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mem贸ria

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julho 2012


edi to rial


Memória Içamos as velas. Navegamos pelas palavras de a Jigsaw, a banda de Coimbra que partilha os 12 anos de existência com o número 12 da Mutante. Palavras que ditam o amor dos homens rendido a uma história triste… Estórias de lágrimas choradas em pleno livro aberto nos recantos poéticos de uma Hotel que é Quinta… Eis que surge o convite para experimentar saber com mais de 300 anos, embalado por um subtil gesto de savoir faire. Legados que ficam na história, desta vez, de um nome que perdura no tempo, assim como a infância retida nas recordações mais saudosas do ser. Ou na história de um romance ressurgido das cinzas no coração de Sintra. E é na memória do coração que termina o amor dos homens… Reminiscências indissociáveis das capacidades superiores do espírito e histórias falsas que, na verdade, não o são. Terminamos com as recordações encantadoras de uma cidade, Lisboa, e uma viagem ao acaso. O adeus a um ciclo. O prenúncio de uma vi(r)agem rumo ao futuro. Os Mutantes João Pedro Rato, Patrícia Serrado e Sara Quaresma Capitão

fotografia da capa: joão pedro rato

Proibida a cópia de todos os conteúdos. Mutante® marca registada.

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a jigsaw

o amor dos homens

# sonoridades

pesro e. santos • rosa feijão # ilustração

quinta das lágrimas

alma de cá

e dos amores que passam… # hotel

castelbel e portus cale # interiores

anselmo 1910

viarco

um nome. quatro gerações # estórias

# memória


um romance na pena

o amor dos homens

chalet da condessa d' edla # história

rosa feijão • pedro e. santos # ilustração

a memória

a história de listo mercatore

vitoria ataíde • cristina ataíde # ensaio

gonçalo m. tavares # conto

lisboN, I love you!

viagem ao acaso

karin anderson # cidades

margarida ataíde • pedro monteiro # pensamento


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a Jigsaw texto Joรฃo Rui fotografia Sofia Silva ID by Carlos Gago | Mau Feitio - David Gaspar espaรงo Hotel Quinta das Lรกgrimas


Da memória Quando nos roubarem as memórias, regressaremos incólumes à condição de tabula rasa, atónitos por não conseguirmos encontrar correspondência entre as cicatrizes do corpo e as desenhadas pelo estilete do tempo ao longo do nosso caminho. E ainda que na maior parte das vezes se afigure que a vida não é curta mas demasiado longa, assim o é apenas porque estas incisões de profundidade diversa guardam todos os nossos segredos. Se soubéssemos onde nos esconderam as chaves do esquecimento, a escuridão que se encerra nos olhos não correria a aprofundar os sussurros passados que nos vão convencendo que melhor seria o silêncio de tudo isto.

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Se as memórias fossem apenas factos, dispostos a uma interpretação mutante então teríamos a desculpa de um historicismo falhado. Mas assim não 10

o é, porque independentemente da distância que conquistámos entre nós e esses abismos, somos acrobatas o suficiente para reconfigurar as cordas do trapézio onde nos balouçamos por cima deles.


Foi a memória da construção da nossa identidade que nos compeliu a descrevê-la neste novo álbum “Drunken Sailors & Happy Pirates”. Não há aqui lugar algum para a catarse porque nada do que permitimos nesta embarcação nos poderia prender mais ao nosso coração.

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Então, quando um dia nos roubarem as memórias, esta embarcação jazerá no fundo do mar que já não somos.


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Amor homens

dos

ou “ A História triste que habita na memória” parte 1

texto Pedro Emanuel Santos ilustração Rosa Feijão

Lembro-me dela. Era bonita e acabava de chegar. Era difícil olhar-lhe nos olhos, por isso olhava-a pouco. Mas tenho a certeza que era bonita. Existe uma beleza que é tão forte que nos fere os olhos. 18

Que é tão pura que não precisa de ser olhada. Sente-se e cheira-se. E é tudo. Tenho-a em mim, guardada. Tenho-a na minha memória. Na parte a memória que não se encontra apenas na cabeça, mas também algures no coração. E no resto do corpo.


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Ela não era de cá! Mas eu e todos os homens sentimos que a esperávamos desde sempre. Na primeira vez que saiu à rua, sem nada fazer, apenas passando, contagiou-os. Todos os homens renderam-se. Como se em simultâneo, os corações dos homens se sentissem demasiado pequenos nos corpos e quisessem explodir. Todos se apaixonaram por ela, quer quisessem, quer não.


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Ela ignorou-os. Era amor a mais – diriam alguns. Mas não se desperdiça amor… Eles esticavam-lhe as mãos e, como oferendas, entregavam-lhe os seus corações. Ela ignorava. E assim pecava. Rejeitava as ofertas, e os homens caíam, os corações caíam. O amor caía. Mas o amor não se desperdiça. Não se rejeita. O amor não é para cair ao chão.


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Assim como veio, desapareceu. E os homens assim ficaram. Com o coração nas mãos. Nem tristes conseguiram ficar, pois o coração já não era deles. Já não lhes pertencia. Ela roubou-os.

Sim, eu lembro-me, está aqui na minha memória, na tal parte alojada no coração. Ou no pouco que lhe restou.


Hotel

Quinta das Lágrimas E dos amores que passam...

texto sara quaresma capitão fotografia joão pedro rato

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Memória de lágrimas choradas, sentidas quando As Lágrimas choradas transformaram, de uma Inês tão linda, de um imenso amor Real de aconchego surreal, de águas caladas que passam, de centenárias sequóias que tudo recordam. Livro aberto de história antiga de XIV, XVII, XVIII e XIX, de XX e hoje XXI. Livro de história que é espaço e espaço que é da história, com O murmurar do povo, 28

e a fantasia, e com as estórias que nos contam; são páginas carregadas de amor e paixão e O nome que no peito escrito tinhas.


Espaço de amor trágico de subtil travo Shakespeariano, mas encantadoramente e arrebatadoramente Camoniano. Volumetrias de cheios e vazios, volumes que se deixam envolver e levar pelos versos, que querem ser prolongamento da memória, viver e ser íntimos da história, contam como As lembranças 30

que na alma lhe moravam.


Palimpsesto que nos sussurra, murmura, embala em traços vários, diversos, desiguais: contemporâneos ou mais vetustos e até um gótico que preciosos segredos guardará. Palimpsesto eclético na imagem e no tempo: contemporâneo porque a memória de amanhã terá traços de hoje; recente porque o amor foi fogo que ali ardeu sem se ver com As obras com que o Amor matou de amores; original porque nem 32

tudo a chama consome e a fé e o saber, com lagares e espigueiros, pois a história é longa e o amor eterno.


Fonte poética que alimentou penas e tinta correr fez. As fontes que Camões escreveu e lágrimas lhes deu: Que as Lágrimas são água e o nome amores. Ah! As lágrimas e os amores E por memória eterna em fonte pura, perduram. Cenário idílico, a envolvente dramática o nome lhe dá e O nome lhe puseram que ainda dura e por ele 34

vamos e regressamos e tornamos a voltar. Cenário que é desejo, quase mito, que é sonho, fantasia e, no fim, realidade.


Nascente(s) de água que tudo viveu e viverá Nos saudosos campos do Mondego, que Inesianas são, mas de Isabel se guarda a descoberta pois Vede que fresca fonte rega as flores e as águas que de Rainha Santa foram embalam na memória uma Inês que Do teu Príncipe ali te respondiam. Arco e Água, Arcadas e Aqua, onde o contemporâneo 36

e o gótico se enlaçam no nome, onde os sabores encantam e o servir cativa. Mundo onde reina o amor com arte galardoada dos sentidos... Onde o amor é enaltecido e a história eternizada. Estavas, linda Inês, posta em sossego...


Noite de charme, noite que nos recebe em tecidos suaves, sem luxo ou ostentação, pois os amores, como de Pedro por Inês, não são de luxo, são de charme, de saber encantar, levar, conquistar, envolver, dizer e adormecer e De noite em doces sonhos, que mentiam... Quinta que são Lágrimas, Hotel que é Quinta e um nome só: Hotel Quinta das Lágrimas, que de tudo isto é feito e de um pouco mais. Hotel de memória eterna, 38

ao amor para sempre ligado e da água seu senhor. Inevitável ligação aquele amor da história, da lenda, do real e da fantasia, de reis e rainhas, de um príncipe por uma jovem fidalga galega, de um amor-perfeito Dos amores de Inês que ali passaram. Porque no fim da história, Eram tudo memórias de alegria!

*em Itálico, versos do Canto III, dos Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.


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VĂŞ, cheira, sente, experimenta, inspira, volta a sentir. Aromas, Ăłleos, perfumes, sente, usa, abusa, volta a sentir. EspĂ­rito, alma, imagens, sente, vive e volta a sentir.


Experimenta uma memória com mais de 300 anos Experimenta uma memória com mais

Tudo aqui alimenta a tua alma com o

de 300 anos, lá dentro. A suavidade

espírito de Portugal, é essência de cá:

secular da base vegetal com as mais

vive o que é teu! Os nossos aromas,

requintadas fragrâncias: cheira! Um

as essências do solo, as fragrâncias

conceito que se manteve igual, um

do nosso calor... Uma imagem de cá,

processo que se modernizou, lá dentro,

para lá, para além de cá. Não deixes de

porque nunca se deixou de sentir.

inspirar a cada nova unidade. Do Porto e para o mundo com a palavra esquisite

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Vê o exterior que continua na memória

gravada nas entrelinhas, nas arestas

do artesanal, do personalizado, da

que moldam o papel de cada produto e

individualidade de cada produto teu.

por dentro: vê e experimenta!

Cada um é embalado individualmente na memória do gesto, no segredo da

O interior vem de há tanto tempo que

mão que termina, no sentimento de

a memória se perde na data, se não

savoir faire que faz de cada unidade,

voltares a sentir. O exterior, espelho refle-

de fragrância exótica, o desejo de cada

tido do puro bom gosto, tem memória

individualidade nossa, usa e abusa

mais recente: vê e comprova. Não

porque as novas imagens são da alma.

fosse a história feita de passados muito distantes, distantes e menos distantes; sente as imagens e volta a experimentar.


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Castelbel & Portus Cale fazedoras de memórias dos teus sentidos

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Castelbel é para os teus sentidos uma

sem tradições e passado, porque o

ópera com várias árias que buscam

romantismo não é só do século XIX,

memórias de espaços, de perfumes,

porque os produtos que te oferecem,

de momentos... É um nome que tem

para ti ou para o teu espaço, são ricos

no Castelo da Maia a sua inspiração:

e elaborados para um público elegan-

o Castelo belo da Maia. Porque o

temente elaborado. É a confiança da

Castelo é imagem que te leva a sonhos

sonoridade dos nomes, das imagens

românticos carregados de traços e

gráficas, do dentro que é perfeitamente

imagens de encanto e beleza: abusa!

e eximiamente antigo, dos aromas que

Portus Cale, tão clara e simples leitura:

te clarificam recordações. A memória

espírito do Porto que, por acaso do

modernizada da produção, aliada

destino, nasce por desejos de lá. Bem

à inovação de uma imagem, vicia-

hajam por este delicado sonho conce-

-te, prende-te, cativa-te, enamora-

dido. Ambas apelam aos arabescos,

-te, apaixona-te... Porque o mundo

ao desenho barroco romantizado, a

das memórias é hoje, é mutante e é

algo régio que te move e encanta, a

Castelbel & Portus Cale: fazedoras de

um pouco de excentricidade floral e à

memórias dos teus sentidos.

tradição porque, ainda hoje, não vives


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Anselmo 1910 Um nome. Quatro gerações.

texto patrícia serrado fotografia arquivo anselmo 1910


A história de Anselmo dos Santos Torres O nome perdura no tempo. E guarda na memória um século de história. D' aquém e d'além mar. Estamos em 1894. Tropas portuguesas rumam a Moçambique. Entre os mancebos consta um aprendiz de alfaiate natural de Torres Vedras: Anselmo dos Santos Torres. Com 21 anos concretiza o desejo de descobrir novos mundos. Uma história contada por Nuno Torres, bisneto e atual proprietário da Anselmo 1910. Em terras desconhecidas, o perigo espreita… Sobretudo aos que são destacados para percorrer o caminho entre o batalhão e a cozinha, instalada na retaguarda. Perante cenário tão assustador aos olhos dos camaradas, Anselmo dos Santos Torres oferece-se como voluntário para percorrer o caminho de ida e volta e, assim, transportar os mantimentos ao plutão. "Em troca cobra o correspondente a uma libra em ouro." Com o tempo, vai amealhando o dinheiro no forro cosido ao cinturão, trabalho executado com perícia graças ao ofício de alfaiate na sua terra natal, e com o qual adquire o edifício onde abre a primeira loja, em Torres Vedras.

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O regresso a Torres Vedras Corre o ano de 1897. Já na metrópole, a condecoração acontece pelas mãos do rei D. Carlos I com a medalha da rainha D. Amélia. De regresso à terra onde nasceu, depressa encaminha o pecúlio que traz de Moçambique para a aquisição de um edifício de rés do chão e primeiro andar. Estão, assim, abertas as portas de uma alfaiataria por conta própria. Nas memórias da história que se conta sobre Anselmo dos Santos Torres as quali56

dades do jovem alfaiate são reconhecidas pelo proprietário da única ourivesaria de então, em Torres Vedras. "A pouco e pouco, foi entusiasmando-o a vender peças de ouro. Com o decorrer dos tempos, e ao ver que se tornara um negócio mais estimulante do que a alfaiataria, acaba por ficar apenas com a ourivesaria. Estamos a falar de uma Torres Vedras pertencente a um concelho, sobretudo, agrícola, onde as peças de ouro são utilizadas, não só como ornamento mas, acima de tudo, como um aforro que, em alturas complicadas, eram convertidas em dinheiro. Mais tarde são levantadas ou recompradas. É uma espécie de financiamento bancário real."


Đe alfaiate a ourives Com a venda das peças de ouro, o negócio prospera na sua terra natal. Estamos em 1910. A 5 de outubro é instaurada a República em Portugal, um momento da história que interpõe uma mudança crucial na economia nacional – a transição da moeda monárquica para o escudo. E não houve quem não quisesse ficar sem o seu pé de meia. A afluência à ourivesaria de Anselmo dos Santos Torres que, entretanto, se tornara única em Torres Vedras, aumenta de dia para dia, até porque o serviço é livre de qualquer encargo adicional.

Porquê?

Anselmo

dos

Santos Torres "descobre que o teor em prata das moedas da monarquia é ligeiramente mais elevado do que as da república, razão pela qual propõe a troca de moeda por moeda. Resultado: começam a aparecer pessoas do norte e do sul do país e o meu bisavô tem cada vez mais moedas". O negócio do câmbio prolifera. E a viagem semanal a Lisboa passa a diária. Estamos perante a fundação da Anselmo 1910, data emblemática associada ao nome do fundador que converte, finalmente, a sua casa numa ourivesaria.

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Ęmpreendedor e visionário Nas visitas regulares a Lisboa, o café Patinhas é o lugar eleito. o fundador da Anselmo 1910 seleciona as pessoas para fazer a troca: "Um por semana, o que lhe proporciona conhecimentos interessantes no campo dos negócios. Na altura, década

de

1930',

conhece o importador dos relógios Omega, uma

marca

belís-

sima, o suprassumo da 58

reolojoaria. Chama-se António Garcia, o único credor da ourivesaria Barateiro Pimenta, a mais movimentada de Lisboa, situada na rua da Palma, na esquina com a rua dos Fanqueiros. Um dia, propõe-lhe que fique com a ourivesaria e lhe pagaria apenas quando pudesse."


A proposta, irrecusável, converte-se na realização de um sonho: Abrir uma loja na grande cidade. Sem deixar a ourivesaria de Torres Vedras, a família de Anselmo dos Santos Torres muda-se de malas e bagagens para Lisboa, onde

os

Hélder

e

seus Carlos

filhos, dos

Santos Torres desempenham um papel preponderante. Com a eclosão da II Grande Guerra, o volfrâmio das minas do norte do país é vendido a peso de ouro. Muitas famílias enriquecem. E muitas viajam até Lisboa para adquirir peças de ouro. "Poucos anos depois, o meu bisavô e os dois filhos pagam a António Garcia o valor estipulado."


Ēpocas tranquilas Encontramo-nos entre as décadas de 1940' e 1970'. "O meu avô – Hélder dos Santos Torres – continua com a loja original, em Torres Vedras, e mantém-na até finais dos anos 1980'." A aposta recai nas peças em ouro, embora se vendam relógios na Anselmo 1910. "Houve um trabalho de grande qualidade. Não abrindo grande horizontes, pois não era esse o objetivo do meu avô, pois gostava muito de viajar… Adorava viver! 60

Era um contador de histórias excecional!" "O irmão, Carlos dos Santos Torres, reside em Lisboa e mantém-se na Barateiro Pimenta que, mais tarde, dá origem à Ourivesaria Pimenta (ainda hoje existe com este nome) e, depois, à Torre Joalheiros."


Dos tempos de menino, Nuno Torres guarda boas memórias das férias na terra que viu nascer o fundador da sua família. "Era muito agradável, porque eram as férias! Tudo me atraía. Os relógios. Os ponteiros a mexer… Ia ter com o meu avô, passear com ele… Havia um ritual: íamos, muitas vezes, em passeio até um sítio em Santa Cruz. Um hábito que eu achava muito engraçado, pois havia um senhor que tinha um macaco, o qual íamos sempre ver. Ritual que nunca mais me esqueci…" Do passado guarda recordações de próprias da idade. "Tinha oito anos quando consegui que o meu avô me desse um relógio. Fantástico! Achei que não havia nada melhor que o mergulhar em água, pois achava que seria à prova de água, que não era… Andei com ele escondido durante muito tempo. Ainda hoje o visualizo…"

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Qualidade. Profissionalismo. Honestidade. Nuno Torres representa a quarta geração da Anselmo 1910. Nos anos 1980', o atual proprietário e bisneto de Anselmo dos Santos Torres toma posse da parcela do património do pai. Em pouco tempo acaba por tomar conta do negócio da família. Impõe-se o regresso a Lisboa, desejo concretizado na década de 1990', com a abertura da Anselmo 1910 no antigo Hotel Meridien. Segue-se o Centro Colombo e a loja na rua Guerra Junqueiro, que acaba por ser transferida 62

para as Amoreiras nos anos 1990'. Em Torres Vedras o negócio prospera. Da quarta geração emergem as parcerias com designers e fabricantes. Finalidade? Criar as próprias peças de joalharia. "Faz todo o sentido, porque temos bom design e temos bom fabrico. Se há a participação de outra pessoa, porque não fomentar essa parceria?" O nome das peças é sempre em português. "A peça é inspirada no passado. Todas! Vamos sempre buscar raízes do nosso passado e apostamos na mão de obra nacional, que é incrível!" Estamos, portanto, a falar de valores – qualidade e profissionalismo –, aos quais Nuno Torres soma um outro muito importante neste negócio: Honestidade.


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textos patrĂ­cia e sara fotografia joĂŁo


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Chalet da Condessa d’Edla

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Um romance na Pena (Sintra em três atos) texto patrícia serrado ilustração sara quaresma capitão


(1860) As memórias ditam a paixão de D. Fernando II, o Rei consorte, de seu cognome "O Rei-Artista", por Elise Hensler, cantora lírica de origem suiço-alemã. O cenário é não menos apaixonante: a Ópera de São Carlos. "O baile de máscaras" de três atos, de Giuseppe Verdi. 82

Amante das artes e da arte de viajar, D. Fernando II embarca num romance pleno de descrição. Encantado pelo belcanto do seu amor, bem ao gosto romântico da época, dedica o louvor a um cenário de beleza singular.


(1884) Longe dos olhares da corte. E com uma vista cordata para o Palácio da Pena. Eis o Chalet da Condessa d’Edla. Erigido num imponente quadro envolvido numa paisagem poética. A componente lírica de uma obra artística com uma aura de mistério, decorada com recantos doces… em Sintra. 84

Os moldes cénicos descendem do centro da Europa, das origens de D. Fernando II e de Elise Hensler, dotados de uma forte carga artística, e são transpostos para o lugar mais a ocidente do Parque da Pena. Concebido por ambos os personagens desta história real, a então Condessa d'Edla, título concedido antes de desposar o Rei consorte, em 1869, mas equidistante da realeza de Portugal da época, ou não fosse o chalet um local de veraneio reservado para uma nova vida do Rei. Entremos!


Dos traços originais pouco resta. Mas com o tempo, a composição do edifício inspira o passado. O revestimento azulejar azul e branco da cozinha, os painéis de embutidos de cortiça e madeira que revestiam as paredes e o teto da sala de jantar e do quarto de vestir do Rei, pintado inicialmente em trompe l'oeil a fingir o alcochoado, o vestíbulo nobre, o estuque decorativo da sala das heras, a pintura mural da escadaria central, o brasão de D. Fernando II, o quarto das rendas que servia de toilette da Condessa d'Edla, os quartos principal e secundário, as janelas, o telhado, a varanda que abraça o piso superior e a parede exterior do edifício, onde a cortiça é o elemento predominante…

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A influência do espírito colecionista da época é marcante na envolvente paisagística do Chalet d'Edla. Desde a América, reminiscente da adolescência da agora Condessa d'Edla, passando pela Austrália e pela Nova Zelândia, especiais exemplos dos fetos arbóreos, ou pela China, de onde são originários as azáleas e os rododendros… Uma paleta infinita de espécies botânicas dos quatro cantos do mundo salpicam de cores e aromas o jardim da 88

Condessa d’Edla. Desde o Chalet à Quinta da Pena, entre o vale dos Lagos e o Chalet. E eis que emergem ao olhar as Pedras do Chalet. Uma composição dramática da paisagem interpretada por blocos de granito sobrepostos pela natureza-mãe, com caminhos e bancos para fruir das vistas para o Palácio, o Chalet e o Castelo dos Mouros. Ao lado, as camélias. Em baixo, a linha de água vital para a Feteria da Condessa. O deslumbramento de uma carga cénica romântica de todo deixado ao acaso pela união aqui retratada.


(1884) O refúgio de verão passa para as mãos da Condessa d'Edla. Assim como o Palácio e o Parque da Pena. O Rei D. Fernando II morrera. A forte pressão pública e a contestação por parte do Rei D. Luís conduzem, em 1889, a um acordo com o Estado, passando a Condessa d'Edla a usufrutuária do Chalet e do jardim envolvente. Mais tarde, em 1904, ocorre a renúncia do usufruto e volvidos 25 anos, Elisa Hendler, a Condessa d'Edla, perece. Cai a Monarquia em 1910. O Palácio da Pena transita para a tutela do Ministério da Fazenda; o Parque 90

da Pena e o Chalet d'Edla caem na pasta das Matas Nacionais (Ministério da Agricultura). Usado apenas local de veraneio do Presidente da República Manuel Teixeira Gomes, colónia de férias e visitas de estudo de alunos de engenharia florestal em trabalho de campo, o outrora refúgio do Rei D. Fernando II e da Condessa d'Edla é dotado ao abandono. A um triste destino consumido pelas chamas de um incêndio em 1999. Para sempre ficam as reminiscências de um passado dotado de arte e envolto no romantismo testemunhado pelo chalet e o jardim, agora restaurados a preceito e com o rigor com que as nossas memórias tanto exigem.


Amor homens

dos

ou “ A História triste que habita na memória” parte 2

texto Rosa Feijão ilustração Pedro Emanuel Santos

Lembro-me dela. Era bonita e acabava de chegar. Era difícil olhar-lhe nos olhos, por isso olhava-a pouco. Mas tenho a certeza que era bonita. O seu olhar tinha um desconsolo imenso como ondas 92

baixas, pesadas de sal pouco beijado... E na cabeça arrastava um emaranhado de cabelos longos que lhe assombravam a pele clara do rosto. No corpo trazia vestido alguma coisa em tons de vermelho que me aprecei a despir com o olhar. Lembro-me dela porque a sua imagem desenhou um arrepio que percorreu escrupulosamente os recônditos lugares do meu corpo. Toda a minha pele, os meus ossos, os pêlos do meu corpo, guardaram na memória esse súbito entrar de vida.


Ela veio não sabe de onde. Não havia sitio onde se sentia pertencer. Mas ali estava... numa nova mesa redonda de partilha de olhares. Os homens olhavam-na e eu, amava-a com timidez... desejava ser ela, existir nela… À sua volta surgia um agitado nascimento de adição e de vício pelo seu sorriso que ela ignorava em cumprimentos falsos que os abraçava ainda mais… que os apertava de desejo.

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Ela não falava, não olhava nos olhos... Ela sabia que o seu amor, o seu oferecimento de almas, de corações e de corpo, não era uma espera mas um agora... e que, na satisfação da vontade rápida e curta, não a amariam. Oh! E como ela anseia ser amada... E aqueles homens roubavam-lhe aos poucos o que era amor, rasgavam o seu peito com desejos de a entender apenas para a ter, olhavam-na por dentro, viravam-na do avesso... com desejos de a reter, prisioneira, no corpo deles. Mas eles sempre a tinham... guardada na sua memória. Porque a memória ela não pode apagar.

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Ela era armadura, seca e quebrada de guerras passadas. Ela era resíduo de uma noite anterior sem luar. Ela era porta fechada. Mas eu insistia em a guardar esperando ser eu mistério também.

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Sim, eu lembro-me, está aqui na minha memória, na tal parte alojada no coração. Ou no pouco que lhe restou.


a memória texto Vitória Ataíde ilustração Cristina Ataíde

É a memória que nos permite ser. 100

Em memória seríamos um contínuo Presente, sem Passado, constantemente engolido pelo Nada! Na ausência de Memória, perderíamos a capacidade de comunicar, de saber quem somos, quem amamos, para onde vamos, em suma, perder-nos-íamos numa caverna escura…


Platão deu à lembrança um papel fundamental: “aprender é lembrar-se, ignorar é ter-se esquecido”, o que supõe uma pedagogia para libertar a Verdade das cinzas que a ocultam dentro da memória. Podemos admitir, que, com um fim terapêutico, Freud aceitou esta ideia e procurou praticá-la: se trouxermos à mente os traumas esquecidos, podemos curá-los. A memória é uma capacidade indissociável da Inteligência, da linguagem, da aprendizagem. São as faculdades superiores do espírito, que se desenvolveram mais tarde e tornaram possível o Homo Sapiens. A memória é a rede que conecta todas estas capacidades, que sem ela se desligariam, tornadas inúteis, mesmo prejudiciais. São capazes de imaginar um computador sem memória? Imagino que iriam imediatamente trocá-lo! E um Ser Humano? A Alma voa, e apenas resta um corpo vazio e vivo…

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Se é a memória que permite conservar e acumular o passado no presente, também é ela que nos permite ter uma vida afectiva, sentimentos, emoções e paixões. As emoções, o medo, a cólera, a angústia, por ex., irrompem de forma brusca, mas são relativamente passageiros. O sentimento - o amor, o ciúme, o ódio- é uma emoção que perdura. E quem o faz durar é a memória.

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A paixão, por sua vez, é uma emoção exacerbada, destinada a durar apenas um pouco mais, porque se esgota na sua própria intensidade… A paixão é uma conflagração, é uma fugidia estada no Éden, de onde se acaba sempre por sair…


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Em síntese, é a Memória que nos permite viver toda a vida consciente, com todas a suas intensas colorações afectivas e as suas intensas paixões intelectuais.

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A história de Listo Mercatore texto Gonçalo M. Tavares ilustração sara quaresma capitão

De Listo Mercatore se podem relatar duas vidas: 108

uma, a mais longa, é também a mais vazia: viver só por fora, nas mercadorias e na ambição direccionada para o ouro. Desta primeira vida o nome: Mercatore; vender caro o que antes foi comprado barato. Esta a única filosofia. A ética da aparência, da riqueza a qualquer custo. A segunda vida da sua vida começou depois de um encontro fortuito com Diógenes, o Cínico, conhecido filósofo que jamais se sentia intimidado por alguém. É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre - o Grande - à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua impo-


nente comitiva (como lembra Maquiavel: o poder naqueles tempos avaliava-se pela poeira levantada pelos acompanhantes de um homem), Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou: - Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer? Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu: - Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol. Ficou célebre a réplica de Diógenes. Não é único mas é raro: a filosofia afirmar a sua autoridade diante o poder. (Só mais um acrescento, para concluir a história. Alexandre engoliu a afronta e calou-se. Mais: terá dito, umas horas depois, à sua comitiva: - Se eu não fosse Alexandre, o Grande, queria ser Diógenes.

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História admirável, de facto: o poder com inteligência para reconhecer a audácia da sabedoria; mesmo assim, ninguém maior que o espelho: inalcançável vaidade da espada.) Mas desviámo-nos em demasia. Esta é a biografia de Listo Mercatore. Da importância de Diógenes para a mudança de rumo desta vida, falaremos mais adiante. Por agora, olhemos de novo para a riqueza e também culpa que ela parecia trazer: desconforto num corpo demasiado bem tratado. Assim acontecia com Mercatore. De manhã enga110

nava, à tarde vendia elogios a quem ainda lhe podia oferecer poder e ouro, mas à noite, com a falta de luz vinha também a falta de certezas. Um exemplo: um sonho: Listo Mercatore foge dos seus inimigos, dos homens a quem enganou nos negócios; e entra, assustado, em casa do único amigo que lhe resta. Aí, tem uma supresa. O seu amigo não o pode receber e inúmeros funcionários pedem dados, confirmações: - Que pretende do seu amigo? Tem audiência?


Listo olha para trás e vê os inimigos prestes a alcançá-lo. É aí que acorda.

Antepassado do famoso poeta persa - Omar Khayyam -, Listo Mercatore seguia na vida os seus conselhos que muitos séculos depois o poeta escreveria:

«Abre-te, irmão, a todos os perfumes, a todas as cores, a todas as músicas. Acaricia todas as mulheres. A vida é breve e voltarás breve à terra, para ser, talvez, a água de Zemzem ou de Selsebil.»

Seguia os conselhos, diga-se, numa parte: nas mulheres e no prazer. Desprezava, no entanto, a ciência e a filosofia. Obcecava-o, mais que tudo, o vinho («Bebe vinho. Receberás vida eterna.»). Bebia de manhã para ter coragem para enganar, à noite para esquecer os efeitos dessa coragem e para adormecer. Para alimentar o estômago, os sentidos e o desejo, precisava de dinheiro. Os banquetes e as mulheres justificavam as farsas, o que por vezes se humilhava perante os poderosos, os roubos ostensivos.

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Dele poderiam dizer os estóicos: as necessidades ocupavam-lhe o dia, os prazeres a noite. Não era culto o bastante para ter lido o Bhagavad Guitá. Da Índia conhecia algumas especiarias, nada mais. No entanto, sem o saber, seguia um dos preceitos ali abordados: agir sem pensar no resultado das acções. Se necessário, enganava; se necessário, roubava; se necessário, matava.

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Porém, por mais que se ande, o que se andou permanece no corpo: chama-se cansaço, fadiga; ou memória. Ele agia e as sua acções permaneciam nos ossos, pesavam. Como aquele homem que vive com um punhal espetado nas costas e não tem determinação para se livrar da lâmina ou, em último caso, para pedir ajuda. Foi nesse período que a vida de Listo Mercatore se cruzou com a de Diógenes, num episódio rapidíssimo, mas decisivo. Descia Mercatore umas pequenas escadas quando se deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas.


Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse, para Diógenes: - Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisas de comer lentilhas. E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico? Diógenes respondeu à letra: - E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei. Listo Mercatore fingiu um sorriso fraco, mas ficou estarrecido. Afastou-se rapidamente. Se acreditasse um pouco mais em Deus, poder-se-ia falar de uma epifania. Mas não; era ateu demais para ver tão rápido.

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Não foi uma revelação, mas uma confirmação. Era rico, no entanto ainda não morrera. O que ouvira decidiu-o. Ainda tinha vida à sua frente. Nessa mesma noite, perturbado, recusou pela primeira vez o vinho. Um escritor clássico dizia que os jovens apenas precisam da sua juventude para se embriagarem, dispensavam o vinho. Listo Mercatore há muito perdera a juventude. Agora, dispensava de vez o licor. Acabada a embriaguez passou a recusar as mulheres 114

e os banquetes. Não comeu de imediato, por vontade, o que os pobres comem por não terem alternativa, mas no dia seguinte proibiu o faisão, as carnes raras. Em dois meses deu quase tanto ao pobres como o roubara a todos - pobres e ricos - durante vinte anos. Guardou para si apenas uma pequena casa, um velho criado: o mais fiel; meios para subsistir sem excessos. Não mais viu Diógenes: não necessitava. Em poucos anos tornou seca a carne que antes lhe balouçava pelo corpo ao ritmo do fraco pudor.


Deixou os mercados; perdeu o nome e o passado. Recusava enganar quem quer que fosse e afastava-se dos poderosos para não ter de os insultar. Dois anos antes de morrer encontrou uma mulher. Apaixonou-se. Acabaram, no entanto, por não se casar. Uma pequena diferença: ela exigia um homem rico, ambicioso. Não foi desistência nem conformismo, foi decisão: escolheu viver só, até ao último dia, sem sequer um criado. 115

No dia seguinte à sua morte os vizinhos entraram-lhe em casa. Para além do cadáver viram apenas uma mesa de madeira, um banco e uma esteira no chão. O corpo de Listo, o asceta - como ficou conhecido nos últimos anos -, transmitia uma calma incomum. Morrera no meio do sono, tranquilo. Um último facto: naquele dia os vizinhos abriram o apertado compartimento onde ele guardava os alimentos. Estava praticamente vazio. Apenas algu-mas garrafas de água; e lentilhas.

Livro: “Histórias Falsas” Edição: 1.ª edição Ano: Setembro 2010 Editora: Leya, SA


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Lisbon, I love you! fotografia e texto Karin Anderson


Lisboa é uma cidade belíssima e soalheira. Preciso de pôr os óculos de sol para não cegar sob a luz intensa de abril. Na capital portuguesa não se sente, nem um bocadinho, a Europa. As casas coloridas, as palmeiras, a brisa quente levam-me até a um paraíso tropical. A cidade respira uma emoção especial. Chego à capital portuguesa bem tarde, numa sexta-feira à noite. Na rua, a temperatura é amena, e embora a primavera esteja apenas a começar, há um aroma doce no ar. Uma viagem de táxi até ao centro da cidade não leva mais de vinte minutos e custa quinze euros. No táxi, de olhos arregalados e exausta, concluo de imediato: vou apaixonar-me por Lisboa.

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Fico alojada num hotel no coração de Lisboa.

Rossio e pela Baixa e fico impressionada

Nesta minha visita de dois dias, decido concen-

com o pavimento de mosaico, a calçada

trar-me nos bairros do centro de Lisboa,

portuguesa, que se pode encontrar por

Baixa, Chiado, Bairro Alto e Alfama. Lisboa é

toda a cidade de Lisboa.

uma cidade grande, com um pouco mais de 500.000 habitantes, mas um fim-de-semana

O calor de abril, que já chega aos vinte

é suficiente explorar o centro, a pé. Começo o

e cinco graus, acalma o movimento

sábado de manhã a passear pela vasta praça do

frenético de turistas e, ao meio-dia,


as ruas estão quase desertas. Não há muitos carros; em vez disso, a cidade é percorrida pelos barulhentos elétricos que percorrem as 120

ruas inclinadas e estreitas para baixo e para cima. Localizada nas encostas da costa atlântica, precisamente no local onde o rio Tejo encontra o oceano, a paisagem é fantástica. Para minha surpresa, vejo que muitos edifícios


estão abandonados ou em ruínas e por todo

licor típico de Lisboa, a ginjinha. A ginjinha é

lado vejo mosaicos nas paredes e nas ruas.

feita de cerejas amargas e muito açúcar e é servida em pequenos copos de shot. Embora

Perto de uma das grandes praças do Bairro

seja realmente adocicada, é no entanto

Alto, a Praça Luís de Camões, num pequeno

suficientemente refrescante para me levar

bar de nome Ginjinha de Alfama, servem o

a pedir mais um copo. No Chiado, na zona


das lojas, passeio para baixo e para cima pelas ruas largas e depois sento-me a saborear uma cerveja portuguesa fresca, sob a brilhante luz do sol. E claro, apanho o 28. É barulhento, chia nos carris, é encantadoramente pequeno e famoso em Lisboa. Leva-me pela cidade: do Bairro Alto até à Baixa, pelas ruas coleantes e estreitas de Alfama e fico surpreendida por não atropelar ninguém pelo caminho. Saio em Alfama e, acontece que é dia de Feira da Ladra – o mercado onde apenas compro uma velha fotografia. Em vez de andar às compras, vou até ao miradouro da igreja de santa Luzia, de onde a admiro a vista sobre o rio.

122


Alfama é a freguesia mais antiga, com ruas

mais íngremes, uma voz simpática,

íngremes e avisam-me que devo ir-me

vinda de uma janela, chama-me. É o

embora depois do pôr-do-sol. Mas durante o

cozinheiro de um pequeno restaurante

dia, Alfama é simplesmente esplêndida: vielas

e numa mistura de inglês, português

estreitas, encantadoras casitas, roupa pendu-

e espanhol conversa amavelmente

rada nas janelas, a secar e gatos a dormitar

comigo. Diz-me o que devo visitar em

ao sol – tudo acompanhado pelo barulho de

Alfama e convida-me a almoçar no

crianças a brincar, risos e música. Assim que

seu restaurante, se por acaso voltar a

paro para recuperar o folego numa das ruas

passar por ali.


Os lisboetas são simpáticos e honestos. Não se trata de dinheiro, mas sim de cordialidade e tenho exemplos que atestam isso mesmo. Uma rapariga que estava a cantar e a tocar 124

uma guitarra vermelha, pediu-me umas moedas de mão estendida, mas com um sorriso tímido e como que a pedir desculpa. Na baixa da cidade, em todos os restaurantes há sempre alguém cá fora a tentar atrair os


turistas que passam por ali. Todos pedem desculpa quando eu aceno que não com a cabeça e continuo o meu caminho. Paro e bebo outra cerveja e, ao pagar – menos de um euro- pergunto a um velhote se me pode indicar no mapa onde estou. Depois de alguns minutos desiste, mas indica-me amavelmente o caminho para o posto de turismo. No café do Chiado, trazem-me a sandes errada, mas a empregada, sorridente, resolve o assunto num instante. Afinal o que torna Lisboa tão especial? Serão os velhotes de pele enrugada e curtida pelo sol, bebericando a sua bica em cafés sossegados? Serão a ruas preguiçosas e a encantadora brisa oceânica? A doçura da língua portuguesa, por onde quer que vá? Será a ausência do bem conhecido stress citadino europeu? Ou serão as palmeiras tropicais e as plantas exóticas? Penso que a resposta está no meu coração e os sentimentos que a cidade provoca em mim: calma, felicidade e bem-estar. Um sítio que nos faz sentir assim, tem de ser especial.


São todos estes pormenores subtis sobre Lisboa em que não deixei de reparar. Nas casas de banho públicas há sempre toalhas de papel para limpar as mãos. É áspero e acastanhado, mas está lá sempre. As colheres de café são minúsculas, sinto-me como uma Alice com três metros. Encontro um prédio com a inscrição Penso mas não existo gravada por cima de um arco. O homem do lixo diz-me adeus quando passa por mim no pequeno carro do lixo. Adoro tudo isto. É uma cidade amável, suave e quente. O sol é a única intensidade existente, e, durante estes dois dias, reinou soberano, sem uma única nuvem. A cidade está povoada de turistas, mas se nos afastarmos, um bocadinho apenas do centro, andamos praticamente sozinhos. Os portugueses são modestos, como se a brisa oceânica tivesse polido alguma rudeza existente – que os seus vizinhos a leste parecem ainda ter. As 126

minhas recordações mais encantadoras de Lisboa são as ruas com pavimento irregular e calcetadas, os edifícios velhos, cobertos com grafitti e cartazes antigos e as gentes amáveis – para mim tudo isto é maravilhoso.


Viagem ao acaso (em busca do tempo futuro) texto Margarida Ataíde fotografia Pedro Monteiro

“But every beginning is only a continuation and the book 128

of fate is always open in the middle” in Love at First Sight de Wislawa Szymborska


A ti que não conheço, posso amar de

pare e, ao mesmo tempo, fique infi-

forma incondicional. Não conheço e

nito, não acabe. Um momento infinito

posso nunca vir a conhecer. Podes ser

parado no tempo.

aquele que viaja nos meus sonhos. Meigo e atento. A pessoa perfeita:

Quando

a voz calma e grave, alto e moreno.

ouvido e dizemos coisas tolas. Pegas-

Adoras música, não podes passar sem

-me na mão com ternura e beijas-

ela, e gostas de futebol. Gostas de

-me os dedos com os olhos brilhantes.

conhecer pessoas, livros e entarde-

Nesse momento sinto que tudo ou

ceres. És atento. Quando olhas, vês.

nada pode acontecer. O coração fica

Olhas para mim e nos teus olhos sinto

vulnerável e queremos que seja pene-

ternura. Sinto que gostas de mim por

trado com doçura, mas uma inquie-

dentro e esse sentimento deixa-me

tação invade-nos. A sensação que é

paralisada. Estamos nesta fase do

um momento e não é infinito.

romance onde queremos que o tempo

falamos

sussurramos

ao


Falamos longamente sem nos aperce-

Afinal o amor existe na minha cabeça

bermos que o tempo passa. Falamos

e tu tens muito pouco a ver com isso,

de tudo com uma certa urgência.

e assim te estranho. Quer existas ou

Nada mais importa. Aos meus olhos,

não, o que sinto está dentro de mim.

tu és o mais belo e o mais perfeito.

Nós somos um espaço biunívoco.

Não quereria mudar nada em ti. Esta

Amo-te na medida em que me amas.

teia é feita de cumplicidade. Sinto-me

O que vejo nos teus olhos alimenta o

completa onde antes me sentia vazia.

que sinto dentro de mim.

São tantas as coisas que partilhamos.

130

É inacreditável. Não preciso de mais

És uma pessoa calma por oposição à

nada. A simples ideia de que existes é

minha infinita inquietude. Contemplas

suficiente. O Universo parece ter uma

enquanto eu sinto, remexo, escrevo.

lógica e uma harmonia que até agora

Tu vives, simplesmente, e eu vivo e

me tinham transcendido. Parece que

revivo. Tenho que sentir e escrever

todos os passos que dei tiveram um

sobre o que sinto, só assim me apro-

sentido. Ao mesmo tempo, quando

prio dos sentimentos, como se eles

olho para ti não te reconheço. Subi-

fossem fugazes e etéreos.

tamente pareces um ser estranho. Como se a tua realidade não fosses Tu. Como se a minha realidade se tivesse, também, tornasse irreal. Tu és múltiplo e essa multiplicidade confunde-me. Quem és tu? Não sei quem és e, na realidade, posso nunca vir a saber.


Quando te encontrei - se te encontrar - senti imediatamente que havia uma ligação e tive medo. Isso sempre me aconteceu. Se ainda não te conheci, então esse medo não existe. Se for concreto posso fugir ou, então, podem acontecer tantas outras coisas. Afinal pensava que eras tu, mas não eras, tinha-me enganado. Talvez não fosse biunívoco. Porquê esta liberdade que temos de amar se estamos tão presos? Ou podemos simplesmente dizer a quem gostamos, que gostamos delas? Que coisa mágica é essa que nos faz apaixonar? Será que alguém que se apaixona por nós se apaixona por uma ideia, algo que existe dentro de si, e não verdadeiramente pelo nosso Eu real?

131


Não será a paixão um mal-entendido? Amamos aquilo que não é real e não a outra pessoa, porque o que amamos está dentro da nossa cabeça. Esses são os momentos mágicos, em que mergulhamos nessa zona brumosa que nos leva para longe, nos transporta num tapete voador: uma memória do futuro. Amo os teus olhos sonhadores, o seu brilho, o seu sorriso, o sentimento que leio neles. Sinto no meu coração que existe uma ponte. Admiro os teus 132

defeitos: o leve arrastar da voz que é quase um gaguejar. A tua timidez. O teu ar desengonçado. As palavras que usas e me surpreendem, por não estar à espera delas. Cada dia que passa sinto-me mais presa, torno-me mais dependente. A minha mente ficou preenchida


pela tua imagem, ainda mal tinha acordado. Tenho um sorriso permanente dentro de mim. Não existem barreiras intransponíveis. Sinto que mesmo muito longe estaria junto a ti. Eu não te conheço e posso nunca te conhecer, mas sei o que vou sentir se te reconhecer. Estás aí algures no meio da multidão e poderemos nunca nos cruzar – o acaso -, mas tu existes, disso eu tenho a certeza. Podes até estar muito perto de mim e eu nunca ter aberto o meu coração para ti. És uma memória do tempo futuro.


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Mutante 12 • Memória  

a Jigsaw • O amor dos homens • Quinta das Lágrimas • Castelbel • Anselmo 1910 • Viarco • Chalet da Condessa d' Edla • Vitoria Ataíde e Crist...

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a Jigsaw • O amor dos homens • Quinta das Lágrimas • Castelbel • Anselmo 1910 • Viarco • Chalet da Condessa d' Edla • Vitoria Ataíde e Crist...

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