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ROBERTA

MARTINELLI

MINI PROSA MUSICOTECA SETEMBRO 2013


MINI PROSA MUSICOTECA

SÓ MAIS UMA IDEIA GOSTOSINHA DA MUSICOTECA

UM BATE-­PAPO DIVERTIDO COM A NOVA MÚSICA

Terceira edição: Roberta Martinelli Roberta Martinelli não é cantora nem compositora. Mas é amplamente conheci-­ da na atual cena musical pelo fundamental papel que ela desempenha na disse-­ minação da música brasileira. Roberta é locutora e apresentadora do “Cultura Livre” na Rádio Cultura Brasil, um programa que alçou voos e que atualmente está na grade da TV Cultura em sua terceira temporada.

Cristina Chehab

Roberta, Sérgio Galvão e eu nos conhecemos há um bom tempo. No início, pare-­ cíamos amigos “imaginários”. Já dividimos muitos momentos bons e outros difí-­ ceis. Já aprontamos muito e já nos divertimos muito. A convivência diária tem sido tão intensa que, hoje, nos sentimos como se fossemos amigos de infância. A ideia de fazer uma mini-­prosa com a Roberta vem do final do ano passado. E não faria sentido algum se o registro deste momento não fosse do Sérgio. Ele, que mora no interiorrrr (rs), veio para São Paulo no início de dezembro, para uma gravação do Cultura Livre com plateia – falaremos mais sobre isso depois –, mas a correria foi tanta que não conseguimos concretizar os planos. Passaram-­se as merecidas férias e continuamos tentando conciliar nossas agendas apertadas, folgas nos finais de semana e viagens. O encontro foi marcado num sábado pela manhã, no início de abril, lá na Funda-­ ção Padre Anchieta/Centro Paulista de Rádio e TV Educativas. Sérgio havia che-­ gado a São Paulo na sexta à noite. E lá estávamos para encontrá-­la. Éramos dois perdidos num dia de pouco expediente. Encontramos a Roberta na maquiagem. “Fui pra aula de palhaço ontem à noite e chorei muito. Cheguei aqui muito in-­ chada”, disse ela enquanto nos recebia. Conhecemos os estúdios da rádio e da TV, inclusive os cenários dos programas Roda Viva e Cocoricó. “Puxa, puxa, que puxa!”, diria o Júlio. Paramos para pro-­ sear no estúdio onde foi gravada a segunda temporada do Cultura Livre na TV. Parede de espuma, bancada feita sob medida, tapete vermelhos, cadeiras ver-­ melhas... E muita, muita risada! Juro que, se eu soubesse como editar arquivos de áudio, esta mini-­prosa não seria uma revista. Para quem a conhece pelo seu trabalho, verá que, além de competente no que faz, Roberta é uma pessoa quase inclassificável, e querida! Para quem não a co-­ nhece, eis uma profissional incrível que faz muita diferença na atual cena musi-­ cal brasileira. Espero que gostem!

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VAMOS PARA O ESTÚDIO?

ROBERTA MARTINELLI POR PIPO PEGORARO Roberta sabe o que fala, ouve o que pensa, mo-­ vimenta o que escre-­ ve... Vive música e faz a música crescer com seu sorriso máximo!

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COMO CHEGOU AO RÁDIO E À TV? Roberta – Galvão, isso não! Está gravando! [Gargalhadas]. Eu não fazia realmente a menor ideia do que fazer, de nada... Lembrei que, em algum momento da vida, eu queria ser detetive... Descobri que não tinha faculdade pra de-­ tetive e minha família começou a dizer que eu tinha um super jeito de advogada. Sabe a família projetando? Vai ser rica, vai ser bem-­sucedida, vai ser advogada! Aí, eu falei: “Nossa, eu devo ter mesmo, nunca tinha pensado nisso. Vou ser advogada”. Cristina – Alguém da família é da área de Direito? Roberta – Ninguém! E eu tinha lido um livro, um livro que é uma loucura, gente... do Timothy Leary, o cara que tinha inventado o ácido e ele tinha feito um experimento em uma prisão com ácido, que tinha funcionado horrores... Eu não queria fazer isso, mas eu pensava em acabar com o sistema carcerário porque uma pessoa é presa e sai mil vezes pior! Devia haver um jeito de você pegar uma pessoa que fez alguma coisa que não devia, que matou, que roubou, mas que você consiga melhorá-­la em vez de destruí-­la. Fui fazer Direito. Em seis meses, eu falei: “Não tem jeito. Com essas pessoas aqui não vai dar certo”. Cristina – E você ainda ficou 4 anos na faculdade... Roberta – Eu lembro que eu cheguei em casa e falei: “Não vou fazer Direito. Não gosto. Tenho certeza que eu não vou fazer isso da vida”. E minha mãe falava: “Faça, vai fazer, vai fazer”. E se eu não fizesse Direito, eu não sabia o que ia fazer. Então, fui fazendo, fui levando. Aí, um dia, a irmã de uma amiga minha me ligou... Ela estava fazendo uma peça na USP e precisava de alguém pra ser a Garota de Ipanema. Cristina – Ah, foi quando você cantou! [Risos]. Roberta – É!!! Eu falei: “Não! Eu sou a pessoa mais tímida do mundo”.

ROBERTA MARTINELLI POR Conheci a Roberta logo na pri-­ meira semana em que cheguei a SP. Ela foi me entrevistar e logo estávamos falando da vida, música, astrologia. Isso porque a Roberta inspira e provoca essa espontaneidade, essa naturalida-­ de, que é DELA. E tudo na Rober-­ ta me inspira confiança, alegria e beleza. Ela é bela. De todos os lados, e vai muito, muito longe. Beijos pra você, minha querida. Que seja sempre doce!

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ROBERTA MARTINELLI POR LOCO SOSA

Información, belleza y creatividad numa única pessoa.

UMA CRIANÇA GRANDE

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ROBERTA MARTINELLI POR KIKA

A Robertinha é bonita como as coisas que ela gosta e faz. Olhar pra ela hoje em dia signifi-­ ca ver e ouvir ao mesmo tempo. Ela é cor e som.

ROBERTA MARTINELLI POR PERI PANE

Meu radinho de pilha é velho, charmosa é você, roberta!!!

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ROBERTA MARTINELLI POR LETUCE A Roberta já chegou sorrindo, com a boca, com os olhos, com as mãos... A Roberta sorri toda, né? Logo nos percebemos igualmente capricornianas, deliramos rápido, com pouca intimidade, fez-­se um elo astral. O que ela faz no Cultura Livre é tão importante, e talvez ela mesma não tenha noção do quão importante é. Ali eu conheci outras bandas, ali eu me apresentei umas 3 vezes e gente do Brasil todo me mandou mensagem depois. A Rober-­ ta é curiosa, engraçada, inteligente, figura, querida demais. E animada. Um dia, eu cario-­ ca tosca, estava com muito frio em SP, e pedi para ela comprar uma meia-­calça de lã pra mim a caminho do Cultura Livre. Poxa, não é que ela comprou? E o carro dela parou de funcionar, e sei lá mais o quê, mas ela chegou com aquela simpatia, e eu fiquei mais quenti-­ nha. Viva a Berta!

ROBERTA MARTINELLI POR FELIPE CORDEIRO

Roberta Martinelli é a embai-­ xadora classe A das novas músicas brasileiras.

Roberta – Ah, e eu me encantei com aquelas pessoas. Eu tinha crescido em outro meio, sabe? E ver pessoas que passam o dia se preocupando com o corpo, com o que você está sentindo, como você vai tocar a pessoa, como você faz pra encan-­ tar o mundo... tipo, são preocupações tão mais nobres, né? Eu poderia ajudar muito mais do que tentando resolver o siste-­ ma carcerário, que ia ser uma coisa super difícil e com pessoas muito mais quadradas, no caso, no caminho. E eu achava que ali ia ser tudo muito mais importante, eu ia conseguir muito mais e ia ser mais feliz. Cristina – Você encontrou seu nicho, né? Você, por algum motivo você se sente bem nesse meio... Roberta – É. Aí, fui fazer teatro, fui fazer [Escola Superior de Artes] Célia Helena e minha vida era o teatro. Eu nunca pensei que eu pudesse viver sem teatro na minha vida. Enquanto eu fazia o curso, eu pensava: “Nossa, quando eu acabar, se eu não conseguir trabalhar com isso, eu vou ser a pessoa mais infeliz do mundo”! Eu me formei. O Célia Helena eram 3 anos de curso. Eu fiquei no Célia Helena e, ao mesmo tempo, eu fazia parte de um grupo de teatro na USP. Então, eu fazia peças na USP super experimentais e, no Célia Helena, a gente fazia uma peça por semestre. É meio um estudo, mas para os alunos é a peça da vida, sabe? Aí, no último semestre, a gente fez uma peça de formatura e entramos em cartaz com essa peça. Depois, eu virei assistente de direção do diretor da peça e aí eu comecei a perceber que era muito difícil trabalhar com teatro. Eu era a mais velha do meu grupo e eu acho que, por isso, eu senti mais o desespero de não ganhar dinheiro. Como é que eu ia fazer? Tive que começar a dar aulas... eu tinha largado a faculdade de Direito e chegou um momento em que eu não tinha como ganhar dinheiro. Aí eu comecei a dar aulas de teatro, de artes. Tentei de todas as maneiras... 8


Cristina – E na sua casa? Teus pais... Roberta – Meus pais... quando eu larguei, já estava num momento em eles já achavam que tudo bem... Eu cheguei em casa e falei que não ia mais à Faculdade de Direito. Ponto. Eu ia fazer só teatro. Mas aí, não dava pra ganhar dinheiro. Eu me esforçava muito. Acho que é uma arte viver de teatro, você tem que rebolar muito, que nem música... Mas ainda acho que, como ator, ainda é muito difícil. Eu também não tinha certeza, sabe? Que eu poderia conseguir... Aí, um professor meu me pediu que eu o ajudasse a dar aulas de teatro na FAAP [Fundação Armando Álvares Pen-­ teado] porque ele não conseguia conversar com os alunos de Direito... “Eles são muito esquisitos, Berta! Eu não consigo fazer essa comunicação... Você pode fazer isso pra mim?” [imitando o pro-­ fessor]. Aí eu fui fazer a comunicação e ele falou: “Berta, você bem que podia dar aula por aqui”. Eu fiquei pensando nisso e chegou um momento em que eu achei que precisava fazer alguma outra faculdade. O Célia era um curso profissio nalizante e eu não tinha faculdade. Putz, eu tinha que dar aula em faculdade, só que eu não tinha faculdade. Fui fazer Rádio e TV. Cristina – E por que não [Artes] Cênicas? Roberta – Porque eu pensei... “Já fiz teatro e tá difícil”... Se eu fosse fazer Artes Cênicas, seria mais do mesmo... Talvez, se eu quisesse muito, mas eu fiquei desesperançada, fiquei um pouco em crise e resolvi fazer Rádio e TV. Só pra ter a faculdade. Aí eu dava aula no [Colégio] Palmares de manhã e ia pra faculdade à noite. Aí, um dia, eu fiz um trabalho sobre palhaço pra uma disci-­ plina do [Eduardo] Weber, que é chefe aqui na rádio...

E A FAMÍLIA?

Cristina – Então, a paixão por palhaços já vem de muito tempo. Roberta – Já! Um dia eu cheguei na faculdade de Rádio e TV e falei: “Vou largar tudo e vou ser palhaça! Não vou fazer Rádio e TV! Não gosto. Vou ser palhaça”. Falei isso para o professor e ele: “Não, Roberta! Por favor, você está no tercei-­ ro ano! Termina...”. Aí eu falei: “Mas eu não quero isso, eu quero ser palhaça! Eu quero ser livre!” Cristina – [Risos]. Aí aquela crise de ser atriz já tinha ido pro saco a essa altura do campeonato também... Você ia ser palhaça pro resto da vida e viver de luz.

ROBERTA MARTINELLI POR TATÁ AEROPLANO

Roberta Martinelli é música no ar... Dá voz, espaço, asas e liberdade de expressão pra nossa geração! 9

Roberta – Isso! Mas teve um final de semana que foi muito específico. Eu tinha o casamento de uma amiga de infância... Eu fui pra aula de palhaço de manhã e a professora, Silvia Leblon, virou pra mim e falou: “Ahhhh, hoje é estreia do número do Esio [Magalhães] lá em Campinas!”.


ROBERTA MARTINELLI POR PÉLICO De tempos em tempos, aqui no Brasil, surgem pessoas como a Rô Mar-­ tinelli, que catalisam com muita paixão a música brasileira.

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Roberta – Juro! DE-­SES-­PE-­RO! Saí daqui chorando, entrei no carro chorando, fui pra faculdade à noite e encontrei o Weber. Ele: “E aí?”. Eu: “[com voz de choro] Eu não passei... eu queria muito, mas eu não passei. Eu não sei falar sete línguas ao mesmo tempo!”. Aí ele: “Não fica assim, Roberta! O pessoal adorou a sua voz, mas realmente não dá pra fazer FM... Mas eles adoraram, acharam você ótima... Eu tenho uma vaga de estagiária. Você não quer entrar como estagiária e, assim que der, eu te coloco no microfone?”. Eu: “Será, Weber? Eu tenho 27 anos... quanto ganha um estagiário?”. E ele falou... Mal dava pra pagar o busão pra vir pra cá, mas aceitei. Na primeira semana aqui como estagiária, o Weber me chama lá na sala dele e fala: “Roberta, vai ter um evento que se chama Campus Party e eu vou te colocar no microfo-­ ne já com o Jai Mahal. Você vai entrevistar um cara chamado Ronaldo Evangelista”. Passei a noite pensando nisso, li o blog inteeeeiro do Ronaldo Evangelista, do começo ou fim... assisti a toooodos os vídeos que nem uma louca, louca... desesperada! Acordei cedo e fui pra Campus Party. Cheguei lá e o Mahal operava a mesa e nós dois falávamos. Pensei: “Ah, ok, o Mahal faz rádio há um tempão, ele sabe fazer tudo isso super controlado”. Bom, cheguei lá e o Mahal nervo-­ síssimo pra fazer rádio ao vivo e eu em PÂ-­NI-­CO! Bom, foi uma loucura. Eu, super durinha, tensa. Mas foi, sabe? Passou... Eu continuei como estagiária. Um dia, a gente estava numa reunião e precisava de alguém pra cuidar do site. Eu a Biancamaria Binazzi, que era uma produtora daqui, super boa, nos lembramos do Ronaldo Evangelista. Nós demos a sugestão, eles gostaram e chamaram o tal do Ronaldo Evangelista. Ele era um cara que tinha sido curador do Cedo & Sentado com a Tiê, Tulipa [Ruiz], Karina Buhr... Trouxe vários discos, me lembro do Bruno Morais... Cristina – Isso era 2009? Roberta – 2009... Janeiro, fevereiro de 2009. E trazia disco e trazia aquilo. E falava: “Vamos ao show da Tulipa no Grazie a Dio”, “Vamos ao show do [Marcelo] Jeneci no Grazie a Dio”... Cristina – Nossa, o início de tudo, né? Roberta – “Nossa, vamos fazer um programa que fale da música de agora no rádio!” Cristina – E o quanto você conhecia esses artistas? Roberta – Super pouco. Quase nada. Foi muito por causa do Ronaldo... do Ronaldo e do Pedro também, que também já era amigo de muitos deles... e eu comecei a namorar o Pedro nessa época... Mas eu comecei a entrar ali e comecei a ficar encantada. Eu lembro que o primeiro disco que eu ganhei foi do Bruno Morais, me lembro de sair daqui ouvindo “[Hino dos] Corações Partidos [F.C.]” [primeira faixa do disco “A Vontade Superstar”, de 2009] dentro do carro. Cristina – Owwwwnnnn! [eu amo esse disco!]

ROBERTA MARTINELLI POR RAFAEL CASTRO

Roberta Martinelli sintetiza.

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Roberta – Aí o Ronaldo propôs que fizéssemos um piloto. E fizemos vários pilotos na casa da Biancamaria. Éramos eu, Ronaldo Evangelista, Biancamaria, Lívia Libâneo e outra menina que eu não gosto de falar dela. Cristina – Tudo bem! Roberta – Então, foda-­se, né? Eu não preciso falar... Cristina – Não... Roberta – Eu sempre dei o crédito pra ela, mas, na verdade, ela sempre lutou contra e agora eu já resolvi essa parte e agora eu já resolvi essa parte e a apago da história. A história sou eu quem conto, então eu escolho quem vai participar ou não, né? Cristina – Desapegou! Está ótimo! Roberta – Na aula de palhaço tem isso, né? “Lembre-­se de não sei o quê. Se não sabe, inventa”! Cristina – Que nem o que o André [Abujamra] conta, que tudo o que é bom é dele! Roberta – É... [Gargalhadas]. Meio isso, né? Ela deve contar essa história de uma forma diferente. Se alguém um dia quiser ouvir o outro lado...

ROBERTA MARTINELLI POR TIM BERNARDES (O TERNO)

A música brasileira está numa fase muito boa. E é muito legal ver que isso se dá não só pela ótima leva de artistas novos, mas também por ótimos comunicadores que articulam, misturam e impulsionam toda essa leva. Que é o caso da Roberta! Sou fã dela e acho que posso dizer por mim e por vários amigos músicos que somos muito gratos pela contribuição dela à nova música brasileira! Valeu Ro-­ berta!

Cristina – Dane-­se! A gente não quer nem saber! [Gargalhadas!] Roberta – Aí, eu, Ronaldo Evangelista e Biancamaria Binazzi, o estagiário era o Lucas Rangel, e o técnico o Emerson... Cristina – Você ainda era estagiária? Roberta – Eu era estagiária, Biancamaria era produtora e Ronaldo cuidava do site. A gente ia pra casa da Biancamaria e ficava um tempão, gravando num gravador dela e entrava em crise... “Ah, vamos tocar essa música”, “Não, vamos tocar essa”... E eu ainda estava mais ligada ao teatro nessa época e eu levava o Thiago Pethit com o EP e falava: “Esse menino aqui é do teatro”, levava também a Silvia Machete. O Ronaldo levava a Tulipa, levava não sei quem... 12


Cristina – Mas você estudou com Thiago, né? Roberta – Acho que ele se formou um ano antes de mim, mas eu me lembro dele no Célia Helena. E aí, foi meio isso, sabe? A gente começou a passar noites e noites na casa da Biancamaria. Aí a gente começou a vir aqui na rádio pra gravar o piloto, e pas-­ sávamos o fim de semana intee-­ eiro aqui. Eram bons tempos! Alegria plena! Mas a gente nunca chegava no piloto, sabe? Era muito difícil escolher doze músicas e falar. Cristina – E ainda era algo super experimental, né? Roberta – Super. E a gente ainda pedia pro técnico vir e ficar com a gente, entendeu? Quem apre-­ sentava era eu e a Biancamaria juntas e o Ronaldo fazia a sele-­ ção musical. Cristina – Sempre! [Risos].

ROBERTA MARTINELLI POR RAMIRO ZWETSCH Roberta Martinelli é a porta-­voz na rádio e na TV da nova música brasileira.

Roberta – Sempre. Aí fizemos esse piloto. Eu me lembro da ordem das músicas, eu tenho ele gravado em CD. Outro dia, eu ouvi e achei uma coisa engraça-­ da... Começava com Romulo Fróes, 3 na Massa e Karine Car-­ valho com “Tatuí”, tinha Zélia Duncan falando do Jeneci, tinha Jeneci, ainda sem gravar, com uma versão caseira de “Pra Sonhar”, tinha Cérebro Eletrôni-­ co com “Talentoso”, tinha Gui-­ lherme Held e Lanny Gordin, um falando do outro... Ah, a gente gravou um piloto lindo. Juro! A gente ouvia e ouvia de novo. Estava pronto. Eu e a Biancama-­ ria gravamos e regravamos 600 vezes. E já tinha o “Cultura Livre por...”. E então, fomos apresen tar o piloto pros chefes. Eles acharam legal e falaram: “Vamos fazer! Gostamos e vamos fazer! 13

Tarãnnnn... E o Ronaldo: “Não, tem que ser ela! Pô, ela tem 27 anos... contratem ela”. “Ah, mas ela precisa de DRT [registro pro-­ fissional na Delegacia Regional do Trabalho] de locutora e ela não tem”. Então, eu tirei o DRT e fui contratada como locutora. Aí, Ronaldo Evangelista saiu da Cul-­ tura. E Biancamaria falou que não ia mais fazer e saiu também do Cultura Livre. E eu já estava contratada e com horário na grade de programação. Fiquei em crise, tipo “Faço? Ou não faço?”. Aí, o Ronaldo falou: “Faça. Se você não fizer, outra pessoa vai fazer! Vai ser pior! Faz!”. Aí, eu fui fazer. Fiquei eu e uma produtora fofa e linda, que hoje não está mais aqui e está no SBT, a Lívia Libâneo e mais uma, juntas. Aí, começamos a fazer o Cultura Livre, que estreou dia 1º de setembro de 2009. Eu estava super nervosa, eu ficava aqui até 1, 2 horas da manhã. Cristina – Bom, de qualquer forma, você sempre teve esse horário na grade, das 11h às 15h? Então, você apresentava a programação normal, a Seleção do Ouvinte [às 11h]... Roberta – E o Cultura Livre. Cristina – Você já entrou com esse horário? Roberta – Já. Mas, no primeiro dia, eu tremia horrores. Eu nunca tinha operado a mesa, eu aprendi a operar a mesa. [Gargalhadas] Cristina – E já existia a ideia de trazer convidados aos progra-­ mas? Roberta – Não. Cristina – Era só a seleção que você fazia...

ROBERTA MARTINELLI POR ALEXANDRE MATIAS Roberta Martinelli é quem vai salvar a música na televisão brasileira.


Roberta -­ Sim! E aí, tudo se con-­ centrou em mim. Fiquei sem Ro-­ naldo, sem Biancamaria, que eram pessoas super importantes aqui. E eu fiquei sem eles, e tive que fazer. Aí, eu comecei a ir a vários shows e levava um micro fone daqui, um microfone incrí-­ vel, que gravava nele mesmo! Tipo um microfone de TV, só que não tem a câmera. Tem até aquele quadrado [com o logo] da Cultura. E eu me lembro de quando eu fui entrevistar o Leo [Cavalcanti] e ele ficava olhan-­ do... E eu pensava: “Por que o Leo está sorrindo tanto e pra quem enquanto ele fala comigo?”.

Roberta – E tinha uma entrevista por semana que eu fazia com o artista, editava e colocava no pro-­ grama. Mas a pessoa não vinha aqui ainda. E nós estreamos com uma entrevista com o Jonas Sá [músico carioca] que eu mandei por e-­mail, ele gravou no Rio e mandou de volta. Só que ele de-­ morou e me mandou o áudio à meia-­noite. Eu ainda estava aqui na rádio desesperada, ligando pra ele e ele falava: “Calma, baby! Eu vou mandar!”. E eu: “Ai, genteee! [fazendo drama]. O que eu faço?”. Desespero absoluto! E eu demorava pra fazer o roteiro, ficava aqui até tarde, ouvindo música... “Isso não, isso sim”. Ai, era uma loucura! E eu pensava como eu ia viver assim porque, quando acaba o dia, eu pensava “Ufa, acabou”, mas tinha o dia de amanhã. Pro resto da minha vida, eu pensava que ia sempre ter um amanhã!

[Gargalhadas]

Cristina – Nossa, Rô, você é dra-­ mática desde criancinha!

Roberta – Aí, ele falou: “É pra-­ quela câmera?”. E eu falei: “Leo, não tem câmera! É pra rádio, o microfone está gravando o áudio!”. E ele estava super sorri-­ dente pra um cara lá longe. [Risos].

[Gargalhadas]

Cristina – Que engraçado!

Roberta – Hoje em dia, já é super tranquilo... eu faço o roteiro enquanto eu estou com vocês no chat. Acabou meu horário, eu vou embora. Antes, eu precisava de um teeeeempo... Começou assim então. Eu ia até as pessoas, e isso me ajudou a conhecer muita gente.

Roberta – E o Bruno Morais me chamava de “A Louca do Micro-­ fone”...

Cristina – Pois é... em algum mo-­ mento, você tinha que buscar essa informação... Quando estreou, o Ronaldo já não estava mais aqui. Pelo que entendi, ele participou da concepção do pro-­ grama e depois... Roberta – Bom, até hoje, ele me manda algumas coisas, né? Um presentinho... “Rô, olha essa música! Já ouviu?”. Cristina – Ainda acho que todos os seus amigos devem fazer isso também. Você acabou centrali-­ zando isso... Você deve buscar muita coisa, e você deve receber muita informação. A gente na mu-­ sicoteca também... Descobrimos muitas coisas e estamos muito atentos aos que os nossos amigos e as pessoas mais próximas a nós estão ouvindo...

Cristina – [Gargalhadas] Sen-­ sa-­ci-­o-­nal! Roberta – Porque em todos os shows, em todos os lugares que eu ia, toda balada, eu estava com o microfone pra eu gravar o “Cultura Livre por...”. Eu encon-­ trava não sei quem e já ia gravar alguma coisa... Gravei com o Romulo Fróes no banheiro do Grazie a Dio...

ROBERTA MARTINELLI POR BLUBELL A Roberta é tudo o que tá em falta. Uma jornalista de música séria, apaixonada pelo que faz e super aplicada. Ela ouve os discos, vai aos shows, sabe de tudo o que tá acontecendo e contribui imensa-­ mente para a efervescência da música contemporânea que passa por aqui. Como se isso não bas-­ tasse (e como diz meu amigo Mario Manga), ela também é “muito gente”. Não sei o que seria da cena sem ela. Com certe-­ za, bem mais sem graça.

Cristina – Ah, que ótimo! Roberta – Porque eu chegava no lugar e precisava gravar alguma coisa, e... “Ah, vamos no banhei-­ ro?”. Com o Pipo [Pegoraro], eu também gravei no camarim do Grazie a Dio, debaixo do chuvei-­ ro, com ele e a Blubell. E eu ia, então, a todos os lugares... o que era super legal também, porque na nossa cabeça, eu resgatava um pouco daquela coisa de a pessoa fazer o show, acabar, e ter um repórter... Não existe mais isso! 14


Cristina – Hoje em dia, com essa coisa da imprensa estar sentada na redação, com uma pilha de discos que deve rece-­ ber pelos correios... Roberta – E aí foi meio isso, sabe? Um dia, não lembro exatamente quando, resolvemos fazer uma twitcam aqui com a Tiê. Cristina – Aí você começou a trazer os convidados... Roberta – Na verdade, a Tiê já tinha começado a fazer várias twitcams na casa dela, e resolvi fazer uma twitcam no Cul-­ tura Livre. Não tinha câmera no estúdio ainda. Fizemos com um laptop. A Tiê veio e foi muuuuito divertido! Era muito mais legal. Só que o áudio saiu do ar, ou seja, as pessoas estavam vendo a gente pela câmera do laptop, mas não esta-­ vam ouvindo nada. Foi a primeira e única transmissão de rádio muda do universo! Vanguarda absoluta! [Gargalhadas] Roberta – Aí, começamos a escrever nas plaquinhas* pra falar pra pessoas continuarem mandando as perguntas que a gente responderia por placa. E aí, a Tiê ficava beijando as placas, passando batom e beijando as placas. *plaquinhas = folhas de sulfite com bilhetinhos Cristina – Ah, eu acho que já vi essas fotos! Roberta – Eu fazendo pela twitcam do Cultura Livre e ela fazendo pela twitcam dela. Cada um num computador. Uma loucura! E aí, começaram as plaquinhas. A gente começou a escrever quem vinha, porque tínhamos uma câmera, então, a gente tinha que fazer alguma coisa praquela câmera. Eu ficava horas pintando os nomes... Cristina – Aí não dava mais pra vir trabalhar de pijama, né? Sei... Roberta – [Risos]. Aí, colocaram uma câmera aqui... o tempo todo.

ROBERTA MARTINELLI POR MARCELO PERDIDO A Roberta é de uma só vez, o oposto de chata, feia e egoísta.

ROBERTA MARTINELLI POR JUAN GUTIERRES Roberta Martinelli é a porta-­voz da música que acontece.

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Cristina – E aí, acaba que todos os outros programas aca-­ baram se beneficiando da câmera no estúdio também, né? Roberta – Beneficiando ou não, né? Porque tem gente que gosta, e gente que não gosta! Cristina – É porque, de qualquer forma, o Radar [programa apresentado das 15h às 18h] tem convidados, o Galeria [8h30 às 11h] também... Roberta – Antes, a câmera só transmitia quando tinha con-­ vidados... Agora, a gente fica o tempo todo lá no aquário com a câmera ligada. E aí, quando veio a câmera, mudou tudo! Quando eu dou aula de rádio, eu falo isso... tem um pessoal mais conservador no rádio que diz que isso não é mais rádio... E eu acho muito que É rádio... eu continuo fazendo uma linguagem radiofônica, mas eu não posso ignorar que tem uma câmera! Cristina – Sem dúvida! Roberta – Então, quando eu faço aquela brincadeira dos dias temáticos, do dia dos namorados, do dia da macum-­ ba... óbvio, tem câmera, vamos brincar! E é super engra-­ çado... a gente faz aquela decoração toda e fica sentada, né? Quando eu me distancio, eu penso: “Que loucura...”. [Risos]. Cristina – E o chat sempre existiu também? Roberta – Eu acho que o chat começou no Radar, mas era usado só no Radar, acho... Cristina – Por conta da interatividade que o Radar exige... Roberta – É... eu acho que foi assim... E quando começou a câmera, começou também o chat o tempo todo. A gente passou a ter o chat o dia inteiro. Cristina – Afinal de contas, é rádio AM... Você tem ideia da abrangência que tem a rádio... existem números? Sei lá, meio memória de infância, sabe? As pessoas ouvem rádio AM pra narração de jogo de futebol... Roberta – E por companhia, né? Pra ouvir aquele cara que fica lá: “Cartas do coração... Você, amiga ouvinte, sozi-­ nha, na sua casa...”, sabe?

ROBERTA MARTINELLI POR BÁRBARA EUGÊNIA Roberta Martinelli é amor pela música!! Fessorinha mais linda!! Sempre falei curto no Cultura Livre, mas escreveria um texto longuíssimo pra falar da Roberta, muito especial, muito espacial, guerreirona sorridente, sempre disposta, interessada, sempre ouvindo, sempre sentindo. Ilumi-­ nada!! É minha amiga, e tenho só orgulho.

Sérgio (fotógrafo) – Ou tradução de letra de música... [Risos]. Roberta – Tipo: “And I (...)”, “E eu (...)”, “(...) will always love you”, “(...) sempre vou te amar”. [Gargalhadas] Roberta – Rádio AM é um pouco isso... E se não fosse internet, não fosse chat, não fosse câmera, sei lá! Até “o charmoso radinho de pilha” é uma brincadeira com isso... Cristina – É... eu tenho um desses microsystems, que deve ter mais de 20 anos, daqueles que têm várias bande-­ jinhas de CD, toca-­fita K7, e rádio AM e FM... Roberta – E pega? Cristina – Pega, mas eu tenho que esticar a antena, ficar lá uns dez minutos fazendo aquele botão funcionar, mas pega! 16


Roberta – E foi assim que tudo começou... a twitcam, o vídeo na internet... aí o Kiko Dinucci veio aqui pela primeira vez e fez música ao vivo. Uau! Música ao vivo! Aí, começou só com voz e violão. As pessoas foram me perguntando se podiam trazer outros instrumentos e eu aceitei, claro! “Bateria?”, “Pooode!”. Os técnicos daqui diziam: “Nãooo! Não pode!”. E eu: “A gente vai dar um jeito!”. “Cabe A [Especular] Charanga do França?” [projeto do Thiago França, com 8 integrantes]. “Cabe!!! Lógico que cabe!”. Cristina – E coube mesmo! Coube todo mundo apertadinho... Deslocaram uma galera ali certamente! Alguém que trabalhava ali naquela sala saiu daquele estúdio... Roberta – Total! E aí começamos a fazer aqueles videozinhos pra internet aqui... Aí, um cara que trabalhava aqui no Marketing, num dia em que eu estava lá, me falou que eles precisavam de um programa assim, assado... e ele sempre ouvia o Cultura Livre... Aí, gravamos um piloto do Cultura Livre com iPhone. Cristina – Então, a ideia veio do Marketing... Roberta – A gente gravava aqueles videozinhos de divulgação e eles acharam bonitinho... E fomos gravar o piloto com a Tulipa. Ganhei, né? Arrasei muito! [Risos]. Beijo no ombro! Aí, vieram a Tulipa e o Gustavo [Ruiz, irmão e guitarrista que a acompanha na banda] e o piloto ficou liiindo! Cristina – Pena que o piloto não vai pra TV, né? Roberta – Ai, nem fale. Isso é uma tristeza! Às vezes, eu fico pre-­ ocupada com os músicos... eu explico várias vezes que o piloto não vai ao ar, mas eu não sei se eles super entendem... Cristina – Rola uma expectativa, né? Roberta – E, às vezes, não vai ao ar porque a luz não estava pronta. São besteiras desse tipo, de pequenos ajustes. Mas o programa ficou lindo! Lindo, lindo, lindo! E, obviamente, por isso, não foi ao ar... e sou só agradecimentos a ela. Sérgio (fotógrafo) – Quando tiver um DVD do Cultura Livre, isso vai pra parte dos Extras. Cristina – DVD do Cultura Livre! Boa!

ROBERTA MARTINELLI POR

OS MULHERES NEGRAS

Toda nova cena musical, quando vai se apresentando, quando vai chegando, quando vem abrindo alas e pedin-­ do passagem, ela vai mostrando seus autores, cantores, bandas, e tal. E ela geralmente tem seus porta-­vozes: um blog, um programa de rádio ou TV, um DJ, um produtor, uma casa de shows, um selo. O Cultura Livre é claramen-­ te um desses porta-­vozes da nova cena musical paulistana dos últimos anos. E a Roberta, no comando do Cultura Livre, além de segurar esse rojão (que não é pouco, acre-­ ditem) retrata bem o espírito, a vibe dessa geração: afeti-­ va, despojada, espontânea, curiosa, empolgada, inquie-­ ta. Enfim, ela tem a chave de uma das portas de entrada pro ouvido do público ouvir coisas novas, e abriu essa porta (e tem mantido ela aberta) em grande estilo. Saravá a Roberta. Saravá o Cultura Livre.

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Sérgio – Quando tiver um DVD do Cultura Livre, isso vai pra parte dos Extras. Cristina – DVD do Cultura Livre! Boa! Roberta – Vamos vender um box com as temporadas do Cultura Livre! Cristina – Super! Adorei a ideia! Sérgio – Vou querer meus 10%! [Gargalhadas] Roberta – Sobre os Extras! Posso pôr uma foto sua no ícone dos Extras... que tal? [Gargalhadas]. Aí gravei com a Tulipa e eles falaram: “Nossa! Está super legal! Vamos fazer um programa de dez minutos diários na TV de segunda à sexta... Cada dia uma banda... Você acha possível?”, “Claro! Super possível! Vamos lá!”. Foi uma loucuuuuuuura! Cristina – Imagino! Editar deve ser complicadíssimo! Roberta – Principalmente sincronizar o áudio... Cristina – Você pensa que é um programa de 1 hora... Roberta – Gravado em iPhone [enfática]. Cristina – ...pra transformar em 10 minutos! Roberta – Gravado com 4 iPhones! E sincronizar o áudio demorava muito tempo! Mesmo! Fora que não podia acontecer nada, né? Todo dia tinha que ter uma banda... Cristina – Não podia acontecer atraso... Roberta – E aconteceram vááárias coisas, né? Obviamente! Teve um dia que um convidado me ligou dizendo que estava no Rio e que tinha perdido o voo. E eu tive que ligar pra outra pessoa: “Você está em São Paulo? Você pode vir agora?”, “Posso!”, “Estou mandando um carro te buscar agora”, tipo meio-­ -­dia... Teve o dia que o MarginalS [Thiago França, Marcelo Cabral e Anthony Gordin] chegou aqui sem os instrumentos, que é uma história clássica já... Chegaram aqui, os três, com um bolo porque era aniversário de 1 ano. Quando perguntei dos instrumentos, eles responderam: “Precisava? Nin-­ guém falou nada!”. Colocamos cada um em um carro, correndo!

ROBERTA MARTINELLI POR NINA CAVALCANTI Roberta é minha amiga querida. Mas, além de sua amiga, sou sua admiradora. É muito especial o jeito amoroso com que ela realiza cada trabalho. E acho que todo mundo pode sentir isso quando ouve, vê ou participa do Cultura Livre. Eu, como alguém que curte e trabalha com música, me identi-­ fico e acho um privilégio ter a Ro e um programa como o dela. O Cultura Livre é um lugar aconche-­ gante.

Cristina – Voltaram pra casa pra pegar os instrumentos... Roberta – E foi a primeira vez que teve bateria, né? Pegaram os instrumentos e ainda acharam o Criolo no meio do caminho... O Criolo veio de bônus... Cristina – Ah, claro! Me lembro desse dia! Roberta – Foi a primeira vez com bateria e SEM passar o som! Eu comecei o programa enrolando, toquei uma música enquanto eles passavam o som rapi-­ dinho, e foi! Aí, teve a primeira temporada [na TV] com direção do Ricardo Elias, que foi incrível! Acabando a primeira temporada, fomos pra segunda temporada... e nós viemos pra este estúdio onde estamos agora, que já é um estúdio preocupado com a televisão. Ele já é mais estilizado... essa bancada foi feita pra ele. Cristina – Eu me lembro disso também... Acompanhei a saga do marceneiro! O marceneiro nunca tinha tempo, atrasou pra caramba o início da temporada porque o estúdio não ficava pronto...

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...PAPO SEM FIM...

Roberta – Total! E aí, eles foram arrumando e ficou uma gracinha aqui. E fazer as gravações aqui já foi super diferente, já deu outra cara pro programa... E, agora, vem a terceira temporada... Lá vamos nós pra outro estúdio... Desde a segunda temporada e nesta também a direção é do Ricardo Sêco, e a equipe está junta desde o começo criando tudo, sabe? Os primeiros meses do ano são para muito café e criação do Cultura Livre novo. Tem também o Ivo Madruga que é assistente de direção, a produtora Thatiane de Almeida Diogo, a editora de texto Paula Montoro, o [Alexandre] Pavan roteirista, as estagiárias da TV Thais [Schroder] e Jéssica [Pereira Pacheco] e o Juan [Gutierres], que é também da equipe da rádio, além de figurino da Dani, maquiagem, cabelo, os gerentes de conteúdo... Nossa!!! TV é muita gente né? [Alexandre] Tondella, Weber, [Pedro] Nakano e outros. Cristina – E esse estúdio aqui? Vai continuar sendo usado? Roberta – A gente vai continuar gravando aqui uma vez por semana, voz e violão... pra não perder este estúdio também... E tem um pessoal da rádio que vai continuar usando aqui porque é o estúdio com melhor acústica. Cristina – Mas vocês não vão migrar do estúdio onde vocês estão todos os dias pra cá? Roberta – Não, só quando tiver convidado e gravação pra TV... Cristina – E migram todos? Roberta – Não, só eu. Faço o Cultura Livre daqui só. Faço como fazia: corro de lá pra cá e gravo o Cultura Livre daqui, além de convidados que receberei no Estúdio G, da TV... Cristina – Agora conta pra gente sobre o estúdio lá de baixo, o Estúdio G... como vai ser? Roberta – Ó, ainda tem piloto pela frente, mas a gravação vai ser feita num estúdio de TV, já bem maior... É bem maior, né? Cristina – Ah, pelo menos três vezes o tamanho desse aqui... Roberta – Então, ele é bem maior e já cabe muito mais gente das bandas... Ele é o estúdio mais antigo da TV, segundo o que me contaram aqui nos corredores... E ele tinha aquela parede de estúdio, de gesso, sabe? E, aí, o Ricardo Sêco, que é o Diretor me mostrou uma gradezinha que tinha no começo: “Olha só essa gradezinha, que bonita...”.

ROBERTA MARTINELLI POR RODRIGO CAMPOS

Roberta Martinelli tem feito, prova-­ velmente, o documento mais impor-­ tante sobre essa geração de músicos de São Paulo ou que residem em São Paulo, e, principalmente, nesse mo-­ mento, em que a cidade tem sido catalisadora do cenário nacional como talvez nunca tenha sido, ou pelo menos não nessa proporção... 19


Cristina – Parece grade de exaustor de cozinha. Roberta – Eu acho linda... E depois que ele mostrou resolvemos tirar todo o gesso pra expor a grade... Eu, Roberta, não gosto de TV construída, sabe? Com cara de cenário... Se algo não tem utilidade, colocar pra quê? E aquela parede de gesso do estúdio me dá um pouco de aflição, tem uma cara de alguma coisa meio montada. Aí, começou a luta pra tirar as paredes, né? Porque teve que quebrar o estúdio inteiro... Esse gesso estava lá há muito anos e não sabíamos em que estado estaria o que estava atrás, a madeira, a grade... O pessoal da TV autorizou que tirássemos o gesso e quebramos tudo. Quebramos não... quebraram! Eu sou diva! Brincadeira!!!! [Gargalhadas]. E depois de quebrarem tudo, estamos pintando as grades. Eu já estou apaixonada por aquele estúdio. Já o acho lindo! E, de lá, vamos fazer o programa que vai ser gravado pra TV, vai ao vivo na rádio às 19h pelo culturabrasil.com.br, na salinha de TV, com o chat funcionando. E a diferença agora é que vai ser um programa de TV transmitido pela rádio. O que vocês verão na TV depois, vocês terão acompanhado a gravação, inteira! Nos momentos de intervalo, o pessoal vai ouvir isso pela rádio, mas estaremos no intervalo da TV. Vai ser meio que acompanhar os bastidores de uma gravação de televisão. O nome do programa é “Bastidores Cultura Livre” quase [brincando]. As pessoas vão participar pelo chat, vão mandar as perguntas e fazer tudo como sempre fazem, mas é um programa de TV, transmitido pela rádio. Cristina – Não te dá medo? Você vai ter um público diferente às 7 da noite... Você já parou pra pensar nisso? Roberta – Já! Vamos ter que quase começar do zero, eu acho... Vamos ter que criar de novo uma fidelidade... Cristina – Criar um público, né? Porque é aquilo que a gente já sabe, Rô... as pessoas entram no chat da rádio meio em função dos apresentadores que estão ali... A gente [falando de mim e do Sérgio] entra às 11h e sai ás 15h. Roberta – A turma do funil! [Gargalhadas! E um nítido som da Roberta esfregando as mãos!] Sérgio – É um horário meio nobre, né? 19h... Não é depois do Hino Nacional? [Risos]. Roberta – Então, às 19h... A gente estava pensando nisso... teremos que fazer uma super divulgação NO DIA. Tipo, “hoje tem (...)”. Acho que vai ter gente nova, sim... Mas, sei lá, estou com um super frio na barriga! Vai ser tudo novo! Fazer rádio podendo ficar de pé, né? Fazer rádio num estúdio de TV. Eu não quero me esquecer do rádio, eu vou continuar falando com o rádio...

SÃO 4 ANOS DE CULTURA LIVRE!

ROBERTA MARTINELLI POR SERENA ASSUMPÇÃO

Roberta tem cara de artista norte-­americana, mas é a rainha do balacobaco chique e da baianapaulistanidade com as portas do coração escancaradas ao Brasil musi-­ cal de qualidade e excelên-­ cia. Me declaro fã, saravá!

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O PILOTO Cristina – Como foi o piloto? O que vocês viram de coisas novas e adaptações? Qual foi a maior dificuldade? O que superou as expectativas? Roberta – O primeiro piloto não foi transmitido, né? E o cenário não estava pronto... Mas, como é um estúdio de TV, o programa já sai cortado, tem algumas facilidades. Ele é gravado, mas é “valendo”, não para. Se eu errar, errei. Só vai parar quando acabar o programa. É gravado ao vivo, o programa já sai cortado. A equipe toda fica no caminhão do lado de fora, eu não os vejo mais. O Diretor fala comigo no meu ouvido... e daqui [no estúdio onde estávamos, da temporada passada] eu conseguia vê-­lo de alguma maneira. Lá, eu não o vejo mais, ele está no meu ouvido. Eu acho isso a maior aventura de fazer TV, que é você estar cheia de coisas pra fazer... Aqui eu operava o rádio, com o Diretor no ponto, os câmeras aqui [apontando], pensando pra onde olhar, no que eu estou perguntando, no chat... ou seja, você está completamente louca e tem que fingir equilíbrio! [Risos]. Né? Porque a vontade é falar “Gente, tem alguém no meu ouvido falando!”. Cristina – Eu ouço vozes!!! [Gargalhadas]

ROBERTA MARTINELLI POR METÁ METÁ

Desejamos para a Roberta muito AXÉ na nova jornada! Roberta, querida, você é a síntese perfeita da apresen-­ tadora dos novos tempos! Inteligentíssima, descolada, linda, elegante e conectada a tudo que é interessante, independente, livre! Vida longa pra ti e para seu pro-­ grama pra lá de necessário! AXÉ AXÉ AXÉ!

Roberta – O bom é que eu ouço vozes desde pequena! Brincadeira!!! [Gargalhadas]. Aí, o povo fica no chat “Roberta não leu minha pergunta! Roberta não leu minha pergunta! Roberta não leu minha pergunta!”. Grrrrrr... Genteeeeee, eu tenho uma pessoa no meu ouvido!!!! Tem uma câmera!!! Tem um convidado!!! Calma! Vai dar tempo! É função meio “polvo”, né? Eles brincam comigo... Quando o [Marcelo] Camelo veio aqui, ele ficou mini assustado, mas eu fico com o colo vermelho durante o programa... eu acho que é isso, é muito múltipla atenção, você está ligada [suspira!] em 60 coisas... POLVO! Você está com uma mão em cada lugar, e vai dar tudo certo! Ou não também, né? Aí é que fica meio engraçado também. 21


ROBERTA MARTINELLI POR MARCIA CASTRO

Um jeito espontâneo, leve e alegre. Beta é generosida-­ de… com a vida, com a música, com os que estão na luta pra deixar um rastro digno de arte no mundo. Beta é esse compromisso de sorriso largo!

Cristina – Eu acho que isso tudo vira automático em algum momento, né? Eu encontrei a Lau [Laura Mayumi, também locutora da Rádio Cultura Brasil] no sábado passado, no show do Gork e a gente estava comentando sobre o dia em que fizemos a entrevis-­ ta com você. Você percebeu que você não a deixava apertar os botões da mesa? [Gargalhadas] Sérgio – Foi meio Jô Soares. Ela fez a entrevista e você não a deixou falar. Cristina – Foi engraçado! A Lau me contando: “Chegou uma hora que ela [Roberta] lia as perguntas do chat e ela mesma respondia”! [Gargalhadas] Roberta – Ali foi meio difícil... Estando ali, eu entendi várias pessoas, né? Tem convi-­ dados que estão aqui e, de repente [imitando o convidado olhando para o computa-­ dor, como se estivesse lendo o chat], “O que ele está falando?”. Você fica olhando o chat e não dá! Ou você responde ou você olha o chat. Se não você fica louca!

ROBERTA MARTINELLI POR BNEGÃO

A Roberta é uma das figuras-­chave para se enten-­ der a cena atual da moderna música brasileira. Vendo (e ouvindo!) os programas que ela faz, é possível ter um belo panorama com o que de melhor tem sido produzido nessa área, aqui no nosso país. E isso, definitivamente, não é pouca coisa.

Cristina – E a gente, como ouvinte e sabendo que rolam aquelas conversas paralelas no meio do chat, imagino como você vê isso! Roberta – Nossa! Total! Aí, você está lendo e acaba a música! [Gargalhadas]. Eu me lembro de um dia que tinha convidado, era o Tibério [Azul], e o Mini [Paulo Henrique Mini, nosso mini amigo do chat... rs] postou a foto do macarrão!!! No meio da entrevista! [Gargalhadas]

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INTERAÇÃO

COM O

PÚBLICO

Roberta – Tipo, dá vontade de rir muito! Tinha uma plaquinha escrito “Macarrão!”... Né? Porque é um assunto que está rolando desde as 11h... Aí, você já esqueceu e está super concentrada. De repente, vem um macarrão! Não tem como não falar que é muito engraçado! Cristina – E eu ainda acho que ele colocou uma plaquinha em cima com os nossos nomes, o meu e o seu! Roberta – Colocou! Ai, Mini... [Risos]. Mas é isso, né? Uma loucura. Lá [no estúdio novo] eu fico muito mais tensa porque não é o meu habitat natural. Ainda, né? Então, tem esse período de adaptação e a gente fez esse primeiro piloto e vai rolar agora o segundo piloto. O segundo piloto vai ser com o Pélico, mas já vai ser transmitido pela rádio. Não vai pra TV, mas vai ser transmitido pelo rádio, entendeu? Então já é valendo! Ah, é diferente... a mesa é nova, como eu sento. Até eu me adaptar, deve demorar um pouco. Sérgio – Lá não vai ter essa bancada na sua frente... Roberta – Não, não vou ter essa proteção. Tipo, eu não posso mais usar saia... Cristina – Porque você se senta que nem moleque... [Risos]. Mas você vai ter um notebook ou algo como um tablet? Roberta – Não sei ainda... Enfim... agora é só ansiedade! Tipo, chega logo! Cristina – E você já sabe quem vai ser o convidado? Roberta – Estamos fechando ainda, mas acho que sim... Tulipa. Com a banda toda. Cristina – Ah, que máximo! Roberta – Porque ela fez o primeiro piloto que não foi ao ar e NUNCA mais fez. Só no Especial de Fim de Ano. Ela veio no rádio, veio no piloto e, depois, não conseguimos mais achar data. E, agora, acho que ela estreia. Ela disse que por ela tudo bem, mas ela ainda está fechando com os músicos. Eu fico meio pensando que, se for a Tulipa mesmo, eu vou super pedir pra ela começar com uma música, que é muito o senti-­ mento do momento... “Tudo pra ser /Aquilo tudo que todo mundo espera” [“OK”, do segundo disco “Tudo Tanto”]. É essa sensação de começar uma coisa nova, né? Cristina – E todo ano, né? O formato foi diferente em todas as estreias [das tempora-­ das na TV]. E pra onde você acha que vai o Cultura Livre? Roberta – Isso eu acho legal do Cultura Livre... Cada temporada... E tem gente que acha que isso é ruim... Mas estamos aqui pra experimentar também, né? A gente fez a primeira. Foi legal? Foi super legal! Eu assisto e ainda a acho bonita. Juro! Com todas as precariedades dela, eu a acho fofa, com aquela parede suja atrás... acho lindo! Eu acho a segunda um programa super fino, acho legal... E, agora, a terceira vai ser diferente mais uma vez! Me dá uma sensação de que estamos indo, sabe?

ROBERTA MARTINELLI POR PATRICIA PALUMBO

Roberta é a esperança de que ainda pode haver vida inteligente no rádio. Inteli-­ gente, bonita, antenada e com vontade de fazer alguma coisa que valha a pena. O nosso universo paralelo celebra o Cultura Livre e qualquer outro tra-­ balho que ela invente fazer. Sou fã.

Cristina – É inovador, né? Se você parar pra pensar o que temos nessa cena de música autoral e independente... o que tem de concreto aí? Onde essas pessoas estão aparecendo? São poucos os lugares... Tem você, tem a Pat Palumbo [do Vozes do Brasil]... Roberta – Que é uma mestra, né? A Palumbo... 23


Roberta – Tem alguns que vão no Altas Horas [TV Globo], mas acho que teriam que ir em todos os programas, sei lá... Mas ainda assim acho diferente. Acho que a Pat e o Cultura Livre têm uma preocupação com a música e com eles. Pra mim, é muito mais importante o som estar bom do que estar tudo bonito. No fim de ano: “Tim [Bernardes, d’O Terno], você está gostando do som? Meninos, o som está bom? Tá tudo ok? Se não estiver, a gente pode ficar aqui o dia inteiro...”. E é legal você parar um pouco... fazer um ano de programa e reavaliar o que será feito no próximo ano. A gente brinca que é o período de tomar café toda hora. “Faz isso?”, “Não!”... Mais café! “E isso?”. E é louco, né? Demora um pouco pras ideias aparecerem. E não fizemos nenhum ainda... ele ainda não existe... quer dizer, ele existe um pouco na cabeça do Diretor. O Ricardo fala: “Eu já vejo o Cultura Livre”. Eu IMAGINO o Cultura Livre! Eu acho que eu sei o que vai ser, mas também ainda não sei. Esse período é uma delícia... também pra repensar o que seria legal ou não. A TV Cultura é uma TV pública e é um espaço de experimenta-­ ção. Alguém falou outro dia aqui, algum chefe: “Roberta, você não vai pra [TV] Globo, né?”. “Você acha que na Globo vão me deixar fazer o que eu faço aqui? Só vocês deixam!”. Cristina – O Cultura Livre indo pra TV foi um presente? Eu imagino que você deva sentir isso... e deve dar aquela sensação de satisfação plena... Roberta – O Cultura Livre é tipo um filho pelo qual eu luto MUITO! Como eu nunca lutei por nada, sabe? Cristina – É uma pena que seja em uma rádio AM, que não existam números pra quantificar isso. A gente vê que, durante os hangouts no Cultura Livre, isso deve ir pra página do Google, e as pessoas que entram não sabem nem que isso existe!

ROBERTA MARTINELLI POR

LAURA MAYUMI

Foi ela quem me ensinou a mexer nos botões da mesa de som quando cheguei na rádio. E com o tempo, foi me-­ xendo também com os botões das minhas ideias e emoções. Uma guerreira incansável na missão de espalhar música boa pelo mundo! Roberta Martinelli é Cultura Livre, é alegria de viver, é presença total de corpo e espírito.

Roberta – Total! Quando foi pra TV, mais pessoas passaram a conhecer. Mas eu acho ainda que o Cultura Livre, nesse sentido, acaba fazendo um paralelo com o trabalho da música hoje. Que é esse trabalho de formiguinha mesmo... Toda dia uma conquista, uma coisinha que a gente resolve, um lugar em que a gente toca, aí consegue mais um pouquinho, mais um pouquinho, mas um pouquinho... Cristina – E, indo pra TV, você acaba trazendo um público pra rádio também... Roberta – Então, trouxe bastante gente. Aí você vê seu trabalho na rádio AM... eu lutei muito aqui! Eu acreditava nessa música... É a música de hoje! Tem que ter! E foi pra TV! No começo, éramos eu e uma produtora. Aqui na rádio, hoje, somos eu e o Juan [Gutierres, assistente]. E, de repente, você tem uma equipe inteira. Eu tenho um Diretor, o Ricardo [Sêco], que pensa nisso o dia inteiro. Tem a Thati que é a produtora do programa, e tem estagiários na TV. Tem o Ivo Madruga, que é o assistente. Tem o cenógrafo, tem um cara pintando, tem gente colocando o tapete, tem editora, tem roteirista, maquiagem... Uau! 7 pessoas! [Risos]. Cristina – Foi você quem propôs ou alguém fez a proposta pra você? Roberta – Não, foi o pessoal da TV que fez a proposta pra mim.

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UM RÉVEILLON INESQUECÍVEL Cristina – Porque é genial você pensar que um programa de rádio, depois de 3 anos, vira um especial de fim de ano na TV com toda a infraestrutura que você teve. Teatro, plateia, banda base, 17 convidados! Roberta – Ensaiando em estúdio... Sérgio – Efeitos visuais... Roberta – Explosivos de confete... Cristina – Várias câmeras... Roberta – Não dá pra acreditar, né? Quando acabou, eu estava totalmente esgotada! Cristina – Eu acho que a melhor foto que representa o que foi aquele dia foi uma fotos tirada de vocês 4 no chão, deitados, com as cabeça juntas [Roberta e os 3 integrantes d’O Terno: Tim Bernardes, Victor Chaves, Guilherme d’Almeida]. Roberta – Aquela e a do [Sérgio] Galvão também, dos confetes. É o momento em que você pensa que todo o esforço vale a pena. Cristina – Rô, você já se ligou que você se tornou referência de música independente, dessa cena? Referência, curadora. Qual é a tua visão disso? Roberta – Ai, eu não acho que eu seja. Eu acho... ah, eu não sei o que eu acho! Eu fico muito feliz e estava pensando nisso ontem... Às vezes, eu fico no carro falando sozinha e fico pen-­ sando o texto que eu vou falar, no dia do piloto... Fico pensando um pouco na Tulipa... Quando ela veio aqui pela primeira vez e ainda não tinha disco gravado, e onde ela está hoje, sabe? E, obviamente isso não quer dizer nada... Ela é que é a foda, enten-­ deu? Mas você pensa em três anos o que aconteceu com ela, entendeu? O Cultura Livre também cresceu nesses três ano e tem seu valor. Tem um caminho e essas pessoas estarem aqui em algum momento é muito importante e muito bonito. Ver onde ela está hoje. Ver o Jeneci hoje. Ver todo mundo, né? Karina... E saber que todos eles já passaram por aqui em algum momento... sabendo as condições, às vezes só com violão. Então eu acho que o Cultura Livre, no final das contas... eu fiquei pensando outro dia, quantas entrevistas será que já foram? Quantas pessoas já vieram aqui? É muita gente, né? 25


Cristina – Ah, mas você tem seus roteiros numerados... Em que número que está? Roberta – Fez mil no ano passado, né? Deve estar no mil e sessenta. Cristina – E em entrevistas, deve ter umas 400...? Sérgio – Essa pergunta que a Cris fez em relação a você ser referência, deve ter muita gente que aparece e fala: “Olha aqui meu CD, me dá uma força!”. Isso não aumen-­ tou mais? Roberta – Aumentou... muito! Aumenta a quantidade de CDs, a quantidades de pessoas que falam comigo... E é meio maluco, né? Porque é a arte de uma pessoa. Tipo, o cara faz esse som e é muito disco, né? Às vezes, não dá pra ouvir tudo... E também, por você estar na televisão, as pessoas acham que você pode salvar o mundo e não é bem por aí. Está bem longe disso. E não é por aí. Eu poderia salvar o mundo se eu fosse palhaça... Assim, eu não sei se eu vou conseguir muito! [Risos]. Outro dia mesmo eu fiquei brincando que tem gente que pede tudo por e-­mail, por mensagem, desde dicas de separa-­ ção... Eu falei com a Laura esses dias... Aconteceu algo muito peculiar... Eu sempre respondo tudo que me mandam, mas aumentou muito a quantidade... e, às vezes, no facebook, passa... E tem muita coisa que eu não estou respondendo mais porque eu esqueço... Vejo no celular e não dá pra responder na hora e depois não vejo mais, entendeu? Tem muita gente que me parabe-­ niza pelo meu trabalho, eu agradeço e a pessoa me pede pra ouvir o som dela... Ok, vou escutar... E a pessoa começa: “Você já escutou? Você já escutou? Você já escutou? Você já escutou?”. Calma! E, outro dia, aconteceu uma coisa que me deixou triste. Um rapaz queria que eu visse umas ilustrações dele, eu vi a men-­ sagem no celular e passou, acabei não respondendo.

E descobri que ele fazia aula de palhaço comigo. Nossa, pedi milhões de desculpas por não ter respondido e decidi que eu sempre responderia tudo o que eu rece-­ besse, tudo mesmo! Que eu não ia deixar nada passar! Mas, no mesmo dia, chegou uma mensagem dizendo: “Oi, Roberta. Eu sei que você não tem nada a ver com isso, mas eu estou me separando da minha mulher. Você pode me dar uma ajuda?”. Tipo “OI???”. Aí, eu entendi isso como um sinal, que eu não preciso responder tudo o que eu recebo. Que eu posso responder só algumas coisas! E eu acho que a TV tem um pouco disso, né? As pessoas pensam que, por você estar lá, que você pode alguma coisa. Tem gente que pede cadeira de rodas. Ah, gente... é o Luciano Huck, não sou eu! Eu estou lá pra falar de música... cadeira de rodas eu não tenho... E ser referência, sei lá... tem tanta gente, né?!

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A FELICIDADE É O SUCESSO Cristina – Houve um convite do Multishow? Como rolou? Roberta – Ah, no ano passado, teve duas coisas que eu gostei muito de fazer, inclusive participar do Superjúri do Prêmio Multishow, que foi super legal... Super! E ser da comissão de especialistas da Natura pra escolher o pessoal desse ano. Cristina – Ah, do Natura Musical? Roberta – É... foi a segunda vez que eu faltei na vida aqui [na rádio]... Essas duas foram as coisas mais legais que me sur-­ preenderam, das quais eu fiquei orgulhosa... ainda mais porque eu estava acompanhada de muita gente legal. Aí, quando você vê quem está do seu lado, que são pessoas que você admira de alguma maneira. Na Natura, foram três pessoas: eu, o Lauro Lisboa e o Jarmeson [de Lima]... Dois caras que eu acho incríveis e, sim, referências. E no Superjúri, quem me con-­ vidou pra participar foi o Alexandre Matias, do Trabalho Sujo, e era composto por mim, Kátia Lessa, Pablo [Miyazawa] da Rolling Stone, Pedro Seiler do Queremos, [Carlos] Miranda... A gente foi de avião juntos e eu morro de medo e ele falou pra eu ficar tranquila porque avião não cai com ele. E toda vez que eu viajo, eu penso: “Por que ele não está aqui comigo?”. 27


Roberta – E foi ótimo, mas eu acho essas coisas difíceis. Eu sempre fui meio contra e, de repente, estou lá fazendo: esco-­ lher uma pessoa. Como é que se escolhe o melhor show? Cristina – Como é que você julga, né? Roberta – É. Como julgar de quem é o melhor disco? Qual é a melhor música? O melhor não sei o que lá. São tantas coisas boas, e tantas coisas diferentes... Cristina – Porque você geralmente chega com uma visão... É o que eu geralmente falo, e eu queria saber a sua opinião... A gente vive numa bolha fora da mídia, essa cena em que a gente está inserida todos os dias... Por exemplo, meu pai não conhece esses artistas... Roberta – Mas eu não sei se isso é culpa da mídia... Esses artistas saem na Folha [de S.Paulo] todo dia. Não sei o que acon-­ tece também... Eu fico brincando que, quando o meu irmão conhecer, realmente é porque está muito popular! Ele não conhece ninguém ainda... 28


Cristina – E a relação entre seu irmão e a nova geração da música? Roberta – Ah, a gente convive pouco, né? Mas eu fico perguntando: “Gui, você já ouviu fulano?”. Eu acho que ele nunca me ouviu... [Risos]. É difícil, né? A gente vive numa fase de transformação agora... Não existe gravadora. As pessoas estão inventando um novo jeito de fazer música, de trabalhar, de divulgar, um novo jeito em tudo. Cristina – Que é justamente a matéria do Ronaldo na Galileu... Eu estava relendo ontem... Os artistas estão descobrindo os meios, estão criando. Não existe um formato pronto, não existe uma fórmula de sucesso porque a questão das gravado-­ ras já passou. Mas é muito interessante conversar com o Filipe [Catto] sobre isso, já que ele está na Universal [Music]... Roberta – É, eu acho que cada um deles está inventando uma maneira, entende? E o que vai ser e o que vai rolar, a gente não sabe, mas existem mil maneiras de se fazer música hoje e isso é o lado incrível, né? Tipo, o que o Laboratório Fantas-­ ma fez, o Fióti e o Emicida, é um exemplo de algo muito bem-­sucedido. Eles vendem muito! Foi um jeito que eles criaram e que funcionou muito. Pra eles. Talvez não funcionasse pro Filipe. Tem que se inventar maneiras de se lançar, maneira de as pessoas quererem você... Se o artista libera pra download, como é que ele ganha dinheiro? Até o Nando Reis já está se reinventando, né? Fazendo aquele leilão lá no site dele... Não sei se vai funcionar ou não, você vai lá e fala quanto você acha que vale o disco, vai dando uma média e vai ficando esse preço. Cada dia é um preço. Então, eu acho que esse é um sintoma, né? Se o Nando Reis já está sem gravadora. Sei lá, a gente está numa fase “o nosso amor a gente inventa”. Cada um faz de um jeito e tem exemplos super bem-­sucedidos, né? A Natura que ajuda bastante. A Oi ajuda também... A Bárba-­ ra [Eugênia] vai lançar agora. Acho que o Wado também. E tem essas mil maneiras, mas é difícil porque artista é igual a pedreiro, mesmo! Cristina – Faz tudo, né? Roberta – Faz tudo, mas acho que a música soube fazer isso melhor, está entendendo melhor como fazer isso...

ROBERTA MARTINELLI POR

Robertinha é uma lindeza! Me surpreendeu com seu humor fino e inteligência quando fui ao pro-­ grama. Dá para ver o caminho lindo aberto a sua frente.

UM NOVO JEITO DE FAZER TUDO

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Cristina – Sem a gravadora... Fora de um contexto que todo mundo conhecia, que funcionava... mas que, por outro lado, todo mundo ficava “amarrado”. Porque talvez o Nando Reis fazendo trabalhos independentes seja justamente isso, talvez ele queira ter liberdade pra fazer coisas que ele não conseguiria fazer dentro de uma gravadora... Roberta – E o termo “independente” é muito engraçado, né? Alguém já falou isso e eu super concordo. Agora é que eles são dependentes... dependentes dos amigos, dependentes de um monte de coisas. É uma dependência absoluta! Cristina – É dependente de bilheteria... Roberta – Nossa! Cristina – Mas é uma revisão de conceitos mesmo... Conceito de independente, conceito de música livre, conceito de vendas. Hoje em dia, vende-­se pelo iTunes, que eu acho genial, mas, ao mesmo tempo, você disponibiliza pra download. Pelo menos no círculo em que eu vivo, a gente vê isso... As pessoas baixam, gostam, e compram o disco. E tem sido um papo recorrente com as pessoas desse meio a questão de o público querer o disco físico. Eu mesma nunca consumi tanto CD na minha vida. Eu gosto de ver o encarte, de ver a arte, de pensar quanto tempo foi despendido naquilo, de valorizar. Roberta – As pessoas lançando em vinil, isso é ainda maior. Cristina – Nossa, o vinil então virou quase um fetiche. As pessoas agora querem o vinil, cobram o vinil dos artistas. Eu queria muito o CD do Bruno, que está esgotado e que, a princípio, ele não vai mandar prensar de novo. Só tem no exterior agora e aqui ele só está fazendo em vinil... O vinil e os compactos que ele tem... Roberta – Ah, Cris, se você quiser eu vendo... quanto você paga?

ROBERTA MARTINELLI POR

A Roberta é uma pessoa incrível, que admiro muito. Chama a aten-­ ção por sua beleza e carisma e se destaca na sua profissão. Além de tudo, consegue ser ela mesma, tanto na rádio quanto na TV. É espontânea, divertida, cria-­ tiva e encanta a todos os ouvintes da Rádio Cultura Brasil com sua voz charmosa e marcante.

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ESTAMOS APRENDENDO

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ROBERTA MARTINELLI POR Roberta tem sido uma catali-­ sadora de coisas legais acontecendo Brasil afora já há um tempo. Em tempos de abundância internética, ela nos traz o fundamental: cura-­ doria.

Roberta – Eu acho que o formato está super redondinho! No começo, eu estava morrendo de medo de fazer TV transmitindo pelo rádio (o oposto do que eu fazia), mas está uma delícia. O estúdio é maior com condições melhores e eu acho muito mágico gravar um programa de TV, com trans-­ missão da gravação e possibilidade de interação e só depois vai para TV. Estou amando!! Cristina – Às vésperas de completar 4 anos de Cultura Livre, o que te vem à mente quanto ao papel que o programa e vocês ocupam hoje na cena musical brasileira? Roberta – Nossa! Nessa época eu fico bem emocionada constantemente. É época de rever os pro-­ gramas desde o começo, ver como tudo mudou, como todas as pessoas que passaram por aqui cresceram e como a música brasileira é da maior importância. Cultura Livre é um programa que traz a música brasileira que acontece hoje. Escuto muita gente dizendo que hoje na TV não tem mais programa de música, que antigamente tinha [Gilberto] Gil, Caetano [Veloso], etc. na televi-­ são e acho que as pessoas esquecem que na nossa época tem Juçara Marçal, tem Rodrigo Campos, tem Anelis [Assumpção] nas redes todas e que a televisão não tem o papel que já teve... Tem um papel importante, mas não é mais a rainha do reino, temos muitas outras mídias! E, por isso, fazer TV, rádio e internet e mais e mais e mais. Assopro a velinha de 4 anos desejando muitos mais! Cristina – Conta um pouquinho sobre os programas dessa temporada... aquele mais legal, o mais engraçado, aquele surpreendente, etc. Roberta – Ahhhhhhh, tem muita história pra contar! Não dá! Cada um com seu charme... Cristina – Já há planos para a próxima temporada? [Risos]. Roberta – Planos eu tenho para a vida toda, mas vou viver um dia por vez, vai ser mais gostoso!

ROBERTA MARTINELLI POR

Roberta Martineli é a embaixadora classe A das novas músicas brasileiras.

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FOTOS DO INSTAGRAM DA ROBERTA: @ROBERTA_MARTINELLI

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FIM OU INÍCIO Bom, gente, preciso fazer um desabafo: como é difícil escrever sobre amigos queridos e talentosos! Sou uma pessoa super crítica e exigente. Com os outros e mais ainda comigo mesma! É um desafio pessoal fazer essa mini-­prosa. E o desafio só aumenta. Não é porque é minha amiga ou porque é uma profissional extremamente talentosa e bem-­sucedida no que faz, mas, às vezes, é difícil que as minhas poucas palavras sejam suficientes para descrever o papel que a Roberta tem, teve ou terá na minha vida. Eu a conheci, ou melhor, soube da sua existência e do Cultura Livre, em um dia que o André Abujamra foi à rádio. Voltei logo depois para acompanhar outra entrevista. E depois e depois e depois. Sabe vício? Então... Já são anos de convivência quase diária, muitas risadas, muitas piadas internas, muitos desabafos e muito querer bem. De alguma forma, eu queria presenteá-­la com esta revista. E acabei entrando em contato com muitos amigos e artistas para que dessem seus depoimentos sobre ela. Pedi para que todos mantivessem segredo sobre isso. O resultado vocês podem ver ao longo das páginas dessa mini-­prosa. Eu ainda diria que o pre-­ sente é também um agradecimento pelo serviço inestimável prestado ao longo de 4 anos do que considero ser um dos programas mais importantes e inovadores para a boa música brasileira atual. Roberta abre portas e janelas ao novo, contribuindo, assim, para o estabelecimento definitivo desses artistas indepen-­ dentes e seus trabalhos autorais. Roberta Martinelli por mim: Roberta é guerreira, dorme e acorda pensando no Cultura Livre. Luta com suas armas, simpatia e talento. É inovadora, curadora, atenta às mais diversas manifestações artísticas. É palha-­ ça, é sensível e forte ao mesmo tempo. Emociona-­se facilmente. Abraça os amigos e, mais ainda, abraça as ideias. Morre de medo de avião! Mas encara o medo da mudança com serenidade. É incrivelmente linda e seu enorme sorriso contagia e conquista a todos. Não gosta de batom. Adora uma fantasia e descobriu que pintar os dentes em uma festa junina é o máximo. “Gente certa é gente aberta / Se o amor chamar / Eu vou” (Erasmo Carlos). Roberta Martinelli por Sérgio Galvão: Roberta Martinelli é a garota que tem os melhores amigos. Como é bom ser contemporâneo dela. “O microfone, meu megafone, tome emprestado um pouco da minha ener-­ gia, tem sobrando pra todos os lados” (BNegão). Cristina Chehab e Sérgio Galvão

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REALIZAÇÃO

www.amusicoteca.com.br

ROTEIRO E EDIÇÃO Cristina Chehab ARTE Web Mota FOTOGRAFIA Sérgio Galvão | Facebook | Flickr

CRÉDITOS

SITE DO CULTURA LIVRE | FACEBOOK DO CULTURA LIVRE | TWITTER DO @CULTURA_LIVRE PARA OUVIR, VER E PARTICIPAR DO CULTURA LIVRE AGRADECIMENTOS: Roberta Martinelli, Sérgio Galvão, Alexandre Matias, Arícia Mess, Bárbara Eugênia, Blubell, BNegão, Felipe Cordeiro, Filipe Catto, João Erbetta, Juan Gutierres, Kika, Laura Mayumi, Letuce, Loco Sosa, Marcelo Perdido, Marcia Castro, Metá Metá, Nina Cavalcanti, Os Mulheres Negras, Patricia Palumbo, Pedro Granato, Pélico, Peri Pane, Pipo Pegoraro, Rafael Castro, Ramiro Zwetsch, Rodrigo Campos, Serena Assumpção, Tatá Aeroplano, Tim Bernardes e Victor Chaves.

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Mini-Prosa musicoteca Roberta Martinelli  

Entrevista completa com Roberta Martinelli. Apresentadora de TV e rádio. Um bate-papo especial para comemorar os 4 anos do Cultura Livre. Ex...

Mini-Prosa musicoteca Roberta Martinelli  

Entrevista completa com Roberta Martinelli. Apresentadora de TV e rádio. Um bate-papo especial para comemorar os 4 anos do Cultura Livre. Ex...

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