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13 /outono

/outubro/novembro/2012

/Júlio Pomar

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Sem hora marcada

Joana Vasconcelos Gonçalo M. Tavares Hotel Infante Sagres A Magia da Polaroid José Avillez •••


/outono Amarelos, vermelhos, dourados e castanhos. Cores quentes, tempo frio: degradê. Folhas caídas, ramos despidos. Chuvas e verão de São Martinho, magusto e jeropiga. Outono, nada mais!


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A Magia da Polaroid Crisálida ao Amanhecer Balkanika Road Trip 5.4.3.2.1 à conquista do espaço!

Montblanc Anselmo 1910 Panerai Pedro e o Lobo Hotel Unique

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Munna Castelbel & Portus Cale Hérmes Home António Bernardo

Anka Zhuravleva Joana Vasconcelos Escola da Noite

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Júlio Pomar José Avillez

a Jigsaw Gonçalo M. Tavares

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13 /outono

/outubro/novembro/2012

/diretor João Pedro Rato /editoras Patrícia Serrado Sara Quaresma Capitão

editorial

/diretor de arte João Pedro Rato /direção comercial comercial@mutante.pt /colaboradores nesta edição Anka Zhuravleva, Catarina Leal, Margarida Ataíde, Miguel D’Aguiam, Susana Carvalho /ilustração Pedro Emanuel Santos e Rosa Feijão /redação Rua Manuela Porto 4, 3º esq. 1500-422 Lisboa info@mutante.pt www.mutante.pt www.mutantemagazine.blogspot.pt facebook: MutanteMag Mutante é uma marca registada.

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experience •••

Hotel Infante Sagres As mil e uma cores em Marraquexe

13 é número de Fibonacci, dizem os lentes. 13 é unlucky, dizem por aí. 13 é de Fátima, dizem os crentes. 13 é Mutante, dizemos nós. Temos afeto singular a este número, não temos teorias para o explicar: a paixão não se explica, sente-se. Lançámos o primeiro número a 13 de maio de 2008, é facto, mas toda a paixão tem ponto de ciência exata. Com o tempo, a paixão evoluiu para o amor, consolidou-se e a vontade dele ser sempre algo mais tornou-se premissa quotidiana. Somos amor insaciável, somos amor Mutante, somos sempre mais. Este número 13 é o nosso “algo mais”, é o nosso consolidar. É a mudança quotidiana procurada, é a casa de memórias para receber novo amor, que cresce, quotidianamente, a cada estação. Porque 13 é ser Mutante, dizemos nós...


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/Coleção Raul Cunca

A Magia da Polaroid

FOTOGRAFIA Miguel d'aguiam assistido por Miguel Estima STYLING Brígida RibeirosTEXTO Patrícia Serrado

Curioso! Quem é, afinal, o modelo de cada fotografia? A coleção de 60 modelos de máquinas fotográficas instantâneas Polaroid ou as modelos convidadas para exibir cada uma das máquinas da marca norte-americana?

1 polaroid automatic 100, 1963-1966

2 polaroid model 95b, 1957-1961

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O objetivo, cumprido, consiste em abordar a coleção que representa o período de produção da empresa, com o ano de 1948, a demarcar o início da produção da primeira máquina instantânea e o de 2010, quando foi comercializada a primeira máquina instantânea digital. A exposição é definida como um olhar daquela que foi – e é –, para muitos, a resposta instantânea da imagem, em múltiplos cenários que reportam para várias décadas, durante as quais a Polaroid protagonizou a fotografia. Os exemplares ditam a memória

da popularização da fotografia instantânea e do inventor Edwin Herbert Land, fundador da Polaroid Corporation, exemplo do espírito empreendedor norte-americano, que conseguia tornar as invenções em produtos de acesso fácil, transformando a inconfundível Polaroid numa produção massificada. A constituição da empresa ocorre no período que celebra o nascimento do design industrial nos EUA, um momento reconstituído pelas máquinas fotográficas e pelos documentos da época apresentados na ex-

3 polaroid swinger model 20, 1965-1970

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posição. Os primeiros exemplares expostos foram concebidos pelos mais notáveis pioneiros do design industrial norte-americano, nomeadamente Walter Dorwin Teague, Henry Dreyfuss e Albrecht Goertz, bem como os últimos, com projetos liderados pelo inovador gabinete IDEO. Toda esta panóplia de informação e fotografia foi vista e revisitada no Instituto Politécnico de Castelo Branco – Escola de Artes Aplicadas, que apresentou “A Magia

4 polaroid model j33, 1961-1963

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da Polaroid”. Uma exposição de fotografia que esteve patente no Museu Francisco Tavares de Proença Júnior de Castelo Branco (de 19 de fevereiro a 31 de março de 2011) e na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, em Almada (de 4 de fevereiro a 29 de abril de 2012), com Raul Cunca a ocupar o lugar de Comissário Científico. O autor das fotos é Miguel D’Aguiam. Há ainda um livro que ilustra e documenta a coleção, contextualizando as máquinas fotográficas instantâneas. d


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texto margarida ataíde ilustração rosa feijão

/Crisálida ao amanhecer Esvoaçava, empurrada pela brisa, com a luz a brincar através das suas cores azuladas e matizadas, deixando um brilho sedoso e muito leve atrás de si. Entontecida, rodopiava, atraída por cheiros intoxicantes e envolventes. Não sabia que o dia seria único, breve e urgente. Dentro de si uma sinfonia de sensações. Os olhos pesados, entorpecidos, faziam-na amiúde errar o alvo. Todas a atraíam, não conseguia parar, embora as asas pesassem. Donde vinha tudo isto? Ela sabia que não podia suspender o voo, mas apetecia-lhe deter-se num ramo e recuperar a leveza, o que tinha sido ao amanhecer: uma crisálida. Lá, no casulo, tudo estava adormecido e o dia tinha amanhecido belo e suave através dos fios finíssimos e entre-

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laçados. Era uma prisão, mas sair implicou tanta coisa! Porque não ficou lá, onde tudo estava organizado, previsível e morno. Renascer foi sair, uma metamorfose, um sofrimento e toda a beleza crua e viva do dia. Demasiados cheiros e cores, tudo de novo para aprender. Extasiada, borboleteava entre as miríades de flores, aqui rosa-fúchsia, ali violeta, entretecidas num manto que descia do pequeno muro até ao lago, ligadas por trepadeiras verde-escuro. O dia começava a declinar e ficou uma luminosidade muito calmante. Ouviam-se os mil ruídos dos animais: ralos, grilos e cegonhas. Ao largo do lago, bordejado por carvalhos imponentes de copa alongada, tudo ficou parado e suspenso de um belo entardecer.


As cores tornaram-se mais ténues, mas os cheiros, esses, ficaram ainda mais intensos. Cada flor visitada era única, mas logo outra a atraía. Começava a ter as pontas das antenas dormentes e as asas batiam com menos força, acompanhando o desvanecimento do dia. O céu tingiu-se de tons alaranjados cobrindo o azul-cobalto, ex-cessivo e puro. Todos os tons laranja acompanhavam o seu esvoaçar lento e trôpego. O lago era um espelho levemente ondulante, uma imagem invertida da paisagem circundante. A montanha ao fundo, azulada, crescia para dentro do lago. Viam-se troncos espetados, como se fossem restos de uma civilização: uma Atlântida perdida. Os

peixes saltavam e quebravam o espelho d’água, fazendo aparecer arcos concêntricos que se perdiam logo a seguir. Apareciam nuvens que se incendiavam por detrás das árvores e guardavam dentro delas o entardecer. Um cuco chamava, de vez em quando, outros respondiam. O dia foi ficando noite e os enormes carvalhos de copa esparsa que filtravam o alaranjado do céu pareciam sombras chinesas, recortadas na imensidão laranja do céu. Ela sabia que agora podia pousar, finalmente, e descansar. Descreveu uma breve curva, com leveza, e pousou num tronco que sobressaía da água. Era agora, também ela, uma sombra chinesa, elegante e diáfana. Estática deslizou e caiu, por fim, dentro do lago. d

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Balkanika Road Trip

fotografia e texto catarina leal

Já tínhamos programado passar uns dias com amigos na região de Chianti, Toscana, e decidimos estender a viagem aos países entre Búlgaria (Sófia, onde vivemos) e Itália (Florença). O que resultou em 53 horas dentro do automóvel, na passagem por 6 países, 14 polícias fronteiriças e muita estrada, mais precisamente 3890 km. Tudo no espaço de 10 dias. Países que, uns mais do que outros, têm um passado recente bem violento com a desintegração da Jugoslávia e as subsequentes guerras durante a década de 1990.

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No entanto, desde há séculos que a Península Balcânica assiste a conflitos recorrentes, ocupações territoriais e variadas disputas de fronteiras. A quantidade de diferentes etnias e religiões é notória e, apesar de alguma tensão sentida quando se fala com diferentes grupos, estes vivem lado-a-lado com um forte sentido patriótico ou, melhor ainda, com uma forte consciência étnica. 1 dia 1. (saída na noite anterior ao dia 1 de sófia) guichet para pagamento do imposto das estradas. fronteira com a sérvia (kalotina), bulgária.

Para mim, que cheguei à região em 2006, quando a Bulgária estava quase a entrar na União Europeia (em 2007), a guerra dos Balcãs pareceu-me pertencer a um passado distante. Durante esta viagem, as evidências do conflito tornaram-se mais claras, principalmente através das marcas de bombardeamentos ou balas em alguns edifícios; o conselho a viajantes para não se aventurarem por estradas não asfaltadas ou zonas não-urbanas na Bósnia e Herzegovina, devido à ainda alta concentração de minas anti-pessoais –o quê?

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2 dia 1 dormida num motel (ou mitel) ao longo da e75, perto de markovac, cerca de 100km antes de belgrado, sérvia. deste modo adiantámos 300 km feitos depois de sair do trabalho numa quinta-feira e evitámos entrar em belgrado, que já conhecíamos, para conseguir chegar a ljubljana no dia seguinte.

3 dia 2 depois do pequeno-almoço na capital, parámos no lago bled. pletna (barco-taxi) que transporta passageiros desde as margens do lago até à ilha no meio do lago onde se encontra a igreja nossa senhora da assunção (séc. xv).

4 dia 2. estação de comboio de bled jezero (lago bled)

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Bom, pelo sim pelo não, é melhor não arriscar; e o repetido questionário à entrada na Sérvia sobre a minha visita ao Kosovo, depois da sua auto-declaração de independência em 2008, denunciada pelo visto Kosovar carimbado no meu passaporte. Para a Sérvia o Kosovo é ainda considerado parte integrante do país como região autónoma Sérvia e, assim sendo, não reconhece a independência Kosovar. Ao passar por estes países ao ritmo com que o fizemos, o que nos marca mais são as paisagens virgens, as variadas intervenções humanas e os contrastes ou semelhanças entre estas.


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Em pouco mais de 24 horas, passámos por um hotel Sérvio ao longo da auto-estrada E75, onde o pequeno-almoço consiste em queijo branco tradicional (tipo Feta) e café turco; pelas modernas auto-estradas Croatas; pela capital Eslovena, Ljubljana, com um estilo marcadamente centro-europeu, mas onde se diz “hvala” para “obrigado” tal como nos países vizinhos, a sul; pelos Alpes Julianos, onde os picos nevados encantaram a nossa passagem, para chegarmos a uma Toscana solarenga e de relevo ondulante. A viagem de regresso não foi menos contrastante, desde estar um dia no meio da mega-turística Florença para nos encon18

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trarmos, no dia seguinte, entre a calma do Parque Nacional Lagos Plitvitce, na Croácia. Poderia ficar ali bem por um mês, mas tivemos de seguir viagem em direcção a Split, na costa da Dalmácia. O centro nevrálgico da cidade encontra-se por entre as muralhas do palácio romano de Diocleciano. O labirinto de ruelas proporciona variadas descobertas arquitecturais a cada esquina ou a surpresa de passar pelo mercado de peixe exuberante de vida e, dois passos depois, encontra-se uma esplanada silenciosa nalguma praça recôndita. Split e a Dalmácia merecem certamente uma nova visita mais prolongada. Por agora tivemos de continuar para Sa-


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rajevo (Bósnia e Herzegovina) via Mostar. A viagem começou a ser mais lenta, sem auto-estradas à vista, mas paragem em Mostar é obrigatória, ainda que muito breve. A atracção principal é a ‘Ponte Velha’ (Stari Most) sobre o rio Neretva. A ponte original foi bombardeada em 1993 durante

5 Dia 5. Vista de Florença a partir da Piazzale Micheangiolo, Florença, Itália.

6 Dia 6. Chegada ao fim da tarde ao Parque Nacional Lagos Plitvice, Croácia. Depois de fazer 700 km seguidos, isto foi mesmo o que precisávamos: calma, ar puro (o barco é eléctrico), água, e muito verde. O dia seguinte passámo-lo no parque por entre lagos, cascatas e a caminhar na floresta.

a Guerra da Bósnia, 429 anos depois de da sua construção pelo Império Otomano, no século XVI. Uma nova ponte foi erguida seguindo o mesmo estilo em 2004 e é agora um sinal de esperança para as futuras relações entre Croatas e Muçulmanos que habitam a cidade. Sarajevo anuncia-se através de múltiplos anúncios de publicidade, do começo de uma via rápida e dos velhos eléctricos que circulam ao longo da estrada (alegadamente é o serviço de carros eléctricos a tempo inteiro mais antigo da Europa, a circular desde 1885, tendo começado como uma linha de teste para o Império Austro-Húngaro). / move

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Assim que chegamos ao centro é notória a multiplicidade de religiões e etnias que vivem lado-a-lado, a par com os sinais bem visíveis do passado recente dramático que a cidade viveu. Os mapas dos hotéis explicam graficamente e geograficamente o cerco

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feito à cidade entre 1992 e 1996 durante a Guerra da Bósnia. No entanto, a julgar pelos jovens que se encontram pelos diversos cafés cosmopolitas numa das ruas centrais, estes querem um futuro semelhante a qualquer outro jovem Europeu. Esta foi a nossa última paragem antes de regressar a Sófia. Infelizmente não tivemos tempo para explorar melhor cada região.

dia 9. chegada a sarajevo, bósnia e herzegovina.

8 Dia 9. cidade velha (antigo bazar) e centro nevrálgico de sarajevo. ao fundo os bairros residenciais espalhados pelos montes em volta da cidade. sarajevo, bósnia e herzegovina.

9 Dia 10. De retorno a Sófia pela estrada E761, Bósnia e Herzegovina.

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Uma segunda ou mais visitas são mesmo obrigatórias. A viagem de regresso fez-se por verdes montanhas salpicadas de pequenas aldeias e campos cultivados, sempre sem sair da estrada asfaltada, obviamente. d


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texto Susana Carvalho Susana Carvalho ilustração pedro e. Santos

/5.4.3.2.1 à conquista do espaço!

/5.4.3.2.1 à conquista do espaço! A adolescência mais não é que um período deadolescência guerra fria entre duasé superpotências: A mais não que um período nósguerra e os nossos pais.duas A conquista do esde fria entre superpotências: paçoe os representa umAdos pontosdoaltos da nós nossos pais. conquista espaço disputa estratégica que por anos representa um dos pontos altosesses da disputa nos opõe. que por esses anos nos opõe. estratégica O nosso quarto é o nosso espaço. E reclamar a posse daquelas quatroespaço. paredes,E deO nosso quarto é o nosso resafiando supremaciapaterna, constitui o clamar a aposse daquelas quatro paredes, pequeno-grande passo para a nossa afirdesafiando a supremaciapaterna, constimação, a aventura temerária nos corotui o pequeno-grande passoque para a nossa ará de glóriaaou de ridículo.Conquista maior, afirmação, aventura temerária que nos só a vitória sobre a coroará de definitiva glória ou edeincondicional ridículo. Conquista acne. a ansiedade dispara e a conmaior,Um só dia, a vitória definitiva e incondiciotagem decrescente nal sobre a acne. acontece, de forma não programada, à mesa do pequeno-almoço.

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Um dia, a ansiedade dispara e a contagem A proposta é acontece, lançada. Ade chávena pai decrescente forma que não oprotripulava, bruscagramada, distraído, à mesa dosuspende-se pequeno-almoço. A mente no éar,lançada. antes deAatingir os lábios, proposta chávena que o que pai se entreabrem de espanto. O café,bruscanegro e tripulava, distraído, suspende-se fumegante, ameaçando os bordos. mente no ar,oscila, antes de atingir os lábios, que A inicia viagemOde regresso se chávena entreabrem de aespanto. café, negro e aterra calmamente no pires, confirmando fumegante, oscila, ameaçando os bordos. o missão. Os paisde acatam. A sucesso chávenadainicia a viagem regresso e Uma proprietária invade-nos. Daaterraeuforia calmamente no pires, confirmando mos saltosdasobre o colchão se,Uma suo sucesso missão. Os pais como acatam. bitamente, naquela invade-nos. divisão apenas, euforia proprietária Damosa ausência de gravidade verificasse. saltos sobre o colchãosecomo se, subitaO feito naquela marca o divisão início de uma nova era: mente, apenas, a ausênaquela em que se o princípio da livre-circia de gravidade verificasse. culação é abolido e um outro princípio se


O feito marca o início de uma nova era: aquela em que o princípio da livre-circulação é abolido e um outro princípio se instaura - o da livre-decoração. Além da sobreabundância de posters, o nosso quarto adquire estatuto territorial e político - uma espécie de província rebelde que, inesperadamente, se achou com direito à autodeterminação. Devidamente demarcado, esse território será espelho de uma identidade desarrumada (ainda que algumas mães, de aspirador em riste, tendam a desvalorizar a dimensão ontológica), refúgio seguro face a pressões externas (Sai daí! Precisamos de ter uma conversa!), cenário de transformações históricas (leia-se, hormonais). Mas viver é fixar e destruir fronteiras. Chegará o momento sair de casa e de Além coninstaura - o dadelivre-decoração. quistar um espaço maior. O nosso oespaço. da sobreabundância de posters, nosso Nessa altura, pela distância quarto adquiredesarmados estatuto territorial e políti-e pela ausência, e esquecendo posicionaco - uma espécie de provínciaorebelde que, mento neutro que se deveriam observar, inesperadamente, achou com direitoos à pais hão-de dizer, Devidamente repetidas vezes, que autodeterminação. demaro nosso quarto estáserá exactamente cado, esse território espelho decomo uma o deixámos, na esperança identidade desarrumada (aindaimprovável que algude um dia regressarmos, para o habitar. mas mães, de aspirador em riste, tendam Dedesvalorizar quando em vez, percorrerão aquela a a dimensão ontológica), reárea despovoada numaexternas visita a (Sai um fúgio seguro face como a pressões museu, que guarda, sob uma o pó dos dias, a daí! Precisamos de ter conversa!), memória passado. Um cubo desoladocenário dedo transformações históricas (leiaramente vazio, naMas geometria complexa e -se, hormonais). viver é fixar e desirresolúvel das emoções. truir fronteiras. Chegará o d momento de sair

de casa e de conquistar um espaço maior. O nosso espaço. Nessa altura, desarmados pela distância e pela ausência, e esquecendo o posicionamento neutro que deveriam observar, os pais hão-de dizer, repetidas vezes, que o nosso quarto está exactamente como o deixámos, na esperança improvável de um dia regressarmos, para o habitar. De quando em vez, percorrerão aquela área despovoada como numa visita a um museu, que guarda, sob o pó dos dias, a memória do passado. Um cubo desoladoramente vazio, na geometria complexa e irresolúvel das emoções. d

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/Montblanc, desde 1906

Letras soltas com arte Chegar ao topo.

A ambição de criar a melhor caneta do mundo passou do sonho a realidade. Foi em 1909. O corpo preto e a ponta vermelha de Rouge et Noir exultou os apreciadores de canetas. De jóias que engrandecem o mundo da escrita.

Nasce a Montblanc. A analogia perfeita entre o ponto mais alto da Europa e o instrumento de escrita mais elegante e sumptuoso do Mundo! A relação premium entre o cume do Monte Branco coberto de neve e a estrela branca no cimo de cada caneta.

Objeto de culto. Meisterstück Solitaire Royal é o nome da consagração da marca alemã. A obra prima revestida de glamour e delicadeza. De uma beleza eterna e da magnificência dos diamantes… e o movimento dos dedos acompanha a mais célebre peça de luxo em todo o mundo.

R www.montblanc.com

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/ UNIQUE

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/anselmo 1910 a mestria da joalharia A delicadeza do detalhe da alta joalharia. A elegância de um todo enobrecido por 449 diamantes em talhe brilhante. A imperiosa obra de arte em ouro branco concebida pela mestria dos joalheiros para a casa Anselmo 1910, que enche de brilho e glamour o universo feminino numa ocasião do ano muito especial. Uma coleção absolutamente encantadora de peças de joalharia em ouro branco ou rosa e diamantes. Irresistível!

R www.anselmo1910.com

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/panerai Autenticidade no tempo Tradição. Autenticidade. Os valores da Officine Panerai patentes no Luminor Submersible 1950 Amagnetic 3 Days Automatic Titanio – 47 MM. O novo modelo que prima pela elegância, aliando a criatividade à constante pesquisa de soluções técnicas avançadas. A fórmula eficaz para a inovação, que se traduz, acima de tudo, na funcionalidade interpretada pela elevada resistência aos campos magnéticos e à

água. A propósito, faz mergulho? Por trás do incontornável mostrador preto está o calibre automático P.9000, produzido pela manufatura Panerai em Neuchâtel, o qual incorpora um sistema de ajuste do ponteiro das horas, movendo-o para trás ou para a frente em intervalos de uma hora, e da data.

R www.panerai.com

/ UNIQUE

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/Hotel Unique /São Paulo NAVEGAR EM DOCA SECA Hotel que é escultura, que é arquitetura, por onde se caminha, permanece e adormece: Hotel Unique, São Paulo. Ruy Ohtake, arquitetura, e João Armentano, design interiores, redesenharam um dos bairros mais exclusivos de São Paulo, com um hotel excêntrico e unique, na forma e atitude. Uma caravela imponente em doca seca, atracada em bom porto. Ohtake cria um edifício como um barco, de casco verde e janelas circulares e deixa-nos navegar numa arquitetura arrojada e intemporal. Armentano mistura detalhes hi-tech com

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UNIQUE /

elementos naturais e peças do mundo, criando um ambiente ultra-cool; interior de geometrias eliptícas e curvas longas, equilibradas com rectângulos e quadrados: design coeso de excelência. O Hotel Unique, grupo Design Hotels™, é um navegar seguro de arquitetura e design contemporâneos que no convés, no rooftop bar, com São Paulo a seus pés, o deixará sem fôlego, se conseguir desviar o olhar da piscina vermelha paixão...

R www.hotelunique.com.br


/restaurante Pedro e o lobo /Lisboa Sem ilusões ao palato Nos idos anos 1950’ fora uma galeria. Hoje é um ambiente sofisticado que preserva as suas memórias a cada detalhe. Falamos do restaurante Pedro e o Lobo, em Lisboa. Um projeto de arquitetura de Luís Baptista, sob a orientação do sentido do palato dos chefs Diogo Noronha de Andrade e Nuno Bergonse, com o aval da relações públicas Patrícia Baptista e de José Maria Vieira da Silva. Todos sócios de um espaço con-

finado à elegância, ao inconformismo e à criatividade. Não! Não é mentira! As palavras fundem-se nas propostas tentadoras e provocadoras dos menus inspirados nas raízes gastronómicas portuguesas e mediterrânicas. O melhor é experimentar! Dê corda ao palato!

R www.pedroeolobo.pt

/ UNIQUE

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/munnadesign

Becomes Me

Na Mutante gostamos de dar espaço, no nosso espaço, ao design nacional, de qualidade indiscutível; gostamos de partilhar boas notícias desse design e de ajudar a elevar, ainda mais, o que tão bem por cá se faz. A Munna está de parabéns porque uma certa senhora dona poltrona, a Becomes Me - design by Mónica Santos, foi apenas e só considerada a Melhor Cadeira do Mundo, a grande vencedora na categoria dos prémios International Design & Product Awards 2012! Uma cadeira que nos envolve, que se torna um prolongamento do nosso corpo, galardoada pela

iniciativa da revista Design et al que distingue anualmente o melhor do design de interiores, da arquitetura e da inovação em todo o mundo. A Munna é Josephine, que voa para Houston, que se sente Femina, que revisita o nosso Heritage com Susana Martins, que é um Candy muito doce... e tão Caprice com a Inês Caleiro. A Munna, que não abdica de ter todas as suas peças manufacturadas, vê o seu trabalho bem reconhecido, com merece, tendo em Becomes Me o melhor dos mundos... Sente-se e vai perceber a razão!

R www.munnadesign.com

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/ UNIQUE

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/castelbel & portus cale

alma de cá

texto sara quaresma capitão fotografia joão pedro rato

Vê, cheira, sente, experimenta, inspira, volta a sentir. Aromas, óleos, perfumes, sente, usa, abusa, volta a sentir. Espírito, alma, imagens, sente, vive e volta a sentir. Experimenta uma memória com mais de 300 anos.

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Experimenta uma memória com mais de 300 anos, lá dentro. A suavidade secular da base vegetal com as mais requintadas fragrâncias: cheira! Um conceito que se manteve igual, um processo que se modernizou, lá dentro, porque nunca se deixou de sentir. Vê o exterior que continua na memória do artesanal, do personalizado, da individualidade de cada produto teu. Cada um é embalado individualmente na memória do gesto, no segredo da mão que termina, no sentimento de savoir faire que faz de cada unidade, de fragrância exótica, o desejo de cada individualidade nossa, usa e abusa porque as novas imagens são da alma. Tudo aqui alimenta a tua alma com o espírito de Portugal, é essência de cá: vive o que é teu! Os nossos aromas, as essências do solo, as fragrâncias do nosso calor... Uma imagem de cá, para lá, para além de cá. Não deixes de inspirar a cada nova unidade. Do Porto e para o mun-

do com a palavra exquisite gravada nas entrelinhas, nas arestas que moldam o papel de cada produto e por dentro: vê e experimenta! O interior vem de há tanto tempo que a memória se perde na data, se não voltares a sentir. O exterior, espelho refletido do puro bom gosto, tem memória mais recente: vê e comprova. Não fosse a história feita de passados muito distantes, distantes e menos distantes; sente as imagens e volta a experimentar. Castelbel é para os teus sentidos uma ópera com várias árias que buscam memórias de espaços, de perfumes, de momentos... É um nome que tem no Castelo da Maia a sua inspiração: o Castelo belo da Maia. Porque o Castelo é imagem que te leva a sonhos românticos carregados de traços e imagens de encanto e beleza: abusa! Portus Cale, tão clara e simples leitura: espírito do Porto que, por acaso do destino, nasce por desejos de lá.

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Bem hajam por este delicado sonho concedido. Ambas apelam aos arabescos, ao desenho barroco romantizado, a algo régio que te move e encanta, a um pouco de excentricidade floral e à tradição porque, ainda hoje, não vives sem tradições e passado, porque o romantismo não é só do século XIX, porque os produtos que te oferecem, para ti ou para o teu espaço, são ricos e elaborados para um público elegantemente elaborado. É a confiança da sonoridade dos nomes, das imagens gráficas, do dentro que é perfeitamente e eximiamente antigo, dos aromas que te clarificam recordações. A memória modernizada da produção, aliada à inovação de uma imagem, vicia-te, prende-te, cativa-te, enamora-te, apaixona-te... Porque o mundo das memórias é hoje, é mutante e é Castelbel & Portus Cale: fazedoras de memórias dos teus sentidos. d

R www.www.castelbel.com

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/Hermès La Maison!

Élégant déplacé

texto sara quaresma capitão fotografia Tommaso Sartori

Quando disse Hermès, para a tua casa, sabias que só podia ter esta movida, de exímia elegância!

Pára. Olha e diz que reconheces o estilo, o requinte, a sobriedade, a elegância... O espírito de uma marca, de uma identidade, que preenche, agora, a tua casa. Hermès é a funcionalidade de cada peça, a cor de cada elemento, a textura de cada tecido, a forma de cada objeto, o movimento de um design retro intemporal, imbuído de puro conforto. Diz que sim. Diz que é de se ficar rendido à qualidade exímia do conjunto. Sente que nada mais te preenche o espaço com

esta

perfeição.

Sente,

quando

te moves, que o teu espaço está criado com a imagem do luxo exclusivo francês, com assinaturas singulares: Enzo Mari, António Citterio e RDAI [Rena Dumas Architecture Intérieure].

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TRENDY /


/ TRENDY

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Com Enzo Mari é elegância sem afeta-

Já António Citterio, apaixonado pela tradição

ção. O trabalho direto com os artesão

dos decoradores franceses, vê na atenção de-

da casa Hermès deu-lhe a segurança

dicada ao savoir faire e à qualidade dos ma-

e o conhecimento do trabalho do couro, on-

teriais um sinónimo de criatividade, tradição

da a marca é incomparável. Vê como se des-

e funcionalidade. O mobiliário do quotidiano

taca a essência de um elemento, mantendo

é reexaminado, as tuas cadeiras recriadas:

apenas a funcionalidade a brilhar. Formas

cadeiras laterais, cadeiras de leitura, cadei-

puras, sem falsos complexos ou adornos

ras de amor, chaise longue. Encanta-te com

burlescos.

as matérias utilizadas: madeira, couro e metal, justaposições que te vão surpreender.

A sensualidade das peles unida à mais nobre

Vais querer fazer todos os objetos viver.

das madeiras. Formas retas, formas ovais, formas livres trabalhadas com mestria. Már-

São narrativas, histórias em tecidos e materiais

mores de veios bege, rosa, marrón; âmbar,

diversos que vais querer ouvir contar... Estas

ouro, vermelho, ébano... Cores distintas. Sen-

peças são o espírito da tua casa. Repara como

te como não existe espaço para o supérfluo.

o sofá cruza as pernas, repara como Citterio te

Move-te e vê a atenção dedicada aos mate-

lembra as origens no Egipto e na Grécia com

riais e a forma inflexível como foram tratados.

os seus bancos dobráveis. Tudo te conta his-

O respeito absoluto pelo fabrico artesanal.

tórias. Com tudo faz a tua história.

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Terminemos, brevemente, com Sellier Chair,

gulo exato; medida de assento perfeita; pernas

eterna referência da Hermès. Esta peça ficou

na proporção ideal... Que mais dizer quando o

nas mãos da RDAI, fundada em 1972 por Rena

objeto que vês é tão primoroso? d

Dumas. Que tal? Com ou sem braços, completamente cobertos em couro, espaldar de ân-

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TRENDY /

R www.hermes.com


/António Bernardo

O designer e o artesão

Elegância. Sensualidade. Sofisticação. As criações do brasileiro António Bernardo levam impressas a sua inquietação artística e a sua leitura do design contemporâneo. Cada peça carrega o movimento, que lhes confere formas variadas e instigantes. Cada jóia manifesta o encanto de uma obra-prima apresentada numa linguagem ora orgânica ora geométrica ou minimalista, de uma sensibilidade artística indubitável.

O despertar de emoções. O convite ao olhar e ao toque. Considerado um dos 60 melhores designers do mundo pelo livro “Modern Jewellery Design”, de Reinhold Ludwig, António Bernardo prima pela excelência da joalharia artesanal e pela utilização de sofisticados processos industriais para conceber jóias, à semelhança de objetos esculturais, quebrando as fronteiras entre o designer e o artesão.

R www.antoniobernardo.com.br / TRENDY

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/Anka zhuravleva

Rússia sem newton

fotografia Anka Zhuravleva

Anka, que fizeste ao Sr. Newton?! Espera! Justificação à vista… Cedeste à tentação, a maçã virou compota e uma “Gravidade Distorcida” passou a reinar, certo?!

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[the jar with fireflies]

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Salta [mermaid]

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Voa [away to the sky]

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Fica em suspenso... [cloud dreams]

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Concentra-te! [the rider]

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Aguenta, s贸 mais um pouco. [close call]

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Deixa-te cair e… [sweet dreams]

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Deixa os sonhos viverem! [sleeping]

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/joana vasconcelos

viagem com obras soltas

viagem por sara quaresma capitão e joão pedro rato

Estás aí? Apetece-me viajar nas obras da Joana Vasconcelos com palavras soltas. Estou a jogar uns “War Games”, mas alinho na “Contaminação” do meu jogo pela arte.

Sabes que a Joana Vasconcelos começou, há 17 anos, a viajar na arte e pela arte? Atenção! Ainda não tem a maioridade na arte, mas é maior. Em 1994 começa por criar “Bunis” e sonhava viajar longe, com certeza. Se calhar não tão cedo… Aconteceu. Era uma vez uma “Noiva” que se casou com a arte... Sim, “Step by Step” a Joana tem levado a sua arte a muitos espaços. Em noites mal dormidas, com dragões nos sonhos, deve ter desejado ter uma “Cama Valium”, para dormir melhor! No entanto, viajar com as suas criações só pode ser “Wash and Go”, isto é, sem stress!

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Sem stress, mas carregada de fantasia, leia-se “Ouro sobre Azul”. Em viagem e entre viagens, pergunto-me: Onde será o seu “Ponto de Encontro”? Onde é que a Joana se encontra e é arte no estado puro? Casa, só pode ser a casa. Não há nada como voltar ao ninho. Um-dó-li-tá “Pires”, “Watson”, “Mago”, “Dimitri” e “Silvestre”. Os gatos da Joana não têm botas nem me parece que tenham sete vidas, mas tal como a Joana, voltam sempre a casa. Creio que as viagens de Joana Vasconcelos na arte não têm “Una Dirección” definida. Seguem com o seu “Nécessaire”, de “Janelas” em “Janelas”, à procura de inspirações diversas.


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Temos de beber de muitas fontes. Agora, numa viagem ao passado, para que movimento artístico ela viajaria? De que movimento gostaria de ter a “Vista Interior”? De todos! Para depois voltar ao presente e “Tutti Frutti” nova arte, digo eu. Espera! Lembrei-me de algo. Se há coisa importante numa viagem é o que segue nos nossos pés. A Joana deu sapatos a “Marylin”, a “Carmen Miranda”, a “Cinderela”, a “Dorothy”… Mas como serão os seus sapatos? Altos, como de “Marylin”? Compensados, como de “Cármen”? Com cristais, como de “Cinderela”? Vermelhos, como de “Dorothy”?...

Uhm… Diria vermelhos, mas rasos, como os do Capuchinho Vermelho. E já que estamos numa de “Fashion Victims”, qual é o “Style for your Hair” quando viajas? Alguma vez fizeste uma “Mise”?! Estamos a falar da Joana Vasconcelos. Não tornes isto ainda menos lógico. Ok, desculpa. Voltemos à arte, com todo o gosto. Lembras-te quando viajámos no seu “Jardim do Éden”, no CCB, e nos sentimos em Wonderland? Um labirinto escuro, mas seguro. Negro, mas colorido. De plástico, mas vivo. Parecia mágico. Como achas que ela sente as viagens do público pela sua arte, as nossas impressões?

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Penso que este “Portugal a Banhos”, começa a dar-lhe banhos de amor à arte, como a Joana merece, mas ainda é pouco. Isto é, tem “o Mundo a seus Pés”, nós sabemos que tem. Mas nesta viagem a dois, público e Joana, temos de ser a máxima: “We are the best Team”! Concordo! Tens razão. E na viagem com a crítica, vês na Joana um “Coração Independente” preto, vermelho ou dourado? Critica como algo construtivo, claro. “Tolerância Zero” para a não crítica. Ela é dourada. Para nós, vale ouro!

1 A Noiva, 2001-2005 Tampões OB, aço inoxidável, fio de algodão, cabos de aço 600 x Ø 300 cm Colecção António Cachola, Elvas Obra produzida e restaurada com o patrocínio de Johnson & Johnson Créditos: David Luciano/Cortesia Museu Colecção Berardo, Lisboa

2 Carmen Miranda, 2008 Panelas e tampas em aço inoxidável, cimento / 270 x 150 x 430 cm Colecção particular, Londres / Créditos: Ana Carvalho

Vejo as suas peças como um “Pas de Deux”, uma “Família Feliz”. Para onde a Joana viaja, a arte vai sempre consigo, como “Strangers in the Night”… Parece que tenho Sinatra a cantar-me ao ouvido… Gostava de viajar com ela e jantar com “Castiçais” (pode ser o “Menu do Dia”) ou fazer uma “Pic-Nic Party”. Não gostavas? Claro que sim! Para mim, é uma “Vitória” o trabalho de Joana Vasconcelos. As suas peças são “Ópio” para um povo saudável, uma viagem à “Ilha dos Amores” das Artes. Quais serão as “Flores do [seu] desejo” para viagens futuras? Serão flores sem fim, mas umas serão sempre mais preciosas que outras... Como terminarias esta nossa viagem por obras soltas? Com “Sr. Vinho”, “Miss Jasmine” ou um “Sugar Baby”? “Sugar Baby”! Acabei o jogo. Vamos ver por onde andam as obras da Joana. Põe o CD do Sinatra a tocar!

3 Tutti Frutti, 2011 Formas de praia em plástico, aço inoxidável / 400 x 220 x 220 cm Colecção da artista / Créditos: Atelier Joana Vasconcelos

4 coração independente preto, 2006 talheres em plástico preto opaco, ferro pintado, corrente metálica, motor, cd / 382 x 222 x 70 cm colecção musac – museo de arte contemporáneo de castilla y león, leão \\ canções interpretadas por amália rodrigues: estranha forma de vida (alfredo rodrigo duarte/amália rodrigues), maldição (joaquim campos da silva/armando vieira pinto), gaivota (alain oulman/alexandre o’neill). [autorização de iplay – som e imagem/(p) valentim de carvalho] créditos: © imagen mas/cortesia musac, leão

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Agradecemos a Joana Vasconcelos, e seu atelier, o apoio para a realização deste trabalho. Todas as palavras que se encontram entre aspas são nomes de obras de Joana Vasconcelos. d

R www.joanavasconcelos.com


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/escola da noite

Faz-me Companhia TEXTO sara quaresma capitão e joão pedro rato FOTOGRAFIA escola da noite

Escola da noite... fala-nos do teu dia. Diz-nos como te sentes, Escola, ao fim de quase 20 anos a viver de Noite? Sinto que ainda há muitas noites para viver. Os anos passaram e tu ganhaste o teu horário, o teu espaço. Porque te chamas Noite, Escola? Ainda te lembras porque te quiseste chamar assim? Escola da Noite… Nasci por oposição à Escola de Dia, ao ensino do dia. O teu dia é a Noite, não é? Tu respiras melhor à Noite, o teu ritmo é mais certo, tens mais força, o teu amor brilha mais... Confessas? É um paralelismo ao Teatro. Noite enquanto metáfora da criação teatral. É a magia da noite…

1 Beckett - Primeira Jornada 14ª produção © A Escola da Noite, Dezembro 1996

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Porque escolheste tu a Noite desta cidade do Mondego? Porquê a cidade de capa negra? A cidade que tantas vezes se veste de negro, de dia... Porque era necessário ficar… porque a cidade precisa(va). E noite desta cidade, achas que ela te merece? Acreditas que ela te ama na mesma medida? É uma preocupação que não posso ter. Quero ser amada pelo que sou – serviço público. Não peço que nos amem mais ou menos; peço que deixem a Companhia fazer serviço público. Qual foi a noite das noites? Qual foi a noite que te sentiste mais Escola, mais teatro, mais arte das artes? Em duas décadas deve ter havido uma noite especial, não digas que foi a primeira… Essa não conta. A noite de estreia de cada um dos espectáculos... e a noite em que me estreei aqui, no Teatro da Cerca de São Bernardo.


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Já sonhaste em viver outras noites? Em te mudares, Escola, para outros territórios estrelados? A noite de ir e voltar sim, já o fiz. Já levei um pouco da minha casa à Guiné, a Angola, a Moçambique, ao Brasil... Mas partir, para sempre, não! Diz-nos sem medo, sem meias palavras, já alguma vez pensaste abandonar o teu dia? Alguma vez tiveste medo do breu que te envolve? Do manto que escolheste para te aquecer...

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Sim, muitas vezes. Há momentos que... Mas com muita insistência, muita resistência e persistência continuo sempre... as três deram-me esta casa, por exemplo. A tua casa vive no escuro, mas nós não tivemos medo e viemos. É esta a casa dos teus sonhos? É este o sítio onde és e serás feliz? Com aquelas cadeiras em escadas para que todos te possamos ver e ouvir... É a partir daqui que procuro a felicidade, mas sinto que a casa devia ter mais luz. Estou no centro, mas não estou visível... No entanto, é há tantos anos o sítio das Artes, é sempre o resgate das Artes.


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O teu Sol é a nossa Lua. Se te pedíssemos para sair com Sol, onde nos levarias? A seguir à tua casa, qual o sítio que mais amas e onde amas mais a Noite? És uma eterna apaixonada, só podes ser... para nos prenderes assim, com histórias contadas com públicos. Leva-te a continuar a noite. Da fruição ao deleite, para continuarmos a fruir o que vivemos e nos deleitarmos com isso.

Tens Gil Vicente com um dos predilectos da tua Noite. É talvez a história que mais gostas de contar ao teu publico. Que tanto de chama para ele Oh da Escola? Sentes que em 20 anos foi ele quem mais te cativou? São onze peças com textos dele, certo? Gil Vicente é... quase o autor residente da companhia, é experimentalidade, é fazer uma escola, é o respeito pela palavra... é o desafio artístico.

2 Lenz de Georg Büchner • 15ª produção • 1997

3 Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente • 8ª produção • 1994

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Qual é a deixa Vicentina que nos dirias? Qual a frase de Gil Vicente que explica o teu especial amor ao autor? “Sus!”. Podia, se calhar, dizer também..., não! É “Sus!”, é anda vamos, vamos embora, continuar. É desafiar. Representaste outros grandes nomes, como Kafka, Tchekov, Beckett..., mas um Shakespear? Nunca pensaste representar “Um Sonho de uma Noite de Verão”? Ou as tempestades e fadas com mercadores e venenos não são aquilo que dá mais magia à noite? É só uma pergunta... Já tive tantas vezes para o representar... mas a logística, o número de actores, não me permitiu. É uma vontade, sem dúvida. Há algum autor que não tenhas vontade de representar? Há alguém que tenhas a certeza que não faz parte da tua estante? Tenho vontade de representar tantos que não tenho tempo para pensar em quem não quero... Tantos livros para ler... Quem gostarias de ver, um dia, no teu público? Mais público, diversos públicoS, públicos diversos... E no teu palco? Gostaria de continuar a ver...

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Um sonho para a Escola... Sonho em estabelecer e manter condições para continuar a existir. Sonho em continuar a ser e fazer serviço público. Sonho em fixar e fazer mais teatro. Um sonho para a Noite... Que ela seja mais noite. Que ela seja mais comprida.


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Uma imagem que simbolize estes 20 anos. “Faça-nos companhia”, no duplo sentido da palavra. Façam-me companhia pois, sem a vossa companhia eu não existo. Esta pergunta, a 20.ª fica para daqui a 20 anos! Porque queremos voltar para comemorar mais 20 anos de Teatro em Coimbra, à Noite, na Escola.

Um muito obrigada à Isabel Campante por ter dado voz à Escola da Noite para esta conversa. d

R www.aescoladanoite.pt 4 Play, textos “Passos”, “Acto sem Palavras II”, “Play” e “Catástrofe” de Samuel Beckett 37ª produção • 2006

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/Júlio Pomar

Sem hora marcada

texto sara quaresma capitão fotografia joão pedro rato

Final da tarde. Toca-se à campainha. Abre-se a primeira porta, passamos pelo átrio e é a vez de se abrir a segunda porta. Depois, é o sorriso que se abre. É um cumprimento esperado e caminha-se para o jardim, para conversar com Júlio Pomar.

1 júlio pomar no jardim da sua casa

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O que é o Quotidiano para Júlio Pomar: é mais o “Rifão Quotidiano” de Henrique Leiria “Uma nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontece…” ou é o “Cotidiano” de Chico Buarque: “Todo dia eu só penso em poder parar; meio-dia eu só penso em dizer não, depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão”? É tudo junto. É a incapacidade de o preenchermos, de estar completo… o não da rotina. A que horas começa o seu quotidiano: às 00h00m ou não tem hora marcada? Começa quando o corpo quer e o espírito manda. É assim, concorda?

2 Torneio, 2005, cálamo e tinta-da-china sobre papel, 21 x 49,5 cm

3 António Lobo Antunes, 2002, carvão sobre tela, 100 x 80 cm

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Sim, mas começa quase sempre cedo. Sem sono, claro, e sem cansaço acumulado. Não há compromisso com a rotina, não gosto de sistemas impostos. O dia acontece… Sem o sótão, o atelier, o dia a dia perde o sentido, porque pinta todos os dias. Sem um lápis, um pedaço de papel, um tubo de tinta, uma tela... É um vício. Não há quotidiano sem vícios, ou há? A rotina é quase inevitável, mas tem de existir nela, sem dúvida, um prazer misturado. Tudo pode ter tendência a uma obrigação esvaziada. Há que evitar isso e ver, aqui, o vício no bom sentido. Hoje, o dia a dia, é como um traço livre que corre num papel ou como uma pincelada estudada e pensada numa tela? Ou sente que não é nada disto? Os projectos devem manter-se abertos, prontos a receber o que se vai descobrindo e encontrando. Gosto muito do acaso e do que este traz de riqueza para o meu quotidiano. É como ouvir um poema no local, no tempo e na hora certa, por acaso.


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4 Julgamento de Salomão (A mãe boa), 1993 caneta e marcador sobre papel vegetal, 29,7 x 42,2 cm

5 Julgamento de Salomão (Soldado com bebé), 1993 marcador sobre papel vegetal, 42,2 x 29,7 cm

6 Palhaço Violoncelista, 1987, marcador sobre papel vegetal, 90 x 74,5 cm

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Pessoa, Cervantes, Poe, Camões… Todos já alimentaram, num dia a dia, a arte do sótão de Júlio Pomar. Quem que lhe ofereceu o Quotidiano menos banal? Cervantes, é sempre Cervantes. Como bom português, que sou, nunca aprendi espanhol a sério, por causa da proximidade da língua. Por isso, vou sempre descobrindo novos pormenores, a cada nova leitura. É o incessante jogo da descoberta que Cervantes me oferece. Nas suas obras há uns quantos bichos – tigres, cisnes, macacos, o gato das botas… o “The Raven”, do Poe, ao lado do Pessoa.


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Qual destes tem o quotidiano mais invejável para si? O cão! (risos) Porque o cão domesticado é quase aquilo que todos gostaríamos de ser. Sim, o cão, apesar de eu nunca ter tido cães. Um cigarro e um olhar sobre o Tejo. Um café e um passeio por Saint-Germain-des-Prés. Um de dois quotidianos. Onde é mais Júlio Pomar? Vou sempre acabar no Tejo da minha Lisboa! Sou de Lisboa e quando vivi em Paris percebi melhor como era Lisboa e que prazer era descobrir, a cada dia a dia, a cidade. Lisboa é a minha casa!

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O quotidiano de Pomar é sempre Mutante. Porque o olhar todos os dias muda, porque há sempre algo que se pode melhorar. Há aquele quadro, naquela série… É verdade? Sim. Enquanto os quadros estão no sótão são passíveis de ser mudados, alterados… Só largo um quadro quando outro se impõe, mas o meu problema é não ter a certeza de quando é a hora de largar. Certeza tenho apenas quando um quadro sai de casa. Nunca mais olho para ele. Aí, ele fica terminado.

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Numa entrevista dada a um jornal, Júlio Pomar diz que sempre que uma criança lhe pede um desenho (mesmo que instruída sabiamente pelos pais) nunca diz não. Se num dado quotidiano dois estranhos lhe pedissem dois desenhos, que lhes diria? Penso que diria que sim, que fazia. Penso que seria uma forma de colocar uma pedra sobre o assunto. No entanto, tenho uma relação muito pessoal com o meu desenho…

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atelier do pintor júlio pomar agradecemos ao pintor júlio pomar e à fundação júlio pomar a disponibilidade para a realização desta conversa.

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Em jeito de “até já”, pois esta conversa já vai longa, em 84 (quotidi)anos… o que ainda falta ao quotidiano de Pomar? Tudo! Só pode faltar tudo. Já desisti da viagem à Índia, mas não sou infeliz por isso. Falta-me tanto acaso para viver… E depois do jardim e do sótão, com conversas soltas sem hora marcada, a segunda porta abre-se de novo, seguida de um adeus já com saudades. Passamos novamente pelo átrio e abrimos, por fim, a primeira porta… d


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/José avillez

em constante movimento

texto patrícia serrado fotografia Nuno correia

Qualidade é disciplina na cozinha do Belcanto. Assim como uma panóplia de sentimentos que acompanham o contínuo ensaio no tempo. O movimento das ações que embarcam numa viagem pelo imaginário do chef José Avillez. Dos comensais e apreciadores da boa comida espera-se a descoberta de palavras insinuadas numa carta, ao que se segue o desafio ao olhar. E, por fim, a provocação do palato, de sensações inusitadas…

“Há momentos de maior reflexão. Mais do que a arte está o tamanho do artesão. A repetição de cada prato. Como se a música fosse a parte da criação, da composição”. A arte é o ofício primário de um chef. O reflexo da exigência do artesão. A demonstração da obra-prima do mestre. A persistência que invade o tempo até que o resultado se traduzida na perfeição. “Depois, há a repetição diária. Fazer o mais parecido possível ao primeiro prato que se fez. Mas poucos são aqueles que conseguem tocar um concerto igual ao outro…”

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O rigor é uma das palavras-chave do artesão. Mesmo quando o trabalho implica momentos de liberdade. Liberdade de movimentos que acionam o pensamento e dão azo à imaginação, que se funde na criação de pratos memoráveis. “Há o rigor pensado, testado. Há uma harmonia, um equilíbrio.” Aquela que “(…) consiste na naturalidade da alma humana superior” (Livro do desassossego, Fernando Pessoa) talvez… “Há pratos que nascem e, depois, são afinados.” Outros permanecem no tempo até atingirem o grau de excelência. Em suma, “no Belcanto, a cozinha provoca o pensamento”. “Para ser grande, sê inteiro” (Odes, Ricardo Reis). A citação, do heterónimo de Fernando Pessoa, está inscrita na instalação criada pela designer Joana Astolfi. Uma nota de boas vindas ao Belcanto, de José Avillez. Uma homenagem a Fernando Pessoa e um prolongar do Menu do Desassossego. “Porque provoca desassossego a quem está a comer.” Porque a cozinha de José Avillez incita a provocação, com pratos tradicionais que desafiam, primeiro, o olhar e, só depois, o palato. “Despertam memórias e lugares.” Afinal, nem tudo o que parece é. Um processo que instiga o pensamento ininterrupto, envolve a estética de cada prato, enaltece a harmonia dos sabores. Um repto inscrito em manifestos marcados pela sabedoria

do chef. “Insinuações e provocações que se apresentam de maneiras diferentes.” O espelhar da personalidade do restaurante e de quem prepara cada prato. Inconformista por natureza, José Avillez denota o desejo profundo de incrementar a sabedoria. “A atitude de estarmos abertos e livres para aprender é que nos faz evoluir e vivermos melhor cada dia. Uma ambição saudável que dá imenso trabalho, mas dá-me um prazer enorme.” Um gosto que respira contemporaneidade no coração do Chiado, mesmo ao lado do célebre Teatro São Carlos, o Belcanto. “Inspiramos na tradição e mantemos a originalidade e a identidade do Belcanto.” Espaço reinventado e acolhedor confinado à excelência à boa mesa, onde a cozinha é um prato especial que transmite sentidos e desperta sentimentos “ou consiste, muito simplesmente, num conjunto de garfadas que fazem um prato e que dá prazer a quem se senta nas nossas mesas.” “A expressão culinária de hoje pode ser muito diferente daqui a seis meses ou um ano”. Até porque a evolução é uma constante na cozinha de José Avillez, é o resultado da aprendizagem e da experimentação diárias. d

R www.joseavillez.pt / NEW

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a jigsaw

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/a jigsaw

da memória

ID by Carlos Gago / Mau Feitio - David Gaspar / fotografia Sofia Silva / texto João Rui espaço Hotel Quinta das Lágrimas / produção mutante

Quando nos roubarem as memórias, regressaremos incólumes à condição de tabula rasa, atónitos por não conseguirmos encontrar correspondência entre as cicatrizes do corpo e as desenhadas pelo estilete do tempo ao longo do nosso caminho. E ainda que na maior parte das vezes se afigure que a vida não é curta mas demasiado longa, assim o é apenas porque estas incisões de profundidade diversa guardam todos os nossos segredos. Se soubéssemos onde nos esconderam as chaves do esquecimento, a escuridão que se encerra nos olhos não correria a aprofundar os sussurros passados que nos vão convencendo que melhor seria o silêncio de tudo isto.

Se as memórias fossem apenas factos, dispostos a uma interpretação mutante então teríamos a desculpa de um historicismo falhado. Mas assim não o é, porque independentemente da distância que conquistámos entre nós e esses abismos, somos acrobatas o suficiente para reconfigurar as cordas do trapézio onde nos balouçamos por cima deles. Foi a memória da construção da nossa identidade que nos compeliu a descrevê-la neste novo álbum “Drunken Sailors & Happy Pirates”. Não há aqui lugar algum para a catarse porque nada do que permitimos nesta embarcação nos poderia prender mais ao nosso coração.

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Então, quando um dia nos roubarem as memórias, esta embarcação jazerá no fundo do mar que já não somos. d

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/Gonçalo M. Tavares

A história de Listo Mercatore

ilustração sara quaresma capitão

De Listo Mercatore se podem relatar duas vidas: uma, a mais longa, é também a mais vazia: viver só por fora, nas mercadorias e na ambição direccionada para o ouro. Desta primeira vida o nome: Mercatore; vender caro o que antes foi comprado barato. Esta a única filosofia. A ética da aparência, da riqueza a qualquer custo. A segunda vida da sua vida começou depois de um encontro fortuito com Diógenes, o Cínico, conhecido filósofo que jamais se sentia intimidado por alguém. É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre - o Grande - à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua imponente comitiva (como lembra Maquiavel: o poder naqueles tempos avaliava-se pela poeira levantada pelos acompanhantes de um homem), Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou: 84

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- Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer? Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu: - Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol. Ficou célebre a réplica de Diógenes. Não é único mas é raro: a filosofia afirmar a sua autoridade diante o poder. (Só mais um acrescento, para concluir a história. Alexandre engoliu a afronta e calou-se. Mais: terá dito, umas horas depois, à sua comitiva: - Se eu não fosse Alexandre, o Grande, queria ser Diógenes. História admirável, de facto: o poder com inteligência para reconhecer a audácia da sabedoria; mesmo assim, ninguém maior que o espelho: inalcançável vaidade da espada.)


Aí, tem uma supresa. O seu amigo não o pode receber e inúmeros funcionários pedem dados, confirmações:

Mas desviámo-nos em demasia. Esta é a biografia de Listo Mercatore. Da importância de Diógenes para a mudança de rumo desta vida, falaremos mais adiante. Por agora, olhemos de novo para a riqueza e também culpa que ela parecia trazer: desconforto num corpo demasiado bem tratado. Assim acontecia com Mercatore. De manhã enganava, à tarde vendia elogios a quem ainda lhe podia oferecer poder e ouro, mas à noite, com a falta de luz vinha também a falta de certezas. Um exemplo: um sonho: Listo Mercatore foge dos seus inimigos, dos homens a quem enganou nos negócios; e entra, assustado, em casa do único amigo que lhe resta.

- Que pretende do seu amigo? Tem audiência? Listo olha para trás e vê os inimigos prestes a alcançá-lo. É aí que acorda.

Antepassado do famoso poeta persa Omar Khayyam -, Listo Mercatore seguia na vida os seus conselhos que muitos séculos depois o poeta escreveria:

«Abre-te, irmão, a todos os perfumes, a todas as cores, a todas as músicas. Acaricia todas as mulheres. A vida é breve e voltarás breve à terra, para ser, talvez, a água de Zemzem ou de Selsebil.» / TODAY

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Seguia os conselhos, diga-se, numa parte: nas mulheres e no prazer. Desprezava, no entanto, a ciência e a filosofia. Obcecava-o, mais que tudo, o vinho («Bebe vinho. Receberás vida eterna.»). Bebia de manhã para ter coragem para enganar, à noite para esquecer os efeitos dessa coragem e para adormecer.

Porém, por mais que se ande, o que se andou permanece no corpo: chama-se cansaço, fadiga; ou memória. Ele agia e as sua acções permaneciam nos ossos, pesavam. Como aquele homem que vive com um punhal espetado nas costas e não tem determinação para se livrar da lâmina ou, em último caso, para pedir ajuda.

Para alimentar o estômago, os sentidos e o desejo, precisava de dinheiro. Os banquetes e as mulheres justificavam as farsas, o que por vezes se humilhava perante os poderosos, os roubos ostensivos.

Foi nesse período que a vida de Listo Mercatore se cruzou com a de Diógenes, num episódio rapidíssimo, mas decisivo.

Dele poderiam dizer os estóicos: as necessidades ocupavam-lhe o dia, os prazeres a noite. Não era culto o bastante para ter lido o Bhagavad Guitá. Da Índia conhecia algumas especiarias, nada mais. No entanto, sem o saber, seguia um dos preceitos ali abordados: agir sem pensar no resultado das acções. Se necessário, enganava; se necessário, roubava; se necessário, matava.

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Descia Mercatore umas pequenas escadas quando se deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas. Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse, para Diógenes: - Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisas de comer lentilhas.


E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico? Diógenes respondeu à letra: - E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.

Não foi uma revelação, mas uma confirmação. Era rico, no entanto ainda não morrera. O que ouvira decidiu-o. Ainda tinha vida à sua frente. Nessa mesma noite, perturbado, recusou pela primeira vez o vinho. Um escritor clássico dizia que os jovens apenas precisam da sua juventude para se embriagarem, dispensavam o vinho. Listo Mercatore há muito perdera a juventude. Agora, dispensava de vez o licor.

Listo Mercatore fingiu um sorriso fraco, mas ficou estarrecido. Afastou-se rapidamente.

Acabada a embriaguez passou a recusar as mulheres e os banquetes. Não comeu de imediato, por vontade, o que os pobres comem por não terem alternativa, mas no dia seguinte proibiu o faisão, as carnes raras.

Se acreditasse um pouco mais em Deus, poder-se-ia falar de uma epifania. Mas não; era ateu demais para ver tão rápido.

Em dois meses deu quase tanto ao pobres como o roubara a todos - pobres e ricos durante vinte anos.

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Guardou para si apenas uma pequena casa, um velho criado: o mais fiel; meios para subsistir sem excessos.

Não foi desistência nem conformismo, foi decisão: escolheu viver só, até ao último dia, sem sequer um criado.

Não mais viu Diógenes: não necessitava.

No dia seguinte à sua morte os vizinhos entraram-lhe em casa.

Em poucos anos tornou seca a carne que antes lhe balouçava pelo corpo ao ritmo do fraco pudor. Deixou os mercados; perdeu o nome e o passado. Recusava enganar quem quer que fosse e afastava-se dos poderosos para não ter de os insultar. Dois anos antes de morrer encontrou uma mulher. Apaixonou-se. Acabaram, no entanto, por não se casar. Uma pequena diferença: ela exigia um homem rico, ambicioso.

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Para além do cadáver viram apenas uma mesa de madeira, um banco e uma esteira no chão. O corpo de Listo, o asceta - como ficou conhecido nos últimos anos -, transmitia uma calma incomum. Morrera no meio do sono, tranquilo. Um último facto: naquele dia os vizinhos abriram o apertado compartimento onde ele guardava os alimentos. Estava praticamente vazio. Apenas algu-mas garrafas de água; e lentilhas. d Livro: “Histórias Falsas” Edição: 1.ª edição / Ano: Setembro 2010 / Editora: Leya, SA


/HOTEL INFANTE SAGRES

movimento intimista

texto sara quaresma capitão fotografia Hotel infante sagres

Do nome guardamos a nossa e a tua história. Da nossa, um Infante, uma Ínclita geração, filho da Boa Memória, uma escola, um velho país que descobriu novos mundos. Da tua, um palácio outrora desmontado e perdido em promessas, e a de um novo palácio nascido de uma vontade.

História de uma repetida dualidade, entre o velho e o novo, que torna clara a leitura de teu símbolo. Se na origem de teu nome foste associado à Cruz da Ordem de Cristo, hoje tinhas de ser uma linha de moebius, é ela que te resume. Torções geometricamente matemáticas de mundos unidos.

1 lobby

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2 lobby

3 escadaria de acesso ao primeiro andar

4 restaurante boca do lobo

Representas o velho e o novo mundo... Admirável mundo novo, certamente.

Da vontade, de um homem, foste encomendado. Tornaste-te Hotel Infante Sagres, referência a norte. Mais casa num projeto inicial, habitações appartements unifamiliares, mas hotel acabaste por ser, apenas e só. Tinhas de viver histórias sem fim, de receber ilustres nomes e nobres anónimos, absorver suas histórias singulares, de valor incalculável. Comendador Delfim Ferreira. Indissociável nome do teu espaço, do teu existir. Homem que te deu esta casa, que te reinventou a alma, que te deu o Porto e ao Porto te deu.

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Do teu traço... Não. No teu traço nos perdemos e vivemos, no teu traço nos encantamos. Traços dos “verdes anos” numa cidade antiga que crescia e se redesenhava. Uma envolvente única que te abraça. As estreitas frentes da rua do Almada, barrocos de Torres, fachadas e cornijas, Beaux Arts no meio, Sé e decisões dos 24, e um Movimento Moderno, que em ti, foi temperado com décos. Traços datados modernos, de um estado da arte, de um nome incontornável da arquitetura portuguesa, de um nome que junto de seus pares: Ramos, Cassiano, Segurado... entre outros, marcou perfis, desenhou espaços. A tua paradigmática vizinha, Garagem do Comércio, que lhe pertence.


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Em 50’s eras mais pesado, clássico carregado de neo-barrocos, savoir faire déco, tapeçarias gobelin... Mas os tempos mudam estéticas e tu soubeste acompanhar as mudanças, os movimentos dos estilos, das memórias. Soubeste reinventar-te de novo, sem perder elementos chave como uma tal lareira de talha renascentista. Claro que não renunciaste a Rogério de Azevedo, nem podias, nem querias. É o teu traço, a tua estrutura, a tua matéria, a tua forma, a tua funcionalidade(s) e todos os conceitos e termos que te façam mais arquitetura e hotel. Soubeste manter essa pele e mudar o coração, sem desfazer o Império. Na mudança, de há 3 anos, aliaste-te ao movimento do design português contemporâneo. 94

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Mostras as suas peças, crias a aliança perfeita, revelas a alma das boas ideias. Continuas a abraçar o luxo exclusivo, requintado, sumptuoso, exquisite e fazes-lo tão bem com a Munna, a Boca do Lobo, a Delightfull. Pegas-nos de surpresa quando nos deixas Baccarat e Fornasetti a viver por ali, pegas-nos o sopro quando nos embalas com Nadir Afonso. Sonoridades nacionais e internacionais. Dois mundos, de novo.

5 um dos quartos do hotel

6 angkor wat spa room


Tudo isto com estuques minuciosamente preservados, ferro forjado artisticamente elaborado, bronzes, um vitral de 1945, de Ricardo Leone exclusivo, desenhado só para ti, e para nós, tudo ali, belo e delicado. Peles com que nos encantas e segredos originais que guardas. Os espaços que se adaptam para contar novos segredos, para relembrar novas memórias. Foi assim que criaste novas dinâmicas espaciais para o espaço de um SPA, sem água, mas carregado de momentos terapêuticos. Angkor Wat. Negro que acalma, que serena, que recupera, sinónimo de tranquilidade a oriente.

Tudo em ti guarda histórias, tudo em ti é história antiga e nova.

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Foi também assim, com sábia perspicácia, que agarraste na livraria de teu contorno, a Livraria Avis, e a reviveste no BOOK, onde nos serves menus dentro de livros, onde preservaste e salvaguardaste a memória de funcionalidades passadas. Bem nos lembramos de Platão, à mesa, a acompanhar o nosso repasto. Calma, pensas que não reparámos? Sentimos tudo. Até a sapataria, que por ali habitou e que manténs viva, no bar... Com um bom livro e de pés bem calçados, quem não te recorda? A doce maneira com que nos fazes circular pelos corredores, pelo bar, pelo lobby, pela varanda, o modo como nos respondes aos pedidos mais exigentes, as perguntas mais enigmáticas, com que recebes singulariedades de convidados exuberantes, modestos, famosos, reconhecidos, pops, reais, doutos... Pára. Espera.

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De repente, tomamos consciência: tu não viraste hotel, tu nunca deixaste de ser a primitiva casa, do projecto inicial. És uma casa que habitamos momentaneamente, com realidades distintas. És um hotel que é um prolongamento de uma casa porque nos acolhes, nos dás atenção, nos dás o melhor percurso, a melhor visita... Porque és sempre uma filosofia intimista, ao longo do movimento do tempo.Tu, Hotel Infante Sagres, és casa dos nossos movimentos, dos movimentos de quem, por acaso, cai no teu embalo. d

R www.hotelinfantesagres.pt 7 restaurante bar book

8 sala ceuta


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/marraquexe

mil e uma cores…

texto patrícia serrado fotografia joão pedro rato

… encaixadas em apenas quatro. Um contrassenso? Nada disso! Afinal, ninguém nos impede de lá voltar. As vezes que quisermos! 1 praça jema el fna

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Chegada Noite cerrada. A muralha oculta a cor ocre do dia por debaixo de um laranja-amarelo-torrado sob os focus de luz espalhados ao longo do caminho percorrido de taxi até chegar à entrada da medina. À espera está o responsável pelo riad onde ficamos instalados, que depressa pega nas nossas malas e num marroquino-inglês-

-afrancesado nos pede que o sigamos. As ruas são estreitas e escuras e compridas… O tempo parece não ter fim, pois as ruelas ficam ainda mais estreitas e viram, ora à direita ora à esquerda. Um labirinto eterno iluminado pela lua e, finalmente, a porta. À nossa frente está o Riad Assala.


Primeiro dia Os raios de luz do sol entram pelas frechas das velhas portadas das janelas gigantescas do quarto sem pedir licença. O ponteiro das horas ainda nem sequer está posicionado nas oito! E já estamos acordados. O barulho dos sinos é presença nula por aqui, pois estamos em terras dominadas pela mesquitas com os minaretes, dos quais ecoam as rezas do Corão. Koutoubia. A mesquita, em tons terra, deu o nome à praça despida de mobiliário urbano. Ampla. Apenas isso. E cheia de gente. Mas não em tão grande número como na praça mais emblemática de Marraquexe. A Jema El Fna. Uma multidão de vozes impede o silêncio pronunciar-se. A música encanta as serpentes em movimentos sinuosos no ar. Somos intercetados por uma mulher. “Quer experimentar?” diz, enquanto aponta para a mão. Escassos segundos depois, a reposta é decidida com um misto de certeza e ceticismo: “Claro!” O resultado final prima pela beleza do traço, feito com hena, na minha mão. Perfeito! De repente, as vozes parecem encher, de novo, a praça, ao mesmo tempo que se enche de cor. Múltiplas cores. Tons vermelho, laranja, amarelo. Tons terra. As bancadas de frutos secos e especiarias emanam

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aromas, ora doces ora quentes. Uma mistura de cheiros mistura-se com as vozes, os risos, as notas de música das flautas, os ruídos longínquos dos automóveis… Encantador? Sim! Um outro mundo! Hora do almoço. Bougainvillea Cafe. Da porta da varanda, as buganvílias lilases trepam a parede exterior à nossa frente, num pátio ocupado por corpos que proferem palavras em diferentes línguas… Terminámos a refeição. A intenção é descansar no Riad Assala, pois o calor não dá tréguas! Mas o emaranhado de ruas que compõem o souk parece não ter fim! Chegamos a um cruzamento com indicação para a Jema El Fna. Curioso! Encontramos a célebre Fnaque Berbere – terá servido de inspiração para a homófona cadeia de lojas bem conhecida na Europa? Muitos caminhos depois, estamos de regresso ao Riad Assala. Ao cair da noite sobre o pano de fundo de um branco-acizentado, deliciámo-nos com um repasto no terraço do Cafe Arabe. Magnífico! A noite está esplêndida e a comida ótima! O sorvete de limão e a laranja com canela? Deliciosos! 2 mesquita koutoubia


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Segundo dia Acordamos por volta das oito horas. As vozes que ecoam nos megafones estrategicamente colocados no minarete da Koutoubia confundem-se com o chilrear dos pássaros. E uma vez que, hoje, a viagem é longa, nada melhor que um pequeno-almoço reforçado! Chegamos ao Jardin Majorelle. O jardim botânico de Yves Saint Laurent e de Pierre Bergé, desde os anos 1980’, aberto ao público desde finais dos anos 1940’. Um lugar magnífico! Há catos, catos e mais catos! As cores fortes – azul, amarelo, vermelho –

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predominam no cenário entrelaçado pelo verde dos catos. As sombras das árvores que trepam as paredes, vestidas de flores, abraçam quem passa pelos caminhos que circundam os jardins, com cantos e recantos inundados de um silêncio aprazível que convida a ficar por um tempo infinito… Um refúgio mágico fora das muralhas que circundam a medina de Marraquexe. Apesar da neblina permanecer por mais tempo, a temperatura não para de subir! Acompanhados pelo mapa da cidade, encontramos o Cafe du Livre. Ótimo,


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porque a hora do respasto está a chegar ao fim e hé que forrar o estômago e alimentar a alma! De regresso à medina de Marraquexe, passamos pela zona mais nova da cidade. A sumptuosidade dos edifícios é notável, por baixo dos quais “moram” uma das cadeias internacionais de comida mais conhecidas em todo o mundo, bem como de lojas de marcas de roupa e acessórios de moda. Discotecas? VIP e Diamante Noir. Não! Não entramos! “Preferimos” manter-nos fiéis ao nosso roteiro traçado para hoje e rumar

3 vista sobre o atlas

4 Jardin Majorelle

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à velha cidade. Entramos num jardim pertencente à Fundação Mohamed V repleto de oliveiras. Atravessamos a rua e visitamos um centro artesanal. Finalmente em “casa”. O João atreve-se a ir para a piscina, mas a água fria não o convence. Optamos por subir até ao terraço, onde mergulhamos na leitura… e à sesta. Hoje jantamos na praça Jema El Fna! Surpresa! O espaço destinado a uma feira de vendedores, cuspidores de fogo, encantadores de serpentes… transforma-se num gigantesco restaurante a céu aberto! Depois de uma breve passagem de olhos pelas cozinhas que tão emblemático lugar oferece à noite, escolhemos

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uma… igual a tantas outras. Sentamo-nos. À nossa frente estão expostos os ingredientes para o repasto. Podemos escolher? Desejamos calamares, batatas fritas, azeitonas, beringela e pão. Recomendamos, porque a experiência é mesmo para repetir! Escusado será dizer que comemos sem talher, mas sim com as mãos, tal como os marroquinos o fazem. Sem tabus. Fotografias depois e um olhar atento ao ambiente enigmático, composto por um fundo laranja quase que obstruído pelo escuro, não resistimos ao gelado… Terminado. A partir de então, a noite acompanha-nos no silêncio das ruas até ao riad, onde subimos, primeiro, ao terraço. O céu está lindo!


5 zona nova da cidade

6 ruas da medina com destaque para a fnaque berbere

7 praรงa jema el fna

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Terceiro dia Uma vez mais, acordamos bem cedo! Ora vamos lá visitar os edifícios que, ao longo de séculos, fizeram história na cidade. Museu de Marraquexe. Um edifício enorme, com um imenso pátio onde a arte de azulejar casa na perfeição com a simetria do desenho. Um trabalho de mestria magistral. Medersa Ben Yousses, a antiga universidade de Marraquexe para rapazes, com pequenos quartos – mesmo pequenos – de janelas diminutas, despojados de adereços decorativos, mas toldados de uma frieza imensa. E a Fonte Chrobo Ouchouf, lugar que, em tempos idos, ofereceu água canalizada à medina. Uma lição de história em três atos que fica gravada na memória…

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Les Palmeries. Um passeio – a pé – que, rapidamente, se transforma numa aventura. Inesquecível e inenarrável! Um feito extraordinário que insiste em tornar esta data inesquecível, até mesmo entre muros. Ruas desconhecidas que, de novo, se tornam num emaranhados de ruelas suspeitas… Porque o dia é especial, o repasto da noite é no Le Foundouk. Um riad convertido num restaurante acolhedor e elegante, decorado com candelabros e lanternas que derramam uma luz dourada sobre cada detalhe pintado a negro ou no branco das paredes que tocam num teto alto de cor escura. A conversa funde-se com o repasto. Divinal!


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Dia da partida

R HOTSPOTS www.riadassala.com www.cafearabe.com www.jardinmajorelle.com www.foundouk.com

8 museu de marraquexe

9 Praça Jema El Fna

O dia é de partida. Mas não sem antes passear pelas ruas desta cidades encantadora que há muito sonhava visitar, sentir o cheiro e as cores… conhecer de perto as histórias das mil e uma noites numa Marraquexe de terra quente e gente afável mergulhada numa realidade tantas vezes incompreendida e receada, mas que pede, simplesmente, respeito, tolerância e simpatia genuína de quem vem até aqui. Um dia hei de sentir de novo as sensações de um lugar fascinante, sobretudo, à noite, quando as luzes dos candeeiros de rua pintam o cenário negro de um dourado imperioso! Um dia hei de voltar para sentir o bulício dos sou, o cheiro peculiar deste lugar incomum. Um dia hei de voltar… d

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Mutante 13  

Chegámos a 2012, com 5 anos de vida, 12 números editados, um blogue e uma página de facebook bastante ativas. Um momento para olhar e analis...

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