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texto margarida ataíde ilustração rosa feijão

/Crisálida ao amanhecer Esvoaçava, empurrada pela brisa, com a luz a brincar através das suas cores azuladas e matizadas, deixando um brilho sedoso e muito leve atrás de si. Entontecida, rodopiava, atraída por cheiros intoxicantes e envolventes. Não sabia que o dia seria único, breve e urgente. Dentro de si uma sinfonia de sensações. Os olhos pesados, entorpecidos, faziam-na amiúde errar o alvo. Todas a atraíam, não conseguia parar, embora as asas pesassem. Donde vinha tudo isto? Ela sabia que não podia suspender o voo, mas apetecia-lhe deter-se num ramo e recuperar a leveza, o que tinha sido ao amanhecer: uma crisálida. Lá, no casulo, tudo estava adormecido e o dia tinha amanhecido belo e suave através dos fios finíssimos e entre-

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laçados. Era uma prisão, mas sair implicou tanta coisa! Porque não ficou lá, onde tudo estava organizado, previsível e morno. Renascer foi sair, uma metamorfose, um sofrimento e toda a beleza crua e viva do dia. Demasiados cheiros e cores, tudo de novo para aprender. Extasiada, borboleteava entre as miríades de flores, aqui rosa-fúchsia, ali violeta, entretecidas num manto que descia do pequeno muro até ao lago, ligadas por trepadeiras verde-escuro. O dia começava a declinar e ficou uma luminosidade muito calmante. Ouviam-se os mil ruídos dos animais: ralos, grilos e cegonhas. Ao largo do lago, bordejado por carvalhos imponentes de copa alongada, tudo ficou parado e suspenso de um belo entardecer.

Mutante 13  

Chegámos a 2012, com 5 anos de vida, 12 números editados, um blogue e uma página de facebook bastante ativas. Um momento para olhar e analis...

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