa, ler muitos livros, ver muitos filmes, ouvir muita música... Se for sempre fazendo isso eu, como pes-


soa e músico, vou evoluindo e nunca me vou repetir. Não tenho assim tanto medo que a criatividade não venha, não penso muito nisso e “se a criatividade vier, vai encontrar-me a trabalhar”. É isto que eu quero. Nós temos de trabalhar para que ela venha, temos que ir alimentando o nosso saco da criatividade, já dizia uma professora de teatro...

“Inês”... não estava posta em sossego e a verdade que todos desconhecem é que ela, com Pedro, “She walked down the aisle” ao som da Luísa, porque a tua música é de um amor assim, para sempre? Há uma queda para cartas de amor? Eu acredito no amor. Acabei de ler o que será um dos livros da minha vida – O Amor nos Tempos de Cólera –

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é esse amor que eu quero. Atualmente não se acredita no amor para sempre, acreditamos em momentos ‘agora estou apaixonada!’, mas porque não posso dizer que vou estar apaixonada por toda a minha vida? Se calhar não vai ser, mas vou acreditar nisso, apesar das minhas histórias no disco nunca acabarem bem, excepto o “Sr. Vinho”, eu acredito no romantismo e nesse amor para sempre... tenho esperança. Ok, vamos para “The last one” que a dança da contradança de palavras já vai longa e a “Clementine” já “Saiu para a rua” a perguntar “What do you see in Lily?” Luísa, de voz suave, baixa, de música de toada jazz com pinceladas pop... se tivesses de escolher um estilo para interpretar que fosse a contradança do teu, qual seria ele? Nunca pensei nisso... Se calhar, não com a minha voz, com outra voz, mas escolhia o R&B de um Ray Charles, mais antigo, clássico. Sim, era este que escolhia. Até já, “I’ll be waiting” por concertos e tantos mais originais. Até já... d

R www.luisasobral.com

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TEXTO HERNÂNI DUARTE MARIA

DANCING CHEEK TO CHEEK E logo então o musical tornou-se o mais popular no período de 1927 a 1930 , aproximadamente. Foram produzidos cerca de 200 filmes, atraindo os espectadores pela novidade do cinema sonoro. Em 1929 estreou o primeiro musical da era do cinema sonoro da MGM (Metro Goldwyn Mayer). Na RKO Pictures avança-se com géneros pouco usuais da era do sonoro – este estúdio irá implementar diversas vertentes inovadoras e inspiradoras na cena do cinema, filmes denominados série B. Dentro do terror do sci-fi e film noir, nascem nos estúdios da RKO mas, sobretudo, o musical da era Astaire e Ginger Rogers irão afirmar os estúdios da RKO, como sendo um dos mais inovadores e criativos da época do cinema sonoro.

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No musical de Hollywood, a RKO fomentou a comédia musical, em que os enganos dos personagens, os sketchs musicais dos enamorados seriam uma mais valia na acção do filme. Os filmes continham as piadas e os gags de romances entre os protagonistas, cheios de confusões e referências às operetas de outrora… um galã, a donzela, a paixão, a confusão, as músicas, os temas, as danças… e tudo iria culminar numa apoteose musical e de paixão… Muitas coisas teria para referir da RKO do musical, do cinema sonoro, mas o que prevalece para mim é somente isto e, citando uma referência ao filme Top Hat… heaven… I’m in heaven… e claro que o musical é isto: Heaven…!!!! d


fotografia oficial do filme top hat (chapÊu alto) 1935 Š CopyrightCourtesy Everett Collection / Everett Collection

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PERFIL DE PAISAGEM GONÇALO RIBEIRO TELLES TEXTO E ILUSTRAÇÃO SARA QUARESMA CAPITÃO

Entre portas e paredes, vãos e desvãos, aduelas e rodapés, alvenarias e betão... sou eu entre arquiteturas que me moldam, que vivem em mim, são parte de mim. Porém, pelos vãos envidraçados, a paisagem construída diz-me, a cada estação, que também é arquitetura, é arquitetura paisagista e eu, eu chamo-lhe Gonçalo Ribeiro Telles. Lente, arquiteto paisagista, político. As 66

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três por igual. Não é mais uma ou outra, se calhar, até pode ser mais... É, aos meus olhos, um homem único onde os caminhos trilhados são indissociáveis e quase ouso chamar-lhe poeta da paisagem, filósofo do espaço, maestro dos jardins, mas vou conter-me e ficar-me pelas três primeiras. Não consigo. Acrescento que é movimento e cidade feita de paisagens construídas, num país


onde Lezírias deviam ser sempre poemas. Traça arquiteturas com fundações em raízes, pilares em troncos e tetos de folhas. Faz mapa de acabamentos com flores e não há telas finais sem água pensada. Ensina-me que arquitetura paisagista “é arquitetura que tem vida em si mesma”, pois a minha arquitetura tem vida, alberga-a, acolhe-a, mas a paisagista é, ela própria, respiração. Definição tão simples, tão sábia. Vê a natureza como “obra de Deus, digamos assim se quisermos, mas a paisagem, que é a forma da natureza, é obra do homem” e o homem, define-o como “construtor de natureza por excelência, criando a paisagem. É nela que está a obra do homem e onde está a sublimação da natureza”. O resultado torna-se lógico no mundo orgânico, quando o homem cria paisagens belas a natureza é exaltada, por isso ele, o homem sem o qual a estrutura verde não tem sentido, deve “ser ensinado a olhar e a vivenciar o espaço, a construir paisagem respeitando e aplicando a natureza”. Vamos sempre querer a busca incessante do belo natural, nestas urbes rodeadas de um betão que cresce desenfreadamente, numa propagação do artificialismo da matéria que tantas vezes se esquece do balanço necessário e premente, da coexistência obrigatória e vital, com a paisagem construída...

E não me contive, precisava de arriscar na pergunta mesmo tendo a certeza da resposta, para ele “não há árvores especiais”, tal como as flores são todas belas, nas flores “porque têm a ver com o fim de um ciclo de vida”. Tudo é parte dos nossos jardins, daquela paisagem construída que vemos além, no cimo da colina, num jardim composto por três partes, na Capela de São Jerónimo, no Restelo, jardim que destaca como especial e onde trabalhou, deixando lá a sua assinatura. E será possível dizer o seu nome sem viagem imediata por Gulbenkian, Monsanto, Jardim da Amália, Parque Eduardo VII, Plano Verde de Lisboa? E as bem-vindas leis de 1987, a RAN, a REN? Não creio e quem disser que sim, mente. São sinónimos de Gonçalo Ribeiro Telles. São trabalhos que ressoam na minha memória sensorial, lembram cheiros, degradês de verdes e uma palete sem fim de cores que a natureza oferece à paisagem. São leis, tantas vezes ignoradas, mas que a mim me guiam, que me regem o traçar, que me conduzem o trabalho no território onde ergo as portas e paredes, vãos e desvãos, aduelas e rodapés, alvenarias e betão... Gonçalo Ribeiro Telles, prémio Sir Geoffrey Jellicoe 2013, o Nobel da arquitetura paisagista, é indiscutivelmente, perfil de paisagem portuguesa, a paisagem que, pelos vãos envidraçados, me oferece cantigas de amigo e me convida a sair. 67


POEMA E ILUSTRAÇÕES LILIANA BERNARDO

DAMAS DE COR A música é o meu corpo Se te calas eu oiço e descubro o som do meu movimento Serei constantemente o meu sorriso... Quantas vezes te digo para te calares? Solta os braços e deixa que as mãos te levem... Eu sou um silêncio lunar e a dança é um formigueiro! É isso... Balanço sem medo de ser cintilante fico de olhos fechados uma eternidade antes fazias troça de mim... O que eras tu quando as tuas mãos te levavam? Eu? Não sei... Mas tu eras a cor... A cor do meu pensamento

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JE T’AIME MAMA SHELTER TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA JOÃO PEDRO RATO

Os galos estampados nos cortinados do piso térreo deixam adivinhar um ambiente descontraído. Assim como o próprio edifício, pintado (quase) de fresco de um cinzento que casa bem com o enquadramento paisagístico em redor. Entremos. As portas abrem para um hall de acesso fácil à receção por uma pequena escada. Atrás do balcão, os olhares ritmados rimam com a cordialidade que se preza. “Bonjour madame. Bonjour monsieur.” Cá estamos nós no Mama Shelter Lyon!

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Para nossa surpresa, do lado de lá do balcão são dadas as boas-vindas em português do Brasil. “Bom dia!” Os olhares – desta vez refiro-me aos nossos – passam a pente fino o espaço trendy em redor. O teto e as paredes são dominados pela urban art preenchida por frases soltas em francês, num repto à leitura desenfreada, conjugada por vitrinas de vidro, a desempenhar a tarefa de expositores de máscaras de super heróis da Warner Bros., brinquedos-souvenirs para a pequenada, os amenities “Mama says it’s totally natural”… A verborreia é contígua ao elevador, onde encontramos o significado de vários vocábulos acabados de tirar de

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um dicionário francês; ao corredor, que nos estende um tapete negro com palavras sobrepostas a nossos pés, grafitadas a branco neve, a acabar na janela do quarto. O conceito hip do Mama Shelter Lyon contagia todos os que por aqui passam com uma boa disposição singular ou não fosse este espaço concebido para divertir e desfrutar com humor, trabalho produzido com brio por um génio do design, o francês Philippe Stark, que recria, assim, um hotel citadino, aberto a todos. Facto consumado nos compridos balcões – dois, paralelos um ao outro – da sala em frente à receção, de onde se ouvem vozes e gargalhadas numa fu-


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são de alegria que se mistura com uma eleição feita a preceito de bons sons. Sobre os mesmos balcões, (duas) filas de bóias ditam as cores estridentes do bar a contrastar com o teto cinzento, repleto de mensagens coloridas. Pantones que combinar com as cores dos padrões dos sofás, dos abat-jours dos candeeiros, que mais parecem peças tiradas dos exuberantes cenários de “Alice no país das maravilhas”, dos livros empilhados entre os candeeiros, dos cortinados contaminados por galos empilhados em fileiras, que decoram as janelas de vidro da parede virada para o exterior… Uma enorme mesa de matra-

quilhos, amarela, para os aficionados, ou não, no futebol, desempenha o papel de divisória. Do lado de lá estão as mesas do restaurante, acompanhadas por cadeiras de diferentes tons, feitios e tamanhos. Que tal um jantar no terraço, ao ar livre? A agradável noite que adivinha o tão desejado verão assim o permite, até porque as iguarias dos chefs Alain Senderens e Jérôme Banctel, numa inspiração profunda na tradição gastronómica de Lyon, são para degustar com a calma que tanto merecem. Bon appétit! d

R www.mamashelter.com

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À DESCOBERTA DO… INEVITÁVEL!

TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA VILA GALÉ

Da nossa tradição recai a indecisão sobre qual prato escolher para um repasto descontraído, num ambiente que nos transporta para o requinte de um palácio do século XV com vista sobre o rio Tejo. Na carta, os pratos deixam adivinhar a pressença forte da cozinha regional portuguesa. A saborear: Iscas à portuguesa, Pataniscas de bacalhau com salada de feijão frade, Favas com codornizes à saloia, Chicharros de agraço na sertã com molho verde em batata-doce assada, Carne de porco à pescador, Arroz de polvo à algarvia e Pastéis de massa tenra com arroz de feijão manteiga. Eis as sugestões do chef para cada dia da semana, a servir à mesa do Inevitável, o restaurante do novíssimo Vila Galé Collection Palácio dos Arcos, em Paço d’Arcos, no concelho de Oeiras. A assinatura pertence a Francisco

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Ferreira, o autor de tão deleitosos manjares dignos da realeza, inspirados na gastronomia que é tão nossa, reinventada com a perícia de um mestre, bem como de outras criações bem arrojadas, com um sabor que provoca a gula, como o Salmão marinado com mel e funcho, o Foie gras do Palácio com confit de cebola, avelãs e crumble de especiarias, o Risotto de camarão com emulsão de coentros e o Gelado de queijo com doce de goiaba. De comer e chorar por mais! Sempre na companhia dos vinhos da casa Santa Vitória de origem alentejana, do Grupo Vila Galé. A provar: Santa Vitória Reserva Branco 2010 e Santa Vitória Grande Reserva Tinto 2008. Porque é inevitável resistir a mui deleitoso repasto. A experimentar. d

R www.vilagale.pt


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TEXTO HELENA ALES PEREIRA FOTOGRAFIA KIM FRANK

LLOYD COLE “ESTOU MAIS PERTO DE DEIXAR DE SER INVISÍVEL” Gosta de dar entrevistas, porque diz que é uma forma de fazer terapia. Acredita que com o novo trabalho, “Standards”, deixará de ser invisível para o grande público. Se não resultar, esta pode ser uma das últimas entrevistas de Lloyd Cole.

“Standards” é sobre o quê? Pergunto isto porque nos últimos 10/15 anos, fez música acústica, foi inspirado pelo álbum de Bob Dylan, “Tempest”, que é, sobretudo, um músico folk, e, no entanto, este é um disco de música mais elétrica. Não penso em Bob Dylan apenas como um músico folk, penso nele como um artista. Durante alguns anos, considerei-me um músico folk, tocava com uma guitarra acústica. Como é que me haveria de classificar? Mas os meus discos não eram de folk, eram simplesmente quiet 82

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records porque eu achava que, quando entrei nos meus 40, era o tipo de música que as pessoas mais velhas faziam. E porque Dylan tinha feito precisamente aquele disco com 72 anos. Quando o ouvi, percebi que andava a perder o meu tempo ao preocupar-me com o que é que seria a idade certa para fazer esta ou aquela música. Era melhor fazer aquilo que me apetecia e o que me apeteceu foi fazer este disco.


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É por isso que “Standards” é tão comparado a “Rattlesnakes” (primeiro álbum de Lloyd Cole and the Commotions, 1984)? Comparam-no muito? Sim, os críticos dizem que é o seu melhor trabalho desde “Rattlesnakes”. Consideram que tem a mesma energia, o mesmo som. Quando faço um disco muito bom dizem sempre isso (risos). Mas disse que tinha feito “Rattlesnakes” para poder ganhar dinheiro, para fazer o que mais gostava: música. Com “Standards” foi o mesmo. Sim, há um pouco de mim neste disco muito parecido com “Rattlesnakes”. Quando o fizemos, ninguém nos conhecia, éramos invisíveis. Aquele disco era uma espécie de manifesto: somos os Lloyd Cole and the Commotions. Agora, ainda que não seja totalmente invisível, estou mais perto da invisibilidade do que estava há uns anos. Sinto-me como se estivesse num nicho: ‘este é o canto do Lloyd e ele pode fazer o que quiser, mas não é preciso ter muita atenção, porque não é para todos’. Mas eu sempre quis fazer música para todos, queria ser como o Michael Jackson, o Bob Dylan, o David Bowie, que faziam música para toda a gente… O problema era de quem: do Lloyd ou da indústria musical? Acho que não tem tanto a ver com o meu trabalho, mas com a forma como ele é transmitido ao público. 84

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Faço espetáculos acústicos e as pessoas pensam que me afastei do mainstream. Uma das coisas que me deixaria feliz este ano é se “Standards” tivesse muita atenção. Há uma diferença entre fazer discos e fazer concertos: eu faço um disco como se escreve um livro, como se pinta um


quadro, é uma coisa que se sustenta sozinho, é algo para ser ouvido, escutado. Li numa entrevista que, nos anos 90, quando voltou a Londres, teve consciência dessa invisibilidade. Como é que se sentiu? Eu era um bocado intragável

quando era uma pop star, não gostava que as pessoas me seguissem e queixava-me da fama. Hoje, sinto-me embaraçado. Não se pode querer ter sucesso e não querer que as pessoas nos olhem e falem connosco. Eu estava habituado, quando saía à rua, às cabeças a vira85


rem-se. Andar nas ruas e sentir que não era uma pessoa magnética não foi uma sensação muito boa, porque continuo a fazer música para as pessoas gostarem. Estas canções foram compostas para este álbum ou já estavam escritas? Há apenas uma canção que estava praticamente pronta, “No Truck”, porque já a tinha vindo a cantar há cerca de um ano em concertos.

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É uma das minhas preferidas. Obrigada, é uma das minhas também. O resto do álbum ficou completo rapidamente porque tive a oportunidade de o trabalhar durante 10/12 semanas. Ia para o escritório e escrevia, algo que nunca tinha feito, porque achava que só trabalhava sobe a inspiração. Agora sei que a inspiração é momentânea, é algo que, quando surge, temos de anotar, mas tudo o resto é trabalho.


“Standards” é uma viagem ao passado? Porque disse que tinha pensado na sua idade quando o escreveu. Não o escrevi baseado na idade. O que me entusiasma é que a forma de trabalhar é completamente diferente de há 25 anos. Como estou mais velho, tem necessariamente de ser diferente. Desde que não finja que tenho 30 anos, acho que vai correr tudo bem. Ainda posso escrever sobre mulheres, ressentimento, amargura, mas já não falo sobre juventude, porque não a sinto, mas posso falar sobre as minhas lembranças dela. Sempre tive medo de fazer um trabalho semelhante ao anterior, porque não queria que as pessoas deixassem de me ouvir. Isso não aconteceu, mas deixariam de me ouvir na mesma (risos). Agora sinto que posso voltar, como os Beatles fizeram no último disco, “Let it Be”, que ia chamar-se “Get Back”, porque queriam voltar à mesma sensação de 1960. Não sei o que vou fazer a seguir, mas enquanto conseguir escrever canções acho que me vou sentir como no início. Mas disse que este seria, provavelmente, o seu último trabalho como cantor pop. Este será, provavelmente, o meu último disco apresentado desta forma, porque

a promoção custa muito dinheiro, muito tempo, muita energia e nos últimos 10 anos acho que não tem resultado. O seu filho William entra no vídeo de “Period Pieces”, o single de lançamento. É como ver o Lloyd quando chegou a Nova Iorque depois dos Commotions. Teve essa intenção? Queríamos mostrar um jovem que anda pela cidade e muitos anos depois, o mesmo homem, mais velho, lembrando-se dos tempos em que era jovem. A letra daquela canção é sobre olhar para o passado. Às tantas diz, na canção, “não tenho medo de morrer”. A personagem diz isso. Eu tenho medo de morrer (risos). Porque é que ela diz isso? Ele está a morrer na primeira parte da canção e está morto na segunda, mas continua a cantar, sobre os seus sentimentos, a sua posição no mundo, como é que as coisas eram quando ele estava numa posição forte… Nunca tinha pensado nisso até agora… A canção foi inspirada pela ideia do muro de Berlim derrubado, enquanto os U2 tocavam música para celebrar essa queda. Sempre gostei dessa imagem.

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Disse uma vez que se Byron fosse vivo seria um escritor de canções. Considera-se um poeta? O que os poetas faziam durante os séculos 18 e 19 é muito o trabalho que os escritores de canções fazem hoje. Nunca pensou fazer como Leonard Cohen ou Nick Cave e escrever livros? Quando penso no que ainda quero fazer é sempre relacionado com música, é ainda o que me atrai. Mas as canções são pequenas histórias. Sim, mas eu gosto de pensar nelas como cenários, tento não as acabar, gosto que sejam as pessoas a acabá-las. São histórias abertas e as pessoas podem vê-las de forma diferente… Exato. É por isso que um artista reflete a sua arte. Podemos colocar alguma coisa nossa quando a ouvimos. Uma canção que nos diz como é que a devemos perceber não é uma coisa excitante. Arte didática é uma contradição. Se é didática, não é arte, é propaganda. Houve uma altura em que estava muito desapontado com a indústria discográfica. Ainda se sente assim? Ainda.

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Tornou-se uma pessoa amarga? Não me tornei amargo por causa dessa indústria e tenho consciência de que tive sorte por ter uma carreira de 30 anos. Mas, de vez em quando, quando já bebi uma cerveja a mais, sinto-me subvalorizado em alguns países. Não o sinto aqui, na Suécia ou na Alemanha, mas quando olho para um país como Reino Unido que tomou a sério a música estereofónica não percebo como é que alguém consegue ouvir aquilo. É a mistura do muito baixo com o medíocre. Vai ouvindo as novas bandas? Já não ouço tanta música como fazia… Porquê? Gosto do silêncio. Coloco tanta energia no meu trabalho que há períodos em que não aguento ouvir mais música. Ouço muito durante as tournées quando descontraio e ligo o iPod, mas, geralmente, estou dois anos atrasado com o que se ouve. Está satisfeito com este trabalho? Estou entusiasmado, porque há a oportunidade de voltar a estar perto de onde estava. Acho que o álbum tem um som para muitas pessoas parecido com aquilo a que os The Commotions soavam, embora eu não goste muito dessa ideia. Mas acho que estou mais perto de deixar de ser invisível. d


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MIGUEL VIEIRA 25 ANOS A LINGUAGEM GLOBAL DA MODA TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA MIGUEL VIEIRA

A sensualidade e a sofisticação assumem as coordenadas de um estilo muito próprio, veiculado por um binómio de assinatura: preto e branco. Um desafio que protagoniza um trabalho de cunho português, pautada pelo requinte das matérias primas mais nobres inscritas num dress code abrangente – do casual chic ao glamour de uma passadeira vermelha –, ditadas pela elegância no feminino e no masculino, num amplo conceito de design ritmado pela contemporaneidade e por uma linguagem em permanente viagem pelo mundo. O nome: Miguel Vieira. Uma marca com 25 anos!

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No ano de 2013 celebra 25 anos de uma carreira preenchida pelo glamour e pela elegância de uma marca tão distinta dentro e fora de portas. Foi um percurso muito longo que ainda não chegou ao fim. Quando decidi enveredar por uma carreira tive a feliz sorte de entrar por uma porta que se encontrava aberta, a qual se chama moda. Sinto que estou a 1/4 de uma carreira que requer muito trabalho e obriga a ter os pés muito bem assentes na terra.

A evolução da moda trouxe novos contornos a um sociedade rendida ao trendy. Saímos de um cinzentismo para uma cultura de moda com as grandes multinacionais no nosso país, com a oferta de preços acessíveis. Uma realidade mais marcante na moda masculina, porque era muito conservadora. Hoje, arrisca-se muito mais, porque o homem preocupa-se muito com a sua imagem. Houve, portanto, uma grande evolução na moda.

A passagem de designer desconhecido até ao lançamento da primeira coleção com o nome de Miguel Vieira aconteceu em dois anos (1986/1988).Tinha a contabilidade como base de estudo. Depois tirei o curso de controlo de qualidade têxtil e especializei-me, posteriormente, na área de tecidos. Um mero acaso. Entrei na área do design e comecei a trabalhar numa empresa onde estive mais próximo das peças. Foi uma processo muito moroso até a marca Miguel Vieira ser reconhecida dentro e fora do país.

“Lutei sempre (…) sem ter vergonha do meu país”

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O prestigiado salto ocorreu numa época em que o cunho nacional era ignorado. Lutei sempre a partir de Portugal, sem sair do meu país e sem ter vergonha do meu país. O ideal seria que Portugal se preocupasse com a sua própria imagem, pois há muitos que fabricam – o país tem uma excelente qualidade de fabrico –, mas uma parte produz para terceiros. Quanto à marca Miguel Vieira, produzirei sempre a roupa, o calçado, os acessórios… Tudo! Nunca quis criar para outras, para tornar a marca Miguel Vieira o mais nacional possível.


desfile na modalisboa fotografia rui vasco / cortesia mlx

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desfile no portugal fashion fotografia ugo camera / cortesia portugal fashion

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O fascínio pelo acessório sistematiza o conceito de vestir dos pés à cabeça? O segmento que escolhi foi o de luxo. É um investimento enorme. Trabalho com as matérias primas mais nobres do mundo. Todos estes passos são importantes na minha vida, pois não quero depender das malas, das jóias, dos botões de punho, dos óculos nem do calçado de outras marcas. Atualmente, quando um modelo meu entra num desfile significa que consigo vesti-lo dos pés à cabeça. Já viajou muito. São abordados temas com forte componente de matéria prima de adulto. A imagem de marca de Miguel Vieira, permanece na resistência dos opostos, com o branco e o preto? É uma estratégia de marketing olhar para uma marca sem se ver o que está escrito, mas perceber que é Miguel Vieira. O logotipo preto e branco, a passerelle, o mediatismo. Há pormenores importante – nos desfiles masculinos, os homens vestidos a preto e branco levam uma aliança em ouro. No entanto, e ao contrário do que se possa imaginar, é difícil trabalhar com o preto e o branco, daí que a parte criativa tenha de ter uma engrenagem muito forte. O desafio é grande, sobretudo em relação ao preto, pois basta que o material seja diferente para que se torne mais contrastante.

“A criação de uma coleção implica uma coleção pensada para o mundo” Quando pisa a passerelle sente um transbordar de emoções e sentimentos? Sinto que estou a subir mais um degrau. Sinto que consigo comunicar com o mundo. Não posso pensar apenas na minha coleção só para Portugal. A criação de uma coleção implica uma coleção pensada para o mundo. Aqui está outro grande desafio. Pensar uma coleção implica uma viagem global e um tema? Quando se pensa numa coleção internacional implica pensar num todo. Estou a pensar na coleção de 2014, a qual tem de estar pronta dentro em breve, e tem de abranger o maior número de países possíveis – os compradores do Japão são mais baixos; os da Noruega e da Austrália são mais altos –, bem como as estações. Uma coleção tem de ser apetecível para pessoas de todos os tons de pele. Quanto aos temas, estes constituem uma metodologia para trabalhar, tornam mais fácil o fio condutor. Por isso, fazemos uma investigação mais aprofundada, a partir de um filme ou de uma música, por exemplo.

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“Gosto de tudo o que é design” O desígnio do mobiliário, a intenção de “vestir uma casa”, persiste no universo de Miguel Vieira. Gosto de tudo o que é design, algo que me diz muito. Só consigo viver, ou procuro viver, com objetos de design. Gostaria de tirar o curso de arquitetura, pela sua filosofia, pela sua linha de pensamento, pois o design de interiores fascina-me muito. Neste contexto, o Hotel Farol Design, em Cascais, foi uma pequena experiência que me levou a pensar que valia a pena lançar uma coleção de mobiliário. É uma

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vertente que me seduz muito e com a qual aprendo bastante. O dia a dia de um designer de moda nem sempre se traduz em charme… O design de moda é uma profissão muito árdua. Observamos e absorvemos ideias durante 24 horas e, mesmo assim, o tempo não é suficiente, embora tenha muitos projetos em carteira. d

R www.miguelvieira.pt


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GIRA DANÇA CONQUISTA DO CORPO TEXTO SARA QUARESMA CAPITÃO FOTOGRAFIA RICARDO JUNQUEIRA

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Gira: ato de girar, de rotação, em torno do próprio corpo ou de outro corpo; ronda curva, percorrer em volta de algo ou alguém. Dança: arte de dançar movendo o corpo de modo cadenciado, ao som de uma voz, de um batuque, no compasso da música ou, num ato mais ousado, na quase ausência de som. O único som é a respiração dos corpos que, em movimento incessante, respiram mais ofegantes, é o ritmo marcado pelos corpos que tocam no chão. Gira Dança companhia de dança con-temporânea de Natal – Rio Grande do Norte, Brasil – que tem no corpo diferenciado o seu brilho, o seu maior encantamento. Gira Dança: ato de dançar, movendo os corpos, numa ronda curva à volta mundo. Gira Dança: “o momento sagrado onde todos são iguais” (Anderson Leão, Diretor Artístico). A diferença é vista como ferramenta de trabalho, como desafio de ir mais além na inclusão social através dança contemporânea e das possibilidades de expressão corporal que esta oferece. Criada em 2005 por Anderson Leão e Roberto Morais, esta companhia corre palcos no seu Brasil com o claro objetivo de romper com preconceitos, com limites que não são reais e provar que todos são capazes do movimento ritmado.

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A Portugal, Coimbra, trouxeram o bailado “Elefantes Proibidos”, uma metáfora dançada que tem como mensagem, nos entre-passos desenhados, o querer proibir aquele olhar crítico que ressalta as limitações, que não acha belo porque se é diferente, que sem procurar conhecer duvida da capacidade de um corpo responder à adversidade. Fala-se do olhar como um caminho preenchido de significados. O olhar que, à chegada ao camarim, ganha respeito sem par por gentes venturosas que sem conhecerem dão “oi” doce, que recebem de sorriso rasgado, que sem demora falam de si, da sua história e desta sua paixão: o dançar despido de preconceitos, despojado de medos. Após o primeiro olhar hesita-se, por apenas ¼ de segundo, se se deve dizer quem está privado do andar, do ver, do ser mais alto... Não. Hesita-se por apenas uma fração de milionésimo de segundo em associar a diferenciação à pessoa. No camarim, e no palco, todos andam, todos vêem, todos são gigantes, todos são todos, porque todos têm um elemento que não precisa de inclusão, que não é diferenciado: respeito pelo ser contracorrente, contradança. Quem não anda, quem não vê, quem não é alto,


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é quem nada percebe dos sentidos e do belo, é que nada entende de desafio e de paixão, é quem não sabe dançar com alguém que tem na diferença uma beleza... Todos dançam de alma cheia, pois o dançar “torna mais simples e emotivo o transmitir sentimentos” (Marconi, bailarino) e cada expressão corporal “é de igual para igual, como um ritual” (Rozeane, bailarina). Enchem o palco com movimentos comandados por vozes, por sons abstratos, por música batida, dan-

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çam sem limites ou limitações, dentro do que o seu corpo lhes permite explorar. Dançam porque a dança é a “música da alma, é liberdade e melodia do corpo, é o sentimento mais oculto e é diferentes sentimentos” (Joselma, bailarina). E por tudo isto, e tanto mais, é a conquista do corpo no nosso olhar... Gira Dança o ato de dançar. d

R www.giradanca.com


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PAULO LAUREANO PAIXÃO PELA VINHA E PELO VINHO TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA JOÃO PEDRO RATO

A curiosidade em relação vem dos tempos de criança, em que acompanhava o pai às adegas, local de culto, com um ritual muito próprio entre os homens da terra, e que se mantém na memória até hoje. Na passagem para a idade adulta, inicia os estudos superiores em engenharia agrónoma na Universidade de Évora. Lisboa é o próximo destino para um estágio em microbiologia do vinho. E porque o caminho faz-se caminhando, obtém uma pós-gradução e embarca numa viagem pelo mundo. Regressa à Universidade de Évora para dar aulas e inicia a consultoria na área da vitivinicultura. Em 1999 funda a empresa com a família, a Paulo Laureano Vinus e, em 2003, dedica-se em exclusivo à velha paixão: os vinhos. Uma paixão com identidade para Paulo Laureano, alentejano de gema e um dos mais conceituados enólogos portugueses.

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Em 2006 descobre um terroir na Vidigueira que elege como fundamental para a produção de um bom néctar dos deuses, graças aos fatores que determinam a origem: o solo, o clima e um conjunto de castas que tornam o sabor ótimo. Ao contrário da paisagem branda do Alentejo, na Vidigueira há um triângulo composto por pequenas colinas, com solos de xisto e uma coleção de castas que só existem naquele local e fazem com que a produção de vinho dali seja única. Tem o que um produtor de vinho procura que é um sítio com identidade própria. Afirmar a consistência do terroir da Vidigueira dentro e fora de portas é um enorme desafio para Paulo Laureano, que vê nas castas nacionais uma aposta forte. Orgulho manifestado sem reservas, mesmo quando fala sobre Bucelas. Uma região extraordinária cujo conceito é semelhante ao da Vidigueira, pois apresenta solos únicos – são magnas


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calcárias – e umas vinhas excecionais em vales protegidos do mar. Uma região diferenciada, que produz apenas vinhos brancos com determinação de origem controlada (D.O.C.) e possui duas castas excelentes: Arinto, mais conhecida, a Esgana Cão. Esta última, apesar de ser tão ácida, consegue fazer vinhos com um perfil aromático multifacetado e não muito forte. Mas a produção de vinho requer paciência. Espero que tornem a olhar para Bucelas como uma região única, um potencial tão grande que temos às portas de Lisboa. E como tudo tem uma história… O melhor vinho tem a melhor história. Por isso, passo muito tempo da minha vida a viajar pelo mundo a contar a história da Vidigueira, das minhas castas e da minha paixão pelo vinho. Além da vertente profissional, as consultorias de Paulo Laureano abordam o lado emocional, como o que acontece com o L’AND Vineyards, em Montemor o Novo, no Alentejo, e cujo cerne do conceito é o vinho. Queremos que as pessoas tirem o

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máximo do prazer do vinho e se divirtam com o vinho. Objetivo cumprido graças à vinha central cujas parcelas são distribuídas pelos proprietários de cada moradia, que detém duas das três castas seguintes: Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Touriga Franca. A finalidade consiste em incentivar cada pessoa a “construir” o seu vinho feito a partir das suas castas ou das castas do vizinho. O processo de produção fica a cargo do L’AND Vineyards, sob o olhar atento da diretora de enologia Patrícia Baptista, e de Paulo Laureano, que traça as diretrizes em relação ao desenho e à produção dos vinhos. Incentivamos as pessoas a participar nas vindimas, a vir à adega, a provar os vinhos… Explicamos-lhes como fazemos os lotes, o porquê das percentagens de castas usadas e da junção de uma casta com outra. Se quiserem ter o seu rótulo, podem fazê-lo, e pedir a ceritifcação ou constituírem-se produtores… Nós resolvemos a parte mais complicada. d

R www.paulolaureano.com


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ALTIS BELÉM HOTEL & SPA

A ALMA DOS NOSSOS PÁTRIOS TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA JOÃO PEDRO RATO E ALTIS BELÉM

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O entreposto comercial situado numa ilha da costa ocidental de África, banhada pelo Índico, é o ponto de partida para uma incursão pacífica rumo ao desconhecido. Falamos da ilha de Moçambique, descoberta por Vasco da Gama quando estava prestes a dobrar a página da história dos Descobrimentos, o nome do quarto 106 do Altis Belém Hotel & Spa. Um cinco estrelas ditado pelo traço depurado, pela volumetria distinta e pelo design, premiado com European Finest Hotel e interpretado por uma generosa caixa de luz natural voltada para o Tejo, para Lisboa e para o mundo. A luz irrompe pelas imensas janelas de vidro que percorrem os cantos e recantos de um espaço descontraído e muito trendy, o Altis Belém Hotel & Spa, com a assinatura do atelier de arquitetura Risco. À beira do rio que banha Lisboa. Um Tejo que protagoniza um encontro feliz com o céu, lá fora, a partir da varanda de cada quarto, num gentil convite para embarcar numa viagem sem fim à vista. África, Ásia e Américas são os destinos traçados na rota dos hóspedes. Cada um conta a história da sua descoberta concretizada após longínquos périplos dos antigos navegadores pátrios pelos gigantescos e tenebrosos oceanos, fruto de um trabalho aprofundado pelo Professor Anísio Franco, conservador

do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Cada um retrata momentos da história de Portugal que ornamentam um painel, ilustrado pela RMAC Brand Design, numa alusão aos territórios nunca antes explorados, e cuja cor dominante rima com os tons das peças decorativas e os tapetes 100 por cento nacionais, uma escolha conjunta dos arquitetos de interiores Margarida Grácio Nunes e Fernando Sanchez Salvador. Preguiçamos na piscina interior aquecida, do BSpa by Karin Herzog distinguido, no passado mês de Abril, com o título de “Best Luxury Hotel Spa”, na categoria Country Winners atribuído pelo World Luxury Hotel & Spa Awards.

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A Mensagem d’El rei D. Manuel I Os ponteiros do relógio alcançam a hora do repasto da noite. O desembarque está previsto para as 20, na Cafetaria Mensagem, um spot lisboeta muito descontraído, com vista para a Doca do Bom Sucesso, o ponto de partida dos navegadores de outrora. A cozinha, intemporal, é apresentada numa carta pensada pelo chef José Cordeiro, o homem do leme do Feitoria, um restaurante de sabores absolutos, inspirados na gastronomia portuguesa. Para já ficamos por aqui, num espaço dominado pelo cândura do branco, mas não sem antes sermos “recebidos” pelo rinoceronte de D. Manuel I, na porta, de-

senhado por Albrecht Dürer, num ato simbólico que remete para o episódio em que o rei quis oferecer tão enorme animal ao Papa Leão X, como portador de uma mensagem pacificadora. As iguarias nipónicas inscritas num menu variado do Oyster & Sushi Bar ficam para a próxima. Quem sabe… O serão termina no agradável Bar 38°41’, as coordenadas exatas do Altis Belém Hotel & Spa, com uma esplanada virada para o jardim, o rio e para quem passa. Sim, porque os passantes são bem-vindos, caso desejem tomar o pequeno almoço, apreciar um bom repasto e um bom vinho ou, simplesmente, marcar um encontro.

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Um refúgio citadino de design O dia poderia ter acordado com um mergulho na simpática piscina do terraço do hotel, mas o tempo impede tamanha ousadia. Mudamos de rota. Após um pequeno almoço tranquilo na Cafetaria Mensagem é a vez da massagem no BSpa by Karin Herzog. O spa urbano de design do Altis Belém Hotel & Spa, dominado pela cor da neve a contrastar com os apontamentos cor da cereja. Simples, sem artifícios, e o único no país com a assinatura exclusiva da marca suíça. À nossa espera está Pedro Amaro, da Top Spas, que gere este refúgio zen

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da cidade das sete colinas, no qual um corredor/jardim interno que atravessa o mesmo, de ponta a ponta – até às salas de tratamentos –, encaminha a luz natural até este lugar sereno, com duas piscinas que apetece explorar, sauna, hamman e banho turco, e um pequeno ginásio. O tempo escasseia, pelo que está na hora de nos entregarmos ao momento relaxante do dia. No fim chega a vez do ritual do chá. E assim descansamos na alma de Lisboa. d

R www.altis.pt


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“A COZINHA É UMA ARTE EFÉMERA” CHEF JOSÉ CORDEIRO TEXTO PATRÍCIA SERRADO FOTOGRAFIA JOÃO PEDRO RATO

O entreposto da gastronomia portuguesa impera na descoberta dos sabores genuínos inspirados nas receitas antigas de uma cozinha muito nossa, conjugados com paixão e reunidos com sabedoria. A apresentação prima pela dose generosa de criatividade e cada garfada desperta as reminiscências do palato, graças à combinação harmoniosa de gostos reunidos num prato. Um trabalho de excelência que remete para a importância da origem do produto, preocupação constante do chef José Cordeiro, o consultor gastronómico do Feitoria, no Altis Belém Hotel & Spa, o primeiro restaurante que dirige em Lisboa e que vê, pela segunda vez consecutiva, a sua estrela renovada pelo Guia Michelin. À beira do rio Tejo.

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O caminho marítimo para o sabor embarca nas raízes da cozinha portuguesa, de norte a sul, apresenta-se como conceito gastronómico do Feitoria cuja pretensão é ousar reunir o maior número de sabores apetecíveis num prato. Feito alcançado na sua plenitude e fruto de muito trabalho de uma equipa dedicada. O Feitoria sempre foi um restaurante de Portugal para os Descobrimentos, embora trabalhemos com várias técnicas e vários produtos de outros países. Os produtos vêm do Alentejo, de Trás-os-Montes, do Algarve… Trata-se de um trabalho é feito sem correrias. Não gosto de saltos nem de corridas; gosto de ter os pés bem assentes no chão. Já diz o ditado popular que “os gostos não se discutem”. Por essa razão, a difícil tarefa de criar comanda a necessidade de juntar os melhores gostos num prato em comunhão com a apresentação porque, afinal, “os olhos também comem”. O importante é que consigamos reunir o maior número de gostos positivos num prato. Por exemplo, o cozido à portuguesa é muito famoso, porque contém as ligações perfeitas entre todos os produtos para todos os gostos. Não é fácil criar um prato, reunir os produtos que, no conjunto, todos gostem. Assim como tem de haver ligação entre o prato e o vinho. Além disso, o Feitoria é um res120

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taurante de tradição, onde sempre houve a liberdade de criar. É um restaurante para criar. Dá um imenso trabalho e faz com que a equipa perca muito tempo. Mas dá muito gozo. Ao Feitoria chegam produtos de qualidade provenientes de norte a sul do páis, em resultado de uma seleção criteriosa feita pelo chef.Os produtos têm muito a ver com a região, como a vitela que é à mirandeza, os enchidos de porco (o bísaro, o alentejano), os peixes… Porque não há peixe como o nosso. O produto é a cozinha, pelo que tenho um imenso cuidado com a origem dos produtos que entram no Feitoria, além de que mais vale comprar diretamente ao produtor; e tento ir sempre ao mercado. De volta ao gosto, o chef José Cordeiro revela que o paladar é o requisito mais importante nos concursos de gastronomia, embora a mesma receita possa ter um sabor e uma apresentação distintas. 70 por cento da avaliação de concursos de gastronomia é destinado ao sabor, porque é este o elemento principal de um prato. Outra parte é conferida à apresentação. Ou seja, um quadro é pintado para estar na parede. Em con-

Carabineiro do algarve

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trapartida, a cozinha é uma arte efémera, porque quando termina um prato, ou tirou uma fotografia ou nunca mais o vê. Mesmo que peça um outro à cozinha este nunca é igual ao primeiro. Além disso, basta alterar a quantidade dos ingredientes para transformar o prato. O sabor é, na realidade, muito importante. Tem de estar no ponto, por isso estou sempre a provar na cozinha.


Ouvir alguém dizer “está no ponto” significa que está perfeito. E a mestria é, muitas vezes, um dom que, mesmo assim, exige ser aperfeiçoado de forma constante. Temos de nascer com essa qualidade. Está na mão – é a quantidade, a mistura… Quem, na cozinha, faz uma base de azeite, cebola e alho fico maravilhado. É português! Partimos todos desse princípio. Depois há toda uma aprendizagem.

Por isso, não me acho ainda um chef de cozinha. Serei um chef de cozinha aos 55 anos. Até lá tenho de experimentar tudo, provar tudo. Ou seja, a experiência é muito importante, assim como é importante comer fora – em todas as regiões de Portugal, noutros países… É preciso conhecer a cozinha regional desde criança. Temos de começar, desde miúdos, a provar de tudo.

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As memórias de uma infância em Angola revelam os sabores do passado, que jamais se refugiam no esquecimento. Lembro-me de ter comido cabrito com o meu avô em Angola. Lembro-me do sabor do funje feito em Angola. Na primeira vez que comi funge em Lisboa, o sabor de infância veio logo à cabeça. A cozinha que apanhei na infância é a transmontana, apesar de ter corrido o país todo, e adoro a cozinha minhota, porque uma parte da minha vida foi passada no Minho. E nunca mais me vou esquecer de uma chanfana feita por um amigo do meu pai, em Coimbra, devia ter uns 12 anos; nem da primeira vez que comi leitão, na Mealhada.

pastel de nata com creme de lima e gelado de canela

Mas a cozinha tem de ser feita com amor, embora em casa o chef José Cordeiro cozinhe “às vezes” e, ao contrário do que pensamos, existem seis ao invés dos cinco sentidos que todos apregoamos. Quero ir para a cozinha com a mesma vontade com que acordo todos os dias, mas em casa cozinho às vezes… Quando me convidam para fazer alguma coisa é um gozo, não é uma obrigação. Temos uma cozinha portuguesa maravilhosa! Mas fico sempre triste em não ter conseguido montar um restaurante até hoje… e fazer pão. O cheirinho do pão… Os aromas dentro de um restaurante são importantes. Tem de ler um livro: “A fisiologia do gosto”, de Brillat-Savarin, um francês que não era cozinheiro. Foi o primeiro gourmet que apareceu. Adorava comer… Porque todos nós achamos que existem cinco sentidos, mas não, existem seis! Depois vê no livro.

R www.chefecordeiro.com R www.restaurantefeitoria.com

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Assim termina a entrevista ao chef José Cordeiro que, em menino, sonhava ser ator de cinema, ao mesmo tempo que denotava um gosto muito especial pela cozinha, “porque cozinhar é magia”. Quando via a mãe a fazer, pela Páscoa, os folares de Bragança, ficava deleitado com a forma da massa depois de levedar, com os bolos a crescer no forno… A vinda para Portugal aconteceu aos oito anos. Lisboa foi a primeira cidade do país que conheceu, ao que se seguiu

a região de Trás-os-Montes. Anos depois, já jovem, partiu numa viagem de três anos pela Europa, onde aprendeu “muitas cozinhas”. A portuguesa ficou para depois do regresso a Portugal, no Hotel Meridian, no Porto, em 1988/89, o primeiro de um longo percurso traçado pela gastronomia portuguesa, enaltecida a preceito ou não fosse o chef José Cordeiro um apreciador nato da cozinha regional. Afinal, onde vão os chefs almoçar ao domingo? d

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HERDADE DO AMARELO NATURA & SPA TEXTO E FOTOGRAFIA PATRÍCIA SERRADO E JOÃO PEDRO RATO

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DE OLHOS POSTOS NA SERRA DE Sテグ DOMINGOS 127


A viagem termina numa tarde soalheira. Longe do desassossego… Num lugar onde a natureza domina o quadro cénico com os traços toscos, mas generosos, de uma paisagem onírica em pleno Alentejo. Para lá da serra de são Domingos. O nome: Herdade do Amarelo. Da casa branca debruada a amarelo torrado, a respeitar a traça típica da região, sobressai a inspiração marroquina no interior, com vista para a serra.

A decoração, a luminária e as peças de imobiliário de cada dependência reportam para as boas recordações das muitas viagens à medina de Marraquexe, num tom harmonioso. Assim como as cores delicadas das paredes interiores, em taipa, pedra ou xisto, por respeito à construção original da região, datada de 1897, num apelo subtil ao romantismo de cada quarto e, em simultâneo, à serenidade demarcada pela harmonia dos objetos, numa composição elegante. Assim como cada terraço privado para preguiçar – na chaise longue ou no jacuzzi –, de olhos postos na imponente serra de são Do-

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mingos, de onde, todas as manhãs, nos chega o raiar do sol num manifesto galenteio de boas vindas. Pequenos detalhes que incitam o desejo de ficar por lá para sempre… e que, ao mesmo tempo, prolongam a tão amável conversa com o mentor da Herdade do Amarelo Natura & Spa, Fernando Antunes, da Beira Alta, rendido aos encantos do Baixo Alentejo, que trocou, há mais de uma década, Oliveira de Frades por São Luís, no concelho de Odemira. Com uma paisagem repleta de oliveiras e pinheiros até ao infinito, recortada, no fundo do vale, pelo rio Mira.


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Dizem que as conversas são como as cerejas, mas os ponteiros do relógio, apesar da imparciais em terras além Tejo, não dão tréguas por estes dias, motivo de sobra – mesmo que razões não houvesse – para nos deleitarmos nas com as massagens, que são marcadas apenas mediante solicitação prévia. O óleo, 100 por cento caseiro, à base de

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gengibre, menta, cravinho e cânfora, é concebido especialmente para combater o impiedoso stress no Spa ao ar livre. Aberto à natureza. Apetece pôr os pés de molho na água, tão presente neste refúgio para lá do desassossego, que conflui num jacuzzi suspenso. Relaxamos… enquanto um petisco é preparado a preceito em forno


a lenha. Afinal, a gastronomia é uma das experiências mais irresistíveis da Herdade do Amarelo. À nossa espera estão vinhos da região do Dão servidos, ao fim da tarde, num tributo saudoso à Beira Alta, com a broa de sardinha e a broa de chouriço, e as ostras assadas na brasa a acompanhar as conversas soltas pautadas pela boa disposi-

ção. Ao ar livre, com o pôr do sol como pano de fundo. Mimos que jamais cairão no esquecimento. O apetite para o repasto da noite é deixado à prova. Na mesa da sala de jantar, servido a pedido, dominada pelo branco e pela subtileza do azul celeste, é servido o borrego cozinhado a preceito,

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sem esquecer o bom vinho. A conversa mantém o tom bem humorado, mesmo à hora da sobremesa, para a qual todos deixaram espaço. Sericaia, arroz-doce ou cheesecake? Qual dos três o melhor… A acompanhar: licor de bolota e jeropiga que nos fazem render o palato. O sol irrompe pelo terraço do quarto logo pela manhã. Está tudo a postos para um mergulho na piscina de água salgada, mas… primeiro está o pequeno almoço repleto de irresistíveis iguarias, desde a fruta ao delicioso bolo que aguarda pelos mais gulosos. A piscina fica para outra altura, assim como o passeio de bicicleta ou a caminhada pelos percursos traçados na propriedade… No compasso de espera, a leitura de um livro há muito deixado de lado é o deleite para a mente, enquanto o corpo adormece estendido na chaise longue. A manhã já vai longe, ao que o almoço reserva sabores da terra e do mar, em boa companhia e amena cavaqueira, a escassos sete quilómetros da Herdade

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do Amarelo, na célebre Tasca do Celso, em Vila Nova de Milfontes. Recomendado! Assim como o passeio até à praia do Farol, tão oportuno após um repasto demorado. Do lado de lá do rio, com atividades náuticas agendadas para os meses do verão, está a praia das Furnas. A viagem prossegue para as praias do Almograve, excelente sugestão para a pequenada, e da Zambujeira do Mar. Do miradouro, que ostenta uma vista deslumbrante até à linha desenhada a preceito entre o mar e o céu, há uma vontade imensa de mergulhar na água translúcida que preguiça no areal. De regresso a são Luís, a mesa aguarda, de novo, a nossa chegada, com o de melhor se faz na região, em especial os queijos artesanais mediterrânicos concebidos por uma fotógrafa portuguesa e um radialista italiano, que trocaram a movida de Milão pela calma das terras do Alentejo. Mudanças que incitam o desejo de ficar. d

R www.herdadedoamarelo.pt R www.tascodocelso.com


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www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt www.facebook.com/MutanteMag

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